fapesp 24-08

Avanço na física de neutrinos

Participação de brasileiros no experimento Double Chooz, na França, impulsiona pesquisas no Brasil

 

A participação brasileira no Jouble Chooz permitirá que o PAIS  desenvolva a Física Experimental de Neutrinos, considerada uma das mais importantes áreas de  pesquisa da atualidade, segundo cientistas do Brasil que integraram a  equipe. O experimento internacional Double Chooz publicou, em março, na Physical Review actters seus primeiros resultados, que incluíram uma importante descoberta relacionada à chamada oscilação de neutrinos. A descoberta foi considerada como uni passo importante em direção à compreensão de fenômenos que poderão ajudar a explicar a origem da assimetria entre matéria  antirnatéria no Universo. Com o sucesso obtido nas primeiras medições, o Double Chooz, que começou a obter dados em 2011, continuará a aprimorar as pesquisas. Um novo artigo acaba de ser submetido à Physical Review Letters, também com participação da equipe brasileira, que envolve cientistas do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), da Universidade Federal do ABC (UFABC) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um dos co autores do artigo que descreve os primeiros resultados do Double “Chooz, Ernesto Kernp, professor do Departamento de’ Raios Cósmicos e Cronologia da Unicamp, explica que o experimento procura medir oscilações de neutrinos com precisão sem precedentes, ao observar antineutrinos produzidos em um reator nuclear em Chooz, na região das Ardenas, na França.

“O experimento obteve uma indicação de desaparecimento de antineutrinos do elétron Durante sua propagação entre o reatei nuclear de Chooz e um detectei situado a 1 quilômetro de distância. Esse resultado nos permitir estabelecer uma primeira medida do chamado ângulo de anisturs theta13″, disse Kemp. A participação brasileira teve apoio da Fapesp na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, com  o projeto o”Medidas de neutrino: em usinas nucleares”, coordenador Pietro Chirnenti, da UF ABC João dos Anjos coordenou a equipe do CBPF. Chirnenti e Anjos também são co autores do artigo, que teve participação de cientistas da França, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Rússia. Kemp é um dos pesquisadores principais do Projeto Temático “Estudo dos raios cósmicos de mais altas energias com o Observatório Pierre Auger”, financiado pela FAPESP e coordenado por Carola Chinellato, também professora do Instituto de Física da Unicamp. A medida do ângulo de mistura theta13, segundo Kemp, é crucial para futuros experimentos destinados a medir a diferença entre oscilações de neutrinos e antineutrinos e a verificação de fenômenos que poderiam vir a explicar a origem da assimetria entre matéria e antimatéria no Universo. “A grande conquista já foi realizada, ao provar que o ângulo theta 13 tem valor diferente de zero. Havia muita especulação sobre a medida desse ângulo e, caso o valor fosse zero – indicando a ausência da mistura de neutrinos -, isso teria inúmeras implicações na física, especialmente em cosmologia e astro física de partículas. As próximas etapas da missão consistem em refinar cada vez mais esse valor, aumentando a precisão da medição do ângulo”, afirmou Kemp.  A contribuição brasileira consistiu no desenvolviinento e construção de uma eletrônica capaz de medir a energia dos múons cósmicos que cruzam o detector – os múons são partículas da família dos léptons, como os elétrons e os taus. “Isto possibilitará identificar e rotular múons altamente energéticos e candidatos a produzir nêutrons por espalação, uma das fontes mais importantes de ruído para eventos de neutrinos”, afirmou Kemp. A eliminação desse ruído permitirá reduzir os erros sistemáticos na medida de theta13. A eletrônica foi projetada no CBPF e os módulos para o detector mais distante estão  sendo construídos em cooperação com indústrias brasileiras e serão adicionados ao detector central em 2012 por ocasião de uma parada para manutenção , segundo Kernp.

 

Página :  F 4 – Milenium

 

Pesquisa analisa o papel das redes sociais na superação da pobreza

 

Pesquisadores estudaram redes sociais de 210 pessoas em sete diferentes regiões pobres de São Paulo

 

O papel das redes sociais na superaçao da pobreza e da segregação

é o tema do livro Opportunities and Deprivation in the Urban South, lançado recentemente no Reino Unido pela editora Ashgate.  A obra é baseada na tese de lívre-docêncía de Eduardo Cesar Leão Marques, professor do Departamento de Cíência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro  de Estudos da Metrópole (CEM) um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fapesp e também um Instituto’ Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).Para a realização do livro a coleta de dados foi ampliada e complementada por pesquisa qualitativa sobre o uso das redes no cotidiano dos indivíduos. A pesquisa partiu do pressuposto – amplamente aceito na literatura científica nacional e internacional – de que segregação espacial tende   a produzir segregação social. Segundo Marques, isso quer dizer que, embora duas pessoas possam ter a mesma renda, uma delas pode ter piores condições de Vida  e perspectivas de futuro se dos e sobre a probabilidade de estarem empregados e conquistarem empregos com algum grau de proteção e estabilidade. “Percebemos que as pessoas com grande parte de sua rede social em ambientes organizacionais – como empresas, associações comunitárias, igrejas e organizações políticas – tinham melhores condições de vida quando comparadas a indivíduos com redes muito locais, centradas na vizinhança, nos amigos e na família”, disse Marques.

Segundo os resultados do estudo, o contato com pessoas diferentes facilita a superação da pobreza porque promove a circulação da informação, de recursos econômicos e de repertórios culturais. “O tamanho da rede social não fez tanta diferença. Ela pode ter um tamanho médio, mas não pode ser muito local e homogênea. Se uma pessoa pobre tem contato apenas com gente igualmente pobre e desempregada, as chances de conseguir sair daquela situação são pequenas”, disse Marques.

Após a identificação das redes de pior e melhor qualidade, os pesquisadores do CEM selecionaram 40 entrevistados anteriormente para participar de uma pesquisa qualitativa sobre os usos das redes. “Queríamos entender como as pessoas mobilizavam esses contatos, como essas redes se configuram e mudam ao longo do tempo”, disse Marques. Os resultados da investigação já haviam sido publicados em um livro, lançado no Brasil em 2010 pela ‘editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Segundo Marques, no entanto, a obra recém-lançada no Reino Unido não se resume a uma simples versão da pesquisa para o inglês. ~,:. “O objetivo principal do livro em português era introduzir no debate nacional a idéia de que a pobreza é produzida também por padrões de inter-relação, não apenas por características individuais  e pelos padrões de.decisão dos indivíduos. Na Europa e nos Estados Unidos  existe vasta literatura sobre esse tema. O livro em inglês portanto, dialoga com uma série de outras hipóteses presentes no debate internacional ligadas aos diferentes efeitos de redes sociais diversas, assim como à associação entre redes sócias e segregação”, explicou.No dia 20 de agosto será lançado Redes sociais no Brasil: Sociabilidade, organizações civis e políticas públicas. Com organização de Marques,  o livro compara os dados da pesquisa feita em São Paulo com resultados de outro braço do estudo realizado em Salvador, na Bahia, onde foram entrevistadas 153 pessoas. “Salvador é uma Cidade com estrutura social muito diferente de são Paulo. A pobreza é diferente.o mercado de trabalho é diferente e a sociabilidade é diferente. Mas as redes sociais são parecidas e o efeito delas sobre a pobreza também é semelhante”, disse Marques.

 

Página : B 6 – Economia

 

Cidades agem para ampliar ações da Rio+ 20

Rede C40, que reúne 58 metrópoles do planeta, troca bons exemplos de gestão ambiental

 

PLANETA

BrunoDeiro

 

Em balanço da Rio +20 realizado ontem em São Paulo, a frustração pela falta de ações práticas e a fragilidade do documento final assinado pelos países contrastaram com o otimismo do grupo de cidades que forma a Rede C40. Pouco mais de dois meses após o evento, especialistas do País e do exterior reforçaram as mesmas preocupações no encontro organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Perguntavam para mim sobre o fracasso da Rio+20 antes mesmo de o evento acontecer. Mas é ingênuo achar que soluções complexas se resolvem em alguns eventos ou mesmo em uma década. O equacionamento das questões deve levar, pelo menos, mais dez anos”, diz Paulo Artaxo, físico da uSP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Na opinião do pesquisador, o fato mais evidente foi a falta de governança por parte da ONU para implementar políticas globais. O evento no Rio, avalia Artaxo, não foi muito diferente de encontros anteriores realizados em cidades como Durban, na África do Sul, e Copenhague, na Dinamarca. “Em termos de visibilidade, as atuais ondas de calor nos EUA e na Europa têm muito mais impacto que qualquer evento como a Rio+20″, afirma. Intitulado O Futuro Que Nós Queremos, o documento final assinado por 193países é considerado o produto dessa falta de acordo. “O documento não possui metas de eficiência energética ou de uso de energias renováveis. Além disso, contém termos como ‘tecnologias de combustível fóssil mais limpas’, algo discutível”, diz Marcelo Moreira, pesquisador do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone).

 

Otimismo.     

O discurso do pesquisador Adalberto Maluf, diretor da C40 no País, foi um dos poucos que fugiram do tom pessimista. Elogiada durante a Rio+20, a iniciativa de prefeitos de 58 metrópoles ganhou visibilidade desde então e trabalha na ampliação do projeto. “Diversas entidades entraram em contato, mas damos prioridade à ideia de ser uma ação das cidades voltada para as próprias cidades. Por isso, queremos atingir cem cidades até 2025″, afirma Maluf  . Ele explica que o foco da entidade está no lançamento de redes temáticas. Cidades que possuem bons exemplos em determinadas áreas ambientais terão um contato mais próximo com capitais que enfrentam dificuldades. São Paulo, segundo ele, é apresentada como modelo de legislação ambiciosa no setor, ainda que pouca coisa tenha sido colocada em prática. O principal desafio, por outro lado, é aprimorar  a questão da mobilidade.

Além de São Paulo, Rio de Jáneiro e Curitiba são as cidades brasileiras que participam do projeto. “Trabalhando de forma mais localizada, os prefeitos têm mostrado maior engajamento que os líderes mundiais. Nossa atenção agora está voltada para a Ásia, especialmente nas grandes metrópoles da China.” Fundada em 2005, a Rede C40 reúne atualmente 58 cidades que se comprometem a reduzir emissões de gases do efeito estufa e mitigar os riscos climáticosnas próximas décadas.

 

Página : A 21 – Vida

pegn – Agosto

ARQUITETURA

ESCRITÓRIOS

VERDES

ESPECIALIZADA EM PROJETOS SUSTENTÁVEIS, A PAULISTA SUSTENTECH TRANSFORMOU SUA SEDE EM UM SHOWROO!VIDE SOLUÇÕES DE ALTAEFICIENCIA ENERGÉTICA

 

Quando fundou a Sustentech, em 2008, o engenheiro João Marcello Pinto, 33 anos, tinha o

objetivo de fazer estudos e projetos sustentáveis para prédios comerciais e residenciais. Ele preferiu

começar devagar, em um escritório pequeno, com apenas dois funcionários, no bairro paulistano

do Itaim Bibi. Dois anos depois, a equipe de 15 pessoas já demandava mais espaço. “Foi o momento de

mostrar que, em casa de ferreiro, o espeto deve ser de ouro”, brinca. Com a criação de um showroom de

soluções verdes em mira, ele projetou um escritório que reuniu alguns dos principais itens que oferece aos clientes: derrubada de divisórias para aumentar a iluminação natural, ar-condicionado econômico, Carpete ecológico, persiana reflexiva, móveis de madeira certificada, iluminação LED,revestimentos de madeira de demolição e jardim vertical. Até a escolha de um edifício antigo, dos anos 1950,foi proposital. “A ideia é mostrar que adaptações são viáveis em qualquer tipo de prédio, e apresentam um impacto menor do que uma nova construção, que consome material, gera resíduos e ocupa áreas livres.”

O novo espaço, com 300 m2, teve as paredes internas derrubadas, para que a luz natural pudesse iluminar

todo o ambiente, e recebeu uma série de revestimentos e equipamentos escolhidos a dedo. Segundo

o fundador, o projeto verde custou apenas 2% a mais do que custaria uma reforma convencional. “Nos

trabalhos que realizamos para os clientes, esse custo acaba ficando entre 0,5% e 7% mais caro!’ Ele afirma que o investimento compensa: com os novos equipamentos, a redução de energia é da ordem de 20% e o consumo de água cai até 30%. Além disso, iniciativas sustentáveis podem fazer com que os clientes recebam certificações como a americana Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) e a brasileira Aqua (Alta Qualidade Ambiental). 

 

 

NO PALCO COM MARISA MONTE

 

o cenário do espetáculo, criado pelo cenógrafo Marcelo Lipianl, ganhou forma com o trabalho

da Cinecidade Locações e Produções, de São Paulo. Por trás dos efeitos visuais do palco, estão estruturas leves de alumínio e grandes painéis de espelho (de5x2 metros), que funcionam como telas

de projeção. Ao longo de dois meses, 12 profissionais se dedicaram ao projeto. Com dois sócios e sete funcionários fixos na equipe, a Cinecidade faturou R$ 1,3 milhão em 2011.

 

DE UMA CIDADE PARA OUTRA

Os cenários e equipamentos usados no show pesam 10 toneladas. A empresa responsável por transportá-los é a Caprimar Transportes, de Santo André (SP). Para a turnê de Marisa Monte, a escolhida é uma carreta-baú Scania de 13,5 metros de comprimento. A empresa, fundada em 1973, tem 120 funcionários e uma frota com 63 veículos. Roberto Carlos e a dupla Zezé di Camargo & Luciano estão. entre os clientes.

 

PARAFERNÁLIA TECNOLÓGICA

Há 18 anos, a mineira On Projeções fornece a infraestrutura audiovisual para os shows de Marisa

Monte. Na turnê atual, são usados 10 projetores da marca americana Christie, ” com resolução full HD e

potência entre 15 mil e 25 mil lúmens – cada um custa entre R$ 90 mil e R$ 400 mil. O kit inclui ainda 1,5

quilometro de cabos de fibra ótica .Dos 60 funcionários da empresa, 13 se dedicaram integralmente à produção durante os ensaios. Dois deles acompanham a turnê.

 

BARULHINHO BOM NAS REDES SOCIAIS

O site e as redes sociais da cantora são gerenciados pela agência paulista Gruda em mim. O planejamento para o lançamento da turnê começou um ano antes da estrela, com teasers

e a degustação de trechos das canções do CD O Que Você Quer Saber de Verdade? A empresa

cuida ainda da estratégia digital de clientes como Google, Brahma, Rock in Rio, Natura, a atriz Juliana

Paes e o compositor Gilberto Gil.

 

O QUE ENTRA EM CENA

EM TURNÊ DESDE 1º DE JUNHO, O MAIS RECENTE SHOW DA CANTORA MARISA MONTE, VERDADE UMA ILUSÃO, CHAMA A ATENÇÃO PELA SOFISTICADA PARAFERNÁLIA AUDIOVISUAL USADA NO CENÁRIO. CONFIRA ALGUNS DE SEUS NÚMEROS.

 

90 MINUTOS é o tempo de duração do espetáculo, dirigido pela dupla Leonardo Netto e Cláudio Torres. Além da cantora, há nove músicos no palco. Três deles foram emprestados pelo grupo Nação Zumbi.

 

21 CANÇÕES, de autores como Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Nando Reis e Jorge Benjor, compõe o repertório. Além das faixas do último CD, há vários hits dos trabalhos anteriores. Entre eles estão Beija Eu, Não Vá Embora e Amor I Love You.

 

30 PESSOAS estiveram envolvidas na produção, dentro e fora do palco. O trabalho de pré-produção e os ensaios consumiram dois meses.

 

15 NOMES consagrados das artes visuais são responsáveis pelos vídeos apresentados ao longo do show. Entre os artistas selecionados pela curadora Luisa Duarte estão Alexandre Brandão, Luiz Zerbini e Janaina Tschäpe. As projeções ocupam seis telas, localizadas em diferentes pontos do palco, formando variadas combinações com efeitos 3D.

 

2 MIL espectadores, em média, assistem a cada apresentação do show Verdade Uma Ilusão, e pagam entre R$ 120 E R$ 320pelo ingresso. Depois de passar pelas principais cidades brasileiras, a turnê possivelmente chegará ao exterior e deve se encerrar em 2013.

 

 

FRANQUIAS MULTIMARCAS

A união faz a força

DIFERENTES REDES ESTÃO SE UNINDO PARA OCUPAR UM MESMO PONTO DE VENDA. A OPERAÇÃO PROMETE CUSTOS MENORES PARA O FRANQUEADOR E MAIOR RECEITA PARA O FRANQUEADO.

 

Um modelo de negócio original abriu as portas o final de maio, em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo – três conhecidas franquias, Imaginarium, Puket e Balone,

estão dividindo uma mesma loja O letreiro exibe o nome Love Brands, criado especialmente

para o triplo casamento. A rede já nasce com apetite voraz. Estão previstas mais 205 inaugurações nos próximos quatro anos, em cidades pequenas e médias, de até 200 mil habitantes. Para as franquias, o modelo promete ser um bom negócio. “Até hoje, a

forma de chegar a cidades menores era a loja multimarca. A Love Brands mostra-se mais interessante, pois o layout do ponto de venda respeita a linguagem de cada franquia”, diz Carlos Zilli,diretor da Imaginarium.

Para os franqueados, o modelo representa uma oportunidade interessante. Embora o investimento inicial não seja necessariamente menor -uma franquia da Love Brands com 40 m2 custa R$170 mil, enquanto uma loja da Puket consome entre R$150 mil e R$ 200

mil-, o lucro tende a ser maior. “O dono da unidade consegue aumentar o volume de vendas, trabalhando com um único imóvel. Se o cliente não compra produtos de uma das marcas, compra da outra”, diz Adolfo Bobrow, sócio diretor da Puket. Nesse caso, porém,

épreciso um cuidado especial com o gerenciamento. “O franqueado precisa separar muito

bem os recursos de cada unidade”, diz Claudia Bittencourt, diretora do Grupo Bittencourt. “Se misturar os negócios, vai acabar perdendo ambas as receitas.”

A Associação Brasileira de Franchising está otimista com a fórmula. “É uma boa alternativa diante da bolha imobiliária”, diz a vice presidente da ABF,Cristina Franco.

“O espaço está caro e faltam lojas em shoppings!’ Mas alerta que a associação de marcas exige muita afinidade. “Se as imagens das empresas não forem naturalmente compatíveis, o consumidor não vai aceitar a união”, concorda Leonardo Marchi, sócio-diretor da consultoria

Praxis Education. No caso da Love Brands, que junta franquias de três grupos distintos, o

casamento levou em conta a reação das clientes no ato da compra: elas acham os produtos adoráveis, daí o nome Lave Brands.

Em outras uniões,já em curso, a estratégia é reunir diferentes bandeiras do mesmo grupo.

Desde junho de 2011, as redes de fastfood Domino’s e Spoleto ambas parte do sistema Umbria,

convivem em sete lojas nos estados do Rio de Janeiro, Pará e Minas Gerais. E com boas surpresas – a pizzaria turbinou o jantar da Spoleto, tradicionalmente forte só no almoço. “Para

nós, é o modelo do futuro”, diz Henrique Pamplona, diretor da Domino’s. “Tanto que, em breve,

vamos lançar a união tripla, incluindo a Koni Temakeria!’ Quem também aposta na novídacleé

o grupo CPQ Brasil; dono das marcas Casa do Pão de Queijo e  O Melhor Bolo de Chocolate

do Mundo, que mapeou 30lojas no país com área superior a 40 m2, para dividi-las

meio a meio. Duas unidades cariocas e uma em São Luís,no Maranhão,já funcionam assim.

 

OURO NEGRO

TERCEIRO MAIOR PRODUTOR DE CHOCOLATES DO MUNDO, O BRASIL, RESPONDE TAMBEM PELO QUARTO

MAIOR MERCADO CONSUMIDOR. AS FABRICAS BRASILEIRAS PRODUZIRAM 660 MIL TONELADAS EM 2011

 

QUENTE

Chocolates com alto teor de cacau e pouco açúcar já não são exclusividade dos pequenos ateliês – os produtos ganharam espaço até nas linhas das grandes indústrias.

 

ESQUENTANDO

No segmento dos bombons, o refinamento dá o tom.O público busca embalagens pequenas, de 30 gramas. baseadas

no consumo máximo diário recomendado pelos nutricionistas.

 

MORNO

A tendência é que, em pouco tempo, aumente a oferta de chocolates em pó com alto teor de cacau, assim como de pastilhas vendidas a peso, próprias para derreter.

 

FRIO

Embora mantenha seu público, o chocolate branco é o patinho feio do setor. Composto apenas de manteiga de cacau, leite e açúcar, o produto é cada vez menos usado.

 

 

 

VOCÊ PRECISA DE MUITO DINHEIRO PRA COMEÇAR

No filme Jerry Maguire – A Grande Virada,Tom Cruise vive um agente de marketing esportivo que abre

o próprio negócio após perder o emprego. Sem dinheiro para um escritório, ele troca as regalias do

mundo corporativo pela autogestão de um home office. Contando apenas com a ajuda de um

assistente, o personagem descobre que é possível chegar longe com pouco. Mesmo não sendo uma

história verídica, o longa ajuda a ilustrar algumas estratégias de Lean Startup, conjunto de ferramentas

de otimização de recursos. A força do movimento é apoiada por estudos como o Startup Genome,

da aceleradora americana Blackbox. Com base em dados de mais de 10 mil startups, o levantamento  constatou que empreendedores  costumam investir duas vezes mais do que o necessário na hora de lançar um negócio.

A pesquisa mostra que, assim como acontece no filme, é possível abrir uma empresa com menos

, dinheiro do que se pensa. “No primeiro momento, o ideal é gerar produtos de baixo custo, em um

espaço curto de tempo’: afirma Eric Ries,autor de A Startup Enxuta, livro que deu origem ao conceito

de Lean Startup. Entre as principais táticas para reduzir custos, Ries ressalta o relacionamento com o

consumidor. “O primeiro passo é .escutar o feedback do público-alvo. Isso evita que se perca tempo e

dinheiro com soluções distantes das necessidades do mercado.”

 

 

Correr riscos é inevitável em qualquer negócio

 

NÃO TEM JEITO: os riscos podem ser minimizados, mas não existe forma 100% segura de empreender.

Por isso, é melhor tentar se antecipar às dificuldades que surgem pelo caminho. “O ciclo empreendedor

consiste em tomar decisões, analisar resultados e incorporar o aprendizado. O que não pode existir

é o risco não-calculado, em que um resultado negativo leva ao fim do negócio”, diz Anderson Thees, cofundador do fundo Redpoint eVentures. Se o risco é realmente inevitável, será que existe uma abordagem mais pragmática para diminuí-lo? Para Carlos Pires, representante do fundo Atômico na América Latina, entre as maneiras de identificar desafios futuros se destacam o estudo da competição e a análise de retomo sobre o investimento. “Definir o nível de competitividade do mercado é a melhor forma

de descobrir se a ideia tem fôlego para alcançar a concorrência.”

 

 

Tudo começa com uma idéia

inovadora

 PARA MARCELO SALES, sócio da aceleradora 21212, o sucesso do negócio está mais ligado às ações

do empreendedor do que à inovação oferecida pela empresa. Embora reconheça o diferencial de uma

ideia original, o investidor carioca relembra dois casos que mostram a força da execução. “O Google não

foi o primeiro site de buscas e o Facebook não inventou as redes sociais.

O que fez deles vencedores foi a capacidade de colocar a ideia em prática” Os exemplos são inquestionáveis. Mas é importante lembrar que existem áreas da empresa onde a necessidade de inovar

é mais crítica. É o que diz Felipe Matos, do Instituto Inovação, grupo criador do Fundo Criatec.

“O mercado muda rapidamente. Quem não souber se reinventar de forma criativa,mesmo que seja nos

processos internos, encontrará dificuldades para se manter!’

 

PODER DE EXECUÇÃO

A Rocket Internet, grupo alemão dos irmãos Samwer, ganhou fama ao criar startups que copiam modelos validados em outros países. Em alguns casos, como o do CityDeal (inspirado no GroupON), o

sucesso foi tão grande que o clone foi adquirido pela empresa original.

 

PODER DE VENDAS

Com faturamento de R$ 600 milhões em 2011, a Netshoes se tornou uma das maiores empresas do e-commerce brasileiro. Abase da liderança está em uma estratégia de vendas focada na excelência de logística e de atendimento.

 

 

 

EMPREENDEDORES TÊM MAIS TEMPO LIVRE

 

Ao abrir um negócio, a agenda do empreendedor costuma ficar tomada – a maioria passa a

trabalhar mais do que quando tinha carteira assinada. Além . dos próprios horários, é preciso

administrar o tempo de equipes e prazos de fornecedores. É fácil extrapolar a linha que divide o trabalho e a vida pessoal”, diz Christian Barbosa, fundador da consultoria de produtividade

Tríade do Tempo. Confira ao lado três dicas do especialista para ajudar a equilibrar a sua rotina.

 

 

 

CRIE PROCESSOS

Desenvolva métodos práticos para melhorar a gestão do tempo no ambiente de trabalho. Uma planilha de Excel compartilhada pode ser um bom começo para acompanhar o andamento do projeto.

 

PROGRAME-SE COM MAIS ANTECEDÊNCIA

Planeje as tarefas do dia a dia com a mesma atenção que você traça as metas de longo prazo. Mantenha um cronograma atualizado com as pendências dos próximos três dias.

 

ESTUDE O ASSUNTO

Ninguém aprende gestão de produtividade nas escolas de negócio, mas gerenciamento de tempo exige treinamento. Existem diversas fontes de informação sobre tema, como sites, livros e vídeos online.

 

 

QUANTO MAIS JOVEM, MELHOR

Apesar de a experiência contar pontos para os mais velhos, pessoas que

começam a empreender mais cedo são favorecidas pelo tempo. Na

opinião de Marcos Hashimoto, professor de empreendedorismo

da ESPM, além de uma relação custo oportunidade atraente, os mais

jovens são favorecidos por um dos principais lemas de negócios: erre

logo, perca pouco e aprenda muito. “O jovem tem muito tempo disponível e ainda não consolidou uma carreira executiva. Isso diminui o risco. A

probabilidade de dar errado pode-ser maior, mas o que se perde a cada erro. Pode ser recuperado com mais facilidade?’

 

É OBRIGATÓRIO ESTAR NAS REDES SOCIAIS

Marketing, relacionamento, vendas …As redes sociais oferecem

Diversas possibilidades de negócios. Por essa razão, na maioria

dos casos, faz sentido investir em um posicionamento digital. No entanto,

Marcos Machado, sócio da TopBrands, empresa especializada em

branding, afirma que existem exceções. Segundo o consultor, antes

de qualquer coisa, é preciso analisar o que faz sentido para o perfil de cada empresa “Redes sociais oferecem um grande potencial de

disseminação. Mas são apenas mais um meio de comunicação e não

o objetivo final do negócio!’ É o caso das empresas voltadas para o B2B.

“Elas só precisam traçar estratégias para esses canais quando surgem

Demandas específicas’

 

ENGAJAMENTO OFFLINE

A Apple tem presença praticamente nula em redes sociais. Isso não impede que a empresa reúna

consumidores dispostos a tatuar o logo da marca em seus corpos.

 

 

ESTRATÉGIA SEGMENTADA

A Vale adere a novas redes apenas quando surge uma necessidade. A conta do LinkedIn, por

exemplo, é voltada exclusivamente para recrutamento de profissionais.

 

INVESTIMENTO ZERO

Mesmo com perfil ativo nas plataformas mais populares, a GM anunciou em maio o fim dos gastos

com publicidade em redes sociais como o Facebook.

NÃO DÁ PARA FUGIR DAS FINANÇAS

 

NINGUÉM PRECISA ser um especialista em economia ou contabilidade. Só que a educação financeira, mesmo que básica, é essencial para um leitura mais precisa das operações da empresa. Segundo Haroldo Mota, professor de finanças da Fundação Dom Cabral, a gestão do fluxo de caixa nunca pode ser totalmente delegada a outra pessoa. Na entrevista abaixo, ele explica por que todo empreendedor deve assumir o controle dos números da empresa.

 

Qual é a importância do conhecimento financeiro para empreendedores?

Finanças são uma linguagem de negócios. É impossível tocar uma empresa sem falar esse idioma. Mesmo que a área seja terceirizada, o empresário precisa saber acompanhar o trabalho do contador corretamente. Não basta bater os números no final do mês. É necessário acompanhar a performance da empresa de forma estratégica.

 

Por que as pessoas enxergam a contabilidade como um bicho de sete cabeças?

Existe muito preconceito em relação ao assunto. A contabilidade é maltratada no Brasil. É preciso entender que o mercado atual demanda uma análise científica de toda a empresa. Isso também

 

Qual é a melhor forma para se familiarizar com os números?

O caminho é o mesmo de qualquer disciplina de negócios: cursos, livros, conteúdo

online … É interessante começar pelas áreas mais críticas, como controle de fluxo de caixa, análise de linhas de crédito e noções elementares de matemática financeira.

 

É IMPORTANTE ESCREVER UM PLANO DE NEGÓCIO

 

Enquanto a maioria dos especialistas aconselha a elaboração de um plano de negócio, um pequeno grupo de estudiosos defende a metodologia do effectuation. Trata-se de uma abordagem mais dinâmica, baseada na experimentação de ideias no lugar de projeções. “O empreendedor não consegue prever o futuro. Ele deve confiar nas próprias habilidades para estruturar o negócio e fazer as adaptações que o mercado demanda. Projeções não ajudam a

melhorar performances”, afirma Saras Sarasvathy, professora da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos.

A abordagem proposta por Sarasvathy pode ser conferida no livro Effectuation: Elements of

Entrepreneurial Expertise, ainda sem tradução para o português. Polêmica, a obra encontrou poucos adeptos no mercado e nas universidades. Para Marcelo Aidar, professor de empreendedorismo e novos negócios da Fundação Getulio Vargas, mesmo que as ideias não sejam colocadas no papel, o plano de negócio acaba sendo traçado de forma intuitiva. Não dá

para deixar de fazer um. “É impossível abrir qualquer empresa sem algum tipo de planejamento. Fazer projeções e estudar o mercado é algo instintivo. Desse modo, não faz sentido deixar de organizar essa inteligência de forma estruturada:’

Sobre a elaboração do plano em si, Aidar propõe um equilíbrio entre a teoria de Sarasvathy e os métodos tradicionais. Segundo o professor, a flexibilidade reúne o melhor dos dois mundos. “O plano de negócio deve ser adaptável. É apenas uma série de diretrizes para orientar empreendedores e investidores. O dinamismo do effectuation pode ser aplicado na construção do material. Uma coisa não exclui a outra:’

 

O CAPITAL DE RISCO É A MELHOR FORMA DE CRESCER

 

Entre o conjunto de mitos detonados no livro Reinvente Sua Empresa, David Heinemeier, fundador da 37 Signals, questiona a corrida desenfreada atrás do capital de risco. Segundo o autor, esse tipo de investimento devia ser o último recurso na hora de levantar dinheiro. Além de tirar a autonomia dos fundadores, Heinemeier acredita que a chegada de uma aporte costume levar à perda de foco. “As pessoas esquecem que, junto com o dinheiro, vem a prestação de contas. Investidores exigem retorno rápido sobre suas apostas.” Segundo ele, isso quase sempre resulta na queda de qualidade para atender às expectativas externas.

Do ponto de vista de quem já atuou dos dois lados do balcão, o posicionamento tende a ser menos radical. É o caso do economista Marco Perlman. Antes de receber uma injeção do fundo DGF pla Digipix, empresa de impressões digitais, o empreendedor atuou como executivo da GP Investimentos. Para Perlman, embora o capital de risco seja um bom caminho para acelerar etapas do negócio, ele nem sempre é a melhor maneira de ganhar escala. “Se o negócio ainda não está robusto, é melhor crescer de forma orgânica. Quem recebe o investimento deve se preparar para fazer mudanças”, diz. “Pode ser uma ótima alternativa para crescer, mas não é apara todo mundo.”

 

TRÊS FERRAMENTAS GRATUITAS PARA MONTAR UM PLANO DE NEGÓCIO

CARTILHA SEBRAE

Da teoria à execução, a página do Sebrae traz um guia com os fundamentos básicos para

criar um plano de negócio. Omaterial pode ser baixado na seção “Quero Abrir um Negócio”,

no sitewww.sebrae.com.br

MOVIMENTO EMPREENDA

OMovimento Empreenda, iniciativa daEditora Globo para apoiar novos negócios, oferece uma

seção de ferramentas gratuitas para o empreendedor. Entre elas, está o MAT,um plano de negócio

voltado para o planejamento da evolução financeira e a análise de oportunidades.

http://www.movimentoempreenda.com.br

EASVPLAN

OEasyplan é uma ferramenta online para montar planos de negócios. Aplataforma tem uma

versão gratuita, na qual os modelos criados ficam disponíveis para consultas de outros usuários.

http://www.planodenegocios.com.br

 

 

EMPREENDEDORES PRECISAM SER BONS VENDEDORES

Mesmo que seja apenas uma ideia, todo empreendedor vai precisar vender alguma coisa

em determinado momento. É o que diz Silvio Meira, fundador e cientista-chefe do Centro de

Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.), núcleo de inteligência de negócios

do Porto Digital. “O principal papel do empreendedor é” formar redes. Isso vale tanto para investidores como para colaboradores que vão fazer o negócio funcionar. O fundador

precisa ser o principal vendedor de seu produto. Não há como escapar disso:’

4 DICAS PARA VENDER MELHOR

DESENVOLVA HABILIDADES

O talento para as vendas pode ser trabalhado em qualquer pessoa. Cursos de comunicação pessoal e sessões de coaching com especialistas podem ser um bom começo para despertar vendedor dentro de você.

BUSQUE PARCERIAS

Procure cercar-se de pessoas com habilidades complementares às suas. Em alguns casos, a deficiência na parte de vendas pode ser compensada com a presença de um sócio ou colaborador que tenha essa habilidade.

TRACE METAS

Por melhor que seja, dificilmente uma ideia se vende sozinha. Na maioria dos casos, as pessoas precisam ser informadas sobre os benefícios de um produto. Desse modo, metas de marketing e vendas devem ser seguidas com o mesmo rigor de processos de desenvolvimento.

FOQUE NO ATENDIMENTO.

A personalização de atendimento e transparência são alguns dos maiores fatores de conversão de vendas. Lembre-se de que uma experiência de compra positiva é a melhor forma de fidelizar clientes.

 

O INCANSÁVEL OZIRES SILVA

AOS 81 ANOS, O FUNDADOR DA EMBRAER CONTINUA A.INVESTIR EM INOVAÇAO

POR: MARISA ADÁN GIL

 

ldeia – “Na escola, vivia ouvindo a história de Santos Dumont. Então não entendia por que todos os aviões do Aeroclube de Bauru, minha cidade natal, eram americanos. Já formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA),fui trabalhar no Centro Técnico Aeroespacial (CTA),em São José dos Campos, e tive a chance de conversar com donos de fábricas de aviões. Finalmente entendi por que a nossa indústria não decolava: os brasileiros estavam fazendo aviões semelhantes aos americanos e franceses. Não tínhamos condições de competir com eles: para sermos bem-sucedidos, era preciso fazer algo diferente.”

Oportunidade – “Uma noite, estudando um relatório, percebi que apenas 45 cidades no Brasil tinham serviço de transporte aéreo; dez anos antes, eram 400. Achegada dos grandes aviões havia acabado com o tráfego aéreo regional. Era preciso fabricar um avião que trouxesse o transporte aéreo de volta para as pequenas cidades. A oportunidade estava ali, bastava alguém agarrá-la.”

Execução – “Depois de enfrentar alguma oposição, consegui dar início ao projeto de fabricar o avião dentro do CTA.Em outubro de 1968, o Bandeirante alçou voo. Passei a perseguir a ideia de criar uma empresa. Um dia, para minha sorte, o avião onde estava o presidente Arthur da Costa e Silva foi desviado para São José dos Campos. Depois de muita conversa, consegui que ele autorizasse a criação de uma sociedade de economia mista. No dia 2 de janeiro de 1970,a Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) começou a funcionar.”

Mercado – “Eu sabia que a estratégia seria explorar o nicho da aviação regional. Mas, para sobreviver, tínhamos de fazer um projeto que conquistasse o mercado mundial. Apesar de seguir as especificações internacionais e usar peças importadas, não foi fácil entrar no mercado internacional. O Itamaraty precisou intervir. Em 1978,começamos a vender para os

americanos; a Europa veio na sequência. No começo, a Embraer trabalhava com representantes locais. Como eles cobravam comissões altas, decidimos criar nossa própria rede de vendas. Foi uma guinada importante, porque conseguimos juntar o ganho industrial ao comercial.”

Movimento – “Deixei a Embraer em 1986para assumir o cargo de presidente da Petrobras e, mais tarde, de ministro da Infraestrutura. Não gostei do embate político e decidi sair. Um .dia, recebi um telefonema do ministro da Aeronáutica me perguntando se gostaria de voltar para a Embraer. A situação da empresa era difícil.Desde 1989′,com a escalada do terrorismo, o transporte aéreo·esta.bem declínio e a Embraer havia demitido 60% dos seus empregados. Respondi que só voltaria se a empresa fosse privatizada – a Embraer precisava deixar para trás uma legislação ultrapassada, que limitava seus movimentos. Meu pedido foi aceito.

Recuperação – “Em 1991,comecei o trabalho de recuperação lançando o ERJ145,um jato de 50 lugares. Era um avião competitivo, pesava duas toneladas a menos que o concorrente. Como, eu tinha de lidar com o processo de privatização, encarreguei três engenheiros de acompanhar o projeto de perto: um deles em Frederico Fleury Curado, atual presidente da companhia. Saí em 1995,porque achei que a Embraer precisava de sangue novo. Renovação é importante.”

Futuro – “Hoje, meu foco é a educação. No meu blog, defendo que o Brasil precisa aumentar o grau de competência brasileira, como fizeram a Coreia do Sul e a China. Sempre acreditei que o país deveria ter produtos competitivos, para disputar um mercado globalizado. Para isso, precisamos de profissionais qualificados, que possam inovar.”

 

ARTESÃS EM REDE

EM UMA PONTA, ESTÃO ARTESÃS DE COMUNIDADES CARENTES DO RIO,QUE

RECEBEM CAPACITAÇÃO PARA CRIAR PRODUTOS DE QUALIDADE. NA OUTRA, ESTÃO REVENDEDORAS ,EXPERIENTES, QUE CONQUISTAM CLIENTES DAS CLASSES A E BCOM A AJUDA , DE CATALOGOS CAPRICHADOS O RESULTADO É A ASTA, UMA REDE DE QUE CONGREGA 38 GRUPOS DE ARTESÃOS E BENEFICIA 750 PESSOAS

POR FABIANA PIRES E MARISA ADÁN GIL

 

Larguei a escola quando cursava a sétima série, há muitos anos. Ter renda própria, foi um incentivo para eu voltar a estudar. Uma coisa puxa a outra. Agente cresce como pessoa e quer fazer mais, aprender mais”

ANA CRISTINA KRUGEL, DO ATELIÊ MÃOS BRASIL

 

Em um dia quente de setembro de 2005, as cariocas Alice Freitas,33 anos, e RacheI Schettino,35, encheram a caminhonete com centenas de jogos americanos feitos com

jornal, cola, tinta e verniz. Elas estavam deixando uma cooperativa de catadores de lixo em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, e se dirigiam para uma feira artesanato em um dos pontos mais chiques da cidade. Naquele dia, quem passou pelo estande de Alice e RacheI ouviu a história por trás daqueles produtos. Soube que haviam sido feitos por mulheres que moravam em regiões muito pobres do Rio. Soube que essas mulheres haviam sido excluídas do mercado de trabalho. Soube ainda que, depois de apenas um semestre de treinamento, essas artesãs haviam aprendido a fazer peças de alta qualidade, como as que estavam à venda ali. Ao final .da feira, voltaram para suas casas com a sensação de dever cumprido – e uma caminhonete vazia. O que Alice e RacheI não contaram foi que ensinar essas mulheres a fazer artesanato de qualidade deu um trabalho danado. Um ano antes, em 2004, as duas amigas haviam decidido abandonar a vida corporativa para se dedicar à economia solidária. Formada em Direito, Alice havia deixado um emprego em uma grande empresa para viajar pela Ásia, estudando iniciativas sociais. “Voltei quatro meses depois. Estava magra, exausta e encantada com os resultados da economia solidária”, diz. Já Rachel retornava ao Brasil depois de passar uma temporada na Suíça, onde trabalhou como gerente de vendas. “Eu estava mandando currículo para empresas quando a Alice me contou sua idéia de fundar um empreendimento social.”

Juntas, as duas começaram a estudar o mercado. “Percebemos que havia muita gerente na área, mas nem sempre os negócios eram lucrativos”, diz Alice. “Alguns empreendedores sociais pecam por não tentar descobrir a demanda do cliente. Na economia solidária, espera-se que os consumidores se adaptem àquilo que o artesão faz, porque é ele que passa por dificuldades. Não existe uma visão empreendedora.” Desde o começo, as duas sócias perceberam que teriam de investir em capacitação. “Nós precisávamos ter certeza de que conseguiríamos vender. Foi necessário entender o que o mercado desejava, e daí orientar os grupos de artesãos para que chegassem a esse resultado.”

Demorou três anos para que as duas amigas estruturassem a Asta, uma rede dedicada a comercializar produtos feitos por artesãos de regiões pobres do Rio, Hoje, a empresa conta com um time de designers responsáveis por pesquisar as tendências de consumo do país. Com esses dados nas mãos, orientam os 38 grupos produtores para que criem peças compatíveis com o gosto dos clientes – a maioria, mulheres das classes A e B. “Muito do que vendemos é feito a partir de jornal, plástico reciclado e papel. Mas os clientes não percebem, porque é muito bem-feito”, diz Alice. Em 2011, a rede teve um faturamento de R$ 650 mil.

 

 

“Desde que comecei a ter renda própria, minha família me olha diferente. A opinião deles sobre mim mudou. Eles perceberam que sou uma mulher independente e me respeitam mais por isso”

LÚCIA FREITAS, DO ATELIÊ FUXICARTE

 

“Antes de me associar à Asta, não tinha uma renda fixa. Fico surpresa ao ver como o negócio

cresceu. Estou conseguindo ajudar minha família inteira”

LÉA DE ALMEIDA, 50 ANOS, DOATELIÊ CRIANDO ARTE

 

Quem pretende fechar uma parceria com a Asta, hoje, precisa encarar uma lista de espera com mais de 50 ateliês. Para fazer parte da rede, o grupo produtor precisa cumprir alguns requisitos, como usar materiais reutilizáveis (veja quadro na pág. anterior). Além disso, 60% dos integrantes do grupo devem ser do sexo feminino. “A mulher aplica a maior parte de sua renda na casa e na família – o que nem sempre acontece como homem”, diz Alice. “Ao dar maior apoio às artesãs, ajudamos mais gente!’ Segundo sua estimativa, o trabalho da rede beneficia hoje um total de 750 pessoas.

“A Asta tem uma visão abrangente da cadeia produtiva. Assim, transforma a vida de mulheres na base da pirâmide, impactando sua renda e sua autonomia”, diz Mônica de Roure, diretora no Brasil da Ashoka, organização mundial de apoio aos negócios sociais. A opinião é compartilhada por Lúcia Freitas, de 38 anos, dona do ateliê Fuxicarte. E ela a criadora do Fuxicão, uma almofada que se tomou o item mais vendido da Asta. Casada há 20 anos com um cobrador, a artesã tem três filhos, entre 14e 18 anos. “Desde que comecei a ter a minha própria renda, minha família me olha diferente”, diz Lúcia “Eles perceberam que agora sou

uma mulher independente e me respeitam mais por isso!’

 

TRAIÇÃO E VINGANÇA NO VALE DO SILÍCIO

Ele foi despedido da empresa que ajudou a criar, o Yousendit. Humilhado e furioso, decidiu que ia revidar, lançando ataques cibernéticos contra seus ex-sócios. Hoje, cumpre pena de três anos pelos crimes

Por Burt Helm Ilustração Annabel Briens

 

Nos escritórios do vale do silício, o retrato emoldurado do fundador é tão comum quanto os móveis coloridos e as salas de reuniões com nomes inusitados. No lobby do YouSendlt, empresa de compartilhamento de arquivos com base em San Jose, Califórnia, não poderia ser

ferente. Ali, a foto do criador da empresa vem acompanhada por uma frase vagamente inspiracional. “Vamos ajudar nossos usuários a iniciar novos tipos de conversas, que eles não podiam ter antes de descobrir o YouSendlt.” – Ranjith Kumaran, fundador. Até aí, nada demais – não fosse pelo fato de que Ranjith Kumaran não foi a única pessoa a fundar a empresa. Outra pessoa escreveu o código original, construiu primeiros servidores e foi o primeiro presidente da companhia. Seu nome é Khalid Shaikh, 34 anos. Antes de criar com dois amigos o YouSendlt, ele se formou em engenharia da computação pela Universidade McGill, de Montreal, fez um estágio na Microsoft, trabalhou na Hewlett-Packard e na Intel. Hoje, cumpre pena em um centro

de reabilitação por lançar, há pouco mais de três anos, um ataque cibernético que paralisou por quatro horas e meia os servidores da empresa.

Para os milhões de espectadores que assistiram A Rede Social, a história não chega a ser surpreendente. Ao contrário, parece mais um caso típico do Vale do Silício: empreendedor jovem e talentoso se volta contra a empresa que ajudou a criar. “Estive envolvido com dezenas de startups, e não há nada de extraordinário na história do YouSendlt”, diz Nick Sturiale, membro do conselho de diretores da empresa No dia em que ele conheceu Shaikh, diz, “nada do que ele disse ou fez indicava o que aconteceria depois.”

Como tantos outros empreendedores, Shaikh se mudou para o Vale do Silício em 2000, com o sonho de lançar uma startup. Filho de imigrantes paquistaneses, ele se apaixonou por computadores ainda na adolescência. Enquanto cursava engenharia da computação, assistiu de longe à explosão das empresas ponto.com. Sua primeira incursão no mundo digital foi como estagiário da Microsoft. O emprego seguinte seria na Symbol Technologies, empresa que fabricava leitores de códigos de barras. Foi nessa época que fez amizade com outro sonhador, Jan Mahler. Como Shaikh, Mabler havia crescido em uma família pobre e conservadora. Para se divertir, os amigos disputavam corridas em seus Mitsubishis.

Em 2003, Shaikh disse ao amigo que estava abrindo uma empresa com dois sócios. A ideia era criar um site que permitisse aos usuários enviar arquivos pesados pela internet. Mahler já conhecia um dos sócios, o irmão mais velho de Shaikh, Amir, e tinha ouvido falar de Ranjith Kumaran, antigo parceiro de programação de KhaIid na facuIdade. Mesmo assim, recusou o convite para entrar na startup, pois não queria trabalhar ao lado dos dois irmãos, que costumavam discutir o tempo todo. “Eles eram irritantes”, diz. Além disso, duvidava que a ideia desse certo.

Mahler estava errado. Em maio de 2004 a empresa já tinha 300 mil usuários. Os três fundadores haviam dividido as tarefas: Amir Shaikh cuidava dos anunciantes, Kumaran estava focado na experiência do usuário e KhaIid Shaikh era o encarregado da parte técnica ParaKhalid, que ainda trabalhavana Symbol, essa era uma tarefa gigantesca Otráfego estava crescendo 30% ao mês e a quantidade de clownIoads ameaçava congestionar os servidores. À noite, trabalhando na sala de sua casa, Khalid construía um servidor depois do outro. Depois, em seu horário de almoço, os instalava em um Data Centerali perto. O trabalho duro rendeu a ele o título de CEO da companhia.

Em setembro de 2004, quando a Cambrian Ventures fez um investimento de US$ 250 mil, a estratégia dos fundadores foi simples. “Fomos em frente e compramos mais servidores”, diz Amir. No início de 2005, os sócios já haviam deixado seus empregos e estabelecido um salário de US$ 120 mil para cada um. Naquele ano, Khalid comprou um Porsche Boxster, Kumaran adquiriu uma casa de US$ 650 mil e Amir investiu em uma residência com cinco quartos em Nova Jersey.

Em 2005, a companhia estava prestes a alcançar um faturamento de US$ 1milhão – o bastante para bancar um crescimento estável, mas não para acelerar o processo. Era o momento de ir atrás de mais investidores. Como os três sabiam pouco sobre como levantar capital, contrataram Randy Korba, um amigo dos investidores da Cambrian Ventures, para ajudar a dirigir a empresa. Durante reuniões com representantes dos fundos, ficou claro que os Irmãos Shaikh não tinham o menor talento para relações públicas. Khalid, em particular, era um problema “Na frente de figuras importantes, ele travava”, diz Kumaran. Depois de algum tempo, Korba e Kumaran começaram a ir às reuniões sozinhos. Então, um dia, Kumaran disse que queria o cargo de CEO.Os irmãos não fizeram nenhuma objeção. Todos eles tinham a mesma porcentagem de ações. Que diferença faria um título?

No verão de 2005, Korba e Kumaran encontraram dois investidores dispostos a apostar na empresa: Ammar Hanafi, sócio da Alloy Ventures, e Nick Sturiale, da Sevin Rosen Funds. OYouSendIt recebeu US$ 5 milhões em aportes, e os investidores abocanharam uma participação considerável na empresa. Enquanto isso, cada um dos três fundadores ficou

com menos de 3% da companhia. Durante o processo, os três sócios originais não chegaram a avaliar se a empresa realmente precisava de US$ 5 milhões, ou o que significava abrir mão do controle acionário. “Foi mais ou menos arbitrário. Não havia razão para levantar aquela quantia”, diz Amir. De acordo com ele, Korba e Kumaran deram aos irmãos apenas as páginas que eles teriam de assinar. Eles tiveram de pedir para ver o resto da documentação. (Kumaran

nega que isso tenha acontecido. Já Korba diz que duvida ter lido o documento inteiro.) Para os Shaikh, a mensagem era clara: “Assinem e pronto”.

De qualquer maneira, Khalid comemorou quando os US$ 5milhões foram transferidos para a conta bancária do YouSendIt, em agosto de 2005. Naquele dia, ele capturou a tela do extrato da empresa e a enviou por e-mail para Mahler. Se o ex-colega ainda tinha dúvidas sobre as perspectivas do YouSendIt, estas se extinguiram. Duas semanas depois, ele se juntou à empresa como gerente de operações da rede.

Pouco tempo depois de conseguir o financiamento, os fundadores do YouSendIt tomaram decisões que prejudicaram o funcionamento da empresa. Para economizar, resolveram mudar o sistema operacional dos servidores, trocando os caros programas da Microsoft pelas ferramentas abertas do Linux. Khalid e seus funcionários reescreveram o código e transferiram os servidores aos poucos, mas pequenos erros faziam as máquinas travar. Em uma tentativa

de atrair mais assinantes pagos, Kumaran limitou o número de downloads por arquivo e passou a exigir que os usuários se registrassem. Resultado: em um ano, o número de visitantes mensais caiu 60%.

Na reunião seguinte do conselho de diretores, o principal tópico da conversa foi: por que a base de usuários havia estacionado? Quando Korba começou a culpar as falhas nos servidores, Khalid entrou em pânico. “Identificamos quais são os funcionários fracos na equipe de engenharia?”, perguntou Korba. Depois de todo o trabalho que ele havia tido para fazer os servidores funcionarem, Khalid não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Ele passou a virar as noites para garantir que as máquinas trabalhassem sem nenhuma interrupção.

Então, um dia, Kumaran pediu a Amir que viesse até a sala de reuniões e deu a notícia: ele estava demitido. “Os investidores acham que você não se encaixa na empresa”, disse. Segundo Kumaran, Amir era “pouco produtivo” e não conseguia alcançar as metas de vendas de anúncios. Para Khalid, foi uma tomada de poder, pura e simples. Na sua visão, o resultado

dessa decisão é que ele não tinha mais capital – nem um irmão para lhe dar suporte.

Em maio, Ivan Koon, um executivo proveniente da Adobe, foi contratado para ser o novo CEO da empresa. Shaikh decidiu que faria o que fosse preciso para impressionar Koon. Mudou o visual, mostrou-se mais exigente como gerente e começou a participar de eventos de tecnologia O primeiro deles foi o WebMonsters, em Las Vegas. Ali, Shaikh passou a conviver com líderes do mundo tecnológico em situações que havia aprendido a evitar, com amplo acesso à bebida e ao jogo. A certa altura, diz Shaikh, algumas pessoas se separaram do grupo e foram a um clube destriptease. Shaikh diz que ficou intimidado naquela noite – mas, em outras ocasiões, não evitaria essas atividades. Na sequência, o empreendedor foi a mais duas conferências. Entre taxas de inscrição, diárias de hotéis e refeições caras, gastou de US$ 5 mil a US$ 8 mil em cada evento. Nem todos os gastos podiam ser colocados no relatório de despesas. De volta à empresa, Shaikh deu uma espiada nos racks de servidores, muitos dos quais ele havia construído. Pegou alguns switches de rede que não eram usados, no valor de US$ 2.400, e colocou à vendeno eBay. Para ter certeza de que a falta de peças não causaria problemas ao departamento de tecnologia, Shaikh contou o que tinha feito a Mahler. Furioso, ele ligou para Kumaran. “Preciso te contar algo que Khalid está fazendo.” No fim de semana do dia 11de novembro de 2006, Koon confrontou Shaikh sobre os switches desaparecidos e disse a ele para não voltar ao trabalho na segunda-feira. O sócio tentou argumentar, dizendo que pretendia dar o dinheiro à empresa, mas Koon não acreditou. Segundo Shaikh, depois de meses de negociação, ele recebeu uma indenização de US$ 50 mil, e concordou em vender suas ações por US$ 73 mil, bem menos do que haviam sido avaliadas no passado.

Shaikh estava furioso e desesperado. Queria conversar com alguém, mas praticamente todos os contatos armazenados no seu telefone trabalhavam para o YouSendlt. Também havia brigado com a esposa – eles se divorciariam menos de um ano depois. “Eu me lembro de ir para a cama desejando que Deus me matasse”, ele escreveria mais tarde em seu blog pessoal.

Depois de alguns meses sombrios, Shaikh começou a reorganizar a sua vida. Em março de ZÓ07, foi contratado pela Intel como consultor. Depois, ele e Mahler fizeram as pazes e passaram a trabalhar juntos em alguns projetos. Um deles era a FlyUpload, uma concorrente do YouSendlt. Mais tarde, os dois amigos compraram uma empresa chamada Ucash.in, com o objetivo de melhorar o site e vender. (Algum tempo depois, Mahler também perderia seu emprego no YouSendIt.) Outro projeto de Shaikhera a perfect Acumen, uma empresa de aplicativos para iPhone que ele fundou em 2008 ao lado de sua nova esposa, Saroash Syed, de origem paquistanesa.

Mesmo com os novos desafios, o espectro do YouSendlt continuava a rondar Shaikh. Quando o site passou a listar apenas Ranjith Kumaran como fundador da empresa, Shaikh decidiu extravasar sua frustração em um blog que chamou de YouSendItDeath watch.com. Além disso, consultou um advogado sobre a possibilidade de processar a empresa por demissão indevida Também considerou levara companhia ao tribunal de pequenas causas, mas não foi adiante.

Depois da saída de Shaikh, o YouSendIt continuou a crescer. A empresa havia recebido mais US$ 14 milhões em aportes e contava com 100 mil assinantes pagos. Ainda assim, Shaikh ficava admirado ao ver quantas vezes o site saía do ar. Durante sua permanência na empresa, havia sido alvo do que ele chamou de “pressão insensata”para manter os servidores funcionando. Agora, ninguém parecia se importar.

Então, numa manhã de dezembro de 2008, Shaikh rodou um software detestes chamado ApacheBench, que encheu de tráfego os servidores do YouSendIt. As máquinas pararam. O ataque durou cerca de 12 horas. Sempre que o time de engenheiros encontrava a fonte do ataque e bloqueava o endereço de IP, Shaikh lançava um ataque de outro endereço. No total, ele tirou o site do ar por quatro horas e meia Uma semana depois, Kumaran denunciou os ataques cibernéticos ao FBl. Ele disse que suspeitava de Khalid Shaikh.

Shaikh nunca imaginou que as autoridades iam se interessar por suas atividades. Para ele, tudo não passava de uma brincadeira, um jeito de aliviar a tensão. Por isso, voltou normalmente ao seu emprego, numa empresa chamada nVidia. Ele não sabia que agentes

estavam confiscando seus registros na internet.

Em 2009, houve mais três ataques cibernéticos ao YouSendlt. O último ocorreu pouco depois da meia noite de 14 de junho. Cerca de cinco horas depois, começaram a aparecer mudanças na página da empresa na Wikipedia Na história do site, passou a constar o seguinte trecho: “No começo de zoog, Ranjith Kumaran contratou Randy Korba na tentativa de dominar a companhia, enquanto cortava as comunicações com os dois fundadores, Khalid Shaikh e Amir

Shaikh”. (Shaikhnão confirma nem nega a responsabilidade pelos ataques. Ele diz que não teve nada a ver com as mudanças na Wikipedia)

Em setembro de 2009, Shaikh recebeu uma chamada no seu celular. Era Jan Mahler. “Um investigador particular deixou um recado no meu celular”, disse. “O que está acontecendo? Por que eles estão me procurando?” A mulher de Shaikh, Saroash, sugeriu que todos se encontrassem pessoalmente. Mahler se ofereceu para encontrá-los em um restaurante tailandês em San Jose. Eles passaram a refeição revendo os fatos, procurando motivos para uma investigação.

Na manhã seguinte, depois que ele foi para o trabalho, sua mulher foi até os escritórios regionais do FBI e pediu para saber o que estava acontecendo. Um agente veio recebê-la. “A senhora é a advogada de Khalid Shaikh?”, perguntou. “Não, sou a esposa dele”, ela respondeu. O agente disse que eles queriam falar com o próprio Shaikh. Naquela noite, o casal voltou ao escritório do FBI. Saroash ficou no saguão enquanto seu marido era entrevistado em uma sala ao lado. Como quase todo mundo tinha ido embora, ninguém percebeu quando ela se levantou e escutou junto à porta. Lá dentro os agentes faziam perguntas sobre o passado de Shaikh. A mulher de Shaikh podia ouvi-lo gaguejar, como fazia quando ficava emocionado ou nervoso.

 

Depois de ouvir parte da conversa, a esposa de Shaikh invadiu a sala e disse ao marido: “Khalid, vamos embora”. Ela tinha ido até lá porque pensou que eles poderiam cooperar com a investigação do FBI, mas aquilo mais parecida um interrogatório. Confuso, Shaikh concordou em sair. O casal contratou um advogado de defesa criminalista e se preparou para o pior. Uma semana depois que a mulher de Shaikh deu à luz uma menina, seu advogado recebeu documentos de provas legais que incluíam relatórios do FBI. Shaikh havia dito o suficiente naquele encontro para dar aos agentes do FBI material para trabalhar.

Em 28 de outubro de 2009, Shaikh foi denunciado em quatro casos de fraude informática, por atacar os servidores do YouSendIt. Ele foi libertado com uma fiança de US$ 100 mil. Em junho de 2011, se declarou culpado da primeira acusação, o ciberataque que ocorreu em dezembro de 2008. No dia 30 de abril de 2012, sua sentença foi revelada: seis meses em um centro de reabilitação, com possibilidade de ser transferido para uma prisão domicilar no prazo de 90 dias, por bom comportamento; obrigatoriamente de tratamento psicológico; três anos em liberdade condicional; mais de US$ 50 mil em restituição ao YouSendIt e multas.

Shaikh ainda não entende por que tirar a empresa do ar durante algumas horas eclipsou tudo o que ele fez pela companhia. “Por que eles não falam sobre quando eu estava fazendo de tudo para que a empresa funcionasse?”, pergunta. “Minhões de dólares depois, eu faço algo tão pequeno e vira algo tão importante?” Na opinião de Shaikh, ele apenas escolheu um método inadequado para se expressar. “Eu desabafei usando a tecnologia”, ele diz. “Obviamente, foi o jeito errado.”

 

COMO VENDER PARA O GOVERNO?

AS COMPRAS DO SETOR PÚBLICO OFERECEM ÓTIMAS CONDIÇÕES PARA MICRO E PEQUENAS EMPRESAS. MAS É PRECISO ESTAR BEM PREPARADO PARA CUMPRIR AS EXIGÊNCIAS

POR Márcio Ferrari

ILUSTRAÇÃO Davi Augusto

 

R: Vender para o governo é um bom negócio, principalmente para as micro e pequenas empresas, que dispõem de condições especiais nas licitações públicas (veja tabela ao lado). O bom momento da economia e as obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 tomam o cenário ainda mais atraente – prova disso foi o anúncio, feito em junho pelo Ministério da Fazenda, de que o governo federal elevaria em R$ 6,61 bilhões os gastos com

compras de máquinas, equipamentos e veículos. “As pequenas se beneficiam das vendas diretas e do fornecimento de bens e serviços para as empresas encarregadas das grandes obras”, diz Delfino Natal de Souza, secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento. Um desempenho inicial positivo facilita novos contratos.

Para aproveitar os bons negócios oferecidos pelo setor público, é preciso estar com a empresa

preparada e qualificada para atender às exigências dos editais, sempre muito rigorosas. Não há possibilidade de renegociar condições, nem de recuar no preço – pregões eletrônicos, hoje majoritários, uma vez feita a proposta, é definitiva. “Ao entrar nessa atividade, as empresas precisam estar conscientes da seriedade do negócio”, diz Ariosto Mila Peixoto, advogado especialista em licitações e contratos administrativos. A seguir, um guia para participar com segurança do setor.

PREPARE-SE

Participar de compras governamentais demanda conhecimentos específicos e atenção a muitos detalhes. Para aprender o básico, nada substitui um bom curso ou encontro de negócios. “Além de aprender como funciona, eu pude ter uma dimensão da grande demanda do setor público”, diz Flávio Rocha Miranda, da empresa Gemapel, de Juiz de Fora (MG), que começou a participar de licitações depois de um encontro promovido pelo Sebrae em 2007.

A empresa candidata a fornecedora precisa estar formalizada e com tudo pronto para um salto em,escala – Miranda diz que seu negócio passou a crescer de 20% a 30%ao ano. Com os dados jurídicos e fiscais, cadastre-se no portal de compras do governo federal (www.comprasnet.gov.br), que, além de informar, estimula o empresário a se manter em dia com as obrigações. Há cerca de cem outros portais, mas recomenda-se conhecer bem um antes de se cadastrar em outros.

Por praticidade e para evitar fraudes, os governos dão preferência às ferramentas eletrônicas para realizar as compras. Por isso, as futuras fornecedoras devem criar condições para atuar eletronicamente. Recomenda-se que uma pessoa seja designada para cuidar disso – ela terá a grande responsabilidade de fazer os lances durante os pregões.

INFORME-SE

Uma vez cadastrado, solicite a senha de acesso. O mesmo vale para outros portais – o mais amplo depois do Comprasnet é o Cidade Compras (www.cidadecompras.com.br), que trabalha com as administrações municipais (mas não todas).

Alguns portais enviam e-mails para divulgar licitações, outros precisam ser acessados constantemente. Além disso, muitos editais de compras municipais são publicados apenas

nos Diários Oficiais. Diversas empresas criam cargos e departamentos exclusivos, ou contratam assessorias, para fazer essa garimpagem. É o caso da Paper House, de Brasília, que presta serviços de decoração. Uma divisão corporativa monitora as compras públicas e mantém informados os órgãos compradores sobre os produtos mais eficientes para revestimento e vedação.

Antes de decidir participar de uma licitação, saiba se o contratante atrasa pagamentos. “O problema já foi bem pior, mas ainda acontece isoladamente”, diz o consultor Ariosto Peixoto. É indispensável ler o edital de ponta a ponta. Até fornecedores experientes às vezes deixam de prestar atenção a um item crucial. “Fomos desclassificados de uma licitação municipal já ganha porque não fizemos visita técnica ao local de uma feira”, diz Roberto Tuzdjian, da Ativa Eventos, de São Paulo.

PARTICIPE

Além dos pregões eletrônicos, existem os presenciais, em que as propostas são entregues em

envelopes lacrados. Já rara, essa modalidade tende a desaparecer, substituída pelos pregões eletrônicos.

Depois do cadastramento e da obtenção de senha nos sites, a empresa já pode participar das

licitações. São dados oito dias úteis para ler o edital, formular preços e enviar a proposta inicial. Em dia e horário marcados, todos os candidatos entram numa sala virtual e o pregoeiro abre a rodada de redução de preços. Tudo em absoluto anonimato.

Quando o pregoeiro percebe que chegou o momento de acelerar o processo (ou suspender,

por detectar desinteresse), aciona-se o mecanismo de tempo randômico, que pode encerrar a fase competitiva entre 1 segundo e 30 minutos depois. “É uma disparada de lances”, diz o consultor Ariosto Peixoto, que já foi pregoeiro. “Com a adrenalina subindo, corre-se facilmente o risco de perder a racionalidade e oferecer um preço que não se poderá sustentar!’ De todos os alertas sobre licitações, esse é o mais comum e enfático. Assimque a fase de lances é encerrada eletronicamente, o sistema trava e os licitantes são identificados. As micro e pequenas ainda têm a vantagem do desempate ou de cobrir a oferta de uma grande (leia quadro na pág. 100).

 

AS REGRAS DO JOGO

O ACORDO ACIONÁRIO É UMA ETAPA FUNDAMENTAL NA ABERTURA DE UMA EMPRESA. SAIBA COMO ELABORAR O DOCUMENTO QUE ESTABELECE AS REGRAS BÁSICAS PARA O FUNCIONAMENTO DA SOCIEDADE

Por Felipe Datt

 

A definição de um modelo de negócios e a escolha dos sócios são dois elementos-chave na vida dos novos empreendedores. Muitos deles, porém, esquecem de um passo indispensável na abertura da empresa: o acordo societário. De acordo com os especialistas, o documento deve conter cláusulas que estabeleçam regras gerais de funcionamento da sociedade: quais são as atribuições dos sócios e como estabelecer o pró-labore, entre outros. “Muitas empresas enfrentam problemas sérios por causa de acordos malfeitos ou não formalizados”, diz André de Almeida, do Almeida Advogados. A seguir, os principais temas que devem ser abordados no acordo.

PODERES DE GESTÃO

No texto de acordo, deve ficar claro quem são os sócios-diretores e quais suas atribuições no dia a dia. É preciso incluir cláusulas que definam quem são os responsáveis pela tomada de decisões em assuntos estratégicos, como aprovação do orçamento final de cada exercício fiscal, a assinatura de um contrato de alto valor ou a entrada de um novo sócio. “Os mecanismos de governança devem estar bem claros no acordo”, diz Daniel Tardelli Pessoa, sócio do Levy & Salomão advogados. “O documento pode prever a criação de órgãos previstos em lei, como a diretoria e o conselho de administração, e outros não previstos, como o conselho consultivo.”

SAÍDA DE SÓCIOS

As normas para a transferência de cotas devem estar muito claras no acordo societário. Dispor livremente de suas cotas é direito constitucional dos sócios. Mas, para evitar problemas, o acordo pode estabelecer cláusulas que atendam a situações específicas. Uma delas é o chamado direito de primeira oferta: caso um sócio decida sair da empresa, deve pedir aos demais que ofereçam um valor pelas suas ações. Só depois pode tentar vender para terceiros.

Outro mecanismo importante é o direito de preferência. Se um sócio receber uma oferta pela sua participação societária, ele deve primeiro dar aos outros membros da sociedade a oportunidade de cobrir a oferta, evitando a entrada de uma pessoa de fora. Caso não haja interesse dos demais sócios em adquirir sua parte, daí sim ele poderá fazer a venda.

É indicada ainda a adoção de regras relativas a restrições de alienação de participação societária – estas definem o valor que o sócio tem a receber quando deixa o negócio.  “Pela lei, é preciso apurar o patrimônio líquido. Mas a jurisprudência pode pedir a avaliação de ativos e passivos, de acordo com o valor de mercado atualizado desses bens”, diz Daniel Tardelli Pessoa, do Levy & Salomão.

REMUNERAÇÃO

O “salário” dos sócios é um dos principais focos de conflito em uma empresa nascente. Para começar, deve-se estabelecer quais são os sócios que receberão o pró-labore. “O acordo deve determinar quem tem esse direito. Não é o caso de definir valores, já que eles poderão ser atualizados mensalmente, semestralmente ou anualmente”, diz André de Almeida. Na dúvida sobre os valores ideais, a sugestão é remunerar de acordo com o que o mercado pagaria para um profissional na mesma função.

Conflitos sobre distribuição de lucros também são comuns. “Em uma sociedade anônima, o acionista tem direito a um dividendo mínimo obrigatório. Nas limitadas, essa distribuição depende da deliberação dos sócios, já que eles têm o direito de participar nos lucros e nas perdas. Alguns membros da sociedade podem decidir reinvestir o lucro na empresa. Caso os outros não concordem, podem ir à Justiça e reclamar o retorno do seu investimento”, diz Daniel Tardelli Pessoa.

Impasses desse tipo podem acontecer a qualquer momento. Por isso é prudente incluir no acordo societário uma cláusula que indique como esse tipo de dilema será resolvido: na Justiça, ou por meio de uma arbitragem. “Cerca de 60% dos nossos clientes são pequenas empresas”, diz a advogada da Câmara de Arbitragem e Mediação de São Paulo (Carmesp), Adriana Vilela Luiz.

 

6 INOVACOES PARA O kINECT

CONHEÇA AS EMPRESAS QUE USARAM O SEN$QR·· DO XBOX PARA DESENVOLVER NOVAS IDEIAS E NEGÓCIO E GANHARAM O APOIO DO PROGRAMA KINECT ACCELERATOR, DA MICROSOFT.

Com 18 milhões de unidades vendidas no mundo, o Kinect,sensor de Captação de movimentos do XBox, ajudou a colocara Microsoft entre as líderes do mercado de games. O  sucesso fez com que a companhia apostasse no desenvolvimento de novas funções para a plataforma. Em janeiro, a Microsoft lançou o Kinect Accelerator, programa de apoio para startups que desenvolvessem aplicações para o sensor. Elaborado em parceria com a aceleradora TechStars,o projeto oferecia US$ 20 mil de capital semente para os vencedores, além de infraestrutura e mentoring. A chamada para a primeira turma do KA atraiu , empreendedores de 60 países. Entre os mais de 500 candidatos, apenas 11foram aprovados para participar do programa, que aconteceu na sede da Microsoft, em Redmond, nos Estados Unidos. No fim de junho, as startups apresentaram seus projetos para uma platéia de investidores e especialistas em tecnologia. Confira ao lado algumas das empresas participantes e suas ideias vencedoras.

1FREAK’N GENIUS

SEDE: Seattle, Estados Unidos Criado pelo ilustrador KyIe Kesterson, o software da Freak’n Genlus transforma o XBox em um gerador de animações interativas. Depois de transferir imagens para o videogame, o usuãrio dã vida aos personagens com sua própria voz e movimentos. Os vídeos podem ser compartilhados no Facebook ou YouTube.

2 GESTSURETECHNOLOGIES

SEDE: Toronto, Canadã O objetivo da GestSure é incorporar a tecnologia do Klnect-a monitores de salas de cirurgia. A solução permite que médicos visualizem imagens de ressonância com o movimento das mãos -liberando enfermeiros para outras funções. A implantação do sistema é feita por uma Simples entrada USB.

3 KIMETRIC

SEDE: Buenos Aires, Argentina Representante latina dó programa, a Klmetric oferece um novo tipo de análise de comportamento do consumidor. A proposta é usar os sensores do aparelho para captar os movimentos de pessoas em pontos de venda físicos. A partir daí são levantadas informações, como o fluxo de circulação e que produtos são mais manuseados.

4 STYKU

SEDE: Los Angeles, Estados Unidos A solução dil Styku ajuda o usuário onlinea,~lher o modelo de roupa mais adequada (lo para o seu tipo físico. Depois de mapear o corpo da pessoa, um simulador 3D combina as medidas com as opções de tamanho e estilo oferecidas pela loja. O usuário pode ainda submeter o resultado às opiniões de amigos nas redes sociais.

5 JINTRONIX

SEDE:Toronto, Canadã Acelerar processos de recuperação em casos de acidentes cardiovasculares é a proposta da Jintronix. Sessões de fisioterapia elaboradas pelos médicos . são inseridas no sistema e podem ser acessadas pelos pacientes de forma remota. Depois, a evolução dos pacientes  é analisada a partir dos movimentos também registrados no Kinect.

6 MANCTL

SEDE: Lyon, França A empresa criou o Skanect, uma adaptação que transforma o Kinect em um scanner 3D. Ao apontar o aparelho para ambientes, objetos ou pessoas, as imagens são convertidas em arquivos tridimensionais. Entre as principais aplicações, estão projeções para empresas de engenharia e de animação.

 

CONTROLE POR GESTOS

Startup da são Francisco levanta US$14,5 milhões

Criada por David Holz e Michael Buckwald, uma dupla de empreendedores do Vale do Silício, a Leap Motion é uma empresa especializada em soluções de captação de movimento. Depois de anunciar o lançamento do Leap, acessório de-controle por gestos para computadores e televisões, a startup de São Francisco despertou o interesse do capital de risco  americano – em junho. recebeu um aporte de US$14.5 milhões do fundo Highland Capital Partners. De acordo com o fabricante. o gadget é até 200_s mais preciso que as outras opções do merca Jo:”como o Kinect, seu maior ccncorrente. Para superar O rival, aposta na popularização da tecnologia: o Leap deverá ser vendido por US$~69,99 e poderá ser . conectado a qualquer dispositivo com uma entrada USB. Seguindo o exemplo da Microsoft, a empresa disponibilizou um klt para programadores interessados em desenvolver novas ide las para o sistema. Ainda em fase de pré-venda, o aparelho tem previsão de lançamento para janeiro de 2013, em versões para Windows e Mac OS X (urna versão para Unux foi prometida pela empresa no segundo semestre). As reservas para o primeiro lote podem ser feitas no slte: wwwJeaprnotlon.com.br.

 

4G

o QUE MUDA COM A CHEGADA DA QUARTA GERAÇÃO DE TELEFONIA E BANDA LARGA Móvel NO BRASIL POR Thomaz Gomes

Até O final de 2013,as cidades sede da próxima Copa do Mundo, no Brasil, poderão contar com a nova rede 4G.A expectativa é que, caso seja implantada de forma adequada, a tecnologia ofereça uma conexão de até 12Mbps – o que significa uma velocidade entre 20 e 40 vezes maior do que as oferecidas atualmente. A exploração das faixas de frequência onde o 4G estará disponível foi dividida entre as maiores operadoras do país, durante um leilão organizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anate1), Q quadro abaixo mostra os números da disputa e as principais mudanças para o consumidor final.`

 

MUITO A COMEMORAR

Taxa de sobrevivência de pequenas empresas cresce graças ao maior planejamento e preparo dos empresários. Desde o início eles sabiam muito bem o que queriam. E estruturaram seu empreendimento com todo o cuidado, levando em conta o planejamento, a logística, a informação e muita imaginação. Os sócios Rogério Macedo Campos e Thiago Dalla Bernardina Lacourt eram colegas no curso de Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes] e sonhavam em ter uma marca de camisetas. “Mas era um sonho bem real e sabíamos que tínhamos que planejar todos os detalhes, principalmente em termos de logística. Eujá tinha o suporte da indústria de confecção da minha família, o que nos dava a tranqüilidade para ter estoque e um centro de distribuição próprios em Vitória (ESln conta Lacourt. Ter esses estoques e o centro eram essenciais para os planos dos dois, que pretendiam fabricar e vender camisetas diferenciadas, mas apenas online, via internet. “Criamos a loja online em 2005 e começamos uma produção pequena – com um estoque de 500 camisetas; conta.

No início, divulgaram a empresa via e-mail e, com o avanço das redes sociais, passaram a anunciar via Orkut, Twittere Facebook, além de providenciarem um site próprio. “Ou seja, fizemos uso de toda a rede social para criar comunidade em torno da marca”, define. Atualmente, a empresa deles,a Samba Club,vende entre 800 e 1.000 camisetas por mês, e o negócio tem se mostrado cada vez mais rentável. “Desde o início, nos posicionamos no mercado com uma camiseta um pouco acima do valor dos  concorrentes, mas com diferenciais, como a alta qualidade da malha e o design caprichado. Também sabíamos que a logística era fundamental. O cliente não quer esperar uma eternidade para receber o produto que encomenda pela internet ~ e tem que ter a confiança de, em caso de necessidade de troca, por exemplo, não haver dificuldade”. Uma parceria com os Correios vem  permitindo agilidade nas entregas em todo o país, embora o maior público, segundo Lacourt, esteja no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e no estado do Espírito Santo. A empresa vende também para países como França e Alemanha. 11 Crescimento Segundo um estudo publicado pelo Sebrae, em dezembro último, 73,1% de todas as novas empresas fundadas no Brasil em 2009 foram bem-sucedidas e estão em plena atividade, contra uma taxa de sobrevivência de 71,9%em 2006. “E um dos grandes motivos foi o maior planejamento e gestão das ações”, analisa Pio Cortizo, diretor da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Nacional. Segundo ele, ao longo das últimas décadas; houve uma mudança no cenário do empreendedorismo brasileiro, e esta taxa de sobrevivência foi ampliada, entre outras razões, porque está se formando uma nova geração de empreendedores, mais escolarizada e disposta a buscar capacitação e informação. “Além disso, o próprio cenário econômico brasileiro a partir da metade da década de 1990 beneficiou a competitividade do empresariado brasileiro”, enfatiza. Quem ganhou nesse novo cenário se empreendedores mais bem preparados e mais maduros foi a própria economia do país, que hoje já tem aproximadamente seis milhões de microempresas e empresas de pequeno porte “e, por este motivo, está no topo da lista de países mais empreendedores do mundo’. De acordo com a pesquisa realizada pelo Sebrae, este total de empresas corresponde  a 97% de todas as empresas  existentes no país, sendo apenas 3% do total formado por empresas médias e grandes. “As micro e pequenas empresas movimentam a economia nacional. Elas empregam cerca de 52% de todos os trabalhadores urbanos do país – aproximadamente 13 milhões de empregos com carteira assinada, e geram 20% do PIS brasileiro’. 11 Inovação Outra face deste novo empreendedor, que começa a colher os frutos de seus esforços na busca de conhecimento e capacitação empresarial, é a inovação nos produtos e serviços. A empresária Cecília Saruel, de São Paulo (SP), é um exemplo. Ela desenvolveu sua carreira na área de vendas, como diretora de uma multi nacional, mas há seis meses é a dona da marca Organizacão, de alimentos naturais para cães, um nicho de mercado que vem se mostrando mais do que atraente. “Só com propaganda boca a boca, temos superado nossas previsões iniciais de produção mensal em cerca de 50%’, conta ela, que pensou no negócio quando planejava montar uma cafeteria, ramo em que sua família já atua e no qual queria investir inicialmente. “Màs tenho um enorme amor por animais, comecei a fazer comida natural para meus cães e os da minha família, vimos grandes benefícios para a saúde deles e, ao fazer , um workshop do Sebrae, chamado Desenvolvendo seu Potencial, me perguntei o que eu gostaria mesmo de fazer, quais as minhas vocações”, explica. A partir daí, todo o plano de negócios feito anteriormente para a cafeteria foi refeito, com a ajuda de consultores do Sebrae. “Fiz inclusive uma pequena pesquisa de mercado, conversando com as pessoas em parques, na rua, e comprovamos que havia uma demanda reprimida por comidas prontas e congeladas para cães.” Hoje a marca vende refeições prontas para cães, em sabores e formatos diferenciados. “O próximo passo é abrir nossa loja própria, até setembro. com nossa cozinha industrial”, comemora.

 

BELEZA PARA TODOS

 Desde sua fundação, em 1988, a paranaense Buona Vita Cosmeticos conta com um diferencial : UM  EFICIENTE SISTEMA DE DISTRIBUICAO. “Logo no inicio, decidimos trabalhar com estoque de ate 90 dias. . “Dessa maneira seria muito difícil não ter um item encomendado”. afirma Luiz Carlos Caramori, sócio da Buona Vita. No começo, a principal forma de venda era por meio der epresentantes, no porta a porta. Em 1997,foi uma das primeiras companhias do setor a usar nanotecnología em seus produtos. “Quando essa técnica começou A se tomar conhecida, os profissionais da área de beleza pediram que fosse criada uma linha específica”, diz Catamori. Com a nova dellUUlCia,aBuona Vita mudou o foco. Apartir de 1999, direcionou os negócios para os profissionais do mercado de estética Atualmente, os 105 produtos da Jauona Vita são comercializados por cem revendedores. A produção é terceirizada entre quatro fábricas, mas sem descuidar da sustentabilidade em todas as linhas. A marca não utiliza óleo mineral nem substâncias a1érgenas. Foram as vendas na internet que impulsionaram a ida da Buona Vita para o mercado internacional. ”Nosso site é acessado por pessoas de 88 países, e foram elas que nos procuraram para fazer as revendas”, diz Caramori. No final de 2011, a empresa passou a ter representantes na Espanha, Peru, Equador, Portugal e Canadá Agora, está em negociações para chegar ao Japão. ParaZ01.2, a previsão é de que os negócios internacionais sejam responsáveis por US$ 4mi1hões em vendas. Para Caramori, que divide a sociedade da empresa com Isabel, sua mulher, o sucesso no exterior é reflexo do trabalho no Brasil. “O mercado de beleza é muito forte por aqui. Os negócios em outros países são um bônus que não esperávamos?’

 

 

 

 

 

 

EXAME PME – AGOSTO

Conexões chinesas

Desde 2006, o empreendedor Kamal Soueid, de 28 anos, vi· sita a China três vezes ao ano para comprar tecidos, botões e outros componentes para as roupas masculinas produzidas por sua empresa, a Soueid Têxtil, de São Paulo. Com o tempo, outros empreendedores brasileiros passaram a lhe pedir que encontrasse forne· cedores de todo tipo de produto. “Já tive de procurar lâm· padas para casa, capacetes de proteção para motociclistas e faróis para carro”, diz Soueid. “Acabei montando uma unidade de negócios com oito fun· cionários em Xangai para dar conta dessas encomendas.” Em 2011, a divisão de cacafornecedores da Soueid representou 15% das receitas – e ajudou a empresa a crescer. No ano passado, o faturamen· to da empresa chegou a 30 milhões de reais, quase 20% mais que em 2010.

 

odiente não quer mais comprar

No início do ano. quando os supermercados de São Paulo deixaram de distribuir sacolas plásticas. A Gatto de Rua. de São Vicente. no litoral paulista. registrou um aumento de 30% nas vendas das sacolas reutilizáveis que fabrica. Em junho. porém. a maré virou. O Ministério Público de São Paulo determinou que os supermercados voltassem a oferecer os sacos plásticos. e a demanda pelo produto da Gatto de Rua diminuiu. “As vendas caíram muito”. diz o empreendedor Mario Gaspar. de 42 anos. Veja o que empresas como a Gatto de Rua podem fazer quando o Interesse dos clientes por um produto cal de uma hora para outra.

 

FRASES DE EFEITO

A ideia Durante um show de rock em 2010, o paulista Diogo Lopes, vestia uma camisa coma palavra de ordem “software livre” -  ele defende a distribuição gratuita de sistemas operacionais, como o linux’’ Uma pessoa se identificou com a mensagem, me abordou e acabou virando meu cliente””  diz Lopes.  Ele então passou a usar essa camiseta – e outras com  gírias do mundo da tecnologia em feiras de negócios.PROS Lopes chama a atenção de pessoas que se interessam por softwares e podem se tornar clientes ou fornecedores. RESULTADOS Desde que Lopes começou a usar camiseta em eventos, o número de negócios fechados nessas ocasiões cresceu 50%.

 

Detectores de mentiras

Para os funcionários da Clearsale, empresa paulista que combate fraudes no comércio eletrônico, uma gagueira ou até mesmo uma tosse podem ser indícios de um golpe. O trabalho deles é identificar, em uma simples ligação telefônica, se o comprador que está do outro lado da linha é ou não um estelionatário.Fazer o diagnóstico correto é difícil – os acertos só vêm com a prática. Para treinar os funcionários e reduzir as falhas, os sócios Bernardo Lustosa, de 36 anos, e Pedro Chiamulera, de 48, criaram um jogo eletrônico. A brincadeira consiste em escutar várias ligações telefônicas e procurar algum sinal de fraude. Os analistas são orientados a suspeitar de tudo: da demora em responder a informações básicas (como o número do próprio RG), de uma fala trêmula, de discursos um tanto _ atrapalhados e de qualquer outra coisa que pareça suspeita. Vence quem identificar mais mentirosos em menos tempo. “Na vida real, os acertos aumentaram muito”, afirma Chiamulera.

 

Os problemas que não saem da cabeca

Uma pesquisa recente mostra que atrair e manter profissionais talentosos é hoje a principal dor de cabeça dos empreendedores brasileiros. Na lista de preocupações. os funcionários aparecem bem à frente da crise econ6mica. da burocracia e até de problemas no caixa. O estudo foi feito pela multinaclonal americana UPS. que entrevistou 800 empreendedores de sete países da América Latina. incluindo o Brasil. O objetivo da pesquisa é identificar as dificuldades que empresas com até 200 funcionários enfrentam e descobrir seus planos para o futuro. Veja as respostas dos braslleiros(1).

 

Uma carona que não é beln carona

Segundo o dicionário Aurélio, a palavra tos parecidos e estimula a carona entre diz. Nos planos de Nigro, sua empresa carona Significa “condução gratuita em elas. Até agora, os 265 000 usuários ca- passará a vender créditos para o passaqualquer veículo”. Maso paulista Marcio dastrados nunca pagaram pelo serviço. geiro, que transferirá essa moeda virtual Nigro, de 38 anos, dono do site Caro- Por isso, a Caronetas ainda não faturou (batizada d “caroneta”) para o motonetas, parece ter encontrado um jeito nada. Mas isso pode mudar. “Para que rista que lhe der carona. Os créditos de ganhar dinheiro com esse tipo de a carona não seja um fardo para nin- poderão ser trocados em postos de gatransporte. Desde 2011, sua empresa guém, o ideal é que motorista e passa- solina, por exemplo, e o Caronetas fica aproxima pessoas que percorrem traje- geiro dividam os custos do transporte”, rá com uma parte do dinheiro.

 

SACOS DE ANUNCIO

A missão do empreendedor Paulo Fidalgo, de 40 anos, é encher o saco – de anúncios. Ele é o master franqueado brasileiro da Publipan,rede espanhola que chegou por aqui em 2010. A empresa vende espaços publicitários em sacos de pão. Hoje, cerca de 2 000 padarias brasileiras, de 55 cidades, distribuem saquinhos’estampados com publicidade de empresas como Todeschini e Claro, além de anúncios do comércio local. A Publipan cobra 9 partir de 350 reais dos anunciantes para a marca aparecer por cinco dias em um espaço de 25 centímetros quadrados. “O espaço pode ser compartilhado por até 40 anúncios”, diz Fidalgo.

 

Uniforme de trabalho

Em agosto, perguntamos aos membros da Rede Social Exame PME que tipo de roupa eles usam no escritório. A maioria das 436 pessoas que responderam à pesquisa (308 homens e 128 mulheres) prefere calça jeans. “O estilo informal é permitido”, diz Claudia Matarazzo, consultora de moda. “Mas, ao visitar outra empresa, o empreendedor deve conhecer o perfil de quem trabalha no local e se vestir de acordo.”

 

FRANQUIAS NO DIVÃ

Ricardo Jose Alves, 40 anos, dono da rede de restaurantes Grileto, contratou, em 2008, a psicóloga Marta Minopoli, de 29 anos. De la para Ca, ela se tornou uma espécie de terapeuta dos funcionários e franqueadas, de seis em seis meses, Marta vai a cada uma das 90 unidades da Griletto e conversa separadamente com todos os empregados. E a hora do desabafo. Nesse bate papo, eles podem falar sobre tudo: vale reclamar do chefe, dos colegas , da vida. O objetivo da psicóloga e motivá-los e, se possível, ajudar a resolver seus problemas. “pelas reclamações, percebi que a falta de liderança, e de processos claros fazia com que os empregados perdessem tempo e brigassem porque um joga a responsabilidade para o outro”, diz Marta. Depois de descobrir as angustias dos funcionários, Marta analisa o comportamento do franqueado e sugere algumas mudanças de conduta. “Com o trabalho da psicóloga, conseguimos melhorar o clima das lojas e diminuir a rotatividade dos funcionários”, afirma Alves.

 

ONDE ESTAO AS OPORTUNIDADES

Há pouco mais de 70 anos, extasiado com o que descraveu

como “combinação sem igual de mar e montanha, o escritor austríaco Stefan Zweig

lançou Brasil, o País do Futuro, um livro de impressões sobre uma nação que iniciava a década

de 40 com 70% da população morando no campo, sem acesso à educação nem a serviços

básicos. A alcunha de Zweig ainda foi utilizada por muitos anos, e seu uso foi diminuindo

quando surgiram as classificações “subdesenvolvido’; “em desenvolvimento” e “emergente’:

Atualmente, com toda a confusão econômica que bagunçou tantos países, qual seria o apelido

certo para o Brasil? Para os mais de 27 milhões de empreendedores brasileiros, uma classificação

adequada poderia ser “país de oportunidades’: O setor de ensino expandiu. Mais

moradias foram construídas, sobretudo nas grandes cidades, que ficaram superpovoadas .

Muita gente passou a fazer compras pela internet, incluindo as pessoas da terceira idade, que

estão vivendo mais. Na última década, a média salarial cresceu mais de 20% e o consumo

aumentou. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, como saber onde, exatamente,

estão as oportunidades? A seguir, você encontra um conjunto de 20 páginas de reportagens

com análises de cinco setores onde há bastante espaço para os pequenos e médios negócios.

É pouco provável que não exista um lugar para sua empresa.

 

 

CIDADES

A Incorporadora  paulistanaVitacon, fundada em 2009 pelo engenheiro Alexandre Lafer Frankel,de 34 anos, lançou seu mais recente prédio residencial na segunda quinzena de julho. O apartamento mais barato foi vendido por 400 000 reais. Tinha apenas 29 metros quadrados, onde se deu um jeitode caber um quarto com banheiro, sala e uma minicozinha. O mais caro, de 130 metros quadrados, foi vendido por 2 milhões de reais. No total, eram 90 apartamentos. “Todos foram vendidos numa única tarde’; afirma Frankel.Quando ficar pronto – segundo Frankel, a entrega deverá acontecer no primeiro semestre de 2015 -, o edifício vai ocupar uma esquina no cruzamento entre duas ruas do JardimPaulista, considerado um dos melhores bairros da capital paulista. O edifício fica a seis quadras da avenidaPaulista.No entorno, há de tudo um pouco: faculdades, restaurantes,hospitais, cinemas, centros comerciais, museus, praças. Os moradoresque trabalharem na região da Paulista poderão ir a pé ao escritório.Dali, não é difícil ir a outroslugares, tomando-se o metrô numadas cinco estações próximas. “Eunão vendo imóveis’; diz Frankel.’Vendo qualidade de vida para quem mora numa grande cidade:’ Frankel é um exemplo de empreendedor que está ganhando dinheiro ao explorar oportunidades típicas das grandes cidades no Brasil. “Há muito espaço para uma pequena ou média empresa que tenha um produto ou serviço que torne a vida nos centros urbanos mais fácil’;diz Odmar Almeida Filho, presidente do instituto de pesquisa Ipsos. Estima-se que, em 2025, mais de 90%dos brasileiros vão viverem zonas urbanas, tornando as cidades muito populosas mais populosas ainda. Foi o que aconteceu recentemente. De acordo com dados do IBGE, existem hoje 38 municípios com mais de 500000 habitantes no Brasil- há dez anos, eram 25.Nessa lista,estão cidades que vêm crescendo muito rapidamente. É o caso de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Sua população, hoje de aproximadamente 600000 pessoas, é 20% maior do que há dez anos. Entre as cidades com mais de 1 milhão de habitantes, Brasília,a capital federal, foi a que mais cresceu na última década – 25%, o dobro da taxa de crescimento da população do país no mesmo período. O aumento da população pressiona a infraestrutura na capital federal e na sua região metropolitana. A empresa brasiliense Ambientare, que presta serviços de consultoria na área ambiental, cresce exatamente nesse cenário. A empresa, fundada pelo mineiro Felipe Lavorato, de 28 anos, faturou 2,6 milhões de reais no ano passado atendendo empresas como a Eletrobras. Entre outros negócios, está auxiliando o monitoramento ambiental na ampliação de duas subestações de energia em Brasília. “Com o crescimento das cidades, a necessidade de melhorar a transmissão de energia tem aumentado’; afirma Lavorato. “Isso é excelente para o nosso negócio:’ No caso de Frankel, da Vitacon, seu negócio é encontrar espaço para construir prédios em áreas da cidade onde aparentemente não cabemais nada. Um dos imóveis adquiridos pela incorporadora, no bairro da Vila Olímpia, teve de ser comprado em 16 partes até totalizar 100% da propriedade, pois os herdeiros não se falavam. ‘As negociações demoraram oito meses e, no final, a família acabou fazendo as pazes e passando o Natal daquele  ano reunida” diz Frankel. Em outra ocasião, ele passou meses em negociações com o dono de uma oficina mecânica próxima à avenida Brigadeiro Faria Lima, região de grande concentração de sedes de empresas. “Para convencê-lo a vender, precisei comprar outro terreno a poucos quarteirões dali e construir uma nova oficina para ele’; diz. Os esforços e investimentos compensam. O preço do metro quadrado vendido pela Vitacon tem ficado em torno de 20% acima do valor médio de referência de cada bairro. A empresa fechou o ano passado com receita de 90 milhões de reais. Algumas das oportunidades mais promissoras para quem escolhe empreender em grandes cidades . podem nascer justamente de seus maiores problemas. Experimente assomar às 6 da tarde, hora de relógio, a algum ponto da avenida Farrapos, em Porto Alegre, ou da orla da praia de Boa Viagem, em Recife. Assim como aconteceria em outras tantas cidades do país, provavelmente o tempo de espera para tomar um táxi seria desanimador. Tentar aliviar o dia a dia de quem precisa desse tipo de transporte foi o que motivou os empreendedores

cariocas Rafael Kaufmann, de 28 anos, e Gabriel Silva, de 30, a criar a ResolveAí, uma empresa que oferece um aplicativo para chamar táxis pelo celular. “Muitas pessoas têm medo da violência a que podem estar vulneráveis enquanto esperam um táxi no meio da rua” afirma Kaufmann. “Com a comodidade de poder pedir o carro pelo celular, esse risco diminui bastante:’ o aplicativo foi disponibilizado para download em maio e já funciona em seis cidades e regiões metropolitanas brasileiras. “Começamos a testar o serviço no Rio de Janeiro e em Brasília; diz Kaufmann. A lógica do ResolveAí é simples – a empresa faz um contrato com as cooperativas de táxi para poder localizar, por sinal de GPS, o carro mais próximo. A cada corrida, a cooperativa paga uma taxa para a ResolveAí. ‘Dá até para acompanhar o carro chegando pelas ruas próximas através do GPS do celular’; diz Kaufmann. Até agora, 40 cooperativas se tornaram clientes. A previsão dos sócios é que, até o fim do ano, a empresa faça a intermediação de 1milhão de corridas por mês. Grandes cidades costumam ser ambientes naturalmente favoráveis para novos empreendimentos ou para a expansão de negócios já existentes. Para se desenvolver de verdade, toda empresa precisa de escala. É a escala que permite adquirir insumos e matérias-primas a custos competitivos. Grandes cidades têm a seu favor a evidente vantagem de reunir muitos consumidores num espaço relativamente pequeno.

