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Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Medicina da USP mostra como a poluição influencia

no risco de aterosclerose, mesmo quando é adotada uma dieta com baixo teor de gordura

 

Ar  afeta coração  e cérebro

 

Se você é predisposto à aterosclerose, perigosa inflamação que ataca os vasos sanguíneos e pode evoluir para graves problemas como acidente vascular cerebral (AVC)ou infarto, é melhor ficar atento a um novo vilão que está à solta. E o pior presente no ar. Emitida principalmente pelos motores de carros, motocicletas, caminhões e demais veículos cada vez mais presentes nas ruas dos grandes centros brasileiros, a poluição oriunda de material particulado pode levar à aceleração da doença e uma inflamação geral no corpo, atacando de órgãos específicos ao coração. O alerta vem da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).Resultados preliminares de uma pesquisa financiada pelo estado de São Paulo indicam que a exposição à poluição atmosférica durante a gestação e logo depois do nascimento pode aumentar o risco de surgimento de aterosclerose, mesmo em quem adota uma dieta saudável e com baixos teores de gordura no organismo.

Simulando o cotidiano de um cidadão que vive ou trabalha na região central de São Paulo, o estudo usou como base oito grupos de camundongos geneticamente modificados para desenvolver a doença, que atinge os vasos sanguíneos. As experiências foram feitas no jardim da faculdade, que funciona em uma avenida da região central da capital paulista, local de grande fluxo de ônibus do transporte coletivo urbano.

Nos primeiros testes, os animais foram submetidos ao ar filtrado incubados em câmaras, ao passo que as demais cobaias ficaram expostas ao ar ambiente. “O equipamento inspira o ar da rua, consegue concentrar a quantidade de partículas e, a partir daí. expomos os camundongos uma ou duas horas por dia, dependendo da dose de partículas. A dose equivale ao que uma pessoa está exposta na cidade de São Paulo 24 horas por dia”, explica a pesquisadora e bióloga Mariana Matera Veras, responsável pela pesquisa e membro do Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental (Inaira) – um dos institutos nacionais de ciência e tecnologia crNCTS)financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e tecnológico (çN,Pq). Concluído o experimento, os animais passaram por um exame de ultrassom que avaliou o tamanho da placa de gordura formada no interior dos vasos sanguíneos.

Os resultados foram reveladores. Enquanto nos camundongos que receberam dieta rica em gordura o efeito da poluição foi menos importante e ofuscado pela alimentação, os animais com dieta balanceada expostos à poluição e em fase de gestação apresentaram placa aterosclerótica três vezes maior que a observada no grupo de controle. Nos animais expostos à poluição somente ao nascimento, a placa foi sete vezes maior. Somadas à exposição gestacional e à fase pós-natal. o desenvolvimento da doença foi ainda maior: o aumento foi de 13 vezes. “A literatura científica vem revelando há cerca de 20 anos que a exposição das pessoas à poluição nas grandes cidades está aliada ao aumento de risco de problemas cardíacos e respiratórios. Por meio da pesquisa, conseguimos medir as consequências dessa poluição tendo como base não uma pessoa que trabalha no trânsito, ou seja, extremamente exposta, mas um cidadão normal. que sai de casa para o trabalho”, afirma Mariana Veras.

Os resultados preliminares foram revelados durante o 31º Simpósio Anual da Society of’Toxícologíc Pathology ocorndo em junho, em Boston, nos Estados Unidos. Agora, Mariana e a equipe do Inaira avaliam como a quantidade de gordura circulante J?o sangue dos animais, marcadores inflamatórios e a expressão dos genes associados à formação da placa aterosclerótica interferem na progressão da doença.

EFEITOS NO HOMEM

O desejo dos pesquisadores é saber se existem outros mecanismos envolvidos. Uma vez inalado, explica Mariana, o material particulado – que inclui substâncias pesadas como  alumínio, chumbo, enxofre e sódio – pode apresentar dois tipos de efeito no corpo humano. O . primeiro é ser absorvido pelas células do pulmão, provocando um processo inflamatório. A outra consequência vai bem mais além: as substâncias podem atravessar a barreira de células, entrar na corrente sanguínea e provocar uma inflamação geral no corpo, com grandes chances de atingir órgãos específicos como coração e cérebro. “Por serem muito pequenas, essas partículas não são barradas pelas vias aéreas superiores, alcançando as regiões mais profundas do pulmão, os alvéolos”, diz a pesquisadora.

Paralelamente, outros estudos que têm como foco observar os impactos dos poluentes na gestação ; e no sistema produtivo estão sendo feitos pelo Inaira. “Aliteratura científica mostra que a poluição das grandes cidades está relacionada à prematuridade, • mortalidade neonatal e pós-neonatal, retardo do crescimento intrauterino e baixo peso ao nascer. Além disso, causa alteração da razão sexual. Fazendo com que nasçam mais mulheres do que ho- L mens.” Outro efeito está ligado à fertilidade. “Também houve nas fêmeas uma redução no número de  folículos ovarianos, o que sugere que as gerações seguintes podem sofrer problemas de infertilidade.Nos machos, verificamos alterações na morfologia dos espermatozóides”, conclui a pesquisadora.

 

FUMAÇA DE MOTORES A

DIESEL LEVA AO CANCER

Pessoas em contato prolongado com motores movidos a diesel têm uma razão a mais para se preocupar com a saúde. Indo muito além da máxima de que o cigarro é a principal causa para o aparecimento de câncer de pulmão, a fumaça emitida pelo escape desses motores foi recentemente apontada como cancerígena pela Organização Mundial de Saúde (OMS).Tomando como base caminhoneiros, funcionários ferroviários e trabalhadores de alto risco como mineiros, a pesquisa realizada pela Agência Internacional de

Pesquisas sobre o Câncer (Iarc) concluiu que a poluição gerada pelo material particulado também pode levar a tumores na bexiga. Embora o efeito dos motores no organismo sejam menores que o da fumaça de um cigarro, a exposição prolongada a substâncias presentes no óleo diesel. Como chumbo, enxofre e outros metais pesados, pode agravar o desenvolvimento da doença no pulmão. Combinados ao hábito do cigarro, as chances de desenvolvimento de câncer são ainda maiores. “A princípio, a exposição prolongada à fumaça do diesel é muito semelhante à influência da fumaça de cigarro, só que num efeito muito menor. No entanto, a exposição prolongada a esses tipos de substâncias pode ser crucial na somatória de outros fatores associados à gênese do câncer. Se o motorista inspira óleo diesel todo dia e ainda fuma, as chances de o câncer atacá-lo são ainda maiores”, alerta o oncologista e diretor do Cetus-hospital dia de Betim, na Grande Belo Horizonte,

Charles Pádua. A inalação da fumaça dos motores, explica Pádua, agride continuamente os tecidos que compõem a árvore respiratória do ser humano,levando à mutação das células do organismo. O que, associado ao tabagismo, leva a uma superexposição de fatores de risco. “As células respondem à agressão da fumaça alterando suas formas e funções, tentandose adequar àquele meio nocivo. Além de diminuir a quantidade de muco e cílios que ajudam a expelir substâncias dos nossos pulmões, ocorrem mutações e as células podem migrar para a formação de células malignas. São anos de exposição que podem levar a um ponto em que o organismo simplesmente falhará e perderá a capacidade de eliminar aquela célula incorreta, formando o câncer”, aponta. Desde que o escape do diesel foi reclassificado pelo IARCdo grupo 2A. de provável carcinógeno, para o grupo lA. que inclui substâncias com associação

comprovada à doença, a fumaça se equiparou à mesma categoria que o amianto, o gás mostarda, o gás arsênico, o álcool e o cigarro. A exposição a esses agentes aumenta as chances de desenvolvimento da doença em 40%.

 

Estado de Minas – BH – 06-10-12 – 20 – Ciência

 

epoca

O valor da política local

Na vida prática, um bom prefeito pode ser mais importante que o governador ou o presidente

Na reta final das eleições municipais, não custa repetir aquela verdade que todos sabem, mas nem sempre lembram em tempos de alta polarização política. Não, estas eleições não terão um papel decisivo na escolha do novo presidente da República, no longínquo pleito marcado para outubro de 2014. Não, elas não servirão para julgar a herança deixada por Luiz Inácio Lula da Silva nem permitirão outra avaliação do governo de Fernando Henrique Cardoso. Elas são mais importantes que tudo isso. As eleições municipais são essenciais em todos os países, porque dizem respeito a um momento peculiar do universo político. A cidade é o ponto de encontro da vida pública com a vida privada. É aquele lugar onde as verdades aparecem, as prioridades se demonstram e as competências passam por seu teste definitivo.

Um presidente da República pode esconder suas limitações por trás de uma boa equipe de ministros ou mesmo um bom momento da economia. Um governador é capaz de sobreviver no cargo com respostas genéricas e pouco precisas, desde que tenha um competente discurso político e boas relações com Brasília. Prefeitos, sobretudo nos milhares de municípios de pequeno ou médio porte, estão condenados a vencer ou fracassar por mérito próprio.

Estão próximos demais para se esconder, transferir responsabilidades, omitir-se ou deixar problemas graves para amanhã. Um prefeito deve respostas práticas para problemas concretos.

Desde o final do século passado, mais da metade da população mundial deixou o campo para morar em cidades. No Brasil, esse número já passou dos 70%. Isso quer dizer que, no próximo domingo, quando 100 milhões de eleitores tomarem o caminho das urnas, tomarão uma decisão crucial para sua vida e sua família. É na cidade que se encontra, ou não, uma boa escola pública. É ali que uma família pode obter, ou não, ajuda num hospital ou posto de saúde. É possível pensar no oxigênio que respiramos, no trânsito de cada dia, na calçada onde as mães passeiam com seus filhos e a maioria das pessoas espera pelo ônibus para ir ao trabalho. A municipalização não é uma realidade apenas administrativa. Ela rege nossa vida, da maternidade ao cemitério. Há ótimas novidades nas cidades e prefeituras brasileiras, como se pode comprovar pela leitura desta edição especial de ÉPOCA. Cidades muito semelhantes em suas vantagens e defeitos comparativos conseguem oferecer uma vida diferente a seus cidadãos. Em cinco delas, as escolas públicas oferecem um ensino de qualidade surpreendente. Em outros lugares, a maioria da população tem direito a um bom atendimento médico por parte do Estado – ao contrário do que se vê em toda parte. Muitos fatores ajudam a entender por que a vida de algumas cidades ficou melhor, enquanto outras patinaram ou até regrediram. Nem todos os estímulos favoráveis – ou desfavoráveis – obedecem aos impulsos da política. Mas a experiência confirma que um bom prefeito e uma Câmara de Vereadores atuante podem fazer muita diferença.

O Google deve seguir seus princípios

 

O slogan do Google é conhecido de todos: “Don’t be evil” – “Não seja mau': No discurso, tenta transmitir a imagem de uma empresa com valores e princípios éticos superiores às demais. Mais do que gerar lucra, o Google se propõe a tornar todas as informações acessíveis e, com isso, contribuir para uma sociedade melhor. Esse é o discurso.

Na prática, nada é tão simples. Sob o pretexto de “democratizar” a publicação de conteúdo, o You- Tube, site de vídeos do Google, permite a qualquer um publicar qualquer coisa. O resultado é uma sucessão de episódios de violação de direitos autorais ou disseminação de conteúdos ofensivos, que nenhuma empresa de mídia séria publicaria. É o caso do recente vídeo anti-islã, estopim de uma onda de protestos e violência no mundo árabe.

Na semana passada, o YouTube desrespeitou uma ordem da Justiça Eleitoral de Mato Grosso e se recusou a retirar do ar um vídeo com críticas a um candidato a prefeito. Seu principal executivo no Brasil foi detido. Ora, o Google não pode se comportar como se a internet fosse, para a Justiça, uma realidade apenas virtual, sobre a qual não há controle. Como uma empresa de mídia, que veicula conteúdos de todo tipo e fatura bilhões em publicidade, o Google  tem o dever de respeitar todas as leis dos países onde atua.

É lamentável que a internet seja alvo de ataques à liberdade de expressão, em vez de se consolidar como um espaço nobre para o exercício de um direito essencial às sociedades humanas. Para que isso aconteça, porém, uma empresa do porte do Google precisa entender que não existe liberdade sem responsabilidade. Se continuar a ignorar a essência do serviço que presta de mídia – e a resistir à Justiça, o Google também precisará retirar do ar seu slogan.

No meio do caminho do ilustrador Marco Furtado, de 28 anos, tinha um cavalete. “Chuto?”, pensou. A peça ocupava uma calçada inteira do centro de São Caetano, em São Paulo. Ele olhou para os lados, tirou um smartphone do bolso e fotografou. Não só. Agarrou o painel de madeira, OC’-:lpado, ao centro, por um rosto de político com dentes à mostra, e levou para casa. Lá, cobriu o candidato com spray de cor branca. Jogou depois tinta acrílica e desenhou, no lugar da imagem antiga, um zumbi de pele esverdeada. O protesto estava feito.

Até então, a obra fazia parte de um evento entre amigos, o Cavalete Parade. Criado em conjunto com seu colega de agência, o publicitário Victor Britto, de 24 anos, o projeto nasceu com a intenção de pintar e expor cavaletes políticos irregulares. A brincadeira reunia um grupo de 30 conhecidos. Se um deles visse uma peça impedindo a passagem em calçada ou no horário proibido (entre 22 horas e 6 horas), “pegaria emprestado” para testar suas habilidades. Na noite de 29 de agosto, a dupla criou uma página no Facebook para o grupo se comunicar. O sucesso foi inesperado. Três dias depois, havia 500 inscritos. Em seguida, gente influente do mundo virtual, como o apresentador Marcelo Tas ou a atriz Giovanna Antonelli, apoiou a causa. O número de inscritos subiu para 17 mil.

Dessa forma, sem pretensão, Britto e Furtado se tornaram líderes de um movimento nacional. Passaram a organizar, pela internet, versões do Cavalete Parade por 21 cidades, entre elas nove capitais. O protesto foi marcado para acontecer de modo simultâneo na tarde deste sábado, dia 29 de setembro. Para criar uma identidade, a dupla estipulou regras. A primeira era que o artista guardasse uma prova fotográfica de que o cavalete estava irregular. Em segundo lugar, pediram que os nomes e números dos candidatos fossem escondidos, a fim de evitar problemas com políticos. “Somos apartidários, não queremos favorecer ninguém”, diz Britto. Por fim, escolheram, após estudo à distância, os lugares adequados para exibir os cavaletes. Em Salvador, a dupla desistiu de marcar a parada no Farol da Barra, pois ali atrapalharia o movimento dos pedestres. A solução foi transferila à Praça 2 de Julho. O principal, dizem, é valorizar a mobilidade. A idéia dos organizadores é que, depois das exposições, o público possa levar os cavaletes de que gostar. “É uma espécie de galeria de arte gratuita”, afirma Britto. Querem mostrar aos políticos que o público não gosta de cavaletes como propaganda eleitoral.l’É uma mídia que não funciona. “Só traz problemas”, diz Furtado. Nas páginas do site Cavalete Parade há várias queixas sobre peças entupindo bueiros e impedindo o tráfego de cadeirantes. “Unimos arte com indignação”, afirma Furtado. Nas intervenções sobre os caveletes, os artistas buscam o contrário da mensagem política. Os retratos retocados de candidatos dão espaço para traços de influências variadas, do cubismo ao grafite, sem tom ideológico. “Recolhemos uma coisa desagradável e incômoda e a transformamos em um objeto inspirador”, diz a artista plástica Fer Caggiano. Ela montou, com amigos, um espaço dedicado aos cavaletes em seu estúdio em São Paulo. Há quem reprove as manifestações. O advogado eleitoral Marcelo Fontes afirma que cabe apenas à Justiça dizer se o cavalete é irregular. “É perigoso deixar ao cidadão comum dizer o que é certo ou errado”, diz. Fontes afirma que, ao se sentir prejudicada, a população deve acionar a Justiça Eleitoral para multar o candidato responsável se houver algo proibido. Outro meio, diz Fontes, é fazer um levante popular para que haja uma alteração legislativa, pedindo o fim dos cavaletes, assim como ocorreu com o Ficha Limpa. Britto e Furtado caminham nessa direção. Segundo a dupla, depois da exposição, eles seguirão com a causa pela internet. Pela arte.

Uma cidade maravilhosana Ásia

Hong Kong é bela como o Rio e pujante como São Paulo – e acaba de ser eleita a melhor cidade do mundo para viver. É possível imitá-Ia?

Hong Kong é tão maravilhosa que lembra o Rio de Janeiro. Situada na costa sul da China, banhada pelo

Oceano Pacífico, a cidade tem uma geografia linda e difícil, com faixas de terreno plano espremidas entre praias e montanhas arborizadas. Tão distante da Linha do Equador quanto o Caribe, tem clima agradável o ano todo. No verão, a temperatura fica na faixa de 30 graus. No inverno, raramente baixa dos 15 graus. Hong Kong é tão pujante que também lembra São Paulo. É uma metrópole com PIB cerca de 25% superior ao da capital paulista. Com lazer e beleza cariocas e uma riqueza de dar inveja a paulistanos, a cidade chinesa foi escolhida pela revista britânica The Economist a melhor do mundo para viver, em 2012 (leia o quadro na pág. 51). A eleição de Hong Kong sugere que beleza natural e economia pujante são importantes para a qualidade de vida. Isoladamente, porém, nenhum dos dois fatores faz de uma cidade um lugar excepcional para viver. Com perfis que lembram várias características de Hong Kong, as duas capitais brasileiras listadas no ranking saíram-se mal. São Paulo ficou em 362 lugar, e o Rio de Janeiro em 422 lugar. Ambas ficaram atrás de capitais latino-americanas como Buenos Aires, na Argentina (26′ posição), Santiago, no Chile (31′), e Lima, no Peru (35′). Parte da distância que separa Hong Kong das maiores capitais brasileiras no ranking se explica pelo êxito da cidade chinesa na gestão do espaço público e na aplicação de políticas de mobilidade. Hong Kong transformou um aparente problema extremo adensamento urbano – em vantagem. Eis alguns exemplos positivos oferecidos pela melhor cidade do mundo:

GESTAO DO ESPAÇO

Hong Kong tem área 7% menor que o Rio de Janeiro e população 11% maior. Em vez de permitir a ocupação dispersa do território, como faz o Rio, Hong Kong restringe drasticamente a ocupação do solo. Somente um quarto do espaço da ilha é habitado. Como resultado, a densidade demográfica na cidade é das mais altas do mundo. Chega a 44.700 habitantes por quilômetro quadrado, na Ilha de Kowloon. O bairro de Copacabana, no Rio, registra 35.858 habitantes por quilômetro quadrado. Para abrigar uma população crescente, Hong Kong cresce para cima. “O governo não libera a construção em regiões periféricas”, afirma o holandês Stefan AI, professor de planejamento urbano da Universidade de Hong Kong. A cidade tem a maior quantidade de arranha-céus do mundo: 1.224, mais que o dobro de Nova York, nos Estados Unidos, a segunda colocada. Ao restringir a extensão da cidade, Hong Kong não desperdiça recursos com saneamento, eletrificação e pavimentação de áreas distantes. Investe em dar maior eficiência à infraestrutura existente. Graças à grande concentração espacial, tudo em Hong Kong está perto para todos – inclusive o contato com a natureza. A cidade é rodeada por parques e reservas naturais, que correspondem a 38% de sua área total. “Qualquer morador chega à praia ou a um parque em menos de 20 minutos”, afirma AI.

GESTAO DA MOBILIDADE

 

A população de São Paulo é 36% maior que a de Hong Kong. Mas São Paulo tem 6 milhões de carros particulares, ante 435 mil. A explicação está na qualidade do transporte coletivo. A rede de transporte de Hong Kong é usada por 90% da população. A adesão nas capitais brasileiras é de 65%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O transporte público daqui é uma coisa de outro mundo. Os carros não fazem falta”, diz Maurício Alvarenga, empresário de comércio internacional que mora em Hong Kong há 11 anos. Hong Kong tem ônibus pequenos, médios e grandes, trens, metrôs, bondes e balsas. Apesar de intensamente usados, em 12 milhões de jornadas por dia, eles têm conservação impecável. A higiene é obsessão na cidade, que sofreu dois surtos de gripe aviária nos últimos 100 anos. É padrão limpar lugares onde o público encosta as mãos, como botões de elevador, seis vezes ao dia. Além de limpo, o transporte é barato. Uma passagem de bonde ou balsa custa cerca de R$ 0,50. As passagens de metrô variam entre R$ 1 e R$ 5, conforme dia, horário, deslocamento e perfil social do viajante. A cobrança variável é possível graças ao uso de um cartão pré-pago, chamado Octopus. Ele também é aceito como meio de pagamento em supermercados, restaurantes, máquinas de refrigerante e lojas de conveniência. É onipresente nas carteiras dos honcongueses. Mais do que administrar o transporte, o que se faz em Hong Kong é zelar pela mobilidade. Mesmo o hábito de andar a pé é alvo de planejamento e incentivo. Para os dias de calor, há passarelas equipadas com ar-condicionado. Para o pedestre vencer as ladeiras – a topografia é acidentada como em São

Paulo -, há escadas e esteiras rolantes, como num aeroporto. É de Hong Kong a maior escada rolante a céu aberto do mundo, no bairro Soho, perto do centro. A Mid Levels Escalator tem 20 escadas rolantes que somam 800 metros de extensão. Para vencer um desnível de 135 metros, basta ao pedestre subir nas escadas e esperar 20 minutos. De graça e sem esforço.

AMBIENTE DE NEGÓCIOS

 

Além da mobilidade, a cidade privilegia o empreendedorismo. EmHong

Kong, é possível abrir uma empresa em um dia, pela internet. A tributação é simples, e os impostos são baixos pelos padrões internacionais: 16,5% para companhias e 15% para salários. “Minha empresa tem mais de 600 funcionários. Só preciso de cinco contadores”, diz Alvarenga. “Aqui as regras são claras.” Segundo o Banco Mundial, Hong Kong é o segundo melhor lugar para fazer negócios no mundo. O estudo leva em conta diversos fatores, até o tempo para conseguir ligação à rede de energia elétrica ou alvarás de construção civil. A reputação comercial de Hong Kong foi construída com o tempo. No século XIX, ela foi tomada do Império Chinês pelos britânicos, após a Guerra do Ópio (1839-1842). Tornou-se um porto livre. Voltou a fazer parte da China em 1997, com leis e administração independentes. Converteu-se na porta de entrada das empresas ocidentais para o maior mercado do mundo. Para facilitar a entrada de turistas e trabalhadores, Hong Kong tem 122 consulados. Cidadãos de 170 países não precisam de visto para ficar até seis meses. Dos 100 maiores bancos do mundo, 73 têm agência lá. Por comparação, São Paulo tem apenas 17. O aeroporto internacional de Hong Kong é considerado o terceiro melhor do planeta, segundo a consultoria Skytrax. Os aeroportos de Rio de Janeiro e São Paulo nem sequer figuram entre os 100 melhores. De acordo com o Departamento de Imigração de Hong Kong, 407 brasileiros moram na cidade. Um número baixo, que quadruplicou nos últimos dez anos. A maioria vai para Hong Kong tentar a sorte nos negócios, criando uma companhia nova ou abrindo uma filial na Ásia. A cidade está a distâncias que variam de três a cinco horas de vôo de capitais como Seul, Tóquio ou Pequim – no coração da região econômica mais dinâmica do mundo.

ÉPOCA aproveita esta edição especial para anunciar o lançamento de seu prêmio As Melhores Cidades do Brasil. O prêmio terá categorias para representar diferentes visões de qualidade de vida. Algumas pessoas buscam um lugar para criar seus filhos. Outras dão privilégio à facilidade de crescer profissionalmente. Concorrem as cidades brasileiras de médio e grande porte, com mais de 200 mil habitantes. São aquelas em que há possibilidade de segundo turno nas eleições municipais. A escolha das melhores cidades começa pela opinião de quem vive nelas. A partir deste fim de semana, todos – pessoas, organizações governamentais e organizações não governamentais – podem escrever e enviar fotos para epoca.com.br, mostrando iniciativas que tornam seu município um lugar melhor. Apoiada pelas sugestões do público, a equipe de jornalismo da Editora Globo escolherá os municípios finalistas. Os vencedores serão apontados em 2013, por um júri de especialistas para cada categoria. Revistas de prestígio, como a britânica The Economist, apontam anualmente as melhores cidades para viver. A escolha incentiva o progresso, ao recompensar o mérito dos bem-sucedidos e iluminar caminhos para aqueles que buscam melhorar.

Caminho verde no concreto

 

Os parques lineares ajudam a reduzir as enchentes e a melhorar a qualidade de vida nas cidades

O médico foi taxativo. Para voltar a sorrir, Manoel Cândido de Oliveira, de 56 anos, precisava de outros ares. Sair de casa, conversar com gente, exercitar o corpo para transformar o nervosismo e a ansiedade, velhos conhecidos seus, em ânimo novo. Ele recomendou que Oliveira participasse de um grupo de caminhada organizado por agentes de saúde da vizinhança onde mora, no distrito da Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. Ele acatou a orientação. Há quase dois anos, passou a andar ao ar livre, num parque construído recentemente em seu bairro. Sua pressão arterial, que nunca ficava abaixo de 14 por 9 e não raro chegava a 18 por 10, estabilizou-se em 12 por 8. O humor também melhorou. “A gente conversa, passa o tempo, começa a ter mais conhecimento”, diz Oliveira. Toda cidade com significativa expansão urbana enfrenta pelo menos dois grandes desafios para criar áreas de respiro. O primeiro é encontrar terrenos livres e, de preferência, com fragmentos de florestas. O segundo, esses mesmos poucos locais disponíveis são altamente valorizados pelo setor imobiliário. Para vencê-los, alguns municípios brasileiros investem hoje numa solução consolidada há décadas no exterior: os parques lineares. Essas construções alongadas e estreitas acompanham ferrovias, rodovias, linhas elétricas, canais ou rios. Boston, nos Estados Unidos, abriga um dos pioneiros nesse modelo de área verde, o Emerald Necklace, ou “colar de esmeralda”. Trata-se de um sistema de parques lineares que cerca toda a cidade. O High Line, em Nova York, foi erguido sobre uma antiga linha férrea. Seul, na Coréia do Sul, desenvolveu um projeto urbanístico ainda mais ousado: demoliu toneladas de concreto de um viaduto, despoluiu o canal vizinho e criou parques lineares no leito, devolvendo à população o contato com o rio. A Brasilândia, órfã de áreas verdes até 2010, hoje tem seu próprio parque linear. A área, onde agora residem uma pista de caminhada, uma quadra esportiva e brinquedos infantis (alguns deles quebrados, lamentavelmente), funcionava antes como lixão improvisado. Ali havia uma favela com 600 famílias. O córrego à beira das ocupações irregulares, castigado pela erosão, invadira a rua, deixando-a interditada para carros e ônibus. Para se exercitar, os companheiros de caminhada de Oliveira usavam vias movimentadas ou calçadas tão apertadas que não comportavam dois pedestres lado a lado sem o desagradável esbarrão. A alternativa adotada por Nova York, Boston e Seul permitiu que a Brasilândia respirasse melhor. A retirada da favela deixou o solo livre para receber a água da chuva. O córrego carrega menos água do que se tivesse margens de concreto. As moradias irregulares, grandes vítimas dos temporais de verão que assolam as cidades, não mais correm o risco de encher nem desabar. Oliveira, o paciente disciplinado, agora tem onde exibir suas passadas aceleradas. “O parque linear ajuda na drenagem e tem um papel importante para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos”, afirma Sun Alex, arquiteto da Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo. Além de oferecer lazer aos moradores, o parque linear, principalmente quando erguido no entorno de cursos d’água, comporta-se como uma esponja urbana. Ao substituir áreas impermeáveis (favelas, ruas, avenidas ou calçadas) por vegetação, absorve a chuva e diminui a velocidade do escoamento da água. Isso reduz as chances de enchentes. Esse tipo de área verde aliviou o cotidiano da Brasilândia, que tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) de São Paulo. As famílias que antes viviam nos barracos, segundo a prefeitura, foram indenizadas ou transferidas para moradias populares. Ainda que pequeno e com as árvores pouco encorpadas, o novo espaço tornou-se ponto de encontro de jovens, alternativa para a prática de esportes e um lugar para as crianças brincarem. O mesmo já ocorre em outros municípios. Rio Branco, no Acre, ganhou um parque linear erguido num antigo lixão irregular. Curitiba, com a construção de áreas verdes interligadas ao Parque Barigui, terá um dos dez maiores parques lineares do mundo, com 45 quilômetros de extensão. São Paulo deverá fechar o ano com 24. Áreas verdes funcionam como pequenos oásis nos grandes centros de concreto. Estimulam a população a conviver com a cidade. Criam condições para uma vida esportiva, ao ar livre e conectada à natureza. Melhoram o microclima. Retêm os gases poluentes e ajudam na drenagem. Tê-las por perto, nem que para olhar de longe, implica desfrutar uma rotina mais saudável. “Não é só uma questão de mais oxigênio para respirar': afirma Raul Pereira, arquiteto e paisagista. “Os parques recuperam a poesia das cidades, mudam a forma de se relacionar com o espaço.” Um dos mais visitados parques urbanos do mundo, o Central Park, em Nova York, foi inaugurado em 1857 e expandido no ano seguinte pelo americano Frederick Law Olmsted, o pai das paisagens urbanas, e pelo arquiteto inglês Calvert Vaux. O modelo foi reproduzido em outras cidades dos Estados Unidos e da Europa: áreas verdes protegidas transformaram-se em ilhas de natureza no mar de concreto das metrópoles. O Brasil ficou para trás. Grande parte dos municípios sofreu uma ocupação desordenada, e o impulso de cimentar o solo, tapar córregos e construir sobre vãos livres prevaleceu. “São Paulo é para uma vida esportiva, ao ar livre e conectada à natureza. Melhoram o microclima. Retêm os gases poluentes e ajudam na drenagem. Tê-las por perto, nem que para olhar de longe, implica desfrutar uma rotina mais saudável. “Não é só uma questão de mais oxigênio para respirar': afirma Raul Pereira, arquiteto e paisagista. “Os parques recuperam a poesia das cidades, mudam a forma de se relacionar com o espaço.” Um dos mais visitados parques urbanos do mundo, o Central Park, em Nova York, foi inaugurado em 1857 e expandido no ano seguinte pelo americano Frederick Law Olmsted, o pai das paisagens urbanas, e pelo arquiteto inglês Calvert Vaux. O modelo foi reproduzido em outras cidades dos Estados Unidos e da Europa: áreas verdes protegidas transformaram-se em ilhas de natureza no mar de concreto das metrópoles. O Brasil ficou para trás. Grande parte dos municípios sofreu uma ocupação desordenada, e o impulso de cimentar o solo, tapar córregos e construir sobre vãos livres prevaleceu. “São Paulo é uma cidade brutalmente ocupada pelo concreto”, diz Pereira. “Perdemos uma oportunidade única nos anos 1930 de ter parques nos arredores dos grandes rios, como o Pinheiros, o Tamanduateí e o Tietê.” Na impossibilidade de reverter a história, São Paulo tenta correr atrás do prejuízo.Acidade, que até 2005 tinha somente 34 parques, pouco para a quarta maior metrópole do mundo, pretende fechar o ano com um total de 100 espaços verdes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os municípios ofereçam 12 metros quadrados de área verde por habitante. São Paulo somava um mísero 1,5metro quadrado há sete anos. Se a prefeitura cumprir o prometido, a capital chegará a 4,36 metros quadrados de vegetação por morador até o fim de 2012. Um estudo publicado no [ournal of Epidemiology and Community Health, com base nos registros eletrônicos de 345.143 pacientes da Holanda, sugere que quem mora em ambientes com vegetação tem menos problemas de saúde, especialmente depressão e ansiedade, do que quem vive em espaços repletos de concreto. Publicada em 2009 pela VU University MedicaI Center, em Amsterdã, a pesquisa diz que os maiores benefícios ocorrem quando se reside a menos de 1 quilômetro do verde. Outros estudos levantam os ganhos financeiros de manter parques conservados. Segundo um relatório do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) do Reino Unido, cuidar dessas áreas vale pelo menos 30 bilhões de libras por ano em benefícios para a saúde no país. Após suas primeiras caminhadas pela Brasilândia, Manoel de Oliveira logo reconheceu as vantagens de ter um parque no quintal de casa. Vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) aos 30 anos passou cinco numa cama sem andar nem falar. Sofrera o derrame dormindo. Seu lado esquerdo do corpo “ficou esquecido”, costuma dizer sobre a paralisia que lhe tomou braço e perna. Quem vê Oliveira caminhando pelo parque todas as segundas-feiras e quartas-feiras não imaginam seu histórico de saúde. Ele quase sempre se mantém a frente dos colegas. “Distrai a mente, né?”.

Deixem o povo ampliar suas casas

 

Em 2004, O ARQUITETO ALEJANDRO ARAVENA PROJETOU UMA VILA POPULAR NUMA ÁREA NOBRE na cidade de Iquique, no Chile. As casas eram cubículos de 36 metros quadrados. Custaram ao governo o equivalente a R$ 15 mil cada uma. Quem quisesse poderia dobrar o tamanho da moradia, pagando do próprio bolso. Desde então, as casas triplicaram de valor. O projeto das “meias-casas” em Iquique ganhou em 2010 prêmio Index, de designo Elas são a síntese do trabalho de Aravena, um chileno de 45 anos, formado pela Universidade Católica do Chile e casado com uma brasileira. Jurado do Pritzker, o prêmio de arquitetura mais prestigiado do mundo,Aravena esteve em São Paulo para participar do seminário Arq.Futuro, que discutiu alternativas para as grandes cidades.

ÉPOCA- Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 800 milhões de pessoas vivem em favelas na América do Sul, África e Ásia. As favelas são o maior problema urbano do mundo? Alejandro Aravena – São, mas não devemos considerá-las uma doença a curar. As favelas devem ser tratadas como parceiras. Elas representam uma capacidade enorme das pessoas de fornecer habitação a si mesma, apesar de não ter qualquer ajuda formal do mercado e do Estado.

ÉPOCA – Como o Estado pode ser parceiro das favelas? Aravena – A política pública deveria cuidar daquilo que um indivíduo não consegue por conta própria. Ou seja, permitir que a iniciativa dos próprios cidadãos floresça. Essa é uma abordagem bem pragmática, não tem nada de romântica ou hippie. Nas próximas duas décadas, teremos de construir em média, por semana, uma cidade de 1 milhão de pessoas, com casas de US$ 10 mil por família. Isso somente será possível se formarmos parcerias entre as grandes forças: o capital do mercado privado, a coordenação dos Estados e a capacidade de construir dos cidadãos. Precisaremos do conhecimento dos melhores profissionais disponíveis em todos os campos, de engenheiros a trabalhadores sociais. Precisaremos do poder da síntese do designo.

ÉPOCA – Qual é a maior falha dos projetos de moradia popular? AravenaOs projetos de habitação social são criticados por fornecer casas pequenas e malfeitas às pessoas. Diante dessa crítica, o senso comum sugere que casas de melhor qualidade deveriam ser maiores e com melhor acabamento. Mas fazer isso seria responder à questão errada. Famílias têm composições e necessidades muito diversas. Alguns lares têm crianças, outros idosos. Em muitos há pessoas trabalhando em casa. Não adianta tentar se adaptar a isso.

ÉPOCA – O Estado deveria se preocupar com o que, então? AravenaHá uma série de condições de design que não podem ser aprimoradas pelo indivíduo, como a localização de suas moradias. Garantir boa localização deve ser atribuição do Estado. As pessoas vêm às cidades para tirar vantagem das oportunidades que elas concentram. Se estão localizadas na periferia, longe das oportunidades, cria-se um problema social, político e econômico. Além disso, todos nós, ao comprar uma casa, desejamos que ela valorize com o tempo. Por que o dono de uma casa popular pensaria diferente? Habitações bem localizadas ganham valor com o tempo. Deixam de ser somente um abrigo e viram ferramentas para combater a pobreza.

EM SÃO PAULO, MEU PROJETO DE CASAS EXPANSíVEIS FOI RECUSADO. SE AS PESSOAS FINALIZASSEM SUAS PRÓPRIAS CASAS, AS CONSTRUTORAS GANHARIAM MENOS

 

ÉPOCA – O Estado deveria se preocupar mais com a boa localização da habitação popular e menos com a casa em si? Aravena -Sim. Metade das casas feitas pelo Estado poderia ser pequena e pré-moldada, de baixo custo. Elas serviriam apenas como um ponto de partida para a expansão e a personalização. É possível construir casas de 40 metros quadrados que podem ser expandidas até 80 metros quadrados, um espaço considerado bom para famílias de classe média. Com os primeiros 50% de todas as casas iguais, podemos otimizar gastos com materiais e métodos de construção. É melhor ter metade de uma casa boa em vez de uma casa pequena, finalizada e mal localizada. Depois, a família pode expandir a casa e aprimorar seu acabamento por conta própria.

ÉPOCA – No Brasil, a expansão de casas populares é chamada de “puxadinho”. Aravena-O termo “puxadinho” é pejorativo e lembra expansões arriscadas, feitas sem meios suficientes. A expansão deve acontecer graças ao desenho arquitetônico, não apesar dele. Para isso, o projeto precisa prever a expansão do imóvel sem a necessidade de mudanças estruturais. Apenas a anexação de espaços.

ÉPOCA – O senhor já tentou aplicar o conceito de casas pequenas e expansiveis no Brasil? Aravena -Sim, e foi uma experiência decepcionante. Em 2008, minha empresa recebeu uma encomenda para a favela de Paraisópolis, em São Paulo. Oferecemos um projeto com casas de 40 metros quadrados, que podiam ser duplicadas pelos moradores. Mas fomos avisados que o tamanho máximo seria limitado a 55 metros quadrados. Fui contra aquela limitação. Afinal, a expansão seria paga pelos próprios moradores, não com o dinheiro do Estado. Minha proposta foi recusada. No fim, me disseram que grandes construtoras que financiam campanhas políticas faziam lobby para ganhar os contratos e entregar casas prontas. É claro que, se as pessoas finalizassem suas moradias por conta própria, aquilo significaria menos dinheiro na mesa para essas empresas.

ÉPOCA – O lobby das grandes construtoras ameaça os projetos de habitação social pelo mundo? AravenaSim. Se o cidadão comum tivesse poder de lobby,eu não me preocuparia com as construtoras. Mas ninguémarticula os interesses de uma comunidade. Os políticos seriam,no mundo ideal, os encarregados disso. Mas estamospresenciando uma mudança nesse paradigma. No Chile,comunidades no sul se manifestam contra usinas de energia,e ao norte nós temos cidades inteiras pedindo qualidade devida. Devemos canalizar esse poder de mobilização para obenefício da maioria. As construtoras entram nas obras pelodinheiro. Não tenho nada contra o lucro, mas ele deveria sero resultado, não o objetivo, de um empreendimento popular.Em geral, construtoras e imobiliárias são vulgares.

ÉPOCA – O senhor é casado com uma brasileira. Alguma cidade no Brasil chama sua atenção? Aravena – Gosto do Rio de Janeiro. O que mais me impressiona nessa cidade é a praia. Ela serve como um espaço democrático, onde pobres e ricos se misturam. A convivência nas praias diminui o ressentimento decorrente da diferença de classes e, certamente, diminui a violência na cidade. Santiago, no Chile, não tem nada parecido. Os pobres são completamente excluídos.

ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre bairros particulares planejados. presentes na Zona Oeste do Rio de Janeiro e nos arredores de capitais como São Paulo e Belo Horizonte? Aravena -Em termos arquitetônicos, os condomínios da Barra da Tijuca (na Zona Oeste do Rio de Janeiro) são medíocres. Não entendo como é possível fazer isso, com o clima e a natureza que vocês têm no Rio. As casas desses conjuntos podem ser caras, mas não têm valor algum. Infelizmente, isso é uma doença global do mercado imobiliário e do urbanismo desenvolvido por construtoras poderosas. A segregação criada pelos condomínios fechados é típica em países da América Latina. São áreas imensas da cidade sem a mistura natural de classes sociais diferentes, que normalmente dependem umas das outras. A sorte do Rio é ter suas praias.

 

 

 

 

“Me preparei para virar uma senhora”

 

Quando tinha 21 anos, em 1964, a então iniciante Marília Pêra fez teste para um papel secundário no musical Alô, Dol/y, estrelado por Bibi Ferreira. Não passou. Agora, 48 anos depois, como uma das atrizes mais respeitadas e premiadas do país, protagoniza uma nova montagem do espetáculo, com direção e adaptação de Miguel Falabella. A estréia acontece no dia 12, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. “Fiz um trabalho intenso, que incluiu consultas com um otorrino para fazer um balanço das cordas vocais, aulas de canto, visitas ao fonoaudiólogo e a um nutricionista. Até parei de tomar vinho para preservar a voz”, afirma Marília. Ela canta e representa na peça por duas horas e meia, sem quase sair de cena. “Não é nada fácil na minha idade.” Ela completará 70 anos em janeiro. Marília diz que teve medo de aceitar o papel e não dar conta da personagem, por causa da idade. “Mas, como nunca cometi excessos, sempre fiz exercícios e me alimentei bem, me preparei para virar uma senhora”, diz. Ela rejeita o rótulo de diva: “Esse título está banalizado”.

Sem mimimi

 

Prestes a estrear na novela Guerra dos sexos, Jesus Luz posou para a ediçãode outubro da revista Glamour, emque conta sua escalada desde que foirevelado ao mundo como namoradode Madonna. “Em 2008, sem dinheironem para pagar o ônibus, andei quase5 quilômetros até chegar ao teste queme daria a chance de posar com aMadonna.” Ele diz que sentiu frio nabarriga ao gravar com Mariana Ximenes,sua parceira de novela. Diz que não temmedo das críticas. Na vida pessoal, Jesusassumiu o namoro com a publicitáriaportuguesa Liliana Prior. Assim como apop star, ela é mais velha que o moço.”Gosto de mulheres experientes, nãotenho paciência para mimimi.”

Cravo, canela e calcinha

 

Na reta final da minissérie Gabriela. Juliana Paes faz um balanço da personagem. “Trabalhei duro e me doei muito para o papel. Estou feliz com a repercussão. com o carinho do público e. sobretudo. com os elogios dos meus colegas de profissão”. diz. Jullana lamenta as comparações com a Gabriela que Sônia Braga interpretou na primeira versão da história. “Não foi surpresa. sabia que as críticas viriam. O artista que não sabe lidar com isso está na profissão errada. Só não acho pertinente comparar. Somos atrizes diferentes. de gerações idem. e os tempos são outros. Reafirmo minha gratidão a Sônia. A força e as palavras dela foram fundamentais para que eu ganhasse ainda mais confiança para encarar esse desafio.” No rastro da personagem sexv, Jullana posou de calcinha e sutiã para a nova campanha da marca de lingeries Hope. “A sensualidade está na minha espontaneidade. na minha maneira de agir e viver. Sou uma pessoa simples e é só. Não encaro o posto de símbolo sexual como um status. Então ele não me incomoda. não me cansa. Não sou escrava desse título. esse é o segredo.”

Duplo parabéns

 

Margareth Menezes completa 50 anos de vida e 25 de carreira no dia 13. “Sinto que ainda estou na metade da minha trajetória. Vejo Caetano e Gil. que acabaram de fazer 70 anos em plena atividade. e isso me anima”. afirma a cantora baiana. precursora de nomes como Daniela Mercurv, Ivete Sangalo e Claudia Leitte. Para celebrar a dupla efeméride. Margareth lançará em novembro o OVO Voz talismã. Uma superprodução gravada com 17 câmeras durante duas apresentações no Teatro Castro Alves. em Salvador. Ela diz que o segredo para se manter nos palcos é não se limitar a um único ritmo. “Desde nova. ouvia de Clara Nunes a Janis Joplin. de Dicró a Led Zeppelln, Essa abertura me possibilita gravar artistas de gêneros diferentes como Carlinhos Brown e Nando Reis.” Sobre o cenário musical atual. ela é direta. “Tem muito artista sem alma por aí. Não é o caso. mas se o sucesso de artistas como Michel Teló e Luan Santana será ou não descartável. depende deles.”

 

O amor pelo poder

 

A cantora Rosana. intérprete do hit “O amor e o poder” (“Como uma deusaaaa “,.J. agora assina Rosanah Fienngo e é candidata comunista a vereadora no Rio de Janeiro pelo PCdoB. “É assim: fui convidada pelo partido. Sempre estive envolvida com política. sempre fui militante”. afirma. Militante de que causa? “É assim: além da coisa cultural. sempre lutei pelos direitos da mulher.” Rosana diz que lutará por melhores condições de trabalho para as cariocas. Não tem medo de virar um Tiririca de saias? “Estou bem assessorada; se não sei alguma coisa. pergunto.” Enquanto a eleição não chega. ela emplacou uma música na trilha da novela Guerra dos sexos. “Se for eleita. não vou parar de cantar. Acredito que dá para conciliar tudo.”

A cidade é para as pessoas, não para os carros

 

Prefeita do departamento técnico e ambiental de Copenhague – uma espécie de secretária municipal de urbanismo e meio ambiente da capital dinamarquesa -, Ayfer Baykal é considerada uma das maiores autoridades mundiais no uso do ciclismo como alternativa ao caos no tráfego dos grandes centros urbanos (leia mais na página 96), Com mais da metade de seus moradores recorrendo todos os dias à bicicleta para ir ao trabalho e à escola, Copenhague pretende se tornar, até 2025, a primeira cidade do mundo neutra em emissão de gás carbônico. “Cada vez que criamos uma faixa para ciclistas numa rua, o número de bicicletas cresce 20% e o de carros diminui 10%”, diz ela. “Ciclismo gera ciclismo.”

ÉPOCA – A que a senhora atribui o alto índice de contentamento da população de Copenhague? Ayfer Baykal-Nosso foco é oferecer maior qualidade de vida numa cidade grande. O urbanismo é tradicionalmente ligado a ruas barulhentas, uma profusão de carros e ar poluído. Em Copenhague, desafiamos essa visão. Sabemos que os copenhaguenses querem maneiras seguras e fáceis de percorrer a cidade em suas bicicletas. Oitenta e cinco por cento deles têm acesso a uma bicicleta. E mais da metade usa sua bicicleta para chegar ao trabalho ou à escola. Então, estou focada na construção de ciclovias e calçadas, em vez de grandes faixas mais amplas de carros e estacionamentos.

ÉPOCA – Numa cidade como São Paulo. Maior até que Nova York é possível criar uma estrutura eficiente para ciclistas? Ayfer Baykal-Claro que é. Mas isso requer escolhas políticas, uma profunda análise do tráfego e estratégias de como diminuir o numero de carros, abrindo espaço para ônibus, trens e bicicletas. Nos próximos quatro anos, ampliaremos nossas linhas de metro, construindo corredores de ônibus, ciclovias e calçadas maiores. Estamos dando aos motoristas alternativas atraentes para seus carros, em vez de apenas puni-los. Há estradas de bicicleta com faixas largas e estações de bombeamento para os pneus. Mesmo alguém que mora a 15 quilômetros pode chegar a seu destino pedalando. Muitos urbanistas internacionais recebem de Copenhague uma inspiração concreta sobre como planejar uma cidade. A prefeitura de Nova York esta copiando nossas pistas para ciclistas e as batizou “pistas de Copenhague“. Tenho certeza de que as grandes cidades brasileiras poderiam fazer o mesmo.

ÉPOCA – Que medidas seu governo está tomando para tornar Copenhague uma cidade mais verde? Ayfer Baykal – Nosso objetivo é tornar Copenhague uma cidade neutra em emissão de gás carbônico até 2025. Para isso, trabalhamos fortemente na redução do número de carros, plantamos árvores em parques de asfalto e organizamos nossos parques para que eles sejam atraentes para as pessoas. Temos uma legislação ambiental rigorosa e investimos muito dinheiro na limpeza do porto. Agora, construímos instalações para nadar em vários lugares da cidade e criamos praias a leste e ao norte do centro. Cada vez que um novo prédio é construído, ele tem de cumprir os regulamentos da área para que não arruíne a visão dos outros edifícios. Se um arquiteto quer construir acima do limite permitido naquela área, a prefeitura tem de aprovar um plano local novo, e os habitantes da localidade serão ouvidos. Incentivamos arquitetos, engenheiros e urbanistas a tornar os edifícios energeticamente eficientes.

ÉPOCA – Qual o maior erro no planejamento urbano?Ayfer Baykal – É ampliar as ruas como única solução para os engarrafamentos. A cidade é para as pessoas, não para os carros. É necessário fazer uma análise geral da mobilidade na cidade para, em seguida, criar ciclovias, calçadas amplas, corredores de ônibus e metrôs e dar aos motoristas boas alternativas para o carro. Isso reduzirá o nível de ruído e poluição. Também é fundamental ter uma rigorosa legislação ambiental para que os cidadãos tenham parques, ar e água limpos.

O espírito e o asfalto

 

Nasci numa pequena cidade’ do interior de São Paulo, Bernardino de Campos, construída em torno da ferrovia Sorocabana. A torre da igreja da pracinha foi construída por meu avô materno, João, pedreiro. Morei lá até os 3 anos, quando minha família se mudou para Marília, bem maior. Passava as férias na casa de minha avó paterna, Rosa, em Bernardino. Com o tempo, toda a minha família mais próxima deixou a cidade. Os laços se esfiaparam. Fui morar em São Paulo. Lembrava com saudades de minhas férias em Bernardino, onde eu brincava sem medo nas ruas vazias. Quer dizer, não exatamente sem medo, porque às vezes alguém gritava que a boiada vinha vindo. Corríamos para dentro das casas, enquanto os bois tomavam a rua e passavam. Uma diversão! Passei bem uns 40 anos sem ir a Bernardino. Só voltei quando me convidaram para apresentar um recém-criado prêmio de teatro na região, há alguns anos. (E, ao que eu saiba, logo extinto.) A cidade, ao contrário de outras do interior, não cresceu. A torre da igreja continuava lá. Mas a estação ferroviária fechara. Os trilhos, cobertos pelo mato. O cinema, onde eu me divertira tanto, transformado numa loja de sapatos. O filho da dona do hotel, criado em São Paulo, só tinha um sonho. Voltar para a cidade grande. – Aqui, meu cabelo virou até notícia na rádio! – disse, apontando para o cocoruto verde. Um primo em terceiro grau me reconheceu na rua. Fez questão de me levar até sua casa. – Minha mãe sempre fala em você. Vai ficar feliz. Fui com ele ao encontro da tia-avó que só vira quando menino e da qual mal me lembrava. Estava deitada. Ele a sacudiu. – Mãe, mãe, acorda. Olha quem está aqui! – disse o primo. A velha se mexeu. Abriu os olhos e encarou meu primo.

- Quem é você? – perguntou.

- Sou eu, seu filho! Veja só, é o primo que virou escritor.

- Estou muito feliz em ver a senhora, tia – falei, sorri constrangido.

Ela virou de lado e voltou a dormir.

- Pode ter certeza que a mãe adorou sua visita – disse o primo. – Mas está com depressão.

Conversei mais tarde com um funcionário da prefeitura.

- A depressão é um dos maiores problemas daqui – afirmou.

- Mas é um lugar tão calmo, cheio de paz – disse eu.

- Tem muita gente que se suicida. Se alguém compra corda, já fazem piada – afirmou o funcionário, para meu horror. Foi um susto. Já ouvira a mesma história em outra cidade bela e bucólica: Pomerode, em Santa Catarina, onde os suicídios são em número elevado. A cidade brasileira com maior número de suicídios per capita também é pequena, com uma bela catedral neogótica, cachoeiras por perto e todo um cenário que lembra paz e tranquilidade: Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Mas minha querida Bernardino também estava na lista? Moro desde os 15 anos em São Paulo. Sempre reclamei do trânsito e da violência, que me faz temer até assaltos em restaurantes. Sempre sonhei em voltar para uma pequena cidade do interior. Nem falo em comprar um sítio, pois não me vejo cuidando do pasto ou ordenhando vacas. Mas talvez uma casa gostosa numa rua calma, onde possa dormir de janela aberta. Ainda mais agora, com a internet, eu poderia morar em qualquer lugar e enviar meus artigos, livros e capítulos de novela por computador. Viajei muitas vezes em busca desse novo endereço. Quando me falam de um lugar com cachoeiras, meu coração bate mais forte. Será lá? Inicialmente, meu sonho foi detonado pela onda de violência em muitas cidades do interior. Tornaram-se freqüentes os assaltos e seqüestros, mesmo porque até os trabalhadores rurais usam crack. Há exceções, porém. Bernardino é muito calmo, com poucas ocorrências policiais. E a depressão? Soube que muitas prefeituras criam postos psiquiátricos. O problema é mais profundo. As pessoas não têm o que fazer, a não ser falar umas das outras. Cria-se um sistema de vigilância sobre o comportamento alheio. Tudo o que infringe a regra vira notícia – até mesmo o cabelo verde de um rapaz. Prefeitos investem em melhorias urbanas. Fala-se muito em hospitais e asfalto. Raramente num circuito cultural que alimente o espírito. Isso também acontece em boa parte das metrópoles, onde são raros os novos teatros, bibliotecas. Nas pequenas cidades, é pior ainda. O espírito das pessoas também adoece pela falta de atividades que provoquem indagações, criatividade, sentimento de equipe. Mergulhados no tédio, os cidadãos se deprimem. Paz demais é insuportável.

Um país de sabores

Sete chefs ensinam pratos regionais com os ingredientes preferidos dos brasileiros

O brasileiro assimilou alimentos da gastronomia global sem abrir mão de pratos da culinária local. Embora goste de sushi ou hambúrguer, não abre mão de sabores tradicionais e das lembranças afetivas que eles trazem. Pequi, mandioca, jenipapo e bacuri são bases para pratos caseiros e de restaurantes sofisticados. Convidamos sete dos melhores chefs do país para criar um cardápio de três refeições da cozinha típica de sua região, com arroz, feijão e café, os três alimentos mais consumidos no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado você confere a seguir. As receitas do cardápio completo – e os vídeos em que os chefs ensinam a prepará-las – estão em

epoca. com.br e na versão da revista para tablet.

Até 2003, a cidade de Paraty era conhecida por seu casario colonial, suas cachaças artesanais e a paisagem tropical do litoral sul do Rio de Janeiro. Era pouco conhecida fora do Brasil. Quase dez anos depois, virou sinônimo de literatura e recebe anualmente algumas das mentes mais criativas do mundo atual. O motivo da mudança foi a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, um festival literário que leva o nome da cidade ao mundo todo. A Flip virou referência de sucesso dos eventos culturais. Mas não foi pioneira. Em 1968, a cidade paranaense de Londrina entrou no mapa cultural do país com o festival internacional de teatro Filo. Em 1973, a cidade serrana de Gramado, na Serra Gaúcha, sediou a primeira edição do festival de cinema que, até hoje, é o mais importante do Brasil. A Flip definiu, porém, um novo patamar de evento cultural e tornou-se o mais relevante deles. Ela trouxe três conquistas básicas, que até hoje enchem os olhos de prefeituras e agitadores culturais: elevou a qualidade do turismo, trouxe ganhos materiais e imateriais e colocou a cidade em lugar de destaque no calendário cultural. O resultado? O jeito da Flip de fazer evento cultural se tornou inspiração para novos e antigos festivais de música, cinema, teatro, dança, gastronomia e, principalmente, de literatura (leia o quadro ao lado). Hoje são centenas as cidades brasileiras que buscam a transformação por meio da cultura. Elas disputam quem faz o melhor festival na área que escolheram – e isso se tornou uma característica marcante da cultura do país. O Brasil, sem exagero, se tornou o país dos festivais. A principal inovação da Flip em relação aos demais foi estreitar a proximidade dos palestrantes com o público. Isolados nas ruas de pedra do Centro Histórico, fãs e celebridades caminham juntos, bebem juntos, vão às mesmas festas. Depois da Flip, todos os festivais tiveram de copiar essas características para tentar os mesmos resultados. O Fórum das Letras, de Ouro Preto, criado em 2005, é praticamente uma cópia da Flip em território mineiro, com palestras e festas pela cidade. No Garanhuns Iazz Festival, em Pernambuco, além de shows de jazz, os artistas têm contato com o público em palestras e oficinas de música. O Festival Internacional de Dança de Cabo Frio junta a cultura erudita do balé num cenário descontraído de praia. Um festival cultural não faria sentido se ele não deixasse um legado para a cidade. A Associação Casa Azul, organizadora da Flip, foi parceira na criação de 30 novas bibliotecas na cidade, implantou programas de incentivo à leitura nas escolas e ajudou a minimizar o impacto dos 30 mil visitantes que a cidade recebe na semana da festa com a reforma da Praça da Matriz, um dos principais espaços de convivência do local. Isso ocorre também em Joinville, em Santa Catarina, sede do maior festival de dança do país há 30 anos. A identificação foi tão grande que o balé Bolshoi abriu uma escola na cidade, a única fora da Rússia. “O que funcionou na Flip foi pensar em integrar arte, educação e valorização dos espaços públicos': afirma o arquiteto Mauro Munhoz, dire tor da associação Casa Azul e um dos idealizadores da festa ao lado da editora inglesa Liz Calder. Outro efeito imediato são o aumento e a qualificação do turismo. O nome do Festival Literário da Pipa, a Flipipa, revela a inspiração na festa de Paraty. Pipa se localiza em Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte. Lá, uma fundação particular buscou patrocínio federal para realizar a primeira edição de seu festival literário em 2009. Como a praia que dá nome ao festival é uma das mais famosas do Estado, e o número de turistas nunca tinha sido problema, o objetivo dos organizadores era mudar de público. “A Pipa reclamava um turismo de conteúdo”, afirma Dácio Galvão, curador da Flipipa. A primeira edição teve 8 mil pessoas. Na última, em novembro do ano passado, o número de turistas trocando o sol pelas palestras subiu para 20 mil. A colonial Ouro Preto se acostumou com turistas culturais há pelo menos 100 anos. A cidade recebe 600 mil visitantes por ano e tem um calendário cheio de eventos. Realiza com sucesso, desde 1967, seu Festival de Inverno, hoje conhecido como Fórum das Artes. Sedia ainda um festival de jazz e outro de cinema. A cidade está mudando o jeito de fazer eventos culturais. A programação é fechada com antecedência, a equipe que trabalha no evento recebe treinamento, e o público é convidado a participar mesmo antes de o festival começar, com seminários de preparação. O maior estímulo por renovação se dá pela concorrência com outras cidades coloniais mineiras, como Tiradentes, sede de um dos maiores festivais internacionais de gastronomia. “Toda cidade tem potencial de vida cultural, que muitas vezes fica adormecido”, afirma Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto. “Toda cidade que investir em cultura terá, primeiro, melhora na qualidade de vida do povo e, depois, retorno econômico com turismo. É um ótimo negócio.”Em Ouro Preto, nasceu, em 2005, o Fórum das Letras, quase uma cópia da Flip em território mineiro. A convivência próxima dos artistas evisitantes convidados com o público virou regra também nos demais festivais da cidade. Quando organiza um festival, uma cidade busca também se tornar uma referência na área. É o que ocorre com São José do Rio Preto, em São Paulo. A cidade abriga teatro de vanguarda, musicais e peças clássicas. Em Campina Grande, na Paraíba, a ênfase é na música clássica. Seu diretor, Vladimir Silva, foi maestro em orquestras fora do país e atrai convidados internacionais consagrados. Ele já trouxe a pianista Eudóxia de Barros e o Quaternaglia Guitar Quartet, além de uma encenação da ópera contemporânea Domitila, de João Guilherme Ripper. Conhecida por ter a maior festa de São João do país, Campina Grande começa a se tornar referência em música erudita também. “Toda cidade deveria investir em cultura”, afirma Marcelo Lopes, diretor do maior festivalde música erudita do Brasil, em Campos do Iordão, São Paulo. “O turista se identifica com a cidade, e o habitante se orgulha dela.”

