Carta Capital 21.11

Coisa de menina? Garotos sonham em competir na ginástica rítmica, esporte exclusivamente feminino

            FAÇO GINÁSTICA rítmica. Me liga”, dizia o bilhete deixado sobre a mesa da arbitragem durante um torneio. A discrição tinha motivo: o autor do bilhete era um menino e a ginástica rítmica é um dos poucos esportes olímpicos que continuam proibidos ao gênero masculino, ao lado do nado sincronizado. Ambas as atividades exigem movimentos delicados, que remetem ao balé. “Coisa de mulher”, até as federações decidirem o contrário. O que pode não demorar. Na ginástica rítmica, a barreira do gênero começa, aos poucos, a ceder.

O recado do garoto era endereçado a Johanna Coelho, da Federação Riograndense de Ginástica (FRG), defensora da participação masculina no esporte. Quando começou sua tese de doutorado, em 2010, sobre a inclusão de meninos na ginástica rítmica, a notícia correu como rastilho de pólvora e a educadora passou a ser procurada por dezenas de garotos, entre eles o autor do bilhete, que gostam de praticar um esporte no qual não são reconhecidos como atletas.

A dirigente conseguiu abrir espaço em competições amistosas e criou um grupo no Facebook, que já tem mais de 70 integrantes, de vários estados brasileiros. Na comunidade virtual, Johanna busca alternativas e consensos. Foi o grupo virtual que optou por realizar os campeonatos na mesma modalidade de ginástica rítmica praticada por mulheres. Aoutra opção seria uma ginástica rítmica criada no Japão nos anos 1970,com movimentos baseados em artes marciais, mais próximos do estereótipo masculino. “Tem um grupo forte em São Paulo da linha asiática, mas ela não colou no Brasil. Amaioria dos meninos quer fazer a ginástica rítmica original”, explica a pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O exemplo no Brasil vem da Espanha, onde meninos praticam a mesma modalidade que as meninas e até competem juntos. Na Espanha, há torneios oficiais, como o campeonato masculino, criado em 2009. Desde 2005 existem competições mistas, chamadas “open”. Mas a Federação Internacional de Ginástica não reconhece os atletas.

No Brasil, Johanna recebeu, em 2011, autorização da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG)para abrir aos garotos um torneio nacional amistoso realizado anualmente no Rio Grande do Sul.No primeiro campeonato, apenas um menino participou. Neste ano, foram seis. “Essa taça está começando a ser considerada pelos meninos como o torneio nacional masculino de ginástica rítmica. Eles constroem comigo. Não sei onde vai parar”, diz. Mesmo com o crescimento em 2012, o número de participantes continua bem menor que o de atletas que desejavam ir a Porto Alegre.

Por não haver competições oficiais é raro qualquer tipo de apoio, seja de governos, seja de federações ou clubes.

Foram justamente esses obstáculos que levaram Johanna a estudar a inclusão dos garotos. “Há uns dez anos, um menino fez uma bela apresentação na abertura de um

torneio em Santa Catarina. Fui cumprimentá-lo e ele disse que ia abandonar o esporte, porque não tinha incentivo. Aquilo ficou martelando na minha cabeça.

” Outra barreira é a separação entre meninos e meninas nos campeonatos. ”Acredito que gênero não é marcador para a ginástica rítmica. Eu queria que competissem juntos, mas não posso impor. A gente tem discutido, mas isso gera ansiedade em treinadores e competidoras”, afirma Johanna.

A 10 quilômetros de Porto Alegre, no município de Eldorado do Sul, um treinador tornou-se, por acaso, um dos pioneiros na inclusão de meninos na ginástica rítmica. Jonas Lucas é educador físico concursado da prefeitura local e criou um projeto, em 2007, para treinar meninas à noite no ginásio de uma escola municipal. “O município tinha projetos de caratê e vôlei, mas eu percebi que as gurias acabavam abandonando. Com a ginástica rítmica, tem fila de interessadas”, conta o treinador, também escrivão da Polícia Civil. Não tardou para que aparecessem meninos. Juvenal, hoje com 16 anos, foi o primeiro a ingressar no projeto, em 2008. O guri tinha uma colega de classe que treinava com Jonas e gostou quando ela lhe mostrou os movimentos da ginástica rítmica. Segundo Juvenal, antes de pedir para treinar ao lado das meninas, praticou bastante com a amiga, a fim de mostrar flexibilidade e não fazer feio perto das demais alunas: “Minha colega mostrou para o Lucas que eu quase abria espacato”.

o treinador não estava realmente preocupado se os meninos tinham a mesma capacidade de executar os movimentos nem se considerava pioneiro. “Foi meio ao acaso. Os meninos foram aparecendo e eu jamais cogitei impedi-los de treinar, porque sei que eles podem sofrer preconceito lá fora.” O projeto chegou a ter cinco garotos. Hoje, continuam Juvenal e Tomas, de 17anos. Segundo Jonas Lucas, Tomas chegou aos poucos, envergonhado. “Ele ficava olhando de longe, dentro do ginásio e imitando os movimentos. Até que eu o chamei:’

Em um tapete estendido no ginásio, os meninos realizam as séries com música e passos elegantes, lançam bola e maças (espécies de pinos) para o alto e recolhem os aparelhos com delicadeza, dão giros no próprio eixo como se dançassem, estendem a perna acima da cabeça com facilidade. Fora dali ainda há o que Juvenal e Tomas definem como “olhares bem estranhos”. Para evitar que os garotos se sintam desestimulados, Jonas improvisa campeonatos e os leva para se apresentar em ocasiões festivas, como o 7 de Setembro, ou na abertura de torneios femininos. É quando veem alguns olhares diferentes, mas a maior parte do público costuma reagir de forma positiva. “O pessoal gosta muito, aplaude muito as apresentações dos meninos”, conta o professor.

“A reação do público quando um menino se apresenta é diferente. Omenino tem mais força, lança mais alto e é mais ousado”, compara Johanna Coelho. Por outro lado, até mesmo os garotos reconhecem ter, inicialmente, menos flexibilidade. Nada que os treinamentos não resolvam.

 

A Semana

Os infiltrados na PM paulista

A MORTE DE94 policiais desde o começo do ano em São Paulo levou a Corregedoria da PM a abrir investigação sobre um possível vazamento de informações sigilosas do 35° Batalhão de Itaquaquecetuba. A suspeita é de que dados pessoais de policiais, como telefones e endereços, foram repassados ou vendidos ao crime organizado. Após mais uma semana violenta, o delegado- geral da Polícia Civil, Marcos Carneiro Lima, criticou a postura dos militares que, segundo ele, precisam ter a consciência de que “matar bandido não vai acabar com a criminalidade”, mas “pode acabar com a vida dele e de sua família”. O delegado é responsável pelas investigações sobre o homicídio-do servente Paulo Batista do Nascimento, morto por policiais após ser rendido em uma perseguição no bairro do Campo Limpo. Um cinegrafista amador registrou as imagens. Na primeira semana de novembro, os governos federal e paulista anunciaram a criação de uma agência integrada de inteligência para combater a violência. Segundo o ministro da Justiça, José EduardoCardozo, nos próximos dias será iniciado o plano de contenção nas divisas de São Paulo para evitar a entrada de drogas e armas que abastecem as organizações criminosas.

 

O udenista perfeito

Faz MAIS OU MENOS um mês que o senador Mário Couto (PSDB-PA) usou a tribuna do Senado  para pedir uma “limpeza” do Congresso aos ministros do Supremo Tribunal Federal. “Vejam o patrimônio de cada senador. Não engavetem os processos desses ladrões que estão aqui”, sugeriu. O· discurso provocou a revolta dos colegas, que hoje devem conter o sorriso de ironia ao saber que a Justiça do Pará acaba de determinar o bloqueio dos bens do baluarte da moral. O tucano é suspeito de participar de um esquema de fraudes em licitações na Assembleia Legislativa do Estado quando era presidente da Casa, entre 2003 e 2007.

O pedido foi feito pelo Ministério Público após identificar contratações suspeitas feitas em sua gestão. À época, uma fábrica de tapioca chegou a ser contratada para realizar serviços de engenharia. Os promotores pedem que o hoje senador e outros acusados devolvam cerca de 13milhões de reais aos cofres públicos. O valor refere-se às licitações realizadas no período.

Embora fosse o responsável por fiscalizar a execução de despesas, o senador diz agora que não tinha conhecimento das supostas fraudes.

 

Cardozo prefere a morte à prisão

Durante palestra a empresários em São Paulo, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi de uma sinceridade inapropriada para um representante do Estado. Ao falar sobre o sistema penitenciário brasileiro, Cardozo disse preferir a morte a uma temporada em uma cadeia nativa. “Se fosse para cumprir muitos anos em uma prisão nossa, eu preferiria morrer.” Segundo o ministro, a violação aos direitos humanos é flagrante e o objetivo principal das punições, a reinserção social, não é cumprido. “Quem cometeu crime pequeno sai de lá criminoso maior.”.

 

Kassab nos braços de Dilma

Após pagar sua dívida com José Serra. ao apoiá-lo na disputa municipal mesmo ciente da derrota. o prefeito de São Paulo. Gilberto Kassab. está livre para embarcar definitivamente no transatlântico governista. O mentor do PSD reuniu-se em Brasília com Dilma Rousseff. Na saída. anunciou a disposição da legenda de apoiar a reeleição da presidenta em 2014. Seria o desejo da maioria do partido. garante Kassab. Pelo apoio. cogita-se uma vaga ao PSD na Esplanada dos Ministérios. Guilherme Afif Domingos. vice-governador paulista. poderia ocupar a pasta de Micro e Pequenas Empresas. Não se sabe com quantos gatos pingados a oposição vai chegar ao confronto presidencial daqui a dois anos. Talvez a recriação da Arena (nota ao lado) ajude.

 

O País medieval em números

            Uma pesquisa do IBGE recém-divulgada dimensiona os problemas e desafios das cidades brasileiras. Apenas 28% dos municípios têm política de saneamento básico e 32,3% implantaram a coleta seletiva de lixo. Um pouco menos da metade 4~8%,não possui estrutura para fiscalizar a qualidade da água. E mais: só 6,2% das localidades têm um plano de redução de riscos em caso de desastres naturais, tão comuns durante as intensas chuvas de verão.

Nem nas regiões mais ricas os números empolgam, embora sejam melhores do que nas áreas mais pobres. No Sul, cerca de 70% das cidades possuem planos municipais de saneamento e de fiscalização da qualidade da água. No Sudeste, o índice gira em torno dos 50%.

Quando se fala em coleta seletiva de lixo, o pior indicador cabe a Roraima: nenhum dos seus 15 municípios adotou um plano. O único aterro sanitário fica na capital, Boa Vista. Nos demais, os dejetos hospitalares são, por exemplo, despejados em lixões a céu aberto.

“Os municípios não estão estruturados para a questão do saneamento”, afirmou Daniela Santos Barreto, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

Saudades juvenis de 1964

Conservadorismo, nacionalismo “tecno-progressismo (sic)” e “posição de direita” formam a base ideológica do grupo que tenta refundar a Aliança Renovadora Nacional (Arena), sigla que deu sustentação aos militares durante a ditadura e foi extinta há mais de três décadas. As expressões estão contidas no programa e estatuto da futura velha legenda publicada na terça-feira 13no Diário Oficial da União.

O texto diz que, em respeito às suas convicções ideológicas, “não coligará com partidos que declaram em seu programa e estatuto a defesa do comunismo, bem como vertentes marxistas”. O partido terá como bandeiras a abolição do sistema de cotas, a redução da maioridade penal e o retorno ao currículo escolar da Educação Moral e Cívica. O movimento de resgate da Arena é liderado pela estudante de Direito Cibele Bumbel Baginski, de 23 anos. Mesmo sem ter vivido o período, ela diz ter convicção de que “o Brasil estaria na idade da pedra” se não houvesse a ditadura. Após a publicação no Diário Oficial, a futura legenda terá de coletar 500 mil assinaturas para o registro formal na Justiça Eleitoral. Poderá assim disputar eleições e terá direito ao Fundo Partidário..

 

Oriente Médio em ebulição

Após rejeitar a integração numa ampla aliança na quinta-feira 8 e afastar seu proponente Riad Seif, o oposicionista Conselho Nacional Sírio, sob pressão dos EUA,voltou atrás e aceitou, no sábado 10, a formação da Coalizão Nacional Síria, a qual terá 22 das 60 cadeiras. A organização será presidida pelo líder sunita moderado Moaz al-Khatib, terá como vices o empresário Riad Seif e a ativista de esquerda Suheir Atassi e foi reconhecida como “representante do povo sírio” pelas monarquias do Golfo Pérsico e pela França.

Enquanto isso, Israel, a caminho de eleições, redobra a agressividade. Nos dias seguintes, disparou contra alvos na Síria, ameaçou bloquear os recursos financeiros da Autoridade Palestina e bombardeou ruas e mercados de Gaza, matando na quarta feira 14o comandante militar do Hamas, dois militantes e seis civis, inclusive duas crianças

 

Adultério ou política?

Não FOI APENAS um triângulo, mas um pentágono amoroso (sem contar as esposas e maridos respectivos), que pôs por terra a carreira ascendente do ex-comandante no Afeganistão e ex-diretor da CIA, general David Petraeus. Ele envolveu-se com sua biógrafa, major Paula Broadwell, e essa ameaçou a socialite Jill Kelley, conhecida por organizar eventos com generais e políticos, por considerá-la sua rival. Kelley queixou-se a um “amigo” do FBI do qual recebera fotos de topless. O agente levou o caso ao FEl, que abriu a conta pessoal de gmail de Petraeus e descobriu também que Kelley tinha um flerte, no mínimo, com o general John Allen, sucessor de Petraeus no Afeganistão que estava para ser nomeado comandante supremo da Otan. Petraeus teve de renunciar e a nomeação de Allen foi adiada, mesmo sem haver evidência de um adultério consumado.

Ao menos, é a versão oficial. Mas o FBI teria levado o caso tão a sério se não houvesse uma predisposição para derrubar Petraeus? Havia quem se opusesse às suas posições críticas do apoio incondicional dos EUA a Israel ou julgasse que seu uso crescente e generalizado de drones dava poder demais à CIA e usurpava o papel de outras forças e agências. Segundo seus superiores, o anônimo “agente topless” foi afastado da investigação por insistir em “meter o nariz” e ao julgar “por sua visão de mundo” que o caso seria encoberto para proteger Obama, alertou o líder republicano na Câmara, Eric Cantor.

 

A primeira greve continental

EMBORA O GOVERNO grego tenha aprovado, com um altíssimo custo político, os cortes de gastos e o orçamento para 2013 exigidos pela Troika, a decisão sobre um novo resgate não foi tomada em 12 de novembro e pode levar semanas. O FMI, o BCE e a Comissão Europeia não se põem de acordo sobre quem paga o custo de 32 bilhões de euros da extensão de dois anos no prazo para o saneamento grego. A França e Christine Lagarde querem condições menos draconianas para a Grécia e parte do custo assumido pelos credores, principalmente o BCE. Este, a Alemanha e o presidente do Eurogrupo Jean-Claude Juncker insistem na ortodoxia. Aos analistas, nenhum dos planos parece sustentável. Se a dívida não for perdoada de forma organizada, a Grécia terá de sair do euro com um calote desordenado.

Ante a incapacidade das elites políticas e financeiras de encontrar soluções, os movimentos sociais de Portugal, Espanha e Grécia coordenaram na quarta-feira 14o que pode ser descrito como a primeira greve geral internacional, acompanhada por uma paralisação geral de quatro horas e choques violentos na Itália, greve ferroviária e passeatas na Bélgica, comícios e manifestações na França e Reino Unido e manifestações de solidariedade em quase todos os países da União Europeia. “Não é uma greve de protesto, mas de proposta”, disse o secretário-geral da central sindical portuguesa CGTP, que exige a discussão de alternativas.

 

Obama não é Tio Sam

            A VITÓRIA de Obama na disputa pela Presidência dos Estados Unidos está impregnada de importantes significados, que tão cedo não esgotarão as margens de reflexão. A consideração inicial é que nesta eleição, pela primeira vez, a grande maioria dos ricos e poderosos americanos – dos petroleiros até os financeiros de Wall Street – apostaram todas as suas fichas (e bilhões de dólares) na escolha oposta. A aposta não deu certo. A derrota dos extremistas republicanos, atuais representantes políticos do capitalismo selvagem no país mais importante do sistema, adquire, portanto um significado especial: abre possibilidade de uma saída da crise mundial que não a imposta pelos donos dos mercados e, possivelmente, inspirada em critérios democráticos.

É esse aspecto que nos interessa focalizar. Dito isso, é preciso lembrar que a batalha vencida, por si só, não resolve a guerra. Cria, porém, um espaço de confiança para a continuidade de um processo de reequilibro entre política e sistema econômico- financeiro, que – depois dos primeiros passos – precisará de alianças internacionais, acumulação de forças e tempo de amadurecimento.

Jamais como nestas eleições a decisão se deu em torno de questões econômicas internas, ou seja, os cidadãos foram chamados a indicar como sair da crise e qual espaço deverá ter o estado social nos EUA dos próximos anos. Embora ridiculamente acusado de “socialismo” pelos adversários, é útil recordar que Obama não foi eleito para fazer revolução alguma nem para resolver em quatro anos os problemas da humanidade. Através do voto, os americanos – mais autocentrados do que nunca por causa da crise – pleitearam, sobretudo, a solução de um problema interno crucial:job,job,job, trabalho, trabalho, trabalho.

Reafirmaram, ao mesmo tempo, que estão de acordo em consolidar um Estado mais atento às políticas sociais, onde o espaço para saúde e escola pública seja digno e o sofrimento dos pobres não seja considerado apenas questão de “merecimento”. Assim, desde a terça 6 de novembro, os 46 milhões de americanos pobres que recebem do governo osfoodstamps (bônus alimentares) puderam viver com menor angústia. Paralelamente, certa preocupação surgiu, com razão, entre aqueles que ganham mais de 250 mil dólares por ano, ameaçados pelo presidente reeleito, no seu primeiro pronunciamento político, de ter de pagar maiores Impostos(lembramos que nos EUAa alíquota mais alta é 35%).

A luz dessas considerações, a fim de que o presidente americano possa dedicar eficácia reformista também a questões estratégicas na área econômico-financeira, a participação ativa nesse processo de aliados internacionais resultará absolutamente necessária.

A reeleição de Obarna representa a mais grave derrota política do capitalismo neoliberal, depois dos fracassos financeiros recentes. Ao mesmo tempo, não esqueça que, hoje em dia, o presidente americano não é mais o todo-poderoso xerife branco do império dos anos 60. Ao contrário, e para melhor entender os limites manifestados no primeiro mandato, é preciso lembrar todo santo dia de que ele é o primeiro presidente negro da história americana, eleito por uma aliança de minorias, em um país profundamente dilacerado pela crise econômica e social, crise que é também do seu papel hegemônico internacional.

Na virada do atual sistema econômico, quando o auge do capitalismo neoliberal coincide com o início da sua decadência, Obama é chamado a defender acima de tudo os interesses dos que mais sofreram as conseqüências do sistema atual e a tomar menos desiguais os americanos. A meu ver, trata se de um líder político que está do lado certo da barricada, contra o mais perigoso processo de concentração do poder econômico e da riqueza mundial, como nunca aconteceu no século passado. Por isso, deveria ser considerado aliado natural por todos os que querem mudar os seus próprios países (e por que não o planeta doentes) na mesma direção progressista. Em outros termos, Obama precisa de aliados internacionais de grande calibre para expressar suas potencialidades reformadoras e a América liderada por ele não merece mais ser vista por certa parte do mundo com a efígie vetusta do hostil Tio Sam.

Neste quadro, sua vitória não pode deixar de interrogar e abrir desafios aos países emergentes e aos europeus. Somente por meio de uma inédita aliança entre os democratas e progressistas dessas áreas com a América de Obama será possível impor regras mais equilibradas aos mercados globalizados e virar, gradualmente, a página do neoliberalismo para abrir uma nova fase de desenvolvimento, mais atentos às questões ambientais e de justiça social.

No Brasil, a direita tem torcido contra Obama, ainda que com certa vergonha. Para os incertos progressistas, o desafio atual poderia representar ótima ocasião para definir com maior clareza a projeção do País lá fora.

 

Barbosa, em teoria

            NA SESSÃO de 4 de outubro, pouco antes de absolver José Dirceu da acusação de corrupção ativa, o ministro revisor Ricardo Lewandowski empertigou-se na poltrona e assumiu a postura de professor de Direito da USP para advertir: a teoria do domínio do fato, utilizada pela ampla maioria dos ministros para condenar Dirceu, não era bem aplicada pelos colegas. “Não há provas. Nem mesmo se chamássemos (Claus) Roxin a teoria do domínio do fato poderia ser aplicada ao caso presente.” Lewandowski referia-se à preocupação de outros estudiosos com a “vulgarização” da tese. O então presidente da Corte, Carlos Ayres Britto, e o ministro Celso de Mello rebateram o revisor imediatamente e atestaram a correta aplicação da teoria alemã no “mensalão” brasileiro.

Pois O próprio Roxin foi chamado e praticamente desautorizou a utilização de sua teoria pela Suprema Corte brasileira. Foi Roxin quem, em 1963,com a obra Tiiterschaft und Tatherrschaft (Autoria e Domínio do Fato), desenvolveu o tema a partir de uma doutrina formulada por Hans Welzel em 1939. Em entrevista concedida no Rio de Janeiro, onde participou de um seminário sobre Direito Penal entre os dias 30 de outubro e I? de novembro, mas veiculada pelo jornal Folha de S.paulo apenas no domingo com pouco destaque, Roxin demonstrou idêntica preocupação à de Lewandowski em relação ao provável abuso na aplicação da teoria que formulou, e deixou claro que ela não prescinde da apresentação de provas.

“A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter de saber não basta. Essa construção (‘dever de saber’) é do direito anglo-saxão e não a considero correta”, disse o jurista alemão. “A pessoa que ocupa a posição no topo de uma organização tem também de ter comandado esse fato, emitido uma ordem. Isso seria um mau uso.” Roxin recorreu .ao exemplo da condenação do ex-presidente Alberto Fujimori pela Corte Suprema do Peru, em 2009, muito utilizado no Brasil para avalizar a aplicação da teoria do domínio do fato.

Segundo Roxin, Fujimori só foi condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos, pois a promotoria apresentou provas de seu envolvimento nos sequestros e mortes de que era acusado, ao contrário do que aconteceu com Dirceu, cuja condenação se baseou principalmente em deduções e ilações em virtude do cargo que ocupava de ministro da Casa Civil. “No caso de Fujimori, foi importante ter provas de que ele controlou os sequestros e homicídios realizados”, afirmou o jurista, que também criticou a influência da opinião pública sobre os julgadores de maneira geral. “É interessante saber que aqui há o clamor por condenações severas, mesmo sem provas suficientes. O problema é que isso não corresponde ao direito. O juiz não tem de ficar ao lado da opinião pública.”

Condenado na segunda-feira 12 pelo STF a 10 anos e 10 meses de prisão pelo envolvimento no chamado “mensalão”, Dirceu já cogitava solicitar a Roxin um parecer jurídico sobre a teoria do domínio do fato. Seu advogado, José Luis de Oliveira Lima, planeja viajar à Alemanha para conversar com o jurista. O ex-ministro foi condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, mas, como nesse segundo crime houve um placar apertado (6 votos a 4), cabem embargos infringentes, o que deve adiar o cumprimento da sentença. Antes disso, falta ainda a publicação do acórdão, que não deve ocorrer antes de 2013, embora os jornais, em tom comemorativo, teçam.

 

Riqueza protegida pelo anonimato

            ESTUDlOSO HÁ DÉCADAS do sistema financeiro, o economista Fernando Nogueira da Costa recebeu em setembro um prêmio do Conselho Federal de Economia (Cofecon) pela publicação do livro Brasil dos Bancos (Edusp), interpretação crítica da história bancária brasileira. Ex-vice- -presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007), Costa não seguiu para a iniciativa privada. Preferiu voltar à Unicamp, onde é professor do Instituto de Economia. E coleta indícios sobre a concentração de riqueza no País, que ele supõe seguir em alta, apesar da falta de informações confiáveis a respeito. “O que peço é que os pesquisadores tenham dados próximos da realidade.”

CartaCapital: O senhor tem estudado a concentração de riqueza no País. Ela tem aumentado?

Fernando Nogueira da Costa: O debate sobre a concentração de riqueza no Brasil está praticamente no começo. Percebe-se que a recente distribuição da renda do trabalho é significativa em termos relativos, mas em termos absolutos a concentração ainda é muito grande. A renda média do 1% mais rico é de pouco mais de 16 mil reais, enquanto a renda média dos brasileiros é de 1,3 mil reais, o que é muito significativo, embora o crescimento da renda tenha sido maior para os que ganham menos. Em razão disso, se fala na diminuição da desigualdade, mas ela ocorre em razão da renda do trabalho, não da riqueza financeira.

CC: Passa a impressão errada?

FNC: Exatamente, passa a impressão de que vivemos uma desconcentração da riqueza, quando não é verdade.

CC:Mesmo no caso da renda, a redução da desigualdade ainda é muito tímida, não?

FNC: É tímida em termos das desigualdades, que são heranças históricas. O Brasil era o segundo país com a pior distribuição de renda do mundo no fim dos anos 1990. Em primeiro, vinha a África do Sul do Apartheid. Melhoramos no ranking, hoje o Brasil deve estar em 12°, em razão das políticas sociais, do crescimento, da formalidade no mercado de trabalho … Mas o desafio é muito grande para chegarmos a uma sociedade mais igualitária, com políticas públicas capazes de mudar a concentração de riqueza. E o desafio começa por sabermos do que falamos, pois é um problema conceitual diferente.

CC: Em que sentido?

FNC: Renda tem a ver com fluxo, é o valor agregado ao longo de um ano. Riqueza não, riqueza é um estoque acumulado ao longo não só da vida de cada pessoa, mas herdado. Então é uma riqueza que se transmite para outras gerações. O problema é extremamente complexo e no mundo todo é assim. No planeta, a tendência é haver uma grande concentração de riqueza. Como não existem dados objetivos, é preciso trabalhar com indícios. E os indícios mostram que mesmo nos países emergentes, nos BRICS, tem aumentado a concentração.

CC: E nos países centrais?

FNC: Em razão da crise houve uma certa deflação dos ativos. E aí chegamos a um ponto importante: a riqueza, em termos das divulgações que temos, é medida pelo valor de mercado, no mercado de capitais, por exemplo, e se valoriza ou se desvaloriza no dia a dia das Bolsas. Raramente o homem comum, o assalariado, tem a dimensão exata da sua riqueza. A cotação de seus ativos varia, no mercado de ações, mas também o preço do seu automóvel usado, dos imóveis. No mercado financeiro, existe a “marcação a mercado” dos bens a cada dia, mas no caso dos outros ativos, não. Então qual é a fonte de informação para medir a riqueza? Aí existe muita dificuldade. Nos países de capitalismo maduro existem alguns tipos de estatísticas. Mas o Brasil está muito atrás, embora o sistema brasileiro de gestão de estatísticas do IBGE seja de alta qualidade técnica.

CC: Não é como o Indec argentino …

FNC: Não, não é. Agora, curiosamente na mensuração da riqueza, a Argentina é o único país da América Latina com estatísticas a partir da declaração de Imposto de Renda.

CC: É um exemplo positivo então?

FNC: Neste caso, sim, e é um desafio o IBGE fazer o mesmo. E me parece que a sociedade cobra hoje, dentro do debate sobre a concentração de riqueza, que o IBGE avance nesse sentido, faça um convênio com a Secretaria da Receita Federal porque existe a fonte de dados para trabalhar, de maneira agregada evidentemente, por causa do sigilo. Mas para trabalhar com os agregados, a partir de uma estratificação, e recuperar os dados das declarações de pessoas físicas. E depois comparar com as declarações das pessoas jurídicas. O que peço é que os pesquisadores tenham dados próximos da realidade. As declarações de bens e direitos têm um viés muito claro, as pessoas declaram os bens e direitos no fim do ano, e o saldo no caso dos ativos financeiros. Os ativos de base imobiliária, que na estimativa que fiz representam cercade 40% do total, são, porém, declarados em valores históricos, o que representa uma defasagem expressiva. Isso significa que 40% do total é subestimado. Se o Imposto de Renda permitisse a atualização no valor de mercado de determinados tipos de bens para determinado ano, aí seria mais próximo da realidade.

CC: Por que não acontece?

FNC: Existem razões para a Secretaria da Receita Federal não solicitar. Evidentemente, isso pode esconder muita riqueza, muito dinheiro frio. Se tivéssemos a declaração estratificada pelos níveis de riqueza financeira, já serviria. A minha finalidade como pesquisador é medir o potencial de funding, de fontes de financiamento de longo prazo. É importante por estarmos em um momento de mudança dos portfólios, nas carteiras de ativos e com mobilidade social. A questão é sabermos para onde vai o País. E aí voltamos aos indícios. Em um desses relatórios de riqueza mundial, o Brasil foi o país onde mais cresceu a riqueza no ano passado, levando em conta as principais nações. Houve um crescimento de 6,2% na riqueza. E poucos países registraram crescimento. A riqueza financeira desses bilionários brasileiros é de cerca de 200 bilhões de reaís, mas a riqueza financeira do Brasil é de 3,8 trilhões de reais. Se tivéssemos a informação ano a ano, estratificada, serviria para acompanhar as mudanças no mercado de trabalho. E me parece que esses dados não são divulgados por falta de iniciativa. Do jeito que está, podemos levantar indícios, mas não dá para julgar bem a sociedade com base em indícios, precisamos de provas, inclusive porque o Brasil é extremamente injusto.

CC: O senhor é a favor da taxação das grandes fortunas?

FNC: É um assunto complexo, e para situações complexas não existem soluções simples. A taxação de patrimônio voltou a ser debatida mundo afora, em governos do centro para a esquerda, e que sempre volta ao debate em momentos de crise. O presidente socialista francês quer voltar a taxar com alíquota de 75%. Mas em uma economia aberta e em um mundo globalizado, esse tipo de política leva à fuga de capitais. Teremos de estudar mais a riqueza, até para bloquear as rotas de fuga.

 

A nova abertura dos portos

            DOIS ANOS E MEIO após o início dos trabalhos, o governo federal finaliza o plano Nacional de Logística Portuária (PNLP). A ideia é alterar o marco regulatório, atrair investimentos privados, facilitar as parcerias com o setor público e desafogar e tornar menos custosos os portos brasileiros. Uma estrutura montada até os anos 1980,hoje um gargalo ao desenvolvimento do País incapaz de dar conta satisfatoriamente do crescimento do transporte de cargas, sejam commodities de exportação ou manufaturados importados. Com desempenho mais intenso do que a variação do PIB, tanto nos momentos de alta quanto nos de baixa. Em 2010, quando o PIB avançou 7,5%,o volume de cargas transportadas nos portos cresceu 13%.No ano anterior, o PIB recuou 0,20%, e a movimentação portuária, menos 4%.

Assim que Dilma Rousseff regressar da Espanha, o pacote dos portos virá a público. Os sucessivos adiamentos sugerem um planalto cheio de dúvidas, com a agenda cheia por causa de outro assunto, a oposição à MP 579, que pretende reduzir o preço das contas de luz.

Circula a versão de que a presidenta não gostou dos resultados entregues por sua equipe e pediu mais estudos. Apesar de o governo manter o trabalho em sigilo, informações vazadas calculam investimentos de 40 bilhões de reais até 2030, período em que a movimentação nos portos brasileiros, prevê o governo, deverá quadruplicar. Além de modernizar e ampliar a estrutura existente, seriam construídos novos terminais para atender à demanda crescente, em alguns casos repassados à gestão privada, por meio de concessões, em outros por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou administração estatal.

Quem conhece o setor garante ser uma tarefa ambiciosa. A começar pelo fato de a solução para os problemas não se limitar apenas à necessidade de mais recursos, ainda que esses patinem: os investimentos federais em portos desde o lançamento do PAC, em 2007, foram de 2,5 bilhões de reais, de um total previsto de 7,5 bilhões até 2014. As principais obras executadas são de melhora da infraestrutura, principalmente a dragagem

da calha dos canais para permitir a entrada de navios maiores.

“É preciso avançar na gestão, as Docas não acompanharam as exigências do setor e continuam presas a questões políticas”, diz Wilen Manteli, presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP). Segundo Manteli, o governo ouviu todos os segmentos e está com todas as propostas em mãos. Ele não acredita, porém, que as obras farão diferença relevante. A proposta da ABTP é transformar os portos em sociedades de propósito específico, o que abriria margem para sair das amarras da Lei de Licitação. “A lei de Parceria Público-Privada permite esse tipo de contrato. É preciso ter uma gestão dos portos focada em metas, com orçamento, mas as Docas não trabalham dessa forma.”

Em linha com essa demanda, o governo incluirá as obras portuárias previstas no pacote no Regime Diferenciado de Contratação (RDC), como no caso dos investimentos para a Copa e as Olimpíadas, que permite maior agilidade na execução dos projetos. E, como no caso do pacote das ferrovias, obrigará os terminais portuários privados a abrir passagem para cargas de terceiros. Os empresários do setor aguardam ainda a criação de um fundo garantidor que seria usado para assumir uma parcela dos riscos e reduzir a exposição dos investidores privados por se tratar de um investimento de longo prazo. Apesar dos investimentos recentes, o tamanho da encrenca é grande. Estudo do Fórum Econômico Mundial classificou a qualidade da infraestrutura portuária brasileira na l30a posição de um ranking de 142 países. Índice preocupante quando se considera que 90% das exportações são realizadas por essa via. Entre os problemas estão a inadequação aos tamanhos de navios maiores, a falta de capacidade de atracarem, a distância entre o cais e os locais de armazenamento das mercadorias, além de entraves burocráticos e dificuldade de acesso terrestre. Quem viu uma fila de caminhões carregados no Porto de Paranaguá ou naquele do Recife pode ter uma ideia dos problemas. O novo plano de investimentos deve vir com a concessão de terminais nos portos com administração pública, como o Terminal do Meio, em Itaguaí (RJ).

Em conjunto com a abertura à operação privada, o governo pretende colocar metas de desempenho nas sete Companhias Docas, administradoras de 18portos, que devem passar a responder a um contrato de gestão que permitirá maior cobrança de resultados.

Outro gargalo tem a ver com a qualificação da mão de obra. Em resposta às queixas sobre o custo elevado dos trabalhos dos práticos, profissionais responsáveis pela condução dos navios na zona portuária, o governo apresentará um novo plano para a formação desses especialistas. Muito bem remunerados, por sinal. Segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma), para uma operação de duas horas de um navio médio em Paranaguá são pagos 28 mil reais, preço considerado abusivo.

o Conselho Nacional de Praticagem (Conapra), o sindicato da categoria, diz que os práticos recebem pró-labore de 5mil a 18 mil reais por navio manobrado, e que o resto seria o custo variável, que pode chegar a 80 mil.Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) realizado no Porto de Santos mostra, no entanto, que o custo da praticagem tem influência pouco significativa sobre o preço final dos produtos, 0,56% do custo do transporte marítimo e 0,2% do custo logístico total, no caso das exportações.

Mais que a remuneração do trabalho da praticagem, segundo Ricardo Falcão, presidente do Conapra, as dificuldades encontradas para realizar os trabalhos nos portos é que pesariam mais no custo e nos atrasos.

A entidade listou pequenas intervenções capazes de reduzir o custo com baixos investimentos. Exemplo: seria possível economizar 3 mil horas por ano com a atividade de atracar e desatracar os navios, ou 6 milhões de dólares em frete de navios, caso os pinos simples onde são amarrados os cabos das embarcações fossem substituídos por pinos duplos. Dessa forma, menos cabos dividiriam o mesmo pino e menos tempo seria necessário para realizar o trabalho. A troca das defensas, proteção no concreto que amortece o navio, regularmente permitiria que o tempo das atracações fosse reduzido à metade. Outro ponto destacado pelo Conapra: quando não há profundidade suficiente para um navio entrar no porto, são usados flutuantes presos na embarcação, solução provisória que muitas vezes causa prejuízo aos navios, além de atraso nas manobras. Seria preciso, diz o sindicato, realizar uma dragagem efetiva ou instalar flutuantes adequados.

 

Crise? Que crise?

CRISE É UMA PALAVRA que não tem sido ouvida no setor de previdência privada e de seguros

há mais de uma década. Impulsionado pela ascensão social, pela expansão do crédito e pela crescente preocupação do brasileiro em assegurar um futuro melhor para seus familiares e em proteger os bens adquiridos com esforço, o segmento tem crescido a dois dígitos por ano. De 2000, quando a arrecadação anual chegou a 5 bilhões de reais, a 2011, quando atingiu 53 bilhões, os aportes em previdência cresceram mais de dez vezes no período. Neste ano, o mercado de previdência privada aberta fechou o primeiro semestre com arrecadação de 33 bilhões de reais, um crescimento de 32% em relação aos 24,9 bilhões acumulados nos seis primeiros meses de 2011, segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi).

O Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), que se popularizou por ser indicado ao investidor que declara Imposto de Renda (IR) pelo modelo simplificado, é o produto com maior participação na arrecadação, tendo acumulado 28 bilhões de reais até junho, alta de 38,24%, em comparação aos 20,3 bilhões apurados no mesmo período de 2011. Já o plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), mais adequado para quem faz a declaração completa do IR, pois permite deduzir as contribuições até U% da renda bruta individual anual do imposto a ser pago à Receita Federal, totalizou contnbuições de 3,2 bilhões de reais no período, alta de 8,50%.

As mulheres representam 47,4%dos 11,1milhões de participantes do sistema. Osconsumidores com mais de 50 anos furmam o maior contingente de participantes do sistema de previdência complementar aberta. Representam quase 30% do universo de segurados, enquanto os investidores na faixa etária entre 30 e 40 anos são o segundo maior grupo, com 25%do total. Já os menores (abaixo de 18anos) representam 7,58% dos planos existentes.

“A questão previdenciária é uma preocupação crescente das pessoas”, afirma o diretor da Caixa Previdência, Juvêncio Braga. ‘‘Ao mesmo tempo, a classe media emergente começa a ter renda disponível e quer proteger o que suou para conquistar.” Braga ressalta que há interesse em usar esses produtos como poupança de longo prazo para aplicar na educação dos filhos, quando eles estiverem em idade para ir à faculdade. “Nos planos para menores, mais de 50% das contratações são feitas pelas mães, preocupadas em assegurar um futuro mais seguro para os filhos.”

O crescimento tem despertado a atenção de mais empresas. Por mais de 30 anos, a Zurich foi bastante conhecida no mercado corporativo de grandes riscos, mas há três anos tem reforçado sua presença no varejo, seja de seguros, seja de previdência. “Desde outubro de 2011,estamos veiculando propaganda na televisão, revistas, metrô e praias, para sermos mais reconhecidos”, diz o presidente da divisão de vida & previdência da empresa, Richard Vinhosa. Em três anos, a intenção é de a carteira chegar a 1bilhão de reais, sendo 50% do mercado corporativo e 50% de planos de pessoas físicas.A empresa abriu mais de dez filiais em 2012, ampliando a capilaridade nas regiões Centro-Oeste e Norte e no interior paulista.

A empresa suíça, presente no Brasil desde 1982,está de olho também no setor de seguros. Em maio de 2011,a base regional das operações na América Latina mudou de Miami para São Paulo. “Não foi apenas uma mudança geográfica, mas de olhar”, diz o presidente de seguros gerais da empresa, Hyung Mo Sung. “Em dez anos, 50 milhões de pessoas melhoraram de renda, isso é mais do que a população da Argentina ou da Espanha, o que mostra o potencial”, diz. Estima-se que apenas 30% da frota de veículos seja segurada. No residencial, menos de 10% dos lares têm algum tipo de proteção. O setor representa perto de 3,5%do PIB nacional, abaixo dos 6%do Chile e dos 9% da Alemanha. “Nosso foco é fazer com que a operação brasileira seja uma das cinco maiores do grupo no mundo em cinco anos”, diz o executivo. “No primeiro trimestre, vamos colocar em operação uma nova plataforma tecnológica que permitirá o crescimento. Estamos buscando aumentar nossa densidade no interior de alguns estados, como São Paulo e Paraná, e investir na contratação e qualificação de mão de obra”,diz Mo Sung.

A Icatu também vem ganhando espaço. Em previdência, a empresa deve registrar captação líquida de 850 milhões de reais neste ano, um patamar que deve ser superado em 2013, segundo Plínio Sales, diretor de produtos de previdência da seguradora. O esforço comercial tem sido ampliado com a abertura de filiais,aumentando a capilaridade. O foco também tem sido na criação de tíquetes de ingresso nos planos de previdência mais baixos, de olho na classe média emergente. “Temos tíquetes de 100 reais mensais, enquanto há alguns anos trabalhávamos com um patamar cinco vezes superior a esse”,frisa o executivo.

A expansão está também nos radares dos grandes bancos privados. No Bradesco, o braço de seguros e previdência responde por 30% dos seus ganhos e é um importante pilar de seu crescimento nos próximos anos. “As oportunidades são gigantescas”, afirma Marco Antonio Rossi, diretor- presidente da Bradesco Seguros e Previdência, que frisa que da base de clientes do banco apenas 3%possuem seguro saúde, 20% têm algum tipo de previdência ou seguro de vida e 5% deles têm algum tipo de proteção para o automóvel. No mercado corporativo, o retrato não é diferente. Apenas 20% das empresas têm alguma proteção para o seu patrimônio ou oferecem algum benefício de saúde, dental ou previdência para seus funcionários. Com o cenário de pleno emprego e o bônus demográfico, as empresas terão de oferecer benefícios, como planos de previdência e de saúde, para segurar seus talentos. O cenário macroeconômico que combina baixo crescimento nos Estados Unidos e na Europa com juros reais de 2% ao ano está fazendo as seguradoras estudarem novas modalidades de investimento para os clientes. O vice-presidente de previdência da SulAmérica, Renato Terzi, afirma que a instituição lançou recentemente dois produtos voltados à alta renda. Um é de um fundo de renda fixa que tem, no mínimo, 95% dos rendimentos atrelados ao Índice de Mercado Ambima B (IMA-B), que reflete o mercado de papéis públicos atrelados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais uma taxa de juros, buscando retorno real acima da inflação. Já o outro é para o investidor com perfil mais agressivo. Nesse caso, o fundo aloca até 49% dos recursos em carteira diversificada de ações de companhias abertas com potencial de valorização e perspectivas de retorno em longo prazo por meio de gestão ativa, sem a obrigação de acompanhar os principais índices da Bolsa de valores.

Com a taxa de juros baixa, os investidores terão de buscar outros ativos além de papéis do governo para seus investimentos. “Os projetos de infraestrutura são uma opção, ainda mais em um momento em que o governo criou benefícios para o lançamento de debêntures de ínfraestrutura por meio do Decreto n” 7.603,publicado em novembro de 2011.A legislação definiu condições para a aplicação da Lei nO12.431, que reduziu para 0% e 15%o Imposto de Renda devido, respectivamente, por pessoas físicas e jurídicas sobre rendimentos de debêntures de longo prazo. Investidores estrangeiros que adquirem os papéis não pagam Imposto sobre Operações Financeiras(IOF),cuja alíquota é de 6%.Terzi acredita que em até cinco anos o mercado passará por uma revolução, com o surgimento de fundos especializados que busquem retorno acima da inflação com opções muito além da dívida do governo.

Hoje a reserva dos planos de previdência está em 300 bilhões de reais, com expectativa do mercado de que possa encerrar este ano em 320bilhões. Ocrescimento deverá permanecer nesta década. A Brasilprev prevê que o mercado possa chegar até 2019 à casa do 1trilhão de reais. “Obrasileiro vai se preocupar cada vez mais com uma aposentadoria confortável e com a proteção dos bens”, diz Mauro Guadagnoli, superintendente de produtos da Brasilprev.

O setor aposta ainda em novos produtos para atrair mais participantes e um novo fluxo de capital. As atenções estão voltadas para Brasília, onde empresários, governo, a Agência Nacional de Saúde (ANS) e a Receita Federal discutem a criação do VGBL Saúde, em que o cotista poderá acumular poupança e resgatar o dinheiro aplicado para pagar despesas médicas, recebendo um benefício fiscal pelo resgate. Existem ainda estudos que apontam que, nos últimos cinco anos de vida, as pessoas gastam mais com saúde do que gastaram com despesas médicas em toda a sua vida. “A expectativa é de que estamos perto da definição e de que esse produto possa ser lançado em 2013″,diz Osvaldo Nascimento, vice-presidente da Fenaprevi.

 

Do topo para a base da pirâmide

            A ASCENSÃO social que nos últimos dez anos fez 50 milhões de pessoas terem melhores condições de vida e mais renda disponível no bolso, no fim do mês tem feito as seguradoras olhar com atenção as classes D e E, o que poderá impulsionar a venda de produtos para esse segmento. Em  outubro, os 600 mil habitantes do Complexo do Alemão, conjunto de 13comunidades carentes na zona norte do Rio de Janeiro, passaram a contar com novo produto: um seguro familiar chamado Você Tranquilo, que garante um valor segurado de 2,5 mil reais para a realização de um funeral para qualquer membro da família do segurado, além de 12 cestas básicas no valor de 100 reais e assistência psicológica oferecida por um convênio de profissionais que fazem cinco ligações mensais aos familiares. Outro plano garante ao segurado também uma cobertura de 10 mil reais por morte acidental; e de outros 10 mil reais por invalidez permanente total por acidente. O tíquete de entrada no produto é de 14 reais mensais.

Com o seguro, o grupo BB Mapfre prevê alcançar entre 10% e 20% da população da comunidade em até dois anos, quando o produto estiver amadurecido. “Desenhamos esse produto com base nas demandas das pessoas que moram lá. Eles tinham muita preocupação com o enterro de seus familiares, por causa da violência, o que fazia com que muitos tivessem participado de vaquinhas para realizar o enterro. Havia também preocupação com acidentes que causassem invalidez”, afirma Bento Zanzini, diretor de vida do Grupo BB e Mapfre. Recém-lançado, esse produto ainda não tem seu impacto mensurado, mas a expectativa é de que o projeto piloto tenha um resultado mais concreto em três a seis meses e possa ficar completamente maduro em até dois anos.

Mal a experiência inovadora no Rio de Janeiro foi lançada, o grupo segurador á estuda replicá-la em São Paulo. “Estamos estudando duas comunidades em São Paulo, mas não posso revelar nenhum detalhe sobre isso ainda”, afirma Zanzini, que admite que mudanças no projeto piloto no Rio de Janeiro podem ser feitas quando uma primeira avaliação sobre os resultados iniciais for feita. “Podemos sentir que há necessidade de criação de algum outro produto acoplado, como sorteios”, diz. Aideia do produto nasceu da economista Cintia Ferreira Martins, corretora que tinha um escritório perto do Complexo do Alemão e conhecia muitas pessoas que moravam lá. Cintia tinha participado de inúmeras vaquinhas para ajudar a pagar despesas de funerais de pessoas que moravam no conjunto de favelas, o que despertou sua atenção para o fato de que haveria espaço para a criação de um produto desenhado para a comunidade. Bateu à porta de uma equipe do BB Mapfre, que viu que a ideia poderia render frutos. “É uma forma interessante de chegar a um mercado com potencial grande”, diz o executivo.

A Caixa Seguros é outra de olho no segmento de seguros populares. O valor mais baixo de entrada no ramo é de 2,50 reais por mês. Em agosto, a seguradora anunciou ter alcançado 20 milhões de bilhetes vendidos nos ramos de vida e residencial. O produto mais procurado é também o mais antigo do mercado: o que oferece cobertura de assistências pessoais, disponível desde 1995. Outro produto de destaque é o seguro com assistência funeral, que nos primeiros sete meses de 2012 teve vendidas mais de 100 mil apólices, número duas vezes maior do que o obtido ano passado. “Em famílias com rendas mais baixas, uma eventualidade pode ter um efeito financeiro em cadeia e envolver parentes, pequenos comerciantes e até vizinhos, e por isso, essa camada da população demanda proteção com serviços contra acidentes pessoais ou que também cubram pagamento com funerais. Gastar 5 mil reais em um enterro pode desestruturar uma família”, afirma a diretora de Vida da Caixa Seguros, Rosana Techima. Segundo ela, a população já percebeu que é preciso estar pronta para imprevistos. “Só em indenizações, esses produtos populares já distribuíram 75 milhões de reais”. Para vender a esse público, a Caixa desenhou produtos que trazem vários benefícios somados que vão de sorteios de prêmios em dinheiro a assistências, como funeral, domésticos (como encanadores e eletricistas), recolocação profissional, assistência viagem e planos de medicamentos. “Nessa faixa social, a cultura da aposta e de poder ter uma grande sorte para mudar de vida está muito presente, então, os sorteios são importantes para atrair a atenção desses consumidores de seguros”, diz.

Com mais de 60 mil pontos de venda espalhados pelo Brasil, a Caixa Seguros oferece aos interessados a contratação do produto em casas lotéricas, terminais bancários, agências ou por correspondentes bancários. “Temos um sistema simplificado de contratação que faz com que o interessado possa comprar o produto em segundos”, diz. O potencial do segmento é considerado, pela executiva, como enorme. “Um pedaço pequeno da classe D começa a demandar esse tipo de proteção, mas a classe E ainda não tem renda disponível. E só a faixa de renda mais alta dos participantes do Bolsa Família tem acesso a algum tipo de proteção”, destaca Regina.

 

Benefícios de gente grande

            O MERCADO corporativo de planos de previdência e seguros começa a despertar a crescente atenção das empresas que atuam no segmento. As pequenas e médias representam uma nova fronteira de expansão em um momento em que a economia nacional convive com as mais baixas taxas de desemprego da história recente. Como cenário de pleno emprego e o bônus demográfico, as empresas terão de oferecer benefícios, como planos de previdência e de saúde, para segurar seus talentos. O universo de crescimento é amplo: estima-se no mercado que apenas 20% das empresas tenham alguma proteção para o seu patrimônio ou ofereçam algum benefício de saúde, dental ou previdência para os seus funcionários.

“Nesse contexto de acirramento do mercado de trabalho, conceder benefícios para empregados ganha espaço na agenda de recursos humanos das empresas, e as pequenas e médias empresas são um nicho muito relevante de negócios”, afirma Juvêncio Braga, diretor de previdência da Caixa Seguros. “Nas grandes, a maioria já tem esses planos e vemos apenas movimentação de reservas”, diz, ressaltando que nas pequenas é possível acoplar aos planos de previdência outros produtos, como seguros de vida. No primeiro semestre, segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), entidade que reúne 74 sociedades seguradoras e 30 entidades abertas de previdência complementar, a arrecadação dos planos empresariais cresceu 8% e acumulou 3,4 bilhões de reais no período. Em junho, os planos empresariais obtiveram 555,9 milhões de reais em novas contribuições.

“O segmento corporativo tem grande potencial de crescimento”, explica Richard Vinhos a, presidente de vida e previdência da Zurich Seguros para o Brasil. A carteira hoje está em 200 milhões de reais, com a expectativa de que possa dobrar no próximo ano. “As empresas médias de alguns setores de capital intensivo, como na área de tecnologia da informação (TI), vivem uma guerra para reter talentos, o que abre oportunidades”, diz Vinhosa. O segmento com empresas entre mil e 1,5mil vidas é o que traz um cenário mais promissor para o curto prazo para a Zurich. No médio e longo prazo, Vinhosa acredita que micro e pequenas empresas deverão apostar mais nos benefícios, porque começarão a sentir os efeitos da guerra de talentos. “Há 2,4 milhões de micro e pequenas empresas no Brasil e elas terão de se adaptar a esse cenário”, afirma.

o vice-presidente de previdência da SulAmérica, Renato Terzi, afirma que a seguradora lançou, neste ‘ano, um plano simplificado para as pequenas e médias empresas de olho em um segmento que já responde por 20% do PIB do País. “Elas serão um motor importante do crescimento do Brasil, o que exige maior eficiência e mais benefícios para reter empregados.” Uma das dificuldades que as empresas enfrentavam para avançar entre os pequenos empresários era a tributação. Ao contrário da maioria das médias empresas, que optam pelo lucro real, as pequenas pagam Imposto de Rendapelo modelo de lucro presumido. Assim, não teriam vantagem em contribuir para o sistema de previdência privada, porque não poderiam descontar as contribuições da base de cálculo do IR. Nas empresas que optam pelo lucro real, é possível descontar 20% da folha de salários da base de cálculo. “Havia essa discussão antes, mas agora se vê que a previdência é um benefício importante para a retenção de funcionários e houve uma mudança no universo dos pequenos negócios: há empresas que exportam e atuam em segmentos inovadores, ou seja, têm espaço para usar o benefício fiscal e reduzir custos operacionais, já que ele não integra a folha de pagamento dos colaboradores”, diz Terzi.

O diretor de produtos de previdência da Icatu Seguros, Plínio Sales, afirma que a empresa lançou neste ano dois produtos para micro e pequenas empresas, um deles com contratação simplificada. Antes da nova ferramenta, o processo poderia durar dois meses. Agora, pode levar duas semanas. “A demanda tem sido grande, porque o mercado corporativo ainda não está plenamente atendido”, ressalta. O outro produto é chamado de Previ Executivo e desenhado para os principais executivos ou sócios de um escritório de advocacia ou consultoria. A empresa na qual eles trabalham é a averbador a do contrato, mas os aportes são feitos pelos sócios ou executivos da empresa. “Assim, conseguimos oferecer uma condição comercial melhor porque eles não são vistos individualmente”, afirma o executivo, que destaca que a seguradora ainda não tem notado interesse expressivo de micro e pequenas empresas em adquirir planos de previdência. O interesse tem vindo mais das médias empresas com 100 a 300 vidas. “Falta ainda uma cultura para o benefício ganhar espaço, mas o mercado é enorme, porque a taxa de penetração em micro, pequenas e médias empresas é baixíssima.”

Na Brasilprev, o interesse pelo mercado corporativo não é diferente. A empresa quer se preparar para o boom que o nicho empresarial deverá passar nos próximos anos. “As reservas dos planos empresariais têm crescido nos últimos anos, e com esse apagão de mão de obra, o pré-sal, a Copa de 2014 e a Olimpíada, o cenário de trabalho permanecerá pressionado, o que deve provocar forte crescimento desse segmento, diz Mauro Guadagnoli, superintendente de produtos da Brasilprev. Em três anos, a seguradora observou um incremento importante de negócios com médias empresas, cujo faturamento está entre 25 milhões e 600 milhões de reais anuais. Neste ano, foram prospectadas cerca de 2 mil empresas desse universo, em que a taxa de sucesso ficou em 25%. “Nas grandes empresas, o benefício já é oferecido, vemos mais disputas por quem vai gerir as reservas. Mas 99% das nossas cotações para as médias empresas são para a implementação do benefício”, diz Guadagnoli.

Nos próximos três a cinco anos, o executivo acredita que as pequenas empresas de capital intensivo deverão buscar com vigor os planos de previdência. Tendo como um de seus principais acionistas o Banco do Brasil, que tem em sua carteira mais de 3 milhões de contas de micro, pequenas e médias empresas, a Brasilprev já está estudando esse mercado com os correntistas do banco. A ideia é entender as demandas e os desafios que elas enfrentam, para aí oferecer um plano desenhado para as micro e pequenas empresas. “Vamos lançar alguma coisa quando tivermos mapeadas essas necessidades”, diz

 

Um mundo bipolar

MUITO SE fala de um futuro multipolar, mas com a União Europeia neutralizada por suas disfunções políticas e financeiras e o Brasil, a Índia e a Rússia ainda longe de serem (ou voltarem a ser) potências globais, o presente e o futuro imediato pertencem de fato a dois polos. Um é Washington, em decadência relativa, mas ainda no controle da maior economia, do maior poder militar e das finanças internacionais. O outro é Pequim, em franca ascensão, possivelmente o maior PIE a partir de 2016 e desde já a maior produtora de manufaturados, maior produtora e consumidora de energia e líder em vários outros indicadores de força bruta produtiva, inclusive aço, cimento, estanho, trigo e arroz.

Coincidentemente, em novembro de 2012 ambas as potências definiram suas lideranças para os próximos anos. Em um amargo processo eleitoral, os EUA reelegeram Barack Obama por quatro anos e mantiveram o controle republicano da Câmara e o democrata do Senado. Depois de expurgar Bo Xilai e isolar seus neomaoístas, a China, ou melhor, seu Partido Comunista, conseguiu certo consenso ao escolher Xi Jinping para governar o país pelos próximos cinco anos – dez, na prática, visto ser a reeleição quase certa – e em tese manter a linha reformista moderada da década de Hu Jintao, apoiada

pela maioria do partido.

Nos dois casos, a aparência é de continuidade, mas tanto os EUA quanto a China passam por fases críticas. O sistema político de Washington necessita reacomodar-se externamente a um mundo no qual diminuiu sua importância relativa e rever seus processos internos, ameaçados de paralisação pela incapacidade de suas forças conservadoras e liberais de negociar um projeto comum de médio prazo. Pequim, apesar do sucesso aparente em reprimir e controlar dissidências, precisa enfrentar desafios internos inéditos decorrentes do próprio crescimento e, ao mesmo tempo, abrir caminho no cenário internacional para acomodar suas pretensões crescentes com perigosas cotoveladas nas velhas potências. Ao reeleger essencialmente os mesmos Executivo e Legislativo, os EUA garantiram a continuação do impasse que ameaça paralisar o país. A maioria dos dois partidos concorda (apesar das objeções de keynesianos como Paul Krugman) em reduzir o déficit público, mas, enquanto para os democratas o aumento da arrecadação tem de ser parte da solução, os republicanos insistem em reduzir os impostos pagos pela elite e desmantelar as funções sociais do governo federal. Com isso, aprofundaram os conflitos étnicos e de classe sem evitar o segundo mandato de Obama, mas nem por isso mudam de atitude. Ao contrário, parecem cada vez mais reféns de suas bases exaltadas.

O sonho impossível do retorno aos anos 1950,que apela a uma classe média branca conservadora em decadência relativa, é alimentado e manipulado para criar uma tropa de choque com a qual multimilionários pretendem livrar-se de impostos e regulamentos e abrir mais espaços a empreendimentos e especulações, derrubando restrições trabalhistas e ambientais e privatizando funções tradicionais do Estado como a educação fundamental, a assistência social e a defesa civil.É seu caminho para retomar a expansão dos lucros em uma economia transformada em jogo de soma zero, na qual o crescimento acelerado é impossível.

Essa corrente não pôde conquistar a maioria e a demografia tornará ainda mais difícil consegui la no futuro, mas tem apoio suficiente para bloquear as iniciativas do governo e a negociação do orçamento e do teto da dívida pública. Há meses o impasse mantém o país à beira de um “abismo fiscal”, no qual, sem autorização do Legislativo para emitir mais títulos de dívida, o governo seria paralisado e os EUA retornariam à depressão. A chantagem pode se concretizar em janeiro, com o efeito de enfraquecer ainda mais a nação e suas perspectivas e realimentar a exaltação dos conservadores, em um círculo vicioso sem saída à vista.

A China enfrenta um impasse de outro tipo. Seu crescimento extensivo, baseado em simples expansão da indústria de exportação, atingiu limites a partir dos quais precisa se tornar intensivo, baseado em aumento de produtividade, consumo interno e qualidade de vida. O aumento anual do PIE ainda é alto, mas são igualmente grandes a dificuldade da transição e a urgência de satisfazer as demandas diversificadas de uma sociedade cada vez mais complexa. É inevitável que alguns setores decaiam e gerem focos de desemprego e frustração antes que pessoas e capitais possam ser absorvidos por outras áreas e que o povo chinês desenvolva aspirações por reformas sociais, culturais e políticas para as quais o regime não tem respostas prontas. Um crescimento de 7%, 6%, 5% bastará para acomodar essas demandas?

A nova geração de líderes, filhos de revolucionários, é mais cosmopolita e de formação mais diversificada do que a de Hu Jintao e Wen Jiabao, dominada por engenheiros obcecados por produção e com poucos contatos no exterior. Xi Jinping morou uma semana com uma família dos EUA em 1985 ao representar a província de Hebei no “estado irmão” de Iowa e seu premier Li Keqiang formou-se em Direito e Economia e é fluente em inglês. Mas será o suficiente?

Ao mesmo tempo, a demanda de matérias-primas e energia da China a coloca em rota de colisão, no mínimo de polarização, com os interesses dos EUA e do Japão e a leva a mudar a função de suas Forças Armadas, que passam de um papel apenas defensivo ao de projeção de poder, além de buscar alternativas à hegemonia financeira do dólar. Enquanto isso, o Pentágono começa a reposicionar forças no Pacífico. Nos próximos anos, Obama e Xi serão tentados a reinventar a Guerra Fria, tanto para assegurar o fornecimento de insumos essenciais quanto para usar a ameaça externa para reduzir dissensões internas. É ilusão pensar que o fim do proselitismo revolucionário comunista, a estrutura cada vez mais capitalista da economia chinesa e a importância do comércio entre as duas potências bastam para prevenir enfrentamentos. Os impérios europeus dos anos 1890 e 1910 tinham ideologias semelhantes, comerciavam intensamente entre si, mas nem por isso deixou de haver a Primeira Guerra Mundial.

 

Nem a BBC escapa da decadência

            A CREDIBILIDADE da rede de tevê britânica BBC, uma instituição nascida há nove décadas, jamais foi questionada. Ao longo dessa história, iniciada na era do rádio, sua honestidade, rigor, criatividade e credibilidade sempre tiveram reconhecimento mundial.

Debates políticos na Radio 5 Live e programas de tevê como o Panorama, responsável por denunciar a corrupção na Fifa, servem de base para ojornalismo mundial. O Today e o Newsnight, que exibem reportagens longas e bem fundamentadas, alcançam grande audiência, apesar de destoar do padrão televisivo atual no qual imperam o entretenimento e a superficialidade.

Ainda assim, a BBC vive momentos difíceis faz tempo. Primeiro, foram os ataques conservadores em seu próprio país, aliados a interesses comerciais capitaneados por magnatas da mídia do porte de Rupert Murdoch. Agora, o canal sofre com seus erros internos, cometidos justamente em um campo minado: o abuso de menores. No sábado 10, o diretor-geral, George Entwistle, de 50 anos, renunciou, após uma passagem relâmpago de 54 dias pelo cargo. Os motivos foram dois, ambos a envolver o programa Newsnight.

            o primeiro: no fim do ano passado, A BBC não levou ao ar uma investigação realizada pelo programa sobre Jimmy Savile, ex-apresentador vedete da emissora que teria abusado sexualmente de cerca de 300 crianças e jovens durante cinco décadas de carreira. Savile, um excêntrico solteirão com cabelos loiros platinados falecido no ano passado aos 84 anos, agia nos vestiários da BBCe nos hospitais para os quais doava enormes somas. A edição do Newsnight foi substituída por tributos natalinos ao apresentador.

O segundo: em 2 de novembro, o Newsnight implicou um ex-tesoureiro da premierconservadora Margaret Thatcher emum caso de pedofilia. A rede de tevê não deu o nome da vítima, mas as redes sociais seguiram as pistas deixadas pelo programa e, unânimes, identificaram o suposto pedófilo, Lord Alistair McA1pine.Detalhe: o ex-ministro, de 70 anos, é inocente. Avítima pediu desculpas por suas acusações.

Causa estranheza o fato de a BBC ter levado ao ar um programa baseado nas afirmações de apenas uma vítima. Por que a reportagem não mostrou uma foto de McAlpine para a suposta vítima? E por que McAlpine não foi ouvido? O que aconteceria com a BBC? Para certos críticos, os cortes orçamentários contribuíram para a débâcle do até agora reputado Newsnight. De fato, o orçamento da atração foi reduzido pela metade: de 16 milhões de dólares anuais em meados da década passada para os atuais 8 milhões.

Um repórter da BBC disse a CartaCapital que o problema é a falta de liderança. Diretores recebem salários astronômicos e não parecem estar em sintonia com a instituição. Andrew Marr, o entrevistador de um programa dominical da BBC, comentou: “Há mais líderes sênior na BBC do que no Partido Comunista Chinês”.

Eis a questão: Entwistle, o diretor-geral, não sabia nada a respeito do abortado programa sobre Savile?Consta que o produtor mostrou entusiasmo com a investigação, fruto de uma entrevista com uma única fonte. Ordens do alto escalão da BBCproibiram, porém, a exibição do programa. À época, o diretor geral da BBC era Mark Thompson, no posto por oito anos, até setembro. Atualmente, chefe-executivo da The New York Times Company, Thompson alega não ter sido informado sobre o caso. Mas disse estar disponível para responder a perguntas de comissões parlamentares no Reino Unido. Segundo o semanário The Economist, um jornalista teria mencionado o programa sobre Savile para o Newsnight a Thompson. Parêntesis: como se viu no caso das falcatruas das empresas de Murdoch e agora no episódio da BBC,jornalistas não escapam de depor no Congresso a respeito de seus erros. No Reino Unido, berço do jornalismo contemporâneo, tais convocações nunca foram nem serão consideradas ameaça à liberdade de imprensa.

É por essas e outras que numerosos cidadãos e parlamentares, inclusive o premier David Cameron, criticam a decisão da BBC de indenizar em 715 mil dólares Entwistle por sua renúncia. A situação é preocupante para os britânicos, pois a rede é uma instituição pública com 23 mil funcionários e orçamento anual equivalente a 16 bilhões de dólares.

Cada moradia deve, por lei, pagar uma licence fee (leia imposto) de 230 dólares ao ano. Em uma época em que centenas de canais estão disponíveis, os britânicos não deveriam ter a opção de pagar ou não o imposto para receber os canais da BBC?E como justificar o generoso pacote recebido por um homem que durante apenas 54 dias tentou sem sucesso escamotear os problemas da emissora?

Entrevistado por Andrew Marr, Chris Patten, presidente da Fundação BBC(BBC Trust), argumentou que o pacote oferecido a Entwistle era “necessário”. Entwistle deveria, segundo o contrato assinado, receber a metade. Segundo Patten, longas negociações postergariam o que agora tem de ser feito: restaurar a credibilidade editorial da rede: ”A BBCprecisa de uma reforma total, estrutural e radical”. Dentro de semanas a instituição terá um novo diretor-

geral, garantiu o ex-ministro do Partido Conservador e último governador colonial de Hong Kong. Patten disse, ainda, que o escândalo não representa o fim da BBC.Duas investigações internas têm como objetivo descortinar a cultura da época em que Savile trabalhava e buscar o motivo pelo qual a emissora desistiu de levar ao ar o documentário sobre Savile.

Até os paralelepípedos de Downing Street, o endereço do premier britânico, sabem há ao menos duas décadas que Savile era um predador de adolescentes. Até meados dos anos 1990, ele foi um dos maiores apresentadores da tevê, com seu programa Jim’ll Fix It. Seu produtor durante 20 anos diz nunca ter suspeitado de nada. Será? Segundo owebsite do diário The Guardian, ao menos três médicos de um hospital ajudavam Savile a ter contato com menores. O jornalista foi investigado por pedofilia seis vezes, mas nunca processado. Consta que ele chegou a pagar (com sucesso) para os pais de uma menina retirarem uma queixa.

Por que, se for o caso, colegas e médicos se calaram durante tanto tempo? Savileera poderoso. Com seu charuto na boca, repleto de joias e sempre com abrigos de moletom, esse ex-DJ era um intocável mito.

Nos quartos dos três hospitais para onde levava meninas, ninguém via nada. Aprovável razão? Savile doou 65 milhões de dólares a instituições de caridade.

 

Menos pobre e desigual

            ESPREMIDA EM uma língua de terra, que se projeta no azul do Atlântico, perto do centro do Recife, no nordeste brasileiro, Brasília Teimosa foi, algumas décadas atrás, uma favela de pescadores, com barracos de madeira. Hoje suas ruas são ladeadas por casas de alvenaria, algumas com três andares e revestidas de azulejos decorados, e outras construídas de maneira improvisada. Tem restaurantes de peixes, lojas e algumas agências bancárias, mas também montes de lixo não recolhido. Muitos marqueteiros e economistas chamariam seus moradores de integrantes da florescente “nova classe média”, que se tomaram ávidos consumidores.

Não é assim que Francisco Pinheiro, líder comunitário que nasceu em Brasília Teimosa, vê as coisas. “Economicamente, está muito melhor que antes”, diz. “Mas uma pessoa de classe média é alguém que mora em Boa Viagem, com um carro, um apartamento e uma renda de 3 mil reais por mês.” Em Brasília Teimosa, acrescenta, a maioria ganha menos de dois salários mínimos (l.244 reais), muitas vezes dividido com uma famíliade quatro pessoas ou mais.

O sentido de classe social, finamente sintonizado por Pinheiro, se encaixa perfeitamente nas definições utilizadas pelo Banco Mundial em um novo estudo pioneiro. Depois de esmiuçar os números de pesquisas domiciliares em toda a região, ele reconhece que a classe média latino-americana se expandiu 50%, de 103 milhões, em 2003, para 152 milhões, em 2009. Isso representa um progresso social extraordinariamente rápido. Mas significa que somente 30% da população da região está na classe média Um grupo maior saiu da pobreza, mas por pouco, assim como muitos moradores de Brasília Teimosa

O que significa ser da classe média é uma questão de definição e discussão. Sociólogos e cientistas políticos definem a classe média de acordo com a educação, a posição ocupacional e a propriedade de bens. Os economistas, por sua vez, tendem a considerar a renda um fator determinante da classe.