Esse adensamento é ótimo para a 24×7 Cultural, que vende livros a preços baixos em máquinas de autosserviço. Seu fundador, o médico Fabio Bueno Netto, de 52 anos, instalou 21 máquinas de livros em estações do metrô paulista. “O sucesso de um negócio como o meu depende de estar localizado em lugares de grande fluxo de consumidores’: diz Bueno. Estima-se que pelas 58 estações de metrô de São Paulo passem diariamente mais de 4 milhões de pessoas. “Desde que a empresa começou, em 2003, já vendemos 1,6 milhão de títulos’: diz ele. “Em algumas máquinas saem 10000 livros por mês, um número alto para o meu setor.’ Para a 24×7, que vende cada livro a um valor médio de 2,50 reais, ter escala é fundamental para garantir as margens de lucro. Agora, Netto prepara a empresa para expandir por meio de franquias. “Qualquer lugar onde exista uma grande circulação de pessoas pode ser um bom ponto’: afirma Netto. A paulistana Silvana Amaral Marques, de 40 anos, é cliente fiel da 24×7. Ela mora no bairro de Itaim Paulista, na periferia de São Paulo, e faz um curso técnico de enfermagem na avenida Paulista. Todas as manhãs, Silvana pega ônibus, trem e metrô, num trajeto que dura mais de 3 horas, considerando ida e volta. Desde que começou o curso, há um ano, descobriu os livros da 24×7. “Compro pelo menos um livro por semana, a um preço médio de 2 reais’: diz Silvana. “Gosto de ler sobre saúde, alimentação e autoaiuda” Sua aquisição mais recente foi o livro 50 Receitas de Sopa Light de 15Minutos, de Gustavo Oliveira Silva. “Nunca entrei numa livraria normal em toda a minha vida, diz Silvana. “Peguei o gosto de ler aqui, no metrô’:

 

LONGETIVIDADE

A professora de Artes aposentada MarialzabelWaack, de 77 anos, tem visto o mundo de vários pontos de vista nos últimos três anos. A bordo de um balão colorido, ela assistiu ao nascer do sol nos céus da Capadócia, na Turquia. Em restaurantes escondidos nas ruas abarrotadas de Nova Délhi, experimentou os fortes sabores da culinária indiana. Pela janela de um bimotor que sobrevoava a fronteira entre a China e o Nepal, observou as formas do monte Everest. “Fiquei impressionada com a imponência da paisagem’; diz Maria Izabel. Viúva há cinco anos, ela se programa para passear com a cunhada e um grupo de amigos pelo menos duas vezes ao ano, intercalando destinos nacionais e internacionais. Quando conversou com a reportagem de Exame PME, Maria Izabel tinha muita pressa, pois estava a poucas horas de embarcar para a África do Sul para uma viagem de dez dias e nem acabara de fazer as malas. ‘Nunca aproveitei tanto a vida como agora, diz. Maria Izabel faz parte de um grupo cada vez mais numeroso. Existem no Brasil cerca de 22,3 milhões de brasileiros com mais de 60 anos – 53% mais do que em 2000. Essa é a faixa que mais aumenta na pirâmide etária. Os idosos também estão movimentando mais dinheiro. Somente neste ano, seus rendimentos chegarão a 400 bilhões de reais, 45% mais do que em 2007. “Essas pessoas já criaram os filhos e geralmente não têm dependentes’; diz Claudio Felisoni, coordenador do Programa de Administração de Varejo da FIA, que faz pesquisas sobre o comportamento do consumidor da terceira idade em São Paulo. “Parte importante da renda deles é destinada a gastos com o próprio bem-estar:’ É nesse cenário que começam a se destacar empreendedores que oferecem produtos ou serviços para a terceiraidade. É o caso do paulista Jota Marincek, de 44 anos, dono da Venturas& Aventuras, a agência de turismo que levou Maria Izabel à Turquia e à Indochina. Até dez anos atrás, a Venturas&Aventuras vendia passagens e organizava alguns roteiros de ecoturismo no Brasil e no exterior. Foi numa viagem a Machu Picchu, no fim dos anos 90, que Marincek despertou para o potencial dos clientes acima dos 60 anos. Mais da metade do grupo era composta de pessoas nessa faixa etária, e muitos viajantes tiveram dificuldade para percorrer as trilhas a mais de 2 000 metros de altura. “O ritmo deles é diferente do que os mais jovens estão acostumados’: diz Marincek, Nos últimos dois anos, a Venturas& Aventuras tem organizado roteiros de ecoturismo para grupos da terceira idade pelo menos seis vezes ao ano. Entre os cuidados está a escolha dos hotéis, que devem ter elevador ou no máximo um lance de escada. Somente um passeio pode ser marcado a cada turno do dia, para que os viajantes não se cansem. O calendário com roteiros especiais ganhou um nome simpático – projeto Velhinho É a Mãe. (A brincadeiranão ofendeu dona Glória, a mãe de Marincek, que tem 82 anos. Ela não só adora as viagens como distribui a programação na fila exclusiva de idosos do banco onde recebe sua aposentadoria.) O Velhinho É a Mãe representou quase 10% dos 2 milhões  de reais em receitas obtidos no ano passado e ajudou a empresa a crescer 8% em relação a 2010. O idoso brasileiro de hoje é bem diferente dos vovozinhos de décadas atrás. Assim como os clientes de Marincek, muitos têm tempo e dinheiro para se divertir, indo a bailes e shows. Muitos deles, principalmente os recém- aposentados, estão acostumados a fazer compras com cartão de crédito e a usar a internet. “São pessoasque acompanharam as inovações tecnológicas enquanto ainda trabalhavam’: diz Felisoni, da FIA. A fisioterapeuta Marcella Mayerle, de 29 anos, montou uma empresa em Curitiba voltada para esse consumidor. Há pouco mais de um ano ela criou o site Loja do Avô para vender artigos adaptados para a terceira idade. Quando atendia pacientes em domicílio para sessões de fisioterapia, Marcella percebeu que, embora começassem a sentir aos poucos opeso de tantos anos de vida, muitos eram independentes. ‘Vários deles reclamavam que não havia lojas onde pudessem achar, no mesmo lugar, produtos que facilitassem o dia a dia, como aparelhos de telefone com teclas grandes e tapetinhos antiderrapantes para evitar quedas:’A Loja do Avô começou com artigos de higiene pessoal e cuidados básicos vendidos pela internet. Hoje, o site oferece também produtos comoexercitadores para pernas e braços e almofadinhas térmicas, que podem ser esquentadas no forno de microondas.”Cerca de 10% dos clientes são idosos que fazem as compras sozinhosno site” afirma Marcella. Em2012, a Loja do Avô deve obter umfaturamento 40% maior do que oregistrado no ano passado.Negócios dedicados a aumentar obem-estar dos idosos têm alto potencial de prosperar. A esperança de vida do brasileiro ao nascer aumentou de 70,5 anos de idade, em 2000, para 73,5, em 2010. Ainda há muito o que avançar para chegar ao nível de países como Singapura, onde a expectativa de vida é de 82,1 anos. Mas, à medida que o brasileiro vive mais, novas oportunidades se abrem para empreendedores que oferecem produtos destinados a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. É por isso que as salas de ginástica da B-Active, academia paulistana especializada no público da terceira idade, estão sempre cheias. Um dos fundadores da empresa, o médico Benjamin Apter, de 50 anos, fez pesquisas durante dois anos para chegar ao modelo ideal para a B-Active, que oferece aulas de ioga, pilates e musculação para velhinhos. Com três unidades em diferentes bairros paulistanos, a B-Active tem hoje 650 alunos. Segundo estimativas de mercado (a empresa não divulga o faturamento), as mensalidades devem render algo em torno do patamar de 3 milhões de reais ao ano. Cerca de 20% das receitas vêm de grandes laboratórios, que pagam para expor seus produtos no local. Nas aulas, grupos de até três pessoas são acompanhados por fisioterapeutas especializados em geriatria que regulam a intensidade dos exercícios conforme a forma física de cada aluno. “Temos o paciente que sempre fez esportes, mas que começa a sentir o peso da idade, e também o que precisa de exercício como complemento para um tratamento médico’; afirma Apter. É neste último grupo que está o comerciante aposentado Moises Waldsztejn, um polonês de 84 anos que chegou ao Brasil ainda criança. Com histórico de doenças cardíacas na família, Waldsztejn já passou por duas cirurgias no coração. Duas vezes por semana, Waldsztejn vai à BActive para sessões de 1 hora de musculação e alongamento. “Consigo  levantar 3 quilos em cada braço’;  diz Waldsztejn. “Eu me sinto como se ainda estivesse com 30 anos:’ Oito anos atrás, Waldsztejn casou-se pela segunda vez, com dona Ruth, de 80 anos, que também é a sogra de uma de suas filhas. “Vou sempre com ele na ginastica, diz dona Ruth .

 

E-COMMERCE

Uma parte do trabalho dos funcionários do site paulistano Enjoei – brechó online que vende roupas e acessórios para casa usados – é descrever as mercadorias em destaque de um jeito engraçado. Há algumas semanas, uma camisa era anunciada assim: “Este modelo é para os mocinhos que adoram um xadrez. Énova, oba! A Luciana ia dar para o boy, mas o namoro acabou antes, que trágico! Sai por 140 reais’: Cativadas por tiradas desse tipo, mais de 80000 pessoas já curtiram a página do Enjoei no Facebook. “Fechamos, em média, 200 pedidos por dia, afirma o administrador Tiê Lima, de 32 anos, que criou o site há apenas quatro meses com sua mulher, Ana Luiza McLaren, de 30. “Desse jeito podemos faturar uns 3 milhões de reais já neste ano:’ Negócios como a Enjoei vêm se beneficiando do crescimento no número de brasileiros que fazem compras pela internet. Segundo dados da  e-bit, consultoria especializada no varejo online, no ano passado 9 milhões de pessoas fizeram compras pela internet pela primeira vez, o que fez o número de consumidores online chegar a quase 32 milhões atualmente. A expectativa é que o setor movimente 23,4 bilhões de reais neste

ano – 25% mais do que em 2011. ’1\ expansão acelerou à medida que o computador e a conexão à internet ficaram mais baratos e acessíveis a mais gente’; diz Norberto Torres, diretor da Uniconsult, consultoria especializada no setor. O resultado é que, em pouco mais de uma década, o varejo online deixou de ser uma promessa para ganhar dinamismo próprio. A tecnologia mais barata faz cair o custo de manutenção das lojas online, o que estimula o aumento da oferta de novos produtos e a criação de novas lojas. Mais movimento chama a atenção de novos operadores logísticos. “Tudo funciona melhor, o que atrai mais e mais consumidores’; diz Vinicius Pessin, diretor do UOL Host, braço de hospedagem de sites do provedor UOL. ’1 mesmo tempo, novos fornecedores entram no

jogo, a cadeia se fortalece e, no fim, todo mundo sai ganhando:’ Veja o caso do Moíp, fundado em 2008 por Igor Senra, de 34 anos, na incubadora da Universidade Federal de Minas Gerais. Seu negócio é ser uma espécie de central de recebimentos para lojistas online. Os sites que contratam os serviços da empresa podem receber pagamentos em cartões de crédito e débito, boletos ou transferências bancárias. Em 2011, o Moip faturou 23 milhões de reais, 65% mais que no ano anterior. A inspiração para o Moip veio do site de pagamentos americano PayPa!. ‘Adaptamos o conceito para o mercado brasileiro’; diz Senra. ‘Aqui, o pagamento parcelado é extremamente popular.’ Apresentamos Ianaína da Silva Carneiro, de 32 anos, estudante de pedagogia em São Paulo. Ela fez sua primeira compra pela internet há pouco mais de um ano, quando sua filha, Emanuela, tinha acabado de nascer. Na época, comprou um carrinho de bebê. “Já estava na faculdade e minhas colegas disseram que era mais barato e prático comprar pela internet’; diz Ianaína, Ela costuma pagar com cartão de crédito, parcelando em mais de cinco vezes. Como muitas famílias das classes emergentes, Janaína tem um notebook. ‘Dá certo’; diz ela. “Geralmente, as lojas dão desconto no site e sempre recebo as mercadorias no prazo’: Consumidores novos, como Ianaína, estão no radar de muitas empresas, e a concorrência entre os varejistas online aumentou. Nos últimos três anos, o número de lojas virtuais no Brasil quase dobrou, passando de 12 000, em 2008, para 23 000, no ano passado. Mais competição é perfeito para a carioca Sieve, fundada em 2008. A empresa fornece um sistema que permite ao dono de um site saber em tempo real a oscilação dos preços dos concorrentes. “Nosso software vasculha o catálogo de mais de 4 000 lojas eletrônicas no Brasil’; diz André Massa, de 30 anos, sócio da empresa. “Em datas estratégicas, como Dia das Mães e Natal, grandes varejistas costumam mudar o preço de um produto até oito vezes no mesmo dia:’ Atualmente, a empresa tem mais de 200 clientes – entre eles Walmart, Sack’se Ricardo Eletro – e suas receitas chegaram a 2,5 milhões de reais no ano passado. Os grandes varejistas online estão muito interessados em contratar serviços de pequenas e médias empresasque vendam ferramentas que os ajudea aumentar as receitas e a manter seus clientes por perto. A Chaordíc, de Florianópolis, produz um softwareque envia avisos com recomendações de produtos a consumidores. A ferramenta já foi contratada porgrandes lojas, como a livraria Saraivae a Nova Pontocom (que controla as vendas online das marcas Extra,Ponto Frio e Casas Bahia). A Chaordic nasceu em 2008, quando os engenheiros João Bernartt, de 32 anos, e João Bosco, de 30, faziamum mestrado em inteligência artificialna Universidade Federal de SantaCatarina – e hoje fatura cerca de3milhões de reais por ano, segundo estimativas. O software ajuda a mapear as preferências de determinado consumidor com base nos produtos que ele pesquisa e em seu histórico de compras, entre outros padrões de comportamento que podem ser monitorados. ’1\s informaçõessão usadas pela loja para recomendar produtos de acordo com o interesse mais provável de cada cliente’:diz Bernartt. A loja americana Amazon e a locadora online Netflix são exemplos de empresas que utilizam sistemas semelhantes. No caso da Netflix, cerca de 60% dos filmes são escolhidos

pelos espectadores com base em recomendações de um sistema. A logística de entrega dos produtos é outro terreno para novos negócios. A paulista CompletaLog nasceu para atender à demanda de pequenas lojas virtuais que vendem a partir de dez pedidos por dia. “Há dois anos, quando fundamos o negócio, não era fácil uma loja virtual com poucos pedidos encontrar um bom operador logístico’: diz Décio Alves, de 46 anos. Ele e seu sócio, Armando Marchesan, de 36, são exexecutivos com passagens pelo Submarino e pela Natura. A CompletaLog mantém um armazém de 10 000 metros quadrados em Cajamar, na Grande São Paulo, onde recebe, armazena e remete os pedidos de quem faz compras num dos 30 sites que são seus clientes. “Em vez de exigirmos um faturamento mínimo mensal, como é praxe no mercado, cobramos um percentual sobre o valor das encomendas’: diz Alves. Com esse modelo de negócios, a CompletaLog conseguiu receitas de 12 milhões de reais em 2011 e, em abril, recebeu um aporte do banco BR Partners.

 

EDUCACAO

Alé a década de 80, Caruaru, em Pernambuco, era uma cidade de pouco mais de 200000 habitantes, mais conhecida pela Feira de Caruaru – uma faixa de cerca de 2 quilômetros de barracas onde se vende de tudo a céu aberto às quartas e aos sábados. A feira existe até hoje. Nela é possível comprar desde frutas e legumes até móveis para a casa e aparelhos eletrônicos importados, tudo ao som de bandas locais que se misturam à freguesia. Só existiam duas instituições de ensino superior, que ofereciam cinco cursos: direito, odontologia, letras, história e filosofia. Quem quisesse seguir qualquer outra carreira na vida – e tivesse condições de morar fora ou viajar todos os dias para estudar – tinha de prestar vestibular na capital, Recife, a 140 quilômetros de distância, ou em outros estados. Atualmente, Caruaru, com maisde 315000 habitantes, conta com dezenas de instituições de ensino superior. Uma das que mais cresceram nos últimos anos foi a Faculdade do Vale do Ipojuca (Favip), fundada em 2001 pelo baiano Vicente Jorge Rodrigues, de 57 anos, e o pernambucano Luiz de França Leite, de 62. Eles já eram sócios num grupo de empresas de rádio e emissora de TV da região desde 1991. “Hoje, a Favip é a maior empresa do grupo’: diz Rodrigues. “Temos mais de 6 000 alunos:’ A previsão de faturamento para este ano é de 40 milhões de reais – 21% mais que no ano passado. A última década foi muito importantepara empresas do setor de ensino. Os dados mais recentes do IBGE mostram que 33 milhões de jovens – mais de 96% da população de 5 a 14 anos – estão matriculados em alguma escola. No final dos anos 90, eles eram 89%. Mais gente está na escola – e quem está na escola parece estar estudando mais. Segundo o último levantamento do Instituto de PesquisaEconômica Aplicada (Ipea), cada brasileiro com mais de 15 anos estuda, em média, durante 7,5 anos. Não é assim nenhuma maravilha. Mas é significativo quando se constata que esse número é quase 20% maior doque há cerca de dez anos. Para aqueles empreendedores que atuam ou querem atuar no setor – com instituições de ensino ou fornecendo produtos e serviços para elas-, o que interessa mesmo é onde isso tudo vai dar se as coisas continuarem a andar no mesmo ritmo. “Nesse caso,nos próximos 20 anos o Brasil poderáaté atingir o nível de escolaridade média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico’; diz Alexandre Mattos, diretor da consultoria Macroplan. Nesse grupo de 34 países, estão Estados Unidos e Japão, onde se estuda por mais de dez anos, em média. No Brasil, houve um avanço considerável- pelo menos na oferta de vagas – na faixa do ensino superior. O número de faculdades e universidades passou de cerca de 400, no final dos anos 90, para 2400. Uma das consequências mais relevantes desse crescimento é a inclusão de estudantes que estavam fora do sistema simplesmente por não haver opções em sua região, como acontecia com os jovens de Caruaru. Essa é uma parte da história. Quando se fala em qualidade, as estatísticas dizem que o quadro geral não é nada bom. Apenas 35% das pessoas com o ensino médio com,- pleto podem ser consideradas plenamente alfabetizadas. A conclusão está na mais recente edição do Indicador do Alfabetismo Funcional 2011-2012, estudo feito pela ONG Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, do Ibope. No mesmo levantamento, há a estarrecedora informação de que 38% dos brasileiros com formação superior não conseguem escrever com clareza minimamente aceitável. Para parte dos empreendedores brasileiros, essa é uma notícia que pode funcionar como uma inspiração. “Melhorar a qualidade da formação dos estudantes é urgente no Brasil’; diz Mattos, da Macroplan. “É enorme a necessidade de novos negócios capazes de ajudar a vencer esse desafio:’ De mãos dadas com o problema da educação está a falta de qualificação profissional em praticamente todos os setores da economia. Um dos que mais sofrem é o de tecnologia da informação. De acordo com dados do IBGE, há 115000 vagas de emprego que as empresas do setor não conseguem preencher porque não acham bons profissionais. A Globalcode, rede paulistana de escolas que faturou 3 milhões de reais em 2011 oferecendo cursos de programação, vem se expandindo nesse cenário. Criada pela empreendedora Vara Senger e seu marido, Vinicius, a Globalcode começou com aulas para qualquer pessoa que quisesse aprender a programar em linguagem Java – uma exigência em muitas empresas que desenvolvem softwares. Desde que foi fundada, em 2002, a Globalcode cresceu muito. Hoje, são 9 000 alunos matriculados em 14 unidades licenciadas. Um dos fenômenos que colaboram para aumentar o acesso dos brasileiros à educação é a ascensão da classe C. Entre 2003 e 2010, foram incorporados 32 milhões de pessoas ao mercado consumidor brasileiro. “Com o aumento da renda, as famílias estão gastando mais com educação’; diz Odmar Almeida Filho, presidente do instituto de pesquisa Ipsos. “Hoje, há milhões de estudantes que compõem a primeira geração de suas famílias a ter diploma de curso superior ou mesmo a ter completado o ensino fundamental” Nos últimos tempos, a internet tem sido um caminho para muitos que querem empreender no setor de ensino. “Está surgindo uma porção de empresas de ensino a distância, produtoras de videoaulas para internet e editoras de livros e material didático digital’; diz Mattos, da Macroplan. Um exemplo é o da escola de inglês online Ezlearn, site que a carioca Ana Gabriela Pessoa, de 30 anos, fundou em 2008. “Inglês me pareceu a carência mais urgente no mercado’; diz Ana. Está dando certo – a Ezlearn já atendeu cerca de 20000 alunos e fatura mais de 2 milhões de reais por ano. Um caso interessante é o da Escola24horas, empresa carioca de reforço escolar online que fatura, de acordo com estimativa do mercado, cerca de 12 milhões de reais por ano. Seu fundador, o economista paraibano Severino Felix da Silva, está à procura de clientes corporativos. ‘As grandes empresas podem oferecer o apoio escolar aos filhos dos funcionários como benefício’; diz Silva. Ele já fechou uma parceria desse tipo com a IBM. A Escola24horas tem dois principais produtos – conteúdo online personalizado para escolas e pacotes de apoio escolar para alunos individuais. Entre eles está a estudante Monique Stefhany Ferreira, de 14 anos. Ela mora em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e está na última série do ensino fundamental. Seus pais pagam uma mensalidade de 9,90 reais para que Monique tenha acesso a videoaulas e à rede de professores que dão plantão, tirando dúvidas dos alunos no site. “O método me ajuda muito a estudar para as provas’; diz ela. “Melhorei as notas em matemática, que é minha matéria preferida:’”

 

MORADIA

O eletricista Maurício Ogata,de39anos, é um Maridaço. O título não foi dado por sua mulher, Claudia – Maridaço é o nome do cargo que ele ocupa na Praquernarído, rede paulistanade serviços de reparos domésticos. Na Praquernarído, em vez de ser gerente disso ou daquilo, o funcionário é classificado conforme sua especialidade. Os pintores são chamados de Maridos Aquarela, os eletricistas de Maridos Elétricos e os encanadores de Maridos Aquáticos. Quem sabe fazer de tudo é um Maridaço. “Chegar a Maridaço não é fácil’: afirmaOgata. “É preciso deixar o cliente completamente satisfeito:’ Fundada há dez anos pela empreendedora paulista Rita Ortega, de 46 anos, e por Alexandre, de 42 – seu marido de verdade -, a Praquemaridocresceu com o sistema de franquias. No ano passado, o faturamento da empresa foi de 12 milhões de reais – quatro vezes mais que em 2010, quando os Ortega aderiram ao sistemade franquias. A marca está em 22 estados. ‘Devemos fechar o ano com 180 unidades’: diz Rita. “E,em 2013, a rede vai dobrar de tamanho:’É difícil imaginar um negócio como a Praquemarido se expandindo tão rapidamente alguns anos atrás. Para que uma rede de serviços de reparosdomésticos cresça é necessário haver canos furados e fios partidos suficientes para consertar. E, para que isso exista, antes de mais nada é preciso haver muitos imóveis onde possam quebrar – segundo estimativas da Fundação Getulio Vargas e da Fiesp, existem hoje no Brasil mais de 60 milhões de domicílios. Serviços domésticos, como os que a Praquemarido oferece, são uma das muitas oportunidades que se abrem para pequenas e médias empresas no grande mercado que se formou nos últimos anos com o aquecimento do setor imobiliário. A lista inclui de tudo – mobília caríssima feita sob medida, objetos de decoração, aparelhos eletrônicos, roupa de cama. Vender produtos e serviços para a casa tem futuro por um motivo simples – por melhor que seja a planta ou a qualidade da mobília, quase todo mundo tem vontade, mais cedo ou mais tarde, de mudar alguma coisa – colocar papel de parede, trocar os lustres, instalar uma cortina. Filhos nascem, filhos crescem, filhos saem de casa. Mudanças importantes na família pedem transformações mais radicais que, muitas vezes, só podem ser feitas com uma reforma. Gente comprando material para obras é o que não falta. Uns escolhem a tinta para renovar as paredes, outros derrubam tudo para criar um novo ambiente. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção, as vendas do setor cresceram 2,6% no primeiro semestre de 2012. “Mais vendas nas lojas significa mais trabalho para mim, e isso é ótimo’: diz Carine Canavesi, de 37 anos, dona da Pavão Revestimentos, fabricante paulista de azulejos decorados. Carine espera fechar 20 12com 2 rni- 1hões de reais em receitas. “É o triplo do ano passado’: diz ela. Segundo algumas pesquisas, a maior parte das reformas está sendo feita por famílias cuja renda cresceu recentemente. De acordo com um estudo do instituto Data Popular, neste ano 24,5 milhões de famílias devem tocar alguma obra, mesmo modesta, em sua casa ou apartamento. “Quase 60% das reformas de 2012 estão sendo feitas pela nova classe média; diz Renato Meirelles, sócio do Data Popular. “Esse pessoal economiza dinheiro para fazer pequenas melhorias, como trocar um telhado velho ou o piso da sacada:’ Há os que querem mexer aqui e ali para valorizar um imóvel a ser vendido ou alugado. Éessa a situação da dona de casa Lindinalva Marlena Silva Cabilo, de 35 anos, moradorade Embu das Artes, na Grande São Paulo. Há pouco mais de dois meses Lindinalva e seu marido, o técnico em eletrônica Manoel, assinaram o contrato de compra de uma segunda casa. “Foi um investimento’; afirma Lindinalva. “Queremos ter uma renda extra com aluguel” Antes disso, a fachada e o quintal serão reformados. “É para a casa valer mais e poder cobrar mais’: diz ela. Famílias que ascenderam socialmente são um capítulo à parte. Segundo a Fundação Getulio Vargas, em 2013 haverá 29 milhões de brasi- !eiros nas classes A e B – o dobro de 2002. “Para esse pessoal, trocar a mobília ou o piso da casa inteira deixou de ser um sonho ambicioso’; diz o empreendedor Ayres Tavares, de 70 anos, dono da Kitchens, empresa paulistana de móveis planejados. Quem compra na Kitchens são clientes como a engenheira eletrônica Monica Azzali, de 43 anos, diretora de qualidade da GM na América Latina. Nos próximos meses, Monica, seu marido, Claudio (também executivo da GM), e as duas filhas pequenas vão se mudar para um novo apartamento em Santo André, na Grande São Paulo. “Estamos só esperando a Kitchens terminar a instalação dos móveis na cozinha e nos quartos’; diz Monica. Ela calcula ter gasto o equivalente a 30% do valor do apartamento, de 360 metros quadrados, com a mobília. Para atender clientes em todo o país, a Kitchens inaugurou na última década 20 unidades próprias em capitais e cidades médias de regiões prósperas, como Norte, Nordeste e o interior de São Paulo. No ano passado, a empresa obteve um faturamento de 190 milhões de reais – 10% mais do que em 2010.Tradicionalmente, o mercado imobiliário é um daqueles setores em que fases de aquecimento intenso se intercalam com momentos de acomodação. Nos últimos seis meses, o número de imóveis financiados caiu 9% em relação ao mesmo período do ano passado. ’1\ valorização foi forte nos últimos meses, e o consumidor está esperando os preços se estabilizarem’; diz Octávio de Lazari Junior, presidente da Associação Brasileira de Entidades de Crédito  Imobiliário e Poupança. A necessidade de mais habitações não deve diminuir tão cedo. Segundo estimativas da Fundação Getulio Vargas, até 2022 mais de 15,9 milhões de famílias se formarão no Brasil. Há hoje 7,2 milhões de famílias dividindo o teto com outras pessoas ou vivendo em residências precárias. Para atendê-Ias, será preciso construir 23,1 milhões de moradias na próxima década. Outra razão para manter boas perspectivas para os empreendedores ligados ao setor está no crédito imobiliário. No ano passado foi financiado cerca de 1milhão de imóveis – o equivalente a 5% do PIB. ’1\té 2015, essa fatia devesubir para 10%’;diz Lazari Junior. Essas previsões fazem um bem enorme para o humor do engenheiro civil Altino Cristofoletti, de 52 anos. Ele é dono da Casa do Construtor, rede de franquias de locação de equipamentos para construção civil com sede em Rio Claro, no interior de São Paulo. Entre os clientes da empresa estão pequenas construtoras, que fecham contratos de aluguel de equipamentos, como betoneiras e carrinhos de mão, para construir uma casa na praia. Outro público é formado por pedreiros autônomos, que alugam instrumentos como esquadros e furadeiras. A Casa do Construtor tem hoje l30 unidades em mais de 115 cidades brasileiras. No ano passado, a empresa faturou 78 milhões de reais, 45% mais do queem 2010. “Sempre tem alguém precisando de uma ferramenta emprestadà; diz Cristofoletti. Recentemente, ele percebeu que, ajustando um pouquinho o foco da expansão, seria possível fazer a Casa do Construtor crescer ainda mais rapidamente. “Muitas cidades menores têm duas ou três pequenas locadoras de equipamentos que suprem a demanda local’; diz ele. “Temos dado condições especiais a esses empreendedores para que setransformem em franqueados da Casa do Construtor:’ Desse jeito, Cristofoletti deixou de lado o plano de chegar a 2015 com 250 franquias.’1\ perspectiva agora é chegar a 2020 com 1 000 unidades’; diz.

 

POVAO ONLINE

O empregados Vagner Fradinha, de  62 anos, convive com uma vizinhança berragitada. Da janela de seu escritório, no 5º andar d< um edifício no centro de São Paulo, ele acompanha diariamente o murmurinho da multidão qut faz compras nas imediações da rua 25 de Marçoum dos principais centros de comércio do país Foi no meio da agitação de consumidores, vendedores e camelôs qU(Fradinho buscou inspiração para criar o Magazine 25, uma loja onlíne de artigos para festas. No ano passado, suas receitas chegaram a 2 mio lhões de reais, 60% mais que em 2010. Fradinho fundou o Magazine 25 há sete anos. Na época, ele havia per· dído o emprego como representante comercial numa indústria de medicamentos. Em busca de uma oportunidade de negócios na qual pudesse investir suas economias – que então somavam pouco mais de 100 ooe reais -, ele decidiu bater perna na 25 de Março para ver se descobria o que tanto atraía a clientela à região. “Eu imaginava aprender com os comerciantes daqui algo capaz de me ajudar a construir um negócio próspero’; diz ele. “Passei dias visitando as lojas, vendo como os vendedores trabalhavam e fazendo listas dos produtos à venda:’da sua imersão do comércio popular, Fradinho tirou alguma: características para o Magazim 25. “Resolvi que, assim como a: Lojas da rua, o site teria de oferecei uma enorme variedade de itens < preços acessíveis aos consumidores de menor poder aquisitivo’; di, Fradinho. A decisão de se concentrar na venda de artigos para festa: aconteceu após uma conversa corr uma amiga de Manaus. “Ela redamava que, fora dos grandes centros, os artigos para festas custavam caro, e as opções eram bastante limitadas’; diz ele. O site foi ao ar em 2006. No começo, a empresa não tinha estoque. Todo fim de tarde, os funcionários do Magazine 25 reuniam os pedidos dos clientes e faziam compras nas lojas do quarteirão. As encomendas eram remetidas pelo correio no dia seguinte. Seis meses depois, Fradinho conseguiu alugar um espaço maior, no qual era possível manter estoque, escritório e uma pequena loja. “Muitos clientes paulistanos começaram a nos procurar perguntando se tínhamos os produtos para pronta entrega, afirma Fradinho. Hoje, 70% das vendas são feitas pela internet. O site recebe mensalmente em torno de 400000 visitantes. Seus principais clientes são consumidores que procuram na internet a comodidade de comprar artigos para organizar pequenas festas sem ter de entrar no corre-corre das ruas. “Nos últimos anos, muitos consumidores emergente compraram computadores e hoje fazem compras online” diz Fradinho. O valor médio dos pedidos é 200 reais por cliente. Fradinho tem pensado em qual o melhor cami- nho para manter a expansão. Uma das possibilidades seria investir no site, aprovei- tanto a tendência de crescimento nas vendas pela in5ernet. outra opção senamvesdas—rtir na abertura de lojas – em São ou em outras cidades. Para ajuda lo a decidir os próximos passos, exame PME ouviu a empreendedora Zizi Almeida, dona da Síntese Mal!, empresa deeventos especializada em atender shoppings. Opinaram ainda Cristiano Nunes, fundador do site Clickfios, que vende artigos de armarinho, e Luciana Aguiar, sócia da Plano CDE ,empresa de pesquisas especialista no mercado de baixa renda. Veja o que eles disseram. Investir em serviços de site -Perspectivas O aumento na renda dos brasileiros vem impulsionando o crescimento dos negócios que fornecem produtos e serviços para festas. No ano passado, esse mercado movimentou mais de 12 bilhões de reais, de acordo com dados da Abrafesta, associação que reúne profissionais e empresas da área de eventos e lazer. Existem boas perspectivas de que o faturamento do setor continue em expansão nos próximos anos. -Oportunidades Tanto na internet quanto no comércio tradicional, há espaço para empresas capazes de atender às necessidades dos clientes de menor poder aquisitivo. Como nesse mercado há muitas opções de produtos e serviços, esse públicocostuma dar valor a quem pode ajudá-los a organizar uma boa festa com baixo custo. -O que fazer Fradinho poderia investir em serviços para ajudar os consumidores a organizar suas festas. Seria interessante criar uma seção no site na qual especialistas convidados dessem sugestões sobre como preparar uma comemoração. Esse tipode orientação pode dar ao cliente a segurança de estar usando bem seu orçamento. Usar as mídias sociais -Perspectivas Os dados do comércio eletrônicomostram que os brasileiros estão aumentandosuas compras pela internet. De acordo com um estudoda consultoria e-bit, as vendas online chegarama 18,7 bilhões de reais no ano passado, um aumentode 26% em relação a 2010.  Oportunidades Negócios como o Magazine 25 têmgrande potencial de crescimento, principalmente nas cidades pequenas e médias, fora dos grandes centros. Nesses locais, nem sempre os varejistas conseguem manter grande variedade de artigos para festas – e, quando o fazem, geralmente precisam pôr margens de lucro mais altas para compensar o baixo giro do estoque. A possibilidade de oferecer um catálogo variado e a preços competitivos pode ser uma vantagem para a empresa de Fradinho. -O que fazer Na Clickfios, adotei com bons resultados uma estratégia de divulgação na internet e nas mídias sociais. Frequentemente, postamos vídeos no YouTube mostrando técnicas de artesanato que nossos clientes podem reproduzir. Também divulgamos os vídeos em blogs, no Twitter e no Facebook, o que ajuda a atrair novos consumidores. Fradinho poderia fazer algo semelhante, com vídeos para ensinar seus clientes a organizar festas e eventos. Parcelar as compras para vender mais -Perspectivas De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE,a população que compõe a base da pirâmide social do país é, proporcionalmente, quem mais gasta em festas e eventos. A expansão na renda dos consumidores de menor poder aquisitivo tem impulsionado o crescimento de negócios como o Magazine 25. -Oportunidades Há boas perspectivas de crescimento para empresas que souberem adaptar-se às necessidades dos clientes de baixa renda. Esses consumidores costumam ser atraídos por quem é capaz de oferecer uma boa variedade de produtos a preços que caibam no seu orçamento. -O que fazer Fradinho pode aumentar o tíquete médio das vendas ao dar alternativas para o parcelamento das compras. Seus clientes gastariam mais’ para preparar uma festa se tivessem prazos de pagamento maiores. Caso Fradinho não tenha recursos próprios para financiar o alongamento dos prazos, ele pode fechar acordos com bancos ou operadoras de cartões de crédito.

 

O MASCATE DOS CURSINHOS

os úlUmos 36 anos, o paulistano Bloy TuB’ijá foi d1str1bu1dor de meias, vendedor de enciclopédias e dono de uma discoteca em Campinas. “Fiz um pouco de tudo, mas a maioria dos negócios que abri na minha juventude não deu certo’; diz ele. “Precisei recomeçar do zero tantas vezes que até fui chamado de pau de sebo, porque eu subia, subia e depois caía:’ Foi como dono de escolas de idiomas e de informática que TufTIencontrou o rumo do crescimento. Aos 60 anos, hoje ele é dono da Mícrocamp, uma rede formada por 160 unidades, das quais quase dois terços são franqueadas. Nesta entrevista a Exame PME, TufTIconta um pouco de sua trajetória como empreendedor e quais são seus planos para o futuro. Muita 88DtepeDSa. que meu sobrenome é árabe. Na verdade, sou descendente de italianos. Nasci na Mooca e me criei no Tatuapé, dois bairros paulistanos tradicionalmente ocupados por famílias de origem italiana. Sou o mais velho de seis irmãos. Meu pai revendia roupas e meias para comerciantes da rua 25 de Março, no centro de São Paulo. Todos os anos, no auge do verão, ele procurava as fábricas e comprava um montão de meias de lã para revender. Aprendi com ele que meia de lã se compra no verão para vender no inverno. Comecei a trabalhar com meu pai aos 16 anos. Ainda era jovem e achei muito difícil conciliar trabalho e estudos. Ao completar o que hoje é o equivalente ao ensino médio, decidi sair do colégio. Meu pai era um ótimo negociante e me ensinou muita coisa que jamais aprenderia na escola. Havia apenas um problema: eu trabalhava e ele ficava com o dinheiro. Então achei melhor deixar o negócio da família e fui trabalhar como vendedor por conta própria. Dos 18 aos 23 anos, trabalheivendendo livros para editoras e distribuidoras e cursos de inglês para uma escola da Mooca. Nessa escola aprendi de tudo, menos a falar inglês. Vendia os cursos, coordenava a equipe comercial, comprava e vendia o material didático. Quando compreendi como o negócio funcionava, resolvi abrir minha própria escola de inglês. Convidei o rapaz que fazia as apostilas da escola em que trabalhava para ser meu sócio. Na época, eu tinha 24 anos. Minha estra.t6g:Ia. era cobrar preços acessíveis para conquistar mais alunos. Em menos de um ano, as salas de aula estavam lotadas e abri uma filíalno bairro paulistano de Pinheiros. As coisas só não estavam completamente tranquilas porque isso criouuma desavença com meu antigo patrão – não ajudava muito o fato de ter aberto minha escola no mesmo prédio em que ele tinha a dele. Beso.Ivt que, para evitar problemas, iria para longe. Fechei as escolas de São Paulo e me mudei para Campinas. A cidade crescia, havia universidades em expansão e achei que existia uma boa oportunidade para crescer com escolas de idiomas. Eu estavacerto. Nos dois anos seguintes, ganhei muito dinheiro em Campinas. Nofmal de 1978,decidi mudar de ramo. Naquele ano, o filme Os Embalas de Sábado à Noite, com o Iohn Travolta, fez um enorme sucesso. Aquilo me contagiou e botei na cabeça queme tornaria um empresário da noite.Vendi minha parte na sociedade nas escolas de inglês e abri uma discoteca em Campinas, aMai Tai. O negócio fracassou e, em menos de dois anos,perdi o dinheiro que havia investido. Comecei a repeDSaI” minha trajetória e,em 1980, voltei para São Paulo.Abri uma nova escola de inglês, o negócio em que havia me dado melhor.Para vender o curso, visitava asescolas e pedia aos professores umtempinho da aula para apresentar o programa aos alunos. Um dia, acompanhando meu irmão mais novo ao colégio onde ele estudava, vi uma cena bastante curiosa. Havia mais de 200 estudantes aglomerados em torno de alguns microcomputadores recémcomprados pela direção da escola. Na 6poca., a informática era uma grande novidade. Fiquei maravilhado. Vi no interesse daqueles jovens uma oportunidade. Procurei um fornecedor e encomendei dez computadores. Fiz um acordo de pagar em parcelas, porque o investimento era alto. Coloquei as máquinas na escola de inglês e criei o “curso de computadores” – achei que, se chamasse de “curso de informática, um termo então pouco conhecido, as pessoas não entenderiam do que se tratava. Pu! a um colêglo tradicional de São Paulo, onde estudavam aproximadamente 4000 alunos, oferecer o novo curso. Saí de lá com 400 matrículas. Era mais do que eu vendia em um ano para os cursos de inglês. Comprei outros 40 microcomputadores e, em pouco tempo, já tinha quatro escolas de informática em funcionamento. O crescimento foi muito

rápido e os cursos de inglês acabaram se tornando um negócio secundário. Em 1986, t1ve uma. crise de estresse e pifei. Não dei conta de acompanhar o crescimento da empresa. Enfrentei também muitos problemas pessoais. Meu médico me aconselhou, então, a me mudar para o interior, um lugar mais tranquilo. Dec1d1 voltar a morar em Campinas. Deixei os negócios de São Paulo para meu sócio cuidar. Foi quando adotei a marca Microcamp. Em Campinas, mesmo trabalhando muito, consegui levar uma vida mais equilibrada e me recuperei. Pouco tempo depois, comecei a abrir filiais em cidades do interior e do litoral de São Paulo, como Ribeirão Preto, Santos, [undiaí, São José do Rio Preto e Limeira. 11m CampiDas, casei de novo, e minha segunda esposa, a Marlene, foi trabalhar comigo. Ela me incentivou a abrir franquias para acelerar a expansão. Transformar a empresa numa rede de franquias foi meu grande desafio, porque eu não acreditava nesse modelo de negócios. Meu estilo era muito centralizador. Queria que as pessoas fizessem tudo do meu jeito. Mas, se não abrisse as franquias, perderia mercado para os concorrentes. Vendi a primeira unidade franqueada da Microcamp em 1994. Atualmente, a empresa tem 100 escolas franqueadas e 60 unidades próprias em 16 estados brasileiros. Temos mais de 120000 alunos em mais de 60 cursos na área de informática, além do inglês e do espanhol. Ama10rla dosalUDOS freqüenta as aulas à noite e nos fins de semana, porque nossos cursos são profissionalizantes. As escolas estão quase todas localizadas próximas de grandes comércios, muitas delas na periferia, onde mora o público da Microcamp, formado por gente que está correndo atrás de uma oportunidade no mercado de trabalho por meio do estudo. Recentemente, criei uma nova marca, a McTech, especializada em cursos para o sistema operacional Mac OS, da Apple. Seu público é formado por profissionais liberais, executivos e técnicos. A McTech está no nome dos meus quatro filhos: Davi, de 37 anos, Daniela, de 35, Danilo, de 30, e Nathália, com 20. Três deles já trabalham na empresa e a caçula ainda faz faculdade. Eles vão tocar o novo negócio, que deve chegar a 50 franquias até o fim deste ano. Não tenho participação nenhuma na McTech – vou apenas supervisionar no início. Meu negócio é a Mícrocamp, de onde não pretendo me afastar. AcredIto que e:dstem três tipos de empreendedor. Há aquele que nasce para fazer coisas novas e comandar um negócio. Existe o técnico, cuja força está em saber planejar e executar. E há ainda o persistente, que não tem dom nem é bom de planejamento, mas não desiste nunca. Acho  que sou uma mistura do primeiro com o terceiro tipo. Há 36 anos inaugurei uma das primeiras escolas de -informática no Brasil. Agora pretendemos fazer algo parecido com a McTech: desbravar um novo mercado. Nesses anos todos, aprendi que é preciso investir no que você conhece e dá mais lucro.

 

CHega de conversinha

Parece que as empresas andam wnbocado carentes de atenção. Percebi isso semanas atrás. Eu passava uns dias no campo com a família, aproveitando as férias escolares das crianças. Quando precisava vir à cidade, tomava um ônibus para São Paulo, numa viagem que durava pouco mais de 1hora. No ônibus, para onde eu olhasse havia cartazes dizendo coisas como “fale conosco’: “deixe suas sugestões’: “entre no nosso site” “siga-nos no Twitter e no Facebook” Só faltou o motorista pedir pelo amor de Deus para eu entrar em contato com a empresa. Se eu realmente estivesse interessado, teria muito a dizer. O atendimento da empresa não era nenhuma maravilha, saía do escapamento uma horrorosa nuvem de fumaça preta, e o interior do ônibus estava sujo e bastante fedido. Não tem nada de errado em querer manter os canais de comunicação abertos. O problema é se preocupar mais com isso do que em entregar aquilo que o cliente espera – produtos e serviços de qualidade, com preços competitivos e no prazo combinado. Quando não se dá conta do básico de um negócio, não adianta fazer pose de empresa moderninha e preocupada com o consumidor. A ansiedade de falar com o cliente aparece com bastante frequência no atendimento de pós-venda. Vivo recebendo e-mails, torpedos e telefonemas de empresas. Num dia, é a moça da operadora do cartão de crédito agradecendo por eu ter pago a fatura. No outro, o rapaz da concessionária onde comprei meu carro quer saber se fui bem atendido ao fazer a revisão. Há dias que o pessoal do banco liga cedo para agradecer a preferência e perguntar se estou interessado em determinada linha de crédito. Haja paciência para ouvir esse pessoal! Opior é que nada disso sai de graça. Vejo muitos empreendedores gastando um dinheirão para implantar esse tipo de atendimento ao cliente. Desperdiçam, assim, recursos importantes para o crescimento da empresa. Seria melhor investir no treinamento dos vendedores, no desenvolvimento de novos produtos ou numa boa campanha promocional para atrair novos clientes e aumentar as receitas. Não é inteligente empatar capital só para manter um tipo de conversinha mole cujo resultado, na maioria das vezes, é importunar o consumidor. É preferível garantir sua satisfação antes que ele fique vermelho de raiva e saia espalhando sua indignação contra a empresa pelas redes sociais. Aí, sim, o empreendedor estará diante de um problema de comunicação realmente grave.

 

DIRETO AO PONTO

Empreendedores a frente de empresas iniciantes nao costumam ter margem para hesitações diante de uma boa oportunidade. Recentemente, vem se tomando comum no Brasil um modelo de apresentação para quem está em busca de dinheiro para investir em seus negócios. São encontros que duram no máximo 5 minutos – intervalo no qual precisam convencer potenciais investidores de que sua empresa é um bom negócio. Esse tipo de apresentação relâmpago se desenvolveu entre os donos de pequenas empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde ficou conhecido como elevator pitch (em português, “conversa de elevador’). “Chama-se assim porque dura pouco tempo, como uma conversa no elevador: diz Anibal Messa, que investe em empresas de comércio eletrônico. “Para empreendedores que estão começando, ter uma apresentação bem preparada pode ser até mais relevante do que um plano de negócios estruturado no papel” Exame PME ouviu investidores, consultores e empreendedores que passaram por essa situação. O roteiro a seguir foi feito para ser cumprido em 5 minutos – padrão em boa parte dessas apresentações. Há sugestões de quantos minutos reservar para cada tópico. Pode-se aumentá-los ou diminuílos, fazendo os ajustes necessários de forma que o tempo total se mantenha. Quem é você? Muitos empreendedores mal começam a se apresentar e desandam a contar aspectos sobre a estratégia ou as projeções da empresa, deixando de lado algo essencial: quem são eles e por que decidiram começar a empresa. “É importante conhecer as pessoas envolvidas no negócio e o que as motiva a seguir em frente’: afirma Maurilio Alberoni, consultor especializado em negócios emergentes, que costuma preparar empreendedores para esse tipo de apresentação relãmpago. Isso não quer dizer que os investidores queiram conhecer o histórico profissional detalhado do empreendedor – seu interesse é saber qual a afinidade dos fundadores com o projeto que está sendo apresentado. Nesse momento, uma boa forma de atrair a atenção da platéia é resumir como surgiu a ideia do negócio, sem entrar em detalhes muito técnicos. “Certa vez, ouvi um empreendedor contar que sua filha nascera com uma deficiência e, por isso, não podia ingerir alimentos com ingredientes industrializados’: diz Alberoni. “Como era difícil encontrar produtos adequados nos supermercados, ele decidiu pedir demissão do emprego, estudar o tema a fundo e montar uma empresa especializada em alimentos naturais e orgânicos:’ A oportunidade Parceiros e potenciais investidores quase sempre estão interessados em crescimento. É fundamental mostrar a eles qual é o negócio da empresa e por que os empreendedores acreditam que estão preparados para aproveitar uma oportunidade. “É preciso deixar claro, na primeira metade da apresentação, que tipo de problema a empresa resolve ou qual a necessidade do mercado que se propõe a atender’: afirma Cassio Spina, diretor da Anjos do Brasil, associação que reúne investidores de empresas nascentes. “Os investidores estão sempre atrás de saídas novas ou criativas para velhos problemas:’ Não é recomendável perder tempo com projeções e gráficos minuciosos – é melhor ser objetivo. Um exemplo hipotético: se a empresa presta um serviço que diminui os vazamentos de água nas tubulações, deve dizer que seu negócio é “resolver o problerria das perdas na distribuição de água” “Em poucas palavras, o empreendedor já teria determinado o mercado – as distribuidoras de água – e a oportunidade que tem em vista, que é resolver o problema das perdas’; diz Spina.  Negócios em jogo Quem possui recursos para investir numa empresa iniciante geralmente está, acima de tudo, interessado em saber como vai receber seu dinheiro de volta. Numa apresentação de apenas 5 minutos, é necessário aproveitar o tempo para dizer a eles de onde vêm as receitas do negócio. “Muitos empreendedores se atrapalham nessa parte da apresentação; afirma o investidor-anjo Anibal Messa. “É muito comum que percam tempo falando dos aspectos técnicos do produto ou serviço da empresa, em vez de se concentrarem nas fontes de receita:’ O empreendedor Túlio Soria, de 25 anos, aprendeu a dizer o que o público quer ouvir. Ele é sócio da Mother Caia, empresa de jogos para celular e redes sociais de Bauru, no interior paulista. “Quando comecei a participar de rodadas de apresentação, pude perceber que os investidores se entediam muito rapidamente com aspectos demasiadamente técnicos do negócio; diz Soria. Fundada em 2009, a Mother Caia recebeu no ano passado um aporte da gestora brasileira de fundos PortBank. O investimento veio após uma apresentação de Soria num evento organizado pela Anjos do Brasil. “Foi importante ressaltar, bem no comecinho, como a empresa gerava receitas’; diz Soria. Os joguinhos do Facebook, por exemplo, funcionam sob um modelo em que o usuário pode brincar com os jogos de graça, mas é incentivado a comprar recursos extras pagando pequenas taxas por vez. Porque você? É preciso listar quais são os pontos fortes e os pontos fracos do negócio. É o tipo de informação que dá ao investidor a segurança de que o empreendedor tem noção de quanto seu plano de negócios está maduro e de quanto ainda precisa melhorar. “Quem acredita que sua empresa não tem concorrentes é muito ingênuo’; afirma o consultor Maurílio Alberoni. “Dizer isso numa apresentação pode passar uma péssima impressão:’ A lógica dos investidores é outra – para eles, é raríssimo, nos dias de hoje, que um mercado, por menor que seja, não esteja sendo explorado ou sendo objeto de interesse de outras empresas. “É preferível dizer quem são seus competidores, quais seus pontos fortes e quais as brechas que deixam para uma empresa emergente explorar’; diz Alberoni. “Isso mostra que o empreendedor conhece bem seu mercado e está atento aos riscos e às oportunidades:’ Foi esse tipo de informação que o paulista Daniel Avizú, de 32 anos, se preocupou em dar a potenciais investidores ao apresentar sua empresa, há quase dois anos, num evento em São Paulo. Ele é sócio da ZoeMob, empresa que faz um aplicativo que permite aos pais monitorar os filhos por meio do GPS do celular. O aplicativo pode ser usado, por exemplo, para saber se a criança chegou à escola no horário e se saiu mais cedo. Também é possível rastrear o conteúdo das mensagens trocadas pelos filhos e até descobrir a velocidade do carro em que estão. “passei a semana antes da apresentação pensando em como apresentar minha empresa, diz Avizú. Ele identificou quatro pontos fortes: o aplicativo podia ser baixado em celulares com pouquíssimos recursos tecnológicos, raramente parava de funcionar, já gerava alguma receita na época da apresentação e era realmente usado pelos clientes que o compravam. “Saído evento com 25 contatos’: afirma Avizú. Desses, quatro mantiveram conversas depois do evento – um investir-anjo decidiu pôr dinheiro no negócio. EU PRECISO DE …Antes que o tempo acabe, é hora de dizer quais são as necessidades da empresa. É preciso recursos ou apoio de um investidor-anjo para aprimorar o plano de negócios? Está no momento de procurar um aporte de capital maior com um fundo de investimento?A empresa precisa de um parceiro de negócios capaz de ajudá-la a superar desafios importantes, como a abertura de canais de distribuição  ou a entrada num novo mercado? Tudo isso precisa ficar claro no final do discurso. “O objetivo é atrair interessados para o próximo passo, que pode ser uma reunião ou uma apresentação mais detalhada, afirma Cassio Spina. “Se a ideia é mesmo receber um aporte de capital, é preciso informar quanto de dinheiro você precisa para financiar seu projeto’; diz Spina. Além disso, é preciso discriminar as áreas para onde vai a quantia necessária. Em poucas frases, dá para dizer quanto será investido em pesquisa, desenvolvimento de produtos ou na área comercial, por exemplo.

 

A ESCOLHA E SUA

Em junho, cerca de 150 pequenas e medias empresas de várias regiões do país se inscreveram

no 3º Choque de Gestão Exame PME – projeto cujo objetivo é ajudar um empreendedor a melhorar a performance de sua empresa. Como nas edições anteriores, foram selecionadas quatro finalistas. A empresaque se submete ao choque é escolhida numa eleição que envolveos cerca de 14000 membros na rede social Exame PME. Em seguida, começa a fase de consultoria. Os trabalhos abordam quatro áreas fundamentais do crescimento – finanças, marketing, recursos humanos e gestão. Danilo Nascimento, da BPC PME, está encarregado dos aspectos de gestão e estratégia. Antoniel Silva, da Grant Thorton, é responsável por examinar tudo o que se refere a recursos humanos. O marketing coube a Maximiliano Tozzini Bavaresco, da Sonne. O consultor Cid Pirondi, sócio da Tudo Blue Arquitetura Contábil, ficou com os assuntos financeiros. O passo a passo das mudanças pode ser acompanhado em reportagens publicadas nas três próximas edições de Exame PME e em um blog escrito pelo empreendedor da empresa avaliada (http://exame.abril.com.br/rede-de blogs/choquede- gestao). Conheça, a seguir, cada um dos finalistas e seus principais desafios. Qual deles merece ganhar a consultoria? Dê seu voto na rede Exame PME (revistapme.ning.com) entre 17 e 22 de agosto.

 

ENGOLIR UM SAPO PODE SER BOM

Menino engole o choro agora mesmo! Era o que minha mãe dizia quando eu era pequeno e começava a chorar. Cresci e me tornei empreendedor. Certo dia me reencontrei com o

Sidney criança ao me dar conta de que jamais choro quando algo dá errado nos negócios. Às vezes, quando a vida está muito difícil, admito que tenho vontade de chorar. Então ecoam na minha cabeça as palavras de minha mãe para eu eu aprendi essa lição – mas houve outra muito mais difícil de assimilar: a arte de engolir sapos. Talvez por eu ter tido uma infância pobre e sofrida, cresci achando que jamais se deve levar desaforo para casa. Hoje, aos 40 anos, percebo que aquele Sidney que iniciou sua empresa sem dinheiro, mas com coragem e ousadia de sobra, também deveria ter adicionado à rotina a arte de engolir sapos. Um sapo aqui e outro ali não fazem mal a ninguém, mas minha juventude não me deixava perceber isso. O duro é ver que ainda hoje muitos empreendedores deixam-se levar pela arrogância e não engolem sapo algum sob a justificativa de que isso é coisa de gente fraca. Penso exatamente o contrário. Forte é quem consegue engolir sapos. Certa vez, no início de minha empresa, eu aguardava há 30 minutos na sala de espera de um cliente quando sua secretária avisou que ele demoraria mais meia hora para me atender. Irritado e me sentindo desrespeitado, já que eu havia chegado na hora marcada, saí e nunca mais voltei. Não aceitava levar um desaforo daquele. Hoje, se isso acontece, agradeço à secretária e fico esperando. Ao ser atendido, tenho a certeza de que estarei tratando com alguém que já começa a conversa me devendo alguma  coisa – pelo menos no que diz respeito ao tempo, já que me deixou esperando. Se tenho de aguentar desaforo, ao menos tiro algum proveito disso. Sou compreensivo com fornece  dores que erram e com clientes que falham nos compromissos comigo. É claro que sei usar isso a meu favo[ Com os anos, passei da rejeição em engolir os sapos para a arte de enfrentá- los e digeri-los rapidamente. Aprenda minha receita. Use astúciae conhecimento para temperar os sapos. Acrescente uma pitada de bom humor para azeitá-los e fazê-los descer macios pela garganta. Não quer dizer que é para engolir todos os sapos que surgem à sua frente. Em certas ocasiões, é melhor chutar o balde. Mas entre engolir o sapo ou ser engolido por ele…engula o choro e o orgulho. Senão o mercado engolirá você. Mais à frente você perceberá que as tarefas mais chatas foram justamente as mais lucrativas. E,quem sabe, com sorte e eficiência, você, menina, transformará sapos em príncipes, enquanto os meninos podem encontrar belas princesas.

 

ALTA VOLTAGEM

ÃO É DIFíCIL ENCONTRAR O ENDEREÇO DO APOSENTADO Evaldo Rodrigues, de 61 anos – mesmo quando falta luz no bairro onde mora, situado numa das praias de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. “Só na minha casa as lâmpadas continuam acesas’: diz Rodrigues. Há alguns anos, ele e a mulher, Mirian, de 61 anos, instalaram no quintal um gerador que parece um ventilador gigante. A brisa do mar move uma hélice que, por sua vez, aciona uma turbina que produz eletricidade. “Metade de nossa energia é produzida com a força do vento’: diz Rodrigues. Outra parte, usada para esquentar a água do chuveiro, advém de um aquecedor que utiliza o calor do sol. “Só 30% do consumo é eletricidade fornecida pela distribuidora” diz. Histórias como a dos Rodrigues devem ser cada vez mais comuns no Brasil nos próximos anos. A produção de energia por fontes alternativas – como vento, sol e biomassa (resíduos como lixo e bagaço de cana-deaçúcar) – vem aumentando rapidamente. Em 2011, os investimentos em negócios ligados ao setor ultrapassaram 8 bilhões de dólares no país, segundo a consultoria Bloomberg New Energy Finance. Para cada brasileiro, foram investidos 42 dólares – quatro vezes o valor de seis anos atrás. Os  recursos foram para parques eólicos, usinas solares, termelétricas movidas a biomassa e fornecedores de produtos e serviços da cadeia produtiva. Até 2020, esses investimentos devem elevar a participação das fontes alternativas no total de energia produzida no Brasil de 10%para 16%,de acordo com a estimativa da Empresa de Pesquisa Energética, do Ministério de Minas e Energia. Para os empreendedores, esses números significam um grande mercado. ’1\ demanda por produtos e serviços para novas usinas vai naumentar, e muito’: diz Mauro Passos, presidente do Instituto Ideal, organização não governamental que acompanha as tendências no setor. ’1\spequenas e médias empresas devem ser as principais beneficiadas:’ A procura já está acontecendo. As usinas estão comprando hélices, geradores, painéis solares, caldeiras, cabos de alta tensão, medidores de consumo e serviços como treinamento de mão de obra e transporte. O gerador a vento no quintal de Rodrigues, por exemplo, foi produzido pela Enersud, fabricante de torres e turbinas localizada em Maricá, no Rio de Janeiro. A empresa nasceu há dez anos, quando o engenheiro mecânico Luiz Cezar Pereira, de 71 anos, se aposentou da Petrobras. Pereira começou a pesquisar modelos de hélices e turbinas para iluminar sua casa no litoral fluminense com a força do vento maritimo. “Só encontrei equipamentos importados’: diz ele. ‘Desenvolvi um modelo e o patenteei:’ Pereira passou, então, a vender as máquinas a moradores de áreas sem luz elétrica nos arredores de Niterói e a fazendeiros do interior de São Paulo e Minas Gerais. Ao longo dos anos, Pereira montou equipamentos mais potentes e conquistou como clientes empresas que consomem grandes quantidades de energia em áreas remotas, como transportadoras qye instalam antenas em estradas pouco movimentadas para rastrear o tráfego de suas cargas. No início, uma pequena equipe de vendas recebia as encomendas, feitas por telefone ou pela internet. “Chegou um momento em que não dávamos mais conta de tantos pedidos’; diz Pereira. Nos últimos meses, foram feitas parcerias com lojas do Sul e do Nordeste – regiões onde o vento mais forte e constante permite aos equipamentos da Enersud gerar energia o tempo inteiro. Os novos pontos de venda devem ajudar a empresa a fechar o ano com 2 milhões de reais em receitas – um aumento de 10% em relação ao ano passado. O cenário para pequenas e médias empresas inseridas na cadeia de produção de energia  de fontes alternativas é favorável no mundo todo. Eis as principais razões: • O aumento no consumo mundial de energia deve crescer 36% entre 2010 e 2035, segundo a Agência Internacional de Energia (AlE) – puxado, sobretudo, pela força da economia de países emergentes, como o Brasil. A maior demanda deve colaborar para a elevação do preço dos combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, que hoje fornecem 81% da energia consumida no mundo. Segundo a AlE, novas reservas terão de ser encontradas. É provável que elas estejam escondidas em camadas terrestres menos acessíveis do que hoje – é o caso, por exemplo, do présal brasileiro. O custo da extração, portanto, tende a aumentar. Para atender ao aumento do consumo nas próxímas duas décadas, a AlE prevê que serão necessários 8 trilhões de dólares – quatro vezes o valor do produto interno bruto brasileiro em 2011. • O Protocolo de Kyoto estabeleceu metas de cortes de até 5% nas emissões de gás carbônico em vários países até 2020. Novos acordos desse tipo devem ocorrer, o que requer desestimular a queima de combustíveis fósseis, que contribuem para a maior parte da liberação de gás carbônico na atmosfera. • Há cada vez menos áreas que podem ser alagadas para a geração de energia. E, mesmo quando exístem, a usina custa uma fortuna. Três Gargantas, na China – a maior hidrelétrica do mundo -, custou 22 bilhões de dólares e gera apenas 2% da energia consumida pelos chineses. . • Por outro lado, o custo das tecnologias para produção de energias alternativas caiu drasticamente nos últimos anos. Na Europa. o custo da eletricidade gerada por painéis solares, por exemplo, está cada vez mais competitivo em relação ao de fontes como carvão, gás natural e atõmica, segundo a Epia, associação europeia do setor de energia solar. Os especialistas acham que a combinação desses fatores vai inverter a lógica do setor, o que favoreceria pequenas e médias empresas. Prospectar petróleo e erguer grandes hidrelétricas Grande parte do custo vem da necessidade de intervenções agressivas na natureza. O petróleo precisa ser extraido das profundezas do planeta. Três Gargantas exigiu a inundação de uma área equivalente a duas vezes o tamanho de Curitiba e desalojou 1,3 milhão de pessoas. Mas vento e sol estão por aí, prontos para ser usados. Em seu livro Terceira Revolução Industrial, recentemente lançado no Brasil, o economista americano Ieremy Rifkin diz que a primeira revolução energética – a da máquina a vapor, inventada em 1698 – resultou, no século seguinte, em poucas e grandes empresas fornecedoras de carvão. A segunda, iniciada em 1870, quando o petróleo e o gás derivado de petróleo começaram a ser usados como combustível, produziu magnatas que enriqueceram rapidamente. Nos dois casos, a certo ponto o setor fechou as portas para a entrada de novos empteendedores. Rifkin acha que, desta vez, as energias alternativas formarão um mercado muito mais descentralizado e baseado no comércio entre milhões de pequenos e médios fornecedores de energia. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a terceira revolução já começou no Brasil. Em abril, a Aneel, órgão do governo federal que regula o setor elétrico brasileiro, autorizou domicílios e empresas que produzem mais energia do que consomem a liberar o excedente nas redes das distribuidoras. Em troca, recebem descontos na conta de luz nos períodos chuvosos ou sem ventos, em que a produção própria costuma ser menor do que o consumo. Os especialistas do setor acreditam que um dos resultados disso é o aumento na demanda por painéis solares ~ sobretudo pelos fabricados na China, onde são produzidos esses equipamentos a baixo custo.

Uma das importadoras desses painéis é a Blue-Sol, de Ribeirão Preto, no interior paulista. “Temos recebido encomendas de todo o país’; diz José Renato Colaferro, de 27 anos, sócio da empresa. Colaferro calcula que a Blue-Sol vá faturar 8 milhões de reais em 2013 – quatro vezes mais do que neste ano. ‘Agora, o desafio é encontrar mão de obra para atender tantos clientes’; diz ele. Para isso, a Blue-Sol criou cursos de treinamento abertos a qualquer pessoa. “Em um ano e meio já formamos mais de 700 profissionais’; diz. Outro empurrão para as energias alternativas no Brasil veio do programa Minha Casa, Minha Vida – iniciativa governamental para facilitar a aquisição de residências populares. Uma das normas do programa, editada no ano passado, prevê que as casas direcionadas às famílias com renda inferior a 1500 reais sejam obrigatoriamente equipadas com aquecedor solar. Um dos empreendedores que estão aproveitando essa oportunidade é o engenheiro Luiz Antônio dos Santos Pinto, de 53 anos, dono da Solis, com sede em Bírígui, no interior de São Paulo. Ele desenvolveu um modelo de aquecedor popular e vendeu quase 300 unidades para a construtora paulista CDM, que está instalando os equipamentos num conjunto habitacional com casas de 43 metros quadrados em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Em 2012, a Solis prevê faturar 7 milhões de reais. O Brasil tem uma grande vocação para gerar energia com fontes alternativas. A insolação – quantidade de radiação solar por metro quadrado – é o dobro do que na Alemanha, país que atualmente mais produz eletricidade a partir do sol. A produção de etanol também gera grande quantidade de bagaço de cana-de-açúcar. O bagaço de cana que sobra nas usinas alcooleiras abriu espaço para empresas de engenharia, como a Proeng, de Jaboticabal, no interior paulista, especializada em projetos de centrais elétricas em usinas de cana. Uma dificuldade dos clientes da Proeng é conseguir financiamento para levar esses projetos adiante, que incluem equipamentos como caldeiras de alta pressão e linhas de transmissão potentes. “Os bancos querem como garantia que os usineiros provem que já têm clientes para os próximos dez anos’: diz o engenheiro Renato Pinto, de 52 anos, um dos sócios da empresa. Segundo Renato, a conta não fecha porque a maior parte dos compradores potenciais para a energia gerada por seus projetos são shopping centers e indústrias, que hoje fecham com as distribuidoras contratos de fornecimento de cerca de cinco anos. “É difícil encontrar clientes interessados em acordos de longo prazo’: diz ele. Renato então teve a ideia de procurar investidores interessados em colocar dinheiro nos projetos dos clientes da Proeng – e conseguiu convencer os gestores de fundos dos bancos BTG Pactuai e Fator. Em seis anos, a empresa participou da construção de três usinas, que já estão em funcionamento no interior paulista. Há mais 17 projetos em andamento. O faturamento da Proeng nesse período cresceu dez vezes e deve atingir 15 milhões de reais em 2012. O potencial do mercado brasileiro está chamando a atenção de muitos investidores estrangeiros. Os recursos externos em empresas brasileiras do setor somaram 4 bilhões de dólares no ano passado, segundo dados da consultoria inglesa fDi Intelligence – valor dez vezes maior que há seis anos. A mineira Limpebrás foi uma dessas empresas. Fundada em 1995 para cuidar da limpeza urbana de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a Limpebrás administra dois aterros sanitários que ocupam uma área equivalente a 60 campos de futeboL No ano passado, a Limpebrás se associou à italiana Asja, dona de 24 usinas de biogás na Itália e mais duas no Brasil, para gerar eletricidade com a decomposição de lixo nos aterros de Uberlândia. As duas empresas criaram uma terceira, a Energás, para administrar o investimento de 15 milhões de reais a ser feito nos próximos cinco anos. Além do investimento, a empresa italiana foi responsável pela escolha dos fornecedores para a construção de uma usina e pelo contrato de venda da eletricidade à Cemig, concessionária de energia de Minas Gerais. ’1\ parceria nos deixou seguros da viabilidade do negócio’: diz Domício Ricardo Borges, de 64 anos, fundador da Limpebrás. A nova unidade de negócios deve faturar 4 milhões de reais neste ano, o que deve ajudar a Limpebrás a elevar 12% as receitas, previstas para chegar a 65 milhões de reais. Os investimentos em fontes alternativas também incluem projetos de pequenas centrais hidrelétricas. Nessas usinas, as represas medem no máximo 3 quilõmetros quadrados – um laguinho se comparados aos 1 500 quilõmetros quadrados inundados para dar lugar à usina de Itaipu. Hoje há no país 422 pequenas centrais hidrelétricas – o dobro nde uma década atrás, segundo dados da Abragel, a associação de empresas do setor. Boa parte dessas usinas foi feita por empresas interessadas em reduzir a conta de luz ou por distribuidoras de energia com programas de prevenção contra blecautes. Esse mercado abriu espaço para empresas como a AQX, de Florianópolis, fabricante de equipamentos que monitoram geradores. Entre os clientes da AQX estão distribuidoras de energia, como a mineira Cemig e a paranaense Copel, que construíram pequenas hidrelétricas nos últimos anos. Por enquanto, as receitas da AQX, estimadas em 2 milhões de reais em 2012, vêm da venda do equípamento. “Logo vamos oferecer o monitoramento como uma prestação de serviço pago em mensalidades’: diz Mauro Pacheco, de 44 anos, sócio da empresa. “Será uma alteração importante no nosso modelo de negócios, pois permitirá obter receitas recorrentes que vão sustentar nosso crescimento’: diz ele  QUANDO o pior acontece o que fazer ao perder da noite para o diatodo o trabalho prestes a ser entregue a um grande cliente? Em março, o empreendedor ROdrigo Lopes, de 30 anos, enfrentou algo assim em sua empresa, que desenvolve desenhos de etiquetas para redes como C&A e Marisa. O computador que guardava o material entrou em pane. “Não tínhamos uma cópia”, diz Lopes. O trabalho foi recuperado em 48 horas por uma empresa que restaura dados de máquinas submetidas a incêndios, enchentes e outros desastres. “O preço começa em 800 reais e varia de acordo com a quantidade de arquivos a ser recuperada”, diz Romildo Ruivo, da CBL Tech, que presta esse tipo de serviço.

 

Sua empresa em cartaz no facebook

Um novo aplicativo usa o Facebook para facilitar a transmissão de vídeos ao vivo, como palestras para funcionários e anúncios de lançamento de produtos para clientes e fornecedores, por exemplo. O MyEyes dispensa outras tecnologias para transmitir os vídeos. A captura da imagem pode ser feita com uma webcam. Tão logo começa a exibição, um link aparece na página da !mpresa no Fácebook. Basta :llcar e assistir. Depois, o vileo permanece arquivado :»arafuturas consultas.

 

Confianca documentada

Apesar dos beneficios de fazer compras pela Intemet, muitos usuários ainda têm receio de ter seus dados pessoais roubados. Uma forma de diminuir esse tipo de preocupação do cliente é obter certificados que atestam que o slte está protegido contra fraudes. Uma pesquisa feitapelo Slte Blindado aponta que as vendas aumentam uma média de 8% nas lojas que aderem aos certificados. Veja abaixo os principais tipos de atestado.

 

O e-mail na berlinda

Um estudo da empresa americana Return Path mostrou que 35,5% das mensagens de marketing enviadas no Brasil em 2011não chegaram aos destinatários – elas foram bloqueadas pelos provedores ou perdidas. É um desperdício acima da média mundial. A pesquisa também apontou as maiores dificuldades e o que vem sendo feito para aumentar a eficiência das campanhas. Veja o resultado.

 

UM SUCESSO DE PUBLICO

aos 24 anos, a paulistanaBel Pesce já tem um bocado de histórias para contar. Ela vive nos Estados Unidos desde 2006, quando mudou do Brasil para estudar no Massachusetts Institute ofTechnology. De lá, saiu para iniciar uma carreira que a levou para companhias como Microsoft e Google, além de pequenas empresas de tecnologia, no Vale do Silício, berço de negócios inovadores na Califórnia. Hoje, Bel é sócia da Lemon, empresa que produz um aplicativo para celular que ajuda as pessoas a cuidar das finanças pessoais. Em maio, Bel reuniu parte de suas experiências no livro eletrônico A Menina do Vale,disponível gratuitamente na internet. Em menos de três meses, mais de 700 000 pessoas fizeram download do livro, que acaba de ganhar uma versão impressa. Na entrevista a seguir, ela fala sobre a repercussão do livro na internet e sobre como quer ajudar a disseminar a cultura do empreendedorismo no país. EXAME PMJ! Como surgiu a ideia de escrever um livro? Bel Pesce Eu queria contar um pouco da minha história e do que aprendi nos Estados Unidos, primeiro trabalhando em empresas como Microsoft e Google e hoje como empreendedora. Minha intenção era falar ,rp temas que considero essenciais para quem está à frente de uma empresa, como a importância de formar bons times e o poder existente numa boa rede de contatos. Como você foi parar no  Vale do Silicio? Vim para os Estados Unidos em 2006 para estudar no Massachusetts Institute ofTechnology (MIT). Depois, trabalhei em empresas de tecnologia no Vale do Silício, na Califórnia, berço de grandes companhias como Facebook e Google. Mais recentemente, conheci dois empreendedores latino-americanos e me juntei a eles para começar a Lemon, cujo principal negócio é um aplicativo papara ajudar as pessoas a organizar suas finanças. O que é mágico no Valedo Silício é a proximidade entre investidores e empreendedores. Existem também muitas histórias inspiradoras nas quais se espelhar – o que e excelente para perder o medo de as· sumir riscos e empreender. oque os brasileiros podem aprender com os americanos? Aprendi com os americanos que um empreendedor não pode ter medo de errar. Pelo contrário, é preciso reconhecer os erros e aprender com eles para melhorar e seguir adiante. Os investidores sabem disso. Antes de pôr dinheiro num negócio, eles procuram saber se o empreendedor e as pessoas que o cercam têm condições de tirar suas ideias do papel. Uma boa ideia executada por gente ruim pode não dar em nada, mas uma má ideia nas mãos de bons profissionais sempre

vai ser um ponto de partida para alguma coisa nova e melhor – pessoas inteligentes no mínimo vão chegar rapidamente à conclusão de que é preciso descartar um projeto mal concebido e partir logo para outro. Boa. parte do livro fala sobre as habilidades que um empreendedor precisa ter. Existe a história de que a pessoa nasce com o dom de empreender? Qualquer um é capaz de aprender o que é necessário para ser dono do próprio negócio. Minha ideia foi reunir algumas das lições mais importantes que alguém um dia me ensinou. Propositalmente, escrevi numa linguagem muito simples e direta. Meu objetivo era me comunicar com pessoas que ainda estão pensando em abrir uma empresa ou que nunca pensaram que empreender fosse uma opção. Isso é algo importante para o momento que o Brasil vive. Vejo muita gente querendo empreender no país. No futuro, talvez escreva algo para quem já tem o próprio negócio. Quando você descobriu que podia ser empreendedora? Desde criança, sempre amei criar coisas. Gostava de montar e desmontar tudo. Criava bijuterias para vender. Aos 10 anos, andava com uma pastinha com ideias para jogos de videogame. Imaginava que encontraria alguém para me ajudar a tirar as ideias do papel. Mas só pensei em me tornar empreendedora ao vir estudar nos Estados Unidos e encontrar uma cultura muito forte de empreendedorismo – até então, eu mal conhecia o significado dessa palavra. Houve alguma estratégia de divulgação? Não houve uma estratégia propriamente dita. Aconteceu. Um dos impulsos para a divulgação do livro veio do Flávio Augusto, dono da rede de escolas de idiomas Wise Up. Ele trabalha um bocado para divulgar o empreendedorismo no Brasil e mantém uma comunidade na internet chamada Geração de Valor – há uma página no Facebook, um perfil no Twitter com mais de 300 000 seguidores e um canal de videos no YouTube dedicados ao assunto. Além da Wise Up, Augusto é dono de uma agência de publicidade e se ofereceu para me ajudar com o projeto gráfico do livro. O trabalho acabou se transformando

num projeto muito maior, e a mesma agência produziu o site do livro na internet. Quando o trabalho finalmente

ficou pronto, Augusto fez um video sobre o livro e o divulgou para seus contatos nas redes sociais. Você esperava atrair tantos leitores ao abordar um tema como esse? Foi uma surpresa para mim tanta gente se interessar pelo livro. As redes sociais ajudaram a encontrar meu público. A maioria das cópias foi baixada da internet por pessoas que chegaram ao livro pelo Facebook Muita gente o baixou, leu e compartilhou o link com seus contatos, o que ajudou a atrair ainda mais leitores. Em algum momento você pensou em ganhar dinheiro com O livro! Não. Desde o início desejei que o livro ficasse disponível gratuitamente na internet. Foi um projeto feito nas minhas horas vagas com muito carinho, sem fins lucrativos. Há pouco mais de um mês, fechei contrato com uma editora, e agora uma versão impressa já está chegando às livrarias. Busquei parcerias para ajudar a custear a impressão e deixar o livro o mais barato possível, para que muitas pessoas pudessem comprá-lo. Quero contribuir como puder para disseminar entre os brasileiros a ideia de que empreender pode ser uma boa opção de carreira, assim como outra profissão qualquer. E que tipo de retorno voce tem recebido dos leitores! Recebi uma quantidade absurda de emails. Nem estou conseguindo responder a todos. Uma das mensagens que mais gostei veio de um menino de 8 anos. Meu livro foi, segundo ele, o primeiro que leu sem que os pais mandassem – não sei como o garoto o achou na internet e por que se interessou pelo tema. Também recebi emails de um homem que contou que imprimiu cópias para seus filhos e netos. Achei interessante, porque eu acreditava atrair um público bem mais jovem. Recebi muitas mensagens de médicos e profissionais liberais dizendo que o livro abriu seus olhos sobre como deveriam administrar seus consultórios e escritórios. VOCE PENSA EM ABRIR ALGUM NEGOCIO NO Brasil?Claro! Já tenho alguns projetos engatilhados, mas ainda não é o melhor momento para falar deles.

 

SEM DESCONTO NO CARTAO DE CREDITO

Muitos empreendedores do descontos maiores a quem paga em dinheiro ou em Cheque. O objetivo é desestimular os consumidores a comprar com cardo de crédito e diminuir os custos comas taxas cobradas pelas operadoras. A prática, embora disseminada, ainda é controversa. “Mio h4 um consenso sobre se é legal cobrar preços diferenciados por um mesmo produto ou serviço”, diz advogada Joyce de Alcelal Fonter, da Banhame Sociedade de Advogados. Recentemente, a corrente que defende preços distintos de acordo com a forma de pagamento ganhou um reforço. A Justiça mineira derrubou uma portaria do instituto de Defesa do Consumidor de Minas Gerais que proibia as empresas de dar descontos menores em compras feitas com cartio de crédito.

 

Quando não há provas

Empresas que movem ações contra clientes, Brasília. A Microsoft acusara a’ empresa de fornecedores ou concorrentes podem ter de utilizar softwares pirateados. Em 2005, periarcar com as consequências de uma denún- tos judiciais chegaram a fazer uma auditoria cia infundada. Recentemente, o Superior Tri- nos servidores da empresa denunciada – cobunal de Justiça condenou a Microsoft a mo nenhum programa irregular foi encontra pagar uma indenização de 100000 reais por do, seus sócios decidiram entrar com uma danos morais causados a uma empresa de ação contra a Microsoft.

 

O cliente que se cuide

A empresa nem sempre é responsável pelo que acontece de ruim com os clientes em suas dependências. Foi o que decidiu no começo deste ano o Superior Tribunal de Justiça ao  analisar uma ação movida por um casal assaltado enquanto abastecia o carro num posto de gasolina. “Como os postos de gasolina são abertos à circulação de pessoas e veículos, os ministros do tribunal entenderam que seus donos nada podiam fazer para evitar o assalto”, diz o advogado Rodrigo Abranches. Veja em que situações a empresa é obrigada a pagar indenização por uma ocorrência na empresa – e quando não é preciso indenizar.

 

“No banco Dos REUS

Um sócio desonesto pode ser expulso da empresa? Sim. Motivo Em empresas limitadas, um sócio pode ser expulso caso cometa atos desonestos ou criminosos, como desviar dinheiro do caixa, fraudar a contabilidade ou usar a empresa para praticar alguma irregularidade. A legislação prevê, no entanto, que o sócio excluído receba como ressarcimento o valor de sua participação na empresa. o que fazer Há dois caminhos para excluir um sócio que comete um crime. Se o acusado tiver participação minoritária no negócio, a expulsão pode ser decidida pelos demais acionistas, desde que o contrato social da empresa preveja essa possibilidade. Quem estiver sendo expulso deve ter o direito de se defender e de participar da reunião em que sua situação estiver sendo discutida pelos demais integrantes da sociedade. Além disso, é possível entrar na Justiça com uma ação para expulsar o sócio desonesto. Nessas situações, a lei exige que se comprove que o acusado cometeu uma falta grave no cumprimento ‘ de suas obrigações.

 

681 milhões de reais

em dívidas trabalhistas foram pagas em Junho. durante a 21 Semana Nacional de Execução Trabalhista. Entre os processos concluídos. existem casos antigos. Como o de um garçom de Florianópolis que movia uma ação contra os donos do bar em que ele trabalhava no começo da década de 90. De acordo com estimativas do advogado trabalhista Fernando Borges Vieira. sócio do escritório Manhães Moreira Advogados Associados. mais de 60% das dívidas pagas referiam-se a processos envolvendo pequenas e médias empresas e seus funcionários.

 

O BENEFICIO DA VAGA

Donos de negócios que cedem estacionamento para os funcionários precisam ficar atentos a forma como as vagas são oferecidas. Caso esteja previsto no contrato de trabalho, a concessão do espaço para estacionar se torna um direito do empregado. Nessa situação, a vaga não pode ser passada a outra pessoa, mesmo que o funcionário não tenha carro ou prefira trabalhar de ônibus. “Para evitar problema e melhor não incluir o estacionamento no contrato de trabalho”. Diz Cristiane Haink, do plkc Advogados. Ë recomendável firmar um contrato a parte, no qual deve constar que a empresa tem direito de retomar a vaga caso não esteja sendo utilizada.

fapesp 23-08

Poli da USP testa biofiltro  em aterro sanitário

 

Por Júlio Bernardes – Agência USP On Line

 

Um sistema de biofiltros para estudar o comportamento de cobertura em aterros sanitários é testado em pesquisa da Escola Politécnica (Poli) da USP. A cobertura possui bactérias que oxidam e consomem o gás metano (CH4), causador do efeito estufa na atmosfera, que escapa pela cobertura dos aterros sem passar pelo sistema de drenagem, impedindo seu descarte no ambiente. Os pesquisadores também desenvolvem um método para medir a quantidade de metano oxidado, de forma a possibilitar a venda de créditos de carbono. O estudo tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a participação do Instituto de Ciências Biomédicas (lCB) da USP  e colaboração da prefeitura da cidade de Campinas (interior de São Paulo). O professor da Poli, Fernando Marinho, que coordena a pesquisa aponta que apenas 30% dos municípios brasileiros descartam seu lixo em aterros sanitários, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. “Esses resíduos emitem metano (CH4) e gás carbônico (C02), gases que contribuem para o aumento do efeito estufa”, alerta. “A instalação de aterros sanitários permite minimizar emissões nocivas, mas como o lixo é um material muito compressível, ele se movimenta, formando trincas nas coberturas e permitindo o escape dos gases”. O operador de aterros concebidos a partir de um projeto de engenharia tem a opção de capturar o gás de lixo (biogás) e queimá-lo, podendo ainda gerar energia.        

Após este processo apenas C02 é emitido. “Há uma redução da poluição atmosférica, porque o gás carbônico é 21 vezes menos potente para gerar o efeito estufa que o metano”, conta o professor. “No entanto, a queima para geração de energia não tem sido uma iniciativa interessante em termos estritamente econômicos”. O biofiltro é formado por uma colônia de bactérias bastante comum em solos com matéria orgânica. A idéia é criar condições na parte superior do sistema de cobertura de modo a permitir que a colônia se desenvolva e seja eficiente no consumo do metano. “A cobertura metanotrófica (que oxida o metano) é formada por um solo onde se acrescenta matéria orgânica com o objetivo de inocular a bactéria. Assim as bactérias oxidam o metano, gerando gás carbônico e água”, destaca Marinho. “O ideal é que a camada do biofiltro fique acima da cobertura final do aterro sanitário ou de qualquer cobertura projetada, mesmo que em lixões.” MEDIÇÕES: Os pesquisadores medem a quantidade de metano que entra no biofiltro e a que é oxidada ao longo dele. “Para utilizar o biogás e submeter o biofiltro a condições climáticas idênticas a de um aterro em funcionamento, o sistema foi instalado no aterro sanitário Delta 1, em Campinas”, diz o professor. O sistema é periodicamente monitorado, medindo-se parâmetros tais como: temperatura, umidade do solo, pressão da água, concentrações dos gases ao longo do biofiltro, além de outros. “As medições de concentrações são feitas entre pontos do aterro cuja diferença indica o quanto foi oxidado, ou seja, deixou de sair para a atmosfera.” O objetivo das medições é criar um procedimento que possa ser usado no cálculo dos créditos de carbono (valores pagos a projetos que reduzem as emissões do efeito estufa). “Capturar o metano que iria escapar sem controle pelo sistema de cobertura é o objetivo, pois o cálculo de queima já é feito em alguns aterros no Brasil”, aponta Marinho. “No entanto, não existe nenhuma quantificação dos processos de oxidação na cobertura”. Além dos experimentos com a cobertura e o sistema de medição em Campinas, com a colaboração da prefeitura da cidade, os pesquisadores já desenvolveram estudos e estão em contato com outros grupos que estudam o mesmo processo nos municípios do Rio de Janeiro (RJ), Caxias do Sul (RS) e Recife (PE). Essas cidades manifestaram interesse em implantar iniciativas semelhantes. De acordo com o professor, o sistema pode ser adotado= em qualquer local em que haja deposição de resíduo sólido urbano e onde haja interesse em projetar uma cobertura. “Se for planejada a colocação de uma cobertura apropriada para finalização de aterros ou lixões, o biofiltro pode ser incluído”, ressalta. “O aumento nos custos é pequeno e é compensado pelo ganho ambiental.

 

A Folha – São Carlos – 07-08-12 – 13 – Geral

 

 

Plástico biodegradável de açúcar está pronto para escala industrial

 

Há mais de dez anos, a empresa PHB Industrial produz em escala piloto o Biocycle, um plástico biodegradável feito com açúcar de cana. Apesar de dominar a tecnologia para fabricar diversos produtos com o polímero e para tomar seu custo competitivo quando comparado ao do plástico convencional, a empresa ainda não conseguiu elevar sua produção a uma escala industrial. Para Roberto Nonato, engenheiro de desenvolvimento da PHB Industrial, o caminho mais curto para levar o Biocycle ao mercado seria uma parceria com a indústria petroquímica. “Temos tentado isso há alguns anos, mas o pessoal do petróleo não costuma conversar com o pessoal do açúcar”, disse durante sua apresentação no workshop “Produção Sustentável de Biopolímeros e Outros Produtos de Base Biológica”, realizado na sede da FAPESP.

A história do Biocycle começou no início dos anos 1990, época em que a Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar) procurava outros produtos que pudessem ser fabricados em uma usina de açúcar que não fossem commodities.

Por meio de uma parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e co.m o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), a Copersucar conseguiu produzir o polihidroxibutirato (PHB) – um polímero da família dos polihidroxialcanoatos (PHA) com características físicas e mecânicas semelhantes às de resinas sintéticas como o polipropileno – usando apenas açúcar fermentado por bactérias naturais do gênero alcalígeno. Em 1994, uma planta piloto foi instalada na Usina da Pedra, em Ribeirão Preto. Em 2000, foi criada a PHB Industrial e a tecnologia passou a pertencer ao Grupo Pedra Agroindustrial, de Serrana, e ao Grupo Balbo, de Sertãozinho. Com apoio da FAPESP por meio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e auxílio de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), a empresa desenvolveu a tecnologia de produção dos pellets – pequenas pastilhas cilíndricas feitas com uma mistura de PHB e fibras naturais -, matéria-prima usada pela indústria transformadora para produzir utensílios de plástico. “Inicialmente, nos preocupamos apenas em desenvolver o PHB e achávamos que a indústria transformadora faria o resto, mas, quando você chega com uma resina nova ao mercado, ninguém sabe como processar. Percebemos que era preciso ir além”, disse Nonato à Agência FAPESP. A técnica de misturar PHB com fibras vegetais trouxe outra vantagem: a redução do custo. Enquanto o quilo do polipropileno custa em tomo de US$ 2, o quilo do PHB sai por volta de US$ 5. “Se. você mistura com pó de madeira, por exemplo, barateia o produto e dá a ele características especiais que podem ser interessantes”, explicou o engenheiro.

 

DIVERSAS APLICAÇÕES

O PHB é um material duro que pode ser usado na fabricação de peças injetadas e termo formadas, como tampas de frascos, canetas, brinquedos e potes de alimentos ou de cosméticos. Também pode ser aplicado na extrusão de chapas e de fibras para atender a indústria automobilística. Serve ainda para a produção de espumas que substituem o isopor.

“Desenvolvemos diversas aplicações para o polímero em cooperação com outras empresas. A indústria automobilística, por exemplo, nos procurou para testar o PHB e vimos que o polímero era viável na fabricação de peças para o interior dos carros. Mas, como ainda não temos condições de produzir em escala industrial, não conseguimos entrar no mercado”, disse Nonato .

 

Segundo Nonato, a empresa chegou a ter uma pequena produção industrial de painéis de trator. O produto era mais barato que o equivalente feito com plástico convencional e, ainda assim, o negócio não prosperou. “Era uma produção tão pequena para o padrão da indústria, acostumada a comprar centenas de toneladas, que acabaram desistindo por dificuldades operacionais”, disse. Para ampliar a produção, a PHB Industrial teria de aumentar sua planta. Segundo Nonato, isso exigiria um investimento muito superior ao que uma usina de açúcar tem como meta. Seria preciso um parceiro. Também precisaria de ajuda para dar suporte aos compradores. “É necessário ter uma equipe que vá a campo ensinar qual é a temperatura certa para processar o PHB, o tipo de forma, o tipo de rosca. O mercado é pulverizado e grande parte dele está na Europa. Somente as grandes petroquírnicas teriam condições de dar esse

suporte”, disse. Enquanto no Brasil o mercado para o PHB é restrito a nichos interessados em fabricar produtos com apelo ecológico a um preço mais elevado, na Europa a busca por produtos biodegradáveis é grande, segundo Nonato. “Na Europa, a agricultura hidropônica é forte e a legislação ambiental é rígida. Usa-se muito material biodegradável em estufas”, contou. Com o PHB, é possível fabricar braçadeiras para plantas ou tubetes para reflorestamento e depois encaminhar o resíduo plástico para estações de compostagem, onde ele é rapidamente absorvido pela natureza. Enquanto os plásticos tradicionais levam mais de cem anos para se degradar, os produtos feitos com PHB se decompõem em tomo de 12 meses e liberam apenas água e dióxido de carbono. Além da agricultura, o material pode ser usado na fabricação de embalagens para alimentos, cosméticos e outros produtos oleosos que são de difícil reciclagem: “O mercado existe e nosso produto está pronto. “O que falta é um canal para chegar ao mercado e um pouco mais de investimento”, disse

 

A Folha – São Carlos – 10-08-12 – 12 – Geral

 

 

Jovens pesquisadores devem receber incentivo de instituições .

 

A FAPESP recebeu no último dia 2 de agosto, a visita de Daniel (Dan) Shechtman, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion) e ganhador do prêmio

Nobel de Química em 2011. O objetivo da visita, realizada por iniciativa do próprio cientista israelense, foi conhecer os programas de apoio à pesquisa realizada pela FAPESP e prospectar a possibilidade de realização de futuras cooperações científicas entre pesquisadores do Technion’ com os do Estado de São Paulo. De acordo com o Shechtman, no momento não há pesquisadores brasileiros na universidade israelense, sediada em Haifa, e que nos últimos dez anos revelou, além dele, mais dois prêmios Nobel de Química. Mas o Technion está aberto e terá muita satisfação em receber· cientistas brasileiros. “Tive a oportunidade de conhecer’ nesta passagem por São Paulo pesquisadores e professores muito bons. Aqui se faz uma ciência de muito boa qualidade e eu teria um enorme prazer em trabalhar com cientistas brasileiros”, disse Shechtman à Agência FAPESP. Em sua segunda visita ao Brasil, como parte de uma missão organizada pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel, o cientista israelense participou da abertura e proferiu uma conferência na 64a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada nos dias 22 a 27 de julho em São Luís, no Maranhão. Em sua conferência na SBPC, Shechtman relatou a saga para o reconhecimento da descoberta dos quase cristais – formas estruturais ordenadas, corno os cristais, mas em padrões que não se repetem -, que lhe valeu o prêmio Nobel de Química em 2011. Além do Maranhão, o cientista passou pelo Rio de Janeiro e São Paulo, onde visitou universidades e instituições de pesquisa como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Laboratório Nacional Luz Síncrotron (LNLS). Em sua visita à FAPESP, Shechtman disse ter ficado impressionado com a quantidade de projetos de pesquisa de longa duração financiados pela FAPESP e com volume de recursos investido em ciência do Estado de São Paulo. “1% de todo o imposto arrecadado no Estado para financiar pesquisas representa uma cifra bastante impressionante. O trabalho desempenhado pela FAPESP é um bom exemplo de apoio à ciência que deve ser realizado em outras partes do mundo”, avaliou. Investimento em jovens pesquisadores.Uma sugestão dada por Shechtrnan para as universidades e instituições de pesquisa no Brasil é que financiem fortemente jovens pesquisadores recém-contratados que demonstrem potencial de se tomar cientistas promissores. Segundo ele. o Technion por exemplo  disponibiliza recursos de mais de US$ 1 milhão para jovens pesquisadores recém-contratados montarem nos primeiros dois ou três anos na instituição seus próprios laboratórios. “É só dispondo de seus próprios laboratórios que os jovens pesquisadores podem realizar experimentos especiais que outros cientistas ainda não fazem e poderão competir rapidamente com seus pares”, avaliou. No Technion, do qual Albert Eistein (1879-1955) foi um dos maiores apoiadores e seu primeiro presidente, além de pesquisas sobre quase cristais, Shechtman ministra desde 1986 um curso sobre empreendedorismo tecnológico, em que estudantes de ciência e engenharia aprendem noções de marketing, administração e propriedade intelectual e são estimulados a abrir seus próprios negócios, baseados em tecnologia. Após ganhar o prêmio Nobel de Química em 2011, o cientista israelense diz ter ‘se tomado um “missionário

da ciência”, viajando para diversos países com o objetivo de sensibilizar líderes sobre a importância de se investir em ciência, tecnologia e inovação, de modo a assegurar o desenvolvimento socioeconômico.