7 motivos para amar uma cidade

 

O que é uma cidade? Não existe definição ideal. A cidade sou eu, é você. Se é o lugar onde se dorme, acorda, trabalha, caminha e trafega, onde se ama, briga e morre, a cidade é bem mais que um amontoado de concreto e verde – é uma experiência de bem-estar ou mal-estar.Alguns se tornam reféns de sua cidade, seqüestrados por circunstâncias profissionais, financeiras e familiares.Alguns vivem onde desejam. É aí que os defeitos da cidade incomodam como traições de mulher amada. Só nós podemos criticar – forasteiros não. Cito dois pensadores visionários de cidades. Um é o inglês Ebenezer Howard (1850-1928), autor de Cidades-jardins de amanhã, em 1898.No século XIX, ele já se preocupava com ar fresco, água, superpopulação e migração do campo. Criou modelos de cidades utópicas, com vantagens urbanas e suburbanas, que significavam “uma nova esperança, uma nova vida, uma nova civilização”.Howard perguntava: “Para onde as pessoas irão?': Uma questão mais atual que nunca. Outro pensador é o americano Lewis Mumford (1895- 1990),que publicou em 1961ª cidade na história. Seus maiores medos eram o império do automóvel e a megalópole. Para Mumford, a cidade gigante ameaçava a saúde, a dignidade, os valores comunitários, ambientais e espirituais da população. “Antigamente”, dizia ele, “a cidade era o mundo, hoje o mundo é uma cidade': Para esta edição especial de ÉPOCA, dedicada às cidades, busquei um professor apaixonado pelo centro urbano em seu sentido ancestral – servir o homem. O arquiteto e urbanista premiado Luiz Carlos Toledo listou “7 motivos para amar uma cidade”: 1 Amo as cidades que sabem se reinventar, como o Rio de Janeiro, que deixou de ser a sede tropical da corte portuguesa, capital do império e da república e, graças a Deus, capital cultural do Brasil, título careta e equivocado num país cuja diversidade cultural não respeita território e dispensa uma capital.O Rio soube transformar uma decadente Lapaem pólo de atração capaz de arrancar os jovens da Barra da Tijuca de seus condomínios para se divertir com outros jovens, do resto da cidade, nas rodas de samba e chorinho. Soube resgatar o carnaval de rua, fazendo do Centro e de cada bairro passarelas tão ou mais atraentes que o Sambódromo globalizado. 2. Amo as cidades que têm esquinas e,principalmente, quando ocupadas por padarias e botequins, para a gente ouvir pela manhã o balconista gritar: “Saltauma média no copo e um pão na chapa”.À noite, na volta para casa, uma rápida parada no boteco predileto, jogando conversa fora com um cara que você nunca viu antes, ouvimos deliciados e com sotaque lusitano: “Salta uma gelada que o freguês tem pressa': 3.Amo as cidades amigáveis, que tratam bem habitantes e visitantes e onde, num único quarteirão, a gente possa encontrar quase tudo. Amigável com crianças, velhos e namorados, que dispõem de uma pracinha perto de casa.Com os visitantes,pela gentileza da população e por uma sinalização urbana feitapara evitar que qualquer um se perca. A cidade amigável nos salva do ataque de flanelinhas, motoristas de vans e taxistas inescrupulosos, garçons e vendedores mal-humorados, que  adoram errar no troco, falsos guias turísticos e toda a sorte de gente capaz de fazer um turista jurar que nunca mais bota os pés ali. 4. Amo as cidades com entretenimento para todas as idades, independentemente de quanto temos no bolso. Se der sorte de a cidade ter praia, metade do problema está resolvido. Parques, museus, centros culturais, bibliotecas e shows devem oferecer entrada franca. Amo as cidades com locais para confraternizar a céu aberto. 5. Amo as cidades que preservam da ganância dos especuladores as suas montanhas, matas, praias, lagoas, florestas, seus parques e manguezais. Onde o ar se respira, e a poluição não nos sufoca nem nos adoece. 6. Amo as cidades que respeitam sua história e sua arquitetura e, por isso, se tornam donas de uma força misteriosa que faz com que moradores, até os mais cosmopolitas, relutem em se afastar, apegados aos bairros onde vivem, às paisagens conhecidas, aos prédios e monumentos e também às praças, ruas, travessas e becos, repletos de significados. 7.E amo, sobretudo, as cidades inclusivas, onde todos possam exercer sua cidadania. Uma cidade onde crianças não oferecem balas e fazem malabarismos a cada sinal de trânsito, porque estão brincando em casa ou estudando nas escolas. Uma cidade sem moradores de rua e, se os tiver que garanta a eles compreensão, abrigo e oportunidade. Onde nenhum trabalhador perca horas preciosas para chegar ao emprego. Onde os donos das ruas não sejam os carros particulares, mas o transporte público de qualidade. Onde a divisão entre morro e asfalto só exista na lembrança dos mais velhos ou nos livros de história, para não esquecer como é triste e perigoso viver numa cidade dividida. Onde os governantes saibam ouvir e governem para todos, discretamente. E que tenham horror às obras suntuosas.

carta capital

UM PAÍS JUSTO E DESENVOLVIDO

A presidenta enxerga o Brasil como ele merece ser POR DILMA ROUSSEFF.

BRASIL DE 2030 estará entre os países mais desenvolvidos e mais democráticos do mundo. Será mais justo e menos desigual, como nunca antes em sua história. Na última década, adotamos um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento, na estabilidade e na inclusão social. Hoje somos a sexta economia mundial e estamos nos tornando um país de classe média, oferecendo oportunidades para todos os brasileiros.O Brasil de 2030 será a tradução de todo esse esforço que temos feito.Não haverá pessoas vivendo em extrema pobreza no Brasil de 2030. Desde 2003 perseguimos radicalmente esse objetivo. Por meio do crescimento consistente da economia, da geração de empregos e de instrumentos efetivos de distribuição de renda, estamos chegando lá. Começamos com o Bolsa Família, no governo Lula, que abriu caminho para o Brasil sem Miséria. Elevamos 40 milhões de pessoas à classe média e continuamos, a cada dia, superando metas e desafios para garantir a inclusão dos que ainda vivem na extrema pobreza. O Brasil de 2030 será um país que cuida de todas as suas crianças. Para isso, demos um grande passo com a criação do Brasil Carinhoso, que complementa a renda das famílias que tenham crianças até 6 anos de idade e uma renda menor que 70 reais per capita.

 

O Brasil de 2030 será também o país que garante acesso à creche, à educação em tempo integral, à formação técnica e superior a todos os brasileiros. Certamente, farão parte desse futuro os estudantes brasileiros que, por meio do programa Ciência sem Fronteiras, terão ampliado seus conhecimentos nas melhores universidades do mundo. No Brasil de 2030, qualquer cidadão terá acesso a bons serviços e a um atendimento ágil na rede pública de saúde. Com mais recursos e investimentos numa gestão eficiente, estamos aprimorando e fortalecendo o SUS, um dos maiores sistemas públicos de atendimento universalizado do mundo. Daqui a 18 anos, o Brasil será um país inovador e tecnologicamente desenvolvido, e também o país do pleno emprego e do empreendedorismo. Manterá o ritmo de sua evolução nesta primeira década do século, quando foram criados mais de 19 milhões de empregos e formalizados mais de 2 milhões de microempreendedores.

 

Conseguimos antever também um Brasil mais moderno e competitivo na área de infraestrutura, na qual estamos investindo fortemente. O plano de Investimento em Logística nas áreas de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos darão ao Brasil uma infraestrutura compatível com o seu tamanho e com as necessidades de sua população. Sem abrir mão de seu papel de planejamento e fiscalização, o Estado continuará, em parceria com a iniciativa privada, executando as medidas necessárias para sustentar o crescimento da economia, do emprego e da renda de todos os brasileiros. o Brasil de 2030 estará colhendo os frutos da opção pela sustentabilidade. Crescer, incluir, proteger e preservar continuará sendo a base de nosso modelo de desenvolvimento. Ainda seremos um país com grandes reservas naturais, que explora racionalmente a sua biodiversidade e tem a matriz energética mais limpa e eficiente do mundo. Ao mesmo tempo, nas próximas décadas, o Brasil alimentará o mundo como maior produtor agropecuário do planeta. Mantido o ritmo do nosso crescimento, a pujança da nossa democracia e a constante evolução social e econômica do nosso povo – e não vejo motivo para que essa trajetória venha a ser interrompida -, tenho certeza de que no Brasil de 2030 viverão os filhos da igualdade, da inclusão e da justiça social. Uma geração preparada para assumir as rédeas do seu país e viver os benefícios de uma era de prosperidade. É assim que vejo o país do meu neto. Olho para o Gabriel com um misto natural de curiosidade e preocupação, como acontece com todas as avós. E toda vez que tento imaginá-lo com 20 anos, iniciando a sua vida adulta, começando a lutar para construir sua história pessoal, sou otimista. Eu o vejo, como a milhões de jovens de sua geração, vivendo bem em um Brasil feliz, generoso e justo com todos os seus cidadãos e cidadãs. Um Brasil orgulhoso de ser o que é: um grande país.

 

O FUTURO A NOS PERTENCE

Como eliminar as contradições que empanam o definitivo e real desenvolvimento POR ANA PAULA SOUSA.

FOI ENTRE AS montanhas de Petrópolis (RJ) que o austríaco Stefan Zweig (1881-1942) se matou. Foi também lá que, com laivos de otimismo, concebeu o livro que expressaria o carma nacional: Brasil, País do Futuro. O que teria levado o escritor a, pouco antes de suicidar-se, lançar um olhar assim esperançoso sobre o lugar onde se exilou? Contraditório, Zweig acabaria por espelhar, ele mesmo, outro de nossos carmas: Brasil,país das contradições. Nação de imensas potencialidades econômicas e naturais – água à farta, recursos minerais a explorar e uma reserva de petróleo que os geólogos apostam ser a terceira do mundo -, o Brasil, a despeito dos avanços, caminha rumo ao futuro com um dos maiores índices de desigualdade do mundo, com cidades que cresceram de forma caótica e um sistema educacional falho. Vivemos, até hoje, a contradição entre crescimento e atraso, beleza geográfica e feiúra urbana, grandeza e pequenez. Para comemorar seus 18 anos, Carta- Capital resolveu usar a própria efeméride para sondar, mais uma vez, as hipóteses para esse futuro que Zweig rascunhou como redentor. Que país teremos daqui a 18 anos? Em busca de respostas, ouviu os economistas Delfim Netto, Luiz Gonzaga Belluzzo e Carlos Lessa, o ministro Celso Amorim, o embaixador Rubens Ricupero e os pesquisadores Luiz Antonio Oliveira (IBGE) e Renato Meirelles (Data Popular). Todos ponderaram em primeiro lugar, que o futuro é opaco.

 

E tanto Delfim quanto Belluzzo relembrou o conceito da incerteza de John Maynard Keynes (1883-1946): não podemos desenhar um futuro provável pela simples razão de que ele é incerto mesmo. Podemos, no entanto, analisar as potencialidades e fraquezas que o País acumulou e, inevitavelmente, carregará para o futuro. Podemos, também, fazer uma previsão demográfica.

De acordo com os estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teremos, em 2030, perto de 216 milhões de habitantes, 26 milhões a mais que hoje, com a população crescendo num ritmo mínimo, até chegar à estagnação, em 2040. A média de filhos por mulher, que passou de 6,2 na década de 1930 para 2,1entre 1999e 2004, deve chegar a 1,4, abaixo do índice de reposição por casal. Em 2030, seremos 40,5 milhões com mais de 60 anos de idade e teremos 76,5 idosos para cada 100 jovens. Apenas 17% da população terá menos de 15 anos – o índice, hoje, é de 26%. Até lá, ainda teremos uma sociedade na qual o número de pessoas que trabalham é maior do que o dos que já trabalharam ou ainda vão trabalhar. Em 2040, a proporção se inverte.

 

Isso significa que aqueles que estão no meio, entre 14 e 65 anos, terão de experimentar um aumento de produtividade para sustentar os demais. “Temos, portanto, de construir um Brasil que, em 2030, seja capaz de dar emprego de boa qualidade para 150 milhões de pessoas. Seguramente, não é com o modelo que temos hoje que conseguiremos”, diz Delfim. “Será preciso investir em indústria e serviços.” Tampouco é com o modelo atual que alcançaremos um sistema de saúde capaz de atender uma população cada vez mais velha e obesa. Um estudo feito pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta evidências de que a “epidemia da obesidade” fará com que, até 2030, dobre a prevalência do diabetes no Brasil. Aumentará, sem dúvida, a busca por assistência médica. Diminuirá, no entanto, a procura por educação primária. Terá o Estado capacidade de se readequar a essas novas demandas? A seguir, o que alguns dos nossos mais importantes pensadores vislumbram para o País que, em 2030, mantido o crescimento de 4,5% a 6%ao ano, deve se tornar a quarta ou quinta economia do mundo.

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

O lugar que a classe C, quase um hit no Brasil atual, ocupará no alfabeto e na sociedade daqui a 30 anos é uma miragem. Há quem veja, lá na frente, muitos dos integrantes desse vasto grupo trocando de letra na escala social. “Haverá muito mais gente indo da classe C para as classes A e B do que da C para a D”, aposta Renato Meirelles, diretor do Data Popular, instituto de pesquisa que ganhou fama ao debruçar- se sobre esses novos consumidores brasileiros. Em vez de gastar com eletrodomésticos, a classe vai preferir serviços. Em 2030, eles já terão tudo o que é básico.” A inserção de mais brasileiros no mundo do consumo é um caminho sem volta. Como descreve Delfim Netto, o processo civilizatório brasileiro fez com que a empregada doméstica virasse manicure, a manicure fosse para o call center, a moça do call center fosse para o supermercado e a caixa do supermercado passasse a trabalhar na loja de departamento.

 

“Essa mulher que, quando era empregada doméstica, usava sabão de coco, hoje usa Dove. “Mas a continuidade dessa mudança não pode se dar, simplesmente, com medidas econômicas, como acontece hoje, num processo que acaba pressionando a inflação.” E mesmo esse nível de consumo, apesar de ter explodido nos últimos anos, ainda pode ser considerado baixo. “Será preciso aguardar anos e anos de contínua expansão da renda e do consumo para poder falar em verdadeiras classes médias. “Para isso, há uma dificuldade: conciliar o aumento da demanda e do consumo com a necessidade de aumentar substancialmente a poupança e o investimento, ainda insuficientes para garantir o crescimento da economia”, pondera Rubens Ricupero. Parte desse dilema reside no fato de que, no caso recente do Brasil, o endividamento não veio acompanhado de uma dinamização da economia. “Se a indústria tivesse usado isso para ampliar o seu parque, gerar emprego e renda, o endividamento poderia ter sido virtuoso”, pondera Carlos Lessa. “Acontece que o Brasil lançou o endividamento popular de forma irresponsável e está no limiar de uma bolha, que só não vai estourar lá na frente se houver retomada do crescimento.

 

” O patrimônio construído pela classe C está, em muitos casos, atrelado a dívidas longas e a bens que se desvalorizam com o passar dos anos. Além da questão econômica, o que se coloca, para o futuro, é a ascensão educacional e cultural dessa fatia da população. “Minha maior preocupação é que, mesmo dando a essa classe média ascendente as condições econômicas de bem-estar, o País a mantenha como refém de um sistema de informação e de formação cultural que os empobrece, os torna incapazes de compreender o mundo em que estão vivendo”, pontua Belluzzo. “A forma de inserção que o capitalismo permite se dá pelo consumo e pelo endividamento. Isso se transforma numa máquina infernal que vai deglutindo as pessoas, e as vai empobrecendo.”

 

AOS OLHOS DOS OUTROS

A imagem do País que não se mete em confusão e está sempre bem com todo mundo dificilmente persistirá até 2030. A política internacional brasileira deve, cada vez mais, ganhar relevância. “O Brasil, à medida que cresce, vai tendo mais influência no cenário internacional e isso fará com que, inevitavelmente, a diplomacia também tenha de, cada vez mais, tomar posições”,

prevê Celso Amorim, ministro da Defesa e ex-ministro das Relações Exteriores.”Ao contrário do que boa parte da mídia brasileira achava, uma maior presença do Brasil no cenário internacional começou a ser requisitada”, completa, referindo-se ao encontro do presidente Lula com o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad, em 2010.

 

A mudança no jogo de forças no mundo, com a influência dos BRlCS em alta e a Europa encolhendo economicamente, também pode fazer com o que o País consiga uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.”Não podemos ter certeza, porque se trata de uma estrutura rígida e complexa”, diz Amorim. “Mas acho possível.” Ricupero acredita que, mais do que possível, essa conquista é até provável – dada a nova realidade mundial, que trouxe para o primeiro plano não só o Brasil, mas o Japão, a Alemanha, a Índia e a África do Sul. Há, porém, pedras a serem tiradas do caminho. “O problema é conseguir construir um consenso mínimo”, diz Ricupero. “Isso vai depender, entre outras coisas, da eliminação dos vetos de grandes potências (como o da China em relação ao Japão) e da superação das rivalidades regionais (Argentina e México em relação ao Brasil).” Uma das consequências do protagonizou brasileiro é a necessidade de um investimento maior na defesa. “Não se pode ser a sexta ou sétima economia do mundo, e, daqui a 18anos, a quinta ou quarta, e achar que não vai ter de cuidar, de alguma maneira, da própria defesa e contribuir para a paz mundial de uma forma efetiva”, diz Amorim.

 

Enquanto, hoje, o orçamento da Defesa, incluídos os pagamentos dos inativos, é de 1,5%do PIE, esse índice, em 2030, deve estar, idealmente, em torno dos 2,5%. “O Brasil tem energia, petróleo, biodiversidade e é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. São ativos cobiçáveis, e eu não sei qual será a situação do mundo daqui a 20 anos. Vai aumentar a corrida por esses ativos? Pode haver um conflito entre duas superpotências que as leve a usar de meios não tão legítimos para obtê-los. Não é só a Amazônia que está em jogo”, diz Amorim. “O País tem de estar preparado para se defender. Não podemos esperar que outros venham porque, se vierem, vão querer levar a parte deles. Não temos inimigos, mas devemos evitar que ameaças externas se concretizem.”

DIREITO DE TODOS, POSSE DE ALGUNS

“Temos um déficit educacional importantíssimo: estamos na rabeira do mundo. E, apesar de todo mundo falar desse assunto, ninguém cuida. Temos iniciativas tópicas, mas não um projeto educacional”, diz Belluzzo. Tanto o consultor editorial de Carta Capital quanto Carlos Lessa, professores universitários que já viram passar pelos bancos escolares diferentes gerações, demonstram espanto – e preocupação – quando o assunto é o preparo dos estudantes que chegam às universidades, mesmo as mais concorridas. “Os alunos perderam a capacidade do raciocínio abstrato. Eles estão excessivamente expostos a imagens e, simplesmente, não conseguem construir uma hipótese a partir de uma situação concreta.

 

Só são capazes de lidar com o imediato”, exemplifica Belluzzo. “Quando virei reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, descobri que engenharia era a carreira que tinha o mais alto índice de evasão. Achei que fosse por falta de emprego. Não. A causa era a reprovação em massa em cálculo no primeiro ano”, relata Lessa. O ano letivo do brasileiro corresponde a 70% daquele de um europeu. A educação, além disso, foi assolada por certo senso de praticidade. Estuda-se para arrumar um emprego, e não para adquirir conhecimento. E a tecnologia, a despeito de todos os benefícios, parece ter afastado ainda mais a educação do seu sentido mais amplo, o de incorporar as pessoas ao todo social. “Entregar todas essas ferramentas tecnológicas nas mãos de uma sociedade com tamanha fragilidade cultural e educacional é como soltar um vírus da gripe em uma tribo que ainda não foi aculturada. A possibilidade de morte é muito grande”, compara Belluzzo. Caminho semelhante segue o sistema de saúde. À medida que foram tendo mais acesso a alimentos industrializados e a objetos capazes de garantir o bem-estar, os brasileiros passaram a engordar e’a adquirir doenças dos países ditos avançados, como câncer e problemas de natureza psiquiátrica (depressão, ansiedade, transtornos alimentares). O mesmo projeto que coletou esses dados – chamado Brasil 2030 – conclui que o País só terá condições de enfrentar os desafios nesse campo se o Estado tiver uma ação efetiva, fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS)e redirecionando os investimentos públicos no setor.

 

Em tese, quem pode discordar de tais saídas? Mas, e na prática, será mesmo possível ter um país menos desigual e amador no que diz respeito à saúde e educação. Para embasar o “sim” que oferece como resposta à pergunta, Delfim Netto recorre à Constituição: “A sociedade que estamos construindo nasceu na Constituição de 1988e tem algumas coisas que são mais sofisticadas do que parecem. Trata-se de uma Constituição que, no fundo, cria uma sociedade republicana, onde todos estão sujeitos à mesma lei,e constrói um regime que prevê certa igualdade de oportunidades. É por isso que educação e saúde são universais e gratuitas. Isso pode até ser uma utopia, mas é um desejo muito interessante porque vai na direção do processo civilizatório. Educação e saúde nivelam o ponto de partida de todos os cidadãos. Não temos nenhuma das duas coisas, mas o importante é ter isso como objetivo. Em 2030, eu, infelizmente, não estarei mais aqui, mas estou certo de que esse processo terá caminhado”.

SOBRE POLÍTICOS E POLÍTICA

Em duas capas recentes, a revista The Economist apontou, primeiro a Europa como foco e depois os EUA, que as duas grandes questões que o mundo desenvolvido enfrentará, a partir de agora, são: o tamanho e o papel do Estado e a escolha entre austeridade fiscal e investimentos públicos. Terá também o Brasil de tomar esse tipo de decisão política nos próximos 18anos? “O Brasil está enfrentado isso agora. Acho que a sociedade brasileira entendeu que a discussão sobre o tamanho do Estado não tem sentido. O mercado não pode existir sem um Estado suficientemente forte para sustentá-lo. O mercado só pode existir se a propriedade privada e os contratos forem obedecidos”, responde Delfim Netto. “O homem foi encontrando mecanismos para administrar sua vida dentro de um Estado que deve ser limitado, mas capaz de interferir nas questões econômicas. Temos duas grandes instituições: a urna e o mercado.

 

Se o sujeito exagera na urna, rapidamente ele vai para o buraco e vem o mercado e o corrige. Se o mercado adquire muito poder, vem a urna e corrige.” Para Belluzzo, o que está por trás dessas discussões é um problema mais amplo, que atinge praticamente todas as sociedades do mundo ocidental. “Estamos atravessando um momento doloroso, de muitas perdas, que fará com que as sociedades tomem consciência de que elas precisam, outra vez, assumir o controle da economia, desse ‘moinho satânico’, como dizia Karl Polanyi,” Os homens e suas vidas concretas, com suas necessidades e desejos, terão de dar as diretrizes para a política econômica. Ou seja, não será mais possível que ajustes fiscais e medidas do gênero sejam tomados a despeito do dia a dia real das pessoas. “Isso vai levar tempo, mas está muito claro, hoje, na Europa e mesmo nos Estados Unidos, que as pessoas não são mais os sujeitos de suas vidas”, prossegue Belluzzo. “Não vai ser mais possível, no mundo inteiro, e no Brasil especialmente, prescindirmos de um tratamento mais adequado para essas pessoas. E falo, sobretudo, da questão cultural. Nos últimos anos, o capitalismo, sobretudo através dos meios de comunicação de massa, massacrou as pessoas, tirou delas a capacidade de discernimento e julgamento.” Essas mesmas pessoas terão, aqui no Brasil, de recobrar a crença no sistema político. Enquanto, na Europa e nos Estados Unidos, a população deixou de acreditar na economia, aqui a população criou uma aversão a congressistas e mesmo a ocupantes de cargos executivos. “Uma sociedade como a nossa não vai enfrentar o que vem por aí sem a política”, alerta Lessa. “O combate à corrupção era um fato que não existia no Brasil.

 

Foi importante trazer todos esses escândalos à tona, mas o problema é que a mídia é incapaz de fazer o exercício de olhar para o que dá certo, e aí parece que todos são corruptos. Com isso, desqualifica- se a ideia da política.” Para Celso Amorim, a solução para esse cenário de desagregação é uma reforma no sistema eleitoral. “Na parte política, esse talvez seja o maior desafio para o futuro. A gente fala muito da corrupção, mas isso tudo tem a ver com o sistema eleitoral. Eu sei que não existe, no mundo, sistema eleitoral perfeito, mas o nosso é imperfeito demais”, observa. E será possível corrigi-lo? “Teríamos de começar a pensar nisso agora para fazer uma reforma daqui a dez anos. Trata-se de algo complicado porque, naturalmente, os congressistas eleitos pelo sistema não têm interesse em mudá-lo.”

BRASIL, O PAÍS DO FUTURO

Carlos Lessa: Sou de uma geração que acreditou, profundamente, que o Brasil tinha dentro de si uma história maldita, um presente cheio de problemas, mas que o futuro era nosso. Não é à toa que o livro do Stefan Zweig foi um sucesso imenso nos anos 1950.A minha geração aposta no Brasil ainda hoje. Onde está o grupo etário que mantém a fé de que o Brasil contém, dentro do si, um processo civilizatório potencial, vai encontrar gente de cabelos brancos. A juventude está muito cheia de dúvidas. Acho que o Brasil tem possibilidade de criar uma sociedade civilizada, que não existe ainda. E nossa maior força é o povo, criativo ao seleiro: a demografia e a urbanização, que passaram de uma fase explosiva, que pressionava excessivamente os recursos, para uma etapa de aumento lento, em alguns casos, como no da população, com tendência até o decréscimo. As commodities, agora com preços e demanda mais positivos, e o petróleo e a energia, dos quais o Brasil tinha sido sempre deficiente e hoje se converteu em auto-suficiente, com tendência o exportador de porte médio. Mas é importante lembrarmos que tais fatores facilitam o desenvolvimento, mas não o produzem automaticamente. É fácil perceber por quê: tanto a Noruega quanto a Venezuela são grandes produtores e exportadores de petróleo, mas ninguém diria que os dois países tiveram a mesma sabedoria em usar essa riqueza. Também espero, mas não tenho certeza disso, que o Brasil continue a reduzir, como tem feito, a pobreza absoluta e a extrema em bolsões localizados em estados como Alagoas, Maranhão e Piauí. A mesma incerteza pesa sobre a continuidade de ganhos na redução da desigualdade, que vai depender de um crescimento do País a taxas mais satisfatórias e regulares. Renato Meirelles: As mulheres terão um papel fundamental na sociedade brasileira. Basta ver o que aconteceu com as da classe C já estudam mais que os homens. Até 2030, as mulheres representarão metade da economia brasileira. Se já mandavam quando os homens ganhavam mais, imagina o que vai acontecer? Também estou certo de que a sociedade vai cobrar equipamentos culturais, não soem busca de lazer, mas em busca de crescimento também.

 

O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Após a extraordinária inclusão, os mais pobres sabem que para progredir é preciso Investir em qualificação POR ANTONIO DELFIM NETTO.

NESSES PRIMEIROS 18anos de vida de CartaCapital, a sociedade brasileira tem alguns feitos excepcionais a festejar, sendo os mais significativos a progressiva consolidação institucional, o avanço da estabilidade na economia e o processo de inclusão social que estamos vivendo intensamente neste início do terceiro milênio. A partir da Constituição de 1988, o Brasil progrediu de forma às vezes mais rápida, às vezes mais lenta, mas sempre com visível melhora das instituições. A sociedade passou a respeitá-las, o que tornou o Brasil preparado para um crescimento social e econômico melhor do que o que teve no passado. E tem, como privilégio, um Supremo Tribunal Federal que garante os direitos do cidadão. Na economia, desde os primeiros passos do Plano Real, em 1994, o Brasil conseguiu ir domando, ano após ano, o fenômeno inflacionário. E, graças ao sistema de metas, atingiu níveis de estabilidade mais próximos dos padrões mundiais. Entre 1994 e 2002, a insistência em manter a mais alta taxa de juros do mundo e o processo de sobrevalorização do real como base da política de combate à inflação interrompeu o crescimento brasileiro, frustrou o desenvolvimento industrial e impediu a expansão da infraestrutura. Culminou no apagão energético e no desastre cambial que obrigou o País a buscar o socorro do FMI para não ir ao default em 1998 e 200l. Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, o novo governo reverteu rapidamente a ameaça de recidiva inflacionária.

 

E orientou a política econômica para acelerar o crescimento, aproveitando a fase de recuperação da economia global, a esta altura turbinada pela expansão do PIE chinês e de seu comércio exterior. Com estabilidade interna e o aumento da rentabilidade das exportações da agropecuária e da mineração, o Brasil voltou a crescer e recuperou o equilíbrio dos pagamentos. O risco de crises externas, sempre motivo de retardo do nosso desenvolvimento, foi definitivamente afastado, em seguida, ao se confirmarem as reservas petrolíferas do pré-sal. O marco histórico da era Lula é o extraordinário avanço social e econômico produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições e a  redução das desigualdades, em meio à crise financeira global (a maior desde os anos 30 do século passado), a partir de 2007-2008. Ele tomou a decisão fundamental de conduzir a travessia usando todos os recursos do poder para salvar os empregos de nossa gente e garantir a continuidade da produção, estimulando a expansão do consumo. Luiz Inácio Lula da Silva teve a intuição correta, contrariando os “estadistas” da maioria das potências globais, onde até hoje 30 milhões de desempregados pagam o preço da salvação da banca e da higienização das patifarias de seus agentes tóxicos. Muitos deles largaram o poder, afastados pelo voto ou por protestos de seus cidadãos. No Brasil em clima de “pleno emprego”, os eleitores de Lula escolheram em 2010 para presidenta a senhora Dilma Rousseff, que, além de sustentar virtuosas políticas fiscal e monetária, desatou alguns arrochados nós: 1. Prometeu e deu suporte ao Banco Central para reduzir a Selic ao longo de 12 meses (de 12,5% para 7,5%) e levou o juro real ao nível de 2% ao ano. 2. Enfrentou o problema do câmbio, com ações para impedir a sobrevalorização do real. 3. Venceu a batalha para dar previsibilidade às despesas com o funcionalismo público, ao estabelecer limites aos reajustes para os próximos três anos. 4. Deu condições para a redução dos custos trabalhistas com a desoneração das folhas de pagamento. 5. Deu continuidade às reduções do IPI em setores selecionados e obteve o compromisso da manutenção dos empregos. 6. Anunciou um expressivo corte nas tarifas de energia em 2013, mediante a eliminação de encargos tributários, o que reduzirá os custos da produção e aliviará as contas de consumo doméstico. Com tais ações, a presidenta Dilma sinalizou a prioridade da política de crescimento econômico e a aceleração das parcerias com o setor privado, ao avisar que seu governo “vai dar suporte à competitividade em todas as atividades produtivas para garantir, de forma sustentável, a geração de empregos, o aumento da renda, a melhora de sua distribuição e a prestação de serviços de mais qualidade à população”. É quase impossível antecipar o que será o Brasil na geração que vai amadurecer daqui a 18 anos. Há uma evolução demográfica já determinada, que dificilmente deixará de se cumprir. Hoje entendo que o mais importante problema nacional é saber como vamos organizar a sociedade para propiciar empregos de boa qualidade e com salários adequados a 150 milhões de pessoas, a população ativa em 2030. É necessário trabalhar nessa direção.

 

O Brasil tem algumas vantagens imensas e temos de aproveitá-las.L Um setor agroindustrial e pecuário altamente produtivo, que nos ajudou fortemente durante a crise financeira mundial, como ficou demonstrado, pois permitiu ao Brasil se livrar da restrição externa da vida toda. 2. Um setor mineral também muito eficiente. Os dois, tanto o agronegócio quanto a indústria mineral, são grandes poupadores de mão de obra. A produtividade do trabalho nesses dois setores cresce de forma importante: por isso nos tornamos extremamente competitivos, mesmo com as deficiências logísticas de hoje e diante das notórias carências de infraestrutura. Em célere desenvolvimento, os serviços são uma extensão paralela ao crescimento da mineração, da agroindústria e da manufatura propriamente dita. A ampliação do setor representa o aprofundamento do processo civilizatório no Brasil, com a participação cada vez mais intensa da mulher, após ter aprendido com os homens a estudar e trabalhar da forma como eles fazem, e decidir sobre o tamanho das famílias, pois passaram a participar de seu provimento muito mais do que antes. Há 40 anos, cada mulher deixava seis filhos, hoje deixa dois.É por isso que a demografia está dada: não temos mais a possibilidade de mudá-la nos próximos 20 anos. Em 2030, teremos 150 milhões de brasileiros entre 14e 64 anos, para os quais temos de providenciar bons empregos e bons salários. O processo civilizatório exige isso. O Brasil precisa recuperar o estado de sofisticação da nossa indústria, com investimentos pesados no suporte tecnológico da agroindústria, bem como na indústria de mineração, enfim, de toda a manufatura. Não há uma economia só de indústria, como não há uma economia só de serviços: os dois setores caminham juntos. Quando digo que estamos em um processo altamente civilizatório é porque as pessoas acolheram a ideia de que, se não usarem os recursos para educar a si próprios e a seus filhos, não terão como alcançar o progresso.

 

Não é nenhuma surpresa que, relativamente, o gasto com educação das famílias mais pobres seja maior do que nas demais. Elas se convenceram de que só existe um mecanismo de ascensão social razoável: a igualdade de oportunidades. E a igualdade exige um nível maior de educação do que a que atingimos hoje naturalmente. Brasília incorporou a ideia de que é preciso cooptar o setor privado para o País voltar a crescer em 2013, formas importantes: por isso nos tornamos extremamente competitivos, mesmo com as deficiências logísticas de hoje e diante das notórias carências de infraestrutura. Em célere desenvolvimento, os serviços são uma extensão paralela ao crescimento da mineração, da agroindústria e da manufatura propriamente dita. A ampliação do setor representa o aprofundamento do processo civilizatório no Brasil, com a participação cada vez mais intensa da mulher, após ter aprendido com os homens a estudar e trabalhar da forma como eles fazem, e decidir sobre o tamanho das famílias, pois passaram a participar de seu provimento muito mais do que antes. Há 40 anos, cada mulher deixava seis filhos, hoje deixa dois.É por isso que a demografia está dada: não temos mais a possibilidade de mudá-la nos próximos 20 anos. Em 2030, teremos 150 milhões de brasileiros entre 14e 64 anos, para os quais temos de providenciar bons empregos e bons salários. O processo civilizatório exige isso. O Brasil precisa recuperar o estado de sofisticação da nossa indústria, com investimentos pesados no suporte tecnológico da agroindústria, bem como na indústria de mineração, enfim, de toda a manufatura. Não há uma economia só de indústria, como Gargalos. É preciso recuperar a indústria e criar parcerias com os empresários na infraestrutura A sociedade brasileira pretende ser um pouco mais justa que as demais. Ela quer usar o mercado, aceita ter o mercado como instrumento de progresso, mas o mercado tem inconveniente a serem corrigidos pelo Estado. Este, por sua vez, precisa ser a favor do mercado, mas não do comportamento dos mercadores. É a distinção a ser observada. Vamos voltar a crescer em 2013. O governo incorporou a ideia de que precisa cooptar o setor privado para realizar a tarefa do desenvolvimento social e econômico do Brasil.

 

AFIM DA ERA DOS JUROS ALTOS

Para o presidente do Bradesco, as taxas estratosféricas são coisa do passado, como a hiperinflação A COSTÁBILE NICOLETTA E SERGIO LIRIO.

LUIZ CARLOS TRABUCO está à frente de um império. O Bradesco é um dos maiores conglomerados financeiros do Brasil. Por suas agências ou postos de atendimento instalados em cada uma das 5.565 cidades do País passam 5 milhões de clientes por dia. São 10 mil novas contas correntes abertas diariamente. Mas Trabuco, em respeito às tradições de seus antecessores, a começar pelo mítico Amador Aguiar, fundador do banco, define-se como um bancário. Um bancário que cita Marx, defende a (boa) regulação do setor financeiro e anda otimista com o futuro. A começar por um ponto: segundo o presidente do Bradesco, a era dos juros altos ficará para as calendas, a exemplo do que aconteceu com a hiperinflação. E essa conquista, diz, será responsável por uma revolução na economia. “Unida a outros fatores, é crescimento na veia.” Trabuco acredita que o Brasil caminha para incorporar 100 milhões de novos consumidores ao mercado, elogia a convergência de objetivos entre os setores público e privado e aposta na acentuada redução das desigualdades regionais. “O Bradesco preparou-se toda a sua vida para este momento.”

CartaCapital: Como o senhor descreve o Brasil de hoje?

Luiz Carlos Trabuco: O sistema econômico brasileiro tem uma configuração que a China e a Índia não têm. Nem a África do Sul e muito menos os Estados Unidos. Trata-se da possibilidade de uma convergência entre os objetivos do setor público e do privado. A China não tem saúde pública, mas o Brasil tem. Barack Obama, observe, tenta implantar um sistema de saúde nos EUA. Temos o SUS. A Índia não tem previdência social. O Brasil tem. Aqui possuímos saúde pública e privada, previdência pública e privada, bancos públicos e privados. Essa convergência de modelo de desenvolvimento é um diferencial neste mundo em crise. E temos um bônus demográfico. Nas próximas décadas, a população economicamente ativa formará o grosso da pirâmide demográfica. Isso vai representar um mercado de consumo exuberante. Com crescimento econômico, vamos reduzir ainda mais as desigualdades. O Brasil não é um país pobre, é desigual. Podemos agregar 100 milhões de novos consumidores nas próximas décadas. Posso dizer que o Bradesco preparou-se todos esses anos, toda a sua vida, para este momento.

CC: É outro futuro.

LCT: O Bradesco adotou um slogan: “Presença”. Foram muitos investimentos para estarmos em todo o País. E estamos em todos os municípios, 5.565. Qual a crença por trás disso tudo? A de que as desigualdades regionais iam diminuir. O Nordeste tem crescido a taxas “chinesas”. O Centro-Oeste colhe resultados admiráveis. Acho que a redução das desigualdades regionais levará à revisão de dois clássicos da análise político-econômica: Os Dois Brasis e Brasil, Terra de Contrastes. Agora, percebam: quando atingirmos, por exemplo, um mercado com 150 milhões de consumidores vai ter uma expansão brutal das empresas. Temos hoje cerca de 6 milhões de companhias. Com um mercado desse tamanho, teremos 15 milhões de empresas. De todos os tamanhos. O programa micro empreendedor individual, lançado pelo governo em 2008, começou do zero e tem hoje 2,5 milhões de beneficiados. Isso seguramente vai revolucionar o País, pois o setor de serviços, ao lado da indústria, é essencial para a criação de empregos. E os efeitos vão além da economia. Mudam atitudes, mudam gostos, muda a consciência política, mudam as demandas para o Estado. No caso da indústria, também importante geradora de postos de trabalho, o cenário precisa melhorar.

CC: O senhor vê riscos de desindustrialização da economia brasileira?

LCT: Não vejo um cenário de desindustrialização. Mas, nos últimos anos, o câmbio excessivamente valorizado provocou uma perda de competitividade de vários produtos. A indústria contribuiu negativamente para a expansão do Produto Interno Bruto. O que puxou a economia foi a agricultura, a mineração, as commodities em geral, e os serviços. O dólar a 1,50 real era muito danoso às exportações. A presidenta Dilma Rousseff está correta ao dizer que não temos gargalos de produtividade, mas um problema de competitividade. E não dá para ser competitivo quando a logística, o frete, em alguns casos, chega a custar tanto quanto a mercadoria transportada. A redução do custo de energia é importante. Não podíamos continuar com tributos ao redor de 40% sobre o preço da energia. O modelo elétrico, principalmente no caso de usinas mais antigas já amortizadas, precisa ser revisto. Existem condições bastante objetivas para a redução do preço da energia.

CC: E o setor financeiro, como pode contribuir mais para aumentar a competitividade brasileira?

LCT: O custo do capital no Brasil é realmente caro, mas está em queda e vai continuar a cair rumo a uma convergência com o que se vê internacionalmente. O juro básico fixado pelo Banco Central na casa de um dígito, no meu entender, veio para ficar. Acredito que a premissa de que o Brasil precisa de juros altos para ser estável ficou para trás. Como a hiperinflação, é coisa do passado. E a conquista de taxas baixas terá um impacto imenso sobre a nossa economia. Há, é claro, vários pontos a serem melhorados. O País é um dos últimos a cobrar impostos sobre a intermediação financeira. O IOF representa mais de 20% do custo de um empréstimo. E os depósitos compulsórios bloqueiam metade dos depósitos à vista e a maior parte desse capital não é remunerada (a entrevista ocorreu antes da última redução do compulsório armazenada pelo Banco Central). Isso cria um ônus que incide sobre o custo das taxas.

CC: O BC ainda tem margem para reduzir os juros básicos?

LCT:O espaço é menor agora. Vai depender muito da taxa real de juros, ao redor de 2% neste momento. Uma taxa negativa poderia provocar disfunções na economia. Mas nesse patamar, de 2% real, é crescimento na veia. Se junta a outros fatores: mercado interno forte, emergência de classes sociais, situação de quase pleno emprego, renda em alta. É uma perspectiva muito positiva. Uma taxa baixa contribui para a redução de preços e para o aumento dos volumes de financiamento.

CC: Em qual direção irá o crescimento do crédito?

LCT: Metade das famílias brasileira não pega dinheiro emprestado, não toma crédito. Ao mesmo tempo, temos um déficit de casas próprias estimado entre 7 milhões e 10 milhões de residências. Atualmente o crédito imobiliário não chega a 5% do PIE. Se fosse de 70%, como em alguns países, talvez pudesse provocar distorções. Mas não é o nosso caso. Em 10,15 anos, o crédito imobiliário vai triplicar no Brasil, com toda a segurança. E qual será o resultado? Como proporção do PIB, o volume de crédito na economia vai passar de 51%para 70%. Aplaudo a coragem da presidenta Dilma Rousseff, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de mudar a remuneração da caderneta de poupança, um produto muito popular e bem fixado. Ao tirar as amarras da remuneração, projetaram um crescimento sustentável, sem risco de descasamento entre os ativos e os passivos, pois da caderneta sai um grande volume para o financiamento da casa própria.

CC: E o financiamento aos investimentos privados e à infraestrutura? Quando vai diminuir a dependência do setor produtivo dos empréstimos do BNDES?

LCT: Temos ainda muito espaço para crescer pelo lado do consumo. Não dá, por causa dos problemas na infraestrutura urbana, querer impedir um cidadão de comprar um carro. Não é por outro motivo que as principais montadoras do planeta estão instaladas aqui. O consumo tem sido e continuará a ser um vetor importante do nosso crescimento. Precisamos, porém, acelerar o canal dos investimentos. O BNDES, atualmente, um banco de desenvolvimento mais relevante que o Banco Mundial, tem suprido grande parte da demanda. Mas estamos diante da estruturação de um outro modelo. Financiamento de longo prazo depende de funding de longo prazo. O que veremos nos próximos anos? Os fundos de pensão, para manter a meta atuarial de remuneração de 6% mais inflação, terão de sair dos títulos públicos e buscar outros mecanismos de ganho.

CC: Na abertura do setor financeiro nos anos 1990, profetizava-se o fim dos bancos nacionais. Não foi o que aconteceu, ao contrário. Eles ficaram mais fortes no mercado interno. A nova projeção internacional do País vai resultar em uma maior presença internacional da banca brasileira?

LCT: A projeção da economia brasileira no mundo fará e está fazendo com que os bancos brasileiros ocupem mais espaços nas principais praças do mundo. Nosso comércio exterior movimenta 250 bilhões de dólares e a presença dos bancos no financiamento dessas transações é absolutamente necessária. O Bradesco tem uma presença marcante no varejo brasileiro, do Oiapoque ao Chuí. No exterior, temos o Bradesco America, sediado em Nova York, e atuação em Londres, na Europa continental e na Ásia. Qual o objetivo? Fazer banca corporativa, private banking, administrar recursos, dar a possibilidade para a liquidez internacional ser negociada. As empresas brasileiras estão cada vez mais internacionais e isso também abre oportunidades.

CC: Mas o senhor imagina um banco brasileiro forte no varejo em outros países?

LCT: Isso demora mais tempo. O mercado brasileiro requer tanto dos bancos nacionais que não há tempo para se pensar nisso neste momento. O Brasil tem imensa necessidade de investimentos.

CC: O Bradesco já teve participação acionária em diversas empresas, mas se desfez da maioria delas nas últimas décadas. Com essa nova demanda por investimentos, o banco pensa em retomar esse tipo de investimento?

LCT: Não, definitivamente não. A estratégia do Bradesco é muito clara. Queremos ser um banco: financiar, desenvolver o crédito, sermos muito ativos nos empréstimos às pessoas e às companhias. E, em outro campo, crescer no dos seguros e no da previdência privada. Tem muita coisa para ser feita. Caminhamos para ser a quarta maior economia do planeta. Nos países à nossa frente, o consumo de seguro por habitante chega a 4 mil dólares. Aqui está em 500 dólares. Quando se olha o PIE do setor de seguros, o Brasil ocupa a 16a posição.

CC: Em relação à crise financeira internacional, o senhor espera melhora ou piora do cenário?

LCT: Tenho a impressão de que o mundo está se cansando do ciclo da crise. Ele vai acabar até por fadiga de material. O que deve encerrá-lo é a recuperação da retomada da economia dos Estados Unidos, independentemente da eleição em novembro, e a atuação de Mario Draghi, no Banco Central Europeu, para dar liquidez e contingência o custo da dívida soberana dos integrantes do euro. É inimaginável um país da União Européia pagando 7% ao ano de taxas de juro. Portanto, a visão de Draghi é adequada. O euro é um projeto formidável, desafiador. Consegue reduzir conflitos de nacionalidade e as guerras de fronteira. É um projeto civilizador.

CC: Qual foi a grande lição da crise?

LCT: várias. Uma delas, central: os mercados exageradamente desregulados não acabam bem. O importante, o essencial, é encontrar a medida certa para o Estado regulador não inibir a atividade econômica. A regulação bem-feita disciplina, inclusive, a vaidade, o orgulho.

CC: Se a regulação brasileira vigorasse na Europa, a crise não teria tido a mesma magnitude, o senhor concorda?

LCT: Sim. Uma das coisas que o Brasil tem de formidável, reconhecida no mundo, é a regulação do sistema financeiro. São várias as justificativas para que isso tenha acontecido, inclusive pela nossa dificuldade nos anos 1980 e 1990. Temos os depósitos compulsórios, que poderiam ser menores, mas talvez seja pouco um porcentual de 4% como havia em outros países. Nosso índice de alavancagem é mais restrito. O Brasil adotou regras prudenciais muito mais adequadas. No caso do setor de seguros, por exemplo, adotamos os ativos que garantem as chamadas reservas técnicas. É uma proteção contra o risco do seguro e não existia lá fora.

CC: Alguns empresários têm reclamado da taxa de lucro proposta para as concessões de rodovias, ferrovias, aeroportos, de 6% fora a inflação. Com um juro real de 2% ao ano, essa taxa é mesmo baixa?

LCT: No curtíssimo prazo é pequena. No médio e no longo prazo, não. Estamos em um processo de transição, vivemos praticamente um rito de passagem, do período de taxas de retorno muito elevadas. Um investimento de longo prazo com retorno de 6%, acompanhado de um custo de capital menor, torna-se muito adequado. O BNDES baixou o juro do Programa Sustentável de Investimento (PSI), que financia máquinas e equipamentos, de 5% para 2,5%. Foi uma boa medida.

 

SOBRE FRUSTRAÇÕES E SURPRESA

Em 18 anos, uma decepção ungida pelas elites e um fenômeno emanado do povo POR MARCOS COIMBRA.

OS PRIMEIROS 18 anos de CartaCapítal foram marcados, na política brasileira, por uma decepção e uma grata surpresa. Ambas tão intensas que, muito provavelmente, continuarão a marcar os próximos 18. A decepção veio de havermos experimentado a melhor opção que as elites tradicionais tinham a oferecer ao País e de a experiência ter sido considerada quase consensualmente frustrante. A boa surpresa foi o desempenho de uma pessoa do povo como presidente da República. Quando Fernando Henrique Cardoso venceu a eleição de 1994, encerrava-se o ciclo dramático do retorno à democracia. Nos dez anos anteriores, havíamos passado por uma combinação particularmente negativa de crises e desafios: economia estagnada, hiperinflação e as tensões provocadas pelo esforço de construir uma ordem democrática depois de longa ditadura. Como se não bastassem os problemas inevitáveis, ainda tivemos de lidar com infortúnios imprevisíveis. A de 1994 não foi uma eleição para ser disputada, pois seu resultado estava encomendado de véspera. Ninguém conseguiria bater um candidato apresentado como autor do mágico plano econômico lançado meses antes. Os eleitores foram às urnas maravilhados com o homem que, a golpes de genialidade, acabara de derrotar a inflação.

 

 

Com a mística do plano Real somada lectual e político, FHC despachou a eleição no primeiro turno e tomou posse para inaugurar um “governo de 20 anos”. Em seu círculo íntimo, ninguém acreditava que a esquerda teria forças, nesse horizonte, para se contrapor ao PSDB e à sólida aliança que formara ao centro e à direita. Povo encantado, empresariado satisfeito e políticos agradecidos formariam o tripé de uma duradoura “pax tucana”. E que não viesse alguém falar de alternância no poder! Como poderia ter dito Sérgio Motta, o “operador” desse plano: “Quem gosta disso é a oposição”. Só o primeiro passo do projeto deu certo: garantir um segundo mandato a Fernando Henrique. No que foi, provavelmente, o mais bem-sucedido esquema de “conquista” de apoio parlamentar mediante “estímulos” de nossa história, as regras do jogo foram mudadas com a bola rolando (aliás,com muita bola rolando). É possível que o fracasso do projeto de 20 anos peessedebistas tenha começado ali, com a obsessão de Fernando Henrique em permanecer no poder. O novo mandato acabou se revelando um péssimo negócio.

 

Seus problemas crônicos de imagem – pois ele nunca conseguiu estabelecer uma comunicação direta com a maioria da população e sempre foi percebido como distante e elitista – foram se agravando ao longo do primeiro governo, mas permaneceram sob controle pela aura de competência que o sucesso do Real transmitia. Quando, no entanto, a moeda fraquejou na crise cambial de 1999,explodiram. Em outubro daquele ano, a aprovação do governo foi a 8%, menos que Sarney e Collor haviam obtido no pior momento. Aí veio o “apagão” energético e até quem ainda gostava de FHC se assustou. Como explicar tanta imprevidência? Faltando dois anos para completar o mandato, o mais ilustre representante das elites, o que de mais brilhante e habilidoso tinham a oferecer, havia se transformado em um presidente impopular, frágil e com imagem de incompetente. As principais políticas a ele associadas, como as privatizações, pagavam o preço de ter sua marca. Chega a ser cômica a insistência com que alguns teóricos da oposição explicam os insucessos de Serra e Alckmin por sua insuficiente defesa do “legado de FHC”. Deixaram de fazê la para não cometer um suicídio eleitoral, que ninguém pode exigir de um candidato. Não foi a ausência, mas a presença desse legado que derrotou os tucanos três vezes. O fenômeno político mais importante dos últimos 18 anos começou com uma vitória eleitoral e tomou corpo quando Lula se revelou, aos olhos da vasta maioria do País, um bom – para muitos, um ótimo – presidente. Foi uma notável campanha, que deixou as pessoas mais tranqüilas e diminuiu o receio que tinham de arriscar. E a frustração com o outro lado era tamanha que a maioria resolveu que era hora de fazer a grande mudança. É bom, para o sistema político de um país, que o chefe de governo seja uma pessoa querida, que represente os cidadãos com autoridade legítima. Melhor ainda quando, além disso, é competente e capaz de criar boas políticas. Depois da grave decepção com Fernando Henrique, a população teve uma grata surpresa com Lula.

 

Nossas elites tradicionais achavam que ele era um remédio amargo que o Brasil precisava tomar para expeli-lo para sempre. Que, vencendo uma vez, faria um governo tão ruim que nunca mais alguém como ele teria chance. Pensavam que, se 2002 tinha se tornado inevitável pelos erros de FHC, de 2006 Lula não passaria. Passou, reelegeu-se e fez um segundo governo melhor que o primeiro, na opinião de mais de 90% das pessoas. As velhas elites engoliram em seco e pensaram: “Que seja, mas de 2010 não passará”. Passou, com um gesto de alto risco. Só ele para lançar a candidatura de alguém com o perfil de Dilma. E ela está sendo outra grata surpresa. Tanto que tem larga vantagem em relação a qualquer nome da oposição nas próximas eleições. Em todas as pesquisas conhecidas, alcança perto de 60% das preferências, ante não mais que 10% a 15%dos possíveis adversários. Seu segundo ano de mandato está terminando com a popularidade em alta e nada indica que enfrentará problemas em 2013. Pelo contrário. Melhor que Dilma só Lula, que atinge 70% quando é apresentado como possível candidato. Ou seja, hoje, parece muito provável que Lula e Dilma passem de 2014. O que aproxima muito o PT de realizar o sonho tucano de hegemonia durante 20 anos. E 2018? E se Lula resolver voltar? E se Dilma e ele vierem a alternar candidaturas? E se os 16 anos do PT se estenderem com novos nomes (como o PSDB em São Paulo)? É nesse contexto que a atual histeria de um pedaço das oposições se explica. Tudo que puderem fazer para impedir a concretização dessas tendências está sendo e continuará a ser feito. Não é por outra razão que transformaram o julgamento do “mensalão” em um circo. São poucas as oportunidades que têm para desgastar o PT e Lula. Não vai desperdiçar nenhuma. E vão fazer um jogo cada vez mais bruto.

 

SEM SOFRIMENTO NÃO HÁ CRÍTICA SOCIAL

É errado confundir o que nos causa angústia psíquica com um vírus. Os sintomas são nossas realidades POR VLADIMIR SAFATLE.

UM DOS fenômenos mais relevantes da última década foi uma lenta mutação em nossa maneira de compreender a natureza do sofrimento psíquico. Tal questão não é um problema que deveria ocupar apenas psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. A maneira como compreendemos o que vem a ser o sofrimento psíquico é um setor fundamental a respeito da imagem que temos de nós mesmos e de nossos ideais de auto-realizarão. A distinção entre normalidade e patologia, no que se refere à vida psíquica, não é o simples fruto de variações quantitativas, de déficits e excessos relativos a constantes orgânicas. Valores fundamentais na definição tradicional da normalidade, como harmonia e equilíbrio, nascem em campos exteriores à clínica. Não seria difícil mostrar como a genealogia da “harmonia” como valor médico encontra sua origem no campo da estética, da mesma forma que o “equilíbrio” encontra sua origem na política. Essa é apenas uma maneira de lembrar como os valores que compõem o horizonte da saúde são, em larga medida, dependente de valores que a clínica toma de empréstimo dos campos da cultura. O homem é um animal que sofre por não ser capaz de realizar valores que ele compreende, graças a uma experiência sócio-histórica de larga escala, como fundamentais para uma vida bem-sucedida. Lembrar tais considerações aparentemente triviais é fundamental para começarmos a compreender as consequências de certa guinada organicista que submeteu as discussões sobre sofrimento psíquico, ao menos desde o aparecimento do manual de psiquiatria DSM-III no fim dos anos 1970. A partir daí, virou um lugar-comum afirmar que havíamos entrado na era do declínio das psicoterapias, graças, principalmente, ao advento de gerações de antidepressivos, psicotrópicos e neurolépticos que, enfim, dariam conta dos distúrbios e transtornos que afetam grandes camadas da população. Por sua vez, a descoberta de certos paralelismos frutíferos entre estados mentais e estados cerebrais pareceu fascinar pesquisadores encantados com a possibilidade de localizar sentimentos e estados humorais em redes neuronais.

 

Aos poucos, vimos o estabelecimento de um senso comum que tendia a rejeitar explicações etiológicas do sofrimento psíquico que colocavam em relevo os impasses dos conflitos no interior da esfera familiar, as contradições nos processos de constituição social de identidades, em suma, as possibilidades de organização da experiência de si tal como permitidas pela natureza de nossos vínculos sociais. Tudo isso parecia como aquelas grandes metanarrativas sobre desenvolvimento histórico que aprendêramos a recusar. Talvez não seja por acaso que a propalada crise da psicoterapia mais influente do século XX, a saber, a psicanálise tenha sido acompanhada da crise da “metanarrativa” mais influente do século XX, a saber, o marxismo. Nos dois casos, discursos profundamente críticos a respeito dos limites e das modalidades de sofrimento produzidas por nossas formas de vida eram jogados no fundo do baú da história. Que o discurso do ocaso das psicoterapias e da ascensão da era dos antidepressivos tenha sido enunciado, de maneira mais peremptória, quando nossas sociedades liberais quiseram impor a ideia de que eles tinham vindo para ficar e que não havia muito mais a esperar, eis algo que não deve ser visto como uma mera coincidência. Quando Michel Foucault cunhou o belo termo “biopolítica”, ele procurava salientar a maneira como decisões referentes à administração da vida e dos corpos decisões eminentemente internas ao saber médico, não são exteriores à expectativa de valores políticos que queremos implementar. Por exemplo, se em certo momento do desenvolvimento da psiquiatria, a força terapêutica da relação entre médico e paciente foi levada em conta, isso não foi sem relações com noções de autonomia e subjetividade moral que apareceram como valores políticos fundamentais. Devemos lembrar esses fatos, porque é bem provável que vejamos nos próximos anos um retorno crescente pelo interesse em psicoterapias. Freud, à sua época, não cansava de ouvir pacientes que simplesmente pediam para ser ouvidos, como se precisassem, por meio do redirecionamento lento de suas falas, construir espaços de vinculação de suas modalidades de sofrimento psíquico à singularidade de suas posições subjetivas. Que atualmente boa parte de nossos pacientes volte a reclamar do fato de não ser ouvida e de sair de consultórios com uma receita de medicamentos à base de Fluoxetina em tempo recorde, eis um sintoma social que indica exigências de novas abordagens a respeito do sofrimento psíquico.