Os economistas do banco vão na direção da sociologia ao definir a classe média

em termos de segurança econômica Segundo eles,para uma familia latino-americana não ter mais de 10% de probabilidade de cair de volta na pobreza, em um período de cinco anos, é necessária uma renda de ao menos 10 dólares por pessoa por dia (em taxas de câmbio de paridade de poder de compra). Eles definem as pessoas com renda de mais de 50 dólares por dia, apenas 2% dos latino-americanos, como ricas. O banco chama aqueles com uma renda diária entre 4 e 10 dólares de ”vulneráveis” ou “classe média baixa”. Elas formam o maior grupo. A porcentagem de latino-americanos que vive na pobreza, definida como uma renda diária inferior a 4 dólares, caiu de 41,4%, em 2000, para 28%, em 2010.

Esse progresso social é conseqüência de uma rara combinação de crescimento econômico mais rápido, baixo desemprego e queda da desigualdade de renda. A renda por pessoa na América Latina cresceu a uma média anual de 2,2% entre 2000 e 2010, um degrau acima das duas décadas anteriores. E a desigualdade de renda caiu no mesmo período em 12 dos 15países com dados disponíveis (embora a América Latina continue a rivalizar com a África meridional como a região mais desigual do mundo). A redistribuição; por esquemas condicionais de transferência de dinheiro e outros programas sociais, ajudou a reduzir a pobreza. Mas a maior parte da expansão da classe média veio do crescimento mais rápido.

Ao todo, o banco reconhece que dois, em cada cinco latino-americanos, se moveram para cima entre 1995 e 2010, embora poucos tenham feito o salto diretamente da pobreza para a classe média Os

que subiram tenderam a ter mais anos de escolaridade. Mas o banco adverte que a América Latina continua uma terra de oportunidades desiguais: as crianças, cujos pais tiveram menos anos de escolaridade, tendem igualmente a ter menos educação que seus pares da classe média

Um raio de esperança: nos últimos 15 anos, o número médio de anos de freqüência à escola entre jovens latino-americanos aumentou acentuadamente, o que reduziu a lacuna educacional gerada pela classe social. Mas a diferença na qualidade das escolas frequentadas pelos ricos e pelos pobres é maior na América Latina do que em qualquer outro lugar. A educação superior também se expande e tende a ser um passaporte para a classe média Mas seu custo, sobretudo em perda de renda no trabalho, desanima os estudantes mais pobres e torna vitais os empréstimos estudantis.

Outros estudos recentes argumentaram que a classe média latino-americana é muito maior do que o banco percebe. Um estudo de 2010 feito pela OCDE, um grupo de países ricos, admitiu que 275 milhões de habitantes na região, ou pouco menos da metade da população, eram da classe média. A OCDE usou uma definição relativa e contou todos aqueles com renda entre 50% e 150% da média. Mas a renda média varia amplamente nos países latino-americanos, o que dificulta montar uma imagem regional.

As implicações políticas da crescente classe média latino-americana ainda não estão claras. Alguns comentaristas afirmaram que a “nova classe média” é empreendedora, parcialmente originária do setor informal e será hostil ao estatismo e aos altos impostos. (Na verdade, o banco concluiu que a classe média tende a ser empregados assalariados de empresas privadas.) Alguns deles enviam seus filhos para escolas particulares que surgiram em muitas comunidades antes pobres. Mas outras vozes discordam. André Singer,um cientista político brasileiro, afirma que, em vez de uma nova classe média, a ascensão em renda e empregos da última década produziu “um novo proletariado”, oriundo de pessoas que antes eram pobres demais para constituir uma classe social coesa

Augusto de la Torre, o economista-chefe do Banco Mundial para aAmérica Latina, indica que a classe média poderá formar um eleitorado que force o Estado a oferecer serviços de melhor qualidade. Ou ela poderia decidir não utilizar os serviços estatais, que poderiam piorar em consequência. Isso importa para que o crescimento da classe média seja sustentado. Manter o progresso exigirá as políticas públicas certas. Enquanto diminuem os altos preços das matérias-primas e o excesso de liquidez global,sustentar o crescimento econômico exigirá mais reformas, opina De la Torre. Evitar que os “vulneráveis” deslizem de volta significa ajudá-los a manter seus empregos com programas de treinamento e informação. Criar igualdade de oportunidades exige investimento em melhores escolas e centros de saúde. Mas em muitos países latino-americanos (exceto Brasil e Argentina) os impostos são baixos demais para financiar serviços de boa qualidade.
Mais-Valia

Unidos contra o governo

Não será nada fácil garantir o corte das tarifas elétricas a partir de janeiro de 2013, como deseja Dilma Rousseff. O descontentamento no setor é crescente desde que o planalto enviou ao Congresso a MP 579, em 11de setembro. A proposta para renovar por 30 anos as concessões de usinas, empresas de transmissão e distribuidoras encontra resistência de sindicatos, acionistas, especialistas e governadores no controle de elétricas, destaque para a paulista Cesp e a mineira Cemig. As novas regras cortam em 70%, em média, o valor pago pelas tarifas, o que afetará a lucratividade do setor. Diante do novo cenário, as ações derretem No caso da Cesp, os papéis do tipo PN, com preferência nos lucros, caíram de 29,90 reais para 16reais desde o início do imbróglio (menos 46%). O estopim mais recente foi a queda do diretor de Relações com os Investidores da empresa, Vicente Okazaki, que deixou acompanhia após divulgar uma nota com críticas à MP e anunciar a intenção de questioná-la na Justiça. Okazaki foi, porém, desautorizado pelo secretário de Energia, José Aníbal, segundo quem o governo paulista estuda abrir um processo e cogita devolver a concessão. Em nome dos interesses mineiros, o senador Aécio Neves (PSDB), por sua vez, afirmou que pretende ir ao STF, caso o governo não volte atrás.

 

Assim não brinco mais

Em meio ao tiroteio contra a MP 579,dois fatos chamaram a atenção dos analistas. Primeiro, um documento encaminhado pela direção da Eletrobras ao Ministério de Minas e Energia, divulgado pelo Valor Econômico, no qual a principal estatal do setor elétrico, controlada pela União, calculava um prejuízo de 11bilhões de reais em 2012,caso fossem aplicadas as novas regras a partir de janeiro de 2013.”A Eletrobras ficará incapacitada de fazer a contrapartida dos seus investimentos, cumprir com o pagamento das dívidas e dos dividendos.” Em outra frente, sócios minoritários das elétricas consideram ser melhor devolver as concessões, com prazos de vencimento entre 2015e 2017,a aceitar as regras propostas. Controlada por um grupo colombiano, a Cteep afirma que não renovará sua concessão. A paranaense Copel afirmou que o novo marco tornará o sistema elétrico brasileiro menos confiável. As concessionárias têm até 4 de dezembro para aderir às regras.

 

Urna nova identidade

A Schincariol não existe mais, ela agora se chama oficialmente Brasil Kirin. A extinção da marca brasileira de 73 anos, nascida em Itu, no interior paulista, está entre as mudanças com a venda do controle para a japonesa Kirin, negócio fechado em 2011 por 6,5 bilhões de reais, em clima conturbado com os sócios minoritários. Em princípio, serão mantidas as 14 marcas, caso da Devassa e da Nova Schin, e está prevista uma ampliação do portfólio de bebidas em 2013. A Kirin Holdings faturou 316 milhões de dólares neste ano até setembro, menos que no ano passado por causa da redução das vendas no Japão. No Brasil, ela ocupa a terceira posição no mercado de cerveja, com 17%de participação, e tem 7% do mercado de refrigerantes.

 

Um Mendonça de Barros no PT

Ele não é economista, nem seu pai se chama Dominique, como circulou na segunda-feira 12, inclusive em sites de modo geral dignos de fé. Marcos de Barros Cruz, 37 anos, o novo secretário de Finanças da cidade de São Paulo, formou-se em engenharia eletrônica pela Unicamp, pós-graduado em gestão pela Insead. Sobrinho dos economistas Luiz Carlos e José Roberto Mendonça de Barros, é filho do também economista Paulo Davidoff Cruz, professor aposentado do IE-Unicamp e próximo do PT. Na prefeitura paulistana, Marcos Cruz, há 15 anos na consultoria McKinsey, terá pela frente a espinhosa tarefa de renegociar a dívida da cidade, de cerca de 70 bilhões de reais.

 

COMO O BC QUERIA

O câmbio acabou de estacionar exatamente no ponto em que o Banco Central batalhou para ele encostar. Após as vigorosas intervenções realizadas nos últimos 12 meses, que forçaram uma maxidesvalorização do real de quase 20%, o câmbio está pronto para ir na direção desejada pelo BC. Poderá, se quiser, deslocar para cima a atual banda de flutuação do dólar. Há meses, a moeda americana está autorizada a se deslocar minimamente, entre o piso de 2,01 e o teto de 2,05 reais. As condições de mercado favorecem a instalação de uma banda mais alta, com 2,05 reais estampando o chão, e 2.10, o topo. O BC quer isso?

As indicações são de que não se trata de desejo, mas de necessidade. Um real mais desvalorizado parece ser fundamental na recuperação da balança comercial. No acumulado do ano até a segunda semana de novembro, o superávit alcançou apenas 18,26 bilhões de dólares, ante 26.45 bilhões em igual período de 2011.

A maior parte do fluxo cambial negativo em outubro resultou do mau desempenho comercial. Enquanto o fluxo financeiro foi deficitário em 1,54 bilhão de dólares, o comercial perdeu 2,29 bilhões. Uma moeda desvalorizada, que favoreça as exportações e encareça as importações, é condição essencial para qualquer país atravessar crises, estagnações e abismos fiscais.

O principal inconveniente dessa política seria, em tese, as consequências inflacionárias. O BC não se mostra preocupado com elas, sustenta sua previsão de que no terceiro trimestre de 2013 o IPCA estará no centro da meta de inflação (4,5%). E o mercado vem reduzindo as previsões há nove semanas. A inflação projetada para os próximos 12 meses recuou de 5,67% na primeira semana de setembro para 5,33% na semana passada.

Será fácil para o BC deslocar a moeda norte-americana? Basta não fazer nada. O real só não está se desvalorizando mais rapidamente porque os bancos ampliam as posições vendidas no mercado à vista, hoje acima de 3,6 bilhões de dólares. Como logo irão bater no limite legal de 1 bilhão por instituição, não haverá mais quem venda a moeda. Só o BC terá esta capacidade, e colocará o preço onde desejar.

 

No Olimpo do futebol

Ao DESEMBARCAR em Riad, na terça-feira 13, para o amistoso da Argentina contra a Arábia Saudita, o craque Lionel Messi, por três vezes consecutivas eleito o melhor jogador de futebol do mundo, mostrava-se desconfortável com o assédio de jornalistas no aeroporto e a escolta de soldados com fuzis displicentemente apoiados sobre os ombros. A feição de assombro diante da belicosa recepção contradiz o momento de glória que o atacante vive. Dois dias antes, o argentino marcou dois gols na vitória do Barcelona sobre o Mallorca, por 4 a 2, fora de casa, e ultrapassou Pelé no ranking dos atletas com maior número de gols em um mesmo ano.

o atacante do Barça chegou a 76 gols, ante 75 da maior marca de Pelé, conquistada em 1958. O recorde ainda é do alemão Gerd Müller, com 85 gols marcados em 1972.Mas o argentino tem pela frente outros nove jogos oficiais até o fim de 2012.Não causaria espanto se ultrapassasse o lendário artilheiro do Bayern de Munique. Além disso, na última partida da seleção, um empate sem gols contra os árabes, Messi mostrava-se animado ao reencontrar um velho amigo, o técnico holandês Frank Rijkaard, hoje no comando do time saudita. Foi o treinador quem, oito anos atrás, incluiu Messi no time profissional do Barcelona. “É o melhor jogador que já vi”, afagou Rijkaard, pouco antes do amistoso.

A estreia de Messi no clube catalão deu-se no Estádio Olímpico Lluís Companys, em 16 de outubro de 2004. Com apenas 17anos e longos cabelos a encobrir o rosto de menino, jogou por apenas

oito minutos, em substituição ao brasileiro Deco, durante a vitória do time catalão contra o Espanyol, por 1 a 0. À época, a camisa 10 do Barcelona era de Ronaldinho Gaúcho, craque brasileiro que não resistiu ao tempo. Apesar da tímida estreia, Messi mostrava que daria trabalho aos adversários com sua potente perna esquerda. O tempo mostraria que a aposta de Rijkaard não poderia ser mais feliz.

Em março de 2012, com 25 anos incompletos, Messi se tornaria o maior artilheiro da história do Barcelona. Superou o ídolo do clube catalão nas décadas de 1940 e 1950,César Rodríguez. Tem no currículo um título mundial da Fifa, três Ligas dos Campeões da Uefa, quatro campeonatos espanhóis, além de uma Copa do Rei e uma Super Taça. Todos com a camisa azul-grená. Relativamente franzino para o padrão dos atletas de hoje, é uma unanimidade entre os aficionados por futebol

Ninguém se arrisca a apontar outro atleta com tanto talento nos gramados, hoje. Mesmo assim, não é o mais bem pago. O atacante camaronês Samuel Eto’o é quem detém o maior salário do mundo, segundo o ranking do jornal espanhol Marca: 20 milhões de euros por ano, pagos pelo clube russo Anzhi, financiado por um bilionário do ramo de petróleo. É quase o dobro do que recebe Messi, 10,5 milhões de euros ao ano. Coisas do mercado da bola.

Messi parece não se importar. Introvertido, foge do assédio da mídia, evita as festas de celebridades e não ostenta roupas de grife ou artefatos luxuosos. Uma prova do fascínio exercido pelo craque, e de seu incômodo com essa situação, ocorreu em 12de junho de 2010, após a vitória da Argentina sobre a Nigéria, na primeira rodada da Copa da África do Sul. A aglomeração de repórteres para entrevistá-lo era tão grande na zona mista do Ellis Park, histórico estádio de Johannesburgo, que alguns deles caíram no chão aos pés do jogador. Ainda assim, mantinham os gravadores em riste para não perder qualquer declaração. Messi, estarrecido diante da cena, se calou, enquanto o assessor de imprensa da Fifa gritava com os jornalistas: “Animales, animales!”

o craque argentino se comporta, segundo Tostão, atacante da Seleção Brasileira tricampeã em 1970,com a discrição de um autêntico “funcionário público”, a cumprir o seu ofício e evitar os holofotes. Graças ao seu talento, à incrível capacidade de driblar os adversários como se a bola estivesse colada em seus pés, de conduzi-la com velocidade sem perder o controle e de bater nela com precisão implacável, Messi tornou a velha comparação entre Pelé e Maradona obsoleta. Toda a mídia esportiva comenta, da Europa à América do Sul: o craque do Barça está devidamente credenciado para entrar na disputa pelo título de melhor jogador da história.

Até mesmo nos Estados Unidos, país sem tradição no futebol, o tema estampou uma capa da revista Time em fevereiro deste ano. “Lionel Messi é o melhor jogador de futebol do mundo – possivelmente de todos os tempos. Então, por que seus compatriotas não o amam?”, resumiu a publicação, em alusão ao fato de os argentinos não o cultuarem como fazem com Maradona. Na terça feira 13,seria a vez do New York Times entrar na discussão, com o artigo “O que separa Messi e Pelé? Uma Copa do Mundo”. Odiário americano explorou acomparação que há tempos povoa as páginas dos jornais europeus. Exagero? Não é o que pensa o ex-jogador Franz Beckenbauer, herói da conquista alemã na Copa de 1974e atual dirigente do Bayern. “Pelé continua sendo o melhor jogador que eu já vi na minha vida. Mas Messi está ganhando terreno e talvez possa tirar seu posto”, afirmou, um ano atrás, durante o 61°Congresso da Fifa, quando o recorde do brasileiro ainda parecia intocável.

Avaliação semelhante é feita pelo jornalista esportivo Juca Kfouri, para quem Messi já é tecnicamente melhor do que Maradona e pode superar pelé, ao menos nos números. “O que distingue Messi dos jogadores de hoje é que ele tem as melhores características dos atletas de ontem, como Beckenbauer, Cruyff e Pelé. Ele faz seu ofício,jogar bola, conduzi-la até o gol, sem malabarismos desnecessários, sem cavar falta ou simular si~ações, como faz Neymar, como fizeraIT\Ronaldinho Gaúcho e mesmo Maradona”, avalia.”Messi não aderiu ao futebol dos fingidos. Ele jamais perdeu um gol para cavar um pênalti. Ao contrário, já aconteceu de sofrer a penalidade e o juiz não marcar, porque, em vez de cair, optou por dar um passe ao companheiro.

Kfouri reconhece ser complicado fazer comparações com jogadores que atuaram em épocas distintas, mas diz preferir o Messi de hoje ao Maradona dos melhores tempos no seu time dos sonhos. “Sem nenhum demérito a esse último”, garante. “Messi não ganhou nenhuma Copa, é verdade. Maradona praticamente carregou a Argentina nas costas na Copa de 1986. Mas não dá para usar somente esse critério. Zico, Sócrates e Falcão não venceram em 1982, mas deixaram seus nomes na história do futebol mundial. Quem, em sã consciência, trocaria um deles pelo Luizão, que ganhou a Copa de 1994?Sem falar que Messi ainda tem pelo menos duas Copas do Mundo pela frente. Pode brilhar.”

A juventude é mais um trunfo do craque. Messi ainda nem chegou à maturidade como jogador de futebol, algo que os especialistas calculam acontecer quando o atleta atinge os 28 ou 29 anos de idade. Contra ele, apenas o porte físico.O jogador, de 1,69metro e 67quilos, parece um garoto diante dos enormes e troncudos zagueiros que povoam o futebol europeu. “Ele não é alto, não é forte, não tem o mesmo preparo físico de Cristiano Ronaldo. Talvez por isso, não consiga deslocar o adversário com o corpo, não cabeceie tão bem. Na minha avaliação, ele só não é melhor que o Pelé por conta disso”, afirma Tostão, parceiro de tabelinhas do maior astro brasileiro na Copa de 1970.”Pelé era um jogador completo. Atlético, deslocava os adversários,jogava o corpo contra eles, cabeceava primorosamente. Mas Messi tem outras virtudes, é mais centrado. Quando o jogo estava difícil, a marcação era implacável, o Pelé ficava bravo. Parecia uma fera em campo. Empurrava o zagueiro, cavava uma falta, gritava, gesticulava. Messi não, ele mantém acalma. Jogado mesmo jeito do começo ao fim da partida, o que às vezes passa a impressão equivocada de que não se dedicou tanto a uma partida decisiva, como ocorreu na final da Liga dos Campeões contra o Chelsea. Mas ele jogou muito!”

Outro aspecto que chama a atenção é a regularidade do argentino. “É uma espécie de jogador universal, aquele tipo que todo torcedor gostaria de ter no seu time”, afirma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras e consultor editorial de Carta Capital (coluna àpág. 67).”Ojogador universal não é o virtuose do drible desconcertante, mas o descobridor de espaços ou, como dizem os boleiros, ‘o cara que lê o jogo’. Pois o craque argentino é um virtuose que ‘lê o jogo’. Vi poucos como ele ao longo de minha nem tão curta vida de torcedor de futebol. pelé, certamente, Puskas, Ademir da Guia, Roberto Baggio, Zico…”

Messi sempre contrariou a lógica. Ainda criança, ingressou nas divisões inferiores do seu clube de coração, o Newell’s Old Boys, de Rosário, na Argentina. Ao completar 11anos, foi diagnosticado com um problema hormonal que retardava seu crescimento ósseo. Por um ano e meio, precisou aplicar injeções alternadas em cada perna para suprir a deficiência. Foi quando a família, de parcos recursos, decidiu levar o garoto para se tratar em Buenos Aires e o ofereceu ao River Plate. O clube portenho se dispôs a dar abrigo ao jovem atleta, mas não quis arcar com os custos da terapia, cerca de 900 dólares por mês.

O pai, Jorge Messi, decidiu então levar o filho para a Espanha, onde parentes o acolheram. Já com 13anos e 1,40 metro de altura, o garoto só seria contratado pelo Barcelona após o diretor desportivo do clube, Carles Rexach, vê-lo jogar com desenvoltura com adolescentes mais velhos e mais altos. O tratamento e o custeio de toda a família passaram a ser arcados pelo time catalão. “Em meus 40 anos de futebol, já mais havia visto coisa semelhante. De cinco situações de gol, converteu quatro”, lembrou Rexach, quando Messi já tinha 29 centímetros a mais e havia se tornado o melhor do mundo. “Seu primeiro contrato eu assinei, simbolicamente, em um guardanapo. Não podia deixá-lo escapar.”

Messi é a prova de que a inteligência é mais importante que a força no futebol, avalia Afonsinho, craque do Botafogo dos anos 1960 e primeiro atleta brasileiro a ganhar na Justiça o passe livre. “Aquele ratinho veloz faz confundir o real com desenho animado. Que monstros ameaçadores podem estar por trás daquela floresta de troncos gigantes? Com astúcia, o ágil e esperto pode vencer. Uma fábula”, registra o ex-jogador, em sua coluna à pág. 69.

Mino Carta, diretor de redação de Carta-Capital, lembra um longínquo diálogo comSócrates, ídolo da Democracia Corintiana eda Seleção Brasileira de 1982.”À época, pergunteiquem havia sido melhor, Peléou Maradona?Sócrates me alertou que essas comparaçõessão necessariamente imprecisas,por se tratar de tempos diferentes. Por fim,confidenciou que, de certa forma, Maradonaemocionava mais.” Para Sócrates, Peléera um atleta perfeito, tinha 1,72metro euma compleição física admirável,de acrobata.No primeiro gol contra a Itália, na Copade 1970,por exemplo, conseguiu saltar bemmais alto que Tarcisio Burgnich, zagueirode 1,83metro, e cabecear a bola para o gol.Maradona, não.Apesar de ser robusto, nuncateve o porte atlético de Pelé. Tinha cabeçae pernas desproporcionais em relação aotronco. Foi genial com 1,65metro de altura.

“Agora, eu me pergunto, o que diria Sócrates sobre Messi”, especula Mino Carta. “Acredito que a resposta seria a mesma. Messi emociona. Tem estatura menor que Pelé e é franzino, ainda mais para os padrões atuais. Parece aquele aluno, o primeiro da classe, que escapou da aula e está gazeteando para se divertir um pouco. Acompanho o futebol há cinco décadas. E, embora tenha visto jogadores excepcionais, como Cruyff e Zidane, a sequência dos melhores parece mesmo ser Pelé, Maradona e Messi.

Para calar definitivamente os críticos, Messi só precisa romper um obstáculo. Vencer com brilho uma Copa, único título que parece faltar em seu estrelado portfólio. Seu desempenho pela seleção nacional tem melhorado. Num amistoso contra o Brasil, em junho, foi responsável por três dos quatro gols da Argentina, na vitória de virada por 4 a 3.Atuações como essa podem ajudar a superar a imagem negativa do Mundial da África do Sul, quando o seu desempenho ficou a desejar, ainda que Messi tenha jogado numa posição na qual não estava acostumado, mais recuado.

“Messi seria um jogador excepcional em qualquer época. Mas no atual cenário, de um futebol frio e burocrático, ele vira deus. Num Barcelona repleto de craques, como Iniesta e Xavi, ele sabe jogar com o time, destaca-se sem querer resolver tudo sozinho. Na seleção argentina, com jogadores de qualidade técnica muito inferior, não rende tanto”, pontua o escritor Eric Nepomuceno, tradutor de grandes clássicos da literatura latino-americana, assíduo frequentador de Buenos Aires, onde viveu por muitos anos, e profundo conhecedor da alma argentina.

Nepomuceno acredita que a aparente apatia dos argentinos em relação a Messi se deve, em parte, ao fracasso da seleção na última Copa. “Em 2010, todos apostaram nele como o salvador da pátria. Mas o time decepcionou. Até Deus tem certo limite para fazer milagres. O melhor piloto do mundo não vence uma prova de Fórmula I com um carro popular ou danificado. Mas Maradona fazia esse tipo de milagre.jogava por 10.” Quanto ao recente feito de Messi, ao quebrar a marca de gols de Pelé num mesmo ano, o escritor faz pouco caso: “O Pelé deveria estar numa temporada ruim”. Ao ser alertado de que se tratava de um recorde, e não da comparação especifica de um ano com o outro, o escritor explica a piada: “Eu sei. Não importa, Pelé é melhor e ponto”.

Necessariamente imprecisas por conta das épocas distintas, como alertou Sócrates, as comparações também esbarram nesse obstáculo aparentemente intransponível: a paixão de cada torcedor

 

A praga da liderança Prozac

            Do INEVITÁVEL Bergman ao movimento Dogma 95, e além …Ocinema escandinavo sempre ofereceu alternativas aos interessados em fugir do entediante escapismo hollywoodiano. A Arte do Pensamento Negativo é uma comédia de humor negro norueguesa, realizada em 2006. O filme, escrito e dirigido por Bârd Breien, foi apresentado na 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2010. A história gira em torno de Geirr, um homem de 33 anos que ficou paraplégico após um acidente de automóvel. O protagonista vive em uma casa de campo, na companhia de sua bela e dedicada esposa, Ingvild. Passa o tempo bebendo, fumando maconha e assistindo a filmes sobre a Guerra do Vietnã. Preocupada com o marido, Ingvild o inscreve em um grupo de autoajuda, formado por pessoas com diferentes deficiências. O grupo é liderado por Tori, uma entusiasta da autoajuda. Ela, que não tem nenhuma deficiência, proíbe os membros do grupo de dizer qualquer coisa negativa sobre seus problemas e os estimula com clichês e frases de efeito. “Focar em nossas fraquezas nos apequena, mas, se focarmos em nosso potencial, nós podemos nos tornar gigantes”, proclama Tori em uma reunião para deleite do grupo. O choque entre Tori e Geirr é inevitável. Tori tenta estimular Geirr a pensar positivamente e “concentrar-se nas soluções, não nos problemas”. Geirr, iconoclasta e irreverente, rebela-se contra a visão idílica de Tori e, de crise em crise, conquista o grupo para sua visão crítica e niilista da realidade. Aos poucos, o faz de conta induzido por Tori perde força, os membros do grupo vão se abrindo para seus próprios problemas e encontram algum consolo na honestidade e na solidariedade que começam a surgir.

O filme norueguês trata cinicamente da “cultura de autoajuda”, praga contemporânea que cruzou fronteiras nas últimas décadas e avança sobre os mais diversos domínios da sociedade, da Escandinávia aos trópicos. Sintomaticamente, a mídia popular brasileira está hoje impregnada pela lógica e pelo discurso da autoajuda. Em muitos países, a autoajuda se transformou em uma indústria milionária: palestras, livros, revistas, vídeos, treinamento, consultoria etc. O mundo corporativo foi domínio no qual a autoajuda encontrou terreno propício, com as portas escancaradas pelas deslumbradas áreas de recursos humanos. Nas empresas, o culto do pensamento positivo fomenta o otimismo, encoraja o estabelecimento de metas ambiciosas e celebra o sucesso. Contudo, sob os efeitos especiais de powerpoints apresentados emreuniões, as metas são manipuladas, o sucesso tem pés de barro.

David Collinson, professor da Escola de Negócios da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, publicou recentemente um texto no jornal britânico Financiai Times, com o sugestivo título “O lado negativo da liderança positiva”. Segundo Collinson, no coração da crise em muitas nações ocidentais, encontra-se uma abordagem específica de liderança, da qual foi extirpado o pensamento crítico em favor do pensamento positivo e da propensão ao risco. O autor denomina o fenômeno de “liderança Prozac”, mal que afeta a sociedade e as empresas e causa vício em uma positividade excessiva e artificial.

Os líderes Prozac fazem discursos delirantes, acreditam em suas próprias palavras e desencorajam visões alternativas e críticas. Alguns são carismáticos e nutrem fiéis seguidores: eles ignoram problemas e tornam suas organizações menos preparadas para enfrentar crises. Quando encontram terreno propício, criam uma “cultura positiva”, que pune ou aliena funcionários não praticantes.

Candidatos a líderes Prozac são fáceis de identificar. Eles aguardam ansiosamente as palestras promovidas pela HSM, empresa especializada em eventos de autoajuda empresarial, e discutem avidamente as pérolas ouvidas dos “grandes nomes do management”. Circulam entusiasticamente vídeos das conferências TED (Technology, Entertainment and Design), cujo grande objetivo parece ser atrair cientistas e pensadores, misturá-los com caçadores de novidades e transformar todos em celebridades de auditório.

Collinson observa que o pensamento positivo, base da liderança Prozac, pode ter certo poder de transformação, facilitando inovações e processos de mudança. Porém, o otimismo excessivo pode estimular o cinismo, erodir a confiança e provocar o afastamento da realidade. Mais sábio seria combinar doses adequadas de pensamento positivo e pensamento crítico, de forma a enfrentar realidades complexas. O ilusionismo, bem sabemos, é competência essencial nas organizações, públicas e privadas, grandes e pequenas. Porém, convém não exagerar.

 

A Nokia imaterial

            A FINLANDESA Nokia ainda pena para se reestabelecer no mercado de smartphones, mesmo sendo uma das poucas parceiras da Microsoft para o lançamento de telefones com o sistema Windows phone 8. Se o caminho parece complicado em termos de hardware, é hora de apostar no lado software da equação.

Na terça-feira 13, a companhia anunciou a intenção de lançar uma versão do seu software de mapas para iPhones, iPads e iPods chamada Here. Além disso, a Nokia formalizou a intenção de lançar uma série de ferramentas capazes de permitir que aplicativos Android usem seus mapas. A parte principal do atrativo dos mapa  da Nokia é a simples precisão com que operam. A base de dados da empresa possui informações sobre mais de 200 países e é geralmente tida como tão competente quanto à do Google. Em entrevista ao blog Bits, do New York Times, o CEa da companhia, Stephen Elop, explicou que expandir o número de usuários dos seus mapas deve ajudar a melhorar ainda mais a qualidade da informação contida.

“Para que a plataforma de localização tenha maior qualidade, precisamos de escala, e precisamos de o maior número de pessoas contribuindo nesse esforço”, disse Elop. “Claro, a Nokia vai construir aplicativos para isso, alguns devem ser exclusivos para os nossos aparelhos, e isso gera uma vantagem competitiva para nós”. a sistema da Nokia aprende com os hábitos dos usuários. Quanto mais pessoas fazem buscas ou procuram endereços, mais o sistema se adapta para providenciar resultados com maior rapidez. Talvez a motivação da Nokia seja se tornar um ponto de referência universal para mapas, plataforma de navegação para os mais diferentes aplicativos e para plataformas diferentes, não importa se o telefone roda Windows Phone, ias ou Android. Pode dar tremendamente errado, mas é uma aposta interessante. Aempresa tem um passado glorioso no mercado de celulares, mas talvez a sobrevivência esteja em um ramo diferente.

ENQUANTO ISSO, A MICROSOFT… Há duas semanas o executivo Steven Sinofsky, chefe da divisão Windows na Microsoft, apresentava o Surface a uma plateia incrédula com a ousadia da empresa. Trata-se de um aparelho distante da imagem tradicional da Microsoft, sisuda e corporativa, cujo objetivo era mostrar um lado divertido e criativo. O impacto durou pouco. E Sinofsky teve sua saída da Microsoft anunciada na noite de segunda-feira 12, o que deixa a companhia com um vácuo na alta liderança. Não parece existir alguém pronto para substituir o CEO, Steve Ballmer, no comando da Microsoft. O timing da saída de Sinofsky é interessante: parece coincidir com outra importante movimentação no mercado da tecnologia, a demissão abrupta de Scott Forstall, da Apple. Forstall era responsável pelo sistema operacional iOS, presente em iPhones, iPods e iPads. A analista Carolina Milanesi, da consultoria Gartner, disse à agência Reuters que a dança das cadeiras pode não ser mero acaso. “Alguns especulam que a disponibilidade de Forstall no mercado tem algo a ver com a saída de Sinofsky. Acho que não deve demorar a sabermos se esse é mesmo o caso.

 

Estilo

A FOTO

BLlTZKRIEG I Ratos,macacos, os Bobs da polícia britânica, a rainha Elizabeth, Mona Lisa com uma bazuca antimíssil Banksy faz de sua arte mural uma piada subversiva e uma provocação anticonformista. Armado de estêncil e spray e protegido pelo anonimato (sabe-se apenas que ele é de Bnstol Inglaterra), Banksy grafita o incômodo pelo mundo afora, de Londres àPalestina, mas também já fez intervenções autorizadas em museu de Nova Yorke no zoo de Barcelona. Guerra e Spray, de Banksy (com Paul McKenna). Editora Intrínseca, 240 páginas, R$ 49,90

 

Furacão Capote faz estragos

Está nesta Vanity Fairde dezembro um pequeno texto inédito assinado por Truman Capote (1924-1984) destinado, ao que se supõe, a rechear aquele sarapatel de intrigas publicado após a morte dele com o título de Answered Prayers (Súplicas Atendidas, na versão brasileira da L&PM). Yachts and Things(lates e Coisas), o excerto recém-descoberto na Biblioteca Pública de Nova Vork, não faz justiça ao resto do livro e ao conjunto da obra de Capote. Nem de suficiente veneno o trecho dispõe. O miúdo e delicado Capote foi uma espécie de escritorzinho

de estimação do grand monde de Nova Vork. Mimado e aninhado no colo (e nos jantares, nas festas, nos iates, nos jatinhos particulares) de suas swans, socialites do calibre de Gloria Vanderbilt, Slim Keith e Babe Paley (mulher do chefão da CBS), afiou com minúcias de perversidade o punhal da vingança. La Côte Basque, capítulo publicado na Esquire quando Capote ainda vivia, é tão devastador que metade de Manhattan lhe virou a cara (a outra metade a-do rou). Uma das vítimas, o dramaturgo Tennessee Williams, definiu: “Chocantemente repugnante completamente difamatório.

 

Índio não quer lingerie

Um dia depois da vitória de Barack Obama, coube à grife Victoria’s Secret exorcizar definitivamente o vodu eleitoral dos republicanos brucutus. Botou na passarela, em Nova Vork, 38 de seus anjos semidespidos – entre eles, um timaço de top brasileiras capitaneado por Alessandra Ambrosio e Adriana Lima. Na tevê, o desfile só vai ao ar em dezembro, na CBS. É um show de audiência milionária. Mas, na América de hoje, não há como deixar um desfile de lingeries provocativas passar imune ao moralismo de uns e outros. Dessa vez, o estresse aconteceu por conta do politicamente correto. Já que a deslumbrante Karlie Kloss pisou na passarela a bordo de uma modelo plumário inspirado na cultura navajo, o coletivo dos “nativos americanos” (é assim que se deve dizer) chiou. Em vez de tomar aquilo como a homenagem que era para ser, considerou uma ofensa. “Estão explorando sexualmente nossas mulheres”, atacou o blog Native Appropriations. Em nota oficial, a Victoria’s Secret teve de se desculpar

 

O mistério da francesa magra

Ines Marie Laetitia Églantine lsabelle de Seignard de La Fressange. Ou, simplesmente, Ines de La Fressange. Nasceu em St. Tropez. Cresceu no castelo proustiano do avô. Modelo de Chanel. Xodó fashion de uma França para lá de fashion. Ines encarna magnificamente aquela mulher francesa que, sem se privar da baguete e do foie gras, não engorda jamais. O mais recente livro dela, La Parisienne, é de 2010. Foi lançado no Brasil há um ano. Na Livraria da Vila de Higienópolis, em São Paulo,lnes continua batendo os gurus ideológicos de um bairro que se quer melhor e mais chique do que os outros. Nem Fernando Henrique Cardoso consegue ser mais sedutor, em livro, que Ines de La Fressange.

 

A Carminha de São Paulo

Dado como morto, José Serra continua assombrando as entranhas do PSDB. Bombardeia a possível candidatura presidencial de Aécio Neves, em 2014. Pretende instaurar no páreo um paladino da moral e dos bons costumes. Osenador Álvaro Dias (a sério) ou o ministro Joaquim Barbosa, ambos reconhecidos pela humildade. Já que até a Carminha, de Avenida Brasil, conseguiu se redimir de todas as suas malvadezas, os amigos do Serra – aqueles vitimados pela síndrome de Estocolmo sonham com o mesmo milagre.

 

Café da manhã no Champs Élysées

Tiffany &Co. é aquela joalheria americana que, fundada em 1837, precisou tomar emprestado de um livro, um filme e as magníficas costas de Audrey Hepburn (deslumbrandose com a vitrine da loja da Quinta Avenida, em Nova York) para consolidar, muitas e muitas décadas depois, o seu carisma intemacional. Breakfast at Tiffany’s(Bonequinha de Luxo, de 1961) é baseado em livro de Trurnan Capote. Só agora a Tiffany ousa botar o pé no mais requintado shopping a céu aberto do mundo: a Avenida Champs Élysées, em Paris. Agrife tem outra loja em Paris, na Rue de La Paix, na Opéra. Mas o mundo do luxo insiste em ser emergente. Tiffany tem 21 lojas na China (mais seis em Hong-Kong). Onze, em Moscou. Em São Paulo duas. Por ora.

 

Os holmesianos tudo sabem

            HÁ MAIS HOLMESIANOS entre nós do que poderíamos imaginar. Diria até que há mais holmesianas. Pelo menos é o que o nosso DataLeonam constata pelo número de e-mails femininos que têm chegado a propósito da última Cariocas, em que desancamos a série Elementary, exibida pelo canal Warner, na qual um detetive diletante tem o nome de Sherlock Holmes e uma assistente, Joan Watson. Daniela Ribeiro da Silva, por exemplo, faz parte de um grupo do Facebook chamado Sherlock Brasil e administra uma fan page, a Sherlock BBC-Brasil, tem também um blog chamado Sherlock Brasil. “Omessa!”, diria o Dr. Watson, pois se vê nos e-mails que os holmesianos brasileiros nada ficam a dever ao pessoal da Sherlock Holmes Society, de Londres. Sabem tudo sobre o imortal personagem de Sir Conan Doyle. E todos andam indignados, como o autor destas linhas, com os roteiros americanos.

Diz Daniela: “Confesso que às vezes estou no meio de um episódio de Elementary, esqueço quem são os protagonistas e aí, quando eles se chamam pelo nome, a coisa parece muito estranha, sem sentido”. Como escrevi aqui, o Sherlock americano poderia se chamar Monk ou House que não faria a mínima diferença. Aliás, faria, pois Adrian Monk e sua assistente, bem como o Dr. House e suas neuras, são muito mais divertidos. E inteligentes. Por oportuno: Daniela nos informa que o moderno Sherlock Holmes inglês, imperdível, pode ser visto no canal BBC HD, na Net. E que a primeira temporada já saiu no Brasil, em DVD e Blu-Ray.

o FARO ESTE BRASILEIRO O escritor carioca Ivan Sant’Anna, autor de best sellers como Rapina, plano de Ataque (minucioso relato sobre o atentado ao World Trade Center) e roteirista de

episódios de Carga Pesada, para a RedeGlobo, acaba de publicar mais um livro fascinante, que também promete entrar para a lista de mais vendidos.

É Herança de Sangue, em que Sant’Anna recupera a história de Catalão, em Goiás, onde passou parte de sua infância, nos anos 1950, na casa dos avós paternos. Como ele mesmo diz, é a história real (embora possa parecer ficção) da violência, dos crimes, que envolveram as disputas políticas da cidade, transformando-a num (sic)”faroeste àbrasileira”.

Seu relato começa no século XVII, quando obandeirante Bartolomeu da Silva, o Anhanguera (oDiabo Vermelho, como era chamado pelos índios) desbravou a região Oeste de onde é Goiás em busca de ouro e pedras preciosas.

Anos depois, seu filho, o Anhanguera lI, voltou àquelas paragens e, às margens do Riacho Pirapitinga, fez nascer um arraial, que logo se tornou local de passagem para caçadores de fortuna e todos os tipos de aventureiros.

Foram eles os fundadores de Catalão, que, séculos mais tarde, muitos e muitos anos depois, fizeram de seu povo gente com uma identidade própria – na divisa com Minas Gerais, e longe da capital de Goiás, eles não se consideravam nem goianos nem mineiros. Eram catalanos.

Ivan conta, ainda: “Matadores, pistoleiros, criminosos e foragidos de todo o Brasil não tardaram em converter o povoado num inferno de violência, em meio ao trânsito do ouro, pedras preciosas e mercadorias”.

E mais: “O genocídio das tribos indígenas, o legado da escravidão africana, as disputas por terras e a política, entre os brancos proprietários, fizeram de Catalão uma cidade de faroeste como as que a gente vê no cinema – mas, claro, com o modo brasileiro de burlar a lei”.

Catalão, então, passou a ser conhecida como a cidade mais violenta do Brasil. Fama que a perseguiu até meados do século passado. Nada tendo a ver com Minas, e longe do governo goiano, a lei e a ordem eram a Lei de Catalão, um severo código de honra, que nos faz lembrar o da Sicília medieval, em que as pendências só podiam ser solucionadas com derramamento de sangue.

A saga de Catalão merece um filme, vários filmes de faroeste, de um farocentro- oeste como gosta de dizer Ivan. Ela foi a nossa Laredo, a nossa Dodge City, a nossa Tombstone, em que uma pendenga resolvida à bala, pelos irmãos Earp, no famoso tiroteio do Curral OK, pareceria para ferozes catalanos – como Salvianinho, Cabelereira, ou Índio Afonso – um foguetório de festa de São João. Confira. Está tudo em Herança de Sangue. E muito mais.

 

A arte em primeira pessoa

            AS DÚVIDAS, mais do que as certezas, movem os personagens no cinema do pernambucano Marcelo Gomes. Atento roteirista de seus filmes e colaborador de colegas, o cineasta não toma da pena para dar tratos ficcionais a um universo de razões de caráter ético ou moral. Estas lhe surgem pelo interesse espontâneo, numa intuição e experiência somadas desde a juventude e que agora, aos 49 anos, assinalam autenticidade quando vistas na tela. Se nos dois longas- metragens anteriores, Cinema, Aspirinas e Urubus e ViajoPorquePreciso, VoltoPorque teAmo (este, em colaboração com Karim Ainouz), a conotação pessoal não surgia tão evidente, no novo filme ganha relevância. Em Era uma Vez Eu, Verônica, em cartaz a partir de quinta 15,vencedor no recente Festival de Brasília dos prêmios de crítica e público, Gomes pontua uma crise atual de geração para avistar todas à frente e atrás dela, inclusive a sua.

Seja pelo panorama urbano e pé na atualidade, que o distancia do relato histórico de sertão um tanto fabular em Cinema, seja pelo drama vivido de corpo inteiro, diverso do conceito trágico literalmente sem rosto de Viajo …, o novo filme converge tanto para uma oposição quanto para uma junção aos demais. Seu projeto sempre foi o de contemplar personagens antes de uma temática ou estética.

“Para mim são eles, os personagens, que contam, que trazem uma riqueza a ser desvendada”, diz em entrevista a Carta Capital. “E quanto menos certezas tiverem, melhor. Prefiro que tenham dúvidas, muitas, antes do que sejam super-heróis.

“Sua Verônica (uma iluminada Hermila Guedes) é uma jovem privada dos sonhos cor-de-rosa por uma rudeza em torno no Recife onde habita. Médica recém-for mada pelo esforço do pai de velha dignidade comunista (W.J. Solha), ela padece das agruras iniciais na ala psiquiátrica de um hospital público enquanto vive embate íntimo sobre os rumos a seguir. Está em crise, mas não completamente imobi- Iizada, como se testemunha na expressão liberal do sexo com um namorado eventual (João Miguel) ou na noite. O movimento pendular, típico da fase de amadurecimento, foi coligido por Gomes depois pelo esforço do pai de velha dignidade comunista (W.J. Solha), ela padece das agruras iniciais na ala psiquiátrica de um hospital público enquanto vive embate íntimo sobre os rumos a seguir. Está em crise, mas não completamente imobiIizada, como se testemunha na expressão liberal do sexo com um namorado eventual (João Miguel) ou na noite.

O movimento pendular, típico da fase de amadurecimento, foi coligido por Gomes depois de duas dezenas de entrevistas com moças com idade próxima dos 25 anos. “É o momento de mudança, quando se deixa a pós-adolescência e se assume a vida adulta, mas ainda há contradições.” Essa transição se estende para a capital onde o diretor nasceu e que vive um processo de desordenamento comum às metrópoles, uma verticalização extrema na orla e um centro abandonado. Não por acaso o tema coincide com uma forte análise social pelo cinema pernambucano atual de nomes como Kleber Mendonça Filho (OSom ao Redor), Gabriel Mascaro (Domésticas) e Daniel Aragão (Boa Sorte, Meu Amor), os dois últimos assistentes de Cinema, Aspirinas e Urubus. Foi esse mesmo panorama de rápida mudança que o cineasta testemunhou e pensou sempre em levar ao cinema, desde quando dirigia um pioneiro cineclube do Recife, o Jurando Vingar, título de um filme local de 1925.

Sua adesão às dúvidas e aos anseios da protagonista é grande, mas Gomes nunca pensou em optar por um homem. “Apenas porque os personagens e o universo dos meus filmes anteriores são masculinos e eu queria uma abordagem agora feminina. E, além disso, queria muito trabalhar com Hermila.” De fato, para o propósito de uma busca pessoal que lhe serviram os companheiros de viagem Ranulpho e Johann em Cinema e o personagem-voz José Renato de Viajo ,o diretor abriria mão do conceito mais complexo de liberdade conquistado pela mulher na sociedade atual. Conquista que permite a Verônica construir um prazer a seu modo, desfazendo-se de um encontro fortuito, preferindo um banho de mar. Da mesma forma, a cidade reflete alternativas não excludentes. É voraz em sua destruição, mas generosa no sol, nas praias, no carnaval que o filme não oculta.

Há segurança em fazer Verônica parecer, apenas na superfície, um personagem comum à sua idade, porque Gomes a sustenta em ambivalências e assim a faz crescer. “Sou adepto do registro naturalista, vejo meu cinema muito aliado ao de Ken Loach e Mike Leigh nesse aspecto”. As citações vêm por conta de uma descoberta do cinema inglês no início dos anos 1990, quando foi cursar seu oficio com uma bolsa de estudos na Inglaterra. O filho de um funcionário público e de uma empregada doméstica conheceu ali mais a prática do que a teoria, mas ficou de olho na geração de documentaristas formada pelo Channel 4, justamente a de Loach, Leigh e Stephen Frears. Ao iniciar no Recife a carreira de curtas metragens, em paralelo a nomes como Cláudio Assis, Gomes implementou a marca de trabalhar em parcerias.

Uma dessas colaborações ocorreu com Paulo Caldas, paraibano radicado em Pernambuco, em Deserto Feliz. Trabalha, especialmente, com o cearense Aínouz, para quem colaborou na escrita de seu filme de estreia Madame Satã, e com ele trocou ideias sobre as mais de 20 revisões do roteiro de Era uma Vez…Deve participar informalmente de um projeto de Amouz, ainda embrionário, de adaptar às telas os diários do argentino Tulio Carelli, Orgia, que dizem muito da efervescência do Recife dos anos 60. “A experiência com roteiros para os colegas torna o trabalho com o seu próprio mais exigente. Mas

nunca abdico de uma boa opinião alheia.”

A múltipla colaboração cruza agora fronteiras não só regionais como de linguagem. Gomes co dirige neste momento em Belo Horizonte OHomem das Multidões com o mineiro Cao Guimarães, a convite deste. Baseado em Edgar Allan Poe, transfere a cena contemporânea à perambulação de um homem solitário e a seu encontro com uma mulher em situação similar. “Nosso cinema tem muito a se completar, o Cao com essa visualidade forte e eu no gosto pelos personagens”, diz sobre o colega também videoartista. Começa a viabilizar um filme sobre Tiradentes, encomenda de uma produtora espanhola sobre heróis libertadores na América Latina, no qual pretende discutir não a liberdade ou o mito histórico, mas a organização da sociedade brasileira de então. O projeto mais ambicioso parece ser, porém, sua primeira adaptação literária, o exigente Relato de um Certo Oriente, primeiro livro do premiado manauara Milton Hatoum. De novo, um protagonista masculino, que retoma às raízes libanesas de Manaus para se dar conta de mudanças insuperáveis. “É uma história de memória e de dúvidas. Estou bem à vontade.”

 

Bem longe de imaginar o fim

            SENTADO DIANTE de Judi Dench, que toma chá em um hotel no centro de Londres, vejo-me perguntando se a atriz inglesa, protagonista de 007 – Operação Skyfall, tem aquele sonho recorrente de que está num palco, com a cortina prestes a subir, sem lembrar a fala de seu personagem. Enquanto digo isso, parece-me ridículo questionar isso a alguém há pouco eleito “o melhor ator de todos os tempos” pelos leitores da revista britânica The Stage. Dench dificilmente deu um passo errado desde que se apresentou pela primeira vez para uma plateia, há 60 anos. Mas a atriz admite ter esse sonho o tempo todo. “Estou ali parada, toda vestida, sussurrando: ‘O que eu digo agora?’ O grande medo nunca desaparece”.

Essa ansiedade é real? Talvez. O problema é que, se quiser, ela fará você acreditar em qualquer coisa. Nos dias anteriores eu a vi e revi como as rainhas Vitória e Elisabeth I, como a mãe de J. Edgar Hoover, como uma viúva descobrindo a Índia em O Exótico Hotel Marigold, e a sensação foi de fascínio. Quase íntima, boa ouvinte, aos 77 anos ela tem uma porção de histórias bem-educadas para contar. Por exemplo, aquela sobre sua família presente no teatro onde encenava Romeu e Julieta, no início da carreira. Seu pai ficou tão envolvido com a apresentação que à fala da atriz “Onde estão minha mãe e meu pai?”, respondeu: “Estamos aqui, querida, na fila H”.

Dois anos atrás Judi Dench publicou suas memórias,And Furthermore (E além disso …), ditadas para umghost-writer. É um livro curioso, que trata sua vida como uma série interminável de maravilhosas aventuras no palco e diante das câmeras. Pais e irmãos, seu falecido marido, Michael Williams, e sua filha Finty ganham papéis secundários às vezes, mas qualquer coisa do tipo “emoção reveladora” ou “intuição psicológica” é guardado para Cleópatra ou-Mãe Coragem. Nas últimas seis décadas, Dench só teve duas folgas do trabalho: quando Finty nasceu e quando ela esteve cuidando do marido, que morreu de câncer em 2001.

Esta é a sétima participação de Dench em um filme de J ames Bond, Operação Skyfall, talvez a última como M, uma vez que no filme ela identifica seu sucessor em Ralph Fiennes antes de dar adeus ao serviço secreto. Como uma Bond girl aplicada, contudo, ela não comenta esse assunto. Mas o fato é que o papel tomou-se um ponto de exclamação em sua vida nos últimos anos. É claro, foi “muito divertido” de fazer. Ela aprecia o fato de, na série 007, surgir “mandona”, com uma ressalva: “Eu odiaria que as pessoas pensassem que ser mandona é a única coisa que sei fazer”. Dench se dá bem com Daniel Craig, mas não o suficiente para que ele lhe conte o segredo de seu salto de paraquedas olímpico com a rainha. Ela se entusiasmou sob a direção de Sam Mendes, com quem trabalhou pela primeira vez em O Jardim das Cerejeiras 20 anos atrás. ”Você se sente ótima quando tem no comando uma mão firme.”

Dench diz evitar se ver na tela. Menciono J. Edgar, no qual, dirigida por Clint Eastwood, interpreta a mãe dominadora de Leonardo DiCaprio e rouba a cena. “Como me saí? Acho que deveria vê-lo”, ela considera. Pergunto se algo que tenha feito no cinema a surpreendeu positivamente. “Nunca”, responde. “Acho que é sempre terrível ver a si mesma em um filme. No teatro, sempre se pode mudar as coisas um pouquinho, enquanto no cinema só existe a oportunidade naquele dia, e você não exerce

controle sobre o resultado.”

Quando menciono J. Edgar, ela também diz que ficou “completamente amedrontada” por Clint Eastwood. “Ele me telefonou, e no início pensei que fosse um amigo fazendo piada. Então não levei a sério a princípio. Depois percebi que era ele mesmo, e foi uma conversa delicada. Eu não o conhecia antes das filmagens. Então senti uma mão no meu ombro e lá estava aquele homem muito alto, um pouco aterrorizante, mas brilhante …” Ela ainda gosta de pensar em si mesma como uma espécie de intrusa nesse mundo. Facilita as coisas ser modesta. Quem mais a fascinou?, pergunto. “Ah, muita gente. George Clooney. Fiquei meio pasma. E minha filha enlouqueceu por Antonio Banderas. Estávamos em uma festa e ele veio pedir fogo. Pensei que ela fosse desmaiar. Gostamos de ir às premiações por isso, para ver essas figuras maiores que a vida…”

Dench é famosa por chegar para interpretar um novo papel sem nunca ter lido o roteiro. Agora tem a “desculpa perfeita” de uma degeneração macular, que torna impossível para ela ler muito (mas a doença não levará à perda da visão). “Mesmo antes disso, porém”, diz Dench, “eu sempre pedi para o diretor me contar a história. Eu quero que eles a coloquem em palavras para mim. Éisso o que você vai mostrar ao público. Eu gosto que a história seja apresentada para o meu olho mental.”

Ela gosta de pintar paisagens, “melhor que tirar fotos, porque realmente faz você olhar e se lembrar”, diz. Eu lhe pergunto se o processo de construir um personagem é semelhante. “Não, uma pintura é apenas sua decisão, enquanto um personagem é a decisão de muita gente.” Ela, às vezes, pinta personagens de seu olhar mental? “Não, mas quando estou com um roteiro ou ensaiando posso esboçar o rosto de um personagem ou coisa parecida. Quase sempre uso esse recurso. Escuto o que todo mundo diz

sobre mim e tento assimilar.”

Sua filha conhece a mãe até pelo avesso, mas não faz ideia do que a motiva a trabalhar, a ter esse ímpeto constante. Ela mesma sabe? “Apenas não quero parar nunca. Preciso aprender todos os dias e não questiono a curiosidade. Você sabe como era o primeiro nome de Nostradamus? Michel! Parece mentira, não é?” Ela cresceu em uma família barulhenta em York, no norte da Inglaterra, com pais que amavam o teatro, o pai médico, dois irmãos mais velhos e 17gatos. (“Durante a guerra”, ela conta, “ninguém tinha comida suficiente para os animais, por isso, nós os recolhíamos.”) Talvez por isso, antes de entrar em cena, ela deseje ouvir o ruído da plateia em seu camarim. “Preciso dessa sensação de vida, detestaria fazer o show de uma mulher só. Gosto dessa coisa de os atores se reunirem e fazerem aquilo, naquela noite, para a plateia na sua frente.” Alguma vez se permite sentir que fez o suficiente? “Espero que não”, diz com um sorriso. “Pode parecer o suficiente para os outros, mas eu sempre sinto que não está nem perto de suficiente para mim.

 

O órgão da felicidade

            O SEGREDO da felicidade? Para mim, a fórmula infalível é possuir um “órgão oriental, uma mistura de acordéon e orgue de barbaire francês, alimentado por rolos de papel perfurados que tocam son, danzon, rumba, mambo, chá-chá-chá e boleros cubanos acompanhados por congas, timbales, bongôs, maracás, reco-reco e tantos outros eletrizantes instrumentos de percussão latina.

Esse instrumento, operado por manivela, é o protagonista das festas dançantes de rua da zona leste da ilha caribenha de Fidel Castro. A primeira vez que o ouvi foi em um cais do porto de Santiago de Cuba, fiquei boquiaberto, igual aos pelicanos empoleirados nos navios ao redor, enquanto casais cubanos brancos e negros de todas as idades montavam uma coreografia perfeita com seu jeito espontâneo e feliz de dançar. Perto do órgão, com os tubos de madeira e as palhetas completamente à vista, tudo é ritmo. É posto em movimento pelo braço de um homem a girar incansavelmente a manivela da alavanca de ferro por trás do instrumento, que aciona os foles e ao mesmo tempo lê os rolos perfurados empilhados uns sobre os outros em retângulos rígidos, para liberar a música sincopada mais linda do mundo.

Na frente, grupos de músicos frenéticos acompanham as cadências e as acentuações que saem daquele oráculo imóvel e inumano e, sem parar nem por um segundo, agitam com um sorriso nos lábios suas mãos e baquetas endiabradas, seguindo as ordens ditadas pela orquestra escondida no “órgão oriental”. Anos a fio tentei comprar um da fábrica de Holguin onde ainda são produzidos, mas foi em vão por causa das dificuldades de importação, de transporte marítimo para o Brasil, de pagamento, talvez somadas a certo ciúme local por manter a exclusividade desse instrumento fantástico.

O pequeno órgão chegou pela primeira vez a Cuba com os exilados haitianos de um dos muitos levantes políticos do século XIX. Havia sido levado para a ilha quando era colônia francesa por fazendeiros gauleses que gostavam de dançar valsas, mazurcas e polcas. Em 1876,a família cubana Borbolla o fez chegar diretamente da fábrica Limonaire de Paris ao porto de Manzanillo, ligado à capital Havana por um trem que percorria os 700 quilômetros e que ultimamente foi desativado por causa de uma epidemia de cólera. Isso originou a profunda revolução musical que, à diferença da Europa, mantém até hoje em Cuba esse instrumento excepcional: os rolos perfurados começaram a ser feitos com a “música molida”, ou seja, as canções cubanas com as livres batidas autóctones no lugar das rígidas chansonettes francesas.

Em 1941, os irmãos Ajo difundiram ainda mais o “órgão oriental” com o acompanhamento de percussionistas. Procurem no YouTube, por “órgano de manzanillo”, a música Golpe de Bibijagua de

Julio Cuevas, gravada durante a reunião oceânica de junho de 2000 pelo retorno de Elián González, o menino de 8 anos que virou manchete e esteve no centro de uma controvérsia entre os Estados Unidos e o governo cubano.

Na Casa de la Trova, em Santiago de Cuba, passei uma noite inteira aprendendo de um pianista local o tumbao, aquela originalíssima forma de acompanhar o son montuno com oitavas na mão direita e baixos antecipados na esquerda, que é o modo típico e inconfundível de tocar a música cubana no piano. Ao sair daquele legendário local de manhã bem cedo, nos surpreendemos ao ver a cidade destruída: durante a noite havia passado sobre ela um furacão que nós nem percebemos de tão concentrados sobre o teclado.

Hoje, em Cuba e na Flórida, há músicos cubanos excelentes considerados os herdeiros de Rubén González, o pianista que acompanhou Ibrahim Ferrer e Ornara Portuondo no famoso Buena Vista Social Club. Mas Roberto Fonseca e Gonzalo Rubalcaba se distanciam cada vez mais do gênero cubano puro, embrenhando-se em um jazz à Keith Jarrett. Assim, nove anos após sua morte, o velho Rubén ainda é a bandeira do son cubano, ao lado, é claro, do imortal “órgão oriental”.

 

 

            

O Globo

Curtinhas

Marcela Bronstein é a responsável pelo marketing cultural do livro Sombras, de Franco Terranova.

Conceição Cipolatti assina a decoração de Natal do BarraShopping.

Tathiana Lopes, da Cardápio de Ideias, produz o Festival Novas Frequências.

Maria Teresa Madeira encerra a temporada musical de 2012 na Fundação Eva Klabin, hoje, com Leo Gandelman.

Angela Ro Ro faz participação hoje no show de Lirinha, às 21h, no Brasil Rural Contemporâneo,na Marina.

Fernanda Gomes abre exposição hoje na Galeria Laura Alvim, em Ipanema.

Carolina Sá faz pré-estréia hoje, no Espaço Itaú, de “Construção”, com Patrícia Pillar na produção

FAPESP Jornal de Piracicaba 22/11

Vem aí a cana-energia

Dentro de uma década, a cana de açúcar poderá ser uma planta mais resistente à seca, menos dependente de fertilizantes e defensivos, com maior teor de fibras, uma parede celular mais fácil de ser rompida para favorecer a obtenção de etanol também do bagaço e poderá ainda possuir teor de sacarose maior ou menor de acordo com a

necessidade de uso. A meta é de programa de pesquisa desenvolvido em São Paulo pela Fapesp.

Melhoramento

“O objetivo é aumentar a produção de etanol e de biomassa com o menor impacto ambiental possível. E isso inclui o adequado uso da terra, da água e redução das emissões de poluentes”, diz Glaucia Mendes Souza, professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Além dos esforços de melhoramento assistido por  ferramentas moleculares, há grupos dedicados a encontrar microrganismos mais eficientes para fermentar a biomassa. Outros buscam a melhor forma de pré-tratar o bagaço e prepará-lo para a produção do etanol celulósico.

Impactos ambientais

Também há pesquisadores dedicados a diminuir os impactos ambientais e sociais da produção de biocombustíveis. Uma das frentes trabalha no desenvolvimento de motores flex mais eficientes. Há ainda projetos que buscam a obtenção  de biocombustíveis a partir de óleos vegetais e propõem usar os resíduos do processo para fabricar produtos químicos de alto valor agregado.

Violência

Uma declaração do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, nesta terça-feira, em São Paulo, ao falar para 300 empresários, ganhou destaque  na intemet. Ao criticar o sistema prisional, que considera “medieval”, o ministro disse que “se fosse para cumprir pena longa no presídio brasileiro, eu preferiria morrer”. Cardozo fez um apelo de união dos governos federal, estaduais e municipais para o enfrentamento da criminalidade.

“Jogo de empurra”

Algumas frases do ministro: “Temos que parar de fazer o jogo de empurra. Homens e mulheres que atuam no mundo público têm o dever de agir conjuntamente e não com questões políticas.”
“O crime organizado tende a ser nacional e não mais local, especialmente no narcotráfico, tráfico de armas e de pessoas. “

“O crime organizado existe com conivência de alguns organismos do estado.”
“O violento é aplaudido, o que mata se torna herói; no videogame, quem mata mais vence isto gera, indiscutivelmente,

a violência.”

“O sistema prisional é violador dos direitos humanos e não colabora com a reinserção social. Quem cometeu crime pequeno sai de lá criminoso maior. “
Investimentos

Com a inauguração da fábrica da Cooper Power Systems segunda- feira, em Porto Feliz, no Interior Paulista, ‘o Estado de São Paulo passa a abrigar uma fábrica de alta tecnologia capaz de produzir equipamentos que contribuirão para a

otimização, expansão e manutenção da infra estrutura elétrica de distribuição de energia de Brasil  e exterior  a nova fábrica  que já em prega120 funcionários, marca o início da produção local de capacitores de potência e reguladores de

tensão, além da ampliação da produção de religadores.

Resíduos sólidos

Atenção, prefeitos eleitos. Cuidar do lixo é tarefa da prefeitura. Convênio entre a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal (Cepam) dará apoio aos municípios para a elaboração

dos planos municipais de gestão integrada de resíduos sólidos. Os documentos são exigência legal e devem ser implementados em dois anos.

Fim do Lixão
Instituída por lei em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)transfere para o poder público local a responsabilidade de elaborar os planos que definirão as diretrizes da gestão do lixo. A principal meta é a eliminação dos lixões até 2014 e a redução máxima dos resíduos sólidos, sobretudo com a reciclagem. Dia 22 de novembro

haverá oficina em Lins de capacitação de agentes públicos para a elaboração  de planos.


Metrô do ABC
A região do Grande ABC discute o seu futuro metrô. A Linha 18 Bronze passará por Santo André, São Caetano e São Bernardo, terá 20 quilômetros de extensão, 19 estações, 25 trens, dois pátios e quatro terminais integrados, atendendo a população de 400 mil pessoas diariamente. O intervalo entre os trens será de três minutos ou menos.

Breves

Os shoppings do país recebem 11 milhões de pessoas todos os dias, segundo o Ibope. 53% são mulheres e 47% homens; 40% buscam compras, 16% vão passear e 15% para se alimentar.  A Assembléia Legislativa ouvirá dia 28 o secretário de Transportes Metropolitanos, .Jurandir Fernando Ribeiro, e o presidente do Metrô, Peter Berdey Bardram Walker. O atraso das obras do metrô é um dos itens da pauta.
O governo do Estado deverá editar, ainda este ano, decreto que agiliza a legalização da produção da pesca e criação em tanques, facilitando os produtores.

FAPESP – Diário do Nordeste – Fortaleza

Revolução de .68 em conferencia

Para resgatar todo o contexto de luta e resistência à violenta ditadura que marcou a história do País na década de 60, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura

realiza neste mês o ciclo temático “Nós que Amávamos Tanto a Revolução”. A programação especial terá início hoje, com o seminário “A Ideia de Revolução”, do professor Marcelo Ridenti. Às 19h, no Auditório, o especialista abordará questões referentes ao discurso revolucionário que caracterizou a década de 60. Ridenti irá refletir sobre como o discurso de revolução foi construído no Brasil. Algumas questões pontuais da conferência são: tivemos, de fato, uma revolução naqueles anos? Como a cultura e a política se entrecruzaram neste período? E hoje, é possível falar de revolução? A palestra remete ao último livro de Ridenti, intitulado “Brasílídade Revolucionária – Um século de cultura e política”, lançado em 2010.

Currículo

Marcelo Ridenti é graduado  em Ciências Sociais e Direito pela Universidade de São Paulo

(USP). Doutor em Sociologia, é também professor titular da disciplina na Unicamp, desde 2005.

O pesquisador Integra a Coordenação de Ciências Humanas e Sociais na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Foi Secretário Executivo da  associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS, 2004-2008). É especialista nos temas: cultura; arte e política; esquerda brasileira; intelectualidad brasileira; pensamento marxista; ditadura militar brasileira; anos 1960. Autor de diversos títulos, entre os quais “Em busca o Povo Brasileiro” e “O Fantasma da Revolução Brasileira” que contribuíram significativamente para redesenhar a historiografia da produção intelectual e artística da esquerda brasileira.

Época 5.11

Época 05 – Novembro

RÉQUIEM PARA UM JORNAL

 

O fim do jornal que mostrou a notícia além das palavras

 

Corno as famílias descritas pelo romancista Liev Tolstói, os jornais infelizes são infelizes cada um a sua maneira. Convencidos de que alguma coisa não ia bem com a saúde do Jornal da Tarde, um dos mais belos e inovadores diários que a imprensa brasileira já produziu, de uns tempos para cá um grupo de antigos repórteres, fotógrafos e editores passou a encontrar-se todos os anos numa

churrascaria rodízio da Zona Oeste de São Paulo. Como é inevitável nessas situações, todos queriam falar (bem) dos velhos tempos, falar (mal) dos novos e reunir forças para, juntos, enfrentar o pior – a notícia de falecimento. Ela foi anunciada na quinta-feira passada, quando o grupo Estado de S. Paulo anunciou o fim do JT, 46 anos após seu lançamento.

Inaugurado em 1966, com um furo na manchete (“Pelé casa no Carnaval”), o Jornal da Tarde ajudou a dar dignidade à vida cotidiana e a romper a sisudez dos grandes jornais. Procurou notícias capazes de mostrar as mudanças formidáveis que a década de 1960 representou na história de todo mundo. Foi o primeiro jornal a ter uma coluna fixa de Tv, o único a cobrir o primeiro casamento de Roberto Carlos – na Bolívia, porque a noiva era desquitada – e um destaque ao saber interpretar o sentimento do homem da rua.

Chegou à perfeição em 1982, quando produziu uma primeira página histórica – o choro de um menino brasileiro no Estádio Sarriá, em Barcelona, após a vitória da Itália que tirou a Seleção Brasileira da Copa do Mundo. Caminhando entre a torcida derrotada, o já veterano fotógrafo Reginaldo Manente capturou aquela imagem, emocionante em seu realismo triste. Em São Paulo, o olho do editor de Esportes grudou na foto do anônimo José Carlos – sabe-se hoje que é advogado e vive em Santa Catarina – e dali saiu a grande ideia. Pensava-se, no começo, em ilustrar o caderno de Esportes com aquele retrato imenso, que valia por mil palavras. O redator-chefe, Fernando Mitre, passou por perto e levou a ideia para a primeira página. “Mas vamos dar a foto sem palavras, só com a imagem': disse o editor Sandro Vaia, que participava do plantão. Resumindo um pouco do espírito da coisa naqueles tempos’ Sandro acrescentou: “Vamos derrubar a ditadura da manchete':

Na luta contra a ditadura da manchete, as imagens sempre tiveram importância. Na campanha por eleições diretas para presidente, em 1984, a primeira página do jornal extrapolou o espaço destinado a ela – a foto eloquente

do comício do Anhagabaú se espraiava para a última páginado primeiro caderno. Durante a Guerra das Malvinas, a página dupla central trazia diariamente um mapa com uma reprodução gigantesca das duas ilhas, mostrando as últimas novidades do teatro de batalha. Nos anos 1970, quando era governador do Estado, Paulo Maluf estabeleceu um prazo para tirar petróleo do solo paulista. Na imortal caricatura da dupla Gepp e Maia (chargistas cujo traço se  tornou uma marca do JT), o nariz dele crescia a cada dia, até ficar do tamanho de toda a capa do jornal, com galhos e ramificações que superavam qualquer Pinóquio.

O Jornal da Tarde era literário sem nunca ter sido pedante. Queria ser criativo sem perder a eficácia para atrair o leitor. A busca da  beleza era um valor fundamental. Não bastava escrever correto. Era preciso escrever bem – e o melhor  exemplo disso era um suplemento semanal chamado “Seu caderno de programas e leituras”. O editor chefe que deu rosto e personalidade ao jornal, Murilo Felisberto, chegou a dar aumento de salário quando um redator lhe trouxe um bom título. Era capaz de declamar em voz alta uma frase bem lapidada. Na redação, a vida pulsava, abria caminhos, traçou destinos inesperados. Miguel Jorge, depois ministro do Desenvolvimento no governo Lula, foi editor de Local, seção que incluía a cobertura de polícia. Com uma imensa cabeleira negra nos ombros e um sorriso que derretia todos os marmanjos, a repórter Claudia Batista era apenas a primeira encarnação da monja Coen, hoje uma das principais líderes budistas do país.