“A visita de Shechtman à FAPESP possibilitou uma troca muito interessante de experiências e opiniões sobre o . papel da pesquisa e do empreendedorismo para o desenvolvimento da sociedade. Tivemos a oportunidade de ouvir as reflexões e a avaliação dele sobre como isso funciona em Israel e relatar o que vem sendo feito no Estado de São Paulo nesse aspecto”, disse Celso Lafer, presidente da FAPESP, Shechtman foi recebido na FAPESP por Lafer, pelo diretor-presidente José Arana Varela e pelo diretor científico Carlos Henrique de Brito Cruz.

A Folha – São Carlos – 11-08-12 – 13 – Geral

 

 

Programa de Pesquisa para o SUS tem nova chamada

 

 

A FAPESP lançou nova chamada de propostas para o Programa de Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em Saúde – PPSUS.O edital foi publicado em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O quarto edital do programa tem por objetivo apoiar atividades de pesquisa científica, tecnológica ou de inovação, mediante o aporte de recursos financeiros a projetos que visem promover o desenvolvimento científico, tecnológico ou de inovação da área de saúde, em temas prioritários para o Estado de São Paulo. Os projetos deverão promover à formação e a melhoria da qualidade de atenção a saúde no Estado de São Paulo no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), representando significativa contribuição para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação em saúde e para a implantação das redes de atenção a saúde no Estado de São Paulo. Poderão apresentar propostas pesquisadores com título de doutor ou equivalente, vinculados a instituição científica ou tecnológica situada no Estado de São Paulo. As instituições compreendidas poderão ser: de ensino superior, públicas ou privadas, sem fins lucrativos; institutos e centros de pesquisa e desenvolvimento, públicos ou privados,

 

A Folha – São Carlos – 18-08-12 – 10 – Geral

CARTA CAPITAL 22 – 08

Sofrimento invisível

 

Estudantes de Direito da USP filmam a realidade ignorada de moradores do Largo São Francisco. O QUE MAIS te marcou?”, pergunta uma jovem a um senhor de olhos arregalados e barba branca. A resposta surge em uma frase emotiva e sem erros gramaticais: ”A solidão, a dor sem remédio, a roupa que nunca é escolhida, a negação do sonho e do afeto”. O diálogo entre uma estudante e Castor, um morador de rua, está registrado. Compõe o curta-documentário Eu Existo (http://www.youtube.com/ watch?v=dW_SGHrlIjc), produzido por cinco integrantes do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).O objetivo: mostrar os problemas enfrentados pela população de rua nos arredores do Largo São Francisco, centro de São Paulo e “quintal” da renomada instituição. Filmado de forma independente com uma câmera emprestada pela Comissão Municipal de Direitos Humanos, o documentário aborda uma população quase invisível sem deixar de lado temas como violência e solidão. “Tentamos mostrar a desumanização gerada pela rua. Esse processo de ver que as pessoas não os olham nos olhos, mas sentem nojo e medo”, relata Ana Carolina Capozzi, diretora do vídeo. Em pouco tempo, a campanha teve a  adesão dos alunos da faculdade e o curta ganhou as redes sociais. O resultado foi relâmpago: em pouco mais de uma semana no YouTube, o documentário superou 6 mil visualizações. Centros acadêmicos de outras universidades e blogueiros ofereceram apoio na divulgação. Surgiram convites para um congresso de movimentos sociais, exibições para populações de rua e uma palestra na Universidade Federal da Bahia. Antes disso, uma equipe voluntária do Senac realizou a edição e montagem do vídeo, filmado durante o primeiro semestre de 2012 como a principal aposta política do centro acadêmico. A explicação para essa “jogada” é aproveitar o ano de eleições municipais como forma de pressionar os candidatos à prefeitura de São Paulo a assumir um compromisso com os moradores de rua. A cada sabatina que os postulantes ao comando da cidade participam na faculdade, recebem uma cópia do documentário, contam os cinco estudantes, reunidos para uma conversa nos bancos do pátio da escola. o comprometimento deles não é momentâneo. O grupo acompanha a situação dos moradores em parceria com o Movimento Nacional da População de Rua (e outras entidades, como a Defensoria Pública) há mais de um ano. O problema, dizem, era tão evidente que precisava ser abordado. “É a questão mais gritante no centro de São Paulo e também para nós, porque essas pessoas moram na porta da Faculdade”, conta Julia Cruz, codiretora do documentário. A pauta tem fundo político, mas a inspiração veio de longe. Precisamente do trabalho We Know What the Problem 1s (Sabemos Qual É o Problema, em tradução livre) do historiador norte-americano Daniel Kerr, que percorreu a cidade de Cleveland, nos Estados Unidos, perguntando aos próprios moradores de rua quais eram as falhas nas políticas públicas. No Brasil, o trabalho ganhou um toque de teatro e técnicas de cinema. A aposta na linguagem digital para tornar o projeto mais acessível e moderno surgiu em discussões no Centro Acadêmico – ambiente cult com mesas de bilhar, localizado no subsolo do prédio da USP -, onde os estudantes do terceiro ano de Direito se conheceram. Mas foram nos amplos pátios de arquitetura neocolonial do local que as primeiras filmagens ocorreram. A relação com os moradores das ruas próximas surgiu em pequenos eventos na faculdade, com o uso de apresentações artísticas como isca para “quebrar o gelo”. Os estudantes aproveitavam o clima descontraído para gravar alguns depoimentos, mas também contaram com o apoio de instituições especializadas no cuidado com essas pessoas para reunir mais voluntários dispostos a falar. A Praça da Sé foi um celeiro de depoimentos. Lá, um pano esticado no chão, alguns pincéis e um pouco de tinta serviram de chamariz. No tecido, os moradores pintaram o que desejavam para São Paulo e contaram suas histórias. O pano segue exposto na USP, embora enrolado sobre uma luminária. O tecido ajudou, mas o avanço nas gravações ocorreu mesmo devido a uma caixa de som e um microfone. Posicionado em frente à Catedral da Sé, o equipamento deu literalmente voz a quem é ignorado e escorraçado do local diariamente. “A reação deles mudou, perceberam que estavam falando alto em um espaço público do qual não se sentem parte, pois nunca podem ficar ali”, conta Capozzi. O microfone guiou as temáticas do filme e consolidou a ligação entre estudantes e personagens. “Eles passaram a se ver como parte do projeto e até se emocionaram quando lançamos o filme no pátio da faculdade”, lembra Julia Cruz. Mesmo sem o projeto, os estudantes lembram que conviveriam todos os dias com os moradores, que se abrigam em torno da faculdade. Uma localização que os leva a criticar o tratamento generalizado dado a essa população pelas autoridades. “Eles preferem a rua aos albergues porque lá pegam dolorosas doenças de pele e são impedidos de ficar com a família e os cachorros, muitas vezes o único afeto que possuem”, relata André Tredezini. Da relação com os personagens surgiu uma troca de experiências e confiança. “Toda vez que ocorre uma operação da Guarda Municipal, eles pedem para acompanharmos para ter menos violência”, revela Tredezini.

 

Os gladiadores

“MENSALAo” I o embate crescente entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski expõe uma divergência insuperável a respeito do núcleo central da acusação.O CLIMA ENTRE os ministros do Supremo Tribunal Federal nunca foi dos melhores. O julgamento do chamado “mensalão” só tem aprofundado as diferenças. Há reclamações generalizadas entre os colegas, mas nenhum caso se compara à animosidade crescente entre duas figuras fundamentais do processo, o relator Joaquim Barbosa e o revisor Ricardo Lewandowski. Desde o primeiro minuto da primeira sessão, os dois entraram em rota de colisão. Na quinta-feira 16,coube a Lewandowski abrir uma frente de debate que colocaria parte da Corte contra a decisão unilateral do relator de submeter cada item avaliado por ele ao voto dos colegas. Pelo regimento do STF,Barbosa seria obrigado a ler na integra o seu voto.Em seguida,o revisor se pronunciaria e só então os demais votariam. Marco Aurélio Mello, José Antonio Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Luiz Fux posicionaram- se em favor de Lewandowski. À saída do plenário, Mello chegou a manifestar publicamente sua preocupação aos jornalistas: “O que está em jogo é a instituição. O voto do relator deve ser integral, o ministro relator tem de ceder e o colegiado deve cobrar que ceda”. Para o ministro, o presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto, deve intervir para manter a regra. “Senão, vai ser cada qual elegendo um item de sua preferência. Imagine se cada ministro resolve começar com outra parte do julgamento. Vira revisor do revisor? O que é isso? Seria a Babel. Estou preocupadíssimo. Corre-se o risco de esvaziar a figura do revisor.” Mello chamou Barbosa de “o todo-poderoso relator”. Um colega de Mello clama: “O STF não pode se tomar um tribunal de exceção”. Barbosa e Lewandowski, tudo indica, possuem opinião diametralmente oposta em relação ao caso. O primeiro parece inclinado a aceitar a tese da existência do mensalão. Em seu voto iniciado na quinta 16, o relator pediu a condenação do deputado federal João Paulo Cunha por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, do publicitário Marcos Valério por corrupção ativa e peculato, mesmos crimes atribuídos a seus sócios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach. Embora os ministros estejam bastante fechados, informações de bastidores dão conta de que Lewandowski não acatará a tese da compra de apoio no Parlamento. Pouco antes de começar a leitura do relator, Barbosa e Lewandowski viram-se envolvidos na discussão sobre a ordem do voto, e o revisor fez questão de deixar claro seu desacordo com o colega. “Tenho outra visão da denúncia”, adiantou-se. Isso não significa que o revisor absolverá os réus do processo. Ele pedirá a condenação de vários acusados por crimes diversos, inclusive eleitorais, mas a tese principal, o pagamento regular a parlamentares em troca de apoio ao Executivo, não se sustenta por falta de provas, em sua visão. O ministro vai argumentar, por exemplo, que a tese do caixa 2 não é criação da defesa, e aparece nas próprias alegações finais do procurador-geral, Roberto Gurgel. Assim como fizeram os advogados de defesa, Lewandowski apontará falhas no relatório de Gurgel. Uma delas foi a inclusão da Lei de Falências entre as votações irrigadas com dinheiro da “quadrilha” para aprovação. ALei de Falências foi relatada por um parlamentar da oposição. “Não faz sentido, é o cúmulo do ridículo”, argumentou uma fonte do tribunal. “Como José Dirceu estaria comprando votos para aprovar um projeto da oposição?” Durante a defesa do publicitário Duda Mendonça e de sua sócia Zilmar Fernandes, os advogados Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e Luciano Feldens, apontaram erros flagrantes no relatório de Gurgel. As datas apontadas pelo procurador não batem para reforçar a tese de que a abertura da conta de Mendonça no exterior teria o objetivo de “dissimular a organização criminosa”: a abertura ocorreu em fevereiro e os contratos suspeitos, meses e até um ano depois. Nas alegações finais, Gurgel afirmou que “a utilização de empresas offshore em paraísos fiscais constitui clássica hipótese de lavagem de dinheiro”. Um problema do argumento: a conta de Duda Mendonça não era em paraíso fiscal,mas numa agência do Bank Boston em Miami, nos Estados Unidos. “Ter conta no exterior não é crime. Vejo uma vontade de acusar desesperada, que preocupa”, atacou o advogado Kakay. Gurgel rangeu os dentes. Tecnicamente, a discussão mais candente do julgamento deverá ser se o voto parlamentar pode ou não ser considerado “ato de ofício”, como diz a denúncia do  Ministério Público. Segundo o artigo 317 do Código Penal, uma pessoa pratica o crime de corrupção quando “recebe direta ou indiretamente vantagem indevida ou promessa de tal vantagem”, o tal ato de ofício. Outra dúvida é se este é necessário para se configurar corrupção passiva, porque em alguns casos os parlamentares que teriam recebido o suposto mensalão votaram contra o governo ou faltaram às votações. Para Lewandowski, ao contrário do que disse Gurgel em seu relatório, a questão foi decidida pelo Supremo durante a ação penal enfrentada por Fernando Collor, em 1994,na qual o ex-presidente foi absolvido por falta de provas. À época, o então ministro Sepúlveda Pertence defendeu não ser necessário ato de ofício para configurar o crime de corrupção passiva Foi fragorosamente derrotado em plenário. Já a disputa entre Barbosa e Lewandowski é cada vez mais intensa. Na quarta 15,os dois ministros se confrontaram durante a votação das questões preliminares. Lewandowski saiu vitorioso: conseguiu derrotar Barbosa em sua intenção de encaminhar pedido para a Ordem dos Advogados do Brasil avaliar a atuação de três advogados de defesa que, segundo o relator, o teriam insultado ao alegar “parcialidade” no julgamento do processo. A maioria dos ministros acolheu a opinião de Lewandowski e considerou uma desnecessária intromissão na atuação dos defensores. Barbosa também perdeu ao negar o desmembramento de um dos réus, Carlos Alberto Quaglia, cujo advogado não havia sido intimado, por um erro da secretaria do STF.O réu irá à primeira instância Marco Aurélio Mello chegou a provocar: “Pelo menos esse vai ter observado o direito de ter juiz natural”. Em concordância com a tese inicial de Lewandowski a favor do desmembramento, já que apenas três réus atualmente possuem direito a foro privilegiado e a exemplo de que o próprio tribunal decidiu no caso do valerioduto mineiro. Lewandowski, Celso de Mello e Cezar Peluso se mostram incomodados com a intenção do presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto, e de Joaquim Barbosa de acelerar o julgamento. Durante a discussão sobre o recurso à OAB, Celso de Mello, o decano do tribunal, fez um voto longuíssimo e rejeitou os apelos dos colegas para ser breve, demonstrando nãoestar disposto a ceder às pressões. Em princípio um tanto contrariado e apartado dos colegas, o revisor gostou de ter sido apoiado pela maioria dos ministros nos dois embates contra o relator. “Parece que os ventos estão mudando de direção”, comentou um assessor do tribunal. E para  onde sopram? Ainda não se sabe.

 

Destino, o fator privado

INFRAESTRUTURA I Para destravar os investimentos, o planalto lança um pacote de 133 bilhões em concessões de rodovias e ferrovias. O GRANDE personagem não estava no púlpito, mas na plateia. Aos 88 anos, ladeado pelo filho empresário, o engenheiro Eliezer Batista recebeu uma deferência especial da presidenta Dilma Rousseff. Batista, disse Dilma, é um “defensor incansável da tese de que o encurtamento de nossas distâncias é decisivo”. A referência a Batista não poderia ser mais apropriada. Criador da Vale, obcecado pela integração logística do Brasil, o engenheiro acompanhava o anúncio do plano federal que pretende repassar à iniciativa privada obras avaliadas em 133 bilhões de reais. O objetivo é conceder a empresários 7,5 mil quilômetros de rodovias, a serem construídas ou duplicadas, e 10 mil de ferrovias. O planalto pretende exigir que 80 bilhões de reais sejam investidos em até cinco anos após a outorga das concessões. O plano reavivou o debate entre petistas e tucanos. Logo após o anúncio, representantes do DEM e do PSDB se aprumavam em frente às câmeras de tevê para festejar as “privatizações” em um governo do PT. Na quinta-feira 16, o PSDB publicou nos principais jornais um comunicado no qual celebrou o fato  de os adversários, ainda que tardiamente, terem abraçado sua bandeira. Ciente do cálculo político da oposição, Dilma antecipou-se na cerimônia no planalto: “Essa é uma questão absolutamente falsa”, afirmou em resposta aos que enxergaram no plano uma clara opção pela desestatização. “Hoje estou tentando consertar equívocos cometidos no passado na privatização das ferrovias.” E acrescentou, diante de uma plateia de políticos e empresários: “Temos de retomar nossa capacidade de planejar a área de logística”. A saída inspirada no setor elétrico inclui criar a Empresa de planejamento e Logística (EPL), a ser presidida por Bernardo Figueiredo, ex diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Caberá à EPL “estruturar planos integrados” de médio e longo prazo para o sistema nacional de transportes, como a Empresa de Planejamento Energético (EPE) faz na produção e distribuição de energia. O governo anunciou ainda regras para balizar a exploração das concessões, cujos contratos serão assinados até julho de 2013. Trata-se de um esquema menos generoso com os consórcios privados contratados, a partir de leilões que levarão em conta o menor custo das tarifas de pedágios, no caso das rodovias. Diferentemente das concessões federais anteriores, os consórcios vencedores só poderão cobrar pedágios a partir da conclusão de no mínimo 10% das obras do trecho licitado. Antes havia brechas legais, como no caso das licitações de obras nas rodovias Régis Bittencourt e Fernão Dias, em que os contratos mencionavam a vaga expressão “serviços iniciais” como ponto de partida para as praças de pedágios começarem a faturar. Em alguns casos a arrecadação foi iniciada após um rápido e insuficiente recapeamento. Outro ponto: o tráfego pelos trechos urbanos não poderá ser tarifado. No caso das ferrovias, a maior novidade institucional foram as novas atribuições da estatal Valec, que deixará de ser responsável pela construção de linhas ferroviárias. A partir do novo marco regulatório, caberá à empresa comprar a capacidade de transporte das ferrovias construídas e revendê-la aos interessados. Ao contrário do que ocorria até ago- ra, as concessionárias não poderão se recusar a levar a carga de terceiros, o que na prática obrigava as transportadoras a optar pelas rodovias. “Um país continental como o Brasil, que não tem ferrovias, que utiliza as estradas para transportar minérios, vai sucatear suas rodovias. Mas o dono de uma carga não poderá controlar uma ferrovia, que será de todos os que querem passar cargas”, afirmou a presidenta. Nas próximas semanas, o Planalto revelará uma segunda parte do programa. Anunciará uma rodada de concessões para a gestão e construção de aeroportos grandes e regionais. Em seguida, divulgará a lista dos portos e terminais portuários a serem transferidos à iniciativa privada, no mesmo espírito. E até meados de setembro sairão a desoneração das tarifas elétricas (espera-se ao menos 10% de redução para as indústrias) e a renovação da concessão de várias hidrelétricas. O pacote anunciado é bem ambicioso. No caso das rodovias, serão concedidos trechos em sete estados: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Bahia e Tocantins, além do Distrito Federal. As obras ferroviárias atravessarão 14 unidades da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Pará, Maranhão, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Entre o empresariado, a reação ao plano de logística foi de modo geral positiva, embora faltem detalhes para o cálculo preciso da rentabilidade esperada em cada um dos projetos. “O primeiro passo foi dado”, afirmou Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “Se houver segurança jurídica, modelos regulatórios estáveis e rentabilidade adequada, não faltarão investimentos.” Ao largo das expectativas, ficou a impressão de que mais uma vez a “opção pragmática” pode ir na direção correta, mas deixou de avançar no combate às mazelas estruturais do Estado brasileiro, um paquiderme mais afeito à imobilidade que ao dinamismo. Talvez esse cálculo explique o fato de a famigerada 8.666, a Lei das Licitações criada em 1993, sempre apontada pelos especialistas como poderoso entrave ao investimento, não ter sido mencionada no discurso de 24 minutos de Dilma. Ela muito menos fez referência ao Regime Diferenciado de Contratação (RDC), criado para as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, que o governo pretende (ao menos pretendia até recentemente) estender ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Tanto a Lei 8.666 quanto o RDC, dois dos maiores obstáculos a ser superados pelo Programa de Investimentos em Logística, certamente foram avaliados durante a elaboração do pacote. À medida que as obras saem da alçada dos ministérios e viram concessões, escapam dos limites estreitos das regras para as licitações públicas, baseadas em normas que, sob o nobre argumento de evitar o mau uso do dinheiro público, dificultam em demasia os investimentos estatais. Colocar na pauta o projeto de revisão da Lei 8.666, cujo relator é O senador Eduardo Suplicy, exigiria maior espaço de negociação no Congresso, hoje difícil de vislumbrar, avalia o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas em São Paulo. “O governo, de modo geral, tem dado respostas conjunturais, não há projetos de mais fôlego para atingir objetivos específicos. Essa tem sido a tônica dos últimos governos. E a falta de projetos tem a ver com a necessidade de o governo dar respostas no curto prazo.” No caso da infraestrutura de transporte, o incêndio a ser apagado cresceu com as denúncias de corrupção que levaram à demissão, em julho de 2011, do então ministro dos Transportes Alfredo Nascimento.  ministro caiu após ver seus principais auxiliares envolvidos em supostos esquemas ilegais de desvio de dinheiro público. O ministério foi obrigado a suspender várias obras após suspeitas apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Recentemente, por sinal, foi interrompida, a partir de denúncia do Ministério Público Federal (MPF), a construção do trecho capixaba da BR-IOl, o primeiro bloco rodoviário licitado pelo governo Dilma, ainda com base nas regras anteriores. O Ministério Público argumenta que o consórcio vencedor da licitação não teria apresentado todos os documentos na fase de classificação das propostas. Foram dificuldades dessa ordem que serviram de argumento para o governo Lula escolher, em 2007, o Exército para tocar as obras do Eixo Leste da transposição do Rio São Francisco. O motivo? Escapar dos processos licitatórios impostos pela legislação. Mesmo assim, a escalada do valor previsto para a transposição subiu 70% até aqui e atingiu o valor de 8 bilhões de reais. Em fevereiro deste ano, o Departamento de Construção e Engenharia (DCE) festejou a conclusão do trecho que lhe cabia, mas um comentário do general Joaquim Silva e Luna em frente à barragem de Tucutu, em Cabrobó  (PE), deixou entrever uma das faces problemáticas da intrincada máquina. “Estamos fazendo a nossa parte, mas acredito que as coisas (referência às obras das empreiteiras na transposição) deveriam estar sendo feitas simultaneamente.” o que o comandante não disse é que a falta de sincronia tem tudo para virar mais um problemão, pois o trecho concluído, exposto ao sol do Semiárido brasileiro, corre sérios riscos de apresentar rachaduras. Avarias dessa natureza no Eixo Norte foram reconhecidas pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, o que, pela Lei 8.666, obriga o governo a abrir um processo  jurídico contra a empreiteira responsável. Detalhe: o projeto inicial previa a entrada da água nos canais imediatamente após a conclusão do trecho. Mas como o andamento das obras variou muito, isso não acontece na prática. No início de agosto, nova dor de cabeça. O TCU declarou suspeitar de superfaturamento de 7 milhões de reais nas obras tocadas pelo Exército, além de apontar sérias deficiências na estrutura de fiscalização dos gastos. Procurado por Carta- Capital,o DCE preferiu não se manifestar. Quem conhece a administração pública chama a atenção para a necessidade de mudanças no marco das licitações. “Estamos enormemente atrasados no processo de revisão da Lei 8.666, algo que é absolutamente urgente”, diz Rodrigo Assumpção, ex-titular da Secretaria de Logística do Ministério do Planejamento, hoje presidente da Dataprev. “Existe uma discussão em torno dos processos de controle (dos gastos públicos) muito relevante. Mas estamos com a tendência de discutir controles como um valor moral absoluto. Se você focar apenas nas pessoas, não chegará a uma evolução sistêmica, que é o grande objetivo.” Em Brasília, a Dataprev é apontada como um modelo de mudança de atitude rumo à eficiência. Desde 2009, quando Assumpção assumiu o comando da empresa pública responsável por gerenciar as informações previdenciárias, existe uma experiência piloto de aprimoramento radical do Estado. Aproveitam- se as facilidades de ser um braço da administração indireta, não um ente ministerial. Entre as práticas adotadas está um plano de gratificações aos funcionários, caso as metas de gestão sejam alcançadas, algo impensável na Esplanada. “A empresa quase foi privatizada nos anos 90. O governo decidiu, em 2005, recuperá-la, acertando um passivo antigo. Desde então, resolvemos problemas graves de pessoal e de defasagem tecnológica e focamos muito em resultado e planejamento.” Existem vários outros gargalos. Que o diga Trajano Quinhões, presidente da Anesp, a associação nacional dos gestores públicos federais. “Aqui nem a internet funciona direito”, descreve a infraestrutura precária de trabalho à sua disposição no Ministério do Meio Ambiente, onde ocupa um cargo responsável por gerenciar programas de mais de 150 milhões de dólares. Quinhões aponta outros problemas África do Sul? Porque precisamos começar a trabalhar com outras empreiteiras”, afirma. “Metade dos gestores públicos que represento tem mestrado ou doutorado. Mas o governo cria uma câmara de gestão e põe o Jorge Gerdau. Ele propõe a contratação de consultorias. O que o governo precisa é de sistemas corporativos que funcionem, processos organizacionais coerentes e consistentes, dentro da máquina.” Os obstáculos incluem a falta de scanners para arquivar os documentos que diariamente circulam pela burocracia, algo que só à primeira vista pode parecer menor. Ou um sistema eletrônico de gerenciamento de pessoal. “Se a administração precisar de um profissional com a minha expertise, não me encontrará”, diz Quinhões. “O governo precisa se planejar. Por que as licitações não funcionam? Porque são feitas a toque de caixa, com base em projetos básicos, uma loucura. Imagine se deixar o projeto para depois da licitação. Vai ganhar tempo, mas sairá mais caro.” Doutor em administração pública, consultor ligado à FGV e professor associado da Enap, a escola federal de formação dos gestores públicos, Cássio França destaca outras complicações. “Em 1999, era possível contratar uma consultoria por notório saber até o teto de 8 mil reais. Hoje, esse valor continua o mesmo, mas já não dá para fazer quase nada”, diz o cientista político, outro defensor da revisão “urgente” da Lei de Licitações. “Não dá para comprar serviços mediante uma análise às escuras (que resulta na vitória da proposta de menor preço). Talvez faça algum sentido para comprar um produto, mas não para comprar serviços. O gestor precisa ter confiança no profissional contratado.” O maior nó não seria a dificuldade para formular políticas, mas a gestão das propostas. Especialistas consideram equivocada a decisão de levar o conjunto de obras prioritárias para o Ministério do Planejamento, uma pasta gigante de muitas atribuições, sem entrar no mérito da qualidade da gestão de Miriam Belchior, cujo currículo é respeitável. “Uma.coisa é a Casa Civil ligar e cobrar, ainda mais com uma Dilma no comando. Outra coisa bem diferente é a Miriam ligar, não adianta, que não tem o mesmo impacto”, comenta um funcionário graduado da Esplanada. João Carlos Ferraz, vice-presidente do BNDES, é mais otimista. Segundo ele,um consenso teria se formado na sociedade brasileira a favor da trajetória Esses raros momentos de consenso servem para criar sinergias e acelerar os processos. A infraestrutura tem uma inércia muito grande, tanto para decolar quanto para parar, uma vez que esteja voando. “Ficamos 25 anos parados, sem fazer infraestrutura, e as equipes técnicas de análise de projetos, públicas e privadas, estão muito débeis.” o executivo do BNDES compara as dificuldades para fazer deslanchar os investimentos com a rapidez dos programas chineses posteriores à crise iniciada em 2008, que saíram do papel em ritmo acelerado. “A questão é que a China cresce há décadas. Havia tantos projetos que houve, inclusive, a ordem de engavetá-los antes da crise. Veio 2008 e bastou mandar que desengavetassem e saíssem investindo. Por aqui, estamos mais avançados no setor elétrico, onde existe um formato institucional definido, com a EPE e a Aneel. Nesse setor estamos com os compromissos atingidos.” Daí a opção por replicar a solução encontrada no setor de energia para as rodovias e ferrovias. E, provavelmente, logo mais para os portos e aeroportos. Resta saber se o pacote vai despertar o “espírito animal” do empresariado, que anda adormecido por causa da crise mundial.

 

O gargalo da qualificação

ARTIGO I A dificuldade extra em formar pessoal para a administração pública. DOIS GARGALOS de crescimento do Brasil são a educação e a formação de pessoal em todos os níveis. Existe uma correlação de 81% entre o tempo médio de vida escolar e o PIB per capita. Mas existe uma dificuldade extra quando se trata de formar pessoal qualificado para administrar o Estado em si. Esse problema é duplo, uma vez que encontra de um lado os funcionários de carreira e do outro o pessoal de cargos comissionados. Um grupo representa o Estado, o outro, o governo. Ambos têm limitações em sua formação. Os funcionários de carreira ingressam por concurso público e, muitas vezes, só descobrem se gostam ou não de trabalhar no setor governamental depois de entrar. Muitos se adaptam, outros detestam e alguns se apaixonam pelo desafio. Mas todos aprendem por tentativa e erro, pois, apesar da aprovação nos concursos, muitas vezes desconhecem até mesmo os fundamentos de administração e as particularidades do setor governamental. Os cargos comissionados ingressam por indicação política ou técnica. São necessários para os partidos indicarem a direção em que querem levar o governo, legitimada nas urnas. Em geral, eles entendem de política ou de uma determinada política pública, mas muito pouco de gestão. Algumas vezes desconhecem até os limites impostos pelas leis. O resultado é uma grande ineficácia, ineficiência e inefetividade, e este não é um problema exclusivamente brasileiro. No Brasil o gargalo é acentuado pela falta de cursos de administração pública de pós-graduação. Não se pode imaginar que todo gestor público vá saber, desde a adolescência, qual a sua vocação. Mas deve ter uma primeira graduação em algum tema que lhe interesse e, ao longo da vida, se descubra gestor público e passe por uma pós-graduação na área. Enquanto no Brasil houve uma explosão de pós-graduações em administração privada, raros são os cursos de pós-graduação em administração pública. Nos EUAe Europa, existem vários cursos desse tipo com o título de MPA, equivalente público do MBA, além de variações como o MDA, especifico para a área de defesa, e o DPA,o doutorado na área pública. Tais cursos têm duas linhas básicas: uma de gestão aplicada ao setor governamental e outra de políticas públicas (saúde, educação, segurança, infraestrutura, entre outras). Na parte da gestão aplicada, utilizam-se as técnicas de análise da situação, tomada de decisão e implementação. Em particular, como o ambiente público é  naturalmente político, utilizam-se teorias alinhadas com teoria política, tais como a teoria dos jogos e a da decisão, que servem de base para uma visão mais ampla do processo de negociação. Na parte de políticas públicas, são feitos estudos comparados de melhores práticas e a busca de relações de causa e efeito, para buscar soluções mais adequadas a cada realidade. A falta de preparo de muitos gestores faz com que as discussões dentro do governo, dentro dos partidos e entre eles, sejam mais superficiais do que em outros países. Com isso, a adoção de políticas públicas, conhecidamente eficientes, tenha sido mais lenta no Brasil. O caminho a seguir é relativamente óbvio: criar incentivos diretos e indiretos para a especialização na área. Isso ocorreu nas empresas, na medida em que os MBA geravam uma maior empregabilidade e potencial de ascensão interna.

 

Falsos dilemas, falsas soluções

NOS ÚLTIMOS dois anos o País voltou a crescer no nível de 2% ao ano, repetindo o fraco desempenho de 1980 até 2003. Algumas análises apontam como causa o baixo nível de investimentos, que no primeiro trimestre alcançou 18,7%do PIE, quando deveria ser de 25% (?),mas reconhecem que as empresas não darão a solução a essa expansão, em face do ambiente de incerteza gerado pela crise europeia. A solução, então, deveria vir da ampliação dos investimentos diretos do governo federal, mais especificamente do PAC, para em seguida criticarem o atraso na execução desse programa, apontando como causa a incapacidade de gestão do governo. Essa crítica tem caráter político, oferecendo uma falsa saída, pois cerca de 90% dos investimentos em obras e equipamentos são realizados pelas empresas e 10% pelo governo (União, estados e municípios), sendo apenas 3% a parcela do governo federal. No PAC o investimento direto do governo federal é de apenas um décimo do total. O restante é de estatais e empresas privadas. Para abrir espaço fiscal ao investimento, combatem a expansão das despesas de custeio, que se destinam fundamentalmente à área social, e são omissos na crítica à despesa com juros, que, nos últimos 12 meses, encerrados em junho, atingiu 228 bilhões de reais (5,3% do PIE). Afirmam que o investimento em obras e equipamentos é de melhor qualidade porque, uma vez encerrado, cessa a despesa ao passo que o gasto com custeio é permanente. Parecem desconhecer que, após o investimento, nascem despesas de custeio permanentes para a manutenção e depreciação do ativo criado. No caso dos hospitais, o custeio (pessoal, material, serviços etc.) de um ano de operação equivale ao total investido. Em escolas esse índice é de cerca de 70%. O investimento público se destina fundamentalmente à ampliação dos equipamentos (hospitais, postos de saúde, creches, escolas, universidades), vias e parques e saneamento básico. Em escala menor, vão para a infraestrutura, mas especialmente sob a forma de concessões e parcerias. Esse é um ponto importante a ser notado, pois não é o investimento direto que dá a dimensão do alcance da realização do investimento no País. Quais os limites à expansão dos investimentos diretos em obras e equipamentos? O principal é o déficit do setor público (acima de 2% do PIE), que para ser ampliado aumenta o endividamento bruto. Como essa dívida adicional é onerada pela Selic, amplia a despesa com juros e eleva ainda mais o déficit público. E aumenta de forma permanente a despesa de custeio. As regras que devem ser cumpridas para realizar o investimento constituem poderosa barreira burocrática. Existem avanços para reduzir a burocracia. O principal é o pregão eletrônico ou presenciaI, que inverte as fases da concorrência: em primeiro lugar é selecionada a melhor proposta técnica e comercial, e depois é que é verificado o atendimento às exigências burocráticas. Regimes especiais estão sendo adotados para acelerar as obras da Copa e tramita no Congresso nova legislação para substituir a Lei 8.666 (que regula as contratações do setor público com o setor privado), origem do cipoal burocrático. Para ampliar o investimento, o mais importante é o crescimento econômico. Dá segurança ao empreendedor privado para investir, eleva a arrecadação pública e cria o espaço fiscal necessário. Para crescer, o melhor é retirar o principal freio da economia, a taxa de juro ao tomador, inibidora do investimento privado e redutora possante do poder aquisitivo do consumidor.

 

Capitalismo em choque

O ANÚNCIO DO conjunto de projetos de infraestrutura envolvendo a participação do governo e do setor privado ensejou mais um debate de grande envergadura intelectual. Estamos nós, o povo brasileiro, diante de uma nova rodada de privatizações ou observamos apenas o prosaico desenvolvimento e aperfeiçoamento dos modelos de concessões e parcerias? Entre os protagonistas do contencioso semântico não faltaram os recursos retóricos dignos dos animadores de reality shows. “O Choque de Capitalismo de Dilma”, proclama a prestigiosa revista Veja na edição que foi às bancas no sábado 11de agosto. A reportagem de capa é encerrada com um desafio: “Quem tem medo do mercado? Mercado? Falam de uma enteléquia congelada em seu imobilismo. Em A Riqueza das Nações, Adam Smith mostrou como o desenvolvimento da economia industrial capitalista promoveu a generalização do mercado. Em outros tempos existiam mercados. O Mercado, com M maiúsculo, é uma criação histórica do capitalismo industrial. No Manifesto Comunista, Marx e Engels celebraram as transformações produzidas pelo capitalismo. “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção e,portanto, as relações de produção e com elas o conjunto das relações da sociedade …Revolução permanente nas condições de produção, distúrbios ininterruptos de todas as condições sociais, permanente incerteza e agitação, é o que distingue a era burguesa de todas as demais.” As transformações na divisão social do  trabalho suscitaram a diferenciação de funções e impulsionaram novas formas de convivência, criaram outros modos de informação e de percepção dos indivíduos, alteraram profundamente os padrões de ocupação do espaço e de utilização do tempo. A organização e a dinâmica impostas pela generalização dos mercados às sociedades urbano-industriais determinaram à maioria dos trabalhadores a separação entre o local da residência e o de trabalho, e a distinção entre o tempo do labor e o do lazer. As transformações econômicas produzidas pelo mercado expulsaram, dolorosamente, o “novo” indivíduo de seu hábitat “originário”. Os mercados libertaram, sim, os subalternos das misérias da dependência pessoal e de isolamento espacial, típicas da “economia natural”. Mas as condições da liberdade são as mesmas que aprisionaram suas vidas nas engrenagens da acumulação da riqueza abstrata, do dinheiro. Marx e Engels escreveram o Manifesto em 1848, antes das escaladas industriais dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. Extasiados diante da potência revolucionária e “progressista” do capitalismo em seu ímpeto de mercantilização universal, Marx e Engels não anteciparam o papel crucial dos Estados Nacionais na “deformação” dos mercados e das condições da concorrência que determinou o declínio da Inglaterra. Desde meados do século XIX, as economias retardatárias se desenvolveram, primeiro, sob o livre-comércio patrocinado pelos interesses da haute finance abrigados na City.Depois, nas três últimas décadas dos Oitocentos, sobretudo a partir da Grande Depressão iniciada nos anos 70,os latecomers cresceram àsombra do protecionismo e das regras monetárias liberais do padrão-ouro. Contradições? Sim, estas são as condições de autotransformação do capitalismo na batalha pela reafirmação de sua “natureza”. A vulgata liberaloide bate a cabeça contra as  realidades queo capitalismo construiu. Em seu frenesi expansivo, ele realiza o seu conceito como forma social de produção nos marcos da propriedade privada. Os critérios privados de apropriação da renda e de valorização da riqueza são executados no âmbito de um sistema econômico cada vez mais integrado e, por isso mesmo, mais “politizado”. As reformas liberalizantes, empreendidas desde o crepúsculo dos anos 70 do século passado, trataram de mobilizar os recursos políticos e financeiros dos Estados Nacionais para fortalecer os respectivos sistemas empresariais envolvidos na concorrência global. A abertura dos mercados impôs o acirramento da concorrência global e tornou inevitável o fortalecimento das grandes empresas nacionais. Assim a concorrência engendra o monopólio e convida o Estado a “escolher os vencedores”. As fusões e aquisições e a intervenção dos Estados Nacionais desataram a liça por um maior controle dos mercados globais. A intensificação da concorrência entre as empresas no espaço global foi acompanhada de um maior controle da finança desregulada sobre as decisões de consumo e de investimento. A gestão empresarial foi, assim, submetida aos ditames dos ganhos patrimoniais de curto prazo. A acumulação financeira acrescentou novos fatores às instabilidades das economias de mercado. Por isso, os neorreformistas também cuidaram de buscar o Estado e sua força coletiva para limitar as perdas provocadas pelos sucessivos episódios de desvalorização da riqueza.

 

Como derrubar os senhores feudais

Vinte e um anos. Esse é o tempo que o dirigente Carlos Arthur Nuzman terá permanecido na presidência do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) quando a tocha dos Jogos do Rio de Janeiro estiver acesa em 2016.Nuzman, que também preside o Comitê Organizador da Olimpíada brasileira, é o líder de uma estirpe de dirigentes que se perpetuam no poder do esporte nacional: dez confederações esportivas do País são comandadas há pelo menos dez anos por cartolas beneficiados por sucessivas reeleições (quadro). A longevidade de cartolas como Nuzman pode estar com os dias contados. Tramita no Senado um projeto de lei que pretende combater a permanência de “dinastias” e, de maneira indireta, inibir abusos de poder e corrupção nas entidades esportivas brasileiras, bem como em federações e sindicatos. A proposta proíbe reeleições consecutivas, estipula um limite de quatro anos para a duração dos mandatos e prevê que cônjuges e parentes consanguíneos do eleito fiquem impedidos de se candidatar. A ideia é impor às entidades as mesmas regras que a sociedade aprovou para os cargos executivos públicos. “Embora essas entidades não sejam públicas, elas gozam de isenção de impostos e incentivos do governo. Por isso, devem seguir os padrões democráticos que a sociedade brasileira estabeleceu”, afirmou a CartaCapital o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), autor da proposta. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, já se mostrou favorável à mudança “Essas medidas trariam benefícios para as entidades e para a prática esportiva”, disse em nota A longevidade dos dirigentes esportivos é a parte visível de uma estrutura arcaica que favorece sempre o grupo que está no poder e dificulta a mudança de práticas, necessária quando o investimento não se transforma em melhorias para os atletas ou resultados. Opresidente do Comitê Olimpico Brasileiro é eleito pela assembleia-geral da entidade. Têm direito avoto apenas asfederações dos 28 esportes olimpicos e os três “membros natos do COB”. São membros natos o próprio Nuzman, seu vice, André  Richer, e João Havelange, que comandou a Fifa durante 24 anos e que recentemente fui condenado por receber propina de uma empresa de marketing esportivo. Osistema em vigor dá superpoderes ao presidente do COB,pois é ele quem determina o destino e o tamanho dos repasses de verbas para  as federações. Como são as próprias federações que elegem o próximo presidente, o comandante de cada uma delas precisa fazer reivindicações com ponderação, sob risco de ser penalizado no repasse de verbas. Agrava a situação o fato de o estatuto do COBexigir que um dirigente tenha o apoio de pelo menos dez presidentes de federação para apresentar sua candidatura Assim, oposição só surge em caso de rebelião. Cunha Lima já prevê uma pressão contrária dos dirigentes. O COB de Nuzman informou a Carta Capital que a entidade é contrária à ideia. “A gestão de um dirigente deve ser analisada sob a ótica dos resultados e das conquistas alcançadas, de sua representatividade no âmbito das entidades esportivas internacionais e do legado”, diz a entidade em nota. “O COB defende a autonomia das entidades dirigentes esportivas e considera que a definição do tempo de mandato do presidente deve ser uma atribuição da comunidade da respectiva entidade desportiva” o ex-judoca Aurélio Miguel, medalha de ouro em Seul em 1988 e atualmente vereador em São Paulo pelo PR, é um dos ex-atletas contrários à perpetuação de dirigentes. “Essa sempre foi a minha bandeira O Ministério Público deve ter poder para fiscalizar os atos das confederações. Na hora de receber o recurso do governo, elas dizem ter interesse público, mas na hora de ser fiscalizadas, se dizem privadas. Uma eleição com apenas uma reeleição ajudaria a mudar isso”, entende, apesar de ressaltar que enxerga a gestão de Carlos Arthur Nuzman com bons olhos. Miguel sentiu na pele os problemas internos que uma confederação pode ter. Quando era judoca, encabeçou um movimento contra a chamada “dinastia Mamede” na Confederação Brasileira de Judô (CBJ). Ele e outros judocas, como Rogério Sampaio (medalha de ouro em 1992),ficaram três anos sem participar de competições oficiais por conta de desavenças com o então presidente da entidade, Joaquim Mamede. “O governo ajudava com alguma verba, mas, como as contas da CBJ estavam condenadas, esse dinheiro era embargado, porque vinha através da federação e não diretamente ao atleta E havia cobrança de ágio pelos dirigentes, era muito difícil.” A família Mamede comandou a CBJ por 31anos, entre 1970e 2001. Se não é tão raro ouvir as de um ex-atleta como Miguel, raríssimos são os esportistas ainda em atividade que se posicionam contra ostatus quo da política  esportiva Um desses atletas é Diogo Silva, semifinalista do tae kwon do em Londres- 2012.”Existe um ciclovicioso centralizador que faz as associações de academia elegerem presidentes das federações, que elegem os presidentes das confederações, que escolhem o presidente do COB”, diz Silva “Se um presidente de federação vira oposição, ele passa a ter dificuldades para desenvolver o esporte no seu núcleo. Muitos queriam votar contra (oNuzman), mas temem retaliações”, afirma Silva entende que a participação política dos atletas é prejudicada nesse contexto. “O dinheiro está nas mãos do COB. Se você levanta a bandeira da oposição, vai ter um caminho muito mais difícil para chegar ao sucesso. Sou atleta não para ganhar dinheiro, mas para provocar essa discussão.” Aos 30 anos, o lutador diz se preparar para ser um dirigente capaz de tornar o sistema mais justo e transparente ao se aposentar. Exemplos de mais transparência no comando de comitês olímpicos sobram no exterior.Um bom deles é o da Core ia do sul. Embora no Brasil alguns dirigentes aleguem que mandatos curtos atrapalham a administração e prejudicam o trabalho a longo prazo, os sul-coreanos são um exemplo flagrante de que a alternância de poder não impede o sucesso.Desde 1984,o pais só não ficou entre as dez primeiras colocações no quadro de medalhas olímpicas em Sydney, em 2000. Em Londres, ficaram em quinto lugar.O comitê olímpico local teve oito presidentes, apenas um deles reeleito.

 

Um garoto contra a velha oligarquia

ANTÔNIO CARLOS Valadares Filho (PSB) está diante de um desafio grandioso, possivelmente o maior de sua incipiente trajetória. Com apenas 31 anos e duas passagens pela Câmara dos Deputados, o parlamentar foi escolhido no fim de junho como o representante da aliança dos partidos de esquerda para disputar a prefeitura de Aracaju. Terá como principal adversário João Alves Filho (DEM), há quatro décadas na política sergipana. O jovem candidato socialista tem cacife alto. Conta com o apoio do PT do governador Marcelo Déda, do PMDB do vice-governador Jackson Barreto, do PCdoB do prefeito Edvaldo Nogueira e, claro, de sua própria legenda, cujo maior expoente no estado é o pai, Antonio Carlos Valadares, presidente da Comissão de Ética do Senado. Trata-se de um caso bem particular, em que as principais siglas da base de Dilma Rousseff estão unidas na disputa por uma capital, a despeito dos rachas e desentendimentos que dissolveram alianças históricas no Recife, em Fortaleza e em Belo Horizonte. Apesar do sólido alicerce, a garantir 14minutos diários no rádio e na tevê (quatro a mais que João Alves), a missão de Valadares Filho é espinhosa. Seu oponente lidera as pesquisas e, se a eleição fosse hoje, sairia vitorioso no primeiro turno. Na última sondagem, divulgada pelo instituto Exatta no domingo 12, João Alves aparece com 55% das.intenções de voto. Ojovem candidato do bloco governista tem 13%e os demais concorrentes, somados, possuem 15%das indicações de eleitores. “Fizemos um amplo processo de debate para escolher um nome capaz de unir todos os partidos da base de sustentação do governo do estado e da prefeitura”, afirma o candidato. “Mas demoramos muito tempo para apresentar a minha candidatura. Por isso, considero natural que o João comece a disputa na frente. Ele está na política desde a década de 1970, quando foi nomeado prefeito pela ditadura. Teve três mandatos de governador e foi ministro do Interior de José Sarney. Disputou as últimas quatro eleições para o governo do estado e venceu uma (2002). Tem um enorme recall político. Todos o conhecem. Mas não tenho dúvidas de que vamos crescer e ganhar essa eleição.” Na sexta-feira 17,o Ibope deverá apresentar outra pesquisa. A julgar pelo clima morno das eleições, o cenário não deve ser tão diferente. Pelas ruas da capital, quase não se veem militantes ou carros de som perambulando sob o sol escaldante, nesta época do ano atenuado pelos fortes ventos marítimos e breves pancadas de chuva. Dedicados à gravação dos programas televisivos, os candidatos participam de poucas aparições públicas, uma ou outra caminhada ou minicarreata. “A disputa começará para valer a partir do dia 21,quando começa o horário eleitoral na tevê. Estamos na prefeitura desde 2000 e no governo do estado há seis anos. Teremos tempo para mostrar tudo que avançamos e podemos melhorar”, afirma o governador Marcelo Déda. “Valadares Filho foi um deputado muito competente, e tem propostas inovadoras para a capital. João Alves, ao contrário, representa o passado, a velha oligarquia que dominava a política sergipana. Por quatro décadas, ele se revezou no poder com a família Franco. Governavam para os seus próprios interesses. Nunca houve preocupação com investimentos sociais. Rompemos esse ciclo de dominação das elites.” Aracaju teve avanços consideráveis, impulsionados por investimentos das três esferas de governo. De acordo com o Censo de 2010, é a capital nordestina com maior crescimento de renda per capita nos últimos 10anos. Apenas entre 2004 e 2010, segundo o IBGE, a economia da cidade cresceu mais de 53%e o Produto Interno Bruto (PIB) passou de 4,5 bilhões para quase 7 bilhões de reais. Uma pesquisa do Ministério da Saúde, em 2008, destacou Aracaju como a capital com melhor qualidade de vida. “Em 2000, quando Déda assumiu a prefeitura, o orçamento municipal era de 160 milhões de reais. Hoje, só o gasto com educação é superior, algo em torno de 175 milhões. Para 2012, temos 1,2 bilhão reservado”, afirma o prefeito Nogueira. Mas a persistência de graves problemas, como a baixa qualidade de ensino, a calamitosa situação da saúde pública (onde uma consulta ou um exame simples costuma demorar mais de um mês) e a precariedade do transporte coletivo desgastam a imagem tanto da administração municipal quanto da estadual. Não por acaso, a avaliação dos governos anda em baixa. Recente pesquisa do instituto Exatta revela que 40% dos moradores da capital avaliam o governo Déda como ruim ou péssimo, e apenas 24%, bom ou ótimo. Já a administração do prefeito Nogueira é reprovada por 39% dos entrevistados, índice superior às avaliações positivas (29%). “Fazemos o possível. No ano passado, abrimos o primeiro processo de licitação da história da cidade para contratar companhias de ônibus, mas alguns empresários barraram o processo na Justiça. Curiosamente, João Alves foi contra a licitação”, afirma o prefeito. “Aracaju tem 580 mil habitantes e mais de 2 milhões de cartões do Sistema Único de Saúde. A capital recebe pacientes de diversos municípios de Sergipe, Alagoas e Bahia. Mas não cruzamos os braços. Em 2000, tínhamos apenas sete Unidades Básicas de Saúde. Hoje, são 41.” As greves de servidores, incluindo professores da rede estadual, que ficaram quase dois meses parados, também causaram estragos. “Concedemos reajustes e planos de carreira a várias categorias. A PM de Sergipe tem a melhor remuneração do País. Mas não dá para atender a todas as demandas, senão o estado quebra”, justifica o vice-governador Barreto. “É preciso comparar o que tínhamos antes e o que temos agora”. Os aliados de Valadares Filho costumam citar os vários processos contra o adversário. João Alves foi,por exemplo, alvo da Operação Navalha, da Polícia Federal, acusado de receber propina e superfaturar as obras de uma adutora. O líder nas pesquisas faz pouco caso. “Em 37 anos de vida pública, é natural ser alvo de processos. Mas nunca fui condenado nem tive gestões reprovadas pelo Tribunal de Contas. Ninguém pode me chamar de corrupto”, esbraveja. “O PT e seus liderados são excelentes no discurso, brilhantes até. Sabem falar bem, mas não são vocacionados para a administração. Governar exige habilidade para fazer os projetos saírem do papel, e isso eles não fazem. Construí 14 das principais avenidas de Aracaju. Ergui pontes que interligaram bairros e cidades vizinhas. Urbanizei a Orla de Atalaia. Ninguém fez mais

por essa cidade do que eu.”

 

Uma aposta no Islã

NA POSSE EM 31 de junho, muitos analistas viram o recém-eleito presidente egípcio Mohamed Morsi como uma tímida e passageira figura de proa submissa à junta militar. O ministério nomeado em 2 de agosto pareceu confirmar isso: o partido da Irmandade Muçulmana recebeu só 4 dos 35 ministérios (Informação, Universidades, Habitação e Juventude), enquanto a Defesa, a Economia e as Relações Exteriores ficaram nas mãos dos militares e seus homens de confiança. Dez dias depois, o chefe de Estado demitiu os principais comandantes

militares – o chefe da junta, marechal Mohamed Tantawi, o chefe do Estado- -Maior do Exército, Sami Anan, e os comandantes da Marinha, Força Aérea e Força de Defesa Aérea – e revogou a “declaração constitucional complementar” (equivalente a um “Ato Institucional”) de 17 de junho, pela qual a junta militar se arrogou grande parte dos poderes presidenciais e legislativos. Além disso, nomeou Abdul Fattah al-Sisí e Sedki Sobhi, generais relativamente jovens (58 e 57 anos, respectivamente) para os cargos de Tantawi e Anan. Isso significa que, ao contrário de seus antecessores, não participaram das guerras árabes-israelenses e fizeram sua carreira militar em um ambiente de paz com Israel e aliança com os EUA. Sisi fez treinamento no forte Benning, na Geórgia, em 1981. Tanto Sisi quanto Sobhi fizeram cursos no United States Army War College em 2005 e 2006, ou seja, nos anos de Bush júnior. Ao mesmo tempo, Sisi é tido como muito religioso (e simpatizante da Irmandade Muçulmana, segundo jornalistas pró- -Tantawi) e malvisto pelos defensores de direitos humanos por ter participado da repressão de Hosni Mubarak e, dias após a queda, defender os “testes de virgindade” forçados das manifestantes presas na Praça Tahrir para refutar acusações de estupro por parte de seus soldados, prática da qual os militares depois recuaram. Sobhi, em um ensaio escrito durante um mestrado nos EUA, em 2005, escreveu que, se a democratização no mundo árabe fosse vista como resultado de exigências e interferência dos EUA, “então esses processos sofreriam com a percepção de ilegitimidade pelo público” e que uma eventual democratização precisaria de “legitimidade política, social, cultural e religiosa” (grifo dele). Concluía que os EUA deveriam reduzir sua presença militar no Oriente Médio e abandonar seu apoio incondicional a Israel para ampliar sua influência. A mudança foi aplaudida tanto pelos fundamentalistas da Irmandade quanto por seus rivais ultraconservadores  do partido Nur (salafista) e aparentemente aprovada pela Casa Branca, que mandou dizer que “confia em que a mudança servirá aos interesses do povo egípcio”. Também agradou ao pequeno, mas influente, reino do Catar, que ofereceu 2 bilhões de dólares ao Egito logo após o anúncio de 12 de agosto. Salvo pela renúncia não solicitada do general Hassan El-Roweiny, outro integrante da velha-guarda e da junta e responsável mais direto pela repressão no Cairo dos últimos dias do regime Mubarak, os militares reagiram com aparente tranquilidade, sem movimentações anormais. A troca de guarda foi combinada para permitir aos chefes militares saírem honrosamente do primeiro plano para continuar a controlar o país dos bastidores (Tantawi e Anan, aposentados por decreto, foram condecorado se nomeados “assessores”), um “golpe brando” para implantar uma ditadura fundamentalista ou uma combinação de contragolpe civil com um golpe silencioso dentro da cúpula militar? A terceira interpretação parece a mais plausível. O desagrado dos setores mais fiéis à junta militar (ou mais temerosos da Irmandade Muçulmana) indica que houve mais do que um jogo de cena e é preciso levar em conta o contexto da recente visita de Hillary Clinton ao Egíto (14 de julho), na qual pareceu dar apoio a Morsi (ou pelo menos a uma “transição plena” ao poder civil). E também os recentes confrontos entre o governo egípcio e militantes islâmicos do Sinai, seguidores da seita ultrafundamentalista Takfir, que considera até os salafistas como hereges e quer um emirado independente na regíão. Em 5 de agosto, um grupo desses extremistas matou 16 soldados egípcios na fronteira e roubou dois blindados, imediatamente usados em um ataque frustrado a Israel. O site da Irmandade Muçulmana acusou o Mossad pelo incidente e no Egíto houve quem a responsabilizasse (juntamente com o Hamas). Mas o presidente Morsi tomou a iniciativa e demitiu não só o chefe da Inteligência e o governador do norte do Sinai, como também os comandantes da guarda presidencial e da polícia, e fechou a fronteira com Gaza. Além disso, com autorização de Tel-Aviv, lançou o primeiro ataque aéreo no Sinai, onde ~helicópteros militares estavam proibidos desde o acordo de paz de 1973. É provável que o respaldo explícito dos EUA e a inação de Tantawi ante os acontecimentos no Sinai tenham dado oportunidade à Irmandade para também conseguir o respaldo de militares – nem todos entusiastas do autoritarismo e da corrupção da velha-guarda – que a consideram não só confiável o suficiente no que se refere a seus principais interesses econômicos e estratégicos, como indispensável. Israel está menos confiante: um funcionário anônimo manifestou que “é prematuro fazer avaliações, mas observamos com inquietação”. Ainda é dúvida o Judiciário egípcio, que até agora esteve a serviço da junta militar, aprovou os atos dos militares que tiraram os poderes do presidente, dissolveram o Parlamento e anularam a tentativa de Morsi de restaurá-lo. Um advogado, que já tentara cassar a cidadania egípcia de dois filhos de Morsi (por terem cidadania dos EUA – nasceram lá quando o pai fazia doutorado na Califórnia), tenta impugnar no Tribunal Administrativo o decreto pelo qual o presidente revogou a “declaração constitucional” dos militares. Um integrante do Tribunal Constitucional também questionou sua legalidade. Essas contestações seguirão em frente ou serão silenciadas? O presidente terá respaldo para intervir na cúpula do Judiciário, se for o caso? Pode ser uma resistência desesperada de setores “rifados” pela transição, mas impotentes. Pode ser o primeiro sinal de uma reação mais ampla. Em todo caso, o episódio ressalta a disposição declarada do Ocidente, ou ao menos dos EUA, de chegar a termos com as forças fundamentalistas do Oriente Médio – moderadas, se possível, mas até as radicais, se não houver alternativa – de maneira muito parecida à sugerida pelo general Sobhi, salvo por ainda não dar sinal de reduzir o apoio a Israel. Do Marrocos, onde os fundamentalistas do Partido Justiça e Desenvolvimento lideram o governo desde novembro de 2011, até o Afeganistão, onde o Pentágono tenta pacientemente conseguir algum tipo de acordo entre a guerrilha do Taleban e o governo do presidente Hamid Karzai. A tese do “choque de civilizações” de Samuel Huntington, popular na era Bush júnior, parece ter sido abandonada por uma geopolítica mais laica e clássica, na qual a religião é uma arma a mais, que pode servir a qualquer dos lados. Mesmo no discurso, a ameaça não é mais o “Islã” ou o ainda mais abstrato “Terror”, mas a China e seu infinito apetite por energia e matérias-primas. Na medida em que as lideranças fundamentalistas, eleitas ou não, se mostrarem mais aptas a conseguir legitimidade e respaldo popular do que as tradicionais ditaduras laicas e puderem ser cooptadas para os interesses estratégicos do Ocidente (como há muito o foram as monarquias fundamentalistas da Península Arábica), os EUA não farão mais objeções, mesmo que tenham de sacrificar os interesses dos jovens laicos que esperavam contar com o apoio do Ocidente para criar instituições mais liberais. Se o Irã é um inimigo, não é por ter um governo teocrático, e sim por se alinhar à China e à Rússia, assim como o regime baathista laico da Síria de Bashar aI-Assad. Washington admite a presença da AI-Qaeda e de grupos similares entre os rebeldes sírios, há meses evidenciada  pelos ataques suicidas contra alvos governamentais. Operações a ela atribuídas saltaram de sete, em março, para 66 em junho. O jornalista alemão Daniel Etter, do Díe Frankfurter Allgemeíne Zeítung, concluiu, após visitar cidades controladas pelos rebeldes perto de Alepo, que os mujahídín são a principal força de combate da rebelião. Bandeiras da Al-Qaeda são exibidas”em campo e nos escritórios dos chefes. Um artigo de 6 de agosto de Ed Husain,  britânico de origem bengalesa que vive nos EUA e integra seu Conselho de Relações Exteriores, reconhece que “os combatentes da Al-Qaeda podem melhorar o moral (dos rebeldes ‘abandonados pelo Ocidente’) ao trazer disciplina, fervor religioso e experiência militar de todos os cantos do mundo muçulmano, recursos financeiros de simpatizantes no Golfo Pérsico e, mais importante, resultados letais. Em resumo, o Exército Livre da Síria precisa da Al-Qaeda agora”. Segundo ele, os EUA decidiram livrar-se de Assad primeiro, para enfraquecer a posição do Irã, e lidar com a Al-Qaeda depois. Foi O que fizeram na Líbia, com resultados duvidosos. O governo formal está, por ora, nas mãos de pró-ocidentais, mas os fundamentalistas claramente reforçaram sua posição no pais e em grande parte  do Norte da África e implantaram uma teocracia absoluta no separatista norte do Mali, com armas tomadas aos arsenais de Kaddafi. Ali a sharia tem sido aplicada com todo o rigor, incluindo execução por apedrejamento de supostos adúlteros e amputação de mãos de ladrões. Sem que isso desculpe as atrocidades cometidas por torturadores e milícias a serviço do regime, os excessos cometidos  pelos rebeldes com supostos colaboradores  civis e militares do governo, registrados em vídeos que circulam pelo mundo, são tão notórios quanto aqueles do próprio regime, embora ainda “com menor escala e frequência”, segundo os relatórios da ONU. Mas como agirão se chegarem a controlar todo o país? As minorias, principalmente cristã, alauíta (seita xiita à qual pertence Assad) e drusa, receiam uma teocracia sunita e falam de criar seus próprios Estados. A guerra civil, que fez mais de 20 mil mortos e levou 200 mil refugiados a países vizinhos, pode estar a caminho de tornar-se uma guerra sectária e a Al-Qaeda de se enraizar permanentemente no país. Como no Iraque, onde os mortos se contam em centenas de milhares e os refugiados em milhões e com a provável contaminação do Líbano, onde um clã xiita começou a sequestrar sunitas em retaliação à captura de um de seus integrantes pelos rebeldes sírios, que o acusam de ser um agente do Hezbollah a serviço do governo de Assad. De qualquer forma, com o abandono por Kofi Annan da tentativa de negociação de um acordo de transição entre rebeldes e governo na Síria, parece não haver mais dúvida de que a solução será militar. E não está garantido que ela será favorável aos rebeldes, muito menos que está próxima. O ex-primeiro-ministro Riad Hijab diz que o regime do qual desertou controla só 30% do país, mas isso não parece verdade, ao menos nas regiões mais povoadas (o deserto é outra questão). E a liderança rebelde admite que a superioridade aérea do governo, graças à qual recapturou toda Damasco e a maior parte de Alepo, torna sua vitória impossível. É um pedido enfático para que os EUA e a Otan tomem na Síria a mesma iniciativa tomada na Líbia, de impor uma “zona de exclusão aérea” que, com o pretexto de proteger os civis de bombardeios, forneça cobertura aérea ativa aos ataques dos rebeldes, juntamente com apoio mais ou menos dissimulado de forças especiais. Desta vez, Rússia e China deixaram claro que rejeitarão uma resolução nesse sentido na ONU (a concessão feita na Líbia custou muito caro, politicamente, à Rússia e ao então presidente Dmitri Medvedev). E se os EUA e seus aliados tomarem tal iniciativa unilateralmente, não haverá como condenar China e Rússia se escalarem seu apoio a Damasco e, eventualmente, a Teerã, ameaçada por Israel cada vez com mais ênfase. Seria um passo muito perigoso para ambos os lados e em especial para a Turquia, peça- -chave em qualquer ação da Otan contra a Síria. Para não falar do resto do mundo, sujeito ao risco (no mínimo) de outro choque do petróleo, enquanto a União Europeia está à beira de uma catástrofe financeira e os preços mundiais dos alimentos prestes a disparar.

 

Steve Jobs não falava alemão

O CAFÉ ST. OBERHOLZ, na região leste de Berlim, é tão badalado como qualquer bar da área: portas cobertas de grafite, arte radical, moda  criativa e, ao fundo, os Beastie Boys. À primeira vista, não é o tipo de lugar para se procurar magnatas em formação. Mas sua presença faz muito sentido. A cultura europeia é profundamente inóspita para os empresários. Querer transformar uma start-up em gigante é quase tão contracultural quanto piercings e arte performática. O Oberholz tornou-se um centro de jovens empresas novatas em Berlim, para onde acorrem tipos empreendedores do mundo inteiro. A clientela começa no primeiro andar, onde programadores de computação se misturam com potenciais patrões tomando café na área de “ko- -working”. Depois que atraem capital, eles passam ao andar de cima, onde o café aluga espaços de escritórios por baixos preços. Uma empresa que está decolando pode se mudar para um dos apartamentos do café, muitas vezes usando as camas como mesas. O site de compartilhamento de áudio SoundCloud, que tem cinco anos, passou os primeiros dias no Oberholz, assim como o clube de compras privadas online Brands4friends. A Txtr, uma plataforma de e-book em rápida expansão, ainda tem programadores em um dos apartamentos. É um lugar instigante para se iniciar uma empresa. O que é muito bom, pois os jovens esperançosos de Berlim receberão poucos incentivos e encorajamento em outros lugares. Eles vão lutar para contratar gerentes profissionais para ajudar suas firmas a crescer, porque os executivos europeus são extremamente avessos a riscos. Suas jovens firmas descobrirão rapidamente que, em geral, as companhias europeias estabelecidas não gostam de tratar com as pequenas. A maioria das fontes de capital as rejeitará. Os regulamentos as impedirão. E quando falharem, como a maioria certamente fará, elas não terão permissão para simplesmente sacudir a poeira e começar de novo. Na Europa, o fracasso de uma empresa deixa uma mancha duradoura,

como se fosse uma falha moral. Dados mostram que a Europa continental tem um problema para criar novas empresas destinadas ao crescimento. Segundo o Monitor de Empreendedorismo Global, que compila dados em todos os continentes, em 2010 os empresários “em fase inicial” constituíam apenas 2,3% da população italiana adulta, 4,2% da alemã e 5,8% da francesa. Os países europeus estão abaixo, em muitos casos bem abaixo,

dos 7,6%dos Estados Unidos e, mais ainda, dos 14%da China e 17%do Brasil. Os poucos empresários europeus estão sombrios sobre suas perspectivas. Um estudo da firma de contabilidade Ernst &Young mostrou no ano passado que os empresários alemães, italianos e franceses confiavam muito menos em seus países como locais para start-ups do que aqueles dos EUA, do Canadá ou Brasil. Muito poucos empresários franceses disseram que seu país oferecia o melhor ambiente. E 60% dos brasileiros, 42% dos japoneses e 70% dos canadenses achavam que não havia melhor lugar que o deles. Perguntados que cidades têm a melhor probabilidade de produzir a próxima Microsoft ou Google, os empresários da Ernst &Young escolheram Xangai, São Francisco e Mumbai (para ser justo, Londres também foi citada). Apesar de tudo isso, a Europa produz muitas lojas de esquina, cabeleireiros, e assim por diante. O que ela não produz o bastante são empresas inovadoras que crescem rapidamente e se tornam grandes. Em 2003, analisando a lacuna empresarial da Europa, a Comissão Europeia citou um estudo mostrando que, durante a década de 1990, 19% das firmas de médio porte nos EUA foram classificadas como de rápido crescimento, comparadas com a média de apenas 4% em seis países da União Europeia. A Fundação Kaufmann, que promove o empreendedorismo em todo o mundo, afirma de modo convincente que um motivo pelo qual os EUA superaram a Europa em criar novos empregos é a sua capacidade de produzir novas empresas de rápido crescimento, como a Amazon, uma rede de comércio online, ou a firma de leilões também online eBay. E, em termos de empregos, as novas pequenas empresas têm uma vantagem adicional. Elas apresentam menor probabilidade que as gigantes existentes de terceirizar uma grande parte da mão de obra para fornecedores baratos na Ásia. A Europa não foi sempre tão lenta. Quando a Revolução Industrial da Grã- -Bretanha se espalhou para o continente, depois de 1848, a ambição e o acesso ao capital podiam levar um homem longe. August Thyssen fundou a ThyssenKrupp, um grupo siderúrgico alemão, Eugêne Schueller fundou o império de beleza francês L’Oréal, e A.P. M01- ler definiu os rumos do A.P. M011er-Maersk Group, um gigante da navegação dinamarquesa. A vasta maioria das grandes companhias da Europa nasceu mais ou menos no início do século passado. Assim como grande parte das pequenas e médias empresas alemãs e núcleos de industriais da Lombardia à Escócia Depois das guerras mundiais, a Europa nunca recuperou essa fecundidade. A devastação tornou os europeus ainda mais avessos ao risco. Os mercados que haviam sido estreitamente ligados antes de 1914 se fragmentaram, segundo Leslie Hannah, uma historiadora das empresas na Escola de Economia de Londres. Isso limitou a capacidade de novas firmas ganharem escala e se tornarem gigantes, especialmente nas décadas que antecederam o mercado único da União Europeia. Segundo uma análise das 500 maiores firmas de capital aberto feita por Nicolas Véron e Thomas Philippon, do grupo de pensadores Bruegel, a Europa deu origem a apenas 12 novas grandes companhias entre 1950 e 2007. Os EUAproduziram 52 no mesmo período (tabela 1).AEuropa tem apenas três grandes novas firmas em Bolsa fundadas entre 1975 e 2007. Dessas, duas foram iniciadas na Grã-Bretanha ou na Irlanda, que são mais próximas dos EUA em sua atitude empresarial do que da Europa continental. As grandes firmas de capital privado da Europa também datam principalmente de antes de 1950, e com frequência de muito antes. Se a Europa fosse mais empreendedora, dizem todos da comissão para baixo, não teria sido um produtor tão fraco de grandes empresas. E teria gerado mais empresas bem-sucedidas de novas tecnologias. O empreendedorismo não precisa ser canalizado pelos tubos da internet, mas nas últimas décadas várias delas o foram. Ofato de uma economia copiosamente fornida de pessoas com’ formação técnica, como a Alemanha, não ter produzido uma só empresa importante de internet de negócios ao consumidor sugere um grande problema de empreendedorismo. “Por que o Google não foi feito na Alemanha?”, perguntou Konrad Hilbers, ex-executivo-chefe do Napster, um serviço de música online, em uma palestra no ano passado. A falta de uma cultura empresarial que aceite riscos foi parte de sua resposta. Empresas como a Skype, uma firma de comunicação por voz e vídeo na internet, fundada por um dinamarquês e um sueco, o serviço de música online sueco Spotify e Wonga, uma financeira online britânica, sugerem que a cena não é tão ruim quanto poderia ser. Mas os empresários da Europa ainda são sub-representados na internet. “Embora haja alguns sinais de vida, a região está semiadorrnecida”, diz Yossi Vardi, um empresário israelense veterano em alta tecnologia e investidor “anjo”. A Europa tem histórias de sucesso empresarial. A mais rica é a do espanhol Amancio Ortega, que começou a trabalhar em uma loja de roupas com 13 anos e bem mais tarde fundou a Inditex, um império de moda rápida. AÁustria tem Dietrich Mateschitz, que fundou a Red Bull, fabricante de bebidas energéticas. AFrança tem Xavier Niel, que neste ano começou uma revolução na telefonia celular, oferecendo aos consumidores preços extremamente baixos. A Grã-Bretanha tem sir Richard Branson. Mas a lista é curta. E muitos empresários europeus, não incluindo Branson, escondem seu sucesso. Ortega nunca deu uma entrevista. Parece que há apenas duas fotos dele publicadas. Ingvar Kamprad, obilionário fundador da loja de móveis sueca IKEA, evita assiduamente qualquer sugestão de riqueza. Plesmente partem. Há cerca de 50 mil alemães no Vale do Silício e estimadas 500 start-ups na área da Baía de São Francisco fundadas por franceses. Uma das coisas que eles encontram lá é a liberdade de fracassar. Se sua firma falir na França, diz Dan Serfaty, o francês fundador do Viadeo, um site de redes de negócios em rápido crescimento, você não terá uma segunda chance. Para tentar descobrir o que retém os empresários, a Comissão Europeia examinou no ano passado regimes de insolvência e descobriu que muitos países tratam os empresários honestos insolventes mais ou menos como fraudadores, embora só uma pequena fração das falências envolva fraudes. Alguns países mantêm os empresários falidos no limbo durante anos. A Grã-Bretanha libera um falido de suas dívidas depois de 1.2meses. Nos EUA, é geralmente mais rápido. Na Alemanha, as pessoas esperam seis anos para ter um recomeço, segundo a Comissão. Na França elas esperam nove anos. Os falidos na Alemanha podem enfrentar

uma proibição vitalícia de ocupar cargos de alta direção em grandes empresas. Um segundo obstáculo importante são as finanças. Conseguir capital semente de até 1milhão de euros de “amigos, otários e parentes” é muito fácil. Empresários de tecnologia, como os irmãos Oliver, Marc e Alexander Samwer, da Alemanha,

fizeram fortunas no primeiro sucesso das pontocom e depois se tornaram investidores “anjos” em start-ups muito jovens. NaAlemanha, o dinheiro de semente aproximadamente quintuplicou nos últimos cinco anos, diz Hendrik Brandis, da Earlybird Venture Capital, uma firma de capital de risco de Munique. Para o 1,5 milhão a 4 milhões de euros que as firmas precisam para transformar uma ideia em um modelo empresarial real, há uma oferta muito pequena. Investidores institucionais como os fundos de pensão consideram o capital de risco europeu uma classe de ativo ruim. As firmas de capital de risco europeias perderam dinheiro durante 2000-2010, depois do estouro da bolha das pontocom. O dinheiro total investido em capital de risco europeu diminuiu pela metade, de 8,2 bilhões de euros em 2007 para 4,1bilhões no ano passado. Grande parte dele hoje vem de governos, em vez de investidores privados. Algumas pessoas argumentam que, se houvesse na Europa um número suficiente de empresários ambiciosos com ideias brilhantes, o dinheiro viria dos EUA e de outros lugares. Há certa verdade nisso. Mas os investidores que aplicam dinheiro em firmas muito jovens geralmente preferem operar em sua própria língua e cultura, por isso as novatas dependem, principalmente, de apoiadores de seus próprios países. Para o terceiro estágio de financiamento, quando as firmas procuram captar até 20 milhões de euros, aproximadamente, para reforçar o que já parece um sucesso, o dinheiro americano está cada vez mais disponível. Mas, como eles dependem de grandes êxitos para compensar dezenas de fracassos, os fundos americanos ainda têm maior probabilidade de apoiar empresários nos EUA, onde essas coisas costumam acontecer, ou em economias emergentes de alto crescimento. E, de qualquer maneira, a maioria dos empresários europeus fracassou muito antes de chegar à etapa de 20 milhões. Os fundadores de empresas européias acham difícil utilizar as principais armas dos empresários: as opções de ações e participações que tornam as novatas atraentes para os funcionários. A complexidade jurídica de dar ações grátis para os novos contratados é proibitiva, diz um empresário que atualmente tenta atrair alguém do Google, que habitualmente distribui ações. Todo mundo o aconselha a não fazê-lo, ele diz. Isso limita ainda mais a capacidade dos empresários de atrair pessoas  para uma carreira mais arriscada. Todos esses limites deixaram o continente carente de sucessos empresariais que serviriam para inspirar outros. Poucos pensam que trabalhar para  um maluco em uma garagem ofereça alguma probabilidade de se tornar milionário. A opinião pública parisiense está convencida de que, se o pai de Sergey Brin tivesse escolhido a França em vez dos EUA, quando deixou a Rússia, o filho teria se tornado um cientista da computação em uma torre de marfim, em vez de ajudar a fundar o Google. Com probabilidades tão altas contra elas, as centelhas de empreendedorismo vistas em Berlim, Londres, Helsinque e alguns outros lugares provocam uma esperança aparentemente desproporcional. Se os espíritos selvagens necessários podem sobreviver nessas condições, como poderiam florescer se não fossem contidos?

 

Uma Sarah Palin de calças

Ao ESCOLHER O congressista Paul Ryan como seu companheiro de chapa, Mitt Romney transformou radicalmente a dinâmica da corrida presidencial americana. Analistas de todos as matizes concordam que a peleja deixa de ser apenas um referendo sobre a política econômica do governo Obama e passa a ser, principalmente, uma escolha entre duas visões díspares do papel do Estado na sociedade. Presidente da poderosa Comissão de Orçamento da Casa dos Representantes, Ryan notabilizou-se pela elaboração de um plano de austeridade fiscal que, se implantado, transformaria radicalmente dois dos principais serviços de saúde pública dos EUA, o Medicare e o Medicaid. Vista como um passe livre para os conservadores, que jamais esconderam o descontentamento com o histórico moderad  do ex-governador de Massachusetts, a unção de Ryan mobiliza as bases republicanas, mas compromete a oposição na reconquista dos eleitores mais velhos, ausentes da coalizão vitoriosa dos democratas em 2008, agora assustados com a possibilidade de perderem o acesso a um dos poucos serviços públicos festejados pela imensa maioria da população. “Mitt Romney ainda pode vencer em novembro, mas hoje as chances são menores do que há uma semana, por conta da escolha de Ryan”, afirmou, no canal de notícias MSNBC, ojornalista Dan Rather, decano da cobertura das campanhas presidenciais americanas. O jornalista argumenta que em um dos estados mais decisivos em novembro, a Flórida, com seu batalhão de aposentados, caiu muito mal a escolha de Romney. Ryan tem 42 anos, enormes olhos azuis, porte de atleta, herdou uma fortuna da família e tem como marca registrada uma proposta de reforma do sistema de saúde em tudo oposta à aprovada pelos democratas há dois anos. Um dos pilares do “Obamacare” é a obrigatoriedade, excluídos os cidadãos de baixa renda, da aquisição de um plano de saúde privado por todos os contribuintes. O governo estima que o aumento do número de segurados resultará em uma economia de 700 bilhões de dólares em uma década, montante a ser usado para manter o subsídio do Medicare. O programa criado no governo Lyndon Johnson subsidia tratamentos médicos para todos os americanos a partir de 65 anos, além de pessoas com deficiência física. Pelas contas de Washington, quase

50 milhões de americanos se beneficiam do programa. Ryan quer mudar as regras para os americanos de até 54 anos, que passariam a comprar vouchers de planos de saúde privados, desonerando o Estado dos mesmos 700 bilhões de dólares em dez anos proposto por Obama. A conta é a mesma, mas o contribuinte concorda em abdicar do uso de um programa igualitário e de imensa popularidade. Em 2008, no mesmo ano que Obama era eleito presidente, Ryan lançou seu “Mapa para o Futuro da América”, uma proposta de cortes de programas sociais apelidada pelo colunista do Wall Street Journal David Wessel de “política de tratamento de canal”; deixando de lado seu projeto de privatizar a previdência social, o representante (equivalente no Brasil a deputado federal) de Wisconsin delineou, há quatro anos, aquela que seria a cartilha ideológica do Partido Republicano pós-neoconservadores, um plano para acabar com todas as iniciativas sociais do Estado e desprover o governo de uma função cara aos democratas, a de escudo protetor das camadas menos privilegiadas da sociedade. “Para compreender o que será um governo republicano no caso de vitória em novembro, a pessoa a ser entendida não é necessariamente Romney, durante toda a sua vida uma esfinge política. Você tem de procurar entender é Paul Ryan”, escreveu, profético, Ryan Lizza em um perfil de oito páginas publicado na New Yorker uma semana antes do anúncio oficial’ feito em um antigo porta-aviões na Virginia batizado com o nome do estado natal do jovem político. O subtítulo entrega  o mote do longo texto: “De como Paul Ryan capturou o Partido Republicano”. A alegria de comentaristas e articulistas começou no próprio sábado 11.Ryan é um dos políticos mais celebrados pelos influentes editorialistas do Wall Street Journal e, ao contrário de Romney, é próximo de Rupert Murdoch. “Eles agora dizem que Ryan é uma Sarah Palin com conteúdo, capaz de contagiar as bases ao mesmo tempo que tem substância. Isso é o mesmo que dizer que ele é uma bicicleta, mas sem o banco, o selim e as rodas. Só não vê quem não quer: não se trata de uma bicicleta, mas de uma cadeira”, vociferou Jon Stewart em seu Daily Show. O próprio catecismo neo-tatcherista de Ryan, fundado no ataque ao tamanho do Estado ianque, foi destroçado por RacheI Maddow, da MNSBC, em umasérie de programas produzidos a partir do anúncio de Romney: “A mídia o apresenta como o Senhor Republicano, e prefere esse atalho ao de o identificar como um conservador fiscal. Balela. Ele votou a favor de todos os aumentos do déficit público nos governos Clinton e Bush, apoiou as guerras do Iraque e do Afeganistão, defende um aumento no orçamento para a Defesa 15% maior do que o proposto por Obama e defende com unhas e dentes o subsídio dos impostos dos mais ricos, que seguiriam isentos. Ele é conservador fiscal apenas para nós, da classe média”. Segundo pesquisa USA Today /Gallup feita logo após o anúncio na Virgínia, 42% dos entrevistados consideraram a escolha de Romney ruim ou passável, contra 39% de total satisfação. “Neste momento, Ryan é uma toxina para Romney. Ele é considerado até por seus adversários uma pessoa séria e inteligente, mas há duas regras para a escolha de um vice-presidente ignoradas pelo núcleo duro do projeto Romney 2012. Ele não ajuda a vencer em seu estado natal, já que até mesmo em seu distrito eleitoral Clinton e Obama venceram bem em eleições passadas, nem acrescenta votos em âmbito nacional, ao contrário. Neste exato momento, a população percebe que Romney escolheu para vice o homem que quer acabar com o Medicare. Não por acaso Romney viajou, logo após o anúncio, para a Flórida. E foi sozinho”, diz Rather. Sozinho em lowa, outro estado de tez política indefinida, Ryan viu o presidente Obama bater duro no “modelo republicano” de governo. Entre uma e outra cerveja tomada nos bares locais, o presidente, sempre acompanhado da popular primeira- dama, apresentou até um número para o “voucher” idealizado por Ryan: “Enquanto eu quero aumentar o Medicare, os “vouchers” da dupla Romney- Ryan custarão, em média, 6,4 mil dólares por ano aos nossos idosos”. Os republicanos reagiram. Afirmaram que Obama desvia fundos do Medicare para bancar “jovens” em seu Obamacare. Na mesma feira estadual em Des Moines, onde Romney soltou a infame .máxima de que “corporações também são gente”, Ryan enfrentou a pergunta solitária de uma agricultora de Iowa: “Q que você vai fazer com o Medicare? Responda. Responda a pergunta”. A cidadã foi retirada pelos seguranças e o candidato mudou rapidamente de assunto.

 

Quem disse, berenice?

QUANDO você não está bem, sua auto estima tem de ser levantada. E nessa hora, uma maquiagem por 17,90 reais muda a sua expressão.” Com a teoria chamada de “efeito batom”, Artur presidente do Grupo Boticário, explica como a holding tem passado ao largo da crise econômica e repetido um crescimento anual da ordem de 20% desde 2008, a considerar apenas a sua principal marca, O Boticário, franquia que mais faturou no Brasil em 2011. o executivo, sócio de Miguel Krigsner, antigo presidente e hoje chefe do conselho, assumiu o controle da companhia em 2008 com o objetivo de criar o grupo. A meta foi alcançada em 2010, inicialmente com as fábricas e lojas de O Boticário e com a unidade de pesquisa GKDS, voltada para a identificação e o desenvolvimento de oportunidades. Hoje, ao inaugurar as primeiras lojas da rede de maquiagens “quem disse, berenice?”, quarta marca em menos de dois anos, Grynbaum avalia que o resultado não poderia ser mais positivo. “As novas unidades de negócio estão bem encaminhadas e com boa aceitação do público. Já somos a primeira rede de franquia de cosmético do mundo, com 3,7 mil lojas aqui e fora do País. Tem gente que se espanta de sermos uma marca brasileira. Quem disse que não é possível?” O Brasil tem hoje o terceiro maior mercado de perfumaria e cosméticos do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Japão. O crescimento tem atraído grandes empresas estrangeiras, como a canadense M.A.C, há dez anos no País, e a francesa Sephora, que desembarcou em julho no shopping paulistano JK Iguatemi com 15 novas marcas na bagagem. Para Grynbaum, o aumento da concorrência não é problema num mercado em crescimento e a experiência joga a favor das locais. “Conhecemos profundamente a consumidora brasileira. Para o lançamento da nova marca, realizamos uma ampla pesquisa com 250 pessoas e chegamos ao portfólio mais completo existente no Brasil, com cem cores de batom e 18tons de base.” Ao todo, são 500 produtos oferecidos pela nova marca. A intenção com a “quem disse, berenice?” é quebrar a ideia de que as melhores maquiagens são encontradas no exterior. Nas lojas, bancadas com espelhos e assentos, permitem às clientes experimentar os produtos antes da compra, um modelo semelhante ao da Sephora. Consultoras ficam de plantão, caso haja dúvidas. O grupo não divulga o valor investido no lançamento nem quanto a marca deve representar do faturamento. Este é, aliás, um segredo bem guardado. Oúnico dado público refere-se a O Boticário: 5,5 bilhões de reais de vendas em 2011. Na quinta-feira 16,inauguração da loja no Shopping Metrô Tatuapé, na zona leste de São Paulo, a sacola de compras de Elisangela Valvassovi, 30 anos, tinha esmaltes, pincéis e apontador de lápis. Ela gostou do preço e acha que a marca tem condições de competir com as estrangeiras, hoje entre as suas preferidas. “Adoro usar maquiagens e a variedade aqui chama a atenção.” O lançamento da “quem disse, berenice?” começou há cerca de um mês com a criação de perfis em redes sociais, sem ainda identificar o produto. O objetivo era conversar com o público, que, apesar de variado em relação à idade e à renda, converge na defesa de uma maior liberdade da mulher para definir seu padrão de beleza. “As mulheres estavam sentindo necessidade de não se preocupar tanto com o que os outros pensam e de encontrar a sua própria”, diz Alexandre Bouza, diretor da rede sobre os resultados das pesquisas de mercado A marca começará com sete lojas em São Paulo – três em agosto e quatro em outubro – e comércio online a partir de setembro. Apesar de almejar se tornar uma grande rede nacional, uma expansão só é considerada a partir do ano que vem, a depender dos primeiros resultados.

No fim do segundo semestre de 2013 está prevista a conclusão de uma fábrica e de um centro de distribuição na Bahia, um investimento de 355 milhões de reais em fase de acertos. Também estão sendo ampliados a unidade de produção de São José dos Pinhais (PR) e o centro de distribuição de Registro (SP), que atenderão a rede de maquiagens. o Boticário era uma farmácia de manipulação quando foi criado há 35 anos em Curitiba. De lá para cá, a companhia consolidou- se na área de cosméticos e a diversificação dos negócios entrou como forma de continuar a crescer e fazer frente ao aumento da concorrência nacional e internacional. Os primeiros resultados das pesquisas empreendidas pela GKDS apareceram em 2011,com o lançamento da marca Eudora, rede de venda de produtos porta a porta via catálogo, para concorrer no mercado onde estão a Natura e a Avon. Em agosto de 2011,o grupo comprou uma participação minoritária na Scalina, dona das marcas Scala e TriFil. Em fevereiro deste ano, foi criada a Skingen Inteligência Genética, empresa de produtos antissinais feitos sob medida, com a realização de exames pedidos por dermatologistas e a fabricação de produtos prescritos. E finalmente agora a aposta no mercado de maquiagens. A resposta deve ser certa, segundo Olegário Araújo, especialista em varejo da Nielsen. Segundo ele, existe uma demanda reprimida que deve aumentar bastante o mercado brasileiro de higiene e beleza. “O brasileiro está ganhando mais e dando-se o direito de se cuidar mais.” A tendência de abrir as possibilidades de canais de compras, com as lojas, vendas online e porta a porta favorece a empresa. “Notamos que q consumidor hoje não busca só preço.” Segundo ele, os maiores vetores de consumo atualmente são a praticidade, o benefício, a qualidade e a recompensa. “Depois de tanto esforço, chega uma hora que as pessoas querem se premiar.” Prova de que o “efeito batom” não funciona apenas em momento de crise.

 

Desligaram o motor

UMA DAS características mais marcantes da sociedade brasileira, a desigualdade dos rendimentos entre as metrópoles apresenta uma tendência de redução, delineada a partir de 2006, quando quase todas as regiões metropolitanas investigadas pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE passaram a aumentar progressivamente a proporção do rendimento médio dos ocupados em relação à Grande São Paulo. Esse processo de redução da desigualdade se expressa não somente pelo desejado aumento mais expressivo da renda real dos ocupados em algumas metrópoles de menor nível de rendimento médio, como foi o caso exemplar de Salvador, mas também por reduzido e preocupante ritmo de elevação do rendimento em São Paulo. Com um aumento real de mais de 65% do salário mínimo e de cerca de 40% do PIB entre 2003 e 2011,o rendimento médio real dos ocupados nessa região apresentou o pior desempenho. Aumento de apenas 13,8%,quando o conjunto das regiões metropolitanas investigadas pelo IBGE apresentou alta de 22,2%. O resultado decepcionante ajudou a reduzir expressivamente a desigualdade e, portanto, impõe ponderações na comemoração desse processo. Num contexto de inúmeras afirmações, principalmente verbalizadas por empresários, de que o custo do trabalho no Brasil estaria muito elevado, e considerando a expressiva queda dos rendimentos do trabalho entre 1997 e 2003, a situação coloca, no mínimo, a necessidade de uma ampla investigação sobre esses processos e seus determinantes. A situação da Grande São Paulo não elimina, no entanto, a relevância do maior ritmo de elevação do rendimento médio real dos ocupados nas demais regiões metropolitanas, mais intensos no Rio de Janeiro (33,8%), Belo Horizonte (32,1%) e Salvador (30,9%) e, em menor medida, em Porto Alegre (25,5%) e no Recife (21,1%),entre 2003 e 2011.Pois foi com resultado do conjunto dos movimentos metropolitanos que o rendimento médio na região do Rio de Janeiro praticamente alcançou (99,4%) o de São Paulo em 2011, após representar apenas 84,5% dele em 2003, da mesma forma que nas regiões de Belo Horizonte e Porto Alegre passou para o expressivo patamar de 90% do observado na metrópole paulista, que pode rapidamente perder essa posição de liderança que ocupa há décadas. Mais importante ainda foi o desempenho da região metropolitana de Salvador, cujo rendimento médio era um dos menores das regiões investigadas pela PME em 2003, e que passou de 68,6% para 78,8% em relação ao observado em São Paulo, superando o rendimento médio da região do Recife. Também nessa região aumentou a proporção do rendimento médio (62% em junho de 2002) para 65,9% em relação à maior metrópole do Brasil. A retomada do crescimento econômico a partir de 2004 foi decisiva para a viabilização desse processo: contribuiu, por um lado, para um elevado e progressivo ritmo de expansão do emprego e da formalização (com destaque para as regiões Norte e Nordeste), de redução do desemprego, de conquistas de melhores salários nas negociações sindicais. Por outro, promoveu expressiva elevação da arrecadação tributária e das contribuições ao INSS e possibilitou uma situação econômico-financeira mais favorável às empresas, aspectos decisivos para viabilizar não somente a implementação, mas também o êxito da política de valorização do salário mínimo. E, assim como outras, essa política nacional teve um importante papel na redução da desigualdade de rendimentos entre as metrópoles, pois apresenta, em geral, maiores impactos positivos nas regiões com maiores proporções de ocupados com rendimentos em torno do salário mínimo. Além dos impactos relativos menos expressivos do salário mínimo, por sua estrutura de rendimento mais elevado, o rendimento médio na Grande São Paulo foi negativamente afetado pelo baixo ritmo de elevação do rendimento médio real dos empregados do setor público, o menor das regiões metropolitanas consideradas: de apenas 20,2% entre 2003 e 2011, bem abaixo do que o observado em Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Justamente no período em que as demais regiões metropolitanas passaram a reduzir de forma expressiva as diferenças de rendimento em relação a São Paulo, entre 2006 e 2011, o rendimento médio real dos empregados do setor público aumentou apenas 9% na metrópole paulista, enquanto cresceu mais de 20% em todas as demais, alcançando quase 30% em Belo Horizonte e 36% no Rio de Janeiro. Com isso, o rendimento médio dos empregados do setor público, que já era menor na Grande São Paulo do que nas regiões do Rio de Janeiro, Porto Alegre maio de 2003 -, passou também a ser menor do que na região de Salvador. Por fim, cabe-se ressaltar que muito mais complexa é a avaliação dos impactos diferenciados de outros determinantes importantes nesses movimentos diferenciados do rendimento médio dos ocupados nas metrópoles: as negociações sindicais, os impactos diferenciados no rendimento dos trabalhadores por conta própria e, principalmente, o tipo de ocupação gerada e suas relações com as transformações das respectivas estruturas ocupacionais e de rendimentos. E a inquietaçãoaumenta quando esses aspectos são considerados. O que acontece no espaço onde se consolidou a “locomotiva” da economia brasileira? A força dos sindicatos está alcançando os trabalhadores de menores salários e os ocupados nos setores menos organizados? Por que os salários reais dos servidores públicos na região metropolitana de São Paulo aumentaram menos do que nas demais regiões? Os resultados decepcionantes observados estão associados aos impactos da desindustrialização do País, e/ou de estágios mais avançados dos processos de subcontratação, terceirização e precarização do trabalho? Quais os impactos de uma eventual aceleração do processo de desconcentração das atividades mais organizadas e produtivas localizadas na Grande São Paulo, para fora de seus municípios e do estado?