 

Vivemos em um momento de refluxo da euforia em relação à potência de cura de intervenções medicamentosas. Dizia-se que práticas psicoterápicas eram caras, longas e de resultados duvidosos. Engraçado como poucos lembravam que tratamentos com medicamentos também são caros, profundamente longos, e seus reais resultados poderiam ser mais bem avaliados se a indústria farmacêutica parasse de tentar influenciar resultados de pesquisa e retardar a divulgação de resultados desfavoráveis. Valeria dizer que tal refluxo talvez esteja silenciosamente ligado a uma ideia importante do psicanalista Jacques Lacan, a saber, de que os sintomas são aquilo que muitos têm de mais real. O sofrimento psíquico nunca foi simplesmente algo que deve ser eliminado, como eliminamos o vírus de uma doença orgânica. Na verdade, ele é, muitas vezes, a maneira desesperada que encontramos para dizer a nós mesmos que a estrutura de nossa vida não dá conta de experiências que, no fundo, gostaríamos de integrar. Sem sofrimento não há crítica, pois é a experiência do sofrimento que nos mostra o caráter arruinado daquilo que deve ser criticado. Nesse sentido, talvez devamos apreender como uma lição fundamental do século XX: não há crítica social possível sem compreendermos como o nosso corpo, como os impasses de nossos desejos falam aquilo que lutamos com todas as forças para não ouvir. Eis um bom caminho para o nosso futuro.

O FUTURO NOS FORMIGUEIROS

Enquanto algumas metrópoles ficam mais inteligentes e conectadas, outras parecem caminhar para o caos POR WILLIAN VIEIRA.

o ALTO DOS 103 andares do Guangzhou International Finance Centre, um arranha-céu de 404 metros de vidro e aço, vê- -se a vastidão do crescimento econômico chinês cristalizado na forma simbólica da metrópole. Nascida às margens do Rio Pérola como centro comercial e financeiro do delta que banha a província de Cantão, uma das regiões mais densamente povoadas do planeta, Guangzhou já é uma das cinco maiores áreas metropolitanas do país. O que seus 11,7milhões de moradores esperam agora, orgulhosos, é que a cidade se torne a maior megalópole do mundo, com 42 milhões de habitantes, segundo anunciou o felicíssimo prefeito local. Para interconectar a área às cidades de Shenzhen (8,8milhões habitantes), Foshan (5,4 milhões), Dongguan (6,4 milhões), Zhongshan (2,4 milhões), Zhuhai (1,5milhão), Jiangmen (3,8 milhões), Huizhou (3,9 milhões) e Zhaoqing (3,9 milhões), 29 novas linhas de trem permitirão trajetos de até uma hora de ponta a ponta. Serviços de telefone, água e energia serão unificados. Cerca de 150 projetos de infraestrutura devem ser instalados nas áreas ainda não urbanizadas ao custo de 300 bilhões de dólares em dez anos e fundir seus centros urbanos num imenso conglomerado econômico e social. O caso da China, porém, é singular. Oficialmente, ainda existe o sistema nacional de registro, que impede a migração entre regiões. Após décadas preocupado em manter a população no campo para produzir grãos e evitar o caos nas metrópoles, o governo se concentra agora em planos para construir aglomerados em torno de polos regionais. A megalópole é a saída mais rápida para urbanizar regiões pobres e evitar tensões étnicas. Bastam obras megalomaníacas e o governo consegue coibir migrações para o leste: a força de trabalho instala-se onde os investimentos se concentram e, da noite para o dia, surgem metrópoles, símbolos de status e poder. As três megalópoles que o país tinha em 2000 ganharão a companhia de outras dez até 2020, segundo levantamento da consultoria Economist Intelligence Unit. A nova megalópole nem consta das projeções da Organização das Nações Unidas, mas dá uma ideia da tendência para os países emergentes: aglomerar, de forma deliberada ou não, mais e mais gente em grandes formigueiros humanos, seja de forma planejada, como ocorre no caso chinês, seja de maneira natural e desordenada, como tem ocorrido na África, na Índia e no Brasil. Segundo a ONU, as atuais 24 megalópoles – centros com mais de 10 milhões de pessoas – passarão a 37 em 2025 (mais seis cidades com cerca de 9,5 milhões). Ainda que a maior parte do crescimento tenda a se dar em pequenas e médias cidades, as megalópoles seguirão crescendo, com os prós e os contras de abrigar tanta gente no mesmo lugar. Os contras saltam aos olhos, especialmente nas novas (e pobres) megalópoles da Ásia e da África. Das megalópoles de 2025, três estarão na África e 20 na Ásia – sete somente no chamado subcontinente indiano (Índia, Paquistão e Bangladesh), com suas favelas de centenas de milhares de pessoas e problemas gritantes de saneamento, abastecimento e acesso à saúde e à educação, além da corrupção que bloqueia tentativas de racionalizar o uso de serviços e ampliar programas sociais. “A habilidade de alimentar e suprir de água potável maciças áreas urbanas se tornará cada vez mais problemática nesses locais”, afirma o urbanista Mark Tewdwr-Jones, professor e pesquisador da University City of London (UCL), maior centro de pesquisa sobre megalópoles no mundo. A China já percebeu isso: está comprando terras em outros continentes para alimentar o 1,3 bilhão de  cidadãos que vivem em seu território. Sem um esforço concentrado para racionalizar o fluxo de pessoas e o uso da terra e dos recursos, afirma, haverá o risco de pandemias que rapidamente se espalharão. Pior: boa parte das megalópoles se encontra em regiões com alto risco de catástrofes naturais. “Cada nação terá de enfrentar a tarefa de prover as necessidades dessas cidades, enquanto há incerteza na economia e os impactos do aquecimento global apenas começam a ser sentidos.”

 

A população urbana no mundo aumentou de 750 milhões de pessoas em 1950 para 3,6 bilhões em 2011.Em 2008, pela primeira vez na história, o porcentual de gente vivendo em cidades ultrapassou o da população rural. Em 2030, mais de 60% dos habitantes da Terra serão urbanos e 95% desse crescimento se dará em países em desenvolvimento. A população urbana da África deverá saltar de 400 milhões hoje para 1,2 bilhão em 2050: uma expansão galopante que anuncia o esforço que essas cidades deverão fazer para satisfazer as necessidades de uma massa sem precedentes de gente em busca de uma vida melhor: moradia barata, ar puro, água potável, comida, educação e saúde, segurança e transporte eficiente. O foco da pobreza migrará, cada vez mais, do campo para a cidade. É a urbanização da pobreza. O caso mais emblemático parece ser o de Lagos, capital da Nigéria e megalópole com a maior taxa de crescimento no mundo, onde menos de 1%de seus atuais Il milhões de habitantes tem esgoto. Não há água encanada para a maioria nem eletricidade. Os poucos projetos de planejamento fracassaram: qualquer área pode ser residencial, comercial e foco de prostituição ao mesmo tempo. “As leis de planejamento urbano e as regulações até existem, mas são ignorados, os desafios são muito grandes, dando espaço a meios informais de resolver disputas de terra, o que serve para piorar os problemas, não erradicá-los”, diz Tewdwr-Jones. As favelas de Lagos se espalham por áreas lamacentas infestadas por mosquitos. Um espírito de empreendedorismo a todo custo parece embalar os motoristas dos dano, micro-ônibus amarelos responsáveis por atropelamentos em massa dirigidos por gente do campo atrás de dinheiro. A violência grassa. Ainda assim, todo ano 600 mil pessoas chegam à cidade atrás de emprego e esperança de viver um sonho de capitalismo propagado pelo cinema local, dispostas a enfrentar o custo de vida crescente. Em 2025, Lagos será a na maior megalópole do mundo, com quase 19milhões de pessoas vivendo da mesma maneira. Mas não está sozinha. Em 2030, 2 bilhões de pessoas viverão em favelas, a maioria sem acesso aos serviços básicos. O fato de esses bolsões habitacionais serem dissociados do centro urbano leva à criminalidade, ao tráfico de drogas, à máfia. O Rio de Janeiro é o exemplo conhecido, mas Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, Nairóbi, no Quênia, e a Cidade do México não ficam atrás.

 

Ao mesmo tempo, com a urbanização das favelas, tais locais podem assumir modos de governança voltados aos problemas locais. “A solução para as favelas não está fora delas, mas no reconhecimento de que elas representam a reinvenção da cidade”, diz Cristovão Duarte, professor de urbanismo da UFRJ. “Nas favelas, os pobres tornam-se cada dia menos pobres. Elas são o lobos das redes de vizinhança, das formas de cooperação e ajuda mútua, e também uma forma compacta, racional sustentável de ocupação do solo urbano, otimizando os recursos despendidos para o atendimento das necessidades básicas da vida cotidiana.” Ou seja, na ausência de políticas públicas, as favelas se auto- -organizam; na presença delas, podem permitir a reinvenção da noção de sociabilidade urbana. O caso das UPPs no Rio mostra como o combate à violência permite o florescimento de centros urbanos mais autônomos, urbanizados, com acesso a serviços e em respeito à cultura local. Pois nem só de problemas viverão as megalópoles. Um estudo do Instituto de Meio Ambiente da UCL viu nas megalópoles “a chave para muitos dos desafios do mundo”. Para isso, conclui o documento, será preciso pôr em prática políticas para mitigar os problemas decorrentes do excesso de gente e aproveitar a densidade das cidades. “As que forem capazes de enfrentar o desafio, reconhecendo possibilidades e vantagens das metrópoles e incorporar algumas das soluções que estão surgindo vão se sair melhor desse Susan Zielinski, diretora do Smart, um centro de estudos ligado à Universidade de Michigan (EUA)voltado para soluções de transporte no mundo urbanizado.

 

A mobilidade responde pela maior parte dos atuais problemas das grandes cidades: gastos com energia, poluição, aquecimento global, uso do tempo e do espaço passam pela questão dos transportes. Não à toa, os chineses colocam os investimentos economia fluida, baixa os custos de vida, dá mais tempo para o trabalho (e para o lazer). Com questões como alimentação e água resolvidas, o transporte surge como o desafio central para a gestão das metrópoles. A boa notícia é que prover infraestrutura de transporte é mais eficiente (e barato) em grandes aglomerações urbanas do que em regiões esparsas, e cada vez mais será preciso menos estrutura física para isso, ao migrarmos de tipos únicos para sistemas conectados de transporte. A cidade inteligente do futuro deve ser integrada por sistemas que coordenem o fornecimento de água e energia e regulem o tráfego de carros e pessoas. Menos caos significa menos perda de recursos e melhor qualidade de vida. Projetos pioneiros têm sido criados e aplicados em pequenas cidades-laboratório ao redor do mundo, geralmente com investimentos e suporte técnico de grandes corporações de tecnologia ou Estados ricos e excêntricos. No primeiro caso está Songdo, uma cidadela perto de Seul, na Coreia do Sul, onde a Cisco, fabricante americana de equipamentos de transmissão de dados, tem coordenado seu polo de excelência em tecnologia urbana do futuro: não só a cidade será totalmente ecologicamente correta, mas terá todos os seus equipamentos (água, energia, tráfego, vigilância) conectados por um sistema central inteligente. Entre o laboratório e a megalópole, porém, há uma distância real gigantesca. Mas cidades como Seul, Vancouver (Canadá) e mesmo Hong Kong e Tóquio são a prova de como já é possível aproveitar a densidade para desenvolver sistemas de transporte integrando trens, metrôs e ônibus, além de ciclovias e sistemas inteligentes de tráfego de carros (com informações em tempo real). “Planejar melhor as viagens e aumentar o número de encontros virtuais será fundamental para evitar que as megalópoles sejam lugares disfuncionais e desagradáveis de viver”, diz Ivana Gazibara, consultora do Forum for the Future. “Será preciso focar na mudança de comportamento, criando ciclovias e incentivando as pessoas a deixar o carro em casa.” Exemplos são os sistemas colaborativos inglês (WhipCar) e francês (Autolib), que permitem a troca de caronas. “É isso que vai mudar o jeito como pensamos a mobilidade individual.”

 

Enquanto as cidades européias caminham para um descaso maior em relação ao carro, as capitais da América Latina se abarrotam com os veículos produzidos pelas multinacionais da França, Alemanha e Itália. O próprio modelo de megalópole americano ainda privilegia o automóvel. Los Angeles, por exemplo, é uma das maiores cidades do mundo, em termos espaciais, porém seus habitantes ainda fazem longas viagens por highways de dez faixas em carros movidos a diesel. Mas há o caso de Nova York, que detém uma das maiores malhas de metrô do planeta e ciclovias que funcionam. “As megalópoles trazem maiores oportunidades de formas sustentáveis de vida urbana, já que a concentração permite usos mais eficientes do espaço e da energia. Não só o futuro está nas cidades, como o futuro para uma vida mais sustentável”, diz o especialista em megalópoles John Rennie Short, professor de políticas públicas da Universidade de Maryland e autor de cinco livros sobre urbanização. Nova York é exemplo também de processos de retomada de áreas abandonadas dos centros (gentrificação, na acepção menos pejorativa do termo), mostrando como uma cidade contemporânea é líquida, diz Short, numa analogia direta ao pensamento do filósofo Zigmunt Bauman: ela muda com sua população. Com mais pessoas solteiras e sem filhos, apartamentos  menores e conectados ao emprego essas cidades são o futuro. “Enquanto há muitos problemas, como poluição, congestionamentos e superpovoamento, tremendos passos têm sido dados em algumas cidades globais. Xangai e Cidade do México, por exemplo, têm melhorado muito a qualidade de seu ar”, diz Short. “Com vontade política o mundo conseguirá enfrentar tais problemas.” Esse parece ser o principal problema das megalópoles brasileiras. Segundo a ONU, São Paulo terá mais de 23 milhões de pessoas em 2025 (o Rio terá 13,6 milhões). Elas não vivem problemas de abastecimento, o desemprego é baixo e mesmo as favelas passam por processos de urbanização, reflexo do enriquecimento do País. A população não cresce em ritmo chinês, mas sua frota de carros, sim. Enquanto o metrô, insuficiente, se expande a ritmo lento, não há discussão séria para limitar o tráfego de carros e a política nacional para estimular a economia recai sempre sobre a redução de impostos para a indústria automotiva. Um cenário apocalíptico. Hoje, 33% dos paulistanos gastam mais de três horas por dia no trânsito. Para 19%, são mais de quatro horas, segundo a Rede Nossa São Paulo.

 

Segundo um estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers, nos próximos 15 anos a região metropolitana de São Paulo vai praticamente dobrar o PIE, para 782 bilhões de dólares, e será a sexta mais rica do mundo. A consultoria estima que São Paulo terá, em 2025, 9,5 milhões de habitantes com alto poder de compra. Fenômeno que deverá colocar ainda mais pesa sobre as vias urbanas, inflacionar o mercado imobiliário e encarecer a vida como um todo na cidade. Novo shopping centers gera pólos de tráfego, enquanto mil veículos entram em circulação a cada dia. “Se não houver ousadia e competência para mudar o modelo urbano gestado no período desenvolvimentista, o crescimento reproduzirá, em escala ampliada, o caos e a segregação socioterritorial, que caracterizam a cidade, com graves impactos ambientais”, afirma o arquiteto Nabil Bonduki, professor de planejamento urbano da USP. Tornar as megalópoles inteligentes no uso dos recursos não é apenas uma questão política ou ideológica, mas um imperativo de sobrevivência. “Tomando como premissa a acelerada urbanização do planeta, será nos mega-aglomerados urbanos que se decidirá o futuro da humanidade”, diz Cristóvão Duarte. “Nossas cidades devem ser entendidas como as ferramentas fundamentais na busca das soluções de que necessitamos. E o único caminho para alcançar esse objetivo é assegurar a transparência da gestão pública do espaço urbano.” “É possível promover o crescimento ordenado ligado a um plano eficiente de mobilidade sustentável e gerar bairros mais compactos e sustentáveis. A atual administração perdeu a oportunidade de realizar isso desde o início, mas ainda pode começar através das novas operações urbanas”, diz Carlos Leite, professor da Universidade Mackenzie e consultor em cidades sustentáveis. Mas poucos são tão otimistas. Para o urbanista Candido Malta Campos, enquanto a politicagem e os interesses de grupos privados dominarem o futuro da cidade, as coisas continuarão como estão. “Só teremos a qualidade de vida no topo da agenda no momento em que ela deixar de ser definida por parâmetros de marketing e levar em conta a reconstituição – sempre difícil, conflituosa, efêmera – das instâncias de urbanidade.”

 

PODER FRAGMENTADO

Para o filósofo britânico, a hegemonia dos EUA acabou em 2007 e a ideia de um modelo universal é ultrapassada A GIANNI CARTA.

JOHN GRAY previu o fim do neoliberalismo por uma razão simples: o modelo dos Estados Unidos não poderia ser exportado. Para o filósofo político britânico, o capitalismo nem sequer foi implantado nos EUA. Sua tese, por sinal, foi publicada, em 1998, em False Dawn: The delusions of global capitalism, dez anos antes de a crise do subprime atingir a economia norte- americana. Detratores definem Gray como mais um polemista. Lembram seus flertes com Margaret Thatcher e depois com o New Labour de Tony Blair. Richard Reeves, ex-diretor do think tank Demos, acredita que o filósofo tomou tal postura por ter acreditado, durante breve momento, naqueles governos “quase anarquistas”. Gray cultiva, porém, uma admiração por John Maynard Keynes. Este, diz o filósofo, “estava sempre pronto a mudar suas teorias para tentar profundamente entender o que realmente acontecia no mundo”. Devemos prestar atenção no prolífico intelectual de 64 anos, ex-professor de pensamento europeu na London School of Economics. Para Gray, os EUA não são mais uma superpotência hegemônica e a União Européia está em declínio. Motivo: os problemas do euro são estruturais e, além disso, há a ascensão de potências como China, Brasil e Índia. Os antigos impérios ocidentais, como o britânico e o francês, jamais voltarão à ribalta. Mas isso é “normal”, diz Gray. “Anormal foi o que tivemos nos últimos 200 anos.” Agnóstico, acredita que crenças religiosas “são mais razoáveis” do que a fé no progresso da ciência. E acrescenta: “Só as pessoas que investem seu tempo em bobagens como o comunismo e o neoliberalismo têm medo do niilismo”.

CartaCapital: O senhor diz que a crise de 2008 marca o fim da liderança global dos EUA, assim como o colapso em 1989 do Muro de Berlim pôs fim ao comunismo. Qual é a sua previsão para o novo equilíbrio de poderes internacionais?

John Gray: A perda de hegemonia dos EUA no mundo já ocorreu. Aconteceu quando o sistema financeiro implodiu em 2007, 2008. O que está acontecendo em paralelo a esse fato é a ascensão de novas potências. Não só, é claro, a ascensão da China, mas também a de Índia e Brasil. Portanto, não há poder hegemônico. Um dos erros que se cometem é presumir que, se os EUA deixaram de ser o poder hegemônico, outra nação vai tomar seu lugar. Durante a maior parte da história não houve poderes hegemônicos. Alguém poderia argumentar que no século XIX a Grã- Bretanha era a superpotência hegemônica, mas havia, na verdade, três, quatro ou até mesmo seis grandes potências. Caminhamos de volta para o fim do século XIX, mas com uma diferença crucial: Índia, China e Brasil eram, mas não são mais dominadas pelo Ocidente.

CC: O senhor argumenta em seus artigos que os americanos não acreditam no próprio declínio como superpotência.

JG: Os EUA estão em completa negação do presente. Basta ouvir as opiniões de pensadores como Noam Chomski e os neoconservadores. Afirmam que o declínio americano é auto-infligido. Eles não aceitam o curso normal da história, que é de ascensão e queda das grandes potências. Foi o que aconteceu aos romanos, otomanos, portugueses, espanhóis, franceses, britânicos e agora com os americanos. A ascensão e a queda de nações acontecem com todos os poderes. Os EUA têm, é claro, cometido alguns erros. A Guerra do Iraque, por exemplo, acelerou seu declínio.

CC: Esse mundo sem uma superpotência hegemônica seria mais harmonioso?

JG: Não. A falta de hegemonia significa um padrão diferente de conflito. Em alguns aspectos, os EUA ainda têm algumas vantagens sobre os outros poderes. O projeto europeu, por exemplo, está em declínio terminal. Isso não significa que ele vai entrar em colapso amanhã. Talvez a diplomacia fragmentada mantenha o euro na estrada por mais alguns anos, mas a moeda européia pode entrar em colapso até o fim deste ano. O que aconteceria se a Grécia deixasse a União Européia?

CC: Por que a UE não se materializa como os EUA?

JG: Os EUA tornaram-se um Estado moderno, e aqui mais uma vez volto ao fim do século XIX, como resultado da Guerra Civil. É um Estado moderno e altamente coeso. Enquanto isso, há ape delas é que atravesse uma depressão tremenda, com alto desemprego e problemas sociais. Não vai ser exatamente como em 1930, mas haverá características do nacionalismo e da xenofobia, do anti-semitismo, de ódios, como vemos agora na Hungria e na Grécia.

CC: Não há maneiras de fazer o euro funcionar?

JG: Um euro com menos países poderia ter funcionado.

CC: Mas nesta Europa há dois níveis. O que aconteceria com a parceria entre França e Alemanha, tão essencial para a unificação?

JG: Por isso digo que é um conflito geopolítico e não apenas econômico. O que manteve a Europa em conjunto durante e mesmo após a Guerra Fria foi o poder da Alemanha. A França é uma economia muito mais fraca e poderia liderar, eventualmente, a região Sul da Europa.

CC: O senhor acredita que mais federalismo ou governança ajudariam a economia européia?

JG: É impossível. Os gregos toleraram o grau de destruição e controle de sua economia por estarem com medo de deixar a moeda única. Para eles, o euro era uma espécie de confirmação existencial. Acreditavam na possibilidade de não ser uma potência dos Bálcãs e se tornar parte da UE. Falamos aqui de ilusões. Será que a opinião alemã vai aceitar um desvio de recursos por 10, 20 anos, o tempo e o dinheiro necessários para os países do Sul da Europa se estabilizarem? E esses países aceitarão a deflação e a depressão durante anos e anos?

CC: Então o senhor não concorda com a ideia de François Holande de promover o crescimento para lidar com a crise econômica, em vez de apenas impor medidas de austeridade.

JG: Os problemas do euro são, repito, estruturais. A fim de resolver os problemas na UE, precisamos de uma desvalorização de 20% a 30% em países como Espanha e Grécia. Isso significa quedas de padrão de vida, provavelmente de 30%. Eu não acredito nesses debates de que você precisa de austeridade, mas também de crescimento. Se John Maynard Keynes estives-se vivo, diria sobre o euro o que disse sobre o padrão-ouro: deve ser abandonado. Não é possível ter crescimento na Zona do Euro da maneira como ela é constituída atualmente. Repito, os problemas são estruturais.

CC: A UE não vai substituir os EUA como potência hegemônica, mas e a China?

JG: A China teve a mais rápida industrialização e crescimento econômico da história. Sua redução da pobreza de centenas de milhões de habitantes foi provavelmente a mais completa. Mas há alguns problemas básicos para o país, que estão relacionados com a falta de Estado de Direito. Nos EUA, devo salientar, a coisa também não é perfeita, mas lá seu negócio não pode ser confiscado. O regime chinês diz que, a menos que se possa manter um crescimento de 6% a 7% ao ano, grandes conflitos sociais podem ocorrer. Em outras palavras, há uma falta de legitimidade econômica e política no sistema chinês. Outros países asiáticos não têm essa falta de legitimidade. O Japão teve crescimento negativo durante mais de 20 anos e continua a ser pacífico. Isso me diz que a instituição é legítima.

CC: Como o Ocidente participará nesse novo mundo?

JG: Uma ideia paroquial é que existe um Ocidente contra o resto do mundo. A Europa está totalmente fragmentada e os EUA estão em declínio. É provável que existam mais conflitos entre países do não Ocidente do que entre o Ocidente e o resto do mundo.

CC: Nesse novo contexto, o capitalismo não está morto, mas também não tem sido reproduzido em todos os lugares, como imaginavam os americanos.

JG: Lembre-se de que o modelo americano não pode ser reproduzido na própria América. O sistema financeiro americano está nacionalizado ou seminacionalizado, como na Grã-Bretanha.

CC: Em 1998, o senhor previu em seu livro False Dawn, e à épocafoi entrevitado por Carta Capital, que o modelo econômico americano não poderia se tornar universal.

JG: As pessoas diziam: Gray é apocalíptico, terrível, incompreensível. Menos de uma década depois, o modelo americano implodiu. Assim, a ideia de que o modelo econômico americano poderia ser transportado para qualquer lugar do mundo agora é completamente absurda. Suponhamos que tivéssemos adotado o modelo americano, quando o Consenso de Washington fez incessantes palestras, nos fizeram sermões a cada dia do ano sobre como devemos utilizar seu modelo? Qual seria nossa situação agora? Veja o caso da China, um país que seguiu o próprio caminho econômico. Eles têm problemas graves, mas seu sistema bancário não entrou em colapso. Caso Pequim tivesse adotado o modelo americano, o choque da queda dos EUA teria sido bem maior na China.

CC: Como estava tão certo de que o neoliberalismo entraria em colapso já em 1998?

JG: O motivo não foi apenas enraizado na economia, mas na história. Para mim, estava claro que haveria alguma grande reviravolta porque a conectividade tornou todo o sistema mais vulnerável. Qualquer coisa significativa que acontecesse em qualquer parte seria imediatamente transmitida para o resto do mundo.

CC: Ou seja, os economistas falham.

JG: Eles aplicam métodos de escolha racional que não se encaixam no comportamento humano. Há, no entanto, economistas que respeito muito. Admiro Keynes e não é pelo motivo que a maioria dos keynesianos hoje o admira: o crítico da austeridade. Eu o admiro como engenheiro econômico. Admiro o fato de que, em 1930, ele promoveu algumas ideias que foram adotadas não imediatamente, mas após a Segunda Guerra Mundial. Suas ideias poderiam reverter a depressão. Admiro o profundo ceticismo de Keynes. Ele estava sempre pronto a mudar de ideia e suas teorias para entender o que realmente acontecia no mundo real. Ao contrário de qualquer professor universitário moderno, ele era um investidor bem-sucedido. Ele entendeu, como a maioria dos economistas hoje não entende, a irracionalidade, bem como a racionalidade, dos mercados. Entendeu – esses não são meus termos – que o mercado é uma instituição não diferente de qualquer outra. É propensa, como qualquer outra instituição humana, a acessos de loucura. Lembre-se de um dos aforismos de Keynes: “O mercado pode ser irracional por mais tempo do que você pode ser solvente”. E, ao contrário de economistas contemporâneos, Keynes era um homem culto. Estudava filosofia, história da economia e das ideias.

CC: O que o senhor prevê para a economia política mundial?

JG: Como já disse, vamos voltar ao normal. Essa noção de que deve haver um modelo universal, como o capitalismo ou o comunismo, são ideias do século XIX. Nos anos 1800 e 1700 houve uma variedade de diferentes civilizações e sistemas políticos. A China foi governada por um império, a maioria da Europa foi governada por impérios. Eles eram diferentes uns dos outros e apresentaram diferentes instituições e sistemas econômicos. A diferença é que agora há uma nova tecnologia, a globalização, então há muito mais interação, mais conectividade.

CC: Devemos culpar os EUA pela crise de2007?

JG: Não culpo os hedge funds, e sim o sistema bancário e também os governos. Os governos tornaram-se, na verdade, hedge funds incompetentes. Mas o que faz a economia mundial, em termos de preços de ativos diferentes, hoje em dia? Os mercados financeiros europeus foram interligados por cabos transoceânicos no século XIX. Agora todas as economias estão interligadas. O que torna um país frágil atualmente é a conectividade. Se você voltar para o advento da globalização, que remonta ao século XX, com gente como Thomas Friedman a partir da década de 1990 a 2007, ele era visto como um boom. Dizia- se que a globalização não tinha nenhuma desvantagem. Mas discordo e alguma coisa acontecesse agora na Europa, faria o colapso do Lehman Brothers parecer um passeio no parque.

CC:A conectividade significa que todas as economias do mundo estão a convergir na forma como elas funcionam?

JG: Não. O capitalismo japonês ainda é diferente do americano. Na Europa, o capitalismo italiano ainda tem um monte de empresas familiares, sendo diferente do capitalismo holandês. E o capitalismo britânico é diferente do alemão.

CC:Suas previsões sobre o novo mundo deixam alguns interlocutores desorientados.

JG: Sim, eles ficam desorientados quando digo que o modelo americano implodiu. Isso é o fim da história, dizem. Mas quem fala no fim da história é que está errado. Deixe-me dizer-lhe algo que soa como uma piada. Em outubro de 1989, publiquei uma crítica do artigo de Franeis Fukuyama sobre o fim da história (o livro dele não tinha saído ainda). Meu argumento era o seguinte: a história tradicional está começando de novo, e as guerras serão por recursos humanos, religião, etnia, secessão. Numerosos críticos disseram: “Apocalíptico, isso é terrível”. Apocalíptico é alguém ter dito que a história tinha terminado. A profundidade de irrealidade de numerosos líderes e formadores de opinião é imensa.

CC: Em seu livro Straw Dogs, o senhor diz que os humanos não são diferentes de animais.

JG: Eu digo algo mais forte: eles são animais.

CC: Eu queria ser diplomático (risos). Uma de suas frases, e eu cito, é esta: “O progresso técnico deixa apenas um problema sem solução, a fragilidade da natureza humana. Infelizmente, o problema é insolúvel”. Há sentido para a vida se o homem não tem religião e ciência para a sua salvação?

JG: Todas as religiões e filosofias até 200 anos atrás – e eu não me refiro apenas ao cristianismo, judaísmo, budismo, darwinismo, à filosofia de Platão e assim por diante – aceitaram que os seres humanos são animais imperfeitos. Isso quer dizer que a fonte de dificuldades humanas não é apenas baseada na ignorância, ou em opressões. Se o senhor quiser um modelo secular, leia Freud.

CC: Um dos seus heróis.

JG: É verdade. Mas Freud é impopular porque ele se recusa a lisonjear a humanidade. Ele disse que os seres humanos estão em conflito interno permanente. São conflitos de criação, benevolência, amor, influência, agressão, destruição e crueldade. Não há ideia de salvação em Freud ou em Darwin. Se há salvação de qualquer tipo, ela deve contar com a fragilidade humana. E nesses moldes, você pode ter uma vida altamente significativa. Ela não tem sentido apenas se você investe o seu significado em disparates como o livre-mercado e o comunismo. São mais válidas as crenças em milagres. O motivo? Certas coisas podem acontecer porque são contrárias às leis da natureza. Então, se você acredita que os mortos ressuscitam, Deus vai trazê-los de volta, a sua crença não é baseada na ciência ou no progresso. Você acredita em contrariar as leis da natureza. Portanto, a crença religiosa em milagres é mais razoável do que a crença secular. Mas você não precisa de qualquer tipo de crença para viver uma vida boa. Montaigne, um exemplo de alguém sem interesse na crença, teve uma vida perfeitamente significativa e rica. Só as pessoas que investem seu tempo em bobagens é que têm medo do niilismo.

 

NÃO BASTAM MAIS O SUOR E O SANGUE

Nos Estados Unidos (e no resto do mundo), a classe média foi expulsa do paraíso capitalista POR LUIZ GONZAGA BELLUZZO. M ITT ROMNEY falou, mas não sabe o que disse. O candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos proclamou que, se eleito, não cuidaria dos 47%, os preguiçosos eleitores de Obama, gente sem iniciativa que vive dos programas do governo e não paga impostos. O milionário Romney constata o óbvio,mas só consegue dar uma explicação binária para o fenômeno. Imagino como funcionam seus neurônios: se o capitalismo americano funciona tão bem, oferece oportunidade para todos, recompensa o esforço e o mérito, sentar no colo do governo só pode ser fruto de lúbrica preguiça. Milhões de letárgicos não querem trabalhar nem contribuir para a riqueza coletiva. Romney acerta no fato e tropeça na análise. O leitor já começa a sorrir, antecipando meu menosprezo por tal indigência. Vou decepcionar o amigo: a inteligência de Rommey, assim como a perspicácia de seus seguidores republicanos, está imersa numa espessa cortina de preconcepções e interesses que impedem a compreensão do problema. Ele simplesmente não pode admitir que o capitalismo à americana, modo de vida que o beneficiou e a tantos outros de maneira tão generosa, com seu dinamismo e redução das desigualdades, possa estar naufragando.Vamos relembrar como a classe média americana foi ao paraíso nos tempos do capitalismo regulado e domesticado, aquele que imperou desde o fim da Segunda Guerra até meados dos anos 70 do século xx. Nesse período, ela ganhou corpo, abocanhando os bons empregos criados na burocracia e no chão de fábrica da grande empresa hierarquizada. A divisão do trabalho entre pequenas, médias e grandes empresas impulsionou o empreendedorismo nas camadas medianas e estimulou o progresso das ditas profissões liberais. Nesse ambiente, os sindicatos fortes conseguiam que os salários acompanhassem os ganhos de produtividade. A farta oferta de empregos de colarinho-branco concedia aos remediados a fruição das benesses da prosperidade e as certezas de compartilhar os confortos do sonho americano. Prósperos, felizes, bonitos e harmônicos eram os personagens da série Papai Sabe Tudo (Father Knows Best). Suspeito que os adolescentes de então se apaixonassem pela superamericana filha do casal, a insípida Elinor Donahue, a Betty. É verdade que os negros tiveram de esperar até 1965 para adquirir em sua plenitude os direitos civis. O presidente Lindon Johnson ganhou a batalha que empreendeu contra reacionários como o republicano George Wallace e ainda preparou o projeto da Grande Sociedade. Atropelado pela Guerra do Vietnã, Johnson renunciou à reeleição, justamente no momento em que o esplendoroso crescimento do pós-guerra começava a dar sinais de esgotamento e precisava de novo impulso.

 

A corrosão da matéria social vem de longe. A partir dos anos 80, o projeto conservador produziu persistentemente os resultados que hoje atormentam o incauto republicano. O espectro do livre-mercadismo passou a rondar o chamado arranjo social do pós-guerra. Para os liberais-conservadores, as proezas da “era dourada” revelaram- -se um doloroso engano. Engano que fez prosperar o famigerado populismo econômico, uma forma perversa de politização à ou trance da economia. Parafraseando Eric Hobsbawn, a recomendação dos conservadores era dar “adeus a tudo aquilo” e, com urgência, empreender as reformas necessárias para restabelecer o funcionamento dos verdadeiros mecanismos econômicos, os únicos aptos a garantir a liberdade do indivíduo e promover a estabilidade e o crescimento de longo prazo. Na visão liberal-conservadora, os propósitos de proteger o cidadão contra os azares e as incertezas do mercado terminariam por suscitar efeitos contrários aos pretendidos. A despeito das diferenças analíticas e de método, Hayek e Friedmam sustentavam que os “anos gloriosos” estavam fadados inexoravelmente ao fracasso em sua insana tentativa de interferir nos movimentos “naturais” dos mercados. As políticas monetárias acomodatícias, combinadas com pactos “corporativistas” entre as classes sociais e grupos de interesses, levaria inevitavelmente ao baixo dinamismo e à inflação crônica e elevada. Logo depois os novo-clássicos, escorados na hipótese das expectativas racionais, reforçaram as tropas do reformismo liberal. Expediram uma sentença condenatória ainda mais dura contra a intervenção do Estado, ao proclamar a ineficácia das políticas fiscal e monetária em sua vã pretensão, assim diziam, de limitar a instabilidade cíclica e promover o crescimento da economia. Os governos logo haveriam de aprender: os agentes racionais que povoam os mercados sabem exatamente qual é a estrutura da economia e, usando a informação disponível, são capazes de antecipar sua evolução provável. Não se deixam enganar, nem por um momento, pelo velho truque de estimular a atividade econômica com os anabolizantes nominais da política monetária leniente. Caso insistam nessa prática, políticos e burocratas voluntaristas, em vez de mais empregos, conseguirão apenas mais inflação, salvo na hipótese improvável de que possam surpreender e tapear permanentemente os sagazes agentes privados, implacavelmente racionais.

 

No início dos anos 80, a turma da economia da oferta dizia ainda mais: a sobrecarga de impostos sufocava os mais ricos e desestimulava a poupança, o que comprometia o investimento e, portanto, reduzia a oferta de empregos e a renda dos mais pobres. As práticas neocorporativistas, diziam eles, criavam sérias deformações “microeconômicas”, ao promover, deliberadamente, intervenções no sistema de preços, nas taxas de câmbio, nos juros e nas tarifas. Com o objetivo de induzir a expansão de setores escolhidos ou de proteger segmentos empresariais ameaçados pela concorrência, os governos distorciam o sistema de preços e, assim, bloqueavam os mercados em sua nobre e insubstituível função de produzir informações para os agentes econômicos. Tais violações das regras de ouro dos mercados competitivos culminavam na disseminação da ineficiência e na multiplicação dos grupos “predadores de renda”, que se encastelavam nos espaços criados pela prodigalidade financeira do Estado. Para acrescentar ofensa à injúria, os mercados de trabalho, castigados pela rigidez nominal dos salários e por regras políticas hostis ao seu bom funcionamento – como a do salário mínimo -, não podem mais exprimir o preço de equilíbrio desse fator de produção, por meio da interação desembaraçada das forças da oferta e da demanda. A desregulamentação dos mercados financeiros, a valorização do dólar, a flexibilização dos mercados de trabalho, a concorrência global e a “diáspora” das empresas para outras paragens, bem como as ilusões da “economia de serviços”, juntaram forças para destruir empregos na manufatura, cortar os postos de trabalho na burocracia da grande empresa, mediante sucessivas ondas de downsizing, e jogar os ganhos de renda e de produtividade para o topo da pirâmide. A finança de Wall Street abocanhou com sanha e impiedade as maiores fatias do crescimento da renda. Não foi o governo que correu atrás dos desocupados, mas os desditados é que correram para debaixo das saias do governo. A economia capitalista e seu mercado começarama fazer água. A Grande Recessão tornou o panorama ainda mais sombrio. Hoje, quase 50% da população americana está sentada no colo do Big Government. Os sub empregados, semi- -empregados e desempregados sobrevivem à custa dos programas governamentais.Sustentam a carcaça e a família com o seguro-desemprego, dão de comer aos filhos com os selos de alimentação, os food stamps, e conseguem algum atendimento médico no Medicare e Medicaid. Lamento informar que, desta vez, não serão suficientes reparos no casco. Os danos são estruturais e afetam a configuração da pirâmide social americana. A classe média americana está encolhendo. Cresce o número de working poors. Não é o petróleo de xisto que vai acalmar o turbilhão social. Os que duvidam de minhas afirmações consultem, por favor, a última edição do livro The State ofWorking America, editado pelo Economic Policy Institute. O livro sai em dezembro, mas é possível fazer o download no site do EPI. A análise é exaustiva, rica e cuidadosa, como sempre, no manejo dos dados. Romney pode ficar tranquilo: os 47%preguiçosos não terão ânimo para enfrentar as 460 páginas do calhamaço. As cifras produzidas pelas proezas do capitalismo neoliberal são inequívocas: ao longo dos últimos 25 anos murcharam os empregos de boa qualidade, os salários e os rendimentos medianos andaram devagar quase parando. A concentração de renda na camada superior (1% da população) encontra rivais apenas em países que disputam a liderança no campeonato da desigualdade, como o Brasil. Em seu último livro sobre o tema, Joseph Stiglitz revela que o 0,1%, aquele que habita a fortaleza do 1%de superiores – o topo do topo – dispõe de rendimentos 220 vezes maiores do que a média da grana embolsada pelos 90% restantes. A mobilidade social estagnou: trata-se agora da terra da falta de oportunidades. Na crise, o desemprego entre os jovens bateu em 18% e se dissiparam as ilusões promovidas pelas teorias do capital humano e suas parolagens sobre o papel da educação no acesso a bons empregos e nos ganhos de renda. Os recém-formados carregam às costas milhares de dólares em dívidas “escolares” e dão com o nariz na porta do mercado de trabalho em contração. Aos workingpoors, o capitalismo do desditado Romney agregou os poors experts.

 

LUZES E SOMBRAS

O Islã e a democracia são compatíveis, diz o historiador argelino.

CONHECIDO HÁ muito tempo como o inventor da expressão “o Islã das luzes”, Malek Chebel defende a reforma do islamismo. Suas ideias têm grande impacto. Além de ser o autor que mais vende livros sobre o tema nos países francófonos, ele ensina nas mais prestigiosas universidades do planeta. O historiador das religiões tem nada menos que quatro doutorados: antropologia, tecnologia, ciências políticas e psicopatologia clínica e psicanálise. “Quando o Islã foi livre-pensador, quando libertou a palavra e aceitou que os filósofos fizessem seu trabalho, ele foi brilhante.” Com a vitória de legendas islâmicas no Egito e na Tunísia na esteira da Primavera Árabe, paira a seguinte questão: as democracias são compatíveis com países os árabes muçulmanos? “O Islã é uma crença e, quando isolamos a religião, tudo é possível”, responde Chebel. Para ele, um muçulmano praticante nascido na Argélia há 59 anos, a Primavera Árabe é uma crise positiva. “É salutar, pois considero que o Islã perdeu muito tempo olhando para o passado, em vez do futuro.” O sonho de Chebel seria uma volta à Andaluzia de Averrois e de outros grandes filósofos da Idade Média. – A GIANNI CARTA

CartaCapital: O senhor diz que a crise do Islã começa com a queda de Granada, em 1492, e se acentua com a do Império Otomano. A “verdadeira” crise do Islã não começaria depois da Primeira Guerra Mundial?

Malek Chebel: São crises de valores diferentes. O início da queda do império muçulmano começa em 1492. Os muçulmanos ficaram durante sete séculos na Andaluzia, considerada a parte mais bem-sucedida, luxuosa e definitiva de sua potência. A segunda crise é a queda do califado no início do século XX, com Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), fundador da República Turca e instaurador do Estado laico em 1922. A terceira crise são as colonizações. Durante um século, os muçulmanos foram quase totalmente colonizados por cristãos. Eles se descolonizaram nos anos 1960, mas uma vez livres perceberam que tinham outro problema para solucionar, o fundamentalismo religioso. É outra forma de crise, porque uma civilização não vai de boa vontade em direção ao fundamentalismo se ela não estiver doente. A última crise é a da modernidade. É uma crise salutar, pois o Islã perdeu tempo demais olhando para o passado, em vez do futuro.

CC: O senhor vê um passo em direção às luzes na Primavera Arabe?

MC: Todos esses processos darão em algo positivo. Um movimento histórico tomou conta das populações árabes, que não querem mais ser governadas por soberanos. Seja qual for o regime nos países afetados pela Primavera Árabe, ele deve levar em conta todos os fatores e as realidades políticas locais. Os novos dirigentes não podem mais ignorar o povo, a demanda legítima de liberdade dos jovens, das mulheres e das minorias. E essa mudança talvez seja um estopim para processos democráticos no futuro.

CC:A democracia é compatível com o Islã?

MC: Não se deve reduzir o Islã a uma governança humana. O Islã é uma crença e, quando isolamos a religião da política, tudo é possível. São os autocratas muçulmanos que bloqueiam as democracias. O Islã é compatível com todos os regimes políticos que o homem decidir.

CC: A vitória da Irmandade Muçulmana nas eleições na Tunísia e no Egito não significa um retrocesso em termos de democracia?

MC: É preciso, insisto, distinguir a política da religião. A religião veio depois dos movimentos por mudanças nesses países. De todo modo, parece-me que em certos casos os povos continuam a se libertar de seus déspotas e, de certa forma, de seu colonialismo …

CC: De seu colonialismo?

MC: Sim, alguns desses países árabes muçulmanos não se livraram de uma forma de neocolonialismo, porque, quando os colonialistas partiram, deixaram líderes que os substituíram. Por isso em alguns países ainda ocorre uma descolonização, enquanto outros são recolonizados. Houve, por exemplo, uma coalizão de vários países para derrubar Muammar Kaddafi na Líbia, e isso é uma forma de ocupação econômica. A Síria de Bashar al-Assad é parecida. Há meses a oposição está sendo armada por estrangeiros para derrubar seu déspota.

CC: Na Bósnia havia campos de concentração e genocídio, e nada foi feito. Por que não invadir a Síria?

MC: Seria preciso que os países envolvidos interviessem sem a ajuda estrangeira. Durante anos, o Ocidente trabalhou com esses tiranos. Seria muita hipocrisia depô-los agora. Um mês antes da intervenção na Líbia, Kaddafi esteve em Paris e foi recebido como rei. A meu ver, uma grande parte desses conflitos foi fabricada pelas grandes potências. No caso da Líbia, certamente. E no desfile de 14 de julho de 2008, em Paris, Assad estava na tribuna de honra a convite de Nicolas Sarkozy. Em suma, as grandes potências não são humanistas. São cínicas. Até as potências muçulmanas, quando eram potências, se comportavam do mesmo modo.

CC: Certamente, os norte-americanos estão entre os mais hipócritas em termos de política externa. Eles se entendem bem, por exemplo, com a Irmandade Muçulmana.

MC: O avião de guerra turco que recentemente violou o espaço aéreo sírio, e foi abatido por Damasco, seria uma tática proposta por Washington para envolver a Síria em uma guerra? Os EUA são próximos não apenas da Irmandade Muçulmana, mas dos wahabitas, na Arábia Saudita. Washington é associado a todos os regimes mais autocráticos, desde que no plano econômico eles tenham passe livre, vantagens e privilégios. Os norte- -americanos apóiam uma democracia se ela estiver a seu serviço. Os direitos do homem, a democracia, a laicidade, a Anistia Internacional, tudo isso serve, sobretudo, à imagem ocidental. E a maioria dos países ocidentais faz a mesma coisa. Forçosamente, isso não é bom para o Islã iluminista, é bom para o Islã fundamentalista.

CC: Para fazer surgir democracias seria necessário realizar um trabalho no interior de cada país?

MC: É preciso rumar na direção de uma guerra civil para desalojar os islâmicos, ou combatê-los pelas regras implícitas da democracia? Não há, por enquanto, espírito democrático nos países árabes. Talvez ele esteja em formação. Fomos governados durante anos a fio por autocratas e nos encontramos diante de países ocidentais que apóiam quem está no poder. Além disso, os islâmicos têm uma legenda, o Partido de Deus (Hezbollah), que é bem organizado, tem dinheiro. E o sistema político serve aos organizados em todo o mundo. Sem isso a Frente Nacional na França não teria um só deputado.

CC: A questão então seria educar o povo para que entenda a diferença entre Islã e política?

MC: O Islã precisa de uma espécie de aggiornamento. O imã tem por vocação administrar a mesquita e o palácio? O religioso tem conhecimentos de finanças e relações internacionais? Ele pode governar uma cidade? Essas perguntas são fundamentais para estabelecer se nos países árabes muçulmanos é possível ter um poder laico, ou talvez não laico, mas um poder distinto da religião. Cabe a nós colocar os termos teóricos da emergência do político no centro do palco religioso, com um trabalho constante de explicação.

CC: Por que na opodemos falar de laicidade com muitos muçulmanos?

MC: Porque a laicidade é considerada uma espécie de agnosticismo e, em um Estado mais avançado, uma espécie de ateísmo ou a morte do Islã. Eles não conhecem o sentido da palavra. A laicidade é um fenômeno histórico, ela veio de certos países, entre os quais, a França. Os que querem compreender e têm boa-fé não temem a laicidade porque é um regime que permite precisamente ao Islã existir e ser um “bom” Islã, ao contrário do “mau” Islã que causa medo ao Ocidente. É possível ter uma governança humana ao lado de uma fé e de uma crença voltadas para Deus. Alaicidade jamais impedirá a mesquita.

CC: Mas há divisões entre intelectuais muçulmanos. Tariq Ramadan, professor de Islamismo em Oxford, acredita em separar os muçulmanos “puros” dos “impuros”.

MC: Ramadan, que conheço bem, quer construir a sua igreja. Eu tento construir uma escola de pensamento. Quero ver muçulmanos livres que decidam por si mesmos seu próprio pensamento, sua própria filosofia, seu próprio Islã. Você tem liberdade para ler o Alcorão e compreendê-lo como quiser. Não precisamos de pregadores para decidir ser muçulmanos como o entendemos. As pessoas têm o direito de poder distinguir entre o mau e o bom Islã, pois o Islã se baseia na ligação direta com Deus.

CC: Como o senhor responde a quem o acusa de ocidentalizar o Islã com o objetivo de reformá-lo?

MC: Respondo que o Islã nunca foi tão brilhante como na Andaluzia. Ora, é na Andaluzia que ele teve o maior filósofo Islâmico , Averrois. Um século depois do nascimento do Islã, houve um movimento de livres-pensadores, e eles chegaram ao poder durante algum tempo. Mas a palavra de Deus, por meio do profeta, tornou- -se a palavra dos homens e é preciso poder lê-la e contestá-la com um espírito aberto. Quando o Islã foi livre-pensador, quando libertou a palavra e aceitou que os filósofos fizessem seu trabalho, foi brilhante. Éfácil fazer o filósofo se calar com uma bala. Mas a filosofia não pode ser calada. Luto contra o Islã que impede qualquer indivíduo de se vestir como deseja ou de comer o que deseja. O Islã pode ser uma pedagogia, um chamado, um despertar, ele pode educar as pessoas, mas não tem o direito de proibir.

CC: Depois do 11 de Setembro, a islamofobia piorou. Como combatê-la?

MC: A islamofobia de fato cresceu enormemente a partir do 11 de Setembro. Já na origem o Islã provocava medo nos cristãos. Porque o profeta falava em fraternidade universal, em dimensão caritativa … O Islã não é contra a carne, não é contra o dinheiro. Ao contrário, ele diz “enriqueçam, divirtam-se, sintam prazer”. Portanto, sobre certo número de temas ele estava um pouco nas antípodas do cristianismo. Houve textos assustadores dos padres da Igreja na Idade Média. Sobre o profeta, disseram: “Era um ser humano vulgar que adorava as mulheres e a carne; amava o dinheiro, a seda com que gostava de se vestir, os perfumes … Que horror, maldição!” Mas era uma islamofobia sábia. Era em bom latim, era Voltaire, portanto, reservado a uma elite.A humanidade inteira parte do obscurantismo para as luzes. O progresso científico, as viagens, a internet, os debates internacionais, tudo vai servir para a transparência e o esclarecimento. O Islã também, como os outros, vai se beneficiar das mudanças. O movimento paralelo hoje é que tudo é popular. Todo mundo quer pensar por si mesmo, quer ter sua liberdade. Tudo isso é positivo, mas ao mesmo tempo tudo se generaliza. Portanto, a islamofobia e os preconceitos evoluem com esse desenvolvimento da humanidade. Depois do 11 de Setembro, muitos se encontraram em uma posição de dar opiniões sobre o Islã. Unicamente porque viram as imagens na tevê. Quando viram aqueles aviões derrubando as torres e lhes disseram que foi Bin Laden, um muçulmano inimigo do Ocidente … cada um na rua tinha uma opinião sobre o Islã. É o drama da sociedade de hoje. Tudo se generaliza em grande velocidade. Antes as transmissões eram feitas depois de longos anos de conhecimento. O povo tornou-se ele mesmo juiz e a televisão, o Parlamento. A decodificação é feita individualmente. É por isso que os preconceitos vão se expandir, se proliferar.

CC: Como o Alcorão interpreta a Jihad, a guerra santa?

MC:AJihad não é válida se você fizer uma guerra injusta, contra um inimigo mais pobre. Nesse caso, não é guerra santa. Mas a Jihad pode ter outras interpretações. Eu, por exemplo, faço uma Jihad intelectual. Meu trabalho é transmitir o conhecimento diante da ignorância. E o senhor também faz uma Jihad ao informar seus leitores. A palavra Jihad tornou-se mais rica, mas a base continua a mesma: não há Jihad se a causa for injusta. AJihad é uma guerra, repito, de autodefesa. Épor isso que a Argélia, quando fez a guerra contra a França, fazia uma Jihad. Ela queria se libertar de um inimigo externo.

CC: Em dois versículos e meio do Alcorão o senhor diz que é difícil interpretar se a mulher deve ou não usar o véu.

MC: O Alcorão é composto de 114 capítulos e 6.218versículos. A meu ver, para que haja um dia uma modernidade no Islã, é preciso que os muçulmanos aceitem distinguir os versículos de mística, de veneração a Deus e de teologia pura dos versículos sociais.É aí que se encontra a divisão.O objetivo é simples: a chegada da democracia, a separação do poder político do poder religioso. No Alcorão, trata-se de assuntos sociais, de respeito pelo outro, de problemas de dinheiro, de vestimenta, viagens, conhecimento, ciência, modernidade, das mulheres. São versículos conjunturais. Eles eram válidos no século VII. Ainda são válidos?A ligação com Deus é permanente, mas os versículos conjunturais são o que eu chamo de versículos temporais, pois há versículos atemporais e versículos temporais. E eles devem ser discutidos. Por isso lutei contra a imposição do véu na França. Segundo minha leitura do Alcorão, o livro sagrado deve estar a serviço dos muçulmanos onde quer que se encontrem. Você não pode impor a uma mulher no deserto que se vista do mesmo modo que uma mulher no PoloNorte. Portanto, é preciso interpretar os versículos temporais que falam das mulheres, do casamento, do concubinato, da escravidão, de todo tipo de assunto.

CC: Mas se uma mulher quiser usar o véu, como o senhor reage?

MC: Eu defenderia totalmente sua opção, se for realmente livre. Muitas vezes as mulheres dizem que são totalmente livres, mas na verdade o quadro em que elas agem não é realmente livre. Por exemplo, uma adolescente é livre para escolher, mas ela tem um irmão mais velho ou sua mãe, ou a família que cuidam dela.

CC: Por que existem problemas como a excisão feminina no Islã?

MC: A excisão (extração, por exemplo, do clitóris) não faz parte do Islã. A parte que a pratica não era muçulmana um século atrás. Com frequência os homens querem privar as mulheres de seu potencial de prazer, pois quando você priva a mulher de seu clitóris você a subju ga, e essa castração se torna útil para os déspotas e os misóginos. A liberdade sexual é uma liberdade fabulosa. Portanto, o combate que travo não é somente pelo Islã das luzes, mas também contra o obscurantismo de modo geral.

CC: Qual é o seu prognóstico para o Islã em2030?

MC: As religiões vão continuar a se desenvolver. O que provoca esse fenômeno é o temor planetário do nuclear, do aquecimento climático, a desregulamentação em nível monetário e em nível político. Não há liderança internacional que seja justa. Cada vez mais as pequenas religiões vão guerrear entre si. Xiitas contra sunitas, coptas contra muçulmanos, sudaneses muçulmanos contra sudaneses cristãos. Não creio em uma guerra entre duas grandes religiões monoteístas, mas sim em uma disseminação dessas guerras localizadas em nível planetário. Minha esperança para 2030 é de que a espiritual idade se desenvolva suficientemente no mundo. Os casamentos mistos têm um futuro. O conhecimento racional ainda tem belos dias pela frente. Não é somente a emoção religiosa que vai governar o planeta. Todas essas coisas devem conter um pouco o progresso exponencial da religião ou das seitas.

 

MENOS DOUTORES?

A medicina deverá se tornar mais barata e virtual com participação maior de enfermeiros, técnicos e robôs.

COM MAIS de 8 bilhões de seres humanos sobre a Terra em 2030, a maioria em países em desenvolvimento e com novas demandas por qualidade de vida, seria óbvio pensar na urgência de uma multidão de médicos. Países pobres de população crescente como a Nigéria têm menos de cinco médicos por 10mil habitantes. A Índia, com 1,2 bilhões de habitantes, não tem sete doutores por 10mil cidadãos – os Estados Unidos têm quase 25. Mas a resposta médica a esse cenário não vai se dar em progressão aritmética: com o avanço da tecnologia, uma parte cada vez maior do diagnóstico e mesmo do tratamento de doenças, especialmente as crônicas, deve migrar das mãos dos médicos para as de técnicos e enfermeiros e até para robôs e telas de computador e celular. Com a internet universalizada, em 2030, serão os próprios pacientes os protagonistas de uma silenciosa revolução da medicina. Foi com a certeza de não poder tratar problemas do século XXI com a medicina do século XX – isso exigiria milhões de médicos, algo impossível para países pobres e rurais – que o doutor Devi Shetty abriu o Hospital Narayana Hrudayalaya, em Bangalore, na Índia. Hoje são 14 unidades a oferecer cirurgias de coração por 2 mil dólares (dez vezes menos que nos Estados Unidos). “Só 10%da população mundial tem acesso a essas cirurgias. Vidas são perdidas por esse preço”, afirma Shetty. Por trás do discurso generoso do senhor de grossas sobrancelhas e ar de executivo que se transformou num messias dos pobres indianos, há uma fórmula para explicar os 250 milhões de dólares de lucro ao ano: reduzir ao máximo a participação de médicos. Um exército de enfermeiros e técnicos faz quase tudo. Os cirurgiões, especializados em uma ou duas técnicas, realizam só as tarefas complexas. Os diagnósticos são feitos pelo Skype, em conversas pelo computador. Em breve, tablets conectados a um computador central permitirão às enfermeiras monitorar os pacientes e só chamar o médico se for grave. Foi batizado de Ford da medicina. Ao menos em países em desenvolvimento, a tendência veio para ficar. “Nos Estados Unidos, o estilo da prática médica tem sido ditado pelas aspirações financeiras dos fornecedores, que administram o negócio como um cartel”, diz o professor de políticas de saúde da Universidade de Princeton, Uwe Reinhardt. “Os preços negociados entre seguradoras e hospitais são segredo de mercado. Ninguém sabe o custo de nada.”