Um entre tantos escritores – Fernando Morais, Ivan Angelo, Regina Echeverria, que também fizeram carreira por ali -, Humberto Werneck foi correspondente em Paris. Até hoje sabe, de cabeça, o trecho que uma redatora, Valéria Wally, escreveu no primeiro parágrafo para uma reportagem sobre perfume: “Milhares de flores morrem para que alguém se volte quando você passa. Pense nisso quando for comprar um perfume – não lamente o preço”.

 

LULA NÃO FOI CORRETO CONOSCO

A eleição deixou graves seqüelas com o PT.Ainda assim, o GO que seu partido apóie a reeleição de Dilma

 

A MÁGOA DO PSB COM O PT É MAIS VISÍVEL NO

O governador Cid Gomes elegeu o desconhecido s: Derrotou o candidato da prefeita Luizianne Lins Luiz Inácio Lula da Silva, até então considerado imbatível irmão Ciro, aliados de primeira hora do PT. Filhos de um 4 as acusações de ser oligarcas, coronéis e de só se importar Lula. Mesmo decepcionados, Cid diz que ele e Ciro apoiar:

Época – O PSB venceu o PT em todas as disputas importantes de t que participou nesta eleição: Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e C Campinas. O PT subestimou seu aliado histórico? É Cid Gomes – Não enxergo nisso uma rivalidade ou uma má . p relação. O PT é nosso aliado nacional. O que não se pode n é achar que somos satélites do PT. Não somos. Temos um c projeto de poder próprio. D Época- O senhor está falando da Presidência da República Cld- Estou, sim, e digo, para que não me interpretem errado defendo o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousse em 2014. Apoiamos a Dilma em 2010, tivemos um papel  importante na eleição dela, participamos de seu governo, e t ela vem fazendo uma boa gestão. É natural que apoiemos sua  reeleição. Nosso projeto de Presidência deve vir depois.

Época- O PSB compartilha sua opinião? Cid – Não posso dizer. O partido não deliberou sobre o assunto. Posso dizer que (o presidente do partido e governador de Pernambuco) Eduardo Campos declarou que a eleição de Época – Em comício do ex-presidente Lula em Fortaleza, o senhor, seus irmãos foram chamados de oligarcas e acusados de só se lembrar dos pobres em tempo de eleição. Como o senhor se sentiu? CId- Foi uma agressão e uma agressão injusta. Quem esteve com Lula nas horas decisivas fomos nós. Na eleição de 2002 (a prefeita de Fortaleza) Luizianne (Lins) e (o candidato petista) Elmano de Freitas vaiaram Lula em praça pública, porqu ele escolheu o José Alencar para vice. No segundo turru daquela eleição, Ciro (que disputou o primeiro turno) não pestanejou e declarou apoio a Lula. Em 2005, no mensalão parte do PT se escondeu. Outra falou em pós-Lula. Nós fo

mos à linha de frente defendê-lo. Os votos responsáveis pela reeleição dele vieram daqui. Fomos para a linha de frente n

eleição de Dilma. Lula não foi correto conosco.

Época – Ingrato é uma palavra mais precisa? Cld- Digo que não foi correto. Antes da eleição, disse a Lula “Ou a gente encontra um nome capaz de inspirar um sentimento de renovação ou será muito difícil para mim”. E queria manter a aliança, mas com outro candidato. Lula disse que era possível e me daria uma posição. Nunca me procurou. Entendi que me deixava à vontade para que o PSB lançasse Roberto Cláudio. Não seria um excesso de gentileza s tivesse me ligado para dizer: “Desculpe, estou sofrendo muit pressão para ir a Fortaleza”. Vindo aqui, faria a defesa de se candidato sem acusar ninguém. Entendo isso. Também sofr pressões do PSB para bater nos outros partidos. Não é preciso agredir para defender o que se acredita.

Ëpoca – O PT só ganhou a eleição numa das nove capitais do No!

deste. Lula foi o grande derrotado? Cid – Não colocaria assim. O PT tinha duas capitais na região: Fortaleza e Recife. Foi mal nas duas administração e, Aconteceu o mesmo com gestões mal avaliadas de outro partidos. Em Natal, a prefeita (Mica rla de Souza, do PV) ner concorreu. Em São Luís, o prefeito do PSDB (João Castelo perdeu. Em Teresina, o do PTB (Elmano Férrer) também Lula ganhou a eleição onde ele teve o cuidado de ter um bor candidato, como em São Paulo. Aonde ele foi por solidariedade ao PT ou por sentimento de dívida perdeu. As pessoas foram sábias. Distinguiram essas situações e escolheram o que era melhor para seu município.

ÉPOCA – Em comlclo do ex-presidente Lula em Fortaleza. o senhor e

seus írmãos foram chamados de oligarcas e acusados de só se lembrar dos pobres em tempo de elelção, Como o senhor se sentiu?

CId- Foi uma agressão e uma agressão injusta. Quem esteve com Lula nas horas decisivas fomos nós. Na eleição de 2002, (a prefeita de Fortaleza) Luizianne (Lins) e (o candidato petista) Elmano de Freitas vaiaram Lula em praça pública, porque ele escolheu o José Alencar para vice. No segundo turno daquela eleição, Ciro (que disputou o primeiro turno) não pestanejou e declarou apoio a Lula. Em 2005, no mensalão, parte do PT se escondeu. Outra falou em pós-Lula. Nós fomos à linha de frente defendê-lo. Os votos responsáveis pela reeleição dele vieram daqui. Fomos para a linha de frente na eleição de Dilma. Lula não foi correto conosco.

ÉPOCA – Ingrato é uma palavra mais precisa?

Cld- Digo que não foi correto. Antes da eleição, disse a Lula: “Ou a gente encontra um nome capaz de inspirar um sentimento de renovação ou será muito difícil para mim”. Eu queria manter a aliança, mas com outro candidato. Lula disse que era possível e me daria uma posição. Nunca me procurou. Entendi que me deixava à vontade para que o PSB lançasse Roberto Cláudio. Não seria um excesso de gentileza se tivesse me ligado para dizer: “Desculpe, estou sofrendo muita pressão para ir a Fortaleza”. Vindo aqui, faria a defesa de seu candidato sem acusar ninguém. Entendo isso. Também sofro pressões do PSB para bater nos outros partidos. Não é preciso agredir para defender o que se acredita.

ÉPOCA – O PT só ganhou a eleiçAo numa das nove capitais do Nordeste. Lula foi o grande derrotado?

Cid – Não colocaria assim. O PT tinha duas capitais na região: Fortaleza e Recife. Foi mal nas duas administrações. Aconteceu o mesmo com gestões mal avaliadas de outros partidos. Em Natal, a prefeita (Micarla de Souza, do PV) nem concorreu. Em São Luís, o prefeito do PSDB (João Castelo) perdeu. Em Teresina, o do PTB (Elmano Férrer) também. Lula ganhou a eleição onde ele teve o cuidado de ter um bom candidato, como em São Paulo. Aonde ele foi por solidariedade ao PT ou por sentimento de dívida perdeu. As pessoas foram sábias. Distinguiram essas situações e escolheram o que era melhor para seu município.

ÉPOCA – Como agiU a presidente Dilma?

Cld- De forma republicana. Não tenho reparo a fazer. Pelo contrário, só tenho reconhecimento pela atitude dela. Quando acabou o primeiro turno, disse isso a ela. No segundo turno, agradeci novamente. Ela respondeu: “Não poderia ter outra postura, você me apoiou”. E ainda me pediu o telefone do (prefeito eleito) Roberto Cláudio.

ÉPOCA – Lula também telefonou para o senhor?

Cld- Não.

ÉPOCA – O que o senhor pretende fazer em 2014?

Cid – Cumprirei meu mandato até o último dia. Não disputarei eleição em 2014. Depois, passarei mais tempo com minha família. Vou trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington. Pedi ao presidente Luis Alberto Moreno: “Meu desejo é trabalhar com o senhor”. Ele respondeu: “Não se preocupe, meu filho”. Então, eu vou. Quando voltar ao Brasil, avaliarei se disputarei outra eleição. O melhor dos mundos é sair da política sem ser expulso. Sair como saiu o Pelé: por cima.

ÉPOCA – O senhor está abandonando a vida pública?

Cld- Não, essa é minha vocação. Ter mandato não é a única forma de servir. O objetivo do BID é reduzir a desigualdade, melhorar a vida das pessoas, desenvolver as Américas.

ÉPOCA – O senhor pensa em pedir à presidente Dilma para nomeálo representante do Brasil no BID?

Cid – Desculpe, estou rindo porque essa pergunta me coloca numa situação constrangedora. Quanto maior seja meu espaço, tanto mais eu possa atuar, melhor. O Brasil tem um vice-presidente lá. Se eu puder ser esse vice, melhor.

ÉPOCA – Se o senhor ficar no cargo até o último dia do mandato. Impede seus lrmãos Ciro e Ivo de disputar mandatos federais.

CId- Enquanto eu estiver no governo, Ciro só pode disputar a Presidência e a Vice-Presidência da República. Ivo é deputado estadual e poderia ser reeleito, mas diz que não quer mais disputar esse cargo. É possível que não haja nenhum de nós na política em 2015, depois da eleição. Não quer dizer que estejamos largando a vida pública. Vamos só dar um tempo.

 

A guerra do luxo

            NOS últimos dois anos, nada menos que 23 importantes grifes internacionais abriram suas primeiras lojas no Brasil. Elas não estão aqui a passeio. Investiram milhões em lojas suntuosas, reduziram, em média, 20% de suas margens de lucro para enfrentar os impostos de importação que dobram os preços das peças e ganharam dos grandes centros comerciais de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro o privilégio de escolher os pontos que julgassem mais favoráveis à circulação de sua abastada clientela. Na semana passada, a francesa Louis Vuitton, maior grife de luxo do mundo, abriu sua maior loja da América Latina no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. No dia 4 de dezembro a marca italiana Valentino fará um desfile de alta costura na Sala São Paulo com direito à presença de seus estilistas, Pier Paolo e Maria Grazia Chiuri. A loja de sua segunda linha, a Red, oferece vestidos a R$ 1.500, enquanto concorrentes brasileiras vendem modelos parecidos a preços 25% maiores. Como a moda nacional de alto padrão poderá sobreviver ao desembarque dos gringos?

A resposta começou a ser dada na semana passada, com a antecipação, em dois meses, da temporada de inverno da São Paulo Fashion Week, a principal vitrine da moda brasileira. Até então, os desfiles aconteciam em janeiro, apenas 45 dias antes de as coleções chegarem às lojas, uma aberração do ponto de vista logístico. Caso as peças não fossem bem recebidas, viravam encalhe no estoque. “Por isso há tantos bazares no Brasil. É para desovar as roupas produzidas sem demanda': diz o empresário Paulo Borges, autor da mudança de calendário e sócio da Luminosidade, organizadora da São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio. ”Agora as marcas terão mais tempo de se organizar, de produzir e entregar as peças que o mercado deseja. Estimamos que isso melhore as vendas em, no mínimo, 20%.” A temporada de verão, que acontecia entre maio e junho, será antecipada. Os desfiles estão marcados para março de 2013.

O acerto do relógio exigiu um grande esforço das empresas. Quase metade das grifes pulou a estação por incapacidade de elaborar a coleção a tempo ou de investir num terceiro desfile em menos de um ano. Até gigantes do setor, como a grife Animale, se ausentaram. A São Paulo Fashion Week, que dura de cinco a seis dias,  reduziu-se a três. O evento deixou o prédio da Bienal, onde acontece a Bienal de Arte, e se mudou para uma tenda improvisada no Parque Villa Lobos. Não se viram os lounges, as festas, as celebridades ou a distribuição de brindes. “No verão, tudo voltará ao normal”, afirma Borges. Nem todos estão felizes. Um empresário que ficou fora da Fashion Week reclama que as marcas estrangeiras pertencem a grandes grupos, que podem reduzir suas margens para ter competitividade. As nacionais, diz ele, são punidas pelo governo com impostos altíssimos e não têm condições financeiras para fazer grandes campanhas e anunciar em todas as revistas. “Vejo um futuro negro para nós': afirma. ”As pessoas hoje acham melhor comprar lá fora, por causa do preço.”

A passos largos dessa polêmica está a grife Osklen, que abriu a São Paulo Fashion Week na última segunda-feira. Seu fundador, o gaúcho Oskar Metsavaht, anunciou no mês passado a venda de 30% da empresa ao grupo Alpargatas por um valor inicial de R$ 67,5 milhões. A fabricante de calçados, dona das marcas Havaianas e Topper, terá opção de comprar outros 30% da empresa no prazo de 60 dias. “Criaremos uma empresa com musculatura para ser um grande player internacional': diz Metsavaht. Com 71 lojas, oito das quais fora do país, em cidades como Tóquio, Milão, Roma e Nova York, a Osklen se tornou, antes mesmo da venda, uma potência com valor de mercado estimado em R$ 500 milhões e faturamento anual em torno de R$ 150 milhões. “Como não tinha condições de concorrer com as grifes internacionais, me dediquei a criar um conceito de design e estilo de vida que traduzisse o Brasil para o mundo. Muitos colegas que começaram na mesma época que eu, infelizmente, fecharam as portas ou enfrentam dificuldades.

O bom exemplo da Osklen põe por terra a tendência de vitimizar a indústria nacional e deixa claro que o desafio da moda brasileira vai além de um ajuste de calendário. É preciso reorganizar e fortalecer as associações, pressionar o governo a desonerar o setor, investir na qualificação de mão de obra para dar musculatura competitiva às marcas locais e enxugar a esquizofrenia desfileira de um país que tem 12 semanas de moda e um sem-número de salões de negócios desencontrados. É essa costura que dará o tom das próximas estações

 

BRUNO ASTUTO

Em nome do pai

     Quem vê Alessandra Ambrósio linda e poderosa nas passarelas e nas capas de revistas não imagina que a modelo vive uma questão familiar delicada. Seu pai, Luiz Ambrósio, sofre há quase 20 anos de esclerose múltipla, doença inflamatória crõnica que compromete o sistema nervoso, provocando dificuldades motoras e sensitivas. “t muito difícil. Minha familia já sofreu bastante com essa questão, mas transformamos a tristeza em ação e aprendemos a lidar. Ele está bem, isso é o mais importante”, diz, emocionàda. Assim que a Colcci propôs que a bela assinasse uma linha de roupas em parceria com a marca, Alessandra sugeriu a criação de uma camiseta cujas vendas serão integralmente revertidas para a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abern), entidade da qual ela é madrinha desde fevereiro. “Há alguns anos apoio uma instituição semelhante nos Estados Unidos. Estava na hora de fazer algo no meu pais.” A Abem quer construir uma sede própria, em São Paulo, e, com isso, aumentar o número de atendimentos. “Farei o que for necessário para ajudá-los a atingir esse objetivo”, diz a topo

 

Mashallah

Quem anda feliz com a exibição da novela Salve Jorge é o embaixador da Turquia no Brasil, Ersin Elçin. “De imediato, percebemos o crescente interesse dos brasileiros pela Turquia, e nosso turismo comemora esse aumento. Foi  impressionante”, afirma. Ele acompanhou de perto a preparação para as gravações e facilitou os trâmites burocráticos para a entrada da equipe no país. Diz que não perde um capítulo da trama de Glória Perez nem tergiversa quando o assunto é o tráfico de pessoas, abordado pela autora. “A Turquia, como um pais de trânsito e destino turístico, dispensa máxima importância à prevenção desse problema.”

 

A Gisele que veste 48

Aos 32 anos, a brasileira Fluvla Lacerda é uma das principais modelos “plus size” do mundo da moda. Vestindo manequim 48, ela é considerada a Gisele Bündchen do setor e chega a faturar R$ 36 mil num dia de trabalho. “Fui descoberta num ônibus em Manhattan, quando ainda trabalhava como babá em Nova York. Uma editora de moda me abordou perguntando se já havia considerado a ideia de me tornar modelo plus size”, diz ela. Fluvia mora há quase dez anos em Manhattan. Ela conta que nunca fez dieta nem sofreu preconceito por ser gordinha e está lançando uma grife com sua marca. “Sei o sufoco das mulheres que vestem manequins grandes para se vestir bem.”

 

Estreia noturna

Figura fácil em festas e baladas, o ator Henri Castelll decidiu profissionalizar o prazer. Inaugura no dia 6, no bairro paulistano do Itaim, o Dezoito Bar & Movement. Com investimento de R$ 5 milhões, o bar abrirá as portas às 18 horas para happy hours – dai o nome. “A proposta é que, ao longo da noite, o espaço ganhe ares de balada, com DJ e música ao vivo, como acontece em Nova York e Berlim. Se der certo, abro o Dezenove, Vinte …••Henri acaba de voltar de uma temporada na Turquia. “Viajei com uma pessoa amiga para curtir, nada de compromisso. Não tenho tempo para namorar”, afirma. Depois da inauguração do bar, embarca para Natal, Rio Grande do Norte, onde começam as gravações de O Caribe é aqui, próxima novela das 6. Ele será o protagonista, um piloto da Força Aérea Brasileira, par romântico de Grazi Massafera.

 

De volta aos palcos

Tais Araújo voltará aos palcos em janeiro no Rio de Janeiro, na peça Sangue em caixa de areia, do dramaturgo e diretor Jô Bilac, atual queridinho das celebridades. A montagem não segue um script convencional. “Só tem três cenas escritas, por enquanto. O Jô vai criando as outras durante as leituras e os ensaios; é bem denso e diferente da leveza da Penha”, afirma Tais. Penha foi a personagem “empreguete” da novela Cheias de charme. Ela diz que o público ainda não esqueceu a personagem. Nem ela. “Ainda me pego fazendo uma faxininha com o som nas alturas”, diz. “As pessoas me cobram na rua que a gente se reúna de novo num seriado. Eu, a Leandra Leal, a Isabelle Drummond e a Cláudia Abreu estamos com tanta saudade dessa novela que topamos. Mas não depende de nós

 

“É melhor ser polêmico do que hipócrita”

Em recente reunião com o produtor Bruno Barreto. Aguinaldo Silva definiu os detalhes de seu próximo projeto. o filme estrelado por Crô, saudoso personagem vivido por Marcelo Serrado na novela Fina estampa. “Christiane Torloni fará uma partícípação como a Teresa Cristina. só que em flashback. A história. além do Crô, será focada no motorista Zoiudo Baltazar. vivido pelo Alexandre Nero. e na empregada Marilda. papel da Katia Moraes. que estarão no longa”. diz. As filmagens começarão em abril

ÉPOCA – Como será o filme do Crô?

Aguinaldo Silva – Uma comédia rasgada. É o terceiro personagem meu que vai parar nas telonas. O primeiro foi Lili Carabina. O segundo será Giovanni Improtta. De Senhora do destino. que o José Wilker estreará em breve. E agora o Crô. Quando me chamaram. Pensei em recusar. porque estava muito cansado. mas acabei cedendo.

ÉPOCA – Já tem projeto para uma próxima novela?

Aguinaldo – A Globo quer que seja depois da história do Walcyr Carrasco. que será o autor da faixa das 9 horas quando Salve Jorge acabar. Ou seja. mais ou menos no inicio de 2014. Até tenho uma sinopse em mãos, porque sou muito compulsivo. Mas não quero escrever agora não, Acabei Fina estampa com nojo de escrever novela. O que é natural. porque cansa muito. Não é só a cabeça. é um cansaço tísico mesmo. Preciso de mais tempo para descansar. estou relutando.

ÉPOCA – Pensa em aposentadoria?

Aguinaldo – Penso. Mas. antes disso. ainda quero escrever três novelas.

ÉPOCA – Acompanhou o sucesso de Avenida Brasln

Aguinaldo- Não. mas sei que foi um fenômeno. Mas veja bem: ser um fenômeno nas redes sociais não quer dizer que é um fenômeno de ibope. Se for assim. nada bomba mais que o programa Pânico. que é muito faiado na internet. mas só dá 9 pontos de ibope.

ÉPOCA – Seu blog é multo lido, e, com suas opiniões, você acabou ficando com fama de polêmico. Concorda?

Aguinaldo – Atingi uma idade em que. se não falar o que penso agora. não falo nunca mais. O fato de minhas opiniões causarem tanta repercussão é sinal de que ainda estou vivo e continuo mexendo. Se falar o que se pensa de verdade é ser polêmico. concordo: sou polêmico. É melhor do que ser hipócrita. não acha?

 

A rainha do cabelo

Depois de driblar um câncer no ovário e os indesejáveis efeitos colaterais da quimioterapia. Rosemary Cavazottl montou um verdadeiro império do cabelo. Na década de 1990. mudou-se para Los Angeles para fazer o tratamento por cinco meses. “No hospital. tinha uma butique com acessórios para a cabeça. echarpes e perucas. Me sentia elegantésima. Prometi para mim mesma que. se sobrevivesse. Faria algo parecido no Brasil”. diz. Ela tem hoje uma das maiores fábricas de perucas e apliques do Brasil. com sede em Santa Catarina e três lojas pelo pais. Importa os fios da Ásia e confecciona artesanal mente as perucas. “Frequentei muito leilão de cabelo na índla Lá. as mulheres doam como se fosse brasileiro pagando promessa em Aparecida. É lindo e impactante.” Entre suas clientes estão Naomi Campbell e Beyoncé. “Quando a Naomi vinha muito ao Brasil. alguém me indicou. A cabeleireira dela mora em Nova York e faz o megahair da maioria das celebridades americanas.”

O vendedor agressivo

            Aconteceu recentemente. Um amigo fez aniversário. Queria dar uma camisa. Mas não sabia seu número. Fui a uma loja do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, de uma grife importante de que sou cliente há mais de dez anos. Deixei uma autorização para o aniversariante escolher uma camisa. Dias depois, o presenteado me telefona da loja. Queria permissão para ficar com um casaco oferecido pelo vendedor. Fiquei na saia justa. Concordei. Dias depois, tomei coragem e falei com ele pessoalmente: não era demais ganhar uma camisa e escolher um casaco?

O vendedor só me ofereceu as peças mais caras, disse ele. Quando pedi para ver as camisas, disse que não havia nenhuma que valesse a pena, por ser fim de estação. E se ofereceu para pagar a metade. Recusei. Voltei à loja e reclamei:

- Eu havia autorizado uma camisa. Vocês quebraram uma relação de confiança comigo, como cliente. No mínimo, em vez de deixar o presenteado ligar, deveriam ter me chamado em particular para explicar o que acontecia.

Ouvi desculpas. Paguei. Não volto mais lá.

Foi uma situação radical. Sinto cada vez menos confiança nos vendedores de lojas, principalmente de grifes e marcas conhecidas. Antes, se eu entrava num estabelecimento elegante, costumavam me deixar à vontade. A moça, ou o rapaz, se apresentava e dizia, educadamente, que estava à disposição. E me deixava observar as peças, sapatos, acessórios. Hoje, camelôs se tornaram um primor de delicadeza diante desses vendedores. Eles se atiram em cima da gente! Mesmo que eu diga que “estou só olhando” começam com um “já viu isso, já viu aquilo?”. Sem dúvida, existem clientes que apreciam uma assistência feroz. Fujo correndo de vendedores extremamente solícitos.

E a confiança, para onde foi? Outro dia experimentei um paletó. Impossível fechar. “Esse paletó fica muito bem usado aberto”, disse o vendedor. Observei minha barriga, que brotava como um cogumelo na abertura. “Eu jamais compraria uma peça que não posso fechar”, disse. “Quero, um numero maior,

O rapaz rugiu:

- Não temos, mas esse ficou muito bem você. Perfeito nos ombros!

Respondi:

- Nunca mais vou acreditar quando você disser que alguma coisa está ótima!

Ele me olhou com desprezo, como se eu nada soubesse de moda. Posso não ser delicado. É que perdi a paciência. Vejo as pessoas comprar roupas que nunca vão usar, instigadas por profissionais insistentes. Já houve um tempo em que eu confiava inteiramente em vendedores. Experimentava uma camisa e ouvia:

- Essa aí não caiu bem.

Eu me sentia confiante. Os profissionais das lojas onde era cliente tornaram-se amigos. Não sentiam necessidade de me empurrar o mais caro. O importante, eu percebia, era que me tornasse um cliente satisfeito. Certa vez, no Shopping Paulista, numa grife nacional, ouvi o conselho:

- Você levou um casaco muito parecido com esse faz seis meses.

Agradeci a lembrança. Realmente, tenho de me policiar para não comprar roupas parecidas. É claro que voltei outras vezes, pedi conselhos e comprei. A relação entre cliente e profissional de vendas não pode ser tão selvagem. O papel de um vendedor é, sim, oferecer as peças, mas também aconselhar com franqueza sobre o que ficou bem ou não. Suponho que a mudança tenha um bom motivo. Há algum tempo as grifes internacionais, aqui no Brasil, vêm deixando de ser representadas por empresas locais. As corporações assumem os controles de suas marcas em território nacional. O resultado imediato é que os preços das peças importadas baixaram. A concorrência se tornou maior. Também suspeito que tanto as grifes internacionais como as brasileiras estabelecem cotas de desempenho mais árduas para os vendedores. Isso levou a um salve-se quem puder quando entra um cliente na loja. A ponto de já ter ouvido várias histórias de brigas entre vendedores, porque um “rouba” a vez do outro, quando consegue. O espírito natalino já está chegando à decoração dos shoppings. Mas o comércio se transformou numa praça de guerra entre vendedores, na tentativa de arrebatar o melhor cliente. E num assédio a quem entra numa loja. Quem tenta comprar só um par de meias corre o risco de sufocar num mar de veludos, jeans, carteiras, bolsas, tênis, botões!

E, quando um vendedor me garante que uma peça de roupa ficou bem, eu penso:

- Será verdade? Ou ele só está tentando me empurrar mais alguma coisa?

 

Capacete rosa no canteiro de obra

            Pintar as paredes de casa com rolos, pincéis e tintas próprias era a brincadeira favorita das gêmeas Betina e Bruna, então com 6 anos. Junto da mãe, a gaúcha Maria Beatriz Kern, elas davam nova cara para os cômodos da casa onde vivem até hoje, com a avó materna. Bia,como gosta de ser chamada, criava as filhas apenas com a ajuda da mãe. Ela ensinou as filhas a fazer pequenos reparos, como trocar lâmpada e resistência de chuveiro, para que não “dependessem de ninguém para ter o lar em ordem”. As gêmeas não podiam prever que esse gosto da mãe pela construção civil deixaria de ser hobby para virar profissão. Nem que Bia mudaria a vida de mais de 3 mil mulheres no Rio Grande do Sul ensinando o que suas filhas aprenderam quando pequenas.

Por 20 anos, Bia trabalhou como coordenadora de eventos, em projetos para mulheres. Ela gostava do que fazia, era bem remunerada, mas não se sentia realizada. Aos 48 anos, com as filhas crescidas, decidiu arriscar. Vendeu um imóvel que tinha e usou a verba para criar em Porto Alegre uma ONG para ensinar mulheres de baixa renda a fazer pequenos reparos em casa. Bia não imaginava as dimensões que o projeto alcançaria. Em 2006, conseguiu parceria com três empresas para fazer um projeto-piloto. As 25 vagas disponíveis foram disputadas por 300 mulheres. Era o começo da ONG Mulheres em Construção. Em quatro anos, a entidade distribuiu 3 mil certificados para pedreira, azulejista e pintora predial, todos gratuitos, após um curso de três meses de duração. Além de vale-refeição e alimentação, cada aluna recebe auxílio de R$ 170 por semana e um capacete rosa.

Para a surpresa de Bia, muitas empresas começaram a procurá-la em busca de mão de obra qualificada. Em média, 60% das formandas recebem registro em carteira. “Minha idéia inicial era preparar as mulheres para cuidar de suas próprias casas”, afirma. “Agora, o foco mudou.” Hoje, Bia cuida da ONG como voluntária e ganha a vida prestando consultoria para empresas que querem montar treinamento em construção civil.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deste ano mostram que a quantidade de pedreiras mulheres no país subiu 119% nos últimos cinco anos. Em 2007, eram 109 mil. Em julho deste ano, já passavam de 239 mil. “Um dos motivos é que as mulheres são mais organizadas e reduzem o desperdício de material”, afirma Bia. Andréia da Rocha, de 36 anos, ainda nem começou o curso de pintura para o qual se inscreveu. Mas seu emprego já está garantido. Ela tem uma vaga reservada numa empresa para quando se formar. Andréia, que ganhava cerca de R$ 800 como balconista de farmácia, deverá receber o dobro no novo emprego. Ela quer colocar a filha mais nova, de 4 anos, numa creche particular e pagar um curso técnico para a mais velha, de 18 anos.

As histórias de muitas mulheres ajudadas pelo projeto lembram a da própria Bia: chefe de família, com filhos pequenos e dificuldades financeiras. “A gente vê a nossa vida recontada. É muito emocionante”, afirma Betina, umas das gêmeas, hoje com 26 anos. A ex-dona de casa Alzira Nunes Teixeira, a Nina, de 52 anos, nunca trabalhara fora. Divorciou-se há quatro anos e ficou sozinha com dois filhos adolescentes. As paredes sem reboco de sua casa aumentavam sua angústia. Uma amiga contou dos cursos gratuitos oferecidos pela ONG. Em menos de um mês, Nina estava inscrita. Formou-se em pintura e como azulejista. Por um ano, fez parceria com um pedreiro para praticar mais o que aprendia em sala de aula. ”A obra começou dentro de mim”, diz. Ela terminou a casa em que morava e a alugou. Construiu uma segunda casa no mesmo terreno e trabalha como pintora. “Reconstruí minha casa e minha vida ao mesmo tempo”, afirma.

Bia percebeu que não adiantava oferecer apenas cursos práticos. Aquelas mulheres precisavam de ajuda para reconstruir sua autoestima. Com a ajuda de psicólogos, advogados e outros profissionais, ela montou grupos temáticos sobre carreira, planejamento familiar e direito da mulher para orientar as alunas. “Não adianta dar preparo técnico, se elas não acreditam em si mesmas': diz.

Agora, a Mulheres em Construção, que funciona na casa de Bia, ganhará um novo lar. A prefeitura de Canoas, Rio Grande do Sul, doou um terreno para a construção da primeira escola de construção civil profissionalizante do país para mulheres. A estimativa é atender 100 alunas por dia. Cerca de 500 mulheres ajudarão a levantar o prédio. Bia quer que esse seja o embrião de outras escolas espalhadas pelo país.

 

“Aqui, se for tímida, você morre”

            No SISTEMA DE CASTAS DA ÍNDIA, DALIT É A MAIS BAIXA. A DISCRIMINAÇÃO DE CASTAS É proibida desde 1947. Culturalmente, ela permanece no país, principalmente nas áreas rurais. Sampat PaI Devi, a bela mulher de 54 anos da foto ao lado, é dalit. Como tal, não poderia falar alto, sentar-se com pessoas de outras castas, desobedecer ao marido ou aos sogros. Sampat é diferente. Ela fala num tom de voz elevado com todos- inclusive comigo. E carrega um cajado para o caso de ter de enfrentar fisicamente os homens (até policiais). Sampat combate a violência contra a mulher na Índia, país eleito pela Fundação Reuters como o quarto pior para elas viverem. É seguida por mais de 40 mil mulheres, todas vestidas de sári rosa. Elas formam a Gangue Rosa e já foram tema de dois documentários. Convidada para o Congresso Mulheres Reais Que Transformam, Sampat falou a ÉPOCA por telefone.

ÉPOCA- O que é a Gangue Rosa?

Sampat Pai Devl- Somos um grupo que combate a violência contra a mulher nas aldeias no Estado de Uttar Pradesh (norte da Índia). Tenho 54 anos, faço isso desde os 20.Em fevereiro de 2005, passei a usar o sári rosa (traje feminino tradicional da Índia, feito de uma peça única) para mostrar que nossa luta é pelas mulheres. Todas as mulheres, quando entram na Gangue Rosa, pagam 300 rúpias (R$ 12) e recebem um sári rosa e um cajado rosa. Hoje temos mais de 40 mil seguidores (entre eles alguns homens).

ÉPOCA – Por que a senhora usa o cajado?

Sampat- Para me defender e bater em quem quiser agredir a mim ou a outras mulheres.

ÉPOCA- Como o grupo da senhora atua?

Sampat- Desde cedo, tem fila na porta da minha casa de meninas e mulheres que sofreram agressões. Elas vêm até mim direto. Nem passam mais pela polícia. Até porque muitas mulheres que procuraram autoridades não conseguiram ajuda. Ouço a história delas e, dependendo da gravidade do caso, tomo um tipo de atitude. Às vezes, converso com os acusados por telefone ou pessoalmente. Outras vezes, procuro a polícia, digo o que está acontecendo e peço que eles interfiram.

ÉPOCA- Eles ouvem a senhora?

Sampat- Hoje, ouvem muito. No começo, não. Eu ficavalá esperando até conseguir contar, e elesme ignoravam, achavam que era louca. Fui ficando conhecida. Hoje, me tratam com muito respeito na polícia e nos vilarejos também. Quando é caso de violência contra a mulher, os próprios policiais pedem que as vítimas venham até mim. Minha casa virou uma corte de julgamento de casos contra as mulheres.

EPOCA – Segundo a ONU, oito mulheres se suicidam por dia na India e há 3 milhões de prostitutas no pais, 40% delas crianças. Por que é um pais tão difleil para as mulheres?

Sampat – Isso vem de muito tempo. A mulher na Índia é vista como um fardo, uma pessoa de menor valor. Quando descobrem que o feto é de uma menina, em muitas regiões as famílias ainda optam pelo aborto ou matam a criança quando nasce. As famílias casam as meninas ainda bebês. Em minha região, esse problema diminuiu muito, mas ainda ocorre em vários lugares. É por isso que há mais homens que mulheres aqui. As famílias encaram a menina não como um membro da família, mas como da família do marido. Foi proibido, mas muita gente participa do pagamento de dote (sistema em que a família da noiva paga uma compensação à do noivo). Os mais pobres são os que mais sofrem com isso. Mesmo quando a mulher trabalha na mesma atividade do homem, ela ainda ganha menos.

ÉPOCA – Que tipo de violência contra a mulher é mais comum?

Sampat-Todo tipo. A mulher sofre muita violência doméstica, não só do marido, mas de toda a família dele. As meninas vão viver com os sogros com 12 anos e apanham. Os casos de estupro são muito comuns. É muito perigoso sair na rua à noite, porque, quando os homens bebem, pegam quem encontram pela frente. Principalmente os homens muito ricos. Quando ficam bêbados, eles acham que podem tudo.

ÉPocA – A senhora vê uma forma de essa mentalidade mudar?

Sampat- Sim. Isso mudará quando as mulheres tiverem estudo. Minha luta é para que as mulheres não sejam maltratadas e estudem. Vou falar com as famílias das meninas que vêm me pedir ajuda, para que a violência acabe e para que a menina volte à escola. Não vou embora enquanto não se comprometem. Se não cumprem, volto com a minha gente. As famílias têm de entender que, ao receber educação, a menina pode ajudar os pais, não precisa ir embora para um marido. Quando entenderem isso, os bebês estarão a salvo, as meninas deixarão de ser um fardo. Aqui na minha aldeia (Banda), isso já está mudando. Não temos infanticídio. E as mulheres continuam a ir à escola, mesmo depois do casamento.

ÉPOCA – A senhora Já teve de bater em multa gente?

Sampat – Não foi em muita gente. Foram uns cinco ou seis casos de maridos. E um policial, que tive de amarrar num tronco para conseguir bater.

ÉPOCA – A senhora bateu num policiai? Por quê?

Sampat- Elenão dava importância ao que eu falava,aos casos que levava para ele. Faz muitos anos que sou processada por causa disso.

ÉPOCA- A senhora não acha seus métodos multo violentos?

Sampat- Não existe outro jeito de se impor aqui. Se você é mulher, não adianta ficar esperando que façam por você. Precisa tomar nas mãos e fazer. Mostrar do que é capaz. Se for tímida, morre. Hoje, as pessoas ouvem o que digo, mas porque mostrei que sou capaz de atacar. No começo, eu não tinha tanto respeito.

ÉPOCA – Que caso a senhora achou mais marcante?

Sampat – Foi a primeira vez em que defendi outra mulher. Eu tinha uns 15 anos. Uma conhecida veio se esconder em minha casa. Ela tinha sido espancada pelo marido e estava muito mal. Fiquei muito impressionada. Fui falar com ele. Ele caçoou de mim. Fiquei tão nervosa que peguei um pedaço de pau e comecei a bater nele. Não parava mais. Naquela hora, me veio essa sensação de que eu não queria mais que nenhum homem abusasse de nenhuma mulher. Senti que era aquilo que faria, protegeria as mulheres.

ÉPOCA – A senhora faz Idela de quantas mulheres já ajudou?

Sampat-Nenhuma ideia. Você pode tentar fazer a conta. Tive meus cinco filhos antes dos 20 anos e, depois, passei a fazer disso o meu dia a dia. Todos os dias, atendo pelo menos dez mulheres. Àsvezes, tenho de viajar porque preciso ir pessoalmente resolver um assunto mais grave e, quando chego à aldeia, outras pessoas vêm me pedir ajuda. Faço isso há 30 anos.

ÉPOCA – A senhora já apanhou?

Sampat – Nunca apanhei. Nem na casa de meu marido. Quando me casei, tinha 12 anos. Cozinhava para toda a família do meu marido. Mas não podia comer com eles. Me faziam esperar todo mundo terminar e ficar para comer o que sobrasse, por último. Nunca aceitei. Reclamava alto, dizia que, se tinha casado, era da família também. Se brigassem comigo, falava mais alto ainda. Na índia, mulher não deve ficar reclamando, falando alto. As pessoas têm medo de mim. Tem sido assim desde que comecei com esse trabalho, há 30 anos. Já bati, mas nunca apanhei.

ÉPOCA – A senhora estudou?

Sampat- Não. Minha família me prometeu para meu marido quando eu era criança. Nunca fui à escola. Aprendi a ler sozinha em casa. Escola é o que existe de mais importante. Por isso abri a minha.

ÉPOCA – Como é sua escola? Como a mantém?

Sampat- Temos crianças (meninos e meninas) de 5 anos até os 16.Mas não tem regra fixa. Quando encontro pessoas de 15 anos sem saber ler, levo para minha escola. Temos perto de 500 alunos. Alguns pagam mensalidade. E aceitamos doações.

ÉPOCA- A senhora é dallt?

Sampat- Sou da classebaixa, pobre e não gosto dessa sua pergunta. Sou uma pessoa que trabalha para a humanidade. Essa classificação é preconceituosa. Sua pergunta é preconceituosa.

ÉPOCA – Desculpe. Como é sua famllla?

Sampat – Tenho cinco filhos, quatro meninas e um menino. Só a caçula não é casada. Ela estuda medicina.

EPOCA – A senhora teve de pagar dote para suas filhas se casarem?

Sampat – Não. Não passei por isso. Acho que todo mundo tem medo de mim para me pedir dote (Sampat fala quase rindo, mas se contém).

ÉPOCA – A senhora ainda é casada?

Sampat – Sou casada, meu marido trabalha em nossa propridade rural. (O documentário inglês The Pink Sari mostra que ela se separou do primeiro marido, pai de seus filhos, e vive com outro homem há muitos anos.)

EPOCA – A senhora tem um sonho?

Sampat – Quero que todas as mulheres tenham valor igual. Que todas percebam que podem ser uma Sampat e lutar para mudar o que está errado.

EPOCA – Que ação de seu grupo lhe deu maior alegria?

Sampat- A maior alegria é lutar pelas mulheres e ser muito honesta. Émuito bom poder viver do jeito que você acredita. Não há mais nada que eu queira.

EPOCA – O que a senhora sabe sobre o Brasil?

Sampat – As pessoas são muito gentis. Me trataram muito bem no Consulado, quando fui fazer a documentação. Fiquei até pensando: “Nossa, será que tenho tanto valor para ser tratada assim?”.

 

Fale bem, impressione o chefe e receba os aplausos      

            Há alguns meses, fiquei sabendo que precisaria apresentar um projeto no trabalho, na Editora Globo. Teria de propor e defender um projeto, com alguns colegas, diante de uma centena de profissionais da empresa, de vários níveis e departamentos. Na noite anterior à apresentação, tive insônia e pesadelos. Sonhei que, em cima do palco, com um auditório cheio a minha frente, não conseguia falar uma palavra. No dia da apresentação, mesmo depois de ensaiar algumas vezes o início da minha fala, fiquei insegura. Me deu um branco. Esqueci tudo quando pisei no palco.

Resolvi, então, buscar orientação com cinco consultores e profissionais com experiência em apresentações no ambiente profissional. Um deles, Roberto Shinyashiki, é médico psiquiatra e uma espécie de guru das apresentações no Brasil. Logo no início, ele criticou meu método de “ensaiar algumas vezes”.”A chave do combate ao nervosismo é treinar, treinar, treinar. Se você fizer a mesma apresentação dez vezes, você mesma ficará impressionada com quanto ela vai melhorar”, diz. Ele lançou em outubro um novo livro sobre o tema: Os segredos das apresentações poderosas. Também fui a um curso dele sobre como dar palestras. Estava lotado. A vontade de falar bem em público não é só minha.

Para a maioria das pessoas, subir num palco para fazer uma apresentação é algo incomum na vida. Mas vem ficando maior nas empresas a necessidade de propor e defender ideias para um grupo, numa reunião, para um chefe ou cliente. “Já houve um tempo em que o bom profissional técnico podia se arriscar a ficar quieto e lidar só com o chefe imediato e os colegas mais próximos”, diz a consultora de recursos humanos Vivian Dib, diretora da Randstadt, acostumada a lidar com profissionais de todos os níveis. Isso mudou. As empresas passaram a lidar com públicos diversos, a abrigar maior diversidade de tipos de funcionários e a tratar de questões tão distintas quanto responsabilidade ambiental e impacto nas redes sociais. “Hoje, mesmo o profissional técnico precisa saber interagir bem com outras áreas da empresa e propor suas ideias. Tornou-se mais raro o chefe que só fala. Ele também quer ouvir”, afirma Vivian. A mesma necessidade de se expressar bem vale para vendedores diante de clientes, médicos diante de pacientes ou chefes diante de equipes. Isso ainda representa um grande desafio para o profissional brasileiro.

A reação que tive antes de minha apresentação reflete um problema comum: o medo de falar em público. Recentemente, uma pesquisa feita entre alunos da Universidade de São Paulo revelou que 24% deles sentem grande dificuldade em se expressar diante de ouvintes com quem não têm intimidade. Pedro Figoli, sócio fundador da empresa de inteligência de mercado Geofusion, se incluía nessa estatística. “No início, foi difícil. Preferia não pensar muito no que podia acontecer': diz. Após 16 anos fazendo apresentações em sua empresa, Figoli ainda se diz introvertido, mas mais à vontade com o palco. “Tive de ganhar milhagem de apresentação”, diz. Em dezembro de 2011, após algumas apresentações, conseguiu que o fundo Criatec investisse em sua empresa.

Tenho alguma identidade com Figoli. Ao contrário do empresário, fui uma criança extrovertida e até um pouco exibida. Nos vídeos da família, apareço frequentemente em primeiro plano, fazendo graça para chamar a atenção. Nos eventos especiais do colégio, era escolhida para representar a turma. Na igreja, quase toda semana, fazia uma das leituras. Tanta desinibição se perdeu em algum momento da minha infância ou adolescência. Depois de adulta, falar em público se tornou um enorme problema.

A dificuldade dos brasileiros vem da escola.Em países da Europa e nos Estados Unidos, o hábito de se apresentar e falar em público é desenvolvido desde cedo. No Brasil, as crianças e os jovens não têm o mesmo estímulo. A apresentação de trabalhos em formato de seminários é mais comum durante a universidade. Mesmo assim, o professor concentra sua avaliação no conteúdo e pouco se importa com a forma de apresentar. Não por acaso, quando pensamos em grandes apresentações profissionais, um dos primeiros nomes a surgir é o americano Steve Iobs (1955-2011), cofundador da Apple. Iobs atraía centenas de milhares de pessoas aos eventos de apresentação dos novos produtos da empresa. Muitos compareciam não pelos produtos, mas para vê-lo, ouvi-lo e idolatrá-lo. “Quando a apresentação acabava, era difícil não querer comprar aquele produto': diz Shinyashiki. Outra criação americana é o TED, seminário em que grandes ideias são expostas em 18 minutos. O TED setornou um fenômeno mundial e referência em boas apresentações.

As palestras de Iobs e do TED têm me ajudado. Percebi que precisarei definir meu próprio roteiro de treinamento, preparação e relaxamento. A melhor técnica, dizem, é a que funciona bem para você. A consultora Flávia Lippi dá uma dica preciosa para ajudar os ansiosos como eu a não ter pesadelos na noite anterior. “Um dia antes, faça uma visualização mental do espaço onde se apresentará. Imagine a situação exatamente como gostaria que ela acontecesse': diz. Já estou imaginando. Mesmo que a apresentação não saia exatamente como planejei, espero ter a oportunidade de fazer várias dessas ao longo da minha vida profissional. Sei que cada uma será melhor que a anterior.

 

 

“Fiz campanha eleitoral homofóbica”

            Não tomo boas decisões. As coisas que deram certo foram fruto do acaso ou de eventos aleatórios. Eu me arrependo amargamente de algumas escolhas. Uma delas foi ter usado da homofobia numa campanha eleitoral.

No começo dos anos 1980, eu e alguns amigos fundamos uma empresa para prestar serviços de assessoria de comunicação para campanha política. o movimento sindical estava fervendo. Fomos contratados pelos metalúrgicos da região do Grande ABC paulista e de São Paulo. Fazíamos jornais, folhetos de campanha salarial, prestávamos assessoria em diversos níveis, inclusive na época de eleições para a diretoria.

A coordenação de São Paulo, que nos contratou, era feita pelo sindicalista Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão. Ela era muito hostilizada pela esquerda. Nas eleições do sindicato, a oposição organizou uma chapa para concorrer. O lema deles era ‘O gigante vai despertar’, querendo dizer que o sindicato precisava acordar, e eles fariam as mudanças necessárias.

O gesto que lamento muito foi feito durante a apuração dos votos dessa eleição, quando a contagem mostrou que a diretoria para a qual trabalhávamos estava na frente. Abrimos um banner enorme que eu criei. Tive a ideia e o desenhei. Mostrava a figura de um gigante desmunhecando – em alusão ao personagem de nossos adversários. Era um gigante gay.

Na hora, as pessoas envolvidas com nossa chapa acharam engraçado, ficaram debochando. A oposição, que já tinha feito muitas provocações e barbaridades, ficou enfurecida. No calor dos acontecimentos, meu sentido crítico baixou a quase zero. Não achei um problema. Passada a confusão, quem trabalhava comigo disse que aquela atitude foi ridícula.

A consciência sobre aquele conteúdo só me veio anos depois. A responsabilidade foi inteiramente minha. Fui eu que pensei, bolei, propus e executei a campanha. E me arrependo de todas as formas. Foi ridículo, provocativo, despolitizado e homofóbico. Um exemplo de como transformar enfrentamento político em imaturidade.

A questão da homofobia, na época tabu, hoje me toca. No correr dos anos, vim a me perceber e assumir como bissexual. Tenho a vivência da transgeneridade (inadequação do gênero ao comportamento social da pessoa), que me levou a uma expressão travesti. Ter feito aquele banner ganha ainda mais em amargura e arrependimento. Fui um idiota.

Aprendi que esse tipo de golpe baixo não atrai simpatias nem acrescenta nada de positivo numa luta política. Em situações como essa, é preciso manter os termos do debate dentro do campo da argumentação e afastar as imbecilidades. Hoje, diante de um candidato que apele para a baixaria, procuraria denunciar e me afastar. Se ele tem valores que vão contra o que acredito, não merece meu voto.

 

Para seu cão brilhar na noite

            A coleira da marca Amicus não empolga à primeira vista. Parece só uma mangueira em forma de círculo, na cor verde ou laranja. É só apertar um botão, e ela brilha tanto que ilumina objetos próximos. A Star Noturna pode ser útil para dois tipos de cães: os que vivem em sítios e os com donos excêntricos. Na zona rural, a coleira ajuda a achar o animal à noite ou em locais com vegetação fechada. Para os donos urbanos que gostam de chamar a atenção, ela funciona como ímã para puxar conversa com estranhos. Em duas horas de passeio com meu cachorro em São Paulo, mais de dez pessoas elogiaram a coleira ou quiseram ver como funcionava. O acessório também ajuda a atravessar a rua. A luz é um sinal para os motoristas. Meu cão da raça border collie não demonstrou desconforto – e adorou ser o centro das atenções. Custa R$ 34,90.

 

 

Sobre Kat, minha filha caçula

Com 45 anos, criara meus três filhos. Em 1994; Heloisa e eu completamos nossa viagem ao redor do mundo e trabalhávamos num novo projeto de circum-navegação. De repente, Kat apareceu em nossas vidas. Kat era filha de Robert, um neozelandês casado com Ieanne, uma brasileira do Amazonas. Quando estávamos navegando na Nova Zelândia, Robert viu a bandeira brasileira em nosso barco e veio nos apresentar a mulher brasileira, grávida. Viramos grandes amigos desde então.

Depois de um tempo, Robert nos visitou no Rio de Janeiro. Ieanne morrera. Convidamos Robert e Kat para velejar conosco. Ieanne contraíra HIV numa transfusão de sangue e transmitiu o vírus ao marido e à filha. Ele nos pediu para adotarmos o bebê. Kat foi uma tripulante especial, que navegou conosco pelos oceanos na Terra. E, agora, no Céu. Ela viveu até os 13 anos.

Muitas vezes, vinha de madrugada falar comigo quando estava sozinho de vigília, no timão. Olhava para o céu, no silêncio do mar, e dizia: “Olha, Dad (pai), aquela estrela na constelação de Orion é a minha mãezinha que nos protege nas tempestades”. Ela falava sobre nossas vidas na Terra e as outras que não vemos. Na Patagônia, Kat acordava cedo. No verão, nas altas latitudes, o dia começa às 4 da manhã. Animada, ia batendo nas portas das cabines dizendo: “Vamos, turma! Vamos para a aventura!':

Lá fora, com um frio abaixo de zero, a mochila com a cadeirinha em que ela ia sentada já estava pronta. Cada aventura era um cenário diferente. Num dia, caminhávamos nas trilhas, nos fiordes com altas montanhas. No outro, íamos a lugares que não tinham trilhas. Ela gostava de desbravar cada local em que aportávamos.

Eu ensinava navegação a Kat, que aprendia rápido. Dava as coordenadas de latitude e longitude, e ela traçava o rumo no computador. No cockpit, encenávamos com bonecas um teatro em que eu fazia o papel de pai; e ela, de mãe. Nossa família imaginária era grande, com cinco filhos. Íamos ao cinema, a restaurantes e ao circo. Nas tempestades, ela não se assustava. Alegre, brincava como se o balanço de nosso veleiro Aysso fosse uma gangorra.

Ela sobreviveu além das expectativas dos diagnósticos médicos. Tomar remédios fortes injeções diariamente não abalava seu bom humor. Kat queria falar sobre sua condição para todos quando completasse 14 anos. Queria lutar contra o preconceito. Apaixonada pela natureza, era uma defensora do mar e dos animais. Essas são lembranças e saudades de momentos mágicos que permanecerão. Kat foi uma lição de alegria contagiante, de vontade de viver e de superação.

 

O ídolo dos jovens globalizados         

            Em 11 de outubro, um grupo de japoneses se reuniu num bar de Tóquio para assistir a uma transmissão ao vivo de Estocolmo. Não era ma partida de futebol entre a seleção japonesa e a sueca. Tampouco era o show de algum ídolo pop. Em vez de carregar bandeiras ou vestir a camiseta de algum ídolo teen, seguravam livros e porta-retratos de Haruki Murakami, o escritor japonês mais famoso do mundo. Os ‘haruquistas” torciam para que ele ganhasse o Premio Nobel de Literatura. Murakami já concorrera ao premio outras vezes. Era o favorito deste ano nas casas britânicas de aposta. As esperanças de que ele receberia o Nobel ( grustradas pela premiação do escrito chinês Mo Yan) foram alimentadas pelo sucesso de vendas e pela aclamação critica a seu último livro, 1Q84 (Alfaguara, 432 páginas, R$ 49,90, tradução de Lica Hashimoto), lançado no Brasil nesta semana. Publicado em 2009 no Japão, 1Q84 vendeu 1,5 milhão de cópias no primeiro mês. Lá, a obra saiu como um folhetim, dividida em seis partes. No Brasil, serão três volumes. O segundo sairá em março; e o terceiro, até o fim de 2013. Nos Estados Unidos, o romance atingiu o segundo lugar na lista de mais vendidos do jornal The New York Times.

            O culto a Murakami explica que 1Q84 já tenha vendido 5 milhões de cópias, 4 milhões apenas no Japão. “Não sei nem se ele é o maior autor japonês, mas não me importo': disse a ÉPOCA a artista japonesa Satoko Imai, de 30 anos. “Ele sempre será meu favorito:’ Satoko começou a ler Murakami aos 12 anos. Diz que suas histórias foram importantes em sua adolescência. “Saboreava cada frase porque me mostrava uma perspectiva de mundo que não conhecia': diz. “Não sabia onde procurar respostas sobre o mundo, até ler seus livros.” No mundo todo, grande parte do público de Murakami é formada por jovens globalizados como Satoko. Em geral, eles preferem ler a internet a comprar livros. Qual seria sua fórmula para cativar um público tão arisco? “Ele consegue misturar referências pop, filosofia e pitadas de fantasia”, diz Steven Poole, crítico do jornal britânico The Guardian.

lQ84 se passa em 1984 (a enigmática letra Q do título tem a mesma pronúncia de kiu, nove na tradução do japonês). Na trama, os dois protagonistas, Tengo, ghost -writer, e Aomame, assassina profissional, caem presos numa realidade paralela, em que enfrentam um misterioso culto religioso. Enquanto isso, procuram um pelo outro. Narrar universos paralelos e seres fantásticos (como o Povo Pequenino, gnomos que assombram o casal protagonista) não é o trunfo de Murakami. “Suas histórias carregam um sentimento de perplexidade em relação ao mundo, comum entre os jovens': afirma Poole. É por isso que Carla Stoffel,curitibana de 25 anos, segue sua obra. “Os personagens buscam respostas dentro de si mesmos, com metáforas e jogos de pensamentos': diz Carla. “É filosófico sem ser maçante.” Guilherme Donadio, paulista de 24anos,também identificou-secom os personagens. ”A solidão deles me atrai': diz.

Além de provocar identificação com os jovens por causa de suas tramas e de seus personagens – quase todos na casa dos 20 anos, Murakami tem uma linguagem clara e fluente, que cativa os leitores e facilita o trabalho dos tradutores. “É fácil de ler e instrutivo, vem salpicado de um humor”, diz a tradutora Lica Hashimoto. ”A descrição que ele faz do cotidiano e a maestria com que desenvolve o fluxo de pensamento dos personagens criam laços entre leitor e narrador. Entre os escritores japoneses, poucos atingiram um grau tão intenso de aproximação:’ Com seu estilo, Murakami consegue ao mesmo tempo ser admirado por jovens e arrancar elogios dos críticos. “Mais importante que esses traços superficiais, o que conta em suas histórias é um sentimento quase cósmico de falta de abrigo': diz Poole. “Isso supera as fronteiras culturais.”

Murakami caiu no gosto do mundo porque seus 12 romances – embora ambientados no Japão e com personagens japoneses são repletos de referências ocidentais, como música clássica e jazz. Antes de virar escritor, ele era dono de um bar de jazz, o Peter Cat, em Tóquio. Filho de um monge budista e uma professora de literatura, Murakami é casado desde os anos 1960 e não tem filhos. Vive entre Tóquio e Kauai, a quarta maior ilha do arquipélago do Havaí. Ali, tenta se esconder dos paparazzi, que detesta, e dos jornalistas japoneses, com quem pouco fala.Diz odiar a cultura das celebridades. Aos 33 anos, começou a correr maratonas e nunca mais parou. Hoje, tem 63.Quando perguntaram a ele como entra na mente jovem, ele disse: “Quando escrevo sobre alguém de 15 anos, volto aos dias em que tinha aquela idade. É como uma máquina do tempo. Lembro de tudo. Sinto o vento. Sinto o cheiro do ar': Sua popularidade entre os jovens começou em 1987, com Norwegian wood, seu quinto romance, até hoje o mais vendido, com 12milhões de exemplares.O enredo acompanha um universitário apaixonado pela namorada do melhor amigo que se suicidou. O livro, ambientado na década de 1960,catapultou sua carreira e,desde então, ele escreveu sete outros romances – todos bestsellers, todos capazes, de alguma forma, de cativar o espírito dos jovens no mundo inteiro.

 

Quando o ator vira diretor

Um dos filmes mais cotados para o Oscar de 2013 foi dirigido por um diretor cuja carreira começou do outro lado da câmera. Argo, que estreia nos cinemas brasileiros nesta semana, é o terceiro longa-metragem do americano Ben Aft1eck, de 40 anos. Inspirado em fatos reais, detalha o resgate de reféns da embaixada americana no Irã, em 1979, no auge da revolução islâmica.

O filme conclui a espetacular volta por cima de Affleck, Na última década, ele virou alvo de piadas por suas atuações sofríveis e pela vida pessoal desgovernada. Depois de um começo promissor ele ganhou o Oscar em 1997 pelo roteiro de Um gênio indomável ao lado de Matt Damon -, sua carreira degringolou. As participações em Armaggedon (1998) e Pearl Harbor (2001) foram muito mal avaliadas. O ápice do desprestígio ocorreu em 2004, quando recebeu o prêmio Framboesa de Ouro, paródia do Oscar que premia os piores do ano no cinema.

Em 2007, quando ninguém esperava, Affleck dirigiu seu primeiro longa, Medo da verdade. Embora não tenha sido comercialmente bem-sucedido, o filme agradou à crítica. Atração perigosa, seu segundo filme, gerou US$ 92 milhões de receita, mais que o dobro do orçamento. Segundo Dana Stevans, crítica da revista on-line Slate,Argo é o “mais técnico e coeso” dos três filmes e coloca seu diretor entre os grandes. Affieck parece seguir o mesmo caminho trilhado por Clint Eastwood e Ron Howard, atores que alcançaram reconhecimento de verdade por seu trabalho de direção. “Comecei a perceber que queria fazer algo diferente. Minhas opiniões não batiam com as dos diretores com quem trabalhava': afirmou o Affieck ao jornal Chicago Tribune.

            Para o crítico Allen Barra, do site Salon, os três primeiros filmes de Aft1eck são melhores que os três primeiros de Eastwood, diretor que já levou dois Oscars. Grande parte de sua evolução se deve à capacidade que ele tem de assimilar as habilidades dos diretores com quem trabalhou. “O ator acaba pegando um pouquinho do estilo de cada um dos diretores”, diz o crítico brasileiro Marcelo Lyra. O problema de grande parte dos atores que viram diretores é não conseguir escolher. Querem atuar e dirigir ao mesmo tempo. No caso de Aft1eck, pode não ser uma boa ideia.

 

A confraria das letras

            Aos 26 anos, o iraniano Mahbod Moghadam detestava seu emprego. Formado em Direito pela Universidade Yale,nos Estados Unidos, considerava torturantes as horas passadas dentro de um escritório de advocacia, no centro de Nova York.Quando foi demitido, em agosto de 2009, não reclamou. Passou a gastar as tardes do jeito que gostava – jogando conversa fora e ouvindo hip-hop. Com o tempo, seus dois grandes amigos de faculdade,TomLehman e Ilan Zechory, ambos com 25 anos, começaram a ficar preocupados. Moghadam estava obcecado. Seu único assunto era rapoDe iPod na mão, ansioso, ele explicava cada verso com detalhes. Por horas. Lehman, um programador habilidoso, teve então uma ideia: criar um site terapêutico para o amigo. Nele,Moghadam colocaria suas letras prediletas e comentaria os trechos que quisesse. O nome seria uma referência ao rapper Notorious B.I.G., um de seus favoritos: Rap Genius.

Para a surpresa de Moghadam, o site ficou ótimo. Após alguns ajustes, o trio começou a convidar colegas a visitar e participar dele. O modo de operação era típico da interatividade da internet. Primeiro, um usuário inseria uma letra de canção e analisava alguns versos. Depois surgia outro para comentar trechos diferentes. Aseguir, novos visitantes esclareciam gírias, contextualizavam canções e subiam mais músicas. Crescia, assim, uma espécie de Wikipédia do rapo. Qualquer um que entrasse ali poderia, ao mesmo tempo, ouvir a música, compreender a letra e ampliar o conhecimento sobre o tema. Até mesmo rappers consagrados, como os americanos Nas e 50 Cent, viraram frequentadores. Hoje, são mais de 2 milhões de visitantes todo mês..

No capítulo mais recente da história de êxito de Moghadam e seus amigos, em 3 de outubro o site recebeu um investimento de US$ 15milhões. Aquantia veio do fundo de capital de risco Horowitz Andreessen, que leva o sobrenome de dois dos principais empresários do Vale do Silício: Ben Horowitz, exdono da Opsware, companhia de software vendida à Hewlett -Packard por US$ 1,6bilhão em 2007; e Marc Andreessen, o criador do Mosaic, o primeiro navegador de internet. No comunicado que anunciou o negócio, Andreessen explicou que o Rap Genius deverá se tornar um dos maiores sites do mundo num futuro próximo. O trunfo dos jovens criadores, disse ele, foi permitir o debate colaborativo no mesmo espaço do entretenimento. Algo similar ao que ele mesmo tentou fazer, sem sucesso,em 1993,ao lado do desenvolvedor Eric Bina. “Nossa ideia era que cada página da web pudesse ser uma plataforma de debates sobre seu próprio conteúdo': escreveu Andreessen. Agora, com a internet mais madura e o crescimento do Rap Genius, ele quer retomar o plano. Acredita que, no futuro, todo conteúdo on-line ganhará anotações dos visitantes, proporcionando navegações aprofundadas.

De alguma forma, a expansão do Rap Genius já vem ocorrendo. Os internautas hoje colocam músicas de outros gêneros, como rock e country. Também analisam discursos presidenciais e até artigos acadêmicos. No ano passado, um professor de inglês pôs no site um trecho de O grande Gatsby, romance do escritor F.Scott Fitzgerald, para seus alunos debater. Um professor de Direito da Universidade Stanford dissecou leis de direitos autorais americanas. As aplicações para a plataforma, dizem os criadores do Rap Genius, são infinitas. “Agora estamos contratando pessoas para liderar comunidades de indie rock, leis, poesia e textos religiosos”, disse Moghadam a ÉPOCA. Ainda dominado por conteúdo em inglês, o site busca se popularizar em outros idiomas. De acordo com Moghadam, a comunidade brasileira, ainda pequena, ganhará força nos próximos meses.

Até o início de 2013, o grupo deverá lançar um aplicativo de Rap Genius para smartphones. Depois, a missão do trio será criar o Medical Genius, que servirá para tratar de questões de saúde. “Isso mudará o conhecimento humano': diz Moghadam, sem esconder a ambição. Rico aos 29 anos, ele se diz enfim realizado. “Tem sido uma terapia:’ E comemora como um bom fã de rapo”O dinheiro não importa. Serve só para o champanhe.

 

Vamos viciar as crianças?

            Me filma lendo uma poesia de Drummond!”, diz Luiz, de 11 anos. “Tia, escrevi um livro, escrevi um livro!”, grita Henrique, de 12. “Você vem no nosso evento hip-hop, só de meninas? É o ‘Pronto Falei’. Somos as ‘Ladies’. Vou te mandar o ‘flyer’ por e-mail”, fala Mariana, de 16 anos, olhos verdes de gata, faixa de bolinhas brancas nos cabelos, com o notebook no colo.

Crianças e jovens nas comunidades de Manguinhos e da Rocinha, no Rio de Janeiro, estão viciados. Em livros, computadores, filmes, peças, shows, capoeira, dança, música, horta, culinária. Tudo de graça nas bibliotecas-parque do Rio. Para quem aposta na vida e no conhecimento. É um vício que contamina suas mães e seus pais, entra no sangue e muda a forma de ver, refletir e atuar no mundo. Emociona qualquer um disposto a enxergar o outro lado do muro da vergonha, do crack, da violência e dos fuzis.

As bibliotecas-parque no Rio são espaços coloridos de sonho e tecnologia, com acervos de dar inveja a faculdades e livrarias tradicionais. Acervos comprados pelo Estado e não doados. A da Rocinha foi inaugurada em junho passado, numa antiga clínica clandestina de aborto. Recebe 370 pessoas em média por dia. Tem 10 mil livros e 555 DVDs. Até agora, emitiu 1.879 carteirinhas, recebeu 3.754 consultas e emprestou 4.912 livros e filmes.

A de Manguinhos, a primeira do Brasil, abriu as portas em abril de 2010. Antes, era um galpão desativado de suprimentos do Exército, junto a uma praça ocupada por traficantes. Ganhou um prêmio na Bienal do Livro de 2011. Em dois anos e meio, recebeu quase 160 mil pessoas. Conta 105 mil consultas, 36.338 empréstimos e 5.230 carteirinhas. Tem um acervo de 26 mil livros e 1.205 DVDs.

Os números impressionam quem acha “biblioteca” uma coisa elitista, ainda mais em comunidades carentes de tudo, até de esgoto. O mais surpreendente é o conceito desses laboratórios culturais vivos, a sofisticação dos equipamentos e as instalações de Primeiro Mundo.

Em Manguinhos, bem ao lado da “Faixa de Gaza” de onde foram removidos há duas semanas dependentes de crack, vi um menino chegar só de bermuda, parar na porta e vestir a camisa para entrar sem ser advertido. Eles respeitam as regras. E se sentem respeitados, valorizados. Na Rocinha, onde uma instalação de pastilhas giratórias na parede conta, de maneira lúdica, a história da comunidade, uma das placas brancas faz a pergunta: “Qual a pessoa mais importante que já visitou nossa biblioteca parque?” Viramos a placa e a resposta é…um espelho.

Nos jornais e na televisão, o que dá ibope são as prostitutas infantis da Rocinha, as refinarias de droga em Manguinhos e no Jacarezinho. Não interessa saber que a equipe da superintendente de Leitura e Conhecimento do Estado do Rio, Vera Saboya, é convidada a contar nossa experiência aos bibliotecários de Washington, Paris e Bogotá. Ninguém divulga que a Royal Shakespeare Company, da Inglaterra, envia representantes ao Rio para laboratórios de arte cênica com alunos e professores nas bibliotecas-parque.

“A gente não faz educação formal, não somos escolas”, diz Vera. “Mas estamos desenvolvendo novas formas de educar crianças, jovens e adultos através da arte e da inclusão digital. Sem preconceito com o leitor, com sua classe social, se estuda ou não, se é operário, se chegou ou não à universidade. Ele encontra aqui de tudo – de livros sobre a Grécia Antiga até o best-seller mais vendido. Qualquer um deveria ter acesso a todo tipo de conhecimento, do popular ao erudito.

A secretária de Cultura do Estado, Adriana Rattes, diz que foi proposital chamar os centros culturais de bibliotecas. “Num país onde se lê tão pouco, não há nada mais revolucionário e inovador do que investir em algo assim. Chamamos de Biblioteca, com letra maiúscula.” E é um “parque”, para mostrar que a aventura do conhecimento pode se dar num espaço propício ao encontro, à troca, ao prazer e ao lazer.

“O que dá gosto aqui': diz Adriana, “é ver namorados, ou pais com filhos, ou crianças com avós frequentando a Biblioteca aos sábados e domingos, com seus saraus de poesia, cineclube, desfiles de moda e grupos de teatro:’ A próxima bibliotecaparque será no alto do teleférico do Complexo do Alemão.

Como jornalistas, aprendemos a máxima de séculos atrás: “Notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado; o resto é propaganda”. Somos treinados para a investigação do malfeito, para a denúncia da contravenção. Numa semana como esta, de onda de violência em São Paulo, é um privilégio “denunciar” o bem. Ganhei o dia como testemunha ocular desse outro lado do muro, pouco atraente à mídia. Vamos viciar nossas crianças num mundo melhor porque elas merecem.