 

O que é que a baiana tem

ALEGREMENTE vestidas com turbantes, largas saias coloridas, camisas brancas lindamente trabalhadas e contrastando com o polido ébano de suas peles. Usavam pesados braceletes de ouro e colares com borlas de ouro, pendendo pelo dorso, e sapatos de cetim branco.” Em 1880, a bela figura das negras baianas repletas de adornos chamou a atenção do viajante inglês Charles J. Lambert, que dessa forma descreveu o que viu. Ele não foi o único a se deixar impressionar pelas mulheres a expor com orgulho sua opulência em ouro e prata. Jean-Baptíste Debret, artista encarregado pela Corte portuguesa de fazer a crônica pictórica da colônia, também se valeu de palavras para registrar suas impressões: ”A negra baiana se reconhece facilmente (…) A riqueza da camisa e a quantidade de joias de ouro são os objetos sobre os quais se expande a sua faceirice.” De grandes proporções, ricas em detalhes como filigranas e efígies, as chamadas joias de crioula representam um capítulo especial da ourivesaria criada como um modo de afirmação da identidade das negras e mulatas nascidas no Brasil. Uma expressão de luxo e riqueza, poder e prestígio que brota como símbolo de resistência numa sociedade escravista. Parte desses adornos ainda pouco conhecidos e de valor histórico inestimável pode ser apreciada na exposição Joias Crioulas, promovida pelo Instituto Victor Brecheret, na Caixa Cultural São Paulo até 23 de setembro. Em seguida, a mostra vai para Curitiba (de 30 de outubro a 23 de dezembro). As 45 peças expostas pertencem ao Museu Carlos Costa Pinto, instituição privada de Salvador dedicada a retratar a Bahia colonial e imperial por meio de adornos, mobiliário, pinturas e esculturas. A coleção de joias de crioula soma 170 itens e é a maior do gênero reunida em museu. “Essas jóias têm design brasileiro com influências árabes e europeias. É uma joalheria de tradição popular cujo ponto forte é um tipo de bola confeitada usada em alguns correntões”, diz a curadora e museóloga Simone Trindade. Trata-se de contas de ouro decoradas com aplicações de filigrana a formar círculos concêntricos. Em colares e pulseiras, as bolas lisas e as confeitadas fazem um belo contraste de relevos. O grande palco desses vistosos adornos eram as situações festivas, em especial as manifestações religiosas católicas, como missas e procissões. “Nessas ocasiões, essas mulheres colocavam o traje de beca: uma saia preta de tafetá ou cetim, tecidos mais nobres, um camisu (um tipo de bata branca) de bordado inglês e um pano-da- -costa (xale feito em tear manual). A ideia é que nesse momento histórico do antigo regime se afirme uma identidade para as negras libertas, uma forma de afirmação de ascensão social”, explica Simone. De acordo com o antropólogo e pesquisador da cultura negra Raul Lody, o uso das joias de crioula se dá em dois momentos. Num primeiro, como forma de ostentação

dos donos de escravos. “Os senhores mostram seu poder enchendo essas mulheres de ouro e prata, em especial a prata, que não havia no Brasil e era considerada tão nobre quanto o ouro. As crioulas eram enfeitadas para mostrar como seu senhor

era rico e poderoso”, pontua o estudioso, autor de Pencas de Balangandãs da Bahia: um Estudo Etnográfico das Joias – Amuletos, Joias de Axé, Fios-de-Contas e outros Adornos do Corpo, A joalheria Afro- Brasileira e Dicionário de Arte Sacra Et Técnicas Afro-Brasileiras. Num segundo momento, em escala menor,as joias passam a ser usadas por crioulaslibertas e ricas. Na qualidade de excelentescozinheiras, lavadeiras e quituteiras essas mulheres juntavam dinheiro para comprar cartas de alforria. “Muitas das que conseguiam a liberdade tinham habilidades, geralmente um trabalho de ganho, como a venda de produtos em bancas e de quitutes em tabuleiros, tradição que vem do Brasil Colônia. Juntam dinheiro e acabam por reproduzir o sistema ao comprar ou alugar escravas e exibir signos de poder como asjoias.” Registros desse comportamento ocorrem principalmente no século XIX, “quando a sociedade já estava mais misturada e organizada”. Representações pictóricas mostram negras descalças, e portanto escravas, a comercializar produtos com negras calçadas, libertas ávidas por mostrar sua condição. Com influência portuguesa e muçulmana (filigrana), as joias de crioula se distinguem sobretudo, pelo tamanho e beleza. Tudo é hiperdimensionado a fim de deixar evidente a riqueza de quem ostenta o ornamento. A pulseira tipo copo é um dos destaques da exposição: imponente, o bracelete envolve boa parte do pulso de quem o usa. Ao centro da peça, uma efígie feminina de perfil, tal qual nos camafeus, cercada por minucioso trabalho em filigrana. Outro modelo que chama a atenção são as pulseiras de placas de ouro, decoradas por cilindros de pedras. Nos braços das crioulas, ocupavam todo o antebraço. No pescoço, vários correntões de bolas lisas e confeitadas ou de elos filigranados, às vezes, adornados por rosetas. Grandes crucifixos pendiam sobre a bata branca com aplicação de renda Richelieu (tradição herdada da França do século XV), abotoaduras de grãos de ouro a dar o acabamento nas mangas. Em cada um dos dedos das mãos reluzia um anel e os brincos eram do tipo argola ou pitanga, cravejados com pedras como ágata e cornalina. O colorido pano-da-costa conferia mais vida ao traje festivo. “O excesso de joias denotava poder. As negras retratadas nos postais eram ricas e poderosas. O ouro é um poder econômico e simbólico”, explica Lody. Na última das três salas da exposição, significativa embora modesta, as vitrines resplandecem em prata. Ali estão os balangandãs a magnetizar o olhar por seu tamanho, variedade, exuberância e misticismo.  Referência onomatopaica ao chacoalhar dos berloques em movimento, é atribuída aos baianos. Volumosas, as pencas chegam a pesar um quilo. Nelas, dentes de animais, figas, contas, cachos de uva. Os elementos pendentes, que podem passar de 50, tornam cada peça única, pois sua combinação é fruto de escolhas pessoais e trajetórias de vida. Na maioria, são amuletos (elementos de proteção) e talismãs (elementos propiciatórios), cada qual com significados mágicos. A figa visa a afastar o mau olhado, as moedas têm a função de atrair riqueza. Romã, cachos de uva e peixes são associados à fartura e fecundidade. Dentes de animais evocam força. As transformações sociais levaram asjoias de crioula a perder significado e cair em desuso. As que sobreviveram contam de forma magnífica parte da história de um tempo perverso em que escravidão e luxo viveram lado a lado.

 

o capricho da verdade

HOUVE UM momento em que o pequeno Uruguai abrigava três Cesar Charlone. O mais velho era ministro de um governo pré-ditatorial. Seu filho era homem de teatro, conhecido diretor, autor e produtor empenhado com a televisão nascente. Por fim, o primogênito deste ainda buscava seu destino como estudante numa escola católica inglesa e fazia da casa da avó um laboratório de fotografia como passatempo. Ao mesmo tempo que via um nome como o seu pichado nos muros em protesto à crescente política de repressão, sacava de uma máquina para registrar os protestos nas ruas. Aos amigos, dizia que queria fazer cinema e ouvia deles ser um hippie. É este terceiro nome Cesar Charlone que o Brasil tem visto nos créditos dos filmes nacionais. Mas a sua formação primeira ocorreu em meio à situação social daqueles anos uruguaios. O hippie tornou-se um dos diretores de fotografia mais requisitados e premiados do País e basta apontar na lista assinaturas como o de Cidade de Deus, trabalho que não é sua maior preferência, para justificar a ascensão. Se não fez cinema de imediato em seu território, tratou de, anos mais tarde, restabelecer a ligação não apenas na fotografia mem certo para relembrar o uruguaio José Artigas, a quem abarca não de forma direta, mas pelo interessante expediente de um retrato do revolucionário pintado por Juan Manuel Blanes, no qual se espelham a lenda e a verdade. Tanto a trajetória na fotografia quanto na direção, em parte determinada pela experiência publicitária, parecem como também na realização. Estreou em 2007 na direção de longas- -metragens com O Banheiro do Papa. Apresenta agora Artigas – La Redota, uma encomenda para uma série espanhola sobre os libertadores latino-americanos em competição no 40° Festival de Cinema de Gramado. Ele era o homem certo para relembrar o uruguaio José Artigas, a quem abarca não de forma direta, mas pelo interessante expediente de um retrato do revolucionário pintado por Juan Manuel Blanes, no qual se espelham a lenda e a verdade. Tanto a trajetória na fotografia quanto na direção, em parte determinada pela experiência publicitária, parecem contudo lhe interessar menos que aquela vinculada a uma produção documental alternativa anônima às grandes plateias. Trata-se de uma vertente agora adormecida e mais ligada a suas raízes e ao pensamento juvenil, para o qual contribuiu um avô materno, arquiteto e crítico de arte incentivador da fotografia, militante do Partido Comunista e fundador da Frente Ampla. A balança familiar por fim pendeu para um lado. “Eu, como muitos outros na minha geração, queria fazer um cinema para mudar o mundo”, diz Charlone, aos 60 anos. Na conversa com Carta Capital, a tônica recaía com frequência em esclarecer que o hoje integrante do time da produtora 02, do amigo e parceiro Fernando Meirelles, desfocou um outro Charlone, o mochileiro curioso e determinado a reverter injustiças pelas lentes. Isso é perceptível nas primeiras experiências quando um frequentador assíduo do bom cinema exibido no Uruguai abandona o curso de Veterinária e chega a São Paulo em 1970, para se afastar do núcleo familiar e buscar aperfeiçoamento na cidade. Foi na Escola de Cinema São Luiz, iniciativa pioneira responsável por formar Ana Carolina e Carlos Reichenbach, que Charlone conheceu um laboratório profissional e ali se deu conta de uma opção de sobrevivência. Fundamental também ter trabalhado com Primo Carbonari e convivido com mestres como Dib Lutfi e Mario Carneiro, que o levariam aos primeiros testes na assistência de direção no Rio de Janeiro. Contribuiu com Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Mas seja por não encontrar ali o cinema engajado que tanto buscava, seja pelo acirramento da ditadura, deu início ao ciclo de viagens que marcam sua formação e embarca para a Europa. Essa talvez seja uma das razões por Charlone ter constado tarde na lista dos diretores de fotografia, nomes de mesma geração como Walter Carvalho e José Roberto Eliezer. Além da estada europeia, na qual conta ter tido em Estocolmo uma inesperada colaboração com Sven Nykvist, o fotógrafo de Ingmar Bergman, embarcou em 1986 para Cuba, onde ajudou a idealizar a Escola de Cinema e Televisão de Santo Antonio de Los Bafios. Ali conheceu um de seus ídolos, o documentarista Santiago Alvarez, que junto com o holandês Joris Ivens lhe servem de referência no registro. O convite vinha ao encontro de sua reconhecida atividade no documentário engajado, tanto naqueles de parceria constante com Renato Tapajós como na iniciativa que é um de .seus maiores orgulhos, a criação da produtora MonteVideo. Dedicada a títulos de baixo orçamento com cunho político e social do período, como o surgimento do sindicalismo no ABC, possibilitou a novatos, como Cao Hamburger, se exercitarem nos primeiros passos do cinema. Outra possível explicação é a circunstância de Charlone estar ligado desde sempre à publicidade, situação que lhe faz passar ainda por incômodos e a conformação do mercado de cinema nacional nos anos 80. São poucos seus trabalhos naqueles anos, a exemplo de OHomem da Capa Preta, de Sergio Rezende. E como vincular o homem de esquerda ao esquema capitalista de apelo Coca-Cola? “Foi o modo que encontrei para pagar as contas e este meu capricho de fazer filmes que podem contribuir para mudar algo por aí”, diz o admirador de Vittorio Storaro e do diretor Tony Scott. “Lembro que fui procurar emprego com comerciais que havia feito na Europa e me davam as costas na hora.” Daí talvez ter encontrado uma parceria perfeita com Meirelles, um dos nomes fundadores da produtora Olhar Eletrônico, e com ele engatar na 02, além de Cidade de Deus, os longas-metragens O

Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Considera o segundo o seu melhor trabalho. “Há maior rigor, um pensamento e evolução das cores que me exigiu uma dedicação constante. E também porque, segundo soube, Hillary Clinton, ao ver o filme, mandou que se pesquisasse melhor o mundo da farmacologia.” Charlone vê uma ditadura das palavras no cinema. Mas questiona o demasiado valor dado ao ofício de fotógrafo, que para ele tem a mesma importância dos demais na engrenagem. “Importa é o que está colocado frente à câmera, esse é o grande valor.” Nunca entendeu a cobrança que se tornou célebre com Cidade de Deus sobre uma dita estetização da miséria. “Apobreza estava lá na nossa frente, foi só mostrá-la, não tem nada a ver com glamourização”, desabafa. “Pensava muito em A Batalha de Argel, do Pontecorvo, ao fazer o filme.” Relembra que no mesmo Festival de Gramado foi protagonista de uma polêmica a respeito de FelizAno Velho, quando se decretou o início da ditadura da fotografia, considerada maneirista. “Não adianta, sempre serei cobrado, eu e outros que também vivem da publicidade.” Da mesma forma, diz sofrer de certa angústia de identidade, cujo lance mais recente é uma negativa da Agência Nacional de Cinema, a Ancine, em lhe fornecer o certificado de coprodução brasileira paraArtigas. Écomo não considerá-lo o profissional que atua há quatro décadas no Brasil. “Há oito anos faço terapia para entender essa minha situação.”

 

Exame – 22-08

o LEILÃO VAI COMEÇAR

o conselho de administração do conglomerado francês  Vivendi passou as últimas semanas discutindo se vende ou não a telefônica brasileira GVT, numa tentativa de recompor suas finanças. Agora, ficou mais claro que a ideia é mesmo passar a GVT adiante. Segundo EXAl\IIE apurou, a Vivendi contratou os bancos de investimento Rothschild e Deutsche Bank para assessorá-la no leilão. A empresa será oferecida aos candidatos óbvios – teles como Oi, TIM, Telefónica e América Móvil – e também a fundos de private equity. O lP Morgan negocia com fundos a criação de um consórcio para fazer uma proposta pela GVT. Cada fundo faria um cheque de, no mínimo, 500 milhões de dólares (a GVT é avaliada em cerca de 10 bilhões de dólares). Em paralelo ao leilão, os bancos vão preparar a empresa para uma possível abertura de capital – um plano B para o caso de as negociações não avançarem. A empresa não comenta.

 

AQUISIÇÃO À VISTA

o banco Pan Americano está negociando a compra da operação brasileira da Ally, mais conhecida no mercado como Banco GM. O banco, hoje controlado pelo governo americano, responde por mais da metade do financiamento de automóveis vendidos na rede da montadora GM no Brasil. Segundo executivos próximos aos bancos, o Pan Americano está fazendo a auditoria nos balanços, e o negócio pode ser concluído nas próximas semanas. Ainda segundo esses executivos, o processo de venda da subsidiária da Ally é aberto a outros interessados. Portanto, é possível que surjam novas propostas. A própria GM anunciou em agosto que pretende comprar as operações da Ally fora dos Estados Unidos .

 

FUNDO RECORDE

O Gávea, fundado por Armínio e Luiz Fraga, vai protocolar na Comissão de Valores Mobiliários o lançamento do maior fundo de crédito da história do país. O fundo terá entre 1,3 bilhão e 1,5 bilhão de reais para financiar empresas médias, hoje dependentes de empréstimos de curto prazo de bancos. O objetivo do Gávea é fazer empréstimos de prazo mais longo, a juros ménores, mas com garantias mais robustas dadas pelas empresas. O fundo será administrado por José Berenguer, ex-Santander.

 

CAOS AEREO DE BILIONARIO

A operação Pouso Forcado, que aprendeu jatinhos, considerado em situação irregular, esta complicando a vida de muita gente. Uma bilionária brasileira esta usando certa criatividade para se deslocar ate a Europa. Seu jato estava em Miami no dia da operação da Policia Federal: como não pode pousar no Brasil ( o risco e ser capturado pela policia), o empresário vai ate o Caribe num aviao menor. O jato titular vai de Miami ate la para encontra o dono. Feita a conexão, ele segue viagem para a Europa. E o caos aéreo.

 

O AVANÇO DAS BOLSAS GRIMGAS

As duas bolsas eletrônicas americanas que querem fincar pé no Brasil estão avançando em seu projeto de competir com a BM&F Bovespa. A Bats, que terá como sócia a gestora brasileira Claritas, definiu que o grupo indiano Tata fará a estrutura para o serviço de liquidação de operações de ações – o Tata já fez esse serviço para as bolsas de Dubai e Nova Zelândia. Bats e Claritas devem investir cerca de 100 milhões de reais para tirar a bolsa do papel. Já a Direct- Edge acertou a vinda do executivo que comandará sua operação brasileira: o carioca Alan Gandelman, que deixou a presidência da corretora britânica Icap no Brasil no início de agosto. As bolsas querem inaugurar suas operações no país em 2014. A bolsa americana Nyse também pretende entrar no Brasil

 

COMPRA DIFíCIL

o grupo Hermes voltou a procurar interessados na aquisição da Comprafacil. com, terceiro maior site de comércio eletrônico do país. Entre os potenciais interessados estão B2W, Walmart, Pão de Açúcar e fundos de private equity. O mandato de venda é do banco JP Morgano  A empresa foi oferecida pela primeira vez há um ano, mas as negociações não avançaram. Segundo executivos que tiveram acesso aos números, a rede vem crescendo de forma acelerada. mas se endividou demais no caminho. A Comprafacil.com faturou 1,7 bilhão de reais em 2011, quatro vezes mais que em 2008. Procurada, a empresa informou que não está à venda, mas “pode reavaliar a situação no futuro”.

 

MENOS FAMILIA

Em plena preparação para a abertura de capital, o grupo Multi, dono da rede de idiomas Wizard, decidiu reformular sua cúpula. O atual presidente do grupo, Lincoln Martins, deixara o cargo. Ele e filho do fundador da Multi, O empresário Carlos Martins. Desde 2010 a empresa tem como sócio o fundo Kinea, que comprou 15% das ações por 200 milhões de reais. O objetivo dos acionistas e contratar um presidente com experiência no mercado de capitais. O processo de busca esta em seu inicio e o novo presidente só deve assumir a função em 2013.

 

NEGOCIO FECHADO

o fundo de private equity americano Car1ylesegue demonstrando apetite para aquisições no mercado brasileiro. Enquanto finaliza a compra da varejista Tok&Stok, o fundo, presidido pelo executivo Fernando Borges, fez seu primeiro investimento minoritário numa empresa local. O alvo foi o grupo Orguel, que fabrica e aluga equipamentos destinados à construção civil, mineração e indústria. O Carlyle gastou cerca de 200 milhões de reais para adquirir uma fatia de 24% no capital da Orguel. No Brasil, o fundo já é dono das redes de lojas de brinquedos Ri Happye PB Kids, da operadora de turismo CVC e da administradora de planos de saúde Qualicorp. O grupo Orguel foi fundado na década de 60 pelos irmãos Fábio Guerra Lages e Francisco de Assis Guerra Lages e tem, hoje, dez subsidiárias.

 

ÀS LOJAS, CIDADAOS

A freada na economia e a valorização de8% no dólar em 2012 não estão segurando o ímpeto gastador do nosso turista. De janeiro a junho, os gastos de viajantes brasileiros nos Estados Unidos cresceram 12% em relação ao mesmo período do ano passado. Os ingleses, por exemplo, gastaram apenas 2% a mais. Os números são de um levantamento da bandeira de cartão de crédito Visa obtido com exclusividade por. De acordo com o estudo, o turista brasileiro é o segundo que mais gasta nos Estados Unidos, atrás apenas do canadense. Os turistas estrangeiros também vêm gastando mais no Brasil. Dados do levantamento mostram que o crescimento foi de 12% no ano passado.

 

SÕ DA MÉXICO MESMO?

Depois da perda da medalha de ouro no futebol  para o México na Olimpíada de Londres, o time do Brasil se consagrou como freguês dos mexicanos. Foi nossa quinta derrota em final de campeonato contra eles. A rivalidade nos gramados tem correspondência na economia. Recentemente, o banco japonês Nomura apostou que, em dez anos, o México voltará a ser a maior economia da América Latina, posto perdido para o Brasil em 2005. Sem chegar a tanto, o jornal Financiai Times questionou se “o México é o novo Brasil, e o Brasil o antigo México”, sobre uma suposta passagem do bastão na preferência dos investidores internacionais. O comentário refletiu a alta da bolsa de valores mexicana em 2012 – ela acumulava 16%de valorização até 9 de agosto, enquanto a bolsa de São Paulo anotava queda de 4%. Outra comparação: enquanto as exportações  do México para os Estados Unidos crescem, o Brasil vê suas vendas perder ritmo com o freio no crescimento da China. A boa vontade com o México é tanta que já há quem esnobe o Bric, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, e celebre o brilho do Mist, acrônimo em inglês do grupo formado por México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia. Faz sentido?

 

A MANOBRA É NO OLHÔMEtRO  

O porto de Santos é o mais importante da América Latina. Neste ano, receberá 5500 navios. Lá, como em todos os demais 37 portos espalhados pelos 8500 quilômetros da costa brasileira, as embarcações manobram na base do olhômetro: 350 profissionais, os chamados práticos ou manobristas de navio, comum rádio transmissor em punho, dizem quando o navio deve avançar, parar, manobrar. Desde 1997, as normas internacionais de tráfego marítimo recomendam o uso de sistemas eletrônicos para essas operações de navios. O Brasil, juntamente com os países africanos, ainda não instalou o seu. A falta do sistema impede o trânsito à noite e que se navegue em condições adversas de tempo. Empresas calculam que o prejuízo para toda a cadeia chegue a 1bilhão de reais por ano – o suficiente para a construção de dois novos terminais. Na Europa, o sistema permite que os portos funcionem 24 horas. A Secretaria dos Portos até aprovou um modelo nacional êm 2010, mas ainda não licitou o equipamento.

 

O NOVO MAPA DO CONSUMO

NOA ANOS 60, O AMERICANO MORAIS ASlMOW, professor de engenharia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, acreditava que a indústria seria capaz de levar o desenvolvimento para as áreas mais remotas do planeta. oi m base nessa crença que, em 1961,Asimow liderou uma expedição ao s o brasileiro. Eram os tempos da Guerra Fria, Fidel Castro acabara de se ar com o bloco soviético e os americanos, sob a liderança do presidente John F. Kennedy, queriam promover a democracia e o empreendedorismo no continente americano. Asimow e uma turma de estudantes americanos e brasileiros desembarcaram em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, com planos de lançar as sementes para a construção de pequenas indústrias de moagem de milho, de produção de farinha de mandioca e de cimento. Em alguns poucos anos, a região de fato ganhou um exemplo de cada uma dessas indústrias. Até uma fábrica de rádios e de motores foi instalada na cidade, então com 68 000 habitantes. Os empreendimentos, porém, sobreviveram apenas enquanto houve dinheiro americano. Quando a verba minguou, no fim da década de 60, as indústrias foram fechando uma a uma. Foi uma lição prática de que o desenvolvimento não se cria em laboratório – e que não há ajuda governamental capaz de induzir a economia se faltarem condições mínimas para que ela floresça. Curiosamente, Juazeiro do Norte é hoje palco de uma transformação ainda mais radical do que a sonhada pelo professor Asimow, morto em 1981. Com uma população de 250000habitantes e outras quase 300000 pessoas que moram nas cidades do entorno atualmente, Juazeiro virou um grande polo varejista e encontra-se em plena ebulição. Uma das evidências  desse novo tempo está ligada à experiência dos anos 60. Em um dos prédios que hospedaram uma antiga fábrica do projeto de Asimow foi instalada no ano passado uma unidade do Hiper Bompreço, rede de supermercados pertencente ao grupo americano Walmart. A loja foi montada mirando no potencial de consumo da cidade, hoje em 570 milhões de reais por ano. Estima-se que esse valor quase quadruplicará até o fim da década. Com base numa pesquisa exclusiva da consultoria americana McKinsey, complementada por dados da empresa de geomarketing Escopo, EXAME traçou o mapa do consumo no Brasil em 2020 – e ele deixa claro que o exemplo de Juazeiro do Norte é tudo menos um caso isolado. Será replicado em todo o pais. No intervalo de uma década, o mercado consumidor brasileiro irá quase dobrar de tamanho: de 2,2 trilhões para 3,5 trilhões de reais. O valor abarca todos os gastos das famílias, que vão de moradia e escola ao carrinho do supermercado. Desse total, a McKinsey analisou o comportamento das 45 principais categorias de produtos consumidos no país, que incluem cosméticos. Comida congelada e vestuário e deverão movimentar 1,3 trilhão de reais no fim da década (veja quadro). Já a Escopo projetou o consumo de itens como carros, eletrodomésticos e passagens aéreas. Somadas, as 55 categorias representarão um mercado de quase 1,8trilhão de reais em 2020, ante 800 bilhões de hoje . . Algumas projeções dão a noção do salto à frente. Até o fim desta década, os brasileiros deverão consumir tanto macarrão quanto os italianos. Devemos ter o terceiro maior mercado de carros do mundo. O consumo de cerveja, que era metade do alemão em 2005, deverá ser três vezes maior. Nos próximos oito anos, o valor das vendas de produtos para cabelo apenas na cidade de São Paulo vai crescer o dobro do que na França. O consumo no país deverá ganhar outra dimensão, chegando a 65% de um PIB de 5 trilhões de reais. “Do ponto de vista econômico, é possível que o consumo de bens duráveis acabe funcionando como investimento no Brasil”, diz o economista Edward Prescott, vencedor do prêmio Nobel em 2004. Para ele, a aquisição de bens como computadores e eletrodomésticos pode tornar uma família mais produtiva, capaz de gerar mais riquezas. Nos últimos anos, o consumo já tem sido o grande motor da economia. Abastecidos com mais crédito e mais renda, os brasileiros conseguiram o improvável: mantiveram a atividade econômica em alta até mesmo durante a crise de 2008, quando o mundo mergulhava numa das mais graves recessões dos últimos 100 anos. A fórmula, porém, começa a dar sinais de esgotamento. As dívidas já correspondem a 45% da renda anual dos brasileiros. Balhadores está empenhado com o pagamento de juros e amortizações. A inadimplência subiu e o ânimo do consumidor esfriou. É um sinal de que o consumo brasileiro teria batido no teto? Sim e não. O sim vale para parte do varejo que depende do crédito. Uma análise da consultoria LCA, de São Paulo, mostra que as vendas desses setores no primeiro trimestre estão se retraindo – mesmo com a explosão de vendas de carros em julho, uma resposta à redução de impostos concedida pelo governo em maio. Já os segmentos ligados à renda, como compras nos supermercados, continuam bem. E esse é um efeito que deve perdurar. Segundo a consultoria paulistana Tendências, a renda  deverá continuar se expandindo nos próximos cinco anos a uma taxa perto de 4% ao ano. Mantida essa trajetória, o consumo no Brasil está no limiar de uma mudança qualitativa. Estudiosos dizem que, quando o PIB per capita deum país entra numa faixa que vai de 12 000 a 17000 dólares (hoje no Brasil está perto de 11000 dólares), há saltos no consumo. “Acontece uma verdadeira explosão de compras, com inúmeras novas categorias de bens incorporadas  ao orçamento doméstico”, diz Fernando Fernandez, presidente da empresa de bens de consumo Unilever no Brasil. Isso ocorreu na Espanha e em Portugal, países em que o poder de compra da população dobrou entre os anos 90 e 2000. Essa é a boa notícia para os grandes grupos varejistas instalados no Brasil. A parte menos agradável é que essas mesmas empresas serão forçadas a sair da zona de conforto. Se quiserem vencer, serão forçadas a explorar mercados fora das capitais e das regiões Sul e Sudeste.. Isso porque a dinâmica do consumo está passando por uma grande transformação. Com base em cruzamentos de dados de renda, de população e de informações de 45 categorias de produtos, a McKinsey identificou o comportamento de consumo das cidades brasileiras com mais de 100000 habitantes. Já a Escopo analisou o orçamento-das famílias das 27 regiões metropolitanas bra- sileiras e projetou o desempenho de outras dez categorias de produtos. Juntos, os dois estudos mostram que o peso das regiões Norte e Nordeste está aumentando e deve continuar nessa toada – estima-se que a participação das duas regiões no consumo nacional saia dos atuais 24% para 28% até o fim da década “Entender o potencial de diferentes pontos do país é fundamental para se prepanu-para.a produção, a distribuição e até o atendimento de clientes”, diz Geraldo Ferreira, diretor da Escopo. São nordestinos os seis estados com maior potencial de crescimento até 2020 – Pernambuco, Alagoas, Piauí, Paraíba, Maranhão e Ceará. RUMO AO INTERIOR As pesquisas reforçam.a ídeía de que o consumo está se deslocando em direção às regiões metropolitanas e ao interior. Hoje, 36% do total está concentrado nas capitais, que se estabeleceram como os centros de consumo por excelência. Levando-se em conta as projeções feitas pela McKinsey, esse percentual deve cair para 32%. Dos 26 estados brasileiros, 13deverão registrar uma taxa de crescimento maior nas cidades interioranas do que nas respectivas capitais. Em lugares como Pernambuco, Bahia e Ceará, em 2020 o interior irá responder Pelo menos metade do consumo. E mais: algumas cidades no interior deverão se destacar com recordes nacionais de crescimento de vendas. Juazeiro do Norte, por exemplo, deve se tomar uma das líderes em vendas de massas. Já Caruaru, em Pernambuco, deverá ter  um consumo per capita de cerveja em 2020 maior do que a média alemã atual. Essa desconcentração das vendas,já em curso, tem colocado milhões de brasileiros no mapa do varejo – algo esperado de um país emergente que cresce e desejável pelo seu caráter inclusivo. ”As empresas vencedoras da próxima década serão aquelas que conseguirem identificar, cidade a cidade, de onde virá o crescimento”, diz Fábio Stul, diretor da consultoria McKinsey. O que toma a atual década delicada para as grandes redes varejistas é a certeza de parte dos especialistas de que  se trata do período em que as grandes marcas se consolidarão – ou ficarão para trás. Historicamente, quem desbrava um mercado pouco explorado tem maior chance de ser recompensado no futuro. Na Inglaterra, a rede de supermercados Tesco lidera o mercado inglês há quase três décadas, fruto de uma forte expansão da marca nos anos 50 e 60.Éisso que o Walmart tem tentado fazer na China ao abrir lojas em cidades consideradas médias para o padrão chinês, como Loudi e Wuhu (ambas com quase 4 milhões de habitantes). “As empresas que se estabelecerem líderes no Brasil até 2020 deverão se perpetuar nessa posição nas décadas seguintes”, diz Aldo Mussachio, professor da Harvard Business School. A corrida pela liderança tem uma justificativa demográfica. Estima tivas apontam que, em 2022, o país estará experimentando o auge do chamado bônus demográfico, quando, de cada dez pessoas, seis estarão no mercado de trabalho. Apartir dai, a relação entre os economicamente ativos e os inativos (basicamente. crianças e idosos) tende a se estreitar. “Depois disso, apenas com aumentos reais de produtividade será possível expandir a renda e manter os altos níveis de consumo na economia brasileira”, diz Rogério Hirose coordenador do estudo da McKinsey. Ou seja, nos próximos anos o consumo no Brasil será favorecido por fatores únicos e que não se repetem.  “Assim como ocorre nos países ricos, a renda no Brasil passará a acompanhar o crescimento econômico”, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, da Tendências, Parte dos varejistas já acordou para esse fenômeno. “Até há pouco tempo  apenas cidades com pelo menos 500000 habitantes estavam no nosso foco. Agora, passamos a analisar o potencial de municípios com no mínimo 150000 habitantes”, diz Hugo Bethlem, vice-presidente do Grupo Pão de Açúcar. Alguns executivos de grandes redes do varejo se transformaram em peregrinos do interior do BrasiL “Há 400 cidades nas quais ainda não temos loja, mas estão sob observação para identificarmos a hora certa de entrar”, diz Ricardo Ribeiro, diretor de expansão da rede de vestuário Marisa, cujo horizonte de análise vai até 2017. A velocidade do crescimento no interior tem sido tamanha que as cidades que chamam a atenção hoje mal eram notadas três anos atrás. “Em 2009, analisamos a viabilidade de Parauapebas, no Pará, e concluímos que ainda não era a hora de abrir uma loja por lá”, lembra Ribeiro. A situação mudou rapidamente. Graças à riqueza gerada pela mineração, Parauapebas entrou na rota da Marisa em 2011,com a inauguração de uma loja no primeiro shopping da cidade. Um tiro certeiro: as vendas de roupas e acessórios em Parauapebas devem crescer 20% ao ano até 2020. As regiões metropolitanas já são as cidades onde ocorre o maior crescimento populacional do pais – que se traduz em maior potencial de consumo. “O aumento dos preços dos imóveis e a piora do trânsito têm feito com que muitas famílias deixem as capitais por cidades próximas”, diz o pesquisador Miguel Matteo, diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Entre os que optam por sair das regiões centrais dos grandes aglomerados, há consumidores de todas as classes sociais. Em estados como São Paulo, Minas Gerais e Goiás, o consumo irá crescer mais fortemente nos municípios que circundam as capitais. Tome-se o exemplo de Aparecida de Goiânia, localizada na região metropolitana da capital goiana. O enorme salto de sua população, que passou de 336000 para 455000 pessoas nos últimos dez anos, ajuda a explicar por que grandes empresas, como Pepsico e Hypermarcas, estão cada vez mais interessadas em ter presença mais firme no Centro-Oeste em geral- e em Aparecida de Goiânia em particular. A ascensão dos últimos anos deu margem a uma dúvida: Aparecida de Goiânia cresce de forma acelerada porque. tem empresas ou tem empresas porque cresce de forma acelerada? Ninguém na cidade parece preocupado em encontrar uma resposta. O município continua atraindo ambos – empresas e trabalhadores. Desde 2000, Aparecida de Goiânia ganhou dois novos distritos industriais – agora são quatro centros do gênero. todos localizados às margens da BR-153, que corta Goiás de norte a sul. A vantagem logística é o trunfo da cidade. “A unidade de Aparecida nos permite abastecer o Centro-Oeste e o norte e o oeste de São Paulo”, diz Gilson Rigotto, diretor na cidade da fabricante de móveis gaúcha Bertolini. “E as vendas aqui têm crescido com força” aqui têm crescido com força” Com tantas oportunidades espalhadas por todos os cantos do Brasil, fica a questão: a indústria e o varejo serão capazes de dar conta de tamanho crescimento do consumo? Afinal, setores como o de alimentos ou o de higíene e limpeza, que devem se expandir em média 8% ao ano, demandariam 13empresas do tamanho da Brasil Foods ou sete do porte da Unilever. Hoje, o descasamento entre a oferta e a demanda dos consumidores tem sido resolvido pela via da importação. Em julho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que o varejo teve um crescimento acumulado de 7% nos últimos 12 meses – enquanto a produção industrial encolheu quase 2%. Ou seja,  haveria espaço para a indústria nacional assumir parte maior do consumo. Essa oportunidade, porém, representa enormes desafios para as empresas. Dado o estado da infraestrutura brasileira, não é crível (nem desejável do ponto de vista da sustentabilidade) colocar três vezes mais caminhões rodando pelo país. Com base nisso, algumas empresas estão revendo suas linhas de produtos e estruturas de logística. Na Unilever, uma das apostas é a popularização do sabão líquido concentrado. Uma embalagem com 315 mililitros de Omo líquido rende o equivalente a 1 quilo do mesmo detergente na versão em pó. Se todos os consumidores da marca migrassem para a versão líquida, haveria uma redução equivalente a 43000 caminhões na rua por ano. Nenhum economista sério encara o consumo como um fim em si mesmo. Sem investimentos, sem avanços naárea da educação e sem inovação nos setores mais importantes da economia, o aumento da renda não se sustenta – e os períodos de forte expansão do consumo viram voos de galinha. Há quem encontre no atual momento da economia brasileira similaridades com a explosão do mercado consumidor americano a partir dos anos 50. Naquela época, o PIB per capita nos Estados Unidos girava em tomo de 13000 dólares em valores de hoje. No Brasil dos últimos anos, milhões de pessoas tiveram acessopela primeira vez a bens que antes eram inalcançáveis – sejam eles o diploma universitário ou a TV de 40 polegadas. Isso tudo tem criado uma sensação de prosperidade no país, apesar da recente desaceleração da economia que jogou um balde de água fria no ímpeto dos brasileiros de contrair novas dividas para gastar mais. O consumo americano acabou durando várias décadas graças ao aumento dos investimentos e da produtividade – tendo como base a alta escolaridade de sua população e seu poder de inovar. No caso brasileiro, o prazo de validade da atual expansão do comércio ainda é uma questão em aberto. O país tem imensos desafios pela frente. Um deles é o baixo índice de poupança – fator fundamental para o crescimento de longo prazo de um pais. Hoje, a poupança privada brasileira gira em tomo de 5% do PIB, pouco se comparada à dos chineses, equivalente a20% do PIB. Outro obstáculo é a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, que equivale a um quinto da dos americanos SINAIS DE um PAis MAIS MODErnOEmbora o caminho para manter a expansão do varejo seja longo, há vários sinais de que um Brasil mais moderno começa a emergir. Por décadas, a principal atividade econômica do município de Juazeiro do Norte foi o turismo religioso, alimentado pelos cerca de 2 milhões de romeiros que visitam anualmente a terra de Padre Cícero. Antes um polo de comércio popular, a cidade agora ostenta 17concessionárias de carros (metade nem existia ali em 2007) e um dos maiores shopping centers do interior do Nordeste. De acordo de Fortaleza, Marcelo Santiago é um deles. Foi atraído para Juazeiro do Norte para coordenar o curso de engenharia de materiais. Mesmo morando há pouco tempo na cidade, Santiago, a esposa, Rita, e os dois filhos, Mateus e Raíssa, já conseguiram identificar o ritmo das mudanças do lugar. “Todo dia abre uma loja ou um restaurante novo”, diz Santiago. A situação para a família só não é perfeita porque os preços dos imóveis em Juazeiro do Norte dispararam nos últimos tempos, o que acabou atrasando um pouco o sonho da aquisição da casa própria. O caso dos Santiago e da cidade cearenseé um entre muitos outros em todos os cantos do país. Longe dos holofotes, centenas de municípios brasileiros estão vivendo silenciosamente um novo ciclo de prosperidade que tem como combustível uma mistura de investimentos, empregos, educação e – sim – um aumento fora do comum do consumo. A transição que está em curso no com o IBGE, em 2000, 44% da população economicamente ativa estava sem renda em Juazeiro do Norte. Em 2010, essa taxa já tinha caído para 34%. Em 2011, o município foi o segundo que mais criou empregos no interior do Nordeste – boa parte deles surgiu na construção civil. Nos últimos anos, Juazeiro do Norte também viu a expansão de vagas de alta renda Inaugurado em 2010, um hospital regional trouxe para a cidade centenas de profissionais da área de saúde. Uma leva de faculdades, tanto públicas como privadas, foi instalada nos últimos anos para atender à demanda da região. Entre elas, veio o campus da Universidade Federal do Ceará, com 11 cursos e professores que chegam a receber salários na faixa de 7000 reais. Natural Brasil pode ser vista nas imagens noturnas feitas por satélite. Hoje elas mostram uma faixa de luz quase contínua no litoral, com pontos mais ou menos isolados fora dela No futuro próximo, serão agregadas centenas de novas fontes de luz por todo o interior do país – com mais ênfase na Região Nordeste. Aos céticos de plantão, um lembrete: há dez anos, muitas empresas demoraram a perceber que o país estava entrando numa fase de crescimento mais elevado e permitiram o avanço de concorrentes locais e de toneladas de produtos importados. Hoje o país é o oitavo maior mercado consumidor do mundo. A previsão agora é que, até 2020, o Brasil deverá ultrapassar França, Inglaterra e Itália e chegar ao quinto posto. Alguém aí está disposto a pagar para ver?

 

UMA AGENDA DO BEM

ANTES MESMO DE SER ANUNCIADO, o conjunto de medidas que integra a terceira fase do plano Brasil Maior – programa lançado em 2011 para dar mais competitividade à indústria – foi saudado como o passo mais firme do governo da presidente Dilma Rousseff contra os gargalos que travam nosso crescimento. Energia, logística e desoneração da folha de pagamentos são as três frentes escolhidas para a batalha. Até o fechamento desta edição, no dia 13, o governo ainda não havia acertado os detalhes e a dimensão das medidas. Mas as linhas gerais mais prováveis sugeriam a adoção de uma verdadeira “agenda do bem” por parte de Dilma. A principal diferença em relação aos pacotes anteriores, todos fracassados na tentativa de estimular o crescimento do pais, é que não se trata mais de prestar socorro a um punhado de setores eleitos pelo governo. O caso da indústria automobilística é emblemático – foram 17 medidas de apoio desde a crise de 2008. Agora, o que se pretende é atacar problemas que sufocam todo o conjunto da economia brasileira. A energia elétrica, por exemplo, virou um enorme enrosco para a indústria do pais, que hoje tem uma das tarifas mais caras do mundo. Uma redução nesse custo beneficia todas as empresas industriais – e, por tabela, também os consumidores. Da mesma forma, o péssimo estado de nossas rodovias, ferrovias, aeroportos e portos representa um dos fatores mais decisivos de perda de competitividade. O que se quer é repassar à iniciativa privada a gestão de uma parcela expressiva da infraestrutura logística do pais. Nesse caso, a medida é especialmente bem-vinda, dada a imensa resistência do PT à ideia de prívatização, Não por coincidência, as concessões ao setor privado praticamente pararam com a chegada do partido ao poder. Somente no final do governo Lula houve uma modestíssima rodada de concessões de estradas, hoje vista como malsucedida no objetivo de melhorar a qualidade. Já na gestão  Dilma,a recente privatização de três aeroportos também gerou polêmica. Espera-seque, com a experiência, seja Possível avançar em soluções mais eficazes para os usuários. Nas páginas a seguir, três exemplos concretos evidenciam a importância da nova abordagem. Infraestrutura precária,energia cara e excesso de tributos estão minando a saúde de milhares d eempresas do país, desestimulando os investimentos e dificultando a retomada do crescimento. O Brasil ainda tem, é verdade, uma infinidade de problemas,da educação sofrível à poluição das cidades. Mas, dessa vez, o governo acertou na escolha dos inimigos a combater. E isso não é pouco. ESTRADA VITAL –MORTAL A BR-Q40, ligação de Brasília ao Rio de Janeiro, foi a primeira rodovia do país a ser asfaltada, em 1931,quando ia apenas do Rio a Minas Gerais. Com o tempo, ela se tornou uma das principais artérias da economia de Minas. É usada como escoadouro de milho, gado e minério – em Paracatu, perto da divisa com Goiás, fica a maior mina de ouro do país. Na área central do estado, 20 milhões de toneladas de minério de ferro passam por ano pela rodovia para servir a companhias como Valee CSN e também a produtores de ferro-gusa – matéria-prima para a produção de aço – instalados em cidadescomo Divinópolis, Sete Lagoas e Betim. Esse é o atestado da relevância da rodovia. As evidências de seus problemas estão no asfalto. EXAME percorreu 250 quilômetros e viu emvários pontos as deformações da pista, as rachaduras do pavimento causadas pelo trânsito de caminhões pesados e a sinalização apagada. As consequências são dramáticas. No ano passado, apenas em um trecho de 21 quilômetros que passa pela cidade de Itabirito. no coração da zona mineral, houve 13 mortes em acidentes. A taxa de uma pessoa morta por ano a cada 1600 metros é superior até à de Santa Catarina, que tem, proporcionalmente, as estradas mais violentas do país. Em 2006,o governo mineiro propôs ao federal o plano de assumir as BRs que. passam pelo estado para, posteriormente, concedê-las à iniciativa privada. Oplano foi rejeitado. Ele poderia ter mudado esse quadro há tempos. Segundo a Confederação Nacional dos Transportes, que analisou 77000 quilômetros de estradas sob gestão pública, apenas 34% estão em estado bom ou ótimo. Nos 15000 quilômetros administrados por operadoras privadas, o índice é de 87%.A concessão à iniciativa privada poderia também ter tornado a rodovia mais segura. De 2005 a 2009, o número de acidentes caiu 10%nas estradas privatizadas, enquanto nas estradas públicas cresceu 12%,de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres. Por isso é tão importante que o governo enxergue o papel da iniciativa privada. A concessão, que resolveu os problemas dos 15000 quilômetros já transferidos a empresas, poderia ter tornado a BR-040 mais segura. E talvez já tivesse feito Itabirito rebatizar o trecho da rodovia que passa pela cidade. É lá que fica o Viaduto das Almas. 2 ATRACAO PELO VIZINHO  A empresa química Sicbras é uma produtora de carbeto de silício – material de grande resistência utilizado pela indústria metalúrgica. Com seis anos de vida e 75 funcionários, tem hoje fábrica em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. A companhia é parte do grupo Granha Ligas, dono de outras duas unidades em Minas Gerais para a produção de ligas destinadas ao setor siderúrgico. Em maio, a Sicbras selou acordo com a Administração Nacional de Eletricidade – a estatal que opera a distribuição de energia elétrica no Paraguai – para construir uma fábrica lá. O que uma empresa instalada na Bahia e com raízes em Minas Gerais foi, de repente, fazer no Paraguai? “Aquestão é a energia”, diz Fernando Granha, presidente da Sicbras. Acontrapartida pelo investimento é a garantia de ser abastecida por energia barata – o valor da tarifa é um quarto do que é pago no Brasil- até 2023, quando o contrato será revisto. A lógica é simples: a Sicbras atua num setor que tem na energia elétrica um insumo-chave, recebeu uma oferta de desconto e decidiu aceitá-la Foi assim que a empresa levou para o Paraguai um investimento de 20 milhões de dólares, que pode gerar até 150 empregos. A declaração do empresário é lacônica, mas a decisão da Sicbras é um atestado loquaz do mal causado pelo alto custo da energia: investimentos deixam de ser feitos,empregos deixam de ser criados, riqueza deixa de ser gerada no país. A indústria brasileira paga uma das tarifas de energia maís altas do mundo. Aqui, o megawatt-hora custa 329 reaís. O valor está bem acima do 9ue se paga nos outros países do Bric: India (188 reais), China (142 reais) e Rússia (91 reais). Encargos e impostos cobrados pelo governo brasileiro correspondem a 49% da fatura. Mas não é só a gula do Fisco que encarece nossa conta de luz. “Ageração de energia no Brasil é muito cara”, diz Eduardo Gouvêa Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Ainda na comparação com o Paraguai, observa-se que temos um custo que é praticamente o dobro do vizinho. Uma opção de barateamento seria fazer novos leilões de concessão em vez de renegociar os contratos de grandes geradoras que começam a vencer em 2015. A decisão a esse respeito era uma das que se esperavam da presidente Dilma Rousseff durante a montagem do pacote de bondades, assim como o tamanho da renúncia de tributos e encargos que o governo aceitaria fazer para ajudar a diminuir o custo da energia. A ideia é que novos leilões sejam capazes de atrair uma competição, forçando os preços para baixo. Já a renovação dos contratos atuais dificilmente produziria o mesmo efeito. Nas contas da Firjan, a energia teria de cair pelo menos 35% para devolver nossa competitividade nesse front. “Mas. com ou sem renovação, o que interessa é que o preço caia”, afirma Gouvêa Vieira. CORTA DE UM LADO, AUMENTA DE OUTRO Para as empresas, toda desoneração de tributos é boa, certo? Embora a resposta  pareça óbvia, no Brasil o melhor a responder é: depende. O que se tem visto aqui é que o governo, apertado pelo alto custo da máquina pública, quando corta imposto de um lado, aumenta de outro – e, no final, a conta para as empresas pode ficar pior do que era antes. Desde lQ de agosto, empresas de 11 setores estão recolhendo menos imposto para o Instituto Nacional do Seguro Social. Segmentos como autopeças, componentes elétricos e hotéis agora pagam menos encargos sobre a folha de pagamentos – assim como os setores de calçados, têxteis, móveis e tecnologia da informação, beneficiados pela medida desde o início do ano. Agora, em vez de um recolhimento de 20% sobre a folha de pagamentos para a Previdência, as empresas desses setores calculam o valor a ser recolhido como uma fatia de 1% a 2% do faturamento mensal. Foi uma troca na base de cálculo do imposto: em vez de incidir sobre a mão de obra no início do processo produtivo, ela passou a ser considerada no final de todo o processo. E foi aí que uma medida que parecia uma benesse infalível transformou-se repentinamente em um tiro pela culatra. A catarinense Specto, fabricante de equipamentos eletrônicos de controle de acesso, tem 40 funcionários e compra parte dos componentes de outras empresas. Com faturamento anual de 10 milhões de reais, a companhia passou a pagar, em média, 44% mais de imposto com a mudança da base de cálculo. “Nossa competitividade foi reduzida”, diz seu presidente, Leônidas Vieira Júnior. Eis a lógica: para que a nova fórmula de cálculo valha a pena, o faturamento da empresa não pode ser maior que dez vezes o valor da folha de pagamentos. Do contrário, em vez de cair, o imposto sobe. Foi o que ocorreu com a Specto e uma série de empresas que empregam pouco ou compram peças de terceiros para abastecer sua linha de produção. Para contrabalançar essa despesa extra com impostos, a empresa teve de repassar o custo adicional para o preço dos produtos. Ao desonerar a folha de pagamentos, o governo quis dar condições para que as empresas evitassem demissões neste momento de crise externa e de economia interna em ritmo lento. Afinal, com uma carga menor de impostos, haveria fôlego para elas passarem a rebentação sem ter de mandar gente para a rua. Mas o balanço não é positivo nos setores de calçados, têxteis, móveis e tecnologia da informação, os quatro desonerados desde o início d ano. Empresas desses setores, que saíram perdendo com a mudança, estão tentando se adaptar à situação. Um exemplo: uma fabricante paulista de software não só começou a recolher mais impostos como, de quebra, passou a perder mercado para um concorrente internacional. Para se adequar ao cenário, os sócios querem dividir o negócio em dois. Com um braço, ela vai fazer avenda do produto. Com o outro, vai fazer a prestação de serviços. Trabalho dobrado, com aumento da complicação burocrática – e para nada além do que apenas voltar ao estágio em que ela estava antes das mudanças. “Acriação da nova empresa está praticamente definida. Só estamos analisando como ficará a parte societária”, diz um de seus donos. Opacote de bondades preparado pelo governo vai incluir uma nova fornada de desoneração da folha. A experiência mostra os limites da escolha de sempre compensar uma desoneração com algum outro aumento de carga. O Brasil cobra impostos de país rico de suas empresas – sem um mínimo de retorno em serviços, A carga e sua complexidade são um dos maiores pesos do chamado custo Brasil. Há, no entanto, devido ao gigantismo do Estado, espaço limitado no orçamento para o governo abrir mão de arrecadação. Noprimeiro semestre, se considerada apenas a desoneração dos quatro primeiros setores beneficiados, o déficit do INSS aumentou 1bilhão de reais. No ano que vem, quando os 15setores estiverem integralmente com o benefício, a renúncia será de 7 bilhões de reais. Ocobertor fica ainda mais curto porque a conta a ser feita tem de considerar os adendos feitos por deputados e senadores à medida provisória que trata das desonerações. O texto original tinha 54 artigos quando chegou ao Congresso – e lá passou a ter 79. O governo enfrenta ainda mais de 30 categorias do funcionalismo público federal em greve. Se os pleitos forem atendidos, a despesa com o funcionalismo crescerá 92 bilhões de reais. De modo geral, a desoneração é uma medida bem-vinda, especialmente em tempos nublados como os atuais. “A estratégia é muito boa para setores com uso intensivo de mão de obra”, diz José Pastore, especialista em relações trabalhistas e professor da Universidade de São Paulo. Mas, como se vê, não necessariamente eficaz, em especial quando o alívio de um lado é anulado por oneração de outro. O governo poderia aproveitar a onda positiva trazida pelo pacote para adotar soluções mais amplas e perenes. Éum enorme avanço a adoção de uma “agenda do bem” por Dilma. Que essa agenda seja o início de um movimento de recuperação da competitividade do país.

 

O PREJUIZO E NOSSO

Entre diversos legados que fazem parte do inventario de micos deixados pelo ex-presidente

Luiz Inácio Lula da Silva para sua sucessora, Dilma Rousseff, a Petrobrás, com certeza, é um dos mais enrolados. Lula, como se sabe, passou anos reclamando de uma imaginária “herança maldita” que alegava ter recebido de seu antecessor. Quando chegou a hora de sair do governo, deixou a sua própria – só que essa foi de verdade. Boa parte das dores de cabeça do atual governo, na verdade, se resume a tentar desmanchar a penca de desastres de diversos tamanhos que recebeu ao assumir – e suas perspectivas reais de sucesso nesse trabalho são para lá de duvidosas. O caso da Petrobras, um dos últimos a sair do armário de esqueletos que Lula empurrou para cima da atual presidente, é um exemplo notável. A empresa acaba de divulgar os resultados do segundo trimestre de 20U – um prejuízo de 1,3 bilhão de reais, o primeiro dos últimos 13 anos. Não foi por falta de vendas, na temperatura morna da economia brasileira de hoje: a receita líquida da estatal chegou perto dos 70 bilhões de reais entre abril e junho, ou vigorosos 10% mais do que tinha conseguido no mesmo período de 2011. O que aconteceu, simplesmente, foi que a Petrobras gastou mais do que recebeu. Os resultados nas áreas em que a empresa deu lucro, como exploração e produção, ficaram praticamente iguais aos do ano passado. Já as despesas furaram o teto. Se o Brasil fosse a Argentina ou a Venezuela, países que nosso governo tanto admira, não haveria maiores problemas. Apresidente Cristina e o coronel Chávez mandariam fazer uma massagem qualquer nos números, e o que é preso juízo viraria lucro. Mas, aqui, embora muita gente gostasse, ainda não dá para fazer essas coisas. Um poço que não produz é um poço que não produz. Preço de venda abaixo do custo é preço de venda abaixo do custo. Um erro é um erro – e a soma de tudo isso significa, apenas, vermelho no balancete. No caso deste último trimestre da Petrobras, o prejuízo é a consequência inevitável da combinação de um pouco disso tudo. Boa parte dos poços do pré-sal, anunciados no governo Lula com muito foguetório e pouca geologia, acabou se revelando seca na hora de ser explorada. Apesar dos pesados aumentos dos preços internacionais do petróleo, as autoridades que mandam na Petrobras resolveram fingir que não estava acontecendo nada; pensando no Ibope da popularidade presidencial, em vez da aritmética, mantiveram as vendas de combustível ao público em preços incompatíveis com seu custo. Erro técnico grosseiros na área de industrialização do petróleo fruta de politicagem e de ideologia nas decisões sobre investimento em novas refinarias, mantêm a capacidade de refino da empresa paralisada há anos. Grandes obras “lançadas” por Lula continuam sendo apenas terrenos baldios; a famosa refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, já está custando quatro vezes o que foi previsto e continua sem ver um centavo do dinheiro que o coronel Chávez comprometeu-se a aplicar nela. O prejuízo superior a 1bilhão de reais no segundo trimestre de 20U não foi construído ontem. “Como gostava de dizer o ex-governador Leonel Brizola, é coisa que ‘‘vem de longe”. Empresas da natureza e do porte da Petrobras não pegam gripes; só pegam doenças que vão sendo incubadas dia após dia em seu organismo e não recebem a profilaxia correta. Nenhuma delas é tão nociva quanto a entrega de decisões empresariais a aproveitadores políticos. É algo que vem de um entendimento perverso: o de que a Petrobras pode perder dinheiro porque é “rica”. Mas o dinheiro não é da Petrobras; é de seus acionistas, e esses acionistas são a população brasileira, que tem a maioria das ações e é representada no controle da empresa pelo governo. Seu dever, nesse papel, é defender os interesses dos cidadãos deste país, que são os verdadeiros donos da companhia. É exatamente o que se espera de sua nova direção e da presidente da República.

 

TODOS CONTRA A AMAZON

O americano Jeff Bezos Fundador da Amazon, comanda um império. A companhia, criada em 1994 na cidade de Seattle para vender livros pela internet, transformou-se na varejista online mais poderosa do mundo. Com mais de 56000 funcionários e 170 milhões de clientes cadastrados, a empresa vende praticamente tudo – de computadores a lagostas vivas. Em 2011, faturou 48 bilhões de dólares. Mas todo esse poder de fogo não vem ajudando a entrar em um mercado considerado chave: o Brasil. Pelo contrário, vem atrapalhando. Desde 2009, a Amazon negocia sua entrada em conversas com editoras e transportadoras. Em janeiro, contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu primeiro funcionário de varejo online. Foi no início de agosto que Bezos aumentou os esforços para lançar sua livraria digital no Brasil ainda neste ano. Ele despachou para o país uma comitiva de quatro executivos, entre eles um de seus vice-presidentes, Russ Grandinetti. Talvez nem eles tenham certeza da data de estreia da Amazon, mas seu interesse crescente faz com que varejistas e editoras se armem para enfrentar a avalanche. O plano da Amazon é estrear com a livraria digital e, consequentemente, com o leitor Kindle. Por isso, os executivos começaram sua viagem por Brasília. Lá, visitaram os ministérios do Desenvolvimento, da Educação, da Fazenda e da Cultura, sob a orientação da consultoria BarralMJorge, que tem como sócio o ex-ministro Miguel Jorge. Aaproximação com o governo é importante porque, para lançar o Kindle a um preço competitivo – nos Estados Unidos ele é vendido por 80 dólares -, a Amazon precisará negociar algum tipo de incentivo fiscal. A varejista também quer incluir o Kindle na disputa das licitações para a compra de tablets para escolas públicas. Depois de Brasília, o grupo se reuniu em São Paulo com pelo menos dez editoras e distribuidoras de liHOS.O plano é comermeçar a importar o Kindle ainda neste ano. Mas a empresa analisa também produzir o aparelho no Brasil, em parceria com a taiwanesa Foxconn, que tem fábricas em São Paulo, em Minas Gerais e no Amazonas. BRIGA COM AS IIDITORAS O avanço só não é mais rápido porque a Amazon enfrenta uma negociação ferrenha com as editoras que detêm os direitos de publicação dos livros brasileiros em formato digital. A varejista americana exíge descontos de 50% nacompra dos livros e o direito de cobrar o quanto quiser por eles. As editoras não topam. Hoje, grandes redes de livrarias, como Saraiva e Cultura, que compram 44% do total de livros impressos, recebem descontos médios de 35%. As editoras temem que a Amazon cobre preços muito baixos para conseguir ganhar terreno, e por isso querem estabelecer um desconto-limite. Nos Estados Unidos, os descontos garantiram à Amazon 30% do mercado, mas levaram dezenas de livrarias à falência e arrasaram as margens de lucro das editoras. “Não queremos acordar amanhã reféns da Amazon”, diz o dono de uma das maiores editoras do país. “Eles não precisam estragar o mercado brasileiro para entrar aqui.” Apesar da resistência, a Amazon fechou, no início de agosto, um acordo com a Xeriph, a maior distribuidora de livros digitais do pais, dona do direito de distribuição de 75% dos cerca de 14000 títulos disponíveis  no mercado. O contrato vale para 180 pequenas e médias editoras, donas de 4000 titulos – com as grandes o impasse continua. Nas negociações com as editoras, a Amazon é tida como intransigente: apesar de as conversas terem começado há três anos, a empresa de Bezos se mantém inflexível em pontos considerados chave pelos empresários locais, entre eles a obrigação de publicar o livro digital ao mesmo tempo que o livro de papel chega às livrarias (veja quadro). Talvez o maior revés dessa lentidão toda, para os americanos, seja a abertura de um flanco que vem sendo explorado por alguns de seus arquirrivais no mermeçar cado de livros eletrônicos: a Apple e o Google. A Apple, por exemplo, concordou em vender livros eletrônicos pelo preço definido pelas editoras. As negociações começaram em março e os contratos estão prestes a ser assinados. A canadense Kobo, que já vendeu 6 milhões de leitores digitais similares ao Kindle, está finalizando um acordo com a Livraria Cultura. Pelo contrato, os leitores digitais da Kobo serão vendidos pelas lojas da rede, que passará a disponibilizar em seu site os mais de 2,5 milhões de titulos da canadense. Começar a operação por livros digitais é uma estratégia inédita para a Itália e Espanha – sempre com a venda deprodutos como livros e brinquedos. No Brasil, no entanto, foi preciso bolar um plano B após a empresa deparar com a barafunda de impostos e a dificuldade de montar uma estrutura de distribuição. “Eles viram que no Brasil tudo é muito mais caro e complicado do que imaginavam”, diz um executivo que trabalha para a Amazon. Aprender a lidar com essas dificuldades é fundamental para os planos da Amazon. É na venda e distribuição de produtos “físicos” que a empresa enxerga suas maiores oportunidades no pais. O mercado de livros digitais, afinal, faturou apenas.s.70()()(}reai&no~passaOO; ou 0,02% da venda de livros no Brasil “É um mercado quase inexistente. A tendência é que cresça, mas lentamente”, diz Luiz Fernando Pedroso, diretor-geral da editora Ediouro. O comércio eletrônico brasileiro, por outro lado, já é um negócio de 19 bilhões de reais que deve chegar a 45 bilhões de reais em 2016, de acordo com a consultoria americana Forrester Research. A Amazon já escolheu, segundo EXAME apurou, as empresas que farão o transporte e a armazenagem de seus produtos: Directlog e Luft Logistics, que têm como clientes walmart, Fnac e Saraiva Ambas se preparam para iniciar o serviço até junho de 2013. Sinal de que o pesadelo de livrarias e editoras brasileiras está perto de virar realidade. Apesar da torcida contra.

 

TERAPIA ANTI-FRANKENSTEIN

A era de ouro da industria farmacêutica terminou no dia 30 de novembro de 2011. Naquele dia, expirou a patente do remédio mais rentável da história, o anticolesterol Lipitor, produzido pela americana Pfizer. No ano anterior, as vendas do Lipitor somaram 10,7bilhões de dólares – o equivalente ao faturamento da nona maior empresa brasileira, a telefônica Vivo. O fim da patente liberou a cópia do remédio pela concorrência e simbolizou o drama vivido pela indústria farmacêutica: entre 2011 e 2015, remédios que vendem o equivalente a 170 bilhões de dólares por ano perderão sua patente. Para a Pfizer, perder a exclusividade de seu principal produto expôs os efeitos colaterais da década decrescimento que fez dela a maior empresa farmacêutica do mundo. Foram mais de 200 bilhões de dólares em aquisições – que, ao fim do processo, transformaram a Pfizer naquilo que os mais maldosos apelidaram de “Frankenstein”. Enorme, remendado, lento e, pior, pouco inovador – como demonstra a falta de remédios para compensar a quebra da patente do Lipitor. As ações da pfizer perderam 25% de seu valor na última década Hoje, a companhia fatura 68 bilhões de dólares por ano. Com 59 anos de idade e 34 de Pfizer, o escocês Ian Read está executando a mais observada reestruturação do setor farmacêutico. Desde que assumiu a presidência da empresa, em dezembro de 2010, Read está preparando a pfizer para sua vida pós- Lipitor. Vendeu unidades, cortou drasticamente o investimento anual em pesquisa, desistiu de 91 projetos de medicamentos. No segundo trimestre, o faturamento caiu 9%, mas o lucro cresceu 25%. Em agosto, durante uma visita ao Brasil, Read falou a EXAME. As empresas farmacêuticas investiram centenas de bilhões de dólares em pesquisa na última década, mas, mesmo assim, estão vivendo a crise da quebra das patentes. A indústria perdeu a capacidade de inovar? Situações como a atual são da natureza do nosso negócio. Precisamos inovar para sobreviver. Para isso, você precisa de uma combinação de ciência, bons processos e um pouco de sorte. As inovações dos anos 80 trouxeram ótimos produtos para os anos 90, mas nos anos 90 a ciência não ajudou. Os alvos fáceis já haviam sido atingidos. A indústria teve de mudar a forma com que encara a pesquisa Nos anos 80, o grande foco era a química Hoje, temos uma compreensão muito melhor da biologia. Acho que a indústria está prestes a dar um novo salto de produtividade. Qual é a chave para que uma empresa com 100 000 funcionários volte a acertar na pesquisa? Criar uma cultura que nos permita tomar decisões mais rápidas e dar aos cientistas a liberdade para fazer o que julgam correto. Antes, cada uma das unidades de pesquisa só podia decidir como usar 10% do orçamento. Hoje, os cientistas controlam 80% do orçamento. Cada time tem de 200 milhões a 300 milhões de dólares para as fases iniciais da pesquisa. Em uma década, a Pfizer gastou mais de 200 bilhões de dólares em aquisições. Tamanho atrapalha? O problema não é o tamanho em si, mas a distração causada por grandes mudanças. Nós fizemos grandes aquisições em sequência e levamos muito tempo para nos reorganizar. Ao mesmo tempo, houve essa série de desafios científicos que mencionei. Deu tudo errado: tivemos uma série de distrações justo na hora em que os tempos de pesquisa fácil estavam ficando para trás. Não acredito em tamanho só pelo tamanho. Se ter escala ajuda, ótimo. Mas, se não adianta nada, para que ser tão grande? osenhor vendeu a unidade de nutrição infantil para a Nestlé por 12 bilhões de dólares, e pretende abrir o capital da unidade de medicina animal. São negócios que aescem mais do que a área farmacêutica. Por que se desfazer deles? Chamo esse processo de simplificação dramática. Esses negócios são realmente ótimos. Mas precisamos decidir como vamos usar nosso capital. E, hoje, nosso foco absoluto tem de estar na transformação do processo de inovação farmacêutico. Diz-se que descobrir novos remédios é em parte uma arte, em parte um processo. Como combinar essa atividade Incerta com a cobrança por resultados vinda dos acionistas? Você precisa ter grandes cientistas, criar uma estrutura correta e cobrálos. É o que é possível fazer. Ciência é um processo, não uma arte. Uma das coisas mais complicadas que a humanidade faz é levar um medicamentonovo ao mercado. Nesse caminho, desperdiçar dinheiro não ajuda em nada É preciso gastar dinheiro suficiente, mas não mais do que isso. Minha função é dar retorno aos acionistas Isso inclui não apenas cortar 30% do investimento anual em pesquisa mas também eliminar 91 projetos de novos remédios no ano passado. Não é arriscado cortar tanto? Chegamos à conclusão de que não havia sentido continuar investindo em tantas áreas. Decidimos investir onde podemos ganhar: doenças cardiovasculares, oncologia, neurologia, vacinas, dores e inflamações. A Pfizer tinha muitas linhas de pesquisa, e não havia como ser melhor que a concorrência em cada uma delas. Um exemplo de como fazemos pesquisa hoje: temos acordos com 20 instituições acadêmicas que submetem a nós projetos em que querem investir. De 300,escolhemos 16, colocamos dinheiro e o trabalho é feito pelos profissionais dessas instituições. Para nós, é uma ótima maneira de nos aliarmos aos melhores cientistas disponíveis – e, esperamos, um jeito que custe menos dinheiro à pfizer do que fazer tudo sozinhos. Remédios como o Upltor atingem um enorme número de pessoas. A era das drogas “precisas”, desenvolvidas para pequenos grupos, está chegando? Hoje investimos muito nesse tipo de droga A maior parte dos tratamentos contra o câncer será muito específica, à medida que o genoma ficar mais acessível. Quando encontramos o Xalkori (remédio contra um tipo raro de câncer de pulmão), descobrimos que funcionava em apenas 3%a 5%dos pacientes, que tinham um certo gene expressado. Temos remédios como esse em vários estágios de desenvolvimento, em áreas como diabetes, oncologia e doenças cardiovasculares. o Brasil está atrás de países como China e rndia na pesquisa de medicamentos? Sim. Na China, o governo escolheu a indústria farmacêutica como área de importância estratégica Não acho que o governo brasileiro tomou essa decisão. O Brasil pode se tornar uma potência farmacêutica, mas com parcerias. A Pfizer é parceira de qualquer cientista que tenha capacidade. O Brasil terá de ser aberto a cientistas do mundo inteiro e investir em qualquer empresa que queira pesquisar no pais. Não quero dizer ao governo brasileiro o que fazer, mas a fizer está no Brasil há 60 anos e somos tão brasileiros quanto qualquer um. Seria ótimo se o governo nos visse assim. Em 2010, a Pfizer comprou 40% do laboratório goiano Teuto por 400 milhões de reais. Por que crescer no mercado de genéricos, com margenstio baixas, é importante? Você tem de ajustar as margens pelo risco. A inovação de alto risco tem de ter um alto retorno. De 50 empresas que existiam há 20 anos, sobraram dez. Os genéricos têm risco baixo, e o retorno é naturalmente menor. Mas faz muito sentido ter os genéricos no nosso portfólio. Estamos bem representados em todos os mercados. Nenhuma empresa local cresce tanto quanto a Teuto, então estamos felizes.

 

UMA FEIRA DE 50 MILHÕES DE REAIS

TODO MUNDO SABE QUEM SÃO os PROTAGONISTAS do varejo de alimentos no Brasil: os franceses do Pão de Açúcar e do Carrefour, os americanos do Walmart, os chilenos do Ceconsud. Todos com faturamento de bilhões de dólares, presença em dezenas de países e muito poder de barganha. Na teoria, é a combinação ideal para cobrar menos, atrair mais clientes e ganhar mais dinheiro. Volta e meia, porém, aparece um concorrente pouco conhecido que chama a atenção não por seu gigantismo, mas por estar fazendo alguma coisa diferente – e certa. Um exemplo recente é o carioca Hortifruti, fundado por dois feirantes nos anos 80, que hoje, com 23 lojas no Rio de Janeiro e uma no Espírito Santo, vende 42000 reais a cada metro quadrado. Nenhuma outra empresa com receita acima de 500 milhões de reais consegue vender tanto. Émais do que o dobro da marca do Pão de Açúcar, de 19000 reais por metro quadrado. O feito chama ainda mais atenção porque o Hortifruti tem 60% de sua receita baseada na venda de frutas, legumes e verduras, produtos que custam pouco e apodrecem rápido. Sua.s loja.s, localizadas principalmente na rica zona sul carioca, lembram feiras livres – muito limpas, organizadas e climatizadas, é verdade; mas, ainda assim, feiras livres. Qual é o segredo? O Hortifruti foi fundado por Gilberto Lopes e Tadeu Fachetti, que há 23 anos abriram um sacolão (daqueles que vendem frutas e legumes com preço único) em Colatina, no interior do Espírito Santo. Na época, Lopes trabalhava como faz-tudo no sacolão de outro empresário local, Paulo Hertel, que também virou sócio do Hortifruti. Em poucos meses, eles perceberam que vender todos os produtos pelo mesmo preço não era o caminho. Os clientes levavam os itens de maior valor e deixavam os mais baratos para trás. Os sócios então decidiram inverter a lógica. Apostaram na qualidade, e não no preço, para atrair clientes interessados no frescor de produtos de uma feira livre com o conforto de um supermercado, como ar-condicionado e estacionamento. Em 1990, a dupla levou o negócio para o Rio de Janeiro e passou a abrir uma loja por ano. Apesar do crescimento, o Hortifruti se mantém fiel ao estilo feira livre de ser. A começar pela logística. Diferentemente de seus concorrentes, tem uma frota própria de 2U caminhões que abastecem as lojas cinco vezes por dia com frutas e legumes frescos comprados de 960 pequenos e médios produtores. O Hortifruti vende também pães, sucos e frios. Mas não oferece as linhas populares dos grandes fabricantes – apenas produtos artesanais e orgânicos comprados de pequenos fornecedores. Ou seja, daqueles que o pessoal do Leblon gosta de levar para casa depois da praia. Com essa estratégia, consegue cobrar até 13 reais por 1 quilo de uva, quase o dobro do que os concorrentes da porta ao lado cobram pela uva da mesma variedade. “Ocupamos de propósito um espaço entre a feira livre e o supermercado”, diz Tiago Miotto, sobrinho de Fachetti e presidente da empresa. Para manter o atendimento personalizado típico das feiras, o Hortifruti tem 140 funcionários por loja – 50% acima da média do mercado. Vender muito por metro quadrado é uma necessidade. As lojas do Hortifruti ficam em endereços nobres, como os bairros cariocas Leblon e Ipanema, e 70% dos clientes são das classes A e B. Encontrar imóveis nessas regiões é cada vez mais difícil – e caro. A últíma loja, inaugurada em Ipanema, demandou dois meses de negociação e um investimento de 4,5 milhões de reais. “Precisamos estar em bairros nobres. Como o preço do aluguel sobe e falta espaço, temos de vender mais com menos”, diz Miotto. As despesas do Hortifrutí com aluguel passam de 20 milhões de reais ao ano. Por isso, a média de vendas por metro quadrado precisa continuar a subir. A meta é chegar a 45800 reais neste ano. É o único jeito de manter a margem de lucro – calculada por analistas em torno de 4%, pouco acima da margem da área de alimentos do Pão de Açúcar, de 3,8%. DO RIO PARA bRASiL?O maior desafio do Hortifruti é conseguir esses números também longe do Rio de Janeiro – já que está em meio ao maior plano de expansão de sua história. A BR Investimentos, do economista Paulo Guedes, comprou, em 2010, 30% do capital da empresa. Pagou estimados 70 milhões de reais e montou uma estratégia para chegar a novas cidades. Só em São Paulo, prevê investir 160 milhões de reais até 2016 para abrir de seis a oito lojas por ano.Outras capitais também estão no radar. Neste ano, a meta é elevar o faturamento de 540 milhões para 650 milhões de reais. “Nossa expectativa é que a companhia esteja pronta para abrir o capital em dois ou três anos”, diz Priscila Rodrigues, sócia da BR Investimentos e conselheira do Hortifruti. Ao chegar a novas cidades, a empresa vai bater de frente com redes locais já estabelecidas – o mercado carioca é mais pulverizado do que o paulista, por exemplo. Grandes varejistas como o Pão de Açúcar, agora sob o comando do francês Jean-Charles Naouri, também investem em unidades menores, de até 1000 metros quadrados, como o mini Extra. “O modelo de lojas de vizinhança é o que mais cresce no país, já que os consumidores fazem cada vez mais visitas aos pontos de venda”, diz Flávio Tayra, da Associação Brasileira de Supermercados. Sair da zona de conforto é difícil. Sair da zona sul do Rio também vai ser.

 

MAIS DE 2 Bilhões DE ESPECTADORES

Um rapaz escolhe laminas de barbear no corredor de um supermercado quando, repentinamente, o lutador Vitor Belfort rompe a gôndola. Num tom, digamos, nada amigável, ele pergunta: “Vaiamarelar?” Outros lutadores surgem dos lugares mais inusitados, como de dentro de um carrinho de compras, para fazer a mesma pergunta Intimidado, o consumidor decide levar o produto da Gillette, que é azul, em vez de ficar com o do concorrente, da cor amarela Ovídeo divulgado exclusivamente pela internet em maio foi assistido por mais de 20 milhões de pessoas naquele mês, bem acima dos 8 milhões de acessos projetados pela Procter& Gamble, dona da marca Além de investir na divulgação por links patrocinados, a empresa contou com tuitadas dos garotos-propaganda da marca, como os jogadores de futebol Kaká e Paulo Henrique Ganso, e sobretudo a divulgação espontânea de milhões de pessoas pela internet. “Investimos apenas um quarto do valor que gastaríamos para ter o mesmo resultado na TV”, diz José Cirilo, diretor de marketing da marca Gillette. Ofilme da Procter&Gamble faz parte de uma estratégia cada vez mais freqüente para as empresas em todo o mundo. Oestoque de vídeos publicitários feitos para a internet mais que dobrou nos últimos 12 meses nos Estados Unidos. Hoje, são 10 milhões de filmes, de acordo com a americana Comcast. Segundo a consultoria americana e Marketer, é a forma de publicidade que mais cresce na internet – com previsão de que as empresas aumentem 55%seu orçamento para essa área em 2012 nos Estados Unidos. ”As empresas estão cada vez mais empenhadas em aproveitar o crescente interesse das pessoas por vídeos na internet”, diz Tatiana Santa Paula, sócia da Media Interactive, agência especializada em marketing digital. O custo reduzido, sobretudo em comparação ao preço pago para inserções na TV; é apenas uma das vantagens. Ao migrar para a internet, as empresas têm como audiência potencial toda a população online – ou seja, um total de 2 bilhões de pessoas no mundo (80 milhões delas no Brasil). Se cair no gosto do público, um,vídeo pode ser visto e revisto inúmeras vezes em poucas horas, num efeito viral. Dependendo do grau de sucesso, um sonho impossível em outras mídias – prender a atenção do consumidor por minutos a fio – pode se tornar realidade. Foi o que conseguiu a subsidiária canadense do McDonald’s, com Um vídeo de 3 minutos e meio, que mostra por que os lanches das lojas nunca se parecem com os dos anúncios (numa espécie de confissão pública, o filme mostra todos os detalhes da maquiagem de um sanduíche). Foi o segundo vídeo mais visto na América do Norte na última semana de junho, com mais de 5 milhões de acessos naquele período. Outro deles é o filme Uncle Drew, da Pepsi. Com mais de 5 minutos de duração, conta a história do jovem astro da liga americana de basquete Kyrie Irving, que passa por uma sessão de maquiagem para parecer um senhor com mais de 60 anos e surpreende uma turma do bairro com jogadas impressionantes. O vídeo teve mais de 10 milhões de acessos em três semanas em maio. Não é fácil prever a fórmula para o sucesso, sobretudo em meio a milhões  de produções – inclusive as caseiras, que transformam em celebridade um bebê que morde o irmão ou um cachorro que anda de skate. A subsidiária brasileira da Procter&Gamble já havia produzido 11 vídeos antes do atual – nenhum com a mesma repercussão. Algumas empresas começam a testar novos limites para chamar a atenção. Um dos casos mais emblemáticos é o da campanha “Perdi meu amor na balada”, lançada pela Nokia em julho. Na ocasião, o paulistano Daniel Alcântara postou um vídeo no seu perfil do Facebook e no YouTube pedindo ajuda para encontrar uma garota que conhecera na noite anterior, Fernanda. Lamentando ter perdido o guardanapo em que ela anotara o telefone, ele dava detalhes do encontro – até o nome da casa noturna. Reproduzido por milhares de pessoas, o vídeo foi assistido mais de 150000 vezes em 24 horas. Não havia indício de que se tratava de  uma campanha. Uma semana depois, um novo vídeo divulgado pela empresa revelou um novo modelo de celular.  Só quatro pessoas na Nokia sabiam da estratégia – o protagonista enganou  até parentes e amigos próximos. A indignação de parte do público motivou uma investigação do Conar, que pode resultar numa multa de 6,5 milhões de  reais. “Só usamos um recurso da publicidade, o teaser, para criar expectativa”, diz Flávia Molina, diretora de marketingda Nokia. A internet tem sido considerada  também um meio certeiro para testar ideias antes de levá-las à mídia convencional. Graças à repercussão na rede, a Gillette decidiu que vai levar o filme de Vitor Belfort à TV.Algo semelhante aconteceu com o filme Uncle Drew, da Pepsi.Após verificar o sucesso na rede, a companhia criou uma versão de 30 segundos para a TV. A6s poucos, as empresas percebem que não basta produzir conteúdo para a multidão, mas também vale a pena saber ouvi-la.

 

A CHINA NÃO VAI TER CRISE

O chinês Fan Gang, professor de economia da Universidade Peking, a  mais importante da China, é considerado um dos principais economistas do país. Ex-membro do conselho de política monetária do banco central chinês, Fan ajudou a fundar e preside o Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas, uma das poucas organizações não governamentais e independentes da China. Para o economista, o país continuará crescendo muito por mais dez ou 20 anos, mas num ritmo inferior ao das últimas duas décadas. Na sua avaliação,os principais desafios do país são universalizar a rede de proteção social, impedir o aumento da inflação e evitar crises provocadas por desastres financeiros ou pelo alto endividamento. Fan falou a EXAME durante visita ao Brasil, onde participou do seminário “O Brasil e o mundo em 2022″, promovido pelo BNDES. Qual deve ser o crescimento da China neste e nos próximos anos? Acredito que ainda seja possível fechar 2012 em 8%. Estamos preparando o terreno para crescer numa média anual entre 8% e 8,5% nos próximos anos. Tivemos superaquecimento em 2009 e 2010, devido ao pacote de estímulo criado para fazer frente à crise internacional de 2008. Apartir desse ponto, o governo começou a desacelerar a economia para promover uma aterrissagem suave – uma expansão em torno de 7,5%no segundo trimestre deste ano. Uma coisa é certa: se á China crescer 9%, terá superaquecimento. O ideal agora é crescer 8%, e esperamos estabilizar nessa faixa. Por quanto tempo a China vai continuar crescendo assim? Acredito que teremos de dez a 20 anos de crescimento alto. Primeiro, na faixa entre 7%e 8%.Depois, entre 6%e 7%  Estimar esse ritmo é perfeitamente justificável Temos uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Cerca de 30%da força de trabalho ainda está no campo. Levando em conta a população total, nossa taxa de urbanização ainda é de 50%.Pense na quantidade de pequenas cidades que se tornarão grandes ao longo da costa nos próximos anos. Pense  em ruas, casas, metrôs e trens de alta velocidade que precisarão ser construídos. Nessa área, ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas,para atingirmos essas metas de crescimento, precisamos  manter as reformas, evitar a inflação e impedir as crises provocadas  por questões financeiras e pelo aumento  desmedido da dívida pública. Quando o senhor fala em impedir crises, parece se referir mais a fatores Internos do que. externos. É Isso mesmo? Sim. Refiro-me a impedir a nossa própria crise. Precisamos aprender com os erros que outros países cometeram no passado: hiperinflação, crises fiscais e décadas perdidas, por exemplo. Como a crise européia está afetando a economia chinesa? No longo prazo, essa crise é uma ótima lição para a China. Se os países europeus estão enfrentando problemas de financiamento, um país em desenvolvimento como a China precisa ser muito cuidadoso. Estamos começando a construir uma rede de proteção social e devemos ter cuidado com a dívida pública. Precisamos prestar atenção principalmente nos governos locais, que não são entidades com responsabilidade fiscal legal. Isso faz com que eles tentem emprestar o máximo possível, mas não se preocupem tanto em receber o dinheiro de volta. Afinal, o governante sabe que será enviado para outra região em cinco anos.A crise europeia resultou numa desaceleração global, mas o impacto não foi tão forte porque o mundo mudou. Hoje, os paises emergentes respondem por 50% do PIB mundial e por 70% a 80% do crescimento. O mundo não é mais só Europa e Estados Unidos. Asexportações chinesas cresceram 15% em maio. Em junho, 11%.Não são os 25% de anos anteriores, mas ainda é um crescimento de 2 dígitos. Quanto tempo o senhor acha que a crise na Europa e nos Estados Unidos ainda deve durar? Acho que de três a cinco anos. Nos Estados Unidos, falam em dez anos. Na Europa, falam em 15.Para mim, será mais rápido do que isso.Seráum tempo de estagnação. Qual é o maior desafio da China na atualidade? Certamente é a desigualdade social. E esse é um problema político. Como reduzir essa desigualdade? Temos de continuar crescendo e também temos de construir uma rede de proteção social, que ainda está no início. A maioria da força de trabalho chinesa ainda não tem direito à aposentadoria. Até pouco tempo atrás, apenas a população urbana podia ter esse direito. Ocorre que os migrantes rurais foram trabalhar nas fábricas das cidades, mas continuaram com status de cidadãos rurais. O governo está unificando o programa agora. Em alguns anos, o trabalhador poderá viver numa cidade e pedir o benefício em outra. É um avanço gradual. Hoje, cerca de 40% da população no meio urbano é coberta pelo programa de aposentadorias. Recentemente, o governo criou um programa para a zona rural que cobre 60% da população dessa área. Metade é financiada pelo governo central e a outra pelos indivíduos. As aposentadorias rurais pagam o equivalente a 1000 dólares ao ano e as urbanas ficam, na média, em tomo de 3000. Quando a China chegará ao padrão de vida de um país desenvolvido? Em algumas cidades, em 20 anos as pessoas viverão como europeus ou americanos. Mas o país é vasto, cheio de lugares pobres, cidades pequenas. Devemos demorar uns 50 ou 60 anos para termos um padrão americano ou europeu em toda a China. Na zona rural, a renda média chinesa é de 3000 dólares ao ano. Nas urbanas. chega-se a 10000 dólares. A disparidade é muito grande. Saber disso é fundamental para entender a China. A população chinesa mostra sinais de insatisfação? Éda natureza humana nunca se sentir completamente satisfeito. Na China, as pessoas falam muito dos problemas. Porém, se você perguntar se elas têm boas expectativas para o futuro, a maioria dirá que sim. A China teve a maior pontuação nesse quesito em uma recente pesquisa internacional. Os chineses entendem que a vída está melhor. Mesmo a população rural, que ainda é pobre. tem a expectativa de conseguir um trabalho melhor para si e para o filho ou a filha. o senhor acha que há espaço para o comunismo diante do individualismo crescente na China? Não sei se as novas gerações se preocupam muito com a igualdade de oportunidades. Hoje, a China está indo na direção de uma economia de mercado. As pessoas do Partido Comunista diriam que estamos num estágio inicial do socialismo. Como na teoria: socialismo primeiro, comunismo depois. osenhor acredita nisso? Não estudo muito esse tipo de assunto. Acredito nos seres humanos. Acredito que é preciso desenvolver um modelo em que as coisas funcionem. Buscar eficiência, tecnologia, educação, incentivos para que as pessoas trabalhem duro. Mas é preciso evitar disparidades sociais muito grandes. Há quem tema que a China se tome uma superpotência e queira lutar por recursos naturais que lhe faltam. O que o senhor acha disso? Nã ocompro essa ideia.Como conseguimos, hoje, os recursos que precisamos? Comprando. Já estamos acostumados com esse processo pacífico.Levaremos uns 60 anos para rivalizar com os Estados Unidos. Até lá, estaremos mais acostumados com esse processo. Mesmo que tenha poderio militar, é improvável que a China tenha de usá-lo.

 

A BRIGA QUE PARALISOU A EUROPA

PRIMEIRA –TRIIVISTA Que o ITALIANO MARIODraghi deu ao tablóide Bild, de Berlim, como presidente do Banco Central Europeu (BCE), em março, começou com uma pergunta capciosa. Para os alemães, disse o editor do jornal, um bom banqueiro precisa seguir rigorosamente a cartilha do combate à inflação, assegurar sua independência e favorecer a força da moeda. Logo após essa breve introdução, disparou: “Quão alemão o senhor é?”. Sem pestanejar, Draghi respondeu: “Essas são. virtudes germânicas, mas todo banqueiro central da zona do euro deveria tê-las”. A declaração soou como música aos ouvidos de Jens Weidmann, o ortodoxo presidente do Bundesbank, o banco central alemão. Para que Draghi não se esquecesse do que havia dito, os editores do Bild, cheios de graça,opresentearam comumpickelhaube, capacete tradicional do Exército prussiano no século 19.Essa lua de mel. No entanto, durou pouco. No final de julho, Draghi escandalizou muitos alemães ao dizer que faria “E que fosse preciso” para preservar o euro, frase interpretada como o prenúncio de uma compra massiva de títulos públicos emitidos por países europeus à beira do colapso financeiro. Para conseguir atrair investidores, os governos de Espanha e Itália têm sido obrigados a oferecer juros perigosamente próximos, ou até superiores, à marca de 7% – nível considerado insustentável, que precedeu os resgates da Grécia e de Portugal. A lógica de fendida por Draghi é fazer o BCE comprar esses papéis, o que forçaria as taxas para baixo. OBild, sempre com humor, logo traduziu a insatisfação alemã numa manchete: “Chega de dinheiro alemão para Estados falidos, Herr Draghi!”. No texto da reportagem, um recado: “Queremos nosso capacete de volta!”.Weidmann também não deixou Draghi sem resposta. Em uma entrevista publicada no site do Bundesbank, no começo de agosto, Weidmann elevou o  tom: “Somos o maior e mais importante dos bancos centrais do euro. Temos mais voz do que os outros”. A visão conservadora de Weidmann é uma característica tão largamente conhecida que um ex-chefe seu costuma dizer que “ele bebeu política monetária no leite da mãe”. Para Weidmann, as propostas de Draghi estão mais para o financiamento de países – em grande parte, com dinheiro alemão – do que para política monetária. Na tentativa de reduzir as críticas mais ortodoxas, Draghi, mesmo sem dar detalhes, já sinalizou que qualquer compra de titulos estará condicionada a um pedido formal de resgate dos paises. Mais que uma formalidade, essa é uma maneira de assegurar que os governos se disponham a fazer ajustes fiscais. Grosso modo, essa imposição é a principal diferença em relação às compras de títulos realizadas pelo BCE a partir de 2010, que também receberam uma saraivada de críticas da Alemanha. A discordância entre Draghi e Weidmann, que invariavelmente freia a adoção de medidas consideradas cada  vez mais cruciais para a sobrevivência do euro, tem como pano de fundo uma discussão que ultrapassa as fronteiras europeias: qual é, afinal, o limite da atuação dos bancos centrais? Acrise global iniciada com a-quebra do banco Lehman Brothers impeliu as autoridades monetárias do mundo a ampliar seu raio de atuação para além do controle da inflação, no qual se focaram desde fins do século passado. Também as obrigou a usar armas mais potentes do que a calibragem das taxas de juro, até então o principal componente de seu arsenal. “Os bancos centrais têm cada vez mais retornado às origens, reforçando seu papel de emprestadores de última instância e de garantidores da estabilidade.financeira”, afirma David Green, que passou 30 anos no banco central inglês antes de escrever o livro Banking on the Future: The Fall and Rise of Central Banking (“Banco do futuro: a queda e a ascensão dos bancos centrais”, numa tradução livre). Tanto o BCE como o Fed, sigla do banco central americano, lançaram novas linhas de crédito e encheram seus cofres com títulos públicos e papéis privados. Com isso, despejaram trilhões de dólares na economia e viram o volume de seus ativos ser multiplicado por 5 na comparação com os anos 90. “Os bancos centrais precisaram adotar um foco multidimensional, olhando para o funcionamento mais amplo da economia”, defendeBarry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia. MUITO OU POUCO  Nos Estados Unidos, onde zelar pelo emprego também é função formal do banco central, Ben Bernanke, presidente do Fed, surpreendeu pelo uso agressivo do seu poder de fogo. A taxa de juro americana é mantida em quase zero desde 2008, algo sem precedentes no pais. Só com a compra de papéis lastreados em hipotecas e outros créditos podres, o Fed gastou mais de 1trilhão  de dólares. Embora seja reconhecido por ter evitado uma crise ainda pior, Bernanke é alvo de críticas de todos os lados. Para os economistas mais à esquerda, o presidente é o “revolucionário relutante”, por se recusar a dar mais estímulos a uma economia cambaleante. Na visão dos mais liberais, Bernanke vai trazer de volta os tempos de ração alta da década de 70. “O Fed já ultrapassou seu mandato há a; muito tempo”, diz Alan Meltzer, professor da Universidade Carnegie Mellon e um dos maiores estudiosos do banco central americano. Numa audiência no Congresso há dois meses, Bernanke fez um desabafo: ”A política monetária não é uma panaceia. Me sentiria mais confortável se o Congresso tomasse de nós um pouco dessa carga”. Para o Fed, novas decisões em áreas como a fiscal exigiriam um esforço menor da autoridade monetária. Protestos à parte, inércia dos governos continua imperando nos dois lados do Atlântico. Por isso, apesar das lamentações, a pressão sobre os bancos centrais não deve parar tão cedo.

 

MENORES E MAIS BARATOS

As vendas de automóveis nos Estados Unidos encerraram o período entre janeiro e julho no melhor patamar desde 2008, ano da quebra do banco Lehman Brothers. O resultado foi impulsionado – quem diria – pelo bom desempenho das vendas de automóveis pequenos e médios, que cresceram 18% e 22%, respectivamente, bem acima dos 13% do mercado como um todo. A paixão dos americanos pelos carrões, como picapes e utilitários esportivos, arrefeceu por causa da crise. O preço mais alto da gasolina também contribuiu para a mudança no perfil das vendas no mercado americano. Em junho. quando a GM reportou alta de 15% nas vendas, a companhia atribuiu boa parte do resultado às vendas do sub compacto  Chevrolet Sonic, que também é comercializado  no Brasil. A previsão da indústria americana é que sejam vendidos 14 milhões de veículos neste ano. Apesar de ser um resultado expressivo, quase quatro vezes o total vendido pelo Brasil no ano passado, ainda seguirá bem abaixo da máxima histórica de 17,4 milhões de unidades, registrada em 2005.

O FUNIL DA SELEÇAO

Atualmente, os programas detrainee mais concorridos do país chegam a reunir 40000 candidatos. Diante dessa concorrência, ser aprovado para uma das poucas dezenas de vagas disponíveis . Parece missão quase impossível, principalmente quando não se está familiarizado com as etapas dessa mega seleção e quando não se sabe quais os critérios usados na avaliação. Pensando nisso, a VOCE S/A decidiu detalhar as três grandes etapas do processo seletivo: online, presencial de triagem e presencial final. Consultores que participam desses exames também deram dicas sobre o que costuma ser levado em conta para ranquear os candidatos. É informações valiosas para você superar seus concorrentes . ONLINE Na etapa online,os candidatos são submetidos a testes de inglês, português, raciocínio lógico e atualidades. A fase se estende por até dois meses. Porém, as provas podem ser realizadas num mesmo dia, se o candidato assim preferir. Esta tapa está ficando mais longa, pois muitos recrutadores têm aproveitado para analisar características comportamentais de seus candidatos já nessa fase. Na fabricante de cosmética Natura, a duração da avaliação online passou de uma para oito semanas. Ao longo de dois meses, o candidato a traínee desenvolve uma série de atividades no meio virtual, como contar sua história em ciclos de sete anos, opinar sobre vídeos postados pela companhia e responder a questionários pelos quais a empresa analisa seus valores e características comportamentais por meio da busca de palavras-chaves associadas a diferentes perfis de personalidade; Os jovens também participam da apresentação de cases na etapa online, nos quais os recrutadores avaliam a habilidade de trabalhar em.equipe e como funciona o processo de tomada de decisão dos concorrentes. No programa de trainee da Kraft & Foods, do setor de alimentos, foi criada uma plataforma digital que simula uma rede social, na qual os participantes realizam atividades em que se avalia seu grau de adesão aos valores da empresa. Para a organização desses programas, as novas ferramentas virtuais!Permitem conhecer características comportamentais do jovem antes das .etapas presenciais. E Muitos candidatos não costumam dar a devida importância às atividades online por pensar que elas não são decisivas. Mas as consultorias que trabalham na organização desses processos lembram que a etapa online elimina entre 90% e 99% dos candidatos. Por isso, a primeira dica para se sair bem nela é participar de todas as atividades propostas, já que cada uma delas pode contar pontos a seu favor. “Juntamos o resultado dos testes online, dos questionários e dos games e montamos um ranking para definir os candidatos que passa tão para.a próxima fase”, explica Renata Magliocca, gerente de inovação da Cia de Talentos, empresa especializada no recrutamento de trainees. Para conseguir o .melhor.desempenho, a orientação é planejar a execução das tarefas propostas. “Se for pedido que poste um vídeo, não deixe para produzi-lo na última hora, o que provavelmente vai comprometer a qualidade do material”, aconselha Eline Kullock,presidente do grupo Foco, consultoria de recrutamento. “Os chats com gestores da empresa são uma boa oportunidade para se mostrar. Mas faça comentários Objetivos,não faça várias perguntas numa só. Lembre-se que essas ferramentas podem chamar a atenção para você positiva ou negativamente diz Eline Kullock, Para Renata, da Cia de Talentos, é possível se preparar para os testes online de modo a conseguir os melhores resultados. “Em alguns programas, entre o fim da fase de inscrição e a abertura das provas .onlíne, há um prazo de um mês. Aproveite esse tempo para revisar seus conhecimentos em inglês e pesquisar na internet testes de raciocínio lógico para ter noção do que é pedido nas questões. “Nas bancas de jornais, também dá para comprar revistinhas com desafios matemáticos, que podem ajudar bastante”, sugere Renata Magliocca. “Há candidatos que aproveitam esse tempo para pegar aulas de matemática e raciocínio lógico, e isso é válido, sim”, acrescenta.  Chega à primeira etapa presencial 1%dos candidatos, mas só um décimo deles será aprovado para a fase seguinte. Aqui, o filtro usado para selecionar os candidatos serão as dinâmicas de grupo. “Normalmente, trata-se de uma atividade que já aborda o negócio da empresa, mas de forma Iüdíca”, diz Renata Magliocca. Para a especialista, nesse tipo de atividade o mais importante é ter uma atitude colaborativa, ajudando o grupo a chegar ao resultado. “Você não precisa necessariamente ser o mais falante nem ser extrovertido. Existem várias formas de colaborar – apresentando o trabalho, organizando o grupo na divisão das tareias, controlando o tempo ou trazendo o grupo para o foco quando as pessoas começam a se dispersar. É preciso que você tenha algum papel no grupo, ou o consultor não terá como avaliá-lo”, orienta Renata. Ainda nessa etapa é possível que ocorra uma entrevista com os consultores de RH envolvidos na seleção.Prepare-se para essa entrevista recordando situações vividas por você que ilustrem suas qualidades e pontos fortes. Certamente, os avaliadores pedirão exemplos que demonstrem que você realmente tem as competências. que diz ter. Jamais minta, pois você será eliminado. Apenas 0,1%dos candidatos inscritos chega à etapa final, na qual passarão pelo painel de negócios e pela entrevista com a diretoria. Nessa etapa, o candidato é avaliado por gestores da companhia, por íss({é importante que mostre estar.familiarizado com o negócio e “com o mercado da organização. Na etapa final, à qual chegam candidatos com currículos e perfis parecidos, estar mais bem informado sobre a companhia e seu negócio faz a diferença. “É interessante que os gestores sintam que você fala do negócio como se já trabalhasse na organização”, diz Renata Magliocca, da Cia de Talentos. Para o painel de negócios, uma dica é treinar apresentações  diante de amigos e colegas. “Prepare se para falar em público e para reagir às críticas, argumentando de forma consistente. Os gestores vão tentar colocá-lo na parede para saber como você se comporta sob pressão. No caso da entrevista, mais uma vez será necessário ter em mente um bom estoque de exemplos para responder às perguntas dos recrutadores. Tenha na ponta da língua exemplos de um projeto que você coordenou e de obstáculos que teve de superar . para conquistar algo que desejava. São casos que, se bem expostos, contarão a seu favor

 

VELOCIDADE MAxiMA

Quando concluiu seu programa de trainee na Telefônica Vivo, em dezembro do ano passado, o publicitário paulista Eduardo Cozer, de 25 anos, assumiu o posto de analista pleno.