 

Ex-presidente da Associação de Pesquisa em Serviços de Saúde dos Estados Unidos e um dos maiores pesquisadores sobre os custos médicos no mundo, Reinhardt diz que a tendência para as próximas décadas é essa: o foco de inovação, se não em termos de medicina de ponta, ao menos em termos de saúde pública deve se inverter, migrando dos países pobres para os ricos. “Tais países vão desenvolver procedimentos de custo menor para sistemas de saúde de primeira linha. Eventualmente, na luta contra os gastos em saúde, acabaremos importando esses procedimentos até nos Estados Unidos.” Em países com sistemas de bem-estar social assegurados pela Constituição, baratear os custos e aumentar a produtividade são um imperativo. Para realizar 3 bilhões de procedimentos ambulatoriais, meio bilhão de consultas e 12 milhões de internações por ano, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou 123 bilhões de reais em 2009. Com a medicina cada vez mais cara e tratamentos de ponta exigidos em escala maciça, manter o acesso é uma questão tecnológica. “Se falarmos em medicina personalizada, nanotecnologia, células-tronco, as tendências do futuro, sem reduzir custos e ampliar o acesso, corremos o risco de fragmentar a saúde”, afirma Carlos Gadelha, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. A tendência, diz, são programas direcionados, uma medicina personalizada, molecular e genética, associada a políticas de massa. Há cerca de um mês o SUS incorporou o medicamento trastuzumab, efetivo em portadores da proteína HER-2. Ou seja, para detectar as mulheres sensíveis ao tratamento e reduzir os custos com medicação, o governo fará testes genéticos em todas as pacientes com câncer de mama tratadas pelo SUS.”Num cenário futuro, a análise genética será usada para identificar pessoas com suscetibilidades a problemas como colesterol e câncer e estimulá-las a praticar exercícios. E economizar tratamentos caros e menos efetivos.”

 

Do contrário. os sistemas de saúde no mundo entrariam em colapso. Os custos da medicina são de longe o maior problema fiscal. “A maior ameaça ao orçamento de nossa nação é o crescente custo da saúde”, disse o presidente Barack Obama em 2009, quando a reforma do sistema de saúde americano foi proposta, para desespero dos conservadores – muitos entre os mais de 1,5 milhão de cidadãos que perdem sua casa a cada ano por dívidas com despesas médicas. A saúde corresponde a 1em cada 6 dólares gastos nos Estados Unidos. “O limite será quanto de sua renda uma sociedade quererá gastar com serviços de saúde”, diz Paul Newhouse, diretor do Vanderbilt Center for Cognitive Medicine. Cada país busca uma maneira de sofisticar esse gasto. O consenso aponta para a redução do atendimento em hospitais e o aumento do tratamento a distância. No México há o Medicall Home: o paciente é monitorado por telefone. Se o caso exigir tratamento mais complexo, uma consulta pessoal é agendada. Dois terços das demandas são resolvidos assim. Em Gana, um sistema permite a médicos enviar mensagens de celular a pacientes em vilas remotas, cujo deslocamento seria não só difícil, mas improvável. A queda na mortalidade infantil foi radical. E há os laboratórios em casa: aparelhos que medem pressão, glicose, batimentos, monitorados por técnicos. Estão funcionando. Seria o fim do hospital para parte dos casos crônicos? “Não, mas muitos pacientes serão tratados em casa, monitorados por aparelhos e cuidadores. O médico só agirá quando soar o alarme”, diz Roberto Luiz d’Avila, presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). “Essa é uma tendência a se consolidar.” Tanto num nível global (promovendo atividade física e dietas saudáveis) como individual (uma só pílula para combater várias doenças), a saúde deve migrar do hospital para o lar. “Além da manutenção em casa, haverá mais atendimento de profissionais ligados às comunidades, fazendo promoção de saúde com grupos de escolas, empresas e bairros”, diz Rachel Nugent, pesquisadora da Universidade de Washington e ex-diretora de saúde global do Center for Global Development. E não por acaso. A expectativa de vida no mundo tem crescido. Em 2030, segundo o Banco de Desenvolvimento Africano, a idade média no continente, hoje em 57 anos, alcançará 64. Acima de 2% da população dos países ricos terá mais de 65 anos até lá: seis anos depois, a marca será alcançada pela China e seus 1,3 bilhão de habitantes. “Além da importância crescente da gerontologia, o mundo focará mais a prevenção de doenças e a diminuição dos anos vividos de forma ruim.” Com tanta gente vivendo tanto, o número de indivíduos em busca de apoio médico para doenças crônicas vai disparar. Com mais informações e mais conhecimento público sobre doenças,a tendência é que as pessoas se sintam mais doentes e busquem cada vez mais uma inalcançável cura. O custo seria impagável. “Não há dinheiro para custear essa medicina de desejos. Se não fizermos algo, o médico se transformará num técnico repassador de exames, atendendo a anseios de pacientes e operadoras”, diz d’Avila. É um ciclo vicioso. Hoje, a medicina presencial depende de planos de saúde, que pagam pouco pela hora do médico. O resultado são consultórios que tentam atender o máximo de pacientes. As consultas são reduzidas a conversas de dez minutos, pedidos de exames e um “até logo”. O grau de profundidade do atendimento despenca. Para se proteger de processos, o médico pede exames desnecessários e caros. Assim, o sistema todo fica mais dispendioso e piora. Inovações que reduzam a exigência de médicos podem resultar em uma medicina melhor a custos mais baixos. Todos os exemplos apontam na mesma direção: um futuro virtual. Se o pêndulo da medicina se move na direção do fordismo, já se desenha outra migração: do papel para a tela. Um exemplo indiscutível da revolução perpetuada paulatinamente pela internet na medicina é o SimulConsult, ferramenta de crowdsourcing usada para diagnosticar doenças neurológicas. (Crowdsourcing é um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas.) Criado pelo pediatra Michael Segal, o SimulConsult permite ao médico digitar os sintomas e os resultados de exames: o programa produz diagnósticos e dá a probabilidade de cada um. A empresa já divulgou o Genome-Phenorne Analyzer, programa para cruzar dados de seqüenciamento genético com análises clínicas e até dados fenotípicos, o que no futuro pode revolucionar o tempo gasto para obter diagnósticos complexos. Até as redes sociais participam da revolução. Jay Parkinson, um médico americano, criou uma espécie de Facebook da saúde: uma plataforma com chats, posts e visitas virtuais diárias de pacientes que, segundo ele, revolucionaria a medicina e reataria a relação pessoal entre médicos e pacientes esmagada pela atual pressão dos custos e planos de saúde. Virou o Myca, um programa para ajudar o médico “a construir sua prática médica ideal”, que usa a plataforma Helio Health (ela permite ao médico armazenar e acessar dados e exames e contatar o paciente por mensagens e e-mails e ainda checar diagnósticos com outros colegas). Por seu turno, o paciente pode escolher os especialistas que deseja consultar e marcar online as consultas presenciais, além de poder falar por vídeochat com o doutor (as chamadas e-visits) e de escrever tudo o que sente – ou seja, de adiantar boa parte do diagnóstico.

 

É a tendênciada medicina das próximas décadas: transferir para o próprio paciente, com auxílio de celulares, computadores e outros aparelhos, ao menos as primeiras etapas do tratamento. Tecnologias desenvolvidas por gigantes como General Electric, Philips e Bosch permitem que um cliente em casa, ou com a ajuda de familiares, meça níveis de açúcar, pressão sanguínea, além de temperatura e peso. O Health Buddy (algo como “amiguinho da saúde”) tem programas diversos de acompanhamento de doenças crônicas. Todo dia, o robozinho faz perguntas, computa índices obtidos por outros aparelhos, cruza-os com as respostas e envia um relatório ao hospital. Dependendo do resultado, um funcionário entra em contato e marca uma consulta por telefone. Com sistemas de acompanhamento como esse, será possível atender muito mais pacientes a menor custo para os sistemas de saúde. Enquanto isso não vira a regra, os pacientes em potencial se arvoram o direito de se consultar sozinhos, via internet. A cada ano, 180 milhões de americanos usam a rede para pesquisar sintomas de doenças ou se municiarem de informações antes de uma consulta. O Brasil não fica atrás. Com o crescimento do acesso e da quantidade de informações disponíveis, a tendência é que a internet tenha um papel cada vez maior nos diagnósticos, ao menos no grau de informação com o qual o paciente vai “confrontar” a doença. Um fenômeno que levará cada vez mais gente a buscar médicos – reais ou virtuais. Mas e nas situações em que somente o médico é capaz de resolver o problema, como cirurgias complexas? Os hospitais mais sofisticados do Brasil dispõem do robô Da Vinci para realizar cirurgias no fígado e no pâncreas, por exemplo. Bastam pequenas incisões de 1centímetro para que o robô insira seus braços mecânicos no corpo e opere, sob a pele, com praticamente as mesmas ferramentas usadas pelos médicos e movimentos de uma precisão impossível à mão humana. Com o uso de câmeras e a melhora na qualidade da internet, será possível operar a distância. Basta o médico sentar de frente para um console e operar os controles, enquanto acompanha a cirurgia por meio de um visor 3D. Na sala, apenas o paciente e os enfermeiros. Com cortes mais precisos, a recuperação é mais rápida e os custos com internação caem. Com o ensino da robótica nas faculdades e a disseminação dos registros eletrônicos dos pacientes, uma nova geração de médicos high tech está a caminho. O que deve ficar para depois é o uso intensivo de nanotecnologia e células- tronco para combater doenças e a predição de males por meio de análises genéticas. Segundo estudos recentes, a probabilidade de predizer doenças a partir do DNA é pequena. Falar de cura do câncer e do fim dos transplantes com nanotecnologia também parece ficção científica ainda. Pesquisas como a publicada há poucos meses na revista Nature trabalham com a possibilidade de usar os chamados nanorrobôs, verdadeiros origamis feitos a partir de DNA que conseguem identificar células cancerígenas, alterar a própria formatação e liberar drogas que as destroem. Mas os testes ainda não foram feitos em seres vivos, menos ainda em seres humanos. Até alcançar escala industrial, então, estréia no mercado não deve acontecer antes de 2030. Nanodrogas farmacêuticas parecem mais promissoras em curto prazo. O grupo Cerulean Pharma, dos Estados Unidos, desenvolveu a CRLXlOl, tecno logia que permitiria o uso de uma droga tóxica em nano esferas seletivas, que só atacariam as células do tumor. Mas nem seu porta-voz fala em cura. O objetivo da empresa seria transformar o câncer em uma doença crônica, tratável, como a Aids. A sempre perseguida cura da síndrome, essa sim, parece cada vez mais próxima. Relatos clínicos de cura, como a do famoso “paciente de Berlim”, apontam para transplantes de medula como uma luz no fim do túnel, ainda que o procedimento, arriscado e caro, não seja uma realidade para a epidemia na África, por exemplo. Testes avançados em vacinas como a Aidsvax têm sido feitos mundo afora. Eventualmente um deles encontrará uma cura, ainda que nenhum pesquisador sério fixe uma data para a erradicação da doença.

 

Até O século XIX, a medicina costumava lidar apenas com o arrefecimento de dores e alguns sintomas e usava sangrias e sanguessugas para tratar quase tudo, de gripe a câncer. No século XX, avançamos na cura de várias doenças e no diagnóstico de muitas outras. Nas próximas décadas, garantem os especialistas, a medicina deverá ser cada vez mais individualizada, com o uso universal de registros eletrônicos para cada paciente e doença. Haverá maior participação de enfermeiros técnicos e do próprio paciente. E boa parte da medicina será realizada a distância, via celular ou outros aparelhos, e em casa. Isso reduzirá custos, permitirá a ampliação da cobertura do atendimento e evitará o colapso dos sistemas universais de saúde. “O que não é possível é a substituição do médico”, diz d’Avila. Ele cita a Inglaterra como exemplo. O país cobre 80% dos gastos em saúde com dinheiro público. Uma rede capilarizada de clínicos atende no próprio bairro. Cada britânico tem o próprio médico. “Sem uma medicina humanizada, não adianta tecnologia.” – POR WILLlAN VIEIRA

 

SOCIEDADE DE MERCADO

Tudo está à venda, critica  o aclamado professor de Harvard, até as democracias contemporâneas A EDUARDO GRAÇA, DE NOVA YORK

S AULAS de Michael J. Sandel são as mais disputadas da Universidade Harvard. Mais de 3,5 milhões de webespectadores a assistiram no site de vídeos YouTube. Autor do campeão de vendas Justiça, o que É Fazer a Coisa Certa, o acadêmico lançou neste ano O que o Dinheiro não Compra, os dois editados no Brasil pela Civilização Brasileira. Em seu estudo mais recente, Sandel, que em entrevista a CartaCapital disse saber “estar remando contra a maré”, ataca os excessos do período histórico por ele batizado de “era triunfal do mercado”. “Estou me referindo aos últimos 30 anos, desde a revolução conservadora de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, até os dias de hoje, em que não temos mais uma economia de mercado, mas nos transformamos, de fato, em uma sociedade de mercado.” A diferença parece sutil, mas os exemplos selecionados pelo filósofo de 58 anos, eleito pela revista Newsweek o estrangeiro mais influente neste ano na China, e dissecados no livro cujo subtítulo clama pelos “limites morais do mercado”, são tão banais quanto estarrecedores. O Estado paga crianças para ler livros em escolas públicas americanas. Pessoas tatuam na testa o símbolo de determinada marca e se transformam em propagandas ambulantes. Órgãos humanos são vendidos e/ou alugados. Direitos de cidadania são comprados a preço de ouro. Tudo está à venda, inclusive, e talvez mais escancaradamente, ele aponta, a democracia. Parte da academia reclamou por Sandel não apontar soluções para a inexistência de um “debate público” sobre a onipresença  do dinheiro na vida social do mundo ocidental, mote principal de O que o Dinheiro não Compra. “Sandel não trata, por exemplo, de como a crescente desigualdade social no mundo desenvolvido gerou uma nova cultura de auto-afirmarão moral que iguala riqueza com virtude”, escreveu Michael Ignatieff na The New Republic. Não por acaso nossa conversa começou com o tema das políticas públicas elaboradas para se reduzir o abismo entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil, e seguiu pela desimportância aparente dos políticos e seus partidos nas democracias liberais, o papel da mídia e do mundo acadêmico na discussão sobre a prostituição da vida contemporânea e dos meandros da democracia americana, que vê em novembro o fim de um processo eleitoral, de acordo com o escritor, “comprado pelos mais ricos”.

CartaCapital: Em O que o Dinheiro não Compra, o senhor menciona que a ditadurada sociedade de mercado, vigente há três décadas, tem pelo menos duas consequências inevitáveis: o aumento da desigualdade social e da corrupção. Curiosamente, a última década viu o Brasil reduzir sua gigantesca desigualdade social…

Michael J. Sandel: Sim, mas no Brasil o efeito na diminuição da desigualdade não vem apenas do crescimento econômico do País, e sim no desenvolvimento de programas sociais, não?

CC: Sim. Esta é uma diferença importante, não?

MJS: Sim, é muito impressionante. Um dos grandes desafios para o mundo ocidental é o de traduzir crescimento econômico em segurança social que possa de fato afetar a vida dos que vivem no piso da sociedade. Os benefícios do crescimento econômico precisam ser divididos de forma mais ampla. Um dos problemas enfrentados por sociedades que experimentaram crescimento econômico acelerado é justamente este. O Brasil é um exemplo de esperança. E, quando afirmo que outros países poderiam aprender com vocês, penso em países desenvolvidos, inclusive os EUA. Neste mesmo período de que trato no livro, Washington não soube dividir os dividendos da maior economia do planeta de forma aceitável com as parcelas mais pobres da população. A desigualdade social aumentou nos EUA nos últimos anos, em ritmo oposto ao do Brasil.

CC:Mas o clima político nos EUA permite essa discussão pública sobre o tema que o senhor propõe? Quando o presidente Obama apresentou seu projeto de reforma da Saúde, a mera menção de um estudo sobre a implantação de um serviço público de saúde foi vista por boa parte da sociedade como socialização da medicina.

MJS: Sinceramente, espero que essa discussão seja possível. Um de meus principais objetivos com o livro foi O de encorajar, provocar, inspirar um debate público sobre o papel do mercado e do capital em nossa vida. Nos EUA, esse debate não aconteceu. Nunca.

CC: Mas por que este debate nãofoi feito?

MJS: Talvez tenha a ver, em parte, com a profunda desilusão política, o desprezo geral pelos partidos políticos. As pessoas estão desengajadas e o discurso público abdicou-se de lidar com as questões de fato mais importantes para os cidadãos. E o eleitor não é burro, ele vê isso. Eles sabem que a vida pública deveria se dar em torno dos temas mais cruciais para a sociedade, mas isso não ocorre. Por exemplo, não se questiona o papel do dinheiro na sociedade ocidental contemporânea.

CC: Mas essa crítica também não se aplicaria à academia?

MJS: Sei que estou contra a corrente. Mas também podemos dizer que esse debate nem sequer passa pela mídia, o que é, aí sim, um abuso. A mídia americana, ao menos, também deixou de ser um fórum efetivo para a discussão de temas sérios de interesse público.

CC: Mas é inegável a constatação do aumento do acesso à informação pelo cidadão nesses mesmos 30 anos, não?

MJS: Sim, é um paradoxo imenso a relação entre as mídias sociais e o nível da discussão pública. Tem-se mais acesso à informação do que nunca na história, mas nunca o discurso público foi tão vazio, tão pobre. Há uma diferença entre maior acesso à informação e a criação de estruturas e fóruns voltados para o debate sobre questões de cidadania. As mídias sociais sozinhas não formam qualquer base para debate público. Universidades, partidos políticos, sindicatos, associações de moradores, ainda são as estruturas da sociedade civil necessárias para trabalhar, discutir, o que de fato importa. A enxurrada de informação online não nos ajuda. Ao contrário. Trata-se de uma brutal distração.

CC: O senhor fala bastante dos fóruns públicos. O Occupy Wall Street (OWS) seria um deles? Um ano depois da deflagração do movimento, ele parece mais enfraquecido do que nunca.

MJS: Eles tiveram sua importância ao trazer para o público, para a mídia, a discussão da desigualdade social. A fraqueza do OWS foi não ter encontrado um caminho para criar instituições ou, de novo, fóruns que acabassem por elaborar uma definição mais clara para seus objetivos. Tanto o OWS quanto o Tea Party, grupo do qual discordo ideologicamente, são expressões diversas da profunda frustração dos cidadãos com os partidos políticos tradicionais e o discurso político que eles representam. Essas frustrações têm uma fonte comum: o resgate de Wall Street. São movimentos sociais resultantes da raiva e do ressentimento oriundos do tratamento privilegiado dado aos lordes do mercado financeiro. Não houve quase nenhuma punição para os barões responsáveis diretos pela crise financeira, ao contrário do que aconteceu com os investidores ordinários.

CC: O senhor diria que a disputa entre Barack Obama e Mitt Romney ajudou a trazer esse debate para a esfera pública?

MJS: Não há qualquer discussão sobre a proeminência da sociedade de mercado na campanha eleitoral. Há toda uma conversa sobre qual dos dois seria o melhor administrador desse mercado. O discurso dos dois lados é outra prova do vazio do debate público nos EVA. Há diferenças claras sobre como cada um lidaria com a economia e sobre o que se fazer com os frutos do crescimento econômico. Mas as questões mais profundas não foram tocadas. Há uma sugestão de debate sobre a natureza do capitalismo  contemporâneo quando se fala sobre a Bain Capital, a empresa de Mitt Romney, e suas práticas. Mas é um discurso personalizado, que pouco toca questões como a legitimidade do outsorcing no capitalismo global ou o papel do capital de risco na estratégia de crescimento a longo prazo do país. Obama fala um pouco de justiça e de se aumentar os impostos aos ricos. E nada mais.

CC: No livro o senhor escreve que a sociedade de mercado necessariamente causa o enfraquecimento dos valores democráticos e o aumento da segregação social. Pode dar exemplos claros dessas consequências?

MJS: Sim. A chamada decisão Citizens United da Suprema Corte é um exemplo da “marketização” das eleições. Desta vez, o Judiciário colocou a democracia à venda, ao acabar com as restrições às contribuições privadas às campanhas eleitorais. Neste ano o capital ditou a eleição ainda mais do que antes. Se nos perguntarmos seriamente se há determinados valores que o dinheiro não poderia, não deveria comprar, na cabeça da lista deveriam estar as instituições democráticas. O mercado não pode comprar e vender votos, o que ainda é proibido. Mas quando você permite que corporações possam controlar, comprar, campanhas inteiras e serem efetivamente donas das candidaturas, a democracia entrou na categoria do “tudo está à venda”. Esse é um exemplo gritante do quão corrosivo os mercados podem ser para a vida democrática.

CC: Por que a crise financeira global não serviu para uma discussão mais profunda sobre a fetichização do capital na sociedade contemporânea?

MJS: Boa pergunta. Muita gente pensou que esse seria o marco do fim da era do triunfo do mercado e do início de um debate sério sobre o tema. Mas esse debate nunca ocorreu. Não há qualquer sério esforço de se conectar uma vez mais mercado e ética, mercado e moral. Nada. Ao contrário. O que tivemos foi um curto debate sobre a necessidade de se aumentar a regulamentação da indústria financeira. A legislação Dodd-Frank foi aprovada nos EUA, mas ela é relativamente fraca e não afetou a mentalidade do “grande demais para quebrar”, o centro nervoso da mentalidade que nos levou à crise. Mais: a lei, no fim, chegou enfraquecida pelos lobbies. Estávamos todos errados: o debate não veio. E as regulamentações sérias, muito menos. Se alguém tinha dúvida de que a indústria financeira havia tomado conta do processo político, a prova que faltava nos foi dada naquele momento.

CC: O senhor também é crítico da tentativa de se resolver problemas sociais pela lógica do mercado. Aqui em Nova York a prática de se dar bônus para policiais baseados em delegacias com menos crimes gerou uma prática de se mascarar os crimes denunciados pela população.

MJS: Há também o bônus dado a professores em muitas cidades americanas como incentivo para a melhora do desempenho dos alunos. Esse é o tipo de medida que corrói a ética profissional. O incentivo em espécie carrega uma mensagem embutida: a de que nós percebemos sua falta de motivação. O professor não se dedica apenas pelo bem social de seu ofício, educar crianças, assim como proteger as pessoas, no caso dos policiais. Serão atos mais bem executados se dermos mais dinheiro em determinadas situações. Veja bem, não é aumento de salário, é bônus. No caso do magistério, vários professores sentiram-se insultados, como se não se dedicassem anteriormente o suficiente na visão da sociedade. A inserção dos valores de mercado nesse caso pode ser corrosiva moralmente.

CC: Em que ponto a globalização intensificou a transformação da economia de mercado em sociedade de mercado?

MJS: O capitalismo ficou menos nacional. A ideia do mercado como primeiro instrumento para atingir o bem público aumentou. Intensificou-se a força dos mercados além-fronteira. E não falo apenas da fronteira político-geográfica, mas da vida, das barreiras da sociedade. É preciso dar um passo atrás e perguntar: onde os mercados servem o público e em quais aspectos de nossa vida eles estão fora do lugar? Tínhamos uma economia de mercado, uma válida ferramenta, em minha opinião, para se organizar as atividades profissionais e crescer economicamente as nações, mas uma sociedade de mercado é diferente, é um lugar em que tudo está à venda. É um modo de vida, em que os valores de mercado dominam cada vez mais os aspectos da vida dos cidadãos. É isso o que me preocupa. É hora de reexaminar o papel do mercado na sociedade capitalista contemporânea.

 

CAIXINHA SEM SURPRESAS

O futebol brasileiro entrou na burra viagem em que o resultado e tudo. E deixou de encantar sem, necessariamente ganhar. POR JUCA KFOURI.

FUTEBOL do “país do futebol” está em crise. Em 13° lugar no ranking da Fifa, embora tal classificação seja nebulosa. Tão nebulosa, aliás, como a própria mania de dizermos que somos o “país do futebol” quando muito mais do que nós são do futebol países como a Inglaterra, a Argentina e por aí afora. Basta dizer que, em qualquer pesquisa que se faça sobre tamanho de torcida no Brasil, o primeiro contingente é o de pessoas que não se interessam pelo jogo. Só depois aparecem as torcidas do Flamengo e do Corinthians. Na Argentina, ao contrário, primeiro vem a torcida do Boca Juniors, depois a do River Plate e, em terceiro lugar, os desinteressados. Desnecessário dizer que ninguém reverencia o jogo como os ingleses, inventores do futebol moderno. Basta ir a Wembley, mesmo modernizado, ou a Old Trafford, para sentir até o cheiro das velhas bolas de couro ou das canchas de antigamente, palavra que até sumiu do dia a dia nacional. Mas como está em crise o futebol do país que tem Neymar e que acaba de vender a peso de ouro meninos como Oscar e Lucas? Que sediará a próxima Copa do Mundo? Que tem os três últimos campeões da Libertadores: o Inter, o Santos e o Corinthians, este último invicto, o primeiro a conseguir tal façanha com o torneio em 14 jogos, e ao derrotar o poderoso Boca Juniors na final? Eis que a própria Libertadores pode trazer parte da explicação, por que seus campeões em 2010 e 2011 foram elimi nados pelo Mazembe africano na semifinal e impiedosamente goleadas pelo Barcelona catalão na final. Perguntando onde está a bola. Se não é o país do futebol, o Brasil foi sim o país do melhor futebol do mundo por um bom tempo, isto é, por muito tempo, ao menos durante todo o reinado de Pelé, entre 1958e meados dos anos 1970,o que não se mede, como se imagina, pelas Copas do Mundo conquistadas, mas pela beleza e eficácia do futebol apresentado. Quiseram os deuses dos estádios que Pelé surgisse para fazer companhia a Mané Garrincha, a Didi, Nilton Santos, e que, ao se despedir, deixasse companheiros como Gérson, Rivellino, Tostão. Tempos em que o futebol não era jogado apenas com os pés, mas, sobretudo, com a cabeça. Como jogam hoje em dia Iniesta, Xavi, Messi.

 

A verdade é que o futebol brasileiro entrou numa burra viagem em que o resultado é tudo, ganhar é preciso, encantar não é preciso. E deixou de encantar sem, necessariamente, ganhar, ao menos fora dos nossos horizontes. Seleções brasileiras perderam a capacidade de se impor, a ponto de agora mesmo, em Londres, os mexicanos não darem a menor pelota para a outrora temida camisa canarinho. Enquanto os europeus cada vez mais jogam com a bola nos pés, a valorizam e tratam bem, passamos a ser o paraíso dos volantes, o cemitério dos camisas 10, a valorizar mais quem rouba a bola do que quem a entrega em domicílio – todo poder aos brucutus e muito cuidado com os violinistas. Os maestros passaram a ser confundi-dos com os professores, homens de terno e gravata deselegantes, apesar das grifes e dos preços das roupas, invariavelmente incapazes de pensar o jogo como metáforas da vida, tecnocratas especializados na manutenção de seu emprego, pago a peso de ouro por cartolas irresponsáveis ou administradores de lavanderias, sempre lucrativas para os próprios bolsos e terríveis para os cofres públicos e dos clubes, irrigados pelas Time manias da vida. Se não bastasse, a CBF investiu na marca de sua seleção e, com um calendário que não dá vez aos clubes, condenou- os às fronteiras nacionais, incentivando a exportação de pé de obra como meio de adaptá-los ao mundo europeu e de facilitar os amistosos do time dela sempre longe do Brasil, razão pela qual virou mal-amado pela torcida. Se um técnico dinamarquês, Morten Soubak, fez do handebol feminino brasileiro uma das atrações dos Jogos Olímpicos de 2012 recentemente disputados em Londres, e se um técnico argentino, Rubén Magnano, ressuscitou o basquete brasileiro, falar em estrangeiros no futebol do patropi soa como heresia. Por mais que, nos anos 1950, o húngaro Bella Gutman tenha contribuído para arejar taticamente o futebol brasileiro ao trabalhar no São Paulo e levá-lo ao título paulista de 1957,com uma única exigência, a contratação do veterano Zizinho. Gutman era um estudioso, um teórico que tinha como método de trabalho, porém, comandar craques como Zizinho, o maior ídolo de Pelé. Pep Guardiola, o revolucionário do Barcelona, está em ano sabático e é quase uma maldade pensar nele a apenas dois anos da Copa do Mundo no Brasil, torneio para o qual o País está classificado, mas, ao contrário do que acontece normalmente, não é tido como favorito. O que obriga que se ache a solução por aqui mesmo e nem é tão difícil diante do nível muito parecido dos técnicos de primeiro time no Brasil. Mano Menezes, Felipão, Muricy Ramalho, Tite, Abel Braga, Cuca ou Luxemburgo, nenhum deles faz milagre ou seria capaz de inventar a roda. Mas a Seleção pode fazer, hoje, um bom time, com um goleiro qualquer porque não há nenhum que brilhe, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Arouca, Pau linho, Oscar e Ramires, Neymar e Leandro Damião, gente que bem treinada e entrosada não dará vida fácil a ninguém, embora seja mesmo inferior aos selecionados da Espanha, da Alemanha, do Uruguai e da Argentina. Se ganhar a Copa do Mundo pela sexta vez parece um sonho impossível neste momento – e se perder uma Copa do Mundo pela segunda vez no país pentacampeão parece um pesadelo insuportável-, pior é pensar no que fazer, depois da Copa, com os estádios construídos, com dinheiro público, em Cuiabá, Natal, Brasília e Manaus, onde nem sequer times da Primeira Divisão do futebol nacional há. Sim,porque um dos maiores problemas do futebol brasileiro, diretamente ligado à miséria da cartilagem corrupta, corruptora e incompetente, está na ausência do torcedor dos estádios e não apenas por falta de talentos a serem vistos e aplaudidos, mas, principalmente, pela ausência completa de organização e criatividade. São raros os clubes brasileiros que trabalham corretamente as categorias de base e, mesmo assim, normalmente, intoxicam os meninos com conceitos táticos antes que eles estejam com os fundamentos bem formados, motivo da fabricação de brucutus em série. Enquanto se viu na Europa, principalmente na Espanha e na Alemanha, uma crescente preocupação com o desenvolvimento “à brasileira” de talentos (basta ler as entrevistas de PepGuardiola, que não faz segredo disso), no Brasil, ao contrário, buscou-se copiar os modelos europeus. Pior: se na Europa a busca deu certo e foi além, aqui a emenda ficou bem pior que o soneto. Técnicos de ponta como Muricy Ramalho são capazes de dizer que, se você quiser ver espetáculo, deve ir ao teatro, ele mesmo um ex-jogador talentoso e muitas vezes espetacular. O futebol de resultados passou a ser também aquele da permanência dos professores no emprego, à custa da mediocridade ampla, geral e irrestrita.

 

É importante ressaltar que o mau momento vivido pelo futebol brasileiro não se restringe à falta de conquistas, porque nem mesmo as duas Copas vencidas em 1994 e 2002 encheram os olhos dos mais exigentes, apesar da presença de craques como Romário, os Ronaldos e Rivaldo. O time de 1982,de Sócrates, Zico, Falcão, de Telê Santana, não ganhou a Copa e, como diz o jornalista Fernando Calazans, “azar da Copa”. O que não dá é ver a SeleçãoBrasileira virar freguesa da mexicana, como virou neste século, com cinco derrotas em dez jogos, apenas três vitórias, sem contar a decisão olímpica, porque disputada não pelas seleções principais. Atenção: estamos falando do México, não da Itália, da Holanda ou da França, sempre admitindo a hipótese, por remota que seja, de o México estar se transformando numa  potência do futebol mundial. Tem jeito, tem solução? Claro que tem, desde que não se tenha uma visão da mão para boca, de curto prazo, e que experiências não sejam interrompidas – como fez Ney Franco, ao trocar um promissor trabalho que executava com a base, na CBF, por ser mais um técnico do São Paulo em crise. Além do mais, se há algo indiscutível mesmo em momentos de entressafra, é que, como diria Pero Vaz de Caminha, em se plantando tudo dá, craques inclusive, às vezes mais, às vezes menos. Vai que Três Corações já tenha produzido um novo Pelé, ou Pau Grande outro Mané Garrincha, que apareçam em 2013 para brilhar no Maracanã em 2014 … Sim, é claro, será preciso muito coração para que isso aconteça. Mas não só.

 

ADMIRÁVEL MUNDO

Como o avanço tecnológico vai influenciar a vida e o consumo POR FELIPE MARRA MENDONÇA.

MUNDO prometido para além do ano 2000 traria robôs que fariam todas as tarefas domésticas, carros voadores, residências nas alturas, computadores implantados no corpo ou verdadeiros corpos biônicos. Esse mundo não chegou de forma completa. Temos robôs simples que aspiram pó, os carros voadores estão em teste, os computadores sob a pele ainda não chegaram e os avanços de Oscar Pistorius na Olimpíada mostram que as próteses melhoraram muito, mas não temos ainda humanos biônicos. Isso demonstra que a evolução da tecnologia é muito mais gradual do que revolucionária, como explicam os especialistas ouvidos por CartaCapital na tentativa de projetar os avanços dos próximos 18anos em oito setores diferentes.

 

COMUNICAÇÕES

As comunicações foram radicalmente alteradas pela popularização da internet em meados dos anos 1990. Cartas foram gradualmente substituídas por e-mails, fotos agora são trocadas em arquivos digitais e não mais impressas, ligações de voz podem ser feitas por meio de aplicativos como o Skype ou o Google Voice, e em alguns casos extremos as redes sociais chegam a substituir o contato humano. “A internet já transmite a maioria das comunicações atuais, e isso deve continuar até 2030, mas não sempre da mesma forma. Teremos novos protocolos, mas o princípio básico deve permanecer, ou seja, uma rede global ligando tudo e todos”, explicou o futurólogo britânico Ian Pearson. Ele aposta que a forma que a internet terá nos próximos 18 anos será a da rea lidade aumentada, em que dispositivos como óculos ou lentes mostrarão informações em tempo real sobre o mundo ao redor. O usuário poderá, por exemplo, olhar para um ponto e ver sobreposto o horário dos próximos ônibus. “Ela virá e pode ser muito poderosa, porque pode afetar nossa percepção do mundo. O dispositivo do Google, o Project Glass, é ainda muito primitivo e só uma amostra do que está por vir. Quando tivermos sobreposições completamente emissivas, com informações constantes sobre o mundo ao nosso redor, a realidade aumentada se tornará tão grande quanto a internet.”

 

CELULARES

Hoje um celular é capaz de navegar pela internet, rodar aplicativos e tirar fotos, algo que parecia muito distante há 18 anos, quando a principal função era fazer chamadas. “Projetar o futuro dos celulares em 2030 é complicado. No passado, o pessoal que escrevia ficção,como 1984ou Blade Runner, tinha mais chance de acertar porque tudo parecia possível e o prazo era mais longo,mas hoje as coisas mudam com uma velocidade absurda”, disse André Kadow, sócio-proprietário da Everywhere Mobile, que produz jogos, livros digitais e aplicativos para smartphones. Kadow acredita que os aparelhos ainda não encontraram seu formato final e devem mudar algumas vezes até se fixar em um ou dois tamanhos que agradem a todos os consumidores. “O paradoxo é que os aparelhos em geral devem perder cada vez mais as características que os definem. A tevê não vai ser mais só uma tela que recebe sinais, assim como o celular não vai mais servir, como já não serve mais, só para fazer ligações.” Para Kadow, os óculos do Google, citados anteriormente por Pearson, podem acabar por incorporar as tecnologias de um celular. “Mas o curioso é que a estética ainda conta. Perguntei para algumas pessoas se o usariam e uma delas disse que não voltaria a usar óculos depois de ter se adaptado às lentes.”

 

MÚSICA

Em 1994,o advento dos tocadores de música  no formato mp3 ainda estava distante. O MPMan, o primeiro deles, foi lançado, em abril de 1998, na Coréia do Sul e pouco depois foi distribuído nos mercados americano e japonês. Fez pouco sucesso, mas marcou o advento da música guardada nos formatos digitais em detrimento de meios físicos como o vinil, fitas cassete ou CDs. Ela só ultrapassou os formatos físicos em vendas no ano corrente, mas a longevidade da música digital como meio não está mais em disputa. A diferença nos próximos 18 anos virá no modo como essa música é armazenada e consumida. Cada vez mais os serviços de venda de músicas colocarão os arquivos nas nuvens, onde elas ficam guardadas num servidor remoto, podendo ser acessadas de qualquer lugar e a partir de diferentes dispositivos. “Nossos consumidores nos disseram que não querem armazenar suas músicas no computador do trabalho ou em telefones porque acham complicado ficar trocando faixas entre diferentes aparelhos”, disse Bill Carr, vice-presidente da Amazon para filmes e música. “Agora, estejam no trabalho, em casa ou na rua, eles podem comprar músicas da nossa loja de mp3, guardar tudo nas nuvens e tocá-las em qualquer lugar.”

 

 

LIVROS

Incluir livros numa resenha de tecnologia pode parecer contracensos, mas os livros eletrônicos existem há mais tempo do que muitos imaginam. Os primeiros exemplares datam de 1971,quando o acadêmico Michael Hart digitou o texto da Declaração da Independência dos Estados Unidos num mainframe da Universidade de Elisões. No mesmo ano ele fundou o Projeto Gutenberg e começou a digitar textos de livros disponíveis em domínio público. A distribuição era feita em disquetes, depois passou para CD-ROMs e, com a popularização da internet, todo o arquivo do projeto ficou disponível num site. O problema era conse guir ler os textos de modo confortável. As telas de cristal líquido cansavam os olhos e imprimir as páginas era pouco prático. Com o advento da tinta eletrônica, em que microcápsulas de tinta reagem a correntes elétricas para compor letras, as telas ganharam uma legibilidade antes possível só em páginas impressas. O primeiro livro eletrônico com uma tela de tinta eletrônica, o Rocket eBook, foi lançado em 1998,mas não teve grande aceitação. A popularização do formato chegou com o Kindle em 2007 e, em abril de 2011,a venda de e-books ultrapassou o número de livros físicos ainda estarão presentes em 2030. Essa é a aposta de Carlos Vicente, cofundador da Kolekto, especializada em e-books. “Nossa empresa vive o digital, trabalha com isso, mas temos uma estante cheia de livros que usamos todos os dias. Dezoito anos é muito tempo, mas, assim como o mp3 não acabou com os shows de música, a tecnologia não deve também eliminar as livrarias.”

 

CINEMA

Os filmes e os cinemas são mais antigos do que a maioria das mídias e sobreviveram a mais de cem anos de mudanças tecnológicas importantes. A experiência atual continua muito parecida com a de um século atrás, mas com som e imagem melhores. É por isso que analistas apostam que cinemas ainda devem existir num formato parecido em 2030. “Acho que passarão intactos, pois são um negócio que sobreviveu à chegada da televisão, à introdução da tevê  cabo, ao advento de tecnologias como o videocassete e o DVD, e até a atual febre de downloads de filmes”, aposta Larry Gerbrandt, executivo americano de mídia e entretenimento e sócio da Media Valuation Partners, empresa que presta consultoria para a indústria do entretenimento. “Desde que os filmes sejam lançados antes nas telas e as pessoas ainda queiram sair e pagar um preço justo por uma experiência compartilhada que é uma sala de cinema, eles ainda devem existir por um longo tempo.” Billy Hulkower, analista sênior de tecnologiado Mintel Group, consultoria especializada em tecnologia, também acredita na longevidade dos cinemas, mas acha que a inclusão de novas tecnologias será importante para manter o interesse dos consumidores. “Os cinemas que sobreviverem vão mostrar hologramas que providenciam uma experiência em 3D muito mais mágica do que qualquer coisa disponível hoje.”

 

TELEVISÃO

A aposta para o futuro da tevê é a sua fusão com a internet. “Chamamos isso de convergência: as transmissões lineares de hoje, em que a programação é fixa, serão cada vez menos importantes e devem dar lugar ao conteúdo disponível ao telespectador sempre que ele quiser, na hora que preferir”, explica Alan Wolk, analista sênior global da KIT Digital, especializada em sistemas de armazenagem e transmissão de vídeo. Quanto às tecnologias embutidas nos aparelhos, as telas de cristal líquido estão com os dias contados. Andrew Ladbrook, analista sênior da Informa, empresa britânica de consultoria e pesquisas do mercado de telecomunicações e mídia, acha que o futuro está nas telas de OLED, compostas de diodos orgânicos que emitem luz ao receber uma carga elétrica. A vantagem sobre outras tecnologias é que os diodos podem ser aplicados diretamente sobre a superfície da tela, seja ela um plástico, seja um vidro, permitindo aparelhos cada vez mais finos. “Acho que no longo prazo as telas de OLED vão dominar o mercado e as companhias poderão fazer telas tão finas quanto os telefones mais finos de hoje em dia ou talvez até mais finas do que isso.” Wolk concorda e aponta o tamanho das telas como a principal característica no futuro. “As telas serão enormes. A preferência por assistir à tevê numa tela grande não vai nunca deixar de existir.”

 

AUTOMÓVEIS

A principal transformação pela qual deve passar a indústria automobilística é que as companhias devem deixar de vender carros como um bem de consumo, e sim como um transporte. Segundo o consultor Thomas Frey, futurista e ex-engenheiro da IBM, em vez de adquirir o próprio automóvel e arcar com as despesas de manutenção e seguro, os consumidores tendem a simplesmente adotar a compra de um transporte quando precisarem dele. Isso será parte da transição para veículos autônomos, sem condutor. A primeira manifestação prática dos veículos autônomos é a frota de carros equipada pelo Google com câmeras de vídeo, sensores, radares e lasers que conseguem enxergar outros carros e também é munida de mapas para navegar nas ruas. Lançada em outubro de 2010, a frota cobriu mais de 480 mil quilômetros pelos estados da Califórnia e Nevada. Até agora, nenhum dos carros da frota sofreu qualquer acidente, mas a empresa informa que seus funcionários continuarão no assento do motorista e podem retomar o controle a qualquer momento, se necessário. AVIAÇÃO O setor de aviação deve passar por menos mudanças nos próximos 18anos, em razão do tempo de desenvolvimento de um aparelho desde o projeto até o seu primeiro voo. “São cerca de sete anos a partir da aprovação de desenvolvimento de um avião comercial de grande porte até sua entrada regular em serviço. Não veremos muitas gerações de aviões entrar em serviço até 2030″, explica Finbar Sheehy, analista sênior da consultoria Bernstein, especializada em gestão de ativos e pesquisa de mercado. A principal diferença nos aviões deve ficar por conta de uma melhor eficiência na queima de combustíveis. “Muito do que deve ser feito nessa área não vai ser notado pelo passageiro. Os produtores de turbinas estão explorando o uso de material de cerâmica que pode suportar temperaturas mais elevadas do que metais”, disse Sheehy. O analista percebe na melhora da comunicação entre as companhias aéreas e seus passageiros a mudança que mais deve trazer benefícios aos consumidores. Muitos reclamam das companhias que cobram preços baixos para depois adicionar taxas para qualquer outro serviço, como um segundo volume de bagagem ou alimentação a bordo. “Acho que, gradualmente, as companhias e os passageiros vão aprender a se comunicar melhor até 2030. Não existe mágica. Se você quer o preço mais baixo, provavelmente vai acabar ocupando um espaço menor na aeronave durante o voo.” O mundo que se configura para 2030 não é muito diferente do nosso, mas as melhoras graduais em cada setor são animadoras. Teremos a internet sobreposta ao mundo real, celulares mais inteligentes, música disponível em todos os aparelhos, livros eletrônicos flexíveis, cinemas emissivos, mais controle sobre a programação da tevê, carros que se guiam e aviões mais eficientes e confortáveis. Não será ainda o mundo dos Jetsons, mas deve ser um lugar bem interessante.

 

GANSO E OS RECADOS ENCIUMADOS

GANSO BATEL ASAS da praia ao planalto, subiu a serra. Foi recebido com pompas no Morumbi e, no dia seguinte, recebeu um recado enciumado de Rogério Ceni. “Se ele estiver disposto a lutar …”, disse o goleiro são-paulino com desdém. Ou algo assim. Nunca entendi como um jogador com essa carreira não se firmasse na Seleção. Pode ser alguma coisa como o Fred do Fluminense, mas é muito tempo seguido. Lidar com gente é sempre muito difícil. Bicho complicado, o homem. o ego das estrelas sempre deu trabalho. O ex-meia santista agora só tem de treinar, jogar, recuperar o tempo perdido com as lesões e os arranca-rabos desgastantes. Insinuações também de ressentimentos por se considerar menos valorizado. Não acredito, o canhoto é de uma inteligência rara e o São Paulo pode formar em volta dele uma grande equipe. Os tempos são outros e a divisão dos valores do seu vínculo entre o clube e os intermediários faz pensar numa transferência mais à frente. Em outras épocas, o Tricolor paulista construiu times memoráveis em torno do grande Mestre Ziza e, depois, com Gerson, Pedro Rocha, Toninha Guerreiro etc. Antes disso, o Santos abriu caminho para seus inesquecíveis times da era Pelé, com o extraordinário Jair da Rosa Pinto. Comemora o cinqüentenário do Bicampeonato Mundial. Felicitações! Talvez pensando nisso o Peixe tenha relutado tanto em se desfazer de seu craque. Paciência. Juntando os liames das reminiscências. Picharam a figura do Ganso no painel do CT santista, como no Flamengo queimaram a camisa do citado Jajá de Barra Mansa, seu apelido, mas isso são arroubos de torcedor apaixonado Vai passar. Apesar de tudo, o que tomou conta das discussões do futebol nesse período foram as arbitragens desastrosas de novo. Dessa vez os juízes se superaram. No Campeonato Brasileiro, a rodada foi dominada pelos erros de arbitragem, que daqui para frente tendem a piorar. Os caminhos vão se estreitando. O calmo Juninho Pernambucano perdeu a esportiva com o exibicionismo dos juízes, cuja maior virtude deveria ser a sobriedade. Disse que os árbitros podem ser desnecessários, a bola é que não pode faltar. Sem ela não tem jogo. Categoria até para se revoltar. Tenta-se de várias maneiras, sem sucesso. Nossa arbitragem padece de um problema crônico, estrutural. É uma questão de desenvolvimento, educação mais uma vez. Tudo sempre girando em ciclos.Dá uma volta e retoma ao começo. O momento do Flamengo é exatamente igual ao tempo de minha passagem por lá. Fechamento das inscrições, clube em crise, poucas opções de contratação. Havia ainda o obstáculo do treinador, com o qual tivera problemas no Botafogo.

 

Foi muito feliz a imagem, no filme Passe Livre, da minha entrevista de apresentação no clube. A iluminação bateu nas barbas ruivas, parecendo pegar fogo, como era a situação naquela hora. Pouco antes, na entrada da Gávea passara por uma situação entre constrangedora e cômica. Havia por ali, na frente do bar, uma mesa comprida onde se reunia a “boca maldita” dos frequentadores assíduos que acompanhavam o dia a dia do clube. Saudades do Carlinhos, meio de campo e treinador a quem o rubro- negro deve muitos títulos. Fui recebido carinhosamente pelo grupo, mas, quando chegou a vez de um conhecido benemérito, já meio senil, ele negou-me a mão. Era contra minha contratação. A salvação foi que todo mundo riu, apesar de os mais amigos terem se desculpado depois, também um tanto constrangidos. Exatamente como agora trouxeram vários jogadores sem muito critério. Lembro-me do Sérgio (Galocha) do Inter, meio gorducho como o Imperador de agora. Trouxeram também o já falado Toninha, que também pouco pôde ajudar sem tempo para recuperar a forma física. Toninha foi campeão paulista cinco vezes seguidas. Três pelo Santos. Mudou para o São Paulo, onde foi bicampeão, artilheiro como poucos. Muito melhor falar de craques. Marcos Assunção enche os olhos do torcedor de qualquer time. Quando joga, renascem as esperanças palmeirenses. Um campeonato também revela treinadores com chances de ir para a Seleção. Muricy, Abel Braga e Ney Franco. Vasco e São Paulo disputando corpo a corpo, um bambeando, outro subindo, o “mineirinho” chegando. O técnico deve sair de São Paulo. O santista irregular com seu time. Abel em bom momento dirige o barco das Laranjeiras com maturidade, no mesmo estilo do seu antecessor. Ganha apertado, mas mantém sempre o controle. Da campanha como um todo. Os últimos vencedores têm sido assim. Além de pouco brilho, é muito risco. Às vezes desnecessário. O maior adversário do Fluminense é o seu favoritismo. Não vendeu suas revelações. Quer vencer.

O Globo

DESAFIO DA CAIXA-PRETA AMBIENTAL

 

Governo se fecha não discute novo código mineral. Falta de informação e coloca empresários e ambientalistas lado a lado por transparência nas discussões

O capítulo Código Florestal ainda não foi encerrado, mas o Brasil já se vê diante de um novo desafio ambiental: como usar sua geodiversidade. Trancado a sete chaves na Casa Civil, um novo Código Mineral pode trazer à superfície o debate sobre exploração das riquezas do subsolo brasileiro, até agora restrito aos gabinetes do Poder. Três anos após o lançamento da ideia de um novo marco regulatório, o silêncio do governo coloca lado a lado dois segmentos sociais tradicionalmente opostos: empresários e ambientalistas, com apoio do terceiro setor. Ninguém sabe ao certo o que será proposto ao Congresso e, muito menos, quando. O Ministério das Minas e Energia (MME) também não dá detalhes da discussão. Diante das dúvidas, são unânimes as críticas sobre a falta de transparência e de debate em torno da definição das regras que, no fim das contas, vão tratar de bens que, por natureza, são exauríveis e cuja extração altera significativamente o meio ambiente.

Mudar essas regras significa mexer num mercado que está intocado há 24 anos e que movimenta anualmente US$ 50 bilhões. Privilegiado em extensão e em riqueza mineral, o Brasil ocupa no mundo dos minérios um lugar de destaque. O país é o maior exportador  de nióbio e ferro; o segundo em bauxita, manganês e tentativa, e o quarto em rochas ornamentais. Isso sem falar no ouro, que, desde a época da Colônia, é um dos principais produtos da pauta de exportação. Entre  os minérios, perde apenas para o ferro.

E, para emoldurar o quadro, há ainda uma enorme leva de minérios extraídos do solo em quantidades fartas, como areia, brita, cascalho e argila. São os “minerais agregados”, insumos da construção civil. A lista não para de crescer, sobretudo depois que a indústria de alta tecnologia elegeu 17 elementos químicos terras raras, como lítio, tálio, cobalto e urânio, como estratégicos para o país.

Como não se sabe o que vem por aí, a pressão para a criação de salvaguardas não para de crescer. O Congresso Nacional se apressa para regulamentar a exploração em terras indígenas, enquanto as mineradoras negociam para derrubar entraves ambientais. O último deles caiu por terra em setembro, quando o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) flexibilizou a exploração mineral em cavernas.

Se antes as cavidades consideradas de alta relevância deveriam permanecer intocadas, agora elas podem ir abaixo se trocadas pela preservação de outras duas, com o mesmo grau de importância, não necessariamente na mesma área. A medida era avidamente esperada

pelo setor empresarial, que vem enfrentando problemas no licenciamento ambiental de novos empreendimentos, onde encontram cavernas no meio do caminho

A flexibilização animou algumas empresas. Algumas saíram colecionando concessões para garantir a tal compensação prevista na lei. O resultado é que hoje as cavernas viraram uma espécie de moeda de troca no setor mineral. Especialistas em espeleologia calculam que existam no país, segundo dados do Cadastro Nacional de Cavernas do Brasil, 4.672 cavernas. O estado de Minas Gerais é recordista em cavidades, com 1.656; seguido por Goiás (665) e Bahia (540).

— Estamos num período virtuoso da mineração.

Os bens minerais estão em níveis de

preço que nunca alcançaram nos últimos 20, 30 anos. Quando o preço sobe, viabiliza a exploração de jazidas que, nas antigas condições, não seriam viáveis. Se o Brasil não aproveitar

a oportunidade, vai perder o bonde da História — acredita Elmer Prata Salomão, presidente da recém-criada Associação Brasileira de Pesquisa Mineral (ABPM), entidade

alçada como porta-voz do setor nas discussões do novo código mineral.

Dados da ABPM apontam que 55.500 requerimentos de pesquisas, 11 mil pedidos de lavra e 55 portarias de autorização de lavras estão prontos para serem publicados. Só que está tudo parado no Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM).

— Não tem decreto, portaria: basta uma ordem verbal. Essa situação cria uma enorme insegurança no setor — diz Salomão, para quem a solução seria equipar o DNPM, que tem hoje 1.329 funcionários.

A expectativa de mudança na legislação ocorre num momento de ebulição. Segundo

estudo da PricewaterhouseCoopers (PWC), a produção mineral deve receber investimentos de US$ 68,5 bilhões até 2015, com aumento de produção mineral em taxas entre 10% e 15% ao ano. Até 2030, os investimentos deverão chegar a US$ 260 bilhões. A PWC lembra que os novos projetos se desenvolvem em locais remotos, exigindo contrapartidas substanciais em infraestrutura. O estudo chama atenção ainda para o fato de os custos de operação da mineração no Brasil tenderem a ficar mais caros devido às pressões ambientais.

— As mudanças no código estão sendo uma grande caixa-preta — observa Bruno Milanez, um dos coordenadores do estudo ‘Novo marco legal de mineração no Brasil. Para quê? Para quem?’, feito sob encomenda de entidades do terceiro setor. — Por conta de um requerimento de um senador (Flexa Ribeiro, PSDB-PA), houve uma audiência pública em 2010. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi chamado para explicar o

novo código. O novo marco regulatório poderá intensificar também os problemas que a

atividade causa às comunidades e ao meio ambiente.

Minerar significa abrir cavas no solo ou instalar dragas em leitos de rios para remexer o que está no fundo. Mesmo que a cava seja pequena, é preciso criar infraestrutura para a escavação, como a abertura de estradas e ferrovias e instalação de luz elétrica. Como nem tudo do que é retirado do solo tem valor, as minas costumam produzir montanhas de material estéril e barragens de rejeitos. Modificar a paisagem é inevitável. Outro problema é que, ao remexer o solo, poluentes surgem e são arrastados para as águas pela chuva.

— Não é só o meio ambiente que é alterado. O problema é a desterritorialização. Os animais são afugentados, as pessoas são obrigadas a sair. O que a sociedade precisa entender  é que uma jazida não é um ponto isolado no meio da floresta. Ela modifica todo o seu entorno — comenta o agrônomo e sociólogo Raimundo Gomes, do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), do Pará. Explorar minérios tem sido um negócio altamente rentável. Primeiro, devido ao espetacular crescimento da China, compradora voraz. Mas não é só. Abalada pelas crises financeiras cíclicas e pela fragilidade dos papeis, o mundo todo se voltou para os ativos reais. O preço do ouro, por exemplo, está em alta desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Só este ano, o 12º consecutivo de alta, subiu 14%, a caminho de um novo recorde, anabolizado pelo mercado financeiro e pelo crescimento dos emergentes chineses e indianos, que, juntos, compram metade das joias, barras e moedas de ouro produzidas no mundo

justamente para ter mais conhecimento do conteúdo que está sendo proposto no novo

código mineral que as ONGs fizeram um manifesto — até agora assinado por 263 pessoas — reivindicando audiências públicas.

Um dos coordenadores do Observadores do Pré-Sal e representante do Ibase, Carlos Bittencourt, lamenta o silêncio:

— Com base na Lei de Acesso à Informação, vamos entrar com um requerimento. Se há uma minuta do texto, é obrigação do governos nos apresentar essa minuta. Queremos

um contracódigo.

O desconforto também atingiu o setor empresarial.

— Nosso sistema de vida é inviável sem minérios. Portanto, tem que conviver com a atividade. Onde for importante para o Brasil, é necessário haver mineração — resume o consultor José Mendo Mizael de Souza, da J Mendo Consultoria. — Ninguém no setor pediu para mudar. O papel do governo é atrair investimentos. Só que, esse novo código cria conflitos de interesses desnecessários. Tem 50 anos que a mineração está tranquila.

A ex-assessora econômica da Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM) do MME, Maria Amélia Enriquez — que, na época, tinha entre suas atribuições coordenar os trabalhos do novo código mineral — tem uma visão diametralmente oposta:

— De todas as concessões públicas no Brasil, o setor mineral é o menos regulado. Por motivos distintos, Milanez concorda que o setor padece de uma regulação mais rígida do mercado:

— Não se pode ter mais mineração sendo feita da forma atual, inalterada desde os anos 70. Que tal pensarmos em outro tipo de mineração, onde as pessoas afetadas venham a ser de fato ouvidas?

O que existe de conhecimento no mercado sobre o novo código é um quebra-cabeças. Cogita-se que o novo marco prevê a criação  de uma agência reguladora, as lavras serão licitadas como as áreas de extração de petróleo e os contratos firmados terão prazo de término — de 35 anos. Também se arrasta a definição dos novos royalties a serem pagos pelo

setor, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), que podem ser corrigidos independentemente de mudanças no marco regulatório. A alíquota hoje oscila de 0,2% a 3%. Os royalties cobrados aqui são menores do que em outros países.

Outra novidade esperada é a criação de áreas especiais, de maior valor e potencial mineral, que só o governo poderia pesquisar.

 

NOVA CORRIDA DO OURO

No extremo Norte da Amazônia Legal, Roraima vive um período de euforia. Desde que o serviço geológico dos Estados Unidos apontou o Brasil como a nova fronteira global de terras raras e o Serviço Geológico do Brasil retomou as pesquisas minerais no estado, não se fala de outra coisa: Roraima abriga o conjunto de 17 elementos químicos considerados o “ouro do século XXI”, usados pela indústria de alta tecnologia em produtos que vão de tablets a celulares.

— As três maiores jazidas no mundo estão nas áreas das serras Surucucu e Repartimento, em Roraima, e no Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. São 3,5 bilhões de toneladas de minérios — entusiasma-se o deputado Édio Lopes

(PMDB/RR).

Mas há um porém. Boa parte destas e dezenas de outras jazidas minerais do estado estão em terras indígenas (TIs), que ocupam 46,37% da área de Roraima. Pela Constituição de 1988, os índios detém o usufruto exclusivo das “riquezas do solo, dos rios e dos lagos” existentes nas terras tradicionalmente ocupadas, a não ser quando houver interesse público  da União. A Constituição de 1988 atribuiu ao Congresso a competência de autorizar a exploração mineral e o uso de recursos hídricos em terras indígenas. No total, são 505 demarcadas, onde moram 517,4 mil índios e 78,9 mil não índios. Com 106,7 milhões

de hectares, representam 12,5% do território brasileiro.