Revista Veja Páginas Amarelas 21/11

AS INOVAÇÕES EM JULGAMENTO A criadora do Firefox, navegador que revolucionou a internet, diz que a atual guerra de patentes ameaça o espírito criativo de um industria dependente das inovações. O ambiente democrático da internet deve muito á America Michell Baker. Advogada especializada em direito digital, ela ajudou a criar as condições para o lançamento do primeiro navegador comercial, o nestcape, nos anos 90, Em 2004, como presidente de um fundação sem fins lucrativos, a Mozilla, Mitchell causou um revolução com o sistema de licenciamento do Firefox. Os códigos que faze, funcionar esse navegador soa abertos. É permitido copiá-los ou adaptá-los em outros produtos, contato que a inovação sejam compartilhadas. O modelo inspirou gigantes, como o Google, na cria’;cão de navegadores e diversos outros produtos. Aos 55 anos Mitchell Baker é um trapezista aplicada, fala mandarim com razoável fluência e se preocupa com a falta de ímpeto inovador no mundo digital. Quem se prejudica mais com as disputas judiciais envolvendo patentes entre a Apple , a Samsung e a Motorola? O maior prejudicado, em primeiro lugar, é o ritmo de inovação que tradicionalmente impulsiona o mundo digital em direção ao futuro. Um estudo recente mostra que as maiores companhias da área de tecnologia digital, como a Apple, já pagam mais com processos judiciais, que exigem equipes enormes de advogados ao redor do globo, do que com o desenvolvimento de novos produtos. Elas estão, portanto, deixando a criatividade em segundo plano. O consumidor, evidentemente, é outro prejudicado. A Apple e a Samsumg forçam a retirada do mercado de smartphones e tablets alegando que a concorrência copiou alguma de sua patentes. A escolha do que aos sobrevive ou não nas lojas deveria ser do consumidor, não de juízes e advogados. Por fim, a estratégia injusta promovida nos tribunais amedronta e barra a criação de startups ( empresas iniciantes), que não têm chance nesse jogo pesado. Não por faltar inspiração a seus donos e empregados, mas por elas não terem em caixa o mesmo capital dos titãs da tecnologia. Esse cenário não é a própria negação do espírito revolucionário da industria digital? Ë realmente vergonhoso,. Steve Jobs só chegou ao topo porque no começo, nos anos 70, ele pode se reunir com equipes que compartilhavam sem temor suas descobertas. Esse ambiente colaborativo lhe deu a base para criar p Apple II, o primeiro computador pessoas com a cara que conhecemos. Só assim a empresa Jobs teve condições de enfrentar as grandes companhias daquele tempo. Passada quatro décadas, a Apple é grande promotora desse conflito judicial por patentes, impedindo que outros possam se inspirar em seus produtos para criar suas inovações A própria empresa criada por Jobs tem barrado o surgimento de novos Jobs. O futuro da inovação pode estar comprometido ? Lembremos que a internet e os protocolos regidos por ela foram criados por pesquisadores que trabalhavam para governos, como o americano, e por cientistas, que nada queriam lucrar, como o do Cern( Organização Europeia para a pesquisa Nuclear). Aonde foi desenvolvida a WWW(sigla para World Wide Web) Se no começo prevalecesse a determinação de não comparatilhar inovações e se elas fosse protegidas por barreiras de patentes, a internet nunca teria se transformado no ambiente democrático que é , no qual qualquer um pode divulgar o que bem entende. Voltando aos dias de hoje, temos de avaliar as péssimas conseqüências que podem advir do fato de apenas uma outra empresa pode fabricar tablets e smartphones. Quais seriam as conseqüências? Ficaríamos todos, empreendedores . cientistas e consumidores, reféns de um pequeno grupo de empresas. Os desenvolvedores de aplicativos seriam submetidos ás vontades da Apple e do Google. Os preços passariam a ser ditados por pequenos times de executivos. A concorrência seria tremendamente desleal, com efeitos negativos na economia. É esse cenário negativo que nos espera? Acredito que não, felizmente. Aprendi que o mundo digital opera em ciclos. Há momentos de intenso compartilhamento entre jovens empreendedores que resultam em enxurradas de inovações. Uma parcela dessa turma depois passa a ser generosa com os demais empreendedores. Isso em geral não dura muito tempo. Logo surgem grupos que encontram brechas nessa lógica, furam as regras e reabrem um novo ciclo de inovações. Pode ser que as próprias companhias entendem que estão desperdiçando esforço e gastando que as representem as guerras de patentes. As empresas começam a sentir que têm um problema sério quando elas próprias constatam a diminuição de seu ritmo de produção e novações. Isso já aconteceu na Apple. Nos anos 90, a empresa criada por Steve Jobs descuidou da inovação e o resultado foi que ela quase entrou em processo de falência. Já houve um período de dominação de um único grande fornecedor de soluções na internet? Há oito anos, antes do navegador da Firefox, quase 100% das pessoas se restringiram ao uso do Internet Explorer da Microsoft, e achavam que estava bem assim, N”ao viam escapatória. A sociedade tinha perdido o controle da web. Isso é similar ao direito do cidadão de ir e vir na vida real. Nenhum país, nenhuma organização, nenhuma empresa pode assumir o controle da internet. Mas, até aquele momento , o navegador era visto só como um ícone na barra de ferramentas do Windows que, quando clicado permitia a entrada na web. Não fazia diferença quem estava por trás desse ícone. Nenhuma com fins lucrativos ousava desafiar a Microsoft e seu Internet Explorer, já que todos achavam que isso resultaria em prejuízo. Como somos uma fundação sem fins lucrativos foi possível para nós competir com a Microsoft. Se hoje é senso comum que o navegador dita e guia nossa experiência virtual, é porque provamos isso com o Firefox. Nosso trabalho ajudou a restabelecer as leis de mercado. Tiramos a Microsoft do seu trono e abrimos caminhos para outros competidores como o Google Chorme. Hoje a lógica da hegemonia que a Microsoft desfrutou por algum tempo no mundo dos navegadores de internet está sendo replicada no mercado de tablets e smartphones, com o iOS, da Apple, e o Android, do Google, dominando a cena da forma claramente abusiva. Qual foi o segredo que permitiu tirar um naco do mercado da Microsoft na internet? Tivemos sucesso porque criamos um produto que as pessoas realmente queriam. De nada aditaria fazer só um navegador de código aberto, mas que o consumidor não quisesse baixar. Percebemos isso quando foi lançado um primeiro modelo, sem sucesso. Três anos depois em 2004, fizemos o Firefox, Ele é bom, eficiente agradável. Só assim pudemos pensar em um navegador que, além de criar impacto na sociedade, tivesse sucesso comercial. Outro segredo é o conceito de código aberto. Qualquer desenvolvedor do mundo pode nos ajudar a melhorar nosso navegador, o que ocorre diariamente. Temos em mãos um produto bom e maleável que é constantemente aprimorado em benefício de todos os usuários da rede. Os softwares livres, com o código aberto, ajudaram países em desenvolvimento, como o Brasil, a ter participação mais ativa na web? Há quinze anos. Os negócios do mundo digital eram extremamente centralizados. Uma pessoa fora das grandes empresas do setor dificilmente tinha oportunidades de participar das mudanças que ocorriam. Não é mais assim. A forma como pensamos a arquitetura da web mudou. Hoje a lógica é permitir que qualquer cidadão tenha acesso aos sistemas que regularam a internet e, assim, se envolver. Qualquer um com um computador conectado pode ter acesso ás informações que todo mundo compartilha. Basta uma pesquisa rápida para descobrir como as coisas funcionam. Qualquer individuo, seja de um país pobre, seja de um país rico, tem oportunidade de aprender, inovar e ganhar rios de dinheiro com isso. Como a senhora responde aos críticos que consideram o código aberto um estímulo à pirataria e uma ameaça às leis de direitos autorais? Não ocorre nada disso. Veja o caso das leis de direitos autorias. Processos de patentes só deveriam ser levados adiantes quando alguém faz uma cópia evidente de um produto. Nestes casos é indiscutível que as empresas possam ter assegurados os direitos sobre os produtos desenvolvidos por elas. Na minha opinião o ideal é que as empresas tenham direito sobre a venda do produto, mas também compartilhem algumas das inovações que levaram ao seu desenvolvimento. Ninguém discute também que algumas das ações judiciais que correm hoje nos tribunais são risíveis. Francamente é um abuso um empresa buscar ajuda da justiça para se declarar dona do design de um ícone de programa ou de tablets. É o que a Apple tenta fazer. Ela quer ser dona do direito de uso do formato de cantos arredondados desses dispositivos. Um retângulo similar com cantos retos todo mundo pode usar. A senhora concorda com o endurecimento das leis antipirataria, em estudo nos Estados Unidos e em alguns países da Europa? De forma alguma. Essa leis protegem o conteúdo a todo custo, sem considerar o que faz com que a web seja tão inovadora. Elas não levam em conta que a internet tem de ser um ambiente livre para o aparecimento de sites programas, idéias . Essas propostas pretendem criar uma barreira intransponivél, limitar a navegação e o acesso, para proteger direitos autorais. Essa forma de pensamento é antiquada e não combina com os moldes atuais da web, cuja essência do jogo é o compartilhamento em redes sociais de vídeos, fotos e idéias. O risco é os Estados Unidos se tornarem uma China. Precisamos sentar todos juntos, os agentes de transformação da web para pensar em como combater a pirataria . O que deveria ser levado em conta nessa discussão? Que a sociedade acredita que muitas coisas devem ser compartilhadas gratuitamente pela web. Não há como mudar isso. Leis extremistas acabariam por provocar prejuízos econômicos maiores que a pirataria. O Brasil é hoje um dos grandes celeiros de hackers, isso é bom ou ruim? Depende de como o Brasil educa seus hackers. Podem surgir garotos com habilidade extraordinárias para empreende, gerar empregos e criar uma sociedade melhor. Ou o Brasil poderá ver aumentar as fraudes, os crimes sem os benefícios de ter gente talentosa. É possível reverte esse cenário de disputas judiciais por patente? A Mozilla desenvolveu um software que roda aplicativos em smartphones e tablets apenas com recursos da web. Ou seja dispensa um sistema operacional tradicional como o do Android, do Google ou o iOS da Apple. O programa que trambém deve ser chamado de Firefox, tem código aberto e qualquer um pode tentar melhorar-lo . Como programa ajuda a baratear a fabricação de um aparelho, nossas parceiras, como a Telefônica da Espanha, como a qual já fechamos contrato, podem oferecer smartphones a preço menor. Nossa ambição é provocar impacto similar ao alcançado com o lançamento do navedaor Firefox, em 2004. É verdade que o Brasil será um dos primeiros a receber esses smartphones? O Brasil é o retrato de nosso público alvo, os maiores pobres, que forma a maioria no terceiro mundo, poderão ter celular tão bons e eficientes quanto um iphone. Isso vai aquecer o mercado e permitir o surgimento de outras empresas. Seu objetivo é acabar com modelo de negócio de empresas como Microsoft e Apple? De forma alguma. Essa maneira tradicional de realizar negócios tem sucesso. Para o mercado e para os consumidores, é importante a existência dos dois modelos, o fechado e o aberto.

Epoca 12.11

A oposição tem de se opor

A eleição nos EUA mostra que competir por ideias pode ser mais importante do que vencer

 

Os brasileiros aprenderam uma lição na última campanha eleitoral americana. É bom viver num país com uma oposição estruturada e um programa claro, capaz de defender valores e propostas nos bons e maus momentos. Cada um dos eleitores sabe exatamente por que Barack Obama derrotou Mitt Romney. Ele impediu uma recessão mais grave, criou um programa de saúde, estimulou o emprego com subsídios. Romney foi o concorrente cioso de valores individuais, da supremacia do indivíduo sobre o Estado, da sociedade onde cada um tem liberdade para empreender sua própria vida. Em eleições assim, as urnas separam vitoriosos dos derrotados – mas todos ganham com um debate centrado mais nas propostas do que nas características pessoais dos candidatos. Não é o que acontece no Brasil.

Enquanto o PT estava na oposição, suas principais bandeiras eram – por óbvio – opostas às do governo: a favor do calote na dívida externa e da estatização dos bancos, contra o Plano Real e a abertura da economia, pelo socialismo e contra o capitalismo de mercado. Tal discurso contribuiu para consolidar sua imagem como um partido de esquerda, que queria o “bem do povo” e o “fim da corrupção': Quando finalmente ficou claro que chegaria ao poder, muita coisa mudou. O então candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, salvou-se – e evitou uma catástrofe econômica – ao enfrentar a resistência interna e assinar a Carta ao Povo Brasileiro. Ao mesmo tempo, o PT adotou as práticas deletérias que resultaram no escândalo do mensalão.

As vitórias sucessivas de Lula e suas crias em eleições (o último troféu foi o pleito municipal de São Paulo) sugerem que os eleitores do PT e do gelatinoso grupo de siglas à sua volta sabem por que apóiam seus candidatos – que até os próprios petistas mais bem-humorados já chamam de “postes”. Quanto aos eleitores da oposição, não se pode dizer o mesmo.

Ao contrário do que existe nos Estados Unidos, o discurso da oposição não tem nada de oposto as do governo. Ou alguém sabe de algum político defendendo a privatização da Petrobras? O fim dos programas assistencialistas? A extinção de impostos? O fim dos subsídios às empresas improdutivas? Não há nada que chegue perto de uma plataforma oposicionista entre partidos brasileiros.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que está na hora de renovar o PSDB e a oposição. Isso, diz, ele, não é só ”comunicar-se melhor, usando a linguagem contemporânea das mídias televisivas e eletrônicas”, mas também “se dirigir aos mais pobres, às classes médias, tanto antigas como as camadas que aumentaram a renda”.

Um número considerável de brasileiros não se cansa de dizer, nas urnas, que não está contente com o que vê. Ao contrário de FHC, Lula e Dilma jamais venceram no primeiro turno. O PT também perdeu em capitais antes vistas como seu quintal eleitoral. Com vitórias expressivas, o PSDB não pode ser um caçador de oportunidades improvisadas, sem uma mensagem clara. Sem isso, faltará à oposição, a força daquilo que se opõe e, pela simples razão de existir, garante visibilidade a todo sistema político.

 

O risco de legalizar a pirataria na internet.

 

Em debate no Congresso, o Projeto de Lei do Marco Civil da Internet pode servir de proteção à pirataria. Até hoje, funciona na rede uma jurisprudência eficaz, conseqüência da lei de direitos autorais em vigor. Quando alguém copia ilegalmente algum conteúdo – seja texto, música, filme etc. -, basta que o pirata seja notificado pelo autor legítimo para que se torne legalmente responsável pelo ato e tenha de tirar do ar o que copiou, ou então enfrentar um processo.

Pelo projeto, cujo relator é o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), a responsabilidade do pirata pelo ato só existiria após uma sentença judicial, que pode levar semanas ou meses, em que os direitos do autor permaneceriam impunemente violados. Grandes editoras e empresas de comunicação até dispõem de recursos para arcar com os altos custos dos advogados necessários para defender seus direitos. Os autores independentes e pequenas empresas seriam os mais prejudicados. Muitos recebem simples trocados como direitos autorais e teriam de pagar toda essa despesa do próprio bolso.

Apenas em 2011, foram encaminhadas 50 mil ações extrajudiciais de livros, 18 mil de músicas, 15 mil de filmes. Se a nova regra for aprovada, é provável que os custos judiciais nem sequer possam vir a ser cobertos pelos direitos autorais recebidos legalmente. Seria um retrocesso na regulamentação de um ambiente onde hoje se constrói o futuro da comunicação.

O vidente nerd das urnas

Com cálculos sofisticados, o estatístico Nate Silver acertou o vencedor da eleição em todos os Estados americanos.

A vitória nas eleições desta terça-feira foi apertada para o presidente Barack Obama, mas avassaladora para o estatístico americano Nate Silver. Aos 34 anos, o jovem nerd nascido em Michigan superou analistas políticos e comentaristas de televisão do mundo todo ao prever corretamente o vencedor da disputa presidencial em todos os 50 estados americanos.

Até O fechamento desta edição, faltava apenas a divulgação do resultado oficial na Flórida. Obama, o favorito no Estado segundo Silver, liderava a apuração. Um feito impensável numa disputa que, até a abertura das urnas, era vista como acirrada demais para prever.

O segredo de Silver para vencer os palpiteiros é um ambicioso modelo estatístico, explicado em seu recém-lançado livro The signal and the noise (O sinal e o ruído). Em vez de analisar as pesquisas de intenção de votos individualmente, Silver reúne dados de centenas de levantamentos feitos por centenas de institutos, em todos os Estados americanos, e atribui um peso aos resultados. Pesquisas que costumam acertar mais têm um peso maior. Outras, menos confiáveis, entram nos cálculos com um peso menor, mas não são ignoradas. A essas informações, Silver agrega dados demográficos e indicadores econômicos que costumam influenciar as eleições. As informações são computadas e fundamentam as previsões sofisticadas que, atualizadas diariamente, conquistaram os leitores do blog FiveThirtyEight, mantido por Silver no site do jornal The New York Times. “As pesquisas normalmente são boas, mas deixam margem para a dúvida': disse Silver, em entrevista ao site. “Quando você tira uma média, elas funcionam melhor.”

Formado em economia pela Universidade de Chicago, Silver  tornou-se conhecido do público na eleição de 2008, quando seu blog, até então independente, previu com sucesso os resultados da disputa entre Obama e McCain em 49 dos 50 Estados americanos. Foi o suficiente para chamar a atenção do New York Times, que passou a abrigar seu blog. A decisão de usar estatísticas para prever os resultados da eleição veio da paixão de Silver pelo beisebol. Antes de se dedicar às análises políticas, ele criara um modelo para prever resultados de partidas e o desempenho de jogadores. Deu certo: em 2007, ele previu com exatidão os resultados do time White Sox, de Chicago, na temporada. Mas o êxito não chamou tanta atenção. As estatísticas são usadas por comentaristas de beisebol há décadas, e Silver era apenas mais um.

Como um estatístico razoável do beisebol se tornou a maior estrela da cobertura política de 2012? Silver atribui seu sucesso à falta de concorrentes. Ao contrário dos estudiosos do beisebol, que há muito aprenderam o valor dos números, a maioria dos comentaristas de política baseia suas previsões em pouquíssimos dados (alguns indicadores econômicos e uma ou outra pesquisa isolada) ou, pior ainda, na intuição. Não costuma funcionar. Em seu livro, Silver faz um levantamento de previsões políticas de comentaristas de televisão e afirma que eles costumam acertar 50% das vezes. Uma vergonha, perto dos 100% de Silver nesta eleição. ‘”As previsões dos comentaristas de televisão são inúteis”; disse Silver, em seu perfil no Twitter, poucos dias antes da eleição. Os resultados deram razão a ele. Para dar o troco em 2016, os comentaristas tradicionais terão de voltar às aulas de matemática.

Paintball no espaço

O plano ousado e premiado de um estudante depara salvar a Terra da trágica colisão com um asteróide.

A idéia só poderia ter saído da cabeça de um nerd. O jovem coreano Sung Wook Paek é estudante de mestrado do Departamento de Aeronáutica do célebre Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Paek acaba de ganhar US$ 25 mil por vencer a competição Desvie um Asteroide 2012. Foi criada para resolver um problema potencialmente grave: desviar o asteróide 99942 Apophis. Descoberto em 2004, ele orbita o Sol entre Vênus e a Terra. Às vezes mais para lá ou mais para cá. O Apophis passará perto da Terra em 2029, a gravidade terrestre \ltere seu curso e o desvie para um impacto direto em 2036. Sua queda teria o potencial de arrasar uma cidade como São Paulo. Paek, além de gênio, adora paintball. Ele imaginou uma missão para pintar o asteróide e salvar nosso planeta.

O mundo e o Brasil olham para Xi

A China chegou ao limite do crescimento. O novo governo precisará fazer mudanças difíceis, a fim de reduzir a pobreza e conter as tensões – e isso afetará todo o planeta.

Nenhum brasileiro tem certeza de quem presidirá o Brasil em 2015, nem de quem serão os ministros em 2013 ou mesmo na semana que vem. Mas todo brasileiro deverá ser afetado pelas decisões do chinês Xi Jinping, de agora até 2022. O engenheiro químico e cientista político de 59 anos adentrou o 18º Congresso do Partido Comunista Chinês, iniciando na semana passada, pronto para ser apontado como o novo secretário-geral do PC e, em março, o novo presidente da China. A cada cinco anos, o Congresso consagra os futuros dirigentes do país. É praxe a cúpula do governo se manter por dois “mandatos” consecutivos. A não ser que haja algum grande imprevisto, Xi comandará a China pelos próximos dez anos. Terá influencia decisiva sobre o comércio e os investimentos mútuos entre seu país e o Brasil. O que ele fizer afetará empregos, salários e preços por aqui.

Xi é casadocom uma famosa cantora, Peng Liyuan, de 50 anos, embaixadora simbólica da Organização Mundial da Saúde e acostumada a lidar com o público. Há uma expectativa de que ela comece a participar de eventos oficiais e tenha agenda própria, como fazem as primeiras-damas nos países ocidentais. À parte a mulher de estampa moderna e independente, não se sabe muito mais sobre a disposição de Xi em abraçar reformas sociais e políticas. O novo comandante segue o protocolo do PC: máxima discrição e nenhum personalismo. Faz parte do grupo conhecido como “pricipezinhos”, a elite do PC cujos pais já foram altos dirigentes do partido e protagonistas da revolução de 1949; Viveu na zona rural dos 15 aos 22 anos e trabalhou como camponês, destino de milhões de jovens durante a Revolução Cultural, liderada por Mao Tsé-tung (1966-1976). Como os outros indicados para o novo governo, terá de administrar pressões tanto dos comunistas tradicionais quanto dos reformistas pró-mercado. Sua principal missão será se equilibrar entre essas forças e encaminhar a mudança econômica já anunciada no governo anterior. É um desafio formidável. `

A tarefa legada a Xi está no plano quinquenal, apresentado em março. É o 12º desde a Revolução Comunista de 1949 e define a política econômica até 2016. O documento impõe duas prioridades: estimular o consumo (hoje, os chineses poupam demais e gastam pouco) e expandir o setor de serviços (hoje, a economia depende demais da indústria e das grandes obras). Assim, a China se tornaria menos dependente do mercado internacional. A meta de crescimento recuou para 7% ao ano, bem abaixo dos 10% a 11% ao ano registrados no passado recente. Wen [iabao, o primeiro-ministro que está de saída (e deverá ser substituído por Li Keqiang), reconheceu a necessidade de mudar a fórmula de crescimento. “Precisamos aproveitar a oportunidade (da crise global) para ajustar o crescimento e regular os fatores desequilibrados,descoordenados e, em última instância, insustentáveis que existem na economia chinesa há muito tempo': disse.A disposição para a mudança, apesar de chegar com atraso, mostra conexão com a realidade.”A crise financeira global alertou o PC de que é hora de a China mudar o modelo que lhe serviu muito bem nas últimas décadas': diz o economista Ren Xianfang,da consultoria IHS Global Insight. O sucesso ‘da mudança é incerto. O resultado, seja qual for, afetará o Brasil.

A China é a segunda maior economia global, atrás apenas dos Estados Unidos, e a maior parceira comercial do Brasil. Da China depende grande parte da oferta de produtos baratos em nossas lojas. O Brasil importa de lá carros, aparelhos e componentes eletrônicos, roupas, brinquedos e milhares de outros produtos. Nessa lista já muito variada, cresce a participação de itens caros, sofisticados e bem-feitos, à medida que a indústria chinesa se desenvolve. Nos próximos anos, mesmo que os chineses consumam mais produtos por lá mesmo, deverá aumentar o empenho em vender para cá. As vendas para a Europa caem, e a indústria chinesa tenta se expandir para novos nichos e novos mercados. Isso ocorre com algumas dores: do total de investigações por suspeita de concorrência desleal iniciadas no Brasil em 2011 e 2012 contra importados que chegam abaixo do preço de custo, metade se refere apenas a produtos chineses.

No momento, o Brasil tem saldo comercial positivo com a China’ .•.em valor, vendemos a eles mais q11êCompramos. Mas as exportações se apóiam em apenas dois itens, soja e minério de ferro. Esses negócios geram relativamente poucos empregos, quando se considera o tamanho do mercado chinês. A perspectiva para as vendas de soja à China continua boas. Mas o sucesso da mineradora Vale em vender para a China, incomum entre as empresas brasileiras, está sob risco.

            o novo governo chinês tentará diminuir o investimento em infraestrutura e novas fábricas, o que significará usar menos ferro e aço. Por isso, as vendas de minério poderão sentir o abalo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) vem estudando o tema e concluiu que o Brasil está razoavelmente bem preparado para absorver o golpe. O Chile (fornecedor de cobre) e a Arábia Saudita (fornecedora de petróleo) sofreriam mais. A razão é que o Brasil exporta uma variedade de produtos para outros destinos, como Estados Unidos e América Latina. Mas não passaremos incólumes ao impacto das mudanças na China. Os economistas Ashvin Ahuja e Malhar Nabar detalharam o efeito num relatório. O efeito da desaceleração do PIE brasileiro, pelo relatório, seria de um vigésimo da desaceleração dos investimentos em obras e fábricas na China.

Há um terceiro modo de sentirmos os efeitos da transição na China. O governo e empresários brasileiros esperam, desde o início do século XXI, que os chineses invistam fortemente por aqui. Por essa lógica, a China precisa que o Brasil tenha boa infraestrutura, a fim de escoar as matérias-primas compradas aqui. Essa expectativa foi frustrada por vários anos. “Não esperem que os chineses invistam tão facilmente. Eles virão se houver perspectiva de lucro': diz o economista indiano Bala Chakravarthy, professor da escola de negócios IMD e especialista em companhias de grandes países em desenvolvimento. Só em 20 lO, o capital chinês chegou com força. Foram feitos investimentos de US$ 9,5 bilhões no Brasil, pelos cálculos da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), Ele continua chegando, na forma de empreendimentos como a fábrica da montadora de automóveis Chery, anunciada em outubro, a ser construída em Iacareí, São Paulo, por US$ 400 milhões. Mas, se a economia chinesa passar a rodar em marcha mais lenta, esses investimentos no Brasil também poderão reduzir o ritmo.

Todas essas variáveis dependem do grau de sucesso ou fracasso na transição econômica chinesa. Xi e seus colegas precisarão superar vários obstáculos. O primeiro deles é o gigantismo e a complexidade da China. O país colheu bons frutos por liberar a iniciativa privada em 1978, mas o crescimento também tornou a economia mais complicada. Atuam na China empresas estatais, parcialmente estatais e privadas. Se algum dia houve como dirigir a economia chinesa a partir de gabinetes, hoje, certamente, isso não é mais possível. Num cenário róseo, o governo conseguiria coordenar grande parte desses agentes, e a economia desaceleraria suavemente. O país investiria menos em novas fábricas e imóveis (muitos deles, nascidos de projetos ruins, transformaram-se em estruturas vazias e dívidas que dificilmente serão pagas). Ao mesmo tempo, as famílias chinesas se sentiriam mais seguras com a expansão da rede de aposentadorias e serviços de saúde, poupariam menos para a velhice e gastariam mais. A economia seguiria em marcha mais lenta, em crescimento próximo de 8% ao ano, porém firme..

Pode ser que as famílias chinesas resistam a ir às compras, e o investimento despenque. Sem consumo nem investimento, a desaceleração será forte demais. Os prédios fantasmas continuarão abandonados, e ficará impossível pagar as dívidas. Alguns acadêmicos, como Michael Pettis, professor de finanças na Universidade Pequim, estimam que a China esteja freando demais. Segundo’Pettis, o crescimento real pode ser a metade do anunciado pelo governo. “O consumo de energia está caindo, o que sugere um crescimento substancialmente menor do que sugerem os números oficiais”, afirmou, em artigo recente.

Esse cenário abre dúvidas sobre o rumo da política na China. Há alguns anos, os analistas acreditavam que o enriquecimento levaria à abertura política no país. Por essa visão otimista, a classe média afluente passaria a exigir acesso à informação e o direito de se expressar. Isso mudou. ”A classe média urbana da China não se levantará em massa contra o Estado, porque tem muito a perder': diz Richard McGregor, ex-diretor da sucursal chinesa do jornal inglês Pinancial Times e autor do livro The party, sobre as entranhas do Partido Comunista Chinês. ”A liberdade de consumir de tudo, carros, imóveis, comida, roupas, é muito mais atraente para os chineses do que vagas noções de democracia tão caras aos ocidentais:’ Agora, as atenções se voltam para a possibilidade contrária – quais seriam as consequências políticas de uma onda de empobrecimento na China? A população começa a dar esparsos sinais de descontentamento com a censura, a crescente desigualdade social e as revelações de enriquecimento de oligarquias ligadas à elite do Partido Comunista.

A agência de notícias Bloomberg calculou que parentes do futuro presidente Xi detenham US$ 376 milhões, embora nada esteja no nome dele nem de sua mulher e filha. Esse tipo de informação- torna menos crível a tentativa de Xi de se mostrar como um homem do povo. Escândalos recentes de corrupção pioraram o clima. O jornal americano The New York Times revelou que a família do primeiro ministro que deixa o poder, Wen Iiabao, tem uma fortuna de US$ 2,7 bilhões. No começo do ano, o escândalo envolvendo Bo Xilai, uma das estrelas do Partido Comunista, repercutiu em toda a China. Em março, sua mulher, Gu Kailai, e seu eoc-cil-refe. de polícia “”a:ne; Lijurl f’oraIT1 presos e condenados pelo assassinato de um empresário britânico. Bo Xilai foi expulso do partido, acusado de envolvimento com o crime organizado. “Esses casos danificaram a imagem do partido, que não tem mais. Autoridade moral diante da população”, diz Cheng Li, especialista em política chinesa do Instituto Brookings, nos EUA.

Não há sinal de democracia à vista. Mas a China certamente não é um monolito. Trata -se de uma sociedade em evolução, que vem se expressando com mais firmeza e dando mais valor aos exemplos e ao pensamento individual de empresarios, artistas e intelectuais independêirtes. O autoritário sistema de governo da China já se mostrou flexível e inteligente o bastante para conseguir melhorar a vida no país. Mesmo assim, Xi terá muito traba1ho para se adaptar mais. uma vez e conseguir controlar a nova China

“Temos que pensar na China do futuro”

            SOBA LUPA DO DIPLOMATA CLOADOLADO HUGUENEY, A DITADURA CHINESA MOSTRA DETALHES INSTRUTIVOS. Nos quatro anos em que já serviu como embaixador do Brasil em Pequim, Hugueney encontrou uma potencia que admite hoje muito mais críticas públicas ao governo, envia juízes ao Brasil para estudar como funcionam nossos tribunais, vem criando rotinas de divulgação de informações governamentais e reconhece alto grau de autonomia nos governos locais. “O governo chinês esta o tempo todo ouvindo especialistas discutindo. Existem elementos de flexibilidade no governo que garantiram o sucesso do crecimento”, diz. Hugueney deverá deixar o posto no inicio de 2013. Diante do que considera mudanças importantes na segunda maior economia do mundo, ele recomenda que os brasileiros – governo, empresas, profissionais, estudantes – se preparem para lidar com a China do futuro, não com o país da mao de obra barata do passado.

ÉPOCA -Quais são os desafios da nova liderança da China?

Hugueney – Como o mundo mudou muito com a crise, o desafio para a nova geração de dirigentes chineses é muito grande. Até agora, o crescimento estava sustentado no investimento em infraestrutura. Isso. mudará. A economia chinesa tem de passar por uma transformação profunda, que envolverá a parte política e social.

ÉPOCA – O que mudará?

Hugueney- O rebalanceamento requer habilidade da nova liderança. Na mudança, o consumo doméstico será o motor de crescimento da economia. Isso requererá avanço nas políticas de distribuição de renda. Durante o crescimento acelerado nos últimos 30 anos, houve concentração. A disparidade de renda entre o campo e a cidade chegou à ordem de 3,6 vezes. Isso deu origem a milhares de conflitos espalhados pelo país. A China tem renda per capita baixa, de US$ 5 mil. Ao mesmo tempo é o maior mercado consumidor de luxo do mundo: Aí está a contradição. Haverá também uma mudança fundamental na indústria da China. O país passará da economia que cresce à base da quantidade para uma que cresce à base da qualidade. De uma economia baseada na repetição, para uma baseada na inovação. Isso transformará a China num país mais homogêneo e desenvolvido.

ÉPOCA- Como isso afetará o Brasil?

Hugueney _O novo modelo criará oportunidades para os parceiros comerciais. Os chineses querem aprender com o Brasil. Essa nova China nos dará a oportunidade d.e.Jazer com que haja complementaridade entre os dois países nas áreas social, cultural e educacional e na inovação, tecnologia e indústria. Ao planejar a política brasileira em relação a

eles, temos de olhar para a China do futuro, não aquela do passado, da mão de obra barata.

ÉPOCA- Nesse novo modelo. a economia chinesa deverá crescer a taxas menores.lSSO não será ruim para o Brasil, cujo comércio internacional passou a depender multo das exportações para a China?

Hugueney- Continua um processo gradual de desaceleração, objetivo do governo chinês. O impacto disso sobre o Brasil e o mundo acontecerá, mas não dever ser pronunciado. Este é um ano de transição política na China. Em anos assim, o governo adota programas para ter um crescimento significativo. Se o crescimento chegar a 7,5%, ainda assim seria considerado significativo ( O FMI previu em outubro que a China crescerá 7,8% em 2012).

Época – Hoje, o Brasil tem um política clara em relação a China?

Hugueney- Temos, há algum tempo. O Plano de Ação Conjunta, assinado entre os dois países em 2010, prevê um equilíbrio melhor no comércio entre os dois países. Ele permite que o Brasil exporte mais produtos manufaturados para a China. Essa orientação ficou mais evidente durante a visita da presidente Dilma Rousseff á China, no ano passado. Ela deixou claro que desejava difersificar nossa pauta de investimentos e conter o ritmo de exportações chinesas que afetam a indústria brasileira, como têxtes, calcados e brinquedos. Os chineses compreenderam e se dispuseram a colaborar.

Época- Se a China não atender aos pedidos, o governo brasileiro pode adotar alguma medida protecionista?

Hugueney – A adoção de medidas é sempre uma possibilidade. Toda relação, no fundo, tem um de oportunidade. No comercio internacional, há sempre complementaridade e competição. Se o parceiro comercial não é importante, se é muito pequeno, esse elemento de ameaça não aparece, mas a oportunidade também é muito limitada. No caso da China, maior parceiro comercial do Brasil e segunda economia do mundo, esse elemento é muito presente. Há a oportunidade de ultrapassarmos o comercio em US$!00 bilhões ao ano ( as exportações e importações somaram US$ 70 bilhões em 2011), muito possível no curto prazo. Mas há também a ameaça da competição. O comercio internacional é um mecanismo para promover o desenvolvimento do país. Não é para ser um instrumento de desorganização de mercado, de composição desleal.

Época – É realista esperar que uma superpotência como a China, preocupada em empregar e enriquecer mais de 1 bilhao de habitantes, atenda a reivindicações do Brasil?

Hugueney – Acho que sim. Primeiro, porque a relação da China com o Brasil é importante para ambos. Tem uma dimensão política nessa relação que interessa à China fortalecer e preservar. O mercado brasileiro desperta cada vez mais o interesse dos chineses, que querem investir aqui e expandir negócios, associando-se a empresas brasileiras. O Brasil é uma economia de peso e não tem nenhuma grande rivalidade com a China. Esses problemas na área comercial ocorrem entre quaisquer países. Não temos problemas de competição estratégica, de fronteira e militares. A China tem interesse em ajudar o Brasil não porque seja boazinha, mas porque quer um parceiro estratégico, um sócio comercial e político cada vez mais importante. A aposta da China no Brasil não é para hoje ou amanhã. É de longo prazo. Por isso a China tem mostrado disposição em equacionar esses problemas comerciais. Se essa solução não vier pelo diálogo, acabará vindo por outro tipo de medida.

ÉPOCA – O senhor diz que a China se esforça para mudar em diversas frentes. O que o pais tem feito?

Hugueney – O governo chinês trabalha muito na questão do Estado de Direito, na profissionalização dos juízes, fazendo leis mais transparentes. Os julgamentos estão mais de acordo com as tradições de transparência, correção e profissionalismo, como no Ocidente. Existe um intercâmbio – eles trazem juízes ao Brasil para conhecer os tribunais brasileiros. Outra questão é coibir abusos. Existem fiscalização e denúncias na imprensa. A liberdade de expressão conquistada na China, ainda muito menor que a nossa, tem possibilitado esse tipo de ação. Os órgãos de imprensa têm conseguido um espaço de críticas para expressar opiniões alternativas às do governo. Ainda é muito pouco, mas há uma preocupação clara do governo chinês com as questões sociais. Há uma correção de rumos para tentar atender pessoas excluídas do progresso.

ÉPOCA – Do ponto de vista das democracias capitalistas, é espantoso que um sistema centralizado e autoritário como Q chinês tenha conseguido tanto sucesso.

Hugueney- Não é tão centralizado assim. Existe um processo de descentralização ao longo de toda a história da China. Não pense que o imperador ditava coisas e o cara lá de baixo obedecia, ainda mais num país daquela dimensão. Sempre houve autoridades locais influentes, e isso continua existindo. As províncias têm recursos para investir e planos de, desenvolvimento. Há um setor privado forte, multinacionais e um setor estatal atuando em determinados setores, como financeiro, siderúrgico. É uma economia complexa, que não segue um planejamento de cima para baixo, ditatorial. O governo está o tempo todo ouvindo especialistas, discutindo. Existem elementos de flexibilidade no governo que garantiram o sucesso do crescimento chinês. Esse é um componente do socialismo chinês.

ÉPOCA – O senhor vê na China oportunidades pouco exploradas pelos brasileiros?

Hugueney- Temos de desenvolver um projeto de investimento brasileiro na China e aumentar nossa presença na economia chinesa. O setor de serviços, em que o Brasil tem avanços importantes, deveria investir mais na China. Há oportunidades em software, Bolsas, captação de investimentos. Ainda há muita oportunidade para novos negócios em infraestrutura, agronegócio e mesmo na área industrial. As empresas brasileiras que já estão lá, como Embraer, Embraco e Weg, podem se expandir.

ÉPOCA – No sentido inverso, há uma preocupação diante do avanço dos investimentos chineses, da compra de terras e empresas.

Hugueney- Os chineses não estão aqui para ocupar o espaço das empresas brasileiras. Temos de desenvolver parcerias com os chineses na indústria, e não trazê-los para ocupar o lugar ocupado por empresas brasileiras ou por multinacionais-que estão aqui há muito tempo. Temos de fixar restrições, e não há nada de errado em fazer isso. Os chineses fazem isso o dia inteiro, assim como os Estados Unidos e a Europa. Nenhum país abre sua economia e aceita livremente a entrada de investidores internacionais. Sempre há restrições.

ÉPOCA – Há alguma grande ameaça real à economia chinesa?

Hugueney- Como em qualquer país, sempre há a perspectiva de que a situação econômica deteriore. Mas a gestão econômica chinesa tem sido muito bem-sucedida. Não vejo uma perspectiva de desastre na economia. Não sou pessimista.

 

 

As notas falsas do Camaval

            Edson dos Santos é sócio majoritário de uma empresa com nome imponente, Alumilax Indústria e Comércio de Alumínio Ltda., voltada para fabricação e venda de metais. Basta, no entanto, localizar a casa de Edson para constatar que a pompa em torno de sua empresa se resume ao nome e ao objeto social. Edson, na verdade, é um laranja, morador da favela do Preventório, em Niterói, Rio de Janeiro. E a Alumilax não passa de uma empresa-fantasma. Edson e Alumilax são parte de um intrincado esquema montado pelo jogo do bicho para desviar recursos públicos ou lavar o dinheiro sujo que irriga o Carnaval carioca. Ou as duas coisas juntas. A reportagem de ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a um extenso levantamento feito pelo Ministério Público (MP) estadual do Rio de Janeiro sobre as contas das escolas de samba. Somente no Carnaval de 2010, foram identificadas 14 notas fiscais falsas, no valor total de R$ 1,25 milhão, emitidas por empresas de fachada ou já desativadas em favor das escolas de samba Mangueira, Imperatriz Leopoldinense, Mocidade Independente de Padre Miguel, União da Ilha do Governador e Viradouro. Entre esses papéis, estão quatro notas da Alumilax.

As escolas de samba do Rio de Janeiro são a engrenagem principal de uma indústria que movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano somente em gastos de turistas. A cada noite de desfile, 120 mil pessoas circulam pelo Sambódromo. Cada escola do Grupo Especial tem aproximadamente 4 mil integrantes. Para levar à avenida o “maior espetáculo da Terra': o Carnaval do Rio incorporou vários elementos positivos do mundo dos negócios, como os patrocínios e o merchandising de empresas desejosas de associar suas marcas à folia pagã. Mas, por maior e mais caro que se torne a cada ano? O Carnaval do Rio ainda mantém práticas nefastas distantes do capitalismo benéfico que gera receita, impostos e empregos para o Rio de Janeiro e para o Brasil.

Notas fiscais falsas são comumente usadas para justificar despesas que não existiram. A mercadoria não foi vendida, o dinheiro não foi desembolsado, mas transação foi registrada. Cria-se, assim, uma margem financeira artificial que pode ser usada para esquentar dinheiro ilícito, como os ganhos obtidos pelos donos do jogo do bicho. No caso descrito acima, seria como se os bicheiros recebessem um cheque de R$ 1,25 milhão para lavar dinheiro sujo nesse mesmo valor. O mesmo raciocínio vale para o desvio de dinheiro público. As escolas de samba simulam despesas a partir dos recursos recebidos da prefeitura, mas não desembolsam as quantias declaradas nas notas falsas. Dessa forma, podem destinar o dinheiro a outras finalidades que não o financiamento dos desfiles.

Indiretamente, o próprio presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa), Jorge Luiz Castanheira, admite práticas que se assemelham à lavagem de dinheiro. Numa audiência pública realizada pelo MP na última quarta-feira, para discutir a aplicação dos recursos públicos no Carnaval, Castanheira deu a entender que as escolas de samba compram material ao longo do ano com dinheiro não declarado. Somente depois de receber os repasses da prefeitura é que as escolas vão atrás de notas para justificar seus gastos. Ele só não disse de onde vem esse dinheiro que, num primeiro momento, financia as agremiações. ”A verba deste ano só entrará para0 exercício seguinte. Vamos receber em janeiro. Em janeiro, estamos a menos de um mês do Carnaval. Como é que eu consigo nota fiscal de ferro, de madeira, de tecidos, de tudo o que já está sendo comprado agora? Eu tenho de falar a verdade”, disse Castanheira, sem saber que havia um repórter de ÉPOCA na plateia. Procurado após a audiência, Castanheira disse que se expressou mal e que apenas defendeu a liberação do dinheiro da prefeitura com meses de antecedência ao Carnaval. Ele afirma que a Liesa está afastada dos contraventores do jogo do bicho e aberta à fiscalização. Castanheira disse, ainda, que as escolas é que deveriam falar sobre as notas falsas.

O MP é taxativo ao afirmar que o Carnaval é usado para lavar dinheiro sujo e recomenda que o Poder Público tome os devidos cuidados ao se envolver com a festa. “O fato notório de o jogo do bicho usar as escolas de samba para lavar dinheiro proveniente de atividades ilícitas torna mais interessante o uso de milhões repassados pela prefeitura do Rio de Janeiro para compras em estabelecimentos pertencentes a pessoas ligadas à contravenção”, escreveram os promotores do MP.

A Liesa, que organiza o desfile do Grupo Especial – a “primeira divisão” do Carnaval carioca -, é responsável pela venda dos ingressos para o Sambódromo, pelos direitos de transmissão de imagens para as TVs e pelos direitos autorais sobre a execução dos sambas. A Liga também tem recebido os patrocínios da Petrobras e do governo estadual do Rios.Essas receitas somam cerca de R$ 74 milhões por ano. As agremiações também embolsam dinheiro de merchandising, mas esses valores não são divulgados. Um enredo de exaltação a um Estado, como o Maranhão, cantado pela Beija-Flor em 2012, rende R$ 1,5 milhão, pagos pelo ente homenageado. Tudo isso parece muito? Não para a prefeitura. Além dessas receitas, o município repassa milhões para as escolas. Até 2010 eram R$ 10 milhões por ano. Após o inquérito do MP, o prefeito Eduardo Paes criou no ano passado o Viradão do Momo, levando integrantes das escolas para o Réveillon de Copacabana. POf,essa rubrica, passou a destinar R$ 12 bilhões anuais às escolas. Tudo somado, o desfile arrecada pelo menos R$ 86 milhões (leia o quadro na página70).

As notas frias das escolas

Até 2010, os contratos assinados entre Liesa e escolas de samba, de um lado e prefeitura, de outro, previam a prestação de contas das despesas realizadas com recursos repassados pelo município. Mas foi somente depois de o Ministério Público ter aberto um inquérito civil que a Liesa e suas agremiações associadas apresentaram seus comprovantes de despesas. Foi a partir desses documentos que os promotores da Coordenadoria de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro do MP rastrearam a origem das empresas emissoras das notas fiscais. Eles cruzaram dados e solicitaram informações às secretarias de Fazenda dos Estados onde essas pessoas jurídicas têm endereço registrado. O resultado desse trabalho foi a descoberta do R$ 1,25 milhão em notas fiscais falsas e milhões de reais gastos, de forma suspeita, em empresas diretamente ligadas ao jogo do bicho.

A Mangueira – que, em 2010, obteve o sexto lugar com um desfile em que os integrantes da bateria apareciam vestidos de presos políticos – apresentou notas de R$ 343 mil de dois fornecedores. Uma das empresas já estava desativada fazia oito anos quando emitiu a nota para a Mangueira. A outra fechara as portas três anos antes de emitir a nota. “Só preciso ter o raio X da questão. Diversas pessoas manipularam nossas prestações de contas e não trabalham mais na Mangueira': diz o presidente da escola, Ivo Meirelles. Ele admite irregularidades sem dar maiores detalhes. No caso da Viradouro, foram R$ 441 mil. A fraude se deu num formato distinto. As notas emitidas foram duplicadas. Havia dois talões de notas, um oficial, no caso de ser requisitado pelas autoridades, e um falso. O oficial ficou em branco. O falso, preenchido. A emissora dessas notas é a Alumilax, citada no início desta reportagem.

ÉPOCA localizou o proprietário da Alumilax, morador da favela do Preventório, encravada num bairro de classe média alta em Niterói. As duas principais entradas da comunidade são vigiadas por homens ligados ao tráfico de drogas. A área está sob o domínio de bandidos violentos, a julgar pela sigla da maior facção criminosa do Rio pichada nos rrruros das ruas de acesso. O empresário” Edson dos Santos, de 49 anos de idade, mora numa travessa na parte baixa. No papel, ele é oficialmente dono de 99,5% das cotas da Alumilax. ÉPOCA conseguiu falar com Santos por telefone. Ele negou ter prestado serviço à escola de samba e chegou a dizer que não tinha ligação com a empresa. “Não tem nada a ver, não. Procure outra pessoa. Isso não é comigo:’ Confrontado com seus dados pessoais, que aparecem na certidão registrada na Junta Comercial, ele voltou atrás. “PÔ, já estou fora disso há muito tempo. Vou procurar ver, dar uns telefonemas aqui e aí resolvo isso.” As notas fiscais para a Viradouro foram emitidas p.q fim de 2009 e começo de 2010. Perante a Junta, a Alumilax deixou de existir apenas em 16 de agosto de 2011. Mesmo assim, conforme o documento do distrato social, Santos continuou responsável pelos livros contábeis, pelas dívidas e pelos processos judiciais que possam aparecer. O outro sócio, que tinha 0,5% das cotas, não foi localizado.
A Viradouro caiu do Grupo Especial no Carnaval de 2010, com um enredo sobre o México, em que se destacava um enorme carro alegórico sobre o Dia dos Mortos. Justamente neste ano, foi contratada uma empresa- fantasma que ficou com mais da metade da verba repassada pela prefeitura para o desfile. O então presidente da escola, Marco Antonio Lira de Almeida, deixou um rombo de R$ 2,5 milhões nas contas da agremiação, segundo a atual diretoria. Os representantes da Viradouro preferem não comentar os feitos da administração passada. Lira, de acordo com a Justiça Federal, explora máquinas caça-níqueis, uma atividade ilegal ligada ao jogo do bicho.

Em Vila Velha, no Espírito Santo, foram detectados R$ 159 mil em notas “calçadas” em favor da Mocidade Independente de Padre Miguel. Nesse tipo de nota falsa, o emissor do documento (prestador do serviço ou fornecedor do produto) preenche a via entregue ao consumidor com um valor diferente das vias entregues às receitas Federal e Estadual. Em conluio com o comprador, o fornecedor pode passar uma nota fiscal num valor bem mais alto que o efetivamente pago. Nesse caso, o valor das vias em posse do prestador do serviço somou R$’2.925, enquanto as vias emitidas para a Mocidade somaram R$ 159 mil.

A União da Ilha do Governador recebeu uma nota falsa, de R$ 285 mil, emitida pela Brasil Company, indústria fictícia de embalagens de Minas Gerais cujas operações estavam “suspensas” por motivo de “desaparecimento do contribuinte”. O escritório de contabilidade contratado pela empresa levou um calote e não soube informar o paradeiro dos.donos da Brasil Company. “Não fui feliz, mas não sabia (da fraude). Recebi os tecidos, e a empresa tinha registro regular': diz o presidente da escola, Sidney Filardi. Ele recebeu a reportagem de ÉPOCA no galpão de quatro andares ocupado pela escola, onde os carros alegóricos e as fantasias já começaram a ser montados para 2013, quando o enredo homenageará o poeta Vinícius de Moraes. Filardi se complica ao tentar explicar por que a nota fiscal estava datada de maio de 20 lO, se o Carnaval daquele ano ocorrera três meses antes. Primeiro, disse que fez a compra para o desfile de 2011. No dia seguinte à entrevista, Filardi procurou ÉPOCA e voltou atrás. Afirmou que comprou fiado para o Carnaval de 2010, recebeu o produto e só pagou em maio. Por meio de sua assessoria, a Mocidade informou desconhecer as fraudes e afirmou que os gastos não ocorreram depois do Carnaval. “A emissão da nota é que ocorreu em momento posterior, mas os pagamentos e o recebimento das fantasias e camisas aconteceram antes.”

A Imperatriz Leopoldinense, que os procuradores acusam de ter recebido uma nota falsa no valor de R$ 34 mil, preferiu não se manifestar.

Tribunal do camarote.

Além das notas falsas, o Ministério Público identificou o pagamento de R$ 2,2 milhões às empresas do grupo empresarial de Jorge Francisco, um empresário conhecido como Chiquinho do Babado. O valor representa 22% dos R$ 10 milhões repassados pela prefeitura à Liesa em 2010. Chiquinho já foi um dos chefes do barracão da Mocidade Independente de Padre Miguel e homem de confiança de Castor de Andrade, um dos bicheiros mais poderosos do Rio, morto em 1997. “Tais fatos, aliados ao histórico de Chiquinho do Babado (e sua ligação com o jogo do bicho), indicam a possibilidade da prática de lavagem de dinheiro proveniente de crime contra a administração pública, qual seja, superfaturamento do preço dos materiais a ser adquiridos pelas escolas de samba': diz a Promotoria.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o órgão do Ministério da Fazenda que identifica movimentações atípicas de dinheiro, afirmou que Chiquinho do Babado fez saques elevados na boca do caixa em contas das escolas de samba. A Receita Federal autuou-o em 2009 por sonegação do Imposto de Renda. Somados os juros e multas, o débito com o Fisco alcança R$ 2,4 mihoes conforme documento obtido por ÉPOCA. A Fazenda Nacional move uma ação de cobrança na Justiça Federal, mas tem dificuldade para notificar Chiquinho. Ele teve de dar explicações ao MP sobre seu quase monopólio no fornecimento de mercadorias às agremiações. Durante um depoimento em agosto de 2011, disse: “Não é possível vender itens para o Carnaval e emitir a nota fiscal após sua realização”. A afirmação põe em xeque a prestação de contas de 2010 de cinco escolas (Imperatriz, Mocidade, Porto da Pedra, União da Ilha e Viradouro). Juntas, elas apresentaram notas geradas em data posterior ao desfile no valor de R$ 1,94 milhão.

O MP critica a falta de controle do Poder Público em relação ao dinheiro dado ao samba. Segundo o MP, a Liesa nunca apresentou planilhas demonstrativas dos custos do Carnaval. Como a prefeitura sabe a real necessidade de recursos para as escolas se não tem a dimensão dos gastos para organizar os desfiles? Para os promotores, os repasses de recursos públicos à Liesa e às escolas de samba têm sido excessivos e não justificados, “ensejando o enriquecimento sem causa da Liesa, em detrimento do Erário público municipal”

Outra crítica feita pelo Ministério Público é dirigida aos órgãos de controle da cidade, sobretudo o Tribunal de Contas do Município (TCM). O TCM é, um órgão auxiliar do Poder Legislativo municipal. Tem por obrigação fiscalizar os gastos dà prefeitura. Isso inclui os repasses para as escolas de samba. O TCM analisou as notas de prestação de contas enviadas pelas escolas referentes ao Carnaval de 2010. Apontou apenas algumas pequenas irregularidades, mas não detectou as fraudes envolvendo as notas fiscais falsas. Os promotores destacaram uma possível falta de isenção, tanto dos conselheiros do TCM quanto dos vereadores, na responsabilidade de fiscalizar os gastos do Carnaval. Pelo contrato assinado entre a Riotur e a Liesa, os conselheiros do TCM e os vereadores são agraciados, respectivamente, com quatro e oito camarotes na passarela do samba. O MP recomendou que os dois órgãos abrissem mão dos camarotes. A Câmara Municipal preferiu não acatar a recomendação. “O Ministério Público deparou com inúmeras irregularidades que, ao contrário do que se poderia supor, não foram detectadas pelo Tribunal de Contas do Município, que acabou por determinar o arquivamento do processo fiscalizatório sem qualquer sanção aos responsáveis': escreveram os promotores. “A suposta omissão do TCM no exercício de seu papel fiscalizador dos gastos públicos, aliada ao fato de seus integrantes fazerem uso gratuito de camarotes na passarela do samba durante os desfiles das escolas, gerou a suspeita de’ que aquela corte de contas colocara em xeque a confiabilidade de sua atuação:’

Bicheiros X prefeito

O TCM foi protagonista de uma tentativa fracassada de licitar o Carnaval. Logo que assumiu o cargo, o prefeito Eduardo Paes abriu concorrência em 2009 para contratar uma empresa que organizasse o desfile. Se a Liesa quisesse continuar, teria de disputar no preço e na capacidade técnica. A prefeitura enviou o edital de licitação ao TeM. O Tribunal, que, segundo o MP, passa em branco na fiscalização, logo apontou algumas falhas nas regras do certame. Sob a alegação de não pôr em risco a realização dos desfiles, a prefeitura cancelou a concorrência. Detalhe: segundo o MP, o edital só foi publicado no Diário Oficial do município e nos classificados de um jornal de circulação estadual. Paes abriu nova licitação em 2010. Algumas empresas se interessaram, mas nenhuma resolveu participar.

Como não tem havido licitação pública, o MP propôs à prefeitura um termo de ajustamento de conduta, pelo qual não poderiam mais ser repassados recursos à Liesa. Paes concordou e assinou o termo. Logo em seguida, foi criado o Viradão do Momo, que na prática abastece o Carnaval. Procurado por ÉPOCA, Paes não se pronunciou até o fechamento desta edição. No meio da confusão sobre a licitação, Castanheira, o presidente da Liesa, depôs ao MP, em setembro de 2010. Ele afirmou que não haveria Carnaval se fosse feita uma licitação com a qual a liga não concordasse. “Este contrato firmado entre a Riotur e a Liesa é uma garantia para a prefeitura do Rio de que as escolas se apresentarão; que na verdade o desfile é particular; que, se as escolas não quiserem desfilar, não há festa; que, se uma empresa ganhar esta licitação e as condições da Liesa forem desfavoráveis, o desfile não acontece:’

A história da Liesa e seu quadro diretor se confundem com o jogo do bicho. A diretoria tem um conselho superior formado por Aílton Guimarães Jorge, conhecido como Capitão Guimarães, e por Aniz Abrahão David, o Anísio da Beija-Flor. O grande sócio benemérito é Antonio Petrus Kalil, o Turcão. Em março deste ano, os três foram condenados pela Justiça Federal a 48 anos de prisão cada um. Eles são acusados de chefiar o crime organizado dos jogos ilegais, de corromper policiais e de agir com violência para manter seus negócios. Só deixaram a prisão por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) em maio passado. Os três negam os delitos. Presidente da União da Ilha e vice-presidente da Liesa, Sidney Filardi acha “justa a homenagem” aos bicheiros. “Tem de se atribuir a eles o sucesso que é hoje o evento, a organização, o respeito, a credibilidade. Os resultados não são questionados como ocorrem em outros Estados:

Filardi diz 9ue não quer fazer apologia do Jogo do bicho. Nem poderia. A contravenção que parecia inocente no passado tornou-se hoje o alicerce do crime organizado, infiltrado nas polícias e no , Poder Público. O esquema deu origem à máfia dos caça-níqueis, que disputa a poder de tiros e assassinatos o espaço para a instalação de máquinas em bairros do Rio de Janeiro. Segundo investigações da Polícia Federal, o jogo ilegal se associou aos milicianos que exploram moradores cobrando taxas em troca de proteção. As milícias se tornaram o principal desafio na segurança pública fluminense.

O Rio, o Brasil, o mundo, todos querem um Carnaval grandioso, Um espetáculo que promova alegria e beleza com suas fantasias e carros alegóricos, que gere milhões de reais de riqueza e empregos para os cariocas e muitos outros brasileiros. A omissão da prefeitura e das demais autoridades públicas representa a conivência com a contravenção e suas práticas, que inclui a lavagem de dinheiro sujo e o financiamento da violência.

Por que privatizar a Petrobras     

            Nenhum outro setor da economia desperta tantas paixões e controvérsias quanto o do petróleo. A Petrobras é motivo de orgulho para muitos brasileiros – e pesquisas recentes mostram que quase 80% da população é contra a privatização da estatal que explora nosso “ouro negro': Em quase todos os debates, os argumentos são os mesmos: é preciso proteger nossas riquezas’naturais, o governo precisa cuidar de um setor tão estratégico. “O petróleo é nosso'; dizem os nacionalistas.

É claro que o petróleo é fundamental para a economia moderna. Ele é a energia que faz a roda da economia girar. Mas será que isso é suficiente para considerálo tão diferente assim dos demais produtos? Será que é uma justificativa para preservar uma estatal quase monopolista? Mais ainda: assumindo que o petróleo é mesmo especial e, portanto, estratégico, será que devemos manter um recurso tão importante sob os cuidados do Estado?

Ao contrário do que muita gente acredita, a privatização da Petrobras não apenas não faria mal algum ao país, como tornaria um setor estratégico mais eficiente e daria aos brasileiros o que eles merecem: a posse de suas riquezas naturais. Não vamos esquecer o alerta do economista americano Milton Friedman (1912-2006): “Se o governo assumisse a gestão do Deserto do Saara, em cinco anos faltaria areia por lá.

Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, houve um crescimento incrível do setor petrolífero a partir da competição de várias empresas privadas, desde a primeira prospecção feita por Edwin Drake, na Pensilvânia, em 1859. A Standard Oil, criada por Iohn D. Rockfeller, maior empresário do ramo, era uma máquina de fazer dinheiro e gerar empregos. Seu grupo ficou tão grande gue o governo americano decidiu fatiá-lo em 1911. Assim, surgiram as empresas que dominam até hoje essa área nos EUA.Elas concorrem em igualdade de condições com empresas estrangeiras como British Petroleum, Shell, Lukoil, a própria Petrobras e várias outras. O mercado funciona – e nenhum país considera o petróleo mais estratégico que os EUA.

No Brasil, o Estado nunca deixou o setor de petróleo funcionar livremente. Um dos pensadores brasileiros que mais lutaram contra o monopólio e o controle estatal da Petrobras foi o economista e ex ministro Roberto Campos (1917-2001). Em sua autobiografia, A lanterna na popa, vemos sua batalha inglória para trazer mais racionalidade para o debate, contra grupos de interesse muito bem organizados e um nacionalismo ideológico mal calibrado.

Apelidado de Bob Fields por seus detratores, Campos nunca foi um “entreguistà’. Ao contrário. Queria apenas a adoção de um modelo de exploração do petróleo que fosse mais vantajoso para os brasileiros. Para ele, deixar empresas privadas, nacionais ou estrangeiras, competir no setor seria a melhor forma de beneficiar o próprio povo brasileiro. “Mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e da tecnologia”, afirmava. Infelizmente, uma barreira ideológica impedia a escolha desse modelo. Como disse Campos, “os esquerdistas, contumazes idólatras do fracasso, recusaIll.-Se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos, e não pela clarividência do Estado”.

No governo FHC, ocorreu uma profissionalização maior na Petrobras. Infelizmente, isso acabou com a chegada do PT ao poder, em 2003. Em vez de o governo manter um quadro mais técnico, políticos como José Dutra e Sérgio Gabrielli assumiram a presidência.

A presidente Dilma reverteu isso em parte, empossando Graça Foster no comando da estatal no início de 2012, mas os resultados ainda não se refletiram nos números da empresa. O crescimento da produção total de óleo e gás da Petrobras desde que o PT assumiu o governo, em 2003,.[o} medíocre. A empresa, em seus planos estratégicos de cinco anos, costuma prometer aos analistas um crescimento acima de 5% ao ano na produção. De janeiro de 2003 a janeiro de 2012, a produção cresceu somente 2,4% ao ano – um resultado lamentável. Só que, para chegar a esse resultado ainda medíocre, ela teve de” investir cerca de R$ 100 bilhões apenas em exploração e produção. Alguém acha realmente que essa montanha de recursos em mãos privadas teria levado a um resultado pior?

Para agravar a situação, boa parte desse programa de investimento teve de ser financiada no mercado, aumentando o endividamento da empresa, pois a geração própria de caixa não era suficiente para viabilizá-Io.A Petrobras, que tinha R$ 26,7 bilhões de dívida líquida em 2007, acumulava um endividamento líquido superior a R$ 130 bilhões no fim . do primeiro semestre de 2012 – um aumento de 400% em menos de cinco anos. Eis aí algo que cresce a taxas elevadas na Petrobras, ao contrário da produção. Isso mesmo depois do enorme aumento de capital que promoveu, de R$ 100 bilhões – uma operação no mínimo controversa, que diluiu a participação dos acionistas minoritários, na qual o governo usou até os ativos do pré-sal da União para reforçar sua fatia na empresa.

Se comparada a seus pares internacionais, a rentabilidade da Petrobras nos últimos 12 meses está muito abaixo da média. Para ser mais exato, o retorno sobre o patrimônio líquido da “nossa” estatal foi um terço da média global do setor. E seu uso político custa cada vez mais aos milhões de investidores. No segundo trimestre de 2012, a Petrobras divulgou o primeiro prejuízo em 13 anos. Perdeu R$ 1,35 bilhão, fruto principalmente da enorme defasagem dos preços dos combustíveis e da alta do dólar em relação ao real. O fato de o preço do combustível não seguir as forças de mercado no Brasil representa  enorme perda de eficiência do setor.

Em 2011, os cerca de 80 mil funcionários da estatal custaram para a empresa mais de R$ 18 bilhões. Isso dá uma média anual de custo acima de R$ 230 mil por empregado. Claro que há gente séria e qualificada ali, mas estes não teriam nada a perder com uma gestão privada facada no lucro. Ao contrário: como já cansamos de ver, os empregados mais eficientes que permanecem nas empresas privatizadas costumam melhorar bastante de vida. Naturalmente, a turma encostada e sem capacidade para ganhar o que ganha fica apavorada com a ideia de privatizar e colocar um fim na vida mansa. São esses que fazem de tudo para preservar o statu quo e a caixa-preta em torno da estatal.

Qualquer reformista encontrará enorme pressão dos grupos reacionários interessados em preservar privilégios e mamatas na Petrobras. Boa parte do próprio corpo de funcionários reagirá contra mudanças. O ex-ministro Antônio Dias Leite chegou a cunhar a expressão “República Independente da Petrobras” para se referir à estatal. São muitos bilhões em jogo e muito poder para o governo simplesmente focar na maior eficiência da empresa e nos interesses dos consumidores. Parece natural a luta permanente pela captura da empresa por feudos políticos.

A Petrossauro, como a chamava Roberto Campos, possui infindáveis tetas para atrair vários grupos de interesse distintos. Como se costuma dizer, o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada, e o segundo melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo mal administrada. Mesmo ineficiente e palco de abusos políticos, a Petrobras gera enorme quantidade de caixa, despertando o olho grande de muita gente, que passa a defender sua manutenção como estatal.

O fundo de pensão da Petrobras agradece, recebendo quantias relativas aos dividendos dos acionistas jamais vistas na esfera privada. Os membros poderosos dos sindicatos agradecem, protegendo seu emprego da livre concorrência. Os empresários corruptos agradecem, ‘podendo fechar ótimos negócios com a estatal graças ao suborno, e não à eficiência de seus serviços e produtos. Silvinho “Land Rever” Pereira e outros tantos como ele estão aí como prova.

Artistas engajados que cedem à doutrinação ideológica comandada pelo governo também agradecem, pois recebem verbas para o avanço da “cultura nacional” sem qualquer critério de mercado, ou seja, de preferência dos consumidores. De 2008 a 2011, a estatal destinou a bagatela de R$ 652 milhões a patrocínios culturais. É uma montanha de dinheiro capaz de transformar o mais liberal dos artistas num ferrenho defensor da estatização, Bastou a nova gestão de Graça Foster dar sinais de que poderia cortar a verba cultural em 2012 que a reação foi imediata e estridente.

Os políticos regozijam-se também, podendo usar uma empresa gigantesca para leilão de votos e cabide de emprego. Como fica claro, toda uma cadeia da felicidade é alimentada pela Petrobras. No pôquer, há uma máxima que diz: “Se você está no jogo há 30 minutos e ainda não sabe quem é o pato, então você é o pato': Se você, estimado leitor, não faz parte dessa farra toda que mama nas tetas da Petrobras, pode estar certo de que faz parte do grupo dos que pagam a conta. Bem-vindo ao clube.

O governo ainda usa a empresa como instrumento de política econômica, mantendo os preços artificialmente baixos para não aumentar a inflação. Para piorar, aplica cota nacionalista na compra de insumos importantes, na tentativa de estimular a indústria nacional. O problema é que isso afeta o caixa da empresa. Como o programa de investimentos é enorme, a rentabilidade mais baixa destrói o valor da empresa, prejudicando seus milhões de acionistas. Numa nota em sua coluna de 15 de julho de 2012, o jornalista Ancelmo Gois, de O Globo, revelou: “Um ex-diretor da Petrobras diz que os R$ 360 milhões gastos com a P-59, na Bahia, dariam para comprar duas plataformas no exterior. O ‘Bolsa Navio’ já tem dez anos. Ou seja, o tempo passa, o tempo voa, e nossa indústria naval nunca fica competitiva”

Resultado: a Petrobras foi o “patinho feio” da Bolsa nos últimos anos. Segundo consta no próprio relatório anual de 2011 da empresa, as ações da Petrobras tiveram queda de 15% nos últimos cinco anos, em comparação a uma alta de quase 30% no Índice Bovespa, que reflete o desempenho das principais ações negociadas nos pregões. A Petrobras chegou inclusive a perder por alguns dias o posto de maior empresa latino-americana por valor de mercado para a colombiana Ecopetrol, bem menor que a estatal brasileira. Detalhe: o patrimônio da Ecopetrol é sete vezes menor que o da Petrobras. Como milhões de pequenos investidores tornaram-se acionistas da Petrobras por meio do FGTS no passado recente, o descaso e a incompetência das últimas gestões trouxeram perdas significativas para inúmeros brasileiros, inclusive de classes mais baixas, e também para os investidores estrangeiros que apostaram na empresa.

O valor de mercado da Petrobras oscila bastante e caiu muito nos últimos anos. Atualmente, ele está na faixa dos R$ 250 bilhões. A União é dona de quase metade do capital total, sem contar o BNDES. Mesmo considerando a perda de valor por causa da incompetência estatal, a Petrobras valeria uns R$ 120 bilhões para o povo brasileiro.

Isso daria quase R$ 10 mil para cada uma dos 13 milhões de famílias assistidas pelo Bolsa Família, por exemplo. Que tal doar ações da Petrobras para essa gente? “Será que essas pessoas mais pobres preferem repetir que o petróleo é nosso” ou receber um título 01… 1 “Um. cheque desse valor para fazer O que bem entender com os recursos?

Da próxima vez que o leitor escutar por aí que “o petróleo é nosso': talvez fique mais claro o que eles realmente querem dizer com isso. Sim, o petróleo é mesmo deles, e não seu ou meu. Talvez devêssemos sair às ruas gritando “o petróleo é vosso” e demandando nossa parte. Se o petróleo for de fato nosso, do povo brasileiro, então é simples resolver a questão: basta o Estado distribuir para cada brasileiro (ou para a faixa mais pobre) sua parte da empresa por meio de vales ou ações. Cada um poderá, então, sentir-se efetivamente dono de um pedaço da Petrobras e fazer com sua parte o que lhe aprouver. Afinal, o petróleo é nosso ou não é?

Antes que a água entrasse em NY

Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, convidou cinco escritórios de arquitetura a repensar a cidade para dali a 70 anos. O cenário proposto era apocalíptico. Com o calor acelerando o derretimento das geleiras, o nível dos oceanos subiria e, aos poucos, as ruas da cidade próximas ao mar seriam invadidas pelas águas. A Estátua da Liberdade ficaria ! em parte submersa. Vizinhanças inteiras seriam abandonadas. Fábricas deixariam de operar. Nova Yorkmergulharia no caos. Diante disso, cada um dos profissionais deveria imaginar soluções. Como conter as águas? Onde obter energia? Suas propostas integraram uma exposição e foram exibidas ao público do museu por seis meses. Segundo o curador Barry Bergdoll, a ideia era chamar a atençãopara a urgência do aquecimento global.

Tratada como alarmista pelo grande público, a exposição teve repercussão morna. Somente agora, dois anos depois, diante dos estragos causados pelo Furacão Sandy, os projetos passaram a ser tratados com atenção. Na última semana, diversos sites de arquitetura retomaram algumas das propostas apresentadas no MoMA. Alguns cientistas supõem que os estragos que a cidade sofreu com o furacão sejam uma conseqüência direta do aquecimento global. “Não podemos atribuir Sandy às mudanças climáticas, mas há indícios de que elas tomaram os desastres piores': disse a EPOCA a cientista Katharine Hayhoe, da Universidade Texas Tech. Segundo a pesquisadora, medições apontam para um aumento médio de 18 centímetros no nível do mar nos últimos 100 anos. Na região de Manhattan, ele já está em 30 centímetros.