Apenas seis meses depois, em junho deste ano, ele foi promovido a analista sênior da área de controle de gestão da empresa de telefonia. A rápida promoção do publicitário, cuja experiência antes do trainee se limitava a alguns estágios e a uma passagem por uma organização júníor, aconteceu como resultado de um treinamento que a Telefônica Vivo faz para acelerar O amadurecimento dos jovens. A ideia é tornar ainda mais rápido o período de aprendizado desse pessoal, fazendo com que as pessoas tenham bom desempenho no trabalho já no primeiro ano. Esse procedimento está se tornado mais comum em grandes corporações. A Telefônica Vivo iniciou o programa com essa configuração há três anos. Além do tradicional job rotation, os jovens cursam pós-graduação em gestão de negócios, com ênfase em telecom, na Escola Superior de Propaganda e Marketing CESPM),em São Paulo. Após é paga pela companhia. Eles também podem passar por um módulo internacional, que envolve uma temporada de estudos no exterior, aliado experiência de trabalho num dos escritórios Da. América Latina ou da Espanha. “Nosso objetivo é reduzir o tempo para que eles se sintam prontos para começar a agregar valor à empresa”, diz Carolina Gil, gerente de desenvolvimento e gestão de talentos da Telefônica Vivo. A telefônica recruta, em medida, 30jovens por ano e todos eles são enviados ao curso na ESPM. O amadurecimento emocional dessa galera também é trabalhado .no processo, tendo como base um assessment, que mapeia as principais características emocionais que eles precisam desenvolver. Ao longo  do programa, que tem duração de um ano, eles recebem feedback constante do gestor e passam por sessões de coachíng, que no dia a dia é dado pelo gestor. “Percebemos que o sucesso de um trainee depende muito da qualidade da relação que ele tem com seu líder. Por isso, hoje temos uma preocupação em preparar também os líderes sobre como fazer a gestão do desempenho e como lidar com a geração mais jovem, desafiando-a”, diz Carolina. A interação entre os gestores e os trainees se dá em encontros Promovidos pela companhia. Nessas ocasiões, um consultor orienta sobre o papel dos lideres e dos jovens. As iniciativas de liberação- são tendência,atualmente, -entre os programas de trainees, motivadas, principalmente, por dois fatores. O primeiro é a necessidade de formar lideranças em ritmo rápido, acompanhando o crescimento da economia nacional e a expansão das multinacionais instaladas no país, que tem priorizado os investimentos • mercados emergentes em

no brasileiro – diante do 8.balo provocado pela crise econômica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson &Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30 jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. mica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson & Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. O programa é dividido em três módulos – cada um com duração de uma semana – e fornece uma capacitação intensiva em temas como visão estratégica, comunicação e negociação, finanças no meio corporativo, tendências macroeconômicas e técnicas de apresentação, etapa durante a qual os jovens chegam a ser filmados para aperfeiçoar seu desempenho. “Ao fim do módulo, eles participam de um business game, no qual simulamos uma situação em que precisarão aplicar tudo me aprenderam”, conta Sônia Marques, diretora de RH da organização. Os trainees também recebem formação em processos de RH, como contratação, políticas de remuneração e desenvolvimento de carreira. “Nossa.expectativa é de que eles venham a gerir equipes e, por isso, precisam estar preparados para lidar com essas questões práticas”, afirma Sônia. Outra novidade é que,além do tradicional rodízio entre as áreas, o trainee também ‘tem a chance de passar parte do programa fora da matriz,em outras unidades da J&J em Recife, Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Na J&J, o amadurecimento emocional dos jovens é trabalhado em sessões de eoachíng realizadas a cada dois meses e também por meio de eventos, como o Superando Limites -uma semana durante a qual os. trainees são testados em desafios envolvendo esportes radicais, como arvorismo, ou trabalhos voluntários. Em uma das provas, por exemplo, há o desafio de construir uma jangada para recuperar’ bandeiras fincadas no meio de um lago -.: o que exige competências como liderança, trabalho em equipe e persistência. “É uma grande experiência de autoconhecimento, em ,’,que 9S jovens descobrirão come lidam. com questões como insegurança e frustração e avaliarão sua resistência”,diz Sônia Marques. BONS RESuLTADOS Um.sinal dos bons resultados colhidos pela J&J a partir dessa abordagem é o desenvolvimento acelerado do ex-trainee Victor Vendramíni, de 26 anos. Durante o programa, concluído em novembro de 2011, ele desenvolveu a estratégia de marketíng digital da marca Johnson’s Baby. O sucesso do projeto foi tão grande que Victor foi encarregado do marketing digital de todas marcas da empresa no Brasil. {jffi cargo até então inexistente ~ () de assistente sênior’ de marketing digital – foi criado especialmente para ele, que hoje já e gestor  de outras duas pessoas. E não é só. Como a Johnson & Johnson é patrocinadora oficial da Gopa de 2014, Victor será o responsável  por liderar a estratégia de marketing.digital da multinacional para <> evento. Formado em administração de empresas com ênfase em agroaegos,.Vitor atribui o sucesso de sEm-desempenho aos treinamentos em  Iíderança  capacitações e ao feedback recebidos durante o traínee, “O programa me deu as ferramentas necessárias para que eu mesmo abra os’ caminhos para o meu crescimento profissional”, diz oa exemplo. de Victor não é um case iso.lado. Segundo a direção de RH da J&J, desde que as

ferramentas, de desenvolvimento foram implantadas,em 2008, o índice de retenção de ex-trainees é de 95% – 40% da população formada nas duas últimas edições do programa já ocupa postos gerenciais na companhia. O programa trainee da incorporadora Brookfíeld, lançado em novembro do ano passado, já foi concebido de forma a favorecer a aceleração do desenvolvimento e o amadurecimento dos jovens. Para isso, em vez da tradicional apresentação. de um projeto conclusão ao.fim do programa, os trainees têm de entregar projetos menores bimestralmente. Comissão, a cada dois meses eles são avaliados pelo gestor da área em que atuam, por

um coach e pelo. RH da empresa. “A intensidade desse acompanhamento faz toda a diferença, porque as orientações constantes permitem ao profissional ajustar a rota ao longo do Processo. e alcançara atitude e o desempenho adequados mais- cede”, diz Lygia Villar, diretora deRH da Brookfield. Além de workShops realizados a cada dois meses, nos quais são simuladas situações vividas no dia a dia da corporação.,. os trainees também têm! Ao fim do programa, uma apresentação:inglês .diante  membros do.conselho de administração. Da multinacional,sediada no Canadá.Graças ao autoconhecimento. Adquirido durante o processo, os jovens já concluem o programa com maior clareza sopre as áreas em que querem atuar e sobre o que precisam desenvolver para chegar aonde querem”, diz Martha Magalhães, da consultoria DMRH, de São Paulo.

 

CARREIRA DE· ESPECIALISTA

E cada vez maior o número de organizações que estão cria não programas de trainee para as áreas técnicas. É o caso, por exemplo, da  cervejaria Ambe”, que,além do trainee convencional – generalista, voltado para a formação dos futuros líderes -, realizar trainee industrial. O objetivo do programa, que recruta profissionais egressos “dos cursos de engenharia, química, farmácia, agronomia, biologia, ciências da alimentação e biotecnologia, é treinar seus futuros gerentes de meio ambiente, de qualidade, de processos e de engenharia, além de mestres cervejeiros, profissionais responsáveis por supervisionar todo o processo de fabricação da cerveja, de acordo com os padrões de qualidade da empresa. A criação do trainee industrial, há três anos, é reflexo da expansão dos negócios. “Decidimos abrir novas fábricas nos últimos anos e havia necessidade de líderes para área industrial”, explica Daníel.Cócenzo, gerente de gente e gestão. Um dos que optaram pelo traírtee industrial da Ambev foi o engenheiro químico carioca Marcelo Mansur, de 24 anos. Ele conta que chegou a ler a descrição. dos dois programas ,:- convencional industrial e acabou se decidindo pelo industrial” pela possibilidade de conciliar a visão global do negócio com o aprofundamento na área técnica. Isso porque o formato do programa prevê cinco meses de imersão no negócio e na cultura da AriIbev por meio do conhecimento das Urtidáâes fabris, centros de distribuição e área de vendas e de treinamento esta sede da companhia, meses dedicados a conhecer todo o processo de fabricação da cerveja. “O trainee industrial me proporciona todas as vantagens do trainee administrativo e ainda reserva um tempo para o aprendizado sobre o produto que fabricamos, desde a fase da chegada do caminhão de malte até o engarrafamento da cerveja, diz Marce19.Neste ano, ele foi aprovado em seleção interna para o curso de mestre cervejeiro. “É uma formação que me propicia supervisionar todo o processo de produção sob a óptica da eficiência e da redução de custos, e me gabarita como responsável técnico de uma fábrica”, conta Marcelo Quem também não se arrepende da escolha feita é o ex-trainee da América Latina Logística (ALL) Luciano Johnson Neves, de 30 anos, hoje no posto de superintendente de manutenção de vias permanentes da empresa, maior operadora logística da América Latina. Desde a conclusão, em 2006, do Programa Engenheiro – programa de trainee da ALL voltado para a carreira técnica -, ele foi promovido anualmente e hoje é o executivo responsável por toda a malha viária da companhia no país. Luciano explica  que os profissionais que optam por essa modalidade de programa recebem uma pós-graduação em sistemas de infraestrutura logística ferroviária, o que os torna profissionais valorizados no mercado, já que não há graduação em engenharia ferroviária no Brasil. Além da pós-graduação, o trainee de 12 meses inclui o desenvolvimento em competências gerenciais, licte;ança e metodologia Seis Sigma. “Ao combinar a formação executiva com o conhecimento técnico, nossa cotação,. See leva,já que a oferta de profissionais da nossa área é muito restrita”, explica Luciano. “É mais fácil substituir um executivo do que .um profissional com o nosso perfil”, opina o superintendente. Por isso mesmo, a política de remuneração, bônus e promoções vigente na ALL para a carreira executiva é exatamente a mesma para quem opta pela carreira técnica. A SELE(,’ÃO Os programas de traínee para especialistas foram criados inicialmente para garantir o amplo recrutamento e a capacitação de mão de obra em empresas cujo negócio depende de profissionais altamente especializados. É o caso da Mineração Usíminas, cujo programa Jovens Engenheiros recruta graduados em engenharia de minas, mecânica, mecatrônica, metalúrgica, civil e ambiental, além de geólogos, para atuar na área de mineração. A. seleção para esses programase costuma ser semelhante à dos trainees convencionais, com testes online de raciocínio lógico e inglês, dinâmica de grupo e entrevista com o RH e gestores. Porém, o formato do programa difere um pouco dos trainees tradicionais – ele é dividido em dois eixos principais.: a realização de um curso de aperfeiçoamento técnico ou de pós-graduação e um módulo em habilidades gerenciais e estratégia do negócio. No Trainee Expert da Oi, por exemplo, voltado para a área de tecnologia, o programa inclui uma PÓS”graduação em engenharia de redes e a rotação por várias áreas do negócio e suporte na parte comportamental. “Ao final do traínee, não serei só u profissional técnico, mas um profissional completo, apto a atuar como especialista ou como gestor de uma “, acredita Tobias Leal, de 24 anos,tecnólogo em redes de computação e trainee expert da Oi. Mas as oportunidades dos traínees não executivos não estão restritas aos graduados em exatas ou tecnologia. Na área da saúde, por exemplo, já existem programas do gênero. É o caso do Trainee Enfermeiro, da rede de hospitais São Camilo, de São Paulo. Desde março deste ano foram iniciadas as atividades da primeira turma, que conta com 28 treinees. Uma das que optaram pelo programa foi a enfermeira Débora Díniz, de 30 anos, de São Paulo. Graduada em 2011, ela acredita que o programa é uma porta privilegiada de acesso ao primeiro emprego na área. “Na minha carreira, é difícil ingressar no mercado de trabalho sem experiência anterior. Ao aprimorar as minhas competências e me proporcionar a possibilidade de realizar um  .trabalho supervisionada por profissionais mais experientes, ganho. Segurança para o exercicio da profissão, que é de uma enorme responsabilidade porque trabalhamos com vidas”, diz Débora. Além do treinamento científico, o programa também prevê a passagem dos trainees pelos diversos setores  do hospital, de modo que os jovens conheçam as rotinas, o fluxo de trabalho e os processos de todos os departamentos. “Essa formação nos prepara para, um dia, vir a assumir postos-chaves e posições estratégicas no hospital”, afirma Débora:’ Outro exemplo de trainee não executivo é o Trainee Social Cultural Itaú Unibanco. O programa recruta profissionais de carreiras como administração pública, arquitetura, ciências sociais, artes cênicas, serviço social, filosofia e pedagogia para atuar no Instituto Itaú Cultural, no Instituto Unibanco e na Fundação Itaú Social, em projetos de responsabilidade social. Kássia Beatriz Bobadilla, de 23 anos, graduada em gestão de políticas públicas, é trainee social do ltaú Uníbanco desde julho do ano passado. Alocada na área de planejamento estratégico do Instituto Unibanco, Kássia tem a missão de profissionalizar a gestão dos projetos da instituição no Terceiro se.”O trainee me deu a possibilidade de continuar fazendo o que amo, mas sendo valorizada profissionalmente”, diz. Segundo Josué Bressani Júnior, diretor-presidente da Ge.mte Consultoria, especializada em serviços de RR, como a função maior dos trainees não administrativos é a prospecção e a formação de mão de obra especializada, o fator idade não é tão decisivo nesses programas, ampliando a possibilidade de admissão para profissionais com certa experiência. Para Josué, outra vantagem desses programas é permitir ao trainee atuar. tanto na carreira técnica quanto como gestor. “Teoricamente, ele ingressa para atuar e como especialista, mas, se tiver perfil dele e vir a se tornar gestor ou executivo”,diz. “Todos os trainees contratados são selecionados tendo a expectativa de que se tomem futuros dirigentes. Independentemente de a porta de entrada ser uma função técnica, como engenheiro QU agrônomo”, afirma Gilbert6~ diretor de desenvolvimento humano e organizacional da Votorantim,  que está com as Inscrições  abertas para seus programas de trainee corporativo e especialista.

 

NO FINAL, O DESAFIO DA Gerência

Depois do trainee, o jovem tem de encarar a hora da verdade, quando ele assume a posição de supervisor ou gerente  posições de liderança em que ele terá de justificar até três anos de formação e investimento. É o início da vida real no mundo corporativo. O maior desafio nessa transição é mudar o jeito de pensar. Até esse momento, os trainees são avaliados pelo desempenho individual “Com a promoção a gerente, eles serão medidos pela habilidade em gerir pessoas e obter resultados ~ que só vão aparecer mesmo se o jovem conseguir integrar a equipe e colocar todo mundo na mesma sintonia”, diz Vivian Dib, sócia-gerente da Asap, consultoria de São Paulo, especializada em recrutamento de jovens para posições gerenciais. “Um bom gerente precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar U]J\cargo de chefia depois de um programa  de trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe”, diz Maurício Teixeira, ex-trainee da extinta Telemar e atual diretor  financeiro- da Sascar, empresa de amento de frota; de São Paul6.Para isso.é preciso se conhecer bem, para entender os pontos fortes e fracos, e ter maturidade para comandar os subordinados. “O gerente precisa filtrar as é cobranças que ~ para não pressionar demais sua equipe”, diz Vivian. Para aliviar a pressão, Majorei Dias, gerente interna da fabricante de computadores Deu, distribui  as tarefas que recebe do chefe para os funcionários de sua equipe. É uma solução simples, mas que muito chefe novo demora a colocar em prática, com medo de que os subordinados não executem a função tão bem quanto ele faria. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso  deixá a equipe motivada”, diz Majorei: A seguir, você vai conhecer as histórias de jovens que assumiram a posição de gerente após ter saído do prograrna.de trainee.  Essa turma tem valiosas lições para compartilhar com você.

OLHO NA TURMA

Rodrigo cavaleiro tem apenas 28 anos e é coordenador da Central de Operações da Simpress, empresa especializada em Business Proces Outsourcing (BPO, ou “terceirização de processos do negócio”) de documentos. Atualmente, estão sob sua responsabilidade 1 200 contratos ativos. Apesar do bem-sucedido período como trainee em 2011, Rodrigo não conta com os êxitos do passado. “O que me trouxe até aqui não é o que vai me manter nessa posição”, diz. “É preciso progredir.” Rodrigo compensa a pressão se mantendo consciente de que, a despeito do cotidiano corrido, estar na posição atual é o resultado de uma guinada em sua vida profissional, exatamente como sonhava. Formado em engenharia elétrica, atuou por uma década na área técnica em uma empresa de telecomunicações, até que sentiu necessidade de trabalhar mais diretamente com pessoas. ”Tem sido complexo, mas sinto que aprendo a cada dia.” O coordenador tem 25 subordinados. “Tento fazer com que pensem sobre a carreira dois anos adiante – e eu gosto de ajudá-los nesse planejamento.”

 

PERFIL IDEAL

“O que os gestores buscam nos jovens candidatos a líder Queremos gente que trabalhe com paixão e tenha pretensão de deixar um legado.” Eduardo Feres,diretor comercial da ALL, que começou como trainee e passou por seis cargos em nove anos até chegar à diretoria. ‘-’- Esperamos que esse profissional traga oxigênio para a empresa. Que saiba combinar conhecimento técnico e habilidade para lidar com pessoas com uma visão moderna de tecnologia.” Paulo The ophiLo, diretor de marketing da Simpress, que estreou seu programa de trainee há dois anos. ‘- ‘- Um bom gerente  precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar um cargo de chefia depois de um programa de  trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe, dos pares e dos superiores.” Maurício Teixeira, diretor financeira  da Sascar, empresa de monitoramento defr&ta, que lançou seu primeiro programa de trame» em 2011. Maurício começou a carreira como trainee na antiga telefônica Telemar

CABECA DE DONO

Majorei Dias, gerente interna de vendas da Del~ de 33 anos, assumi  a função em 2010, depois do programa de trainee na área de vendas.  “A grande mudança é o aumento de responsabilidade, agora dependendo de outras pessoas para entregar resultado.·A estratégia da gerente é enxergar o negócio com cabeça de dono e encarar as cobranças como parte natural do processo. Para aliviar a pressão, Marjorie também distribui o  trabalho, delegando tarefas para a equipe. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso deixa a equipe motivada, envolvida, por se sentir parte do sucesso da empresa

FÉ NO QUE FAZ

A biôloga lnis Francke, de 29 anos, gerente científica da fabricante de cosméticos Natura, saiu do trainee para se tornar lr derde uma área de pesquisa. E La trabalha em contato com universidades em busca de novas ideias e tecnologias. Para Inês, o mais importante é acreditar nos valores da empresa e praticá-los no dia a dia. ·0 Ifder é uma referência e tem de dar o exemplo”, diz-,Segundo e ta, mantendo-se fiel aos próprios valores e acreditando  nos propósitos da empresa, facil trabalhar com o time.

FOCO E ORGANIZAÇÃO

Débora Carvalho chegou aos 30 anos como coordenadora e compras da Kraft Foods, dona de marcas como Lacta, Tang, Club Social e Halts. Na função desde 2010, ela acaba de ter suas responsabilidades ampliadas – do Brasil para a América Latina Para manter a sanidade, Débora tenta ser muito organizada. “Mantenho um planejamento semanal. de atividades, sempre alinhado com a direção e a minha equipe”, diz. “Manter o foco pontual em cada prioridade me ajuda a trabalhar com equilíbrio.· No mais, atividade física: spinning e ginástica três vezes por semana

 

É HORADE SE INSCREVER!

número de vagas oferecidas  em programas de trainees não para de crescer. Em 2011, um levantamento feito pela Cia de Talentos, que assessora as maiores empresas no Brasil a selecionar seus jovens talentos, detectou um aumento de 133% na quantidade de vagas abertas. No ano anterior, esse número já havia se elevado em 74%. Para efeito de comparação, em 2011 as oportunidades para estágio cresceram apenas 20%. Com mais companhias disputando os jovens mais qualificados formados pelas faculdades brasileiras, as empresas têm tido de se empenhar para atrair a atenção dos candidatos. Uma estratégia na briga para prevalecer na memória e na preferência Dos loveIlS é aproximá-los de líderes e de outros profissionais da organização. Isso porque as pesquisas indicam que 22% dessa moçada opta por uma empresa após conhecer um profissional  que atua ou já atuou nela – e recomenda a companhia como um bom lugar para trabalhar. Atenta a . esses dados, a organização do prol@made trainees 2013 da Cielo, que processa pagamentos eletrônicos, permite aos candidatos interagir e participar de video chats com líderes e ex-trainees para conhecer melhor os valores, as pessoas e os negócios da companhia. Mas as táticas para seduzir e atrair os melhores não param por aí. Uma pesquisa realizada pela consultoria de recrutamento Page Talent, de São Paulo, com 150 profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro com idade entre 20 e 29 anos mostra que para 44,1% deles um bom salário é o principal atrativo para trocarem de emprego. Por isso, as empresas também têm trabalhado com uma política agressiva de remuneração e benefícios, como se pode conferir nas páginas seguintes. Um levantamento da Cia de Talentos mostra que as perspectivas de crescimento profissional pesam na escolha de 58% dos candidatos, 6′q!le explica as oportunidades de investimento na carreira por meio de capacitações oferecidas durante o programa, bem como a visibilidade dada aos projetos dos trainees. A Votorantim, que atua nos setores de cimento, mineração e siderurgia, permite que o trainee apresente seu trabalho final aos presidentes do grupo. Com tantas opções, os jovens devem escolher com atenção o programa com o qual mais se identificam e que mais se alinhe com suas expectativas. Para ajudá-lo.nessa missão, detalhamos as características de alguns programas que estão com as inscrições abertas. Confira e faça sua escolha!  C&A -Perfil: Maior rede de varejo de moda do BráSi. Período de inscrições: De O de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.cea.com.br. Pré-requisitos: Formação entre dezembro de 2010 e dezembro de 20U nos cursos de administração de empresas, comércio exterior, engenharia, economia, marketing,publicidade e propaganda, comunicação social, relações internacionais, arquitetura e moda; inglês fluente. Benefícios: Plano médico e odontológico, participação nos lucros, desconto nas lojas C&A. Diferencial do programa: Foco no desenvolvimento de competências que permitem ao trainee .assumir uma posição gerencial ao fim do programa GRUPO BOTICÁRIO-Perfil: Empresa brasileira de cosméticos. Período de inscrições: Até16 de agosto. Onde se inscrever: www.grupoboticario.com.br. Pré-requisitos: Ter concluído a graduação há, no máximo, dois anos ou estar no último semestre do curso superior; mobilidade. !: desejável experiência profissional anterior ou estágio. Benefícios: Todos os benefícios relacionados a transporte, saúde, alimentação e previdência oferecidos aos demais funcionários do

Grupo Boticário. Diferencial do programa: Com duração de 18 meses, o programa é focado no desenvolvimento de competências técnicas, comportamentais e com temas voltados

ao negócio. VOTORANTlM Perfil: Opera nos setores de demento, mineração e siderurgia. Período de inscrições: De 7 de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.eunavotorantim.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa entre dezembro de 2010 e dezembro 2012, sem dependências; inglês avançado e mobilidade para morar em outros estados. Benefícios: 5 000 reais, previdência privada,’ assistência médica e odontológica (opcional), remuneração variável Diferencial do programa: O trainee realiza um projeto da empresa que será apresentado num evento com a presença dos presidentes das diversas unidades de negócios do grupo. VLI Perfil: Transporte de carga por portos, ferrovias e terminais marítimos. Período de inscrições: De 25 de julho a 16 de setembro. Onde se inscrever: www.traineevLi.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa no site. Benéficos: 4 300 reais, vale refeição e alimentação, participação nos lucros, assistência médica e odontológica e previdência privada Diferencial do programa: Treinamentos técnicos, que incluem pós-graduação para as turmas de engenharia BRF Perfil: Empresa de alimentos. Periodo de inscrições: De 7 de agosto a 5 de setembro. Onde se inscrever: www.brasilfoods.com/geracaobrf. requisitos: Graduado há, no máximo, dois anos, disponibilidade para viajar e morar em outras cidades, fluência em inglês. , Beneficios: Previdência privada, cooperativa de crédito e desconto em produtos da BRF. Diferencial do programa: Job rotation e alocação em uma das vice presidências para desenvolvimento de projetos supervisionados por executivos da companhia. ERNST li VOUNG TERCO Perfil: Presta serviços de consultoria contábil e auditoria. Período de inscrições: O ano todo. Onde se inscrever: www.traineeseyt.com.br. Pré,.requisitos: Recém- formados ou graduados em ciências contábeis, administração, Direito, economia, relações internacionais, ciências atuariais, engenharia, matemática, estatística e TI. • Benefícios: Vale transporte e alimentação e assistência médica. Diferencial do programa: Serão selecionados 900 jovens para atuar em 12 escritórios no Brasil. Certo Perfil: Processadora de pagamentos eletrônicos. , . Perto do de inscrições: De 13 de . agosto até 24 de setembro. Onde se inscrever: http://www.ciadeta-  Lentos.com.br/ trainees cielo. Pré-requisitos: Conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 e conhecimentos em inglês. Benefícios: Salário fixo, participação nos resultados, plano de saúde e odontológico (opcional), vate transporte,transporte fretado.o ou estacionamento, vale-refeição, ptano de previdência privada. Diferencial. ~ Após os primeiros 12 meses, o trainee passa a ser elegível acoaching Com um gestor da Companhia e aos programas de capacitação’ cta Universidade Corporativa cieLo, que podem resultar em promoções dentro da empresa. REDECARD Perfil:- Empresa de cartões de crédito e débito. Período ele iII$aiçiês: De 16 de  agosto) a 30 de setembro. Onde,se escrever: http://www.redecard.com.br. . Pré-requisites: Ter até 27 anos -,” em janeiro de 2013, conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 em engenharia, administração de empresas, economia, marketing, comunicação social, publicidade e propaganda e relações públicas;  inglês. avançado. 8eIIefides: W salário, vale refeição, vale-alimentação, assistência médica e odontológica, previdência privada. Diferencial  do Os trainees possuem mentores, de reteres ou superintendentes para orientá-los sobre as expectativas pessoais e as trilhas de carreira . EMbRACO Perfil: Multinacional brasileira especializada em soluções para Refrigeração. Período de inscrições: De 28 de agosto a30 de setembro. Onde se inscrever: http;//trainee.embraco.com. pré-requisitos: Ter concluído curso superior em ciências exatas ou humanas há no máximo dois anos; inglês fluente. Benefícios: 4 100 reais, plano de saúde, alimentação, auxilio Instalação e vete-transporte, diferencial do programa: O trainee coordena um projeto estratégico, com o suporte de ex-trainees, profissionais de RH e líderes da área para a qual. o projeto se destina. O jovem com melhor potencial e desempenho é selecionado para desenvolver um projeto de até três meses nas unidades da empresa no exterior. UNILEVER Perfil: Uma das maiores empresas de bens de consumo do mundo. Pré-requisitos: Graduado ou pós graduado entre junho de 2010 e dezembro de 2012. Período de inscrições: Até 27 de agosto. Onde se inscrever: www.uniLever.com.br/carreiras. Benefícios: 5 000 reais, participação nos resultados, assistência médica e odontológica, plano de previdência privado Ao fim do programa de três anos, todos estão prontos para ser Lidere. AM8EV sediada no Brasil e com operações em outros 16 países. Pré-,..aisitos: Habilidade para gerenciamento de pessoas, capa de de liderança, disponibilidade para viagens e inglês fluente. Período de Inscrições: Até 10 de setembro. Onde se inscrever: www.traineeambev.com.br. Benefícios: 4 600 reais, bolsa para pós-graduação, assistência médica e odontológica, previdência privada; e salário, entre outros. Diferencial do programa: Treinamento no Brasil e no exterior.GRUPO FLEURY,Perfil:. Centros.de medicina Integrada e solicitações diagnósticas. Pré-requisitos: Graduação entre “‘dezembro 2OlOe dezembro De 26l2; inglês avançado. Período de inscrição: Entre agosto e setembro de 2012. Onde se Inscrever: www.fleury.com.br. Benefícios: Previdência privada, assistência medica e odontológica, auxilio creche para mulheres e participação nos lucros. Diferencial do Programa: O Fleury forma lideres para atuar em áreas diferentes de negócios.

 

Por que muita Gente boa Tropeça na execução

E ALGO Que JÁ obserVei  eM MUITAS eMPReSAS – MUITOS De NÓS PeNSAMOSque, para atingir metas, basta estabelecê-las. Mas não existe atalho. O trabalho de alcançar resultados é árduo, exige muita disciplina e muito conhecimento de método e técnica. Muitas vezes o planejamento nem sequer chega ao conhecimento de todo mundo que será responsável por executá-lo – em geral, as pessoas da base da empresa. É bastante curioso que as escolas de negócios não ensinem técnicas de execução de planos. E o pior é que todo mundo acha que sabe colocar a mão na massa. até a hora em que tem de efetivamente estabelecer uma meta ou montar um plano de ação – e, na prática. as coisas não andam. A primeira coisa que sugiro é treinar todos os executivos de sua empresa nas coisas básicas do gerenciamento: como desdobrar metas, como montar bons planos de ação, como implementar planos de ação, como conduzir e se preparar para reuniões de controle, como fazer correções de rumo, como padronizar e por aí vaí. As metas de uma empresa. como sugestão, devem se originar de sua necessidade de geração de caixa. medida pelo Ebitda, e devem ser técnica e aritmeticamente desdobradas até o nível de operação. A partir desse desdobramento, devem-se estabelecer os planos de ação, um plano de ação para cada meta. Existe um ritual para estabelecer planos de ação. Planos de ação simples podem se originar de sessões de brainstonníng para as quais você deve convidar pessoas que entendem do que está sendo tratado independentemente de sua posição hierárquica e se são empregadas da empresa ou não. O importante nessas reuniões é fazer a pergunta certa. Por exemplo: “Por que estamos com determinado problema de atendimento na parte da manhã?” Deixe cada pessoa dar sua opinião sem que seja interrompida ou criticada por outros. No final, faça uma votação das melhores opiniões e parta para o plano de ação. Planos de ação também podem se originar de estudos e análises de informação que chegam a durar meses, em alguns casos. Depois vem a fase da execução. Muita gente boa tropeça aqui. Somos todos procrastinadores por natureza, gostamos de postergar tudo até a última hora e às vezes não dá mais tempo, e muita coisa fica sem ser feita ou simplesmente é malfeita Sugiro que a execução seja acompanhada pelo menos com  frequência mensal pela diretoria, semanalmente no nível gerencial e todos os dias na execução, se é que você quer que as metas sejam atingidas. Finalmente, temos as reuniões de acompanhamento, que devem ter agenda anual definida e nunca – veja bem, nunca – ser postergadas. Nessas reuniões, que têm seu ritual próprio, quem bateu a meta fica  quieto e quem não bateu deve levar um plano complementar para garantir que o resultado seja atingido. O que se discute nas reuníões de acompanhamento são esses planos complementares. Se todo mundo bateu a meta, a reniao deve mesmo ser muito curta. E POSSIVEL PENSAR EM UM CONJUIITO DE INDICADORES COMUNS A TODAS as organizações. Uma organização existe para servir as pessoas. Essas pessoas são chamadas “partes interessadas” (ou stakeholders). São clientes, acionistas, empregados e vizinhos (ou sociedade). Com o objetivo de garantir a sobrevivência de sua empresa, você terá de satisfazer todas essas partes de forma simultânea Para isso, você deve criar indicadores sobre cada um deles. Vou lhe dar alguns exemplos de indicadores que eu acho mais fundamentais. Indicadores de mercado: participação de mercado, volume de vendas, margem. Indicadores financeiros: Ebítda, lucro líquido e fluxo de caixa. Indicadores de empregados: rotatividade de pessoal, absenteísmo, clima organizacional. Indicadores de relacionamento com a sociedade (ou imagem): menções positivas e negativas na imprensa, nível de sustentabilidade. Os indicadores financeiros são os mais importantes porque, quando as finanças vão mal, é sinal de que o resto já não está bem. Uma empresa deve ter o cuidado de se manter financeiramente estável e evitar dar saltos maiores do que aqueles que suas pernas permitem. Tenho visto empresas quebrar apesar de baterem recordes de vendas e crescerem. Não podemos nos esquecer de que esses dois movimentos demandam capital que nem sempre está disponível- e muitas vezes a empresa tem de ir aos bancos, e acaba entregando seu resultado futuro e entrando em espiral negativa. Um problema que tenho notado é a dificuldade que alguns de nós temos em correlacionar indicadores financeiros com a realidade operacional da empresa. Seria bom você pensar nisso. Por exemplo: a relação percentual entre o Ebitda e a receita indica diretamente a eficiência de sua operação e pode ser comparada com outras empresas do mesmo setor. Normalmente, cada empresa dá ênfase a certos mercados e indicadores em razão das peculiaridades de seu negócio. No entanto, o importante é manter a consciência e o foco na razão da existência de uma organização – servir as pessoas. Várias organizações, sobretudo algumas governamentais, se esquecem dessa realidade da vida.

 

AS EMPRESAS CAIRAM NA REDE

o FIM DE 2011, A FABRICANTIl DE BRINQUEDOSdinamarquesa Lego lançou um desafio – tanto a seus mai s ardorosos fãs quanto a simples indivíduos desejosos de embolsar uns trocados. Funciona assim: quem tem uma sugestão de novo produto para a Lego deve fazer um projeto, colocá-lo em votação e fazer campanha para ganhar 10000 votos. Tudo isso dentro do site Lego Cuusoo,  uma espécie de rede social desenvolvida pela empresa. Quem alcança a votação mínima tem seu projeto avaliado pelos engenheiros da Lego. E, caso o projeto seja aprovado e o brinquedo acabe nas lojas, ganha o equivalente a 1%das vendas. Dois garotões toparam o desafio e se deram bem. Eles desenvolveram uma versão “Lego” para o jogo de videogame Minecraft, que já vendeu 10milhões de cópias. Oprojeto levou 48 horas para alcançar os 10000 votos (e derrubou os servido res), a empresa encampou a ideia e, lançado em junho, oMinecraft Lego já sumiu das prateleiras. “Não temos nenhuma peça em estoque”, diz Tim Courntey, executivo da Lego responsável pelo site Cuusoo. Quando começaram a surgir, as redessociais logo foram tachadas de inúteis, sobretudo pelos pais que viam seus filhos passar horas babando em frente ao computador. E, no início, pode ser que a crítica fizesse mesmo algum sentido. Mas, aos poucos, as redes foram mudando, e os usuários também. Hoje, abrigam currículos, servem de site pessoal para profissionais liberais – e os pais também passam horas babando na frente do computador. Com as empresas, tem-se observado uma mudança semelhante. Nos primeiros anos, executivos enxergavam sites como Orkut e Facebook como uma ameaça. Era preciso “fiscalizar” o que se dizia. Outra obsessão era disputar com os concorrentes quem tinha o maior número de “fãs”. Tudo muito interessante, até que as empresas começaram a perceber que as redes sociais também são o lugar certo para ganhar dinheiro, inovar, vender – e, claro, continuar dando aquela fiscalizada básica no que se diz. A Lego é um dos milhares de empresas que encarnam essa mudança de atitude. Um estudo recente da consultoria Deloítte mostra que 52% dos executivos consideram as redes sociais importantes para o negócio. E 86% deles afirmam que essa importância crescerá nos próximos três anos. Dado o ritmo alucinado das transformações, muitas empresas presentes nas redes sociais ainda estão rodando num “software” antiquado -’há aquelas que chegam a usar a lista de seguidores para mandar sparns, algo que já era condenável quando os e-mails se popularizaram, há cerca de 15 anos. “Vivemos um início parecido com o boom do comércio eletrônico, no final da década de 90″, afirma o brasileiro Alexandre Hohagen, vice-presidente do Facebook na América Latina. “Todo mundo queria estar lá, mas poucos sabiam o que fazer.” Hoje, as experiências mais bem sucedidas em redes sociais mostram que o caminho, depois de aberto, melhora o atendimento ao consumidor, cria novos canais de venda e ajuda até mesmo na concepção de novos produtos. Até o poder “fiscalizador” das redes sociais acaba gerando efeitos positivos para o negócio, como vem acontecendo com o Bradesco. Quando um correntista descontente reclama pelo telefone, sua insatisfação pode ser ouvida pelas poucas pessoas ao redor. Um comentário negativo numa rede social pode chegar a milhares de pessoas. Por essa razão, o banco começou a fazer atendimentos por meio do Facebook e do Twitter em 2010. “Hoje, o cliente recebe uma mensagem minutos depois de fazer um comentário negativo no Facebook ou no Twitter”, afirma Luca Cavalcanti, diretor de canais digitais do banco. Um dos efeitos das redes sociais no banco foi o surgimento de duas categorias de clientes. Os que continuam fazendo suas reclamações pelo telefone esperam, em média, até dois dias por uma solução. Muitos daqueles que recorrem às redes sociais veem suas demandas atendidas em algumas horas. Como essa mudança não passou despercebida pelo público, a média mensal das ligações ao SAC do Bradesco caiu de 455000, em 2011, para 260000, neste ano. Não deixa de ser curioso que uma ação defensiva – proteger o banco de críticas – tenha servido para melhorar o serviço de relacionamento com os correntistas, pelo menos com a fatia das redes sociais. Se melhorar o relacionamento com a clientela é uma forma quase óbvia de aproveitar o poder das redes sociais, as empresas estão descobrindo que elas são a forma mais simples de atingir uma espécie de nirvana da inovação – o crowdsourcing, expressão sem tradução para o português que significa “usar a inteligência coletiva para resolver problemas”. É o modelo adotado pela Lego. No Brasil, nenhuma empresa fez isso de forma tão barulhenta quanto a gigante de alimentos Pepsico, quando lançou, no ano passado, a campanha que selecionou um novo sabor para a batata Ruffies. Os consumidores enviaram quase 2 milhões de sugestões por meio de mídias sociais. A empresa selecionou três finalistas, mas levou a decisão final para os supermercados. Em dois meses, colocou os três novos sabores à venda e, com base na votação dos consumidores  nas redes sociais, acabou premiando o Strogonuffles, sugerido pelo empresário Helder Lanzoni, de 28 anos, morador de Itapira, em São Paulo. Ele levou 30000 reais e 1% sobre a renda gerada pelo produto durante os seis meses em que ficou no mercado. “Recebi mais de 50000 reais”, diz Lanzoni. De acordo com Renata Figueiredo, diretora de marketing da Pepsico, a iniciativa ajudou a marca a crescer’ 15% as vendas de Ruflles no ano passado. Se a ideia de uma batata frita com gosto de estrogonofe tivesse nascido numa reunião de engravatados na sede da Pepsico, seu autor acabaria obrigado a procurar emprego (atualizando seu currículo no LinkedIn, claro). Com uma abordagem parecida, a rede americana de cafeterias Starbucks já recebeu 135000 sugestões de produtos e serviços em quatro anos de sua rede social. Mais de 220 foram implementadas. Um dos internautas sugeriu que a empresa criasse um aplicativo de celular para usá-lo como meio de pagamento nas lojas. Hoje, ele está disponível nos Estados Unidos, no  Reino Unido e no Canadá. “Desde o lançamento do aplicativo, em janeiro de 2011, foram mais de 55 milhões de dólares em transações só nos Estados Unidos”, diz Kelley Myers, responsável pelo marketing da Starbucks, A~POR….-nlO A primeira grande mudança provocada pelas redes sociais no mundo dos negócios  foi aumentar o contato com o consumidor. A segunda começa a acontecerdentro das companhias, na forma como os funcionários trocam informações. Nos anos 90, o então presidente da empresa de tecnologia americana Hewlett-Packard, Lew Platt, disse que, se a empresa soubesse o que todos os funcionários pensavam, ela seria três vezes mais produtiva. Passadas duas décadas, as mídias sociais estão se tornando, aos poucos, a principal plataforma de troca de ideias entre a empresa e seus funcionários. Um exemplo americana Yammer, considerada o Facebook das redes corporativas. Adotado por 18% das empresas nos Estados Unidos, o serviço oferece ferramentas que permitem aos funcionários acessar a intranet do celular e trabalhar em projetos em equipe de qualquer lugar. O sucesso do Yammer chamou a atenção da Microsoft, que comprou a empresa em junho por 1,2 bilhão de dólares. Segundo a fabricante sul-coreana de eletrônicos LG,o uso do Yammer poupa, em média, 3 horas de trabalho por semana dos gerentes. Um grupo que recebeu a missão de criar um guia de treinamento para novos funcionários completou o projeto em quatro semanas, oito a menos do que o esperado, porque o contato com as subsidiárias era mais dinâmico. Quem não adere a serviços como o Yammer pode montar sua rede social dentro de casa. A Portugal Telecom criou há três anos uma intranet aberta apenas aos 11000 funcionários da empresa no mundo. As mais de 5000 ideias recebidas até hoje geraram ganhos que devem chegar a 70 milhões de reais em 2012. “São propostas que poderiam ter sido adotadas antes, mas não havia um canal eficiente para isso”, afirma Ricardo Rosado, gestor de inovação  da Portugal Telecom. Ele explica que o ambiente de competição e de incentivos toma as redes sociais mais atrativas do que formas antigas de participação, como a inútil caixa de sugestões. A ideia que trouxe mais retomo foi dada em novembro de 2011:reformar 100%das caixinhas receptoras de sinal de TV por assinatura, recolhidas quando os usuários cancelavam o serviço. De acordo com a empresa, a medida deve resultar na economia de 50 milhões de reais por ano. VENDAS PELO MCEBOOK Um dos setores da economia que olham o fenômeno das redes sociais com mais atenção é o varejo. Seja é-possível usadas para traçar um perfil detalhado de quem compra, o próximo passo é o chamado comércio social – transformar os fãs em vendedores da marca. Depois de fazer um projeto piloto entre agosto de 2011e fevereiro deste ano, o Magazine Luiza estreou o Magazine Você,um serviço que permitiu a usuários criar páginas no Facebook para vender produtos da loja. A pessoa se leciona os produtos, compartilha essa lista com seus contatos e, a cada venda realizada, ganha uma comissão que varia de 2,5%a 4,5%do valor total. Segundo Eduardo Galantemick, diretor de comércio eletrônico do Magazine Luiza, já são 47000 vendedores pelo Facebook. O executivo explica que a taxa de conversão – relação de pessoas que visitam e finalizam uma compra no Magazine Você – chega a ser 40% maior do que na loja online do Magazine Luiza. O cearense Josyano Ferreira, coordenador de tecnologia de uma escola de Fortaleza, é um dos campeões de vendas. Segundo ele, as comissões das vendas rendem 400 reais por mês, o que equivale a 20% de sua renda. “O canal já vende mais do que uma loja física do Magazine Luiza com tamanho razoável”, diz Galanternick,que se negou a revelar os dados oficiais do Magazine Você. Os consultores de varejo ouvidos por EXAME estimam que uma loja de porte médio do grupo fature mensalmente entre 1milhão e 1,5milhão de reais. Nos últimos meses, houve um aumento no ceticismo em relação ao investimento de empresas nas redes sociais por causa da crise enfrentada pelo Facebook. A companhia abriu o capital no dia 18de maio de 20U e, desde então, o valor de seus papéis caiu de 38 para menos de 20 dólares. Uma das razões apontadas por analistas de mercado foi a redução no crescimento do gasto de empresas em campanhas publicitárias, responsáveis por 84% do faturamento. Mesmo com os dados negativos, o Facebook, uma companhia com oito anos de vida, tem valor de mercado de 50 bilhões de dólares. “Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Essa febre de usuários do Facebook poderá até passar nos próximos anos e outra empresa surgir como a força dominante”, diz Gerald Kane, professor de sistemas de informação da Universidade de Boston. “Oque não irá retroceder é a interação entre empresas e pessoas nas redes sociaís.” Bradesco, Lego, Pepsico, Starbucks e Portugal Telecom, entre tantas outras empresas, não têm a menor dúvida disso.

 

O NOVO BILIONARIO DO VALE

A carreira do empreendedor  americano Jack Dorsey, de 35 anos, começou cedo. Aos 13 anos, ele ganhava dinheiro programando sistemas de rotas para empresas de táxi em sua cidade natal, St. Louis, no estado do Missouri. Aprendeu programação sozinho em um PC da IBM comprado pela famíla  em 1984.Aos 21 anos, foi estudar programação na Universidade de Nova York. Depois de passar por diversos empregos, chegou em 2006 à Odeo, uma jovem empresa da Califórnia especializada em podcasts, softwares de áudio digital. A empresa não estava indo bem. Certo dia, Evan Williams, fundador da Odeo, fez uma enquete com seus funcionários: o que eles fariam se a empresa precisasse começar do zero? Valia qualquer resposta. Dorsey mostrou, então, um projeto que guardava na gaveta: um aplicativo que permitia que as pessoas informassem aos amigos, por mensagens de celular, o que estavam fazendo em determinado momento. Williams gostou, mas decidiu transformar o aplicativo em um site. Em duas semanas, o projeto, batizado de “Twitter”, estava no ar. “Convidando colegas de trabalho”, foi o primeiro post do Twitter, escrito por Dorsey,em julho de 2006. Deu tão certo que o programador virou o presidente da empresa, e Williams ficou no comando do conselho. ‘ O sucesso meteórico de Dorsey não veio sem traumas. Logo começaram a aparecer problemas de gestão aparentemente simples e previsíveis, como os picos de acesso, que, nas mãos do jovem programador, tornaram-se grandes confusões. Diariamente, o site do Twitter saía do ar. Não tardou para que os dois amigos rompessem. Williams retomou o cargo de presidente, e Dorsey passou para o conselho de administração.Apesar dos percalços iniciais, o Twitter seguiu sua trajetória ascendente e acabou se consolidando como uma das maiores redes sociais do mundo, com 500 milhões de usuários. Mas o rompimento com Williams não fez bem a Dorsey. Na única vez em que se pronunciou sobre o assunto, foi enfático. “Foi um soco no estômago”, disse em uma entrevista à revista Vanity Eair. A briga, no entanto, abriu caminho para ele criar a segunda empresa. No início de 2009, Jim McKelvey, um ex-chefe seu que havia abandonado o mundo da tecnologia para se dedicar às artes plásticas, ligou para contar que havia perdido uma venda de 2 000 dólares porque uma cliente não tinha dinheiro vivo e ele não possuía uma máquina de cartão de crédito. McKelvey, então, perguntou por que Dorsey não criava um aplicativo de celulares para que pequenos comerciantes aceitassem pagamentos de cartões.  A conversa foi o embrião da Square, empresa que tem como principal produto um leitor de cartões de crédito e débito que se conecta a smartphones e tablets, e cobra uma taxa de 2,75% de cada transação. Quando surgiu em 2007. o Twitter foi considerado um serviço inovador, mas acabou demorando dois.anos para deslanchar. Hoje, é o Square que está no mesmo estágio. Visto como uma.promessa na forma como fazemos nossos pagamentos, ainda precisa provar que será um marco. O americano Sam Hamadeh, sócio da PrivCo., consultoria especializada em empresas de capital fechado, e amigo de Dorsey, lembra da primeira vez em que o Square foi usado, em janeiro de 2010. “Eu, Dorsey e Sean Parker (presidente do Facebook na época) organizamos um evento em minha casa, em Nova York, com a intenção de arrecadar fundos para a campanha política da democrata Reshma Saujani, que disputou uma vaga na Câmara dos Deputados”, diz Hamadeh. Segundo ele. mais de 100 pessoas compareceram à festa. Dorsey passou smartphones com os leitores do Square para seus convidados, que fizeram as doações usando cartão de crédito. “Levantamos 20 000 dólares. Mas o mais importante foi que as pessoas ficaram entusiasmadas com a invenção”, lembra Hamadeh. No início de agosto, o Square anunciou uma parceria de 25 milhões de dólares com a rede americana de cafeterias Starbucks. Na fase inicial do projeto, os clientes de 7 000 franquias do Starbucks nos Estados Unidos poderão pagar suas compras com um código de barras em seus smartphones, Já usado por 1milhão de comerciantes, o Square recebeu, em julho, 220 milhões de dólares do fundo de private equity britânico Rizvi Traverse. Oaporte elevou seu valor de mercado para 3,2 bilhões de dólares e acabou fazendo de Dorsey; que tem 3%do Twitter, o novo bilionário do Vale do Silício. Em uma entrevista para o apresentador americano Charlie Rose, Dorsey tentou resumir tudo o que vinha fazendo desde o primeiro software que desenvolveu em seu PC da IBM ainda na adolescência em St. Louis. “Meu objetivo sempre foi simplificar as interações humanas”, disse. Além de suas incursões como empreendedor, Dorsey tem mostrado talento como investidor. Em 2011,participou de uma rodada de investimentos de 7milhões de dólares no Instagram, aplicativo de fotografias para smartphones.Um ano depois, a empresa foi vendida ao Facebook por 1bilhão de dólares. Seu perfil no Twitter tem mais de 2 milhões de seguidores, número próximo ao de celebridades como o roqueiro Ozzy Osbourne e a atriz americars Miley Cyrus. Apesar do interesse que desperta, Dorsey é conhecido por ser  reservado. Além disso, tem fama de ter demorado a usufruir dos  confortos que sua fortuna pode oferecer. Por anos, morou num apartamento de 1milhão de dólares em São  Francisco Quando, em junho, decidiu troca-lo por uma mansão de mais de 10 milhões de dólares, com vista para a te Golden Gate, fez questão de evitar qualquer comentário sobre o assunto – foi a corretora de imóveis que espalhou a notícia. “Com seu estilo reservado, Dorsey já mudou a forma como nos comunicamos pela internet e deu início a uma revolução em como fazemos compras”, afirma Peter Fenton, sócio do Benchmark Capital, fundo americano de capital de risco. Se o sistema de pagamentos imaginado por Dorsey será mesmo revolucionário, ainda não sabemos. O que se sabe é que o Square já contribuiu para alçá-lo ao seleto clube dos empreendedores bilionários do Vale do Silício.

 

 A LUZ DO VIZINHO E MAIS VERDE

O QUE SIGNIFICA PARA UMA FAMILIA gastar 200 quilowatts-hora por mês na conta de luz? Para um leigo, a informação de consumo não quer dizer muita coisa É um gasto excessivo? Está dentro da média de consumo de residências similares? Foram dúvidas assim ,que inspiraram os americanos AlexLaskey e Dan Yates,ex-colegas da Universidade Harvard, a fundar em 2007, na cidade americana de Arlíngton, a Opower. A empresa traduz a conta de luz de 15milhões de residência sem cinco países – Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido e Austrália Nos últimos três anos, a companhia ajudou os consumidores a economizar cerca de 1terawatt-hora de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de 200000 habitantes por um ano. O conceito é simples: um sistema online reúne as informações colhidas por relógios de energia nas residências, componentes básicos do que se convencionou chamar de redes elétricas inteligentes. Odiferencial do software da Opower, que lê e processa esses dados, é o nível de detalhamento de sua análise. Ele compara o consumo de determinada residência com o gasto médio de casas semelhantes nas redondezas. Se o usuário estiver gastando muito, a empresa indica os horários com tarifas mais baixas, junto com um aviso escrito na conta: ”Você usou 49% mais energia do que seus vizinhos no último mês. Isso lhe custará um extra de 558 dólares por ano”, como descreve o material promocional da empresa “Essas informações fazem muitas pessoas tomarem uma atitude mais sustentável”, diz o americano Michael Sachse, vice-presidente da Opower, que tem contrato com 75 fornecedoras de energia, sendo que oito estão entre as dez maiores dos Estados Unidos. Aexpectativa é que mais 1terawatt- hora seja poupado nos próximos 12meses, ou 120milhões de dólares  em contas de luz. Pode soar estranho as fornecedoras de energia se aliarem a uma empresa que faz seus clientes gastar menos. Mas elas também saem ganhando. Os horários variam, mas todas as empresas de eletricidade do mundo sofrem com os picos de consumo. Em países frios, os relógios de energia giram mais rapidamente das 17às 19horas, quando as pessoas chegam em casa e ligam o aquecedor. No Brasil, o consumo sobe das 18às 21horas, período em que vários ‘eletrodomésticos e chuveiros são acionados. Para atender a essas variações, as empresas gastam muito na construção de usinas e de linhas. Se conseguem que os consumidores evitem os picos com tarifas diferenciadas, as empresas também reduzem a necessidade de ampliar a capacidade de geração e transmissão. É nesse ponto que entram empresas como a Opower, que mostram quais são as casas e os horários em que as pessoas estão gastando acima da média. Por que não programar a máquina de lavar louça para funcionar na madrugada, quando o preço da energia é menor? Estima-se que, se ao menos 10% do consumo dos americanos em horários de pico fosse transferido, o ganho seria de cerca de 23 bilhões de dólares, ou o equivalente a um ano de geração de energia no país. A Opower, como era de esperar, não está sozinha CPFL Energia, com sede em Campinas, no interior de São Paulo, assinou um contrato para comprar medidores da eMeter, fabricante de leitores inteligentes do grupo Siemens. Já a Light, presente no estado do Rio de Janeiro, começou um projeto que prevê a instalação de 100000 medidores até o fim deste ano. Aos poucos, as tecnologias que conseguem aliar redução de custos para as empresas de energia a um consumo mais responsável por parte dos usuários começam a se disseminar. No caminho, atraem cada vez mais investimentos privados e aplausos no meio político. Em visita recente à sede da Opower, Barack Obama resumiu o sentimento geral: “Empresas assim são boas para a economia, para o meio ambiente e para o pais”

 

 

 

PENSAO SEM FUNDOS

PERsPECTIVA DE O BRASIL TER, finalmente, juros baixos tem sido justamente comemorada. O crédito fica mais barato, a bolsa costumam ganhar impulso, as empresas tendem a aumentar seus investimentos. Mas um grupo de pessoas está apavorado (ou, se não está, tem motivos para se apavorar) com esse cenário tão celebrado: os diretores e os investidores dos fundos de pensão. Quando os juros caem, a rentabilidade desses fundos – que reúnem as reservas para a aposentadoria de 3,2 milhões de funcionários de empresas e bancos, públicos e privados – cai junto, como ocorre com todas as aplicações que dependem da renda fixa. O problema é que muitos desses fundos têm, por contrato, a obrigação de render mais do que os juros de mercado, hoje em 8%.Em média, os valores das aposentadorias têm de ser corrigido sem 12,4% ano a ano. Atingir esse percentual tem sido quase impossível. E ninguém consegue imaginar de onde o dinheiro virá. Um levantamento feito por EXAME mostra que, em 2011,dez das 15maiores fundacões do país não conseguiram entregar  que prometeram. É o caso de Previ, do Banco do Brasil, Valia, da mineradora Vale, e Postalis, dos Correios. O déficit somado do mercado de fundos foi de quase 9 bilhões de reais. A maioria dos planos tem recursos em caixa para fechar a conta e seguir pagando as aposentadorias normalmente. Mas, se o descompasso continuar, vai faltar dinheiro. Em risco, só no caso desses dez fundos, está a aposentadoria de 1milhão de trabalhadores – e essa, como se verá adiante, é apenas uma parte do problema. Só para recu perar o que não fizeram no ano passado, as fundações precisam entregar um retorno de, no mínimo, 14% em 2012, segundo um estudo da consultoria Mercer. No ano passado, a Previc, autarquia do Ministério da Previdência que fiscaliza esse segmento, interveio em quatro fundos de médio porte, entre eles o Portus, da Companhia Docas, que estão perto de ficar sem dinheiro para pagar as aposentadorias. Há duas alternativas: pedir dinheiro às companhias que patrocinam os fundos ou aumentar as aplicações mensais dos investidores – o que não é fácil: a Fundação Cesp tentou aprovar isso recentemente e não conseguiu. Esse é um problema novo num setor que convive há anos com a perspectiva de uma trombada. No fim dos anos 90, o Tesouro Nacional teve de colocar dinheiro nos fundos de pensão do Banco do Brasil,da Petrobras e de outras companhias estatais para evitar que eles deixassem de pagar aposentadorias (o buraco era de quase 20 bilhões de reais). Ficou tudo bem por uma década Agora, os riscos voltaram. A origem do desafio atual é uma lei de 1977, que criou a garantia de rentabilidade dos fundos de pensão – na época, o principal título público, a ORTN, rendia 6% mais a inflação, e estabeleceu-se que os planos tinham de pagar, no mínimo, isso. Essa obrigação ficou por aí, como um fóssil financeiro de tempos remotos. Com a estabilização da economia, ficou evidente que seria impossível manter essa situação por muito tempo, e o modelo vem sendo abandonado nos novos planos. Mas, apesar disso, 31% dos planos do mercado brasileiro ainda têm rentabilidade definida, e o Ministério da Previdência não sabe o que fazer com eles, dados os riscos que correm no cenário de queda de juros &MA MEDIDA PALIATIVA Segundo EXAME apurou, uma das alternativas em estudo é reduzir as metas de retomo, tomando como base o rendimento dos títulos públicos de longo prazo atrelados à inflação (que, atualmente, rendem cerca de 4% acima do IPCA). Seria, na melhor das hipóteses, uma medida paliativa. “Se o juro cair mais, a rentabilidade desses titulos também vai diminuir”, diz José Roberto Ferreira Savoia, professor de finanças da USP e ex-secretário de Previdência Complementar. Alguns fundos, como o Aceprev, da siderúrgica ArcelorMittal, reduziram as metas por conta própria nos últimos meses. Só que estender essa mudança a todo o mercado não é simples, porque é preciso fazer um ajuste contábil. Como a previsão de rentabilidade no longo prazo diminui, o volume atual de recursos nos planos precisa aumentar para que não falte dinheiro para pagar as aposentadorias no futuro. Ou seja, os fundos precisam colocar dinheiro para fazer a mudança, e nem todos têm caixa A outra hipótese em estudo para salvar os fundos de pensão depende da ajuda do governo. Quando um plano consegue bater suas metas de retorno com folga por três anos, ele precisá distribuir o ganho aos investidores. Ou  seja, não pode manter a sobra de caixa para usá-la em períodos conturbados – em que, por exemplo, as ações ficam mais baratas, abrindo uma oportunidade de ganhos no longo prazo, algoquE deveria ser a meta maior de um gestor de fundos de pensão. A Previc diz que planeja mudar essa regra para aumentar a flexibilidade na gestão. “Para conseguir esse dinheiro extra num cenário de juros mais baixos, os fundos precisam mudar seus investimentos e arriscar, mas nem todos vêm fazendo isso”, diz François Racicot, diretor da consultoria Mercer. Na média, a carteira de ações das fundações está no mesmo patamar de 2004: representa 30% do pa- trimônio. No mesmo período, a taxa básica de juro caiu pela metade. Os gestores, portanto, seguem viciados em investimentos de renda fixa que pagam cada vez menos. Quem muda se dá bem. A Fundação Cesp e a PrevDow, da empresa química Dow, reduziram a carteira de títulos públicos que seguem os juros de mercado e passaram a comprar papéis atrelados à inflação – com isso, ficaram entre as poucas que cumpriram suas metas em 2011.A Valia e a Funcef, da Caixa Econômica, passaram a aplicar em fundos de private equity, como é praxe nos Estados Unidos. Se a situação dos fundos de pensão de bancos e empresas é delicada, a dos planos de previdência dos estados e dos municípios é critica. Criados em 1998, já estão sem recursos para pagar as pensões. Alguns estão fechando a conta com dinheiro público – no Rio de Janeiro, parte dos recursos dos royalties do petróleo está sendo usada para pagar as aposentadorias. O principal problema, dizem os especialistas, é a gestão pouco profissional. Até 2008, qualquer funcionário podia cuidar dos investimentos dos fundos (hoje, é exigido um certificado comprovando algum conhecimento do mercado financeiro, o que também não ajuda muito). Esses planos estavam entre os principais cotistas dos papéis do banco Cruzeiro do Sul, que está sob intervenção do Banco Central desde junho. Também aplicaram em CDBs do banco Santos, que quebrou em 2004, Casos como esses chamaram a atenção de tribunais de contas, que estão processando os gestores pelos prejuízos. Só no caso dos planos estaduais e municipais, 7,5 milhões de aposentadorias estão em jogo – gente que tem motivo para se preocupar com a queda de juros comemorada pelo resto do país.

 

AS EMPRESAS QUEREM SAIR

Os investidores individuais estão saindo da bolsa – e as empresas também. No início de agosto, havia 369 companhias na Bovespa, o menor número desde 2007. Isso ocorreu porque 130empresas fecharam o capital nesse período (enquanto 99 lançaram ações). Quando as ações chegam a um patamar considerado baixo demais pelos controladores, é natural que ocorram ofertas para recomprar os papéis dos minoritários e deixar a bolsa. A Laep, sócia do laticínio LBR, e a empresa de logística LLX foram as últimas a anunciar a intenção de sair da bolsa.

 

PARA GANHAR DOS JUROS

Um dos títulos de renda fixa com melhor rendimento do mercado são as letras financeiras: Emitidas por grandes bancos, elas têm pagado aos investidores em torno de 106% do CDI – o equivalente a 8,5% ao ano. O problema das letras é a falta de liquidez: o vencimento costuma ocorrer em dois anos e ‘os bancos não compram de volta antes do prazo; quem quiser vendê-las antes precisa negociar no mercado, geralmente dando um desconto.

 

O FUNDO DE 158%

Um prédio comercial no bairro da Barra Funda, tem feito a alegria dos investidores. O dono do prédio e o Fundo Memorial, administrado pela corretora Coinvalores. O rendimento em 12 meses foi de 158%. A valorização se deve a renovação de contrato de aluguel. Em 2010, a empresa de telemarketing Ateno, que ocupava 80% do edifício, saiu.  Em 2011 os andares foram alugados por outras empresas, que pagaram 175% a mais. O aumento compensou a queda causada em 2010 pela saída da Ateno. Em dois anos, o retorno acumulado foi de 110%, o quinto maior do setor.

 

CONTINUA BARATO

Mesmo com a alta da bolsa nas últimas semanas – o Ibovespa subiu 10% em três semanas -, as ações brasileiras seguem historicamente baratas, segundo um levantamento da gestora Franklin Templeton. Os pesquisadores mediram a relação entre o valor de mercado e o patrimônio das empresas listadas (quanto mais baixo, mais barato está o papel). Chegaram à conclusão de que, por esse critério, a bolsa está no nível mais baixo desde 2003. Antes de sair comprando, é bom lembrar que, se nada melhorar, as ações – mesmo as mais baratas -  podem continuar em baixa. “Os grandes investidores, que movimentam o mercado, estão cautelosos. Eles só vão comprar quando estiverem seguros sobre os números das empresas”, diz Frederico Sampaio, gestor da Franklin Templeton.

 

A FESTA DOS ROYALTIES

subiu à tribuna da para parabenizar a dos Goytacazes, no por ter entregue à cidade o Populares Osório Peium sambódromo. Com inaráveis às do Anhembi, na capital paulista, a passarela pode receber 40000 pessoas, o equivalente a quase 10% da população de Campos. O sambódromo foi entregue em março para o seu Carnaval fora de época, com mais de um ano de atraso. Consumiu 80 milhões de reais, 10 milhões a mais que o previsto. O dinheiro veio de uma fonte especial: os royalties do petróleo, uma espécie de participação na receita obtida com a extração diária de milhares de barris na bacia marítima que leva o nome da cidade. Para Feijó, o sambódromo é um exemplo: “Isso é o dinheiro dos royalties bem aplicado, porque resulta em melhor qualidade de vida para a população”, disse o deputado, correligionário da prefeita Rosinha Garotinho, mulher de Anthony

Garotinho, ex-governador fluminense. Orávio de Campos, secretário municipal de Cultura, defende a mesma tese: “O Centro de Eventos Populares era uma necessidade do município. Não podia deixar de ser feito”. Como Campos é a cidade que mais recebe royalties do petróleo – quase 10 bilhões de reais na última década -, a impressão que se tem é que a prefeitura já resolveu problemas em áreas que costumam ser criticas, como saneamento, saúde e educação, e agora pode dedicar parte do caixa para tocar projetos mais festivos. Não é bem assim. De 2000 a 2009, a cidade caiu da 17~para a 42~ colocação no ranking de desenvolvimento dos municípios fluminenses. Elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, o ranking associa indicadores de educação, saúde, geração de emprego e renda da população. A situação da educação ilustra bem o motivo da perda de posições na lista. Campos tem 40 escolas e creches funcionando em casas alugadas – 17% da rede municipal. Localizada a 20 quilômetros do sambódromo, a Escola Municipal de Campo Novo funciona numa casa de três quartos que é alugada há 18 anos. As 180 crianças que lá estudam em

dois turnos contam com um único banheiro e não têm nenhum refeitório. A vizinha Escola Municipal Jacques Richer tem refeitório, mas ele está ocupado por uma sala de aula para abrigar os alunos de outra instituição, a Escola Municipal João Goulart, que estava caindo aos pedaços e foi demolida no final do ano passado. Hoje, além de conviver com a superlotação, a Jacques Richertem turmas “multisseriadas” – os alunos do 4º e do 9 ano do ensino fundam~ntal têm aula juntos para “economizar” professores. Oconteúdo que era para ser dado ao longo de um ano é achatado em um semestre. OÍndice de Desenvolvimento da Educação Básica de Campos, divulgado em 2010, foio mais baixo do estado para os primeiros anos do ensino fundamental: nota 3,3.”Campos tem recursos de sobra, mas aplica de maneira errada”, diz Denise Terra, economista da Universidade Candido Mendes e especialista em aplicação de royalties. Infelizmente, a festa dos royaltíes não ocorre apenas em Campos. Bem longe dali, em Guamaré, no Rio Grande do Norte, o dinheiro do petróleo embala uma folia depois da outra Nos últimos dez anos, a pequena cidade a 170 quilômetros de Natal recebeu 202 milhões de reais em royalties. No mesmo período,  Guamaré trocou de prefeito oito vezes. O Tribunal de Contas do Estado deu parecer contrário à prestação de contas de três deles. Um foi preso por desvio de verbas. Neste momento, o Ministério Público investiga os gastos com festas dos dois últimos prefeitos. Auricélio Teixeira precisa explicar os 785000 reais pagos a bandas no Carnaval de 2011. O atual prefeito, Emilson Borba Cunha, tirou do caixa 2 milhões de reais para animar o Carnaval deste ano e mais 2,2 milhões para bancar o oba-oba no aniversário da cidade, ao som das vozes de Zezé di Camargo e Luciano, Fábio Jr. e Reginaldo Rossi Guamaré tinha tudo para ser próspera Além de poços de petróleo, tem três parques eólicos, um terminal aquaviário,  últimos quatro anos, o número de empresas locais dobrou para 266. Guamaré é hoje o 2()!! município do Brasil em PIB per capita: 90230 reais, quase o triplo da renda paulistana Aprosperidade, porém, não passa de um efeito contábil, fruto da divisão de um PIB turbinado por uma pequena população de 12000 habitantes. Não muito longe do centro estão comunidades como o Morro do Judas, um bairro com ruas de terra, sem água, luz e esgoto. Os moradores, como o agente de saúde Raurison Souza, precisam fazer gambiarras para garantir o mínimo de água em casa A Petrobras chegou à cidade em 1982, mas até hoje a maior parte da população não tem qualificação para aproveitar as centenas de vagas abertas no setor de energia. Enquanto as empresas de petróleo importam trabalhadores de outros estados, um quarto da cidade trabalha na prefeitura, os analfabetos representam mais de um quinto da população (o dobro da média brasileira) e quase 10% vivem na extrema pobreza O único local onde os moradores poderiam obter alguma qualificação é no pequeno centro técnico do município, que oferece apenas 68 vagas em três cursos. Lucas Fenix de Oliveira, de 22 anos, até tentou entrar lá,mas não conseguiu. Como as vagas são restritas, a escola não aceita que duas pessoas da mesma família estudem ao mesmo tempo. No caso de Oliveira, deram preferência ao irmão mais velho. Mas ele não desistiu de melhorar a formação. Após o traba lho como monitor ambiental numa fundação, faz bicos em um supermercado e usa o dinheiro para bancar o curso de eletrotécnica, na cidade vizinha Oque prospera em Guamaré é o assistencia- Iismo.Umtotal de 2300 famílias recebe da prefeitura um cartão com 120 reais para gastar no comércio. Outras 267 estão no programa de auxílio-aluguel. . Há ainda 1604 beneficiadas pelo Bolsa Fanu1ia.Morando à beira do rio Aratuá, que contorna Guamaré, o pescador Toninho Fonseca e sua mulher acompanharam a transformação da terra natal nos últimos 30 anos. Criaram cinco filhos com a renda da pesca, a principal atividade da cidade antes da chegada da Petrobras. O que mudou para eles? O casal agora pode observar a cidade mais do alto, pois a casa ganhou um segundo piso erguido com restos de materiais abandonados por empresas. “O dinheiro que corre por ai não chega aos filhos de Guamaré”, diz Fonseca. DISTORCOES Um estudo da consultoria Macroplan, obtido com exclusividade por EXAME, indica que distorções observadas em Campos e Guamaré podem estar ocorrendo em muitos dos 905 municípios beneficiados por repasses da indústria do petróleo. O estudo avaliou as 25 cidades (16 no Rio de Janeiro, cinco no Espírito Santo e quatro em São Paulo) que mais receberam royalties de 2000 a 2010. No conjunto, elas arrecadaram, em repasses do setor do petróleo, um total de 27 bilhões de reais no periodo. O dinheiro deveria ser aplicado para ampliar e aprimorar os serviços públicos, mas não foio que se deu. Enquanto a arrecadação com royalties triplicou na década, o investimento das prefeituras cresceu apenas 24%. Isso explica em parte por que, na prática, a convivência com a cadeia do petróleo, que deveria impulsionar um ciclovirtuoso, tem contribuído para piorar a qualidade de vida em muitas localidades. Oque ocorreu é uma espécie de contrassenso. O dinheiro fez o produto interno bruto dos municípios crescer a taxas superiores às dos respectivos estados. Mas a renda da população não aumentou na mesma proporção e ainda é baixa. No conjunto das 25 cidades, quase 10% dos habitantes vivem com renda equivalente aum quarto do salário mínimo. É verdade que a chegada de novas empresas e o aumento dos investimentos elevaram a oferta de emprego formal – mas criaram efeitos colaterais. De 2003 a 2010, o número de postos com carteira assinada nas 25 cidades cresceu 65%, uma alta acimada média brasileira, de 49% no periodo.Mas os empregos em geral não foram ocupados com a mão de obra local (que em sua maior parte não dispõe da qualificação exigida pela cadeia do petróleo). E também não foram suficientespara absorver o grande volume de migrantes que afluiu para essas localidades. Resultado: 90% dos municípios tiveram taxas de crescimento demográfico superiores à média de seus estados e 80% acumularam um índice de desemprego acima da média nacional. Como as cidades incharam, cresceu a demanda por serviços de saúde, saneamento, educação, treinamento de mão de obra e policiamento. A falta de trabalho e a precariedade da infraestrutura contribuíram para o aumento da violência Hoje, 13 das 25 cidades têm taxas de homicídio acima das respectivas médias estaduais. Quatro delas – a capixaba Linhares e as fluminenses Búzios, Cabo Frio e Parati – estão na lista das 100 mais violentas do Brasil. “Esses municípios deveriam estar crescendo mais rapidamente e melhor do que os outros que não recebem royalties”, diz Alexandre Mattos, diretor da Macroplan e coordenador da pesquisa “Mas não é o que está ocorrendo. Não há regras nem mecanismos de controle para a aplicação dos royalties, muito menos metas em relação aos benefícios que devem gerar.” Liberadas para fazer o que bem entendem com o dinheiro, as prefeituras deixam de lado investimentos que seriam importantes para o desenvolvimento local e consomem a maior partecom o custeio da máquina pública. Carapebus, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Recebeu mais de 380 milhões de reais em royalties, mas nada lá lembra a pujança do petróleo. Ainda é uma cidade-dormitório para quem trabalha em Macaé, municipio vizinho do qual se emancipou em 1997.Opoder público  responde por quase 90% dos postos de trabalho formal de Carapebus. A falta de mecanismo de controle e de transparência na aplicação dos royalties tem outro efeito nefasto: abre margem para a corrupção. Denúncias de desvio de recursos são recorrentes nas cidades do petróleo – com repercussão sempre desagradável. Agestão pública e a economia do município de Presidente Kennedy, no Espírito Santo, perderam o rumo em abril, depois que uma operação da Polícia Federal, batizada de “Lee Oswald” (nome do acusado de matar John F. Kennedy em 1963,ano de fundação da cidade capixaba),prendeu o então prefeito, Reginaldo Quinta (PTB), e mais 27 pessoas, entre elas o presidente e o vice-presi dente da Câmara Municipal. O grupo é acusado de aplicar sobrepreços de até 80% em contratos de terceirização que somam 55 milhões de reais, o equivalente a um quarto do valor dos royalties recebidos pela cidade em 2010. Ao assumir a prefeitura, o vereador Jardeci Terra achou por bem romper e investigar os contratos com as empresas citadas no inquérito que investiga o caso. As terceirizações sob suspeita deixaram sem emprego cerca de 1000 pessoas, o que provocou um baque no comércio da cidade, cuja população é de 10 000 habitantes. Mesmo quando há acerto nas prioridades, a execução corre o risco de dar errado por falta de funcionários públi- cos competentes para gerenciar os projetos. Em 2001, Campos lançou o Fundecam,  um fundo pelo qual a prefeitura oferecia empréstimos a juros baixos para as empresas que se instalassem na cidade. O objetivo era diversificar a economia, mas a avaliação das propostas e da idoneidade dos tomadores do dinheiro era falha. Ao final, a taxa de inadimplência do fundo superou 40%. “Apareceu picareta do país inteiro atrás do dinheiro fácil do Fundecam”, afirma Roberto Moraes, engenheiro do Instituto Federal Fluminense, de Campos. “Não houve um esforço para formar uma cadeia produtiva As empresas escolhidas eram tão diversas quanto fábricas de fraldas e de macarrão:’ A fá brica de macarrão a que Moraes se refere é a Duvêneto. Ela pegou empréstimos sucessivos, funcionou precariamente e fechou as portas em março, deixando uma dívida de 34 milhões de reais. Já a fábrica de refrigerantes do  grupo Coroa, que deve 3,5 milhões à prefeitura, nem operou. Oesqueleto do galpão industrial está abandonado às margens da rodovia BR-I01. A sucessão de descalabros que hoje se veem nas cidades beneficiadas pelos royalties deve servir de alerta: o Brasil precisa reavaliar o modelo de distribuição e de controle do uso da riqueza do petróleo. Como se tem notado nas dicussões de governadores e prefeitos, a mera perspectiva de que essa riqueza tome mais corpo, caso se confirmem as previsões em relação à exploração do pré-sal, já deflagrou uma guerra entre políticos pela partilha. “A exploração do petróleo vive de ciclos de 20 a 40 anos, que um dia terminam”, diz Mattos, da Macroplan. “O ciclo do Brasil está apenas no começo e precisamos  decidir como usar melhor os recursos, para que, ao final, tenhamos municípios pujantes, e não grandes favelas.” O risco é o desperdício proliferar – e o país jogar fora uma grande chance de dar um salto de qualidade.

 

O exemplo Esta nO NoRtE

Além de fazer uma radiografia do uso dos royalties do petróleo, o estudo da consultoria Macroplan obtido por EXAME traz recomendações para mudar a atual realidade das cidades beneficiadas por esses repasses. A orientação mais importante: “É preciso fazer um plano para o futuro de cada uma, e essa tarefa não cabe apenas ao município”, diz Alexandre Mattos, diretor da Macroplan. “Estados e governo federal precisam contribuir para que o bônus do petróleo possa melhorar o saneamento, as rodovias, a educação, a formação das pessoas.” Como exemplo para o Brasil, Mattos cita Stavanger, a capital do petróleo na Noruega. Quando o primeiro poço foi descoberto, em 1969,a cidade dedicava-se a pescar e enlatar sardinhas e a construir barcos, atividade desenvolvida desde o século 19.Como ocorre hoje com as cidades brasileiras, Stavangeratraiu.empresas do setor de petróleo de várias partes do mundoeviu.a população crescer rapidatl1ente. Mas láariqu.ezafói aplicada para transformar a cidade em centro comercial e cultural. Junto com as empresas, vieram profissionais especializados de outros países. Boa parte se fixou lá, não apenas transferindo conhecimento técnico, mas dinamizando a cultura local. Atualmente, 18% dos 126 000 habitantes são estrangeiros que formam uma pequena babei de 170 nacionalidades. O ambiente criado pela diversidade fez com que Stavanger recebesse da União Europeia, eIl12008, o titulo de capital cultural da Europa, apesar de a Noruega não fazer parte do bloco. Ogoverno norueguês se preocupou em desenvolver a mão de obra e a indústria local, mas, nos primeiros anos, como opaís não tinha conhecimento no setor, fez da iniciativa privada uma parceira. “O poder público concordou que as empresas treinassem as pessoas e importassem máquinas e equipamentos”, diz o economista Petter Osmundsen, da Universidade de Stavanger. Numa segunda etapa, a cidade priorizou investimentos que beneficiassem a população no longo prazo. Um deles foi aprimorar a educação desde a infância até a idade de ingresso no mercado de trabalho, incentivando o ensino técnico, uma tradição no mercado europeu, e também a graduação. A universidade local oferece cursos voltados para a área de óleo e gás,como geociência de engenharia do petróleo e tecnologia para exploração em alto-mar. Preocupada em não se tomar dependente da cadeia de petróleo, a cidade atraiu empresas de setores tão distintos quanto varejo, hotelaria, serviços financeiros e  construção civil. Hoje, mais de 60%. dos quase 25 000 postos de trabalho estão no setor de serviços e em lojas. Stavanger tem uma das menores taxas de desemprego da Europa, 1,8% – inferior até à da própria Noruega, que está em 2,4%. Aideia mais engenhosa dos noruegueses para não apenas preservar, mas principalmente multiplicar os ganhos com o petróleo, foi a criação de um fundo governamental com recursos do setor. O fundo recebeu aporte inicial de 336 milhões de dólares em 1996.Ao final de 2011,a reserva somava 542 bilhões de dólares. O fundo está sob a tutela do Ministério das Finanças, que deve indicar as políticas de investimento, mas quem gerencia a operação é o Norges Bank, o banco central. O governo não pode sacar o principal. Tem acesso a apenas 4% do retomo anual do fundo – uma regra austera que evita a tentação do desperdício e é essencial para preservar a riqueza do petróleo para as gerações futuras. Uma ideia que deveria inspirar o Brasil.

 

UM ESPIRITO MUITO ANIMAL

HÁ SEIS ANOS, o AMBIICANO FLOYD LANDIStomou uma decisão que fez sua carreira de ciclista ir do céu ao inferno. Ele teve cassado seu título de campeão da Volta da França, a mais channosa e importante competição de ciclismo do mundo, após ser flagrado no exame antidoping. Foi detectado um nível de testosterona muito acima do normal em seu corpo justamente na 17ãe última etapa da prova. Como perdera tem recorrer à droga e acabou protagonizando uma das chegadas mais emocionantes da história da prova. Vista a posteriori, a trapaça foi um dos episódios mais vergonhosos nos mais de 100 anos da Volta da França. No mundo dos esportes, a testosterona, quando ingerida artificialmente para melhorar a performance, é um exemplo da falta de escrúpulos. Na vida real, produzida de forma natural pelo corpo, ajuda a explicar vários dos comportamentos humanos. Mais presente nos homens, a testosterona está associada à autoconfiança e à agressividade. John Coates, pesquisador do departamento de neurociência da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, centrou seu trabalho na tentativa de ligar dois mundos aparentemente distantes: a biologia e as finanças. Mais especificamente, comparou os níveis de hormônios e o desempenho de operadores de bancos, a quem ele chama de “atletas”. Em suas pesquisas, Coates conseguiu provar a correlação entre elevadas taxas hormonais e os altos e baixos da bolsa. Antes de tomar a decisão sobre investir milhões em determinada aplicação, a respiração d um gestor costuma ficar cada vez mais curta, o batimento cardíaco acelera, aumenta a tensão muscular e, às vezes, até o estômago reage. Quando o resultado imediato da aplicação é positivo. o corpo produz, num estado de euforia, uma quantidade maior de testosterona. É nessa hora que os operadores ficam mais corajosos e competitivos, o que faz os riscos parecer menores. Nos casos em que as decisões de investimento vão mal, o corpo eleva a produção de outro hormônio, o cortisol. Inicialmente, ele aumenta o grau de excitação e atenção, mas, se os níveis permanecem elevados por muito tempo, os efeitos passam a ser contrários aos da testosterona. O gestor é dominado por uma sensação de incerteza desmedida, o que ajuda a explicar os momentos do mercado conhecidos como de aversão ao risco – quando não há explicação racional para as quedas nos valores dos papéis. Coates fala com a propriedade de quem conhece seu objeto de estudo em detalhes. Antes de se dedicar à carreira acadêmica, trabalhou em algumas das instituições mais renomadas deWall Street: Goldman Sachs, Merrill Lynch e Deutsche Bank. Em conversa com EXAME, Coates disse lembrar bem das incoerências de  seus colegas nos períodos de alta. “Eles se sentiam invencíveis, onipotentes. Acabavam perdendo a capacidade de analisar criticamente seus investimentos.” Agota d’água para Coates foi a bolha das em presas de tecnologia no final dos anos 90, uma fase de grande volatilidade. Diante da loucura que imperava nas mesas de operação, decidiu largar o mercado financeiro e passou a estudar o tema sob o prisma da biologia. o~ DA I’BTOSIMOllA Em suas pesquisas, Coates analisou as taxas hormonais de profissionais do mercado financeiro que trabalhavam em Londres e confirmou uma impressão que já tinha desde os tempos de Nova York – nas mesas de operação há uma clara predominância de gênero. Dos 250 operadores analisados, apenas três eram mulheres. “Nesse reino da testosterona”, afirma Coates, “as taxas hormonais flutuavam exatamente no mesmo ritmo dos altos e baixos do mercado:’ Há dois meses, o pesquisador encerrou um ciclo importante de suas pesquisas ao lançar o livro The Hour Between Dog and Wolf: Risk Taking, Gut Feelings and the Biology of Boom and Bust, ou “A hora entre o cão e o lobo: tomada de risco, instinto e a biologia dos altos e baixos”, numa tradução livre. O título remete a uma expressão francesa da Idade Média uti lizada para descrever a mudança de comportamento de soldados no campo de batalha minutos antes do início dos embates. Em meio a urros, com os soldados dominados pela euforia, aqueles momentos eram marcados pela transformação de “cachorros em lobos”. Para Coates, se as gestoras de recursos quiserem reduzir as decisões de investimentos irresponsáveis, terão de controlar o número de “lobos” e dar mais espaço a mulheres e homens mais velhos e experientes. o trabalho de Ceares está inserido numa ampla área do debate econômico que coloca em dúvida ideia da racionalidade das decisões. Na primeira metade do século 20, leconomista britânico John Maynard {(eynes deu ênfase ao papel do “espírito animal”. “Nossa base de conhecimento para estimar o retorno a ser obtido em dez anos com a construção de uma ferrovia, uma mina de cobre, fábrica de tecidos, um medicamento patenteado, um navio ou um edifício na City de Londres é insuficiente e às vezes nenhuma”, escreveu no clássico Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro. Se esses cálculos são apenas projeções, como então as decisões são tomadas? “Somente podem ser tomadas como resultado do espírito animal.” São o resultado de “uma exortação espontânea à ação”. Impelidos pela crise financeira mundial de 2008, George A. Akerlofprofessor de Berkeley e prêmio Nobel de Economia em 2001, e Robert J. Shiller, professor de Yale, voltaram ao tema com o livro Espírito Animal, lançado em 2009. Tendo como um de seus objetivos achar explicações para o fato de a economia mundial ter chegado à bei ra do precipício, os autores exploram a interferência da psicologia humana na tomada de decisões. “Cada grande queda das bolsas de valores parece inexplicável se olharmos apenas para fatores que logicamente deveriam influenciar os mercados. Quase sempre a mudança está no próprio mercado, e não nos fundamentos da economia”, afirmam Akerlof e Shiller. Assim como teóricos das finanças comportamentais, Coates, o ex-operador de mesa transformado em pesquisador, buscou explicações para as reações humanas diante da ambigüidade e da incerteza Sua inovação foi encontrar evidências biológicas que indicam por que as pessoas, em alguns momentos, ficam paralisadas e, em outros, sentem-se energizadas. Seus maiores críticos, temerosos de que suas pesquisas acabem resvalando numa espécie de “determinismo hormonal”, sempre lembram: quem ocupava o cargo de diretor financeiro do Lehman Brothers quando o banco quebroú em 2008 e detonou o início da crise era Erin Callan. A senhora Erin Callan.

 

 E PRECISO TER CARIDADE PARA SALVAR A GRECIA

A GRECIA E A FERIDA ABERTA DA ZONA DO EURO, EM RECESSAO DESDE 2008, o país parece sufocado por uma dívida pública de 280 bilhões de euros, uma das maiores do mundo quando comparada ao tamanho do PIB. Para tirar o país do atoleiro, Peter Nomikos, um empresário dono de uma cervejaria em Santorini, lançou um movimento com nome em inglês: Greece debt free, ou Grécia livre de dívidas. A ideia é que cada cidadão doe 3000 euros para a compra de titulos públicos – assim o problema da dívida seria resolvido. Em 40 dias, o movimento comprou o equivalente a 2,5 milhões de euros em papéis gregos. 1) Um quarto dos gregos está desempregado. ÉJ usto pedir doações a eles agora? Nenhum grego é forçado a doar nada. Doa quem quer. Vemos que alguns participantes de nossa campanha são cidadãos de outros países, engajados num objetivo comum: salvar a Grécia e ajudar a resolver a crise do euro. Se ganharmos escala, faremos a diferença. 2) Como exatamente funciona sua proposta? Com o dinheiro doado à nossa organização, compramos títulos do governo da Grécia no mercado ao menor preço possível. Hoje, eles são negociados pelo equivalente a um oitavo de seu valor real. Em outras palavras, cada euro em títulos do país custa no mercado cerca de 13centavos. Compramos esses papéis para cancelá-los antes de seu vencimento. Isso é como perdoar parte da dívida grega 3) Quanto foi arrecadado até agora? Em apenas 40 dias de campanha, levantamos 350000 euros, suficientes para comprar o equivalente a 2,5 milhões 4) Evangelos MarlnaIds, dono do clube Olymplacos, doou por seus 55 jogadores e fullCionarios. Que outras celebridades abaracaram a campanha? Éclaro que buscamos o apoio de gente conhecida Mas identificar nossa campanha como um movimento de milionários seria reduzir a participação dos cidadãos comuns. Apenas a ação coletiva pode resolver a crise grega 5) O caso ela CoreIa do Sul, onde os cldaclios doaram ouro para tentar tirar o pafs ela crise em 1998, foi uma inspiracao? Esse episódio é um belo exemplo de patriotismo. É difícil medir todo o seu impacto na solução do problema, mas certamente contribuiu para o país sair da crise mais rapidamente. O caso coreano foi uma grande inspiração. 6) Os gregos c:onsideram o salvamento da GNeIa uma missão deles ou de outros paIses europeus? É inegável que os gregos são muito patriotas. Mas também é verdade que deixam a desejar como cidadãos. Muitos acham que já estão pagando a dívida do país ao suportar as medidas de austeridade adotadas pelo governo. Ninguém gosta, mas todos somos obrigados a conviver com isso. 7) Por que o senhor está bancando todos os custos ela campanha? Nossa entidade está tentando conquistar a confiança de uma sociedade em que governo, empresas e pessoas ricas não têm crédito. É difícil superar esses estereótipos. Se usássemos as doações para cobrir custos, a campanha seria menos atraente. Por isso, assumi os gastos. É mais fácil que as pessoas acreditem no que fazemos se seu dinheiro for usado para uma única função: comprar títulos gregos .

VEJA 22 – 08

O MAL CONTRA O MAL NA NOVELA DAS 9

Eugênio Bucci

O que mais vem chamando a atenção dos adoradores da novela das 9, Avenida Brasil, é que a vilã é uma troglodita, e a mocinha é pior ainda. Nenhuma é boazinha. No festival de maldades apoteóticas que virou obsessão nacional, não existe a princesinha de porcelana, inocente e indefesa. Carminha (Adriana Esteves), que até aqui respondeu pelo papel de bandida oficial, até sabe fazer beicinho, como se fosse uma donzela da extinta Jovem Guarda, mas sua candura, quando aflora, é puro fingimento. No polo oposto, Nina (Débora Falabella), que seria a mocinha, guarda uma bruxa má e ressentida dentro de sua formosura adolescente. Tem os braços finos de garota rica e os olhos flamejantes de dragão, olhos que são uma janela para o inferno.

Mas … e o bem? Onde foi parar o bem? No duelo do mal contra o mal, irrompe essa pergunta aflita. No universo das novelas, é uma interrogação incomum – e muito corajosa.

Aí está o sentido profundo do engenhoso suspense criado por João Emanuel Carneiro. O bem evaporou. Qual será a referência moral agora? Avenida Brasil é um melodrama escarrado, como todas as novelas anteriores, mas é, ao mesmo tempo, um melodrama diferente. É melodrama porque os elementos melodramáticos estão todos lá: o casalzinho que enfrenta descaminhos antes de consumar seu desejo, a criança injustiçada que cresceu e quer vingança, o moço bonito que não sabe quem é seu pai de verdade, a pobre que fica rica, a rica que fica pobre, além da inveja, do ódio e do amor, o amor, o amor.

No mais, Avenida Brasil é diferente. Nela, não cabem as soluções moralistas. Uns são maus, e os outros também. Uns e outros são mensageiros da perfídia. Até mesmo Tufão, o raríssimo exemplar de bom caráter, é meio abobado e tem seu lado sombrio: atropelou e matou um homem, ainda que acidentalmente e, no início da história, fraquejou e traiu a noiva, ainda que lhe reste a desculpa de que só agiu mal por ter caído na armadilha de Carminha.

Uns roubam, outros premeditam as agressões mais vis, e há os que escondem crimes, próprios e alheios, num ambiente em que toda fidelidade será castigada. Ao menos por enquanto, Avenida Brasil não trabalha com a ideia de pureza e não alimenta esperança na virtude. E, se não há virtude, se o mal é convocado a lutar contra o mal, existirá um happy end em que o bem possa finalmente vencer?

O potente sucesso do atual novelão das 9 pode ter a ver com essa pergunta. Além dos bons atores, quase de praxe, dos novos enquadramentos, dos diálogos que finalmente trazem alguma espontaneidade, Avenida Brasil reflete dúvidas morais que tocam a alma brasileira do nosso tempo. Esse talvez seja o ponto central. Muito se falou que a novela tinha acertado ao pôr a classe C como protagonista, mas isso já foi tentado antes – e só isso não explica o êxito. Se a trama das 9 nos magnetizou é porque soube perguntar no tom exato, com os personagens certos: a virtude é factível nessa grande avenida chamada Brasil?

Desde muito tempo, a novela das 8 (que hoje vai ao ar às 9) tem sido a grande metáfora do país. Desta vez, a metáfora ficou mais explícita, a começar do nome: Avenida Brasil. Segundo a radiografia chocante que essa metáfora nos apresenta de nós mesmos, somos um país que perdeu a inocência e teve de amadurecer no desencanto, pondo em xeque todos os idealismos.

A pergunta sobre a existência da virtude está, para nós, na ordem do dia. Pensemos um pouco sobre o desmoronamento de nossas esperanças mais recentes. Logo após o fim da ditadura militar, nosso eleitorado acolheu as promessas de um salvador da pátria, um “caçador de marajás”, que fazia poses de príncipe anabolizado em cima de um cavalo branco (ou de uma motocicleta japonesa). Terminou em impeachment. Depois, os que derrubaram o salvador desmoralizado, que posavam de heróis, com aura de redentores, revelaram-se, eles também, um tanto malignos. Agora, estamos aí às voltas com o julgamento do mensalão, que evolui como novela misturada com reality show.

Não, não há mais lugar para redentores. O imaginário nacional parece mais adulto. Em lugar de buscar o paraíso na Terra, parece mais aberto a lidar com saídas realistas, humanas e dignas. Já não aposta tanto no herói incorruptível+ e vai descobrindo o valor de instituições sólidas, ainda que operadas por homens e mulheres imperfeitos.