O assunto ficou em banho-maria por 24 anos. Cabe agora a Édio Lopes colocar o caldeirão para ferver. Relator da Comissão Especial formada para analisar a exploração de terras indígenas, ele finalizou o substitutivo ao Projeto de Lei 1610/96, do senador Romero Jucá (PSDB-RR). Publicado no site do de deputado, o texto será apresentado na Comissão logo após o primeiro turno das eleições municipais. Se for aprovado, segue diretamente ao Senado, sem necessidade de votação na Câmara dos Deputados.

O substitutivo prevê, além da extração de metais, diamantes e gemas, também retirada de areia, rochas e até cascalhos, inclusive de dentro dos rios. Inclui ainda material para saibros e moirões, o que pode significar madeira. Rochas e minerais “in natura”, pedras

decorativas, destinados a artesanatos ou a apenas a “coleções” também entram na lista de permissões.

O texto diz que os índios serão ouvidos, mas o “sim” ou “não” deles não terá caráter decisivo. Quem vai decidir será uma Comissão Deliberativa na qual o Congresso Nacional

terá quatro dos nove postos (dois deputados e dois senadores). O governo federal fica com três votos — da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Um representante do Conselho de Segurança Nacional será ouvido “quando for o caso” e, se manifestar interesse, o Ministério Público Federal também poderá participar.

— Não serão todos os índios que serão ouvidos, apenas as comunidades atingidas. Os índios tukanos e yanomamis são exploradores há muito tempo. Há intensa exploração de ouro de aluvião. É ouro, ouro mesmo, e eles dizem que retiram cinco quilos por mês. Como não podem vender no Brasil, vendem na Colômbia — denuncia o deputado. Para Paulino Montejo, assessor da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Adib), o substitutivo é “uma jogada” para facilitar a extração mineral em terras indígenas sem preencher os critérios necessários e restringe os direitos dos povos indígenas.

— O movimento indígena não terá acesso a essa comissão. Estamos analisando e vamos nos posicionar oficialmente — diz ele. Presidente da Comissão da qual Edio Lopes é relator, o deputado Padre Ton afirmou num discurso na Câmara que, sem regulamentação, grupos que atuam à margem da lei cooptam índios, extraem riquezas e as levam para o exterior sem contrapartida aos brasileiros, revelando a lacuna na fiscalização das terras indígenas.

— Fizemos uma audiência pública com mais de 400 líderes indígenas da região e ninguém levantou a mão contra. Vamos discutir com quem mora na floresta, não com quem vive sob holofotes da mídia — ressalta o deputado.

Os números do Censo mostram que negociar por comunidade torna a tarefa muito

mais fácil. Quase 60% das TIs abrigam comunidades pequenas, de, no máximo, 500 pessoas, incluindo aí as crianças. Apenas 8,4% das terras indígenas têm mais de 3 mil índios. Os dados do IBGE mostram que 33,4% dos indígenas com 15 anos ou mais, moradores de áreas rurais, são analfabetos e 65,7% não têm

qualquer rendimento.

Em troca das lavras, os índios receberão uma taxa pela área ocupada pela mineração, uma espécie de aluguel cujo valor mínimo foi previsto em R$ 300 por hectare, e terão direito a royalties equivalentes a 2% do faturamento bruto da área minerada. As comunidades indígenas, porém, só poderão administrar e usar de imediato 20% dos recursos. O restante terá de ser aplicado: 50% em fundos de investimento de médio e longo prazos e 30% serão destinados à constituição de fundo de investimentos de longo prazo, a ser utilizado apenas após a exaustão das jazidas minerais, e cuja administração será compartilhada pela Funai e representantes das comunidades indígenas afetadas.

As obras de infraestrutura necessárias à mineração, como estradas, moradias, linhas

de comunicação, captação de água, energia elétrica e condutos de ventilação poderão ser feitas desde a fase de pesquisa. Também é permitido o bota-fora do material desmontado  e dos refugos do engenho dentro das TIs, sem especificar como serão administrados. Sobre a possibilidade de o Ibama negar o licenciamento ambiental para proteger a biodiversidade da área, Lopes afirma que a extração mineral causa tão baixo impacto ambiental que “não vale a pena essa discussão”.

E completa:

— Mesmo que todos sejam contrários, é o

Congresso que vai decidir. De acordo com o substitutivo, os 9.876 pedidos de pesquisa em terras indígenas acumulados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) irão para o lixo e os projetos de mineração terão de ser aprovados um a um pelos parlamentares.

— A indústria de mineração não faz a mínima intenção de entrar nas terras indígenas. Quem quer é garimpeiro. Há risco de ter problema e nenhuma grande empresa quer colocar sua marca. Ninguém sabe o que tem dentro. Só os ambientalistas é que acham que está

cheio de minérios — diz Elmer Prata Salomão, da Associação Brasileira de Pesquisa Mineral (ABPM).

Lopes diz que os waimiri-atroari têm mineração de cassiterita na sua porta e que o

minério escoa por dentro da Terra Indígena. Para que o transporte aconteça, afirma, eles recebem R$ 164 mil por mês da mineradora e têm, assim, uma renda. Segundo denúncia do indigenista Egydio Schwade, os waimiri-atroari foram dizimados durante a construção da BR 174, que liga Manaus a Boa Vista, nos anos 70. Contrários à abertura da estrada, mais de 2 mil teriam sumido. A Comissão Nacional da Verdade investigará a história.

 

EXTRAÇÃO DE AREIA VAI AUMENTAR NO PARAÍBA DO SUL

Águas do rio, que corta três estados, abastecem mais de 8,7 milhões no Rio de Janeiro

 

O Rio Paraíba do Sul nasce em São Paulo, cruza Minas Gerais e desemboca na praia de Atafona, no Norte Fluminense. Atravessa 180 municípios, mas sua importância é

crucial para ao Rio de Janeiro. Motivo: suas águas abastecem mais  de 8,7 milhões de pessoas na cidade e municípios da Região Metropolitana. Em seu trajeto, o rio resfria indústrias, irriga

agricultura e gera energia elétrica. Além de fornecer quase a totalidade de areia que é usada pela indústria da construção civil em São Paulo. No Rio de Janeiro, a bacia abrange 63% da área total do estado; em São Paulo, 5%; e

em Minas Gerais, 4%. Pouco menos da metados dos seus 55,5 mil quilômetros quadrados atravessa 53 municípios do Rio. Em Minas, são 20,7 mil km², em 88 municípios. São Paulo detém 13,9 mil km² da bacia em 36 municípios. A novidade é que São Paulo está prestes a ampliar a mineração de areia na várzea do rio, com novo zoneamento de extração mineral. As cavas, que vão hoje de Jacareí a Pindamonhangaba e Roseira, deverão ser estendidas pelo Vale

do Paraíba até Queluz, o último município antes do limite com o Rio de Janeiro. — É preciso gerir, não proibir a mineração. Precisamos de gestão  responsável e é isso o que está sendo  traçado — afirma Jeferson Rocha de Oliveira, presidente do Instituto Eco Solidário e membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente. Mineral barato, a areia está cada vez mais  distante dos grandes centros consumidores, que já exauriram suas cavas. No Paraíba do  Sul, ela é extraída desde 1949, quando acabaram as retiradas nos rios Tietê e Pinheiros, facilitada

pela abertura da Rodovia Presidente Dura. Desde então, o Vale do Paraíba se tornou o principal fornecedor de areia para o mercado paulista. Do passado sem regras ambientais, a extração de areia deixou vasto passivo ambiental. A proposta, agora, é que as mineradoras apresentem desde a  requisição de pesquisa e lavra um projeto sobre a destinação e

recuperação da área. Ou seja, o que será feito dela quando o mineral se esgotar. A Constituição brasileira prevê a obrigatoriedade de  recuperação das áreas mineradas. O Paraíba do Sul é um  rio federal, por atravessar mais de um estado. No passado, a areia era tirada do leito. Agora, a extração é feita na várzea. A Agência Nacional de Águas (ANA) realiza um estudo para verificar quanto de areia é possível extrair de sua calha. Com leito raso, efeito do assoreamento, o rio passou a transbordar e provocar enchentes, principalmente no município de Guaratinguetá. Até agora, apenas São José dos Campos proibiu a extração de areia em seu trecho, mas na prática a medida é ineficaz. Afinal, o município consome cerca de 20% a 25% da areia extraída das várzeas  do Paraíba. Para Oliveira, a areia precisa ser valorizada. Apesar do largo consumo, ainda é um produto barato e, por isso, o consumidor desperdiça.

— É preciso embutir o custo ambiental para o consumidor. A areia é finita e é preciso alertar para que seu uso seja nobre, no concreto. É possível ampliar o uso do resíduo da construção

civil para contrapisos, por exemplo — explica, acrescentando que nas lagoas formadas pelas cavas exauridas é possível implantar projetos de piscicultura e até uso turístico e esportivo, como o que já ocorre com treinamento de equipes de remo. O Paraíba do Sul foi pioneiro na cobrançade águas no país. Em 2011, foram arrecadados R$ 25,8  milhões, dos quais R$ 21,5 milhões foram recolhidos no Rio de Janeiro. Do total arrecadado nos três estados, R$ 6,9

milhões correspondem a saneamento, R$ 18,4 milhões a uso industrial e R$ 48.818,16 foram pagos pelas empresas de mineração. O maior problema do rio, na avaliação de Oliveira, é a poluição pelo esgoto despejado pelos municípios, que são descartados sem  qualquer tratamento. precisa ser valorizada. Apesar do largo consumo, ainda é um

produto barato e, por isso, o consumidor desperdiça.

— É preciso embutir o custo ambiental para o consumidor. A areia é finita e é preciso alertar para que seu uso seja nobre, no concreto. É possível ampliar o uso do

resíduo da construção civil para contrapisos, por exemplo — explica, acrescentando que nas

lagoas formadas pelas cavas exauridas é possível implantar projetos de piscicultura e até uso turístico e esportivo, como o que  já ocorre com treinamento de equipes de remo. O Paraíba do Sul foi pioneiro na cobrança de águas no país. Em 2011, foram arrecadados R$ 25,8 milhões, dos quais R$ 21,5 milhões foram recolhidos no Rio de Janeiro. Do total arrecadado nos três estados, R$ 6,9 milhões correspondem a saneamento, R$ 18,4 milhões a  uso industrial e R$ 48.818,16 foram pagos pelas empresas de mineração. O maior problema do  rio, na avaliação de Oliveira, é a poluição  pelo esgoto despejado pelos municípios, que são descartados sem qualquer tratamento.

 

fapesp

 

ECSTASY CONSUMIDO EM SP NÃO É ECSTASY

Um levantamento inédito feito pela Superintendência da Polícia Técnico-Científica de São Paulo em parceria com a Fapesp revela que apenas 44,7% das drogas sintéticas apreendidas no Estado no último ano contêm o princípio ativo do ecstasy, o MDMA. Outras 20 substâncias foram encontradas, algumas delas presentes em remédios de emagrecimento e anestésico de cavalo, além de anfetaminas e metanfetaminas. Todos os comprimidos têm a mesma embalagem  visual do ecstasy, a cor o formato e logotipos variados.

- O resultado evidencia que a composição das drogas sintéticas vendidas no Estado é extremamente variada, assim como o nível de concentração de substâncias. Foram analisadas amostras provenientes de 150 diferentes apreensões realizadas pela polícia entre agosto de 2011 e julho de 2012. Todas as apreensões feitas na capital no período estão representadas no universo de amostras. Apreensões feitas em outras cidades do Estado, como Ribeirão Preto e São José dos Campos, também foram contempladas.

- 7,5% dos estudantes universitários brasileiros disseram já ter experimentado ecstasy

- 13,8% dos universitários brasileiros afirmaram já ter usado anfetamina

Gazeta de Limeira – Limeira – 30-09-12 – 2 – Informação

 

TRATAMENTO DE ESGOTO

 

Sabesp, USP e Fapesp deram início a uma pesquisa no Brasil para reduzi r os custos com energia e melhorar a eficiência do tratamento de esgoto. O teste. baseado na retirada do nitrogênio dos detritos, está sendo feito em Presidente Prudente (SP). A tecnologia já foi aplicada em escala real na Europa e Asia, com resultados positivos. A expectativa é de que o benefício seja ainda maior em São Paulo já que o calor acelera processos bioquímicos. A pesquisa deve ser concluída em 2013 e tem investimento de R$ 700 mil.

Isto É Dinheiro – SP – 10-10-12 – 37 – Guilherme Barros

Exame

EIKE QUER A VALE DE NOVO

O empresário Eike Batista esta negociando, discretamente, sua entrada no bloco de controle da mineradora Vale. As conversas estão em fase preliminar. Ao mesmo tempo em que tenta levantar dinheiro para a empreitada com fundos soberanos, o empresário negocia com o governo e o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a Previ, maior acionista do Vale – e, nas palavras de um executivo que participa das discussões, dona as “chave do cofre”da negociação. O pano de fundo para a movimentação de Eike e o fim do acordo de acionista que rege o bloco de controle da Vale. O acordo expira em 2017. Parece longe, mas os interessados em abocanhar uma fatia na maior empresa privada brasileira sabem que a hora de se mexer e agora. O bloco de controle e formado por Previ, Bradespar, BNDESpar, Mitsui e Opportunity. Em 2009, Eike Batista tentou adquirir a participação da Bradespar, mas o negocio não prosperou. Procurado, o grupo EBX, de Eike, negou a informação.

 

AMIL À AMERICANA?

A gigante americana United Health voltou a negociar a compra da empresa brasileira de saúde Amil, Fundada por Edson Bueno, a Amil contratou o banco de investimento Credit Suisse para intermediar as conversas com potenciais interessados na empresa – numa associação ou numa venda. No caso dos americanos, a intenção é comprar o controle. A United Health ronda o mercado brasileiro há tempos – mas sem resultados concretos até agora. A própria Amil foi alvo de uma investida recente por parte dos americanos. Em setembro, as negociações voltaram a esquentar. Segundo EXAME apurou, a francesa AXA e grupos asiáticos também são potenciais candidatos a fazer uma oferta pela Amil, Procurada, a empresa não quis se manifestar.

 

FUNDO RECORDE

A gestora Agribusiness, especializada na compra de terras agrícolas, está concluindo a captação do maior fundo da história do setor. O objetivo é levantar 1,2 bilhões de reais – e 80% do dinheiro já foram captados. Sobretudo com estrangeiros. A Agribusiness foi fundada por Luciano Lewandowski, que até janeiro controlava, em sociedade com a GP Investimentos, a empresa de imóveis Prosperitas. O interesse de estrangeiros se explica: aplicar num fundo local é a forma mais simples de lucrar com terras no Brasil, driblando a restrição para investimento externo.

 

O BNP PARIBAS À VENDA

O banco francês BNP Paribas está procurando interessados em parte de sua subsidiária brasileira. Os franceses decidiram vender seu braço de administração de grandes fortunas no país. Bancos estrangeiros e brasileiros foram procurados. Até o fechamento desta edição, ‘0 negócio não havia sido fechado. Procurado, o BNP Paribas informou que “não comenta rumores de mercado.”

 

A VENDA EMPERROU

A incorporadora Tecnisa pretende fazer, em São Paulo, um dos maiores negócios da história do setor imobiliário brasileiro. Comprou uma área de 25 quarteirões no bairro da Barra Funda, na zona oeste da cidade. A ideia é construir 32 edifícios comerciais e residenciais, num valor total de 4 bilhões de reais. As vendas estavam programadas para começar no segundo trimestre. O otimismo da Tecnisa era tanto que a empresa gastou 13 milhões de reais para erguer um estande de vendas caprichado. Mas a coisa começou a atrasar. O alvará da prefeitura teima em não vir, E o projeto, que deveria responder por 40°,das vendas da empresa no ano, está parado. Para os acionistas da Tecnisa, é uma péssima notícia. As ações caíram 2% em 2012, enquanto, em média, as incorporadoras valorizaram 25%.

 

BATE, APANHA E INVESTE

A americana UFC, empresa que administra as lutas de vale-tudo que se transformaram em mania em meio mundo, quer aproveitar a popularidade dos lutadores brasileiros para levantar dinheiro por aqui. A empresa contratou o banco de investimento Itaú-BBA para ajudá-la a encontrar um sócio no país. Segundo executivos que participam do processo serão procurados fundos e family offices locais. O UFC é avaliado em mais de 1bilhão de dólares, e a fatia à venda para o novo sócio brasileiro é de cerca de 10%.

 

A ESTRELA DE índio DA COSTA

A investigação dos motivos que levaram à liquidação do banco Cruzeiro do Sul continua revelando informações pitorescas.Segundo a Polícia Federal, Luis Octavio Índio da Costa e seu pai, Luis Felippe, controladores do banco, usaram uma empresa para esconder bens que haviam adquirido ilegalmente. A empresa, batizada de Star, teve seu capital multiplicado por 160% em dois anos. O curioso é a forma como esse crescimento foi alcançado. Os Índios da Costa aportaram até mesmo um Porsche Cayenne, carrão avaliado em 500000 reais, no capital da empresa.

 

BOLHA DO ALICATE NA JUSTIÇA

Em outubro, o Ministério Público Federal deve recomendar à Justiça a condenação dos quatro envolvidos na suposta fraude com ações da Mundial, fabricante de válvulas, talheres, alicates e produtos de beleza. O valor de mercado da empresa cresceu quase 3000% de fevereiro a junho de 2011, o que ficou conhecido como “bolha do alicate”. Os indiciados por formação de quadrilha e manipulação de mercado são os mesmos apontados no inquérito da PF, concluído em maio: o presidente da companhia, Michael Ceitlin, a assessora de imprensa Ana Borges, ° investidor Rafael Ferri e o agente autônomo Pedro Barin Calvete. Ferri e Ceitlin também são acusados de uso indevido de informações privilegiadas. As penas variam de um a 16 anos de prisão, além de uma multa que pode chegar a três vezes o lucro obtido com as irregularidades.

 

O CHINÊS ENCOLHEU

Após inaugurar 50 concessionárias simultaneamente em março de 2011, a montadora chinesa JAC Motors está encolhendo. A  companhia fechou seis concessionárias, desativou showrooms, demitiu cerca de 300 funcionários e diminuiu a verba de marketing em 80%, para 20 milhões de reais. Tudo is o para reduzir custos e conseguir manter o preço dos carros após o aumento de impostos para a importação de veículos. As vendas. que já chegaram a 3 000 unidades por mês, agora estão em 1800 unidades. A empresa, que pretendia construir uma fábrica de 900 milhões de reais em Salvador, interrompeu os planos. A JAC condiciona a retomada das obras à diminuição da taxa de importação para as montadoras que pretendem instalar fábricas no país.

 

AINDA FALTA O BASICO

A Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado aprovou em setembro um projeto de lei que cria duas novas disciplinas nas escolas: cidadania moral e ética, no ensino fundamental; e ética social e política, no ensino médio. Para a proposta entrar em vigor, precisa ser aprovada na Câmara. Nos últimos nove anos, as escolas foram forçadas a acrescentar matérias na grade, entre elas espanhol, sociologia e filosofia, no ensino médio; e a abordagem interdisciplinar de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena, no conteúdo geral. Outras disciplinas, como matemática e leitura, tiveram o tempo reduzido. Enquanto isso, os alunos brasileiros continuam com dificuldade para aprender o essencial. O Brasil ocupa a 53 posições, entre 65 países, no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Criar mais disciplinas não vai mudar essa realidade. Os esforços deveriam se concentrar em medidas para melhorar o aproveitamento do aluno e a formação do professor.

 

NÃO É HISTÓRIA DE PESCADOR

Por falta de um terminal pesqueiro devidamente equipado com área de armazenagem boa parte do peixes que chegam ao mercado do porto de Manaus, no Amazonas passa de iguaria a comida de urubu. O pescado fica fora da geladeira e diariamente até 80 toneladas – o equivalente a 2000 da produção – vão para o lixo. O terminal é uma promessa desde a década de 70, mas só começou a sair do papel em 2006, em uma parceria entre a prefeitura e o governo federal. A prefeitura terminou a obra em 2010 e então entrou em uma briga judicial com o dono de parte do terreno. O imbróglio foi resolvido em agosto deste ano, porém o terminal permanece fechado. O prefeito Amazonino Mendes quer participar da solenidade que vai repassar o espaço ao Ministério da Pesca. Responsável por equipá-lo e administrá-lo. Mendes teve um problema de saúde, foi internado e só deve retornar ao trabalho depois das eleições. Com ou sem inauguração oficial, o terminal que custou 18 milhões de reais, já está defasado. O local terá capacidade para receber 200 toneladas de peixe por dia – cerca de metade da demanda atual. Parece história de pescador – mas é puro Kafka.

 

EMERGENTES, PORÉM EXIGENTES

A classe O, das famílias com renda média de 638 reais por mês, ficou conhecida pela prioridade ao preço baixo. Mas o tempo da atenção apenas às cifras ficou para trás. Uma pesquisa mostra que o aumento da renda dessas famílias está fazendo com que as donas de casa valorizem a relação custo-benefício – pagam um pouco mais por eletrodomésticos que permitem economia e oferecem comodidade no dia a dia.

 

 

AGORA VEM A PARTE MAIS DIFICIL

O trabalhador brasileiro em média gera um quinto da riqueza gerada pelo americano. Para se tornar uma nação rica, o Brasil precisa aprender a produzir com mais eficiência. Ao longo da história econômica, os acadêmicos têm tentado entender o peso da produtividade no desenvolvimento das nações. Em 1776,o escocês Adam Smith já lançava os primeiros conceitos que envolviam a produtividade e a especialização da produção industrial. Smith dizia que, ao confeccionar alfinetes, mesmo um artesão habilidoso não conseguiria produzir mais que 20 peças por mês. Já numa fábrica de alfinetes, o processo envolvia 18 etapas e dez funcionários que, à medida que se especializavam, conferiam mais velocidade à tarefa e davam volume à produção. No início do século 19,em plena Revolução Industrial, as empresas têxteis de Lancashire, no norte da Inglaterra, provaram que trabalhadores capacitados e tecnologia resultavam em alta produtividade. A Inglaterra tornou-se o grande fornecedor de têxteis no mundo – e outros setores industriais passaram a seguir o caminho da mecanização. O grande salto acadêmico, porém, veio só em 1950, quando o economista americano Robert Solow, ganhador do prêmio Nobel e considerado o papa do assunto, conseguiu computar os efeitos da produtividade na economia, provando assim seu potencial transformador. Nas palavras de outro vencedor do Nobel. o economista Paul Krugman, “produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”. Ou seja, ela é a chave para pavimentar a rota de um país para o enriquecimento. Hoje, um trabalhador brasileiro gera perto de 22000 dólares por ano de riqueza. O americano, cerca de 100000 dólares. Ou seja, são necessários cinco brasileiros para produzir a mesma riqueza que um americano. A enorme diferença faz sentido. Afinal, os Estados Unidos investem seis vezes mais do que o Brasil. A produtividade maior também gera uma recompensa: a renda per capita dos americanos é cinco vezes a nossa. Tudo está interligado. Isso não quer dizer, porém, que os brasileiros trabalhem pouco. Ao contrário, dedicamos mais horas ao trabalho do que a população da maioria dos paises ricos, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho e da OCDE, o clube das economias desenvolvidas. Mas horas de trabalho e resultado em termos de produção são coisas diferentes. Veja o exemplo da Alemanha. Entre os mais produtivos trabalhadores da Europa, os alemães enfrentam jornadas de, em média, 38 horas de trabalho semanal – ante 44 horas dos brasileiros – e desfrutam de 40 dias úteis de férias por ano, o que os coloca entre os recordistas europeus em folgas. Mesmo com uma jornada menor, o trabalhador alemão é quatro vezes mais produtivo do que o brasileiro. “Aquestão está na qualidade do trabalho, e não na quantidade”, diz o economista Samuel Pessoa, da consultoria Reliance. As lições de Estados Unidos e Alemanha (leia as reportagens nas págs. 44 e 48) mostram que a produtividade é uma síntese das escolhas das nações ao longo do tempo. Aquelas que investiram na educação, na infraestrutura e nas instituições fortes têm uma economia mais eficiente e, portanto, mais rica. No caso do Brasil, infelizmente, a baixa produtividade é o resultado de muitos fracassos. O sofrível nível educacional é um deles. Os brasileiros têm, em média, 7,5 anos de escolaridade – ante 12 anos dos americanos. Aqui, apenas 11%da população tem diploma universitário – quase a mesma proporção de 30 anos atrás. E pior: só 35% dos alunos do ensino médio são plenamente alfabetizados – ou seja, têm condições de entender plenamente um manual. Esses indicadores ruins da educação se refletem no campo do trabalho. Nas grandes empresas brasileiras, apenas 13% da força de trabalho tem formação superior – nas pequenas empresas a situação é ainda mais grave, 7%. Isso leva a um desdobramento igualmente grave: falta capacidade de inovação. Em 2010, o Brasil registrou 22681 pedidos de patentes- os Estados Unidos, quase meio milhão. Investimos apenas 1,2% do PIBem pesquisa e desenvolvimento, um terço do esforço japonês. Tudo isso explica a dificuldade das empresas brasileiras para atuar num ambiente cada vez mais tecnologicamente competitivo. A fabricante de software Totvs, de São Paulo, que emprega 5600 pessoas, acabou de abrir um escritório na cidade americana de Mountain View, no vale do Silício – onde fica a sede do Google. A Totvs contratou lá U funcionários para realizar o desenvolvimento completo de software, algo que tem dificuldade aqui. “Simplesmente não há gente para fazer isso no Brasil”, diz Laércio Cosentino, presidente da Totvs. Para piorar, um funcionário brasileiroleva até 120 dias para ser treinado. Nos Estados Unidos, isso é feito em 30 dias. “O americano já chega à empresa pronto”, diz Cosentino. O fato é que a contribuição da produtividade ao crescimento econômico tem sido modesta no Brasil. Os surtos recentes de crescimento foram impulsionados basicamente por aumento de demanda. Quando o consumo estava em alta e a produção alcançava o limite, entrava em ação uma mão de obra ociosa que, ao primeiro sinal de desaceleração da economia, era descartada Isso fez com que a massa de desempregados atuasse como um colchão para amortecer os altos e baixos da atividade econômica Na última década, a situação mudou. A economia brasileira cresceu 40% e absorveu boa parte do estoque de trabalhadores antes alijados do mercado. No período de 2003 a 2011, a taxa de desemprego caiu de 12% para 6%. Tratou-se, obviamente, de uma excepcional noticia para o país. Num cenário de quase pleno emprego, porém, a competição entre as empresas pelos mais capacitados se acirra. “Quando os aumentos salariais não são acompanhados de elevação de produtividade, isso significa que as margens das empresas estão sendo corroídas”, diz o economista Fabio Giambiagi, do Banco acional de Desenvolvimento Econômico e Social. A consequência disso: menos lucro, menos capacidade de competir e menos fôlego para fazer investimentos.

RITMO CHINÊS

Um estudo inédito da consultoria Boston ConsultingGroup mostra que mais de 70% do crescimento brasileiro na última década (veja quadro na pág. 40) foi resultado justamente da incorporação de mão de obra ao mercado de trabalho. Nos 3,7% de expansão média do PIB de 2001 a 2011, o aumento do nível de emprego e a expansão da população ativa responderam por 2,7 pontos. A produtividade somou apenas 1ponto percentual à média. Enquanto isso, em outros grandes emergentes, o avanço do PIB veio principalmente do aumento de produtividade – no caso da China, ela respondeu por 93% da taxa de crescimento econômico da última década. Cada trabalhador chinês gera uma riqueza de quase 9 000 dólares por ano – ainda menos da metade da dos brasileiros. No entanto, a produtividade chinesa vem crescendo à taxa de 9% ao ano. Se os dois países continuarem no mesmo ritmo, os chineses deverão ultrapassar os brasileiros em riqueza adicionada em 2024. Ou seja, daqui para a frente, o ritmo de crescimento econômico no Brasil vai ser ditado pelo que ocorrer na produtividade. Apenas para manter a média de expansão do PIE dos últimos dez anos, será necessário duplicar o crescimento da produtividade para 3%.Uma das razões da estagnação da produtividade nas últimas décadas é o baixo investimento. Em 1990, para cada brasileiro empregado havia um estoque de equipamentos de 41000 dólares. Em 2010, a correlação permanecia praticamente a mesma. No mesmo período, os Estados Unidos elevaram o estoque de equipamento por empregado de 169 000 para 245000 dólares, ampliando uma diferença de capital investido que já era grande em relação ao Brasil. A construção civil é um dos setores que ainda apresentam baixa mecanização. As casas e os prédios residenciais brasileiros são erguidos de maneira quase artesanal. “Usar tijolo e argamassa para assentar paredes é um método fora de uso em países desenvolvidos”, diz Alessandro Vedrossi, diretor executivo da construtora Brookfield. Enquanto no Brasil dois funcionários constroem 17 metros quadrados por dia no sistema de alvenaria, nos Estados Unidos uma dupla de operários levanta de 40 a 50 metros quadrados por dia com material prémoldado. Is o reduz dramaticamente o tempo de execução. “Se aqui um empreendimento com duas torres de 35 andares exige até 1500 trabalhadores e leva 42 meses para ficar pronto, os americanos erguem uma obra dessa magnitude em 30 meses e com metade dos funcionários”, diz Vedrossi. O baixo nível de investimento é resultado também de uma iniciativa privada extremamente pulverizada. Dos cerca de 5 milhões de empresas existentes no Brasil, 90% têm menos de dez funcionários. Nos Estados Unidos, as microempresas representam 54% do total. Quanto menor o porte da empresa, maior a dificuldade em levantar capital e adquirir tecnologias – pelo menos no Brasil. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostra que as pequenas empresas precisam de quatro vezes mais capital e trabalho para gerar a mesma quantidade de produção que as grandes companhias. “O Brasil é deficiente em todos os fatores importantes para a produtividade, como inovação, educação e infraestrunum ambiente com pouca flexibilidade. Em maio, antes de o governo reduzir o imposto dos carros para incentivar o consumo, as vendas do setor automotivo estavam em queda e isso refletia diretamente na produção da Bosch. Com menos produção, mas com o mesmo efetivo, a produtividade da empresa alemã no Brasil caiu 20% – situação que se repete sempre que seus clientes diminuem as encomendas. “Se a lei permitisse a diminuição da jornada com redução salarial, o número de horas trabalhadas por funcionário seria suficiente para atender à demanda e a produtividade se manteria”, diz Besaliel Botelho, presidente da Bosch.

ILHAS DE EXCELÊNCIA

Um dos raros setores no Brasil que têm conseguido romper a barreira da inércia na produtividade é a agricultura Resultado do melhoramento genético de sementes e da adoção de máquinas no campo, uma parte da agricultura nacional deu um salto de eficiência. Nas últimas quatro décadas, a produtividade agrícola tem avançado, em média, 3% ao ano. O melhor exemplo dessa transformação ocorreu nas lavouras de soja. No início dos anos 70, 1hectare produzia cerca de 1400 quilos do grão – a mesma quantidade extraída da terra nos anos 30. Em 2011, o Brasil alcançou o topo da produtividade mundial de soja e colheu, em média, 3115 quilos por hectare plantado. A alta produtividade do cultivo de soja, porém, não éregra no país. Ao contrário. Estima-se que apenas 20% dos produtores rurais brasileiros operem com produtividade considerada média ou alta – resumindo a elite do campo a menos de 1milhão de agricultores. Isso explica por que, apesar dos avanços consistentes e contínuos em produtividade, cada trabalhador da agricultura gera por ano 12000 reais em riqueza, o equivalente a um quarto da média do setor industrial. O hiato de produtividade entre a elite da agricultura e o produtor comum se repete também na indústria e nos serviços. Nesse setores também convivem empresas operando no estado da arte com outras que produzem de forma rudimentar. “Diante do aumento dos custos com mão de obra e da redução das taxas de juro no Brasil, as empresas deveriam aumentar seus investimentos em automação para elevar os ganhos de produtividade”, diz Júlio Bezerra, sócio da consultoria BCC. É essa receita que vem sendo adotada por empresas que já fazem parte das ilhas de excelência da indústria. A Alpargatas, por exemplo, está destinando 177 milhões de reais à construção de uma nova fábrica na cidade mineira de Montes Claros, que foi concebida para dobrar a produtividade da linha de produção de sandálias. Um executivo da empresa ficou dedicado durante um ano à pesquisa de soluções para acelerar o processo produtivo, visitando fornecedores de equipamentos em cinco países. Até a arquitetura da fábrica foi repensada. “Hoje, levamos 13 horas para produzir um par de Havaianas”, diz Márcio Utsch, presidente da Alpargatas. “Na nova fábrica, o tempo cairá para 7 horas.” Buscar saídas para tornar a produção mais eficiente é um objetivo que está na mira da elite corporativa. Uma pesquisa realizada por EXAME com 113 empresas da lista das 1000 maiores do país mostra que mais da metade delas investiu, no último ano, em melhoria de processos e gestão para elevar a produtividade – estratégia que deverá ser repetida nos próximos 12 meses por 60% delas. Ou seja, boa parte das companhias pretende tirar mais do mesmo antes de investir em máquinas ou em expansão da capacidade. Foi isso o que a multinacional alemã Basf fez em 2010. A capacidade de produção da fábrica de tintas, instalada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, estava quase esgotada Na época, foi cogitada a construção de uma nova fábrica, que demandaria milhões em investimento e dois anos para ficar pronta. A solução foiuma completa revisão dos processos internos, desde a escala de trabalho dos funcionários até a reforma na área de expedição dos produtos. “Por meio de uma série de melhorias, nossa produtividade aumentou 50% e postergamos para 2017 a construção de uma nova fábrica”, afirma Antonio Carlos Lacerda, vice-presidente da BasE Muitas vezes, esses ganhos são conseguidos por meio da obsessão por localizar oportunidades pouco óbvias. O executivo Alexandre Zanelatto, diretor operacional da empresa de logística ALL, tem a identificação de gargalos como uma de suas principais missões. Ele e sua equipe revisam permanentemente os 400 deslocamentos diários feitos pelos trens da companhia, nos 4000 cruzamentos de linhas, 450 pátios de manobra e 205 pontos de carregamento. Em março de 2010, o time de operações da ALL encontrou uma brecha para melhoria e fez alterações no processo de descarga de mercadorias despachadas no porto de Santos. A mudança gerou uma diminuição do tempo total de chegada e saída dos trens de 47 para 40 horas – um sensível ganho de produtividade. Com isso, a capacidade de descarga de grãos em Santos foi elevada de 500000 para 750000 toneladas. As experiências da” empresas atestam que produtividade não é um fim em si mesmo. Elas podem ganhar eficiência com mudanças em processos, investimento em tecnologia ou qualificação da mão de obra. Mas, para uma nação se tornar produtiva, é preciso mais. A produtividade da economia como um todo depende também do grau de maturidade das instituições. “Um país que pense em se tornar mais produtivo tem de começar pelo fortalecimento de suas instituições”, diz o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Leis confusas e contraditórias são danosas aos investimentos e tornam o processo de fazer negócios mais caro e demorado. Já regras de funcionamento claras, ancoradas por agências reguladoras e Justiça sólidas, criam um ambiente favorável a empreender, investir e inovar. Desse modo, a melhoradas instituições fornece base para o aumento da produtividade, que, por sua vez, leva a uma nação mais rica O Brasil dos últimos anos tem avançado muito pouco – e às vezes até recuado – nesse sentido. Em anos recentes, compensamos esse problema incorporando mais gente à produção. Agora, precisamos acelerar o passo da produtividade – e, assim, do nosso desenvolvimento.

 

A FORCA DA INOVACAO

ESPERA DE SINAIS MAIS convincentes de recuperação econômica, os americanos pelo menos enfrentam a turbulência num patamar bem acima da média mundial em diversos quesitos. Um deles se refere à produtividade dos trabalhadores. Os Estados Unidos geram hoje a maior riqueza por empregado entre as principais economias do mundo. Numa comparação entre todas as nações, ficam atrás apenas de Catar e Luxemburgo, que fogem à curva com baixa CRISTlANE MANO, DE NOVA YORIC população e alta receita devido ao petróleo, no primeiro caso, e ao aço, no segundo. Com quase 100000 dólares gerados por trabalhador em 2011, o indicador americano é 8% maior do que o japonês, 25% superior à média da zona do euro e está 360% acima do brasileiro. O crescimento da produtividade se manteve nas últimas décadas – e resistiu à crise. “Os Estados Unidos vêm sustentando sua liderança por meio da construção de ciclos de inovação importantes ao longo da história”, diz o economista Bart van Ark, da agência de pesquisas The Conference Board, com sede em ova York. Um grande passo para a conquista da superioridade americana nesse aspecto foi dado do fim da Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 70 e coincidiu com um dos maiores avanços deprosperidade da história dos Estados Unidos. Em pouco mais de duas décadas, a produtividade americana dobrou. O impulso ampliou O lucro das empresas, que, por sua vez, aumentaram o salário dos funcionários de maneira proporcional. A explosão da classe média foi a consequência imediata A produção do setor imobiliário passou de 114000 novas casas, em 1944, para 1,7 milhão, em 1950. Uma medida do avanço do consumo está na velocidade com que os cartões de crédito se multiplicáramos Em setembro de 1958, o Bank of America testou seus primeiros 60000 cartões de crédito em Fresno, na Califórnia. Uma década mais tarde, já havia 100 milhões deles espalhados pelo país. Por trás da multiplicação da riqueza, os economistas apontam a construção de um modelo voltado para a inovação – tradicionalmente, o principal combustível do aumento da produtividade. Com uma população altamente educada, criou-se no país um ambiente favorável à geração de conhecimento em laboratórios bem equipados, que logo estabeleceram uma relação direta com as empresas. A excelência atraiu profissionais qualificados de todo o mundo. Especialistas chamam a atenção para a cultura meritocrática do meio acadêmico americano, que colaborou para a velocidade do desenvolvimento tecnológico. “As universidades americanas mantiveram uma tradição em que pesquisadores jovens e talentosos são encorajados a progredir”, diz o americano Robert Gordon, professor de economia da Universidade Northwestern e um dos maiores especialistas em produtividade no mundo, “já na Europa sempre prevaleceu uma cultura de hierarquia segundo a senioridade.” As mesmas bases de população educada e ambiente propício à inovação impulsionaram Outro período de expansão acelerada da produtividade americana nos anos 90. Naquele momento, o desempenho dos Estados Unidos descolou do de outros países ricos. Entre 1995 e 2003, a economia americana cresceu o dobro da média europeia. Boa parte dos especialistas atribui essa fase à rápida adoção de novas tecnologias da informação. Criou-se uma espécie de éden econômico, com crescimento, mais empregos e salários mais altos – e, para completar, sem inflação. Na época, economistas – e o próprio Alan Greenspan, então presidente do banco central americano – saudaram o início de uma “nova economia”, em que a produtividade sem precedentes gerada pelos computadores seria suficiente para impedir o avanço inflacionário. O uso da tecnologia se espalhou não apenas na indústria, mas também no setor de serviços, no qual o Walmart é o exempio máximo. (E, diga-se, polêmico. No começo dos anos 2000, a empresa enfrentou acusações de espremer os funcionários em jornadas extenuantes em troca de salários baixos.) “Na década de 90, a produtividade americana aumentou tanto nas fábricas como também na distribuição de produtos”, diz o economista Van Ark, que realizou um estudo a respeito do papel de grandes varejistas nesse período. É verdade que, mais tarde, os estudiosos reconheceram a avalanche de produtos importados baratos como outro fator para manter a inflação sob controle, mesmo com o aquecimento no consumo.

AMEAÇAS À FRENTE

O avanço mais recente da produtividade americana sofreu influência da crise. Num primeiro momento, com as demissões nas empresas, o indicador cresceu: a mesma produção passou a ser obtida com menos funcionários. Agora, esse ganho se esgotou. Outro motivo de preocupação é o aumento da desigualdade. Por décadas, ganhos de produtividade representaram contínuos saltos na renda das pessoas. Isso não é mais verdade – ou pelo menos não no mesmo ritmo. A produtividade no país cresceu 254% de 1948 a 2010, mas o salário por hora trabalhada avançou 113% no período – as curvas desgrudaram a partir dos anos 80. O resultado, conforme estudo do economista Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia, é que os 10% mais ricos da população hoje detêm 49% da renda, a taxa mais alta desde 1917. São questões de um país que discute como manter uma trajetória de sucesso à medida que vantagens históricas começam a ruir. Os dados da produtividade mostram que o mito de que os Estados Unidos estão sumindo ainda não passa disto: um mito. Para os paranóicos, no entanto, o que vale é o fato de que, em 1990, os Estados Unidos possuíam o maior percentual global de graduados em universidades na faixa de 25 a 34 anos – e, hoje, o país está na décima posição (o líder é o Canadá). Tentar repetir a própria história, nesse caso, parece a melhor maneira de evitar um retrocesso.

 

A FORMULA ALEMA

EM MAIO, Mês EM QUE SE COMEMORA o Dia do Trabalho, a Alemanha viveu uma das maiores ameaças de greve das últimas décadas. Operários das indústrias metalúrgicos e eletrônicos, uma das maiores categorias do país, saíram às ruas aos milhares para pedir aumento salarial. Durante semanas, um número estampou cartazes, faixas, manchetes de jornal: “6,5%”. Diferentemente do que se pode supor, a negociação do reajuste não foi marcada por temas habituais, como participação nos lucros ou inflação. “Queremos que os empregados se beneficiem dos avanços de produtividade das empresas”, disse na época Berthold Huber, presidente da IG Merall, o poderoso sindicato dos trabalhadores. “Nós fizemos por merecer”, brandia outro slogan do movimento. O episódio ilustra a força com que noções como desempenho e capacidade de produzir se encontram gravadas na mentalidade alemã. Ao mesmo tempo que se orgulham de trabalhar duro e de tocar a maior economia do continente, os alemães são recordistas regionais em dias de férias remuneradas garantidas por lei. Com mapas debaixo do braço e, comumente, chinelos com meias, são celebrados como os maiores turistas do continente. Oque poderia parecer um paradoxo tem explicação simples: os índices crescentes de produtividade da Alemanha, hoje entre os maiores da Europa. Nas últimas duas décadas, a produtividade por trabalhador em atividade no país cresceu perto de 23%. No cálculo que leva em conta a produção por hora trabalhada, o aumento chegou a 35%.O desempenho está acima do obtido em economias vizinhas. De 2005 a 2010, a produção por hora trabalhada na Alemanha aumentou 4%,ante 3%na França e crescimento quase nulo na Itália.O ganho produtivo colaborou para a retomada da competitividade perdida nos primeiros anos da reunificação, quando os alemães enfrentaram a supervalorização da moeda e a perda de mais de 500000 empregos na indústria. Reformas trabalhistas iniciadas na década de 90, e que ganharam força a partir de 2003 com o governo Gerard Schrõder, estão entre as razões da recente escalada da produtividade. As medidas abriram caminho para o estabelecimento de contratos temporários e arranjos criativos, como o Arbeitszeitkonten, que permite alterar a duração de jornadas em períodos de produção baixa e alta. Montar o quebra-cabeça do aumento da produtividade na Alemanha, porém, requer um olhar detido sobre o sistema educacional. No Brasil, como em boa parte dos países, qualquer pessoa com dinheiro para investir pode na prática se tornar um profissional em atividades não regulamentadas, como as de padeiro ou cabeleireiro. Basta abrir uma loja e colocar à venda pães, cortar cabelos e assim por diante. Na Alemanha, ao contrário, ninguém pode ser açougueiro, padeiro ou mesmo agente funerário sem passar por anos de estudo em um braço do sistema de ensino secundário. Estima-se que metade dos trabalhadores do setor privado possua esse tipo de formação profissional. A principal característica do sistema, que tem origem nas guildas e nas corporações de ofício da Idade Média, é combinar o ensino teórico de escolas profissionalizantes com o aprendizado intensivo em empresas. Atualmente, cerca de 1,6 milhões de jovens ou Azubis, como são chamados, participam deprogranlas de aprendizado dual – dividido entre escola e empresa – todos os anos. A modalidade atrai dois terços dos estudantes egressos do ensino médio, que podem escolher entre 343 ocupações reconhecidas. Financiada em parte por empresas, em parte pelo Estado, a capacitação leva de dois a três anos e meio. “O sistema de formação dual contribui para a qualificação da força de trabalho e, por consequênçia, para a produtividade do país”, diz Ronald Bachmann. do instituto de pesquisas econômicas RWI Essen.

HONRA AO MÉRITO

A primeira versão do sistema atual foi implantada em fins do século 19. Seu funcionamento, claro, vem passando por adaptações. Hoje, o sistema de formação dual germânico é modelo para muitos governos. Barack Obama e David Cameron são alguns dos governantes a elogiar a fórmula alemã, tida como peça fundamental para a competitividade industrial do país. Uma das virtudes apontadas é a estreita ligação entre os treinamentos e as demandas por mão de obra do setor privado. Em vez de confiar suas fichas no mercado, as empresas têm a chance de formar a própria força de trabalho. Uma em cada quatro companhias alemãs tem programas desse tipo.A montadora BMW, com sede em Munique, oferece 12000 vagas de treinamento por ano. Os interessados podem escolher entre 26 opções de carreira, de microtecnologia a mecânica. Aos 21 anos de idade, Judith Dallmer é uma das 70 aprendizes da pequena fábrica que a BMW mantém em Berlim. Em 2013, ela irá concluir o treinamento em mecatrônica para motocicletas. O aprendizado funciona em turnos de três semanas: uma semana na escola, duas dentro da empresa Na Blvrw, em vez de professores e quadro-negro, o aprendizado ocorre com a ajuda de instrutores e colegas. “Não se parece em nada com o clima autoritário de certas escolas ou faculdades”, diz Judith. “É um jeito muito bom de aprender uma profissão.” Como a maioria dos aprendizes que passam pela companhia, ela será efetivada ao final do treinamento. Na Alemanha, o prestigio dos aprendizes lembra pouco o tratamento que costumam receber estudantes de formação secundária em outras partes. Os Azubis são tema de livros, revistas especializadas, programas de TV Uma vez por ano, um evento de gala organizado pelas câmaras de indústria e comércio com a presença de celebridades premia os 200 melhores aprendizes do país. Para as empresas, ser consideradas um bom destino para programas de treinamento é um fato tão celebrado quanto aparecer numa lista das melhores para trabalhar. O resultado é que há na Alemanha relativamente menos graduados em universidades do que em outros países desenvolvidos. A proporção de trabalhadores alemães de 25 a 34 anos com grau superior é de 26%. Nos Estados Unidos, é de 41%;e no Japão, 56%. “A economia alemã se constrói sobre uma força de trabalho com formação intermediária”, diz Vera Erdmann, do instituto de economia alemã de Colônia. Se funciona tão bem num país de economia consolidada, certamente é um ótimo exemplo para ajudar a elevar a produtividade de uma nação emergente, como o Brasil.

 

AS DUAS FACES DO GOVERNO

Com concessões de aeroportos e estradas e propostas para reduzir o custo Brasil, o governo mostra seu lado mais moderno. Mas não deixa de pesar a mão na economia, com mais protecionismo e criação de estatais. PATRICK CRUZ.

AS ÚLTIMAS SEMANAS TÊM SIDO de atípica abertura nas relações do governo federal com a iniciativa privada. Em agosto, foram anunciadas concessões de ferrovias e rodovias que somam 133 bilhões de reais. A continuação desse pacote é aguardada para este mês de outubro. Há expectativa de que saiam os termos de privatização de portos, com a qual o governo espera diminuir 30% as tarifas de operação, e dos aeroportos do Galeão (RJ) e de Confins (MG) – três já foram concedidos em Brasília, Guarulhos (SP) e Campinas (SP).Desde 2003, quando o Partido dos Trabalhadores chegou ao Palácio do Planalto, nunca o governo se mostrou tão receptivo à participação do setor

privado quanto agora.As concessões na infraestrutura deixaram de ser tabu – embora a palavra “privatização” continue estigmatizada. Também já não há, como em um passado recente, ranger de dentes quando se fala em mudanças nas leis trabalhistas – propostas para tornar mais flexíveis regras nesse campo estão com a equipe do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, desde o fim do ano passado. Somem-se ainda as providências para o corte no preço da energia elétrica e para a retomada dos leilões de áreas para a exploração de petróleo e gás. A sequência desencadeada é, de fato, uma boa notícia: evidencia que a competitividade entrou de vez na agenda. A presidente Dilma Rousseff chegou ao ponto de fazer menção a esse conceito no discurso à nação proferido na véspera da comemoração da Independência. Isso é um avanço e tanto na agenda econômica – que passa a ser mais capitalista. Mas essa é apenas uma parte da história. A velha face do governo, intervencionista e estatizante, permanece ativa. Nesse lado obscuro, em que a ideologia continua sobrepujando o pragmatismo, ainda proliferam a criação de empresas estatais e as medidas protecionistas no comércio exterior. A abertura de estatais tem se dado até em setores em que as empresas privadas têm sabida competência. No anúncio do pacote de concessões, por exemplo, foi apresentada a Empresa de Planejamento e Logística, cuja missão será a criação de planos de longo prazo para o setor de transporte. Mas, sem alarde, veio na mesma esteira também a Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias – e, com ela, já são 145 estatais da União, 40% mais do que em 2000. A nova estatal, apelidada de “Segurobras”, atuará para garantir a entrega no prazo das obras de infraestrutura previstas para os próximos anos. Não seria um grande problema se a agência tivesse seguido o plano inicial: ser um fundo ao qual as construtoras recorreriam quando precisassem de garantias financeiras para entrar em licitações. Mas a Segurobras recebeu enxertos – e virou outra coisa. De fundo garantidor, ela se converteu AEROPORTO E LINHA DE TRANSMISSÃO: concessões à iniciativa privada e intervenção no setor de energia numa seguradora apta a comprar outras seguradoras. E não só isso: o texto da lei que a criou permite que a nova empresa atue em qualquer ramo, do seguro-garantia ao de automóveis. “O governo sempre acha que ninguém sabe fazer as coisas melhor do que ele”, diz Jorge Hilário, presidente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros. “É por isso que a intervenção estatal não para de crescer.” É preciso reconhecer o enorme avanço representado pelas concessões na área de infraestrutura. Afinal, o PT, partido da presidente Dilma Rousseff, sempre demonizou as privatizações. Isso prevaleceu enquanto a economia se mostrava aquecida. Com a redução do ritmo das atividades – a previsão é que o produto interno bruto avance apenas 1,5%neste ano – e com limitações de orçamento, o governo se deu conta de que não consegue tocar sozinhas as obras necessárias para o país crescer mais. “A situação atual forçou uma revisão das críticas às privatizações”, diz o economista Samuel Pessoa, da consultoria Reliance. “Isso é um sinal de evolução:’ Mas, de acordo com ele, há uma diferença entre o modelo de privatização nos oito anos de governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual. Nos anos FHC, quando estatais como vale e Telebras viraram empresas privadas, o Estado assumiu uma tarefa eminentemente reguladora. “Agora, além da regulação, o governo busca manter um forte papel operacional”, afirma Pessoa. É o que explica a resistência, por exemplo, em repassar a gestão de grandes aeroportos a grupos privados. Um time liderado pela ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, foi à Europa em setembro para consultar gestores de alguns dos principais aeroportos do mundo sobre a ideia de se associarem à Infraero para administrar terminais brasileiros – num arranjo em que os estrangeiros seriam minoritários nas empreitadas e a estatal brasileira se manteria como a dona da bola. Grupo algum se animou com a proposta. O governo também age com o velho tique intervencionista em outras frentes, mesmo quando assume um objetivo elogiável, como o de tirar o Brasil do topo do ranking dos países de energia mais cara. Em setembro, anunciou o corte no preço da eletricidade para consumidores residenciais e industriais. A medida, há muito aguardada pelos setores produtivos, vai baratear o insumo em 28% na produção industrial. A boa notícia perdeu parte do encanto em pouco tempo. Ovalor das empresas do setor elétrico na bolsa caiu 21bilhões de reais em apenas dois dias. Isso porque as geradoras que estão com concessões por vencer até 2017 e quiserem antecipar a renovação dos contratos terão de se comprometer com a redução das tarifas. O compromisso ocorreria em uma situação tida como desvantajosa: os novos preços vão remunerar apenas a operação e a manutenção de equipamentos, o que tende a afetar o lucro e até a capacidade de investimento das empresas. No caso do setor do petróleo, a ingerência há muito causa distorções. A começar pela política de preços dos derivados, com o argumento de que o controle do preço do diesel e da gasolina é vital para manter a inflação sob controle. Por causa disso, a Petrobras fechou o segundo trimestre com prejuízo de 1,3 bilhões de reais, seu pior resultado desde 1999.E não é apenas a estatal que sente os reflexos dessa política. Incapaz de competir com a gasolina, mantida com preço baixo a despeito do encarecimento do petróleo no mercado internacional- a alta acumulada desde junho é de 30% -, o etanol perde espaço. Neste ano, 41 usinas já fecharam as portas no país, segundo a União das Indústrias de Cana- de- Açúcar. Segurar o preço dos combustíveis de forma artificial pode evitar repiques momentâneos da inflação, mas a medida não tem sustentação duradoura. “Não podemos nos tornar reféns de interesses de momento”, diz o economista Marcos Fernandes Gonçalves, da Fundação Getulio Vargas.”O Brasil precisa retomar uma agenda de médio e longo prazo.” No petróleo está outra mostra de um governo com duas personas. O lado novo e bom: os leilões de blocos de exploração serão retomados em 2013, segundo anúncio feito em setembro – mas essa providência só veio após quatro anos de espera, com reflexo sobre a produção, que entrou em declínio devido ao esgotamento dos campos antigos.

Proteção ÀS BATATAS

Há sinais de que o governo Dilma está pensando no longo prazo – e, mais uma vez, isso ficou especialmente palpável no pacote de concessões. Ficou claro também na maneira firme como agiu nas greves recentes de servidores públicos, resistindo à pressão por aumentos que pesariam nas contas públicas no futuro. Por outro lado, as medidas míopes não cessaram. Um exemplo: o governo elevou em setembro a tarifa para a importação de 100 produtos – uma lista que vai do alumínio à batata – como forma de contrabalançar a alta das importações. Outra lista, com mais 100 produtos, é aguardada para outubro. O governo argumentou que a medida não fere as regras da Organização Mundial do Comércio e que é uma resposta à desova de produtos que os países ricos, em crise, têm exportado para cá. Ainda que seja uma atitude reativa, o protecionismo é apenas um quebra-galho – e tem efeito inócuo para resolver os verdadeiros problemas de competitividade. “Medidas como a elevação de tarifas sobre importados refletem o pensamento de curto prazo”, diz Simon Evenett, criador da Global Trade Alert, entidade com sede em Londres que monitora os níveis de abertura do comércio internacional. “Se realmente quer estimular suas empresas, o Brasil deve trabalhar para reduzir problemas como alto custo da burocracia e infraestrutura deficiente.” Felizmente, o governo começou a mostrar uma face estimulante, que admite parcerias com a iniciativa privada e se dispõe a encarar entraves que precisam ser extirpados.Melhor para o país se esse lado bom prevalecer sobre o velho Brasil.

 

AS PESSOAS FAZEM A DIFERENCA

Tanto para o país quanto para as empresas, o caminho mais direto para avançar é aprimorar o capital humano, concluiu os debatedores do quarto EXAME Fórum I HUMBERTO MAIA JUNIOR. HÁ pouco MAIS DE 100 ANOS, O INGLÊS Alfred Marshall, um dos maiores economistas de todos os tempos, responsável por sistematizar a ideia de que o valor de um produto é determinado por sua procura e pelo custo de produção (um princípio hoje banal), afirmou: “O mais valioso entre todos os capitais é aquele investido em seres humanos”. Marshall demonstrava toda a sua confiança no fator mais importante para o desenvolvimento de uma nação – as pessoas que nela vivem. A necessidade de o Brasil ampliar o investimento na qualificação de sua população foi a tônica da quarta edição do EXAME Fórum, realizado em 14 de setembro, em São Paulo, para uma platéia de 430 empresários e executivos. O tema do encontro foi “O Brasil e as empresas brasileiras no novo cenário mundial”. Em três painéis, capitaneados por dois economistas americanos e dois ministros do governo Dilma, foram debatidos os principais problemas da economia do pais, como alta carga tributária, burocracia paralisante, excesso de protecionismo e falta de regras claras para os investimentos. Como ponto comum, ficou patente que, para o avanço tanto das empresas quanto da economia, é fundamental dar atenção aos brasileiros, os responsáveis por produzir a riqueza – e, em última instância, os beneficiários dos resultados conseguidos. “O Brasil ainda tem vários problemas, mas o ponto em que realmente destoa da maioria dos países é o baixo investimento nas pessoas”, disse, na abertura dos debates, Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton e ganhador do prêmio Nobel em 2008. Investir nas pessoas significa dar a elas condições para que possam prosperar e viver com qualidade. O Brasil ainda tem índices sociais sofríveis: cerca de 20 em cada 1000 crianças morrem antes de completar 1 ano. Quase metade das residências brasileiras não está ligada à rede de esgoto. E cerca de 15% dos brasileiros com mais de 25 anos estão enquadrados na categoria “sem nenhuma instrução escolar”.Recentemente, o governo anunciou algumas medidas para impulsionar os investimentos em infraestrutura e outras para cortar custos das empresas. São medidas importantes – fundamentais, diga-se – para a modernização da economia. E devem vir acompanhadas por investimentos nas pessoas. “Construir fábricas ou estradas é importante”. ““Mas, se eu dissesse onde o país mais tem de investir, seria nas pessoas”, disse Krugmano” Elas podem fazer o país do futuro.” Um dos melhores investimentos é aprimorar o nível de ensino. Os avanços obtidos, como a universalização da presença nas escolas, ainda são insuficientes para a competição com outros países.” Nossa evolução foi mínima”, disse Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do conselho de administração do grupo Gerdau. Sua conclusão se baseia na comparação com o padrão de nações mais desenvolvidas. “Que tipo de pessoas precisamos para ser competitivos? “Eu quero o cidadão sul-coreano”,afirmou Gerdau, referindo-se ao ganho de produtividade do país asiático obtido após investimentos na melhoria do ensino. Um estudo do economista Eric Hanushek, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que países com bom desempenho dos estudantes em testes cognitivos apresentam crescimento da renda maior do que aqueles em que os alunos tiram nota baixa. Ele afirma que a melhora de 25 pontos nos resultados do Pisa, exame feito pela OCDE (cuja média dos países ricos é 500), resulta em aumento de 0,5 ponto percentual na taxa anual do PIB per capita. Uma projeção considerando a manutenção desse ganho por 80 anos resultou num PIB três vezes maior. “No longo prazo, o investimento que faz a diferença é na educação”, diz Hanushek. Paul Romer, da Universidade de Nova York, outro convidado do EXAME Fórum, defendeu a tese de que os governos devem ser “pequenos e fortes”.Ao Estado cabe, por exemplo, o papel de órgão regulador. “Quando pedem a um governo para fazer muito, ele deixa de fazer o básico”, diz Romer. E o que seria o básico? Romer faz analogia entre o papel do Estado e o da área de recursos humanos de uma empresa. “Os governantes devem atuar da mesma maneira que um diretor de recursos humanos”, diz ele. “Devem criar políticas para reter e trazer novos talentos ao país, além de garantir que recebam treinamento e estejam saudáveis.” Outro caminho para o desenvolvimento das pessoas é o trabalho. “Num emprego formal, o funcionário tem contato com gerentes qualificados e boa tecnologia’ diz ele. “Não deixa de ser uma escola com grandes oportunidades de aprendizado.” Pesquisas indicam, por exemplo, que os mexicanos que passaram um ano trabalhando nos Estados Unidos ganham 10%mais ao voltar ao México – reflexo do que aprenderam no mercado americano. Felizmente, o Brasil avançou nesse quesito: nos últimos dez anos, foram criados 15milhões de empregos formais. O estimulo às pessoas é ainda mais importante num cenário de crise global. Krugman prevê que Estados Unidos e Europa levarão anos para o retorno à estabilidade. Do lado de cá do Atlântico, o problema é agravado pela rivalidade extremada entre o partido político Republicano e Democrata, o que dificulta a aprovação de medidas para a recuperação. Ele afirma que, num cenário otimista, os Estados Unidos só retomarão o crescimento pré-crise no fim do próximo mandato presidencial, em 2016.AEuropa, onde o quadro é mais grave, depois disso. É nesse cenário que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, aposta no crescimento de 4% da economia brasileira em 2013. Mantega prevê que, no próximo ano, as medidas de incentivo adotadas em 2012 surtirão o efeito desejado. “O Brasil é hoje um país mais competitivo e um dos únicos com chance de crescimento”, disse ele. Será ainda mais se investirmos nas pessoas. Como disse em seu discurso Roberto Civita, presidente do conselho de administração do Grupo Abril, que edita EXAME, são os “esforços e a ousadia de homens e mulheres livres para empreender e melhorar de vida que estão por trás dos avanços ocorridos no mundo nas últimas décadas”. É o que o Brasil deve perseguir.