Entre os projetos apresentados para frear os desastres, o que mais tem recebido atenção é a proteção de corais de ostras, proposta pela arquiteta Kate Orff, dona do estúdio Scape. “Funciona como uma barreira natural que trabalha no fundo da: água, diminuindo os efeitos da onda': diz Kate. Os corais também serviriam para ajudar a filtrar o excesso de nitrogênio. Deixariam, portanto, a água mais calma e mais limpa. Outra solução com boa repercussão, idealizada pelo estúdio nArchitects, são as barreiras infláveis. Adotadas no Japão, são capazes de conter ondas de até 6 metros – as geradas pelo Sandy chegaram a 4,2 metros. Para Bergdoll, o curador da exposição do MoMA, a vantagem dessas propostas é que são objetivas e pensam a longo prazo. O desastre causado pelo Furacão Sandy sugere que Nova York não tem muito tempo para errar.

Um pacto pelo futuro do país

            Aos 6 anos, Isaac Sobral lê, escreve, interpreta textos simples e faz operações matemáticas básicas de soma e subtração. Isaac estuda no Colégio Militar Dom Pedro 11, em Brasília, ligado ao Corpo de Bombeiros. De acordo com o Ministério da Educação, no ano passado a escola obteve a melhor média de notas entre as escolas públicas de ensino fundamental do Distrito Federal. No Dom Pedro 11,as crianças começam a se familiarizar com palavras e números aos 4 anos. É por isso que, dois anos depois, leem com facilidade e não se perdem nas contas quando recebem mesada dos pais.

Isaac e seus colegas de escola podem ser considerados privilegiados. O único teste realizado em âmbito nacional até hoje, para aferir a qualidade da alfabetização de crianças até 8 anos, apresentou resultados preocupantes. Quase metade dos estudantes não sabia ler e escrever apropriadamente. Seis em cada dez demonstraram dificuldade extrema com a matemática. Aplicado pela ONG Todos Pela Educação, o teste mostrou que as crianças das escolas públicas e das regiões Norte e Nordeste tiveram as piores notas entre os que realizaram a prova.

Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff lançou o Pacto Nacional pela Alfabetização na’ Idade Certa (Pnaic), com a intenção de mudar essa situação vergonhosa. O plano consiste numa parceria do governo federal com Estados e municípios para alfabetizar todas as crianças até 8anos. O Pnaic tem três eixos: treinar os 360 mil professores alfabetizadores, distribuir material didático voltado à alfabetização de quase 8 milhões de crianças e avaliar os alunos, por meio de provas, para descobrir se os investimentos alcançaram o objetivo desejado. “O Pacto é o ponto de partida para que os brasileiros tenham oportunidades de competir em igualdade de condições”, afirmou Dilma. A presidente defendeu a educação em período integral, com aulas de reforço em português e matemática além do tempo em sala de aula. “Não há país no mundo que tenha conseguido igualdade de condições sem a educação em tempo integral.

O governo mobilizou 34 universidades federais para formar professores alfabetizadores, com direito a bolsas de incentivo para se dedicar às atividades de formação. Mais de 5.200 municípios aderiram ao pacto. Nos próximos dois anos, estão previstos investimentos de R$ 2,7 bilhões e a distribuição de 60 milhões de livros didáticos e jogos pedagógicos. Como forma de estimular as melhores práticas, o governo afirma que garantirá R$ 500 milhões em prêmios para as escolas e os professores que obtiverem os melhores resultados. De acordo com a diretora executiva da ONG Todos Pela Educação, Priscila Cruz, o Pnaic poderá mudar a situação do ensino no país. “Crianças que não são bem alfabetizadas têm sérias dificuldades de aprendizado nos anos seguintes. Boa parte delas abandona os estudos”, afirma. “E essas deixam de atingir a cidadania de forma plena. O Pnaic tem a ambição de corrigir isso.

O Pnaic foi inspirado no Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), criado pelo governo do Ceará em 2007. O governo cearense passou a cooperar com os municípios, responsáveis por administrar a maior parte das escolas alfabetizadoras. Até então, os municípios cearenses e o governo do Estado não interagiam. Os grandes prejudicados eram os estudantes. A partir do Paic, o governo estadual definiu o conteúdo programático das escolas, passou a treinar professores e a oferecer o material didático, além de avaliar os resultados. A média de notas no Ceará, de acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), subiu de 3,2 para 4,9 -r- patamar equivalente ao verificado no Rio de Janeiro e no Espírito Santo e o mais alto do Nordeste.

A maior diferença entre o programa cearense e o federal é a idade. O compromisso do governo cearense é alfabetizar os alunos até os 7 anos, enquanto o Pnaic prevê fazer isso até os 8 anos. Críticos do programa federal afirmam que a idade é elevada demais. O ideal é que as crianças sejam alfabetizadas entre 6 e 7 anos. O exemplo de Isaac e seus colegas prova que é possível alfabetizar antes dos 8 anos. Mas isso não tira méritos do plano. “É um teto. Ninguém está proibindo que a alfabetização seja feita antes”, diz Inês Miskalo, coordenadora de Educação do Instituto Ayrton Senna. “Com essa margem maior, fica mais fácil atingir o resultado.

O único ponto frágil do Pnaic é que ele não estabelece prazo para que 100% das crianças sejam alfabetizadas até os 8 anos. “Sem prazo, fica mais difícil cobrar o cumprimento do Pacto”, diz Priscila. É preciso acompanhar com rigor os compromissos do Pnaic para que não se percam ao longo dos anos. Isaac e seus colegas da escola Dom Pedro 11 não podem continuar sendo exceção no Brasil.

Os 50 são os novos 30

            Idade é quase uma questão de opinião. Pode mudar de acordo com o ponto de vista. Na cabeça da gente é uma. Aos olhos dos filhos, outra. Na impressão dos amigos, uma terceira. Há apenas 30 anos, os 50 anunciavam o início da velhice. Não mais. Não só por uma questão de percepção íntima ou da sociedade. Mas pela própria fisiologia. Graças a avanços na saúde, nos costumes e no conforto material-a nova geração de 50 anos chega a essa fase com vitalidade, um gosto de novidade e a sensação de estar no auge da vida. Eles se sentem jovens como, há alguns anos, se sentia quem tinha 30. “Há três décadas, o estado de saúde geral dos meus pacientes de 50 era o mesmo das pessoas de 70 que atendo hoje”, diz o geriatra João Toniolo Neto, da Escola Paulista de Medicina. “Não é exagero dizer que a maioria dos pacientes de 50 anos tem saúde e disposição mental dos de 35 daquela época.

As pessoas de 50 anos de hoje em nada lembram as da década de 1970. Muitas têm o corpo tão ou mais em forma que seus filhos adultos. Outras, estão no pique para ter filhos (biológicos ou adotados), começar uma nova faculdade, um novo romance, uma nova empreitada ou qualquer outra aventura. É um fenômeno mundial. Só na livraria on-line Amazon, há mais de 100 livros escritos na última década sobre o tema: Os novos velhos, Os sem idade, Os imortais. A profusão de títulos é só um sintoma. A postura dessa nova idade tem impacto direto na economia, no mercado de trabalho, no consumo, 110 relacionamentos, nas relações familiares em toda a sociedade.

É como se, em questão de poucas décadas, a população ativa do país dobrasse. Foi o que aconteceu no Brasil. Em 50 anos, a expectativa de vida da população aumentou de 48 para 73 anos. Deverá chegar a 80 em 2050. Ao se distanciar da morte, os cinqüentenários se distanciaram também da velhice. Eles têm disposição física, mental e financeira. O fato de não se verem como os mais velhos do grupo contribui para o sentimento de bem-estar com a própria idade. Uma pesquisa da seguradora MetLife, feita com mais de 2 mil americanos, estima que mais da metade dos nascidos entre 1955 e 1964 tem ambos os pais vivos. Apenas 11% já perderam os dois. Os cinqüentões ainda são os filhos e, em muitos casos, cuidam dos mais velhos.

Graças a essa satisfação, o hábito de tentar disfarçar a idade parece estar ficando démodé – para usar uma expressão francesa que também saiu da moda. Amaioria deles,mesmo os mais vaidosos, encara a idade de forma positiva. Não querem ter dez ou 20 anos a menos. Querem estar bem aos 50. De acordo com uma pesquisa do lbope Mídia, feita com 3.500 brasileiros nessa faixa etária, mais de 60% estão muito satisfeitos com a vida que têm.

A longevidade depende de três fatores: uma genética favorável,um ambiente saudável e bons hábitos. O primeiro deles, nosso DNA, não mudou. Os dois outros evoluíram. A começar pelas condições criadas pelos avanços da medicina e pelo progresso econômico e social. Algumas conquistas vieram da saúde pública. Vacinas desde a infância, condições de moradia mais higiênicas, expansão do saneamento básico e até o hábito de fazer exames pré- natais contribuíram para isso.Mesmo quem chega aos 50 anos com doenças crônicas pode ter uma vida saudável e funcional. “O controle e o tratamento de enfermidades como câncer e problemas cardíacos ajudaram muito a elevar a idade média do brasileiro e a aprimorar sua qualidade de vida”, diz Nezilour Lobato Rodrigues, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Décadas de avanço econômico recente no Brasil e no mundo – apesar da crise atual levaram bilhões de pessoas da pobreza aos confortos modernos. Além de comprar bens materiais, elas estão investindo em saúde e bem-estar. Algumas pesquisas mostram a relação entre o conforto financeiro e a longevidade. Um dos maiores levantamentos com essa faixa etária no mundo, o Estudo Longitudinal sobre Idade (EIsa, na sigla em inglês), do University College of London, mostra que a incidência de depressão no grupo com menos recursos financeiros chega a 27%. Entre os mais ricos, o índice fica em 8%. O estudo acompanhou 9 mil pessoas por dez anos e comprovou a relação entre bem-estar e longevidade. Entre os que se diziam infelizes, a mortalidade foi o triplo da registrada no grupo que se declarava mais satisfeito com a vida.

Dinheiro ajuda, mas o rejuvenescimento dos cinquentões não depende de nível social. Éuma mudança notável mesmo entre os mais pobres. “A informação está disponível para todos. É uma questão de escolha, não de classe': diz Toniolo. Quem opta por uma vida saudável envelhece melhor. Não se trata de acompanhar níveis de triglicérides ou colesterol. “Viver bem tem a ver com cuidar da saúde do corpo, da mente e das relações.” A seguir, ÉPOCA rn osrru como a geração de novos cinqüentões encara saúde, sexo, família, trabalho, dinheiro, cultura e consumo.

SAÚDE

Quem é mais novo, Pelé ou Maradona? Os dois nasceram no fim de outubro, com 20 anos de diferença. Pelé nasceu em 1940. Maradona, em 1960. Pelé é, portanto, bem mais velho que Maradona. Do ponto de vista da saúde funcional, porém, não. “Pelé tem,~ organismo de alguém de 50 anos’~diz Toniolo. “Maradona, de alguém com mais de 70 anos, debilitado.” Toniolo apresenta o caso dos dois ex jogadores para seus alunos para mostrar como o estilo de vida altera a idade das pessoas.

A fórmula já conhecida, com alimentação saudável e exercícios físicos, continua a mais recomendada. O nível de atividade é mais importante que a idade na hora de determinar a boa forma física. Uma pesquisa da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, com 4 mil homens e mulheres, descobriu que alguém de 50 anos que se exercita regularmente pode estar mais em forma que um jovem de 20 anos sedentário.

Até aí, nenhuma surpresa. A melhor notícia vem agora: é possível recuperar o tempo perdido. O empresário Walmir Paulino, de 53 anos, resolveu dar prioridade à saúde quando se aproximou dos 50. Passou a se impor limites no trabalho. Ele entra no escritório todo dia às 6h30. Às 15 horas, segue para os treinos. Durante uma hora e meia, pratica jiujítsu e malha com um persorial trainer. Todo dia. “Hoje, meu corpo está melhor do que quando era mais jovem': diz. Alguns encaram novos prazeres. Guiomar Nogueira, uma empresária de 56 anos, aprendeu a esquiar aos 50. “Desde então, vou todo ano com meu namorado, Roberto (de 63 anos). Neste ano, já fomos duas vezes”, diz ela. “Nunca imaginei que faria isso em minha vida. De repente, viajo regularmente e esquio forte. Não vou para passear.”

Cuidar da cabeça é tão importante quanto cuidar do corpo. A pesquisa inglesa Eisa comprova a relação do baixo sentimento de bem-estar com diversos aspectos da saúde. Os pesquisadores criaram dois grupos, segundo a percepção de bem-estar que seus integrantes, com mais de 50 anos, tinham ,de sua própria vida. Os que relatavam rnenor satisfação com a vida sofreram 70% mais acidentes vasculares do que os que contavam maior prazer em viver. A obesidade em quem tem menor satisfação com a vida é de 27% entre os ingleses. Entre aqueles com maior satisfação, é de 17%.

SEXO

A menopausa é um fenômeno recente. Há 100 anos, a maioria das mulheres morria antes dela. Durante a menopausa, a produção dos hormônios estrógeno e testosterona despenca. Isso prejudica a libido e a lubrificação da vagina, além da saúde dos músculos e ossos. A redução dos hormônios nos homens é mais suave, mas também ocorre. A diminuição do hormônio masculino (testosterona)  gera o mesmo tipo de efeito, em menor intensidade. Doenças como hipertensão, diabetes e depressão, mais comuns a partir dos 40 anos, podem causar problemas de ereção.

O acesso à informação e os avanços da medicina podem atenuar a maioria dos sintomas causados pela idade. “Hoje, as pessoas sabem que precisam se cuidar, fazem exames periódicos e a reposição hormonal quando é o caso”, diz Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos de sexualidade da Universidade de São Paulo (USP). “Com esses cuidados, é possível ter uma vida sexual com mais qualidade do que quando mais jovem.”

Muitas vezes, a mudança no apetite ou I).O desempenho sexual tem origens psíquicas. Uma pesquisa do psiquiatra e urologista Michael Perelman, da Escola de Medicina de Weill Cornell, nos Estados Unidos, detectou que fatores como ansiedade, raiva, depressão, . trauma de infância, medo do fracasso e perda de autoconfiança estão por trás de 35% dos casos de disfunção erétil.

Por isso, uma cabeça bem resolvida pode ajudar a vida sexual. Duas em cada três pessoas com idade entre 47 e 53 anos dizem que sua vida sexual melhorou com a idade, segundo um levantamento da agência de marketing Rino com 230 entrevistados. “Com a maturidade, a pessoa conhece seus limites e está mais em paz com eles”, diz Carmita. “Esse estado contribui para a melhora na qualidade do sexo.”

Quando acabam as variações e mudanças hormonais da menopausa, muitas mulheres testemunham um momento batizado pela antropóloga americana Margaret Mead como “entusiasmo da pós-menopausa”. “Sem a tensão pré-menstrual, as cólicas, a menstruação, as variações hormonais ou a preocupação com o planejamento familiar, as mulheres se tornam mais livres em termos sexuais': diz Keren Smedley, autora do livro Who’s that sleeping in my bed? (Quem é esse dorminhoco na minha cama?). Isso pode dar segurança e até mesmo coragem de explorar fantasias. É uma boa oportunidade para os casais que estão juntos há muito tempo espantarem o tédio que costuma atingir a vida sexual. As pessoas estão namorando mais nessa faixa etária.

Nos EUA, o número de pessoas com mais de 55 anos que usam sites de relacionamento aumentou 39% nos últimos três anos, de acordo com a empresa Experian Hitwise. No Brasil; há sites do tipo dedicados a quem tem mais de 45 anos, como o Coroa Metade. Na A2, uma das maiores agências de encontros do Brasil, os homens tradicionalmente procuram mulheres de dez a 15 anos mais jovens. As ITlulheres’ preferem homens da mesma faixa etária, com situação financeira estável. A nova tendência é o interesse de homens mais novos por mulheres mais velhas. ”A mulher é muito desejável e tem qualidades que as mais jovens não costumam ter. “São compreensivas, acolhedoras e se entregam mais ao relacionamento”, diz Claudya Toledo, dona da agência. “Os homens mais jovens veem isso como uma vantagem.

A psicóloga Cybele Sistemas Di Pietro, de 55 anos, foi casada duas vezes e está separada há quatro anos. Cybele faz aulas de dança, malha todos os dias, recebe massagem modeladora e diz ter feito plástica no rosto. ”As pessoas me acham mais nova do que sou”, diz. ”Acabo atraindo homens mais jovens.”

FAMÍLIA

A nova fase dos 50 anos ganhou um apelido. É a segunda adolescência. A falta de regras estabelecidas de conduta para cinquentões os leva a se entregar a uma reinvenção, como a ocorridos na transição da puberdade para a idade adulta. “O maior impacto é nas mulheres”, diz a escritora americana Suzanne Braun Levine, autora de A reivenção dos 50 e How we lave now (Como amamos agora) ”Aos 50, elas não sentem a pressão de corresponder a tantas expectativas da sociedade, como criar filhos pequenos e trabalhar ao mesmo tempo, ou ter o corpo perfeito e sexy.” Elas reajustam seu lugar no mundo de acordo com o que é importante para elas (e não para o marido ou os filhos), adaptam suas expectativas de vida à realidade e se sentem mais responsáveis pela própria felicidade.

A segunda adolescência feminina também intriga os médicos. A americana Louann Brizendine, especializada em neurobiologia, aborda no livro O cérebro feminino a influência dos hormônios na vida das mulheres. Para ela, as mudanças hormonais da menopausa reduzem os níveis de prazer ao cuidar dos outros por meio de tarefas cotidianas, como cozinhar ou lavar roupas. Isso leva muitas mães na menopausa a surpreender seus filhos adolescentes com um berro de “limpe sua própria bagunça”

Em outros casos, a estrutura familiar é alterada de forma diferente: com a chegada de bebês. Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção, 47% dos pretendentes a adotar uma criança ou adolescente no Brasil têm entre 41 e 50 anos. A artista plástica Gilsia Dolfini Gonçalves, de 49 anos, e o marido, Ricardo Gonçalves, militar de 53, faziam parte dessa estatística até dois anos atrás, quando conseguiram adotar dois irmãos, de 8 e 11 anos. O casal já tinha dois filhos adultos, de 23 e 19. ”As crianças me fazem ter mais energia, eu me sinto até mais jovem”, diz Gilsia.

O relacionamento entre os avós de 50 com seus netos também mudou; “Muitos não querem ficar em casa cuidando dos netos ou não podem fazê-lo porque ainda trabalham”, diz Karen Marcelja, mestre em gerontologia pela PUC-SP. ”As pessoas preferem ver os netos no fim de semana, quando dá tempo.”

TRABALHO E DINHEIRO

As pessoas de 50 anos querem – e precisam – manter-se ocupadas e remuneradas. Com 30 anos a mais de vida pela frente, com disposição para curti-la (e gastar dinheiro com isso), deixar de trabalhar não é uma opção. Para muitos, essa ainda é a fase de alimentar as reservas. É natural que as despesas com saúde aumentem com o passar dos anos. Eles podem se aposentar aos 55 ou 60, mas isso não tem a ver com deixar de ser produtivos.

Houve um tempo em que o desemprego rondava quem passasse dos 50 anos. Esse cenário já mudou. O grupo dos 50 foi o único em que o índice de emprego aumentou significativamente  de acordo com o último levantamento do IBGE: de 16,7%, em 2003, para 22% em 2011. Isso corresponde a 22,5 milhões de pessoas. Nas outras faixas etárias, o índice manteve-se estável ou diminuiu. Esse também é o grupo que menos sofre com o desemprego. O ranking mais recente do IBGE mostra que é a faixa de idade com o menor percentual de desocupação. Apenas 2,1% dos trabalhadores dessa idade estão sem trabalho, em comparação aos 4,4% entre os que lêem de 25 a 29 anos. O que está por trás disso? “Entenderam que essas pessoas estão no auge de sua vida em termos de competências técnicas, atitudes e inteligência emocional': diz Betty Dabkiewicz, consultora da Sinergia Consultoria. A experiência profissional e a maturidade dos profissionais de 50 anos são especialmente valorizados para cargos de confiança. É a idade dos líderes. Entre os presidentes dos 50 países com maior PIB, 88% têm 50 ou mais. No Brasil, 80% dos presidentes das 50 maiores empresas têm no mínimo 50 anos.

Há carreiras em que os cinqüentões ainda são vistos com preconceito. É o caso de tecnologia. “Alguns jovens dessa área se recusam a aceitar o sênior”, diz Leyla Nascimento, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, do Rio de Janeiro. “As mudanças nessa área são muito rápidas. Os jovens se sentem mais antenados.” Na área de engenharia, em contrapartida, o profissional experiente de 50 é valorizado e cobiçado. “Há tamanha escassez de mão de obra qualificada, que as empresas estão chamando seus aposentados a voltar a trabalhar como terceirizados ou funcionários”, diz.

Ter autonomia e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é uma das questões mais valorizadas pelos cinquentões. Em busca de mais liberdade, muitos se arriscam a empreender depois dos 50. De . acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), produzida pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Pesquisa (IBQP), a taxa de empreendedores entre 55 e 64 anos cresceu 5,5% em 2011. O administrador de empresas Dilson Santos, de 49 anos, é um deles. Ele viveu uma rotina frenética de trabalho dos 25 até os 46. Era diretor-geral de uma multinacional e passava metade do ano viajando. “Perdi aniversários dos meus filhos. Não tinha tempo para nada e estava sempre cansado”, diz. A rotina estressante fez o casamento de 18 anos ir por água abaixo. “Resolvi mudar meu estilo de vida e abrir uma empresa de consultoria:’ Hoje, Dilson consegue participar da vida dos filhos e se casou pela segunda vez. A saúde e o lazer se tornaram prioridades. Ele frequenta a academia três vezes por semana e tira férias três vezes ao ano. “Minha vida está muito melhor agora do que aos 30. Sei dar valor às pequenas coisas

CULTURA E CONSUMO

Em 2006, a agência de publicidade Talent batizou um estudo sobre os cinqüentões com o nome “A idade do poder”. Quem está nessa faixa etária tem potencial enorme de consumo. “Essa virada da atitude dos mais velhos já ocorria na Europa e nos Estados Unidos há algum tempo, e agora podemos vê la no Brasil”, afirma Paulo Stephan, diretor-geral de mídia da agência. No passado, quando o brasileiro chegava aos 50, entendia que a vidàestava perto do fim e começava a se preparar para isso. “Mesmo com o crescimento da expectativa de vida, essa atitude psicológica demorou a mudar”, diz Marcos Bedendo, professor de marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “O marketing também pensava assim e acreditava que queni tivesse mais de 50 não queria mais investir em sua casa, numa viagem, num carro novo ou na própria aparência.

Hoje, a situação é diferente. “Eles não se preocupam mais com a criação dos filhos e já têm uma infraestrutura construída, com casa própria, carro quitado e dinheiro para gastar com entretenimento, diversão e lazer': afirma Marcos. As empresas dão atenção especial a identificar o perfil desse consumidor. Estima-se que, só nos EUA,os nascidos entre 1946 e 1964 gastem US$ 2 trilhões anuais. Estão entre os maiores compradores de artigos de alta qualidade. São o grupo que consome turismo e curte gastronomia. Um terço janta fora pelo menos uma vez por mês. De acordo com dados da Embratur, viajam mais do que pessoas de outras idades e em qualquer época do ano.

Os hábitos culturais dos cinqüentões não têm mais a ver com idade. Quem, curtia heavy metal aos 30 continua indo a shows aos 50. Eles se misturam com facilidade a gente de diferentes idades. Mas também não querem ser estereotipados como garotões, afirma Yara Rocha, gerente de planejamento da Talent. “Querem que a maturidade que construíram ao longo do tempo seja atribuída a eles, e não renegada’, afirma.

Na moda, essa mudança ocorreu de forma rápida. Há três décadas, era comum a segmentação de estilos por idade. Isso praticamente não existe mais. Homens gostam de usar camisetas e tênis, mesmo aos 70 ou 80 anos. “As roupas eram delimitadoras. Restringiam as mulheres menos jovens a um guarda-roupa sóbrio’eaustero”, afirma Maria Eduarda Di Pietro Quero, da grife de roupas femininas Folic. “Hoje temos peças decotadas e coloridas para mulheres de todas as idades. O que importa é quanto a pessoa se sente bem dentro dela.

Bruno Astuto

Os bruxos também amam

            José Mojica Marins, o Zé do Caixão, pretende erguer na Avenida São João, em São Paulo, um museu para sua obra. O local, claro, funcionará também de madrugada e terá um cinema para a exibição de filmes seus e de diretores favoritos. “Terá Boris Karloff, Lon Chaney e Bela Lugosi, os homens que impuseram o terror ao mundo todo”, diz ele. “Por incrível que pareça, tinha um anel que me roubaram e foi do Karloff. Quem me deu foi a filha dele.” Mojica falou à terceira edição da Revista Nacional, projeto do fotógrafo JR Duran. Sempre cercado de beldades, diz que se aquietou com a mulher, Leny D’Arc. “No meu filme Encarnação do demônio, ela entrou num barril com quase 3 mil baratas. Uma entrou no ouvido dela, e corri para o hospital. Paramos tudo quanto era carro ‘pelo amor de Deus deixa eu passar porque minha mulher está com uma barata chegando ao cérebro” É o amor.

Casa brasileira com certeza

            Cristiano Ronaldo, a estrela do Real Madrid, é o mais novo proprietário de um apartamento de 1030 metros quadrados – só a sala principal mede 300 metros – no bairro do Morumbi, em São Paulo. Mesmo com o prédio estalando de novo, o jogador português contratou um gesseiro para erguer uma drywall acústica (chapas de gesso antirruído) e modificar a estrutura original, por R$ 160 mil. Como vizinho ele terá o piloto Christian Fittipaldi e altos executivos da InBev. De acordo com uma imobiliária paulista, um imóvel na redondeza não sai por menos de R$ 7 milhões.

Pelada chique

O ex-jogador português Luis Figo desembarca em São Paulo na próxima terça-feira para cortar a fita da primeira loja da marca de relógios suíços IWC, no shopping JK Iguatemi. Apaixonado por relojaria, ele foi contemplado com um modelo em edição limitada a sete peças, criado em sua homenagem pela grife, que apoia o Dream Football, projeto de inclusão social pelo futebol mantido por Figo. O ator Murilo Benício, que interpretou o ex-jogador Tufão em Avenida Brasil, também estará no coquetel. “Quem sabe bato uma bola com ele?'”,diz FIQO- A novela também é sucesso em Portugal e pode ter um final diferente daquele que parou o Brasil no mês passado.

Arte de filtro

Apontado como o mais novo galã dá TV Globo por causa de Bacana, seu personagem na minissérie Suburbia, Pablo Morais tem mais o que mostrar além do trabalho como ator. A partir do dia 14,ele assina no Rio Úma exposição apenas com fotos tirad~sno Instagram. “Minha mãe me mostrou um caderno de quando eu tinha uns 10 anos, repleto de desenhos meus. Fotografo os desenhos e coloco os filtros da rede por cima, depois imprimo as imagens”, diz. Ele planeja exibir os trabalhos em São Paulo. “Não sei se posso chamar de arte plástica, mas é uma forma de me expressar”, diz. A quem interessar possa, o bonitão, de 19 anos, acaba de terminar um namoro longo com a atriz Agatha Moreira, de Malhação, e está solteiro.

“Quero retratar a vida dos gays mortos”

            Anda dificil acompanhar a agenda do cineasta Cacá Diegues. Há 15 dias. ele começou a gravar depoimentós para um documentário sobre os últimos 20 anos do cinema brasileiro provisoriamente intitulado 20. “Já fiz 33 entrevistas. de Nelson Pereira dos Santos a Walter Salles (na Central do Brasil, claro); de Fernando Meirelles a Daniel Filho”. afirma. Aos 72 anos. Cacá adianta outra novidade. a produção de Favela gay.mais um filme da série 5X (Favela. agora por nós mesmos e PaCificação). desta vez sobre a homossexualidade nas comunidades.

ÉPOCA – Qual é o ponto de partida do documentário sobre o cinema brasileiro?

Cad Dlegues – A década de 1990. ‘um periodo de grave crise financeira no pais e de altfssima inflação. A produção de cinema no Brasil caiu dramaticamente. Ogoverno Collor confiscou toda a reserva particular e extinguiu a Embrafilme. o Concine. a Fundação do Cinema Brasileiro. o Ministério da Cultura e suas leis de incentivos. Pego depoimentos dos cineastas que faziam de tudo para realizar um projeto. Com a saída pe Collor e a entrada de FHC. começamos a falar na retomada.

ÉPOCA – E como vê a situação atual?

Cad Dlegues- As escolas de cinema são boas. temos uma TV muito poderosa e uma indústria de publicidade que prepara bem os lançamentos. Estamos num momento maravilhoso. com até 20 estreias num curto período de tempo. Mas nossa economia é frágil e não está consolidada. A “farra” pode acabar de uma hora para outra.

Agora. acredito que temos um ás na manga: a ministra da Cultura. Marta Suplicy. Pela primeira vez. temos alguém com poder político no governo.

ÉPOCA – Você está no mercado desde a criação do Cinema Novo. Na década de 1960. Como se renova?

Cad Dlegues- Gosto de cinema e de vê-lo progredindo. Sou cineasta 24 horas por dia. sete dias na semana e. vez ou outra. pego uma câmera e faço um .filme. Procurar novidades me rejuvenesce. 5X Favela. Agora por nós mesmos foi uma maneira de conhecera geração que existe hoje na cultura e no cinema brasileiro.

ÉPOCA – Como será a contlnuaçAo da série 5X?

Cad DleOues-O Rodrigo Felha (um dos diretores descobertos pela Central Única das Favelas) me propôs fazer o terceiro filme da série com o tema Favela gay. Já batemos o martelo e vamos começar a gravar no início do próximo ano. Queremos retratar a vida dos gays que vivem nos morros.

Casal 20

Leleco e Muricy estão de volta. Depois do sucesso de Avenida Brasil. os atores Marcos Caruso e Eliane Glardinl se reencontrarão no dia 27 para apresentar o Prêmio Extra de Televisão. no Rio. A novela de João Emanuel Carneiro é a grande favorita da noite. com nada menos que 26 indicações. concorrendo em nove das 15 categorias. entre elas Ator (Cauil Reymond. Marc@trb Novaes e Murilo Beníclo), Atriz (Débora Falabella e Adriana Esteves), Revelação Infantil (Mel Maia e Ana Karolina Lannes), Revelaçilo (Bruno Glssonl, Cacau Protáslo, Daniel Rocha e José Loreto) e. claro. Novela. “Nilo nos vimos desde que o último capitulo foi exibido. Mal posso esperar”, diz Eliane. Caruso faz coro: “Temos enorme quimica. Será divertido e muito saboroso esse nosso novo encontro”. O casal Tarcisio Meira e Glória Menezes. que comemora 50 anos de união na vida real e nas novelas. Será homenageado e recebera um prêmio especial.

“Virei o samurai mais graduado do Brasil”

            Comecei a praticar judô aos 4 anos, por iniciativa de meus pais. Gostei tanto que, aos 10, me matriculei também no caratê. Aos 14, comecei a treinar jiu-jítsu e kung fu. Aos 19, me mudei para os Estados. Unidos, para fazer faculdade de comunicação. Nessa época, nem imaginava dedicar minha vida só ao esporte. Continuava treinando por hobby. Em 1990, surgiu uma oportunidade de conhecer o Japão. Namorava uma modelo, e ela ia passar três meses lá. Resolvi ir junto e treinar durante esse tempo.

Procurei uma academia tradicional japonesa. A técnica ensinada nessa escola era o kobudo, um sistema de arte marcial com três tipos de luta corporal e outros três com armas, como espada, bastão e esgrima. Passei os três meses treinando seis horas por dia. Quando

estava indo embora, o mestre da academia me disse que, se eu quisesse algum dia voltar ao Japão, as portas estariam abertas para mim. Voltei aos EUA para terminar a faculdade, mas a ideia ficou em minha cabeça.

Quando terminei a faculdade, procurei meu mestre e disse que queria voltar ao Japão.Ele conseguiu um visto cultural para mim. Tinha acabado de me formar e estavasem dinheiro. Eu me mudei para o Japão com US$ 400 no bolso. Fui morar com um amigo, num apartamento de 8 metros quadrados, ao lado da academia. Treinava sete horas por dia, sete dias por semana, e trabalhava como segurança à noite. No começo, cheguei a passar fome. Vendo as dificuldades, o mestre me convidou para morar na academia. Passeia dedicar minha vida à arte marcial. Fazia todo tipo de serviço necessário na academia. Em troca, não recebia salário, mas ensinamentos.

Fracassei em minha primeira tentativa de conseguir uma faixa preta. Executei toda a parte técnica com perfeição, mas fui reprovado. Na hora não entendi. Fui perguntar ao mestre o que acontecera. Ele me disse que, além de saber a técnica, eu precisava também dominar meu ego. Nesse dia, aprendi a razão real pela qual eu deveria lutar: o conhecimento, não a glória das conquistas. Passei mais três meses treinando e recebi minha primeira graduação.

Voltei ao Brasil e tinha um plano de montar minha própria academia. Coito precisava de dinheiro, procurei um emprego convencional. Comecei a trabalhar no mercado financeiro,no banco GECapital Fleet Services do Brasil.Em 2001, cheguei ao posto de vice-presidente da empresa. Acho que a disciplina e a ética de samurai me ajudaram no mundo corporativo. Nunca parei de treinar durante esse tempo e continuei a dar aulas. Chegou uma hora em que não conseguia conciliar as duas.•~ºIsas. Optei por largar o emprego. Voltei para o Japão e fiz mais exames para aumentar minha graduação. Em 2009, ganhei os direitos de representar no Brasil a escola de meu mestre, a Takeda Ryu. Hoje, tenho cinco faixas pretas e sou o samurai mais graduado do Brasil.

Os filhos de Crepúsculo

            Tudo começou em 2003 com um pesadelo: um vampiro mordiscava a jugular de uma virgem sob o olhar ciumento de um lobisomem. A dona de casa americana Stephenie Meyer, de 30 anos, casada com um empresário, moradora de Salt Lake City e mórmon, acordou assustada. “Logo me acalmei”, disse ela a ÉPOCA. “Foi quando me dei conta de que tinha uma história para escrever:’ Entre o sonho e a estreia do quinto e último filme da saga vampiresca Crepúsculo, que estreia na próxima semana, passaram-se nove anos, durante os quais Stephenie causou um fenômeno global de conseqüências duradouras. Além daqueles dois furos no pescoço pálido de Bella, o vampiro Edward deixou uma multidão de referências no universo de suas fãs.

Primeiro, os números. De 2005 a 2008, Stephenie lançou quatro romances que eletrizaram adolescentes e adultos, especialmente o público feminino. A tetralogia formada pelos romances Crepúsculo (2005), Lua nova (2006), Eclipse (2007) e Amanhecer (2009) vendeu 150 milhões de exemplares no mundo todo – só no Brasil, até a semana passada, foram 5,7 milhões. “Juro que nunca, nunca esperava fazer tanto sucesso': afirma Stephenie. “Jamais imaginei que minha imaginação faria parte da vida de tantas pessoas nem que um dia fosse participar da produção de um filme. Com o tempo, me acostumei. Aprendi a ser corajosa, até no set.”

Enquanto escrevia Lua nova e.começava a colecionar fãs pelo’planeta inteiro, Stephenie fechoucontrato com o pequeno estúdioSurnrnitt Entertainment paraadaptar sua história para o cinema.”Foi uma sensação única explicaraos atores como via meus própriospersonagens': diz. A saga fez aindamais sucesso no cinema, catapultoua venda dos livros e transformouStephenie numa produtora multimilionária. Crepúsculo, que estreouem 2008, tinha um orçamento modesto de US$ 37 milhões. Faturou US$ 382 milhões. Os dois longas-metragens seguintes – Lua nova (2009) e Eclipse (2010) – renderam cerca de US$ 700 milhões cada um. O êxito incentivou o estúdio a dividir o último filme em duas partes. Amanhecer – Parte 1 estreou em 2011 e alcançou uma bilheteria de US$ 700 milhões. A esperança dos produtores é que Amanhecer – Parte 2, que estréia mundialmente no dia 16, atinja um recorde de bilheteria.

Se os lucros são grandes, a influência da história de Stephenie Meyer sobre os jovens parece ser ainda maior. São modas, valores, padrões de comportamento, novas modalidades de leitura, música e até escândalos (leia o quadro na página 128). Assim como Harry Potter antes e Cinquenta tons de cinza depois, Crepúsculo foi uma espécie de romance de formação para uma infinidade de garotas e garotos. Apesar da modéstia de Stephenie, ela impregnou uma geração com suas ideias. Conseguiu criar personagens que incendiaram a imaginação e marcaram a vida de seus leitores.

O tema essencial de Crepúsculo é a educação sentimental de umadonzela, a humana Isabella Swan(interpretada no cinema por KristenStewart). Ela divide seu afetoentre dois seres fantásticos: ovampiro Edward Cullen (RobertPattinson) e o lobisomem IacobBlack (Taylor Lautner). Depoisde batalhas épicas com matilhase grupos rivais de vampiros, nasquais os sentimentos de Bella eseus pretendentes são testadossob o risco de morte, Edward arrebatao coração de Bella e casa-secom ela. Ele, naturalmente, não éuma criatura das trevas. Trata-sede um vampiro quase vegetariano,que bebe apenas sangue deanimais e pertence a uma famíliade mortos-vivos extremamentevirtuosa, os Cullens. Na primeiraparte de Amanhecer, Bella perde avirgindade (em Angra dos Reis),engravida e quase aborta. Nesse instante, torna-se vampira. Para eliminar a hemorragia e salvar a criança, Edward suga-lhe todç o sangue. Bella dá à luz Renesmee – uma menina adorável, mas que gosta de morder gargantas e deve ser educada nos preceitos do clã Cullen. No último filme, Bella e Edward precisam defender sua herdeira da perseguição de vampiros tradicionalistas.

As referências simbólicas explicam a excitação que a saga exerce sobre o público. “Os vampiros são atraentes para os adolescentes': afirma a psicanalista Diana Corso, autora do livro Psicanálise da Terra do Nunca (2010). “Eles não crescem, não precisam abandonar a família, vão casando e ficando por ali.” Outra fantasia se refere à perda da virgindade. “É um peso para os adolescentes': afirma Diana. “Eles acreditam que viver em torno de uma paixão é uma resposta para todos os seus problemas.” Segundo Christine Seifert, professora da Universidade de Westminster, de Salt Lake City, os “filhos de Crepúsculo” são, acima de tudo, apreciadores de fantasias. “Crepúsculo realiza o ideal de encontrar a alma gêmea”, afirma. “Além de ser uma mensagem limitada, não tem nada de realista.

A fantasia de Bella, Edward e Iacob, expressa por Stephenie em linguagem totalmente despretensiosa, incentivou os leitores e os espectadores a elaborar seus próprios enredos. Houve uma disseminação mundial da fan fiction, ou fanfic, uma modalidade de exercício literário em que os fãs continuam ou recriam as histórias que admiraram. Um exemplo é a admiradora inglesa de Crepúsculo Erika Leonard Iarnes, cuja trilogia Cinquenta tons de cinza começou como uma fan fiction erótica de Crepúsculo. “Stephenie Meyer tornou-se um modelo para os leitores. Por causa dela, eles começaram a criar suas próprias aventuras': disse E.L. Iames a ÉPOCA. OS leitores de Meyer parecem transitar felizes entre Bella e Anastasia, a virgem de E.L. Iames. A assessora imobiliária Carla de Souza, de 26 anos, gosta das duas sagas. “As autoras de fan fiction me incentivaram a experimentar coisas novas': diz. “No começo, estranhei E.L. Iarnes, mas depois amei os livros dela, porque me ajudaram a vencer alguns preconceitos em relação ao sexo:’ Além do sucesso de bilheteria e do apelo para os jovens, Crepúsculo abriu um novo horizonte ao consumidor de livros e filmes. Transformou-o em produtor. Hoje, qualquer um se sente incentivado a escrever uma história e a se tornar escritor ou até cineasta ..Para isso, diz Stephenie Meyer, basta encontrar uma história capaz de atrair milhões: “Não é fácil. A minha surgiu enquanto eu dormia. Mas a fórmula do sucesso ainda é uma incógnita”.

 O gênio que encena a própria vida          

            O homem de 1,85 metro e cabelos brancos senta-se diante de uma mesinha num hotel do centro de São Paulo, no Dia de Finados. Ele mira o repórter, para logo baixar as pálpebras e se concentrar na folha branca da prancheta onde esboça diagramas, maridalas e retratos a lápis. Possivelmente, o diretor, dramaturgo, designer, escultor e bailarino americano Robert Wilson está desenhando meu rosto, ao mesmo tempo que responde lenta e pensativamente às minhas dúvidas sobre seu trabalho, a um tempo deslumbrante eenigmático. Cena perturbadora: enquanto faço perguntas, Bob Wilson encena e me põe em cena Aos 71 anos, ele é um monólito vivo do teatro. Por uma conjun- São de fatores que parecem menos astrais que econômicos, está na cidade para montar três espetáculos, algo que nunca ocorrera antes. Na semana passada, dirigiu A ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, com o Berliner Ensemble, a célebre companhia alemã de teatro, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros. No mesmo lugar e com o mesmo grupo, de 14 a 18, monta a ópera Lulu, de Alban Berg, sobre um drama do escritor alemão Franz Wedekind, com música adaptada pelo roqueiro Lou Reed. De 23 a 29, no Teatro Municipal, ele estréia a montagem da ópera Macbeth, de Giuseppe Verdi, em produção do Teatro Comunale de Bolonha. Será a primeira premiere mundial de  Wilson no Brasil. Antes, ele tinha vindo aqui duas vezes: em 1974, para apresentar sua peça A vida e o tempo de Joseph Stalin, no Teatro Municipal, e em abril deste ano, quando montou, no Sesc Belenzinho, A última gravação de Krapp, de Samuel Beckett.Seu currículo de sucessos, iniciadoem 1969, preenche centenasde páginas. “Ele traz a assinaturade uma criação artísticasuperior”, escreveu sobre ele apensadora americana Susan Sontag.”Não consigo pensar em outraobra tão grande e influente:’Dele disse o poeta francês LouisAragon: “O teatro de Bob Wilsonrealizou o sonho dos surrealistas”.Ele discorda: “Faço um teatro de formas, luzes e sons. Não há um significado único, nem uma visão onírica como queriam os surrealistas. Sugiro múltiplas leituras, porque não existe interpretação fechada para qualquer obra de arte”. Nada deve ser encarado como obra séria, diz, nem mesmo tragédias mil vezes repetidas como Rei Lear e Macbeth: “O fim patético do rei Lear pode provocar risos. Tragédia serve para fazer rir. Por que não?”.

Wilson diz que a chave de sua obra está na vida: “Enceno minha vida. Acordo todos os dias pensando no que vou fazer. Dirijo as peças de teatro como vivo, projetando desenhos para o palco, dançando o que quero diante dos atores, para que eles repitam. Não falo quase. Mostro esquemas (começa a desenhar em meu bloco). A vida e o tempo de Joseph Stalin tem a: forma de uma serpentina. Einstein on the beach (ópera em parceria com o compositor Philip Glass que consagrou a dupla em 1976) tem uma estrutura linear, é dividida em quatro partes, cada uma delas com repetições AB,depois CA, BC e, finalmente, ABC”. O resultado da combinatória é um teatro de sombras e gestos coreografados. O teatro de sua vida.

Wilson nasceu em Waco,Texas, numa família tradicional. Autista e disléxico, teve  problemas desde a infância para juntar palavra e imagem. “(O rapper) Iay Z diz que tudo o que ele canta se refere aos tempos em que era menor abandonado no Bronx”, diz. “Do mesmo modo, o Texas irrespirável e moralista de minha infância está presente no que faço. Minha obra é uma resposta aos tempos difíceis que passei lá. Também é um reflexo da luz e das paisagens intermináveis do Texas.”Homossexual, ele trocou o Texas por Nova York em 1963. “Foi então que vi teatro pela primeira vez. Mas as coisas me pareceram horríveis e artificiais. Eu me identificava mais com artes plásticas do que com o teatro. Meus atores favoritos eram Buster Keaton e Charlie Chaplin. O teatrão novaiorquino me repugnava.”

Ele fez de suas deficiências e antipatias o alicerce de sua estética. Einstein on the beach pode ser vista como uma exaltação à defasagem entre movimento e palavra. “A mudez sempre me atraiu”, afirma. Em meados dos anos 1960, deparou na rua com um menino mudo, que sofria agressões dos passantes.”Adotei o menino e me baseei nele para montar uma peça, Deafman glance (O olhar do surdo, de 1971).” O menino, Christopher Knowles, tem hoje 53 anos e mora em Nova Iersey, “Tudo o que faço retoma ao primeiro encontro com esse menino de rua, meu filho.”

Por causa do vínculo com a experiência íntima, ele não considera seu teatro revolucionário. “Não gosto da palavra revolução. Meu trabalho se reduz a uma pergunta que sempre me faço e que artistas e até críticos deveriam se fazer: ‘O que é isto?’ Recomeço todas as manhãs e me questiono: ‘O que é isto?':’ Eu pergunto: “Então o segredo de sua arte é a repetição de uma só perplexidade?”.Ele esboça um sorriso, suspende o lápis e se despede com uma mesura, como se encerrasse mais uma peça.

Veja

VAMOS SER QUEM SOMOS

 

Tanto tenho lido e escutado sobre diferenças, preconceitos, o politicamente correto (detestável na minha opíníão, hipócrita e gerador de mais preconceito), que começo a pensar se não devíamos nos livrar das exigências, receitas, códigos, ordens, enquadramentos rigorosos e por vezes cruéis desta nossa cultura atual, Cultura que propaga liberdade, mas nos veste camisas de força umas sobre as outras, lá vamos nós carregando esse ônus, e achando que somos livres – mas nem sabemos o que queremos.

Não é fácil descobrir quem a gente é: primeiro, estamos sempre mudando. Na essência somos alguém, mas algumas camadas legítimas da nossa alma (psiquê, mente, não me importa) vão se

transformando, para melhor ou pior (quem sabe o que é isso?) com o passar do tempo e as circunstâncias.

E as escolhas nossas, claro. Conseguimos

ser mais abertos ou nos fechamos mais; ficamos mais lúcidos ou mais alienados; enfrentamos o mundode peito mais ou menos aberto

ou nos anestesiamos com drogas, bebida, remédios; queremos verdadeiros

afetos ou deliramos num sexo sem ternura nem parceria; enfim, escolhas ou destino, e alguma coisa muda.

Porém dentro do que de verdade somos, ainda que não sabendo muito bem, poderíamos ser fiéis a nós mesmos. Mas as pressões externas se tornam internas, o diabinho do espírito de manada sopra em nosso ouvido, é isso aí, vai ser da turma, vai fazer isso e aquilo, e ser assim ou assado. e se vestir (ou despir) conforme a moda, e tudo vale o sacrifício Porque se botamos a cabeça fora da manada, saindo um pouco que seja do rebanho, aparece alguém pra cortar cabeça, braço ou per- LYA LUfT nas que ficaram fora do quadro. Como?

Você na foi àquele vernissage, não visitou aquela cidade não viu aquele filme, não freqüenta aquela academia, não transa tantas vezes, e daqueles jeitos que hoje são os melhores, não tem aquele vibrador, ou vibrador nenhum, que coisa mais sem graça! Você tem só vinte amigos em uma rede social? Eu tenho mais de mil, em outras muito mais, nunca estou sozinho, tenho um milhão de amigos.

E nos sentimos de fora, nos sentimos pobres, sem jeito, esquisitos até para nós mesmos. Mas, porque motivo, se nos sentimos bem com essas

limitações, com nossa pobreza nas redes sociais, se não conhecemos bem Paris, não freqüentamos academia, ou não aquela mais chique, não estamos dentro dos padrões, estaríamos errados? Nem aceitamos policiamento da linguagem, imaginem!

Ainda uso a palavra “negro” por exemplo, porque quando começava, burramente, a pensar em “afrodescendente”, me achando ridícula – porque tenho negros muito próximos, e árabes, e para mim são todos apenas pessoas -, me dei conta de que existe uma banda excelente chamada Raça Negra, que os negros batalham pela valorização da negrítude, que as cotas nas universidades vão para “negros autodeclarados”. Isso faz o politicamente correto parecer incorreto. Se sou de uma cor de pele ou outra, mais agitado ou sossegado, gordo ou magro, ativo ou reservado, por que eu teria de mudar quando surge algum esperto querendo dar ordens? Tem .gente que se sente à vontade sendo mais fechado, mais úmido, poucos amigos, mas verdadeiros,

e aí fica inquieto porque teria de ter cem, ou mil.

Quero deixar claro aqui que nada tenho contra redes sociais, uso alguma’ vez o Face- “book ou outro, mas nem precisei de mil amigos, nem critico quem os tem. Pois sou mais para reservada do que social, coisa minha. O que me interessa é que a gente tenha consciência de que não são os duzentos ou mil aqueles a quem posso telefonar no meio da noite dizendo “estou mal” e virão correndo me ajudar. O que quero dizer é que é bom, bonito, natural, ser natural: com olhos azuis ou chineses, perfil árabe ou cabelo crespo. É bom, bonito, ser úmido ou extrovertido (desde que educado nos dois casos), até mesmo ser meio esquisito, fechado, contemplativo.

Tudo é positivo se é natural, exceto grosseria, cinismo, hostilidade. E a gente sempre pode melhorar, desde que não seja apenas para ser como os< outros querem – e que não seja “do mal”. Aí é chato demais.

 

SEM SAÍDA

A única opção da Europa é seguir com as reformas

 

A diferença entre o primeiro-ministro espanhol, o conservador Mariano

Rajoy, e o seu antecessor, o socialista José Luis Zapatero, é que o atual não deu a falsa esperança de que os cortes nos gastos públicos trariam benefícios rápidos à combalida economia nacional. Apesar do anúncio, na semana passada, de uma queda no PIB da zona do euro pelo segundo trimestre consecutivo, há sinais tímidos de recuperação nas exportações, na taxa

de competitividade e nos orçamentos da região. Nada que tenha servido

para melhorar a vida de gregos, portugueses, italianos e espanhóis, o que

levou essas e outras dezenove nacionalidades europeias às ruas para protestar. Na Espanha, onde um em cada quatro trabalhadores está desempregado e onde todos os dias centenas de pessoas são despejadas de seus lares por não pagar a hipoteca, houve uma greve geral e confrontos violentos com a polícia. Mas Rajoy e os . outros governantes dos países mais afetados pela crise fiscal não têm outra safada a não ser seguir em frente

com as reformas. Ao contrário de seus colegas do sul, porém, o presidente francês François Hollande não está fazendo a lição de casa. Se há um futuro melhor pela frente, a sorridente modelo em preto e branco na fachada da loja em Valência, na Espanha, deve estar vendo algo que o policial e o manifestante ferido ainda não vislumbraram. Entre o otimismo de vitrine dos socialistas e o realismo dos conservadores, a Europa fica melhor com o segundo.

 

NO BANCO DOS REUS

 

O julgamento do ex-goleiro Bruno começa com a defesa armando confusão e duas testemunhas-chave ausentes

As 9 horas da manhã desta segunda- feira, 19, sete jurados estarão a postos no acanhado tribunal de Contagem, na Grande Belo Horizonte, para o julgamento de Bruno Fernandes de Souza, de 27 anos, acusado de mandar assassinar a amante Elíza Samudio, em junho de 2010. O enredo macabro tem todos os ingredientes de um filme. Bruno, exgoleiro do Flamengo, era ídolo máximo do time quando o crime foi cometido. O corpo de Eliza nunca apareceu. Entre os outros acusados há duas ex-mulheres de

Bruno. Sobre o quarto envolvido, Luiz Henrique Romão, o Macarrão, resvalam suspeitas de envolvimento amoroso com o ex-goleiro. O quinto, Marcos Aparecido dos Santos, o sombrio Bola, é descrito pela promotoria como matador. Como se não bastasse o inusitado dos personagens no banco dos réus, uma tropa de advogados faz de tudo para  complicar o processo – a começar pelo defensor de Bruno, Rui Pimenta.

Em entrevista a VEJA, em junho, Pimenta, contratado no meio do caso, foi categórico: “Claro que Eliza está morta. Quando assumi, disse para o Bruno que não havia como negar isso. Que essa era uma tática de advogado fraquinho”. Na semana passada, ressuscitou a vítima: tratou de divulgar rumores de que Eliza foi vista na Bolívia, nos Estados Unidos e até no Leste Europeu.

Armar confusão é tática dos advogados para desviar a atenção das revelações contidas no processo de mais de 10000 páginas sobre a trama armada por Bruno para eliminar uma ex-amante cada vez mais Incômoda, São provas técnicas, científicas e testemunhais. Um exame de DNA comprova a presença de sangue de Eliza no carro do goleiro, mostrando que ela foi levada à força do Minas Gerais. O rastreamento das ligações feitas em celulares refaz os passos do  grupo do Rio ao sítio e de lá à casa do

assassino. Uma carta interceptada na cadeia e revelada por VEJA, de Bruno para Macarrão, fala em um “plano B”, que consistiria em jogar a culpa de tudo  no fiel escudeiro. “O conjunto probatório deixa clara a intenção de matar e dar um fim ao corpo de Blíza”, afirma o promotor Henry Vasconcelos Castro.

Mais contundente ainda seria o relato de duas testemunhas-chave que não irão ao tribunal. Um primo de Bruno, Sérgio Rosa Sales, que esteve no cativeiro de Eliza e relatou à polícia ter visto o goleiro queimar os pertences da amante, foi assassinado quatro meses atrás, em Belo Horizonte. Outro primo,

Jorge Luiz Rosa, que ficou detido e foi solto em setembro, ingressou em um programa de proteção ao adolescente vítima de ameaça de morte. Ele chegou

a confessar ter acompanhado Macarrão do começo ao fim da trama, mas voltou atrás. Sua mãe, Simone Santos Lisboa, aflita, disse a VEJA: “Na última vez que _ vi meu filho, em agosto, ele me disse que ia pedir proteção. O Sérgio tinha morrido e ele estava apavorado. Nunca mais eu soube dele”.

 

POR E-MAIL, NAO!

 

O diretor da CIA David Petraeus perdeu o posto por flertar on-line com a amante ciumenta. A história é tão mirabolante que fez surgir o boato de que por trás de tudo está o recente atentado contra o consulado americano na Líbia

 

A vigilância a que os americanos submetem suas autoridades com frequência alcança o paroxismo. A crença generalizada é que, além de ser bom governante ou bom general, é preciso ter vida privada acima de qualquer suspeita. Com isso, assuntos que em princípio deveriam ser apenas da conta de marido e mulher facilmente ganham o noticiário e formam turbilhões políticos. O mais recente escândalo de adultério, entre o então diretor da agência central de inteligência (ClA), o general David Petraeus, e sua biógrafa, Paula Broadwell, ambos casados, levou à renúncia do general há duas semanas e, por vias tortuosas, à suspensão da promoção do comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão, John AlIen. A primeira hipótese para explicar a história é que houve exagero ao tratar em público um assunto essencialmente privado. A segunda, ainda não comprovada, é que, em suas aventuras sexuais fora do casamento, Petraeus e AlIen teriam vazado informações secretas e falhado em cumprir com suas funções. Sobre as suspeitas de que o caso extraconjugal de Petraeus, de 60 anos, teria afetado a sua disposição para reagir da maneira correta ao atentado contra o consulado em Bengasi, na Lfbia, no qual morreram quatro americanos, o presidente americano Barack Obama afirmou, na

semana passada: “Não há evidências de que o episódio tenha representado uma ameaça à segurança nacional”.

A confusão começou quando a socialite Jill Kelley, de 37 anos, reclamou

ao amigo e agente do FBI Frederick W. Humphries II que estava sofrendo ameaças de Paula Broadwell por e-maíl. O conteúdo das poucas mensagens divulgadas até agora só revela um bate-boca rotineiro entre rivais. Apesar de sua condição de amante (Petraeus é casado com Holly, 63 anos), Paula não aceitou a aproximação de uma terceira mulher. “Afaste-se do meu homem”, escreveu ela a Jill. “Seu marido sabe que você tem tocado Petraeus por baixo da mesa?”, continuou. Ao entrar na privacidade das moças, o FBI descobriu que Paula e o general Petraeus trocaram várias mensagens. Surpreendentemente, o chefe do serviço de espionagem americano usava uma conta com pseudônimo no serviço de mensagens Gmaíl, do Google, facilmente rastreável. O general renunciou ao cargo na CIA na sexta-feira 9, em meio a rumores de que suas escapadas o teriam deixado vulnerável a chantagens. A mesma investigação revelou que John Allen trocou flertes on-line com Jill.

As duas conheceram Petraeus na ocasião em que ele já era um

general do Exército com atuação de destaque no Iraque. Em 2008, Paula começou a escrever uma tese sobre o militar na Universidade Harvard. Dois anos depois, ela propôs que o texto se transformasse em livro. A biógrafa visitou o general no Afeganistão seis vezes. Sua presença era constantemente notada pelos recrutas. Paula o acompanhava em longas corridas e o chamava de Peaches (“pêssegos”, em inglês), por causa de suas bochechas coradas. JilI, por sua vez, diz que conheceu o militar há cinco anos, quando fazia trabalho voluntário na Base MacDill da Força Aérea, na Flórida. Casada, mãe de três filhos e gêmea idêntica  de uma morena igualmente voluptuosa, ela recebia em sua casa oficiais para festas, famosas pela abundância dos comes e bebes. Seus dotes como anfitriã lhe renderam o título de consulesa honorária da Coréia do Sul e alguns processos legais por dívidas.

Traições no alto escalão das forças de segurança não são inéditas. AlIen Dulles, um dos primeiros diretores da CIA, era conhecido pela grande quantidade de namoradas que mantinha fora do casamento. Sua irmã calculou que ele teve “pelo menos 100″. Dwight Eisenhower, que comandou as tropas aliadas na 11 Guerra, teve um romance com sua motorista, a irlandesa Kay Summersby. A relação continuou no período em que Eí senho ver ocupou a Presidência e, apesar da falta de discrição, não atrapalhou sua carreira.

As primeiras alegações de que seu affair com Paula poderia deixar Petraeus vulnerável a chantagens parecem descabidas. “Hoje há uma intolerância maior com aqueles que cometem adultério, embora nunca na história dos Estados Unidos um oficial tenha sido chantageado por isso”, explica o historiador inglês Rhodrí Jeffreys-Jones, autor

do livro In Spies We Trust (Em Espiões Nós Acreditamos). O maior rescaldo da polêmica deve ser a apuração sobre a atuação da CIA na Lfbia. Dos quatro mortos no atentado de setembro, dois trabalhavam para a agência, assim como a maioria dos oficiais que foram evacuados de um dos prédios atacados. Petraeus 040 compareceu à cerimônia que recebeu os corpos dos americanos,

e versões contraditórias sobre o episódio foram dadas pela CIA e pelo Departamento de Estado. Para complicar, Paula disse em uma palestra, no mês passado, que o anexo do consulado em Bengasi era usado como prisão de terroristas. A invasão teria sido uma maneira de resgatar os detidos. “A lição do episódio é que, se alguém quiser ter uma parceíra fora do casamento, melhor não fazer nada por e-mail”, diz Ar- cthur Hulnick, professor de relações internacionais da Universidade de Boston e ex-analista da CIA. Fica a dica para outros espiões e generais.

 

NO BERÇO DA PRIMAVERA ÁRABE

 

Dois anos depois de iniciarem os protestos que varreram o Oriente Médio, as forças modemizantes e seculares da Tunísia tentam conter o avanço dos radicais

 

As moscas se aglomeram sobre os pêssegos carcomidos na barraca de feira em Sidi Bouzid, a cidade tunisiana onde, em 17 de dezembro de 2010, o vendedor de frutas Mohamed Bouazízí ateou fogo ao próprio corpo em protesto por ter sido proibido de trabalhar como ambulante. O gesto desesperado desencadeou uma onda de manifestações de rua e acabou por derrubar o ditador do país, Zine El Abidine Ben Ali, no poder havia 23 anos, um feito que incentivou cidadãos de outras nações do norte da Africa e do Oriente Médio a tentar o mesmo. Ao cabo de alguns meses, os tiranos de longa data da Líbía, do Egito e do lêmen tinham caído e os primeiros massacres do que viria a se tornar uma guerra civil com contornos sectários começavam a acontecer na Síria. Dois anos depois, no marco zero da chamada Primavera Árabe, os fruteiros Hedi Bouzídi, de 19 anos, e Khalifa Hamdi, de 26, não pareciam muito entusiasmados com as promessas de transição democrática na Tunísia. Para eles, o martírio de Bouazízí foi em vão. “Aqui, nada mudou”, diz Hamdi, com

um amplo movimento com os braços cujo ünico efeito foi levantar por frações de segundo a nuvem de moscas sobre suas frutas. “O desemprego não diminuiu e o preço das coisas não para de crescer”, completa Bouzidi. Enquanto ele falava, um grupo de rapazes barbudos chamou Hamdi de lado. Eram salafistas, adeptos da interpretação radical do Islã e conhecidos por impor sua ideologia com violência. Eles não queriam que os vendedores de frutas conversassem com jornalistas ocidentais. Hamdi voltou à sua

barraca e, constrangido mas se esforçando para parecer simpático, sugeriu

que os visitantes fossem embora Sim, algo mudou na Tunísia. A repressão do estado policialesco foi substituída pela coação religiosa.

Para muitos tunisianos, não era para ser assim. Se existe um pais árabe em que a almejada transição para a democracia poderia dar certo, é a Tunísia, com seus parcos 10 milhões de habitantes.

“Somos um exemplo para a região.

Se não formos bem-sucedidos, haverá caos no mundo árabe, porque todos vãodizer: ‘Vejam, não funciona nem na Tunísia'”, diz Moncef Marzould, presidente do governo de transição (veja a entrevista 1Ul pág. 116). Há, no pais, as condições ideais de temperatura e pressão para essa experiência política. A sociedade na Tunísia é mais homogênea e mais moderna do que na maioria das nações árabes;-Na Suíça, por exemplo, as lealdades na guerra civil em curso obedecem à lógica da fragmentação religiosa do pais. O ditador Bashar Assad tem o apoio das minoria salauita, cristã e drusa, enquanto os rebeldes são quase todos sunitas. Na Tunísia, ao contrário, esse fator de tensão é inexistente. Os muçulmanos sunítas representam 98% da população. O país também está livre de rixas tribais como as que, na Lfbia pós-Muamar Kadafi, têm pulverizado o poder do governo secular e democraticamente eleito.

A classe média, elemento essencial em qualquer democracia, é maior e

mais instruída na Tunísia do que, por exemplo, no Egito. A proximidade com

a Europa – a Itália fica a menos de 200 quilômetros de distância e diversas empresas francesas e alemãs têm fábricas instaladas na Tunísia, que também é um destino turístico popular entre os europeus – deu aos cidadãos, em especial os que vivem na capital, Tt1nis, e nas outras cidades doIíroral mediterrâneo, um estilo de vida mais secular e tolerante do que o encontrado no mundo árabe em geral. A Tunísia foi o primeiro país de maioria muçulmana a pôr em vigor, em 1957, uma lei que proibia algumas práticas retrógradas em relação às mulheres, como a poligamia e o casamento forçado. Em 1965, foi legalizado o aborto.

O último e mais importante elemento que poderia contribuir para uma transição tranquila para a democracia é o fato de que a Tunísia não tinha em seu território uma organização islâmica forte, capaz de avançar no vácuo de poder após a queda do ditador. No Egito, havia a Irmandade Muçulmana. Apesar de excluído durante décadas do jogo político, o grupo conseguira montar uma rede de assistência social que se provou essencial para a vitória nas primeiras eleições parlamentares e presidenciais livres no país, realizadas neste ano. Com um presidente, Moharned Mursi, saído das fileiras da Irmandade Muçulmana, e com uma Assembleia Constituinte que se prepara para aprovar uma Carta Magna baseada na sharia, a lei islâmica, o Egito está cada dia mais perto de se tornar um estado em que a religião se sobrepõe a todas as outras instituições. Já na Tunísia, durante o regime de Ben Ali, os defensores de um estado islâmico estavam quase todos presos ou exilados. Os líderes do Ennahda, uma organização com ideologia similar à da Irmandade Muçulmana, viviam havia anos asilados na Europa. Quando Bem Ali fugiu com sua família para a Arábia Saudita, em 14 de janeiro de 2011, acreditava-se que o Ennahda seria capaz de angariar o apoio de no máximo

25% da população em uma eventual eleição. Por isso, ninguém temia os islamistas. Meses depois, o Ennabda ganhou 40% das cadeiras no Parlamento

que se encarregaria de montar um governo de transição e de redigir uma nova Constituição. Entre os que hoje ocupam cargos altos nos ministérios, há até

ex-exilados que eram constantemente monitorados pela Interpol por suspeita de terrorismo.

A popularidade dos islamistas na Tunísia foi subestimada porque se confiou excessivamente nas aparências. Em comparação com outros países muçulmanos, viam-se nas ruas da Tunísia poucas mulheres de véu e não se rezava fora das mesquitas. “O círculo social em quão conservadora é a nossa sociedade”, diz a estudante universitária Marwa

Derbel, que participou dos protestos em Túnis contra Ben Ali em janeiro de 2011 e, como muitos outros jovens seculares, se diz estarrecida com a guinada islâmica no país. Hoje, na capital, quase a metade das mulheres cobre a cabeça em público. Nas cidades do interior, raras são as que se expõem com os cabelos ao vento. Isso significa que os tunisianos se tomaram fundamentalistas da noite para o dia? Não. As visões ferrenhas do Islã estavam apenas ocultas. Afinal, nos tempos de Ben Ali, as expressões públicas de religiosidade eram não apenas desencorajadas, como punidas. O uso do véu islâmico era proibido em prédios públicos. Homens que exibissem um hematoma redondo na testa, sinal de quem reza até mais do que cinco vezes por dia a Alá, frequentemente eram levados à delegacia para ser interrogados. Esse secularismo forçado, imposto pelo estado, apenas serviu para represar uma visão de mundo que, ao ruir a barragem política, inundou a vida nacional.

Antes mesmo da queda de Ben Ali, começou a penetrar nos lares tunisianos uma versão do Islã em grande parte exótica para a cultura local. Esses novos valores chegavam pelas parabólicas, por meio de canais de TV abertos da Península Arábica, entre os quais a AI Jazíra, do Catar. “Em um país em que 73% das mulheres das classes mais baixas são donas de casa que passam em média três horas por dia diante da TV, a AI Jazira e diversos canais religiosos do Oriente Médio acabaram tendo um impacto social tremendo”, diz Hassen Zargouni, diretor- geral do Sigma, um instituto de pesquisas em Túnis. A influência desses canais, segundo Zargouni, ajudou a aumentar entre as tunisianas a aceitação da poligamia e do véu completo,

que cobre inclusive o rosto, entre outras práticas próprias dos países da Península Arábica

O Ennahda soube se aproveitar dessa guinada islâmica fazendo um jogo duplo. De um lado, vendeu-se como um grupo islâmico “moderado” ao montar um governo de coalizão com dois partidos seculares e ao se distanciar dos métodos violentos dos salaflstas. De outro, pressionou para incluir na nova Constituição artigos de inspiração islâmica, como a referência à sharia como fonte das leis, a proibição à blasfêmia e a afirmação de que as mulheres são “complementares”  aos homens. “Nada disso vai passar”, garante a deputada secular Mabrouka Mbarek, “A estratégia do Ennahda é apresentar o máximo possível de propostas conservadoras, para conseguir o mínimo”, completa MabrouIca. A Constituição será ratificada em fevereiro de 2013.  As eleições presidenciais estão marcadas para quatro meses depois. Ainda que a fone elite secular da Tunísia consiga conter os legisladores íslamístas ditos moderados, não há garantia de que no futuro próximo o pais esteja imune a medidas autoritárias de cunho religioso. É comum ouvir de tunisianos seculares que a única diferença relevante entre o Ennahda e os salafistas é a rapidez com que eles querem implantar o estado islâmico. Os próprios salatístas, aliás, tendem a concordar com essa afim na ação. “O governo do Ennahda

é muito leniente com os atos de violência dos salafistas, o que realça as suspeitas de que sejam apenas dois lados da mesma moeda”, diz Abdessarar Ben Moussa, presidente da Liga Tunisiana de Direitos Humanos.

A mão leve com os radicais islâmicos ficou evidente em setembro, quando eles incendiaram a embaixada americana em Túnis com a desculpa de que protestavam contra um filme ofensivo a Maomé feito nos Estados Unidos. Poucos dias antes, em Sidi Bouzid, o marco zero da Primavera Árabe, um grupo de oitenta salafistas destruiu o bar de um hotel que vendia bebidas alcoólicas, proibidas pelo Corão. “Eu não achava que o resultado  da revolução seria esse”, diz Mobsen Bouzidi, gerente do hotel, “Quando o ditador caiu, pensei que teríamos liberdade.” No laboratório da revolução, as forças autoritárias ganham espaço da liberdade. O mundo observa atento.

 

O MELHOR MODO DE DIZER ADEUS

 

Os donos de animais de estimação estão diante de um novo dilema ético e afetivo: a decisão de sacrificar ou cuidar até o fim dos bichinhos enfraquecidos pólas doenças da velhice.

 

Ninguém gosta de pensar no momento em que será. Obrigado a

se desfazer de seu animal de estimação:- mas não é fácil cuidar dele quando ele fica velho e doente muitas vezes, quando os males fatalidade .

causam sofrimento ao bichinho impondo-lhe uma má qualidade de vida, o veterinário dá o temido conselho: o melhor é sacrificá-lo. A eutanásia em: animais domésticos tem só tomado e Cessaria e .frequente porque eles vivem muito mais do que no passado, Antigamente, era raro um cãozinho. ou.gato viver tempo suficiente. para sua velhice ,se tomar um problema Hoje, isso é muito comum. Os avanços na medicina veterinária verificados na última década permitem que os animais domésticos tenham uma longevidade inédirana história. Repete-se, com eles, o mesmo velho óleo, O que ocorre com os humanos, também beneficiados pela medicina. Os cães podem chegar aos 18 anos e os gatos, aos ‘lQ.1sso é o dobro da média dos anos 80. O lado negativo desse aumento .na longevidade é o surgimento de doenças próprias da idade avançada, como  insuficiência .renal, problemas cardíacos e câncer.