Na novela é fácil: o amor (sempre ele) acaba dando jeito nas misérias. Quanto ao Brasil de verdade, é mais difícil. Não perca os próximos capítulos da nossa história real.

PERSONAGEM DA SEMANA

 

Apenas três pontos percentuais têm separado o presidente Barack Obama do rival republicano Mitt Romney nas últimas pesquisas de opinião para as eleições dos Estados Unidos. É pouco, mas Romney nunca conseguiu realmente fazer Obama se preocupar com essa proximidade. Faltava alguém na campanha republicana para compensar o perfil meio insosso e hesitante de seu candidato e incomodar os democratas. Não falta mais. Romney escolheu como vice de sua chapa o jovem deputado Paul Ryan, de 42 anos, formado em economia e ciência política. Casado, pai de três filhos e católico fervoroso, ele é a nova estrela dos círculos conservadores mais radicais, com quem compartilha a rejeição ao aborto, ao casamento homossexual e ao controle de armas.

Na Câmara dos Representantes desde 1998, eleito pelo Estado de Wisconsin, de economia industrial, Ryan ganhou projeção no partido em 2009, ao lançar uma proposta austera para reduzir o deficit do país, intitulada Mapa para o futuro da América. Trata-se de uma reforma fiscal com cara de manifesto do liberalismo econômico, inspirada em economistas como Friedrich von Hayek (1899-1992) e Ludwig von Mises (1881-1973). O plano defendia uma semiprivatização da previdência social, além de profundos cortes de gastos e redução de impostos. De início, os republicanos mais moderados temeram sua ousadia. Veio a ascensão do Tea Party, um movimento popular de extrema-direita, e o mapa de Ryan ressurgiu com novo nome: Caminho para a prosperidade. Foi embutido na proposta de Orçamento republicano para 2012.

O presidente Obama, que elogiara a postura “moderada” de Ryan por tentar abrandar o tom do Tea Party em alguns temas, atacou sua reforma num discurso em abril. “Esse plano é um darwinismo social”, disse Obama. “Não há nada corajoso em pedir sacrifícios para aqueles que menos podem suportá-lo:’ Ryan conseguira irritar Obama num ponto central da campanha, exatamente aquilo que Romney não tivera capacidade de fazer. Logo, era um bom nome para ajudar Romney na corrida pela Casa Branca. Diante da fragilidade das outras opções, Ryan tornou-se o vice natural. Nos três primeiros comícios em que a dupla esteve presente, na Virgínia e na Carolina do Norte, milhares de eleitores se reuniram e gritaram em coro o nome de Ryan.

Para um partido ridicularizado nas eleições passadas pela escolha da apatetada Sarah Palin como vice de John McCain, os republicanos parecem ter marcado um ponto importante. Claro que os democratas tentaram não acusar o golpe. Viram na indicação de Ryan uma oportunidade de ter munição gratuita para transformar a eleição num duelo do 1% do topo da pirâmide contra os 99% restantes, mote da campanha de reeleição de Obama, usurpado do movimento Ocupe Wall Street. Mas a campanha de Romney perdeu o medo do embate ao colocar Ryan no ringue. O foco sai das credenciais administrativas do empresário e investidor Romney e passa a ser o discurso puramente ideológico, em que Ryan se sente à vontade. “Ninguém se engane sobre o que está em jogo nestas eleições’: disse ele no começo do ano. “Trata-se de um duelo entre individualismo e coletivismo:’ Charles Krauthamer, analista conservador do jornal The Washington Post, escreveu: ”A disputa eleitoral de 2012 será a mais ideológica desde a era Reagan”.

Nascido numa família influente de Wisconsin – seu bisavô fundou a Ryan Inc., uma grande empreiteira americana -, Ryan tinha 16 anos quando encontrou o pai morto na cama. Fora fulminado por um ataque cardíaco, o mesmo mal que matara seu avô, seu bisavô e seu tataravô. ”A morte dele despertou cedo em mim a busca por um sentido na vida”, afirmou à revista The New Yorker. Os republicanos esperam que Ryan o encontre nestas eleições, transformando uma disputa sonolenta numa dor de cabeça para os democratas.

COMO MONTAR SEU PRATO

A combinação correta dos alimentos aumenta nossa capacidade de aproveitar o melhor de seus nutrientes. As novas regras para uma dieta saudável

Natália Spinacé e Margarida Telles

 

Houve um tempo em que, se alguém dizia que uma comida era boa, queria dizer que sentia prazer na refeição. Hoje, quando alguém fala em comida boa, em geral quer dizer que faz bem à saúde. Parece que, depois de 2.500 anos, finalmente estamos prestando atenção ao que o grego Hipócrates, pai da medicina, pregava: “Faça do seu alimento seu remédio”. E tome alho para resfriado, abacate para a pele, feijão para controlar o nível de ferro … Se você é dessas pessoas (e quem não éi) que vivem prestando atenção aos efeitos dos alimentos que consomem, prepare-se: a lista acaba de crescer. Segundo estudos recentes em culinária e saúde, os alimentos não têm efeito isolado. Eles agem em conjunto. Ingerir dois ingredientes juntos surte efeitos diferentes de consumi-los em separado. Isso porque, em seu corpo, eles interagem. No pior dos casos, fazem você passar mal. No melhor, facilitam a absorção de seus nutrientes e podem ajudar no tratamento de doenças como alergias, insônias e até alguns tipos de câncer. Antes, para comer bem, bastava procurar alimentos saudáveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais e carnes com pouca gordura. De preferência, de boa procedência. Agora, os pesquisadores de alimentos afirmam que é preciso pensar em como combinar esses ingredientes.

Vem daí a nova moda no mundo da culinária saudável: o poder da combinação dos alimentos. De acordo com ela, comer dois ingredientes cria reações super poderosas. “Ao somarmos um mais um podemos obter quatro. O total é maior que a soma das partes individuais”, diz Elaine Magee, nutricionista da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e autora de 25 livros sobre nutrição, incluindo o Food sinergy (Sinergia da comida). “Está provado que alguns componentes produzem grandes resultados quando consumidos juntos.” Essas combinações podem ser feitas em nossa casa. Uma série de estudos mostra que ampliar a potência de um nutriente é simples. A maior parte usa alimentos comuns à mesa do brasileiro, como alface, rúcula, tomate, laranja, ovos e peixes. As combinações são especialmente valiosas para quem precisa repor algum tipo de nutriente ou usar a alimentação como forma de reforçar terapias.

A importância da combinação entre alimentos voltou a ganhar força nos últimos anos com o aumento do número de estudos. “A eficácia de certas combinações é comprovada”, afirma Steven Schwartz, pesquisador de ciência dos alimentos na Universidade de Ohio. “Um exemplo é a união do tomate ou da cenoura com a gordura presente em comidas como o abacate. Quando consumidos juntos, esses alimentos reduzem a ação das substâncias chamadas radicais livres, que aceleram o envelhecimento das células.” Diferentemente de outras dietas famosas, que ainda levantam polêmica sobre sua eficácia para a saúde, a sinergia entre alimentos é apoiada por diferentes linhas de pesquisa. Médicos e nutricionistas concordam que, em muitos casos, comer dois nutrientes numa mesma refeição aumenta o aproveitamento de um deles. “Alguns alimentos precisam necessariamente de outros para ser absorvidos”, diz Renata Cintra, professora do instituto de biociências da Unifesp.

A ciência da combinação dos alimentos começa a chegar às mesas de restaurantes. Foi criado nos Estados Unidos, no fim do ano passado, um selo para cozinhas que investem em misturas saudáveis, o SPE, abreviação do latim Sanitas per escam (algo como “saúde por meio da comida”). Seu criador, o belga Emmanuel Verstraeten, pesquisou durante dez anos combinações de alimentos na cozinha de seu restaurante, o Rouge Tomate, em Bruxelas. Ao levar seu  estaurante para Nova York, Emmanuel se uniu aos pesquisadores Eric Rimm, de Harvard, Ieffrey Blumberg, da Escola de Medicina de Tufts, e Iohn Foreyt, da Escola de Medicina de Baylor, ambas nos EUA, para criar combinações que ajudem os nutrientes dos pratos e tenham menos gordura, sal e açúcar. Ele conseguiu montar um cardápio sem descuidar do sabor. Seu Rouge Tomate está entre os restaurantes recomendados pelo conceituado guia de gastronomia Michelin. De quebra, Emmanuel criou um novo negócio: presta consultoria para restaurantes que queiram ajustar seus menus às combinações propostas pelo selo. Ele cobra, em média, R$ 600 por prato. Nos EUA, mais seis restaurantes conseguiram o certificado, e outros 15 estão com o processo em andamento.

No restaurante The Living Room, em Nova York, um dos primeiros a aderir ao SPE, o frango assado passou por modificações para conseguir o certificado. A manteiga foi trocada por uma quantidade reduzida de óleo, que deve permanecer no prato para auxiliar a absorção da vitamina A. As batatas assadas com a casca são ricas em fibra e em vitamina C. Entraram no lugar do purê de batatas. A couve-de-bruxelas deu lugar às folhas de dente-de-leão, fonte de minerais como potássio e cálcio e das vitaminas A, B6 e C. O resultado foi uma diminuição em 39% das calorias totais, e o prato passou a ter 25% do total de vitaminas e minerais recomendados durante um dia. “Já seguíamos essa filosofia da comida saudável, mas o certificado legitimará isso”, afirma Iames Carpenter, chef do The Living Room.

No Brasil, ainda não existe iniciativa parecida com o SPE. A última tentativa de estimular a adoção de escolhas mais saudáveis nos restaurantes falhou. Em 2009, o Conselho de Nutricionistas de São Paulo criou um certificado para restaurantes com um nutricionista na equipe. “A maioria dos donos de restaurantes acha um custo desnecessário”, diz Maria Lúcia Tafuri Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição. O certificado foi abolido no ano passado.

Mas há restaurantes que cuidam da combinação de nutrientes. A chef Tatiana Cardoso, formada pela Natural Cookery School, em Nova York, é uma delas. “Pensar em combinar os nutrientes adequados é nutrição básica. Mas quase ninguém se lembra disso”, afirma. Tatiana comanda as cozinhas do Moinho de Pedra e do Natural com Arte, em São Paulo. O paulistano Renato Caleffi, chef do Le Manjue Bistrô, conta com a ajuda de um nutricionista para montar seus pratos. O arroz amazônico, um dos mais pedidos, mistura pirarucu em cubos grelhado com três tipos de arroz: cateto, vermelho e negro integral. Leva ainda pequi, espinafre, castanha-de-caju, salsa, tomate-cereja e azeite. O ferro do espinafre é absorvido com a ajuda da vitamina C da salsa; o licopeno do tomate, com o auxílio do azeite; e a gordura do pirarucu ajuda a diluir as vitaminas da castanha e do pequi. ”A comida precisa ser pensada como uma forma de obter saúde’: diz Renato.

TERAPIA ALIMENTAR

Uma combinação campeã são alimentos ricos em gordura (como azeite, castanhas e abacate) com as fontes de vitaminas A (do agrião), E (do brócolis), D (do salmão) e K (da couve-flor). São ingredientes que muitas vezes andam juntos nas receitas do dia a dia. Além de gostosa, agora se sabe que a combinação também é boa para a saúde. “Essa mistura é eficaz porque essas vitaminas precisam ser dissolvidas na gordura para uma melhor absorção pelo intestino’: diz Linda Antinoro, nutricionista do hospital Brigham and Women’s, em Boston. Muitas dessas duplas de alimentos parecem eficazes no combate às células cancerígenas. Diferentes estudos sugerem que sua ingestão é aconselhável para quem trata algum tipo de câncer ou tenha predisposição à doença. A ingestão de um nutriente presente nas maçãs (a quercetina) aumenta a capacidade de outro encontrado nas framboesas (o antioxidante elágico) para destruir células cancerígenas. A combinação de uma substância presente no chá-verde (a catequina) com a vitamina C encontrada no suco de limão tem efeito similar. A vitamina C também pode fazer par com outra substância. Quando consumida com aveia ou cenoura (ricos em ácido fenólico), atua de forma mais rápida e eficaz para combater o colesterol ruim, que pode entupir as artérias (LDL). Isso é importante para pessoas com doenças coronárias ou histórico de derrames.

Um desses estudos, conduzido pela Universidade de Illinois e publicado na revista científica Cancer Research, trata dos benefícios da combinação de tomates e brócolis para quem tem câncer de próstata. Os cientistas de alimentos Iohn Erdman e Kirstie Canene-Adams alimentaram ratos com células cancerígenas com uma dieta composta de 10% de tomate e 10% de brócolis. Outros ratos comeram esses alimentos separados, ou apenas suplementos com seus princípios ativos. Depois de 22 semanas, os ratos com dieta combinada de brócolis e tomate tinham os menores tumores. “Homens mais velhos com câncer de próstata que optaram por observar a evolução da doença antes da químio ou da radiação devem considerar seriamente a inclusão de mais brócolis e tomate em suas dietas”, afirma Kirstie. As pesquisas sobre combinações de alimentos consideram apenas os ingredientes naturais, não suplementos nem vitaminas em cápsulas. Os estudos do pesquisador David Iacob, da Universidade de Minnesota, mostram por quê. Ele afirma que a interação existe até mesmo dentro de um único ingrediente. “Cada alimento tem milhares de componentes. Eles são digeridos pelo corpo em sequências que ajudam na absorção dos nutrientes, ou para evitar componentes ruins”, diz. Como as nozes, ricas em propriedades antioxidantes que protegem contra as gorduras do próprio alimento.

A nutricionista Márcia Barletta, de 57 anos, se curou de uma diarreia crônica que persistia por dez anos com a ajuda de uma alimentação regrada e das combinações certas. Ela teve uma peritonite, infecção de uma membrana que reveste o abdome. Fez cirurgia e ficou 60 dias internada, tomando antibióticos. Quando recebeu alta, seu intestino não era mais o mesmo. “Tinha dores de barriga todos os dias. Mal acabava de comer e corria para o banheiro.” Márcia teve desnutrição e chegou a pesar 38 quilos. Foi quando procurou a ajuda de uma nutricionista funcional, especializada em tratamentos com alimentos. “Desenvolvi alergia ao glúten e à lactose”, diz. A alimentação de Márcia mudou. Sua fonte de cálcio passou a ser o suco de couve com alguma fruta ácida. A acidez da fruta aumenta a do estômago – e isso favorece a absorção dos minerais da couve. “Ela passou a comer mais frutas, legumes e cápsulas de lactobacilos, para recompor a flora intestinal”, diz a nutricionista Gisela Savioli, que tratou Márcia.

A melhora na dieta pode auxiliar na cura de outras doenças. A analista de sistemas Carla Adriana Nogueira Cirilo, de 39 anos, sentia dores por todo o corpo, tinha ínguas e foi diagnosticada com fibromialgia, um tipo de reumatismo caracterizado por dores generalizadas. Mesmo com o tratamento com um reumatologista, as dores persistiam. Carla procurou uma nutricionista para tratar outro problema, a intolerância à lactose, e acabou com as dores da fibromialgia. “É uma doença relacionada ao estado emocional do paciente. Essa mudança na alimentação e a solução para a intolerância podem ter tido um impacto nas dores”, diz Roberto Heymann, reumatologista da Universidade Federal de São Paulo. Carla passou a comer mandioca ou batata-doce e suco verde (couve com maçã) no café da manhã. As raízes são ingeridas com azeite ou óleo de coco, para que essa gordura segure o alimento por mais tempo no estômago e, dessa forma, a liberação da glicose seja mais lenta. No café da tarde, Carla toma sopa de abobrinha e come polpa de coco. A gordura do coco ajuda a absorver as vitaminas da sopa. Com o corpo nutrido da forma correta, Carla resolveu outro problema, a insônia. “Passei a ter sono às 21h30.A alimentação correta e nutritiva mudou minha vida’: diz.

Apesar do grande número de pesquisas acumulado nos últimos anos, há ainda algumas divergências em torno de algumas misturas específicas. É o caso das fontes de ferro, um nutriente importante para nosso metabolismo. Há duas fontes principais de ferro em nossa alimentação: as carnes vermelhas e os vegetais (legumes e verduras). O ferro da carne é abundante e facilmente absorvido por nosso organismo. O ferro que vem dos vegetais é mais difícil de ser aproveitado por nosso corpo. Isso é um desafio para quem mantém uma dieta estritamente vegetariana. Uma das soluções é misturar esses vegetais ricos em ferro com outros bem dotados de vitamina C. Um estudo da Universidade de Syracuse, em Nova York, mostrou que a vitamina C aumenta em 30% a absorção desse ferro. Ninguém discorda que essa combinação funciona. A polêmica gira em torno de alguns vegetais. Segundo pesquisadores, o espinafre, apesar da concentração de ferro que inspirou o personagem Popeye, não pode ser considerado boa fonte desse nutriente. Tudo por causa de uma substância do próprio espinafre, chamada ácido oxálico. Ela dificulta a absorção do ferro por nosso organismo. Para alguns médicos e nutricionistas, o espinafre não é boa fonte de ferro, mesmo com a ajuda da vitamina C. De acordo com Anita Sachs, nutricionista do núcleo de medicina preventiva da Unifesp, comer espinafre pode atrapalhar até a absorção de ferro de outras fontes. “Para quem precisar de ferro, o melhor é recorrer às carnes’: afirma Anita. O ácido oxálico existe em outras fontes de ferro, como beterraba e feijão.

COMBINAÇOES QUE EMPOBRECEM

Assim como as pesquisas descobriram combinações boas para o organismo, também detectaram algumas que devem ser evitadas. Consumir bebidas com cafeína com comidas gordurosas é uma delas. Estudos da Universidade de Guelph, Canadá, afirmam que os níveis de açúcar na corrente sanguínea, que disparam quando alguém ingere comidas gordurosas, dobram quando acompanhados de alguma bebida com alta dose de cafeína. Nos casos estudados na pesquisa, as taxas de açúcar no sangue de alguns aumentaram 65% após duas xícaras de café. Asbebidas ricas em cafeína, como chás-pretos, também atrapalham na absorção do ferro dos vegetais. Outro cuidado importante para os vegetarianos: quem tem anemia provavelmente precisa cortar o café após as refeições. Pessoas com problemas específicos de saúde devem ter cuidados extras.

Há outras combinações suspeitas. Um composto ácido presente no vinho e no café (o tanino) reduz a absorção tanto do cálcio como do ferro. Outra substância (o ácido fítico) encontrada no tofu, na linhaça, no farelo de aveia e no milho tem interação semelhante e prejudica a absorção do cálcio, do ferro, do magnésio e do zinco.

O aposentado Horácio Falvela, de 65 anos, desenvolveu diabetes tipo 2 há dez anos. Parou de fumar, começou a praticar exercícios e, com a ajuda de uma nutricionista, descobriu que adicionar alimentos com fibras solúveis (das frutas secas, da aveia e do grão-de-bico) em todas as refeições auxilia no controle glicêmico. “Quando ingeri das com os carboidratos, que se tornarão glicose, as fibras solúveis retardam a absorção dessa glicose e reduzem a concentração do açúcar no sangue”, diz Celeste Elvira Viggiano, nutricionista da Sociedade Brasileira de Diabetes. “Minha glicemia, que sempre estava alta, agora está controlada”, afirma Horácio.

A combinação de nutrientes pode ser uma boa forma de multiplicar o efeito de substâncias indispensáveis para o corpo, como vitaminas, ferro ou cálcio. Mas não faz milagres. É preciso ter uma alimentação equilibrada e hábitos saudáveis.” Não adianta comer molho de tomate com azeite todos os dias para prevenir câncer de próstata se você continuar ingerindo muito açúcar, gordura e fumando’: afirma Nathaly Russo, nutricionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “É preciso ter hábitos saudáveis para aproveitar os benefícios da alimentação.”

LIGADA NA TOMADA

Descanso é uma palavra que não existe no dicionário de Regina Duarte. “Descansarei na próxima encarnação. Temos sempre de realizar algo. estar sempre ‘causando ‘, diz a animada Regina. soltando em seguida a sonora gargalhada que a consagrou. O motivo de tanto trabalho são as comemorações dos 50 anos de carreira. “Começou no ano passado. mas até 2015 tem celebração”. afirma. A eterna Namoradinha do Brasil está em cartaz com Raimunda, Raimunda e inaugura no dia 21 a exposição Espelho da arte – A atriz e seu tempo. no Centro Cultural Correios. no Rio de Janeiro. A festa de gala será apresentada por Rodrigo Santoro. Ele antecipou sua volta das férias nos Estados Unidos para ser o mestre de cerimônias da noite. Na mostra. todos os filmes de Regina serão exibidos. inclusive EI hombre deI subsuelo. inédito no Brasil e dirigido pelo argentino Nicolás Sarquís em 1981. O programa-piloto que deu origem à série Malu mulher também será mostrado. “Tem coisas que nunca estiveram no YouTube. São mais de 500 fotos em oito ambientes. divididos por décadas.” Regina está nos final mentes de uma biografia escrita por lzzo, de nome provisório Regina 50 anos – Namoradinha do Brasil. com previsão de lançamento para outubro. e acaba de filmar o longa-metragem Gata velha ainda mia. “Farei uma louca que ficou enclausurada num apartamento”. diz. “É o papel mais contundente que fiz na vida.”

CHÁ DE FUNGOS

Alanis Morissette chegará ao Brasil só no fim do ano, quando fará turnê do sétimo álbum inédito. Havoc and bright Iights. em sete cidades do país. Mas já enviou sua lista de pedidos – a herança hippie continua fortíssima – à produção brasileira. Na parte tradicional do cardápio estão oito garrafas da água francesa sem vidro e em temperatura ambiente, framboesas, suco de limão sem açúcar, amêndoas, nozes e sementes de girassol sem sal. leite de soja e iogurte sem gordura. A inovação chega com as duas garrafas de Synergy Kombucha, nova mania entre as celebridades internacionais. O nome esquisito é de uma bebida fermentada feita de mistura de chás e fungos. Na China, a especiaria tem sido usada por séculos com a promessa de saúde e bem-estar.

OS 90 DE TÂNIA

Tônia Carrero completa 90 anos no dia 23. Afastada do trabalho desde que atuou no filme Chega de saudade, de Lais Bodansky, em 2009, a diva vive reclusa em seu apartamento no Leblon. Tônia não dá mais entrevistas. “Há pouco mais de um ano mamãe não consegue falar direito”, afirma Cecil Thiré, filho único de Tônia. Ela é vitima de hidrocefalia, acúmulo anormal de liquido no cérebro. Isso contribui para a debilidade tisica. Apesar da retirada de cena, Thiré diz que Tônia continua festeira. “Ela me pediu que marcasse a comemoração do aniversário para as 16 horas do dia 19. Será uma celebração para a família e poucos amigos. Ela fez questão de participar de toda a preparação, desde a escolha do bolo até as taças de champanhe.”

EM MEMÓRIA DE WALY

Quase dez anos depois da morte do poeta Waly Salomão, seu irmão, o também poeta Jorge Salomão, começou a escrever o livro Duas ou três coisas que sei dele ou Waly; Waly! “Assim que as editoras souberam do meu desejo, começaram a fazer propostas”, diz Jorge. “A publicação terá 180 páginas e quase nenhuma foto, só histórias desde que nos mudamos para Salvador. Será um retrato cru e doce.” Ele se lembra de ter visto com o irmão um show de João Gilberto em Jequié, no interior da Bahia. “Ficamos chocados com o espírito renovador da bossa nova.” Jorge convidou

Caetano Veloso para falar sobre o irmão, que também foi perseguido pela ditadura militar.

 

NEOCASAL 20

Namorados há quase três anos, os modelos Agatha Moreira e Pablo Morais moravam juntos em Nova York até janeiro, quando decidiram fazer testes para as próximas produções da TV Globo, a nova temporada de Malhação a minissérie Subúrbia. “Ela filmou meu teste e eu filmei o dela. Aí mandamos para os produtores de elenco no Brasil”, diz Pablo. Deu certo. Agatha pegou um dos principais papéis da novelinha adolescente, e ele vai viver o antagonista da minissérie de Luiz Fernando Carvalho e de Paulo que estreará em janeiro. “Primeiro, ele foi aprovado. Três dias depois, veio a resposta que eu tinha sido escolhida para Malhação. Foi bom, porque estava tensa de ele ficar no Rio de Janeiro e eu em Nova York”, diz Agatha. Ela continua morando com o namorado depois de voltar ao pais e pensa em casamento. “Somos jovens, estamos focados na carreira e temos muito o que construir ainda. Mas já falamos, sim, sobre isso.” Pablo já foi apontado como novo Cauã Reymond, sonho de nove em cada dez aspirantes.

“QUERO SER PRESIDENTA DA REPÚBLICA”

Há sete anos, Chesller Moreira passou a integrar o Conselho Nacional de Juventude, órgão do governo federal nas ações relacionadas à política nacional de juventude. “Foi nessa época que me descobri drag queen e passei a fazer parte também do Conselho Nacional LGBT,órgão ligado diretamente à Presidência da República”, diz ela. Em2010, foi recebida no Palácio do Planalto pelo presidente Lula e assumiu a identidade de Lohren Beauty. “Lula foi um fofo. Pedi rigor nos casos de homofobia.” Lohren é candidata a vereadora em Campinas, interior de São Paulo, pelo PCdoB.”Sou muito fã de Sophia Loren, por isso escolhi o nome.”

ÉPOCA – Qual sua plataforma polltlca?

Lohren Beauty- Hã? Como assim?

ÉPOCA – Pelo que você vai lutar?

Lohren – Pelos direitos da comunidade gay, pela cultura nos bairros e pela defesa da família. Quando falo em defesa da família, muita gente estranha. É que aquela família tradicional, com papai, mamãe e filhinhos está em extinção. Hoje em dia, o tio cria o sobrinho, a avó às vezes faz o papel de pai do neto. A constituição familiar mudou, e isso não pode ser ignorado.

ÉPOCA – Uma drag na Câmara dos Vereadores deverá causar estranhamento, não?

Lohren – Estou preparada. Quando fui recebida por Lula, muitos reacionários torceram o nariz. Mas nem liguei. Inclusive disseram que eu era a mais bem vestida do evento. A maioria das mulheres estava de jeans e camiseta. Eu estava de longo, linda, bem diva.

ÉPOCA – Quem arca com os custos da campanha?

Lohren – a partido ajuda um pouco. Não estou panfletando por aí nem colocando placa em tudo quanto é lugar. Prefiro ir pessoalmente, montadíssima, encontrar o povo. O Facebook também está me ajudando bastante. Quero ser a primeira homossexual assumida a ser presidenta da República.

ÉPOCA – Como funciona a Escola jovem LGBT fundada por você?

Lohren – Somos a primeira escola gay do Brasil. Não tem escola de cabeleireiro, de moda? Somos um polo de cultura, funcionamos há três anos e ensinamos informática, sociologia, tudo com a temática LGBT. Temos até um curso de drag queen.

SEM FEIJÃO COM ARROZ

O produtor Gabriel Dantas, de 24 anos, é um dos principais nomes do Brazilian Day Canadá, entre os dias 27 de agosto e 3 de setembro. Embora o evento aconteça anualmente em mais de 20 cidades, apenas as versões americana, japonesa e canadense ganham destaque. “Isso precisa ser mudado. Entrei no ano passado e percebi que a festa estava muito feijão com arroz, acontecia tudo num dia só. Não havia nada que promovesse, de fato, nossa cultura”, afirma Gabriel. Ele criou uma semana dedicada ao Brasil, com exposição de arte brasileira nas dependências da Câmara Municipal de Toronto, apresentações de capoeira e baterias de escola de samba, a ponto alto será o show apresentado por Serginho Groisman, com a dupla Jorge & Mateus e os cantores Thiago Corrêa e Leo Rodrigues.

A MULHER TROFÉU

Walcyr Carrasco

Tenho amigos que gostam de exibir a mulher. São homens maduros que entram em crise no casamento de muitos anos. E apaixonam-se por outra mais jovem. Conheço um empresário que teve um caso com a secretária. Pagou novos seios de silicone para a nova paixão. Plástica total no rosto. Transformada em sex symbol, a secretária foi promovida a diretora. Ganhou carro e apartamento. Orgulhoso, ele a exibia diante dos funcionários. A mulher, elegante e refinada, descobriu tudo. Separaram-se. Mas a secretária já era casada. Na loucura da paixão, o empresário teve problemas financeiros. Hoje vive sozinho numa casa alugada. A secretária continua com o marido. Mesmo assim, ele não se arrepende. Mostra fotos dela, de peito inchado:

-Vejam só que mulher!

Sempre acreditei que um relacionamento vive de afinidades. Hoje vejo que alguns são alicerçados no exibicionismo masculino. Um grande empresário paulistano, apesar da idade, cerca-se de garotinhas. Suponho que a maior parte delas recebe um “presente” a cada encontro. Durante certa época, ele oferecia um carro a cada namorada do momento. Eram tantas que, dizia-se, tinha conta corrente na concessionária. A vida é dele. Se é feliz assim, não é problema meu. Eu me admirava com o prazer que esse senhor tinha em ser fotografado ao lado das moçoilas. Bem, pelo menos uma prova de sanidade ele deu: não se casou com nenhuma. Há casos em que o madurão não só se apaixona como se casa com a bonitona. Nada contra. O amor é possível em qualquer situação, e a diferença de idade não quer dizer coisa alguma. Mas é surpreendente. Boa parte dessas relações, assim que nasce uma criança, termina no tribunal, com a moça exigindo pensão e boa parte do patrimônio. Na verdade, nesses casos, tenho pena é da criança.

Uma vez fui visitar um casal. Ele, advogado. Ela, precocemente aposentada da carreira de sexy simbol. Às tantas, ele puxou o assunto:

- Sabe que ela já posou nua?

Claro que eu sabia. Mas fiz expressão de surpresa.

-Não diga!

Ele foi até o quarto. Voltou com a revista, já bastante manuseada.

- Olhe aqui.

Mostrou as fotos orgulhoso.

- Quando nos casamos, ela havia acabado de posar.

O que dizer para um marido que exibe as fotos da esposa nua? Nenhum livro de etiqueta explica! Exclamei:

- Que corpo perfeito!

Como sou autor de novelas, ambos viram, na minha admiração, uma oportunidade.

- Leve a revista, disse ele. Tenho outras.

-Mas … mas …

- Eu autografo!, ela se ofereceu, animadíssima, cruzando as pernas no shortinho minúsculo.

E me deu a revista orgulhosa.

Quando me despedi, o marido ainda deu a ideia:

- Quem sabe você bota minha mulher nua numa novela, hein?

Quando conto essas histórias, muita gente acha que só acontecem no meio artístico. Coisa nenhuma. Acredito que seja mais frequente no mundo empresarial e entre altos executivos. Afinal, é onde rola mais dinheiro. Nem acho que as maiores culpadas sejam as garotas. Muitas delas, vindo da classe média baixa, são criadas para encontrar um príncipe encantado. Para elas, um príncipe barrigudo e grisalho não é tão ruim assim. Estão acostumadas com a ideia desde a adolescência. Além disso, muitos homens também mantêm a boa forma. Algumas até devem sentir-se surpresas quando o marido gosta que saiam vestidas de piriguetes. Outras, mais espertas, acham que faz parte do acordo. Já vi isso acontecer em todo lugar. Até mesmo há alguns anos no Hotel Ritz, em Paris, numa ceia de Natal. Um senhor maduro degustava a refeição ao lado de uma jovem quase nua, de tão curta a saia e grande o decote. De vez em quando, ele olhava para as outras mesas, com ar vitorioso.

Atualmente, há uma tendência entre algumas mulheres de se comportar de maneira semelhante. São profissionais de sucesso que se relacionam com um garotão. O musculoso faz o mesmo papel da piriguete. Ou também não trabalha ou tem um emprego mais leve, distante da concorrência selvagem das grandes empresas. Elas também se exibem para as amigas:

-Viu meu gato?

É um risco abandonar a companhia de anos, com quem se divide a vida. Principalmente em troca de um troféu que parece ridículo para quem tem bom-senso. O que mais me espanta é ouvir esses homens e mulheres narrando fatos para provar que a bonitona ou o rapagão estão realmente apaixonados. Já dizia Nelson Rodrigues que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Mas, certamente, é outra qualidade de amor.

ENCONTRO COM CARAVAGGIO

No prédio onde trabalha como porteiro, José da Silva está quase sempre acompanhado de um livro sobre o pintor italiano Michelangelo Caravaggio. Agora, pôde estar diante da obra do ídolo

Aline Ribeiro

“Épor aqui”, diz ele, apontando o caminho para a exposição. É a segunda vez que José Carlos da Silva, de 50 anos, percorre o Museu de Arte de São Paulo (Masp) para apreciar as obras do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), um dos mais notáveis artistas da ‘Renascença. A primeira visita foi só um dia depois de a mostra começar, em 2 de agosto. Seu José, como -todos o chamam, escapuliu em seu horário de almoço da portaria do prédio onde trabalha para finalmente encontrar, cara a gente mesmo. Tudo muito real”. Quando se trata de Caravaggio, o porteiro José é um especialista.

Versado em literatura e artes, com conhecimentos gerais emprestados dos cursos que frequenta para se “reciclar” seu José buscou no aprendizado uma forma de mudar a própria condição. É um homem inteligente e determinado. Quando sobrava um dinheiro, estudava Caravaggio e inglês. Desafiou o senso comum segundo o qual um porteiro não pode entender de artes plásticas. Recita versos de literatura de cordel, de cabeça e sem titubear, comenta trechos de seus livros favoritos (já leu boa parte da obra de Graciliano Ramos e Machado de Assis), conversa sobre música clássica e artes plásticas. “O saber ninguém tira de você. É o que a gente tem de mais valioso’: diz. Seu José, a sua maneira, é um contestador. Isso explica sua afeição por Caravaggio. “Gosto mesmo é da audácia dele”,afirma. Caravaggio começou a pintar no final do século XVI e enfrentou a doutrina da época ao colocar os rostos das prostitutas que frequentava em madonas, como no quadro Marta e Maria Madalena. Transferia para a arte sua vida de tabernas, trapaças no carteado, embriaguez e brigas de rua. Sua trajetória foi conduzida pelo excesso. Só foi reconhecido dois séculos depois de sua morte.

A ânsia por descobrir mundos diferentes fez seu José sair da cidade de Carpina, no interior de Pernambuco, com 18 anos. Eram os anos 1980. Ele pediu ao pai, dono de um pequeno comércio de secos e molhados, os 1.600 cruzeiros da passagem de ônibus e seguiu o rastro de um primo que já se mudara para o Sudeste. Quem recomendou a migração foi a professora do primário, a mesma que lhe ensinou as letras e contou sobre a existência de autores como Graciliano Ramos e Machado de Assis. “Ela falava que a gente poderia conhecer grandes bibliotecas, ter acesso a essas obras”, diz.

Em São Paulo, seu José trabalhou como faxineiro e segurança em loja de departamento até virar zelador e porteiro. Durante esses anos, cruzou a cidade a pé ou de ônibus atrás das bibliotecas e dos grandes autores da literatura. Mais recentemente, encontrou as artes. Em 2001 ou 2002, não lembra bem, leu no jornal sobre o milionário japonês Ryoei Saito, que expressara o desejo de ser enterrado com seu tesouro particular – os quadros o Retrato do dr. Gachet, de Van Gogh, e Baile do Moinho da Galette, de Renoir, arrematados em 1990 por US$ 82,5 milhões e US$ 78,1 milhões. “Quis entender que maravilha tinha essa tal de arte para alguém gastar essa fábula numa pintura’, diz. Por uns três anos, seu José ligou insistentemente ao Masp para tentar se matricular num curso de um ano de história da arte. Até que o homem do outro lado da linha se sensibilizou com a história do porteiro e lhe ofereceu uma bolsa. “Na primeira aula já pensei: é esse mundo aqui que eu quero mesmo”, diz.

Certa vez, um carrão encostou à portaria onde seu José faz vigília, e, do banco de trás, um senhor de meia-idade desceu vestido de roupas pretas. Pediu para falar com José Carlos da Silva. Enquanto o motorista tirava caixas do porta-malas, o homem misterioso se apresentou. Era Charles Cosac, dono da editora Cosac & Naify e de um dos maiores acervos particulares de arte brasileira. Havia ouvido de uma jornalista conhecida de seu José sobre sua paixão por Caravaggio. Resolveu presenteá-lo com mais de 30 livros de arte. Seu José desde então vive agarrado a eles. Quando pode, veste o chapéu e vai até o cemitério da Consolação contemplar as esculturas de Victor Brecheret. Faz sempre uma fezinha na loteria para, se um dia ganhar, ir até o Vaticano, onde ouviu dizer que há muitas obras dos pintores renascentistas. Enquanto isso não acontece, está satisfeito em ter sentido o gostinho de ficar próximo de Caravaggio por aqui: “Agora já posso dizer que vi uma obra dele de verdade”.

AS MULHERES QUE ADORAM BIGODES

Eles passaram décadas exilados nos álbuns de fotografias, mas voltaram com tudo. Agora, até as mulheres querem um (se for de mentira, claro)

Mulher de bigode nem o diabo pode. Mas menina pode. Não só pode, como agora é fashion. O bigode virou moda entre jovens e adolescentes. De repente, vitrines e redes sociais foram invadidas por objetos enfeitados por um bigodão de fazer inveja ao Barão do Rio Branco, aquele da velha nota de Cr$ 1.000, o barão. Camisetas, tênis, bótons e até coelhos de pelúcia com bigodes. É o bigodismo.

A fotógrafa paulistana Sharon Smith, de 31 anos, não sabe de onde vem sua paixão pelos bigodes que se espalharam por sua casa e por seu escritório. Ímãs bigodudos estão grudados nos gaveteiros. Na sala, um enorme bigode de cortiça, trazido da Austrália, enfeita uma das paredes. “Os bigodes me fazem sorrir”, diz Sharon. A estudante carioca Vitória Monroy, de 11 anos, também aderiu ao bigodismo. Ela tem dois coelhos de pelúcia bigodudos e um par de tênis com estampas de dezenas de bigodes. “Todo mundo comenta quando uso’: diz ela. Vitória conta que conheceu a moda com amigas da escola.

De onde vem o bigodismo? Houve um tempo em que o bigode era considerado brega. Num mundo cada vez mais depilado, ele ficou por um fio. Há três teorias sobre seu retorno. A primeira é que os bigodões começaram a aparecer em eventos ligados aos 108 anos que Salvador Dalí faria se estivesse vivo. Outra teoria é que eles surgiram na celebração de outro bigodudo, Freddie Mercury, cuja morte fez 20 anos. Outra explicação é que a fama surgiu por causa da ação da Movember, uma ONG australiana que promove o exame de câncer de próstata e faz campanhas publicitárias usando o bigode como símbolo.

Ninguém é capaz de apontar exatamente a origem dessa novidade antiga. Sabe-se que a mania decolou com Iustin Bieber e Demi Lovato. Os astros teens dos Estados Unidos apareceram num clipe caseiro parodiando a música “Call me maybe”, da canadense Carly Rae. Usavam bigodes. Bieber foi além: pintou um bigode falso e foi fotografado na saída de um restaurante. Estava feito. Meninas do mundo inteiro começaram a comprar produtos com bigodes. Nas redes sociais, elas fazem fotos com o cabelo comprido sobre o lábio para fingir que é um bigode. Ou simplesmente adotam moustache (bigode, na tradução do francês) como um sobrenome para seu nickname no Twitter e no Facebook.

Foi na internet que a estudante Ana Carolina Alves do Santos, de 11anos, conheceu os bigodes. Hoje, ela tem um anel de dois dedos com bigode e pretende comprar um par de tênis com a mesma decoração. “Na escola todo mundo coloca o dedo embaixo do nariz como se fosse um bigode para fazer foto e colocar no Facebook”, diz ela.

Quem milita pelo bigode há muito tempo ficou feliz com a moda. Em setembro, começa em Brasília a quinta Moustache Fashion Week. O evento surgiu em 2007, na Universidade Federal de Brasília. Um grupo de amigos, intitulado “cúpula do bigode”, resolveu fazer o Dia do Bigode. A brincadeira agradou e cresceu. Agora, todos os anos eles promovem uma semana de atividades para os bigodudos. No site, vendem camisetas com o “Eu amo bigode”. O ponto alto da festa deste ano será a Noite do Bigode Cantante, karaokê só para bigodudos em 3 de setembro. O biólogo Stefano Salvo Aires, de 30 anos, um dos organizadores da Moustache Fashion Week, diz que o bigode virou contracultura. “O bigode sofreu preconceito”, diz Aires. “Como ninguém gostava de usar, virou cool.”

VOCÊ LEVA UM VÍRUS NO BOLSO?

O sucesso dos smartphones não passou despercebido aos hackers. Os ataques a celular estão em alta e mais sofisticados. Saiba como se prevenir

Acompanhar uma Olimpíada é trabalho árduo. Em Londres, foram 302 provas em 19 dias. O programa para celular London Olympics Widget, disponível para download grátis nos celulares com o sistema Android, prometia facilitar essa tarefa ao reunir todas as notícias do evento. Era um golpe de hackers. O aplicativo roubava a lista de contatos e monitorava mensagens, Não foi o único programa malicioso, ou malware, a aproveitar o interesse pelos Jogos. Outro aplicativo se passava pelo game olímpico oficial. Ao ser instalado no celular, ativava, sem conhecimento do dono do aparelho, serviços pagos oferecidos pelas operadoras. Londres foi a primeira Olimpíada em que hackers atacaram os smartphones. Até Pequim, há quatro anos, sites e e-mails eram os meios mais comuns para espalhar vírus. Agora, os criminosos virtuais estão atentos ao sucesso dos smartphones.

De janeiro a junho, 13 milhões de smartphones foram invadidos, de acordo com a empresa de segurança NetQin, 117% a mais do que no mesmo período de 2011. No ano passado, o número de vírus para celulares cresceu 155%. Foram 28 mil ameaças diferentes registradas no mundo, segundo a empresa de segurança digital Iuniper Networks, dos Estados Unidos. “Antes, havia quatro sistemas para celular entre os mais populares. Isso dispersava esforços dos hackers e reduzia os ganhos’: diz Daniel Hoffman, diretor da Iuniper. “Hoje, o mercado se divide entre os sistemas da Apple e o Android, do Google. Ficou mais fácil espalhar os vírus.” Por essa lógica, é natural que o maior alvo dos hackers seja o líder de mercado, o Android, presente em 65% dos smartphones vendidos no mundo. Os vírus para Android cresceram 3.325% em 2011. O risco do Android é maior porque ele permite a você instalar no aparelho aplicativos de lojas terceirizadas e menos seguras.

Uma forma de evitar esses vírus seria usar as lojas de aplicativos de grandes empresas. Mas nem elas estão imunes. O Google permite que qualquer produtor de aplicativo coloque um programa à venda na loja oficial Play Store sem testes prévios. O Google faz varreduras periódicas para expurgar programas perigosos e investiga rapidamente quem for denunciado. Até lá os hackers já aproveitaram a brecha para espalhar o vírus. A App Store, da Apple, era tida como a mais segura por só vender aplicativos depois de avaliá-los. No mês passado, o sistema foi burlado pela primeira vez. O aplicativo Find and Call deveria simplificar o uso da agenda do telefone. Em vez disso, roubava os números de telefone e enviava SMS para divulgar o vírus em nome do dono do celular. Foi baixado por 100 mil pessoas até ser removido.

Os hackers tiram proveito dos hábitos de quem tem smartphone. A cada mês, surgem dezenas de novos programas para celular. Instalar e testar esses programas virou uma tentação. Segundo a consultoria ABI Research, cada dono de smartphone baixa, em média, 37 aplicativos por ano. Em todo o mundo, serão 36 bilhões de downloads. Um em cada quatro aparelhos não tem um antivírus instalado, segundo a empresa de segurança Trend Micro. Isso inclui os antivírus que já vêm instalados de fábrica.

A maioria dos ataques visa roubar dados pessoais e monitorar ligações, mensagens, navegação e até mesmo o sinal de GPS. São os vírus espiões, ou spyware. Os dados roubados podem ser vendidos ou usados para acessar o e-rnail ou a conta bancária do dono. Outro tipo popular de vírus assume o controle do smartphone para enviar mensagens de texto. São conhecidos como Cavalos de Troia SMS. As mensagens autorizam a compra de serviços para celular, como alertas de notícias, sem o dono do aparelho perceber. São serviços falsos oferecidos por empresas criadas por hackers. A cobrança vem na conta do celular. O valor cobrado normalmente é baixo para o golpe passar despercebido. A soma de milhares de vitimas costuma dar um bom dinheiro. O vírus ainda envia novos SMS para os contatos da agenda para se espalhar. “Aplicativos são uma oportunidade para os hackers obterem acesso às funcionalidades do telefone, como ligar o GPS’: diz Leandro Mantovam, diretor da empresa de segurança on-line AVG no Brasil. “Já houve casos em que o hacker bloqueou o aparelho à distância e pediu resgate.”

Um antivírus ajuda a prevenir ataques. A maioria dos programas para PC já tem versões pagas para celular. Também há boas opções gratuitas. A melhor prevenção é tomar alguns cuidados. Não clique em links ou baixe arquivos de e-mails de desconhecidos. Antes de baixar, leia as avaliações do aplicativo feitas por outras pessoas e verifique o nome do fabricante. Ao instalá-lo, atenção às permissões exigidas. Esses comandos autorizam o aplicativo a acessar a agenda ou uma conta de rede social. Podem ser necessários a seu funcionamento. Um programa de mapa precisa do GPS ou sinal do celular para localizar você. Mas desconfie se as permissões forem excessivas. Um jogo de palavras cruzadas não precisa do GPS. Como no caso dos vírus para PC, um pouco de bom senso e paranóia ajudam.

“COMECEI A FUMAR”

O ator Alexandre Borges diz que se arrepende de ter começado a fumar e fala da dificuldade de largar o vício

“Meu maior erro foi ter fumado o primeiro cigarro, aos 24 anos. E um erro do qual me arrependo, mas não consertei. Ainda não consegui parar.

Venho de uma geração que não era completamente informada sobre os perigos do cigarro. Fumar era charmoso, principalmente no meio do teatro e do cinema. Comecei quando fui morar um ano e meio em Portugal, no início dos anos 1990. Fazia parte de um grupo de teatro chamado Boi Voador. O diretor foi convidado para levar a peça Gota d’água, de Chico  Buarque, para o país. Fui como assistente de direção e acabei ficando por lá. Morei no Porto. Ao contrário do Brasil, alegre e tropical, Portugal tem um clima de melancolia, uma coisa bem Fernando Pessoa. Fado, bar, café,

vinho e cigarro. Naquela época, era um lugar em que se fumava muito. Tinha uma ideia romântica do cigarro. Como se ele estivesse ligado à criação, ao pensamento, à poesia. Essa boemia me fascina tanto que hoje estou fazendo um projeto chamado Poema Bar,  em que recito Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes, acompanhado por um pianista que toca fado e clássicos.   Não estou enaltecendo o cigarro. Quero parar mesmo. Já consegui ficar sem ele durante um ano. Logo   depois, em 1998, fiz uma peça – mais uma vez em Portugal! – e tive de fumar no palco. Comprei um cigarro de ginseng, mais natural. Só que fedia. Comprei um normal e não larguei mais. Hoje fumo um maço por dia. Minha vida de fumante não é escancarada. Nunca fumo dentro de casa. Vou  sempre para o terraço ou para a janela. Também não me desespero por ficar sem fumar num avião, durante 12 horas.Aguento bem.

Sou o único fumante de casa.A cobrança para parar vem de todo lugar.Na rua, as pessoas me falam “o cigarro vai te matar” ou “fumei durante 50 anos, não faça isso!”.Ando sempre com um chicletinho. Escovo o dente depois ou bochecho. Não estou em processo de parar de fumar ainda, mas não quero  ser um velhinho tossindo o tempo todo.Acho legal assumir esse erro, porque não

é saudável e traz conseqüências terríveis. Para me manter saudável, ando sempre na Lagoa e faço caratê há sete anos. Sou faixa roxa. Minha mulher, Iúlia (Lemmertz), se preocupa com a comida aqui de casa.Tem sempre legumes por causa do meu filho Miguel. Comemos castanha

e granola, essas coisas saudáveis.Eu me cuido em tudo o que é possível e um dia vou parar com o cigarro.
O melhor é não começar, não fumar o primeiro maço. É muito difícil largar. E sempre tem um gatilho para voltar. Um cigarrinho na hora de ler o texto e decorar. Mais um para espantar um

pouco o tédio, a solidão e a carência. Acho ótimo que hoje os jovens tenham consciência sobre os males do cigarro e que seja proibido fumar em lugares fechados. Concordo com tudo. O problema

é a facilidade para comprar. Até menores de idade conseguem. Acho importante dar esse depoimento para os  jovens e também para os fumantes. Ta aí um erro que vale superar.

 

MENTE ABERTA

Quando Quintana se casou, ela usava flores de jasmim entrelaçadas na grossa trança que lhe pendia nas costas. Seus pais, os escritores Joan Didion e John Gregory Dunne, brindaram a ela,

sua única filha, e a Gerry, agora seu genro. Duas vezes. Uma na catedral, a outra mais tarde, num

restaurante chinês de Nova York. Desejaram a eles felicidade, saúde, amor, sorte e filhos bonitos. Naquele dia, 26 de julho de 2003, eles ainda chamavam a isso de “bênçãos triviais”, aquilo que se deseja com sinceridade para quem amamos, mas quase sem pensar. Cinco meses depois, John estava morto. Um ano e oito meses depois dele, Quintana estava morta. Restou Joan, perplexa, pensando que houve um dia, houve uma vida, houve alguém com seu nome que acreditara que felicidade, saúde, amor, sorte e filhos bonitos pudessem ser bênçãos triviais.

Noites azuis (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 29,90, tradução de Celina Porto carrero), o último

livro da jornalista, roteirista e escritora americana Joan Didion, é a narrativa de uma mulher que se

descobre sozinha para testemunhar o próprio fim. Antes dele, Joan escrevera O ano do pensamento

mágico, sobre o período que se seguiu à morte do homem com quem vivera por quase 40 anos,

com quem escrevera roteiros para Hollywood, com quem sonhara com uma filha que se chamaria

Quintana Roo. Um homem que caiu de repente sobre a mesa do jantar porque o coração parou,

deixando-a só e perplexa.
Ao escrever sobre a vida sem John, ela alcançou uma síntese perfeita da catástrofe humana: “A vida muda num instante. Você  se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de  repente”.

a emergência para a qual não há equipes de salvamento. O ano do pensamento mágico tornou-se um best-seller nos Estados Unidos e vendeu 100 mil exemplares no Brasil. Quintana morreria pouco antes do lançamento, depois de  meses com complicações de saúde cujos detalhes Joan escolhe não explicar. Tinha 39 anos.

Noites azuis é a continuação que Joan jamais esperaria escrever.É a história de uma mulher que restou. E talvez se possa dividir a condição humana em três destinos: ou morremos jovens, de doença, tiro, terremoto, acidente de trânsito, como aconteceu com Quintana; ou vivemos até uma idade madura, mas um câncer, um infarto ou um derrame nos leva um pouco antes de todos os outros, como John; ou restamos. No território de seus afetos, Joan foi a que restou. Tinha 70

anos quando se descobriu só.
O que fazer quando você é a que resta? Se você é uma escritora, escreve. Agarra-se às palavras

na tentativa de compreender o impossível, agarra-se para  não afundar. Agarra-se porque é preciso enfrentar as lembranças, sempre fragmentadas, e com elas construir uma memória que faça algum sentido na paisagem devastada que agora é você. Com 1 metro e 56 centímetros e meio de altura e a silhueta de quem poderá ser levada embora na primeira brisa, Joan Didion é uma escritora feroz.Examina a si mesma sem autopiedade  ou pieguice e entrega-se ao leitor com todas as suas marcas. A grandeza de seu texto está na capacidade de entrelaçar a tragédia às pequenas delicadezas do cotidiano. Como ao perceber que, por muito tempo, escrevera vendo as roupas de Quintana secar ao sol

As lembranças espreitam Joan atrás de cada porta, dentro de cada gaveta. Ela levanta a tampa da caixa de joias forrada de cetim e encontra lá dentes de leite.Abre a porta do guarda-roupa e vê três velhas capas de chuva de John, uma jaqueta de camurça dada a Quintana pela mãe de seu primeiro namorado e um bolero de angorá, há muito comido pelas traças, que sua mãe ganhara de seu pai depois da Segunda Guerra Mundial. Ela abre caixas e acha convites para casamentos

de gente que há muito se separou, cartões de agradecimento de funerais de pessoas cujo rosto

esqueceu. “Em teoria, essas lembranças servem para trazer de volta o momento”, escreve.”Na prática, servem apenas para demonstrar quão inadequadamente apreciei o momento quando ele aconteceu.”
Em que momento surgiu Quintana Roo?Antes de setornar criança,ela havia sido uma paisagem. estivessem em casa para atender o telefone? E se tivessem sofrido um acidente na estrada, o que teria

acontecido comigo?’: perguntava.

Joan nunca teve respostas para as perguntas da filha. Como a maioria dos pais, ela se iludira que

seu bebê era uma página vazia, à espera de uma história. Mas todo recém-nascido é uma página que

já começou a ser preenchida pelo desejo, ou pela neurose, ou pelo desespero, ou pelos genes, ou por

tudo isso junto. No caso de Quintana Roo, também pelo abandono que assombra os filhos que um dia

restaram, antes de ser escolhidos por um triz. Durante a maior parte da vida, Ioan não conseguia compreender: “Como ela pôde pensar que eu não cuidaria dela?”.

Mas isso foi antes, quando Joan ainda não tinha ouvido do médico da UTI: “Ela não consegue obter

oxigênio do ventilador há pelo menos uma hora”. O que aconteceu? “Se ontem mesmo eu a segurei

em meus braços. Ontem mesmo eu prometi a ela que estaria segura conosco.” Enquanto escreve, Joan

sabe que homens e mulheres só descobrem a mortalidade quando têm um filho. Quando você jura

proteger sua criança para sempre, mas acorda sem ar no meio da noite porque sabe que está mentindo.

Você mente porque algumas mentiras são necessárias para seguir vivendo, mas você sabe – e seu

filho também sabe. Com a terrível lucidez de ser aquela que restou, [oan agora é capaz de inverter a

pergunta, perigosamente perto da verdade que sempre esteve lá: “Como ela poderia sequer imaginar que

eu tomaria conta dela?”.
Joan descobre, enquanto amarra amarra lembranças, que um filho será sempre, em alguma medida, uma terra incógnita. O nome, afinal, não estava deslocado. Possivelmente ela nunca precisaria pensar nisso se a

ordem da vida – e da morte – não tivesse sido rompida. Agora, aqui está ela, perplexa, apavorada. É a

esta altura que Joan acorda um dia e percebe que se tornou uma velha. Ela sabe o momento exato.

Era manhã de quinta-feira, 2 de agosto de 2007. Joan acordou com manchas avermelhadas no rosto e

algo parecido com dor de ouvido. Desde então, seu corpo tem falhado de várias maneiras. A ponto de

uma noite ela ter se surpreendido com medo de não conseguir se levantar de uma cadeira dobrável

num evento público. Como foi ela que restou, agora gasta horas a fio na sala de espera de hospitais, às

voltas com o preenchimento de formulários nos quais lhe pedem algo nebuloso: indicar quem chamaria

em caso de emergência.
Joan descobre que não tem mais medo de morrer. Tem agora medo de não morrer – de restar sem  consciência ou movimento. Restar sem poder contar nem consigo mesma. Percebe então que as noites azuis

não voltarão. Aquelas noites assim chamadas porque anunciam o verão e só vão embora depois que ele

acaba, nas quais podemos nadar em azul no crepúsculo antes de a escuridão nos alcançar. “Será que

eu pensava que as noites azuis durariam  para sempre?”, indaga-se,para sempre perplexa.

Ela escreve, porém. As palavras também começam a lhe escapar, ela sente que seus verbos e substantivos

“não dizem o que deviam dizer ou não querem’: Mas Joan vive enquanto escreve – e escreve para saber que ainda vive. Enquanto escreve, mantém todos vivos. Um truque desesperado do ilusionista que é todo escritor,

mas também um milagre humano. No livro, Quintana, Iohn e tantos outros que povoaram o mundo

de Joan Didion ainda vivem. E as noites azuis continuam lá.

 O HOMEM QUE AMA E COLETA QUADROS.

O marchand Jean Boghici, de 84 anos, observava sua cobertura pegar fogo, em Copacabana, com os olhos marejados. “Vou me vingar fazendo uma bela exposição’: repetiu aos que se acercaram dele naquele momento difícil. Dentro do duplex da Rua Barata Ribeiro, ardiam telas como Samba, de Di Cavalcanti, uma obra-prima do modernismo brasileiro avaliada  em R$ 50 milhões, e Floresta tropical,de Alberto da Veiga Guignard, cujo valor é estimado em R$ 5 milhões. O incêndio da segunda-feira, dia13, atingiu um dos andares da cobertura e consumiu um número ainda indeterminado de peças da coleção de Boghici, que compreende

centenas de telas. A perda monetária poderá ser coberta por um seguro, mas, para o colecionador, as obras têm valor afetivo maior que o financeiro. Um amigo conta que já viu o marchand subir o valor de um quadro a níveis estratosféricos para o comprador desistir, e ele continuar com a obra.
Dono de uma das maiores e mais valiosas coleções particulares  do país – há quem diga que o valorsomado das obras que Boghici tem em casa ultrapassa os R$ 300 milhões -, o romeno aportou no Rio de Janeiro em 1949. Tinha 21 anos e não trazia documentos. Sem dinheiro, chegou a dormir    na areia das praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Para evitar a fiscalização contra imigrantes, foi para Minas Gerais. Levava consigo

uma experiência artística que mudara sua vida. Um ano antes  de vir para o Brasil, visitara umaexposição de Van Gogh em Paris. Ficou tão tocado pelo que viu que  decidiu desenhar e estudar sobre o pintor. Assim que se estabeleceu em Minas Gerais, Boghici procurou o melhor professor de arte da cidade para estudar desenho e caricatura. Assim conheceu o pintor fluminense Guignard (1896-1962). Apaixonou-se de vez pela arte, mas ainda precisava pagar suas contas.
De volta ao Rio, trabalhou consertando rádios, foi ferroviário,  vitrinista e técnico de som. A virada veio em 1958. Dono de uma memória invejável e estudioso de Van Gogh, participou do programa O céu é o limite, na TV Tupi, em que os candidatos respondiam a perguntas ao vivo sobre temas específicos. Ganhou o equivalente a US$ 200 mil, mesmo desistindo com menos do que poderia ganhar. ”As pessoas me pediam na rua para eu não desistir’: disse então.
Com o dinheiro do prêmio, comprou o apartamento de Copacabana, um carro e quadros. Ao aparecer na TV, ganhou popularidade como conhecedor de arte. Com esse patrimônio abriu a Galeria Relevo, que se tornaria ponto de encontro de intelectuais, colecionadores e apreciadores  de arte. Como os principais pintores  acionais da época tinham contratos com outras galerias, Boghici garimpava obras antigas. Ao mesmo tempo, revelava talentos, como Vanda Pimentel. Namorou a escultora e pintora mineira Lygia Clark (1920-1988), que lhe deu crédito pela ideia de usar dobradiças na série de esculturas Bichos Casado com a francesa  Genevieve  Boghici, ele tem uma filha chamada Sabine Coll, de 39 anos. Os três tinham cinco cachorros e dez gatos no apartamento. A gata preferida de Boghici, Pretinha, morreu no incêndio. “Foi a maior perdi: disse.
“Ele é um marchand que colecionou para os outros e colecionou para si mesmo’: diz Leonel Katz, curador da mostra O colecionador, que levará parte da coleção de Boghici ao Museu de Arte do Rio em setembro. Quinze das 150 telas programadas foram perdidas, mas o colecionador terá sua vingança.

O RAP DE RESULTADOS

Oscríticos apregoam a morte do gênero rap no movimento hip-hop há pelo menos três anos. Usam as canções conhecidas do estilo, todas com 30 anos ou mais, para retratar aquilo que consideram ser uma “crise de meia-idade’: “O hip-hop não traz mais a vanguarda da música  popular’: afirmou a revistaThe New Yorker em 2009, no aniversário de 30 anos de “Rapper’s delight”. Lançada pelo trio nova-iorquino Sugarhill Gang em 1979, a música popularizou o estilo. Revistas como Time e Esquire proferiram o mesmo veredicto

com ar de obituário. Ainda assim, o gênero permanece nas paradas de sucesso.
Na semana passada, a música “Whistle”, lançada pelo rapper FIo Rida, de 32 anos, tornou-se a mais ouvida dos Estados Unidossegundo a revista Billboard. Acabou  com a supremacia de nove semanas de “Call me maybe”, da cantora pop Carly Rae Iepsen, O  rapper Rick Ross lançou o discoGod forgives, I don’t em 31 de julho e estreou como o mais vendido do país em todos os gêneros. Os dois rappers, curiosamente,

foram criados na pequena cidade de Carol City, na Flórida. São exemplos de sucesso popular num

estilo que passou a vender menos, mas continua a su
Segundo os críticos, os ídolos do rap vivem seu crepúsculo e  deixaram de inovar (leia o quadro ao lado). Ainda assim, descobriram como manter as vendas de álbuns e shows. Esse parece ser o caso de FIo Rida e Rick Ross. Eles escolheram o caminho do dinheiro no início da carreira, quando

o estilo dava os primeiros sinais de crise. Em 2006, pela primeira vez em cinco anos, nenhum dos

dez discos mais vendidos nos Estados Unidos era de rapoUm dos sucessos do rap naquele ano foi

o álbum de estreia de Rick Ross, Port to Miami. Ross ajudou o conterrâneo Fio Rida com uma

parceria na canção “Birthday”. Fio Rida chegou ao estrelato no ano seguinte, com o disco Mail

on Sunday.
O que, no estilo deles, ainda encanta os ouvintes? Ambos falam de mulheres e dinheiro, como quase todos os cantores de hip-hop. As diferenças são mais importantes. Fio Rida é forte na pista de dança, com arranjos que remetem ao pop. Depois que ele  se aproximou do produtor francês David Guetta, ídolo da dance music, suas músicas passaram a figurar nas listas de canções pop, ao lado de KatyPerry e da banda Maroon 5. A crítica odeia, mas vende como energético gelado. Mais pesado que o amigo, Rick Ross conta histórias do gueto. Drogas, violência, crime e erotismo.

Ross tirou seu nome artístico de um famoso traficante de drogas. Mantém o estilo bad boy, apesar

ter em sua ficha criminal apenas porte de maconha e bagunça no camarim. Nem ele nem FIo Rida

são tidos como a salvação do hiphop. Seu sucesso sugere, porém, que o estilo ainda tem força para se reinventar – enquanto aguarda uma geração inovadora.

O PADRÃO SUICIDA DAS GREVES.

Ruth de Aquino.

A Polícia Federal está com concurso na rua, salário inicial de R$ 7.700para agentes e escrivães, funções de nível superior. Você acha que esses salários são exorbitantes em relação às atividades que esses profissionais desempenham?
Recebi esse e-mail de um leitor da coluna, incomodado com minha crítica suave às greves dos  servidores públicos federais. Greves que considerei irresponsáveis por infernizar a vida de inocentes que ganham bem menos. Como o piso dos jornalistas – profissão que também exige  diploma universitário e pode incluir riscos de vida – varia entre pouco mais de R$ 1.000 e pouco mais de R$ 2.000, respondi que os servidores parados estão descolados da realidade do país.
Será difícil para grevistas com estabilidade e salários em torno de R$ 10.000ganhar apoio, ainda  mais pelo desrespeito à população. Por que os 300 mil funcionários parados não vão para Brasília e fazem um protesto gigante na Praça dos Três Poderes? Talvezporque o ar esteja seco demais  a Capital. Dá preguiça. Exige planejamento.
O motivo principal é que protestos democráticos não causam o prejuízo emocional e financeiro de bloqueios em estradas, aeroportos, portos, hospitais e universidades.
O leitor desta coluna tem a resposta para o impasse – ele convida todos a fazer parte da casta dos servidores: “Os salários do funcionalismo são um pouco mais altos para reter no serviço público funcionários compromissados, que desempenham atividades essenciais ao funcionamento do país, como se pode inferir dos transtornos que temos observado nos últimos dias. Se tais salários são invejáveis, os cidadãos que os invejam podem também participar dos concursos, basta vontade de estudar por meses, até anos”. Podemos deduzir que só os servidores estudam com afinco – e que nosso trabalho não é essencial.
Provavelmente, a maioria dos leitores achará mesmo “exorbitantes” os salários iniciais da Polícia Federal. E mais exorbitante ainda o aumento exigido: eles querem R$ 12.000. De piso. Esse bando de baderneiros de uniforme e boné vem distribuindo bombons e pizzas nos aeroportos para famílias, assalariados, crianças e idosos. Reféns enfileirados por horas, impotentes diante de uma operação padrão de chantagem.
Vocês deveriam distribuir nariz de palhaço, não bombons! -, disse um passageiro aos policiais federais no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.
Há 643.404 civis trabalhando para o Poder Executivo, ou seja, para Dilma. O piso dos auditores da Receita Federal, entre 2003 e 2010, deu um salto mortal (para nós, não para eles): foi de R$ 5.000para R$ 13.600,um aumento 55% acima da inflação. É exorbitante. Mas eles não estão satisfeitos.
Lula alimentou, em seus mandatos, a megalomania das centrais sindicais, que estão se achando. Dilma demorou a reagir, o sentimento de onipotência se alastrou entre os servidores, mas agora a presidente precisa do apoio do país e da Justiça para não ceder aos grevistas.
Se as exigências fossem aceitas, o impacto nas contas públicas seria de R$ 92 bilhões. Não dá.  são existe. Ponto. Lula demorou a apoiar Dilma, mas elogiou a atitude da presidente na quarta-feira: “O dinheiro é curto”.
Os grevistas acusam “a mídia desinformada” de jogar a população contra os servidores parados há meses. Os grevistas produzem as manchetes e se ressentem delas.
Há, sim, categorias com salários defasados. Elas erram e perdem a força ao se unir a coleguinhas bem remunerados e ensaiar um rolo compressor. Os reajustes pedidos variam de 20% a 70%. Que país pode hoje conceder esses níveis de aumento?
Cito outro e-mail que recebi, de Virginia Paranhos Jardim, servidora do Ministério Público Federal de Goiás: “Não se pode juntar toda a categoria de servidor federal num só bolo. Tanto o Ministério Público Federal como o Judiciário Federal estão sem qualquer reajuste há mais de seis anos. Enquanto isso, assistimos à inflação corroendo nosso poder aquisitivo todos os dias”. Virginia me pediu que não divulgasse seu salário. Entendo sua revolta. Mas quem está colocando tudo em “um só bolo” são os 300 mil grevistas de mais de 30 categorias. Eles apostam na orquestração do caos.
Eles não têm o direito de parar o país, parar você, me parar, parar os carros e caminhões, parar o  estudo de nossos filhos, parar a assistência médica a nossos parentes, parar a importação de remédios. Isso não se chama greve, mas abuso de poder. O governo deveria regulamentar as  fronteiras da greve no serviço público, de uma vez por todas.
Os sindicatos oportunistas estão incomodados com o “autoritarismo de Dilma”. Dilma responde que  está mais preocupada com quem não tem direito a estabilidade e nem consegue emprego. Estou com Dilma.Os grevistas incomodados que se mudem … para a Zona do Euro!

veja 22

DIPLOMA DE INSENSATEZ

O Senado aprova a volta da exigência de certificado para jornalistas, derrubada em 2009 pelo STF

 

As ideias ruins a história reservou o mesmo lugar destinado às más lembranças, o passado. Vez ou outra, porém, alguém tenta subverter essa lógica. É o caso dos que defendem a volta da exigência do diploma em comunicação social para a prática do jornalismo no Brasil. Trata-se de uma má ideia surgida durante a fase mais repressiva da ditadura militar, em 1969, e derrubada em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, o STF considerou a regra inconstitucional por ferir o direito à liberdade  de expressão. Desde então, sindicalistas e faculdades de comunicação, vendo-se ameaçados em sua sobrevivência, iniciaram uma campanha para anular a decisão da Suprema Corte. No início deste mês, a iniciativa prosperou e o Senado aprovou uma proposta de emenda constitucional (PEC) que ameaça forçar o pais a dar meia-volta na direção do passado.

O decreto de 1969 foi imposto no auge da repressão à liberdade de expressão – dois anos antes, o governo havia criado, por exemplo, a Lei de Imprensa, que previa a prisão de jornalistas em caso de “subversão da ordem pública ou social”. Ao exigir o diploma e o cadastro dos profissionais no Ministério do Trabalho, o decreto procurava controlar quem teria acesso às redações. A norma vigorou por quarenta anos, até virar tema de discussão no STF.”O jornalismo e a liberdade de expressão são atividades imbricadas

por sua própria natureza e não podem’ ser pensados e tratados de forma se parada”, afirmou o ministro Gilmar Mendes, relator do processo que enterrou a

obrigatoriedade do diploma para jornalistas no Brasil.

O jornalismo existe para relatar à sociedade fatos de interesse público ligados a todos os campos de conhecimento. Nada mais lógico, portanto,

que profissionais das mais diversas áreas tenham espaço para tratar desses acontecimentos. Um jornalista deve conhecer técnicas de apuração, saber selecionar informações, organizadas e relatá-las com clareza e precisão. Cursos que ofereçam essas ferramentas podem auxiliar na formação de profissionais, mas não devem servir de barreira para impedir que aqueles que investiram em outras formações usem seu conhecimento para atuar no jornalismo. Se a exigência do diploma atende a interesses de certos grupos,não contempla os da sociedade. Esta só tem a ganhar com uma imprensa formada por profissionais de matrizes diversas.

A proposta aprovada no Senado no dia 7 nada mais é do que uma tentativa marota de driblar uma decisão tomada há três anos pela corte máxima do país. Ela agora foi encaminhada à Câmara dos Deputados, a quem cabera decidir se o texto seguirá adiante ou se lhe será dado o destino devido às coisas do passado, a poeira das gavetas.

 

POR QUE SE ACREDITA NO INACREDITAVEL

Há trinta anos o psicólogo americano Michael Shermer se dedica a combater superstições; Ele criou uma ONG, uma revista (Skeptic Magazine), sites e programas de TV focados em promover o pensamento cientifico e desmascarar

charlatões. Shermer, que chega ao Brasil no fim deste mês para uma série de

palestras, é autor de quinze livros. O último, Cérebro e Crença, foi lançado em

português na semana passada. Nesta entrevista, ele diz que a tendência de se iludir com fantasias é própria do processo sso mental humano e defende o combate à crendice em favor do progresso.

Por que as pessoas acreditam no inacreditável? A evolução fez do cérebro uma espécie de máquina de reconhecimento de padrões na natureza. Às vezes, esses padrões são reais, mas na maioria dos casos são fruto da imaginação. Milhões de anos no passado, ao ouvir um barulho vindo da mata,

um hominídeo poderia supor que se tratava de algo inofensivo, como o vento. Se estivesse errado, e fosse um predador, correria o risco de ser devorado. Nosso ancestral poderia, por outro lado, imaginar a presença de uma divindade perigosa no mato e se afastar o mais rápido possível. A segunda opção é a que a maioria adota. Imaginar o perigo e fugir garante a sobrevivência, mas  também a ignorância. Ir até o mato verificar do que realmente se trata o barulho exige curiosidade e uma batalha contra os instintos. É nessa categoria, a dos homens que não se rendem a narrativas fictícias, que se encaixa o cientista. Os crentes seguem a trilha inversa, .a dos que se contentam com suposições sobrenaturais. É um fenômeno que tem a ver com a química do cérebro: a convicção de que o pensamento mágico é o que basta para a compreensão do universo produz uma sensação de prazer. Ficamos felizes em imaginar qu seres místicos, sejam eles deuses ou extraterrestres, se preocupam e cuidam de nós. Não nos sentimos sós.

Como se sabe que o cérebro é propenso a acreditar 110 fantástico? A neurociência identifica padrões de ondas cerebrais distintos que nos levam a criar crendices e a ter prazer na constatação de que temos respostas às nossas dúvidas. Em situações extremas, como as enfrentadas por quem está no limite daresistência física ou próximo à morte, océrebro reage com a redução da atividadena área responsável pela consciênciae o aumento em regiões ligadas àimaginação. Essa reação natural estána origem das alucinações. Não hámistério nesse processo. Os cientistassão capazes de produzir visões ou asensação de transcendência espiritualcom o estímulo artificial de cenasáreas do cérebro.

O senhor foi um cidadão evangélico ativo no esforço fieis para sua igreja. Como se tornou um cético? Somos mais abertos à religião na juventude e na velhice. Naturalmente, no fim da vida é comum procurar por conceitos reconfortantes, ainda que irreais. No meu caso, o apelo da crendice me atingiu na juventude, como uma explicação fácil para tudo o que existe. A religião tem um apelo social enorme. O ambiente alentador de uma comunidade ajuda a afastar as dúvidas ate daqueles  que não acreditam plenamente no sobrenatural e nos dogmas religiosos. Desvencilhei-me da crença ao entrar para a comunidade cientifica. O método científico, cujo princípio básico é ode que qualquer atírmação deve ser comprovada em experimentos repetidos, alimenta o ceticismo e favorece o progresso.

O que faz com que a ciência seja a melhor ferramenta para explicar o mitos? A ciência é democrática. Qualquer umpode estudar e chegar a conclusões racionais. Cientistas estão abertos à possibilidadede estarem errados e, por isso,promovem a invenção e a reinvençãode conceitos. É o que garante o avanço do conhecimento. A crendice é intolerante. Fixa uma verdade e não abre espaço para perguntas. Se nos apegássemos apenas ao sobrenatural, nunca teríamos saído da floresta e criado a civilização.

No mundo moderno, ainda precisamos da crença? É impossível deixar de crer. A ciência também depende da – nossa capacidade de elaborar crenças. Qualquer experimento nasce com uma premissa baseada no que se acredita ser verdade. Ideologias também precisam da habilidade de crer. Eu acredito no liberalismo, na democracia e nos direitos humanos. Podemos, porém, abandonar Ó que não pode ser explicado, como deuses e bruxos. Não nos faria falta.

Há vantagens na crença? A evolução nos concedeu a habilidade de acreditar por boas razões. A crença em divindades nos levou a temer o mundo e, com isso. nos ajudou a sobreviver nele. Também contribuiu para a formulação de leis que regiam comunidades primitivas. A moral e a ética

nasceram na religião.

Se a ética tem origem, por que ela prevalece na sociedade laica?As igrejas se tomaram um fator de corrupção, motivo de guerras e perseguições. Por sorte, presenciamos o declínio da crença no sobrenatural. Países do norte europeu, onde apenas um quarto da população segue alguma religião, têm índices de criminalidade, suicídio e doenças sexualmente transmissíveis inferiores- aos de estados em que a maioria dos habitantes é de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religião se declara um bastião Ia bondade, por que, historicamente, estados teocráticos são mais suscetíveis à criminalidade do que os seculares?

Apesar de vivermos na era da ciência, cresce a crença no sobrenatural. Pó quê? É verdade que vivemos num mundo em que a ciência faz parte do dia a dia Todos gostam de iPhones e admiram as naves que pousam em Marte. Mas poucos abdicam de crenças sobrenaturais e aceitam a ciência como ferramenta para explicar o universo. A maioria só quer aproveitar os produtos da ciência Quando se trata de responder a dúvidas primordiais, como a origem do universo ou o sentido da existência, preferem explicações irreais, mas convincentes em suas narrativas fictícias.

Por que o senhor se dá ao trabalho de combater a superstição?Sempre me perguntam por que não deixo os crentes em paz. Ocorre que a crença no sobrenatural não é inócua. Ao contrário, é bastante perigosa Acreditar na dita medicina alternativa é um exemplo. Muita gente morre por substituir o tratamento médico sério por procedimentos supersticiosos, como o consumo de ervas com propriedades supostamente milagrosas.

Não é possível provar a existência de divindades e criaturas fantásticas. O senhor concorda que também é difícil provar que não existem? O fato de não explicarmosum mistério não significaque ele exija explicações sobrenaturais. Só mostra que ainda não há resposta Oônus da prova cabe aos crentes. O céticosó crê no que é provado. Nesse aspecto,a ciência tem feito bom trabalhoao desmascarar mitos. No passado, jáse acreditou que a Terra viajava pelocosmo no lombo de um elefante. Existem10 000 religiões. Espanta-me a arrogânciade quem supõe que só umacrença seja correta em meio a tantas.

O senhor leva em consideração que pode estar errado? Assim como todos, sódescobrirei a resposta quando morrer.Como cientista, estou aberto à possibilidadede ter me enganado. Se houverum ou vários deuses, ficarei surpreso. Mas não tenho medo. Se há um Deus,ele me deu um cérebro para pensar,Meu pecado seria usá-lo para raciocinare buscar explicações? Um ser benevolentenão me puniria por utilizarbem as armas que me concedeu.

 

HORMÔNIOS ELES COMANDAM TUDO, DO HUMO AO EMAGRECIMENTO.

 

Por acelerar o metabolismo, a irisina vem sendo chamada de “ginástica em gotas. Ela é o mias novo achado da intricada e fascinante rede hormonal que rege nosso corpo e nosso mente.

 

Confirmado o efeito da irisina em humanos, o hormônio levaria a uma perda de 4 quilos em seis meses*

 

“A existência humana é definida por um mar interior.” Com essa certeza, o médico francês Claude Bernard (1813-1878), considerado o pai da fisiologia,entrou para a história da medicina. O “mar interior” foi a metáfora usada para sintetizar o seu último (e maior) achado: o de que o organismo é controlado por “fluidos que circulam pelo, corpo”. Até então, acreditava-se que as células trabalhavam em circuitos fechados, sem comunicação entre eles. A mudança de paradigma aconteceu em 1848, a partir de experimentos com cachorros. Ao analisar as entranhas dos animais, Bemard percebeu que substâncias produzidas no pâncreas e no ffgado poderiam ser encontradas também em órgãos distantes, como os intestinos. Foi dado ali, em um laboratório do ColIege de France, em Paris, o primeiro passo para a descoberta dos intricados mecanismos reguladores do mar interior que determinam a existência humana  os hormônios.

Até agora, contam-se duas centenas de hormônios e, graças a eles, nossas células são abastecidas de energia, nosso coração bate, nossas artérias pulsam, temos fome e nos saciamos, dormimos, acordamos e

nos emocionamos. Tão poderosos são que, caso fossem agrupados, todos os hormônios circulantes em nosso organismo somariam apenas dez gotas. Ao longo do século XX, a compreensão sobre eles avançou extraordinariamente, mas as pesquisas estão em constante ebulição. Data apenas de um mês, por exemplo, o anúncio do detalhamento da ação da irisina, o hormônio produzido

pelos músculos com ação nas células de gordura – ele próprio revelado no início do ano. A medida da importância desse achado é dada pelo endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clínicas (CPClin): “Fazia pelo menos duas décadas que não se via uma novidade tão impactante na área”.

Imagine o sistema hormonal como uma orquestra. O hipotálamo, no miolo do cérebro, é o diretor artístico, e a hipófise, na base do crânio, o maestro. Nesse conjunto, os hormônios sintetizados por outros órgãos e glândulas equivalem às orquestras de câmara. Como em um concerto, em que todos os músicos tocam juntos, os hormônios interagem entre si – e o bom funcionamento de um depende da ação precisa de outro. No quadro abaixo, com a consultoria dos médicos Malebranche Berardo  Carneiro da Cunha Neto, Freddy Eliaschewitz e Antonio Carlos do Nascimento, VEJA listou o mecanismo de síntese e ação dos trinta principais hormônios, que participam de 70% de todas as funções do corpo humano

As descobertas sobre a irisina foram divulgadas pelas prestigiosas revistas científicas Nature e Cell. Os estudos conduzidos pelo médico Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, avaliaram o impacto da irisina em camundongos. Durante três semanas, as cobaias praticaram uma hora diária de atividade física sobre rodas (o equivalente a um exercício em esteira ergométrica), em ritmo de caminhada rápida. A partir do 21º dia ( da décima semana no calendário humano) os animais produziram irisina em quantidade suficiente para ativar em determinadas células de gordura a produção de calor. Ou seja, o que se mostra aqui é que a irisina tem o poder de acelerar o metabolismo do tecido adiposo (em até cinquenta vezes) e, portanto, de fazer emagrecer.

De posse dessas informações, os pesquisadores desenvolveram em laboratório a versão sintética do hormônio. O composto foi então injetado em camundongos obesos e sedentários, 5 alimentados à base de uma dieta híper calórica, rica em gorduras. Ao cabo de   dez dias, apesar da inatividade física e do excesso de comida gordurosa, os roedores perderam 2% do peso corporal – o que, entre homens e mulheres, equivale a uma redução de 4 quilos em seis meses. Nenhuma outra substância, seja ela hormônio, alimento ou suplemente, é capaz de aumentar nesse grau (e de forma tão rápida) a velocidade de o funcionamento do organismo. As experiências com a irisina em humanos devem começar a partir de 2013. “Confirmados os resultados obtidos com as cobaias, estará deflagrada a maior revolução no tratamento da obesidade desde os tempos da descoberta dos anorexígenos, na década de 40″, diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Trocando em miúdos, a irisina é a ginástica em cápsula – ou em gotas.

Depois de ser liberada pelas fibras musculares, a irisina chega às células de gordura, onde estimula a produção da enzima UCPl. A célula sofre então uma alteração em sua estrutura química e, em vez de estocar a gordura, passa a queimá-la, sob a forma de calor. As células transformadas pela irisina foram chamadas de células bege, já que, no processo de termogênese, absorvem mais ferro e, por isso, escurecem. A pesquisa publicada na revista Cell mostrou que as células bege possuem, em relação às células adiposas normais (as brancas), uma quantidade cerca de vinte vezes superior de mitocôndrias, as pequenas usinas de energia localizadas no interior dessas estruturas. Normalmente, a maioria dessas miniusinas se mantém desativada, e elas sê entram em funcionamento sob a ação do hormônio – liberado pelo exercício físico, Suspenso o estímulo da ginástica, essas mitocôndrias são desativadas e a célula retoma seu comportamento original, de estocar energia na forma de gordura. Até o artigo na revista Cell descreve as células bege, acreditava-se que a irisina agia nas células marrons, encontradas sobretudo em recém- nascidos. Nas primeiras semanas de vida, quase um terço da gordura corporal dos bebês é formada pela gordura marrom, que, produzem intenso calor. Em outras palavras, as células marrons fazem o mesmo que as bege, só que sem precisar da irisina. Elas são importantes para a adaptação do recém-nascido à temperatura fora do útero materno.

A Irisína pertence a um dos chamados circuitos hormonais paralelos. Ou seja, ela é produzida por um órgão fora do eixo hipotálamo – hipófise, da mesma forma que a insulina, sintetizada no pâncreas, e a leptina, nas células de gordura. Imagine os’ 200 hormônios organizados como  numa orquestra. Os sistemas paralelos equivaleriam às orquestras de câmara, que, apesar de parecer funcionar de forma independente,têm  de seguir o ritmo do conjunto. Nessa composição, o cargo de diretor artístico caberia ao hipotálamo, uma glândula minúscula localizada no miolo do cérebro. A regência dessa orquestra bioquímica, no entanto, seria da hipófise, glândula do tamanho de um grão de feijão encontrada na base do crânio. Descrita pela primeira vez no ano 150 pelo médico grego Claudio Galeno (129-216), a hipófise só foi definida como o maestro dos hormônios nos anos 1920, pelo endocrinologista americano Philip Edward Smith (1884-1970). Entre os vários hormônios produzidos pela hipófise, seis estão envolvidos em 70% do funcionamento da máquina humana (veja o quadro nas págs. 90 e 91).Essa glândula é tão vital que, caso seja tomada por um tumor, perde suas funções gradativamente e de acordo com uma hierarquia bem definida. Nela, os hormônios menos importantes para a sobrevivência deixam de ser produzidas antes. As primeiras células a entrar em falência são as produtoras do GH, o hormônio do crescimento “Se  a reposição de GH não ocorre, o paciente pode levar uma vida péssima, com alterações graves de memória e perda de massa óssea e muscular, mas dificilmente morrerá por causa desse desfalque hormonal”, diz Malebranche Berardo Carneiro da Cunha Neto, neuro endocrinologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Na escala de prioridades, o ACTH, em caso de comprometimento da hipófise, é um dos últimos que deixam de ser fabricados. Tal composto é o precursor do cortisol, O hormônío do stress. Entre as suas funções, uma das mais importantes é manter a pressão arterial. Sem ele, o sangue deixa de circular adequadamente e, em consequêncía, os órgãos entram em falência. Não há vida sem cortisol. Além disso, do ponto de vista evolutivo, o hormônio tem um papel fundamental (veja o quadro nas págs. 92 e 93). Diante de uma ameaça iminente, é ele que nos põe em posição de alerta para enfrentar o perigo ou fugir dele.

Chaves da vida, os hormônios têm uma complexidade de ação que fascina. Por vezes, é preciso que dois ou mais se aliem para cumprir uma mesma função. Para manter o equilíbrio hídrico do organismo, por exemplo, são necessários pelo menos quatro hormônios fabricados em locais diferentes. Um hormônio pode ainda servir para estimular a produção de outro. É o caso da grelina. Produzida pelo estômago com a função de abrir o apetite, na hípofíse, ela tem a missão de ajudar na síntese de OH, o hormônio ligado ao crescimento. Um terceiro exemplo do intricado funcionamento da teia hormonal é o fato de que, a depender da quantidade produzida, da sensibilidade do alvo atingido e do estímulo externo, um mesmo hormônio pode exercer funções completamente diferentes. É o que acontece com um dos mais intrigantes compostos produzidos pelo organismo, a oxitocina. Fabricada pelo hipotálamo e distribuída pela hipófise, ela auxilia a produção do hormônio insulina no pâncreas e participa do transporte do esperma nos testículos. É a oxitocina também a responsável pelas contrações uterinas no momento do parto e durante a relação sexual. Ela ainda está presente durante a amamentação, facilitando a liberação do leite materno. Por ser um dos poucos hormônios produzidos diretamente no cérebro, a oxitocina é uma das substâncias que mais influenciam o comportamento humano. É ela que regula a intensidade dos vínculos afetivos, a autoconfiança e a sensação de relaxamento. A testosterona é outro hormônio curioso. Embora seja fabricada também pelo organismo feminino, ela é o hormônio masculino por excelência. Em ambos os sexos, a

testosterona está envolvida na produção de ossos, massa muscular e oleosidade da pele. Ao agir no cérebro, estimula a libido. O fato de o sexo

masculino produzir cerca de trinta vezes mais testosterona do que o feminino explica por que os homens são em geral mais fortes e mais peludos, têm

a voz mais grossa e estão sempre pensando naquilo. Graças aos progressos na área da biotecnologia, hoje é possível a fabricação de hormônios quimicamente idênticos aos produzidos naturalmente pelo organismo (veja o quadro nas págs. 94 e 95). “A reposição hormonal, como a que é feita na menopausa, aplica-se a absolutamente todas as situações causadas pela falta de hormônio”, diz Marcos Tambascia, endocrinologista da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Um desafio ainda persiste: não basta que os hormônios sintéticos tenham a mesma estrutura química de seus equivalentes naturais. É preciso fazer com que eles se submetam aos comandos do organismo como os originais. Por isso é tão complicado (mas não impossível)o tratamento, por exemplo, do diabetes. Em um organismo saudável, a insulina é liberada em doses precisas, que, ao longo de um único dia, variam muitas vezes em função de diferentes circunstâncias. A indústria farmacêutica tentou contornar o problema com a criação de insulina de longa e curta duração. Mas, apesar dos acertos, esses medicamentos ainda não conseguem acompanhar totalmente o ritmo natural do organismo. Como o mar de verdade, o da metáfora de Claude Bernard é vasto, fascinante e cheio de segredos ainda por desvendar.

 

MEDIDAS EXTREMAS

 

Treinamentos físicos de altíssima performance são a novidade do momento entre os malhadores. Corpos muito mais musculosos do que ‘no passado foram a tônica da última Olimpíada e, agora, o modelo bombado domina academias. Vai encarar a marretada?

 

Atacar pneus de trator com marretas, carregar cordas de 12 quilos nas costas e praticar outras loucuras está na moda entre os perseguidores do físíco explosivo. Loucura não é totalmente força de expressão. Nos Estados Unidos, o nome do programa de exercícios extremos do momento é Insanity, e ele reúne uma quantidade tão radical de movimentos que chega a queimar I000 calorias por sessão. Com uma folga por semana. Quem achava que duas a três aulas na academia. Alternando esteira e alguns aparelhos de musculação, eram suficientes pode engolir em O “fervor olímpico” que geralmente baíxa.

depois da grande competição  esportiva mundial, os preparativos para a próxima estação quente , a moda dos corpos cheios de músculos e a tendência da hiperginástica estão se combinando para tirar o fôlego dos amadores

A Olimpíada evidentemente foi a grande vitrine dos músculos fenomenais. A diferença entre o bronze de Cesar Cielo e o ouro do francês Florent Manaudou foi infinitesimal, mas os corpos igualaram-se no poder escultõrico. “Até dez anos atrás, o treino dos nadadores era nadar e nadar, por horas a fio. A musculação era mal vista pelos técnicos porque eles achavam que muito músculo tirava a forma aerodinâmica do corpo do nadador e, por isso, atrapalhava a performance”, diz Paulo Zogaib, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo. “Hoje, sabe-se que nadadores e corredores, por exemplo, precisam passar a metade do tempo se dedicando a seu esporte  específico e a outra metade fazendo exercícios funcionais que trabalham diversos grupos musculares ao mesmo tempo”, explica Turibio de Barros, fisiologista especialista em esporte. O conhecimento cada vez mais avançado do funcionamento do físico e da importância dos músculos para aumentar a propulsão e amenizar os efeitos do esforço embasa o treinamento dos atletas de ponta. “É por isso que as pesquisas mostram agora que as maraotonas nõa destroem tanto o corpo do atletas:, diz Turibio. “Como eles hoje se preocupam em  criar e fortalecer os músculos, seus corpos estão mais preparados.”

Os aperfeiçoamentos alcançados com atletas de elite transbordam para os esportistas amadores. Os treinamentos de altíssima exigência aproveitam as lições dos profissionais para produzir, em lugar de medalhas, corpos extremamente em. forma. ”As pessoas se sentem melhor ao ver que ultrapassaram seus limites físicos”, diz Shaun Thompson, o criador do Insanity. Os nomes são feitos mesmo para impressionar. As aulas de Heroes Camp, dadas na academia Reebok, em São Paulo, reúnem o jeitão de treinamento militar e acessórios que injetam novidades de ar rústico. “Na quarta vez em

que levantei a corda, já queria parar”, relembra a designer de interiores Isabela Queiroz, 24, hoje habituada a arrastar a carga de 12 quilos brincando. “Quando a aula acaba, todo mundo tem certeza de que foi ao limite e, por alguns segundos, até o ultrapassou”, diz o treinador Julio Mariano, 37, que enfrenta o ataque ao pneu de trator com uma marreta de 16 quilos brandida vinte vezes por minuto.

Existem limites para a expansão dos músculos? O ciclista alemão Robert Forstemann, bronze em Londres na competição por equipes, é uma espécie de madrinha de escola de samba do esporte: sempre dá para aumentar mais um pouco. Suas estarrecedoras coxas têm 86 centímetros de circunferência – vinte a mais do que as de Valesca Popozuda. “Ele já tinha predisposição genética para ter coxas grossas. Com treinamento

direcionado, ficou fora do comum”, analisa o fisiologista Paulo Roberto Correia,

ex-velocista olímpico. Do ponto de vista esportivo, músculos descomunais geram cenas desvantagens. “O atleta pode ter muita potência, mas, se não tem resistência, não consegue manter a velocidade por muito tempo. Écomo séele fosse um carro com rodas grandes, mas com motor comum e pouca gasolina”, diz Correia. Mas o coxudo alemão, policial de profissão, é um exemplo que muita gente quer seguir. Exercícios extremos não são para quem quer controlar o colesterol, o diabetes ou algum outro corolário da vida contemporânea, e sim obter um físico de babar. Em sua forma mais radical, só são permitidos para quem já tem um bom condicionamento, mas a ginástica intensa aparece cada vez mais como a alternativa consistente para o emagrecimento.

A clássica combinação de dietinha e caminhada diária de quarenta minutos não é suficiente para perder quilos e, acima de tudo, não reencontrá-los. Há levantamentos científicos indicando que até 80% das pessoas que emagrecem e continuam fazendo regime e exercícios leves, em um ano, voltam a engordar pelo menos 5 quilos. Disposta a desafiar a lei do eterno retomo, Nathália Santoro, 23, ganhou no mês passado o significativo título de Garota Fitness São Paulo. Em cinco meses de malhação pesada, ela trocou um corpo “celulítoso de 62 quilos” por outro, definidíssirno, de 52. “Meus colegas de

academia fazem um exercício para o bíceps, com três séries de quinze repetições. Eu faço três exercícios seguidos para o mesmo músculo, com quatro séries de vinte repetições”, especifica. “Mas não quero ficar grande, feito uma Panicat,” Está explicado.

 

A NOVA FACE DA EUROPA

 

Em menos de cinquenta anos, um em cada quatro moradores da região será imigrante ou descendente de estrangeiros. O desafio será assimilá-los sem

subtrair da sociedade os melhores valores ocidentais

 

As fotos nos passaportes brasileiros e americanos não deixam dúvidas de que essas são nacionalidades forjadas com a intensa imigração. A variedade de formatos de rosto, de tons de pele e de típos de cabelo faz com que, no retrato 5×7, qualquer cidadão do mundo passe tranquilamente por brasileiro ou americano. Em cinco décadas, o mesmo acontecerá com os passaportes europeus. Segundo a agência oficial de estatística NATHALIA WATKINS cão da União Europeia, Eurostat, até 120 I22 DE AGOSTO. 2012 I’IIeja 2061 pouco mais de um quarto de seus habitantes será imigrante ou descendente de estrangeiros. Na Áustria, a proporção poderá chegar a 40%. Do ponto de vista econômico, a mudança é necessária. A chegada dos Imigrantes impede que a população desses países diminua. As mulheres européias estão tendo poucos filhos, uma tendência que já vem de décadas. Por causa disso, a região precisará receber 700 milhões de pessoas até 2050 apenas para manter o atual nível populacional. O desafio será assimilar esse contingente de origens culturais e religiosas variadas sem prejuízo para os traços de identidade marcantes da Europa, como o secularismo, o respeito às minorias e a liberdade de expressão. Trata-se de um dilema que nenhum país europeu conseguiu, até o momento, solucionar plenamente.