 

O silêncio É de ouro

A presidente Dilma se mostra boa chefa de Estado quando prefere não falar sobre temas delicados. Mas, ao sugerir que eleitores do PT têm preferência em seu governo, ela perdeu uma ótima chance de ficar calada.

ODEPUTADO FEDERAL ROMÂRIO DE SOUZA FARIA, DO RIO DE JANEIRO, destacou-se nos seus tempos de jogador profissional de futebol por ser um craque e por duas características pessoais. A primeira é que tinha o hábito de pensar. A segunda é que costumava dizer exatamente o que pensava. Entre o muito que disse, uma de suas melhores frases ficou gravada até hoje: “O Pelé calado é um poeta”. Foi a sua maneira de recordar um velho e sábio ditado: “O silêncio é de ouro”. As palavras do deputado poderiam ser perfeitamente aplicadas, hoje, à presidente Dilma Rousseff. Em diversas ocasiões, ela achou melhor não falar nada em relação a assuntos delicados – não chegou a ser, nesses casos, uma poeta, mas mostrou-se certamente uma boa chefe de Estado. Nunca disse uma palavra, por exemplo, sobre a hostilidade contra a imprensa livre que o PT, guiado pelo ex-presidente Lula, faz questão de ficar exibindo em público o tempo todo. Seu silêncio, aí, tem o peso de 1tonelada – informa ao comitê central do partido, ao manter a boca fechada, que ela está fora dessa e que é melhor não contarem com seu apoio na cruzada pelo “controle social” da mídia. Tem guardado, também, um silêncio de carmelita sobre o julgamento do mensalão. O recado, no fundo, é o mesmo: não esperem que eu convoque as “forças populares” para pressionar o STF nem queiram que eu tente salvar o couro de ninguém. Quando a presidente resolve falar, porém, muita gente logo lembra a frase de Romário em relação a Pelé. Dilma, em muitos desses momentos, continua não sendo uma poeta – e deixa de ser uma boa chefe de Estado. Ainda recentemente, por exemplo, teve a ideia de vir com um documento oficial – uma nota da Presidência da República para repreender um artigo do ex-presidente Fernando Henrique em O Estado de S.Paulo no qual ele refletia sobre a herança horrorosa que Lula deixou para o atual governo. Para que isso? A nota até que foi educada, mas Dilma perdeu, aí, uma bela oportunidade de acrescentar uma terceira medalha de ouro à sua coleção. Sua função é presidir o Brasil, e não ficar respondendo a artigos de jornal – afinal de contas, Fernando Henrique pode ser um ex-presidente muito benquisto, mas, tecnicamente, é hoje um mero cidadão comum. Além disso, não escreveu nada de mais; deu apenas algumas opiniões, sem ofender ninguém. Se Dilma ficar aborrecida com esse tipo de coisa, vai passar o resto de seu governo escrevendo notas de protesto. A maior chance recente que perdeu de ficar calada, porém, apareceu na presente campanha eleitoral. Dilma, no programa obrigatório de propaganda na televisão, e investido de toda a majestade de seu cargo, disse que há nos cofres do governo federal muita verba destinada a São Paulo – e que, se o candidato do PT à prefeitura ganhar, tais recursos serão entregues ao município. Como assim? De duas, uma: ou esse dinheiro não existe, e aí a presidente mentiu; ou existe, e aí ela tem a obrigação de entregá-lo já, pois pertence à população de São Paulo, e não a seu patrimônio pessoal. Segurar recursos públicos devidos a um município, sobretudo à sua população mais pobre, e ameaçar os eleitores de só soltar a verba se votarem em quem ela quer, é provavelmente contra a lei e certamente contra a decência comum. Estaria a presidente dizendo que há dois tipos de pessoa no Brasil – as que votam no PT e são bem tratadas por seu governo e as que votam contra e tornam-se cidadãos de segunda classe? Dilma nunca se lembra de que quase 44 milhões de brasileiros não votaram nela na eleição presidencial, a única em que foi candidata. Seria bom que lembrasse de vez em quando, pois essas pessoas não podem ser desintegradas e sumir no espaço; continuam sendo cidadãos do Brasil, pagam impostos e têm exatamente os mesmos direitos dos outros 56 milhões que lhe deram seus votos. A presidente pode não gostar disso mas tem pouco a ganhar deixando tão claro que não gosta. É só recordar as virtudes do silêncio.

 

O MINORITARIO VAI VIRAR DONO?

Os ex-donos da empresa de loteamentos Alphaville, que tinham só 1% da Gafisa, estão prestes a virar os maiores acionistas da incorporadora – não sem antes enfrentar uma boa briga.JOÃO WERNER GRANDO.

O DISPUTADO MERCADO DE CONSTRUÇÃO CIVIL, nenhuma empresa sentiu na pele os efeitos que uma aquisição equivocada pode ter nos rumos de seu negócio como a Gafisa, quarta maior incorporadora do país. Em setembro de 2008, a companhia, que já teve entre seus acionistas o bilionário americano Sam Zell e fatura quase 3 bilhões de reais, compraram por estimados 400 milhões de reais a construtora Tenda, especializada no então efervescente segmento de baixa renda. A operação provou-se um péssimo investimento – com obras que se revelaram até 50% mais caras do que o previsto e com menos de 20% dos clientes em condição de arcar com os financiamentos, a Tenda foi a principal responsável pelos  maus resultados apresentados pela Gafisa em 2011. A má fase se refletiu na bolsa. Nos últimos 12 meses, as ações da empresa desvalorizaram 30%, ante uma alta de 10%do Ibovespa, Com o valor dos papéis em níveis tão baixos, a Gafisa viu-se recentemente diante de outro fato capaz de alterar seu destino. No primeiro semestre deste ano, a incorporadora deveria comprar os 20% que faltavam da Alphaville, empresa de loteamentos de alto padrão adquirida em outubro de 2006 e espécie de jóia da coroa dos negócios do grupo. Na compra, a Gafisa pagou 320 milhões de reais por 80% da Alphaville – e se comprometeu a pagar em ações os20% restantes em 20U. Só que essa pequena fatia a ser paga foi avaliada por bancos de investimento em cerca de 360 milhões de reais – montante que pode valer até 19% das ações da Gafisa. Se concretizada nos termos acordados, a operação terá um desfecho surreal. Os empresários Renato Albuquerque e Nuno Lopes Alves, ex-donos da Alphaville, atualmente com cerca de 1%das ações da Gafisa, da noite para o dia passarão a maiores acionistas da empresa, com quase 20% de participação. Vale lembrar que hoje nenhum acionista da Gafisa possui mais que 5% do capital da incorporadora. E ver suas participações diluídas é tudo o que os atuais acionistas não querem. A Gafisa é uma das poucas empresas no Brasil de capital pulverizado. Na ausência de um controlador, quem manda na companhia é o conselho de administração – e, quanto mais ações um sócio tem, mais membros ele elege. O conselho atual briga para pagar uma fatia menor de ações, o que fez os ex-donos da Alphaville a levar a disputa para uma câmara de arbitragem. “Se a operação for concluída, a Gafisa passará a ter uma figura bem próxima à de um dono”, diz o gestor de um fundo de investimento. Procurados, nem a Gafisa, nem a Alphaville deram entrevista. A possibilidade de a Gafisa voltar a ter um acionista relevante deixou analistas e investidores com um misto de apreensão e otimismo. A apreensão vem do fato de os ex-donos da Alphaville não serem tão conhecidos no mercado. Albuquerque, de 84 anos, e Alves, de 57, estavam afastados da operação há pelo menos quatro anos – Alves deixou a presidência da Alphaville em 2008 e Albuquerque saiu do conselho de administração da Gafisa em julho do ano passado. Para os mais otimistas, a criação de um bloco de controle daria mais agilidade à tomada de decisões – sobretudo àquelas ligadas ao futuro da Alphaville, a divisão mais rentável da Gafisa. Com 20% das ações da Gafisa, os ex-donos da Alphaville poderiam indicar até três dos nove membros do conselho de administração, que é quem efetivamente manda na Gafisa. No dia 10 de setembro, a incorporadora anunciou que havia contratado o banco de investimento Rothschild e a consultoria Bain&Company para estudar o que fazer com a empresa de loteamentos – vender, abrir o capital ou deixar tudo exatamente como está. O mais provável, segundo executivos ligados à operação, é que os 80% da Alphaville nas mãos da Gafisa sejam vendidos; e o dinheiro, utilizado para aliviar a dívida de 3 bilhões de reais da incorporadora. Desde a aquisição, o valor da Alphaville saltou de 330 milhões de reais para 1,9 bilhão (o valor de mercado da Gafisa caiu de 2,9 bilhões de reais para 1,7bilhão no mesmo período). Embora menor que as demais, a Alphaville é a divisão que mais dá dinheiro dentro da incorporadora: lucrou 47 milhões de reais no primeiro semestre deste ano, ante um prejuízo de 77 milhões de Gafisa e Tenda. A notícia de uma possível venda fez com que as ações da incorporadora valorizassem 13% em um único dia. “Mas uma dúvida ainda permanece: como a Gafisa vai seguir adiante sem sua operação mais rentável e que parece ser uma das mais promissoras?”, afirma Marcello Silva, analista da gestora de fundos Constellation. Criada em 1973 por Albuquerque e seu então sócio, Yojiro Takaoka, para vender lotes empresariais e residenciais de alto padrão, a Alphaville desenvolveu ao longo dos anos um modelo de negócios inovador para o setor. Em vez de disputar a tapa terrenos caríssimos com as grandes construtoras nas capitais, a dupla negociava áreas enormes em regiões mais afastadas em um sistema de permuta – o dono do terreno ficava com cerca de 30% do valor do empreendimento. À Alphaville cabia a instalação da infraestrutura para moradia, como rede de saneamento, eletricidade e calçamento. Com custos mais baixos e menos exposta a problemas como escassez de mão de obra (por não construir as casas), a empresa tornou-se rapidamente a mais rentável do setor, com uma margem bruta de 55%(na Gafisa, esse número não passa de 30%). Em 1994, com a morte de Takaoka, Albuquerque procurou um novo sócio – acabou fechando com o empresário português Nuno Alves, que havia conhecido durante a criação de um loteamento em Portugal. A dupla dividiu- se, então, por tarefas. Albuquerque negociava terrenos, visitava as obras e dava instruções que iam da terraplenagem à instalação da rede elétrica. Alves, por sua vez, ficou incumbido de cuidar de áreas como vendas e marketing. Mas foi a partir da união com a Gafisa que o negócio deslanchou. Com mais acesso a crédito, a Alphaville estendeu sua atuação de 13 Ô para 21 estados e quadruplicou o valo dos lançamentos para 970 milhões de reais no ano passado.

O PREÇO DO CONTROLE

A julgar pelo andamento das negociações, é pouco provável que Albuquerque e Alves sejam recebidos de braços abertos na Gafisa Segundo executivos próximos, os ex-donos da Alphaville só souberam da possível venda ou abertura de capital pelo fato relevante em que a Gafisa comunicou ao mercado sua intenção. “Eles ainda estão esperando um comunicado formal por parte da Gafisa”, diz um executivo que participa das negociações. .. Apesar de desgastada, a relação entre os dois sócios nem sempre foi ruim – muito embora Albuquerque, engenheiro de formação, discordasse publicamente do estilo “financista” dos administradores da Gafisa. A discussão em torno da Alphaville foi a responsável por azedar de vez o clima. Para a Gafisa, o montante a ser pago pela Alphaville não deve ultrapassar 14%do total de suas ações. Albuquerque e Alves insistem em 19%.Em ambos os casos, os dois tornam-se os maiores acionistas da empresa. Sem chegar a um consenso, as duas partes não se falam desde junho. Para os sócios da Gafisa, uma coisa é certa: quando a fase é ruim, até negócio bom vira dor de cabeça.

 

FRIGORIFICOS NA MIRA

Funcionários que trabalham 8 horas em pé, exposição excessiva ao frio e restrições até para ir ao banheiro. O Ministério Público do Trabalho coloca o setor de carnes entre os piores para trabalhar no Brasil, ANA LUIZA LEAL

MINEIRA DAYAMA DE OLIVEIRA SANTOS, de 28 anos, arrumou seu primeiro emprego de carteira assinada em abril de 2009 na unidade de aves da BRF de Uberlândia, onde foi trabalhar na desossa de frango. Quatro meses depois, começou a sentir dores no braço direito – era uma tendinite, causada pelos mais de 50 movimentos com as mãos que ela fazia por minuto. Em dezembro daquele ano, Dayana fez duas cirurgias no antebraço, mas as dores não cessaram. Ela acabou sendo afastada em julho de 2010 e até hoje não pôde voltar a trabalhar. Mãe de duas crianças, de 4 e 6 anos, Dayana vive atualmente dos 800 reais do auxílio- doença que recebe do governo e tudo indica que será aposentada por invalidez. “Desde que fiquei doente, não consigo carregar meus filhos”, afirma. Sua colega Elizabet Almeida Nunes, de 34 anos, cortava peito de peru na mesma empresa e se afastou em fevereiro deste ano depois de tirar 15 licenças de dois ou três dias por causa das dores que sentia nos braços desde o final de 2010 – e diz que agora não volta mais à BRF. Longe de se tratar de casos isolados, os problemas de saúde enfrentados por Dayana e Elizabet são mais comuns do que se imagina no Brasil. De maio do ano passado para cá, o Ministério Público do Trabalho vistoriou 25 frigoríficos e abatedouros em todo o país – entre eles unidades da BRF, JBS, Marfrige Minerva, os maiores do setor – e encontrou um cenário que julgou preocupante: funcionários que passavam 8 horas em pé nas linhas de abate e processamento de carne, exposição por horas a fio a temperaturas em torno de 10 graus e até restrições para uso do banheiro. Embora o universo investigado seja relativamente pequeno – estima-se que existam no pais cerca de 2 000 frigoríficos e abatedouros -, os dados são alarmantes. Segundo cálculos dos procuradores, entre 20% e 30% de toda a mão de obra empregada no setor de aves no Brasil, ou 100000 pessoas, possui alguma doença ligada ao trabalho. Até agora, a unidade da BRF em Uberlândia, Minas Gerais, foi a que apresentou o quadro mais grave. O MPT encontrou registros de mais de 30000 afastamentos por motivo de doença só em 2010 – 12000 deles diretamente ligados a esforços repetitivos. Como a unidade emprega cerca de 3500 funcionários em suas linhas de abate e processamento de carne, na prática é como se cada um deles fosse afastado do trabalho por pelo menos um dia três vezes no ano. Em 2011, a situação não foi muito diferente: foram 8200 afastamentos por lesões diretamente relacionadas à atividade. “Poucos ambientes de trabalho hoje oferecem tantos riscos à saúde como o de frigoríficos”, diz o procurador Sandro Sardá, que coordena a equipe do Ministério Público do Trabalho. Por meio de nota, a BRF afirmou que está contestando na Justiça os dados do MPT e diz ter diminuído a frequência de afastamentos em 39% entre 2010 e 2011em todas as unidades da empresa. Em um setor intensivo em mão de obra e com pouca mecanização, como o de carnes, é natural que o número de problemas ligados ao trabalho aumente conforme a produção. E ela cresceu freneticamente no Brasil na última década: saltou de 16 milhões de toneladas em 2001 para 26 milhões em 2011,fazendo do país o segundo maior produtor mundial de carne bovina e o terceiro maior de carne de frango. As exportações, por sua vez, mais que triplicaram no mesmo período, chegando a 29 bilhões de reais no ano passado – hoje, um em cada seis frangos consumidos no planeta saem daqui. A dificuldade está em criar mecanismos capazes de proteger os trabalhadores sem prejudicar o funcionamento de um dos setores mais pujantes da economia. De acordo com o MPT, os problemas de saúde dos funcionários de abatedouros e frigoríficos poderiam ser reduzidos com pausas que somariam 1hora durante a jornada, além da diminuição no número de horas extras, Ocorre que, em muitos casos, são os próprios trabalhadores que querem a extensão do horário. “Quando ameaçamos cortar a hora extra em uma unidade, houve ameaça de greve”, diz Wilson Mello, vice-presidente de assuntos corporativos da BRF. “O funcionário já conta com aqueles 300 reais a mais no fim do mês.” Se tiver de conceder mais pausas aos empregados, a BRF estima perdas da ordem de 500 milhões de reais por ano – a não ser que promova mudanças,como introduzir novos turnos nas fábricas e investir em máquinas para tornar o processo menos manual. Isso sem falar no agravamento de um já sério problema de escassez de mão de obra no setor. O frigorífico Marfrig, por exemplo, está com 2 000 vagas abertas. Apesar de se tratar de uma indústria gigantesca, não existe consenso no mundo sobre a melhor maneira de lidar com os problemas inerentes a esse tipo de trabalho, e tampouco sobre o papel do Estado nessa regulação. Na China e na Indonésia, importantes produtores de carne, o funcionário é livre para escolher quantas horas deseja trabalhar – lá, as jornadas freqüentemente ultrapassam as 15 horas diárias. Nos Estados Unidos e na Europa, o trabalho de desossa é geralmente realizado por imigrantes, e o tempo de pausa e a quantidade de horas extras são determinados em comum acordo entre a empresa e o sindicato, sem nenhuma interferência do governo. No Brasil, embora as companhias tenham liberdade para determinar o esquema de trabalho, na prática elas ficam sujeitas a uma miríade de leis, nem sempre relacionadas direta-mente à atividade (no caso de esforços repetitivos, por exemplo, costuma-se recorrer a uma norma usada em geral para o setor de datilografia). “Temos apenas 13ou 14 processos trabalhistas em nossa operação americana”, diz Francisco de Assis e Silva, diretor jurídico do JBS, a maior empresa de proteína animal do mundo. “No Brasil, são 6000.” Outros 12 frigoríficos devem ser inspecionados pelo MPT num futuro próximo. O Ministério do Trabalho deve publicar até o fim deste ano uma regulamentação específica para os frigoríficos. É o que a sociedade e as empresas esperam.

 

BRIGA NA BAIXADA FLUMINENSE

As duas maiores fabricantes nacionais de produtos para cabelos nasceram em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, mas a disputa pelas consumidoras da classe C acontece em cadeia nacional DANIEL BARROS

OEMPRESÁRIO CARIOCA DANIEL DE JESUS, de 53 anos, gosta de dizer que é o “rei da classe C”. Tem motivos para isso – embora não pertença mais a ela há vários anos. Filho de um ascensorista e de uma dona de casa, Daniel nasceu em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, e cresceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Aos 27 anos, depois de trabalhar como office-boy e vendedor de produtos de limpeza, começou a fabricar cosméticos para cabelos. De lá para cá, construiu uma fortuna considerável, com direito a helicóptero e jatinho particulares, No ano passado, sua empresa, a Niely, faturou mais de meio bilhão de reais fabricando cremes, xampus e tinturas para cabelos. Hoje, ao percorrer sua fábrica – que continua em Nova Iguaçu -, Daniel não esconde o orgulho ao mostrar as máquinas novinhas, a maioria importada da Itália. Sem modéstia, diz: “Não dá para bobear. Só concorremos com gente grande”, e cita as multinacionais Procter&Gamble e L’Oréal. Mas o fato é que, no dia a dia do varejo, os produto da iely brigam mesmo com os de outra empresa também de Nova Iguaçu, e que Daniel evita mencionar o nome a todo custo. Trata-se da Embelleze, que, assim como a Niely, disputa cabeça a cabeça a preferência das mulheres da classe C. As semelhanças entre Niely e Embelleze vão muito além da cidade onde foram fundadas e do mercado em que atuam. O fundador da Embelleze, o empresário Itamar Serpa, de 71 anos, também vem de família humilde. Foi cobrador de ônibus antes de entrar na Bayer e estudar química (Daniel fez o mesmo curso e se formou aos 33anos). Abriu a Embelleze em 1968, com um irmão. Já como empresário, Serpa enveredou pela política e se elegeu deputado federal, mas abandonou a carreira em seguida. Hoje, dirige o conselho de administração da Embelleze, que também faturou cerca de 500 milhões de reais em 2011.O dia a dia da empresa é tocado pelo filho Jomar Beltrame, de 39 anos. Nesse ponto, outra coincidência entre os dois empresários: Danielle, a filha de Daniel, também é o braço direito do pai (sim, o nome da empresa foi inspirado no da filha).Aos 26 anos, é Danielle quem comanda a área de marketing. Em mais uma coincidência, apesar de os dois empresários manterem suas fábricas em Nova Iguaçu, ambos se mudaram para a Barra da Tijuca depois de enriquecer. Na briga pela classe C, as concorrentes da Baixada investem pequenas fortunas em programas populares de televisão e na contratação de celebridades para posar com seus produtos. Hoje, enquanto a EmbelIeze faz merchandising na novela Avenida Brasil e no Mais Você, de Ana Maria Braga, da TV Globo, a Niely aparece no programa de auditório do apresentador Rodrigo Faro, da Record, e tem como garotos-propaganda a dupla sertaneja Victor & Léo. No ano passado, a Niely gastou 55 milhões de reais em propaganda. Ocarro-chefe do marketing da empresa é o programa Big Brother Brasil, do qual é anunciante desde 2006  antes disso, era a Embelleze que fazia aparições esporádicas no reality show. Na última temporada do BBB, a Niely pagou 20 milhões de reais para que seus produtos fossem usados diante das câmeras pelos confinados. Já a Embelleze investe pesado em merchandisingem novelas. Estima-se que o orçamento de marketing da empresa tenha beirado os 30 milhões de reais em 2011.Em agosto, lançou a linha de produtos Monalisa especialmente para aproveitar o sucesso de Avenida Brasil. Na novela, Monalisa é o nome de uma cabeleireira bem-sucedida do subúrbio carioca, interpretada por Heloísa Périssé. Na vida real, a Embelleze pagou 17milhões de reais para figurar no enredo global. Daniel e Serpa nunca foram amigos, mas mantinham uma relação cordial – com exceção de um ou outro ma lestar, quando um funcionário trocava uma empresa pela outra. O principal diretor da Embelleze, Juré da Penha, já trabalhou também na Niely. Hoje, os dois empresários não se falam nem quando se esbarram em feiras do setor. A relação azedou em 2007, quando a concorrência comercial descambou para uma briga na Justiça. Em março daquele ano, a Embelleze lançou a linha de produtos Novex Gold. A Niely – que comercializava uma linha de nome muito parecido, a Niely Gold, desde 2004 – processou a concorrente. Alegou plágio de embalagem e do nome. “Depois disso, a relação deles ficou estremecida”, diz Nilo Alpino, comerciante de Nova Iguaçu. Em 2008 a Niely abriu novo processo contra a Embelleze para que a concorrente tirasse o Gold de suas embalagens. A Justiça determinou busca e apreensão dos produtos em farmácias e supermercados. A Embelleze parou de vender a linha, embora o processo esteja ainda em andamento. Mas Serpa não se conformou e. em 2010, entrou com representação na Secretaria de Direito Econômico, que hoje faz parte do Cade, órgão de defesa da concorrência. Alegou atitude anti concorrencial da Niely por abuso do direito de propriedade intelectual. A SDE acolheu a acusação e está averiguando o caso. Nenhum dos dois empresários comenta o assunto e ambos se mostram claramente contrariados quando perguntados sobre o tema. Tanto a Niely quanto a Embelleze vêm nadando de braçada num mercado que triplicou em dez anos, fechando 2011em quase 30 bilhões de reais. Boa parte do avanço da indústria de cosméticos e cuidados com o corpo é resultado do crescimento da classe C. Um estudo recente da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo mostra que 37milhões de pessoas ingressaram na classe média brasileira nos últimos dez anos – ou seja, ultrapassaram o limite de 1064 reais de renda familiar mensal. Desse total, cerca de 18 milhões são mulheres. E elas nunca consumiram tantos cosméticos. O pacote básico de xampu e condicionador foi ampliado com itens como máscara de hidratação, óleo para pontas, protetor térmico contra efeitos do secador e por aí vai. “Quase 90% da nova classe média brasileira compra produtos de beleza pelo menos uma vez por-mês”, afirma Renato Meirelles, da consultoria Data Popular, especializada na classes Ce D.Cada uma à sua maneira, Nielye Embelleze aproveitaram a boa fase do consumo no Brasil.AEmbelleze cresceu 10%,em média, nos últimos dez anos. A Niely saiu de um faturamento de 70 milhões de reais em 2003 para estimados 600 milhões neste ano – crescimento médio anual de 27%. Agora,as duas empresas traçam planos ambiciosos para o futuro. “Queremos aumentar as exportações para os paises da América Latina e abrir uma fábrica na Colômbia até 2015″, afirma Beltrame, vice-presidente da Embelleze. “Quando o mercado melhorar  vamos abrir o capital para crescer mais rápido”, diz Daniel. Pelo jeito, a briga na Baixada ainda vai longe.

 

ELE SERA MAIS UM EM 75 MILHÕES

EM 2008, QUANDO o DUBUNENSE THOMAS HORRIGAN estava prestes a terminar o ensino médio, a Irlanda entrou de cabeça na crise. Sem dinheiro, Horrigan largou o sonho de entrar numa faculdade de engenharia e foi trabalhar na oficina mecânica do pai. Um ano depois, o negócio fechou por falta de clientes e tudo voltou à estaca zero. A partir de então, Horrigan só encontrou trabalhos temporários, com contratos de 11 semanas de duração, no máximo. Atualmente, está no setor de empacotamento de uma fábrica de bebidas em Dublin. Ganha pouco mais de 1500 euros por mês, seu maior salário até agora, mas já sabe que em menos de um mês voltará para as deprimentes estatísticas dos desocupados. Na última década, a taxa de desemprego entre jovens na Irlanda saiu de 6%para 31%,uma das maiores altas registradas entre os membros da OCDE, o clube das nações mais ricas. Desde a eclosão da crise, a taxa média de desocupação entre os 15 e os 24 anos nos países desenvolvidos saltou de 12,5% para 18%,o principal fator por trás da elevação do desemprego juvenil em todo o mundo, um fenômeno que hoje atinge 75 milhões de pessoas. O pior é que, até onde a vista alcança, as vítimas precoces do desemprego não têm motivos para se animar. Pelos cálculos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a situação não deve voltar aos níveis pré-crise, no mínimo, pelos próximos cinco anos. “Os jovens costumam ser os primeiros a sentir os efeitos de uma recessão e também tendem a serem os últimos a sair dela”, afirma Adriana Kugler, economista- chefe do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, pais onde a desocupação atinge 17%dos trabalhadores com menos de 25 anos. No plano pessoal, o desemprego costuma ser uma tragédia. Pesquisas realizadas nas últimas quatro décadas comparam o estresse causado pela perda do trabalho à morte de um amigo próximo ou à doença de um parente – quem já teve a infelicidade de passar por essa experiência sabe exatamente o desgaste que ela pode provocar. Do ponto de vista da sociedade como um todo, a falta generalizada de emprego é igualmente funesta – algo que ganha proporções desastrosas quando afeta os mais jovens. “É um desperdício deixar a parcela mais dinâmica e criativa da força de trabalho simplesmente fora do jogo”, afirma Theodoor Sparreboom, economista sênior da OIT. O drama é que, caso esse quadro não seja revertido, os jovens (e os países) afetados vão sentir seus efeitos por décadas – mesmo quando a esperada queda do desemprego se materializar. Um extenso estudo feito pela ONG inglesa A cevo indica que, no Reino Unido, onde a taxa de desemprego juvenil atinge quase 22%, um ano sem trabalho na juventude pode significar salários de 6% a 8% menores quando o profissional alcançar a faixa dos 30 anos. O desemprego precoce tem um efeito tão devastador e persistente que, mesmo aos 40 anos, a pessoa pode receber até 20% menos. Deixar de trabalhar no que deveria ser o início da vida profissional também eleva a chance de que o desemprego volte a acontecer no futuro. “Nessa corrida, quem sai muito depois da largada fica com lacunas no currículo, demora a formar uma rede de contatos e,em muitos casos, acaba aceitando funções mais mal remuneradas”, diz José Ramón Pin,professor da escola de negócios lese, de Barcelona. Nesse sentido, o caso do espanhol Carles Plasencia, de 25 anos, é esclarecedor. Plasencia se formou em Iinguística e literatura em junho na Universidade de Valência. Sem nenhuma esperança de encontrar emprego na sua área, Plasencia já se candidatou, sem sucesso, a vagas de garçom e de vendedor de loja. No desespero, chegou a bater na porta de um McDonald’s, mas nem lá conseguiu o que queria. “Se não encontrar nada até metade de 2013, vou seguir os passos de alguns amigos meus e emigrar”, diz Plasencia. A Espanha, que, assim como a Grécia, tem mais da metade de seus jovens sem emprego, está vendo sua população economicamente ativa sangrar. Em 2011, 63000 espanhóis deixaram o país, quase 60% com menos de 30 anos. A falta de trabalho nos primeiros anos do percurso profissional coloca a vida em suspenso. Na Itália, onde 35% dos jovens não encontram trabalho, a população de mammones – os marmanjos que continuam morando na casa dos pais mesmo depois de adultos – proliferou. Atualmente, 42% das pessoas de 25 a 34 anos permanecem sob a barra da saia materna, a maioria por razões financeiras. Na década de 90, a proporção não chegava a um terço. Pelos cálculos da Universidade Bocconi, de Milão, os italianos que começam a trabalhar mais tarde têm um aprendizado mais lento e um retardo de produtividade de cinco a dez anos em comparação à média da OCDE. Individualmente, a procrastinação na vida adulta é uma questão estritamente privada. Quando os adiamentos na compra do primeiro carro, na aquisição da casa própria e na formação de uma família ganham proporções de fenômeno social, porém, a economia como um todo sente – e ai esse passa a ser um dos principais temas do debate público. Um levantamento do instituto de pesquisa Pew Research Center publicado neste ano mostra que 31% dos americanos até 34 anos decidiram adiar os planos de casar e ter filhos, o que complica a situação do setor da construção. Para a indústria automobilística americana, é justamente a menor demanda desse público que emperra a recuperação de suas vendas. Nos países europeus, os jovens chamados de neets, acrônimo para not in employment, education or training(for a do trabalho, da educação e do treinamento), custam, em média, 1,1%do PIB a cada ano. O cálculo considera os gastos com seguro-desemprego e o que eles deixam de produzir. Nessa conta, porém, não constam os custos adicionais com saúde pública. Mais da metade dos jovens desconectados do merca do de trabalho e do mundo da educação se sente freqüentemente deprimida ou ansiosa, segundo levantamento da ONG inglesa Prince’s Trust Apenas um terço tem esperança no futuro, metade da taxa dos jovens que estão trabalhando. Quanto mais tempo um jovem fica desempregado e mais entrevistas fracassadas de emprego faz, mais suscetível fica à tristeza. Que o diga a portuguesa Carla Esteves, de 31 anos. Ao terminar, no começo deste ano, o doutorado em psicologia no Instituto Universitário de Lisboa, Carla se viu em uma armadilha. Nas universidades de Portugal, onde planejava se tornar professora, as contratações estão congeladas há meses. Carla, então, começou a procurar emprego na área de recursos humanos de empresas privadas, mas, nos processos de seleção, tem ouvido que é muito qualificada para as vagas disponíveis. “É muito desanimador perceber o tempo passar e não conseguir se sentir útil para a sociedade”, diz. Jovens como o irlandês Horrigan, O espanhol Plasencia e a portuguesa Carla, expostos a períodos longos de recessão, costumam acreditar que o sucesso tem mais a ver com a sorte do que com o esforço pessoal. E isso é uma catástrofe tanto do ponto de vista econômico como do social, para eles e para seus países.

 

RICA E LOUCA POR UM BARRACO

Dona de uma das maiores fortunas do mundo, a bilionária australiana Gina Rinehart briga com os filhos, com a madrasta, com o governo e com seus compatriotas GUILHERME MANECHINI.

O FINAL DOS ANOS 70, A ENTÃO primeira-ministra do Reino Unido, Margareth Thatcher, travou uma tensa batalha contra os sindicatos, as estatais ineficientes e as benesses bancadas pelo governo. Ao final de três anos, Thatcher recolocou a economia britânica no caminho do crescimento e ficou mundialmente conhecida como a Dama de Ferro. Gina Rinehart é australiana, empresária, nunca ocupou um cargo público, mas também tem sido chamada da mesma forma. Motivos para se referir a ela como dama de ferro não falta. Gina é dona de uma das maiores mineradoras da Austrália, tem uma coragem desmedida para apoiar causas polêmicas e é conhecida pela intransigência com que expõe seus pontos de vista.A última dela foi defender, em um artigo publicado numa revista australiana em agosto, que, para restaurar a competitividade dos negócios na Austrália, seria necessário reduzir o salário mínimo semanal, atualmente em 640 dólares. No mesmo artigo, ela afirma: “Se você tem inveja daqueles que têm mais dinheiro, trabalhe mais e pare de perder tempo bebendo, fumando ou se divertindo”. Duramente criticada pelas declarações, Gina insinuou, mais tarde, que os países africanos eram muitos competitivos do que a Austrália. “Os africanos querem trabalhar.E estão dispostos a trabalhar por menos de 2 dólares por dia.” Com uma fortuna estimada em 20 bilhões de dólares, a magnata tem um longo histórico de polêmicas. Gina já propôs dividir a Austrália em dois países. A ideia pode ter sido inspirada por seu pai, Lang Hancock, fundador do grupo empresarial e notório separatista da região nordeste, onde ficam as minas de ferro. Mas uma eventual secessão serviria também para Gina conseguir uma legislação tributária mais branda e regras de imigração mais lenientes. Em junho, a empresária alarmou o país ao ameaçar aumentar sua participação na editora Fairfax, que publica dois influentes jornais. Primeiro, Gina pediu um assento no conselho da empresa por ter 15%das ações. Quando ouviu que só ganharia o que queria se assinasse um termo em favor da independência editorial das publicações, disse que iria comprar o controle da empresa. Só voltou atrás diante da reação negativa da opinião pública. Na questão do aquecimento global, Gina se mantém irredutível. A despeito dos protestos de ambientalistas, a bilionária continua bancando grupos que fazem lobby contra a ideia de que o aquecimento global existe. Para a maior parte de seus compatriotas, a bilionária só se preocupa com seus negócios, e não com o pais. Gina chegou a defender o uso de explosões nucleares para a extração de minério. Lang Hancock foi um dos expoentes da mineração na Austrália e deixou como herança um patrimônio avaliado em 50 milhões de dólares em 1992.Em duas décadas, sua fortuna foi ampliada 400 vezes. A empresa investe atualmente na mina Roy Hill, com reservas estimadas em 2,5 bilhões de toneladas (ou um terço de Carajás, a maior do mundo). Os últimos anos foram especialmente generosos com a família. A valorização do minério de ferro, que chegou praticamente a quintuplicar de valor entre 2007 e 2011, e os investimentos no exterior (sobretudo na Nova Guiné e na Nova Zelândia) chegaram a alçar Gina à condição de mulher mais rica do mundo em alguns períodos dos últimos anos – ultrapassando Christy Walton, herdeira do varejista Walmart. Aproveitando o boom de commodities, Gina _ também apelidada pela imprensa local de “Big G” – emergiu no debate público. À medida que sua fortuna crescia, o peso de suas declarações aumentava. Hoje quem contesta as ideias de Gina é a primeira-ministra, Julia Gillard. O secretário do Tesouro, Wayne Swan, que defende maiores taxas na mineração e a tributação das emissões de carbono, virou desafeto da bilionária. No âmbito familiar, ela já era uma conhecida barraqueira. Nos últimos 20 anos, Gina esteve em conflito permanente com a família para preservar o patrimônio dos Hancock. Na biografia não autorizada sobre Gina, The House of Hancock (‘~casade Hancock”, numa tradução livre), a jornalista australiana Debi Marshall descreve a magnata como uma litigante incansável. “A combinação de sua determinação com sua riqueza faz com que ela esteja disposta a brigas sem fim”, diz Debi. Até agora, a maior vitima da magnata foi a madrasta, Rose Porteous. Durante 11 anos, a terceira e última esposa de Hancock foi acusada por Gina de ser responsável pela morte do pai. O caso, um dos mais arrastados da história do Judiciário australiano, acabou em 2003 com um acordo, selado após a autópsia que reafirmou que o velho Hancock morreu de causas naturais. Gina também foi acusada de assediar sexualmente um antigo segurança, que moveu um processo contra a bilionária após sofrer retaliações por ter se recusado a casar com ela Hoje, sua fúria litigante está direcionada a três de seus quatro filhos. Os herdeiros questionam a condução dos negócios e brigam para controlar parte da fortuna. Bem ao seu estilo, a ‘dama de ferro australiana já declarou que não vai poupar munição para atacá-los.

 

FORCA DO BEM

Apesar do desanimo que reina sobre o futuro da economia global, ainda a motivos para confiar em seu crescimento. A consultoria BraineCompany identificou oito tendências que devem acrescentar 27 milhões de dólares ao PIB mundial ate 2020, sendo a inclusão de 1,3 bilhões de pessoas a classe media a mais representativa. Ate o fim da década, o mundo deve avançar a uma taxa media de 3,6% ao ano, diz o estudo.

 

NO EMBALO DA WEB

A adoção de tecnologias da internet pelas empresas, como ferramentas de marketing digital e conexão de banda larga, não raro é vista como uma ameaça aos empregos. De fato, postos de trabalho diretamente ligados a essas atividades são eliminados. Mas um estudo da consultoria McKinsey com 7000 pequenas e médias empresas em 19 países mostra que o aumento da receita e da produtividade proporcionado justamente pela internet leva as companhias a contratar mais do que a demitir. O fenômeno é global, mas há nuances. Nos países emergentes, onde o acesso à internet de banda larga está crescendo mais rapidamente, o número de vagas criadas graças ao avanço da web é maior do que nos desenvolvidos.

 

FABRICADE GERENTES

O grupo SBF, dono da rede de lojas de artigos esportivos Centauro, viveu intensamente a expansão dos negócios com o aumento do consumo no país. Entre 2006 e 2011, o faturamento triplicou para 1,6 bilhões de reais e o número de lojas que incluem as bandeiras By Tennis e Nike Store, passou de 99 para 227. Ao projetar o crescimento, a diretoria da empresa viu que não faltaria shopping centers para abrir novas unidades nem consumidores ávidos por gastar. O maior obstáculo seria recrutar centenas de funcionários num período tão curto. Para evitar um apagão capaz de ameaçar os planos, havia dois caminhos: disputar com concorrentes muito maiores os bons profissionais do mercado ou investir na formação de gente dentro de casa. Venceu a segunda opção. Em 2007. o grupo criou um programa de treinamento que começa com os vendedores – cargo de entrada nas lojas. No início do programa, dois terços dos gerentes vinham de fora. Hoje, ocorre o contrário: dois terços são pratas da casa. Neste ano. A Centauro já formou 51 gerentes, o triplo do que conseguia antes. Com o programa, o número de demissões nas lojas também caiu pela metade. “Treinar um gerente dentro de casa custa até 30% menos do que recrutar externamente”, diz Vanessa Fontoura, diretora de RH da empresa. A seguir, os principais pontos da 110valinha de formação de gerentes do grupo.

 

O COPILOTO SUMIU

Em meio a uma profusão de novos cargos, o tradicional COO (chief operating officer, ou executivo-chefe de operações), braço direito do presidente, torna-se cada vez mais raro CRlSTIANE MANO,DE NOVA YORK.

O time de altos executivos já foi bem mais restrito. Nas duas últimas décadas, a quantidade média de cargos subordinados ao presidente dobrou de cinco para dez nas empresas americanas, segundo pesquisadores da Universidade Harvard. Em meio à profusão de novas posições na diretoria, no entanto, uma figura tradicional começa a desaparecer – o COO (ou executivo-chefe de operações), espécie de braço direito do principal executivo. Nos anos 2000, ele estava em metade das companhias americanas. Hoje pode ser encontrado em cerca de 35% delas (veja quadro). Empresas como a rede de cafeterias Starbucks, a fabricante de cosméticos Avon, a montadora GM e a farmacêutica Eli Lilly eliminaram a posição nos últimos anos. Uma das mais recentes foi a Discovery Communications, dona de canais de TV por assinatura, como Discovery Channel e Animal Planet, que extinguiu o cargo em janeiro. Há pelo menos duas razões para o sumiço dos COOs. A primeira é justamente a tentativa de reduzir a superpopulação no topo – que, como qualquer medida de corte, torna-se ainda mais popular em tempos de crise. “Ter um executivo para cuidar do dia a dia enquanto o presidente se dedica à estratégia pode ser um luxo insustentável, sobretudo quando um ambiente de negócios mais complexo exige a criação de novos cargos”, diz Stephen Miles, presidente da consultoria de recursos humanos The Miles Group. Um fator adicional, também comum em meio à turbulência, é o esforço de manter a operação mais perto do executivo principal para acelerar decisões. O caso da Starbucks retrata bem o novo contexto. O americano Howard Schultz, controlador e presidente da rede, reassumiu a presidência em janeiro de 2008. depois de uma temporada no conselho – em meio a uma dolorosa reestruturação. Uma de suas primeiras medidas foi acabar com o cargo de COO (nos meses seguintes, também demitiu mais de 18000 funcionários). De lá para cá, ninguém mais ocupa a posição. Em contra partida, só neste ano três executivos assumirá novos postos diretamente subordinados a Schultz – o chief digital officer, para as estratégias digitais; o chief creative officer, para cuidar do relacionamento com clientes nas lojas; e o chief community officer, para cuidar de temas como diversidade e apoio a programas de educação em comunidades pobres. Em meio às mudanças, as receitas voltaram a crescer – no terceiro trimestre as receitas foram de 3,3 bilhões de dólares, 13% acima em relação  a igual período do ano anterior. Segundo especialistas, a tendência é que o posto fique restrito a determinadas indústrias em que a projeção do futuro é particularmente crítica, como a de tecnologia – e dividir a atenção ao dia a dia com outro executivo pode ser mais crucial. Por esse motivo, empresas como Microsoft e HP têm mantido a posição em caráter permanente. No Brasil, o COO só se tornou mais popular recentemente. Um levantamento da consultoria de recursos humanos Mercer mostra que eles estão em menos de 20% das empresas instaladas no país com receita anual acima de 1bilhão de dólares. Alguns críticos veem no fim do posto uma ameaça à linha de sucessão. Nos Estados Unidos, os COOs ainda representam uma etapa importante na formação de presidentes – 44% dos que assumiram o comando de empresas em 2011 ocuparam a posição. Algumas companhias buscam alternativas. “Há a tendência de que outro diretor acumule a função”, diz Julie Wulf, professora de administração da Universidade Harvard. Na empresa de internet AOL, o cargo de COO, eliminado em 2008, ressurgiu neste ano – Arthur Minson, diretor financeiro. acumula a função. Pode-se também recriar o papel em momentos de transição, como na Intel. O presidente, Paul Otellini, deve se aposentar em 2016, aos 65 anos, limite para sua permanência na operação. Em janeiro, ele anunciou o primeiro COO em seus sete anos na presidência – Brian Krzanich, um potencial sucessor. É uma concessão para evitar algo que a Intel definitivamente não pode se dar ao luxo de ter – um buraco no comando.

 

TEMOS DE CABER NUM SMARTPHONE

O indiano Nikesh Arora, vice-presidente do Google, explica como a empresa está encarando seu maior desafio em uma década: fazer a transição do desktop para os celulares I BRUNOFERRARI.

EM 2OO4,O lNDlANO NlKESH ARORA, então com 39 anos, havia deixado o cargo de executivo da operadora alemã T-Mobile na Alemanha para fundar a própria empresa quando recebeu um convite tentador: participar do processo de seleção para o posto de diretor de vendas do Google na Europa. Após passar por 17 entrevistas, quem chamou Arara para trabalhar no Google foi um dos fundadores, o russo Sergei Brin. Menos de oito anos depois, o engenheiro elétrico formado na Índia já era vice-presidente mundial do Google. Conhecido pelos funcionários da empresa como “o cara da grana”, Arora é quem administra as finanças da maior empresa de internet do mundo, com vendas anuais da ordem de 38 bilhões de dólares. Para parte dos analistas que seguem o Google,Arora ainda não bateu no teto – ele é apontado como possível sucessor de Larry Page, o fundador, que atualmente ocupa o cargo de presidente. Em visita recente ao Brasil,Arora falou com exclusividade a EXAME.

Antes de morrer, Steve Jobs disse a Larry Page que o Google deveria parar de criar dezenas de produtos e se concentrar no que faz de melhor. O senhor diria que Page está seguindo esse conselho? Se o Google estivesse até hoje concentrado em buscas, que é o que fazíamos de melhor, não seríamos nem metade do que somos atualmente. Estamos, sim, mais focados na execução dos projetos, até para que eles não fiquem pelo caminho. Mas não dá para falar que estamos criando menos. Eu diria que estamos fazendo o suficiente. Aliás, dar liberdade para as pessoas tentarem e falharem é parte do processo de inovação. No Google, o que acontece se você falhar? Nada. Dizemos: “Tente outra vez”. É ruim ver companhias que obrigam as pessoas a ter sucesso sempre. Nenhum ser humano tem sucesso sempre.

Esse discurso de tolerância ao erro não é uma jogada para promover a imagem da empresa? De jeito nenhum. Eu mesmo disse que o Android, o software para smartphones que compramos em 2005,-nunca daria certo. O criador do Android, Andy Rubin, e o presidente do Google na época, Eric Schrnidt, diziam “não se preocupe. Concentre-se no seu trabalho que encontraremos um jeito de fazer isso dar certo”. Fico feliz que eles não tenham me ouvido. Em 2005, as fabricantes de celulares estavam desenvolvendo seus próprios sistemas. Oferecer o software de graça às fabricantes foi uma grande sacada de Rubin.

O Google tem projetos que vão de banda larga por fibra óptica a um par de óculos com um computador integrado às lentes. Como o senhor imagina o Google em 2020? Não vou dizer que a gente vai pilotar motos voadoras do Google no céu de São Paulo. Essas previsões exageradas de algumas empresas só colocam seus executivos no papel de idiota. A missão do Google é usar a tecnologia para tornar a vida das pessoas mais fácil. Temos um exército de engenheiros com essa missão na cabeça. Em 2020, não imagino o Google tão diferente do que é hoje. Nosso desafio até lá, quando seremos uma companhia mais experiente, é manter o espírito inovador de uma empresa jovem.

A maior parte da receita do Google vem de publicidade online acessada por computador. Em 2013, o acesso à internet via smartphone deve superar o pelo PC. O Google está preparado para isso? Com os smartphones, consigo dar uma experiência mais personalizada do que a internet, pois temos informações como a localização do usuário e quais lugares ele gosta de freqüentar. Por isso, a publicidade móvel tem elementos mais ricos para explorar. Por enquanto, as pessoas são avessas à publicidade nos celulares por causa do tamanho da tela, mas tenho certeza de que os formatos não serão os mesmos da internet. O mundo móvel está hoje no mesmo estágio que o mundo web estava há dez anos.

Que estágio era esse? Deixa eu voltar um pouco no tempo. Em 1959, surgiu um dos primeiros anúncios para TV, da boneca Barbie. No vídeo, a mão de uma pessoa segurava a Barbie e mexia como se ela estivesse dançando ao som de uma música. Essa música era o jingle da Barbie que tocava na rádio. Semanas atrás, vi uma propaganda na TV em que duas batatas fritas conversam durante uma caminhada. Elas certamente não estavam sendo carregadas por ninguém, foram feitas no computador. Isso, sim, é um comercial para TV, não um jingle adaptado. Ainda estamos tentando adaptar formatos do desktop para colocar em smartphones.

A rede social Google Plus está muito atrás do Facebook, a líder desse mercado. Qual é a ambição do Google nas redes sociais? Você lembra em que posição do ranking de sites de buscas o Google estava no final da década de 90? Existiam o AltaVista, o Yahoo! e mais alguns que eram mais populares. O Google acredita que a internet como um todo esteja se tornando mais social. As pessoas querem compartilhar com seus amigos o que estão vendo. Por isso, a maior parte de nossos serviços, do YouTube ao Gmail, já tem um elemento social. Ainda é cedo para dizer qual é o melhor modelo para explorar esse novo mercado.

Qual é a importância do Brasil hoje para o Google? Os brasileiros adoram tecnologia e entretenimento. Como o mundo da tecnologia está passando por uma rápida transformação, com a popularização da internet, o Brasil se destaca como um grande laboratório para avaliar quais serviços e produtos terá mais receptividade. O país já é um dos maiores mercados de vídeo do mundo. O avanço da internet não está mudando somente a vida das pessoas. Está transformando também a forma como as empresas fazem negócio.

 

CORRIDA VERDE CHEGA AOS CEUS

A TRILOGIA CINEMATOGRÁFICA De Volta para o um clássico dos anos 80, o personagem vivido pelo ator Michael J. Fax viaja pelo tempo a bordo de um De Lorean, carro esportivo que era abastecido com lixo e voava. Os carros ainda não voam, mas o lixoj á está movendo aviões – ou quase. Na corrida pelo combustível verde para aviação, vale qualquer tipo de matéria-prima. Plástico reciclável, serragem, palha, óleo de cozinha e algas são algumas das opções que estão sendo estudadas para entrar no tanque dos aviões. A pressão por alternativas sustentáveis tem recaído sobre os principais fabricantes do setor e não para de aumentar. Proporcionalmente, os aviões são o meio de transporte que mais polui. As cerca de 17000 aeronaves comerciais em atividade no mundo respondem por 2%das emissões dos gases de efeito estufa. Os cerca de 1 bilhão de carros em circulação, por sua vez, respondem por 15%dos poluentes. A meta do setor é reduzir as emissões de carbono em 50% em 2050, tendo como base o ano de 2005, de acordo com a Associação Internacional do Transporte Aéreo. Como é comum quando o assunto é meio ambiente, os europeus deram os primeiros passos. No ano passado, a Comissão Européia, companhias áreas e fabricantes de biodiesel assinaram um pacto para produzir 2 milhões de toneladas de combustível sustentável até 2020, o que equivale a 14%do consumo de querosene de aviação na Europa. Com base nesse compromisso, em março a francesa Airbus entrou num consórcio com empresas australianas para estudar o potencial do eucalipto para a fabricação de biocombustível. Em abril, um 787 da concorrente americana Boeing cruzou o Pacífico com os tanques abastecidos com uma mistura de diesel e óleo de cozinha reutilizável. O mais recente anúncio nessa área ocorreu no dia 24 de setembro. A Airbus e a petrolífera chinesa Sinopec assinaram um acordo para desenvolver um combustível mais verde de biomassa e óleo reciclado. No Brasil, desde 2005 a Embraer fabrica aviões agrícolas que são abastecidos com etano!. O combustível, porém, não é considerado o ideal para jatos por apresentar dificuldades técnicas. O poder calorífico do produto (a quantidade de energia por unidade de massa) é bem menor do que o do querosene, o que reduz a autonomia de voo. Fora isso, como o etanol exige adaptações no motor, acaba elevando os custos. Atualmente, a fabricante brasileira, em parceria com a americana Boeing e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, estuda outras alternativas, como o bagaço de cana. Atraídas pelas oportunidades criadas pelo setor aéreo, até empresas de pequeno porte estão investindo numa solução verde. A irlandesa Cynar, por exemplo, criou um diesel para aviação a partir de plástico reciclado – valedes de utensílios domésticos até embalagens de salgadinho. O material é derretido em altíssimas temperaturas e os gases expelidos no processo são convertidos em combustível líquido. Para cada tonelada de lixo plástico é possível extrair 6621itros de diesel. Em novembro, o combustível da Cynar deverá fazer seu primeiro grande teste. Um pequeno avião Cess na fará a rota de Sydney, na Austrália, a Londres, no Reino Unido. “A vantagem do nosso produto é que ele é menos poluente e ainda reduz a quantidade de lixo no meio ambiente”, diz Michael Murray, presidente da companhia, que esteve no Brasil no começo de setembro para apresentar a tecnologia. Nas Filipinas, a empresa Polygreen desenvolveu outra versão verde a partir do plástico, cujo preço seria 20% menor que o do querosene comum de aviação.Nos Estados Unidos, a Swift Fuels criou um biodiesel de um tipo de grama comalta capacidade de conversão em energia. “Nossa alternativa é menos poluente e reduz a dependência dos países que importam petróleo”, diz Chris D’Acosta, presidente da Swift.Além da gritaria dos ambientalistas, há um incentivo financeiro para a adoção de uma opção sustentável no setor aéreo. Nas últimas duas décadas, o preço do querosene multiplicou por 6. Medidas adotadas desde a década de 70 para aumentar a eficiência energética, como novos motores, têm surtido efeito. Com a mesma quantidade de passageiros e querosene, voa-se o dobro da distância. Apesar disso, os gastos com combustível ainda são o maior custo das companhias aéreas.

 

O LUCRO FICOU PARA DEPOIS

O banco BTG PactuaI tinha uma meta ao comprar o PanAmericano: seus resultados deveriam melhorar trimestre a trimestre. Mas o ano vai acabar antes de o lucro chegar THIAGO BRONZATTO.

QUANDO ASSINOU A COMPRA DO BANCO PanAmericano, em janeiro de 2011, André Esteves, controlador do BTG Pactual, tinha motivos para considerar aquele um dos melhores negócios de sua carreira. Primeiro, porque recebeu uma ajuda do Fundo Garantidor de Créditos para sanear as finanças do banco, que quase quebrou após a descoberta de uma fraude bilionária. E também porque ganhou um prazo camarada de 17 anos para quitar a aquisição. Fora isso, a Caixa Econômica Federal, que passou a ser sócia do PanAmericano, comprometeu-se a comprar as carteiras de crédito da instituição, o que proporciona mais capital para o crescimento. Passados 20 meses, porém, a realidade está se provando mais complicada.. O PanAmericano não cumpriu as metas traçadas por Esteves e sua equipe – a principal era ter lucro ao longo deste ano. Arora, o objetivo foi adiado para 2013. “E melhor crescer com qualidade. Estamos sendo pacientes”, disse Esteves numa teleconferência com investidores, em agosto. O plano original era que os resultados do PanAmericano melhorassem trimestre a trimestre após a aquisição. Ocorreu o contrário. Depois de lucrar 76 milhões de reais nos primeiros três meses de 2011, o banco teve prejuízo de 262 milhões de reais de abril a junho deste ano, o maior de sua história.. Também acumulou uma perda operacional de 413 milhões de reais, ante um lucro de 159 milhões no início do ano passado. Com os resultados atuais, o PanAmericano diminuiu 10% o lucro do BTG no segundo trimestre deste ano.” “Não dá para fazer milagre em tão pouco tempo”, diz José Luiz Acar Pedro, presidente do banco. Ninguém gosta de perder dinheiro, mas, no caso do PanAmericano, o prejuízo traz uma dor de cabeça adicional. Como está no vermelho, a instituição não consegue aproveitar um crédito tributário de 2,5 bilhões de reais, obtido após a vitória em ações judiciais que contestaram o pagamento exagerado de tributos. Esse valor só pode ser abatido do pagamento de impostos do banco caso a instituição dê lucro. Em parte, o prejuízo do banco se deve a um erro de análise de seus executivos no segmento de financiamento de veículos. Apesar de ter diagnosticado problemas nesses empréstimos – como o aumento da inadimplência, especialmente entre os compradores de automóveis usados -, a cúpula do PanAmericano decidiu continuar aumentando a concessão de. crédito. A consequência foi uma alta inesperada dos calotes, o que obrigou o banco a elevar 29% a provisão para cobrir eventuais perdas com devedores. É verdade que o PanAmericano não foi

o único que sofreu com o aumento dos calotes nos últimos meses, mas esse cenário é mais nocivo para ele porque 65% de suas receitas dependem do segmento de veículos. A avaliação, agora, é que essa área deve crescer mais devagar.A meta é diminuir a participação do financiamento de veículos nas receitas para 45% em três anos. O banco já cortou em cerca de 40% as comissões pagas às concessionárias de automóveis, com o objetivo de reduzir o crescimento do crédito.