A aplicação frequente da eutanásia a cães e gatos fez com que; há seis meses, o Conselho Federal de Medicina.veterinária emitisse uma resolução complementarão seu código de ética tratando do assunto. “As mudanças, no geral, indicam maior preocupação com o bem-estar dos animais”, diz o veterinário Marcelo Teixeira, membro do conselho e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pelo novo texto, foram classificados como inaceitáveis os métodos de eutanãsía tradicionais, como submeter o animal a horas de aspiração de vapores de éter, o que  lhe causa dores nos pulmões. A resolução recomenda, para o sacrifício do animal,  métodos indolores como o uso de anestésicos, hoje o procedimento mais utilizado pelos veterinários. Os anestésicos são os mesmos usados em cirurgias, mas injetados em doses três vezes maiores. Quando o animal apaga, injeta-se cloreto de potássio, para estimular o coração a parar de funcionar. O animal não sente nada e morre de parada cardiorrespiratória entre 15 e 30 minutos após a aplicação do anestésico. O Procedimento custa entre 300 e 6OO reais. Dependendo do tamanho do animal. Foi por

meio de anestésicos que, há três meses, a consultora de moda paulistana Christina  Kiraly sacrificou seu golden retriever George, de 14 anos. Após um ano lutando sem sucesso contra um câncer no fígado do cão, ela optou pela eutanásia. “Ele não era mais o mesmo”, relata. “Eu não conseguia assistir àquele sofrimento. Já conheci gente que prefere manter seu animal em agonia, mas eu não faria isso com o meu”, ela diz. Para aliviar a dor da perda, Christina guarda as cinzas de George numa uma Quem.mesmo aconselhado pelos veterinários a realizar a eutanásia, prefere não sacrificar o amiguinho, deve se preparar para manter em casa um animal que requer tratamentos semelhantes aos utilizados em humanos, inclusive no preço cobrado por eles. A professora paulistana Luciana Fernandes gastou 7 000 reais no últimos dois meses para tratar de um  linfoma que acometeu seu gato Vitor, de 10 anos. O animal foi tratado com quimioterapia, mas não teve boa resposta à medicação. Vitor é considerado um paciente em estado terminal, tem dificuldade para andar e precisa de medicamentos diários. “Prefiro acordar um dia e encontrá-lo mono a levá-lo a algum lugar para matá-lo”, ela diz. ”Mas não posso ser egoísta, se ele começar a sofrer muito, terei de optar pela eutanásia”, completa. O advogado Liocon Teixeira e sua mulher, Maria Estela, desembolsaram

20000 reais nos últimos sete meses para combater a insuficiência renal da cadela maItês Nanuche. O animal parou de comer, beber água e andar. “Já havíamos optado pela eutanásia se ela continuasse assim, porque ela estava sofrendo muito”, diz Estela. Nanuche se recuperou dos sintomas e seus donos acreditam que ela ainda tem qualidade de vida para seguir em frente. Há três anos o labrador Ring, da administradora Tatiana Hirakawa, ficou paralítico e se submeteu a uma cirurgia na coluna. Os veterinários a advertíram que, se ele não recuperasse os movimentos, o sacrifício seria a melhor opção. “Já gastei 15000 reais em tratamentos e Ring recuperou, em parte, os movimentos”, ela conta.

A escritora americana Jessica Pierce, que há um ano sacrificou seu labrador, acaba de lançar nos Estados Unidos o livro TIu! Last Walk (A Última Caminhada), em que aborda a eutanásia animal sob vários aspectos. Ela chama atenção para o fato de que muita gente sacrifica os animais porque simplesmente não tem paciência para cuidar deles quando velhos. Escreve Jessica: “A eutanásia de  animais domésticos está profundamente enraizada na cultura americana, e raramente refletimos sobre as questões morais que ela envolve”. Nos Estados Unidos, 35% da população de 172 milhões de animais de estimação é considerada como paciente geriátrico. Isso abriu uma nova frente na medicina veterinária americana – os cuidados paliativos. Assim como é feito com os humanos, a medicina  paliativa ameniza a dor e o sofrimento  dos pacientes em estado terminal, até o momento da morte. Quando o sofrimento é incontornável e nem a medicina paliativa funciona, no entanto, o sacrifício pode ser a melhor solução para o amiguinho de longa data.

 

CASINHAS NA PRAIA?

Nada. Os megaiates têm lanchas, helicópteros e até submarinos a bordo. Os bilionários adoram porque são exclusivos. O show começa em 200 milhões de dólares

 

Foi um dos casamentos mais comentados da história. Jacqueline Kennedy e Aristóteles Onassis casaram-se abordo do Christina 0, o iate de 100 metros do armador grego.  O ano era 1968, e Onassís já sabia do fascínio que uma embarcação daquelas, sobretudo se enfeitada por Jackie, . causava. Pelo Christina; comprado com os milhões ganhos em negócios com a

marinha mercante, passaram o príncipe Raíníer, Winston Churchill, Marilyn Momoe e Liz Taylor. Na festa, a piscina, adornada com um mosaico igual ao

do Palácio de Minos, em Crera, virou pista de dança.

Aos olhos de hoje, o Chrisüna é um reles barquinho. Desde então, os iates vêm assumindo o posto de símbolo de

status por excelência no universo dos bilionários. Um BentIey pode ter bancos de couro vermelho, mas é o mesmo carro que todos os donos terão. Jatínhos. idem. A exclusividade da construção (quase sempre megalômana) e a ausência de limites na decoração fazem dos iates incomparáveis brinquedos de luxo. “O iate é o único bem que alia a personalização, como em uma mansão, com a possibilidade de ser exibido por aí, como os aviões”, diz Marcus Mana.’ Diretor do Prime Fraction Club, empresa de compra compartilhada de bens de luxo. Há hoje cerca de 4200 megaiates singrando os mares. Eles não custam menos de 200 milhões de dólares e, apenas para encher o tanque de diesel. Consomem 650000 dólares. Os proprietários são magnatas russos. xeques árabes, ingleses de riqueza centenária e jovens americanos da área de tecnologia- Os iates dessas turmas têm não só heliporto, mas nangar para helicópteros. Têm lanchas na garagem. Têm até pequenos mísseis- no caso dos russos,loucos por segurança. O precursor desse mundo é Roman AbraIDovich, dono do clube de futebol Chelsea e proprietário do maior iate do mundo, o Eclipse, de 163 metros, que custou 400 milhões de dólares em

2010. 000 aos 4 anos, ele começou sua fortuna com controversas exportações de óleo na década de 90 e a aumentou com investimentos na indústria de aço e gás. AndreY Melnichenko, outro russo endinheirado, da área de metalurgia e minas de carvão, irrompeu há pouco nesse time com um iate de design arrumadíssimo. Planejado pelo arquiteto francês Philippe Starek. o A tem a proa em forma de bico de gavião. Ela fura as ondas em vez de acompanhar o movimento delas. “Queria um desenho orgânico, que não tratasse o mar com arrogância”, diz Starclc.A suíte principal, de 230 metros quadrados, é alcançada por um elevador interno e só pode ser aberta mediante a impressão digital de Melnichenlco ou de sua mulher. Por dentro, seus 2200 metros quadrados são enfeitados com quadros de Monet e paredes forradas de pele de arraia albina ou bezerro, trabalhada a mão. Mas foi o antigo dono da vodca Stolichnaya, Yuri Schefler, quem, em 2011, arrasou, por impressionantes 33 milhões de dólares. Frescurinhas dele: piscina de água salgada e como  ondas, submarino, que ascende automaticamente ao anoitecer.

A leva de magaistes dos lados de emirados árabes é de outra cepa. Ao contrário dos russos exibicionistas, os árabes constroem seus barcos em segredo, por anos, e não deixam que eles sejam fotografados. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Khalifa Bin Zayed alNahyan, pagou 630 milhões de dólares ao estaleiro alemão Luessen para financiar o Azzan, de 180 metros, que . em 2013 baterá a supremacia do Eclipse. “Os árabes nos procuram porque temos uma política rígida de confidencialidade”, diz Micbael

Breman, diretor de vendas da Lürssen, . estaleiro que também construiu o Katara, de Hamad bin KbaIifa al-Thani. emir do Catar, com um parque aquático dentro “– desfrutado só pelos homens.

O custo da manutenção de iates desse porte chega a 20 milhões de dólares por ano. É em pane por causa disso, e em pane porque os donos de iates querem que o barco e a tripulação fiquem em movimento – esta-se falando de até setenta funcionários – que muitos deles são alugados. Os aluguéis mais caros chegam a 2 milhões de dólares por semana;

e normalmente são divididos por três casais endinheirados. “No Brasil, as pessoas ainda têm preconceito em dividir barco. Lá f()l’3,os ricos todos fazem isso”, diz Tomas Perez, presidente da Teresa’ Perez Tours, que aluga iates para brasileiros. Não é prática comum os barcos árabes estarem à disposição,. mas os de ingleses, povo com vasta tradição náutica costumam ser ofertado Iates: russos e americanos também. A recente curiosidade é saber o que a família de Steve Jobs, fundador da Apple, morte no ano passado, fará com o seu Venus. No esteio dos colegas pontocom que desfilavam (e ainda desfilam) em iates, como Bill Gates e Paul Allen, Jobs se encantou pela onda e, quatro anos antes de morrer, começou a montar seu brinquedo. O barco é a cara dos produtores asséptico, de linhas muito nítidas, da Apple: todo de vidro e alumínio, predominantemente branco. Os blogueiros cravaram: parece um iPhone em cima de um iPad, postos suavemente sobre um MacBook Pro.

 

COMO MONTAR UM HOME OFFICE

 

Nas grandes cidades, o percurso de casa até o trabalho pode ser comparado a uma corrida de obstáculos, é preciso enfrentar trânsito, metrô lotado, poluição, alamentos se vioi1ncia urbana.

 

Trabalhar em esquema de home office, portanto, é o sonho de muitos profissionais. Mas desfrutar a liberdade e o conforto do lar em pleno expediente requer uma montagem criteriosa: ainda que seja um ambiente de trabalho, o escritório doméstico não pode ter cara de repartição pública, e os móveis, além de funcionais, têm de ser bonitos. “Hoje existem móveis de escritório alegres, coloridos, de design moderno”, diz Fábio Ríccõ, diretor da fábrica de mobiliário corporativo Ricc6. Por outro lado, o espaço deve estimular a concentração e a produtividade – afinal, com o sofá e a TV tão próximos. Fica fácil sucumbir.à preguiça A seguir, as dicas dos arquitetos consultados por VEJA para montar o home office ideal

 

O cantinho certo

 

Laptops poderosos e a tecnologia wireless possibilitam a criação de escritórios enxutos e versáteis. “Montar o home office em um cômodo exclusivo dá mais privacidade ao profissional. Para os Que moram sozinhos ou não dispõem de tanto espaço, porém, pode ser vantajoso integrar o escritório a outros ambientes·, diz o arquiteto paulista Mauricio Queiroz. Nos apartamentos pequenos,uma boa opção é incorporar o escritório ao living. Nesse· caso, alguns truques ajudam a isolar o profissional dos outros moradores. Como cortinas rolô, que descem do teto formando um painel entre a sala e o escritório, ou portas de correr, Que garantem algum silêncio a quem usa muito o telefone – ou tem filhos pequenos que querem atenção. Se tiver de  instalar o escritório na sala, camufle sua parafernália numa estante  projetada para tal. Em um mesmo móvel, é possível ter prateleiras com vasos e porta retratos nas laterais e o computador, a  impressora e a papelada no centro, escondidos por portas de correr. Abertas, as portas dão acesso ao escritório. Fechadas, escondem os e revelam prateleiras decorativas. A arquiteta Aávia Gerab, de São Paulo, sugere aos solteiros uma alternativa: pôr abaixo a parede que separa o dormitório do aposento vizinho, para montar o escritório ao lado da cama. “Assim, o morador ganha um quarto de dormir e uma área de trabalho mais amplos e arejados·, diz Flávia

 

Escondendo afiação

A tecnologia wireless abole a fiação que conecta os equipamentos entre si, mas não resolve 8questão dos inconvenientes cabos de energia. No escritório, eles se multiplicam: monitor, computador, impressora, carregador de celular, luminária de mesa … Para esconder esse emaranhado de fIOS, a marcenaria é a maior aliada dos arquitetos. “A bancada ganha um fundo falso de 10 centímetros de com portas sem o arquiteto Alexandre Monteiro, do Rio de Janeiro. Quando estão fechadas, as portas do fundo falso simulam um palnel. Abertas, dão acesso à fiação. A ideia dos arquitetos já ganhou as lojas: é possível encontrar móveis prontos com fundo falso na parte posterior do gabinete

 

A iluminação adequada

Cerca de 80% mais econômicas que as lâmpadas incandescentes, as fluorescentes são as mais indicadas para ambientes que requerem boa luminosidade – caso de cozinhas e escritórios. “Sugíro lâmpadas  de tom branco. O amarelo proporciona  sensação de relaxamento, o que não é desejável para um local de trabalho”, diz Marcos Santos, gerente de produtos da Osram do Brasil. Entre as fluorescentes, as lâmpadas modelo T5 estão entre as que menos  distorcem a cor dos objetos sobre os quais sua luz incide. Invista ainda em  luminárias, e em fitas de LED: coladas a uma prateleira superior, elas evitam que sombras se formem sobre a bancada.

 

Móveis bonitos e confortáveis

 

Mesa:  ë recomendável que a mesa tenha altura regulável “particularmente se ela servir a o membros da família quando você não estiver trabalhando”, diz Carla Miller. “Se o pai tem 1,80 metros e o filho, da mesma altura, ou um dos dois vai acabar forçando a postura/ “Em algumas das mesas disponíveis no mercado, inclusive, o tampo pode ser elevado a uma altura tal que permite ao profissional trabalhar em pé postura conveniente a quem desenha ou, ainda, sofre com hora longas demais nas cadeiras. Seja qual for o modelo da mesa, a borda deve ser arredondada, para que não pressione o pulso nem prejudicar a circulação. E atenção para a disposição da mesa: nunca se sente de contas para a janela, já que a luz natural provoca reflexos incômodos na tela do computador.

 

Cadeira : Tem de ter assento, encosto e braços de altura regulável. Antes de fazer a compra certifique-se de que é capaz de ajustar todos ess4es componentes segundo dias necessidades. “Os pés precisam ficar apoiados no chão”, diz José Orlando. “Se ficarem balançando, forma-se um pressão na parte inferior da coxa que pode prejudicar a circulação”. Assentos e encostos  de tele ajudam a manter uma temperatura corporal agradável,

 

Gaveteiros, armários e estantes: O profissional sabe, melhor que ninguém, de quanto espaço precisa para guardar seu material de trabalho. Mas é bom ter no mínimo um gaveteiro. Assmi, quando terminar o dia, ele pode esconder da família a papelada e deixar a mesa livre para outras pessoas da família e em ordem para receber visitas.

 

Acessórios: Se você usa um monitor separado do laptop, monte-o sobre um suporte conhecido como braços, para garantir que ele fique na leitura dos olhos se não , mesmo sem perceber, voc6 acabara curvando os ombros e as costas. Não deixe de comprar um apoio para o punho e eduque-se para usá-lo ou, mais tarde, terá de agüentar as dores excruciantes da LER, a lesão de esforço repetitivo) já o apoio para os pés só é necessário quando eles ficam balançando no ar). Tenha também um headphone com microfone, para ficar com as mão livres e não se contorcer durante chamadas longas. Finalmente, uma caixa de entrada e saída ajuda a separar o serviço pendente daquele que já foi feito.

 

 

TECNOLOGIA NÃO OCUPA ESPAÇO

 

O número de equipamentos necessários para um escritório é cada vez mais

reduzido, e os aparelhos estão cada vez menores

 

Computador – O notebook é a melhor opção para quem pretende ter apenas

um computador. “É mais versátil que o desktopw, diz Marcelo Tripoli, presidente da consultoria iThink. “Você trabalha em casa com ele e o leva para visitar o cliente.w Para garantir seu conforto e sua saúde, quando

estiver em casa use monitor, teclado e mouse avulsos. “Assim você pode até comprar um modelo mais leve, com uma tela de 11 polegadas, por exemplo”

 

Smartphone – Segundo Tripo U, é importante ter um bom smartphone. “É o escritório de bolso”, diz ele. É interessante que esse telefone tenha também a função de roteador. Se houver qualquer problema COm sua banda larga fixa – a qual, artás, é indispensável-, ele pode entrar como substituto. Mas atenção: o celular não substitui o telefone fixo, já que muitas ligações ainda são mais baratas quando feitas de uma linha tradicional

 

Impressora – Compre uma multifuncional, que seja também scanner e fax. “Mas escolha um modelo simples, não muito caro”, dizTripoli. “A tendência é

imprimir cada vez menos”

 

Tablet- Funciona como um estepe computador. Numa emergência, pode

ser usado para enviar e-mails, escrever textos curtos e assistir a apresentações ou mesmo prepará-Ias. Se for ficar trabalhando por horas a fio, utilize um teclado avulso

Backup - Cópias de segurança podem ser armazenadas na nuvem. Você só

precisará de um disco rígido externo se faz backup de quantidades muito wandes de dados – caso em que a transferência para a nuvem costuma ficar um pouco lenta (e irritante)

 

JUNTO, MAS NÃO MISTURADO

 

É preciso disciplina para manter uma rotina e uma postura proãssíonat quando

se trabalha em casa. A seguir, algumas dicas da consultora de comportamento Claudia Matarazzo, autora do livro Etiqueta sem Frescura:

Respeito é bom – Sua famma precisa entender que você está em casa, mas não está disponível – especialmente se estiver com clientes ou colaboradores. Entrar no escritório sem avisar deve ser proibido. Combine com seus filhos de passarem um torpedo caso tenham urgência em falar com você

 

Aparência profissional – Se você recebe clientes, a empregada não pode abrir a porta de short e chinelos. Estabeleça um uniforme. “Não precísa ser o tradicional”, diz Claudia. “Pode ser uma camiseta branca, uma calça preta e

um par de tênis.- Também é bom evitar que outra pessoa atenda o telefone. Tenha uma linha separada com serviço de caixa postal

Já para a casinha! – Animais domésticos são fotos, mas atrapalham o trabalho. Se a visita gosta de bichos, vai se distrair. Se não gosta, terá uma má impressão. Mantenha o gato e o . cachorro longe do escritório

Um cafezinho – Um frigobar e uma de cafétomar o

-e para as visitas. Se está sem verba para uma máquina de expresso, recorra a uma cafeteira elétrica mesmo. Isso evita que você tenha de ir até a cozinha passar um cafezinho para o cliente.

 

Só no gogo

 

Com um corpo de jurados ecléticos e eficiente, the Voice Brasil consegue afinal emplacar no país o reality show de calouros que tanto faz sucesso no mundo

 

O cantor sertanejo pisa no palco do estúdio F do Projac, a central de produção da rede Globo com aquele ar compenetrado do aluno que senta na primeira fila da classe. “Alo, som. Testando”, diz Daniel, repetidas vezes, ao microfone. O pop Lulu Santos, que já teve fama de temperamental no showbiz, aparece descontraído e sorridente em outro canto do cenário, ensaiando sua parte no dueto que apresentaria com Erasmo Carlos dali a minutos, na primeira edição de The voice Brasil, no domingo 11. O sempre animado Carlinhos Brown, enquanto isso, aquece a platéia de 530 pessoas incluindo figurantes que a emissora posiciona nas primeira fileiras, para garantir “gente bonita” na tela com palmas e um estranho”pwo, pwo, pwo”( até falando ele é persuasivo). Única mulher entre os jurados ou técnicos, como soa chamados no programa, por analogia com os treinadores de futebol a estrela do axé Claudia leitte, em um tablet, checa sua conta no Instagram. Nos novos shows de auditório que vêm respondendo por algumas das maioria audiências da televisão mundial neste século( veja os quadros nas próximas páginas), a composição do júri é fundamental. Primeiro programa do gênero a  conquistar audiência e repercussão efetivas no Brasil, The Voice foi feliz nessa composição. E os competidores, muitos deles com carreira profissional, têm mostrado bom nível técnico, o que inflama ainda mais a disputa pelo prêmio

de 500 000 reais e contrato com a Universal Music.

O quarteto de jurados foi escolhido a partir de uma extensa lista de artistas que incluía Ivete Sangalo, Rogério Flausino e Ed Motta. É um time variado tanto na música quanto na personalidade. Lulu Santos é o mais entusiasmado. e Carlinhos Brown, compulsivamente tagarela, conquista simpatia com seu jeitão maluco beleza Daniel incorporou uma persona severa: “Me fascina saber que sou um grãozinho de areia num projeto que vai ajudar o Brasil a encontrar uma nova voz. O país é carente de novos ídolos”, diz, sentencioso. E Claudia Leitte faz o gênero jurada fofa – embora o negue: “Sou baiana, sou arrecada. Não tem fofura, não”.

O programa foi concebido pelo criador de reality shows John de MoI, da Endemol – a mesma produtora que castigou o mundo com o Big Brother. Com a adesão de cinco patrocinadores, The Voice trouxe 35 miíhões de reais aos cofres da Globo e afugentou o ancestral marasmo das tardes de domingo na TV. Tentativas anteriores de popularizar  no Brasil a mistura de concurso de calouros com reality show tiveram repercussão limitada. A melhor delas foi Ídolos, no SBT, em 2006, que divertia pela extravagância dos jurados – o produtor Carlos Eduardo Miranda chegou a dormir no meio de uma apresentação. A versão brasileira do American Idol. Exibida pela Record, não decolou. A própria Globo fizera uma tentativa tíbia antes, com o sisudo Fama, que teve quatro temporadas a partir de 2002. The Voice  em características que dão carga dramática à competição. Nas primeiras fases, os “técnicos” ficam de costas para os concorrentes, e só viram a cadeira para ver a cara do cantor quando o aprovam. Na fase atual, 32 cantores sobreviventes competem em eliminatórias nas quais contam tanto a decisão dos jurados quanto a votação do público.

A fim de compreenderem o formato que estavam trazendo ao Brasil, os diretores da Globo foram à França e à Holanda acompanhar versões locais de The Voice. “Mesmo sem entender holandês, sentimos a força do modelo de fazer escolhas de costas” , diz Carlos Magalhães, diretor-geral de The Voice Brasil. Para selecionar os concorrentes, a emissora analisou vídeos de 35000 inscritos e depois fez audições em oito capitais. Três bancas com quatro avaliadores’ eram montadas para apreciar (ou não) até quarenta cantantes por dia – e chegar assim aos 105 que subiram ao palco. Como todos os reality musicais, The Voice mobiliza tanto o fã de música quanto o torcedor, convocado a votar em seus favoritos. A versão brasileira só não traz a tensão que tantas vezes se vê nos similares americanos, nos quais os jurados batem boca com mais vigor e frequêncía, Não se concebe aqui a cena recentemente exibida em TheX Factor: um competidor recusado acusou a cantora Demí Lovato de usar um programa eletrônico de a nação de voz – e Simon Cowell, venenoso companheiro de júri de Demi, caiu na gargalhada. O clima entre os jurados brasileiros é camarada (Claudia Leitte conta, e em breve vencida, que Lulu Santos certo dia apareceu de roupão no seu camarim para presente á la com um bolo). Certo vício comum desses programas, porém, se repete na versão brasileira: a nota musical alta esticada até o insuportável, à La Whitney Houston em I Will A/ways Love YOU. Magalhães diz que vários adeptos da

gritaria foram cortados já nas audições, antes de o programa ir ao ar. Mas Claudia Leítte não se opõe a esses trinados hiperbólicos. “Gosto da firula que esses cantores fazem. É a raiz negra, o canto da lavadeira”, diz. Pois é, Claudia, ninguém nega: você é baiana e arretada. Mas fofa demais.

 

AMAR É…

só enxergar a perfeição. E é contando com essa lealdade dos tãs que diretor e estúdio não fazem nem uma forcinha para Amanhecer ~ Parte 2 ser um pouco melhor do que é

Com mais de 120 milhões de livros vendidos e 2,5 bilhões de dólares acumulados na bilheteria em quatro longas, a série Crepúsculo é, desde há muito tempo, um fato consumado: não há nada que se

possa dizer sobre a qualidade dos livros de Stephenie Meyer, dos filmes produzidos a partir deles pelo estúdio Summit ou da atuação dos protagonistas Robert Pattinson e Kristen Stewart que provoque nos fãs alguma pausa. Ao contrário, tudo o que se consegue é magoá-los ou enfurecê-los – tal é a natureza da paixão, que recobre seus objetos com a aparência de uma perfeição que não admite discordâncias. Mas também é da natureza das paixões arrefecer com o tempo. Dentro de cinco ou dez anos, assim, será curioso ouvir esses mesmos fãs sobre A Saga Crepúsculo: Amanhecer

- Parte 2 (The 1Wilight Saga: Brealdng Dawn – Part 2, Estados Unidos, 2012).

O epílogo da série, desde quinta-feira

em cartaz, só rivaliza em oportunidades para o constrangimento com Amanhecer – Pane 1. Ambos foram rodados simultaneamente, sob a direção de Bill Condon, o que explica a coerência. O senso de ritmo inexiste. Os diálogos

são atrozes. Os figurinos. incompreensíveis: há duas indígenas da Amazônia com saiotes que parecem herdados de uma produção bíblica italiana dos anos 50, e um par de vampiros da Transilvânia com roupas de soldadinho de chumbo ainda mais falsas que seu sotaque. Os efeitos especiais assustam de verdade – em particular o medonho bebê digital que representa Renesmee, a filha concebida pela jovem Bella com o vampiro Edward durante sua lua de mel: seus sorrisos virtuais, em vez de parecerem cheios de significado, ganham um quê de psicótico em razão da inabilidade dos artistas. Os atores estão tão embaraçados que, numa cena em que Pattinson e TaylorLautner observam Bella, já tomada mortaviva, fortalecer seus laços com Renesmee – uma cena feita para comover, portanto –‘-, os dois estão comas mãos nos bolsos. Ou seja, não sabem o que  ação de Pane 2, aquela que faz o espectador comum sair de seu torpor – diga-se apenas que ela é um blefe.

Note-se que não se discutiram aqui nem os méritos do enredo, nem os dos atores. Estes são os fatos consumados: com esses mesmos elementos em mãos, a diretora Catherine Hardwicke se saiu com um singelo mas cativante romance no filme inaugural; e, com apenas eles ao seu dispor, David Slade abriu horizontes para a série no terceiro episódio,

infundindo-a com perigo e erotismo consideráveis. Em suma: Amanhecer poderia ter resultadO muito superior ao que se vê, tivesse havido vontade para encenar a trama com alguma energia, escrever diálogos que alguém pudesse

enunciar com um mínimo de naturalidade e retocar efeitos malsucedidos. Neste momento, é provável que esses defeitos sejam invisíveis aos fãs cegos de paixão. Em cinco ou dez anos, porem, eles talvez percebam que Condon e o Summit deram seu amor como certo e fizeram pouco dele. E isso, pense-se o que pensar de Crepúsculo, não é certo.nem honesto.

 

NOVO EM FOLHA

Em Curvas da Vida, Clint Eastwood faz o seu velho tipo do sujeito que não joga a toalha. Não há como enjoar dele

 

Ainda mais ranzinza que o treinador de boxe Frankie Dunn de Menina de Ouro, e quase tão antissocial quanto o aposentado Walt Kowalski de Gran Torino. o olheiro de beisebol Gus Lobel tem todas aquelas notas profundas de madeira envelhecida das safras mais recentes de Clint Eastwood: um homem tão inflexível e assertivo no exterior quanto eivado de dúvidas

e arrependimentos no seu íntimo, e alguém que enfrenta o fantasma da finitude

da única maneira como sabe fazê-lo –  indo em frente, e trabalhando. Esperem sentados aqueles que acham que chegou a hora de Frankie, Walt e Gus (ou Eastwood) jogarem a toalha: só quando eles estiverem duros e frios alguém vai conseguir arrancá-la das mãos deles. Gus, por exemplo, enfrenta dois problemas um bocado limitantes para um olheiro. Primeiro, está perdendo a visão; segundo, está perdendo o lugar no mundo. Em um jogo tão direcionado pelas estatísticas de performance dos jogadores quanto o beisebol, sujeitos como ele, com o dom inato de memorizar números e intuir deles avaliações e estratégias, estão sendo inexoravelmente substituídos pelo computador. Gus, porém, recalcitra. Principal olheiro dos Atlanta Braves, insiste que nada pode tomar o lugar do instinto que depurou no correr de lá se vão décadas. E, desde o início de Curvas da vida  (Trouble wan lhe Curve, Estados Unidos, 2012), que estreia nesta sextafeira, está claro que Gus terá sua chance de vencer: as surpresas não são o forte do filme dirigido por Robert Lorenz – a familiaridade é que o é.

Eastwood afirmou várias vezes nos últimos anos que se aposentara da interpretação. Para Lorenz, entretanto, que foi seu assistente ou produtor em mais de uma dezena de filmes e aqui assina o primeiro longa. abriu uma exceção. Gus,como outros personagens seus, tem uma filha com quem vive às turras. Mickey, interpretada pela indomável Amy Adams, é uma advogada que está a um passo de se tomar sócia da firma em que trabalha. Mas cede à súplica de Pete (John Goodman), gerente dos Braves e velho amigo de seu pai, para acompanhá-lo numa missão de recrutamento na Carolina do Norte: criada na arquibancada dos campos de beisebol, ela é igualmente fanática

pelo esporte, e conhece suas estatísticas tão a fundo quanto Gus. Poderá, assim, discretamente suprir a visão que está faltando a ele.

Seguem-se muitas cabeçadas entre pai e filha. algumas intervenções afetuosas de Johnny (Justin Thnberlake), um jogador que Gus recrutou tempos antes e agora pretende tomar-se locutor, e várias revelações prescientes do velho olheiro sobre as qualidades – ou a falta delas- do jogador que ele e os outros grandes clubes foram observar. O qual, descobre Gus, tem graves ainda que sutis problemas para rebater bolas curvas – as quais, nas metáforas esportivas americanas, significam também imprevistos ou coisas que enganam. Não há nenhuma destas em Curvas da Vida: todas as suas reviravoltas podem ser avistadas a quilômetros de distância. Mas, dado que o trajeto vai sendo percorrido na companhia agradabilíssima de Eastwood, Amy, Tímberlake e Goodman, a paisagem conhecida é a razão primeira para que se faça a viagem.

 

CartaCapital 14.11cont

Gurgel volta a atacar o procurador-geral desafia a Câmara para impedir a indicação do representante que escolheu para o CNMP

            DESDE JULHO, portanto há quase meio ano, a Câmara dos Deputados é a única instituição sem representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), integrado por 14 representantes de variadas instituições nacionais. Essa demora já seria ruim se resultasse de entraves burocráticos. Mas a razão é outra. E é bem estranha. A indicação da Câmara está bloqueada pelas ações do procurador geral da República, Roberto Gurgel, contra a posse do professor Luiz Moreira, aprovado inicialmente para um segundo mandato de dois anos na função.

Eis algumas evidências do bloqueio que Gurgel faz ao que a Câmara aprovou. Malsucedido naquela casa, o procurador-geral transferiu o palco de sua trama para o Senado.

Em e-mail do dia 5/6/2012 da Rede Membros do Ministério Público Federal, o procurador Matheus Magnani (MP-SP) relata desabridamente a campanha contra Moreira, que obteve 359 votos no plenário da Câmara, após ter sido indicado pela unanimidade dos líderes partidários.

“Pessoal: conversando com o assessor parlamentar do MPF (Ministério Público Federal) acabo de receber a informação de que a recondução do Luiz Moreira (…) apenas ocorrerá por falta de uma iniciativa concreta em sentido contrário. Portanto, ela é absolutamente evitável (… )O mesmo assessor disse que uma iniciativa concreta (…) tornará a recondução muito mais difícil. Pergunto: nada será feito?”

Outros procuradores se envolveram na trama desse procurador-geral “pantagurgélico”. Que Rabelais perdoe a singela insinuação com a troca de letras.

Um dos integrantes do complô propôs uma campanha capitaneada pela Associação Na- ‘cional dos Procuradores, após o “assessor parlamentar” José Arantes propor “algo concreto” como uma carta aberta do MPF com pelo menos 30 assinaturas de diversas regiões do País. Se possível encabeçada pelo presidente da citada associação supostamente para dar “mais peso” ao veto..

Uma campanha apócrifa, um dossiê de quatro páginas, precedeu a tudo isso e circulou pelo Congresso.

A acusação mais grave contra Moreira é a mais frágil. Ele teria sido reprovado no exame da OAB. Bacharel em Direito, ele, porém, nunca exerceu a advocacia. Por isso não se submeteu ao exame da Ordem. Optou pela academia. É Doutor em Direito e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, além de Diretor Acadêmico da Faculdade de Direito de Contagem.

Moreira pediu ao CNMP a apuração administrativa, cível e criminal das denúncias do dossiê. Um já foi arquivado. Dos outros dois não se tem notícia. Vai ver que também descansam em paz nas gavetas de procuradores do Distrito Federal.

Gurgel tentou evitar a sabatina de Luiz Moreira na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. E chegou a pedir isso ao presidente da casa, José Sarney. Falou com mais gente: Eduardo Braga, líder do governo, e Renan Calheiros. A sabatina só não foi cancelada porque o deputado Marco Maia, presidente da Câmara, não aceitou o adiamento. Ele foi aprovado.

O procurador-geral contra-atacou e conta com o esforço de dois Pedros: Taques (PDT) e Simon (PMDB). Eles conseguiram adiar o ato final. Pediram o sobrestamento da votação em plenário para que sejam ouvidos os procuradores anti-Moreira.

Gurgel conta com alguns senadores para tentar derrotar os deputados.

 

Andante mosso

A sereia e o desconfiado

No dia 28 de setembro, em pleno julgamento do chamado “mensalão” no STF,o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, deu um pulo em Fortaleza para receber o troféu “Sereia de Ouro”, oferecido à “Personalidade do Ano” pelos critérios da TV Verdes Mares. A emissora é da família Queiroz, cuja herdeira, Renata, é esposa do ex-senador e líder político tucano Tasso Jereissati. Esse pessoal já foi mais discreto nessas comemorações.

 

Caso de tolerância

Para a Irmandade da Santa Cruz dos Militares, não bastam os problemas de má administração em que está atolada. A eles se acrescenta uma tolerância suspeita com os inquilinos que ajuda a tornar incerto o futuro de uma instituição do início do século XVII. Há quase cem locatários inadimplentes. É o caso do famoso e controvertido Chico Recarey, empresário da noite carioca. Há oito meses não paga aluguel de um imóvel que ocupa.

Violência em Sampa

Atribuem a uma decisão do PCCa morte de policiais, como se esse “comando” fosse hegemônico em todos os aspectos da criminalidade em São Paulo. Jorge da Silva, subcomandante da PMdo Rio no governo Brizola, acha isso “uma conclusão apressada”. Veterano no combate aos traficantes cariocas, ele argumenta: muitas das mortes não são de policiais. São incluídas nesse rol por descobrirem alguma remota ligação de parentesco do morto com algum policial.

 

Violência em Sampa ll

Silva chama a atenção para outro fato: matam duas ou três pessoas de forma aparentemente aleatória, como se tivessem a intenção de infundir terror não entre os policiais, e sim na comunidade. Isso já aconteceu e ainda acontece no Rio. É coisa de milícia. “Nesse caso, na hipótese de também haver milícias em São Paulo (por que não haveria?), não me surpreenderia se, além da ação do ‘comando’ contra os policiais houvesse a disputa territorial entre milícias, com milicianos matando milicianos”, alerta.

 

Rescaldo I

Debruçada sobre o resultado das eleições municipais e os resultados das pesquisas pré-eleitorais, Márcia Cavallari, do Ibope, concluiu que o eleitor manteve-se fiel à tradição: votou a partir da experiência com a administração atual. Em São Paulo, segundo ela, a participação da presidenta Dilma e do ex-presidente Lula, que ela identifica como “influência vertical”, não foi “muito relevante”. Assim como não importou a tônica dada ao julgamento do chamado “mensalão”. “Pesou a avaliação negativa da gestão Kassab, a “influência horizontal” que apoiou Serra”, ela diz.

 

Rescaldo ll

Cavallari mostra que, das 26 capitais, 14 delas poderiam ter seus prefeitos concorrendo à reeleição. Apenas oito deles tentaram e desse grupo “apenas quatro com melhores avaliações foram vitoriosos”. Houve exceções, como em João Pessoa (PB) e Campo Grande (MS). Apesar disso, ela garante que uma regra é absoluta: “Prefeitos mal avaliados, aqueles com avaliações positivas inferiores a 40%, não se reelegeram ou não fizeram sucessores”.

 

O “mensalão” tucano Longa encenação em vários atos e muitas personagens, sem excluir, naturalmente, Marcos Valério e Daniel Dantas

A MÍDIA NATIVA entende que o processo do “mensalão” petista provou finalmente que a Justiça brasileira tarda, mas não falha. Tarda, sim, e a tal ponto que conseguiu antecipar o julgamento de José Dirceu e companhia a um escândalo bem anterior e de complexidade e gravidade bastante maiores. Falemos então daquilo que poderíamos definir genericamente como “mensalão” tucano. Trata-se de um compromisso de CartaCapital insistir para que, se for verdadeira a inauguração de um tempo novo ejusto, também o pássaro incapaz de voar compareça ao banco dos réus.

Réu mais esperto, matreiro, duradouro. A tigrada atuou impune por uma temporada apinhada de oportunidades excelentes. Quem quiser puxar pela memória em uma sociedade deliberadamente desmemoriada, pode desatar o entrecho a partir do propósito exposto por Serjão Motta de assegurar o poder ao tucanato por 20 anos. Pelo menos. Cabem com folga no enredo desde a compra dos votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, até a fase das grandes privatizações na segunda metade da década de 90, bem como a fraude do Banestado, desenrolada entre 1996 e 2002.

Um best seller intitulado A Privataria Tucana expõe em detalhes, e com provasirrefutáveis, o processo criminosoda desestatização da telefonia e da energiaelétrica. Letra morta o livro, publicadoem 2011, e sem resultado a denúncia,feita muito antes, por CartaCapital, ediçãode 25 de novembro de 1998. Tivemosacesso então a grampos executados noBNDES, e logo nas capas estampávamosas frases de alguns envolvidos no episódio.Um exemplo apenas. Dizia Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente do banco, para André Lara Rezende: “Temos de fazer os italianos na marra, que estão com o Opportunity. Fala pro Pio (Borges) que vamos fechar daquele jeito que só nós sabemos fazer”.

Afirmavam os protagonistas do episódio que, caso fosse preciso para alcançar o resultado desejado, valeria usar “a bomba atômica”, ou seja, FHC, transformado em arma letal. Veja e Época foram o antídoto à nossa capa, divulgaram uma versão, editada no planalto e bondosamente fornecida pelo ministro José Serra e pelo secretário da Presidência Eduardo Jorge. O arco-da-velha ficou rubro de vergonha, aposentadas as demais cores das quais costuma se servir.

Ah, o Opportunity de Daniel Dantas, sempre ele, onipresente, generoso na disposição de financiar a todos, sem contar a de enganar os tais italianos. Como não

observar o perene envolvimento desse monumental vilão tão premiado por inúmeros privilégios? Várias perguntas temperam o guisado. Por que nunca foi aberto pelo mesmo Supremo que agora louvamos o disco rígido do Opportunity seqüestrado pela PF por ocasião da Operação Chacal? Por que adernou miseravelmente a Operação Satiagraha? E por que Romeu Tuma Jr. saiu da Secretaria do Ministério da Justiça na gestão de Tarso Genro? Tuma saberia demais? Nunca esquecerei uma frase que ouvi de Paulo Lacerda, quando diretor da PF, fim de 2005: “Se abrirem o disco rígido do Opportunity, a República acaba”. Qual República? A do Brasil, da nação brasileira? Ou de uma minoria dita impropriamente elite?

Daniel Dantas é poliédrico, polivalente, universal. E eis que está por trás de Marcos Valério, personagem central de dois “mensalões”. Nesta edição, Leandro Fortes tece a reportagem de capa em torno de Valério, figura que nem Hol1ywood conseguiria excogitar para um policial noir. Sua característica principal é a de se prestar a qualquer jogo desde que garanta retorno condizente. Vocação de sicário qualificado, servo de amos eventualmente díspares, Arlequim feroz pronto à pirueta mais sinistra. Não se surpreendam os leitores se a mídia nativa ainda lhe proporcionar um papel a favor da intriga falaciosa, da armação funesta, para o mal do País.

Pois é, hora do dilema. Ou há uma mudança positiva em andamento ou tudo não passa de palavras, palavras, palavras. Ao vento. É hora da Justiça? Prove-se, de direito e de fato. E me permito perguntar, in extremis: como vai acabar a CPI do Cachoeira? E qual será o destino de quem se mancomunou com o contraventor a fim de executar tarefas pretensamente jornalísticas, como a Veja e seu diretor da sucursal de Brasília, Policarpo Jr., uma revista e um profissional que desonram o jornalismo.

 

 

A Semana

Supremos entreveros

            ENGANOU-SE QUEM esperava um Supremo Tribunal Federal mais tranqüilo durante a fase de definição das penas dos condenados no chamado “mensalão”. Deu-se exatamente o oposto. Na quarta-feira 7,quando os ministros retomaram o julgamento após uma parada de dez dias, os ânimos se acirraram. Não bastassem as costumeiras discussões entre o relator Joaquim Barbosa e o revisor Ricardo Lewandowski, outros juízes resolveram entrar no sururu.

Barbosa queixou-se das críticas na mídia por supostamente pesar a mão na pena ao publicitário Marcos Valério (47 anos). Marco Aurélio Mello interveio, porém, e fez reparos às decisões do colega: “Está estarrecendo o mundo acadêmico alguém condenado a 40 anos”.

O relator não gostou e mais uma vez teve início no STF um bate-boca com acalorada troca de acusações. “Peço a Vossa Excelência que cuide das palavras que venha a utilizar quando eu estiver votando”, disse Mello. “Sei usar muito bem o vernáculo”, rebateu Barbosa. “Não tem utilizado e vou repetir. Não sorria que a coisa é séria, o deboche não cabe”, continuou, irritado, Marco Aurélio. “Não admito que Vossa Excelência proponha que todos aqui sejam salafrários e só Vossa Excelência vestal,” Rosa Weber também demonstrou irritação com as interrupções de Barbosa durante seu voto.

Até agora foramfixadas as penas de Marcos Valério e seus sócios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, de 26 e 29 anos, respectivamente. Enquanto os entreveros supremos prosseguem, apesar de os ministros terem estabelecido uma tabela para fixação das penas, aproxima-se o momento em que o presidente da Corte, Carlos Ayres Britto, se aposentará. Até o domingo 18 ele terá de deixar o tribunal por completar 70 anos. Barbosa será o novo presidente. É mais que provável que a dosimetria das penas não tenha chegado ao fim.

Além do desentendimento técnico, há outra razão para o aparente nervosismo dos ministros. Eles estão incomodados com a proposta de Marcos Valério de “delação premiada”, com redução da pena em troca de hipotéticas revelações. O próprio relator declarou acreditar em blefe, mas o tribunal sente-se na obrigação de ouvir o publicitário

 

Carolina Dieckmann, a lei

            Em votação simbólica, a Câmara aprovou ontem dois projetos de lei que tornam crime roubos e invasões na internet. Para virarem lei, eles só precisam da sanção da presidenta Dilma Rousseff. Um deles foi batizado de Lei Carolina Dieckmann,já que, em maio, a atriz teve fotos sensuais divulgadas na web. Os dois projetos tornam crime invasão de computadores, violação de senhas, obtenção de dados sem autorização, ação de rackers e clonagem de cartão. Hoje,como a legislação não prevê especificamente crimes na internet, eles são enquadrados como outros delitos. De autoria do deputado Paulo Teixeira(PT-SP), a Lei Carolina Dieckmann criminaliza a invasão de dispositivos eletrônicos alheios que estejam ou não conectados à internet para obter ou adulterar dados no sistema e conseguir vantagens ilícitas. A pena é de até um ano de prisão, mais multa.

 

Decididos a não se decidirem

Porto Ricocelebrou eleições juntamente com os Estados Unidos e um plebiscito sobre a relação com a metrópole. Dos votantes, 54% responderam “não” sobre se estavam satisfeitos com a situação de “estado associado”. Mas na questão mais específica. 800 mil votaram em ser estado dos EUA, 73 mil país independente, 437 mil “associação soberana” com mais autonomia que hoje e 500 mil em branco, em presumível apoio ao status quo. Optaram pela anexação 61%dos que escolheram uma opção. Mas só 44% dos que votaram. E os mesmos eleitores negaram um segundo mandato ao governador que defendeu a união com os EUA e elegeram o candidato que defende a manutenção do estatuto atual. É incorreto dizer que os porto-riquenhos querem ser o 51°estado dos EUA, como divulgou parte da mídia

 

Tirado a fórceps e sem garantias

NA NOITE DA quarta-feira 7,no fim de dois dias de greve geral, com 80 mil manifestantes protestando às suas portas (parte deles em batalha campal com a polícia) e o boicote dos próprios funcionários da Casa, o Parlamento grego aprovou o corte de 13,5 bilhões de euros, exigido pela Troika, com o voto de 153 dos 300 deputados e a abstenção de muitos da aliança governista, inclusive todos os 16 da Esquerda Democrática.

Soa como uma vitória de Pirro. Sete dos 33 deputados do Pasok foram expulsos ou deixaram o partido e um foi expulso da Nova Democracia. A maioria governista foi reduzida a 168 deputados, e nem assim a próxima parcela do resgate está garantida. É preciso a aprovação do Orçamento de 2013, prevista para o dia 10, e o relatório final da Troika, que não deve ficar pronto para a reunião dos ministros da Fazenda europeus na segunda 12. Também falta acordo para a redução dos juros sobre títulos gregos nas mãos do BCE.

E a pressão interna continua a aumentar. Divulgada logo após a votação, a taxa de desemprego de agosto foi de 25,4%, chegando a 58% entre jovens de 15 a 24 anos, e, segundo as projeções cronicamente otimistas da União Europeia, haverá uma queda de 4,2% do PIE em 2013. Os neonazistas dominam as ruas, com a cumplicidade da polícia. Se o país é hoje quase impossível

de governar, como será em um ano?

 

A rebelião segue fragmentada

A REUNIÃO PARA criar uma nova organização da oposição síria em Doha, capital do Catar, anunciada em 31 de outubro e marcada para 8 de novembro, foi cancelada. A expectativa era unir as outras forças de oposição ao Conselho Nacional Sírio (CNS), formado em agosto de 2011 e “representante legítimo do povo sírio” aos olhos da mídia e da diplomacia ocidentais.

Na véspera, o CNS votou contra a proposta, que lhe daria apenas 15 das 50 cadeiras do novo Conselho e destituiu do conselho executivo Riad Seif, empresário liberal que (ao lado de Robert Ford, embaixador dos EUA) defendia a ideia e era apresentado como futuro líder. O próprio Seif não sabia justificar muitos dos nomes indicados pelos EUA, que em troca ofereciam apenas modestos recursos financeiros. Além disso, três das demais organizações de oposição, incluindo as forças de esquerda e

os autonomistas curdos, recusaram o convite.

O fiasco frustra os EUA, Reino Unido e França e esvazia o CNS, descartado por Hillary Clinton: “São pessoas que em muitos casos estão fora da Síria há décadas. Não pode mais ser visto como a liderança visível da oposição e precisa incluir pessoas que hoje lutam dentro da Síria e outros que têm uma voz legítima”, disse a jornalistas. Sem uma direção aceita como eficaz, confiável e legítima pelo Ocidente, a rebelião contra Bashar aI-Assad tende a ser dominada por extremistas islâmicos.

 

O PT e o “mensalão”

No INTERMINÁVEL julgamento do “mensalão”, as cartas dos leitores e os blogs vociferavam: a reputação dos ministros do Supremo está em jogo. Minha inteligência se esbate em suas limitações para compreender o que pretendiam dizer tais sábios da jurisprudência. Imagino que suas elucubrações buscassem definir o resultado do julgamento à revelia do contraditório e do excurso argumentativo. Isso permite concluir que, nos julgamentos de grande repercussão na opinião pública, devemos nos livrar das conquistas históricas do liberalismo político e da democracia que garantem ao cidadão, rico ou pobre, o julgamento fundado na argumentação racional das partes e na livre formação da convicção do juiz ao aplicar a lei ao fato.

É de uma obviedade palmar que os crimes alegados pela acusação, uma vez provados, devem ser duramente punidos, sobretudo por desmoralizarem os requerimentos de probidade que devem guiar a administração pública. Mais que isso, deformam a representação popular. No banco dos réus do “mensalão” e do “mensalinho” deveriam estar sentados o sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais, engendrados com o propósito de transformar a política num mercado de balcão, onde os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas.

O desempenho nas eleições, o sucesso das políticas sociais e o reconhecimento popular não absolvem o Partido dos Trabalhadores dos pecados da Realpolitik e dos empréstimos contraídos em bancos de espertezas e hipocrisias do establishment nativo. Não há outro caminho senão purgar as culpas e retomar a luta pelo avanço da igualdade e da democracia dos cidadãos, o que inclui a defesa da diversidade de pontos de vista e dos meios para expressá-los.

Na sociedade dos significados invertidos e pervertidos cabe às associações de cidadãos lutarem pela fiscalização infatigável dos poderes públicos e privados, sobretudo daqueles que pretendem se embuçar com as máscaras de senhores da liberdade. Imagino que assim podemos vislumbrar a derrota do transformismo que dá sobrevida ao pacto oligárquico que assola o País. Os senhores abandonaram os coturnos e as baionetas para recorrer aos métodos sutis e eficientes de tortura coletiva dos cidadãos com as técnicas da desinformação, do massacre ideológico e da “espetacularização” da política.

Hannah Arendt, nas Origens do Totalitarismo, abordou as metamorfoses sociais e políticas na era do capitalismo tardio e da sociedade de massa. As transformações das sociedades ao longo do século xx produziram, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do “homem massa, cuja principal característica não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais”.

Trata-se da abolição do sentimento de pertinência auma classe social sem a supressão das relações de dominação. “As massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma classe.” Em seus piores momentos, os porta-vozes do indivíduo abandonado às penúrias da multidão solitária se entregam às tropelias do que Antonio Gramsci chamou de sarcasmo de “direita”. Sempre negativo, esse sarcasmo é cético e destruidor não só da forma, mas do conteúdo humano dos sentimentos e crenças na justiça, na igualdade e na fraternidade, elementos ideológicos difundidos pelas tendências democráticas herdadas da Revolução Francesa (Antonio Gramsci, em Maquiavel, a Política e o Estado Moderno).

            Invocar a justiça acima da lei é atitude típica do “homem cordial”, figura magnífica da sociologia de Sérgio Buarque de Holanda. Ao contrário do que pretendem as interpretações vulgares, o homem cordial de Sérgio Buarque não é o homem liberal da Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smíth, cuja “mente estava dotada naturalmente da faculdade que permitia distinguir, em certas ações e afeições, as qualidades do certo, do louvável e do virtuoso, e, em outras, aquelas do errado, do condenável e do vicioso”.

O homem cordial é avesso à impessoalidade da norma e está permanentemente empenhado em impor suas “virtudes” e sua “moral” particularista aos demais. Trata-se da caracterização mais perfeita do “coronel”, personagem das oligarquias que infestaram e ainda infestam o País com seus diktats. Outrora concentrados nos grotões do Brasil varonil, hoje se refugiam nas redações ou espalham seus mandonismos e grosserias pela web.

 

Alckmin perde para o PCC

            EM MAIO DE 2006, o Primeiro Comando da Capital (PCC), associação delinquencial paulistana nascida nos presídios como a italiana Sacra Corona Unita, apavorou a população com ataques espetaculares. O medo tomou conta dos paulistanos, que se refugiaram nas suas residências.

Quando isso aconteceu, Geraldo Alckmin tinha renunciado ao governo do estado para concorrer à Presidência da República. Como legado, Alckmin deixou uma canhestra política militarizada de segurança pública e a passar a falsa impressão de tranquilidade à população. Não bastasse, não desmentiu o seu chefe do Departamento de Investigações Criminais na afirmação, em entrevista coletiva, de que o PCC estava agonizante.

Logo depois da saída da chefia do Executivo paulista, articulados ataques do PCC serviram para confirmar a falência da política militarizada de Alckmin, e o governador interino, Cláudio Lembo, foi apanhado de calças curtas. Não bastasse, um avião oficial conduziu negociadores para fechar um “armistício” com o chefão do PCC, recolhido em estabelecimento prisional.

De maio de 2006 em diante, excluída a curta passagem do pefelista Lembo, a política tucana para a segurança pública continuou calamitosa, com a agravante da manutenção do acordo celebrado com o PCc. Isso permitiu ao PCC difundir-se pela periferia e tecer uma potente e capilar rede criminal. OPCC passou a ter controles territorial e social.

Para se ter ideia, um respeitado padre da zona leste enviou uma carta ao cardeal arcebispo a relatar pressões do PCC e o patrocínio, em paróquias que indicou, de quermesses e festas litúrgicas. Com a volta de Alckmin, colocou-se de lado a Polícia Civil, apesar das suas tradições e do respeito conquistado junto à população. Num pano rápido, intensificaram-se as ações militarizadas, com todas as fichas apostadas na Polícia Militar.

A propósito, basta lembrar o nihíl obstat de Alckmin na ridícula tomada militar do campus da Universidade de São Paulo e por causa de três cigarros de maconha na posse de usuários. E teve a desumana ação militar no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, que resultou na expulsão de famílias instaladas há anos nesse bairro operário. Não se deve olvidar, também, a desumana e atrapalhada tentativa, sempre com policiais armados e emprego de violência, de acabar com um velho confinamento de dependentes químicos na Cracolândia. Em todos esses casos, Alckmin, em panos de Capitão Nascimento, repetia, sem corar e em entrevistas, frases de matriz fascista. Pois bem O PCC voltou, desde agosto passado, a mostrar os músculos e a Polícia Militar partiu para a guerra, que já é de uma clareza solar. Por operar em rede difusa por todas as zonas da capital e da periferia, o PCC, com ataques de norte a sul e de leste a oeste, colocou Alckmin e a sua polícia como “baratas tontas”.

Pouco antes do periodo eleitoral municipal, o governador paulista e os seus subordinados insistiam, como a esquecer o passado, na afirmação de o PCC ser supervalorizado pela mídia Num dos embates sangrentos, Alckmin não poupou os paulistas ao soltar um “quem não reagiu não morreu”.

A guerra em curso tem gerado mortes dos dois lados. Pior, cresceu o número de vitimas inocentes, de policiais e carcereiros mortos em dias de folga.Fora isso, grupos de exterminio entraram no embate e o crime organizado já impôs toque de recolher aos moradores de territórios controlados.

O confronto teria sido uma resposta à morte, em janeiro, num confronto com policiais militares em São Bernardo do Campo (no ABC paulista), de um líder de nó da rede criminal operada pelo Pcc. Fala-se numa carta interceptada em presídio, no mês de maio, com ordem de eliminação de policiais militares. Aversão que corre nos bastidores das delegacias é outra Dá conta de uma quebra do modus vivendi acertado em maio de 2006, com a Rota (polícia especial) a ingressar em territórios da periferia dominados pelo PCC e a perseguir vendedores de drogas ilícitas.

Nesta semana, depois de um bate-cabeça entre o secretário de Segurança paulista e o ministro da Justiça, a presidenta Dilma entrou em cena e acertou com o governador, além de auxílio financeiro, a constituição de uma agência de combate ao crime organizado e de reserva de vagas em presídios federais. Alckmin não deixou de reclamar ter o ministro Cardozo, da Justiça, se aproveitado da situação para abrir espaço para sair candidato ao governo em 2014. Como todos sabem, Alckmin pretende se reeleger e teme também ser coberto por uma pá de cal, como sucedeu a José Serra.

Ainda não se sabe se haverá alteração na política militarizada de Alckmin. Como serão repassadas informações do Banco Central e do órgão de inteligência financeira (Coaf), espera-se que se consiga atacar a economia movimentada pelo PCC, de modo a empobrecê-lo. Uma associação criminosa reticular, do porte do PCC, não sobrevive sem substancial lucro financeiro.

 

Uma voz autêntica

O MDB, a oposição consentida na ditadura, era aquele conhecido balaio de gatos em que nem todos eram pardos. Sabe-se como muitos deles traíram os princípios do movimento, inclusive grande parte da turma que compunha a chamada ala dos autênticos. Uma exceção é Fernando Lyra. Deputado federal por oito mandatos consecutivos, entre 1971e 1999, ministro da Justiça do governo Sarney, indicado por Tancredo Neves, aquem considerao maior político que conheceu, Lyra continua autenticamente coerente, como se verá nesta entrevista. Pernambucano, amigo e conselheiro do governador Eduardo Campos, o ex-ministro reforça a equipe de colunistas de CartaCapitala partir da edição 724. Escreverá quinzenalmente, em revezamento com Marcos Coimbra. A seguir, Lyra avalia o cenário político brasileiro e afirma: “Na democracia, os momentos gloriosos do Congresso tornaram-se raros”.

CartaCapital: O senhor concorda com a tese de que o julgamento do “mensalão” é um divisor de águas e que, daqui para a frente, certas práticas na política não serão mais aceitas?

Fernando Lyra: É próprio da história tentar identificar marcos, eras, etapas. Na verdade, o processo histórico é um todo contínuo. De vez em quando acontecem fatos marcantes que viram divisores de água. Se o julgamento do mensalão será um deles, só o futuro dirá. Apesar de toda a sua carga de simbolismo, só dividirá águas se tiver uma interferência efetiva no aprimoramento do trato com os recursos públicos

e o rigor na punição dos “malfeitos”.

CC: Como atacar a corrupção na política e no poder público?

FL:Não é uma tarefa exclusiva dos políticos. É um desafio para as instituições democráticas, para as organizações da sociedade civil e, principalmente, para a sociedade como um todo. São os eleitores que escolhem e depõem os políticos. Não podemos esquecer nossa origem latina, cuja cultura é milenarmente tolerante em relação à mistura entre patrimônio público e interesses privados. Então, tudo isso passa por uma mudança de valores do corpo social, um maior rigor na avaliação de pessoas e partidos que usam de práticas condenáveis na gestão dos recursos do povo.

CC: Ofinanciamento público de campanha seria uma das soluçõespara reduzir a influência do poder econômico?

FL: Sinceramente, não acredito em nenhuma solução isolada. A redução do poder econômico no sistema só ocorrerá com a mudança na legislação, assunto que, convenhamos, não está em pauta (risos). Tudo passa por uma reforma política profunda, que ainda não foi feita porque é cobrada por uma parte da mídia e da intelectualidade, mas em nenhum momento se inseriu na pauta da sociedade. Para que o financiamento público funcione, além das reformas mais profundas especialmente no sistema partidário, será preciso muito mais rigor no controle do chamado caixa 2. Caso contrário, vai favorecer os políticos articulados com os grandes grupos econômicos. O desequilíbrio seria ainda maior, em detrimento dos candidatos de base popular.

CC: O Brasil tem partidos demais?Seria necessário instituir uma cláusula de barreira para impedir essa dispersão?

FL: SOU contra proibir. A cláusula de barreira é uma solução antipática, impositiva. Se a intenção é fortalecer os grandes partidos, basta acabar com a excrescência das coligações nas eleições proporcionais. Cada partido teria de mostrar seu potencial, inclusive do ponto de vista ideológico. Às vezes as soluções são simples, mas muito difíceis de ser adotadas, pois contrariam grandes interesses.

CC: O senhor integrou o grupo de autênticos do PMDB, foi ministro, deputado várias vezes. Considera o atual Parlamento brasileiro melhor ou pior do que em seu tempo?

FL: Como diz a sabedoria popular, nem melhor nem pior, apenas diferente. Quando conquistei meu primeiro mandato, havia uma ditadura no País. Uma ditadura que, como todo mundo sabe, tinha a pretensão de parecer uma democracia e criou um partido de oposição. Entrei nele e, apesar de todas as dificuldades, da ameaça que pesava sobre nossas cabeças, da cassação de mandatos, de prisões, torturas e assassinatos de parlamentares, o MDB se transformou em importante espaço de luta democrática. O Parlamento viveu no período momentos deploráveis e momentos gloriosos. Hoje, com a democracia instalada, os momentos gloriosos tornam-se raros.

CC: Como avalia o governo Dilma Rousseff até este momento?

FL: Dilma herdou a enorme responsabilidade de dar continuidade ao governo mais popular da República. Enfrenta uma crise internacional de grandes proporções. Sabemos que o cobertor dos recursos é curto. O governo continua a investir prioritariamente no social e é natural que alguns setores comecem a sentir falta de investimentos. Mas, no conjunto, ela está se saindo muito bem. Não sou eu quem diz, é a opinião pública, medida nas pesquisas.

CC: O governador Eduardo Campos, seu amigo, está em ascensão. Se o senhor fosse lhe dar um conselho, diria para ele concorrer à Presidência em 2014 ou esperar um pouco mais?

FL: Concordo com o pensamento de que candidatura presidencial vitoriosa não é projeto, é destino. O importante é que, no governo Eduardo Campos, Pernambuco mudou, venceu barreiras históricas, descortinou uma nova perspectiva de futuro. Hoje, ele é um protagonista indispensável da cena política nacional. Quando o momento de uma possível candidatura se apresentar, ele saberá fazer a opção, não precisa do meu conselho. Mas, se ele pedir minha opinião, darei com todo prazer.

CC: Eduardo Campos forjou um amplo arco de alianças em Pernambuco, onde quase não existe oposição.É neto de um esquerdista, mas bem-aceito pelo empresariado localepelas elites. Qual o segredo?

FL: Eduardo começou ainda adolescente na política, teve uma escola exemplar e trajetória inquestionável. Foi oficial de gabinete do governador, chefe de gabinete do governador, secretário de Governo, secretário da Fazenda, deputado estadual, deputado federal, ministro da Ciência e Tecnologia e governador de Estado. A essa vivência agrega determinação, capacidade de formar equipe, eficiência gerencial, tino político, carisma e liderança. Não tem segredo, tem uma combinação rara de qualidades.

CC: Qual deve ser o discurso de quem pretende se eleger presidente da República no Brasil contemporâneo?

FL: Não existe uma fórmula de discurso, sacada do bolso do colete. Existem valores e princípios a ser defendidos. Existe um discurso de situação e discursos de oposição que serão elaborados no momento apropriado. A eleição presidencial ainda não está na agenda do povo.

CC: Qual foi o maior político que o senhor conheceu epor quê?

FL: Tive a felicidade de conviver com grandes políticos de várias gerações. Tenho muita alegria em ver desabrocharem jovens políticos com futuro promissor, como o próprio Eduardo, Aécio Neves e alguns outros. Porém, o maior político que conheci foi sem dúvida Tancredo Neves. Mais do que ninguém, ele soube fazer a hora na história do Brasil. Personificou a transição democrática, mas o destino não quis que fosse o seu executor.

 

A idade média fica para trás

DEU BARACK Obama porque este falou à nação que é, enquanto seu adversário, o republicano Mitt Romney, falou para a nação que gostaria que fosse. O presidente se reelegeu por margem apertada: recebeu um pouco mais de 50% da votação popular, contra 48% do seu oponente, mas conquistou com folga (até inesperada) a maioria dos votos no Colégio Eleitoral: 332 delegados contra 206 de Romney.

Ao insistir em falar para a nação que gostaria que continuasse sendo (o “país real”), mas que já não é, o candidato republicano abriu caminho para Obama cooptar a “diversidade americana”, nos cidadãos com quem ele festejou o espírito de solidariedade e a quem agradeceu, especialmente, no seu discurso de confirmação da vitória na madrugada da quarta-feira 7, em duas intervenções seminais: “O que faz a América ser excepcional”, disse, “são os vinculos de solidariedade que unem a nação mais diversificada da terra e sustentam a crença que nosso destino é compartilhado. Vi donos de empresas familiares reduzirem seus próprios rendimenm, para contratar vizinhos e vi trabalhadores aceitarem reduzir horários de trabalho para não verem o amigo perder o emprego”.

E mais adiante (ao tocar diretamente no sensível assunto da imigração): “Acredito que podemos partir do progresso que já conquistamos e continuar a lutar por novos empregos, novas oportunidades e nova segurança para a classe média. Podemos cumprir a promessa de nossa fundação: se você está disposto a trabalhar muito, não importa quem você é, de onde vem, qual a sua aparência ou quem ama. Não importa se é negro ou branco, hispânico, asiático ou indígena americano, jovem, velho, rico ou pobre, saudável ou deficiente, gay ou heterossexual. Você pode ter sucesso aqui, na América, se estiver disposto a tentar. Podemos agarrar esse futuro juntos, porque não estamos tão divididos quanto nossa política leva a pensar. Não somos tão cínicos quanto os especialistas creem …”

Acampanha eleitoral começou morna, com os meios de divulgação a levar muito pouca fé na capacidade do desafiante republicano e só “esquentou” nos três meses recentes, desde quando Romney passou a mostrar que acreditava na possibilidade de vitória e subiu o tom das críticas ao apontar o “fracasso” das tentativas do governo Obama em reanimar a economia e recuperar empregos. Apesar de superar o presidente no primeiro grande debate público direto, ele não soube depois dizer o que faria para levantar a economia e ampliar o nível de emprego. Obteve uma consequente melhora nas pesquisas, mas confundiu-se depois quando deixou falar “o espírito republicano” na abordagem das questões sociais, dos problemas de saúde dos pobres, com intransigência na discussão da reforma das leis de imigração e no tratamento para absorção dos filhos dos migrantes e das políticas tributária e previdenciária.

Obama aproveitou a ausência de propostas firmes do adversário nos quesitos trabalho e em relação à própria política econômica e passou a explorar as (pequenas) melhoras no emprego industrial, com a recuperação de empregos (no setor automobilístico, especialmente), além dos resultados que começaram a aparecer em conseqüência dos fortes investimentos privados e da política de subsídios do governo aos setores de tecnologia, em inovação e substituição de energia.

Venceu brilhantemente a eleição e a partir de agora se deu a oportunidade de fazer, ao menos, uma boa parte do que imaginou que faria no primeiro mandato para empurrar os Estados Unidos na direção do crescimento. Reerguer a economia americana será fundamental para tirar a economia mundial da perspectiva de continuar no atoleiro, como permaneceu durante a Grande Depressão dos anos 30 do século XIX. Compromissos e promessas eleitorais têm valor muito relativo, mas Obama voltou a se comprometer, no discurso da vitória, a reduzir o enorme déficit fiscal americano, conforme dissera na campanha. Um corte de 4 trilhões de dólares, “num programa de 10 anos (?!)”. Ele deu ênfase a mais cinco objetivos: 1. Sustentar a liderança mundial dos Estados Unidos nos investimentos em tecnologia, inovação e energia. 2. Criar um milhão de empregos por ano na indústria, até 2016. 3. Lutar por mudanças na tributação para aliviar a classe média. 4. Reduzir a dependência da economia americana à importação de petróleo visando à autonomia energética. 5. Humanizar as leis de imigração.

São objetivos que podem ajudar o crescimento da economia americana, vital para a recuperação da combalida Zona do Euro, e que interessam, obviamente, aos demais países. Quanto ao Brasil, não há porque alimentar expectativas de mudanças significativas, enquanto mantivermos nosso comércio exterior amarrado desnecessariamente a compromissos no âmbito do Mercosul, que desestimu- Iam os acordos bilaterais que poderíamos negociar com terceiros países, como ocorre com muitos de nossos parceiros, em mútuo benefício.

Mais do que comemorar a reeleição de Obama, o efeito importante para a economia mundial foi a sensação de alívio com a derrota republicana. As poucas idéias mencionadas por Romney, durante a campanha, geralmente anunciavam mais problemas. Uma delas ia além e sugeria uma espécie de retorno à Idade Média, com a reintrodução do padrão-ouro corno uma grande novidade para reequilibrar as finanças mundial e levar mais tranquilidade aos mercados.

Para angariar a simpatia da ala republicana mais radical, ele passou a advogar uma postura agressiva em política externa, tratando a Rússia, de Putin, corno a inimiga número 1dos Estados Unidos e defendendo retaliações duras no comércio com a China, inclusive sobre bens chineses, enquanto Pequim não cessasse a manipulação cambial. A certa altura o candidato Obama tratou o adversário com bastante ironia: comentou que ele propunha, simultaneamente, a política externa de 1980, as políticas sociais dos anos 50 e a política econômica da década de 20, do século XIX.

Além do grande estrago que poderia fazer no campo externo, as propostas de Romney para frear a onda de imigração ilegal sugeriam tornar “tão duras as condições de trabalho e de moradia dos imigrantes e seus filhos” a ponto deles próprios se “autodeportarem”. Diante da natureza de suas proposições, é plenamente justificado o alívio produzido por sua derrota no ambiente global. Os republicanos e seu fragmento radical, o “Tea Party”, devem estar ainda em busca do “país real”, o verdadeiro, aquele em que Obama transita com naturalidade, pois é parte dele. O mundo inteiro está alegre. A exceção são os 48% brancos saxônicos e protestantes (os Wasp) que não conseguiram retornar ao século XIX.