A dificuldade na assimilação de  imigrantes costuma ser atribuída à falta

de planejamento dos governos europeus, em outros temas tão eficientes em aplicar políticas com uma visão de longo  prazo. Enquanto nos Estados Unidos

se criaram diretrizes para receber novos cidadãos desde a independência, isso só foi feito recentemente na Europa. “Nos Estados Unidos, os requisitos mínimos para alguém obter o status de americano são aceitar as normas da sociedade e estar disposto a trabalhar”, diz o consultor grego Demetrios Papademetriou, presidente do Instituto de Polfticas de Migração, em Washington. “Os europeus sempre pediram mais que isso. Exigem o respeito  à tradição, à cultura e ao idioma.”

A verdade é que a Europa não pretendia  ser um destino natural de imigrantes. Pensava-se que os três principais fenômenos migratórios do século XX na região seriam temporários, e que logo os estrangeiros voltariam para

sua terra natal. Nos anos 50 e 60, cidadãos dos países do sul da Europa mudaram-se para os do norte para trabalhar na reconstrução após a II Guerra Mundial. Depois, nações comprometidas com os direitos humanos, como a Inglaterra, a Alemanha e os países escandinavos, passaram a conceder asilo a refugiados de guerra e perseguidos políticos vindos principalmente do Oriente Médio e da Ásia. Com a independência das ex-colônias européias na África e na Ásia. nos anos 70 e 80, o fluxo de pessoas alcançou seu auge. Ainda assim, as políticas migratórias só entraram em vigor nos últimos quinze anos. Sem fluência na língua local, com valores e costumes diferentes e penando para encontrar trabalho – que ficou mais raro com a atual crise econômica, muitos imigrantes se colocaram nas franjas das sociedades que os receberam e vivem em guetos. Alguns desafiam as regras locais como se vivessem em um mundo paralelo. Um exemplo disso são os crimes de honra cometidos por imigrantes muçulmanos mais radicais. A tensão que nasce da falta de integração às vezes explode sob a forma de confrontos com a polícia, como o que ocorreram em Amiens, no norte da França, na semana passada. Indignados com uma batida da polícia em um funeral, jovens vândalos, na maioria filhos ou netos de imigrantes, atearam fogo a carros e feriram dezesseis oficiais. De maneira simplificada, os europeus dívídem-se em duas visões conflitantes sobre como resolver o problema. Uns pedem o fechamento das fronteiras e a expulsão dos estrangeiros. Outros dizem que os imigrantes devem ser aceitos como são, ainda que entrem em conflito com os valores e com as leis europeias. Daqui a é inquieta anos, essas duas posições provavelmente terão se tomado obsoletas. E o que é ser europeu terá adquirido um novo significado, ainda em formação.

NEM TODA ALFACE É IGUAL

 

Há várias décadas já a nutrição ocupa o posto de preocupação prioritária entre os profissionais de saúde e os consumidores informados. mas a nutricêutica, como é chamado o estudo do papel dos alimentos na cura e prevenção de doenças, ainda é vanguarda.

 

“Em vez de tomar suplementos, compensa mais buscar as substâncias que ajudam a manter o organismo saudável diretamente nos alimentos”,

diz Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração (HCor) de São Paulo. “Neles, essas substâncias costumam ser mais biodisponíveis _ ou seja, são mais facilmente processadas e aproveitadas por nosso corpo:’ Mas corno saber em quais alimentos encontrar vitaminas e outros micronutrientes? O ideal é discutir o assunto com um médico ou um nutricionista. Mas nem um nem outro estarão ao lado do consumidor toda vez que ele for às compras ou ao restaurante. E aí surgem as dúvidas: do ponto de vista nutricional, a banana-nanica é igual à banana-maçã? Todas as laranjas têm teor idêntico de vitamina C? Dá na mesma comer pimentão verde ou vermelho? A resposta é não, não e não: há diferenças significativas nos valores de alimentos que parecem iguais. Uma tabela elaborada pela Unícamp, por encomenda do governo federal, estabelece valores médios para os alimentos mais consumidos pelos brasileiros no dia a dia. Antes de ir ao supermercado novamente, vale a pena conferir alguns deles.

UMA BOA DIGESTÃO

As fibras são o que mais importa numa alface. Segundo a nutricionista Camila Leonel, da Unifesp, essa folha possui tanto fibras solúveis quanto insolúveis. As primeiras ajudam no controle do colesterol, das doenças cardíacas e do diabetes. As insolúveis promovem o bom funcionamento do intestino, contribuindo assim para a prevenção do câncer de cólon. “A alface é também uma boa fonte de potássio”, diz Camila – “e o potássio ajuda a eliminar o sódio e, com isso, a equilibrar a pressão arterial. É bom para quem pratica atividades físicas”.

ALFACE

Os pigmentos não apenas tomam os alimentos atraentes: têm também função nutricional. No caso dos pimentões, por exemplo, a cor indica a quantidade de betacaroteno que cada variedade apresenta – e o betacaroteno é um precursor da vitamina A (ou seja, é convertido nela no organismo), importante para a saúde dos olhos. Segundo Camila Leonel, o vegetal é também rico em potássio.

CAMPEÃ DISPARADA

Na maioria das vezes, as diferenças nutricionais entre variedades de um mesmo alimento são pequenas – mas não no caso da manga. A Palmer tem quase quatro vezes mais vitamina C que a haden, e oito vezes mais que a tommy. “A variação pode ser afetada também por outros fatores, como o grau de amadurecimento do fruto”, diz Renata Padovani, pesquisadora do Nepa (Núcleo de Estudos e Pesquisas em’A1imentação da Unicamp).

FONTE DA JUVENTUDE

A vitamina C é conhecida popularmente como o melhor “remédio” contra gripes e resfriados, por fortalecer o sistema imunológico. Mas, na verdade, tem papel relevante na prevenção de várias outras doenças. Hoje se sabe, por exemplo, que ela é um potente antioxidante- ou seja, protege nossas células contra a ação do oxigênio que as degrada, contribuindo assim para prevenir uma série de males degenerativos e retardar os processos de envelhecimento.

SAÚDE NA VEIA

A ingestão de ferro é fundamental para o funcionamento do organismo. As células vermelhas do sangue, assim como as células dos músculos, dependem de um fornecimento constante desse elemento, e seu consumo regular ajuda

a evitar anemias. Mais fácil de ser encontrado nas carnes, o ferro aparece em boa quantidade também no feijão. Mas atenção: ele é bem calórico.

XÔ, CÃIBRA!

Você já deve ter ouvido dizer que a banana é boa para evitar cãibras. Isso porque a contração muscular involuntária pode ser resultado de um desequilíbrio na taxa de o potássio do organismo – e a banana é rica em potássio. É também uma boa fonte de fibras. Bastante calórica, porém, não deve ser consumida à vontade por quem tem dificuldade para controlar o peso.

 

FRUTAS E LEGUMES FUTURISTAS

Há 10000 anos o homem passou a selecionar as melhores sementes e mudas

para o plantio. No início do século XX, o melhoramento genético de plantas

tomou-se uma ciência. De início, visava a uma maior produtividade das culturas. Hoje o foco se volta para o aumento do valor nutricional. Idealmente, no futuro próximo, na era da biofortificação, ninguém precisará complementar a dieta com suplementos.

Batata-doce laranja – O BioFort, projeto da Embrapa em parceria com instituições nacionais e internacionais, tem aumentado

os teores de ferro, zinco e vitamina A de alguns tipos de feijão, arroz, mandioca, abóbora, batata-doce e milho. O objetivo principal é combater a anemia. “Foi criada uma batata-doce de polpa alaranjada, por exemplo, com 115 microgramas de betacaroteno por grama de raiz fresca. A batata-doce branca comum possui, no máximo, cerca de 10 microgramas”, diz o

pesquisador da Embrapa José Luiz Viana.

 

Feijão com isoflavona – Até pouco tempo atrás, acreditava-se que o feijão, apesar de ser “parente” da soja, não continha isoflavona. Recentemente o Instituto. Agronômico de Campinas (IAC) anunciou que havia desenvolvido um feijão-carioca (o IAC formoso) coma substância – que ajuda a combater os sintomas da menopausa. “Já está no mercado”, diz Alisson Fernando Chiorato, pesquisador do IAC.”Mas as variedades de feijão  todas iguais. É preciso

pressionar para que esse tipo de informação comece a constar do rótul07 Laranja vermelha

- Com polpa avermelhada, a laranja sanguínea de Mombuca tem quase o dobro dos carotenoides totais de outras laranjas – além de alguns que praticamente não existem em nenhuma outra variedade, como o licopeno, que é um potente antioxidante. “É apenas um terço do licopeno do tomate, é verdade”, diz Rodrigo Rocha Latado, pesquisador do IAC, “mas é um nutriente adicionai”.

Tomate roxo – Com propriedades antioxidantes, a antocianina é um pigmento que confere coloração entre o vermelho e o roxo e está presente nas uvas e nos morangos. E, agora, também nos tomates. O tomate roxo, variedade desenvolvida pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, tem também teores mais elevados de licopeno, betacaroteno e

vitamina C. “O brasileiro não come uva nem morango todo dia – mas tomate,sim”, diz lázaro Peres, professor de vegetal da Esalq.`

 

UMAQUEDA PARAOALTO

O novo livro de Diogo Mainardi é uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representação intelectual das emoções

Um dos desenhos mais célebres do mundo faz parte do acervo da Accadernia de Veneza. Trata- se do Homem vitruvtano, de Leonardo da Vinci, em que a única figura humana é retratada em duas posições,

como se houvesse fotogramas sobrepostos – dentro de um círculo

(com os braços esticados na altura da cabeça e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braços abertos na altura dos ombros e as pernas

juntas), círculo e quadrado porque tidos como as formas geométricas per_ feitas. O “Homem Vitruviano” parece fazer um polichinelo, aquele exercício

físico banido da ginástica escolar depois de arrebentar os joelhos das gerações com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em tomo de 1490, a partir das considerações do arquiteto romano Vitrúvio. Um milênio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrúvio estabelecera quais seriam as proporções exatas do corpo humano, por meio de uma série de correspondências matemáticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci é acompanhado, na parte superior e inferior, de explicações sobre tais correspondências, a demonstrar com mais ênfase a intenção do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Yuruvtano é raramente exposto. A última vez foi em 2009. Já sua antítese está em exposição permanente pelas vias e pontes de Veneza:Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primogênito de Diogo Maínardi. Portador de paralisia cerebral, é como uma espécie de “Menino Antivitruviano” que ele protagoníza A Queda-As Memórias de um Pai em 424 Passos (Record; 152 páginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega às livrarias com uma tiragem inicial de 20000 exemplares, é comovente pelo tema, extraordinário na forma e esplêndido como reflexão sobre a arrogância humana.

Tito é personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaboração. Ele começou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primogênito em 2008, ainda no Rio de Janeiro,

para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de médicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro – e ideal para quedas – campo de provas, complementadas pelas garagens térreas dos prédios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmão carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em férias na cidade natal, alcanço  359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: “S6 consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”. Uma das glórias de Veneza, o pintor é umdos artistas abordados por Diogo em A Queda.

A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio à luz – 30 de setembro de 2000 – caiu num sábado, e a médica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rápido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com líquido amniótico que protege o bebê. Só que, ao fazêlo contrariando tods os manuais  de obstetrícia, Tito teve o cordão umbilical esmagado e ficou sem oxigênio. A saída, nesse caso, era realiza uma cesárea de urgência. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diago, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma lesão no cérebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mãos como se faz normalmente. A lesão é tão pequena que é invisível aos exames de imagem mais modernos. Assim, não comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pré-adolescente típico – com disposição infinita para irritar os pais e uma precoce admiração por mulheres altas e esguias.

Outros autores já trataram das deficiências de

seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacência e também evita circunvoluções biográficas que se afastam longamente do tema central. A Queda é também original na forma. Apresenta o exato número de capítulos de seu  subtítulo: 424. Todos eles curtíssimos, alguns com menos de quatro linhas. O numero de capítulos espelha o máximo de passos que Tito conseguiu

dar sem cair, e sem andador, no momento em que Díogo finalmente deixou de contá-los – façanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palácio bizantinorenascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto inédito: muitos dos capítulos são entremeados com ilustrações de pinturas venezianas, imagens de família, cenas de filmes e até a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabeça construído por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu após o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele próprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relação a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.

Em tomo da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da história das fdeías e de seu corolário, a arte que se quer expressão da Verdade – com “v” maiúsculo, seja filosófica, religiosa ou ideológica. Está-se falando da arte de Bizâncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza é uma das jóias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No século XVIII, escreveu o comediógrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: “Veneza é uma cidade tão extraordinária que não é possível ter dela uma ideia exata sem a ver; os mapas, as plantas, as maquetes, as descrições não . bastam; é preciso vê-la. Todas as cidades do mundo máis ou menos se assemelham; essa não tem semelhança com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausências, surgiu em mim um novo espanto. À medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparações a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas”.

Diogo só poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que José Dirceu não emporcalhasse Tintoreno. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances: Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular – e, nela, reconheceu as nossas aspirações evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinária, como na época de Goldoni, mas não como um tributo ao engenho humano, e sim à sua prepotência, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: “O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tomei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensável continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razoável controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porém, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a única possibilidade de livre-arbítrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e não nos fatos em si”.

Nesse exercício de livre-arbítrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexão entre a paralisia cerebral de seu primogênito e o que chama de “estetismo abestalhado”. Mesmerizado pela fachada magnífica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a então Scuola Grande di San Marco, ‘ele deixou de lado os desastres médicos que fizeram a fama daquela instituição e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”. A frase não deve ser interpretada literalmente, mas como achíncalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores cóticos de arte, encama de tal forma o ideal de beleza artística que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como tradução do Bem em contraposição ao Mal, simbolizado pela usura. “Píetro Lombardo não se fez com a usura”, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, “eu só conseguia associar a arte perfeita de Píetro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”. Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembrode 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suíço Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prédio medonho, com blocos de cimento armado, não houvesse Le Corbusier morri projeto, afogado no Mediterrâneo, Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suíço, teria gerado o Bem, visto que Diogo não escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condições na vizinha Pádua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa, O Mal do qual nasce o Bem é o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os teóricos, filósofos e artistas que construíram Veneza e Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho da Sistema. Enfim o Orgulho da Razão.

Por meio dessa operação literária, em que coincidência pessoais e históricas se encaixam umas nas outras de maneira tão admirável quanto arbitrária, por sempre se tratar de uma interpretação dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabeça cujas peças unem a Veneza de Pietro Lombardo à de Canaleno, os filmes de Abbon e Costello aos programas de extermínio de Hitler, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de MareeI Proust. Completado o quebra-cabeça, ele nos mostra a figura de um círculo que abriga não um ser humano de proporções perfeitas, mas Q pequeno Tito, o inverso do Homem VitruVÍano. Com sua paralisia cerebral que obriga a pensar em cada feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim, é o orgulho da razão. Mas da razão possível dentro de uma realidade cósmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razão imperfeita que não raro tem diante de si um menino verde. Dê-se a palavra a Diogo:

“TIto nasceu verde. “Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que TIto permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera também que TIto morreria. “Voltando à maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recém-nascido em uma incubadora. O menino recém- nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o médico? Onde está o enfermeiro? Onde está o pai?

“Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imóvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora: ‘Mingardt’, “Mtngardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recém-nascido na incubadora era meu filho. Min- . gardi era Mainardi. Até nisso o hospttal de Veneza errou: em seu nome. “Olhei Tito pela última vez. Seu rosto era igual ao meu – só que o dele era verde.”

No dia 30 de setembro de 2000, Diogo Mainardi caiu com Tito.E começou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele próprio diz a certa altura. A Queda é um livro magnífico em sua humanidade.

 

“O QUE VALE É A INTENÇÃO”

Com oVingador do Futuro (Total Recall, Estados Unidos, 2012), refilmagem um tanto quanto supérflua do sucesso de ficção científica estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, desde sexta-feira em cartaz no país, o irlandês Colin Farrell quebra um jejum de seis anos em filmes de ação (prazo razoável quando se considera que sua última incursão no gênero fora o horrendo Miami Vice). De lá para cá ele foi pai pela segunda vez, ganhou um Globo de Ouro e deu por encerrada a vida de baladeiro que em certo momento ameaçou engolir o ator de prestígio. Apontado como a grande promessa de sua geração no início da década passada, quando protagonizou o drama de guerra Tigeríand, Farrell passou por muitos baixos. Mas, desde que trabalhou a direção de Woody Allen em O Sonho de Cassandra (em 2007) e fez a comédia de humor negro Na Mira do Chefe (em 2008), quase só tem o que comemorar No Rio de Janeiro para divulgar o novo filme, o 36 anos falou ao editor Mario Mendes sobre excessos, fracassos e a idade da razão.

O senhor gosta do Vingador do Futurooriginai?

Eu o vi aos 15 anos e gosto da aventura e do humor, que está lá até nas cenas de violência. Mas uma das preocupações do diretor Len Wiseman no novo filme foi justamente evitar esse casamento de humor com violência. Não

para ser politicamente correto, mas devido à onda de terrorismo e insegurança que se espalhou pelo mundo nesta década, e que estava longe de ser uma preocupação nos anos 90. Qual a diferença entre a sua interpretação e a de Arnold Schwarzenegger? Não há muita diferença porque não é um personagem que exija grande sensibilidade de um ator. Exigiu, isso sim, preparo físico. Durante seis meses, diariamente eu corri, pulei, caí, lutei, atirei e gritei.Entre Alexandre (2004) • Na Mia • Chefe (2008) o senhor YiYeu um período de lurtJulênda profissional, certo? Com Alexandre. De Oliver Stone, eu recebi as piores críticas da minha carreira. Mas o que vale é a intenção, e sempre digo que gosto das intenções daquele filme, apesar de ele nunca realmente  atingir os seus propósitos. Costumo encarar Alexandre como um glorioso fracasso, comercial e artístico, que me fez começar a questionar a qualidade do meu trabalho e a minha exposição pública, que era imensa. Essa decepção profissional, à qual depois se juntou o fracasso de Miami Vlce, me fez parar, refletir e me colocar novamente no eixo.

Bebedeiras homéricas, drogas e muitas nam0radas.

Como foi esse período? Ooops … Outro dia, Oliver Stone foi entrevistado na televisão e perguntaram se ele conhecia alguém capaz de beber mais do que

Charlie Sheen. Ele disse: “Colin Farrell pode beber mais do que qualquer um”. O senhor bebeu mais do que ChadeSlan? Não, não, claro que não. A verdade é que naquela época eu simplesmente estava fazendo as mesmas coisas que as pessoas da minha idade faziam. A diferença é que eu era uma pessoa pública e ganhava muito mais dinheiro. Mas esse tipo de vida cansa e eu logo enjoei de tudo aquilo, queria sossegar. Afinal, eu já tinha um filho (James, nascido em 2(03). Decidi que deveria me concentrar em ser

um bom pai – e um bom ator.

O senhor diria que atingiu um outro patamar a partir de Na MinI do CheIe?Para ser bem sincero, não vejo minha carreira de  maneira tão objetiva. Então, eu pergunto: qual a medida do sucesso?

O senhor recebeu o Globo de Ouro por Na lfinI do Chefe. Isso é um indicado o de sucessona sua profissão? Sim, ganhei oprêmio e foi um prazer. Mas garanto quenão foi o momento mais importante daminha vida. Eu jamais recusaria um Oscar,mas não é uma meta. Já imaginou

que frustração seria todo ano esperar por uma indicação, não consegui-la e  ficar  pensando, “será que vai ser no ano que vem?”. A satisfação tem de existir é enquanto se faz o trabalho.

Como o senhor escolhe um roteiro? Sempre quero algo diferente do que fiz anteriormente. Se acabo um filme sombrio, procuro algo divertido. E sei que um

papel me pegou de verdade quando começo um roteiro e, lá pela página 5, já estou lendo em voz alta. Porque um ator nada mais é que um bom contador de histórias.

FOGO DE OUTONO

Com humor, algum charme e muitos clichês, Meryl Streep e Tommy Lee Jones vivem as dores de um amor de meia-idade

 

Alguma coisa vai mal, muito mal, quando o presente mais excitante que um casal consegue compartilhar, no aniversário de 31 anos de casamento, é a renovação da assinatura da TV a cabo. “Agora temos muito  mais opções”, justifica a mulher, Kay (Meryl Streep), para. a família, no jantar comemorativo cheio de sorrisos amarelos e silêncios incômodos.  Arnold, o marido (Tommy Lee Jones), aproveita o novo pacote sintonizando apenas o canal de golfe – e dormindo sonoramente na poltrona. Sexo, nem pensar: numa inversão dos clássicos papéis, é ele quem diz estar indisposto. Apesar desse relacionamento

árido entre os protagonistas, Um Divã para Dois (terrfvel titulo nacional para Hope Springs, Estados Unidos, 2012), desde sexta feira  em cartaz, é uma comédia romântica repleta de boas intenções. Juntos pela primeira vez, Meryl e Jones não só revelam excelente quúnica e perfeito timing cômico como também um despojamento raro, para estrelas de seu porte, em exibir sem pudores e nada de Botox os traços devastadores da passagem do tempo. Quando Kay decide investir as economias em uma semana de terapia intensiva para casais com um especialista (Steve Carell) – na cidadezinha de Hope Springs, no estado do Maine -, é a deixa para as desajeitadas tentativas

da dupla de reacender a paixão originai com um exuberante fogo de outono. É quando se percebe também a presença do diretor David Frankelo mesmo de O Diabo VestePrada-,  que se mostra muito mais à vontade nas sequências movimentadas e de humor do que nos momentos que pedem introspecção, quando ele recorre ao expediente de preencher o espaço com uma trilha sonora de rádio FM. Esse não é o único clichê de Um Divã para Dois. Os conselhos do terapeuta são de livro de auto ajuda, e, claro, há a inevitável piada envolvendo uma banana – que Meryl tira de letra apenas com um olhar maroto. Mas seu trunfo é, numa paisagem dominada por filmes de ação vertiginosa e protagonizados por seres sobrenaturais  ou gente muito jovem, conseguir falar dos problemas das pessoas de meia-idade com leveza e um certo charme.

 

fapesp 21- 08

Blocycle esta pronto

 

Após uma década de piloto, plástico blodegradável de cana espera interesse para entrar em escala industrial

 

Há mais de dez anos, a empresa PHB Industrial produz em escala piloto o Biocycle,um plástico biodegradável feito com açúcar de cana. Apesar de dominar a tecnologia para fabricar diversos produtos com o polímero e para tomar seu custo competitivo quando comparado ao do plástico convencional,a empresa ainda não conseguiu elevar sua produção a uma escala industrial.

Para Roberto Nonato, engenheiro de desenvolvimento da PHB Industrial, o caminho mais curto para levar o Biocycle ao mercado  seria uma parceria com a indústria petroquímica. “Temos tentado isso há alguns anos, mas o pessoal do petróleo não costuma conversar com o pessoal do açúcar”, disse durante sua apresentação no workshop “Produção Sustentável de Biopolímeros e Outros Produtos de Base Biológica”, realizado na sede da Fapesp. A história do Biocycle começou no início dos anos 1990, época em, que a Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Ccipersucar) procurava outros produtos que pudessem ser fabricados em uma usina de açúcar que não fossem commodities. Por meio de uma parceria com o Instituto de PesquisasTecnológicas (IPT) e com o Instituto de Ciências Biomédicas (!CB) da ( Universidade de São Paulo (USP), a Copersucar conseguiu produzir o  polihidroxibutirato (PHB) – um polímero da família dos hidroxialcanoatos (pH.A) com características fisicas e mecânicas semelhantes às de resinas sintéticas como o polipropileno  usando apenas açúcar fermentado por bactérias naturais do gênero alcalígeno. Em 1994, uma planta piloto foi instalada na Usina da Pedra, em Ribeirão Preto. Em 2000, foi criada a PHB Industrial e a tecnologia passou a pertencer ao Grupo Pedra Agroindustrial, de Serrana, e ao Grupo Balbo, de Sertãozinho. Com apoio da Fapesp por meio do Programa de’ Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e auxílio de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), a empresa desenvolveu a tecnologia de produção dos pellets – pequenas pastilhas cilíndricas feitas com uma mistura de PHB e fibras naturais -, matéria-prima usada pela indústria transformadora para produzir utensílios de plástico. ”Inicialmente, nos preocupamos apenas em desenvolver o PHB e achávamos que. a indústria transformadora faria:o resto, mas, quando você chega com uma resina nova ao mercado, ninguém sabe corno processar.. Percebemos’ que era preciso ir além”, disse Nonato. A técnica de misturar PHB com fibras vegetais trouxe outra _vantagem: a redução, do custo. Enquanto o quilo do polipropileno custa em tomo de US$ 2, o quilo do PHB sai por volta de US$ 5. “Se você mistura com pó de madeira, por exemplo, barateia o produto e, dá a ele características especiais que podem ser.interessantes”

 

 

Diversas aplicações

 

O PHB é um material duroque pode ser usado na fabricaçãode peças injetadas e tennofonnadas,como tampas de frascos, canetas,brinquedos e potes de alimentosou de cosméticos. Também podeser aplicado na extusão de chapase de fibras para atender a indústriaautomobilística. Serve ainda para aprodução de espumas que substituemo isopor.

“Desenvolvemos diversas aplicações para o polímero em cooperação com outras empresas. A indústria automobilística, por exemplo, nos procurou para testar o PHB e vimos que o polímero eraviável na fabricação de peças para o interior dos carros. Mas, como ainda não temos condições de produzir em escala industrial, não conseguimos entrar no mercado”, disse Nonato. Segundo Nonato, a empresa chegou a ter uma pequena produção industrial de painéis de trator. O produto era mais barato que o equivalente feito com plástico convencional e, ainda assim, o negócio não prosperou,’ “Era urna produção tão pequena para o padrão da indústria, acostumada a comprar centenas de toneladas, que acabaram desistindo por dificuldades operacionais”, disse. Para ampliar a produção, a PHB Industrial teria de aumentar sua planta. Segundo Nonato, isso exigiria um investimento muito superior ao que uma usina de açúcar tem como meta. Seria preciso um parceiro. Também precisaria de ajuda dar suporte aos’ compradores. “E necessário ter uma equipe que vá a campo ensinar qual é a temperarura certa para processar o PHB, o tipo de forma, o tipo de rosca. O mercado é pulverizado e grande parte dele está na Europa. Somente as grandes petroquímicas teriam condições de dar esse suporte”, disse.

 

Europa está na frente ,

 

Enquanto no Brasil o mercado para o PHB é restrito a nichos interessados em fabricar produtos com apelo ecológico a’ um preço mais elevado, na Europa a busca por produtos biodegradáveis e grande, segundo Nonato. “Na Europa, a agricultura hidropônica é forte e a legislação ambiental é rígida. Usa-se muito material biodegradável em estufas”, mcontou. Com o PHB, é possível fabricar braçadeiras para plantas ou tubetes para reflorestamento e depois encaminhar o resíduo plástico nas estações de compostagem, onde ele é rapidamente absorvido pela natureza, Enquanto os plásticos tradicionais levam mais de cem anos para se degradar, os produtos feitos com PHB ‘se decompõem em torno de 12 meses e liberam apenas’ água e dióxido de carbono. Além da agricultura, o material pode ser, usado na fabricação de embalagens para alimentos, cosméticos e outros produtos oleosos que são de difícil reciclagem. “O mercado existe e nosso produto está pronto. O que falta é um canal para chegar ao mercado e um pouco mais de investimento”, disse.

 

Página : F 3 João Pessoa

 

 

“Partícula de Deus” volta a surpreender

 

São Paulo (Folhapress) -

 

partícula de Deus está, ao que parece, do jeito que o diabo gosta: malcomportada. É o que indica uma análise preliminar de dados coletados no LHC, maior acelerador de partículas do mundo. O trabalho, feito por Oscar Éboli, do Instituto de Física da USP, sugere que o chamado bóson de Higgs, que seria responsável por dar massa a tudo o que existe, não está se portando como deveria, a julgar pela teoria que previu sua existência, o Modelo Padrão. Se confirmado, o comportamento anômalo da partícula seria a deixa para uma

nova era da física. A descoberta do possível bóson, anunciada com estardalhaço no mês passado, foi comemorada como a finalização

de uma etapa gloriosa no estudo das partículas fundamentais da matéria. Sua existência, em resumo, explicaria porque o Sol pode produzir sua energia e criaturas como nós podem existir. Dada sua importância para a consistência do Universo (e fazendo uma analogia com a história bíblica da torre de Babel), o

físico ganhador do Nobel Leon Lcderman deu ao bóson o apelido de “partícula de Deus”. Para analisar o bóson de Higgs, é preciso primeiro produzir uma colisão entre prótons em altíssima velocidade  função primordial do LHe. Então, do impacto de alta energia, surgem montes de novas partículas, dentre as quais o Higgs, que rapidamente decai, como se diz. É que, por ser muito instável, O bóson se “decompõe” quando a energia da colisão diminui. Aparecem, no lugar dele, outras partículas. É esse subproduto que pode ser detectado e indicar a existência do bóson de Higgs. Contudo, isso exige a realização de muitos impactos, até que as estatísticas comecem a sugerir a presença do procurado bóson. Os dados coletados até aqui são suficientes para apontar a existência da partícula, mas suas características específicas ainda não puderam ser determinadas. “Estamos ainda num estágio inicial da exploração das propriedades da dela”, diz Éboli. “Contudo, há uma indicação de que o Higgs decaia mais em dois fótons [partículas de luz] do que seria esperado no Modelo Padrão.” Os resultados dessa análise preliminar foram divulgados no Arxiv.org, repositório de estudos de física na internet, e abordados na revista “Pesquisa Fapesp”. presentação da natureza, mas não é a teoria final”, afirma Éboli. “Se de fato for confirmado que o Higgs está decaindo mais que o esperado em dois fótons, isso pode significar que novas partículas podem estar dentro do alcance de descoberta do LHe.” Poderia ser o primeiro vislumbre de um novo “zoológico” de tijolos elementares da matéria. Previa-se que essaspartículas exóticas começassem a aparecer com as energias elevadas do LHe. Tudo muito interessante, mas nada resolvido. “É um trabalho

muito sério, mas eu acho que ainda é muito cedo para se tirar qualquer conclusão se se trata ou não do Higgs padrão”, afirma Sérgio Novacs, pesquisador da Unesp que participa de um dos experimentos que detectaram () bóson de Higgs. “Até o final do ano as coisas estarão um pouco mais claras”, avalia ele.

 

Página : F6 Correio de Paraíba

 

 

 

 

Vereadores repudiam universidade

 

Através de documento, aprovado por unanimidade, Câmara de Epitácio faz denúncia contra a Uniesp

 

 

o diretor-presidente da Uniesp, Fernando Costa, é alvo de uma moção de repúdio aprovada por unanimidade pela Câmara Municipalde Presidente Epitácio.O documento denuncia que a Uniesp está exigindo de alunos bolsistas que se inscrevam no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies),um programa do Ministério da Educação destinado a financiar a graduação na educação superior de estudantes matriculados em instituições não gratuitas. De acordo com a moção de repúdio, a Faculdade de Presidente Epitácio exige dos bolsistas a inscrição no Fies, sob pena de perder o benefício da gratuidade e serem obrigados a arcar com a mensalidade do curso. Ao Oeste Notícias, o

autor da moção de repúdio, vereador Rosnem dos Santos Lopes (PSDB),explica que no início do ano os vereadores foram procurados por representantes da Uniesp.  A instituição de ensino disponibilizou bolsas de estudo integrais que seriam concedidas para alunos carentes indicados pelos parlamentares. “Na época, disse a eles que não acreditava na promessa.

Até porque, quando da implantação da faculdade, eles prometeram bolsas de estudo integrais e era uma verdadeira guerra a cada seis meses para conseguir a renovação”, aponta. Segundo o vereador, desta vez a Uniesp disponibilizou dez bolsas de estudo para cada vereador, ou seja, cada parlamentar poderia indicar dez alunos carentes para estudar de graça

na faculdade local. “Eu recusei as bolsas de estudo. Mas, a maioria dos vereadores aceitou a proposta. E agora todos nós nos sentimos ludibriados, usados pela Uniesp”. Explica que a Uniesp deve ter contatado com o Banco do Brasil, que por sua vez está convocando os alunos bolsistas para que façam a inscrição no Fies. “Tem aluno bolsista que já entrou na Justiça e conseguiu

 liminar para continuar estudando sem pagar nada na faculdade da Uniesp”, revela o vereador. “O pessoal da Uniesp ‘usou’ a Câmara Municipal e por isso propus essa moção de repúdio contra o senhor Fernando Costa, que foi aprovada por unanimidade”, conclui o vereador do PSDB. Problemas – De acordo com a Federação dos Professores do Estado de São Paulo

(Fepesp), as denúncias e reclamações contra a Uniesp em relação ao Fies são um dos alvos de inquérito aberto no dia 20 de junho deste ano pela Procuradoria da República em São Paulo. No mesmo órgão federal, existem outros dois inquéritos em andamento contra a Uniesp, iniciados entre março

e abril, com denúncias semelhantes. No dia 29 de março deste ano, um movimento que se autodenominou “vítimas da Uniesp” apresentou na Assembléia Legislativa diversos documentos e depoimentos de pais de alunos, professores, ex- -professores, advogados e estudantes. As denúncias versavam sobre falta de repasse ao INSS e ao FGTS;demissões arbitrárias de professores; assédio moral a docentes e funcionários; falta de professores; aulas canceladas; superlotação de salas; irregularidades no processo

de concessão de bolsas de estudos; problemas com o Fies e Prouni; irregularidades no programa Bolsa-Universidade (do governo do Estado) com relação à instituição; atraso constante nos salários; e recontratação com redução de remuneração. Outro lado – O jornal Oeste Notícias contatou a assessoria de imprensa da Uniesp em Presidente Prudente e, por e-mail, encaminhou questionamento sobre a moção de epúdio aprovada pela Câmara

Municipal de Presidente Epitácio, tanto para o setor de comunicação

social da instituição de ensino em Prudente, como em São Paulo. Mas,até o fechamento desta edição nenhuma manifestação da Uniesp foi encaminhada.

 

Maestro Aluízio Pontes é homenageado em Prudente

 

A Câmara Municipal de Presidente Prudente homenageou ontem, o maestro Aluízio Pontes com a Medalha de Mérito Grande Colonizador “Colonizador José Soares Marcondes”. A iniciativa partiu da vereadora Alba Lucena Fernandes Gandia que colocou em votação o Projeto de Decreto Legislativo n? 76/12 que foi apreciado pela maioria dos vereadores. O maestro Aluízio Pontes tem mais de 50 anos de carreira Ele é músico e multi instrumentalista e iniciou

seus estudos aos oito anos de idade. Aos 15 anos, dedicou- se ao estudo de  harmonia, com o objetivo de tornar-se arranjador, e aos 18 já era maestro. Estreou como pianista profissional aos 16 anos, em Presidente Prudente.

No início de década de 1960, mudou-se para São Paulo e logo em seguida organizou e liderou o “Sambalanço Trio”, grupo que obteve grande sucesso no

 período de ascensão da bossa nova. Mais tarde montou o grupo “Orfeu Negro” dedicado à realização de shows e à animação  de bailes. Ao longo de sua carreira, participou como pianista na gravação de discos de grandes nomes da música popular brasileira como Cauby Peixoto, Leny Andrade, Pery Ribeiro, Wilson Simonal e Cláudia. Em sua discografia como solista, pelo menos três LPs merecem destaque: “Meu Concerto Para Você”,

 

 

Página: Oeste 2 à 4

 

 

VALOLOR INVESTe

 

CHOQUE DE REALIDADE

CAPA

Ingerência do governo falta de estratégia e crescimento em marcha lenta tiram do Brasil o posto de queridinho e atrapalham a bolsa. Será que isso pode se transformar em uma boa noticia?

Por Graziella Valenti, Fernando Torres e Alessandra Bellotto

 

O sentimento é de que um salão que já foi reluzente, com um ambiente festivo e cheio de convidados, está com menos luz, música baixa se repetindo ao fundo e as portas entreabertas. Muita gente já deixou a festa. Em meio a humores extremos daquele que ainda é quem lidera o vaivém de convida-. Dos, o estrangeiro, outros acabam desistindo de participar.

A crise global que tem seu epicentro atual na Europa se agravou nos últimos anos e assume contornos

quase crônicos. O fluxo de recursos vem consolidando um comportamento que reflete de maneira bipolar  pequenas notícias de curtíssimo prazo, cada vez menos apegado aos reais fundamentos de um horizonte maior, vitimando de forma alternada as bolsas ao redor do mundo, ora com o abraço do urso – expressão  dotada pelos americanos para falar do mercado em baixa -,.ora com a chifrada do touro, que joga os  motivos para cima e simboliza a alta. O Brasil, que primeiro havia sido elevado às alturas como uma

história exemplar de reversão dos efeitos da primeira fase aguda da crise, em 2009 e 2010, passou a ser alvo de críticas ao intervencionismo estatal nas companhias até ser oficialmente retirado do posto de queridinho dos estrangeiros em meados do primeiro semestre, após revisões drásticas para o crescimento da  economia em 2012, projetado agora em menos de 2%.

Esta conjuntura surge justamente quando o país está em meio a uma emblemática mudança estrutural, com a consolidação de taxas de juros de um dígito, o que tende a tornar o mercado de ações mais atraente. Este seria um apelo ao bolso do investidor individual, que, no entanto, ainda não foi atraído.

A cada dia dos últimos dois anos, nada menos que 600 pessoas abandonaram a base acionária conjunta da Petrobras, Vale e Banco do Brasil (BB), nomes que durante muito tempo foram sinônimos de sucesso inconteste na bolsa. Pelo último dado disponível, o saldo acumulado era de 380 mil aplicadores individuais menos nestas companhias. A dúvida no salão é se, e quando, haverá motivo para uma nova comemoração.

As três empresas já foram as preferidas do grande público e, juntas, chegaram a ter mais de 2 milhões de  acionistas diretos e indiretos (levando em conta os cotistas de fundos dedicados) só no Brasil. Este pico foi  alcançado em 2010, quando a estatal de petróleo concluiu uma mega capitalização de R$120bilhões e o BB  encerrou uma oferta de ações que atraiu mais de 100 mil pequenos investidores. Mesmo sabendo que pode haver dupla contagem em razão de investidores que aplicaram em mais de uma das empresas, são números relevantes.

A compra de ações ou cotas de fundos dessas blue chips foi a primeira experiência com renda variável de muitos dos aplicadores de varejo brasileiros. A primeira impressão foi excelente ‘ mas a má fase que veio em seguida acabou sendo demais para muita gente, que preferiu sair cedo.

A redução da base acionária dessas companhias evidencia a desilusão de pessoas físicas e de investidores institucionais com o desempenho dos papéis. Mas não apenas isso. É o retrato de um mercado em que os agentes, aí incluídos companhias, governo e entidades de classe ‘ ainda não foram capazes de  se comunicar de forma eficiente com milhões de poupadores locais, de maneira que permita conquistar, dentro do próprio país, uma base de investidores mais consciente que pudesse de alguma forma  compensar as ciclotímicas oscilações de humor do capital externo.

É neste contexto que começa a ganhar corpo um consenso de que o comportamento do governo e dos próprios agentes do mercado de capitais ajuda a explicar por que a bolsa do Brasil saiu do ciclo virtuoso “mais empresas, mais capital” vivido desde 2004. Depois de reformas que tornaram a BM&FBovespaum ambiente com giro financeiro diário de R$6,5 bilhões, ante os R$600 milhões em 2001, o mercado  brasileiro carece de novo de rumo, de planos bem definidos para a continuidade de seu desenvolvimento.

O estrangeiro ainda é o principal vetor de tendências para a bolsa local. Quando ele entra, o Ibovespa sobe (ver gráficos nesta página), e quando vai embora, deixa o mercado em maus lençóis. As pessoas  físicas, como mostram os números, estão desiludidas: a participação dos investidores individuais no  volume movimentado na bolsa, que já chegou a superar 30% em 2009, não alcançava 15%no fim do  primeiro semestre deste ano.

Para Mauro Rodrigues da Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), o país carece de uma política de governo que valorize o mercado de capitais. “A função social do mercado é canalizar a poupança privada para o setor produtivo.” Ele lembra que o mercado aloca capital de maneira eficiente formaliza setores, amplia a arrecadação e gera empregos, ao permitir a captação de recursos para investimentos produtivos. “É preciso acabar com o preconceito que existe em Brasília. Político vê o mercado como assunto de gente rica”, diz ele.

O analista André Rocha, autor do blog O Estrategista no site do Valor, destacou em um post recente que  alta atrair a atenção do investidor e mostrar a bolsa como algo mais interessante. “O mercado acionário para a sociedade americana é muito mais do que uma forma de poupança. Faz parte da rotina dos americanos. Há muitos filmes e livros sobre o assunto. Por que os brasileiros são tão reticentes em relação á bolsa? O momento atual não pede uma mudança de mentalidade? “,  questiona. A resposta

é dada com precisão por um leitor do blog: “Trabalho em uma empresa estatal e posso ver como a falta  e  educação financeira se reflete nos comentários dos empregados. Quando há uma notícia de queda da  bolsa, muitos manifestam alegria por ver os ‘especuladores perdendo dinheiro’. A maioria desses trabalhadores contribui para o fundo de pensão da estatal e não sabe que este investe em ações com o  dinheiro dos empregados” .

Do lado da sociedade, empresas, bancos intermediários e investidores não se entendem sobre como avançar no quesito governança corporativa, o que o que ajudaria a colocar o Brasil e fundamentos de longo prazo de algumas companhias novamente em destaque na mira dos investidores. No que cabe ao governo, era de esperar que o país procurasse meios de se diferenciar no cenário internacional. Mas a percepção é de que não é isso que vem acontecendo.

Para especialistas, ao interferir em empresas estatais e privadas, além de escolher quais setores beneficiar ou não, o governo acaba tumultuando o ambiente do mercado. Em um mundo em que há excesso de liquidez, mas uma crônica aversão ao risco, companhias que precisam financiar seus projetos – como é o caso de muitas brasileiras que gostariam de se listar na bolsa – estão competindo por um capital que avalia oportunidades em diversos países.  Para ficar com uma fatia desse dinheiro, é preciso oferecer não apenas o melhor retomo, mas também  facilidades e um risco mais baixo. “O investidor global não tem tempo para acompanhar de perto cada medida para entender as iniciativas do governo no dia a dia. Ele simplesmente fica fora e pensa em voltar quando essa onda passar”, explica Will Landers, gestor para a América Latina da BlackRock, maior administradora de recursos do mundo.

Um capital que, vale lembrar, tem uma importância enorme para a bolsa local. O dinheiro de fora do país oi responsável pela compra de quase 70% do total de R$ 134 bilhões em ações vendidas em ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) no Brasil desde 2004. Com a desconfiança por parte de convidados tão poderosos, não surpreende que o número de aberturas de capital e de colocações subseqüentes de papéis tenha rareado.

Não resta dúvida de que a crise europeia tomou o terreno infértil para captações no mundo todo. Apesar  o mau humor generalizado, foram registradas 206 aberturas de capital no mundo no segundo trimestre  este ano, com um total captado de US$41,8bilhões, conforme dados da Ernst &Young Terco. Um crescimento significativo, em especial no volume captado, quando comparado aos US$17,4bilhões dos três primeiros meses do ano, movimentados por 196 ofertas iniciais de ações mundo afora. O volume do segundo trimestre tem influência dos US$16bilhões levantados pelo Facebook. No Brasil, ocorreram três ofertas iniciais, que juntas movimentaram R$ 3,9 bilhões – pouco menos de US$2 bilhões -, todas na janela e mercado do mês de abril.

Por recursos levantados, as três bolsas de destaque no período foram Nasdaq, Nyse e Bolsa da Malásia. A América Latina registrou apenas um total de sete aberturas de capital entre abril e julho, comparado a 04 transações realizadas na região da Ásia.

 

Ao sabor do humor externo

A avaliação que os investidores estrangeiros fazem do Brasil – em geral, à distância – muitas vezes tem deficiências e proporções ampliadas, seja em momentos de otimismo, como em 2007 e 2010, ou de pessimismo, como o atual. Para Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp, os gringos exageraram ao achar que o país poderia crescer 7,5%(como ocorreu em 2010) de forma constante. “Eles

não tinham razão para acreditar nesse crescimento. Parte disso era uma reação às medidas de incentivo adotadas pelo governo e parte, um efeito estatístico, por conta da base fraca de comparação.” Assim, diz  ele, “os estrangeiros têm um pouco de razão, mas não toda, de estar frustrados”.

O fato é que, certos ou errados, quando os grandes aplicadores internacionais compram ou vendem ações no Brasil,seus efeitos são compartilhados por todos, seja para o bem ou para o mal. E deixam os gestores locais com a seguinte máxima: “contra o fluxo não há argumentos”. O mau humor, evidentemente, reduz a liquidez dos ativos e deprime os preços, trazendo prejuízos para aplicadores locais, institucionais e pessoas físicas. Ao perderem valor, as companhias enfrentam dificuldades maiores para novas captações, sem falar que a BM&FBovespae os demais agentes que vivem do mercado são penalizados pela  diminuição dos negócios.

Diante de tudo isso, seguir a direção dada pelo estrangeiro pode ser muitas vezes, uma armadilha. Comprar depois que o fluxo é de entrada significa pagar caro. E sair depois que o estrangeiro achou que era hora de vender pode significar realizar um prejuízo em seu pior momento. No período mais crítico do ano da crise financeira global, em 2008, debandada internacional atingiu R$ 24,6 bilhões e a bolsa brasileira afundou nada menos que 41%.

Quando o governo agiu, no auge da crise de 2008, a atuação foi aplaudida dentro e fora do pais por conta de seus  feitos práticos. A economia real reagiu rapidamente e foi alcançado o objetivo de manter o consumo aquecido. Em pouco tempo, o Brasil parecia ser o melhor lugar do mundo para aplicar – tinha crescimento, democracia e boa regulação, e isso fez com que o capital externo voltasse com força ao país. Em 2009 e 2010, eles trouxeram R$ 26 bilhões para bolsa, em um período em que o Ibovespa acumulou alta de 84%.

Passados quatro anos, as soluções usadas lá atrás pelo governo não apenas foram repetidas como ampliadas. Só que o crescimento econômico não veio mais no mesmo ritmo, aparentemente, por um esgotamento do modelo, e o Brasil deixou de ser visto como um oásis.

Em 2011, o estrangeiro tirou R$ 1,4 bilhão do pregão e o Ibovespa recuou 18%. No acumulado deste ano, saldo estava positivo em R$1,5 bilhão até 25 de julho, mas por conta dos mais de R$ 7 bilhões colocados aqui em janeiro. Dos sete meses do ano, cinco apresentavam saldo negativo no capital externo.

Mesmo com as dificuldades, investidores locais mais parrudos e frios diante das perdas, em especial os institucionais, têm sustentado suas posições. Para Flavio Sznajder, sócio da Bogari Capital, pressão política sobre empresa estatal existe em qualquer lugar do mundo. O que pode estar acontecendo é uma volta à realidade. “O país entrou na moda, virou Suíça, só que Brasil é Brasil, tem vantagens e  desvantagens.” As taxas de crescimento projetadas para as companhias, especialmente por investidores  estrangeiros, eram muito elevadas, acredita ele. De quem é a culpa? Normalmente do mercado, mas  existem situações nas quais a administração das empresas tem interesse em valorizar o negócio no curto  prazo.

A fraqueza da economia interna, na opinião de Sznajder, é a principal razão para o marasmo atual – mais do que as iniciativas intervencionistas. Para ele, a fórmula do crescimento baseado no crédito para consumo chegou ao limite. “Isso pesa mais do que a interferência do governo.”

 

Efeito capitalização

Curiosamente, o Brasil começou a deixar de ser a estrela do mundo pós-crise ainda em 2010, quando a maior empresa brasileira, a Petrobras, fez uma das maiores operações já realizadas com ações em todo o mundo: captou R$ 120 bilhões com uma emissão primária de papéis. Parece contraditório, mas não é. A megacapitalização da estatal deixou um gosto amargo para os minoritários, pois o governo federal não escondeu seu interesse de ampliar a participação na companhia. Em outras palavras, a União não disfarçou sua intenção de diluir os acionistas minoritários.

O engenheiro aposentado Sérgio Romano, 63 anos, é um colecionador de críticas à Petrobras, empresa da qual é acionista. Na época da operação, chegou a escrever algumas vezes à área e relações com investidores (RI) da companhia, questionando pronunciamentos de autoridades do governo sobre a oferta, mas ficou sem resposta, sob o argumento do “período de silêncio” imposto à empresa pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“É evidente que o mercado quer participar da capitalização da companhia pagando os menores preços possíveis, mas percebe-se claramente que o governo quer aumentar sua participação custe o que custar. Não quer compartilhar com os atuais acionistas privados as vantagens decorrentes das descobertas dos novos poços. Parece esquecer-se de que estes mesmos acionistas ajudaram a companhia a financiar-se e proporcionaram- lhe as condições para que as pesquisas e as prospecções continuassem e tivessem êxito”, escreveu Romano à época.

Economista com MBA em finanças e passagens pelo setor bancário nas áreas de avaliação de projetos e processos de aquisição e reestruturação de empresas, Eduardo Beadle, 47anos, é outro acionista que se sentiu prejudicado pelas “ingerências do governo” na Petrobras. Ele começou a montar sua posição na empresa ainda em 2009, mas entrou com força no primeiro trimestre de 2010, com um claro horizonte de longo prazo. Sentiu, no entanto, o peso do Estado, durante a discussão da cessão onerosa. Em outubro daquele ano, Beadle mudou de idéia e vendeu tudo que tinha na empresa. “Realizei o prejuízo, fui para o setor de bens de consumo e recuperei minha perda com sobra.”

Já as ações da companhia não tiveram a mesma sorte, mas têm servido para Beadle ganhar um dinheiro em operações de mais curto prazo. “Virei especulador de Petrobras”, diz. Segundo ele, os planos de negócio da empresa tomaram-se muito ambiciosos, o que demanda períodos muito longos para alcançar sucesso. “Não vai acontecer nada nos próximos dois anos “, acredita.

A diluição provocada pela capitalização foi especialmente cruel para os estrangeiros, pois aqueles que aplicavam por meio dos papéis listados na Bolsa de Nova York ficaram de fora da festa por razões técnicas. A fatia deles no capital da petrolífera caiu de 40% para 33%%. Hoje, está em 34%.

O balanço de dois anos da operação não deixa dúvidas: nenhum dos públicos investidores da empresa aprovou. Até as pessoas físicas deixaram a empresa. A Petrobras chegou a ter 1,13 milhões de acionistas diretos e indiretos naquela época, sendo 827 mil no Brasil e 300 mil nos Estados Unidos. Atualmente, são 32 mil acionistas no total, sendo 656 mil no país e 276 mil via ADRsem Nova York.

Dos quase 200 mil investidores individuais que perdeu nesse período, a maior parte, ou 162mil pessoas, saiu de fundos dedicados exclusivamente aos papéis da estatal. Em nota, a companhia disse que a Ueda na base de investidores via fundos é mais acentuada pelo fato de esses aplicadores “estarem mais suscetíveis a comparações com o rendimento de outras aplicações, como CDB, cm e poupança”. Ainda segundo a Petrobras, os acionistas diretos “tendem a ser investidores com foco no longo prazo”.

Romano é um dos que permanecem na base de acionistas, mas vem reduzindo sua exposição à empresa. No começo do ano, por exemplo, aproveitou para vender mais um pouco quando a ação aproximou-se dos R$25 – seu preço médio de compra é R$ 24. Do lado estrutural, diz ele, pesaram contra o investimento na companhia a “má gestão” do comando anterior, preços defasados, parâmetros de produção sempre mal estimados e cronogramas não cumpridos. “Tudo isso fez com que a credibilidade da empresa fosse bastante desgastada”, acredita.

O economista José Roberto Mendonça de Barros, que participou, há 12anos, da criação do Novo mercado da bolsa, está entre aqueles que vêem a ingerência do governo sobre a estatal como um dos motivos  ara o quadro negativo atual. “Sem dúvida, uma parte do que estamos vendo na bolsa tem a ver com o caso a Petrobras. Ela tem um plano de investimento ambicioso, mas que está destruindo valor”, afirma.

Para se ter uma idéia, o preço de mercado da Petrobras era de R$250 bilhões no fim de julho, esmo patamar de 2007, o que significa que ela “perdeu” toda a valorização obtida pela descoberta do pré-sal, entre o fim de 2007 e início de 2008, e também pela injeção de caixa na capitalização.

Nem mesmo o ex-presidente da Bovespa Raymundo Magliano Filho, considerado o idealizador o conceito de popularização do mercado de capitais e um de seus maiores entusiastas, esconde os danos causados pela capitalização e pela atual política do governo. “Tudo começou com a Petrobras”, diz, a respeito do mau humor do mercado. “Investidor sempre quer que a regra do jogo seja mantida.”

Em recente evento realizado na BM&FBovespa,Magliano enfatizou  o que para ele é uma das  maiores lições do Novo Mercado: a capacidade de ação da sociedade civil organizada sem a  necessidade do Estado. Mas reconhece que hoje não há a mesma mobilização que existia no fim da década de 90 e início dos anos 2000, quando se criaram os níveis  diferenciados de  governança corporativa em resposta às queixas constantes dos investidores a respeito da falta  e segurança para os minoritários. E que isso, combinado à mão pesada do Estado, está  prejudica os preços no pregão.

Mas não foi só com Petrobras que o estrangeiro se decepcionou. Logo após o episódio da estatal, mais  m temor pesou sobre uma blue chip da bolsa: a Vale, controlada em parceria por fundos de pensão de  empresas estatais, BNDESe mais o setor privado. Na virada de 2010para 2011, começou a se formar entre os investidores um entendimento de que a União estaria articulando a troca de comando da mineradora, segunda maior empresa do país. Em 12meses até o dia 27 de julho, os papéis da Vale caíam 13,6%, bem mais que os 3%do Ibovespa no período. Os fundos dedicados  exclusivamente às ações da Vale,que chegaram a mais de 820 mil CPF sem junho de 2008, têm hoje pouco  ais da metade, algo como 466 mil.

Mais recentemente, o desgosto com as interferências refletiu-se sobre o setor financeiro, após a guerra conduzida pelo governo para reduzir o spread bancário, ou seja, o ganho dos bancos com o empréstimo de dinheiro. Para alcançar o objetivo e pressionar a concorrência privada, não apenas a Caixa Econômica federal tem sido elemento fundamentai, mas também o BB, que tem ações em bolsa. Justamente em um momento de redução na qualidade dos créditos. Desde o fim de março, quando os bancos começaram a reagir à cruzada contra os juros altos, as ações do BB foram as que mais sofreram. No ano, caíam 5,6% até 7 de julho, ante valorização de 5,3 % do índice do setor financeiro. A base de acionistas individuais diretos e indiretos da instituição, que chegou a superar 400 mil em agosto de 2010, estava em 355 mil em abril.

Na opinião de Cunha, da Amec, não se trata apenas de negligenciar o mercado. Ele calcula que foram destruídos quase US$210bilhões em valor da Petrobras desde o anúncio da capitalização para o pré-sal – considerando itens como a queda nas cotações, reaplicação dos dividendos e o custo de oportunidade de aplicações similares. No mesmo período, um ETF do setor de óleo e gás (XOAG) subiu 46%, sem nenhuma descoberta de produção adicional, enquanto a estatal perdeu 48%, considerando os preços em dólares.

Na atual conjuntura de Brasil, sem um crescimento econômico vigoroso para entregar ao investidor, as críticas aumentaram. “Uma coisa é o governo regular o mercado; outra, bem diferente, é interferir em questões comerciais das empresas”, ressalta Landers, da BlackRock. Segundo ele, “microadministrar a economia não está funcionando”, mas o mercado reagiria bem se o governo se esforçasse para fazer reformas que efetivamente diminuíssem o custo de produção. “O Brasil reduziu muito seus riscos intrínsecos”, reconhece, ressaltando, porém, que isso não se reflete no preço atual da bolsa. O resultado esta equação é um grande descompasso entre o mercado de renda fixa (de títulos da dívida federal) e de ações. Enquanto o custo do dinheiro está em queda para o governo, tem subido para as empresas brasileiras.

Karina Lítvack, diretora do fundo britânico Foreign&Colonial,com mais de 100 bilhões de libras de  patrimônio, acredita que o intervencionismo é parte integrante do modelo de desenvolvimento econômico  o Brasil e que os investidores podem perfeitamente conviver e coexistir nesse ambiente. Até mesmo porque esse modelo já entregou resultados positivos. A questão, diz ela, é que coisas como a corrupção, a compra da paz social” com interferências em grandes companhias e regulações arbitrárias estão fazendo  s investidores perderem a paciência e começarem a temer o modelo brasileiro. Para a especialista, o  governo está evitando enfrentar decisões e medidas mais difíceis,porém necessárias, ao crescimento  sustentável.

Na esfera federal, a avaliação é de que muitas das críticas e do eventual mal-estar de investidores estariam em questões já ultrapassadas. A substituição de Sérgio Gabrielli por Graça Foster na presidência da Petrobras teria despolitizado a  empresa. Na Vale,Dilma tem atuado de forma distinta do governo anterior, que persuadiu a companhia a  construir usinas siderúrgicas. Em relação à pressão nos bancos por redução do spread, o governo tem  acompanhado as baixas nas cotações do BB,mas assessores da presidente avaliam que os bancos  privados também caíram.

Na opinião de Jairo Saddi, advogado, coordenador do núcleo de direito societário do Insper e investidor há 28 anos, o Brasil é cada vez mais um país difícil para se montarem posições de longo prazo, sua especialidade. “Cada dia que passa me convenço de que, para tomar decisões de aplicação, é preciso abrir o caderno de política dos jornais antes de ler o de economia.” A visão de Saddi, no entanto, é de que mais importante para as decisões são as políticas públicas, as questões macroeconômicas, e não as iniciativas intervencionistas. “Isto é bravata. A capacidade de o governo de realmente interferir nos negócios não é tão grande assim.”

A falta de otimismo, no entanto, não é generalizada. Thomas Tosta de Sá, ex-presidente da CVM e presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), percebe mudanças no discurso público que sinalizam a presença do mercado nos planos de médio e longo prazo. “O governo percebe que precisa buscar recursos privados para investir. Por isso estão falando de licitação e aeroportos, portos e estradas”, afirma. Para ele, a necessidade econômica de aumentar o investimento se  impõe sobre a política. “Se não fizer, o Brasil vai rastejar em termos de crescimento. Vai ser compulsório.” Dúvida é saber se os investidores vão responder ao chamado do governo.

Tosta de Sá argumenta que essa atração será mais fácil com a queda dos juros. Ele lembra que os institucionais locais como fundos de pensão, seguradoras e fundos mútuos, investem apenas 17%dos recursos em ações e 7% em títulos de dívida privada. “Isso vai ter que mudar, queiram eles ou não: ‘

 

Brasil em baixa, boa notícia?

A sensação de não ser mais o queridinho e o exagero no mau humor com os ativos brasileiros podem trazer desânimo, mas o fato é que essa conjuntura pode ser mais produtiva do que o excesso de euforia, e encarada como uma oportunidade. Para o governo e as entidades do mercado, é uma brecha para calibrar algumas engrenagens a fim de que possam funcionar melhor. Do ponto de vista macroeconômico, passos estão sendo dados (leia a coluna Macro Detalhe na página 24). Para o investidor, a oportunidade é de comprar ativos a preços mais convidativos. Embora se acredite que alguns papéis ainda possam cair no curto e médio prazo, muitos vislumbram barganhas.

Landers, da BlackRock, destaca que o Brasil está barato na comparação com o México, por exemplo. Em meados de julho, a bolsa mexicana estava negociando a 15vezes a projeção de lucro para 2013, enquanto a brasileira, a apenas nove vezes. A grande questão a ser respondida, segundo ele, é se as companhias conseguirão entregar os lucros previstos para o ano que vem o que determinará o tamanho da oportunidade atual.

Por isso, ele enfatiza a importância de o governo encarar as reais questões do pais e buscar ampliar a eficiência dos negócios, promovendo uma reforma tributária e reduzindo a carga da folha de pagamentos.

O ambiente de juro baixo é naturalmente um estímulo para a renda variável, mas o cenário externo que ajuda a reduzir a Selic atrapalha a bolsa, dada a forte aversão ao risco – que cede em alguns  momentos, mas insiste em retornar, “Temos uma conjuntura que não é padrão, com risco de ruptura”, diz  Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp.Este é o pano de fundo que tem impedido  locações mais expressivas no mercado.

Será preciso estômago para agüentar os trancos: há questões a serem resolvidas como a crise na Europa      problema fiscal nos Estados Unidos. “Se a Grécia sair do euro, se a Espanha precisar de ajuda, outros países devem entrar na onda, como a Itália. A bolsa neste cenário pode ir para os 45 mil a 50 mil pontos”, valia. É esse ambiente turbulento lá fora que mais joga contra o Brasil, acredita o gestor. Para ele, um vento de ruptura tem risco de 20% a 30% de acontecer.

O especialista reconhece que esse ambiente cria oportunidades, mas ressalta que o investidor precisa ser hiper seletivo e buscar companhias com capacidade financeira, boa geração de caixa e qualidade de estão (leia mais na página 26). -”Nesse momento, o trabalho de seleção de ações é extremamente importante”, diz.

Ele cita o caso dos bancos, que apanharam bastante. As ações do Itaú, por exemplo, chegaram a amargar perdas superiores ao Ibovespa, sendo negociadas a 1,7vez o valor patrimonial. “Faz sentido?”, questiona. “O retorno sobre o patrimônio não é mais 24%, 26%, mas é 19%”, argumenta. “Os papéis de bancos lá fora estão baratos, mas o setor está em dificuldade: ‘

Para Sznajder, da Bogari, a própria Petrobras, no nível de preço visto recentemente, passa a ter mais chances de ser um bom negócio para os próximos três anos. “A empresa tem um modelo de negócio robusto, gera caixa, mas o governo não é necessariamente o melhor alocador de capital”, destaca. “Sempre pode haver mais desconto, mas os investimentos vão começar a gerar caixa, mesmo que com um retorno ruim”, conclui o especialista.

Coma crônica aversão ao risco vista recentemente, dado o conturbado cenário global, o estrangeiro quer boas notícias para trazer seu dinheiro ao país. E novidades relevantes vindas da sociedade civil, como ocorreu no início dos anos 2000, parecem não existir no horizonte.

A BMF&Bovespa tentou promover uma ampla reforma no Novo Mercado, durante 2009 e 2010, após inúmeras queixas reunidas de minoritários. A iniciativa não teve êxito e apenas algumas mudanças foram aprovadas. A frustração deixou um cheiro de “Brasil velho” no ar, como definiu na época o próprio residente do conselho de administração da bolsa, Arminio Fraga.

O segmento de governança é hoje prisioneiro do próprio sucesso. Com quase 140companhias listadas, o novo Mercado precisa que as sugestões de modificação sejam aprovadas por mais de dois terços de seus participantes. E as companhias não estão interessadas em entregar mais sem que o mercado esteja disposto a pagar por isso.

O Novo Mercado tornou-se um selo especialmente importante para o estrangeiro, que viu padronizadas ali algumas regras das quais gosta, com destaque para o conceito “uma ação, um voto”, e o equilíbrio de direitos econômicos entre controladores e minoritários.

Na tentativa anterior de reforma, a BM&FBovespa sofreu críticas das companhias pela condução do processo. Recentemente, a bolsa promoveu então um evento com a nata do mercado de capitais brasileiro, em busca de sugestões para manter o “frescor” do Novo Mercado, como definiu Gilberto Mifano, ex-vice- presidente da Bovespa, na época da criação do selo, e atualmente sócio da Pragma Investimentos.

O objetivo principal foi mostrar que no lugar de chegar com as sugestões prontas, ainda que vindas de uma Câmara Consultiva, como a criada para a reforma passada, a bolsa quer que as empresas participem do processo desde o início.

Mas o evento deixou evidente clima de nostalgia. Muito se falou da excelência e da importância do Novo Mercado, mas faltou um discurso unificado sobre o futuro. Ficou patente a falta de perspectiva de avanços relevantes.

Karina Litvack, diretora do fundo Foreign &Colonial, destaca que o Brasil se acostumou a ser o queridinho – “the darling” dos Brics (sigla para os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).”O que o  país precisa se perguntar é se sua vantagem comparativa em relação aos emergentes é satisfatória, considerando que está nesse grupo”, afirma. Para ela, essa vantagem que o país estava acostumado a ter é perigosa e pode levar à complacência. “Toda a boa vontade construída junto aos estrangeiros está evaporando.”

Procurada pela reportagem, a BM&FBovespa respondeu apenas por e-mail. Disse que as discussões existentes sobre o mercado são reflexos de seu crescimento. “A cada passo do mercado nesta direção de mais governança corporativa), surgem novas possibilidades, questionamentos e conflitos. “

Na opinião de Mauro Cunha, presidente da Amec, na atual conjuntura é difícil até mesmo definir os avanços necessários. “Não são mais as questões óbvias do passado, como uma ação, um voto, ‘tag along’  acesso ao prêmio de controle em caso de venda da companhia).” Para ele, os assuntos agora são mais  complexos e delicados, como o estímulo à atuação de gestores de recursos com base em seus deveres  fiduciários.

Depois da debandada de empresas e investidores no fim da década de 90, o Brasil passou anos criando regras, reformando leis e aprimorando a autorregulação. Mesmo sem mercado – já que ele não cumpria seu real papel de financiador das empresas e do crescimento.

Os preparativos, porém, permitiram ao país surfar bem a onda da liquidez mundial. As companhias captaram mais de R$ 280 bilhões para investir ou fortalecer sua estrutura financeira desde 2004. Outros R$94 bilhões foram levantados nas ofertas secundárias -liquidez que foi para o bolso de pessoas físicas  ou empresas e pôde voltar para a economia na forma de poupança privada ou novos empreendimentos.

A sensação disseminada no mercado é que, no passado, quando a bolsa brasileira era uma associação de corretoras sem fins lucrativos, cumpria melhor o papel de fomentadora diante do governo.  Vem crescendo entre os participantes a percepção de que, como companhia aberta, a M&FBovespa perdeu m capacidade de desenvolvimento do mercado e de interlocução no governo federal. Como qualquer empresa, sofre pressões para melhorar seus resultados, o que pode levar a decisões de curto prazo – como estímulo ao giro constante dos papéis – em detrimento a projetos consistentes de longo prazo.

Ao falar dos planos para o futuro e do relacionamento com o governo, a BM&FBovespa reconhece que é preciso ampliar o financiamento das empresas por meio do mercado de capitais. A bolsa destaca que,  unto com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)- órgão que regulamenta e fiscaliza o mercado -, lidera  m grupo de trabalho para estudar formas de estimular a captação de recursos por meio de ofertas  menores de ações. A iniciativa nasceu no primeiro semestre deste ano e conta também com a participação do ministério da Fazenda, do BNDES, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Agência Brasileira  e Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Entretanto, nada fala sobre a questão da interlocução com o governo. Diz apenas ter uma boa relação com a CVM e o BNDES.

2012 se consolida como um ano de crescimento pífio. Com um cenário externo cada vez mais adverso e crise de competitividade da indústria, o Produto Interno Bruto (PIE) deve ter uma expansão entre 1,5%e 2%.Neste quadro desanimador, contudo, a Selic e o dólar caminham para níveis muito mais favoráveis para estimular a atividade econômica. Um mix mais propício de juros e câmbio obviamente não é uma panaceia, mas será um incentivo importante para a economia, devendo surtir mais efeito quando o quadro internacional ficar menos nebuloso. Também devem ajudar as medidas que o governo tem tomado para encorajar o investimento e reduzir os custos da indústria.

O Banco Central (BC) definiu uma estratégia para derrubar com força a Selic, aproveitando o cenário de crise global e desaceleração da economia. Os juros básicos, fixados em 8%ao ano na reunião de julho, devem cair para 7,5%ou até menos, acreditam os analistas. A taxa real, medida pela comparação do juro privado de um ano com a inflação projetada para os próximos 12meses, se encontra em patamares baixíssimos para padrões brasileiros – em junho e julho, ficou abaixo de 2%.

Vários analistas questionam a velocidade com que o BC reduziu a Selic, já que a inflação brasileira não mergulhou nem mesmo com a atividade no chão desde o terceiro trimestre de 2011. Ainda assim, a deterioração do cenário externo e a letargia da economia deram mais credibilidade à estratégia do BC.

Embora não se possa descartar uma alta mais forte da Selic em algum momento, a expectativa dominante hoje é de que, quando os juros tiverem de subir, vão aumentar menos, além de partirem de um nível bem mais civilizado. O economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, acredita que a Selic vai cair até 7%, encerrando 2012 neste patamar. Em 2013, com a expectativa de recuperação da economia, os juros devem subir, fechando o ano que vem em 8%.

Juros menores não são garantia de crescimento acelerado, mas certamente terão um impacto benigno sobre a economia. O custo de capital ficará mais razoável e haverá um poderoso incentivo para o desenvolvimento do mercado de capitais.

O câmbio também parece ter mudado de nível. A tendência de valorização expressiva da moeda foi interrompida. O dólar, que foi cotado a R$ 1,55 em julho do ano passado, passa a ser negociado na casa e R$ 2 ou mais. Kawall vê dois principais motivos para o novo patamar. Primeiro, a maior aversão ao risco o cenário internacional, que aponta também um quadro bem menos exuberante para os preços de commodities, produtos com grande peso na pauta de exportação brasileira. Além disso, o governo adotou árias medidas de controle de capitais, tornando mais difícil e mais caro apostar na valorização do real.

“Sem dúvida nenhuma, a combinação de juros mais baixos com câmbio mais valorizado é melhor para o crescimento econômico”, diz Kawall.  “Ainda não mudaram esta regra.” Segundo ele, o cenário consensual de recuperação da atividade na segunda metade do ano e de um 2013 melhor do que 2012 tem como pressupostos importantes uma política econômica mais expansionista, em que se destacam os juros mais baixos, e um câmbio mais competitivo, que  aparentemente veio para ficar” .

Isso não quer dizer que o país vai experimentar taxas de crescimento robustas de uma hora para outra por causa do novo mix de juros e câmbio. O México, por exemplo, derrubou os juros básicos para níveis civilizados há alguns anos e isso não significou uma mudança do padrão de crescimento. Ao mesmo tempo, parece um erro ignorar o potencial impacto sobre a economia de juros reais bem inferiores aos que vigoraram desde o começo do Plano Real.

As medidas para reduzir o custo das empresas – como as voltadas para as tarifas de energia elétrica – e ara intensificar as concessões de obras de infraestrutura para o setor privado também aumentam as perspectivas de crescimento do país. Ainda que um pouco tardias, são iniciativas que enfrentam problemas estruturais. Podem não ter efeito imediato, mas caminham na direção de aumentar a competitividade da  economia brasileira.

Neste quadro, o panorama para a atividade econômica não é sombrio como sugere o desempenho dos últimos trimestres. Se o cenário externo não ficar muito turvo, um risco que existe principalmente por causa a possibilidade de ruptura na zona do euro, há uma chance não remota de retomada mais firme da economia.

Um dos pilares da teoria de finanças diz que o investidor, antes de comprar uma ação, precisa identificar uma boa oportunidade de preço. Assim, em tese, perderia atratividade um papel que, de acordo com  seus indicadores de mercado (os chamados múltiplos), é considerado caro em relação à média histórica e à de seus pares. Não é bem isso, no entanto, o que tem sido visto na bolsa brasileira – sobretudo nos últimos meses. Em meio às incertezas com relação à economia mundial e as revisões para baixo do crescimento brasileiro, muitos aplicadores têm ignorado alertas de valores esticados e alocado recursos no que identificam como “ações de qualidade”.

Em uma espécie de efeito manada, todo mundo saiu à procura de um grupo de papéis fortemente ligados o mercado interno – alimentos e bebidas, varejo e elétricas à frente – e que, por isso, ficaram caros. Foi um movimento potencializado também por uma decepção generalizada em relação às “blue chips” (as ações de primeira linha da bolsa).

No centro da discussão – e das escolhas feitas por analistas e gestores- estão papéis como o da companhia de bebidas Ambev. As ações preferenciais da empresa são negociadas a um múltiplo preço obre lucro (P/L) médio de 24 vezes, de acordo com o consenso Bloomberg do fim de julho. Obtido a partir a relação entre a cotação do papel e o lucro líquido anual estimado, o indicador aponta, em tese, em quanto tempo o capital investido será recuperado, desde que todo o lucro seja distribuído aos acionistas.  Logo, quanto menor, melhor.

No caso da Ambev, o número indica que a ação da companhia levaria 24 anos para devolver o investimento – ante um P/L médio de 5,8 vezes para Vale. Justamente por ser uma companhia sujeita aos ciclos econômicos, é esperado que o múltiplo P/L de Vale seja menor. É a grande distância com relação ao indicador da Ambev que chama a atenção.

Assim como Ambev, a fabricante de cigarros Souza Cruz também é um excelente exemplo de empresa defensiva considerada cara por muitos. Em média, o mercado espera que o lucro da companhia cresça de 5%a 7%neste ano. O papel, contudo, tem sido negociado a um múltiplo P/L médio de 19 vezes, sendo que a média do mercado é de um indicador ao redor de 13vezes. Seguindo este raciocínio, faria sentido investir em ativos com este perfil?

O que é visto como “legitimamente defensivo” por alguns é qualificado por outros como “excessivamente previsível”. O consenso, no entanto, é que a estratégia simplesmente tem funcionado e pode continuar dando certo enquanto o cenário de nuvens carregadas não mudar.

Hoje fazem parte da carteira de boa parte das gestoras, e de muitas das indicações de analistas de  bancos e corretoras, papéis de setores diversos, tais como Cemig (energia elétrica), CCR (concessão  rodoviária), BR Malls (shoppings), Cielo (serviços financeiros), Ultrapar (combustíveis), Pão de Açúcar  varejo) e Localiza (aluguel de carros), além, claro, de Souza Cruz e Ambev.

Este tipo de ação, já apelidadas pelos especialistas de “boring” (enfadonha, tediosa), “Warren Buffett” (estáveis e com geração de caixa previsível), ou, em um tom mais jocoso, “papai e mamãe”, engloba empresas com um histórico positivo de relacionamento com o mercado, financeiramente sólidas e com ma entrega consistente de (bons) resultados. Com isso, a volatilidade em bolsa fica menor e muitas ainda distribuem excelentes dividendos.

Tal postura, mais conservadora, encontra vários exemplos recentes no mercado. Ao longo de julho, em todos os seus relatórios, a Itaú Corretora reforçou a preferência por teses de investimentos mais sólidas e previsíveis, apostando na continuidade do bom desempenho das ações de perfil defensivo, como

Ambev, Cemig e Telefônica. Entre as suas 17 melhores idéias de investimento, nada menos do que as cinco primeiras eram ocupadas no fim de julho por ações consideradas menos voláteis: Cemig, Ambev, Vivo, CCR e BR Malls.

Em meados de julho, o Deutsche Bank também adotava um viés mais cauteloso, optando  elos  papéis da BM&FBovespa em detrimento de bancos, ainda sujeitos ao que o relatório indicava  como risco de crédito.

Ao lado de Localiza, a Ambev aparecia ainda no portfólio recomendado para “large caps” empresas de maior capitalização) nos meses de julho e agosto da corretora Fator – que  postava no potencial de crescimento do consumo no mercado interno; e na carteira de  dividendos da corretora Concórdia, que tinha ainda CCR entre os cinco papéis recomendados em sua carteira Ibovespa.

“É uma estratégia válida em tempos complicados”, diz Marcelo Varejão, analista da corretora Socopa, que em julho também anunciou uma guinada “à direita”, com a troca dos papéis da MPX elas ações da Ambev, com o objetivo de deixar a carteira um pouco mais conservadora. “É aquela velha história: papel caro e bom pode ficar ainda mais caro.”

Outro que defende o movimento é Jorge Oliveira, gestor do JP Morgan. Ele ressalta que dizer se um papel é caro ou barato é relativo e faz um alerta: o investidor que olha apenas para os múltiplos pode perder dinheiro no longo prazo. A questão, diz ele, não é só saber se a ação está cara ou barata, mas se vale a pena pagar um prêmio por ela. E para isso é preciso olhar para a evolução dos múltiplos nos próximos anos e compará-los também com os de empresas

listadas em outros lugares com o mesmo tipo de negócio.

André Rocha, titular do blog O Estrategista, do site do Valor, lembra que um múltiplo alto não sinaliza necessariamente que a ação encontra- se cara. Empresas com forte expectativa de crescimento de resultados tendem a apresentar múltiplos altos porque, com o aumento dos lucros futuros, o indicador tende a desinflar nos anos seguintes. “Por outro lado, são ações que têm que continuar entregando os resultados esperados para valer a pena o investimento”, diz.

Segundo Oliveira, do Morgan, se houver uma boa gestão e um modelo de negócio sustentável, nada impede que o investidor 49btenha ganhos com uma empresa com um P/L de 20 vezes. “Quem deixou de comprar Ambev há dois ou três anos fez um péssimo negócio.”

De fato, a trajetória das ações da empresa está longe de ser enfadonha. Alinha descrita pelo papel também é um verdadeiro desafio à tentativa do investidor de deixar o mercado no melhor momento. Nos últimos cinco anos, o papel acumulou alta ao redor de 358%, com queda apenas em 2008 (-17,5%), assim mesmo bem menor que o tombo de 41% do Ibovespa. No ano seguinte, quando o Ibovespa subiu quase 3%, a ação não deixou por muito menos, em alta de 80%. Quem saiu no fim de 2010 embolsou mais 51%de alta. Maravilha? Depende. Esse mesmo investidor poderia ter ganhado mais 38% em 2011 e outros 21% em 2012, até o dia 27 de julho.

Em junho, segundo os dados mais recentes da bolsa, o valor de mercado da Ambev, de R$ 216,9 bilhões, só perdia para o da Petrobras. Ficava, porém, acima do valor de mercado da Vale, de R$ 213,3 bilhões. “Como uma empresa que vende cerveja vale em bolsa algo equivalente a segunda maior mineradora do mundo?”, indaga o sócio-gestor da Cultinvest Walter Mendes.

Ele mesmo responde: “A Vale é uma empresa exportadora, portanto dependente da conjuntura internacional e, mais ainda, da China. Fora que ela encontra interferência do governo em suas atividades, enquanto a Ambev não depende do exterior, nem de crédito, vende um produto de massa, é sólida e bem gerida. Tem ainda possibilidade de pagar dividendo razoável de 5% a 6% neste ano”.

A linha descrita pelas ações da Vale refletiria muitas das incertezas destes últimos anos. Depois de subir quase 91% em 2007, o papel passou por altos e baixos e há um ano e meio não sabe o que é território positivo. Em cinco anos, a valorização é bem mais modesta do que a cravada por Ambev: 59%.

Mendes, no entanto, faz questão de ressaltar que optar entre uma ou outra ação é questão de alocação e horizonte de investimento. “Não há preto e branco nisso, mas várias graduações de cinza”, diz.

O próprio Mendes, contudo, foge do lugar comum e diz evitar a compra de ações defensivas – principalmente as consideradas caras. Entre os papéis que avalia como “menos caro”, tem Cemig e Vivo, mas as suas apostas hoje estão mais nos setores de logística (Mills,Julio Simões, Santos Brasil) e  educação. “Admito que poderia ter comprado Ambev há algum tempo. Só não o fiz porque achei que  estava  ara desde o ano passado.”

Para os críticos, o que chamam de “bolha dos múltiplos” não faz sentido em termos de estratégia de longo prazo. Eles dizem que gostam da maior parte das empresas consideradas caras, mas que os altos múltiplos não dão margem de segurança para a compra e acreditam que o desafio estaria em encontrar bons negócios na bolsa ainda não precificados.

André Gordon, sócio responsável pela gestão da GTI Administração de Recursos, diz que a validade da estratégia de se socorrer em empresas caras em tempos difíceis é objeto de discussão diária na gestora. “Do ponto de vista fundamental, faz todo sentido migrar para onde tem maior segurança quando se antevê uma incerteza grande. Isso até a minha avó de 87 anos entende.”

O que Gordon não compreende é como o investidor pode abrir mão do que chama de “outra parte da equação” – o preço. É crucial, diz ele, entender quanto você está pagando pelo papel, qual o retorno implícito esperado ajustado ao risco, assim como o retorno esperado para outros ativos.

O gestor afirma que há empresas que vêm apresentando bons desempenhos “como se não houvesse manhã”. Um dos exemplos, diz, são os papéis da Cielo, que, em sua avaliação, ficaram “caríssimos” e foram trocados pelas ações do Itaú. “O ideal, na verdade, seria estar trocando agora, mas não temos bola e cristal”, reconhece.

Para ele, setores bastante defensivos como os de energia elétrica, concessões e varejo estão caros ou, depois de quedas mais recentes, próximos do preço considerado justo. “O mercado chegou a pagar 30 vezes o lucro pelos papéis de varejo. Quando você faz isso, ou está no Japão, que tem um custo de oportunidade inexistente e qualquer ativo vai continuar parado por muito tempo, ou você acredita que a empresa vai ter um crescimento absurdo”, argumenta. “O problema é que a expansão que vinha em ritmo forte no setor está parcialmente comprometida pela saturação, principalmente, do crédito.”

Gordon diz que, no médio ou longo prazo, não é pessimista a ponto de achar que este cenário de crescimento acabou. Chegou a ter de 7% a 8% da carteira em vestuário, mas se desfez de papéis como Renner e Riachuelo há alguns meses e agora aposta em Magazine Luiza. E em outros setores menos óbvios como logística bancos e construção civil. “Mas no curto prazo não estamos otimistas com nada, nossa visão é mais para dois ou três anos: ‘

O foco de Gilberto Nagai, superintendente de renda variável da Itaú Asset Management, não são tanto as ações consideradas caras porque subiram demais, mas os papéis ainda esticados porque não caíram tudo o que foi projetado.

Atualmente, ele mantém em seus portfólios ações de companhias que entregam resultado como um “reloginho, sem surpresas” – shoppings e boas pagadoras de dividendos -, mas em menor proporção. Segundo Nagai,as empresas de bebidas e de cigarros não devem decepcionar nas próximas safras de  balanço. Porém acredita que, para as ações de varejo, mais perdas estão por vir. “Mas elas vão voltar a ter lucro mais para o fim do ano”, afirma.

Devagar, o gestor do Itaú diz que vai “virando a chave” das suas carteiras para companhias de crescimento (ações com potencial maior de valorização), como as do setor de siderurgia. “Em cerca de seis meses, já vai valer a pena se voltar para as empresas de crescimento. Só não dá para comprar muito ainda porque ainda vamos nos decepcionar com os números”, diz.

Aqui, no entanto, vale uma ressalva, pois não se trata de buscar papéis indiscriminadamente baratos. “Parece que algumas ações estão baratas, mas não geram lucro, e nem vão gerar. Então, na verdade, permanecem caras”, diz Nagai,que prefere não citar nomes, mas alguns setores que podem conter empresas com este perfil – aéreo e construção civil entre eles.

Gordon, da GTI, é mais categórico. Para ele, sem os problemas de governança, Petrobras seria uma empresa na qual investir, o que ainda não é o caso. “O fato é que a Petrobras não vem atingindo as promessas do passado de entrega de produção, fora a questão da capitalização. Todas estas condições destroem valor para o acionista”, diz. “Está barata, mas falta clareza no futuro.”

No geral, a percepção é que, reduzido o grau de incerteza, o apetite por risco tomará o rumo inverso, aumentando as apostas nos papéis de crescimento. “Nesse ajuste, que acho que pode ser forte, vamos voltar a ver a redução dos múltiplos de empresas defensivas”, diz Mendes, da Cultinvest. O movimento, no entanto, dependerá dos sinais de reaquecimento da economia chinesa, de recuperação consistente da economia americana e de que o fundo do poço para a Europa finalmente tenha sido alcançado – fora a reaceleração da economia local.

Para além das questões colocadas entre o que é considerado caro ou barato, o consenso é que o investidor de olho em prazos mais longos fique sempre atento a empresas com espaço para expansão de seus resultados operacionais, vantagens em seus segmentos, que estejam gerando caixa e ganhando participação de mercado. Fora a possibilidade de distribuição de dividendos. Mesmo porque o que é considerado caro hoje pode estar barato – ou ainda mais caro – amanhã.

 

FORA DA CAIXA

 

Lucros S/A

 

Sob novo comando, a Klabín, maior produtora brasileira de

papéis para embalagens e dona de extensas florestas, ganha

eficiência e a simpatia dos investidores. Agora, falta só o

Novo Mercado Por Stella Fontes.

 

Sem muito alarde, a Klabin, maior produtora brasileira de papéis para embalagens e player reconhecida mundialmente no segmento, colocou em curso um processo de reestruturação que está mudando a sua cultura corporativa. Este movimento literalmente derrubou paredes e, aos poucos, vai alterando parâmetros o negócio – assim como a imagem construída, ao longo de muitos anos, junto a analistas e investidores  que acompanham a centenária indústria fundada pelas famílias Klabin e Lafer.

Não que esta imagem fosse ruim. A Klabin, que detém mais de 500 mil hectares de terras, já era  considerada uma empresa com ativos fantásticos, mas os investidores sentiam falta de renovação da estrutura para que o potencial desses ativos pudesse se refletir plenamente em ganhos. Foi o que  começou a acontecer no fim de 2010, quando os próprios controladores convocaram um novo gestor para  tocar a empresa. “O mais importante é que a companhia aceitou um desafio depois de mais de cem anos”, observa o gestor Thomas Mello de Souza, da Gávea Investimentos. Durante o 5 Congresso Value   Ivesting Brasil, realizado em junho, em São  Paulo, ele apresentou a Klabin como uma das “top picks”, ou  seja, uma das preferidas da gestora carioca na bolsa.

A troca de comando deu início a uma série de ajustes. Desde a eliminação das divisórias que impediam o contato visual entre executivos na sede da empresa, na capital paulista, até a construção de uma bilionária fábrica de celulose, que levará a tradicional papeleira a comercializar também a matéria-prima por algum  tempo, as mudanças são diversas e ainda estão em curso. Mas já deixaram marcas no balanço financeiro, nos relatórios de análise e no desempenho da companhia em bolsa.

A boa impressão está evidenciada pelo comportamento das ações da Klabin desde o início do ano passado. Segundo o Valor Data, entre o fim de janeiro de 2011 e 27 de julho de 2012, as preferenciais acumularam alta de 71%, enquanto o Ibovespa, o principal índice da BM&FBovespa, caiu 19%no período. Também estavam muito bem aos olhos da agência de classificação de risco Fitch Ratings, que em junho atribuiu notas iniciais de probabilidade de inadimplência do emissor (IDRs, na sigla em inglês) em moeda estrangeira e local BBB-, colocando a empresa no restrito grupo de companhias brasileiras consideradas grau de investimento.

O nascimento silencioso da “nova Klabin” reflete, em parte, a discrição de seu novo diretor-geral, o executivo Fabio Schvartsman, que chegou à companhia em fevereiro de 2011.Primeiro profissional a comandar a Klabin sem ter sido formado nos quadros da empresa, Schvartsman raramente concede entrevistas –para a Valorlnveste, sua assessoria informou que não haveria agenda compatível com o prazo de fechamento desta edição. Entre os analistas, a impressão é de que o novo comandante trouxe novidades em governança. “A Klabin se modernizou em termos de gestão e de relações com o mercado”, afirma um analista que pediu para não ser identificado.

Em relatório de 10 de julho, os analistas Raphael Biderman e Alan Glezer, do Bradesco BBI, lembram que a companhia sempre foi conhecida pela tomada lenta de decisões e pela presença de integrantes das famílias acionistas no grupo controlador. “De repente, a partir da reestruturação, a Klabin adotou um estilo moderno e agressivo, com estrutura corporativa mais horizontal e práticas de compensação mais agressivas”, escreveram os especialistas.

Em entrevista concedida à época do prêmio Executivo de Valor,em maio deste ano, Schvartsman, Uf1 dos premiados, reconheceu que estava em curso a formatação de uma “nova” Klabin. Calcada sobretudo no estabelecimento de um novo patamar de custos – num segundo momento, a meta é valorar áreas e ativos cujo potencial não é integralmente aproveitado -, a reestruturação já levou o resultado trimestral antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) para a casa de R$ 300 milhões, ante média anterior de R$ 200 milhões a R$ 250 milhões, destacaram os analistas do Bradesco BBI.

Os números chamaram a atenção do mercado. “Em 11,12 meses, a margem saltou de algo na casa de 20 e poucos por cento para algo na casa dos 30 e poucos por cento”, lembrou Souza, da Gávea, durante sua palestra.

Além de ter conquistado a aprovação dos investidores, o diretor-geral apareceu neste ano entre os dez mais influentes executivos da indústria global, perto, por exemplo, de Iohn Faraci, dirigente da americana International Paper, em ranking com 50 nomes elaborado pela RISI, consultoria independente e especializada no setor florestal com sede nos Estados Unidos. Ainda assim, prevalece a postura reservada do engenheiro de produção que fez carreira no grupo Ultra, entre outras empresas.

Além de derrubar barreiras físicas, Schvartsman empenhou-se em trazer ao escritório de São Paulo, de forma definitiva, os 14 diretores antes dispersos em diferentes fábricas – ao todo, são 17unidades industriais no Brasil e uma na Argentina. “É uma iniciativa muito mais simbólica, mas que contribuiu para termos um pensamento mais uniforme”, disse em entrevista ao Executivo de Valor.

Os relatos das mudanças no escritório rapidamente se espalharam, assim como as notícias de que uma ampla revisão do sistema de bônus estava prestes a ser implantada. E logo a companhia confirmou que se preparava para uma revisão completa no sistema de remuneração de seus executivos, resultando em um modelo mais moderno. O novo sistema prevê uma distribuição maior de bônus, atrelados a metas de desempenho. E foi bem recebido pelos analistas.

 

Operando sob um novo patamar de custos, a próxima fase de mudanças na Klabín engloba o aproveitamento melhor do potencial de determinadas áreas da companhia

 

Custo menor. eficiência maior

No aspecto operacional, a primeira fase da reestruturação conduzida por Schvartsman focou a redução de custos e a eficiência operacional. O primeiro alvo foi a unidade Monte Alegre, em Telêmaco Borba (PR), considerada a maior fábrica de papéis do país. Ali, a companhia produz principalmente cartões revestidos, usados em embalagens de produtos líquidos, por exemplo, além da celulose que servíra como matéria-prima. O mais recente grande investimento da companhia – e também o maior aporte já efetuado em sua história, de R$ 2,2 bilhões – já tinha sido direcionado justamente para essa unidade, em 2008. O desembolso ampliou a capacidade de produção de papéis para embalagens de 700 mil toneladas por ano para 1,1milhão de toneladas anuais. Com isso, a capacidade instalada total da Klabin subiu, a partir de setembro daquele ano, a 2 milhões de toneladas anuais.

As novas mudanças em Monte Alegre contribuíram significativamente para a alta de 48% no Ebitda da companhia no segundo trimestre de 2012, em comparação com igual intervalo do ano passado. O custo caixa unitário da companhia, excluindo itens não recorrentes e as paradas programadas de algumas unidades para manutenção, recuou 2% na comparação anual.

Após o projeto de Monte Alegre, outras iniciativas se seguiram, todas sob um rigoroso controle de gastos e despesas. A companhia anunciou investimentos totais de até R$ 500 milhões em duas máquinas. A primeira, voltada à produção de papel para sacos industriais, com capacidade anual de 80 mil toneladas, envolve aportes de R$ 220 milhões e será instalada na unidade de Correia Pinto (SC).Já em Angatuba (SP), os recursos serão direcionados para o negócio de reciclagem – a companhia é a maior recicladora de papéis do país.

O lema agora é aproveitar novas oportunidades. “A Klabin gera forte fluxo de caixa das operações. Isso permite que a companhia reduza a alavancagem rapidamente após o ciclo de investimentos” , avaliou a Fitch à época da atribuição do grau de investimento. Tal premissa deve pesar sobre a mais relevante decisão a ser tomada pela Klabin: a construção de uma nova fábrica de celulose, cujos investimentos devem alcançar R$ 6,8 bilhões. A unidade, que ficará em Ortigueira, no Paraná, e poderá entrar em operação em 2015, terá capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas por ano de três tipos de fibra: curta, longa e “fluff” (usada em fraldas e absorventes). A expectativa, no fim de julho, era de que o anúncio oficial poderia

ocorrer em breve.

A proposta da companhia é ter um sócio minoritário na empresa, que será denominada Klabin Celulose e conduzirá o empreendimento. A companhia poderá aportar apenas florestas e deixará a um sócio ou mais investidores estratégicos a incumbência de injetar recursos. Nas florestas próprias, a Klabin tem uma de suas principais riquezas e a garantia de custos competitivos: são mais de 240 mil hectares plantados, em uma área total que excede os 500 mil hectares de terras. Numa segunda fase da reestruturação, a meta é extrair ainda mais valor do seu portfólio. Vale lembrar que as terras despontam como ativos destacados entre os mais promissores por grandes investidores mundo afora.

Contudo, para a implementação do projeto – que também significa acesso à matéria-prima própria e a custos competitivos no futuro -, falta ainda o aval do conselho de administração. E há dúvidas quanto ao cumprimento do prazo para o início da operação e para a constituição

da joint venture que executará o projeto. Para os analistas Marcelo Aguiar e Diogo Miura, do Goldman Sachs, “em meio às incertezas presentes nos mercados financeiros, há potencial para atraso na conclusão” da parceria.

Os ganhos operacionais e de gestão obtidos até agora, porém, já embasam apostas como a de Souza, da Gávea, que acredita que a companhia ainda tem mais para entregar. “A Klabin é esse pacote de geração de valor, redução de custo, crescimento e melhora de governança, que, na nossa avaliação, é muito poderoso e deve resultar numa apreciação significativa da ação nos próximos anos. Um balanço sólido, ‘dividend yield’ (retorno via proventos) atrativo de 3%… e você tem aí um case interessante”, resume ele.

Embora os analistas vejam avanços importantes, ainda há desafios. Um deles está ligado a ganhos de governança, já que a companhia ainda tem duas classes de ações (com e sem direito a voto) e não integra o Novo Mercado da BM&FBovespa,algo que a deixa de fora do radar de vários estrangeiros, por exemplo. “O primeiro passo já foi dado, com melhora da gestão. O próximo é atingir um nível maior de governança, de excelência mesmo, que seria o Novo Mercado”, observa Souza. Um movimento de unificação das classes de ações, buscando a simplificação societária, poderia trazer mais valor para a companhia. “Isso daria liquidez aos papéis. E deve acontecer, na nossa opinião, talvez nos próximos dois anos” , prevê. A conferir.