IMÓVEIS

Para ocupar o lugar dos financiamentos de veículos, a aposta é o crédito imobiliário: o objetivo é que ele responda por cerca de 20% das receitas até 2015 (hoje, a fatia é inferior a 1%). Essas operações ficam concentradas na empresa financeiro-imobiliária Brazilian Finance & Real Estate, comprada em dezembro do ano passado e que está sendo integrada ao PanAmericano. O crédito imobiliário será oferecido nas agências do banco. A carteira da Brazilian Finance é pequena – faz 1OO milhões de reais em novos financiamentos por mês, em média, ante 1,2 bilhões de reais do Bradesco por exemplo -, mas o plano é aumentá-la com mais empréstimos à alta renda, um nicho em que o banco acha que pode ser competitivo. Bradesco, Itaú e outros concorrentes de grande porte são fortes no crédito feito com recursos da poupança, que tem juros mais baixos, mas essa linha só pode ser contratada por quem compra um imóvel de até 500 000 reais. Com a intenção de melhorar os resultados no curto prazo, o banco passou a cortar custos: fechou 68 agências, cancelou 200 000 contas de cartões de crédito inativas há mais de um ano, revisou todos os contratos com os fornecedores e integrou as equipes comerciais. De olho no longo prazo, diminuiu 44% a cessão de créditos a outras instituições. Muitos bancos médios repassam sua carteira de empréstimos a concorrente de maior porte, cobrando por isso, como forma de obter recursos para crescer. Essa prática era bastante utilizada pelo PanAmericano antes da aquisição pelo BTG (aliás, as fraudes descobertas pelo Banco Central ocorreram em operações do gênero). Como os sócios fizeram um aporte de capital de 1,7bilhão de reais no banco no inicio do ano, o PanAmericano não precisa vender suas carteiras. A medida foi considerada boa pelos analistas porque significa que o banco receberá esses recursos ao longo de anos, e não de uma só vez. Se os negócios forem bem, a tendência é que os créditos se valorizem no futuro. OPanAmericano é o único braço do

BTG que dá prejuízo. O banco investe em dezenas de empresas, como a rede de academias Bodytech e os estacionamentos Estapar – o plano é revendê-las no futuro com lucro. Mas isso não se aplica ao PanAmericano. Executivos do BTG dizem que o objetivo é melhorar os resultados para criar uma instituição forte no varejo bancário. Em junho, o BTG negociou a compra do banco Cruzeiro do Sul,que foi liquidado recentemente pelo BC, para uni-lo ao PanAmericano – o negócio naufragou por falta de apoio do FGÇ{procurado, o BTG não quis falar sobre o assunto). O ponto fraco do PanAmericano é comum à maioria dos bancos médios: a dificuldade de concorrer com os bancos, que estão atuando com mais força em segmentos antes dominados por instituições menores, como o crédito consignado e o de veículos. Mas,para os analistas,o PanAmericano tem urna vantagem: conta com a Caixa como fonte de captação de recursos e está implementando um plano de ajustes que pode torná-lo mais competitivo. Neste ano, os papéis do banco vão mal: a queda é de 17%,ante uma valorização de 7% do Ibovespa e de 14%da média das instituições financeiras. O plano para virar o jogo está traçado. Só falta, desta vez, que ele seja transformado em realidade.

 

OS NOVOS RICOS DO MERCADO

Nem banqueiros, nem operadores. Quem passou a ganhar milhões recentemente foram os agentes de investimento (ou “pastinhas”) das corretoras. Alguns nem fizeram faculdade MARIA LUIZA FILGUEIRAS.

““SIRVA DE EXEMPLO” ‘‘ QUANTO MAIS Difícil, MELHOR.” “Agüente a pressão.” Aos berros, o policial Paulo Storani, ex-capitão do Bope, a equipe de operações especiais da polícia carioca, repetia frases como essas para uma improvável platéia de 1000 engenheiros, advogados e gente que só tem o ensino médio. A “palestra” faz parte de um treinamento que a corretora XP dá às pessoas que querem começar a atuar como seus agentes de investimento, ou “pastinhas”. O trabalho desse pessoal é ir a locais onde a XP não tem escritórios – o que inclui até cidades no meio da floresta Amazônica, como Ji-Paraná, em Rondônia – para explicar o funcionamento do mercado e cadastrar investidores para negociar ações, aplicar em fundos e comprar títulos de renda fixa por intermédio  da corretora. O que, à primeira vista, pode parecer um trabalho repetitivo e de pouca relevância está se tornando uma das profissões mais bem remuneradas do mercado financeiro. Os agentes que mais conseguem clientes recebem até 5 milhões de reais por ano em comissões. É essa a meta do engenheiro civil Flávio Crosara, que vendeu uma pequena construtora em Goiânia em 2002 para passar a trabalhar como agente autônomo, nome que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dá a esses profissionais. Entre seus principais clientes estão donos de fazendas de gado que moram num raio de até 230 quilômetros da cidade. “Sempre me pedem para comparar as ações aos bois: querem saber se o risco de uma empresa quebrar é maior ou menor do que o de um animal morrer, qual é a perspectiva de retorno. Tenho de estudar os dois mercados”, diz. Com 600 investidores que aplicam 100 milhões de reais com sua assessoria, ele recebe em torno de 1milhão de reais por ano em comissões. Descontadas as despesas do escritório – aluguel, uma salga da conta de telefone, viagens para visitar os clientes e o pagamento de funcionários -, ele já embolsou cerca de 2,5 milhões de reais. Metade desse dinheiro foi investida num novo hobby: colecionar carros antigos. Está construindo um galpão para guardar os 12 carros que já comprou – o preferido é um Ford Maverick fabricado em 1975. “Quem toca a obra é um engenheiro contratado. Quero distância de construção. Meu negócio agora é só mercado financeiro”, diz ele. Qualquer um que tenha completado o ensino médio pode atuar como agente autônomo. Basta passar numa prova da Ancord, a associação das corretoras e se cadastrar na CVM. A maioria das corretoras também dá treinamento próprio. Para elas, a vantagem de trabalhar com esses profissionais, que não são contratados como funcionários e recebem apenas comissão, é chegar a investidores que ficam fora do eixo Rio- São Paulo, onde estão os escritórios da maioria dessas empresas, sem arcar com custos fixos.”A rede de contatos dessas pessoas faz muita diferença. É o único jeito de ter presença nacional”, diz Guilherme Benchimol, sócio da XP,maior corretora independente do pais, com 63000 investidores e 1500 agentes ativos. Ao todo, esse setor tem 10000 profissionais cadastrados na CVM. Nos Estados Unidos, são cerca de 600000. Para chegar aos investidores, cada agente tem uma estratégia, que depende da região em que atua e do público que quer conquistar. O analista de sistemas Gustavo Tapajós, que mora em Manaus, vai de lancha visitar investidores em cidades próximas, como Itacoatiara e Parintins, no Amazonas. Em pouco mais de cinco anos, conseguiu 1200 clientes, que aplicam 300 milhões de reais com ele – a comissão de seu escritório gira em torno de 3 milhões de reais por ano. “Fui o primeiro agente de investimento a conversar com muitas dessas pessoas. Antes, a maioria só aplicava em imóveis”, diz. O gaúcho Alessandro Safar já deu palestras em igrejas e um de seus sócios foi até uma penitenciária, a pedido de ” um dos carcereiros que queria começar a investir em ações.Em Belém, Márcio Baena, que largou a carreira de jornalista para se tornar agente autônomo, entrega panfletos em frente a agências bancárias, dizendo que as taxas de muitos fundos oferecidos pelos bancos são “absurdas”. “Aplicar num fundo de renda fixa que cobra 5% de taxa de administração, é como comprar um carro popular por 400000 reais. Ambos deveriam custar 90% menos”, diz. É curioso que os agentes estejam indo tão bem num momento em que a maioria das corretoras patina. Um levantamento da consultoria Austin mostra que um terço das 38 maiores corretoras da BM&FBovespa fechou o primeiro semestre com prejuízo. Nove lucraram menos de 1milhão de reais. Isso se deve ao fato de boa parte dos resultados dessas empresas depender das receitas geradas por clientes que compram e vendem ações – e dezenas de milhares de investidores saíram da bolsa nos últimos meses. “Os agentes conseguem chegar a mais pessoa muitas sem experiência prévia na bolsa, o que aumenta a chance de encontrar quem ainda esteja disposto a comprar ações”, diz Adilson Tanabi, superintendente da corretora Ágora, que é controlada pelo Bradesco e tem um quarto de seu faturamento gerado pelos negócios trazidos pelos agentes autônomos. Outra estratégia das corretoras é oferecer fundos e títulos de renda fixa aos investidores – as comissões são menores do que as pagas na negociação de ações, mas podem fazer diferença nos resultados se houver escala. E aí, novamente, a atuação dos agentes é fundamental.  O problema desse mercado é que a regulação ainda é incompleta. Os agentes não estão sujeitos às mesmas regras das instituições financeiras. Por exemplo: não são obrigados a fazer uma análise do perfil do investidor antes de oferecer a ele opções de aplicação. Em 2008, a BM&F Bovespa recebeu 63 reclamações de pessoas que disseram ter sido mal informadas sobre os riscos de investimento em ações, o que representa quase metade do total de queixas feitas à bolsa. Para tentar dar mais garantias aos investidores, a CVM estabeleceu, em janeiro, que os agentes só podem trabalhar com uma única corretora (em vez de prestar serviço a várias), e essa empresa pode ser acionada se houver problemas. Além disso, está sendo discutido um código de autor regulação. Com essas iniciativas, procura-se evitar que os agentes virem um abacaxi como são os pastinhas dos bancos médios, profissionais que buscam clientes para essas instituições e são constantemente acusados de ocultar informações. Pelo menos por enquanto, os agentes têm sido vistos de forma otimista: chegam a investidores que antes tinham pouco acesso a produtos financeiros, engordam as receitas das corretoras – e ganham milhões com isso.

 

AS NOVAS APOSTAS

Os gestores de fundos de ações que aplicam em empresas que pagam bons dividendos estão revendo sua estratégia após a recente mudança de regras para o setor elétrico. As empresas de energia elétrica estavam entre as principais distribuidoras de dividendos da bolsa antes da mudança – hoje, ninguém sabe quais serão os efeitos das medidas do governo sobre os resultados dessas companhias e, por isso, o gestores têm preferido aplicar em outros papéis. Por enquanto, os fundos de dividendos mais bem-sucedidos são os dos bancos HSBC e Itaú, segundo um levantamento da Fundação Getulio Vargas (veja quadro). O Itaú está investindo em papéis de instituições financeiras, empresas de bens de consumo e companhias de serviços públicos (o banco não divulga as empresas em cujas ações investe). Já o HSBC vem comprando ações do Banco do Brasil, da empresa de telecomunicação Oi, da companhia de saneamento Sabesp e da mineradora Vale.

 

PEGADINHA?

Parece impossível, mas investir em fundos imobiliários com rendimento mensal garantido pode ser um mau negócio. Dois fundos que oferecem esse benefício – os dos shoppings West Plaza, em São Paulo, e Floripa em Santa Catarina – acumulam desvalorização de 26°í, e 3%, respectivamente, nos últimos 12 meses. Por quê? Os resultados dos shoppings estão abaixo do esperado, o que significa que, quando a garantia de retorno acabar, os investidores receberão menos do que ganham hoje. O retorno de um fundo imobiliário depende de duas coisas: do rendimento mensal e do valor de suas cotas. que varia conforme a oferta e a demanda A procura por esses fundos tem diminuído, e o preço das cotas caiu. “Os investidores estão pagando menos para comprar cotas desses fundos porque a perspectiva de retorno é incerta”, diz Arthur Vieira de Moraes, especialista da Indusval Corretora.

 

MELHOR FICAR DE FORA

O aumento das tarifas de importação de papel e celulose e o corte de impostos para essa indústria, medidas anunciadas pelo governo em setembro, não devem ser suficientes para melhorar os resultados das empresas brasileira desse setor – que são os piores desde 2008-, na opinião da maioria dos analistas. Segundo o banco Citi, as companhias locais poderão aumentar seus preços no mercado interno, mas isso não será suficiente para compensar a queda das exportações para a Europa, maior comprador da celulose brasileira.

 

MAIS FRAUDES

Um estudo publicado por dois institutos de proteção aos investidores nos Estados Unidos revela que 78% dos idosos americanos são vítimas de fraudes financeiras. Segundo a pesquisa, anualmente pessoas acima de 65 anos de idade perdem cerca de 3 bilhões de dólares com golpes diversos. Com o objetivo de tentar evitá-los, uma organização sem fins lucrativos voltada para a terceira idade, a Eiffe começou a treinar médicos em todo o país para que eles consigam resolver dúvidas financeiras de seus pacientes.

 

ACREDITE: A PE I ROBRAS FICOU CARA

Apesar de as ações da Petrobras terem caído 6% neste ano, enquanto o Ibovespa subiu 8%, a empresa tornou-se a petroleira mais cara do mundo, em dólar, segundo um levantamento da consultoria Thomson Reuters. O feito se deve aos resultados da companhia no primeiro semestre – o lucro caiu 64%, e a geração de caixa, 15%- e às perspectiva ruins para os próximos meses: a maioria dos analistas espera que a margem de lucro caia neste e no próximo ano, em razão dos pesados investimentos necessários para explorar as reservas do pré-sal. É hora de vender? Nenhum dos 15 analistas que acompanham a Petrobras recomenda isso. Pelo contrário até. Segundo a empresa de informações financeiras Thomson Reuters, 70% dos analistas recomendam a compra da ações da Petrobrás. O valor de mercado da empresa caiu 25% nos últimos três anos. Para os analistas, portanto, pior do que está não fica.

 

PARA NÃO SE AFOGAR EM NÚMEROS

A possibilidade de analisar um volume inédito de dados digitais – fenômeno chamado de big data – é, para as empresas, uma revolução comparável à popularização da internet LUIZA DALMAZO.

DOISANOS ATRÁS, A MAPUNI (EMPRESA brasileira especializada em digitalização de mapas, colocou em xeque a credibilidade dos anúncios da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da cidade de São Paulo. A MapLink começou a calcular o volume de trânsito na capital paulista, tarefa então exclusiva da estatal. Nas primeiras horas de um feriadão. ao mesmo tempo que a CET divulgava os 200 quilômetros habituais de ruas congestionadas, as rádios que usavam o serviço da MapLink informavam 420 quilômetros. Alguém estava errando a conta, e não foi difícil descobrir quem era. Enquanto a CET utiliza câmeras espalhadas pelas principais vias da cidade e o “olhômetro” de seus fiscais de trânsito para calcular o índice de congestionamento nos horários de pico, o software da MapLink, usado por empresas de rastreamento por satélite, cruza, em tempo real, as informações enviadas por cerca de 400000 veículos espalhados pela cidade. Se eles estão parados, há congestionamento. Andando em velocidade baixa, trânsito. Se a velocidade for plena, a pista está livre. A precisão é tanta que hoje. além dos mapas, a MapLink vende informações sobre o trânsito para companhias de logística decidirem os melhores horários e rotas para suas entregas. Esse é um dos muitos exemplos de uso do que se convencionou chamar de big data, ou “grandes informações”, numa tradução livre. Nos últimos anos, os especialistas em TI viram a emergência de dois novos fenômenos. A produção de informações continuou aumentando a uma velocidade espantosa – taxa de 50% de crescimento ao ano -, mas, ao contrário do que aconteci  no passado, não se tratava de mais do mesmo. Os dados mudaram. Não são somente textos e números dos 640 milhões de sites. Passaram a ser informações vindas dos sensores de localização em veículos (como os usados pela MapLink), dos GPSs e das antenas dos 6 bilhões de celulares em uso no mundo e dos 2,7 bilhões de comentários feitos no Facebook diariamente. Essa mudança veio acompanhada de outra igualmente importante. Os computadores, graças a novas tecnologias, como a inteligência artificial, aumentaram a capacidade de entender as informações – e é essa nova conjunção de fatores que está transformando companhias de setores totalmente distintos, do varejo ao de petróleo e gás. “Para as empresas, o surgimento do bigdata é uma revolução comparável à massificação da web registrada no começo da década de 90″, diz Adarn Daum, analista-chefe da Canalys Research, empresa inglesa de pesquisas em tecnologia. Hoje, 90% do volume de dados digitais produzidos globalmente ainda não são digeridos, mas essa é uma situação que começa a mudar. A americana Walmart, a maior varejista do mundo, é considerada uma referência por conseguir colher dados online para impulsionar as vendas de suas lojas físicas. Os softwares desenvolvidos pela empresa conseguem, por exemplo, monitorar quando a discussão sobre o campeonato de futebol americano se intensifica na internet em diferentes cidades dos Estados Unidos. Sabendo disso, em questão de horas os gerentes de lojas dessas regiões passam a expor nas vitrines produtos de determinados times. Hoje, o Walmart tem mais de 12 sistemas diferentes que processam, diariamente, cerca de 300 milhões de atualizações de internautas em redes sociais, como o Facebook e o Twitter. A demanda interna por soluções de big data levou a varejista a criar em 2011ª WalmartLabs, uma subsidiária de tecnologia que nasceu da compra da Kosmix, uma startup americana. A Kosmix ganhou fama em 2010 ao desenvolver um sistema que ajuda no gerenciamento de estoques das varejistas durante a blackfriday (sexta-feira negra), em novembro, principal dia de queima de estoques do varejo nos Estados Unidos. O software da Kosmix detecta, pela localização dos celulares dos clientes, o número de pessoas em cada loja. Com essa informação, os estoques de unidades que estão com vendas em baixa são enviados para as que estão vendendo mais.

BlG DEMAND

Casos como o do Walmart inspiraram varejistas no Brasil. A Lojas Renner, uma das maiores redes de vestuário do país, investiu em 2010 em um sistema que comparava, em tempo real, as vendas de suas mais de 150lojas. Com isso, foi possível identificar números fora do padrão. Nos dias em que as unidades localizadas em lugares frios vendiam muitos casacos, os gerentes das lojas com desempenho abaixo da média recebiam um aviso do sistema para mudar a posição do produto na vitrine. Em uma fase mais recente, o projeto ficou mais sofisticado. Ao lançar uma coleção, a Renner posta fotos de algumas peças no Facebook e verifica a aceitação do público. Isso ajuda na hora de prever o estoque necessário de cada produto. Diariamente, os gerentes das lojas recebem relatórios que consolidam dados como a previsão do tempo e comentários em redes sociais. “O software não ajuda só a reunir as informações. Também seleciona o que é confiável”, afirma Leandro Balbinot, diretor de TI da Renner. O mercado de big data já movimenta 26 bilhões de dólares em todo o mundo. Das 500 maiores companhias globais, 450 têm projetos nessa área. Como a partir de agora empresas de menor porte devem passar a usar essa ferramenta, estima-se que o mercado de big data chegue a 38 bilhões de dólares em 2015. “É uma realidade que deve perdurar pelos próximos anos. A necessidade não foi inventada pelas fornecedoras de TI, que querem vender seu peixe”, afirma Anderson Figueiredo, analista da consultoria americana de tecnologia IDe. “Empresas de diferentes setores querem usar melhor os dados disponíveis.” Confiantes nesse cenário, as grandes da área de tecnologia estão investindo para atender à demanda. Só a IBM aplicou 14 bilhões de dólares nos últimos cinco anos para comprar 24 empresas de análise de dados. A americana EMC, especializada em tecnologia de armazenamento, investiu recentemente 100 milhões de dólares em um centro de pesquisas no Rio de Janeiro. O objetivo é dar apoio a empresas do setor de petróleo e gás, como a Petrobras. A estatal brasileira usa softwares de big data que analisam milhares de dados sobre o desempenho de suas máquinas e as condições dos poços. Em junho, a Petrobras anunciou investimento de 15 milhões de reais em um supercomputador para processar as informações colhidas na camada do pré-sal. O Grif004, o número 68 da lista dos 500 computadores mais poderosos do mundo e o primeiro da América Latina, foi desenvolvido pela Itautec para ter capacidade de fazer 1quatrilhão de operações matemáticas por segundo. “Sem o big data seria impossível planejar a exploração do pré-sal, com os seus milhares de variáveis relacionadas a áreas como segurança e resistência dos equipamentos”, afirma Karin Breitmau. diretora do centro de pesquisa da EMC. Um estudo recente da consultoria McKinsey sobre o setor mostra que, com a implantação de tecnologias de big data, é possível diminuir o número de funcionários dedicados a análise de dados em 15%e aumentar a produtividade 5%. Até mesmo o setor financeiro, já altamente informatizado, está interessado na novidade. De acordo com a empresa irlandesa Experian, especializada em serviços de análise de crédito e marketing, o interesse dos bancos é crescente. Há dois anos, a unidade brasileira do grupo, a Serasa Experian, aplicou 7 milhões de dólares em computadores que conseguiram acelerar 30 vezes a velocidade de processamento de dados. São essas máquinas que têm permitido à empresa prestar novos serviços de administração de carteiras de crédito – principalmente para bancos médios. Agora a Serasa Experian consegue fazer o monitoramento diário do perfil de correntistas, varrendo ISO milhões de variáveis, entre notícias de sites, dados de cartórios e de eventuais compras no varejo. Segundo a empresa, isso permite captar com mais precisão os nomes de maus e bons pagadores e ajudar os bancos a reduzir a inadimplência. “Com o acesso a informações públicas, conseguimos comparar e avaliar mais de 100 fontes”, diz Lisias Lauretti, diretor de TI da Serasa. Apesar de todo o entusiasmo gerado pelo big data, há quem diga que as previsões estão muito otimistas. Na opinião do americano Peter Fader, professor de marketing da escola de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia, as companhias precisam tomar cuidado para não superestimar a tecnologia. Segundo ele, as empresas estão criando uma falsa ilusão de que basta apertar um botão e esperar que as máquinas digam o que tem de ser feito. “A análise sempre vai depender de trabalho e raciocínio humanos”, diz. Pelas estimativas da consultoria McKinsey para 2018, somente no mercado americano haverá um déficit de até 190000 profissionais com habilidades profundas de análise e de 1,5milhão de gerentes aptos a tomar decisões com base em relatórios dos sistemas. Um dos maiores obstáculos para a consolidação do big data diz respeito ao debate em torno da privacidade. Muitos dos dados processados são informações pessoais disponibilizadas livremente na web por parte de seus cerca de 2 bilhões de usuários. O Facebook, que reúne quase 1bilhão de pessoas, ganha dinheiro com quem não se importa em contar sua vida e seus hábitos em troca de um serviço de comunicação gratuito. Hoje, a exibição pública é tamanha que há quem fale numa ressignificação do conceito de privacidade. Mas a possibilidade de uma eventual reação negativa ao atual nível de exposição não está de todo descartada. Para muita gente, soa invasivo um supermercado ter acesso à localização de uma pessoa pelo GPS para poder enviar uma mensagem assim que ela entra numa loja. “Esse é um debate que deve durar uma década”, diz Scott Anthony, diretor da consultoria de inovação americana Innosight. Por enquanto, a elite mundial, reunida anualmente no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, mantém o otimismo. No relatório do último evento, a opinião da maioria foi resumida da seguinte forma: “Os riscos e os desafios do big data não vão superar as oportunidades”. Nos 5 segundos que se leva para ler a frase acima, 144000 posts e 17000 fotos são publicados no Facebook.

 

CONEXOES PERIGOSAS

Para os defensores da economia em rede, ou network economics, a internet mudou o conceito de “efeito manada” – e isso precisa ser incorporado por governos e empresas I BRUNOFERRARI.

SINDROME RESPIRATÓ- RIA AGUDA GRAVE, conhecida como Sars, fez sua primeira vítima fatal na China em novembro de 2002. A falta de informação sobre as causas da doença, que tinha características similares às da pneumonia, causou pânico mundial. Enquanto órgãos de saúde pediam cautela na avaliação do impacto da doença, correntes de e-mails, blogs e sites falavam da iminência de uma pandemia. Em questão de horas, o pânico se espalhou. Primeiro, derrubou a taxa de ocupação de hotéis de Hong Kong de 80% para 10%. Em seguida, fechou escolas no Canadá, a milhares de quilômetros do foco da Sars. Nos dias seguintes, houve até boicote a restaurantes chineses nos Estados Unidos. Meses depois, com menos de 1000 vítimas fatais, descobriu-se que as consequências da doença foram brandas para padrões epidemiológicos. Já o prejuízo estimado com a desinformação sobre a Sars foi de 100 bilhões de dólares. O caso da Sars aparece em um estudo publicado em 2009 pelo Bank of England com o título “Repensando a rede financeira”. ele, o economista britânico Andrew Haldene apresenta casos que mostram como a economia global está mais vulnerável com o mundo conectado. Haldene pertence a um grupo de economistas que defendem a existência do que chamam de “economia em rede” (tradução livre para network economícs), uma nova tentativa de explicar o comportamento dos agentes econômicos. De acordo com essa escola, a informação tem um papel tão importante nas relações econômicas quanto o capital e o trabalho. “Os efeitos da rede, o fato de que uma pessoa pode mudar sua preferência simplesmente na base do que os outros dizem, é o que define as regras do mundo moderno”, diz o economista inglês Paul Ormerod, autor do livro Positive Linking(“Conexão positiva”, numa tradução livre), lançado em julho na Inglaterra. No livro, ele explica que as pessoas e as empresas, por estarem mais conectadas, tornaram-se mais suscetíveis a uma espécie avassaladora de “efeito manada”. Ormerod lembra que, em 2007, os bancos de países ricos estavam operando normalmente quando, de repente, informações sobre a crise no mercado imobiliário americano fizeram o pessimismo se espalhar e congelar a Iliquidez. “Nada dramático havia acontecido ainda”, afirma. “Mas alguns bancos começaram a agir com cautela excessiva, fazendo outros seguirem aquela estratégia com medo de se expor ao risco.” Mais do que a dinâmica, o que chamou a atenção nesse caso foi a rapidez com que o medo se alastrou. Ao longo das últimas décadas, novas tecnologias na área da comunicação foram encurtando o tempo da disseminação das informações até torná-lo quase instantâneo. O caso do banco americano Lehman Brothers é recorrente em pesquisas sobre a economia em rede. Segundo um estudo do Bank ofEngland, o valor dos créditos podres em poder do Lehman Brothers na época da eclosão da crise, em 2008, não justificava o pânico gerado. “O Fundo Monetário Internacional tirou 5 pontos percentuais na sua revisão de crescimento global para o ano seguinte depois da falência do Lehman”, escreveu Haldene. Fechado o ano de 2009, a economia mundial tinha encolhido 0,6%. “Tenho certeza absoluta de que parte dos desdobramentos da quebra do Lehman Brothers tem relação com a tecnologia da informação. A capacidade computacional disponível no mundo fez com que víssemos um mesmo comportamento em escala global”. disse Jean-Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu, durante um evento numa universidade de Berlim em julho. “E isso vai continuar tendo enormes consequências na economia real.” A falência de uma empresa como estopim de uma crise não é inédita na história da economia A quebra da bolsa de Nova York em 1929, ajudou a levar os Estados Unidos à Grande Depressão dos anos 30. Para os defensores da economia em rede, a inovação está na velocidade com que as crises ganham uma escala global. “A teoria econômica até hoje tratou o homem como um ser isolado, como se ele fosse um Robson Crusoé”, afirma o americano Rob Johnson, diretor do Instituto do Novo Pensamento Econômico, com sede em Londres e que tem o mega investidor George Soros como um dos patrocinadores. Para os críticos, a economia em rede pode até ajudar a explicar as recentes mudanças no cenário mundial, porém é um erro colocá-Ia como o fator principal. Afinal, ainda segundo os detratores, o que provocou a crise foram políticas irresponsáveis de crédito imobiliário e produtos financeiros com doses altíssimas de risco. “É um exagero creditar tudo à conectividade das empresas e das pessoas”, diz Daniel Monte. professor de economia da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Nos últimos quatro anos, as críticas à teoria econômica clássica aumentaram quase na mesma medida em que diminuía a perspectiva de milhões de famílias na maior parte dos países ricos. É nesse contexto que aparece com mais destaque temas como o da economia em rede. Em um ponto, pelo menos, parece haver concordância: é preciso dedicar mais tempo e dinheiro para pesquisar a influência da era digital. Os padrões de comportamento do mundo offline não necessariamente valem para o mundo online.

 

“A índia precisa de uma Margaret Thatcher”

Para Gurcharan Das, um dos principais pensadores indianos, a ascensão da classe média vai transformar o panorama político de seu país e promover reformas liberais MARIANA SEGALA

HÃ 17 ANOS, O INDIANO GURCHARAN DAS, EX-PRESIDENTE DA OPERAÇÃO INDIANA da multinacional de bens de consumo Procter&Gamble, dedica-se a escrever sobre as idiossincrasias de seu país. Formado em filosofia e política pela Universidade Harvard e autor de livros como Índia Unbound (“Índia desacorrentada”, numa tradução livre), Das defende reformas profundas nas instituições indianas – coisa que, diz ele, faria bem também ao Brasil. “Índia e Brasil se parecem muito.” Em recente visita a São Paulo, Das falou a EXAME.

 Até que ponto o modelo de crescimento indiano é sustentável? É quase heróica a forma como os empreendedores indianos prosperaram nos últimos anos. Ao contrário da China, temos uma sociedade forte sob um Estado fraco. Costumo dizer que a Índia cresce à noite, enquanto o governo dorme. Falta um Estado forte. E, assim como no Brasil, precisamos de instituições melhores.

Como seria esse Estado forte para a índia? É bom salientar que um Estado forte não é um Estado autocrático. Nossos países precisam de um governo liberal fundado em três pilares: o estado de direito, a prestação de contas e a rapidez e eficiência das decisões. Também não falo de um Estado grande. Os melhores governos são pequenos e eficientes.

Por que as reformas realizadas na índia na década de 90 não foram suficientes para alcançar esses objetivos? As reformas atacaram os problemas de metade da economia.

Falta a outra metade, que segue nas mãos do governo. As transações imobiliárias, por exemplo, são nebulosas, assim como as dos setores de mineração e educação. Quem quer abrir uma escola precisa conseguir 19 licenças – e cada uma delas corresponde a uma propina.

O que falta para modernizar o Estado indiano? É necessário fazer privatizações e ter o governo na regulação do setor privado. Nosso Estado não se mexe onde se faz necessário, provendo segurança ou abastecimento de água. Mas é hiperativo onde não precisaria interferir.

O que é preciso fazer na índia para que as mudanças que o senhor defende aconteçam?’ O segredo para o nosso sucesso no futuro está na classe média. Veja como ela está crescendo rapidamente no Brasil. Na Índia, a classe média já representa um terço da população e será metade em 2020. Serão 600 milhões de pessoas. E a classe média é impaciente. Ela vai forçar as mudanças.

Quanto tempo esse processo ainda pode levar? Não dá para saber. Se tivermos sorte e elegermos um líder forte, um reformador ao estilo de Margaret Thatcher, há chance de que as mudanças sejam rápidas.

E por que até agora não emergiu um líder com essas características? Um dos problemas da Índia é que nossos líderes são muito velhos. Metade da população do país tem menos de 26 anos. Não faz sentido numa sociedade como essa, termos apenas líderes de 80 anos. O apoio a esse tipo de iniciativa virá da classe média, da juventude. Mas é sempre bom lembrar que vivemos em uma democracia, onde as pessoas votam – às vezes, nos candidatos mais estúpidos.

Veja

 A tecnologia do otimismo

O presidente da Disney diz que o mundo digital vai mudar o modo como as pessoas acessam os filmes – mas não o tipo de entretenimento que elas apreciam.

O CEO da Disney. Robert (Bob) Iger, se recorda com orgulho da relação que manteve com Steve Jobs, o criador da Apple, mono no ano passado. “Fomos grandes parceiros de negócios, mas, ames de tudo, fomos amigo . Ele dizia que era raro encontrar executivos de mídia como eu, com um genuíno interesse por tecnologia”, diz. Em 2005, ao assumir a presidência da Disney. Iger consolidou a compra do estúdio de animação Pixar, que pertencia a Jobs, e inovou ao vender filmes e programas de TV para o iPod. Aos 61 anos, Iger comanda um conglomerado que inclui a rede de TV ABC, o canal de esportes ESPN e os estúdios Marvel além da Pixar e dos estúdios e parques Disney. De passagem pelo Brasil, Iger falou de suas ideias para continuar a expansão desse império. o senhor deve deixar o cargo de CEO da Disney em 2015, depois de completar dez anos na função. Qual será seu legado para a companhia? Há muitas maneiras de medir uma companhia ao longo de uma década. Obviamente, tem de se olhar para a parcela que ela ocupa no mercado, para o valor de suas ações, para o lucro – e meu histórico é bom em rodos esses pontos. Mas meu objetivo era fazer da Disney uma das companhias mais admiradas no mundo, e espero que ela o seja quando eu deixar o cargo. Se você conseguiu isso, conseguiu o principal, e provavelmente sua lucratividade estará maior também.

A Disney havia perdido essa admiração antes de sua gestão? Eu não olho para trás. Prefiro olhar para a frente.

Um de seus grandes projetos é o parque Disney em Xangai, que deve começar suas atividades em 2015. Que adaptações foram necessárias para fazer um parque desses moldes na China? Contamos com uma vantagem: uma marca e personagens como Mickey, que têm grande apelo em todo o mundo. Mas isso não nos dá o direito de impor tudo, como imperialistas culturais. Temos de ter uma apreciação profunda pela cultura local e fazer com que as pessoas sintam que o mundo do parque pertence a elas. Em Xangai. o visitante terá a experiência Disney autêntica. mas de um modo único que é chinês. Um pequeno exemplo: todos os parques Disney têm um setor chamado Main Street, que é uma reprodução de uma cidadezinha americana do inicio do século XX – o tipo de lugar onde Walt Disney cresceu. Isso não teria apelo para os chineses. Esse parque será, portanto, o primeiro sem Main Street. Mas ainda não posso adiantar o que vai substituí-Ia.

o senhor dá a palavra final em todas as produções da Disney?Em algum momento ames da finalização vejo todos os projetos de maior relevância. Sejam filmes, programas de TV ou parques temáticos e dou sugestões. Posso ver cedas coisas que escaparam aos realizadores por estarem imersos no processo. Mas exerço essa prerrogativa com muito cuidado para não travar o processo criativo. E minha responsabilidade garantir que tudo o que produzimos tenha a melhor qualidade. Com o meu cargo tenho muita autoridade e busco exercê-la com parcimônia, pois a comunidade criativa com boa razão, é muito sensível. É uma questão de julgamento subjetivo. Não posso criar um funil do qual só saiam coisas que são do meu gosto.

Em comparação com CEOs de empresas de outros ramos, que qualidades são necessárias para o presidente de uma companhia que lida com criação? Se você dirige uma companhia como a Disney, não pode ser só um homem de negócios. É imperativo que você tenha algum instinto criativo. Nós executivos, não criamos, mas somos editores, somos árbitros do gosto. Temos de saber o que é ruim e o que é bom, pois damos o sinal vermelho ou verde a projetos de grande porte, que exigem investimentos enormes. Você tem de considerar a incerteza própria da atividade e os riscos envolvidos. É um negócio muito imprevisível. Você tem de celebrar as vitórias e aprender a processar as derrotas que serão inevitáveis ao dá para sair demitindo geme sempre que houver um fracasso. Há nuances demais no trabalho criativo. Você pode ter um grande roteiro para um filme, mas o diretor não faz o trabalho que se esperava. Ou o diretor é bom, mas o ator não funciona bem no papel. Depois do resultado as razões do sucesso ou do fracasso de um filme parecem extremamente óbvias. Antes é tudo bem mais difícil.

No ano passado, a Disney teve um grande fracasso, John Carter, e a maior bilheteria do ano, com Os Vingadores, da Marvel. Isso é um exemplo dessa imprevisibilidade? Sim. Por uma coincidência infeliz houve mudanças na administração dos estúdios Disney logo depois de John Caner. Rich Ross deixou a chefia do estúdio. Mas uma coisa não teve nada a ver com a outra. Ninguém foi punido ninguém perdeu seu emprego por causa de John Carter.

O que o senhor está dizendo, então, é que é preciso permitir fracassos? Sim, mas só em certa medida. É claro que, se uma pessoa faz cinco fracassos, um atrás do outro, você deve se perguntar se isso não é um problema dela. Pesquisas de público e mercado não podem tomar o negócio menos imprevisível? Uso as pesquisas de forma limitada. Não dá para se guiar por elas. Você tem de seguir o seu instinto. Henry Ford disse que se tivesse consultado as pessoas sobre o que queriam, elas não teriam pedido o automóvel, mas um cavalo mais rápido. Se em 2003 nós tivéssemos perguntado se as pessoas queriam um filme sobre piraras, é provável que elas teriam dito “não” – e não teríamos feito Piratas do Caribe.

Falando em Piratas do Caribe, e verdade que os executivos da Disney não gostaram do modo como Johnny Depp interpretou o protagonista do filme? Costumo rir dessas histórias. Os mesmos executivos que são acusados de ter detestado o filme são os que o aprovaram. Na ABC (rede de TV americana que pertence ao grupo Disney), tivemos um programa de muito sucesso. Lost, que ficou no ar por cinco anos. Havia muito boato de que eu não gostava da série. Ora. se eu não gostasse ela não teria sido produzida. E claro que nós questionamos os realizadores sobre suas escolhas. Lembro-me bem das conversas sobre Piratas do Caribe. Michael Eisner (então CEO da Disney não foi contra o filme. Ele apenas achou que o comportamento de Johnny Depp era meio esquisito. Mas naquela altura nós tínhamos visto só trailers. não o filme todo. Fora do contexto, a atuação de Johnny parecia estranha. No filme como um todo, era fantástica. Essa história tem certo fundo de verdade. mas foi muito exagerada.

A Disney vem crescendo a uma média de 8% ao ano. Entre outros negócios, está expandindo parques, abriu cruzeiros temáticos, comprou a Marvel. Como se faz isso em tempos de recessão?A companhia tinha o capital acumulado para fazer esses investimentos apesar das agruras da economia mundial. Todos esses negócios foram feitos individualmente. e não estão relacionados uns com os OUITOS. Mas, se você olhar para cada um deles, verá um investimento de longo prazo. Não há razão para nos limitarmos porque vivemos uma recessão, pois em algum momento os tempos ruins vão melhorar. Podemos nos beneficiar tomando decisões em épocas difíceis: os custos da construção. Por exemplo, caíram porque ninguém está fazendo grandes projetos.

Mas o consumidor não corta despesas com entretenimento em tempos duros? Não há duas recessões iguais. Tudo depende de quão ameaçadas ou pessimistas as pessoas se sentem. Aquelas que perderam o emprego, ou tiveram uma grande redução no valor de sua casa, vão cortar gastos. Nosso negócio não está imune ao mau tempo. Mas o que fazemos ainda tem grande valor para as pessoas. A marca Disney coma muito nesse ponto: somos otimistas. Cheios de aspirações, e as pessoas confiam no que fazemos. Mesmo em tempos difíceis as pessoas ainda querem oferecer diversão à família. Elas confiam na Disney sabem que terão entretenimento de qualidade.

o conceito de “diversão familiar”, que é tão central para a companhia, mudou desde os tempos de Walt Disney? Houve mudanças, claro, mas isso não significa que a diversão familiar hoje tenha de ser mais ousada. Em alguns casos, as mudanças são surpreendentes, Recentemente estava vendo desenhos animados do Zé Carioca. Em um deles, dos anos 40, o nosso papagaio brasileiro aparecia fumando um charuto. A Disney nunca permitiria isso hoje. O mundo mudou muito, e as crianças estão expostas, na internet, a coisas que jamais veríamos na nossa infância. Mas, em certos pontos estamos mais conservadores – não permitimos o fumo em desenhos animados.

Logo que assumiu a presidência da companhia, o senhor foi pioneiro na venda de filmes e programas para o iPod, novidade que deixou assustados os varejistas que trabalham com DVDs. Quem mais vai se assustar com as inovações tecnológicas que vêm por aí? As únicas pessoas que têm medo são as que querem ficar estacionadas no tempo. Há forças mudando o mundo. Não estão mudando necessariamente o tipo de histórias que as pessoas querem ouvir mas sim o modo como as pessoas chegam a essas histórias – através do iPod, por exemplo. Se você vê novidades como essa se popularizando, tem de responder a isso, ou sua companhia vai perder relevância, sobretudo entre o público mais jovem.

Foi o que aconteceu com a indústria fonográfica? Sim. Eles estavam viciados em um modelo de negócio que a seu tempo foi muito bem-sucedido. O problema não foi apenas a recusa em aderir aos novos modelos. Em certo momento eles acreditaram que poderiam deter o avanço tecnológico. Se eu mencionar discos para meus dois filhos mais novos, que têm 10 e 13 anos. Ele nem sabem do que estou falando. Eles conhecem músicas, mas não discos de vinil ou álbuns em CD. A indústria fonográfica tentou forçar as pessoas a continuar fiéis ao velho modelo. Para ouvir uma música havia dois caminhos apenas. O primeiro era ir até uma loja, um lugar físico, e comprar um álbum. O OUTRO era esperar aquela música tocar no rádio. As gravadoras queriam forçar o consumidor a continuar comprando álbuns de doze faixas. Quando muitas vezes ele poderia estar querendo apenas uma das músicas Imagine empurrar ao consumidor onze coisas que ele não quer para ter o direito de levar uma que realmente deseja. A relação custo-benefício era péssima.

Os CDs e DVDs vão acabar? Não sei dizer quando, mas ainda em nosso tempo de vida tudo será digital. A possibilidade de armazenar arquivos em servidores remotos na “nuvem”, como chamou vai melhorar muito a vida do consumidor. As pessoas gostam de ter filmes da Disney em DVD porque seus filhos os vêem várias vezes. Com a tecnologia de armazenamento na nuvem elas poderão vê-los quando e onde quiserem, com qualidade de imagem e excelente relação custo-benefício. Pense nas possibilidades dessa tecnologia para quem tem o conglomerado Disney- Pixar-Marvel-ABC-ESP . É incrível. Gostaria de estar começando minha carreira agora.

A Pixar tem sido a ponta de lança da criação de desenhos animados desde os anos 90, e seu criador, John lasseter, hoje chefia o departamento de animação da própria Disney. Qual o sentido de manter Pixar e Disney separadas? John tem um modo de fazer filmes que é muito eficiente. É uma cultura própria da Pixar: um estúdio liderado por diretores, com um processo de edição colaborativo no qual um trabalho é julgado em primeiro lugar pelos próprios colegas. John levou isso para a Disney Animation, com ótimos resultados como se viu em Enrolados e como se verá no próximo filme, Detona Ralph. Não seriam filmes tão bons sem 1000. Mas Pixar e Disney ainda têm culturas diferentes. Cada uma tem sua própria história sede e equipe. É saudável que compartilhem certos atributos, mas uma cultura não pode se impor à outra.

 

GUERA DE ESGUICHOS

Japão e Taiwan, duas democracias, enfrentaram-se com canhões d’ água em ilhas disputadas também pela China, uma ditadura. Por enquanto, sem vítimas.

As monarquias mostram sobejamente a história, tendem a resolver suas diferenças por meio de guerras. As ditaduras também. Monarquias fizeram guerras contra ditaduras, e estas contra democracias. O que nunca se viu foram democracias fazerem guerras entre si. Essa é uma lei histórica que, infelizmente, pode ser desmentida no futuro – mas, por enquanto, esse pacto de não agressão é uma qualidade pouco lembrada da democracia, o regime que, não sendo perfeito, é melhor do que rodos os outros. O Japão, uma monarquia constitucional e Taiwan, uma república, deram, na semana passada, uma demonstração da tendência pacifista das democracias. Barcos pesqueiros e da Guarda Costeira dos dois países enfrentaram-se em uma batalha naval usando como arma apenas canhões d’água. Que extraordinário avanço seria se em vez de se meterem em corridas por arsenais atômicos as nações decidissem que de agora em diante, fariam umas às outras apenas guerras de esguichos.

A disputa entre os navios japoneses e taiwaneses se deu ao largo das ilhas Senkaku, situadas a 330 quilômetros da China e eqüidistantes 170 quilômetros do Japão e de Taiwan. As Senkaku são ilhotas de apenas 7 quilômetros quadrados (para se ter uma ideia. a cidade de São Paulo tem I 523 quilômetros quadrados) reivindicadas pelos três países. O Japão controlou o arquipélago de 1895 até 1951, após a derrota na II Guerra Mundial para os Estados Unidos. que administraram as ilhas até 1972. Naquele ano elas foram devolvidas ao Japão. A China nunca aceitou a soberania japonesa sobre as ilhas contrariedade que se aprofundou com a divulgação de um relatório da ONU dando coma da possibilidade de o subsolo das Senkaku ser rico em petróleo e gás.

Há três semanas o governo japonês comprou três das cinco ilhas de um proprietário privado (as outras duas já eram do estado). A ideia era evitar que o prefeito de Tóquio, político nacionalista que não perde a chance de espezinhar a China as comprasse. Não adiantou. A China reagiu. “Às vésperas de trocar a cúpula de governo, a China viu no episódio a chance de reavivar sentimentos nacionalistas”, diz Sheila Smith, do Conselho de Relações Exteriores em Washington. Os chineses fizeram manifestações de rua contra o Japão, violentas a ponto de as montadoras de automóveis japonesas Toyota. Nissan e Honda terem de suspender a produção de suas fábricas na China – um prejuízo de 250 milhões de dólares. Pequim enviou barcos às Senkaku, Ditaduras não costumam usar água como munição.

 

Foi a glória

Na vida pessoal ela tem um daqueles sonoros sobrenomes espanhóis duplicados: chama-se Sofia Margarita Vergara Vergara. Na vida profissional. a colombiana SORA VERGARA. 40. Também duplica qualquer oportunidade. Não bastou chegar estonteante num vestido do libanês Zuhair Murad e ganhar um Emmy pelo seriado Modem Famity em que vive a engraçadíssima Gloria Ela também garantiu que todo mundo conferisse um alegado incidente com perfumezinho de armação – o vestido rasga, bem na zona do agrião. Jogou a foto no Twitter e provocou: “Isso aconteceu vinte minutos antes de ganharmos bahaha”.

 

Austeridade zero

o presidente Françoís Hollande assumiu uma tarefa hercúlea: reduzir o déficit orçamentário da França. em um ano, de 4,5% para 3% do PIB. Pelo lado positivo, ele está craque em missões impossíveis, como administrar o duelo mortal entre a ex-mulher: SÉGOLENE ROYAL, e a atual. VALÉRlE TRIERWElLER. A última a aprontar foi Ségolene, que cronometrou uma criativa viagem a Nova York para coincidir com a visira dele à sede da ONU. Ségolene chegou a fazer hora no saguão do prédio para cruzar de propósito com o ex. Escaldado. Hollande passou direto. “Se fosse qualquer outra pessoa. ele teria parado”. reclamou ela. Com o Twirter embargado depois de suas próprias derrapadas. Valérie fez a fina e só apareceu em compromissos paralelos.

 

Adeus, Carminha

Dá até um friozinho na barriga pensar que Avenida Brasil vai acabar logo mais, no dia 19 de outubro. E que inevitavelmente todo mundo começará a falar de Salve Jorge. de Glória Perez. Imaginem então a ansiedade de sua protagonista. NANDA COSTA. 26. Com apenas três novelas, ela fará um papel principal pela primeira vez. As opções iniciais eram Juliana Paes ou Giovanna Antonelli. “Quando a Glória ligou e disse que havia me escolhido, achei que fosse trote”. Diz Nanda. “Ela mergulha em todas as nuances de emoção”, elogia a aurora. Parte da trama será na Turquia e espalhará bordões. “Mashallah será o novo inshallah”, avisa Nanda, referindo- se à expressão de alegria em árabe que transpõe fronteiras.

 

Fecha a boca e dança

Pobre MADONNA. Deveria ter escrito “alerta de ironia” para ninguém confundir suas palavras – aliás, se não metesse a carinha cheia de preenchimentos no assunto, poderia se enrolar menos. Depois de dizer. num show, que era incrível “termos um negro muçulmano na Casa Branca”. Precisou explicar: estava ironizando a crença de certos adversários extremos do presidente Barack Obama. Madonna segue uma prática mística judaico-californiana. adotou dois filhos africanos, tem um namoradinho negro e muçulmano (o francês de origem argelina Brahim Zaibat) e se considera qualificada para tratar de assuntos complexos. Se cuida. Michelle.

 

O JOGO DA FORCA DE VONTADE

Ao emagrecer publicamente em um programa de televisão, o ex -craque Ronaldo serve de espelho para uma das mais difíceis buscas do ser humano: a do poder interior que nos faz mudar hábitos ruins,

O desafio público de Ronaldo, que expõe heroicamente o barrigão com circunferência de 107 centímetros no quadro Medida Cena, do Fantástico, em brava luta para eliminar o excesso de peso – ele começou o programa com 118 quilos -, tem muito a nos ensinar a respeito da força de vontade, do poder interior de vencer o que parece ser intransponível. O ex-craque de 36 anos hoje empresário, sofreu contusões gravíssimas, tornou-se o maior artilheiro das Copas e agora briga para emagrecer diante de uma audiência que, no domingo de estréia, chegou a quase 20 milhões de pessoas. É difícil encontrar alguém que tenha feito de seu cotidiano uma constante batalha (ao vivo, expondo-a quase diariamente, o que faz toda a diferença) para provar que dá, sim – dá para comer menos beber menos, fumar menos, com sucessivas derrotas, o que pressupõe ter tido também sucessivas vitórias. Depois de abandonar o futebol, em fevereiro do ano passado, Ronaldo fez mais, muito mais, de tudo isso que termina em problemas de saúde saiu de exagerados 98 quilos quando jogava pelo Corinthians para os exponenciais cento e tantos atuais.

Durante três meses. Ronaldo seguirá as regras determinadas pelo preparador físico Mareio Atalla, o personal trainer contratado pelo Fantástico. O objetivo é perder 10 quilos ao final da aventura pública. Por que três meses? É o tempo necessário, segundo Atalla, para que o organismo aceite o novo patamar de atividades físicas. A circunferência do abdômen do jogador aposentado terá de cair dos 107 centímetros para 94 centímetros. Pressupõe-se que a taxa de colesterol. de 283 mg/dl, desça para 200 mg/dl. Mas há grandes esperanças, porque o Fenômeno ainda tem ecos do grande atleta que foi: seu porcentual de gordura corporal está em 25,5%, e basta  chegar a 20% para alcançar o nível ideal para um homem de 1,84 metro de altura. A travessia exigirá disciplina. Na quinta- feira da semana passada, VEJA acompanhou Ronaldo. No café da manhã. misturou iogurte com farelo de aveia, tomou suco de três frutas diferentes. Enfrentou o frio tardio de São Paulo (13 graus) e a preguiça para treinar numa academia. Durante trinta minutos. Correu a uma velocidade de 6 quilômetros por hora em uma esteira debaixo d’ água – em um equipamento convencional. A velocidade equivalente seria de 9 quilômetros por hora. Ele terá de derrotar as tentações (a principal delas é a carne vermelha, suculenta) e se esforçar ainda mais na prática de exercícios físicos (uma hora por dia. cinco vezes por semana). “Depois de parar com o futebol, precisava de um tempo sedentário”. Diz Ronaldo. “Maltrataram meu corpo durante vinte anos:’ Emocionado, o ex-jogador se recorda do período entre 1999 e 2001. quando estourou o joelho direito. “Na fisioterapia. todos os dias. Muitas vezes sozinho. chorava de dor e ouvia barulhos horríveis das fibroses se rompendo na minha perna”.

Força de vontade, poder interior, determinação e empenho – isso tudo que Ronaldo já demonstrou ter e largou por cansaço. e que agora trata de reinventar – são expressões coloquiais para um termo cientifico conhecido como volição. Função psicológica primária é um processo cognitivo pelo qual uma pessoa direciona, de forma consciente, uma ação. É algo mais que mera motivação. Ela é deflagrada quando se deseja algo, e a partir daí se adotam estratégias para chegar lá. Querer emagrecer, economizar dinheiro, estudar ou matricular- se numa academia são metas alcançáveis. Dá-se o problema quando deparamos com as tentações do cotidiano (ah, aquela carne que Ronaldo mira com sofreguidão. além do cigarro e do álcool inconfessáveis). Estima-se que passemos de três a quatro horas diárias resistindo a algum tipo de tentação – seja para evitar comer um brigadeiro saboroso, seja para não comprar aquele sapato novo com preço amigo. Recentemente, a neurociência e a psicologia fizeram uma descoberta extraordinária: a força de vontade não é uma metáfora. É força mesmo. Alimentada e treinada, funciona como um músculo que, exercitado, responde aos comandos e, sedentário parece estar frouxo.

A gênese dos avanços nessa área aconteceu em 1968. quando o americano Walter Mischel, então professor do departamento de psicologia da Universidade Stanford, fez uma experiência, seminal, com 653 alunos entre 4 e 6 anos de uma escolinha maternal da Califórnia para testar o autocontrole de meninos e meninas por meio de sua capacidade de resistir a guloseimas. Conhecido corno Estudos Marshmallow, o teste – infinitamente reproduzido desde então – consistia em levar cada Lima dessas crianças a uma sala fechada onde um pesquisador pedia a ela que escolhesse o doce de sua predileção. Depois, anunciava que daria uma volta e que, se ela esperasse seu retomo para comer, ganharia um segundo quitute açucarado. A criança tinha a opção de não esperar. Se quisesse se atracar desesperadamente com o bocado a qualquer momento. Era só tocar a campainha e chamá-lo. Então. ela era deixada sozinha na sala enquanto o pesquisador a observava através de um espelho falso.

O estudo belo em sua simplicidade, revelou que apenas um terço das crianças esperou para ganhar a segunda guloseima – resultado que sempre se repetiu nas inúmeras vezes em que a experiência foi replicada. A conclusão: o senso de urgência inculcou-se na herança genética do ser humano e vicissitudes evolutivas associadas à cultura, nos impedem de esperar para obter uma gratificação maior só que mais tarde. Anos depois daquela experiência inaugural de Mischel, outro grupo de pesquisadores examinou 59 crianças que tinham participado da primeira etapa. A partir de um exame de ressonância magnética, eles viram que o córtex pré-frontal, área responsável por controlar funções executivas, como tomar decisões, era mais ativo em indivíduos com maior autocontrole. Na outra poma, as crianças (agora crescidas) que haviam comido o marshmallow apresentavam o estriado ventral região relacionada a desejos e recompensas, mais excitado. Esse embate entre a emoção e a razão, e a primeira é a que sempre desponta, acompanha qualquer um de nós durante a vida. E o que é a vida senão negociar já, calorias ou dinheiro. para receber algo lá adiante?.

Lidar com quilo ou reais. do pomo de vista do planejamento. Reside no mesmo escaninho cerebral. O economista Eduardo Giannetti. amor do livro O Valor do Amanhã. Lembra que ninguém é obrigado a comprar a prazo. O comprador tem alternativas. Mas tende a escolher o prazer imediato, como as crianças dos Estudos Marshmallow. É um comportamento cujas raízes estão na biologia. O organismo humana gasta seus recursos na juventude e paga os juros na velhice. É um paralelo adequado a quem se endivida hoje indivíduo ou país, para antecipar um benefício futuro, sem perceber que a coma depois virá alta (veja a reportagem na pág. 78). Nosso metabolismo é preparado para ter energia na mocidade e saúde mais fraca na maturidade, mesmo se nos cuidarmos. É uma condição que fazia todo o sentido no passado quando raramente a vida de um ser humano ultrapassava o período reprodutivo. Na pré-história se um caçador não comesse o alimento à sua freme alguém bicho ou ser humano o faria e não se sabia quando seria a próxima refeição. Quem conseguiu transmitir seus genes para a posteridade foi aquele que comeu mais rápido.

Em nenhuma outra necessidade humana o autocontrole é tão testado quanto nos cuidados com o peso. Uma pesquisa encomendada pela Nestlé, realizada com 800 mulheres, mostrou que 61 o/c querem emagrecer – um desejo completamente compreensível. {No entanto, quase metade delas admitiu não fazer absolutamente nada para alcançar tal objetivo (veja o quadro lia pág. 96). E crime? Não. É profundamente injusto. para não dizer indelicado, associar a obesidade à falta de força de vontade. Afirmar que gordos são preguiçosos, e que só é gordo quem quer, é inverdade científica. “A obesidade é uma doença complexa, que ocorre pela combinação de uma série de fatores. Cerca de cinqüenta substâncias. entre hormônio e neurotransmissores. regulam o apetite. A saciedade e o paladar para um ou outro alimento”. diz Alfredo Halpern. Endocrinologista da Universidade de Sã Paulo. O homem pré-histórico, além de guerrear pelo alimento, precisava armazenar energia para sobreviver. “A gordura era a melhor forma de acumular energia. À medida que o tempo passou, com a abundância de alimentos e a diminuição de atividade física. houve uma mudança brusca de estilo de vida”. Afirma Halpern. Embora a ciência não tenha desvendado completamente os mecanismos da obesidade. sabe-se que a força de vontade é componente essencial para quem deseja emagrecer.

Infelizmente. o querer é finito. Para piorar tem um estoque único, utilizado para todas as nossas atividades cotidianas não há um tanque de combustível para a força de vontade que nos estimula a fazer ginástica e outro para estudar um segundo idioma. A fonte é a mesma. e seca. Para comprovar a teoria, o pesquisador Roy Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, levou estudantes a uma sala com cookies. chocolates e rabanetes, numa vertente daquele estudo com marshrnallow. Um grupo pôde comer cookies e chocolates. Outro permaneceu no mesmo ambiente, mas só foi autorizado a pôr rabanetes na boca. Depois, foram todos transferidos para uma ala onde deveriam resolver um quebra-cabeça geométrico. Pensando que estivessem sendo testados pelos seus níveis de inteligência, os estudantes se esforçaram. O objetivo principal era descobrir quanto tempo tentariam até desistir. Segundo os resultados. quem comeu guloseimas se empenhou para resolver a charada por longos vime minutos. Aqueles que ingeriram o insosso rabanete desistiram depois de apenas oito minutos. Segundo Baumeíster, o trabalho comprovou o que fora intuído – a força de vontade dos estudantes apartados dos doces minguou precocemente. Eles estavam evidentemente menos dispostos a solucionar a charada que lhes fora proposta.

O paradoxo detectado é simples. Para ter torça de vontade é preciso comer. O combustível é a glicose. Os pesquisadores acreditam que as células cerebrais trabalham muito para manter o autocontrole e, dessa forma,consomem a glicose mais rapidamente do que se dá sua reposição natural pelo organismo. Por isso, o autocontrole soa como um desafio ainda mais complexo para quem faz dietas muito restritivas ou permanece horas sem comer. Nesse caso, indica-se ingerir alimentos com nível glicêrinico baixo, como vegetais, frutas e peixes, entre outros. ao é o mais agradável e saboroso dos mundos.