 

Prometeu, não cumpriu

            COMPLETADOS seis meses na Presidência, François Hollande tornou-se o mais impopular chefe de Estado da V República. Com apenas 36% de cidadãos a confiar no atual presidente socialista, segundo enquete realizada pela TNS-Sofres, ante 53% que ainda admiravam no mesmo prazo seu antecessor, o direitista Nicolas Sarkozy (ao cabo o presidente menos popular da V República), vale indagar: por que essa decepção com Hollande, o social-democrata que parecia inflar as velas rumo a uma mudança em uma morosa França, faz três décadas?

Quando eleito, em maio, Hollande, prometia aderir ao tema “crescimento” em uma Europa que só considerava planos de austeridade para combater a crise econômica. Este – o tema “crescimento”, para aumentar a competitividade e, por tabela, fomentar a criação de empregos – foi, sem dúvida, a carta determinante para a vitória de Hollande. Mas a promessa-mor do atual presidente, a de gerar “crescimento” na França e na Europa, não tem, por ora, vingado.

“Infelizmente, precisamos de austeridade para lidar com a crise”, argumenta Mokhtar bem Barka, professor da Universidade de Valenciennes. Bem Barka diz ter votado, “sem grande entusiasmo”, em Hollande. Seu voto, como a maioria daqueles a escolher o candidato socialista foi, antes de tudo, contra Sarkozy. No entanto, Ben Barka entendia que Hollande e seu Partido Socialista não dispunham de um programa convincente para lidar com a crise econômica.

Yves Sintomer, professor da Sorbonne, concorda: os franceses votaram contra Sakorzy, e não em Hollande. No entanto, Sintomer discorda de Bem Barka no plano econômico. Para ele, a austeridade provoca a contração da demanda na Europa. Estamos, diz Sintomer, “seguindo a mesma linha econômica da América Latina dos anos 1980, quando fundamental era diminuir as despesas públicas e, ao mesmo tempo, aumentar as exportações”. Esta política econômica, pondera o acadêmico, não funciona quando todos os países de um bloco econômico a adotam.

Autor do livro A Esperança de uma Nova Democracia (Lisboa: Campo das Letras, 2003), Sintomer alega que falta um modelo para a França escapar da crise. Para ele, um exemplo vem do Brasil. Os mandatos de Lula criaram um novo modelo que não é socialista, mas também não é neoliberal. “Trata- se de buscar desenvolvimento econômico fundado no consumo interior, e com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais.” Mas na França não há uma proposta similar para tirar o país e o continente da crise.

Enfim, também a França vai mal. O país, martelam economistas de todas as tendências ideológicas, precisa de reformas estruturais para criar confiança pública e global. Há, inclusive, quem diga que a França poderá ficar na mesma situação da Espanha, e mesmo da Grécia. E os franceses, e o humor tangível nas ruas e na mídia, começam a duvidar de seu futuro como economia forte na Europa.

De fato, a situação das relações entre a chanceler alemã Angela Merkel e Hollande deixa claro quem segura as rédeas, a despeito dos planos de “crescimento” do presidente francês. A França é tida, na Europa, como a líder dos países em crise do Sul. Merkel, em contrapartida, é a líder da Europa que funciona.

Há 3 milhões de desempregados na França e 23% dos jovens de 19 a 25 anos não têm emprego desde o início da década passada. Fábricas francesas fecham. Suicídios, como na crise de 1929, ocorrem diariamente. É comum pessoas se jogarem diante de trens como se atiravam de edifícios, em 1929, nos Estados Unidos. De acordo com uma recente enquete da TNS-Sofres, 70% dos franceses creem que a situação só pode piorar.

A indústria automobilística francesa tornou-se, como disse François Sargent em um editorial no diário esquerdista Libération, “a metáfora da crise da indústria francesa”. Embora o custo da mão de obra na França seja equivalente ao da Alemanha, a indústria nesse país emprega duas vezes mais do que na França.

Os motivos? AFrança não produz carros da qualidade dos alemães – ou dos japoneses e coreanos. As empresas automobilísticas francesas são pequenas, se comparadas às estrangeiras. E não fazem reformas estruturais. Além disso, oferecem produtos menos variados e inferiores em termos de desempenho.

Nesse contexto, os cidadãos franceses estão, com razão, pessimistas. E, em grande parte, são estimulados a tanto pela mídia. A capa do semanário conservador L’Expressdesta semana indaga: “Existe realmente um presidente na França?” Ocorre que a mídia de esquerda é igualmente pessimista.

Hollande é, sem a mínima sombra de dúvida, um social-democrata, diz o cientista político Alain Duhamel. Ao contrário de seu antecessor e mentor François Mitterrand, eleito pela primeira vez em 1981, Hollande não é ideologicamente ambíguo. Mitterrand se dizia socialista, mas tinha relações com a direita, inclusive com o partido nazista na juventude. A questão, indaga Duhamel, é se “em uma situação de crise nunca vista, Hollande vai agir com a necessária determinação”.

Ao contrário de Sarkozy, Hollande é cidadão modesto. Secretário do Partido Socialista, tornou se, em parte graças à mídia, candidato ideal. Há quem diga que se trata de alguém dotado de imenso senso de humor. Perdeu 10 quilos no último ano, trafega de moto por Paris. Trata-se de uma figura abordável.

Fica a recordação do mau comportamento da companheira de Hollande, Valérie Trierweiler, em relação a Ségolene Royal, a ex-candidata socialista às eleições presidenciais de 2007 e mãe dos quatro filhos de Hollande. Trierweiler, acham muitos franceses, foi grosseira em seu Twitter contra Ségàlene.

Na França, a vida privada das celebridades, incluindo políticos, costuma ser preservada. Houve mudança, porém, com Sarkorzy. O ex-presidente chegou ao Palácio do Élysée com sua mulher, e logo ela o deixou. Sarko casou-se então com Carla Bruni. Passou a ser visto como o presidente bling-bling, aquele que age rápido e gosta de dinheiro.

E eis que Hollande, mais discreto, também é alcançado pelas luzes dos holofotes sensacionalistas. Ele, ex-parceiro de Ségàlene, candidata socialista nas eleições de 2007, cala-se diante dos venenos da nova companheira. Segundo uma pesquisa, 67% dos franceses tiveram uma “impressão negativa” de Trierweiler. E até isso tem influência na baixa cotação do presidente.

 

Uma morte digna Os médicos devem reduzir procedimentos desnecessários em doentes terminais, mas não podem receber vantagens financeiras

            ESTOUNA INGLATERRA e, como todo médico, verifico como anda a medicina nesta ilha, independentemente da razão da viagem. Não conseguimos nos desconectar totalmente e qualquer notícia sobre doenças ou tratamentos nas terras de Sua Majestade chama a atenção e desperta a curiosidade. Afinal, é sabido atualmente que o sistema de saúde inglês tem peculiaridades muito interessantes. É socializado, barato e controlado pelo NHS, sistema de saúde nacional. Um tipo de Sistema Único de Saúde (SUS).

Rotinas, recomendações e abordagens são discutidas e ditadas pelo NHS. Mas, mesmo em um sistema tão bem organizado, a corrupção consegue se insinuar. Os britânicos têm problemas de pacientes internados por muitas semanas, e até meses. As famosas internações crônicas, também frequentes no Brasil tanto nos hospitais privados quanto nas instituições universitárias ou públicas. Chegam a alcançar mais de 20% de todos os doentes admitidos nesses hospitais. Alguns com piora progressiva, sem chance de reverter as doenças graves, são os pacientes terminais.

Obviamente, ocupam espaços e leitos tão em falta para cuidar de casos tratáveis e potencialmente curáveis. A carga social e econômica é grande. Autoridades de saúde de todos os países, assim como administradores de hospitais, tentam criar modos para lidar com o desequilíbrio e reduzir ao mínimo as internações e os cuidados intensivos no fim da vida. Não é simples.

Na Inglaterra, o NHS criou um caminho para minimizar esse fardo. Fez recomendações para a morte digna e assim evitar sofrimento desnecessário ao paciente.

O problema da superlotação de doentes crônicos internados melhorou, mas não acabou. Aí, para minha surpresa, foi introduzido um perigoso mecanismo para estimular maior rigor no manejo dos doentes terminais. Hospitais e casas de saúde inglesas recebem incentivo monetário se atingirem uma taxa de mortes consideradas adequadas pelos padrões ingleses. A porcentagem mínima aceitável para eles seria 35%de todas as mortes.

Quanto mais se aumenta o número de óbitos, em razão da suspensão de tratamentos médicos, ou até de suporte nutricional endovenoso ou por sondas, maior a soma de dinheiro depositada na instituição. Parece razoável, mas, recentemente, denúncias começaram a ficar freqüentes de familiares contestando o conceito de doente terminal. Muitos sugerem que os responsáveis pelos cuidados de seus entes queridos teriam definições, além de subjetivas, muito soltas e fáceis de doente sem chances de reversão do quadro clínico.

Dados oficiaismostraram que ocorreu um salto na taxa de óbitos, digamos, facilitados. Passou de 47% em alguns hospitais. O incentivo financeiro foi proporcionalmente mais elevado. Um familiar declarou que esse sistema não ajuda nos cuidados dos doentes crônicos, mas que é uma licença para matar. O escândalo foi estampado em muitos jornais de grande circulação na Inglaterra.

Infelizmente, a decisão do médico de que um paciente está sem possibilidades de tratamento e de reversão da doença que o acomete e o faz piorar pode ser subjetiva. Para alguns médicos, o mesmo doente pode ser considerado ainda tratável, enquanto, para outros, o caso parece perdido.

E é muito complicado, para qualquer entidade ou comissão de ética, classificar com exatidão e sem risco de negar cuidados a doenças reversíveis. Como todas as condutas duvidosas nos países ditos avançados, rapidamente alguém terá ideia para aplicá-las no Brasil. É bom ficarmos atentos, caso contrário será uma tragédia ou um massacre sistematizado.

Os ingleses iniciaram uma investigação detalhada dessa ocorrência preocupante. Ninguém é contra o princípio de reduzir procedimentos desnecessários, e até cruéis, em pacientes terminais. Um final de vida digno, sem sofrimento, seria o ideal para todos. Corromper a situação com incentivos financeiros pode levar a desvios perigosos e induzir um final acelerado de vida. Não necessariamente o mais digno.

 

A Apple e suas manhas A União Europeia encerra uma investigação antitruste sobre o preço dos e-books

A UNIÃO Europeia (UE) decidiu encerrar uma investigação antitruste sobre os preços dos livros eletrônicos praticados pela Apple e quatro editoras parceiras que aceitaram um acordo da empresa californiana. A investigação da UE concentrava- se em práticas semelhantes, como fizeram o Departamento de Justiça norte-americano ao abrir processo contra a Apple nos Estados Unidos. A empresa teria entrado em acordo com grandes editoras para aumentar os preços de e-books e combater a dominação da Amazon no mercado.

A ideia das editoras, ao fecharem acordo com a Apple, era evitar cobrar o preço normal de 9,99 dólares feito pela Amazon para livros eletrônicos. As editoras temiam que os leitores se acostumassem a esse preço, algo nocivo aos seus lucros, mas não tinham como escapar do modelo da Amazon. A Apple, ao entrar no mercado, ofereceu contratos mais lucrativos e também prometeu uma “comissão” de 30% sobre toda venda. Com isso e com o peso do apoio da Apple, a Amazon seria forçada a aceitar aumentar seus preços, acreditavam as editoras.

O acordo havia sido costurado por Steve Jobs. Em e-mail citado pelas autoridades americanas, Jobs oferecia seu modelo como garantia de maiores lucros. “Vocês estabelecem o preço, nós ficamos com 30%, e, sim, os consumidores pagam um pouco mais, mas isso é o que vocês querem de qualquer maneira.”

Nos Estados Unidos, algumas editoras aceitaram fazer um acordo com as autoridades. Eles só aceitariam vender seus livros em lojas onde seus títulos fossem comercializados pelo menos pelo preço de custo, barrando práticas comuns de vendedores como a Amazon, como a venda a preços subsidiados para depois recuperar a diferença em outros títulos. O acordo costurado pela União Europeia não foi divulgado, mas pode ser semelhante ao americano.

 

OBAMA CAI NAS REDES. A reeleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos teve grande repercussão nas redes sociais, principalmente no Twitter e Facebook. Foram enviados mais de 31 milhões de tuítes durante a apuração, com 327 mil enviados no momento em que as redes americanas anunciaram o vencedor. A mensagem enviada pela equipe de Obama (@BarackObama), quando a sua vitória foi confirmada, com uma foto dele e da primeira-dama Michelle Obama e a legenda “mais quatro anos” foi compartilhada 550 mil vezes. A mesma foto, no Facebook, foi curtida por mais de 1 milhão de usuários.

O tuíte da campanha de Obama desbancou o, até então, mais popular da história, escrito pelo cantor Justin Bieber, compartilhado 223 mil vezes. O diretor do Twitter para inovações sociais, governo e notícias, Adam Sharp, disse que o efeito já podia ser sentido durante os debates da campanha presidencial. “Durante os debates, por exemplo, mais de 10 milhões de tuÍtes foram enviados. Os principais momentos do debate renderam cerca de 160 mil tuítes por minuto, o dobro do gerado quando Usain Bolt corria nas Olimpíadas de Londres”, disse Sharp.

 

Significado ou significante? Antigo ensaio de Roland Barthes me leva a imaginar que leitura ele faria sobre a espuma destes tempos

            É triste, mas é verdade, e não tenho por que me enganar: já fui bem mais inteligente, bem mais culto e muito mais capaz de entender as coisas mais difíceis que me ensinavam.

Não me atrevo a fazer referencias aos mistérios da física, da química e da matemática. Deles, assim que pude, fugi como o diabo o faz da cruz.

Trinta e tantos anos se foram e no fim da semana estava passeando pelos sempre encantadores cantos da Livraria da vila e dei de cara com um velho companheiro dos tempos em que estudei Letras: Mitologias CEdoDifel), do semiólogo Roland Barthes. Um livro fascinante no qual ele analisa inúmeras manifestações da cultura dita de massa.

Levei-o para casa, posto que o antigo se perdera em alguma de minhas muitas mudanças. Na primeira página, na introdução, minhas sobrancelhas se arquearam. A coisa não fluiu como acontece quando encaro um Chalita. Aconclusão de que só pode haver semiologia se esta se assumir como semioclastia me pegou de jeito.

Parei de ler e pensei: cheguei a estar de acordo com isso. Cheguei a passar rápido por essa página e acho que me lembro de ter pronunciado um “mui blasé”. “É óbvio, Roland!” Fui à procura de outros velhos amigos e de todos tive respostas parecidas: tudo indica que perdemos, no meio da jornada, alguns dos neurônios que eram responsáveis pela compreensão de textos de pensadoresjlinguistas como Barthes, Jackobson, Saussure e vários outros. É provável, comecei a pensar, que exista uma leitura menos cruel.

Você acorda, vai para a universidade, ouve pessoas brilhantes, lê textos brilhantes, vai almoçar e durante o almoço repassa o que foi dito durante a manhã.

À tarde desenvolvíamos algum trabalho sobre um texto, sobre um filme, sobre uma peça musical. Mas aí o tempo passou e eu optei por outra carreira. Passava as manhãs discutindo como vender uma lingüiça toscana ou um frango resfriado. No almoço, o debate poderia avançar sobre a teoria do que vale mais: uma promoção que dê um grande prêmio ou outra que dê milhares de pequenos prêmios. À noite falávamos mal de outros colegas.

Depois de 30 anos nesse enriquecedor debate, não deveria me assustar diante do “branco” que uma frase simples de Roland Barthes me fez sentir.

Não desisti de encarar os ensaios do livro, que, na verdade, passado o primeiro susto, são bem simples. Em um deles, e agora entramos na gastronomia, ele faz uma análise sobre os pratos que a revista francesa Elle apresentava aos leitores. E ele diz que a função da revista é apresentar ao seu público, que é popular, um sonho, “o sonho do chique”. E prossegue:”…daí uma cozinha do revestimento e do álibi, que se esforça sempre por atenuar, ou mesmo mascarar, a natureza primeira dos alimentos, a brutalidade das carnes ou o inesperado dos crustáceos. O prato camponês só é admitido a título excepcional Cobom cozido familiar), como fantasia rural para citadinos esnobes”.

O livro foi publicado em 1957.Nesse período era comum essa cozinha de “revestimento”. Quase tudo era realmente coberto por espessos e aveludados molhos ou mesmo gelatinas. Décadas depois, carnes e crustáceos não mais seriam vistos como “brutais, inesperados”. E também o pr.ato camponês tornou-se muito bem-vindo, ainda que eu considere muito atual a afirmação de que ele existe como “fantasia rural para citadinos nobres”, o que já comentei bastante neste Refô. Barthes segue com fúria em sua crítica, afirmando que essa cozinha feérica, termo usado por ele, esconde o verdadeiro problema, que é não conseguir espetar as cerejas na perdiz, mas poder pagar a perdiz.

Hoje eu admito que o texto mais me divertiu do que me levou a pensar. Outros tempos, sem dúvida. Mas ainda assim a alta gastronomia continua a fazer parte de um universo fabulístico para a esmagadora maioria dos habitantes deste planeta. Se vivo estivesse, certamente Roland Barthes faria uma leitura muito interessante sobre as espumas dos novos tempos.

 

 

Bravo!

As luzes da história Mostra seleciona 170 anos de imagens

            Se uma imagem vale mais do que mil palavras, então diga isto com uma imagem”, provocava o humorista Millôr Fernandes, atento a um mundo arrogantemente visual, a cada dia desinteressado dos raciocínios por escrito. Um historiador concordará com Millôr, até mesmo um especialista em fotografia como Boris Kossoy. Para ele, uma imagem dirá de imediato uma infinidade de coisas, mas não prescindirá da palavra, responsável por ver além de sua aparência com o passar dos anos. “Toda imagem fotográfica tem, atrás de si, oculta, uma história a ser desvendada”, afirma.

Desde 2009, ele que é o maior pesquisador dafotografia do Brasil tem-seatracado ao valor “microhistórico” de 430 imagensarduamente pinçadas, agorareunidas no Instituto TomieOhtake. Kossoyprocura essaessência desde o Império,quando Hercule Florence aquibatizou a palavra “fotografia”e, neste mesmo território,aportaram os primeirosdaguerreótipos. Sua exposiçãonavega pelo Brasil colonizadoe pelo republicano. Fala dos tempos duros do Estado Novo e da ditadura dos anos 1960.Mostra as conquistas no campo da política, do esporte, da arte. Ademocratização a duras penas. De 1833a 2003, serão 170anos de história investigados pelo pesquisador, que incluirá tais imagens em livro da coleçãoBrasil Nação a ser lançado neste mês, coordenado por Lilia Schwarcz para a editora Objetiva.

As salas mostram fotografias que por si são fatos históricos, eivados de representações da cultura, da sociedade, das paisagens urbanas e rurais. Toda imagem ali exposta é uma construção de seu autor, escolhida por aquele que vê sua relevância. E Kossoy pensa sinteticamente. Não raro as imagens, exceto as icônicas, como aquelas nas quais há Pelé, Leônidas, Maria Esther Bueno ou Eder Jofre, os sem-terra, os camponeses explorados, os artistas, os soldados, os políticos ou os magnatas da imprensa, sugerem fatos em camadas. Como a foto de André Cypriano, na qual é expresso o paradoxo de turistas com pranchas de surfe diante de um cenário de construções. Ou a de Tuca Vieira, que vê o Brasil contrastante, dividido entre um condomínio do Morumbi e a favela de Paraisópolis. Ou aquela na qual Hans Gunter Flieg fotografa a cobertura do condomínio Vitória Régia, em 1958,no intuito de revelar a pujança de um Brasil urbano. Kossoy lança à história profundas, irônicas luzes..

 

Orquestra de um homem só

            UM NOME FÁCIL de lembrar e de esquecer: Silva. Mas a estreia em disco do capixaba de Vitória Lucio Silva de Souza, 23 anos, nada tem de comum. Filho de uma professora de música, estudante de violino clássico, além desse instrumento, ele canta e utiliza no disco sintetizadores, pianos acústico e elétrico, guitarra, órgão, cello, violão, ukulele, vibrafone, escaleta, synth bass, caixa, surdo, bateria eletrônica, glockenspiel e programação. Com exceção de duas faixas, todas as demais “foram gravadas na casa do Silva, em Vitória, Espírito Santo, Brasil”, como ele afirma no encarte, onde menciona dois únicos acompanhantes em algumas músicas do disco, mixado nos EUA e masterizado em Londres. A diva lírica Maria Callas ressoa em sample (da óperaAnna Bolena, de Donizzetti) ao fundo da tecladaria da faixa-título. Em Ventania sopra um binário baião, e ainda há ecos de Schumann, Marcelo Camelo, James Blake e Arcade Fire nas inquietas alquimias do roteiro.

O principal mérito de Silva em sua mescla eletropop-erudita é o domínio da intensidade e a combinação clarividente dos timbres e texturas empregados em suas composições, boa parte delas em parcerias com o irmão Lucas.

 

Verdades e mentiras

            QUAL A DOSE de ficção que mesclamos à realidade para que as coisas façam sentido? Ou quão mais pobre seria nosso cotidiano sem invenção? E, ainda, como sustentar nossas personas sem um mínimo de fantasia? A dramaturgia de Ficção propõe essas subestimadas questões e oferece um estímulo poderoso à reflexão por meio de seis monólogos, assinados por seus atores em coautoria com Leonardo Moreira, prêmios Shell de dramaturgia em 2010 e 2011com Cachorro Morto e O Jardim, respectivamente.

“O filme Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, foi uma das obras discutidas para esse trabalho, que radicaliza uma vertente já presente em O Jardim, mas também nos valemos da filosofia do esloveno Slavoj Zizek e do poeta israelense Yehuda Amichai”, diz Moreira. O resultado em termos de textos, desenvolvidos a partir da experiência de cada um dos atores da Cia. Hiato, é de um acabamento sem arestas.

Dúvidas podem ser esclarecidas ao final do espetáculo, no camarim. Para saber, por exemplo, o que há de fato no depoimento de um rapaz (Thiago Amaral) que para sublimar relação conflituosa com o pai reabilita fantasia de coelho.

 

Sobre um entorno de mazelas

            NA ITÁLIA do veterano Marco Bellocchio e de Daniele Cipri, a realidade não para de fornecer material a uma análise social de valia. No caso do primeiro, seu A Bela Que Dorme revisa os atuais tempos difíceis do país, lançando mão do caso de Eluana Englaro, que permaneceu em estado vegetativo até ter os aparelhos desligados. Fotógrafos nesse projeto, Cipri se inspira na literatura para o seu longa-metragem É Stato Il Figlio, ou Foi o Filho, ao contornar uma realista periferia de Palermo e a máfia. Por seu papela de filho de um clã obsessivo, Fabrizio Falco ganhou prêmio no mais recente Festival de Veneza. É desta seleção os dois e mais quatro títulos programados na 8ª Semana Veneza de Cinema.

Uma geração atenta a mazelas, mas que tem conhecida precedência. Nos anos de 1940 e1950, neorrealismo contemplou o entorno depaurado pela guerra. Nessa corrente se insere Guiseppe de Santis e seu drama Roma ore 11, outra atração. De uma noticai de jornal, De Santis adaptou, em 1952, a tragédia de diversas jovens no momento referido pelo título. Atraídas por um anúncio de emprego, elas se aglomeram nas escadas do escritório, que não aguentam e cedem. Uma crôníca que dá conta do desespero pós-guerra. Há quem também verá certa desilusão juvenil em Un Giorno Speciale, de Francesca Comencini, sobre garota conduzida por um motorista novato a um compromisso secreto. A crise geracional prossegue numa Nápoles de prédios populares em L’Intervallo, de Leonardo di Costanzo, e assume característícas de meia-idade, como a infidelidade, em Gli Equilibristi, de Ivano de Matteo.

 

Por boas vibrações

            SOBRE O tema a que alude o título Histeria, a partir da sexta 9 nos cinemas, não há muita necessidade de explicação. Ainda objeto de pesquisa no fim do século XIX, essa condição instável emocional tornou-se termo corrente e banal, hoje destituído como neurose. Mas para entender a expressão paroxismo histérico será preciso assistir ao filme da diretora Tanya Wexler, que, longe de adotar uma postura séria e convencional, faz do material em mãos uma bem-humorada surpresa ao espectador. Assistimos à chegada de um dos inventos mais peculiares da humanidade, quando, por volta de 1880,o médico inglês Mortimer Granville descobre o vibrador.

Ao que nos relata o filme, o diagnóstico da histeria exclusiva de mulheres acontece num desses consultórios para elas sob um método nada ortodoxo implementado pelo doutor Robert Dalrymple (Jonathan Pryce). Como nos procedimentos iniciais de um ginecologista, ele faz suas pacientes deitarem e com mãos previamente banhadas em óleos perfumados as conduz até o tal paroxismo. É nesse ambiente de um avançado consultório que surge Mortimer (Hugh Dancy), dedicado pupilo que também terá a chance com a herdeira mais nova do patrão (Felicity Jones), enquanto tenta domar a filha mais velha e insubmissa (Maggie Gyllenhaal). A trama tanto mais se desvenda cômica por dividir com um nobre milionário e gay (um irreconhecível Rupert Everett) a inovação casual de uma engenhoca que por fim trará a luz ao jovem inventor

 

Estratégia da farsa

FILMES como Argo, estréia da sexta 9,desafiam o espectador a crer numa história que, inventada fosse por Hollywood, não mereceria crédito além da ficção. Mas estamos diante de um fato real, particular por justamente ter cooptado a imaginação do cinema para que se transformasse em obra. Ao fato: em 1979, revolucionários iranianos invadem a embaixada americana em Teerã e seis funcionários conseguem escapar e se alojar na sede diplomática canadense. A CIA, então, planeja um resgate delirante. Cria-se um falso projeto cinematográfico intitulado Argo e com origem no Canadá, cujas filmagens requerem locações no país convulsionado. Os americanos teriam chance, assim, de escapar disfarçados como a equipe do filme.

É o ator e agora reputado diretor Ben Affleck quem adapta essa dramatização da história retomada por Antonio Mendez e Matt Baglio em livro recém-editado pela Intrínseca. Assume papel duplo ao interpretar o agente federal Tony Mendez, especializado em fugas do tipo e responsável pela peculiar estratégia. Para tanto, ele se reúne ao mestre da maquiagem John Chambers (John Goodman), responsável pela caracterização de O Planeta dos Macacos, e um produtor veterano (Alan Arkin). De projetos mais pessoais na direção, como Medo da Verdade eAtração Perigosa, Affleck amplia aqui a ambição para uma radiografia de certos Estados Unidos tomados por neuroses, sem, no entanto, esquecer de reafirmar a prodigalidade da nação. Nesse sentido trabalha em sintonia com a proposta do George Clooney cineasta, não por acaso produtor desta boa farsa.

 

Memória escrita na parede

A CONSTRUÇÃO da memória coletiva de um país se dá de diversas formas. Uma das mais simbólicas são os cartazes, veículos de forte apelo político, efêmeros diante do desgaste do tempo. Num esforço realizado por iniciativa do projeto Resistir É Preciso, foram reunidos em livro cerca de 300 cartazes, documentos e fotos criados e produzidos no Brasil e em outros países da América Latina como forma de resistência à ditadura.

O material foi selecionado em acervos originados no Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro, hoje instalados no Centro de Documentação e Memória da Unesp. Os cartazes mostram, segundo o organizador Vladimir Sacchetta, a rede de solidariedade articulada entre as décadas de 1960 e 1980 “para enfrentar os militares e denunciar as violações dos direitos humanos”.

 

O nome é Bond, James Bond

Em 1953, quando criou um personagem inspirado em vários agentes que conhecera ao atuar na inteligência da Marinha Britânica durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor e jornalista inglês lan Fleming (1908-1964) não imaginava semear a franquia mais duradoura (e a segunda mais rentável) do cinema mundial, a de James Bond, o agente 007.

Desde então o agente, vivido por seis atores “oficiais” (Sean Connery, Roger Moore, George Lazenby, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig), protagonizou 23 longas-metragens – sem contar a paródia Cassino Royale (1967) – dirigidos por 15 diretores.

No primeiro filme da série, 007 Contra o Satânico Dr. No (Terence Young, 1962),o insuperável Sean Connery estabeleceuo perfil do herói: um elegante e arguto bon vivant, que não abre mão dos prazeres da vida nemquando está empenhado em salvar o mundo.No mesmo filme, Ursula Andress é o protótipoda bond girl, sexy, ambígua e perigosa.E aparecem também os prodígios tecnológicoscriados pelo agente Q, um dos atrativos da série.

Outra marca registrada é a música, criada originalmente por John Barry,glosadae reaproveitada ao longo dasdécadas.Eas memoráveis canções-tema: Goldfinger, From Russia With Love, Live and Let Oie e tantas outras.

Surgido no auge da Guerra Fria,Bond sublima e ao mesmo tempo ironiza o medo do Ocidente diante de uma ameaça apocalíptica, encarnada nos vilões mais bizarros. Dos anos 1990 para cá o herói descaracterizou-se visivelmente, aderindo à fórmula pancadaria-perseguições-explosões que domina o cinema de ação atual. Mastem quem goste.

CartaCapital 14.11

 

CAMA, MESA E BEBIBA

Jovens sem moradia ocupam o falido pub TheCross Keys e viram alvo do governo britânico

 

TOM, QUE depois de se apresentar como Tom diz que gostaria de ser identificado pelo codinome  Johnny Bencap, tem 24 anos de vida e cinco de squatting, termo em inglês para ocupação. Tom, ou Johnny, éumdos 17ocupantes do squat mais comentado em Londres no momento: o pub Cross Keys que funcionou por mais de 200 anos no Chelsea, numa pequena rua à margem do Rio Tâmisa, e que, nos guias de viagem, costumava ser identificado como um bar por onde passaram Agatha Christie (1890-1976),Dylan Thomas (1914-1953)e Bob Marley (1945-1981). A despeito da fama, o Cross Keys segundo seu proprietário, Andrew Bourne, não dava mais lucro fazia algum tempo. Com a ideia de transformar o espaço em uma mansão ou de vendê-lo para outro comerciante por ao menos 4,5 milhões de libras (perto de 14,7milhões de reais), Bourne fechou as portas do estabelecimento em agosto deste ano.

 

A vizinhança do charmoso bairro e entidades ligadas à preservação urbana chegaram a se mobilizar para “salvar” o CroSS’Keys. Não deu em nada. Mas eis que, há três semanas, o pub voltou à mídia, com o protagonismo de Tom e outros 16 companheiros com idades entre 18e 36 anos e de oito diferentes nacionalidades. “Tínhamos sido retirados de um prédio em Holborn (região central) e começamos a procurar outros lugares”, diz Arthur, de 26 anos, outro habitué de prédios vazios. “Recebemos uma lista de todos os lugares vagos e, chegando aqui, vimos que era perfeito. Nem com móveis precisamos nos preocupar.”

 

O Cross Keys tem sofás incríveis, cadeiras confortáveis e cheias de estilo, equipamentos profissionais de cozinha, louças suficientes para um batalhão de squatters, lareira e, acredite, uma adega. “Pelas garrafas de vinho eu realmente não esperava …E podemos tomar todas as bebidas nos copos certos. Acho isso tão bonito…”, diz Tom, que me ofereceu uma taça de champanhe assim que cheguei. Achei mais prudente tomar apenas um expresso. Tom quer trocar algumas ideias comigo sobre as maneiras de se lidar com a mídia. “Estamos discutindo isso aqui… Não podemos nos submeter às regras do capitalismo”, diz ele, porta-voz quase natural, dado seu incontrolável desejo de falar. Nascido no interior da Inglaterra, o jovem mudou-se para Londres há cinco anos para estudar e trabalhar. Largou a universidade por considerá-la demasiadamente ligada ao “livre-mercado” e trabalha de tempos em tempos. “O problema, você sabe, é o capitalismo. O mercado mata os seres humanos. Eu teria de trabalhar seis horas por dia só para pagar um aluguel. Tem sentido?

 

A moradia em Londres é uma das mais caras do mundo. O aluguel de um apartamento de 35 metros quadrados em um bairro próximo da região central, por exemplo, não sai por menos de 1,5 mil libras (quase 5 mil reais). A prática do squatting é, digamos assim, um clássico da cidade. “Fazemos parte de uma tradição e de uma comunidade internacional”, pontua Arthur.

 

Rá na Inglaterra, estima-se, 20 mil squatters. Não são poucos os casos de prédios que foram, inclusive, recuperados pelos ocupantes. E se essa prática é assim comum, por que o Cross Keystem chamado tanto a atenção da mídia e do governo britânicos? Porque, além de ser um espaço lendário, opub passou a simbolizar uma “nova fase” do squatting londrino.

 

 

Explica-se. Em l° de setembro deste ano foi aprovada uma lei que pune, com pena de seis meses de cadeia e/ou 5 mil libras de multa (16,2mil reais), os ocupantes de prédios residenciais. Até então, o proprietário tinha de ir à vara cível e provar que a ocupação foi feita sem que ele tivesse tido condições de evitá-la. Agora, basta ligar para a polícia e fazer a denúncia. À altura, o ministro da Habitação, Grant Shapps, afirmou: “Durante muito tempo,

trabalhadores tiveram de enfrentar longas batalhas para ter suas residências de volta e, depois disso, gastar um fortuna para reformá-las. A partir de agora, não temos mais o chamado ‘direita dos squatters’. A Justiça estará a favor dos proprietários”.

 

Organizações como Squatters’ Action for Secure Housing (Squash) e Advisory Service for Squatters dizem que a mudança é desnecessária, uma vez que o direito de propriedade já existia. A nova lei só vai criminalizar pessoas vulneráveis e aumentar o número de moradores de rua, declaram as lideranças do Squash.

 

Grupos ligados aos proprietários de imóveis dizem, por outro lado, que a lei cria uma avalanche de invasões em prédios comerciais, não enquadrados na criminalização. Duas das maiores empresas dedicadas à proteção de propriedades no mundo, a Camelot e Ambika Security, afirmaram ao Financiai Times que a “migração” é evidente. “Nos últimos dias, fomos acionados para agir em cinco propriedades comerciais em Londres”, afirmou Stephen Davies, da Camelot, ao jornal.

 

“Estamos só esperando a polícia bater na nossa porta”, admite o espanhol Carlos, de 25 anos, outro ocupante do pub. “O proprietário não se conforma com o que aconteceu e tem muita gente usando nosso caso para pressionar o governo.” Carlos refere-se aos rumores sobre uma teforma na lei para que as ocupações de prédios comerciais também passem a ser consideradas crime. “Agente precisa da revolução”, diz, incansável, Tom. “Eu gosto daqui”, atalha Thomas, um irlandês de 18anos que, no pub, tornou-se especialista em tirar cafés expressos da máquina profissional e em preparar coquetéis.

 

Encantados com a estrutura dos três andares da nova casa, os squatters do Cross Keys pensaram até em começar a serviço aos domingos para o público geral. A dificuldade, admitem, é organizar o “serviço” antes de a polícia chegar. Ingredientes não faltam.

 

O squatting inclui algumas regras no que diz respeito à alimentação. Seus praticantes devem pegar restos de comida nos supermercados, mas, na falta de algo essencial, roubar é permitido. A etiqueta inglesa para as ocupações pode ser encontrada no Squat Handbook, publicação criada em 1975e em sua 13a edição.

 

 

DE VOLTA À ORIGEM

JUSTIÇA | O trâmite do “mensalão tucano”, pai do esquema petísta, desafia a noção de que o Brasil mudou.

 

POR LEANDRO FORTES

 

COMO NA SAGA Guerra nas Estrelas, a história dos “mensalões” nacionais foi contada, até agora, de trás para frente. Assim como no clássico de George Lucas, a TV Justiça,  no caso do “mensalão do PT”,  apresentou ao publico o enredo final de um psicodrama político sem antes informar o contexto da tragédia providencialmente encenada antes do segundo turno das recentes eleições municipais. A origem do épico mensaleiro espera, contudo, a hora de entrar em cartaz, assim que acabar o dilema da dosimetria dos 25 condenados do escândalo petista. Teremos, finalmente, caso a série realmente chegue ao final, a explicação sobre como Marcos Valério de Souza foi essencial no derrame de 100 milhões de reais no Caixa 2 do PSDB com o apoio de empresas estatais mineiras comandadas pelo então governador do estado, o atual deputado federal Eduardo Azeredo.

 

Vem aí (vem?) o “mensalão tucano”, a origem de tudo. Chamado de “mensalão mineiro” por setores condescendentes da mídia, foi formalmente classificado como “tucanoduto” e “valerioduto tucano”  pelos agentes federais que o investigaram. Para quem assistiu ao julgamento do caso do PT no Supremo  Tribunal Federal, ninho de inovadoras teses de domínio de fato e a condenações baseadas em percepções sensoriais, o “mensalão tucano” será ainda mais surpreendente por ter em abundância aquilo que muita falta fez no caso de agora: provas contundentes.

A certidão de nascimento do milionário esquema de lavagem de dinheiro montado por Marcos  Valério em Minas e depois exportado ao PT é uma lista de pagamentos elaborada por Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha de Azeredo, em 1998. Revelada em 2007, a lista trata de um total de repasses equivalente a 10,8 milhões de reais a parlamentares de 11 partidos, inclusive do PT, mas onde reinam soberanos o PSDB e o PFL, atual DEM. Mourão tentou negar a veracidade da lista, mas foi obrigado a reconhecer sua assinatura no papel depois de ser desmentido por uma perícia da Polícia Federal.

Em julho deste ano, Carta Capital trouxe à baila outra lista, desta feita assinada por Marcos Valério, entregue à Polícia Federal e ao ministro Joaquim Barbosa pelo advogado Dino Miraglia, de Belo Horizonte. Miraglia conseguiu a lista com um cliente famoso, o lobista Nilton Monteiro, antigo operador das hostes tucanas em Minas, também responsável pela divulgação de uma terceira lista, em 2002, com doações clandestinas desviadas dos cofres da estatal Furnas Centrais Elétricas, a famosa “Lista de Furnas”, onde novamente o PSDB aparece no comando da farra do caixa 2.

Na lista de Marcos Valéria, na qual os valores chegam a mais de 100 milhões de reais, a novidade foi o aparecimento do nome do ministro Gilmar Mendes, do STF, supostamente beneficiado com uma bolada de 185 mil. Na época da publicação da reportagem, Marcos Valério negou ter registrado pagamentos em uma lista. Mas neste início de novembro, o advogado dele, Marcelo Leonardo, desmentiu o cliente.

Na quarta-feira 7,em um texto no pé de uma página do jornal O Estado de S, Paulo, Leonardo revelou ter entregue à Procuradoria-Geral da República, em 2007, uma lista com nomes de 79 políticos beneficiados com recursos do “mensalão tucano”. Sobre o fato, o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza, destinatário da lista, desconversou: “Faz tanto tempo que saí de lá, quase quatro anos, que sinceramente não tenho lembrança”. Na verdade, Souza ignorou a denúncia com a desculpa de que, como se tratava de crime eleitoral, a punibilidade estaria prescrita.

Leonardo estranhou o fato de Souza ter ignorado a lista de Marcos Valério, pois, ao contrário das listas de Mourão e de Furnas, esta foi acompanhada de comprovantes do Banco Rural e do Banco de Crédito Nacional (BCN) de depósitos nominais feitos a 79 dos mais de 300 nomes listados no documento. Conforme havia sido noticiado por CartaCapital há três meses, os pagamentos foram feitos pela SMP&B Comunicação. Além disso, todas as 26 páginas da lista são rubricadas pelo publicitário mineiro, com assinatura reconhecida em cartório no final do documento datado de 28 de março de 1999. Há ainda uma declaração assinada por Valério, de 12 de setembro de 2007 na qual apresenta a lista à Justiça de Minas e informa ter repassado 4,5 milhões de reais ao ex-governador Azeredo.

 

Miraglia conheceu Nilton Monteiro enquanto atuava como assistente de acusação da família de Cristiana Aparecida Ferreira, morta aos 24 anos por envenenamento seguido de estrangulamento em um flat da capital mineira, em agosto de 2000. Filha de um funcionário aposentado da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Cristiana tinha  ligações com diversos políticos mineiros. No inquérito policial sobre o crime, é descrita como garota de programa, mas os investigadores desconfiam que a sua principal ocupação fosse entregar malas de dinheiro aos beneficiários do esquema. Na lista assinada por Marcos Valério, ela aparece como destinatária de 1,8milhão de reais. “Foi queima de arquivo”, acredita o advogado.

Também graças a Miraglia, a Polícia Federal, a Corregedoria de Polícia Civil de Minas, o Conselho Nacional de Justiça e o ministro Joaquim Barbosa receberam, há dois meses, um calhamaço de informações retiradas de um CD apreendido pela polícia mineira na casa de Monteiro. Trata-se de uma série de diálogos gravados clandestinamente por Joaquim Egler Filho, ex-advogado do lobista.

O auto de apreensão, datado de 21 de outubro de 2011, é assinado pelo delegado Márcio Simões Nabak, então chefe da Divisão Especializada de Operações Especiais da Polícia Civil mineira. No registro que se seguiu ao cumprimento do mandado na casa de Monteiro, Nabak afirma ter encontrado um “CD-R marca Multilaser” com diálogos entre seis pessoas, entre as quais estavam Marcos Valério e Cláudio Mourão. Nas transcrições se fala de tudo: planos de assassinato, corrupção policial, fraudes periciais, aventuras sexuais de autoridades tucanas, relato de uso de drogas, tráfico de influência e propina.

Em um trecho, supostamente gravado em outubro de 2011, Marcos Valério informa a Mourão ter sabido que “a velha cúpula do PSDB”, segundo ele formada por FHC, os ex-senadores Tasso Jereissati (CE) e Arthur Virgílio Neto (AM), além do senador Álvaro Dias (PR), teria convencido alguns ministros

do STF “a julgar o processo do mensalão do PT primeiro, e somente depois o do tucano duto de seu amigão Eduardo Azeredo” – exatamente como ocorre agora. O publicitário teria citado nominalmente

quatro ministros.

Em outro trecho, Mourão afirma que o delegado Nabak grampeou os telefones de Monteiro e, em seguida, faz uma revelação bombástica: Nabak teria fechado um acordo “com o diretor da Veja, um tal de Policarpo e (Nabak) vai receber pelos serviços 250 mil reais para passar informações sigilosas do inquérito do Dimas Toledo (Lista de Furnas) e do espólio e da , prisão de Nilton Monteiro”. O “tal Policarpo” é Policarpo Junior, diretor da Veja em Brasília, também apontado como colaborador do bicheiro Carlinhos Cachoeira, atualmente preso no presídio da Papuda, na capital federal, acusado de comandar

o crime organizado em Goiás.

Carta Capital enviouà Secretaria de Defesa Social de Minas Gerais, à qual a Polida Civil local está subordinada, uma cópia do auto de apreensão, a fim de checar a veracidade do documento. Na terça-feira 6, por telefone, o delegado Nabak deu uma explicação caótica sobre o tema. Nervoso, o policial alegou que o documento enviado apresentava “indícios de falsificação”. Em seguida, afirmou que a informação sobre o CD teria sido inserida no documento para justificar a existência das degravações de Egler Filho. O delegado informou que a papelada foi submetida a uma perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, onde se teria constatado tratar-se de uma montagem. Mas não soube dizer quando foi feita a tal perícia nem muito menos quem a fez.

O delegado Nabak recusou-se a fornecer o auto de apreensão original e, em seguida, ameaçou abrir um inquérito para forçar o repórter a informar a origem da cópia enviada a ele. Alterado, aconselhou a busca do documento original diretamente no fórum de Belo Horizonte. Nem precisava do conselho: o auto de apreensão que mexeu com os nervos do delegado é um documento público e pode ser acessado, a qualquer momento, na 2ª e na 11ª Vara Criminal de Belo Horizonte, e consta dos autos do inquérito

3.530 do STF, do “mensalão tucano”.

Está assinado por Nabak, por um escrivão da polícia, por Monteiro, pelo promotor Adriano Botelho Estrela e pelo advogado Raul Almada. Todas as assinaturas tiveram reconhecimento de firma

em cartório, inclusive a do delegado.

Na quinta-feira 8, a Central de Imprensa da Secretaria de Governo de Minas Gerais enviou, por  e-mail, cópia de outro auto de apreensão supostamente feito na casa de Monteiro em 20 de outubro

de 2011, mas assinado por outro delegado, Éric Flávio de Freitas, no qual não consta o CD com as gravações de Egler Filho. O documento não tem, porém, assinatura do advogado de Monteiro, nem do próprio, nem do representante do Ministério Público. A assessoria não enviou a cópia do suposto laudo das degravações. Apenas informou que ele foi concluído em 6 de dezembro de 2011 pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil sob o número 54175-1.

Para entender todo o caso é preciso, primeiro, compreender o que se passava em 1998, quando o PSDB ainda sonhava com um projeto de ao menos duas décadas no poder central. Naquele ano, o presidente Fernando Henrique Cardoso derrotaria Lula e seria reeleito para um segundo mandato, graças a um expediente constitucional aprovado em meio a um comprovado esquema de compra de votos no Congresso Nacional. Em Minas, o discreto Azeredo se empenhava na mesma luta, mas numa briga difícil contra o falecido ex-presidente Itamar Franco, do PMDB.

Ciente dos custos financeiros de uma campanha acirrada, os tucanos decidiram montar uma máquina clandestina para arrecadar fundos de campanha longe da vigilância da Justiça Eleitoral e da Receita Federal. É esperar para ver o que virá à tona quando o mesmo ministro Joaquim Barbosa, caso continue a ser o relator do “mensalão tucano” no STF, começar a descrever o que a turma de Azeredo aprontou em Minas enquanto Marcos Valério se especializava nas artes dos empréstimos falsos, notas frias e lavagem de dinheiro.

Ocorrido há 14 anos, o esquema tucano foi descoberto apenas sete anos depois, em 2005, quando a oposição enchia o Congresso de CPls para fazer sangrar o primeiro governo Lula com o escândalo do “mensalão”. Na época, Azeredo era senador e presidia o PSDB. Como muitos

correligionários, sabia que, ao menos em Minas, a súbita notoriedade de Marcos Valério era um prenúncio de desastre. Protegido pelo noticiário, inteiramente engajado na luta pelo afastamento de Lula,

o partido tirou Azeredo da presidência e se fingiu de morto.

A denúncia sobre o “mensalão tucano” foi feita há cinco anos por Antonio Fernando de Souza. E aí começariam as diferenças de tratamento em relação ao caso do PT. Algoz de Dirceu na denúncia

do “mensalão petista”, a quem chamou de “chefe de quadrilha” responsável pelo comando da compra de votos no Congresso, Souza viu a questão do PSDB com outros olhos. Acatou, por exemplo, a tese

do caixa 2. No Supremo, outra discrepância: o processo foi desmembrado para que somente os acusados com foro privilegiado, Azeredo e o senador Clésio Andrade (PMDB), fossem julgados na Corte. Os outros 14 envolvidos passaram a ser responsabilidade da 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Na denúncia apresentada ao STF, em novembro de 2007, Azeredo é acusado de ser “um dos principais mentores e principal beneficiário” do esquema clandestino de arrecadação montado para a fracassada campanha de 1998. O ex-governador foi denunciado por peculato (apropriação de dinheiro por funcionário público) e lavagem de dinheiro. O ex-procurador–geral detectou uma série de telefonemas entre o tucano e Marcos Valério. Para Souza, o esquema de Minas serviu de “laboratório do mensalão nacional”.

O outro réu no STF, Clésio Andrade, é presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e foi vice-governador do estado no primeiro governo do atual senador Aécio Neves. No processo, Andrade aparece como um dos principais distribuidores de recursos de caixa 2 arrecadados por Mourão para políticos, empresários, jornalistas, “laranjas” e correligionários tucanos registrados na lista, assinada por Marcos Valério.

A denúncia do ex-procurador-geral informa que a campanha de Azeredo arrecadou ilegalmente mais de 100 milhões de reais, embora o PSDB, à época, tenha informado oficialmente 8 milhões de reais. Toda a operação do esquema de arrecadação e pagamentos, assim como no caso do “mensalão do PT”, ficou por conta da SMP&B, de Marcos Valério, por meio da emissão de notas fiscais frias. Segundo Antônio Fernando, constatou-se em Minas Gerais a existência de uma “complexa organização criminosa que atuava a partir de urna divisão muito aprofundada de tarefas”.

 

Embora tenha tentado, ainda durante as investigações da PF, negar sua vinculação direta com a campanha de Azeredo, da qual foi o principal coordenador, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, então no PTB, teria muito a explicar sobre o tucanoduto, mas está prestes a escapar do processo. Mares Guia vai completar 70 anos dia 24 de novembro. Com essa idade, poderá requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, pelos quais foi denunciado pelo Ministério Público Federal. O prazo de prescrição é de 16anos, mas cai pela metade para um réu septuagenário.

 

Uma das provas materiais mais contundentes colhidas pela PF é um conjunto de quatro folhas manuscritas na qual Mares Guia registrou uma série de valores de arrecadação e pagamento do esquema. O coordenador da campanha de Azeredo admitiu, ao depor para o delegado federal Luiz Flávio Zampronha, que, de fato, era o autor do arrazoado. de nomes de empreiteiras, siglas, abreviações de nomes e valores em reais. Foi por meio desse documento que a PF descobriu, por exemplo, que o apoio da ex–senadora Júnia Marise à candidatura de Azeredo custou exatos 175 mil reais. O dinheiro foi transferido, via depósito bancário, pela SMP&B para uma conta de uma assessora da parlamentar. Tanto o relatório da Polícia Federal

quanto a denúncia da PGR apontam Clésio Andrade, supostamente o verdadeiro dono da SMP&B,como o homem que colocou Valério na jogada. Em 1998,Andrade era candidato a vice-governador pelo PFL na chapa de Azeredo, cargo que , só conseguiria ocupar em 2002, no primeiro mandato de Aécio. Como operador da quadrilha, Marcos Valério criou uma complexa cadeia de fluxo financeiro a partir de empréstimos fraudulentos feitos com por meio de três bancos: Rural, Cidade e o de Crédito Nacional.A maior parte dos recursos foi desviada, segundo a PF, da Companhia de Saneamento (Copasa), Companhia Mineradora (Comig), Banco do Estado de Minas Gerais (Bernge) e da Companhia Energética do estado (Cemig).

 

Embora tenha sido praticamente ignorado pela Procuradoria-Geral da República, o relatório do delegado Zampronha concluiu que o esquema de lavagem de dinheiro em Minas funcionava exatamente como no “mensalão do PT”, com urna ressalva importante: no caso do tucanoduto, os desvios de recursos públicos são explícitos. O mais emblemático deles diz respeito a um tradicional evento estadual, o Enduro da Independência, uma prova de motocross pelas trilhas da antiga Estrada Real de Minas. Para patrocinar a corrida, o governo Azeredo jogou pesado e usou descaradamente a máquina estatal para drenar dinheiro para a campanha. Ao todo, seis estatais foram mobilizadas para doar 10,7milhões de reais ao Enduro, tudo registrado na lista contábil de Mourão. No relatório de Zampronha ficou demonstrado que, apesar dos repasses milionários do governo mineiro via Cemig, Copasa e Comig, a SMP&Brepassou apenas 98 mil reais à Confederação Brasileira de Motociclismo, organizadora oficial do evento. A diferença serviu para alimentar o esquema de caixa 2 e pagar os empréstimos que o publicitário fazia em nome do PSDB.De acordo com a lista de Mourão, a sangria de dinheiro público da campanha de Azeredo, contudo, era só parte de um esquema que iria arrecadar outros 90 milhões de reais entre empréstimos fraudulentos e doações privadas feitas em contrapartida por serviços públicos.

 

 

A lista elaborada pelo tesoureiro de campanha tucana em Minas tornou-se a Pedra de Roseta da investigação. A PF chegou até ela graças a uma rusga entre Mourão e Azeredo, por conta de uma dívida de campanha de 500 mil reais. Em 1999 um ano depois do fracasso da reeleição em Minas, o tesoureiro resolveu processar o chefe tucano para receber os créditos

devidos a locadoras de automóveis contratadas pelo comitê ‘de campanha. Em 2002, candidato ao Senado, Azeredo achou por bem dar um jeito de pagar o ex-colaborador. Para tal, procurou Mares Guia e voltou a mergulhar nas águas turvas do tucanoduto. Contabilizados

os juros, a dívida de Azeredo com Mourão havia chegado, naquele ano, a 900 mil reais, mas o acerto ficou em 700 mil reais. Tarde demais.

 

Os rastros dessa operação, aliados a mais a mais uma centena de indícios, poderão render a Azeredo, no STF, o mesmo fim dos “mensaleiros” petistas. Vai depender da disposição dos ministros do Supremo. Na Justiça mineira, é difícil constatar o ímpeto em concluir os processos. A pressão pelo julgamento dos envolvidos no tucanoduto em Minas Gerais, se vier, terá de partir de fora do estado.

 

ESTRANHÍSSIMAS MOVIMENTAÇÕES

SATIAGRAHA I Uma nomeação suspensa em São Paulo. E um ato heterodoxo no STF

 

O BRASIL disposto a acreditar que o julgamento do “mensalão” inicia uma nova era de baíxa tolerância à corrupção deveria prestar atenção às estranhas movimentações de outro caso não menos estrepitoso: a Satiagraha. Para quem não sabe, o processo está parado no Supremo Tribunal Federal (STF) desde que o Ministério Público recorreu da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de anular as sentenças proferidas pelo juiz Fausto De Sanctis. Entre elas, os dez anos de prisão do banqueiro Daniel Dantas por corrupção de um delegado federal.

 

Dois fatos aparentemente sem conexão passaram quase despercebidos em outubro. O primeiro ocorreu em São Paulo. Com a promoção a desembargador de De Sanctis, a vaga de titular da 6a Vara da Justiça federal, especializada em crimes de lavagem de dinheiro e contra o sistema financeiro, estava vaga. Por essa razão, o tribunal abriu as inscrições para os magistrados interessados em ocupar o posto. Apesar de negar por muito tempo no último minuto o juiz Ali Mazloum candidatou-se. Por ser um dos mais antigos na casa, sua nomeação parecia certa. Parecia. O tribunal decidiu ainda em outubro suspender as novas nomeações. O principal argumento é técnico. Com as mudanças na leide lavagem de dinheiro, os juízes temem um acúmulo de processos nas duas varas especializadas existentes. Uma consulta a todos os integrantes do tribunal foi aberta para saber se eles consideram fundamental a existência da especialização ou se concordam com a tese de que as dez varas de São Paulo,e não apenas duas,deveriam cuidar de crimes de colarinho-branco.

 

Entre os magistrados, comenta-se, porém, ter pesado a resistência interna ao nome

Mazloum. Não só por seu passado atribulado. Em 14 de outubro, por exemplo, o juiz apareceu em uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo, na qual acusa de forma genérica arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin)de roubar processos sob sua jurisdição. O comando do tribunal não gostou de sua aparição e do tom de suas declarações, o que teria aumentado a rejeição à sua nomeação.

 

Antes de passar ao segundo fato,um esclarecimento: Mazloum fez de tudo para derrubar a Satiagraha. Uma de suas iniciativas foi abrir um inquérito para apurar as relações entre o empresário Luís Roberto Demarco, desafeto de Dantas, o jornalista Paulo Henrique Amorim e o delegado Protógenes Queiroz, responsável pela Satiagraha. Ojuiz baseou-se em uma falsa acusação, a existência de contatos telefônicos frequentes entre os três personagens. Sustentou ainda a tese da interferência indevida de agentes da Abin na operação, base da anulação do processo pelo STJ.

 

Imagine, portanto, se Mazloum fosse nomeado para a 6a Vara e o STF decidisse rever a decisão do STJ e manter o processo. O caso voltaria para onde? Para as mãos do próprio Mazloum. Voemos agora até Brasília. Por Queirdz ter sido eleito deputado federal, o

processo acabou remetido ao Supremo. Em seu parecer, a Procuradoria-Geral da República (PGR) sugere o arquivamento. É interessante a manifestação da PGR: “Ante o exposto, o Ministério Público Federal reitera a manifestação G..) em relação à nulidade da prova colhida de ofício pelo juízo da 7a Vara Criminal da Subseção Judiciária de São Paulo”. Relator do caso no STF, o ministro Antonio Dias Toffoli foi mais explícito ao comentar o parecer do Ministério Público: “. Não vislumbrando a possibilidade de apuração de eventuais fatos delituosos,

em vista do entrelaçamento com elementos de prova ilicitamente produzidos”,

 

Ou seja, Mazloum produziu ou valeu-se de provas consideradas ilícitas. Como? Apesar disso e do pedido de arquivamento do Ministério Público, Toffoli preferiu um caminho heterodoxo. Em vez de simplesmente arquivar o processo, resolveu submetê-lo ao plenário do STF. Muito estranho.

 

O CRIME NÃO DESCANSA

 

SÃO PAULO I Ônibus incendiados, policiais assassinados, chacinas na periferia da cidade. O PCC volta a desafiar o governo paulista

 

A AÇÃO DUROU poucos minutos. A policial militar Marta da Silva voltava de uma visita à nora, no sábado 3, quando parou o carro diante de sua casa, na Brasilândia, zona norte de São Paulo. A filha de 11anos desceu do veículo para abrir o portão da garagem, mas algo parecia emperrar a passagem da chave. A mãe saiu para ajudá-la, e mal teve tempo de se aproximar. De tocaia na rua, um homem se aproximou e disparou mais de dez tiros contra a soldado. Todos pelas costas. Enquanto o pistoleiro partia em fuga em um Corsa preto, a garota começou a gritar por socorro. Os vizinhos acudiram, mas pouco pôde ser feito. Marta morreu a caminho do , Hospital Geral da vila Penteado. Tornou- se mais uma vítima da guerra declarada pelo PCC, facção criminosa que domina os presídios paulistas, contra os agentes de segurança pública. Um duelo sangrento que amplia dia após dia o saldo de mortos. Até mesmo de quem nada tem a ver com a disputa, a exemplo de Amanda Martinho, garota de 10anos vitimada por uma bala perdida um dia depois, no Ipiranga, na zona sul da capital.

 

A tragédia se traduz em números. Desde o início do ano, foram assassinados 90 policiais militares no estado, quase o dobro do registrado em 2011 (47). O número total de homicídios também está em alta. Até setembro, foram registradas 3.536 mortes no estado. Apenas na capital foram contabilizadas 982 vítimas, um crescimento de 22% em relação ao mesmo período de 2011. Em outubro, novo recorde: 145 assassinatos, número 86% maior que o verificado no mesmo mês do ano passado. O governo paulista, que inicialmente tratou como casos isolados os assassinatos de policiais, assim como as execuções de jovens da periferia por homens encapuzados, agora admite que as ações foram orquestradas pelo PCC.

 

Sobretudo após a revelação de uma carta na qual a facção dava a “todos os irmãos da rua” as ordens que deveriam seguir a partir de agosto. O recado não deixava dúvidas. Para cada integrante do PCC abatido pela polícia, dois PMs deveriam ser executados.

 

Apreendido em Paraisópolis, o “salve geral” seria uma resposta “às execuções covardes feitas pela Polícia Militar”. Em 26 de agosto, ao ser preso por homens das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o líder da facção na favela, Francisco Antonio Cesário, conhecido como Piauí, tinha uma lista com o nome e o endereço de vários outros PMs. Em alguns casos, era sabido até o local de trabalho dos que fazem bico nos horários de folga, afirma um dos soldados marcados para morrer, que só tomou conhecimento da ameaça após a revelação feita por um colega.

 

“O alto-comando não divulgou a lista, não quer alarmar os praças: Mudei a minha rotina. Deixei de buscar minha filha na escola, de levar minha mulher ao serviço, só saio de casa para trabalhar”, afirma o soldado, com um histórico de dez mortes em confrontos com criminosos.

“Não adianta sair da PM. Eles também matam policiais fora da ativa, alvos até mais vulneráveis.” Dos 90 PMs mortos, 18 estavam aposentados.

 

Em resposta aos ataques, a Polícia Militar deu início à Operação Saturação, com o reforço do policiamento em áreas consideradas críticas. Antes centrada na favela de Paraisópolis, ao lado do rico Morumbi, a ofensiva contra o crime foi ampliada para mais três regiões: as zonas norte e leste, além de Guarulhos, na Grande São Paulo. “Não entendo o porquê de todo esse aparato em Paraisópolis. Ninguém morreu por aqui, não tivemos ônibus incendiados, nada. Se o objetivo era prender os responsáveis por essa lista de policiais ameaçados, bastava ir até eles”, reclama Joíldo Santos, vice-presidente da União de Moradores de Paraisópolis. Na Brasilândia, palco de uma chacina e de ônibus incendiados, as escolas foram fechadas e a população está atemorizada com os rumores de um suposto toque de recolher imposto pelo tráfico. “Sem creche, tive de mandar minha filha para a casa do pai dela, que mora numa região mais tranquila”, afirma a atendente de uma padaria, que, receosa, pediu para não ser identificada. “Logo mais vou me trancar em casa.”

 

Após uma extensa troca de farpas entre o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, os governos federal e estadual anunciaram ainda um acordo de cooperação para enfrentar o crime organizado.

O plano prevê a criação de uma agência integrada, capaz de unir os setores de inteligência das forças policiais e órgãos do governo, a transferência de presos para penitenciárias federais e a intensificação da vigilância nas fronteiras, de for ma a evitar o tráfico de armas. Especialistas consultados por CartaCapital divergem sobre a eficácia do plano.

 

“O rastreamento financeiro que o Ministério da Fazenda se dispôs a fazer pode abalar as finanças do tráfico. Também é bem-vinda a cooperação entre os setores de inteligência e o isolamento de lideranças do PCC em presídios federais”, avalia Guaracy Mingardi, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública. Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o pesquisador Renato Sérgio de Lima alerta que a crise paulista não deve ser encarada como uma questão meramente conjuntural, relacionada à emergência de uma facção criminosa que se impõe pelo medo. “São Paulo é o estado que mais investe recursos na área: 12,2bilhões de reais. Mas há graves problemas estruturais que acabam por desperdiçar boa parte desse dinheiro”, afirma. “As polícias civil e militar não cooperam entre si. O mesmo ocorre com a Polícia Federal em relação às polícias estaduais. Há sobreposição de atribuições e ainda não temos uma legislação que define claramente o papel de cada força.É por isso que as crises se repetem de tempos em tempos.”

 

De fato, há muitas semelhanças entre a recente escalada na violência com os chamados “Crimes de Maio”, de seis anos atrás. Ao todo, 43 agentes públicos foram assassinados entre 12e 20 de maio de 2006. Um estudo realizado pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade Harvard, dos EUA, apontou indícios do envolvimento de policiais fardados ou encapuzados em 122 execuções. Todas teriam ocorrido em supostos confrontos com integrantes do PCC ou por ações de grupos de extermínio.

O contundente relatório de 251 páginas, publicado em 2011,aponta a corrupção policial como a principal causa dos ataques da facção naquele ano. De acordo com o estudo, a corrupção dos agentes públicos fortaleceu o PCC e o Estado “falhou ao gerir seu sistema prisional realizando acordos com facções criminosas, ao não proteger seus agentes públicos, ao optar por um revide como resposta, ao acobertar os Crimes de Maio ou investigá-los de forma corporativista”.

 

As péssimas condições nas penitenciárias e os achaques cometidos por agentes públicos contra familiares de presos teriam motivado os ataques do PCC naquele ano, diz o estudo. O relatório afirma ainda que o fim abrupto das rebeliões em 74 presídios paulistas, em 2006, só foi possível após um acordo secreto articulado pela cúpula do governo paulista. Os motins terminaram após um encontro de autoridades com Marcos Willians Camacho, o Marcola, líder do PCC. A advogada do criminoso foi levada à penitenciária de Presidente Bernardes, no interior paulista, em um helicóptero da Polícia Militar. Estava acompanhada do coronel da PM Ailton Araújo Brandão, do corregedor da Secretaria de Administração Penitenciária Antônio

Ruiz Lopes e do delegado da Polícia Civil José Luiz Cavalcante. “Ninguém foi negociar. Os três foram testemunhar a conversa da advogada com o preso”, afirmou, a época, o então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa. Mas a versão é contestada pelo deputado estadual Olímpio Gomes (PDT), major da reserva e integrante da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa. “Não acredito que o governo tenha aceitado afrouxar o combate ao crime, mas concordou em interromper as transferências de líderes do PCC para as prisões com Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) e penitenciárias federais.” O problema, avalia, é que os criminosos continuaram a ter poder dentro dos presídios, onde têm acesso a celulares, e a comandar as atividades ilícitas da facção fora dessas prisões.

 

Por trás da recente crise está uma mudança de estratégia conduzida pelo secretário Ferreira Pinto. Quando assumiu a Segurança Pública, ele optou por usar a Polícia Militar, corporação da qual foi oficial, para lidar com as informações coletadas em interceptações telefônicas feitas pelo Ministério Público e pela Secretaria da Administração Penitenciária. Os policiais civis foram postos de lado na investigação dos crimes planejados nos presídios. Com as informações em primeira mão, os PMs passaram a assumir as grandes operações de combate ao tráfico, resultando numa série de confrontos entre a polícia e os criminosos, sobretudo quando a Rota tomava a dianteira. Em maio, a tropa invadiu uma reunião de integrantes do PCC na Penha, na zona leste de São Paulo, que tramavam a fuga de um preso. Seis suspeitos foram mortos. Uma testemunha flagrou a execução de um deles, que já havia sido preso e colocado na viatura. Pela primeira vez na história, três policiais da Rota foram presos em flagrante, por causa da execução. Em setembro, nove suspeitos foram mortos em Vargem Grande Paulista, após a tropa flagrar criminosos no meio de um “tribunal do crime”. À época, Alckmin defendeu a operação: “Quem não reagiu está vivo”.

 

“A Rota quebrou uma regra elementar de convivência com os criminosos, ao não garantir a vida do bandido que se entrega. A reação do PCC foi imediata”, lembra Mingardi. “O pior é que o governador, com essa declaração; e ao nomear para o comando da Rota dois coronéis linha-dura, réus no processo do Carandiru. sinalizou que não pretende mudar. O que nos deixa sem saber até quando o ressentimento e a vingança vão alimentar essa guerra.”

 

NO ENTORNO DO MARACANÃ

 

COPA 2014 I Ativistas do Rio de Janeiro tentam impedir a expulsão de projetos sociais da área ao redor do estádio em reforma

 

Ao FUNDO DA pista de corrida do Estádio de Atletismo Célio de Barros, no Rio de Janeiro, vê-se a dimensão das obras de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014. Alheios ao barulho, e aos movimentos constantes de imensos guindastes, correm pela pista perto de 15atletas. É quase noite, mas o local continua repleto de esportistas. Uma cena que, em alguns meses, pode se tornar apenas uma memória para quem utiliza a área em treinos. Para dar lugar a um complexo multiuso, o governo fluminense apresentou em 22 de outubro a minuta do edital de concessão do Maracanã, que prevê a demolição de equipamentos esportivos, públicos, utilizados por atletas de alto rendimento e projetos sociais, a fim de abrir espaço para 2 mil vagas ‘de estacionamento, restaurantes, lojas e bares.

 

O Comitê Popular da Copa e Olimpíada no Rio, formado por grupos afetados pelo projeto, tenta, porém, evitar esse destino. Na audiência pública, para discutir o caso, realizada na quinta-feira 8, o grupo se opôs ao processo e entregou uma proposta alternativa de gestão pública do complexo. “O espaço dessas audiências tem sido desfigurado e as oposições dos

cidadãos ignoradas”, lamenta Gustavo Mehl, integrante do comitê.

 

Ainda que as audiências tivessem caráter decisório, seria difícil concorrer com as empresas

interessadas. Na disputa deve estar a IMX, do empresário Eike Batista, a única a apresentar ao governo, em abril deste ano, um estudo de viabilidade econômica para o modelo de concessão do estádio.

 

Devem ir ao chão, para que haja viabilidade econômica, dois monumentos do esporte nacional: o Célio de Barroseo Parque Aquático Julio Delamare, reformado por cerca de 10milhões de reais para os Jogos Pan-Americanos. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), revogou o tombamento dos prédios quatro dias antes da apresentação da minuta.

 

Pela justificativa oficial,as intervenções adequam o estádio às exigências da Fifa e a padrões internacionais de conforto, acesso e tempo de evacuação. Motivos pelos quais também serão demolidos o antigo prédio do Museu do Índio e a Escola Municipal Friedenreich, a décima melhor do Brasil segundo o desempenho no Ideb.

 

O concessionário investirá 469 milhões de reais para gerir o complexo por 35anos. Como ressarcimento pelos gastos na reforma do estádio (até o momento em 860 milhões de reais), a iniciativa privada repassará anualmente ao Estado cerca de 7 milhões de reais por ano, com dois anos de carência Logo, ao fim do contrato, o governo estadual terá arrecadado 236 milhões de reais, ou 26% do valor gasto na última reforma do Maracanã Enquanto isso, estima- se que o concessionário lucre mais de 2 bilhões. O que não é um problema, pois o objetivo “não é recuperar o valor, mas transformar o espaço em uma grande área de entretenimento”, defendeu o governo estadual em nota enviada a CartaCapital. É justamente a criação desse “espaço de entretenimento”, em detrimento do aspecto social e esportivo do complexo, a maior crítica do comitê. Os especialistas são unânimes ao dizer que o projeto de concessão desvirtua o caráter popular da área. “Não existe explicação para eliminar esses equipamentos se não a subordinação do poder público a interesses comerciais”, afirma Orlando Santos Júnior, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Observatório das Metrópoles. Outra marca da exclusão popular é a não incorporação de espaços populares ao

Maracanã, que aboliu a “geral” em 2005. O governo atribui aos clubes os preços altos e alega que a iniciativa privada modernizará o estádio, além de fazer do Maracanãzinho um local apto a shows e espetáculos. A reforma do Maracanãzinho pode, inclusive, deixar o localcom capacidade menor que a exigida para as partidas de vôlei nas Olimpíadas.