(Colaborou Catherine Vieira)

 

BURACO NA DEFESA

SETORIAL

Revisão tarifária e renovação de concessões de energia elétrica turvam resultados e dividendos no setor conhecido por distribuir lucros

Por Sérgio Tauhata e Márcio Anaya

 

Queda na geração de caixa, retenção de lucros e a possibilidade de revisão para baixo na fatia paga ao acionista como dividendos, Tal combinação causa arrepios em qualquer investidor em bolsa, e mais ainda quando atinge um setor visto por anos como claramente defensivo: o de energia elétrica. As turbulências são fruto de processos regulatórios já previstos, que englobam revisões tarifárias e renovação de concessões. Uma reorganização de agenda, no entanto, acabou gerando o acúmulo de decisões importantes principalmente neste e no próximo ano. As mudanças seguem critérios técnicos conhecidos do mercado, mas o resultado final sempre é uma incógnita e o governo já avisou que trabalhará em outras frentes para baratear a energia – o que mexe com o horizonte de aplicadores até então acostumados com receitas bastante previsíveis.

O chamado “terceiro ciclo de revisões tarifárias”, que afeta as distribuidoras, deveria ter começado em 2011,mas a largada só foi dada neste ano. O processo deve se estender até novembro de 2013 e a tendência é clara: queda nos valores praticados pelas companhias. ”A agência define uma metodologia e aplica para todos, por isso já era esperado como regra geral um movimento de re-dução das tarifas”, afirma Romeu Rufino, diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O resultado disso na geração operacional de caixa das empresas, medida pelo Ebitda, será uma queda média de 15% nos 12 meses seguintes ao resultado da revisão, calcula a analista Sandra Boente, do Deutsche Bank. Segundo ela, algumas companhias esperam impacto de até 25%.Outras previsões, no entanto, vão além.

Até agora, o efeito mais agudo nesse processo foi visto na AES Eletropaulo, que terá de suportar uma diminuição média de 9,33% em suas tarifas, definida no mês passado. O diretor vice-presidente e de relações com investidores do grupo, Rinaldo Pecchio Júnior, prefere não falar em valores, mas estima que, pelas regras atuais, “o Ebitda só estará normalizado no fim do período do reembolso (retroativo), que vai até 2015″. Diante disso, ressalta que o caminho da companhia será adaptar-se às novas condições com ganhos de produtividade. “Em termos gerais, a empresa vai ter de se adequar e fazer um programa de investimentos que as condições tarifárias permitam. É um momento de reavaliação.”

Situação esta que deve desembocar em uma decisão de suma importância para os investidores: a redução da parcela do lucro distribuída via dividendos. “É lógico que estará em um nível diferente”, afirma o executivo da Eletropaulo. “Vamos reavaliar os dividendos que conseguiremos praticar nas novas condições tarifárias.” Tal cenário já está expresso nas expectativas dos especialistas quanto ao retomo das ações com proventos, neste e no próximo ano (ver gráficos nas páginas 36 e37).

Os analistas do HSBC prevêem que a fatia equivalente aos dividendos ficará no patamar mínimo de 25% do lucro líquido, ante 54% em 2011.Em relatório de julho, eles ressaltam o impacto do pagamento retroativo de R$ 1bilhão por conta do atraso da revisão tarifária, originalmente prevista para julho de 2011,e projetam uma queda contínua do Ebitda da Eletropaulo – que deve atingir R$ 486 milhões em 2014. Na Citi Corretora, a previsão no mês passado era de que o Ebitda da empresa fechará 2013 no patamar de R$ 900 milhões, equivalente a um terço dos R$2,8 bilhões de 2011.

Citi, HSBC e Barclays cortaram os preços-alvo dos papéis PN (sem direito a voto) da Eletropaulo após os resultados da revisão. A Citi reduziu a projeção de R$ 26,90 para R$ 19,60, com recomendação de venda. O HSBC baixou de R$ 25,50 para R$ 21, com classificação “underweight” (abaixo da média do mercado), a mesma do Barclays,que ajustou a estimativa de R$ 22 para R$17.No dia 27 de julho, as ações valiam no mercado R$19,65.

Para a Votorantim Corretora, a Light é a preferida no setor elétrico, com preço-alvo de R$ 34 para dezembro de 2012 – um potencial de alta ao redor de 30% no fim do mês passado. Entre os destaques, o analista Mareio Loureiro cita o cancelamento de contratos de clientes que não pagavam as contas há bastante tempo. “Isso é positivo no médio e longo prazos, pois a empresa deixa de faturar algo que sabe que não vai receber e não precisa recolher impostos de pontos que não vão pagar.”

O diretor financeiro e de relações com investidores da Light,João Batista Zolini, acredita que o combate às fraudes e os esforços para reduzir a inadimplência continuarão rendendo frutos nos próximos trimestres. Segundo ele, a companhia ampliará, por exemplo, a instalação de medidores eletrônicos. Os aparelhos são blindados e conectados a uma central que acompanha o consumo minuto a minuto, permitindo o corte ou restabelecimento da energia de forma automática.

Conforme o executivo, a expectativa é de que investimentos da ordem de R$2,7 bilhões em ativos elétricos sejam incluídos na base da revisão tarifária da empresa. Zolini diz estar “conservadoramente otimista” com o processo, tendo em vista alguns pontos. Entre eles está o fato de a companhia ter superado a meta de investimentos prevista no ciclo anterior de revisão de preços. O compromisso era de aporte médio anual de R$ 364 milhões, durante cinco anos, mas o resultado ficou um pouco superior a R$ 500 milhões por período.

Além disso, pelo cronograma (ver tabela na página 36), a Light será a última a passar por esta terceira rodada de revisões, o que lhe confere mais tempo para interpretar os critérios do órgão regulador e fazer algum eventual ajuste. “O preparo tem sido constante. Não basta fazer investimentos dentro de custos razoáveis, é preciso contabilizar os ativos de forma correta”, diz o executivo. O plano geral de investimentos da empresa para este ano é de R$ 802 milhões. Para o período de 2013 a 2015, o volume médio anual deve ficar próximo de R$ 615 milhões, totalizando pouco mais de R$ 1,8 bilhão.

Em relação aos dividendos, Zolini afirma que não há mudanças em vista. Segundo ele, a Light tem projetos importantes também na área de geração de energia, suficientes para “contrabalançar” qualquer efeito negativo da distribuição no Ebitda. A empresa tem como política oficial pagar proventos equivalentes a, no mínimo, 50% do lucro líquido ajustado, mas o histórico mostra fatias bem mais expressivas. Nos últimos cinco anos, o menor “payout” foi de 76,3%, em 2009, e em três oportunidades a distribuição atingiu 100%do lucro.

No quesito proventos, a Copel talvez possa reservar surpresas positivas. O presidente da companhia, Lindolfo Zimmer, diz que durante anos foi distribuída apenas a parcela mínima prevista em lei, de 25% do lucro líquido, mas no ano passado a fatia foi elevada para 35%. “E estamos olhando com carinho a possibilidade de melhorar isso”, comentou, com a ressalva de que qualquer decisão futura implicará, necessariamente, resguardar o projeto de “crescimento saudável e equilibrado” da empresa. “Não queremos fazer uma distribuição maior de forma pontual e, no ano seguinte, ter que sacrificar o pagamento, gerando insatisfação aos acionistas.”

De acordo com o executivo, a revisão tarifária da Copel, com uma redução média de 0,65% nos preços, teve um impacto pequeno nas contas. “Não dá para dizer que foi bom, pois o ideal seria uma variação positiva, mas veio um pouco melhor do que o esperado”, afirma. A empresa planeja investir cerca de R$2 bilhões neste ano. Em 2011,a previsão era a mesma, mas os desembolsos ficaram em R$1,7bilhão.

Loureiro, da Votorantim, observa que a companhia vem crescendo em geração e transmissão para diminuir principalmente o risco do ciclo tarifário. O ponto negativo, diz, ainda é a menor eficiência de gestão, pela interferência do governo do Paraná. No Deutsche, a percepção é de que a empresa vem fazendo a lição de casa. “A Copel tem diversificado seus investimentos com eficiência. É um papel interessante do ponto de vista de ‘upside’ (potencial de valorização)”, afirma Sandra, que projeta preço-alvo de R$ 51para as ações PNB,um ganho potencial de 26% com base no fechamento de 27 de julho.

Já no caso de Cemig, apesar do comando do Estado, o analista da Votorantim destaca o fato  e a empresa se beneficiar da administração compartilhada com a construtora Andrade Gutierrez. “Isso faz a companhia ter uma gestão mais ativa do que outras estatais”, afirma Loureiro. Em bolsa, no entanto, dada a valorização acumulada pelos papéis (de 54%no ano, até 27 de julho, ante queda de 0,4% do Ibovespa), o especialista não vê muito espaço para novos ganhos. A cotação estava em R$39,47 e o preço-alvo para dezembro de 2012 era de R$40.

Críticas e novos capítulos à vista

Em uma visão mais geral sobre o atual processo de revisão tarifária, o balanço da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) é de que os resultados têm sido mais duros do que se imaginava. Para a entidade, a Aneel tem deixado de reconhecer investimentos realizados pelas empresas ao aferir a base de remuneração. “O processo de validação da base  o terceiro ciclo foi surpresa para as distribuidoras”, afirma o presidente da Abradee, Nelson Fonseca Leite. “A metodologia implantada implica redução média de 22% na geração de caixa do setor.”

O diretor-executivo da Associação Brasileira das Companhias de Energia Elétrica (ABCE),José Simões Neto, reclama ainda que os critérios mudaram depois de os planejamentos estarem prontos. “Não há 100% de previsibilidade das regras de revisão. Existem normas que foram sendo ajustadas recentemente e os planejamentos acabaram por não estar totalmente aderentes:’

Na visão da Aneel, no entanto, não houve surpresa. “A metodologia recalculou o valor do Wacc [taxa de remuneração sobre o capital investido, que caiu de 9,95% para 7,5%]. Se a concessionária fez um investimento grande entre o segundo e o terceiro ciclos, aumenta a base de remuneração sobre a qual o Wacc incide” , explica Rufino.

 

Associações do setor reclamam de mudanças nas regras das revisões tarifárias. Aneel diz que não houve surpresa

 

Transmissão e geração

Até o fim de 2012, a Aneel deve divulgar as regras para a revisão do segmento de transmissão, programada para ocorrer em 2013. Quase ao mesmo tempo, vem à tona a exigência de definição das normas para a renovação de concessões das geradoras, que será, conforme admite o próprio governo, uma janela para reduzir ainda mais o custo da energia. Os dois segmentos devem atingir 20% da capacidade do país e o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, declarou em 26 de julho que a redução nos valores pode ficar em tomo de 10% e que as concessões devem ser renovadas por 20 anos.

Entre as geradoras, Cesp e Eletrobras estão entre as mais expostas, com concessões equivalentes a 67% e 40% da capacidade de geração de energia advinda de usinas hidrelétricas, respectivamente, vencendo em 2015.Os cálculos são da área de pesquisa do Barclays.

O presidente da Cesp, Mauro Arce, confirma a estimativa. Segundo ele, a companhia apresentou no último dia 7 de julho – com três anos de antecedência – toda a documentação necessária para a renovação das concessões das usinas de jupíá e Ilha Solteira. “Não existe lei que obrigue a entrega antecipada. Fizemos para reforçar a intenção da companhia de continuar com a concessão” , explica. A atribuição relativa a Porto Primavera já foi estendida para 2028, e até o fechamento desta edição, não havia posicionamento do governo sobre Três Irmãos, cuja concessão venceu em novembro de 2011.

Diante das indefinições, Arce prefere não comentar possíveis impactos na receita da estatal. “Temos evitado fazer qualquer conta por enquanto. Não adianta falar quanto a empresa suporta de redução de preço. É preciso aguardar.” Ele diz que a Cesp não pretende se aventurar em investimentos em novas companhias, mas tem desembolsado cerca de R$ 100 milhões por ano em conservação e modernização de suas unidades.

No caso da Eletrobras, o comando da empresa declarou recentemente à imprensa que trabalhava com a possibilidade de perda de receita de até R$ 5 bilhões com o fim das concessões das hidrelétricas em 2015. Mesmo assim, mantinha o plano de investir R$13bilhões neste ano, acima dos R$10 bilhões contabilizados em 2011.

Na visão de Loureiro, da Votorantim, a demora na definição dessas concessões passa justamente pela Eletrobras. O especialista acredita que o objetivo da União, controladora da companhia, é dar tempo ao grupo para fazer caixa e ter fôlego para cumprir seu plano de investimentos. Procurada, a empresa não respondeu aos pedidos de entrevista.

Em meio às discussões, Arce, da Cesp, chama a atenção para um evento importante no fim do ano. É quando vencem contratos de venda de energia da companhia equivalentes a aproximadamente 600 megawatts (MW), que representam 15%da sua capacidade total, de 4 mil MW.Considerando a receita bruta do ano passado, de R$ 3,4 bilhões, a fatia representa algo próximo de R$ 510milhões.

“Em última instância, se nada acontecer, a energia é da Cesp”, diz o executivo, prevendo uma sobre oferta se tiver que ofertar um volume como este no mercado livre. “Por conta disso, esperamos uma definição antes de 31de dezembro.’

 

RECEITA VARIADA

Opções menos conhecidas pelo investidor pessoa física, como LCI e CRI, ganham espaço nas carteiras conservadoras

Por Karla Spotorno

 

Os investimentos em renda fixa sempre estiveram mais para um guarda-roupa conservador, cheio de paletós pretos e cinzas, do que para uma prateleira de camisas polos coloridas. No Brasil dos juros altos, as opções acessíveis para a pessoa física eram poucas e muito parecidas entre si. A principal sempre foi a poupança, considerada o pretinho básico para os conservadores. Além dela, estavam à mão dos investidores os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), títulos públicos e algumas debêntures.

Aos poucos, as prateleiras dos bancos, distribuidoras e corretoras começam a ganhar mais cores. A realidade de taxa de juros mais baixa leva a uma maior oferta de produtos. É verdade que ainda não é possível ver rosas e verdes vibrantes nos portfólios de renda fixa. Mas dá, sim, para vestir as carteiras com algo além dos tradicionais tons de cinza. No início do ano, o engenheiro Gustavo Luiz Caçador, de 29 anos, fez isso. Comprou uma Letra de Crédito Imobiliário (LCI) do Sofisa Direto, papel que deu uma corzinha ao seu portfólio, até então recheado com um fundo DI, títulos públicos, CDBe uma debênture da BNDESPar.

A decisão de Caçador foi tomada pelos atributos da LCI.O retorno do ativo é isento de Imposto de Renda (IR) para a pessoa física e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) protege aplicações até R$ 70 mil. Sem a cobrança de IR, o papel gera um resultado líquido maior que o do CDB, mesmo oferecendo uma taxa de rentabilidade menor, como indica uma simulação no site do Sofisa. A LCI de seis meses paga 93% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), principal referência para os investimentos conservadores. O CDB de seis meses, 103%. Aos juros atuais, quem aplicar R$10 mil na letra imobiliária recebe, no fim do período, R$ 10.351. No CDB,fica com R$10.311 líquidos de imposto. Bom negócio para o investidor e também para o banco, que consegue captar recursos oferecendo uma remuneração menor – no exemplo em questão, uma diferença de dez pontos percentuais.

Não à toa, as LCIs passaram a ser mais oferecidas por instituições financeiras. Na Caixa Econômica Federal, o banco com a maior carteira de crédito imobiliário do país, as LCIs somam mais de R$ 20 bilhões. Há um ano, totalizavam R$ 13 bilhões. “É um produto de grande sucesso. Agora, estamos pensando em reduzir a aplicação mínima inicial [hoje em R$ 50 mil]“, afirma Márcio Percival, vice-presidente de finanças da Caixa. A exigência de um aporte inicial com valor elevado era característica da LCI até pouco tempo. Hoje, porém, já se encontram no mercado opções a partir de R$1mil ou até menos.

Na área de investimentos da Companhia Hipotecária Brasileira (CHB), instituição financeira do Rio Grande do Norte, a LCI é o produto que mais cresce. Segundo o diretor comercial Nelson Campos, foram captados R$ 5 milhões em 2010. No ano seguinte, o volume mais que dobrou, para R$ 12 milhões, e a expectativa é fechar 2012 com um resultado na casa de R$30 milhões.

Outro título de renda fixa ligado ao mercado imobiliário e agora mais acessível para os investidores pessoa física é o Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI).Assim como a LCI, o CRI tem como base o crédito imobiliário e dá isenção do IR para a pessoa física. A semelhança entre os dois, porém, termina aí.

A LCI é emitida por bancos e a rentabilidade depende basicamente de a instituição cumprir o que prometer. O dinheiro que o emissor da LCI capta pode ser usado de qualquer forma, pois não é atrelado a uma operação específica. O CRI, por sua vez, é emitido por uma companhia securitizadora, que estrutura as operações financeiras relacionadas a um empreendimento imobiliário. A rentabilidade do título depende do sucesso do projeto ao qual está atrelado. Uma das maiores diferenças, portanto, está no risco – mais complexo no caso do CRI. “Para colocar seu dinheiro em um CRI, o investidor deve analisar cuidadosamente uma série de riscos, como os jurídicos, de crédito e de estruturação financeira”, afirma Pedro Junqueira, sócio-diretor da Uqbar, empresa de educação e informação financeira.

Pelo risco e complexidade, os CRIs são normalmente indicados para os chamados “investidores qualificados” (com mais de R$ 300 mil aplicados), que procuram uma boa rentabilidade sem sair da renda fixa. Tais ativos, no entanto, não são fáceis de encontrar, pois normalmente não são oferecidos pelos canais tradicionais dos bancos. No ano passado, a Caixa Econômica Federal chegou a colocar um certificado desses em sua prateleira de investimentos. “Houve uma quantidade significativa de investidores interessados”, afirma Percival. Apesar da resposta considerada satisfatória, a ideia não é repetir a experiência. “A operação do produto é mais complicada para o investidor. Poucos entendem o funcionamento”, afirma. Ainda neste ano, a intenção é montar um fundo de investimento lastreado em CRIs e oferecer no balcão da Caixa.

Na comparação, a LCI leva vantagem em relação ao CRI também pela proteção do FGC. Esse atributo foi decisivo para Gustavo Caçador decidir-se, mais rapidamente, pela aplicação. “Provavelmente, eu teria aplicado mesmo sem a garantia. Mas teria pesquisado mais e levado mais tempo para tomar a decisão”, afirma.

Para aproveitar a garantia do FGC em aplicações superiores a R$70 mil, uma saída é comprar LCls de mais de um emissor. “É a sugestão que damos para os nossos clientes” , afirma Eduardo Glitz, diretor da XP Investimentos. A tática comercial da xp faz sentido para a empresa, que vende em seu site LCIs de bancos médios, casas hipotecárias e securitizadoras, e também para o investidor. A razão é a seguinte: o FGC garante o valor por CPF e por instituição. Ou seja, se o investidor tiver R$ 140 mil investidos na LCI de um banco que falir, receberá apenas R$ 70 mil. Mas, se tiver R$ 140 mil distribuídos em dois bancos diferentes que vierem a quebrar, terá de volta os R$140 mil.

Claro que a confiança do investidor não pode estar apenas no fundo garantidor. Ele deve, primeiramente, ter segurança quanto ao emissor do título. Afinal, o seu objetivo com aquela aplicação financeira é conseguir uma determinada rentabilidade, e não apenas ter seu dinheiro garantido. Além disso, quem investe motivado pelo FGC precisa ter em mente os prazos para recebimento dos recursos em caso de problemas com a instituição emissora.

Pelas regras do Banco Central, em caso de quebra da instituição, o resgate da aplicação pode levar pouco mais de 120 dias. José Alfredo Lattaro, gerente-geral do FGC,afirma que a demora não é do fundo. Depois de receber a lista dos credores, os depósitos na conta dos aplicadores são feitos em menos de uma semana. A demora ocorre porque o agente que assume o banco em liquidação ou com problemas de insolvência tem um prazo de 60 dias, prorrogáveis por mais 60 dias, para enviar a lista de todos os credores para o fundo.

 

Ao selecionar produtos financeiros, o investidor deve analisar a qualidade do emissor do papel e não se fiar somente na cobertura dada pelo Fundo Garantidor de Crédito

 

Demais alternativas

Outra opção para dar novos tons a uma carteira de renda fixa é a Letra de Crédito Agrícola (LCA). “O modelo de estruturação da LCA é muito semelhante ao da LCI. A diferença é o objeto do crédito. No lugar dos imóveis entra o crédito agrícola”, afirma Antonio Milano Neto, diretor da SLW Corretora. A vantagem mais explícita para o investidor é a isenção do IR e a inexistência de taxa de administração, como acontece na letra imobiliária.

Uma diferença importante na LCA é que não existe a cobertura do FGC. E, assim como os CRIs, dificilmente são encontradas nas prateleiras dos bancos. Como pode ser emitido somente por instituições com carteira de crédito agrícola, há pouca oferta do título para pessoas físicas. Entre os que disponibilizam a aplicação estão os bancos Pine, BVA, Intermedium e ABC Brasil. A rentabilidade, segundo Neto, da SLW,fica entre 95% e 100% do CDI nos grupos financeiros menores e entre 80% e 95% nos maiores.

Quem não quer se aventurar por LCIs, LCAs e CRIs ainda tem a opção de colorir sua carteira comprando CDBs de bancos médios. Em geral, tais instituições oferecem maior rentabilidade do que as grandes – e, conseqüentemente, um risco mais elevado. Gustavo Caçador também fez isso. Aplicou em um CDB que, no fim de julho, respondia pelo segundo maior rendimento médio mensal de sua carteira. Ganhava da LCI,do fundo DI, da poupança e dos títulos públicos, perdendo apenas para as debêntures.

Os CDBs dos bancos pequenos e médios pagam mais que os maiores por uma questão simples: essas instituições são menos conhecidas, têm menos acesso aos investidores e precisam oferecer mais para captar recursos. Para convencer o correntista de grandes como Bradesco e Santander a comprar um CDB em seu balcão, o banco médio precisa de argumentos. E esse argumento pode chegar a uma oferta de 112% do CDI, dependendo do prazo.

Diante de proposta tão sedutora, vale ligar o sinal amarelo e adotar os cuidados que o jovem engenheiro tomou. Antes de colocar seu dinheiro em um banco que não conhecia, ele leu o balanço patrimonial, procurou notícias e informações, conversou com amigos. Só depois, ciente dos riscos, fez a aplicação. Saiu do básico e está satisfeito com o resultado.

 

COMO CARREGAR MENOS PESO

Com juro baixo, o impacto das taxas e a forma de cobrança delas fazem mais diferença na escolha de um plano de previdência

Por Alessandra Bellotto

 

Quanto vale a troca de um plano de previdência privada que cobra do cliente 4% sobre toda aplicação que ele faz (a taxa de carregamento) e 3%para gerir os recursos por uma alternativa cuja única despesa é uma taxa de administração de 0,8%? Um ganho superior a 50% levando em conta um aporte inicial de R$10 mil e contribuições mensais de R$ 500 por um período de 30 anos, a um juro real (descontada a inflação) de 4%ao ano.

Na simulação feita pelo economista Marcelo d’Agosto, à frente do blog O Consultor Financeiro, do portal Valor, no primeiro plano o investidor acumularia cerca de R$ 214 mil e, na segunda opção, R$ 324,9 mil – uma diferença superior a R$ 110mil.

Em tempo de juro baixo, negociar os custos torna-se obrigatório para não deixar na mesa todo o ganho, destaca o diretor de varejo da XP Investimentos, Eduardo Glitz. “No cenário atual, se o investidor não prestar atenção, corre o risco de passar 25, 30 anos acumulando recursos e, no fim do período, resgatar menos do que colocou, se descontada a inflação”, alerta. Para se ter uma ideia, a fim de recuperar uma taxa de carregamento de 4%,seria necessário pouco mais de um ano de aplicação, considerando um juro real também de 4%.

Por isso é preciso sair da zona de conforto e pesquisar. No varejo, destaca Glitz, ainda são encontradas taxas “abusivas”, já que esse é um mercado que acompanha a concentração bancária, e as informações não são facilmente encontradas nem comparáveis. Basicamente, os custos variam de acordo com o porte do investimento e o relacionamento do cliente com a instituição. E cada seguradora apresenta um modelo de cobrança: umas têm taxa de carregamento na entrada, outras só na saída, algumas na entrada e saída, e há quem não cobre nada.

As taxas são apenas parte do modelo complexo da previdência aberta, que envolve ainda a escolha do plano (PGBL ou VGBL),da tabela de imposto que vai incidir sobre sua aplicação, se progressiva ou regressiva, e do tipo de fundo de investimento que vai receber as aplicações, se renda fixa, multimercado ou composto com até 15%,30% ou 49% em ações – isso tudo considerando apenas o período de acumulação.·

D’Agosto calcula, com base em levantamento da consultoria NetQuant com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que há cerca de 3.600 planos individuais, entre PGBLe VGBL, que investem em menos de cem fundos. As seguradoras não informam o carregamento, mas as taxas de administração variam de menos de 1% até quase 5%. A maior parcela do patrimônio, contudo, está nos fundos mais baratos.

No segmento de renda fixa, que reúne mais de R$ 200 bilhões em ativos, pouco mais de 63% está aplicado em carteiras com taxas de administração de até 1,5%. Nos compostos, 42% do total de R$ 41,6 bilhões está nessa faixa de cobrança. Vale dizer também que esse é o intervalo que mais tem crescido nos últimos anos, aponta pesquisa da NetQuant (ver gráficos na página 50). Há algumas razões para isso.

Segundo D’Agosto, a principal delas é o aumento do interesse por planos de previdência privada de indivíduos com alto poder aquisitivo, que têm condição de avaliar melhor o efeito dos custos no tempo e negociar taxas menores. Além disso, fundos mais baratos tendem a ter

um desempenho melhor relativamente às alternativas com taxas mais altas.

Outro motivo é o investidor que começa a ficar preocupado com a queda da rentabilidade de suas aplicações e passa a pesquisar alternativas. Este é o caso do carioca Sandriel Genuíno Ferreira. Aos 35 anos, ele fez uso de um instrumento que só a previdência tem no universo

dos investimentos, a portabilidade, e trocou de seguradora.

Ferreira saiu de um plano que começava com 5% de taxa de carregamento e cobrava 3% de administração por uma opção sem carregamento e com 1,5% de administração, oferecida por uma seguradora independente. O primeiro investimento foi feito em 2004, com dinheiro que estava na poupança, por sugestão de um gerente do banco no qual tinha conta – na época, Ferreira trabalhava com carteira assinada no ramo têxtil. “Foi a partir daí que comecei a me interessar pelo mercado, ter alguma noção, mas não tinha tempo”, diz.

Em 2007, ele se formou em administração, o que fez seu gosto por finanças aumentar. Há cerca de três anos, ficou desempregado e resolveu mergulhar de vez no mercado. Buscou cursos para aprender a investir na bolsa, virou “trader” e, de quebra, descobriu uma alternativa

mais barata na previdência, que representa fatia de 70% dos seus recursos – a diferença é dinheiro reservado para operar na bolsa. “A gestão do fundo também está melhor”, afirma.

É verdade que Ferreira já tinha acumulado R$ 60 mil no plano original, o que certamente facilitou a portabilidade para um fundo mais barato. Mas um levantamento feito pela ValorInveste com as maiores seguradoras mostra que o setor já começa a se mexer a fim de garantir competitividade.

As instituições independentes, por exemplo, costumam cobrar taxa de carregamento apenas na saída, em percentual que decresce até zerá-la, conforme o prazo de permanência (ver tabela na página 50). Na Icatu Seguros, conta o superintendente comercial Sergio Prates,

a taxa zera a partir de três anos.

Há cerca de três meses, a Caixa Previdência acompanhou este modelo e tirou o carregamento de entrada dos planos novos. “Trocamos pela taxa de saída, porque, se o plano de previdência

é de longo prazo, o cliente acaba não pagando, nada”, explica o diretor Juvêncio Braga. Na Caixa, a taxa também zera depois de três anos. “A queda da taxa de juros está forçando a indústria de fundos em geral e de previdência a rever seus custos”, acredita.

 

As taxas de administração nos planos de previdência variam de menos de 1% até quase 5%

 

A HSBC Seguros também já tinha mexido em algumas taxas há cerca de dois anos, quando os juros experimentaram níveis mais baixos, conta o diretor FuHai. A instituição passou a trabalhar com uma taxa de carregamento menor na entrada, além da cobrada na saída.

Os clientes com maior poder aquisitivo, segundo o executivo, ganharam opções de fundos mais baratos, com taxas de administração de 0,8% e 1,5% ao ano. “Achamos que quem já tinha acumulado um volume razoável de recursos merecia tratamento diferenciado” , conta. Para contribuições menores, que na HSBC começam em R$ 50, as taxas chegam a 3%.

“Astaxas na previdência já vêm caindo. Embora existam fundos que cobram 3% ou 4%, são carteiras que carregam patrimônio do passado, de clientes antigos”, afirma o superintendente de produtos da Brasilprev Seguros e Previdência, João Batista Mendes Angelo.

“Tudo é questão de escala. O Brasil está amadurecendo e, à medida que o patrimônio do setor cresce, como já vem acontecendo, vai havendo, reduções, mas é um caminho que tem de ser trilhado tranquilamente”, diz Angelo. Ele afirma, contudo, que nos segmentos com tíquetes menores, a partir de R$ 25,00 na Brasilprev, o espaço para redução das taxas (em torno de 3%) é menor. O grande desafio, continua, é dar acesso a pequeníssimos investidores ao mercado, por conta dos custos fixos altos.

O superintendente-executivo de previdência do Santander, José Carlos de Paula, destaca que a previdência é mais complexa do que as demais alternativas de investimento. “A seguradora tem de fazer gestão atuarial, fiscal, de investimento, o que demanda gente especializada em todas as áreas”, afirma. Mas ele reconhece que, especialmente no segmento de renda fixa, onde está alocada a maior parcela do patrimônio, há espaço para queda.

Na avaliação de Glitz, da XP – que distribui fundos de previdência de seguradoras independentes na sua plataforma aberta de produtos -, no segmento de renda fixa, o investidor deve buscar taxas de administração de até 1% e zero de carregamento. Vale lembrar que, em grupos como o Santander e o Itaú Unibanco, as taxas variam de acordo com os investimentos totais do cliente na instituição.

O Itaú, conta o diretor-executivo Osvaldo Nascimento, aposta na estratégia de tratar a previdência como parte de uma cesta de opções de investimento. “Ela não disputa espaço com fundos tradicionais, CDBs, poupança, mas é oferecida para os projetos de longo prazo do cliente”, diz. As taxas de administração, segundo Nascimento, são equivalentes às cobradas nos fundos tradicionais e variam conforme o volume global de investimentos do cliente na instituição. “À medida que o cliente aumenta o patrimônio no banco, a taxa cai. Isso vale tanto para a previdência como para os fundos tradicionais.”

Angelo, da Brasilprev, ressalta que o investidor, mais do que os custos, precisa olhar a performance dos fundos. “Pode ter fundo que cobra mais, mas entrega serviço e valor em gestão”, diz. O cliente tem de ir atrás de um bom fundo com uma boa taxa de administração, resume Prates, da Icatu. Com a taxa de juros declinante e o instrumento da portabilidade, o mercado vai acabar regulando o preço, acredita Nascimento. “Se o investidor achar que seu fundo não é competitivo, ele migra para outro plano e empresa”, afirma. Nas seguradoras independentes, por exemplo, as taxas máximas de administração estão em 2,5%.

Na portabilidade de previdência, a grande vantagem é que o investidor pode mudar de um plano caro para um com taxas mais baixas, de um fundo de renda fixa para um com ações, de uma seguradora para outra, sem pagar imposto. Os recursos não saem do sistema.

 

Com a portabilidade, o investidor pode mudar de um plano para outro sem pagar imposto, pois os recursos não saem do sistema

 

Beneficio fiscal

Se os custos forem competitivos, para projetos de longo prazo, a previdência é quase unanimidade no mercado. Aplicações feitas num PGBL, voltado para quem faz a declaração completa de Imposto de Renda (IR) e tem renda acima de R$ 5 mil, podem ser abatidas até o limite de 12% do rendimento bruto anual, tributado em até 27,5%. Trata-se, no entanto, de um diferimento fiscal, uma espécie de adiamento, já que o imposto vai ser pago no plano no momento do resgate, sobre o valor total.

Seo investidor optar pela tabela regressiva, cuja alíquota começa em 35% para prazos de até dois anos e chega a 10% depois de dez anos, tem a possibilidade de conseguir um desconto em relação ao imposto na declaração de IR. Para aplicações superiores a dez anos, o investidor escapa de uma alíquota de 27,5% no início do período de aplicação para pagar 10% só no fim do prazo. “Esse prêmio não encontro em nenhum outro segmento”, afirma Angelo, da Brasilprev. O ideal é aplicar essa economia (17,5%),a fim de alavancar a poupança. “Esta é uma forma de incrementar os resultados que o cliente não percebe”, diz José Carlosde Paula, do Santander.

No VGBL,opção indicada para quem faz a declaração de IR no modelo simplificado ou já usou todo o espaço do abatimento do imposto no PGBL,não há a possibilidade de abatimento no IR.No entanto, os recursos acumulados não sofrem a incidência do come-cotas, imposto cobrado semestralmente nos fundos tradicionais. “O investidor acumula o tempo todo sem pagar imposto”, destaca Braga, da Caixa. A tributação acontece no momento do resgate

e apenas sobre o rendimento.

No Santander, para o investidor que tem objetivos de longo prazo, a dica que se costuma dar é direcionar pelo menos 15% dos recursos disponíveis para aplicação para a previdência, diz De Paula. Mas o horizonte tem de superar cinco anos para que se consiga tirar proveito dos benefícios fiscais, alerta.

Hoje, com juros declinantes, tudo o que investidor fizer para ter um ganho adicional, seja negociar custos mais baixos, seja aproveitar os benefícios fiscais que a previdência oferece, pode resultar em uma diferença grande. A diretora de previdência e vida resgatável da Mapfre Serviços Financeiros, Maristela Gorayb, vai além: na previdência, as pessoas precisam começar a pensar em assumir mais risco nas suas aplicações, com a inclusão de renda variável. “Isso vai ser inevitável, mas é uma questão de experimentar e ver que dá efeito.”

Em uma simulação da Icatu, Prates conta que, quando o juro real estava em 6% ao ano, uma pessoa de 30 anos, para se aposentar aos 60 com R$ 500 mil, tinha de contribuir com um pouco mais de R$ 500 por mês. Com essa taxa de juros caindo para 3,5%, as contribuições deveriam subir para quase R$ 800 por 30 anos para alcançar o mesmo saldo, ou a aposentadoria precisaria ser adiada por quase nove anos. Não dá para perder tempo. É hora de fazer contas.

 

TESTE DE RESISTÊNCIA

Executivos capazes de assumir qualquer negócio são valorizados por consultores, mas empresas ainda preferem profissionais do seu ramo de atuação

Por Mauricio Oliveira

 

Imagine abdicar ao cargo de CEO no Brasil de uma grande fabricante americana de chocolates para assumir o comando de uma empresa nacional especializada em importar e distribuir próteses para implantes ortopédicos, neurológicos e maxilofaciais. Pode soar improvável, mas

foi este o desafio aceito por Elizabeth Peart ao trocar a Hershey’s pela Implamed, grupo que emprega 600 pessoas e fatura R$200 milhões por ano.

Trata-se da mudança de emprego mais radical na carreira da executiva, mas não a única. Ela já havia passado pelos setores automobilístico, de telecomunicações e financeiro. Viveu experiências não apenas em segmentos distintos, mas também em companhias de diferentes

portes, nacionalidades e composições acionárias. Tornou-se, assim, integrante de um grupo de executivos identificados pelo perfil generalista, percebidos pelo mercado como capazes de assumir qualquer tipo de negócio. “A experiência vai mostrando que o mais importante é ter

uma base que se aplica a todas as situações. As especificidades de cada empresa podem ser absorvidas aos poucos sem que os resultados sejam comprometidos”, afirma Elizabeth.

Ainda que essa visão seja compartilhada por muitos outros executivos e analistas, os indícios são de que as empresas, tanto no Brasil quanto no exterior, têm resistido cada vez mais a buscar CEO sem setores muito distantes daquele em que atuam. Basta analisar as principais notícias sobre movimentações de altos executivos nos primeiros meses de 2012 para perceber que o modelo mais frequentemente adotado tem sido apostar em quem já conhece bem o ramo de atuação da companhia – seja pela promoção interna de um executivo que fez carreira na casa, pela contratação de alguém na concorrência direta ou, no máximo, em setores correlatos. Enquadram-se nesse modelo os recentes casos internacionais de Sherilyn McCoy,que trocou a Johnson & Johnson pela Avon, e de Sebastian Suhl, que foi da Prada para a Givenchy. No Brasil, Conrado Engel deixou o HSBC rumo ao Santander e Carlos Alberto Santa Cruz, ex-3M, assumiu o comando nacional da PPG Industries, multinacional especializada em tintas e vernizes – para citar apenas notícias pinçadas ao longo do primeiro semestre.

“Muitas empresas preferem contratar alguém que já conhece as peculiaridades do setor por considerar que os riscos são menores e imaginar que os resultados virão mais rapidamente, mas isso nem sempre se concretiza”, diz a headhunter Andrea de Paula Santos, sócia-diretora da consultoria de recrutamento de executivos Ascend. Ela costuma desaconselhar seus clientes a exigir experiência no ramo, pois considera que esse requisito limita o leque de alternativas e afasta boas possibilidades. “O importante é definir as competências principais esperadas do executivo diante das necessidades da organização naquele momento”, explica.

“Essas habilidades podem ser procuradas e encontradas em profissionais que estão dentro ou fora do setor.”

Para o consultor e professor Luiz Cláudio de Lima, especialista em gestão de recursos humanos do Ibmec, não há solução que possa ser considerada, por definição, melhor ou pior: ambos os perfis são importantes e a melhor indicação depende de cada caso. “Da mesma forma que a experiência no setor se torna fundamental em determinadas circunstâncias, há casos em que trazer alguém de fora ajuda a superar certos vicios típicos daquela atividade”, exemplifica. Ele ressalta, no entanto, que o mais comum é a empresa só contratar alguém sem bagagem em seu segmento de atuação quando planeja passar por uma reformulação profunda ou tenha perspectivas de atuar em outros mercados. “Em geral, a regra é buscar um generalista quando o momento não pode ser de acomodação.”

Lima diz que a carreira de generalista vem sendo chamada nos circuitos acadêmicos de “proteana”, termo inspirado no deus grego Proteu, que tinha a capacidade de assumir várias formas, adaptando-se assim às necessidades de cada situação. “Em um mercado em que ninguém mais imagina permanecer a vida toda na mesma empresa, onde tudo muda muito rapidamente e as possibilidades estão cada vez mais diversificadas, soa quase pretensioso alguém se classificar como especialista no que quer que seja” , ressalta.

Neste ponto, há um detalhe interessante na biografia da maior parte dos executivos que se tornaram generalistas reconhecidos no mercado: uma vivência sólida e marcante no início da carreira. “Antes de sair pulando de galho em galho e acumulando uma sucessão de experiências superficiais, tente se aprofundar em algo, um porto seguro para o qual você poderá voltar se necessário”, diz Daniela Ribeiro, gerente da divisão de engenharia da Robert Half, consultoria especializada em recrutamento de executivos. “Não importa se o executivo vem do mesmo setor de atuação da empresa ou de outro completamente diferente, as empresas só querem contratar quem tenha histórias consistentes para contar” , acrescenta Mariciane Germin, sócia-gerente da Asap, outra consultoria de seleção de executivos.

Elizabeth, por exemplo, iniciou a carreira na Ford, na qual entrou ainda como estudante de economia, e lá permaneceu por 18 anos. Jamais passou mais de três anos no mesmo cargo – ocupou posições nas áreas de marketing, pesquisa, recursos humanos, planejamento estratégico e chegou até a flertar com engenharia de produtos. Incluída no grupo de talento sem que a empresa mais apostava, viajava com frequência para o exterior e fazia treinamentos constantes nos Estados Unidos e na Inglaterra. Viveu os aprendizados e as dificuldades da AutoLatina, a joint venture com a Volkswagen que durou entre 1987 e 1996. “Eu era ainda muito jovem e estava aberta para o mundo. Sabia que a experiência no primeiro empregador havia me dado ferramentas que podiam ser aplicadas com sucesso em qualquer outro lugar”,  destaca a executiva.

 

Para executivos que mudam de setor, a chave do sucesso é cercar-se de especialistas capazes de auxiliar nas decisões

 

Ela conta que aceitou um emprego em uma pequena empresa que vendia créditos de telefonia internacional para entender o funcionamento básico do setor na década de 90. Logo em seguida, assumiu o cargo de diretora de marketing da Nokia, no momento em que a gigante

finlandesa se instalava no país. “A organização era muito bem estruturada e me deu autonomia para aplicar tudo o que eu havia aprendido na Ford. Isso incluía princípios como foco no serviço, qualidade de atendimento ao cliente e criação de medidores de desempenho”, descreve. Depois de quatro anos, a executiva transferiu- se para a Sodexo e, finalmente, para

a Hershey’s – seu primeiro desafio como principal executiva de uma empresa, com a missão de reformular o negócio no Brasil. Três anos depois, em 2009, com os objetivos cumpridos, veio a mudança para a Implamed. “Fui ficando viciada em desafios, e assumir uma empresa médica

era a oportunidade de enfrentar, mais uma vez, algo totalmente novo.”

Há também casos de executivos que, por circunstâncias da carreira.acabam não apenas transitando por diversos setores, mas também chegam até a mudar para “o outro lado do balcão” – ou seja, passam a atuarem setores dos quais antes eram clientes ou vice-versa. É o caso de Marcel Sacco, 45 anos, ex-vice-presidente de marketing da Schincariol, da Cadbury (fabricante de chocolate) e da Telefônica. Há dois anos ele foi convidado a se tornar CEOda

Holding Clube, grupo composto por oito agências de marketing e eventos, fundadas pelo publicitário José Victor Oliva.Juntas, as agências faturam R$ 240 milhões por ano e têm 200 colaboradores fixos.

“Antes, quando eu era cliente de agências, não tinha a percepção do impacto que minha atuação podia causar. Imprecisão no momento de desenhar um projeto, por exemplo, pode atrapalhar todo o processo”, diz Sacco. Ele comenta que, se fosse possível, recomendaria a todo profissional uma experiência semelhante em seu respectivo campo de atuação. “Agente amadurece muito quando vê as coisas pelo ponto de vista do outro.”

Os executivos com perfil generalista aprenderam que a chave do sucesso é se cercar de especialistas capazes de fornecer as informações necessárias às tomadas de decisão. Antônio Maciel Neto, que talvez seja o maior referencial brasileiro desse tipo de CEO – ele começou na Petrobras, passou por cargos no governo, pela cerâmica Cecrisa, presidiu a Ford e está desde 2006 à frente da Suzano -, costuma dizer que orienta todo subordinado a não apenas apresentar três possíveis soluções para um problema, mas também a apontar qual delas considera a mais adequada. Para Elizabeth, este “exercício de humildade” é um ponto crucial ao desembarcar em um setor que não se conhece bem. “É preciso reconhecer que os outros podem ensinar muito a você. Agir com prepotência é sempre ruim, mas em casos assim certamente é fatal”, diz ela.

Recorrendo à própria experiência como consultor, o professor Lima, do Ibmec, afirma que é quase inevitável para o generalista enfrentar certa resistência por parte dos especialistas. “Quando sou chamado para setores em que nunca atuei, logo surgem questionamentos sobre a minha capacidade de lidar com aquela situação. É preciso deixar claro que você está disposto a aprender, mas ao mesmo tempo demonstrar que tem muito mais a oferecer do que apenas conhecimentos pontuais naquela área” ,aconselha.

 

VELOZES. FURIOSOS E RENTÁVEIS

Carros antigos e raros recheiam a carteira do fundo de investimento que projeta rentabilidade líquida de 15% ao ano na Inglaterra

Por Patricia Eloy, de Londres

 

O poderoso ronco de carros de corrida tem sido a trilha sonora constante na vida de Nick Mason, baterista da lendária banda de rock progressivo Pink Floyd. Entusiasta de carros desde a infância, o inglês Mason uniu a paixão de menino ao mercado financeiro numa mistura pouco ortodoxa, para dizer o mínimo: ele atua como conselheiro num fundo de investimento que aplica em carros emblemáticos. Bólidos de acelerar o pulso e tirar o fôlego como uma Ferrari 250 GTO, uma McLaren FI, um Aston Martin DB4 ou uma Ferrari 250 Testarossa estão entre os objetos do desejo dos gestores, que acenam para o investidor com uma rentabilidade líquida mais do que tentadora: 15% ao ano.

Um olhar um pouco mais atento ao mercado de carros raros e de corrida entrega o jogo: a demanda nunca esteve tão aquecida. Neste ano, somente de meados de abril até o início de junho, oito Ferraris raras – ícone que representa quase um terço do segmento de compra e venda de automóveis, digamos, vintage – mudaram de mãos no exterior, movimentando o equivalente a 97 milhões de libras (ou US$145,5milhões) segundo especialistas do setor. No início de junho, uma Ferrari 250 GTO produzida em 1962 especialmente para o então piloto de Fórmula 1 inglês Sir Stirling Moss foi vendida por 22,7 milhões de libras (US$34 milhões), garantindo seu lugar na história como o veículo mais caro do mundo.

“Duas desse modelo já trocaram de mãos neste ano. Elas são o ápice do carro de colecionador. Se nosso portfólio fosse de US$250 milhões, teríamos que ter uma dessas”, afirma Ray Bellm, chairman do IGA Classics, um fundo fechado, o primeiro do mundo a investir em automóveis clássicos. “É preciso entender que foram feitos poucos exemplares, e depois nenhum outro foi fabricado – mas a demanda continua crescendo. Por exemplo, só fizeram 106 McLaren Fl. É uma fórmula simples: demanda em alta e oferta fixa resultam em preços elevados”, diz Bellm, ele mesmo um colecionador e dono de uma McLaren Fl.

Celebrando 50 anos de sua criação em 2012, a Ferrari 250 GTO é considerada a pín-up suprema do universo automobilístico: é a grande paixão de Mason, assim como do designer de moda americano Ralph Lauren e do milionário apresentador inglês Chris Evans. Seu charme está não apenas na aparência ou nas curvas fantásticas abraçadas pela emblemática capa vermelha – ou mesmo verde, no caso da de Stirling Moss – que povoa o imaginário popular, mas especialmente em números: a rigor, 39. Foram essas as únicas Ferrari 250 GTO produzidas entre 1962 e 1964. Dessas, apenas 36 entre 1962 e 1963, as mais colecionáveis de todas. A escassez faz desse modelo uma joia rara cobiçada por aficionados no mundo inteiro.

Enquanto na Inglaterra a boa e velha discussão sobre o clima foi substituída pelo debate sobre a crise na zona do euro, o mercado de veículos raros é um mundo à parte. Esse nicho tem conseguido não apenas se manter forte, mas avançar quilômetros por hora à medida que investidores, numa busca por ativos reais, unem a paixão sobre rodas à expectativa de retornos elevados proporcionados por clássicos com produção limitada. O que se tem então é um mercado superaquecido, com carros vendidos por valores recordes.

Para se ter uma ideia, o índice HAGIF, que acompanha o mercado colecionador de Ferraris e é publicado pelo “Financiai Times”, avançou 9,49% neste ano até junh8. No mesmo período, o ouro subiu 4,41%, o FTSE100 ficou estável e o S&P500 subiu 8,31%. Já o índice HAGITop,

que acompanha o desempenho dos 50 principais carros vintage com fabricação desde antes da Primeira Guerra Mundial até o novo milênio, acusa ganhos de 10,33% em 2012.

O ex-banqueiro Dietrich Hatlapa criou o think tank Historie Automobile Group International e os

índices HAGI (que acompanham de transações privadas a leilões de carros, passando por negócios com dealers). Ele diz que muitos investidores são atraídos pela baixa correlação que o investimento em automóveis tem com, por exemplo, o mercado de ações, o que faz dele uma boa alternativa de diversificação.

“Mas esse é um mercado altamente especializado, muito pequeno em tamanho e altamente ilíquido. É necessário ter experiência e integridade para avaliar corretamente os ativos”, alerta Hatlapa, ele mesmo um colecionador cujo primeiro clássico foi um Porsche Carrera 2.7 RS.

Em seu livro “Better than gold – investing in historie cars”, Hatlapa estima que esse seja um mercado de pouco mais de US$28 bilhões se forem considerados apenas carros de passeio (“road cars”). Quando protótipos, modelos especiais e veículos de corrida entram na fórmula, o número pode chegar a US$40 bilhões.

Atento à demanda cada vez maior por carros raros, Bellm teve a ideia de lançar um produto específico para este mercado. Criado em janeiro deste ano e com cerca de 15 carros na carteira – entre eles um BMW Ml fabricado em 1980 e que pertenceu ao rei Carl Gustav, da Suécia -, o fundo IGA Classics já projeta um retomo anual líquido de mais de 15%.É um desempenho de encher os olhos: o índice DAX,da bolsa alemã, avançou 8,78%, e o CAC,

da bolsa de Paris, acumulou alta de apenas 1,17%até o dia 30 de junho.

“Vi a valorização de carros ao longo dos anos e percebi que, assim como os fundos imobiliários e os que investem em vinhos, estava na hora de alguém olhar para esta classe de ativos”, conta ele, que, do alto de seus 62 anos, já negociou, sozinho, mais de 72 carros raros, venceu

várias competições e participou da mais antiga prova de resistência do mundo automobilístico: as 24 horas de Le Mans, na França.

 

Contando protótipos, modelos especiais, carros de passeio e de corrida raros, trata-se de um

mercado de US$40bi

 

A ideia originai era lançar um fundo de US$ 150 milhões no ano passado. Mas, sem encontrar um investidor de peso com US$ 50 milhões para desembolsar nesse novo modelo de aplicação, os gestores optaram por um fundo menor, fechado, com o objetivo de criar um histórico de rentabilidade que mostrasse que retornos de dois dígitos eram, sim, possíveis. Hoje, o fundo, que tem aplicação mínima de cem mil libras (US$150mil) e máxima de 200

mil libras (US$300 mil), conta com cerca de 20 investidores. Hedge funds e fundos de pensão estão entre os clientes potenciais. Brasileiros, se interessados, também podem investir.

“Carros são uma commodity como qualquer outra. Basta conhecer o mercado. E as pessoas que estão envolvidas no fundo, como Nick Mason, conhecem o mercado. Ele é um colecionador. Gordon Murray (designer de carros que criou o McLaren FI e também é conselheiro) tem o conhecimento técnico. Eu estou envolvido no mundo do esporte de velocidade desde que tinha 30 anos, então tenho 32 anos de experiência. Tudo se resume a

experiência. É como com um trader de um hedge fund ou um trader de ouro: você tem que conhecer seu mercado”, afirma Bellm, que foi chairman do British Racing Drivers Club entre 2003 e 2005.

A exemplo de Bellm, Mason também não é estranho a Le Mans, onde competiu cinco vezes. Além de colecionador de carros e consultor de fundos, criou a Ten Tenths, uma empresa com frota de mais de três mil veículos – entre eles, muitos seus – para aluguel em filmes. Recentemente, uma Ferrari F40 (avaliada em US$1,6milhão) saiu da garagem da empresa para o set do novo filme de James Bond. A paixão pelos carros ele aprendeu com o pai, que não apenas participava, mas também filmava algumas competições na década de 50.

E paixão parece -ser mesmo o nome do jogo. Tanto é assim que foi inaugurado, há dois anos, em Abu Dhabi, o Ferrari World, o maior parque temático indoors do mundo.

Segundo Konrad Sippel, diretor-executivo da Stoxx, segmento da Deutsche Bôrse, o interesse dos investidores europeus na indústria automobilística é tanto que eles lançaram há pouco mais de três anos o Stoxx Global Grand Prix Index, que acompanha ações de empresas ligadas à Fórmula 1: de fabricantes de pneus a patrocinadores, passando por fornecedores de combustíveis. No ano, o índice avançava 10,87% até o dia 30 de junho, desempenho superior ao do DAX (8,78%) e do CAC(1,17%)no período.

A verdade é que, a julgar pelos números, esse é um mercado que parece não conhecer crise. E não faltam provas de que a demanda está a mil por hora. Em janeiro, a Talacrest, maior dealer de Ferraris da Inglaterra, vendeu dois carros da escuderia antes mesmo que chegassem

ao Reino Unido: um/modelo 275 GTS que pertenceu ao músico Eric Clapton e uma Ferrari 250 Lusso.

A RM Auctions, maior casa de leilões de carros clássicos do mundo, bateu recordes de vendas no seu evento mais recente, realizado em maio, em Mônaco. Durante o Grand Prix, a empresa vendeu mais de 90 carros, numa transação equivalente a 33,5 milhões de euros. Dez veículos superaram a marca de 1 milhão de euros. O mais caro foi uma Ferrari 625 TRC Spider fabricada em 1957, arrematada por 5,040 milhões de euros.

“Tentamos encorajar os investidores a comprar por paixão, não só por investimento, que é um bônus. Esses são carros dos quais você tem que cuidar para não haver deterioração. Não temos visto muito interesse especulativo e é bom que continue assim. O mercado fica mais

estável”, explica o ex-publicitário Peter Wallman, hoje especialista da RM Auctions na Inglaterra.

Na década de 80, o mercado de carros raros passou por uma bolha que muitos gostam de comparar à da internet no início dos anos 2000. Apesar de todo o frenesi, não seria o

caso das transações recentes. Mas quem viveu aquela época não esquece. “Para um mercado pequeno assim há sempre o risco de que isso possa ocorrer de novo se um ritmo

fanático e caótico de investimento for criado” , pondera HatIapa.

Em 2010, o apresentador Chris Evans vendeu sua Ferrari California Spyder 1960 e alguns outros carros de sua coleção para custear o sonho antigo de estacionar na garagem uma Ferrari 250 GTO Series 11,que custou 12 milhões de libras (US$ 18 milhões). A inglesa Talacrest já segurou o volante da 250 GTO de Stirling Moss em 1996, quando vendeu o carro, que hoje vale US$ 35 milhões, por US$3,5 milhões.

Mas talvez tão fantástico quanto o valor dos negócios seja o fato de que, na terra da rainha Elizabeth lI, não faltam vantagens aos donos desses superbólidos. As megatransações

recentes, pavimentadas pela rápida valorização dos modelos mais caros no mercado, não estão sujeitas à cobrança de imposto sobre ganhos de capital na venda dos veículos porque, como o mais prosaico dos carros, são considerados ativos depreciados (“wasting asset”).

Além disso, eles têm isenção na taxa que equivale ao Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA),segundo Wallman, da RM Auctions.

“Pode parecer injusto não haver cobrança de taxa sobre valores tão altos, mas como a lei poderia fazer distinção entre carros normais, que sofrem depreciação ao longo

dos anos, e carros raros? Alguns poucos automóveis se valorizam, mas a verdade é que, para a maioria, há perdas na venda. E, se você taxa o ganho de capital, precisa haver uma contrapartida, que é um desconto sobre prejuízos na venda, e isso seria inviável”, analisa o professor Werner Haslehner, especialista em direito tributário europeu da London School of Economics.

Esse tipo de incentivo tem atraído investidores de nações como China, Brasil e Argentina para a Inglaterra. Devido a restrições ou severas tarifas de importação de veículos em seus países de origem, muitos optam por manter sua frota pessoal no exterior, onde acontecem competições e estão bons restauradores e mecânicos especializados.

“Esse acaba sendo um mercado bastante internacional, em que o carro muitas vezes não está no mesmo país que seu dono, porque investidores não ficam presos a regiões específicas. O Reino Unido é beneficiado pela legislação favorável, pela quantidade de eventos e pela infraestrutura para carros clássicos”, explica Hatlapa.

“Há muitas maneiras de investir seu dinheiro. Alguns compram objetos de arte, outros especulam com ações, há os que investem em vinhos e os que preferem bebê-lo. Eu e tanto outros preferimos um carro clássico. É um investimento, mas também uma paixão”, diz Wallman, dono de um Jaguar EType 1961, seu sonho de consumo desde os 5 anos de idade.

Sim, porque quando o assunto é carro, especialmente os emblemáticos, não importa se você é baterista do Pink Floyd, ex-banqueiro ou simplesmente um aficionado: essa parece ser uma jornada sentimental, quase uma volta à infância, com os carrinhos de menino substituídos por máquinas possantes e caras. O que vier a mais é lucro. E que lucro.

 

CONFORTO RÚSTICO

Agora já dá para pegar um avião e uma estrada de asfalto para chegar a Visconde de Mauá, mas desvendar a região ainda é missão para um 4×4

Por Maria da Paz Trefaut

 

Boas estradas, em geral, não só aproximam destinos como costumam marcar uma linha divisória entre os paraísos ecológicos e os locais tomados pelo turismo de massa. Talvez ainda não seja o caso de Mauá, cravada na serra da Mantiqueira, entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma nova linha aérea e a construção de uma estrada acabam de mudar o difícil acesso às montanhas da região, que abrange o Parque Nacional de Itatiaia. Mas a conexão entre as vilas de Visconde de Mauá, Maromba e Maringá, que reúnem as principais atrações locais, ainda se dá por estradas de terra. Alguns trechos são tão ruins que, para circular por ali, o visitante precisa contar com um veículo de chassi alto ou com tração 4×4.

De qualquer forma, a antiga aventura de chegar à área, distante 286 quilômetros de São Paulo e 198 quilômetros do Rio, pela Via Dutra, foi bastante abreviada. A conexão aérea parte de São Paulo ou do Rio e chega a Resende, um dos três municípios englobados pela região – os outros são Itatiaia e Bocaina da Serra. E, desde dezembro, a moderna RJ-163 percorre com segurança os 15 quilômetros de curvas acentuadas entre Capelinha, em Penedo, e a vila de Visconde de Mauá. O traçado atravessa florestas com nascentes protegidas e tem túneis subterrâneos para evitar o atropelamento de animais, o que lhe deu o status de estrada-parque.

O asfalto era uma dívida de mais de cem anos com os alemães, suíços e austríacos que ali se instalaram, no início do século XX,para plantar frutas. Pelas dificuldades de transporte, muitos imigrantes acabaram desistindo do projeto inicial. As famílias Bühler, Fresch e Buttner persistiram e abriram os primeiros hotéis do lugar.

Numa quinta-feira no fim de maio, o hoteleiro Osvaldo Caniato saiu do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no vôo recém-inaugurado da Trip, e desembarcou em Resende 45 minutos depois. Com mais 50 minutos de carro, chegou à sua pousada, a Mauá Brasil, uma das melhores entre as 130 que há por ali. “Nunca imaginei que seria possível transpor essa distância de forma tão rápida”, dizia, visivelmente satisfeito. Para quem vem do Rio, a conexão aérea demora um pouco menos e a vantagem é que sai do Santos Dumont.

Há quem diga que Mauá teve a sorte de ser esquecida numa época em que se contruía em qualquer parte e o Ibama não era tão vigilante. Assim, foi preservada a imensa área de mata repleta de cachoeiras, fontes, corredeiras e nascentes, onde o ruído da água é o som ambiente. O rio Preto, que ali divide Minas e o Rio de Janeiro ladeia a estrada de terra que liga os vilarejos de Mauá, Maringá e Maromba.

Descoberta pelos hippies na década de 70, a região foi destino de intelectuais e artistas como Paulo Coelho e Raul Seixas. Ainda é retiro do frei Leonardo Boff, pregador da Teologia da Libertação, e de ex-participantes da luta armada que encontraram uma nova ideologia na paz das montanhas. A liberdade de costumes e crenças acompanha a tradição local desde que os europeus, considerados “liberais” demais para os padrões mineiros, tomavam banho nus nas cachoeiras. Daí vem a tolerância comunitária que agrega casais gays femininos e masculinos, adeptos de Hare Krishna e do Santo Daime e outros. A diferença é que hoje há cada vez mais pousadas e hotéis charmosos e restaurantes diversificados.

Nada de luxo ostentado, é bom dizer. O melhor de Mauá é justamente, sua rusticidade: a simplicidade longe da civilização. A essa vida bucólica se somam bons restaurantes como o Rosmarinus, do paulistano Julio Buschinelli, que há doze anos faz uma comida de ingredientes com um leve sotaque italiano, num ambiente sofisticado. “Vim para cá por que a terra é barata (entre R$ 8 e R$ 20 o metro quadrado), há qualidade de vida e uma área de preservação imensa próxima dos centros onde se concentra no PIB brasileiro. Mas aqui é mato e terra de ninguém. Nem CEP tem. As prefeituras mais próximas ficam a 40 quilômetros”, diz.

O fato de não ter um prefeito próximo e de durante muitos anos não contar nem mesmo com um posto policial fez com que o associativismo substituísse o poder público. É a Mauatur, uma associação de empresários aberta à população, que faz o meio de campo entre a política e o

trabalho social. Para conseguir benefícios como a estrada-parque – reivindicada por 95% dos moradores -, a associação contou com o apoio do deputado estadual Carlos Minc, ex ministro

do Meio Ambiente e freqüentador habitual das montanhas. A construção da estrada, bancada

pelo governo fluminense, foi acompanhada por uma nova estação de tratamento de esgoto, que ajuda a despoluir o rio Preto.

O associativismo é bem visto não só por empresários como por profissionais como Marta Dietrich, do centro de terapia Som Divino, que atende num simpático chalé junto à floresta. A terapeuta, 56 anos, óculos e cabelos curtos grisalhos, adepta da alimentação vegana, é formada em Munique na prática que promove o relaxamento a partir do som produzido por tigelas tibetanas. São 21 peças de tamanhos variados, feitas com sete metais diferentes. Marta envereda pela física quântica para explicar como funciona “o som do silêncio”, que gera uma “massagem na alma e libera tensões”. Basta olhar para a natureza diante de sua janela para

entender do que ela está falando.

Não muito longe fica a Panta Rei, uma loja de artesanato e fotografia do carioca Leonardo Carneiro. Ex-militante do movimento de esquerda MR-8,que atuou contra a ditadura nas décadas de 60 e 70, ele foi preso e torturado. Decidiu ir para Mauá em 1999,viver com o mínimo e conviver com a natureza. Graças a uma indenização da Comissão de Anistia, recebida dez anos depois de se instalar na região, conseguiu abrir a loja, que lhe permite

viver modestamente com a venda de fotos e de objetos decorativos produzidos numa marcenaria. Seu trabalho é, visivelmente, um dos mais requintados da área. Introspectivo,

Carneiro conta que Mauá ainda é muito atrasada e “tem uma faceta cruel” para aqueles que

não são comerciantes bem-sucedidos. “Somos todos uns duros em busca de qualidade de vida.”

O novo turismo trouxe uma hotelaria de preços altos, mas ainda carente de profissionalismo. O Hotel Fronteira, um dos mais caros, foi durante anos um paradigma, muito copiado nos preços e nem sempre na qualidade. Dos hotéis antigos, apenas o pioneiro Bühler sobreviveu. Manteve o aspecto das construções alemãs de montanha, inaugurou a reciclagem de lixo e inovou na economia de energia ao implantar, em 1954, uma pequena central hidrelétrica no rio Preto.

Restaurantes há muitos, mas poucos são destinos gastronômicos, como o Rosmarinus. Pontos altos são o strudel do restaurante Champignon, feito com massa autêntica (e não folhada), e o Gosto com Gosto, de cozinha mineira moderna mais leve, comandado por Monica Rangel. Ativista da cozinha, ela é uma das criadoras do movimento “Ter cinco estrelas é valorizar a gastronomia brasileira”.

Embalada pela agitação turística surgiu, também, a saborosa cerveja artesanal Serra Gelada. Cogumelos frescos e trutas rosa, salmonadas, são ingredientes fartos da mesa local. O mais raro, entretanto, são os queijos da Serra Negra, de Minas, similares ao parmesão, mas menos

curados. Quem os vende são tropeiros autênticos que viajam oito horas no lombo de burros, nos fins de semana, e trazem os queijos em grandes balaios. Em geral, quem compra pede para tirar uma foto.

A categoria dos personagens excêntricos é ampla. Nos tempos em que o “natureba” dominava, uma personagem virou lenda: a atriz e socialite francesa Odile Rubirosa. Viúva do playboy Porfirio Rubirosa, ela largou tudo para se recolher no Vale do Pavão. Seu sítio foi comprado “de porteira fechada” por um ex-comandante da Varig, que o converteu na pousada Um Lugar de MatoVerde.

A casa que Odile construiu nos anos 60 ainda está intacta e, num armário de vidro, há alguns de seus chapéus. Linda, estonteante e louca são alguns dos adjetivos ouvidos sobre ela. Os mais velhos contam que ela desfilou nua numa camionete e que percorria as matas montada a

cavalo, sem uma única peça de roupa. Será? O certo é que essa fase ficou para trás. Ela casou-se com um americano e deixou a cidade. Pelo visto, com saudade.

(A jornalista viajou a convite da Mauatur)

 

A ESSÊNCIA DO REQUINTE

Em Paris, luxo mesmo é ver a Comédie-Française e jantar em um restaurante que repete suas receitas há gerações

Por Rebeca de Moraes, de Paris

 

Bolsas, óculos, joias, hotéis gigantes. Esqueça um pouco a ostentação. O luxo francês de que se tem notícia desde Luís XIV,o rei símbolo da exuberância, é muito mais sutil do que a redoma consumista das lojas. Para os franceses, não se trata apenas de um discurso. “O luxo na França só é possível como uma expressão da cultura”, diz Elisabeth des Portes, diretora-geral e presidente do Comitê Colbert, organização que reúne 75 empresas francesas e 13 instituições culturais com o objetivo de promover o “art de vivre” pelo mundo. Por isso, um mergulho nesse universo de sofisticação extrapola as vitrines da avenida Montaigne ou da Champs-Élysées. O luxo parisiense está no teatro, no restaurante que há décadas repete as receitas mais tradicionais, no hotel que guarda lembranças de ilustres frequentadores, como artistas e acadêmicos, ou na destilaria que demora décadas para aprontar uma bebida de qualidade premium.

O francês tem por hábito a visita ao teatro. Algo quase como o que para os brasileiros significa assistir à novela das oito. Em uma segunda feira fria e chuvosa em Paris, a audiência não está só na televisão. A Comédie-Française, companhia mais antiga da França, tem plateia cheia

em seu teatro durante a semana inteira. Adolescentes aguardam sentados na fila que se forma na entrada do prédio anexo ao salão oficial, que está passando por uma reforma. Eles esperam para assistir à “On ne badine pas avec l’amour”, um drama com dez dos 60 atores da Comédie em cena.

Cada um dos atores contratados da companhia carrega o estímulo (e o peso) de pertencer ao grupo criado por Moliêre, dramaturgo que foi fundamental para a consolidação do teatro francês. Foi ele que liderou o movimento que, mesmo depois de sua morte, levou à criação da Comédie-Française em 1680,por um decreto do rei Luís XIV.

Hoje, o grupo reúne em seu repertório mais de três mil peças, entre textos clássicos e modernos de autores franceses e estrangeiros. A companhia tem três grandes salas,

nas quais há apresentações quase todos os dias. Para não perder a viagem, é preciso comprar bilhetes com alguma antecedência (custam de 27 euros a 39 euros) e preparar os ouvidos – os espetáculos são falados em francês e não há tradução.

Na hora da parada para saciar a fome, é muito provável que o turista se depare com belos e coloridos macarons, os típicos docinhos franceses. Há diversos deles nas vitrines saborosas das várias pâtisseries que em Paris é possível encontrar a cada esquina. Para (tentar) entender como um macaron chega à prateleira dos shoppings brasileiros custando R$9, que tal uma aula de culinária para decifrar os segredos dos doces franceses? Uma das escolas mais tradicionais na arte da pâtisserie, a Lenôtre, oferece aulas para turistas com seus professores

e até mesmo com o diretor da escola, Philippe Gobet. Ele é dono do título de Melhor Artesão da França, concedido pelo Ministério da Educação, e um amante confesso da cultura brasileira.

Gobet tem uma cozinha especial na sede da escola e do restaurante Lenôtre, que fica na avenida ChampsÉlysées, para ensinar os alunos a fazer suas especialidades, como os chocolates e a massa “pata chou”, da famosa éclair francesa. A aula custa 115euros e pode ser agendada pelo site (www.lenotre.com). Ali também há uma pequena loja, onde os gourmets

de fim de semana podem comprar ingredientes premium típicos da França, além de aproveitar para almoçar no restaurante.

O Lenôtre é um dos restaurantes mais reconhecidos de Paris, fundado pelo famoso Gastón Lenôtre, exchef do restaurante parisiense Le Pré Catelan. Ele morreu há três anos e deixou na escola todo o seu conhecimento adquirido na arte da confeitaria – era considerado o “Dior das tortas”, por conseguir, assim como o grande estilista, reproduzir em grande escala o mesmo alto padrão dos produtos únicos e especiais.

Quando o assunto chega à cozinha, uma investigação mais atenta mostra que ali existe mais do que tartare e batatas fritas. O restaurante Taillevent, uma das mais célebres instituições gastronômicas francesas, é um representante da autêntica culinária do país – lá estão os ingredientes mais tradicionais (alguns pouco conhecidos fora da França), do foie gras aos langoustines.

O Taillevent fica em uma mansão do século XIX,clássica e discreta, no bairro de Champs-Élysées. A cozinha premiada, com duas estrelas no guia Michelin, ganhou a preferência

dos executivos franceses (é lá que muitos CEOs fazem suas reuniões de negócios), em especial graças a Iean-Claude Vrinat, o dono do lugar, que morreu em 2008. Ele era considerado um mestre na arte de receber, e passou para a filha e atual diretora do restaurante, Valerie Vrinat, o jeitinho especial de atender aos clientes com simpatia e

simplicidade, mesmo em um ambiente cheio de requinte e que segue à risca todas as regras do mais alto luxo à mesa.

Lá, os pratos custam de 56 euros a 188 euros. Vale atenção especial à carta de vinhos, que tem cerca de 300 rótulos – todos disponíveis diariamente, garante a casa.

Dos milhares de turistas que passeiam todos os dias pela avenida Champs-Élysées, poucos sabem que ali, entre o tumulto das compras, é possível encontrar um precioso museu de perfumes. No lugar, a luxuosa GuerIain está situada em um prédio construído em 1940, onde no início morou a família detentora da marca. Hoje, a loja ocupa o primeiro andar.

 

A carta de vinhos do Taillevent, conhecido pelo requinte e cuidado com o cliente, tem 300 rótulos

 

Quem se aventura a subir a escadaria encontra quadros e embalagens raras de perfumes. O museu da marca abriga peças feitas pela cristaleria francesa Baccarat há um século e edições limitadas do best-selIer Shalimar. A grande coleção de frascos possibilita ao visitante sentir a

evolução dos aromas criados pelo perfumista Thierry Wasser.

Quem se permitir um agrado a mais pode reservar um tempo para receber algum mimo do spa da Guerlain, que fica no mesmo prédio. Há tratamentos faciais, corporais e até manicure. Todos os atendimentos são feitos com horário marcado.

Depois de um (inevitavelmente cansativo) passeio pelo museu do Louvre, quem quiser ainda mais arte deve dar uma esticada até a rua lateral, beirando o Jardin dês Tuileries, na rua Rivoli. Lá está o hotel Le Meurice, fundado em 1835. O local, que era ponto de encontro entre pintores e mecenas, merece uma visita. Salvador Dalí fez do Meurice sua casa por vários anos,

por isso o artista foi o homenageado há alguns anos quando o hotel foi redecorado pelo badalado designer Philippe Starck. Ele se inspirou no pintor para criar ambientes clássicos e aconchegantes, da pintura à escolha do mobiliário.

Quando estiver no lobby admirando as cadeiras douradas ou a imensa tela do teto, que foi pintada à mão por Ara Stark, filha de Philippe, aproveite para chegar até o bar 228 e pergunte pelo monsieur William. Ele está lá há décadas e tem ótimas histórias para contar sobre os artistas que já tomaram seus drinques naquele balcão – inclusive boas passagens sobre

o próprio Dalí.

Para degustar seu drinque como um bom francês, o exercício é não pensar só nos R$ 400 cobrados por uma dose do raro conhaque Louis XIII nos bares da cidade. O francês que consome essa bebida está certamente mais ligado à história dela do que a qualquer outro

“detalhe”, diz Patrick Mariuz, embaixador internacional da marca. O conhaque mais exclusivo da Rémy-Martin é composto por uma mistura de 20 a 30 componentes de aguardente.

Os mais curiosos podem conhecer mais sobre a história da bebida esticando um pouco a viagem até Cognac. A 490 quilômetros de Paris está a cidade que é sede da Maison Remy-Martin, que, além de Louis XIII, produz outros conhaques sob sua marca. Durante a semana

é possível visitar a propriedade de 30 hectares onde a Maison mantém galpões lotados de barricas que envelhecem os vinhos que darão origem à bebida. Porque, afinal, todo o processo é motivo para garantir que haverá no futuro história para contar. E para saborear com gosto seu próprio luxo, o francês é bastante paciente.

A repórter viajou a convite do Comitê Colbert

 

 

DRINQUE DE LABORATÓRIO

A mixologia transforma os balcões de bares em São Paulo e no Rio em palco para experiências etílicas inovadoras

Por Suzana Liskauskas

 

Se juntássemos em uma mesa de bar a cantora Madonna, o escritor Ernest Hemingway e o garçom americano Jerry Thomas, o resultado no fim da noite certamente seria uma carta de drinques capaz de encantar qualquer apreciador de álcool. Apesar de representarem eras

completamente distintas, os três contribuíram muito para que os bares do mundo todo passassem a atrair adeptos dos mais diferentes estilos e culturas. Madonna entrou com seu apego ao glamouroso Cosmopolitan. Hemingway, com seu marcante Daiquiri. E Thomas deu

sua colaboração com inusitadas misturas químicas, que lhe renderam nos Estados Unidos o status de pai da mixologia.

Essa técnica de elaboração de coquetéis vem atraindo para os balcões uma clientela eclética, que tem em comum a busca por experiências etílicas diferentes. A inovação pode estar nos equipamentos utilizados pelos mixologistas para’ criar sabores, cores e texturas surpreendentes em drinques clássicos, como o Negroni. E ainda na criação de novas combinações de bebidas, temperos, frutos, folhas e outros elementos, preparados também com o auxílio de apetrechos que mais lembram um laboratório.

Quem nunca ouviu falar em mixologia, porém, não precisa temer o primeiro gole. O especialista nessa técnica é um estudioso das misturas que já estão na origem dos drinques. A própria palavra coquetel, derivada do inglês “cocktail” – ao pé da letra, rabo de galo -, batiza não por acaso uma mistura: um destilado de qualquer natureza com vermute, um vinho composto. O mixologista trabalha para aprimorar as técnicas utilizadas pelos “bartenders”, O objetivo é realçar o sabor, para que o cliente ganhe mais do que teor alcoólico na corrente sanguínea.

A exemplo da gastronomia, a mixologia vem se aprimorando. A trajetória tem raízes no século XIX, quando Thomas encantou os americanos com seu Blue Blazer, um uísque envolto por chamas que o garçom descreveu no livro “How to mix drinks”, Hoje presente em muitas cartas de bares do Rio de janeiro e São Paulo, a mixologia compartilha as bases da gastronomia molecular. Isso significa lançar mão de equipamentos como maçaricos e decanters, de recursos como resfriamento e defumação e até de substâncias químicas, como hidrogênio,

no preparo das bebidas.

Apesar de São Paulo ainda oferecer a melhor carta de bares do pais, até os locais onde a loura gelada sempre reinou soberana, como o Rio, rendem-se ao charme da mixologia. À frente do Paris Lounge, bar do restaurante Paris, inaugurado no Rio em junho, o mixologista Alex esquita

diz que a coquetelaria mundial vive um momento de revitalização. A afirmação tem o peso do seu curriculo: ele é técnico químico em bebidas, formado em marketing e bartender graduado pela Universidad Del Cocktail, de Buenos Aires, foi eleito o melhor Flair Bartender (prática de malabarismo em bar) do Rio nos últimos cinco anos e campeão sul-americano na categoria Free Style por três vezes consecutivas.

Mesquita explica que, antigamente, os drinques apresentavam misturas muito fortes. O movimento atual mantém as bases utilizadas nessas misturas, mas revitaliza os sabores com a inclusão de ingredientes ou com técnicas de química e física. “Uma cliente veio ao Paris

Lounge e me pediu um gim-tônica. Ela tinha morado em Londres e gostava de gim. Servi o long drink, mas com água livre de cálcio, extras de limão-siciliano e água borrifada de

azeitona. Ao beber, ela disse que era quase um Dry Martini em versão long drink e adorou. Essa é a tradução da nova coquetelaria, que surpreende”, conta.

Além dos drinques inovadores, o Paris Lounge tem uma atmosfera que mescla sofisticação e modernidade. Instalado no segundo andar da Casa Julieta de Serpa, um casarão construído na Praia do Flamengo em 1920, tem piso em parquet que contrasta com as poltronas cor de tangerina, os sofás zebrados e as obras de arte da coleção da família Serpa.

Em São Paulo, o Tutto Italiano, um bar e restaurante retrô inaugurado há seis meses nos jardins, buscou outro talento da mixologia nacional. Formado em hotelaria pela Universidade

Anhembi Morumbi e com 15 anos de profissão, Marcelo Vasconcellos personalizou a coleção de coquetéis com seus néctares, purês e reduções – os caldos obtidos com cozimento demorado, em baixas temperaturas. “Posso fazer o tradicional, mas nunca da forma tradicional.

Faço um mesmo drinque de formas diferentes, para que se note a diferença. Se chega um cliente que quer beber Dry Martini a noite inteira, procuro surpreendê-lo” , diz.

Umdos sucessos da casa é o atual drink da moda em Milão:o Negroni Sbagliato,uma versão efervescente do tradicional coquetel milanês feita com “bitters” (denominação de bebidas amargas feitas com raizes, cascas de árvores e frutas) de Campari, Aperol e vermute Rosso. Vasconcellos criou também uma versão de Sazerac com rum Zacapa Centenario 23, calda fina de açúcar, bitter de grapefruit produzido por ele mesmo e um toque de absinto.

A mixologia também oferece opções para quem não consome álcool. Entre as criações de Vasconcellos, um dos destaques não etílicos é o Mojito de maçã verde. No Paris Lounge, os drinques sem álcool ganharam até uma carta específica. Essas versões atraem um público

ainda mais diversificado para o balcão. Ele comenta que hoje é muito mais comum ver mulheres apreciando bons drinques do que na década de 90. “O público feminino dos bares cresce a cada dia.”

No Rio, o Stuzzi Bar, no Leblon, ainda no primeiro ano de vida, tornou-se reduto de várias tribos, mas atrai especialmente as mulheres pela variedade de drinques. A proprietária, Luciana Almeida, comenta que é comum ver mesas femininas no bar, principalmente às quartas-feiras, quando os homens se concentram no futebol. Entre os sucessos da carta elaborada por Vitor Barros estão uma versão de Spritz com vinho branco, variações de frutas e licor, e também os coquetéis que privilegiam frutas brasileiras, como o Yamí,feito com vodca Absolut, molho de jabuticaba, graviola e limão-siciliano.

Em São Paulo, alguns restaurantes investem na carta de ·drinques para atrair público para os seus bares. É o caso do Venga!, na Vila Madalena, e do BottaGallo, no Itaim Bibi. Inaugurado em novembro de 2011, o Venga! teve sua carta de drinques elaborada pelo barman português João Eusébio, referência da mixologia em Barcelona. Entre as criações de Eusébio destacam-se El Bom, uma homenagem a um dos bairros mais populares de Barcelona, que mistura gim, licores de laranja e de lichia, água tônica e suco de limão-siciliano; Granada, feito com rum, licor de lichia e vinho Pedro Ximenez; Madrid, com vermute Rosso, gim, bitter de laranja e licores Maraschino e de canela; e a Caipiriña Venga!, com cachaça, Pedro Ximenez (um tipo de vinho feito com uva espanhola de mesmo nome), maçã verde e Iimão-taiti.

À frente do clássico bar Montgomery Place, em Londres, o italiano Fabio La Pietra criou uma coleção especial de coquetéis para o paulistano BottaGallo, com seis receitas exclusivas e também clássicos. Entre as novidades estão o Buona Sera Signorina, preparado com Campari,

romã fresca, sucos de laranja e limão, tequila e espumante; e o Spritz do Bexiga, que leva Campari, suco de grapefruit, cachaça e creme de chope com algumas gotas de bitter.

No Rio, onde Madonna já teve uma grande decepção ao pedir um Cosmopolitan – porque a versão servida não tinha suco de cranberry-, os profissionais da mixologia estão ampliando a consultoria a restaurantes. A cantora não deixou a cidade sem apreciar “comme il faut” seu

drinque predileto: o bom e velho Cosmopolitan com o verdadeiro suco de cranberry foi servido a ela no Bar D’Hotel, do grupo Hotéis Marina, cuja carta de drinques é assinada por Santiago Silva. Do mesmo grupo, o Bar do Lado repaginou sua carta com inspirações na mixologia.

Entre as novidades destacam-se o Sofia’s, feito com vodca sabor manga, melão, Monin de melão, hortelã e Cointreau; e o Aphrodite, com vodca sabor pimenta, suco de morango,

amoras, framboesas e gelo.

Outro destaque no Rio é o DoiZ, um dos bares mais descolados da cidade, que leva a assinatura do chef paulistano Fabio Battistella. Apesar de ter cursado administração

e ter começado a trabalhar em uma das empresas do pai, Battistella buscou novos rumos e acabou se encantando com a gastronomia. Cursou a escola francesa Le Cordon Bleu, viajou pela Europa e, quando voltou, se estabeleceu no Rio, onde não encontrava bares e restaurantes que tivessem seu estilo. Criou o Meza Bar, em Botafogo, que também é restaurante e, apesar do estilo paulistano, em pouco tempo caiu nas graças da clientela carioca. No balcão, começou a fazer algumas experiências com coquetéis, assim como faz na cozinha, com os pratos. Inaugurou então, a poucos metros do Meza Bar, o DoiZ,com a proposta de oferecer uma opção noturna para uma clientela jovem que se propõe a explorar mais do que energéticos e destilados puros. Moderno e com uma carta irreverente, o DoiZ apresenta homenagens a clássicos da coquetelaria mundial, como o Redhouse Blues,

versão moderninha do Bloody Mary feita com vodca Ketel One em infusão de pimenta jalapefio, com suco de tomates assados e tempero da casa. Mistura é o que não falta.

 

O INGLÊS PACIENTE

Depois de comprar briga ao promover em Paris uma degustação que premiou vinhos da Califórnia, Steven Spurrier ganhou respeito no mundo todo Por Jorge Lucki

 

Em meados dos anos 70, meu interesse por vinho chegara a um ponto em que beber um rótulo já não era suficiente – ao contrário, aumentava minha curiosidade. Como não havia cursos no Brasil, buscava respostas em livros, paginando conseguir base suficiente para, um dia, me aventurar a ver de perto tudo que lia.

Meu plano era assistir às aulas da Academie du Vin de Paris, cujo mentor, o inglês Steven Spurrier, também tinha uma ótima loja de vinhos, a Caves de la Madeleine, com rótulos diferenciados de pequenos e ótimos produtores. Fiz vários cursos entre 1978e 1979 – fui contemporâneo de Michel Bettane, hoje o crítico mais respeitado da França – e frequentei a loja. Ali troquei algumas palavras com aquele afável jovem senhor de modos britânicos e

profundo conhecimento.

Minha admiração por Spurrier vem daquela época. Sua proposta sempre foi educar o consumidor, desmistificar o vinho e ao mesmo tempo valorizar sua identidade. Isso o levou a organizar inocentemente uma degustação às cegas de rótulos californianos e franceses, que criou celeuma: o resultado apontou vitória dos americanos. O fato de ter sido realizada em Paris dificultou contestações e colocou os vinhos americanos no mapa. A história foi relatada em livro pelo jornalista George Taber e gerou o filme “Battle Shock” (no Brasil, “O Julgamento de Paris”). O roteiro de Hollywood, no entanto, foi financiado pelos donos do Château

Montelena, razão de o filme só falar deles. Spurrier ameaçou processá-los, mas acabou aceitando a menção “baseado em uma história verdadeira” – em vez de “historicamente

verdadeiro”.

Desanimado com os negócios, voltou à Inglaterra em 1990. Passou a dar consultoria e a escrever livros e artigos, principalmente para a “Decanter”, a mais importante publicação

do setor na Inglaterra, onde é consultor editor e “chairman” do Decanter World Wine

Awards, concurso de prestígio internacional. Excelente degustador, também preside competições mundo afora. É uma das pessoas que mais respeito no mundo do vinho -

e é com grande prazer que transcrevo esta entrevista exclusiva.

Como você começou a se interessar por vinhos?

Minha primeira recordação é de um jantar na véspera do Natal, quando eu tinha uns 14anos, na casa do meu avô paterno. Quando chegou a hora de beber o vinho do Porto, ele pediu

para me servirem uma pequena quantidade. Foi maravilhoso. Perguntei o que era e ele respondeu.que era um Cockburn’s 1908. Eu tinha uma coleção de selos e, assim como

os selos, o vinho do Porto tinha um país, uma região, um nome e uma data. Na adolescência, pude ler sobre países que produziam vinho, mas raramente o bebia. Até que fui com meus pais e meu irmão passar férias na França e na Itália. Fiquei fascinado com a vida nos cafés e bistrôs, com a convivência em torno do vinho. Minha mãe era boa cozinheira e, embora minha família gostasse de beber, a discussão era mais sobre comida e menos sobre vinho. Eu me

aproximei do universo do vinho na London School of Economics (LSE), e aos 21anos minha avó materna me colocou como membro da The Wine Society,uma espécie de clube de vinhos

que também negociava. Comecei a comprar vinhos e a visitar lojas especializadas, o que me deu foco.

 

Quais foram seus primeiros passos no universo dos vinhos?

Quando saí da LSE,em 1963,consegui empregos temporários, mas decidi seguir o que realmente me interessava: o vinho. Comecei como estagiário na Christopher and Co,

os negociantes de vinhos mais antigos de Londres, na função de “rato de adega”, em fevereiro de 1964. Durante a colheita de 1964, passei duas semanas na região de Charnpagne e outras duas na Borgonha. No ano seguinte, passei sete meses visitando as principais regiões produtoras de vinho da Europa, para experimentá-lo in loco. Se antes eu ainda não estava totalmente apaixonado por vinho, pelos lugares e pessoas, certamente ficaria quando retornei. A Christopher’s não tinha emprego para mim no escritório, então fui trabalhar num pequeno

importador, onde fiquei até 1967.

 

E a ideia de ir para a França?

Enquanto trabalhava na importadora, comprei um pedaço de terra no sul da França. Queria morar lá e foi o que eu e minha mulher fizemos no dia do nosso casamento, em 1968. Passamos três anos ali, mas as coisas deram errado e partimos para Paris, onde fui procurar

emprego na área de vinhos. Mas o comércio ali não era como em Londres: havia somente um monte de pequenas lojas de vinho. Acabei comprando uma delas, perto da Place de la Madeleine, chamada Les Caves de la Madeleine, em 10 de abril de 1971.No dia seguinte coloquei um anúncio no jornal “International Herald Tribune” que dizia: “Seu comerciante de vinho fala inglês”. Tinha como alvo os americanos, canadenses e britânicos em Paris.

Funcionou, e logo virei um dos melhores “cavistes” da cidade.

 

Lembro que tinha vinhos diferenciados, de pequenos produtores. E a Academie du Vin?

Fora os clientes regulares, para quem eu vendia de tudo, desde “vin ordinaire” e água mineral até Bordeaux e Borgonhas, comecei a atrair gente realmente interessada em vinho. Passei a ir aos vinhedos à procura de novidades e a mostrar o que encontrava em degustações no fim do dia. Alguns advogados americanos que frequentavam essas degustações perguntaram se

eu poderia ensiná-los. Ao mesmo tempo conheci John Winroth, um americano que escrevia sobre o assunto para o “Herald Tribune” e dava cursos nos porões de bares. Criamos aos poucos a proposta de juntar nossos clientes potenciais e demos sorte: a loja vizinha vagou.

Aluguei e abrimos a Academie Du Vin no fim de 1972.

 

Os franceses também freqüentavam a escola, não?

No início, nossos clientes falavam exclusivamente inglês, mas depois a mídia começou a comentar sobre nós e, por volta de 1975,os cursos eram metade em inglês e metade em francês. Era a primeira escola particular de vinho na França e o único lugar para aprender sobre o assunto em Paris, uma espécie de Cordon Bleu de vinho. Naquela época começou também a “nouvelle cuisine”, e crescia muito o interesse por vinho. Fizemos muita coisa

com Lucien Legrand, cuja loja era um paraíso para apreciadores da bebida, e ainda é. Era fácil estar na ponta para uma pessoa jovem e apaixonada como eu, mas ajudou muito a confiança que grandes cavistes, como Legrand., depositaram em mim. Em meados dos anos 70, “le jeune anglais” e sua equipe inglesa eram plenamente aceitos pela sociedade parisiense.

 

Quando e por que você teve a iniciativa de propor o “Julgamento de Paris”?

Tudo corria bem com a Academie du Vin e, para nós, era fácil organizar grandes degustações. Nós também éramos ponto de parada para produtores da Califórnia, que traziam seus vinhos para os degustarmos, e ficou claro para mim que seus cabernets e chardonnays eram excelentes. Decidimos realizar uma prova desses vinhos, escolhidos apenas entre pequenas vinícolas, para mostrar aos formadores de opinião o que estava acontecendo por lá. Nessa

altura, Winroth já havia se afastado por problemas de saúde e minha sócia, Patricia Gallagher, foi à Califórnia para pesquisá-los melhor, voltando cheia de elogios. Ela já havia me dado a ideia de promover a degustação. Fui em abril de 1976 para fazer a seleção final.

 

A proposta inicial, então, não era confrontar vinhos americanos e franceses?

Não era. Estávamos acostumados a realizar eventos. Como éramos respeitados, não foi problema reunir nove degustadores, os melhores que existiam. O plano era apenas fazer o painel – convidamos a imprensa, mas ninguém apareceu -, provar os vinhos e comentá-los,

mas depois percebi que só Aubert de Villaine, do Domaine de la Romanée-Conti, havia degustado um californiano antes. Os outros, apesar das boas intenções, poderiam muito bem dispensá-los com fracos elogios, como vindos de regiões vinícolas de clima quente. Então, decidi introduzir quatro brancos da Borgonha e quatro tintos de Bordeaux para compará-los com seis chardonnays e seis cabernets da Califórnia e servi-los às cegas, pedindo que todos fossem classificados numa escala até 20 pontos. Os juízes não esperavam isso, então eu disse a eles o que eu pretendia fazer antes de a degustação começar, e todos concordaram.

 

Você esperava aquele resultado?

Não, eu não esperava. Imaginava que os californianos poderiam alcançar, vamos dizer, segundo e quarto lugares, ou terceiro e quinto. Eu não esperava que um deles ficasse

em primeiro lugar, e você pode supor isso pela qualidade dos vinhos franceses que incluí. O resultado foi de estupefação. Ninguém discordou que os californianos eram bons, mas o fato de terem derrotado o melhor do vinho francês era quase inacreditável. Tudo o que eu queria era o reconhecimento de que havia alguns vinhos muito bons feitos por vinícolas “boutique” na

Califórnia. Isso eu consegui fazer. Mas não era o resultado que eu procurava. No entanto, testes subsequentes, particularmente dos tintos, têm provado que os vinhos da Califórnia não só eram dignos de seus rankings, mas que melhoraram em relação aos de Bordeaux com o passar do tempo. O Chateau Montelena Chardonnay 1973 provou ser consistentemente bom em degustações posteriores.

 

Você acha que o fato de os vinhos americanos serem produzidos para ser consumidos mais cedo influenciou o resultado?

Esta foi a reclamação contra o Julgamento de Paris. Para tirar a dúvida, realizei uma degustação com os mesmos tintos dez anos mais tarde, em Nova York, com nove grandes experts. Novamente, os californianos se saíram melhor, com o CIos du VaI 1972 em primeiro

lugar, o Stag’s Leap em segundo e, se não me engano, o Ridge Montebello 1971em quarto. Heuve a mesma prova em 1986, que eu não organizei. Mas fui convencido a supervisionar outra; depois de 30 anos, simultaneamente em Napa e em Londres. Nesta, os tintos da Califórnia levaram os cinco primeiros lugares, com Mouton Rothschild em sexto e o Freemark

Abbey em último. Isto provou que os tintos da Califórnia eram bons não apenas quando jovens, mas que tinham qualidades duradouras. Também provou, como subsequentemente se admitiu, que, no início dos anos 70, tanto Bordeaux quanto Borgonha estavam descansando sobre os louros – não existia concorrência para eles naquele momento – e havia pouca seleção nos vinhedos. Houve colheitas de alta produtividade e pouquíssimos “segundos” vinhos, enquanto as pequenas vinícolas da Califórnia tiveram de fazer enormes esforços para fazer o melhor possível. Nas degustações realizadas em 2006, quando fizemos uma comparação com tintos

da colheita de 2000, e desta vez não às cegas, os Bordeaux colocaram abaixo os californianos, o que mostrou que o inverso estava acontecendo: naquele momento, era a Califórnia que estava descansando sobre seus louros.

 

Quais foram as principais mudanças em trinta anos?

O progresso nos anos 70 e início dos 80 estava nas adegas – Califórnia e Austrália foram os primeiros e principais exemplos disto – e, desde o fim dos anos 80, tem sido no vinhedo. A adega pode salvar um vinho ruim, mas não pode fazer um bom vinho. Do lado do consumo, as pessoas não são preparadas para gastar com vinhos bons, diferenciados. O consumidor insiste

em pechinchas, e os vinhos que atendem a esse preço são produzidos de forma industrial – não podem ter individualidade nem ser identificados com sua origem.

 

O estilo também mudou. Os vinhos europeus correm perigo?

Se os vinhos europeus estão em perigo, e estão, é muito mais devido ao grande declínio no consumo local – na França, caiu pela metade em 20 anos – do que à qualidade, que nunca esteve melhor. Fora os grandes nomes e alguns pequenos com reputação internacional, os produtores muitas vezes não têm os meios para fazer e vender seus vinhos. Eles vão se dar conta de que não conseguem exportar, e isso vai ser uma má notícia. A maioria dos governos europeus está fazendo muito pouco para apoiar seus produtores.

 

Você acredita na globalização do gosto do vinho?

Acho que há, sim, uma globalização do gosto. Olhe para a Coca-Cola e para o McDonald’s. É a base da pirâmide. Mas essa base sempre existiu. Nos países produtores de vinho na Europa, até recentemente, ninguém bebia nada que não fosse o vinho de sua região – mas talvez isso acontecesse por falta de informação. Hoje, com tanto acesso e o desejo de experimentar coisas novas, a maior chance é de que as pessoas vão olhar para as diferenças ao consumir

vinho. Elas só vão beber o que apreciam, mas há tantos estilos diferentes que, se não quiserem experimentar, a culpa será só de si mesmas. Por muitas razões, sou otimista quanto ao futuro do consumo de vinho.