Ver Ronaldo na televisão lutando contra aquilo que o estigmatizou (além das confusões noturnas coladas à fama e ao dinheiro) é magnético porque nos faz enxergar o inescapável. “As pessoas vivem sempre em conflito com padrões amigos e novos. Tendemos a priorizar o conservadorismo, a não sair da zona de conforto”, diz Hélio Deliberado, professor do Departamento de Psicologia Social da pue, em São Paulo. “Por isso é tão difícil mudar.” Entender o princípio do prazer imediato é o que nos separa dos animais. Os primaras conseguem projetar cerca de vime minutos no futuro – o bastante para permitir que o macho mais alto e mais forte coma primeiro. mas não o suficiente para planejar outras ações pós-jantar. Planejar o futuro é capacidade exclusiva dos seres humanos. “Temos a capacidade de antevisão que nos faz ponderar escolhas. Contrastar benefícios imediatos e custos do futuro”, afirma o economista Giannetti, O problema – que iguala Ronaldo a qualquer um de nós – é sempre adiar como anteviu Santo Agostinho em suas preces juvenis: “Dai-me a castidade e a continência mas não agora”.

 

CINCO REGRAS VALIOSAS

Alterar hábitos de vida requer muita dedicação e disposição. Algumas técnicas podem ajudar a fortalecer a sua força interior,fazendo com que a mudança seja menos penosa.

Estabeleça um desafio por vez Quando decidir perder os quilos em excesso, pelo menos no início do projeto, não se proponha a mais nenhum outro grande objetivo, como resolver o casamento em crise ou entrar na faculdade. Cada desafio a seu tempo. Do contrário, é grande o risco de nenhuma das metas ser atingida, gerando apenas insatisfação e sentimento de derrota – o que, definitivamente, é desencorajador.

Comemore as pequenas vitórias É fundamental que você determine quantopretende emagrecer. É imprescindível, no entanto, comemorar os gramas perdidos ao longo do processo. Essas pequenas vitórias são uma injeção de ânimo rumo ao Santo Graal do peso desejado. Crie o hábito de se pesar uma vez por semanae anotar as alterações em um gráfico.

Preveja as recaídas Relacione às situações do cotidiano que podem levá-lo a por tudo a perder. Ao antever possíveis recaídas, você se fortalece para enfrentar os percalços quando eles aparecerem.

Registre as escapadelas Toda vez que cometer algum excesso alimentar, anote os desvios de rota – quanto, quando e por que comeu além da conta. Saber que tem de registrar por escrito seus erros o fará pensar duas vezes antes de comer exageradamente.

Tenha certeza de que é para sempre Emagreceu e chegou ao peso desejado? Parabéns. Você agora pode até se permitir algumas (e pequenas) extravagâncias, mas saiba que o controle alimentar e a prática regular de atividade física são para o resto da vida. Se existe tendência para engordar, é crucial comer sempre menos do que seus amigos que não têm esse problema. Com o tempo, os novos hábitos de vida serão encarados com naturalidade

 

O EMPENHO NA-O

TEM PODER MÁGICO

Motivação, empenho e força de vontade são fundamentais para iniciar o tratamento de vícios como álcool, drogas e compulsão para jogos. No entanto, não têm poder mágico. “A disposição para se tratar é crucial”, diz a psiquiatra Ana Cecilia Marques, da Universidade Federal de São Paulo. “Mas, diferentemente de outros problemas, as doenças psiquiátricas alteram justamente a área do cérebro relacionada à força de vontade.” As drogas agem no córtex pré-frontal, área relacionada à tomada de decisões. É comum que o dependente decida abandonar o vício e busque tratamento. Contudo, viciados desistem com mais facilidade. O problema: o histórico do consumo de drogas faz com que a motivação inaugural se torne instável. Quem nunca conheceu um fumante que decidiu largar o vício e o encontrou depois dando algumas tragadas? Não, não é a falta de força de vontade com sua ruidosa presença.

Um exemplo claro desse comportamento é o do alcoólatra que decide parar de beber. Ele consegue ficar sem um copo à mão por poucos dias, mas logo depois sente os efeitos da abstinência. A pressão arterial aumenta, há taquicardia, ansiedade e suor. Os sinais aparecem depois de três dias da retirada total do álcool no organismo. Por isso, o acompanhamento médico é indicado durante todo o processo. Podem-se utilizar medicamentos para controlar a ansiedade e os sintomas. Outra estratégia comum é trabalhar a motivação ao longo do tratamento, sempre ressaltando os prós e contras de abandonar o vício. “Uma minoria dos pacientes consegue se tratar sem a ajuda médica”, diz Marques. No caso do alcoolismo, somente 10% das pessoas param de beber por conta própria.

 

o que fazer quando não há ânimo para …

PRATICAR Exercícios Fazer ginástica nem sempre é prazeroso. Algumas pessoas demoram a romper a barreira da satisfação e encaram a atividade física como uma tarefa penosa e repetitiva. A persistência é essencial nos três primeiros meses, dizem os especialistas. Depois que a atividade vira um hábito, é mais fácil perceber os benefícios na sua rotina diária.

ECONOMIZAR DINHEIRO

E comum que as pessoas superestimem o próprio autocontrole na hora de poupar. Quando o dinheiro entra na conta, dificilmente é destinado a uma poupança. A solução para quem não consegue guardar é adotar mecanismos que previnam qualquer tentação. Vários estudos já demonstraram que uma boa saída nesses casos é programar um depósito automático. É melhor não ver a cor do dinheiro e não contar IA com ele no orçamento mensal.

TRABALHAR MELHOR

Adiar o início de um projeto, não prestar atenção em uma reunião ou perder horas nas redes sociais quando há trabalho a ser feito são atitudes comuns aos funcionários desmotivados e que, obviamente, atrapalham a produtividade. Quem sabe disso e precisa vencer a preguiça deve estabelecer um objetivo – muito bem definido e concreto. Depois, o ideal é criar uma estratégia para alcançá-lo. Encare a tarefa como um desafio pessoal (e não profissional). Dessa forma, a força de vontade tende a ser maior.

ESTUDAR MAIS

Aprender línguas, um instrumento novo, estudar ou ler mais livros são desejos que precisam de dedicação e determinação. As pessoas dizem que querem, mas nunca se mexem para mudar ou desistem fácil no meio do caminho. Nesse caso, o conselho é: procure descobrir algo prazeroso na atividade a ser cumprida. O fantasma da falta de determinação desaparece, já que o prazer com a realização daquela atividade torna tudo muito natural.

PARAR DE FUMAR

O primeiro passo dizem todos os especialistas, é querer abandonar o vício. Para conseguir a força para mudar, é preciso racionalizar as consequências prejudiciais à saúde desse hábito e pensar no impacto das escolhas atuais no seu futuro. Ir , li I Dividir a decisão com a família e amigos próximos fará você pensar duas vezes antes de ter uma recaída.

 

NEM TUDO E BOBAGEM

Os vídeos virais, fenômeno vocacional da internet, quase sempre são superficiais e levados na brincadeira. Mas já rendem fortunas e inflam discussões on-line e off-line.

Se alguém lhe disser algo cifrado como “Oppa vive um estilo Gangnam”, e a isso associar uns passinhos de dança, a “dança do cavalo”. finja entender, faça cara de antenado. vá ao YouTube e descubra o mais recente mega sucesso da internet.Trata-se do refrão, em coreano, do clipe irritantemente adesivo de um rapper sul-coreano. Nele. um certo Psy, eis o nome do Michael Jackson de araque. faz críticas ao bairro Gangnam, reduto dos ricos de Seul. Oppa é como as mulheres coreanas chamam os amigos ou namorados mais velhos. Desde que foi lançado, em julho, o vídeo já atraiu mais de 280 milhões de pessoas a seus incontornáveis quatro minutos. Você ainda vai vê-lo. A letra? Pouco importa.A coreografia e o ritmo é que colam. O burburinho criado em volta de Gangnam Style ecoa um fenômeno que tem a idade da internet mas é ainda pouco compreendido: o viral, um bicho pegajoso.Viral é o status dado ao que é compartilhado milhões de vezes pela web. O lermo traduz o fenômeno de multiplicação de um vídeo pelos corredores virtuais. Popularizou-se a partir de 2005 com a criação do YouTube.

 

Os virais parecem bobagem para quem os vê de longe, mas têm moldado o comportamento on-line e off-line. Existem vídeos de tudo quanto é tipo. Há o do coreano dançando. O de um americano admirando um arco-Íris (soma 35 milhões de acessos), outro de um cão pulando em urna cama elástica (2,5milhões) e o clipe de Ai Se Eu Te Pego, do neo-sertanejos Michel Teló (o brasileiro mais visto, com 436 milhões). Não há um número preciso de visualizações que se deve atingir para ganhar a alcunha de viral. Passar do primeiro milhão concede crédito. Superar 100 milhões consolida o vídeo: na prática. ele ganha algumas linhas de explicação na história da internet. O que chegou mais depressa à marca é o Kony 2012,manifesto contra um líder miliciano em Uganda (veja o quadro ao lado). O mais visto até hoje é o da música Baby, do cantor Justin Bieber, com 800 milhões de visualizações. Descartados os virais de produção profissional, o campeão é Charlie Bit M)’ Finger- Again, que mostra um bebê mordendo o dedo do irmão. com 483 milhões.Um olhar cuidadoso aos virais que conseguem mais acessos permite identificar características comuns. “A fórmula ainda está em construção e reproduzi- la é o novo grande desafio para publicitários e produtores de filmes e músicas”. disse a VEJA o americano Kevin AlIocca, responsável pela equipe do YouTube que analisa como surgem os campeões de audiência. como ganham popularidade e o que os faz explodir(veja a entrevista lia pâg. 106). O terna dos vídeos costuma girar em torno de assuntos de fácil compreensão e apego emocional: bebês e animais em cenas simpáticas. danças engraçadas. músicas. Filmes mudos ou para os quais não é preciso ler proficiência na língua falada para entender o que é dito alcançam o sucesso mais rápido. Resumiu a VEJA o programador inglês Howard Davies- Carr, que filmou seus filhos no vídeo Charlie BiT My Finger – Again: “O apelo universal da fofura das risadinhas dos meus filho é o que fez o filme se multiplicar. O sotaque inglês deles deixa a cena ainda mais agradável, mesmo para quem não fala o idioma”. Os virais se espalham primeiro pelo famoso boca a boca, ou melhor. de e-mail para e-mail. Sites de humor e redes sociais promovem discussões e piadas sobre os vídeos.

 

É normal surgirem paródias e ver ões de terceiros. Brincadeiras que tiram sarro de Gangnam Style figuram entre as mais vistas da web. Naturalmente. por óbvio. o brasileiro Latino tirou sua casquinha e tratou de lançar uma versão brega da canção sul-coreana. Os vídeos estouram quando celebridades da web. por gostar deles (ou odiá-los), começam a replicados para seus fãs. O sucesso então sai-do mundo virtual e parte para o real. – Os virais criam discussões fervorosas. alçam anônimos ao estrelato e lançam moda e hábitos, tanto no universo on-line quanto no off-line. O cantor adolescente Justín Bieber apareceu em vídeos que publicava no YouTube. Agora. tem 28 milhões de fãs no Twitter, faz shows ao redor do mundo, participou de séries de TV e ganhou um filme sobre sua carreira. Seu estilo de se vestir, seu cone de cabelo e seu palavreado são replicados por adolescentes. A música é uma das indústrias mais transformadas. Nove do dez virais mais vistos são clipes. Agora mesmo, neste fim de semana, o YouFest reúne em Madri, na Espanha. artistas que surgiram na internet. Talvez seja o único evento divertido do momento numa Espanha ferida pela crise do desemprego. O impacto do viral também pode ser político. Apesar de conter diversos erros de informação. o vídeo Kony 2012 inflou discussões sobre a situação de crianças raptadas por milicianos na África. Discursos do’ presidente Barack Obama chegam a ser vistos por mais de 5 milhões de pessoas – e produções que criticam eu governo atingem patamar similar. Um filme que faz piadas de mau gosto com o islamismo serviu de ridículo pretexto para revoltas que culminaram em um ataque ao Consulado dos Estados Unidos em Bengasi, na Líbia, e no assassinato de um embaixador americano. Não raro, os virais rendem fortunas. O pai de Charl ie, do Chariie Bit My Finger, lucrou 500000 dólares com anúncios vinculados ao vídeo. O hit do momento, o Gangnam Sryle é um caso cujo impacto abrange todos esses aspectos. Sua letra que critica a elite sul-coreana despenou discussões até sobre gastos excessivos em cartões de crédito na Ásia. O rapper Psy ganhou fama internacional e novos contratos. Disse a VEJA Robert Kyncl, vice-presidente do YouTube: “Os virais mudaram diversos aspectos do cotidiano e a forma como nos comunicamos. Antes, canais de TV peneiravam quem se comunicava com grandes audiências e determinavam as celebridades. Essa barreira acabou”. _ COM REPORTAGEM DE RENATA LUCCHESI

 

 

 

O MAESTRO DOS VIRAIS

O trabalho do americano Kevin Allocca é entender o que são, como se multiplicam e O que representam os virais no ecossistema da internet. No YouTube. Ele dirige a equipe responsável por analisar os tópicos mais populares. Também faz palestras sobre o tema. Em visita ao Brasil, Allocca falou a VEJA.

Como os virais afetam o mundo? Plataformas como o YouTube permitem que, pela primeira vez na história, um americano possa discutir com um japonês, em tempo real, sobre um vídeo que vê naquele momento. Tópicos a mes restritos a uma cultura foram globalizados. Anônimos podem se tomar mundialmente famosos. Antes, o poder de vincular um vídeo era controlado pelos canais de TV. Hoje, qualquer um pode criar seu vídeo e mostrá-lo a quem quiser. O público peneira o que se toma popular.

Muitos tentam descobrir a fórmula que garante milhões de visualizações. Ela existe? É a pergunta do bilhão de dólares . A publicidade por meio de virais é efetiva porque só é vista por quem escolhe vê-la. Se milhões clicam, o sucesso do produto é garantido. Ainda se sabe pouco de como conseguir isso. O caminho é atentar para três aspectos de um viral: boa divulgação em redes sociais instigar a interação e o que é mais difícil de reproduzir um elemento que surpreenda.

Por que vídeos bobos são tão populares? Rir da fofura de um bebê é compreensível para qualquer um. Para entender um filme complexo normalmente é preciso saber a língua falada nele. Um chinês dificilmente compreenderá um manifesto político brasileiro.

O que faz com que o YouTube seja constantemente processado por quem se sente incomodado por conteúdo exibido nele, algo que ocorre com frequência no Brasil? O conceito de vídeos on-line é difícil de ser compreendido. Diferentemente de um canal de TV, o que vinculamos não representa nossa opinião. Servimos de plataforma para que qualquer um diga o que pensa. Retiramos mensagens criminosas. Mas não podemos tirar um vídeo só porque a opinião nele contida desagradou a alguém.

 

QUERIDINHOS DA INTERNET

Alguns dos vídeos mais vistos da internet mostram a fofura dos gatos e suas travessuras.

A internet confirma que os gatos – e não os cães – são os mais populares animais de estimação. Entre os dez vídeos mais vistos no YouTube no ano passado. Dois têm esses fofos bichanos como personagens. Há um mês, a cidade americana de Minneapolis sediou um evento que atesta o caráter viral dos felinos na web. Uma badalada galeria de arte local. A Walker Art Center, por meio de seu site, promoveu um concurso que convocava as pessoas a enviar seus vídeos favoritos de gatos para eleger os melhores. Recebeu nada menos que 10000 vídeos. De duas dezenas de países, que mostravam fofuras e travessuras de felinos. Diante desse sucesso. a galeria realizou uma exibição pública das produções campeãs numa praça da cidade. O evento reuniu cerca de 10000 espectadores . Por que os gatos fazem tanto sucesso na internet? O americano Williarn Braden. de 32 anos, autor do vídeo que foi eleito o grande vencedor do concurso de Minneapolis, arrisca uma explicação: “Os donos de cães levam seus animais para passear e acabam se socializando nas ruas. Já os gatos não passeiam. Na comunidade on-line. seus donos podem trocar experiências com outros donos de gatos”. A peça de Braden. Chamada Henri Il, que teve 5,7 milhões de visualizações no YouTube. mostra as “reflexões” um tanto existencialistas de seu bichano enquanto passeia pela casa. “As quinze horas que durmo por dia de nada adiantam porque acordo e mergulho no mesmo tédio de sempre”, ele filosofa. A seguir olha para os passarinhos na gaiola e arremata: “E meus donos ainda deixam os petiscos fora de meu alcance”. Impagável. – RENATA LUCCHESI

 

A DESAFIANTE DA GRAVIDADE

Olhando assim não parece, mas

Talita Werneck é aristotélica. Basta relembrar seus personagens cômicos: Roxanne, a subcelebridade burra; a auto-explicativa Taty Piriguete. que vive num satirizado programa de Luciana Gimenez: a feia e fronteiriça Fernandona. habitante doporão da casa da família que a rejeita. Tudo Aristóteles puro, segundo as definições feitas há mais de 2 300 anos pelo filósofo grego obre os personagens típicos da comédia, incluindo geme de padrões morais duvidosos, pretensiososridículos ou perdedores natos. Talita começou cedo a burilar essa galeria – e a se transformar na hilária Tara, hoje apresentadora de dois programas humorísticos da MTV, Trolalá e Comédia. Tinha 14 anos quando foi convidada a e retirar de uma escola pela primeira vez. A diretora do tradicional colégio carioca explicou à mãe preocupada que a menina “não diferenciava bem a realidade da fantasia”. Só porque ia para a aula vestida de noiva. Em pijamas e com um bigode postiço. Talita também foi expulsa do inglês. Da academia de ginástica e, quase, da segunda escola – seu nome constava da lista dos dez alunos mais encrenqueiros da instituição. “Nove meninos e eu. Um dia feliz para mim era quando eu parava a aula e fazia todo mundo rir”, relembra. O curso de teatro feito para canalizar tanta energia aprimorou a assombrosa capacidade de improvisação da humorista. Conversar com ela exige um exercício contínuo de concentração. porque Tatá rema e consegue fazer o interlocutor rir o tempo inteiro. “Para ver você gargalhar. Eu perco a dignidade e a vaidade, eu minto. Como sei que sou feia, falo da minha banha e do meu nariz e danço a hula”, dispara Tara, envesgando os olhos e retorcendo a boca.

O teor quase infame de suas tiradas é a substância de um de seus programas, o Trolalâ, em que ela passa trotes pelo telefone. Em um dos últimos episóctios. Tatá enganou a própria avó. “Minha família estava louca porque descobriu que ela tinha gasto 5000 reais no PoLishop. Pedi a um colega para ligar e se passar por um vendedor, dizendo que havia um problema na entrega. O engraçado é que ela jurava que não tinha compra do nada!” A avó foi a pessoa a quem ela deu o primeiro presente pago com o salário da TV: uma prótese dentária. Formada em publicidade e em artes cênicas, Tatá demorou para se estabilizar financeiramente. Durante anos, vendeu maquiagem de porta em porta e fez anúncios vestida de siri e de absorve me. Sua mãe, a jornalista Claudia Werneck, é uma das fundadoras da Escola de Gente, instituição que promove a inclusão de portadores de deficiência. Tatá inspirou-se nela para criar. Em 2003. o grupo de teatro Os Inclusos e os Sisos. Todas as apresentações da trupe tinham legenda, linguagem de sinais e programa em braile. Em 2007,em uma das peças, Tatá interpretou uma personagem com síndrome de Down. Alguns críticos acreditaram que ela era mesmo da turma do cromossomo extra. No ano passado. ela e outros humoristas da MTV criaram um quadro chamado Casa dos Autistas, que redundou em um processo por danos morais. “O que a gente queria era fazer uma sátira ao modo como a sociedade trata pessoas com deficiência. Sei de pais que abandonam filhos doentes”, defende-se a humorista. Tara mente a altura – aumenta de 1.52 metro para 1,56 -, ressalta o leve buço e se joga no humor escatológico.

Enfrenta com obsessão voraz a desvantagem natural das mulheres no mundo da comédia. “Ela sabe que quem quer fazer rir tem de ser auto depreciativo em algum nível. Muita mulher quer ser engraçada e sedutora ao mesmo tempo. Não dá”. analisa o humorista Hélio de La Pena. “E tem outro problema: a gemerem medo de mulher piadista.Ela vira o centro das atenções e os homens olham todos para ela.” Tatã acaba de reatar o mesmo e acidentado namoro pela quinta vez. Entre os artistas do improviso é vista como uma parceira generosa. “Ela é ótima para finalizar piadas e também faz muita escada para os outros”. diz Paulo Serra, seu colega na MTV e num programa habitual: sair para jantar e. depois de pagar a coma fazer um filé na freme do garçom e sair correndo do restaurante. ”Nada me dá mais alegria do que fazer alguém rir”, diz Tara. “Ser engraçada é um jeito de ser querida.” Como Aristóteles e Tiririca. ela sabe muito bem como rir e chorar são próximos.

 

ATE QUE APORTABILIDADE

COMPROMISSO ETEIU,O NÃO Existe MAIS: ESCOLHER UM BANCO PARA ASSUYIIR UM CRÉDITO PESSOAL, FINANCIAR UM CARRO OU MESMO UM IMÓVEL NÃO É MAIS UM CAMINHO SEM VOLTA. PARA TUDO ISSO, HOJE.VIGORA A REGRA DA PORTABILIDADE, QUE, EM PORTUGUÊS CLARO, QUER Dizer: O DIREITO DE MUDAR DE IDEIA CASO SURJA UM NEGÓCIO MAIS VANTAJOSO NO FUTURO.

“Essa facilidade de trocar de fornecedor, de migrar para outro banco, de escolher um novo plano. É um mecanismo que dá poder ao consumidor”, diz Paulo Arthur Gó, e diretor executivo da Fundação Procon-SP. “O médio prazo,a liberdade de escolha tende a melhorar a qualidade dos serviços e a baixar os custos”. Segundo ele, no entanto. o brasileiro ainda usa pouco esse direito. Talvez porque as regras não sejam tão simples e claras. A seguir. informações e dicas sobre os vários tipos de portabilidade.

DE CREDITO

É a transferência de um financiamento, seja ele imobiliário, de automóvel ou crédito pessoal, de um banco para outro Como funciona: o cliente procura uma instituição que ofereça taxas de juros e condições de pagamento mais atraentes e entra com o pedido de portabilidade junto ao banco de destino. Depois de aprovado esse pedido, o banco de destino se encarrega da transferência e paga o saldo devedor ao banco de origem. Não há cobrança de IOF sobre essa operação nem de taxa bancária extraordinária. Os bancos podem recusar propostas de consumidores que não cumpram requisitos de renda mínima ou tenham algum problema em seu histórico Atenção: mais importante que a taxa de juros é o custo efetivo total (CET), que pode incluir outras taxas. No site do Procon-SP (www.procon.sp.gov.br/webcetjindex.html). há uma ferramenta que calcula esse custo a partir de dados como o valor da dívida, o valor e o número das prestações. Na portabilidade de crédito imobiliário, é preciso cuidado, porque os custos de cartório (averbação de quitação do imóvel e o registro do novo financiamento) e o imposto sobre transmissão de bens imóveis (ITBI), taxa da prefeitura, podem reduzir a economia conquistada com os juros mais baixos. Esses valores não estão incluídos no CET.

DE PREVIDENCIA

É a transferência, total ou parcial, dos recursos aplicados em um plano de previdência privada para outra instituição financeira Como funciona: o investidor pode transferir, sem taxas adicionais, recursos entre dois planos do mesmo tipo, entrando com a solicitação junto à instituição de origem. A troca pode ser feita entre dois planos PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) ou dois VGBL(Vida Gerador de Benefício Livre). Ao contrário dos resgates, a portabilidade não é taxada com IOF.Quem escolheu a tabela de imposto de renda regressiva (em Que o imposto baixo com o passar dos anos) Quando fez o plano no primeiro banco não pode mudar para a progressiva (em Que o imposto sobe de acordo com a renda) na hora de fazer a portabilidade. Mas é possível fazer o caminho inverso, ou seja, mudar de progressiva para regressiva Atenção: além da rentabilidade, o investidor tem de analisar os benefícios futuros, a qualidade dos serviços e, principalmente, a saúde financeira da instituição para a qual deseja migrar. “Como é um investimento a longo prazo, esse dado é vital”, diz Paulo Arthur Góes, do Procon-SP.

 

DE PLANO DE SAUDE

É o direito do consumidor de mudar para um plano de saúde na mesma ou em outra operadora sem ter de cumprir novas carências Como funciona: a portabilidade deve ser solicitada junto à operadora de destino, e só é possível passar para um plano semelhante ou inferior ao que o consumidor possui. Para saber Quais planos de saúde de outras operadoras são equivalentes ao seu, você deve consultar o site da ANS, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (www.ans.gov.br). Atenção: é preciso estar há pelo menos dois anos pagando por um plano e não estar inadimplente para ter direito a pedir a portabilidade.

 

DE CADASTRO

É o fornecimento das informações cadastrais e do histórico bancário para um segundo banco mediante pedido do o cliente Como funciona: o consumidor solicita a portabilidade de seu cadastro no banco no Qual mantém conta para outro banco de seu interesse. A instituição de origem tem de passar todas as informações em até quinze dias Atenção: isso interessa apenas a bons pagadores. A partir dessa medida, eles podem carregar seu histórico consigo e pleitear, por exemplo, juros mais baixos em financiamentos.

 

NUMERICA

A mais conhecida e usada pelo consumidor brasileiro, trata-se do direito de manter o número telefônico ao mudar de operadora plano ou endereço Como funciona: no caso dos telefones celulares, o consumidor pode trocar de operadora, de planos pós-pagos para planos pré-pagos ou vice-versa, e de endereço dentro de uma área com o mesmo 000. Na telefonia fixa, pode trocar de endereço dentro de um mesmo município ou de operadora Atenção: a operadora de origem pode exigir a fidelização do cliente Que optar por certas vantagens, como aparelhos gratuitos ou com desconto, planos com desconto etc. Mas a fidelização não pode durar mais Que doze meses, e o valor da multa cobrada por sua quebra tem de ser correspondente ao desconto recebido e proporcional aos meses que faltam para o cumprimento do contrato.

 

DE CONTA SALARIO

Desde 2006, o trabalhador pode receber seu salário no banco de sua preferência, e não mais obrigatoriamente na instituição selecionada pela empresa pagadora Como funciona: o empregado pede a transferência de conta no banco em Que o empregador costuma depositar os salários. Em no máximo cinco dias úteis, esse banco tem de efetuar a portabilidade à instituição financeira apontada pelo cliente. A partir daí, a conta-salário original é fechada e o cliente passa a receber na conta escolhido Atenção: o banco de destino não pode cobrar nenhuma tarifa para a abertura da nova conta e é obrigado a seguir as normas que regulamentam as contas-salário. A instituição deve fornecer gratuitamente um cartão com função débito. Por mês, o cliente pode realizar até cinco saques e duas transferências entre contas da própria instituição, tirar até dois extratos com a movimentação dos últimos trinta dias e receber até dez folhas de cheque sem pagar tarifas adicionais.

 

 

 

 

PARTINDO PARA AS CABECAS

Selton Mello debatia se com uma inquietação profissional quando começou a fazer sessões de psicoterapia, há meia década. Ator desde criança ele chegava aos 30 e poucos anos já consagrado no cinema e na TV. Não se fala ai só da fama, mas de artigo mais raro: o prestigio. Nunca se pos em questão seu talento. Mas a própria jura que tinha duvida. “Eu não sabia se era feliz como ator, nem se desempenhava bem meu trabalho”, diz. Enquanto vivia suas tribulancias existenciais, ele se aventurou em outra seara, a direção. Depois de fazer um curta-metragem e comandar um programa de TV paga, Melo estreou na função de cineasta com um filme irregular. Feliz Natal. De 2008. Na segunda tentativa, enfim chegou la. Em O Palhaço, visto por 1,5 milhões de pessoas no ano passado, ele surgiu na tripla condição de ator principal, diretor e autor de uma trama que alude suas próprias inseguranças profissionais. No filme, que acaba de ser escolhido para representar o Brasil na Busca por uma indicação ao Oscar, ele e Benjamin, palhaço em crise de identidade. Em sua mais nova empreitada o circulo se fecha: ele dirige uma serie sobre a psicoterapia. Sessões e Terapia, que estréia nesta segunda-feira no canal GNT, confirmam sua evolução atrás das câmeras.

Sessão de Terapia adapta para o Brasil um programa israelense que se converteu em item de sucesso na pauta de exportações daquele país.

Sua versão mais conhecida é protagonizada pelo irlandês Gabriel Byrne na HBO americana (aliás, outro produto nascido na TV de Israel deu origem a uma das melhores séries dos Estados Unidos na atualidade, o thriller Homeland). Em Sessão de Terapia, quase tudo se passa num cenário imutável e modesto, o consultório de um psicólogo. No caso brasileiro, ele se chama Theo e é vivido por Zé Carlos Machado. A ação se concentra nos diálogos de realismo notável entre o terapeuta e seus pacientes. A cada episódio. eles se alternam no consultório. Médica com dificultem estabelecer relacionamentos, Júlia (Maria Fernanda Cândido)desenvolve uma transferência erótica em relação ao terapeuta. Hátambém Nina (Bianca Müller). Adolescente com tendências suicidas, e Breno (Sérgio Guizé). Atirador de elite da polícia traumatizado por ter matado uma criança. Theo faz as vezes, ainda. de terapeuta de casal: tema mediar a conversa difícil entre Ana e João (Mariana Lima e André Frateschí), que divergem sobre a conveniência de ter um filho. No quinto dia da semana, a coisa se inverte: Theo é que vira paciente de Dora (Selma Egrei). Sessão de Terapia extrai ouro desse formato austero. Theo tem um tanto de ami-herói: por trás da máscara profissional impenetrável, há um homem a um passo do colapso. Com problemas no casamento, ele se vê na tentação de deitar e rolar em cima (ou por baixo) da paciente com transferência erótica. Cada vez mais impaciente, Theo também incorre em outros tropeços éticos. A psicoterapia é usada em prol do suspense: a cada camada de auto-engano removida dos pacientes, mais suas histórias ficam intrigantes. A sutileza é o elemento que azeita toda a engrenagem dramática. “A alma da série está nas entrelinhas. Os silêncios dizem muito”. Diz Mello.

Ai é que a estrela dele faz a diferença. No roteiro da versão brasileira, há apenas alterações pontuais em relação ao originai – os pacientes se arrasam por causa do trânsito caótico de São Paulo, e o atirador da polícia ocupa o lugar de um militar israelense. Mas, como ficou patente na vexaminoso adaptação nacional do novelão americano Despera- Te Housewives, levada ao ar em 2007 pela RedeTV!, não basta ser fiel para repetir o efeito de um sucesso estrangeiro. Se as interpretações são frouxas, a receita desanda. Ao menos nos cinco primeiros episódios, Sessão de Terapia dribla tal risco com louvor. Num trabalho em que qualquer palavra ou suspiro requerem uma precisão de tom absoluta, não se pode menosprezar o peso da direção de atores. Detalhe: os 45 episódios foram gravados de uma enfiada só, ao ritmo de um por dia. “O fato de eu ser ator contribuiu muito. Os colegas sentem quando o diretor tem essa sensibilidade”, diz Mello. Esse jeitinho de, vá lá, diretor-psicólogo já revelara seu valor em O Palhaço. Rostos havia muito caídos no ostracismo, como o humorista Moacyr Franco e o ex-ídolo infantil Ferrugem, tiveram a chance de brilhar em papéis pequenos, mas marcantes. Isso se repete na escolha de Zécarlos Machado para o papel de equivalente nativo de Gabriel Byme: nome desconhecido na TV, o veterano do teatro confere a expressão anódina perfeita ao terapeuta. Assim como o psicólogo de Sessão de Terapia, por sinal, Selton Mello é uma espécie de esfinge. O ator-diretor tem 39 anos e vive num apartamento no bairro carioca do Humaitá. Ele não gosta muito de exposição. “Eu sou mineiro. Isso já esclarece minha posição sobre o assunto”, diz. Com seu jeito de ursão com coração de ursinho, Mello arranca suspiros da mulherada. Mas até nesse pormenor ele prefere sair pela tangente. “No momento, acho que não estou namorando”, despista. Os exemplos em que diz se mirar – os atores-diretores Woody Allen e Clint Eastwood – dão pistas de suas ambições. Mas ele é vago sobre os próximos projetos. “No momento, estou indo. Só não sei para onde ainda”, diz. Está aí um belo material para muitas sessões de terapia.

 

 

Um oásis de Monstruosidade

Um resort sobrenatural é o cenário de Hotel Transilvânia O conde Drácula converteu-se em proprietário de um resort de luxo na Transilvânia, As instalações contam com todas as comodidades modernas: piscinas saunas, áreas de lazer e uma rica – porém intransponível – vegetação. Entre os hóspedes estão a Múmia, o Lobisomem e a criatura de Frankenstein. Trata-se de um oásis de tranqüilidade e monstruosidade, servido pela melhor cozinha francesa do chefe Quasímodo e de sua assistente, Esmeralda. A calma do lugar porém, será quebrada, às vésperas do aniversário de 118 anos de Mavis, a filha de Drácula, pela chegada de um personagem ameaçador – um rapaz humano. Humanos, como se sabe costumam se armar de estacas e tochas para perseguir monstros. Mavis, no entanto, vai nutrir sentimentos carinhosos pelo visitante indesejado. Desenho animado do estúdio Sony. Hotel Transilvânia (Estados Unidos, 2012), em cartaz a partir desta sexta-feira, combina a ideia de uma festa reunindo monstros clássicos – premissa de Mad Monster Party, animação de 1967 – com a inversão de expectativas que fazia a graça de Monstros S.A.:neste mundo, são os seres sobrenaturais que têm medo das pessoas.

Foram necessários seis anos e seis diretores para que o filme saísse do papel. No final, coube a Genndy Tarta1covslcy (de Samurai Jack e do delicioso O Laboraiõrio de Dexter) a responsabilidade de levar a trama para as telas. A relação amorosa entreMavis (no original, dublada por Selena Gomez, embora o papel de início estivesse reservado a Miley Cyrus) e o humano Jonathan (Andy Samberg) é, como se tomou praxe nas animações recentes um pretexto para exaltar a tolerância e criticar o preconceito. No genuíno espírito Shrek, porém, Hotel Transilvânia alcança o seu melhor nos lances paródicos. Drácula é um pai super protetor e não bebe mais sangue humano porque este tem muito colesterol. Frankenstein é um tremendo pão-duro, e o Lobisomem tem de cuidar de uma alcatéia de inquietos bebês-lobinhos. Aos adultos, recomendam- se as versões legendadas. É uma maravilha ouvir o vozeirão tonitruante do cantor CeeLo Green, que faz a Múmia, e o impagável sotaque romeno de Adam Sandler, como Drácula.

 

Cortina de fumaça

Qual é o verdadeiro Oliver Stone, o tolo que adora Hugo Chávez ou o que faz filmes vigorosos como Selvagens?

Quando não está se comportando como o perfeito idiota americano e fazendo oba-oba para Hugo Chávez e a ditadura cubana, como no cabotino Ao Sul da Fronteira. Oliver Stone é ainda capaz de um trabalho vigoroso como Selvagens (Savages, Estados Unidos, 2011), que estrela nesta sexta-feira no país. Adaptado pelo próprio amor, Don Winslow, de seu seco romance homônimo (lançado aqui pela Intrínseca), o filme é, ao contrário do livro, febril no sexo, na violência e na luxúria com que narra a história de Chon (Taylor Kitsch), Ben (Aaron Johnson) e O., ou Ophelia (Blake Lively), que vivem um triângulo amoroso consensual e uma rotina de sol e praia numa casa na Califórnia, graças ao seu negócio próspero. O botânico Ben é um gênio da maconha: as linhagens que desenvolve chegam a ter mais de 30’* de THC o princípio ativo da Cannabis, contra os 10% da droga comum que está circulando no mercado, Chon. Ex-fuzileiro naval, cuidadas operações e de impor a ordem a compradores e distribuidores. Trata-se de uma pane pequena do trabalho, uma vez que o trio acredita que é possível ser ilícito e ser da paz. Pena que faltou combinar esse detalhe com os canéis mexicanos: quando sua proposta de aquisição de tecnologia é recusada, a narcorrainha Elena (Salma Hayek) decide fazer outro tipo de transferência – a da adorada O. para um cativeiro em Tirana sob a guarda de estupradores torturadores e decapitadores como Lado (Benicio Del Toro). E assim todos os melhores planos de Chon e Ben começam a descarrilar, e feio. apesar da ajuda de um agente federal corrupto encarnado com gosto e alegria por John Travolta. Salma, Travolta e Del Toro, todos em registro histriônico e atentos aos tons cômicos do roteiro. estão entre os prazeres proporcionados por Selvagens. Ainda que prazeres gratuitos e inconseqüentes, já que isto aqui é Oliver Stone no máximo de seu considerável sensacionalismo. Não se trata só da maneira como ele busca potencialízar a violência com a montagem fragmentada e os diversos tipos de fotografia (truques inovadores- quando ele os usou em Assassinos por Natureza; há quase vinte anos, e hoje já assimilados pelo público). ou da exploração decididamente voyeurística que faz do par central. Tem a ver. acima de tudo, com o fato de que é hábito de Stone fingir que esse seu estilo exaltado serve a um proposíro maior. uma “mensagem” – por exemplo, teorias sobre o assassinato de JFK, ou denúncias sobre a loucura pela celebridade. Selvagens não tem “mensagem” política, ideológica, histórica. social nem de nenhuma outra ordem. Com muito boa vontade, tem um comentariozinho sobre relativismo cultural – mexicanos e americanos desprezam uns aos outros reciprocamente, como “selvagem”. O frisson aqui, serve só a si próprio, e nada tem a dizer. E não é que, em se tratando de Stone, fica bem melhor assim? _ ISABELA BOSCOV

 

A solidão da liberdade

As memórias de Salman Rushdie, que já foi jurado de morte pelos radicais islâmicos, expõem a preocupante fraqueza com que o Ocidente defende seus valores.NELSON ASCHER

“Era uma alegria- estar vivo naquela alvorada”, disse o poeta romântico inglês William Wordsworth, referindo-se à Revolução Francesa, de 1789. Testemunhar. 200 anos depois, os eventos de J 989 pode ter sido igualmente impressionante. O esclerosado bloco soviético, simbolizado pelo Muro de Berlim, desmoronou de uma hora para a outra. abrindo os portões de uma prisão de povos que. durante meio século, parecera indestrutível. Em contrapartida, as manifestações estudantis que reivindicavam liberdades semelhantes na China comunista terminaram com o massacre da Praça da paz Celestial. Foi, no entanto. um evento aparentemente menor, protagonizado de início por apenas dois indivíduos. um romancista e um líder político-religioso, que se revelou o mais prenhe de graves desdobramentos futuros. Salman Rushdie, escritor anglo-indiano então com 41 anos, nascido em Mumbai numa farroupa muçulmana secularizada e radicado na Inglaterra, rinha acabado de lançar seu quarto romance.Tratava-se de um emaranhado realista-fantástico (ou “mágico”) de narrativas cujo título, Os Versos Satânicos, remetia à lenda de que alguns poucos versos do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, haviam sido ditados a Maomé não pelo arcanjo Gabriel, mas sim pelo próprio demônio. O livro provocou manifestações e passeatas na Índia e no Paquistão, as quais, aos poucos, encontraram eco entre as comunidades islâmicas da Inglaterra. Mas a coisa pegou mesmo fogo não só com a queima pública do livro e da efígie do autor (além, é claro, das esperadas bandeiras britânica, americana, israelense etc.), mas com a intervenção do aiatolá Khomeini. Líder da República Islâmica do Irã. Nem Khomeini nem o Irã tinham jurisdição seja sobre o livro, seja sobre o escritor. No entanto, o aiatolá, arvorando- se em promotor, juiz e potencial carrasco, acusou Rushdie de blasfêmia e, numa falta, condenou-o à morre, sentença que era obrigação de todo e qualquer muçulmano tentar executar e que se prometia recompensar com o paraíso (e muito dinheiro). Pouco depois o idoso clérigo morreria. e este seria um de seus mais terríveis legados: o “direito” que autoridades  muçulmanas, religiosas ou não, se arrogam desde então, colocando-se acima das leis e costumes dos demais países bem como das normas internacionais, de impor a própria vontade fora de suas fronteiras, no mundo inteiro. Foi em 14 de fevereiro de 1989 que Rushdie soube. por uma jornalista da BBC, que havia sido condenado à morte. Passou os nove anos seguintes se escondendo com um nome falso (Joseph Anton, homenagem aos escritores Joseph Conrad e Anton Tchekhov) e sob a proteção do serviço secreto britânico. Iosepb Anton – Memórias (tradução de José Rubens Siqueira e Donaldson M. Garschagen; Companhia das Letras: 616 páginas; 54,50 reais) é sobretudo o relato desses anos. Se bem que o autor fala de sua infância e família. de seus estudos, amores e primeiros livros, tudo isso não passa de prelúdio assim como o que vem depois é apenas um rápido epílogo. Escrito por quem esteve no olho do ciclone, Joseph Anton é também um documento essencial de nosso tempo. Narrado em terceira pessoa, detém-se nos detalhes da vida privada e cotidiana do período: o convívio com o filho, a relação com os amigos (quase sempre escritores, editores, agentes literários) que o ajudaram e com os agentes que o protegeram, a dissolução de seu segundo casamento. o namoro do qual nasceu seu terceiro matrimônio. Tudo o que Rushdie coma se revela necessário à compreensão em profundidade do quadro maior, político e também cultural (além de religioso).

Este quadro é, antes de mais nada, o duelo de um indivíduo com as forças do fanatismo religioso. Um duelo que a rigor, ele não buscou, mas do qual tampouco teve como escapar. Fazendo do autor um caso exemplar, o objetivo daquelas forças era (e segue sendo), por um lado, confiscar as liberdades dele – e portanto as nossas – uma a uma, começando pela (fundamental) de expressão. Era também, por outro, criar um clima de perpétuo medo. Superando, pelo menos neste episódio, rivalidades como as que contrapõem sunita se xiitas, os fanáticos muçulmanos de todos os tipos (mas sempre quase exclusivamente do sexo masculino) promoveram manifestações públicas cada vez mais agressivas. Violentas e ameaçadoras, não somente no Irã e em outras nações islâmicas, mas nas principais cidades de nações ocidentais. Muitos desses países, tendo abolido a pena de morte até para os mais hediondos crimes de sangue, assistiram ao espetáculo de massas histéricas que a exigiam para ofensas meramente simbólicas e para “delitos de opinião”. E a reação dos nativos nem sempre foi louvável: em vez de cerrarem fileiras em defesa de valores e liberdades arduamente conquistadas no correr de séculos, não faltaram intelectuais. escritores, jornalistas de esquerda e de direita que. ao sabor das mais variadas agendas, mesmo quando não endossavam toda a violência, exibiam um excesso de compreensão para com as suscetibilidades, para com os sentimentos supostamente feridos e a honra supostamente maculada dos seguidores de uma determinada religião. Uma nova e importante aliança entre o radicalismo islâmico e a esquerda revolucionária começou a se delinear então. Embora tenha sempre entendido as religiões – as ocidentais, pelo menos – como alienação ideológica a ser combatida, a esquerda radical começou a tomar o partido do islamismo militante por considerá-lo uma manifestação “autêntica” da revolta das massas do Terceiro Mundo contra o grande inimigo comum. os Estados Unidos. Assim. a colaboração anti-racista que se estabelecera na Europa entre imigrantes secularizados e esquerdistas moderados acabou sacrificada. A mobilização contra Os Versos Satânicos permitiu que clérigos radicais e pregadores obscurantistas impusessem sua vontade e assumissem a liderança em comunidades muçulmanas que, de outro modo. Poderiam ter se integrado e adotado a modernidade democrática das sociedades nas quais viviam. Como resultado, hoje os muçulmanos europeus são mais religiosamente autoritários, intolerantes e autos segregados do que eram vinte anos atrás. Mudando continuamente de residência, andando de carro blindado, voando em aviões militares.

Acompanhado de guarda-costas. encontrando o filho, parentes e amigos em segredo, Rushdie. que não cometera crime algum, viveu quase uma década como um detento não só encarcerado mas de fato num corredor da morte. À espera do caçador de recompensas do terrorista ou do agente iraniano que o mataria. O perigo era real: tradutores e editores seus foram em roda parte atacados e até mortos: editoras foram ameaçadas, livrarias sofreram atentada a bomba. Os sucessores de Khomeini no governo iraniano renovavam ano a ano a sua falta. Por tudo que se sabe, dedicaram-se a tentar implementá-la até que, sob pressão internacional e sabe- se lá por que razões mais. Finalmente a suspenderam em 1998, o que permitiu ao autor retomar uma vida normal (se bem que não de todo livre da ameaça do eventual lobo solitário). Rushdie sobreviveu. mas não se pode dizer o mesmo da liberdade de expressão e de pensamento nas democracias ocidentais. Se, duas décadas atrás. O grosso da intelectualidade ainda tomou o partido do escritor perseguido e da causa que ele simbolizava. tal combatividade esmoreceu com o tempo, ou foi engoli da pela aliança entre a esquerda e o fundamentalismo. Em 2006, durante a crise detonada pelas charges dinamarquesas que caricaturavam Maomé e o Islã. a quantidade de literatos. Acadêmicos e outros beneficiários da democracia e da modernidade que tomaram o partido dos censores e dos candidatos a carrasco cresceram assustadoramente. E agora, quando uma nova crise é atiçada por um vídeo tosco veiculado pelo YouTube parece ser ainda menor o número dos que se dispõem a encarar os bárbaros para lhes dizer que é proibido proibir. O episódio Rushdie escancarou diferenças fundamentais entre. por um lado. o mundo democrático e liberal moderno e, por outro, o assim chamado mundo islâmico. Provavelmente. a mais fundamental dessas diferenças é a seguinte: os teocratas. os fundamentalistas e os jíhadistas estão muito mais dispostos a lutar por aquilo em que acreditam do que a intelectualidade ocidental. O próprio Rusbdie. no entanto. Desautoriza o rótulo com que fundamentalistas e simpatizantes buscam estigmatizar seus críticos: o autor de Os Versos Satânicos não pode de forma alguma ser tachado de “islamofóbíco”. Entre as realizações mais importantes de sua ficção, destaca-se uma fusão ou síntese dos ocidentes com. pelo menos, certos orientes. Rushdie costuma citar,como seus modelos narrativos, O Oceano dos Rios de Histárias, do indiano Soma deva.e a grande coletânea árabe As Mil e Uma Noites=: cuja tradução em português, a partir da língua original. Acaba de ser concluída no Brasil com o lançamento de Livro das Mil e Uma Noites- Volume 4 (tradução de Mamede Mustafa Jarouche; Globo; 528 páginas:59,90 reais). Com sua riqueza humana cheia de vida erotismo e humor, os contos das Mile Uma Noiies são Para Rushdie, a perfeita contrapartida, no mundo.arabeislâmico, à obsessão Iínear e unidimensional do fanatismo, do exclusivismo e do suprernacismo religioso. Aliás, não só para Rushdie: desde a primeira grande tradução ocidental. do francês Antoine Galland, no século XVIII, foi graças a esse prisma lúdico que o Ocidente se interessou pelo mundo árabe. Salman Rushdie chegou peno de ser morto por ter contado uma história que não agradou a certos representantes do mundo islâmico que tinham mais poder do que compreensão histórica e literária de sua própria cultura. Não é de todo acidental assim que ele admire o novelo de histórias que Sherazade desenrola aos poucos para escapar apena capital, enredando um monarca paranóico e sanguinário nas delícias alternativas da ficção, até apaziguá-lo.

 

Emoções muito fortes

Uma nova biografia de Tchaikovsky derruba o mito do homem aflito e torturado. Mas o compositor foi uma personalidade tão exacerbada quanto sua música. SÉRGIO MARTINS

O russo AJexander Poznansky tinha 17 anos quando se apaixonou pela obra de Piotr llitch Tchaikovsky (1840-1893). Ele havia acabado de chegar a São Petersburgo quando assistiu a uma encenação de O Lago dos Cisnes pelo tradicionalíssimo Balé Kirov. “Foi naquele momento que senti necessidade de conhecer melhor aquele homem. Não o Tchaikovsky que escutava na rádio. mas sim o homem por trás daquelas obras”. Disse em entrevista a VEJA. A dedicação de Poznansky, hoje com 62 anos, resultou em doze livros a respeito do compositor russo. O mais recente, Piotr Tchaikovsky: Biografia (tradução de AlexeyLazarev: G. Ermakoff Casa EditoraI; 904 páginas; 90 reais), chega ao Brasil antes de seu lançamento nos Estados Unidos e na Europa. em tradução direta do russo. Trata-se de um retrato deTchaikovsky, o ser humano mais do que um estudo aprofundado sobre sua obra. O autor teve acesso a documentos pessoais inéditos. sobretudo cartas – muitas delas falando da vida amorosa do compositor.

Poznansky põe por terra a ideia de que Tchaikovsky leria imensos conflitos com sua homossexualidade. É fictícia a criatura torturada que se via na histriônica cinebiografia Delírio de Amor, do inglês Ken Russell (por ironia. Estrelada por Richard Chamberlain. que passou décadas no armário). Tchaikovsky parece ter tido uma vida sexual rica e variada. Amou homens e mulheres – mas principalmente homens. Em 1861. Ano em que fez sua primeira viagem a Paris. apaixonou-se por Frederico, “um jovem de uma grande formosura”, conforme escreveu aos irmãos. Dezesseis anos depois. em Florença. rendeu-se aos serviços de um garoto de programa. “Passei duas horas em um ambiente dos mais românticos. Voltei para casa cansada e extenuada, mas com recordações maravilhosas”, escreveu. Seus dois relacionamentos mais longos com mulheres foram menos satisfatórios. Casou-se com Antonina Miliukova em 1877,mas ela não aceitou bem as inclinações do marido – que, depois da separação. Se referia a ela como “verme” ou “aquele ser”. Com a negociante Nadejda von Meck, que veio a se tomar seu mecenas, o relacionamento se baseou mais em admiração artística do que em contato físico – e esfriou quando, ao passar por dificuldades econômicas, Nadejda deixou de financiá-lo.

A nova biografia também traz um relato cuidadoso da morte do compositor. Em 1979. a musicóloga russa Alexandra Orlova lançou a tese de que o compositor teria sido obrigado a cometer suicídio. por ordem de um nobre russo que estaria incomodado com os avanços de Tchaikovsky sobre seu sobrinho. Essa história já fora desmentida pelo próprio Poznansky e pelo inglês Anrhony Holden. e ganha sua pá de cal definitiva no livro. Poznansky reconstitui o avanço da doença que debilitou e matou o compositor o cólera. O médico de Tchaikovsky demorou a perceber e tratar os sintomasdo mal. Um amante onívoro e exacerbado que tem sua vida ceifada por uma doença terrfvel (só faltou ser tuberculose. o “mal do século”): Tchaikovsky foi afinal, uma personalidade típica do romantismo. e sua música é uma das realizações mais extremas desse movimento – a ponto de muitos a considerarem até. digamos, brega. Sua obra caiu em desgraça no início da Revolução Russa de 1917. Os comunistas abominavam a religiosidade e o monarquismo do compositor (que, como relata Poznansky, foi por muito tempo sustentado pelo czar Alexandre lll). Em meio à patriotada que é 1812. uma desuas composições mais famosas, ouve se o hino Deus Salve o Czar. Nos anos 1930. Tchaikovsky seria reabilitado. E, fora da Rússia, sempre contou com admiradores de peso. O impressionista Debussy – que foi professor de música das filhas de Nadejda – se inspirou em Romeu e Julieta e na Quana Sinfonia para criar algumas de suas composições. Mahler regeu várias das sinfonias de Tchaikovsky e era apaixonado pela ópera Eugene Onegin. E até o modernista Stravinsky reconheceu a beleza de suas obras. A contribuição de Tchaikovsky para a música foi revolucionária no balé. Ele deu uma estrutura sinfônica à música para dança, com melodias. Estruturas rítmicas e orquestrações inovadoras. O Lago dos Cisnes até hoje é o grande cavalo de batalha para as principais companhias de balé em todo o mundo. Foi a música que encantou Poznansky – e, afinal motivou esta biografia extraordinária.

 

VEJA RECOMENDA

 

LIVROS MATISSE: UMA VIDA, DE HII.ARY SPURUNG (TRADUÇÃO DE CLAUDIO ALVES MARCONDES; COSAC NAIFY; 592 PÁGINAS; 109 REAIS) • Na segunda metade dos anos 30. quando já acumulava quatro décadas de carreira. o pintor francês Henri Mausse fez um desabafo para a filha mais velha: “A preocupação que me persegue é que vou acabar sendo esquecido”.Matisse colhia então o pior de dois mundos. De um lado. ruirá geme se escandalizava Com a sensualidade de suas odaliscas e com a memória dos tempos radicais em que ele capitaneou a tropa de artistas conhecidos como fauves (feras). Por outro lado. os apreciadores de primeira hora se desencanavam com o que viam como rendição à banalidade e ao hedonismo nas suas obras maduras. Como demonstra a historiadora inglesa Hilary Spurling nesta que é a melhor biografia do artista, o tempo só confirmaria a grandeza de Matisse. Por trás da suposta facilidade de seu trabalho. há uma incansável busca da beleza em estado puro. Dos padecimentos de um homem que passou boa pane de seus 84 anos preso à cama por causa de moléstias digestivas à suas reflexões sobre a arte. o Matisse retratado pela autora é maior do que aquele pimado por certo senso comum dos manuais sobre arte moderna.

 

NElL YOUNG: A AUTOBlOGRAAA (TRADUÇÃO DE RENATO REZENDE E HELENA LONDRES;

GLOBO; 408 PÁGINAS; 49,90 REAIS) • O cantor e compositor canadense Neil Young sempre di se que jamais escreveria um livro sobre a própria vida. No ano passado porém, ele foi obrigado a uma temporada de repouso depois de quebrar o pé em um acidente doméstico – e resolveu reverter sua decisão. Assim nasceu Neli Young: a Autobiografia. Na qual o autor de alguns dos maiores hinos do rock (Hey Hey, M)’ My e Rockin in lhe Free World) faia de uma carreira, de sua vida pessoal _e de sua paixão por trens de brinquedo e carro. amigos. A prosa memorialística de Young não tem a fluência de Só Garotos, a estupenda autobiografia de Paui Smith. O livro tampouco é tão rico em fofocas e detalhes picantes quanto Vida, de Keith Richards. Mas há passagens reveladoras. Young reconstruiu com emoção sua amizade Com David Crosby. Stephen Stills e Graham Nash, com quem formou uma banda famosa. Conta que compôs o clássico Like a Hurricane entorpecido pela cocaína. E faz um relato saboroso do absurdo processo que David Geffen, dono da Geffen Records, moveu contra ele por gravar discos “diferentes do estilo Neil Young.

 

CINEMA LOOPER – ASSASSINOS DO FUTURO (LOOPER, ESTADOS UNIDOS, 2012. JÁ EM CARTAZ)• Diretor de Mosca, um dos mais extraordinários episódios da série Breaking Bad, Rian Johnson pode ser criticado, em Looper, pelo excesso de ideias – tanta que poderiam render uns três filme . Como em geral a ressalva que se faz ao cinema americano atual é a oposta, de que a maioria dos longas não tem enredo suficiente sequer para um curta, esse misto de ficção científica, aventura e especulação existencial merece seu lugar ao sol. Em 2042. Joseph Gordon-Levin é Joe, membro de um grupo de assassinos. Os loopers, especializados em eliminar vitimas enviadas a eles de três décadas à frente. É responsabilidade dos loopers encerrar sua carreira matando seus próprios e futuros – o que lhes dá vários anos de bem paga aposentadoria. Joe, porém. falha em aniquilar sua versão madura (papel de Bruce WiUis), que quer identificar- e assassinar – uma criança que virá a se tomar uma figura nefasta no futuro. Passa-se assim da fiCÇãodistopica para uma caçada e, dela, para um drama austero com toques sobrenaturais quando o jovem Joe se refugia numa fazenda com a sempre irresistível Emily Blunr e o filho pequeno dela. Ainda que não seja um grande filme conta como três bons médias- miragens

 

DISCO Tropicália LIXO LÓGICO, TOM ZÉ (INDEPENDENTE) • O mais inquieto dos tropicalistas, Tom Zé se manteve fiel ao experimentalismo. Enquanto seus companheiros de movimento aderiam a formatos mais pop. ele desconstruía o samba (no disco Esrudando o Samba, de 1976) e criava até uma orquestra de enceradeiras. As ousadias restringiram seu público a um punhado de poucos e bons, mas ninguém o supera em criatividade. O novo trabalho do cantor e compositor baiano, Tropicália Lixo Lógico, é um disco de “tese” sobre a vanguarda dos anos 60. Tom Zé elenca fontes improváveis para a estética tropicalista, da filosofia grega à música árabe e celta. Essas curiosas ideias são apresentadas na forma de samba. marcha-enredo e rock, ou em temas ambiciosos como Tropicalea Jacta EST, experimental até a medula na sua junção de mitologia grega e poesia concreta. Da gelei a geral de Tom Zé participam o rapper Emicida, a cantora Mallu Magalhães (surpreendente em O Motoboi e Maria Clara) e o cantor Rodrigo Amarante. Produção independente, o disco pode ser encontrado em lojas especializadas ou encomendado dado pelo e-mail bibi @uol.com.br.

 

Exposição OBSERVADORES: Fotógrafos DA CENA BRITÂNICA DE 1930 ATÉ HOJE (ATÉ 25 DE NOVEMBRO NO CENTRO CULTURAL FIESP – Rum CARDOSO, SÀO PAULO) • Na Inglaterra de 1937, o antropólogo Tom Harrison, o poeta Charles Madge e o cineasta Humpbrey Jennings criaram o projeto Mass Observation, com o objetivo de documentar os hábitos e costumes da classe trabalbadora – um contraponto à imagem aristocrática que os ingleses então vendiam ao mundo. Sete décadas depois, essa iniciativa de observação do cotidiano volta a ser explorado pelos curadores João Kulcsár (brasileiro) e Martin Craíger-Smith (inglês). Eles reuniram 240 imagens – selecionadas de acervos ilustres como os da ‘Iate e da National Portrait Gallery de Londres – para mostrar as várias transformações da vida inglesa (a II Guerra. a recessão econômica, os punks etc.), levando em conta os diferentes padrões estéticos e recursos técnicos de cada época. Lá estão os socialites de Cecil Beaton, a moda de Norman Parkinson, o engajamento político de Martin Parr e as poéticas paisagens urbanas de Ruth Blees Luxemburg – entre vários outros – exibindo uma Inglaterra que, diz Craiger-Smith. Ué inconstante. incompleta, complexa e contraditória”.