 

Tudo em nome do entretenimento. A minuta prevê ainda a reconstrução, pelo concessionário, dos centros de esporte em um terreno em frente ao complexo. Mas não define datas específicas para as obras. O que leva os atletas a preocuparem- se com a infraestrutura disponibilizada e se projetos sociais, como o comandado pela ex-atleta Edneida Freire, no Célio de Barros, com 250 jovens de diversas comunidades, terão o mesmo sucesso em outro local. “Recebemos todos pelo atletismo e, depois, indicamos quem tem resultados para ser um campeão nas pistas e quem será um campeão de cidadania”, diz Freire, que lamenta não ter alcançado grandes resultados profissionais.

 

Um destino diferente daquele de seus pupilos, que participam de mundiais juvenis e treinam no estádio ao lado de atletas de alto nível, como a finalista olímpica em Londres, Evelyn Santos. “Não há no Rio outra estrutura para treinar como esta”, conta Nelson dos Santos, também finalista olímpico e pai de Evelyn. O caso do Julio Delamare é ainda mais  dramático. O local abriga os treinos de esportes aquáticos pouco apoiados, como o salto ornamental. “Não é qualquer piscina que serve. Precisamos de um espaço de 25 x 25 metros porque é a medida do regulamento internacional”, explica Maura Xavier, treinadora da seleção brasileira de nado sincronizado. Perto dali fica o prédio do antigo Museu do Índio, uma construção do século XIX que abrigou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), origem da Funai. Não festa dúvida, ao menos para os analistas, de que o local possui valor histórico e cultural para impedir sua demolição. “Aquele é um lugar de identidade dos índios. Demoli-lo é apagar parte da memória nacional”, acredita José Bessa, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e especialista em cultura indígena.

 

No fim de outubro, o governo fluminense oficializou a compra do terreno do prédio. À época, o governador Sérgio Cabral afirmou que o local “não tem nenhum valor histórico”, além de atrapalhar a dispersão dos torcedores do Maracanã Por enquanto, duas decisões da Justiça Federal impedem a demolição e a expulsão dos índios. A situação da Escola Municipal Friedenreich, a quarta melhor do Estado, é a mais indefinida entre as demolições previstas. No lugar da instituição ficarão duas quadras de aquecimento. Não há certeza, entretanto, da localidade do novo prédio, ou se haverá um. E o clima de indefinição começa a ameaçar o desempenho dos alunos, segundo Mima Maia Freire, uma das diretoras do Sindicato dos Profissionais de Educação do Rio. A assessoria de imprensa da prefeitura afirma que a escola e o corpo de professores serão mantidos. O governo estadual informou que procura alternativas para “a futura acomodação dos estudantes” e destaca que a “boa performance dos alunos não se dá pela localização da escola”. Tese refutada por Freire. “A integração ‘. com a comunidade ajuda nos resultados. A escola não é uma ilha.”

 

 

 

UM SENTIDO DE LUGAR

A geografia continua tão importante como antes, apesar da revolução digital, diz Patrick Lane

 

HAVIA ALGO de estranho no carro preto parado no cruzamento das ruas Sutter e Hyde. Sedã comum, suas janelas eram claras e ele parecia estar em boas condições. Conforme o sinal abriu e o carro se afastou na clara manhã de São Francisco, uma questão permaneceu. Por que ele exibia um exuberante bigode cor-de-rosa em sua frente? O bigode é a marca registrada do Lyft, um serviço de compartilhamento de caronas lançado no meio deste ano na cidade. Seus motoristas são indivíduos que alugam lugares em seus carros por alguns dólares a hora. OLyft fica com 20%. O serviço funciona através de um aplicativo para smartphone. Quando se registra como cliente, você fornece seu número de telefone e dados do cartão de crédito. Quando quiser uma carona, você abre o aplicativo e vê um mapa com os locais onde estão os carros bigodudos mais próximos. É só clicar para requisitar um serviço e o aplicativo mostra o nome do motorista, sua avaliação feita por passageiros anteriores e fotos dele e de seu carro. Ele provavelmente vai cumprimentá-lo com um amigável soquinho de mão.

Mais tarde, você o avalia e paga através do aplicativo. Ele também o avalia. Se você for má companhia, pode acabar não conseguindo outra carona do Lyft.

 

Para que os carros do Lyft evitem ser classificados como táxis, com toda a regulamentação envolvida, tecnicamente os motoristas não cobram “tarifas”, mas recebem “doações” de seus passageiros. Você pode até considerar essa distinção muito sutil para sobreviver a um escrutínio jurídico: uma autoridade reguladora mandou ao Lyft e a dois rivais, SideCar e Tickengo, avisos para descontinuar o serviço. Mas John Zimmer, executivo-chefe da Zimride, a firma que controla o Lyft, parece confiante. Zimmer explica que a Zimride, que também organiza compartilhamento de carros dentro da cidade e a partir dos subúrbios, foi batizada não por sua causa, mas pelo Zimbábue, onde seu cofundador, Logan Green, viu pessoas compartilhando micro-ônibus.

 

Os promotores dos serviços de carona enxergaram uma oportunidade nisso, em parte porque é difícil encontrar táxis em São Francisco. A Uber, que fornece limusines pretas clicando um aplicativo, viu uma lacuna semelhante (embora seus carros sejam mais caros) e se expandiu para mais 16 cidades a partir de então.

 

Mas a oportunidade não existiria se os mundos físico e digital não tivessem se tornado tão interconectados. Qualquer percurso usando o Lyft envolve não apenas um deslocamento físico,mas também várias viagens digitais muito mais longas: entre os smartphones do passageiro e do motorista, através do Wi-Fi e das antenas de celular, pelas redes das empresas de telecomunicação e, através de roteadores e chaves de rede, entradas e saídas dos servidores do Lyft, assim como, por último, pelos bancos do passageiro, do motorista

e da Zimride. Isso tudo também demonstra a importância da localização física no mundo digital atual. Ela é central em serviços como o Lyft, que conectam um passageiro em um local com um motorista em outro, de modo que ambos possam se deslocar para um terceiro lugar.

 

Nas duas décadas desde que a internet começou a espraiar-se do uso acadêmico para o popular, houve três formas principais de pensar sobre sua relação com o mundo fisico. A primeira, que teve seu auge no fim da década de 1990, enfatizava como o mundo digital mudaria o mundo real. As pessoas em todos os lugares teriam acesso às mesmas bibliotecas eletrônicas de informações e notícias. Muitas empresas teriam mais liberdade para escolher sua localização, pois o aperfeiçoamento das comunicações significava que não precisariam mais estar perto de fornecedores ou clientes. Montar negócios ficaria mais fácil, assim como a terceirização de serviços que poderiam ser fornecidos eletronicamente. Os funcionários poderiam trabalhar tão bem em casa como em escritórios. caros e barulhentos, comunicando-se com os colegas por e-mail ou vídeo.

 

Muitas dessas coisas realmente aconteceram. A Amazon transferiu a compra de livros das livrarias de rua para o computador, deixando um rastro de estabelecimentos vazios. Agora, lidera a passagem da página impressa para o leitor eletrônico.

 

 

A Mechanical Turk, uma divisão da Amazon, oferece às empresas “uma força de trabalho sob demanda”, disponível 24 horas, para realizar tarefas online por alguns centavos ahora. O trabalhador de hoje pode sair de seu escritório fisicamente, mas nunca digitalmente: ele está amarra…..do por laços invisíveis através de seu smartphone e tablet. Ele pode participar de videoconferências tão realistas que todos parecem estar na mesma sala. Até exames médicos podem ser realizados online.

 

Sob outros aspectos, contudo, as notícias sobre a “morte das distâncias” (o título de uma reportagem especial da The Economist de 1995)foram muito exageradas. Muitasstart-ups da internet vão a São Francisco, Nova York,Berlim, Londres ou outros centros para ficar próximas a pessoas que pensam de forma semelhante. A conversa sobre o “fim da geografia” (outra frase de meados da década 00.1990) é tão convincente como aquela sobre o “fim da história”, em um momento quando a presença digital de diferentes lugares varia tanto. As previsões sobre a “morte das cidades” acabaram se mostrando ainda mais equivocadas: durante as próximas duas décadas, as Nações Unidas esperam que a população urbana mundial cresça  em 195mil pessoas por dia.

 

Uma segunda linha de raciocínio coloca as vidas digital e física em diferentes esferas. Idealistas da internet declararam que o ciberespaço é independente dos governos. Nos jogos online, pessoas separadas por milhares de quilômetros podem batalhar pelas ruínas das mesmas cidades imaginárias mesmo que nunca se encontrem de verdade. Espíritos mais pacíficos podem praticar agricultura virtual sem sujar as mãos. Seus avatares podem viver os seus sonhos em mundos virtuais online como o Minecraft. Mas os dois mundos nunca estiveram realmente separados. Os governos detêm poder sobre a internet, bem como sobre seus domínios físicos, bloqueando sites e blogueiros críticos. Armas em jogos de guerra online, vacas virtuais no FarmVille e jogar Minecraft com outras pessoas custa dinheiro de verdade. O ciberbullying é apenas bullying. O que acontece online não fica apenas online.

 

O mundo físico também dá forma ao digital. Mais e mais pessoas estão conectadas à internet em mais e mais lugares a velocidades cada vez maiores. Elas carregam computadores poderosos, na forma de smartphones e tablets, que são continuamente atualizados com novas informações. Até 2017, o volume de tráfego de dados móveis será 21 vezes maior do que em 2011, segundo a Ericsson, grande fabricante de equipamentos para telecomunicação.

O número de assinaturas de banda larga móvel (na maior parte, para smartphones) vai saltar de 900 milhões para 5 bilhões. Informações locais (qual é a farmácia mais próxima; se há um táxi por perto) são mais valiosas quando as pessoas estão se deslocando do que quando estão sentadas à mesa.

 

Para as companhias que estão correndo para fornecer serviços locais pela internet, os mapas são fundamentos essenciais. Nos últimos anos, houve uma explosão de investimentos na criação de representações online do mundo real: mapas em duas e três dimensões, de interiores e exteriores, e até com bastante detalhamento. É possível, uma vez que seus dedos tenham se habituado aos controles, “voar” por Nova York, São Francisco e diversas outras cidades, observando o nome das ruas e dos lugares e parando para aprender sobre eles. Gigantes da tecnologia – especialmente Google e Appel, que acabou de sacar os mapas do arquirrival de seu sistema operacional móvel – estão batalhando para criar os melhores mapas

e inserir neles as melhores informações.

Os smartphones são apenas parte da história. Em 2020, nos cálculos da Cisco outra grande fabricante de equipamentos, 50 bilhões de aparelhos de vários tipos estarão conectados. De acordo com WnnElfrink, chefe de globalização da Cisco, atualmente apenas 0,2% desses aparelhos se conecta. O planeta Terra está começando a ser mapeado eletronicamente em muitas dimensões. John Manley, do HP Labs, em Bristol, imagina um “sistema nervoso central para a Terra”, uma rede planetária de detectores minúsculos, baratos e resistentes que poderão enxergar, ouvir, sentir (ao detectar vibrações), e até mesmo cheirar e provar o gosto (ao analisar a química de seus arredores), e reportar de volta.

 

Com o mundo no bolso

            O QUE É UM mapa? “Há duas coisas que você quer”, diz Peter Birch, gerente de produto do Google Earth. “Uma é encontrar o seu caminho, removendo todas as informações exceto as que você realmente precisa.” A outra é o “oposto do objetivo cartográfico: criar uma sensação de realidade, uma representação completamente abrangente do mundo”. Para fazer a primeira, você precisa fazer a segunda. Para que qualquer um possa encontrar precisamente o que está buscando, é preciso ser capaz de procurar qualquer coisa. Os planos do Google para o mundo físico, em outras palavras, são os mesmos para o digital: “Organizar a informação mundial para torná-la universalmente acessível e útil”.A empresa pretende mapear até a última das trilhas de caminhada e bancos de praça, e então torná-los fáceis de encontrar.

O detalhamento que o Google e outros estão levando para a cartografia é de tirar o fôlego.Uma parte cada vez maior do mundo está sendo rapidamente mapeada em três dimensões. A Nokia está coletando detalhes precisos de estradas para alimentar avançados sistemas de direção: antecipando uma subida, um carro pode acelerar para chegar ao topo sem reduzir a velocidade; ou pode desacelerar se o motorista estiver rápido demais para a curva adiante.

Já é possível voar sobre o asfalto, digitalmente, em várias cidades. Até agora, o’ Google gerou versões em 3D de cerca de 20 áreas metropolitanas. “Até o fim do ano”, diz JeffHuber, chefe da divisão local e de vendas, “nós queremos ter cobertura 3Dde áreas metropolitanas com uma população combinada de 300 milhões de pessoas.” Os produtores de mapas estão se voltando também para os interiores. No ano passado, Google e Nokia disseram que iriam ajudar as pessoas a se localizar em lugares como shopping centers e aeroportos. A Nokia possui mapas do interior de 5,1mil estabelecimentos em 40 países. Um dos primeiros projetos do Google foi cobrir o metrô de Tóquio, que pode parecer um labirinto indecifrável para os forasteiros, e os dois aeroportos da cidade. O Google afirma que mais de 10mil plantas estão disponíveis para os usuários do seu sistema operacional móvel Android. A consultoria IMS Researeh prevê que, em 2016, 120 mil mapas de estabelecimentos estarão à disposição dos consumidores.

Coletar todos esses dados demanda enorme investimento. A Nokia manda , carros com lasers para criar suas imagens do planeta e o Google, que já enviou carros para circularem fotografando o  mundo no nível das ruas, agora mantém uma frota de aviões. As pessoas que usam os mapas ou querem aparecer neles costumam ajudar preenchendo as lacunas ou apontando erros. Vários mapas de interiores para o Android vieram de lojas ou museus.

Descrever os contornos da Terra é apenas o começo. O formidável dos mapas digitais é que não há limites para a informação que pode ser agregada. Os motoristas podem receber instruções, a cada conversão, de como chegar deA a B,e como estará o tráfego durante o percurso. Quem usa o transporte público pode descobrir qual ônibus ou trem tomar e quanto tempo levará para fazer a baldeação. A localização de uma empresa no mapa pode receber tags com informações de contato, anúncios ou comentários de pessoas que o usaram.

Muitos lugares no mundo físico estão recebendo camadas e camadas de informações online chamadas de geoweb. Parte disso foi criada pelo Google e outros produtores de mapas: aqui há uma loja da Starbucks, aí está a BR101.Muita informação a mais está sendo agregada por pessoas que colocam na internet fotos e posts em redes sociais com dados sobre localização, escrevem comentários e artigos na Wikipedia e sugerem alterações em mapas já publicados. A difusão dos smartphones facilitou ainda mais para as pessoas adicionarem suas anotações na geoweb..

Em artigo recente, Mark Graham, do Instituto de Internet de Oxford (um departamento dessa universidade), e Matthew Zook, da Universidade do Kentucky, mediram a densidade da geoweb, tomando como parâmetro o número de lugares (empresas, escolas, parques etc.) que possuem informações agregadas no Google Maps. Os dados são confusos, afirma Graham, porém, de modo geral, a geoweb é muito mais densa em lugares ricos do que em lugares pobres, e a maior densidade de todas está nos países nórdicos: Em maio de 2011,a Noruega podia se gabar  de ter 434 locais para cada mil pessoas; Finlândia, Suécia e Dinamarca também estavam entre os cinco primeiros. O Afeganistão tinha mero 0,03. Havia mais conteúdo sobre Tóquio do que sobre toda a África.

Além do mais,grupos diferentes de pessoas veem o mesmo lugar de maneiras diferentes. Grahame Zook esquadrinharam a geoweb em busca de referências a 18 palavras em diversas línguas. Mesmo nos territórios palestinos, buscas feitas em árabe encontraram apenas entre 5%e 15% dos resultados em hebraico e somente de um terço a um quarto do número em inglês. Em Tel-Aviv,uma busca pela palavra “restaurante” em árabe traz resultados bastante diferentes da busca em inglês ou hebraico. Na Bélgica, o conteúdo em holandês tem muito mais probabilidade de se referir a “imposto” do que o conteúdo francês, enquanto nessa última há mais referências a “governo”. “Amor” é muito mais comum do que “love” na maior parte da Espanha, mas em pontos turísticos a palavra inglesa predomina.

Boa parte do conteúdoincorporado nos mapas digitais ainda é fragmentária. As instruções de caminhos para os motoristas às vezes são excêntricas; sugestões de transportes públicos podem não ser confiáveis; tentar aprender algo sobre a Massachusetts State House (o palácio de governo e da Assembleia estadual) em Boston quando seu telefone insiste que você está do outro lado do rio, em Cambridge é positivamente irritante. Mas os sistemas estão melhorando rapidamente. E um mapa digital, especialmente em três dimensões, é muito divertido de explorar.

Um bom mapa desses também pode ser extremamente útil. As pessoas querem os melhores para se orientar quando dirigem ou quando estão procurando coisas para fazer ou comprar. E quanto mais gente usar os mapas, mais valiosos eles se tornam com os milhões de dados que são reunidos e introduzidos. Dados coletados dos smartphones e sistemas de navegação dos motoristas permitem prever, por exemplo, como a velocidade e a duração dos trajetos variam conforme as éstações, o clima e o horário. Os trajetos habituais de uma pessoa e o movimento de um telefone em seu bolso, diz Michael Halbherr, chefe da divisão de mapas e localização da Nokia, podem indicar que ela está prestes a chegar a uma estação de trem – e que se pode enviar a ela ofertas do Groupon de estabelecimentos dentro da estação.

Em geral, explica Martin Garner, da consultoria CCS Insight, o negócio dos mapas cobre quatro áreas. Uma é o fornecimento de atacado, onde a Nokia é líder. Seus clientes incluem o Bing (a ferramenta de buscas da Microsoft), o Yahoo! e o Foursquare. Recentemente, a Nokia fechou um negócio com a Arnazon para o seu tablet Kindle Fire. A sua plataforma está integrada ao Windows 8, a última versão do sistema operacional da Microsoft. E quatro de cada cinco carros com sistemas de navegação embutidos usam os seus mapas.

Nas outras três áreas quem manda é o Google. Seus mapas são os mais populares entre os desenvolvedores de aplicativos e, pelo menos no Ocidente, para o uso em desktops. (Na China e na Rússia, o Yandex e o Baidu, as maiores companhias de buscas nesses países, dominam a área.) O Google também dominou os mapas usados em dispositivos móveis.

Os enormescustos de criar um bom mapa são uma grande barreira para a entrada nesse mercado. O Google, que entrou no negócio há apenas oito anos, foi ousado o suficiente para superá-la. A Apple tem esperanças de fazer o mesmo. Até há pouco tempo, os mapas do Google estavam integrados ao iPad e ao iPhone da Apple, assim como nos smartphones que rodam o sistema operacional Android do próprio Google. Neste ano, a Apple, que comprou três companhias de cartografia desde 2009, decidiu seguir seu caminho, mas seu serviço ainda deixa a desejar.

Os mapas tornaram-se importantes demais para depender apenas do Google. Por meio deles, o Google estava reunindo dados valiosos de “sondagem”, pois sabia onde estavam os iPhones (segundo a empresa de pesquisas com Score, os proprietários de iPhone costumam consultar mais os mapas do que os usuários de telefones com Android). E o Google fornecia mapas melhores para os aparelhos com Android do que para os da Apple: em especial, eles possuíam instruções de voz para navegação de motoristas.

 

A esperança, ainda 

            FOI MENOS angustiante e mais rápido do que se esperava.O relógio marcava 34 minutos da madrugada da quarta-feira 7 quando Barack Obama entrou, acompanhado pela primeira- dama Michelle e suas filhas Sasha e Malia, no palco improvisado no McCormick Place para celebrar a histórica reeleição conquistada com a repetição da aliança que o levou à Casa Branca em 2008.

Negros, hispânicos, mulheres, asiáticos, gays e jovens foram novamente às urnas para confirmar o voto no primeiro presidente de origem africana dos EUA, contra o consenso estabelecido desde o início da campanha de que os eleitores republicanos estavam mais propensos a sair de casa em direção às zonas eleitorais do que os desencantados governistas. Com a vitória da Flórida, anunciada tardiamente na noite da quinta 8, Obama somou 332 delegados contra 206 de Romney.

‘“Hoje de noite, nesta eleição, vocês, o povo norte-americano, nos lembrou que, apesar de nosso caminho ter sido longo e nossa jornada difícil, o melhor ainda está por vir”, disse Obama em um discurso forte, voltado para a união nacional, com direito a mea-culpa e acenos à realidade oferecida pelo restante dos resultados da noite.

A eleição foi muitopositiva para os setores progressistas. Com a escolha de dez senadoras democratas, o número de mulheres na Câmara Alta chegou a 20. Uma das eleitas, Tammy Baldwin, é assumidamente homossexual. Outra vitória emblemática: Elizabeth Warren, crítica feroz de Wall Street, recuperou em Massachusetts a histórica cadeira ocupada por Ted Kennedy. Além disso, pela primeira vez o casamento entre pessoas do mesmo sexo saiu vitorioso em um consulta popular, e não por decisões judiciais, no Maine, Maryland e Washington. Na Califórnia, foi derrotada a Proposta 32, que retirava dos sindicatos  possibilidade de financiar, como as grandes corporações, candidaturas políticas. No Colorado e em Washington, aprovou-se o uso recreativo de maconha pelos cidadãos.

Os republicanos mantiveram, porém: o controle da Casa dos Representalltes, o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, com uma vantagem aproximada de 35 cadeiras. Os democratas, por sua vez, aumentaram em uma cadeira a estreita vantagem no Senado. Para o historiador Geoffrey Kabaservice (entrevista à pág. 58), é precipitado considerar os resultados de hoje uma marcha do eleitorado para a esquerda “Os republicanos, que seguem no controle da maioria dos legislativos estaduais e da Câmara Baixa,não estão de modo algum em um beco sem saída”

Não por acaso Obama temperou a festa dos militantes na noite fria de Chicago, ao som do sucesso de 1970 de Stevie Wonder, Sign, Sealed, Delivered, I’m Yours (algo como Assinado, com Selo, Entregue, Sou Seu), com elogios aos eleitores de Romney. “Tenho O desejo de me encontrar com ele nos próximos dias para conversarmos sobre como podemos trabalhar juntos para mover este país para frente”, disse em relação ao adversário..

O presidente foi muitoaplaudido ao olhar com realismo para o presente dos EUA e os quatro anos que o esperam em Washington: “O processo democrático, em uma nação de 300 milhões de habitantes, pode ser barulhento e complicado. Cada um de nós tem sua própria opinião e crenças profundas. E quando atravessamos tempos difíceis, quando precisamos tomar decisões importantes para o país, necessariamente as paixões se atiçam, as controvérsias aumentam. Isso não vai mudar agora, e nem deveria, pois essas discussões são a marca de nossa liberdade”

Obama seguiu na defesa da transformação de um pais que saiba combater o déficit nacional sem aumentar a desigualdade social e que encare de uma vez por todas o desafio do “poder destrutivo” do aquecimento global e que seja tão forte militarmente quanto “admirado mUrído-afora”. E “que saiba ultrapassar este momento de guerras para construir uma paz efetiva construída na promessa de liberdade e dignidade para todos os seres humanos”. E que exerça a compaixão e a tolerância em casa, ao oferecer uma política compreensiva de imigração. “Se eu conquistei o seu voto ou não, saiba que eu os escorei, eu aprendi com vocês. Vocês me fizeram um presidente melhor”, disse, emocionado, firme na crença em uma América mais heterogênea do que dividida, e menos cínica do que a apresentada na televisão pelos comentaristas políticos”.

Curiosamente, um dos comentaristas políticos de maior destaque, estrela dos murdochianos Wall Street Joumal e Fox News, acabara de protagonizar, minutos antes, um tremendo papelão. Karl Rove, o mago da candidatura de George W. Bush e da ascensão neoconservadora na virada do século, uma das personalidades de maior destaque na multiplicação de fundos para candidatos afinados com a direita nos pleitos deste ano, simplesmente recusou-se ‘a aceitar, ao vivo, o reconhecimento por seu próprio canal da vitória democrata Dois grupos por ele fundados, o American Crossroads e o Crossroads GPS, se tomaram, em termos financeiros, algo como o terceiro maior partido político dos EUA Investiram 300 milhões de dólares no esforço de derrubar a agenda democrata. Não se espanta o balbuciar do baluarte conservador: “É muito cedo para declarar Obama vencedor, ainda faltam muitos votos para ser contados em Ohio”, dizia, incrédulo, diante da contagem que o contrariava a cada minuto.

A eleição oferecia números impressionantes: Obama recebera 60.662.174 votos(cerca de 50% dos votos válidos) contra 57.820.742 dados a Mitt Romney (48%). Metade dos eleitores não votou no democrata, vitorioso há quatro anos com 52,9% dos votos, contra 45,7% do republicano John McCain. Na ocasião, Obama teve 69,4 milhões de votos. Os quase 10milhões que não voltaram a sufragar seu nome não foram suficientes, porém, para impedir sua permanência na Casa Branca Sua reeleição foi decidida no momento em que Romney se viu impossibilitado matematicamente de vencer em Ohio. A esta altura Obama havia vencido em Illinois, Wisconsin, Michigan, Pensilvânía, Iowa e Minnesota.

Antes mesmo de confirmada a vitória apertada da chapa democrata na Virgínia, no Colorado e em Nevada, a conquista do Meio-Oeste garantia o prosseguimento da agenda reformista, continuadora das grandes transformações patrocinadas pelas administrações de F. D. Roosevelt e Lyndon Johnson, representadas de forma mais émblemátíca pela reforma da saúde pública e as políticas de inclusão social voltadas aos imigrantes e homossexuais

Mas nenhuma medida revelou-se mais crucial eleitoralmente do que a decisão de salvar a indústria automobilística durante a crise financeira global com fundos do governo. O emblemático artigo publicado por Romney nas páginas de opinião do New York Times em que atacava a ajuda do governo à GM e à Chrysler foi usado pela campanha democrata como prova de queo bilionário idealizador da Bain Capital, empresa especializada em capital de risco, pouco ligava para os empregos de milhares de operários, mola mestra da economia dos estados do chamado Rust Belt, grosso modo o “cinturão da ferrugem”.

O Meio-Oeste foi a única região duramente disputada em 2012 onde a classe média baixa caucasiana preferiu Obama a Romney. O republicano terminou a noite com 59% dos votos dos cidadãos brancos, que representam 72% do eleitorado, segundo a pesquisa de boca de urna da CNN, contra 39% para Obama, O democrata recebeu, no entanto, 93% dos votos dos negros (13%do eleitorado) e 71%dos latinos (10% do eleitorado). Obama venceu ainda entre as mulheres (55% a 44%) e os mais jovens (60% dos votos de eleitores entre 18e 29 anos, que representam 19%da população, e outros 55%entre 30 e 39 anos, uma fatia de 17%do eleitorado).

Para se ter ideia de como a eleição terminou de forma menos dramática do que a esperada, até a madrugada de quarta- feira a Flórida ainda não havia anunciado um vencedor no estado. Obama ganhava, empurrado pelo impressionante contingente de votos latinos, incluídos porto-riquenhos, colombianos e brasileiros, com uma vantagem de pouco mais de 47 mil votos, ou 1%do total, em um resultado que não alteraria mais a feição política da América. Felicíssimo, o principal estrategista da campanha de reeleição do presidente, David Axelrod, dizia, minutos depois da certeza da vitória, estar pouco surpreso com o resultado. “Não quero ser arrogante, mas trabalhamos intensamente no último ano, enquanto observávamos do outro lado pretensões grandiosas, alimentadas pelo misticismo e pela fé, incapazes de criar a tal onda vermelha (a cor dos republicanos), que jamais aconteceu.”

 

Reféns do radicalismo Para o historiador Geoffrey Kabaservice, o Tea Party virou o status quo do Partido Republicano “Venceram a guerra”

O primeiro dia de trabalho do presidente reeleito Barack Obama começou com dois telefonemas. O primeiro para aqueleque exerce o cargo similar ao de presidente da Câmara no Brasil. John Boehner. O segundo para o líder da minoria no Senado. Mitch McConnell.Na pauta. o compromisso de discutir uma ação conjunta em assuntos como a redução do déficit. o corte de impostos para a classe média e a criação de-empregos. Mas há alguma possibilidade de os republicanos desistirem da estratégia de obstruir toda votação com consequências socioeconômicas elaboradas pela Casa Branca? Para Geoffrey Kabaservice. autor de Rute and Ruin: Thedownfal/ of moderation and the destruction ofthe Republican Party. fram Eisenhower to the Tea Party, considerado o mais refinadoobituário da ala moderada do PartidoRepublicano, a resposta é ‘não”.

Em entrevista a Eduardo Graça, o historiador duvida de uma movimentação para o centro da oposição aposta em um incremento do radicalismo de direita em um partido controlado pelo Tea Party e vêgrande possibilidade de os republicanos voltarem a ganhar espaço nas eleições de 2014. “Não se pode entender a vitória de Obama como um beco sem saída para os republicanos,” Segundo ele, as minorias étnicas. Exatamente como há dois anos,  tendem a não ir às umas em eleições não presidenciais,

Carta Capital: A oposição vai ter uma cara menos radical depois da derrota?

Geoffrey Kabaservice: Os republicanos podem até perceber o óbvio. que eles perderam feio o voto dos eleitores de origem latino-americana. dos negros,”> das mulheres. dos jovens. Mas os militantes argumentam que a razão pela qual Romney perdeu foi justamente a de não ter convencido o eleitorado americano. Majoritariamente conservador. de que de fato os representava. Que se os eleitores identificassem no ex-governador um candidato verdadeiramente conservador, poderia naturalmente ter conquistado a maioria dos votos.

CC: O senador Lindsey Graham, da ala moderada do partido, disse que perderia a paciência com colegas adeptos desta narrativa: “Nós não perdemos 95% dos votos dos negros e dois terços dos de origem hispânica e dos jovens por não termos sido intranSigentes osuficiente': ..

GK: Eletem certa razão. Mas a primeira reação do grupo majoritário é a de que o problema não foi a mensagem, e sim a maneira como foi embalada. Não há mais dúvida sobre quem comanda o Partido Republicano: são os ultraconservadores. A revolução do Tea Party, em 2010, acabou. Eles são o status quo, os donos do partido, venceram a Guerra Civil. Os moderados, como Graham, defendem lideranças como a do ex.· governador Jeb Bush, que tenta, com grande dificuldade, empurrar o partido para o centro. O governador de New Jersey, Chris Christie, também tem aspirações presidenciais, mas foi crucificada por causa da reação, em parceria com Obama, à destruição causada pelo furacão Sandy. De estrela da convenção republicana ele passou a traidor do partido. Os conservadores, por sua vez, seguem na tentativa de encontrar o novo Ronald Reagan para o triunfal retorno à Casa Branca.

CC: Paul Ryan candidato a vice de Romney, reeleito para o Congresso epr6cer conservador, não seria esse o líder natural da oposição?

GK: Sim, mas ele não é Reagan. Precisamos lembrar que Reagan se apresentou como candidato presidencial duas vezes, em 1968 e 1976, antes de vencer a convenção em 1980. Ele era um político experimentado, que jamais se deixou controlar pelo puritanismo conservador, fez concessões e cultivou alianças. Não vejo nenhuma figura com sua credibilidade na oposição. E o conservadorismo mudou muito. Hoje, o Reagan de carne e osso não seria suficientemente “puro” para vencer as primárias republicanas.

CC: Pode-se falar em uma onda progressista, com potencial de se estender nas eleições de meio-termo, em 2014?

GK: Os republicanos não saíram das eleições em frangalhos. Eles mantiveram o controle da Câmara Baixa, o voto popular foi bem próximo e eles não veem a reeleição de Obama coma uma rejeição clara ao ideário conservador. É um equívoco ler o resultado de ontem como um beco sem saída para a direita.

 

Crônica de uma guerra evitada

            EM JULHO de 2010, quando Fidel Castro reapareceu pela primeira vez após uma crise de saúde e quatro anos de retiro, foi para advertir o mundo, na tevê e no Parlamento cubano, sobre o perigo de um ataque dos EUA e Israel ao Irã até o fim do ano desencadear uma guerra nuclear apocalíptica. Até o fim do ano, insistiu no tema e no risco de um “inverno nuclear” condenar à fome 6 bilhões de seres humanos.

O assunto estava longe de aparecer com tanto destaque na mídia ocidental. Quem conferir o Google Trends verificará que os termos “Irã” e “guerra” estiveram associados com menos freqüência em 2010 do que nos anos anteriores e muito menos do que nos seguintes. Mas Fidel não estava caducando. Como agora ficou claro, estava muito bem informado e reagiu com a angústia de esperar do líder que, em outubro de 1962, esteve na alça de mira de outro enfrentamento que por um triz não pôs fim à civilização moderna.

Em 5 de novembro, o programa Uvda (Fato), do Canal 2 de Israel, revelou comum sólido documentário que em 2010 oprimeiro-ministro Benjamin Netanyahude fato chegou a ordenar a preparação deum ataque imediato ao Irã, vetado peloschefes do serviço de inteligência e dasForças Armadas. Na reconstrução doprograma, Netanyahu e seu ministro daDefesa, Ehud Barak, ao fim de uma reuniãocom os sete principais ministros, ordenaramaos generais Gabi Ashkenazi, chefedo Estado Maior, e Meir Dagan, chefedo Mossad, já prestes a sair, que elevassemo nível de alerta para P+, código paraataque militar iminente.

Para surpresa do primeiro-ministro, ambos se negaram. “O senhor provavelmente está tomando urna decisão ilegal de ir à guerra”, advertiu Dagan, “só o gabinete está autorizado a decidir isso.” Ashkenazi também o admoestou: esse nível de alerta “criaria um fato consumado” e tornaria o ataque inevitável. “Não se faz isso sem se ter certeza de que se vai executá-lo até o fim.” Mais tarde, Dagan disse a terceiros que Netanyahu e Barak “simplesmente tentaram surrupiar uma guerra”. Barak, entrevistado, tentou apresentar o incidente de outra maneira, insistindo em que o nível de alerta não significaria “necessariamente” guerra e que a ordem não foi vetada e sim “desaconselhada”, por falta de capacidade operacional das Forças Armadas.

Após ser afastado do cargo em novembro de 2010, Dagan fez oposição ativa à guerra com o Irã, “a ideia mais estúpida que já ouvi”, até 17 de outubro, quando fez na Bielorrússia o transplante de fígado que lhe foi recomendado após um câncer recentemente descoberto e que não conseguira nos EUA, Alemanha, India ou Israel. Ashkenazi, substituído em fevereiro de 2011, também fez campanha contra a guerra e por sanções e pressão diplomática. O próprio fato de o programa ter ido ao ar dois meses antes da eleição israelense sugere que as Forças Armadas continuam a se opor à guerra e querem mostrar que seus comandantes salvaram o país de líderes irresponsáveis, sugeriu o analista israelense Meir Javedanfar ao jornal britânico Guardian, visto que a censura militar poderia tê-lo proibido, assim como vetou que divulgasse a data da reunião. Provaveltnente foi entre fevereiro, quando a Agência Internacional de Energia Atômica manifestou preocupação com o “possível” desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, e junho, quando o mesmo Canal 2 anunciou que Dagan seria afastado. Ou seja, no mesmo período em que o então presidente Lula e o primeiro-ministro turco, Recip Tayyip Erdogan, tentaram intermediar um acordo pacífico entre o Irã e as potências.

Em 5 de setembro deste ano, Netanyahu cancelou abruptaITlente a continuação de uma reunião de gabinete com a presença dos chefes militares ao descobrir que um dos participantes vazara as divergências da véspera sobre a capacidade de Israel infligir danos sérios ao programa nuclear do Irã. Semanas depois, Netanyahu criticou o programa nuclear do Irã na Assembleia-Geral da ONU com um desenho de bomba digna do Coiote dos Looney Tunes, mas por trás da canastrice do primeiro ministro havia um recuo. Desde os últimos meses de 2011, falava em ataque imediato 9.0Irã, mas naquela ocasião mencionou a primavera ou verão de 2013 como prazo, para os iranianos alcançarem o próximo estágio de enriquecimento de urânio.

Aparentemente, os militares fizeram prevalecer o bom senso. As instalações do Irã são demasiado distantes, numerosas e bem protegidas para que Israel tente repetir 1981, quando destruiu de um só golpe o programa nuclear do Iraque. Os EUA têm capacidade para isso, mas, se recusarem, Tel Aviv pouco pode fazer. Ao lado do pouco caso pela preocupação internacional com os direitos humanos dos palestinos, as reprimendas públicas a Barack Obama ao exigir um ultimato explícito a Teerã isolaram Israel e deverão cobrar um preço, agora que fracassou sua aposta na vitória dos republicanos. Os partidários de Netanyahu receiam que Obama pague na mesma moeda e apoie a oposição nas eleições de 22 de janeiro.

Em 25 de outubro, o Likud de Netanyahu formou uma coalizão com o semifascista Yisrael Beitenu do chanceler Avigdor Lieberman e devem somar 35 a 43 cadeiras ante as atuais 42, enquanto os pequenos partidos devem manter sua atual dimensão. Pelas últimas pesquisas, o centrista Kadima, maior partido em 2009, será punido pelos dois meses de aliança com Netanyahu com a perda de quase todas as suas 28 cadeiras no Parlamento. Omesmo deve acontecer com as 5 da dissidência trabalhista de Barak. O Partido Trabalhista saltará de 8 para 20 a 24 cadeiras e o novo partido centrista do ex-jornalistaYair Lapid obterá de 9 a 15de um total de 120.

Se vencer, Netanyahu terá uma maioria estreita em um Parlamento polariza- do e estará nas mãos do extremista Lieberman, defensor da cassação da cidadania

dos árabes de Israel, que deixa de ser um aliado entre outros para ser o sócio principal no lugar de Barak. &la estatura internacional estará reduzida e o lobby sionista nos EUA enfraquecido, ao passo que Obama sai mais forte e disposto a impor sua visão para o Oriente Médio, visto que a política de sanções contra o Irã parece ter dado resultado. Se a hipótese de guerra não está definitivamente arquivada, sua probabilidade hoje parece bem melhor.

Mais-Valia

 

Ainda o coro dos descontentes

            O governo decidiu reagir, preocupado com a ofensiva dos governos estaduais, analistas e sindicatos contra a MP 579 e seus efeitos sobre a capacidade financeira das empresas elétricas. Ao buscar a redução tarifária a partir de janeiro de 2013, o governo cortou impostos e contribuições e reduziu em 70%, em média, o valor pago pela energia. O argumento do Planalto: os investimentos nas usinas foram recuperados há muito tempo, não faria sentido manter a mesma lucratividade no momento em que a renovação “caí no colo” das empresas por novo período de 30 anos sem a necessidade de nova licitação. O contra-argumento das concessionárias: existem investimentos ainda não depreciados e a “renovação automática e sem pedágio” foi amplamente praticada no setor. Dispostas a brigar na Justiça, a paulista Cesp e a mineira Cemig acionaram suas respectivas bancadas no Congresso para mexer no texto proposto. O Planalto, por sua vez, garante não estar disposto a alterar a MP para facilitar a vida das concessionárias, que de qualquer forma perderiam a concessão ao fim do contrato vigente, entre 2015 e 2017, no caso do lote de 123 usinas afetadas pela MP, além de empresas de transmissão e distribuição. As concessionárias têm até 4 de dezembro para dizer se topam as condições propostas.

 

A novela das térmicas

            Houve quem atribuísse a ativação de mais termoelétricas em meados de outubro à novela Avenida Brasil, cujo último capítulo foi ao ar no dia 19.A audiência elevada teria forçado o governo a acionar usinas a gás e a óleo, cuja energia é mais cara e mais poluente que a das hidrelétricas. Apropriada para despertar a atenção de desavisados, a tese, confirma-se agora, não se sustenta. Segundo relatório do Operador Nacional do Sistema (ONS) divulgado na terça-feira 6, o aumento da demanda em outubro decorreu de fatores econômicos e climáticos: o maior consumo industrial e as temperaturas elevadas em várias regiões do País. A alta da demanda coincide com os reservatórios das hidrelétricas esvaziados por causa da falta de chuvas. O cenário não deixou outra opção a não ser ligar as térmicas, algumas delas acionadas após o fim do drama de Carminha e Tufão. Na terça-feira 6, por sinal, foi divulgado o recorde histórico na operação das térmicas (20 usinas em funcionamento), ruim para o meio ambiente e o custo das tarifas.

 

Novos talentos apresentem-se

O corpo de jurados é de primeira: inclui Thomaz Bellucci, líder do ranking brasileiro, Eduardo Faria e João Zwetsch, o preparador físico e o capitão da equipe brasileira da Copa Davis respectivamente. A missão é singular: descobrir candidatos a Bellucci ou a Roger Federer, o número 1do mundo do tênis. Com inscrições abertas até 14de novembro, a Koch Tavares, promotora dos principais eventos do esporte no Pais, realizará no sábado 17 o seu “Caça Talentos” para garimpar, entre esportistas de U a 16 anos, aqueles de maior potencial. Marcado para as 8 horas, o evento acontecerá no Centro de Treinamento Koch Tavares, no bairro do Morumbi, em São Paulo. A premiação inclui assessoria esportiva,bolsa de treinamento e ingressos para assistir ao Gillette Federer Tour, que a Koch Tavares organiza nos dias 6, 7 e 8 de dezembro, no Ginásio do Ibirapuera

 

Cidadania em promoção

Em vigor desde setembro, o novo marco legal para requerer cidadania portuguesa espelha Beni o momento de crise na Zona do Euro, destaque para a fragilidade financeira do sistema bancário, a falta de empregos e a desvalorização dos imóveis.A partir de agora obtêm a cidadania lusa aqueles (e seus familiares) que abrirem uma conta em um banco português com saldo de 1milhão de euros, criarem um negócio que empregue ao menos 30 funcionários ou adquirirem um imóvel no valor de 500 mil euros. Antes, o valor imaginado pelo governo era de 750 mil euros por imóvel, mas roi adaptado à realidade dos novos tempos.

 

A China e a América Latina

Lançado na quarta-feira 7, China e América Latina: A geopolítica da multipolaridade (Fundação Memorial da América Latina) reúne ensaios de vários autores, entre economistas, historiadores e cientistas políticos, para destacar elementos considerados decisivos nas relações da potência asiática e a região. Organizado por Luis Antonio Paulino e Marcos Cordeiro Pires, o volume chama atenção pela pluralidade dos autores participantes, não apenas brasileiros, mas também do México, Chile e China

 

OS JUROS NEGATIVOS SÃO A REGRA

Gente graúda do mercado exercita um argumento estranhamente pueril contra a possibilidade (ou, tudo indica, a necessidade) de o Banco Central, após a pausa atual, abrir nova temporada de redução da Selic. O raciocínio desse pessoal: como o juro real projetado para seis meses está negativo, de nada adiantaria baixar ainda mais a taxa básica, pois o efeito sobre a reanimação da economia seria logicamente nulo. De qual taxa esses analistas estão falando? Não dizem abertamente, para que a justificativa não sejadesrnascarada logo de saída. Estão se referindo ao juro real líquido, ou seja, ao ganho deflacionado das aplicações financeiras depois da incidência dos impostos. Mas essa taxa não tem nada a ver com política monetária. Essa se faz com juro nominal bruto. E esse ronda 7,1% ao ano, segundo informa o contrato de swap pré/DI de 180 dias negociado na BM&F. Ou seja, para uma inflação projetada em 5,4%, o juro real é positivo, no caso de 1,7%..

Não há embaraço técnieo à deflagração de mais uma rodada de cortes da Selic. Convém fazer isso? Sem muito alarde, analistas começam a revisar para baixo suas estimativas de crescimento da economia em 2013. Consideram otimista demais a projeção de 4% de expansão do PIB ainda incorporada mediana do Boletim Focus do BC. Sussurram que será de 3,5% para baixo. O BC tem dois caminhos à sua frente: ou espera os cortes acumulados de 5,25 pontos porcentuais feitos nos últimos 12 meses, finalmente, produzirem resultados ou, dando nova redação à última Ata do Copom, decide reiniciar o movimento rumo ao juro real zero. O que faz a imensa maioria dos BCs mundo afora? Escolhe a segunda via. Estudo dos economistas Jason Vieira e Thiago Divino mostra que, de 40 países pesquisados, apenas nove pagam juro real acima de 1%. E em 23 deles a taxa bruta não repõe sequer a inflação. A média geral dos 40 é negativa em 0,4%

 

 

Contra a estupidez

            SE O SUPREMO Tribunal Federal do Brasil pedisse uma opinião a Raffaele Guariniello, promotor em Turim, na Itália, antes de decidir sobre a liberação ou não do uso de amianto no Pais, obteria a seguinte resposta: “A história do amianto é um pouco a história da estupidez humanà’. Guariniello fala de cátedra Graças à sua investigação foram condenados a 16 anos de prisão dois dos mais importantes empresários do setor, o suíço Stephan Schmidhieny, dono da Eternit, e o belga Jean Louis Marie de Marchienne. “O julgamento na Itália foi um marco histórico que, espero, a Justiça brasileira decida seguir”, afirmou o promotor a CartaCapital. “Os dados são inequívocos: o amianto causamesotelioma, um câncer mortal, mesmo em quem aspira uma pequena quantidade do produto.” Segundo a Organização das Nações Unidas, o amianto mata anualmente cerca de 110mil indivíduos em todo o mundo. No fim de outubro, o STF começou a discutir se permite o “uso controlado”, como querem os fabricantes, ou mantém as leis estaduais que baniram o produto usado principalmente em telhas.

CartaCapital: O senhor afirmai ([‘história do amianto é um pouco a história da estupidez humana. Por quê?

RaffaeIe Guariniello: Diante de provas contundentes como as que temos colhido na Itália, que mostram como o asbesto provoca o câncer, permitir, como se discute no Brasil, o “uso controlado” dessa substância em absoluto não me convence.

CC: No Brasil, ainda existem mais de dez empresas que produzem amianto, com um volume de negócios enorme efortes interesses econômicos.

RG: Nada é mais importante do que a saúde humana. Por causa disso, preparamos na Itália um segundo processo, chamado Eternit Bis, no qual nos ocuparemos também de casos de cidadãos italianos que trabalhavam na filial dessa companhia no Rio de Janeiro.

CC: O que aconteceu com eles?

RG: Voltaram para a Itália e, infelizmente, morreram pouco depois.

CC: Como o senhor conseguiu obter os dados

do Brasil?

RG: Você é muito otimista (risos). Éverdade que fiz um pedido de rogatória internacional ao Brasil, para conhecer os nomes dos trabalhadores, as condições em que lidavam com o amianto e para ter acesso aos certificados médicos com os diagnósticos de mesotelioma. Infelizmente, a grande quantidade de documentos que recebi até agora não incluem nada do que eu esperava e pedi.

CC: Em qual sentido?

RG: Na Itália criamos, por exemplo, um observatório para registrar e acompanhar os problemas de saúde dos trabalhadores que tiveram contato com o amianto. Todo médico é obrigado a informar imediatamente, por meio de um relatório, quando ele considera existir um crime relacionado com as condições de trabalho e, neste caso, um mesotelioma, ou seja um câncer de amianto. Os dados, portanto, estão disponíveis tanto para fins estatisticos, a exemplo do processo da Eternit, quanto para basear medidas judiciais. Ao lado da independência do Poder Judiciário, esta foi a arma para condenar os chefes da Eternit Infelizmente, esse sistema de controle ainda não existe no Brasil. E isso pode ser constatado a partir das respostas que recebi após meu pedido de informações.

CC: Que conselho o senhor daria para sanar essa lacuna e evitar que o amianto continue a produzir vitimas inocentes 1’10 Brasil?

RG: Meu conselho é que se focalizem nos tumores provocados pelo asbesto e, até que não haja também no Brasil um observatório sobre asvítimas do trabalho, que pesquisem nos arquivos dos hospitais nos municipios.

CC: Quantas foram as vitimas do amianto em Casale Monferrato, a cidade de 15.mil habitantes, perto de Turim, que até 1980 sediou a maior fábrica da Eternit na Itália?

RG: Identificamos até agora 3 mil óbitos por asbesto, mas o problema é que continuam a ser registradas, em média, 50 mortes por ano. Além disso, e esse é o fenômeno mais recente, há algum tempo começaram a morrer muitos cidadãos que vivem perto das fábricas e não só ex-trabalhadores. Estes, infelizmente, estão quase todos martos.

CC: Quais foram as consequências da condenação de Schmidheiny, o dono da Eternit, e de Marchienne?

RG: Infelizmente, até agora a Itália é o único país do mundo que condenou as lideranças da Eternit, que sabiam claramente sero asbesto uma substância letal. Édifícil acreditar, mas existem cidadãos como o analista Edward Luttwak, que em entrevista ao II Giornale (diário de propriedade do ex-premier Silvio Berlusconí), me acusou de pertencer a uma “casta judicial” e de representar um “perigo” para a Itália Por incrível que pareça, para esse tipo de cidadão, ao conduzir o processo da Eternit, eu contribuí para a crise econômica da Itália Ao contrário, pois espero e acredito que o processo vai servir para salvar vidas no mundo, a começar por países como China, Índia e Brasil, que produzem e utilizam o amianto em grandes quantidades.

CC: Mas os efeitos da sua iniciativa ainda continuam restritos, certo?

RG: Sim. Após a sentença, assisti a um documentário na tevê que mostrava um empresário indiano. Esse senhor, após ter “descoberto” que para os telhados das casas dos pobres as coberturas de Eternit seriam ”boas”, comprou toda a maquinaria da Fibrocit, uma fábrica para a produção de artigos de amianto em Bari, no sul da Itália, e começou a fabricar telhados de asbesto em seu pais. A minha esperança é que, em vez da internacionalização “da morte”, vença a internacionalização “da vida”, e que se faça a prevenção contra o mesotelioma e todos os cânceres ligados ao uso desse produto.

CC: O senhor tem um sonho?

RG: Mais que um sonho, tenho uma proposta: as grandes organizações internacionais, a começar pelas Nações Nnidas e pela Organização Mundial de Saúde, precisam tomar medidas para monitorar em cada um dos países membros os casos de câncer causados pelo asbesto. Alguns países já o proibiram. Espero que o Brasil possa ser o próximo. O importante, porém, é falar sobre esse tema Fundamental é informar os cidadãos. Mesmo que a batalha esteja apenas no começo, rezo para que, tanto na Italia quanto no Brasil, se lute pela vida.

 

Pintava e bordava

A ERUDIÇÃO talvez não fosse o atributo que mais lhe envaidecesse, mas sim a obstinação em experimentar. De todo modo, Aldo Bonadei (1906-1974) teimou em ambas na trajetória de pintor paulista que, na origem modesta de imigração italiana, se integrou em certa medida a companheiros do ofício chamados de artistas-operários. Tanto a expressão quanto o grupo a que se relaciona nos anos 30, o Santa Helena, tornou-se uma referência preponderante sobre esses jovens que dividiam ateliê no edifício homônimo da Praça da Sé,a ponto de sombrear características da personalidade de cada um. No caso de Bonadei, houve um antes e, principalmente, um depois inovador nem sempre evocado, aquele que alia a figura a fontes abstratas ou cubistas, para em seguida retomar a primeira, conforme lhe aprazo.

É da habilidade de estar aberto às renovações à volta que nos lembra o recente estudo Aldo Bonadei – Percursos estéticos (Edusp, 296 págs., R$ 120) escrito por Lisbeth Rebollo Gonçalves, ela mesma filha de outro operário do pincel, Francisco Rebolo. O livro trata a figura do pintor mais como homem comprometido com suas intenções pessoais do que personalidade afeita a modismos artísticos, sem se esquecer das circunstâncias que lhe foram influentes. Neste ponto, atenta a autora, o trajeto de Bonadei ganha dimensão maior por evocar a dos primeiros passos da arte moderna no País, ao buscá- -lo nas iniciativas inaugurais de salões de arte, grupos e exposições, além de novas correntes de ideias. Uma dessas deflagrações determinantes do período foi a Família Artística Paulista, espécie de agremiação formada como estratagema para dar mais reconhecimento a novas tendências e nomes novatos nos anos 30. Bonadei e outros do Grupo Santos Helena, de prática então isolada na cena cultural de São Paulo, se beneficiaram dessa vitrine.

Costuma ser desse momento o Bonadei que surge com mais evidência na memória, aquele das paisagens dos arredores de São Paulo a que se dedicava com os colegas de ateliê como Mário Zanini, Fúlvio Pennacchi, Alfredo Volpi e Alfredo Rizzotti, entre outros. Seguir essa lição básica da aula ao ar-livre dada pelo impressionismo era comum a muitos dos santelenistas independentemente de outras atividades que praticavam como decoradores de residências ou letristas.

O grupo admirava a escola francesa, mais a pintura pós-impressionista de Cézanne. No caso de Bonadei, o entusiasmo era tão forte que o vínculo serviria como ponte para a assimilação do cubismo nos anos 40, acredita a autora. Mas nessa fase, salienta Lisbeth, o pintor emprega recursos seus, como o chamado efeito funil, que minimiza elementos ao fundo do quadro, não existente na obra do francês. Bonadei não foi um autodidata efetivo como a maioria de seus pares. Assim permaneceu por seu instinto apenas quando precoce, desde a primeira tela aos 9 anos, intitulada Goiabas. Ao ter seu talento reconhecido pelo pai, este o encaminhou em 1923 ao pintor Pedro Alexandrino, acadêmico com quem aprendeu desenho e composição. A partir daí seriam alguns os nomes de professores e interlocutores influentes, como o pintor italiano Antonio Rocco, e, principalmente, Amadeo Scavone. “Com ele aprendi a pensar”, dizia do professor. Na década seguinte, de uma viagem à Itália, frequenta a Academia de Belas Artes de Florença. Exercita-se em paisagens, mas também em série de nus como Mãe Penteando a Filha (1931).A permanência de um ano é suficiente para entrar em contato com a obra de Cézanne. Ainda que não considere de imediato adotar as vanguardas mais avançadas, no dizer de Lisbeth, Bonadei assimila alguma influência do movimento dito Novecento, de renovação da arte italiana por nomes como Carlo Carrà e Felice Casorati.

Com essas duas vias, a formação acadêmica em São Paulo e as descobertas na Itália, Bonadei estará pronto para se lançar “na pesquisa da linguagem moderna’, cuja prática se dá no Santa Helena. Vem dessa influência e o gosto de quando criança a predileção pela temática da paisagem, mas também da natureza- morta e do retrato. Preferência que o livro prova sempre presente na carreira, seja nos múltiplos autorretratos e nos diversos vasos de flores, seja pontualmente nas telas Natureza-Morta, de 1951,e Composição – Garrafas azuis com cesto de frutas, de 1966, nas quais a prataria: os cristais e os tecidos nobres tão simbólicos dos acadêmicos são substituídos pelo pote de barro, as frutas populares e utensílios banais. como tinteiros e garrafas. Muitas vezes o pintor funde os dois interesses como em Vaso e Paisagem, de 1947.Essas predileções reaparecem até ao menos 1970,quando em Composição, por exemplo, se tornam vagas linhas num fundo abstrato de cores.

Da mesma maneira Bonadei procede com seus casarios, obsessão e talvez uma de suas marcas mais reconhecidas, do tempo em que pinta a Freguesia do Ó de 1931ao período de algumas obras denominadas propriamente Casario, entre os anos 60 e 70. Na primeira, a evidente inspiração acadêmica já se esmaece. Em qualquer uma da segunda série, a profundidade quase desaparece, e construções e telhados surgem em planos diversos e diagonais, na “quebra das regras da perspectiva tradicional, uma vez que nos sugere que as casas são observadas de mais de um ângulo de visão”. Num gesto extremo desse partido parece surgir a tela Paisagem Paulista, de 1972, na qual a ingenuidade de um casario de cidade ainda pacata dá lugar a um desvario metropolitano, com construções amontoadas onde, não por acaso, se perde a noção de perspectiva e aprofundamento.

A essa altura Bonadei era um pintor plenamente identificado com o cubismo, ~ mais em especial com Georges Braque, um dos fundadores da tendência e com quem a autora compara a partir de trabalhos específicos, infelizmente sem o registro visual das obras do pintor francês, Recurso que o livro fica a dever também para demais cubistas, como Juan Gris e Pablo Picasso, e mesmo Cézanne.

O espírito para o novo de Bonadei se prepara em geral mediante alguns estímulos exteriores e em relação ao cubismo não foi diferente. A vertente surge a ele em razão de acontecimentos como uma exposição de 1940 abarcando mais de um século de pintura francesa, que inclui o trio cubista, e uma nova seção de arte inaugurada na Biblioteca Municipal. Também, nessa mesma década, lhe surge a leitura do Tratado da Pintura, de Leonardo da Vinci, que a autora lembra ser fundamental para Bonadei no trato da cor e no domínio do desenho, “indispensáveis para o ato criador”.

Contudo, o interesse do pintor era fruto também pessoal e se delineava na mesma década com as experiências abstratas qiie realiza na série Impressões Musicais, nas quais relaciona ritmo e pintura por meio das modulações da cor. Naquele momento Bonadei frequentava o Grupo Cultura Musical, do psiquiatra Adolpho Jagle. Foi por convivência ampla também que se interessou pela filosofia Gestalt, a psicologia da forma. Buscas essas que não provinham sempre de um contexto erudito. Bonadei desenhou figurinos para peças da Companhia Nydia Licia e Sergio Cardoso, Vestido de Noiva e Casamento Suspeitoso, além de cinema, para filmes de Walter Hugo Khouri. Foi pioseiro em adotar a colagem de tecidos e bordados às telas “para traçar linhas e determinar relevos”. O aprendizado neste caso foi caseiro. Para sobreviver e ajudar a família, o pintor sentava-se à máquina de costura e bordava no seu ateliê que era também a oficina de sua :mãe ezn Moorna, bairro presente em suas paisagens. Talvez em poucas situações como essas fizesse valer a alcunha de artista-operário.

 

Teclados, tinteiros e agulhas        

            É PRECISO TER olhos limpos, férteis e generosos para poder enxergar as coisas. Quem diz é Ronaldo Fraga, o estilista que desde 1996 teima em ver a moda como crônica e poesia. Paradoxalmente, é por trás de lentes para corrigir 10graus de miopia, emolduradas por óculos que são extensão de uma personalidade embebida em entusiasmo, que o mineiro melhor maneja o olhar.

Tem sido assim há 35 coleções. Tem sido assim desde que o garoto nascido em Belo Horizonte se apropriou de lápis e caneta: e saiu a desenhar o mundo. Aos 11 anos de idade, com a perda precoce dos pais, ele aos 42 anos, ela aos 37, Fraga e os quatro irmãos enfrentaram tempos oblíquos.

Na busca por cursos gratuitos de desenho foi parar no Senac. “Metade da turma era formada por senhorinhas de cabelo lilás que estavam ali para aprender a desenhar as costas do figurino. A outra metade eram travestis que queriam desenhar fantasias de carnaval. As aulas eram ótimas”, relembra Nota máxima garantida, Ronaldo ganhou o primeiro emprego, figurinista numa loja de tecidos.

A experiência foi enriquecedora, “Quando abriram as portas havia umas 30 mulheres de todos os tipos na minha frente querendo que eu desenhasse roupas para casamento, batizado, velório. Por trás de cada cliente, uma história a ser resgatada Eu tinha de ouvir as entrelinhas do que elas manifestavam para desenhar o que nem elas sabiam que queriam.”

Aos 46 anos, o criador que habituou as platéias à sedução pela inteligência e pelo bom humor, alinhavados por histórias bordadas pela delicadeza, avalia que sua melhor escola foi a loja de tecidos. Fraga estudou estilismo na Universidade Federal de Minas Gerais e se especializou na Parson’s School of Design de Nova York e na Saint Martins School de Londres. Se hoje reconhece um tecido pelo aroma que desprende ao ser cortado deve a habilidade à loja. “Ali eu aprendi que a escolha da roupa é uma conquista amorosa de você com seu tempo; com seu grupo, com você mesmo.”

Com bigodes que remetem a Eça de Queirós a equilibrarem-se tesos no ar graças a um produto adquirido na terra de origem do escritor, Fraga bem parece um personagem de si próprio. A energia que transborda ao falar do ofício é temperada por inesperada brandura. O talento há muito reconhecido no Brasil e exterior passa ao largo da presunção. “Fama é uma gripe passageira. Assim como o sucesso. Paro e me projeto para daqui a 20 anos. Oque fica?” A resposta “vem revestida do sentimento que esquadrinha em cada criação. “Relações de afeto ficam, pequenas delicadezas com anônimos ficam, emoção pela arte e pela música fica.”

Se alguém de sua área lhe pergunta que leitura de moda indica, é categórico: “Leia Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade. Eles dão aula de moda no sentido de entender a marcação de um tempo, a construção de um personagem, a apropriação das circunstâncias transformadas na roupa”. Quando o assunto é cultura brasileira, aponta dois produtos bem resolvidos, música e literatura. É por esses dois vetores que sua infinda curiosidade se embrenha.

O desenho do registro de uma época faz os olhos de Fraga brilharem. “Moda é interpretação de um texto e contexto antropofágico, histórico, econômico e cultural.” Na coleção de inverno de 2005. Todo Mundo e Ninguém, homenageou Drummond. “Qual a matéria fina do poeta maior do Brasil? O tempo. O nascer, o morrer, casar, envelhecer, amar, o imponderável, tudo está ali.Por isso a poesia de Drummond é desconcertante.”

Muita gente foi atraída à loja para ver como podia ser uma roupa inspirada no poeta. Nas passarelas e nas araras, blusas, calças e vestidos cheios de lirismo e delicadeza, bilhetes do poeta estampados em camisas, resgate de antigos tecidos como filó e voile. “Essa coleção era de cores esmaecidas, em que tudo estava por um fio. Em todas as roupas havia uma árvore bordada, ora frondosa, ora seca, ora florida.”

Em A Cobra Ri (verão 2006-2007), mergulhou no rico e inigualável universo de Guimarães Rosa. Na cartela cromática, tons do amanhecer, do dia e da noite, como azul molhado de sereno. Nas peças, a fartura da fauna e da flora. A dar o norte, a frase que perpassa Grande Sertão: Veredas, “viver é um negócio perigoso”.

Entrar no universo do outro, aprender, compartilhar. Esses são seus motores. “Meu ofício é transformar o olhar. Se pararmos de fazer moda, teremos isso tudo por 400 anos. Se tiver de ser feito, que as coisas digam algo, ultrapassem os próprios limites.”

Na coleção de inverno 2013, Ô Fim do Cem, Fim …, apresentada no São Paulo Fashion Week, Fraga dá voz ao cidadão Paulo Marques de Oliveira, morador de Salinas, Minas Gerais. Esquizofrênico, ele se define como “astrofísico, teólogo e prefulgenciado” e escreveu a obra que nomeia a coleção para registrar os fundamentos do mundo. “Ao ver o livro, escrito e desenhado, que fala de astrologia a como plantar uma bananeira, linguagem oral, tudo caprichosamente feito à mão, meus olhos brilharam”, diz o designer.

De alguma forma, acredita, Oliveira se libertou pela escrita. Assim como Arthur Bispo do Rosário (Em Nome do Bispo), que o estilista levou para as passarelas em 1997, quando ainda era um nome a se firmar num meio não raro ditado pela frivolidade. “Cada um tem seu Manto da Anunciação”, garante, referindo- se à obra referencial do artista, também ele esquizofrênico, que passou a vida em tratamento.

Entre o celular que incessantemente o requisita e os e-mails que não param de brotar, Fraga encontra brechas para refletir. “Quando você escolhe um ofício, ele tem de te lapidar, te tomar mais interessante. Com meu trabalho me envolvo em projetos que amo de geração de emprego e renda com resgate cultural. Com meu ofício adentrei o universo de Pina Bausch, Louise Bourgeois, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Zuzu Angel, Nara Leão, Athos Bulcão e outros tantos.”

Fraga vive em eterno encantamento com seu país. Plasmou em roupas os assombros que viu no Pará, bebeu o Rio São Francisco e poeticamente manifestou sua preocupação com o destino do Velho Chico. “Mesmo com tanta beleza o rio padece. Entretanto, espero que o São Francisco desassombre as almas dos carcarás carregados de poder”, escreveu.

O pai de Graciliano, 9 anos, e de Ludovico, 11 anos, autodefinido :”otimista só de raiva”, vê a mecânica do mundo como uma engrenagem de causa e efeito. “O que você dá ele devolve.” As 35 coleções que deu ao mundo acabam de ser reunidas no livro Cadernos de Roupas, Memórias e Croquis (Cobogó, 300 págs., R$ 150).A depender desse incansável insuflador de alma à moda brasileira muito mais haverá. “O que move a vida é a paixão, O que nos mantêm vivos é o amor.”

 

Adriano e os caminhos do futebol

            PARTINDO DO Adriano, dá para refletir sobre os caminhos do esporte. Casos como o do Imperador têm várias faces que sempre são analisadas em separado, nunca sincronizadas, ao mesmo tempo, como elas ocorrem. Na visão geral, neste nosso momento, o jogador recebe e tem de treinar, concentrar, jogar. Produzir futebol e pronto.

o cartola trata de arrumar jogos, oportunidades de o time se apresentar, render com bilheteria e todas as fontes que cercam os clubes, marcas de todos os tipos, avidamente, sem ética nem estética. Os uniformes estão pavorosos. João Saldanha já prenunciara isso. Própria dos nossos dias, essa visão fragmentada do mundo. Cada qual cuida do seu, “salve-se quem puder”.

O calendário é atropelado logo de saída. A volta das férias engole os dias que se consegue alegando exames médicos, testes físicos etc. Interrompem a programação da chamada pré-temporada, supostamente feita para preparar um lastro, e começam os jogos “amistosos”. Quando um time perde duas ou três partidas, passa um período numa cidade afastada, tirando ainda mais o pouco convívio que as pessoas têm com seus mais próximos. E assim por diante.

Ao jogador cabe arranjar, a seu modo, como exercer sua vida com todas as urgências da sua mocidade, sendo atleta, saudável, com dinheiro no bolso e cercado dos apelos que a comunicação estimula, coerente com tudo. Admiráveis, e talvez temíveis, a coragem e a tranquilidade com que o Adriano sempre se colocou nos momentos de ser cobrado. Delicado até. Um conflito permanente ‘ou talvez uma firmeza impressionante a maneira como se situa, em meio a tamanhas tentações, reafirmando sua condição social de origem.

Sua última declaração em meio a um show de que participou ainda ressoa. “Sou da favela p …” Não se esconde sua foto com armas pesadas, não bem explicadas, sua confissão de problemas com álcool e se teme por isso. Mais uma vez se apresenta com inteireza quando declara que não terá condição de jogar profissionalmente este ano e abre mão do contrato. Afinal, não era um contrato, tão propalado, de risco? Inegável sua capacidade de decisão dentro de campo. Digo isso como reconhecimento. Demorei a me convencer do seu valor. Sempre me parecia um boxeur jogando bola. Usando bem o corpo e só. Até no Corinthians, de passagem também tão dísoutida (deve render boa causa na Justiça). Com todas as “mancadas”, no pouquíssimo tempo em que jogou, fez o gol sem o qual o “Timão” não se sagraria campeão, dirão os moralistas.

Olha o Seedorf, que beleza. No momento, penso ser exagerado seu empenho, embora reconheça autenticidade. Messi é maior e esbanja simplicidade. Talvez por isso. Sobram “jogadores-problema”. Isso ajuda a explicar o desequilíbrio dessas relações profissionais.

Vem aí a Copa do Mundo no Brasil. Além de estádios e outras obras, precisamos mobilizar as relações esportivas em todos os níveis. O Estado não pode fazer nada? Necessário aproveitar o embalo das mudanças iniciadas pela cúpula. Tenho uma admiração profunda pelos vários jogadores que, destacados em suas temporadas nos mercados mais ricos do futebol, retornaram às suas terras por um sentimento maior de Liberdade. Vi qe perto o prestígio do Luiz Pereira em Madri. Romário voltou para o Brasil no ponto mais alto de sua carreira. Estão aí Juninho, Felipe, o grande Ronaldo Gaúcho e tantos outros. Garrincha e pelé, os dois maiores, não saíram do Brasil, mesmo bicampeões mundiais.

o mesmo não se pode dizer do comportamento de “cartolas” que raspam os cofres dos clubes e deixam os jogadores com salários atrasados. Existem exceções. Ave! Na Bahia, torcedores atacam jogadores do seu próprio time. Torcedores? Dirigentes não são atacados. Blindagem e covardia. Em Belo Horizonte, criatividade. Torcida protesta contra futebol de enganação com louvação ao Neymar espetacular. Inicia-se a temporada de conclusões, a começar pelas falsas conclusões estatísticas. Jornal publica em grande reportagem: rendimento do Botafogo é melhor sem Seedorf – 56,4 x 46,6. Como se todas as partidas fossem iguais. O nome do jogo é futebol. Em meio a tanta violência, uma fotografia maravilhosa da comunidade de P:uaisópolis com seu campo de futebol preservado em meio a toda área superconstruída. O valor e o amor que o povo tem pela sua cultura. Lutem para conservar sempre. São Paulo tem outros campos semelhantes, o da Mooca mantém uma árvore no meio do campo (ainda existe?). No Rio de Janeiro, uma lei sábia não permite que se destruam campos tradicionais. Apesar de tudo, vários deles foram ocupados. Na Mangueira, o campo da Cerâmica já não tem, além de outros mais.