CARTA CAPITAL

o cineasta e o senador Pablo

Larraín filma o plebiscito que

enterrou a ditadura de Pinochet,

apoiada por Hernán, seu pai

SANTIAGO HOJE é história latente. Uma história revisitada e rediscutida desde que,no inverno de 2011,o movimento estudantil voltou às ruas para reclamar que a transição chilena em direção à democracia não acabou com o modelo econômico da ditadura, como demonstra a crise educacional vivida pelo país. Neste ano, os signos dessa transição incompleta vieram à tona, nas ruas e nas telas do cinema.

Na última quinta-feira 9, os principais circuitos de cinema do Chile estrearam o filme NO, que recria o ano de 1988,quando o país organizou o plebiscito que marcaria o fim do regime do ditador Augusto Pinochet. Exatos 60 dias antes, o centro da capital sofria com uma batalha entre familiares de vitimas da ditadura e representantes dos círculos ultranacionalistas que celebravam a cinebiografia homônima de Pinochet, exibida em uma única e restrita sessão,em um teatro local.

O contraste com o filme pinochetista é mera coincidência, diferentemente do clima gerado nas ruas da cidade pelo movimento estudantil, que, na opinião do diretor Pablo Larraín, foi estimulado pelo mesmo desejo de mudanças estruturais decisivo para o resultado da campanha retratada em seu filme. “Os chilenos sentem que o atual mecanismo de representação democrática não funciona. A ditadura evidentemente enfrentava a mesma rejeição antissistema, porém havia a tortura e a repressão, muito mais marcantes, e era compreensível que fosse o tema preponderante na transição, o que terminou postergando outros anseios pendentes até hoje”, comenta Larraín. Ohistoriador chileno Alfredo Riquelme Segóvia, diretor do programa de doutorado em História da PUC de Santiago, aponta diferenças importantes a partir da semelhança do clima social de ambas as épocas. “Hoje se está lutando por outros ideais, por mudanças mais profundas no modelo econômico, mas diante de um panorama onde existe o Estado de Direito e amplas liberdades individuais e de manifestação de ideias, apesar de certo abuso policial, o que é muito diferente de enfrentar um regime opressor que proibia e cobrava com sangue algumas militâncias políticas divergentes.” O plebiscito retratado no filme aconteceu em 5 de outubro de 1988e foi a terceira votação realizada durante o regime de Pinochet (1973-1990)para respaldar sua continuidade. O pleito terminou com 55%dos votos a favor da opção “NÃO”, que representou o início do primeiro processo eleitoral presidencial no Chile depois de 20 anos, contra 44% da opção “SIM”, que defendia a manutenção do ditador no cargo.

 

A narrativa de NO flui por meio do personagem René Saavedra, vivido pelo astro mexicano Gael García Bernal, um publicitário que volta do exílio no México para participar do plebiscito que decidiria o futuro político do Chile de Pinochet. Como principal marqueteiro da campanha opositora, seu desafio era usar esquetes televisivas como principal arma, pois a campanha nas ruas era extremamente prejudicada pelas restrições impostas pela ditadura. Era proibido, por exemplo, fazer comícios contra o governo. Para retratar os diferentes anseios populares, o roteiro de Larraín utilizou elementos de uma peça teatral que narra a vida pessoal e profissional de alguns chilenos e suas famílias, diretamente afetadas pelo sistema político que o país vivia, e como suas sensações com respeito ao regime e à votação que se aproximava variam ao longo do tempo. A obra em questão é El Plebiscito, do dramaturgo Antonio Skármeta.

Além de retratar a efervescência social na época do plebiscito, Larraín aproveita seu personagem principal para reproduzir alguns dos esquetes televisivos originais usados pelas campanhas eleitorais

do “SIM” e do “NÃO”. Eugenio Tironi, sociólogo e diretor de conteúdo da campanha opositora à ditadura

(o mais próximo, na vida real, ao personagem de García Bernal), comentou que um dos pontos fortes do filme foi saber recriar a angústia que se sentia na época com a possibilidade de vitória do “SIM”. “Toda uma geração que amadureceu politicamente naqueles  anos sabia que era o grande momento da vida e falhar teria um custo muito alto, alguns imaginavam até que poderia haver uma guerra civil se Pinochet ganhasse.” Tironi destaca o anacronismo que se observa hoje nos antigos vídeos dos seus

adversários. Para o sociólogo, sobretudo para as gerações mais jovens, que não viveram o momento histórico, “o mais impressionante do filme NÃO será a campanha do ‘SIM’, essa força que foi capaz de

defender algo que, hoje, com a perspectiva do tempo, soa inacreditável e até risível, tanto que responsáveis por ela parecem ter feito um estranho pacto de silêncio”. Curiosamente, um dos que participaram desse fracasso foi o pai do diretor, o hoje senador conservador Hernán Larraín.

O senador não aparece em nenhum dos vídeos exibidos no filme, mas foi um conhecido colaborador civil e integrante da equipe econômica no período final da ditadura.

 

Os dois evitam falar sobre suas divergências políticas, embora seja conhecido no Chile o fato de o senador ser um dos principais entusiastas da carreira do filho, que já falou da ditadura em outros

momentos. Dois dos três filmes anteriores de Pablo Larraín (Tony Manero e Post Mortem,

ambos com certo êxito no circuito alternativo brasileiro) se passavam no Chile do período  pinochetista, e sempre com uma visão crítica com respeito às violações aos direitos humanos. “E um tema que convida

a relembrar tempos difíceis que o país viveu e alguns deles mesclam boas e más recordações, mas também há espaço para as surpresas, que é a sensação que pretendo causar”, comenta o diretor.

O filme, ganhador do prêmio da Quinzena dos Realizadores na mais recente edição do Festival de Cannes, apesar de não ter feito parte da mostra competitiva, tem previsão para chegar aos cinemas

brasileiros no primeiro semestre de 2013, segundo os produtores.

 

 

A conspirata neoliberal

 

“EM TODA PARTE estamos assistindo a uma epidemia de comportamentos

criminosos e corruptos nos vértices do capitalismo. Os escândalos bancários

não representam exceções nem erros, são fruto de fraudes sistêmicas, de uma

avidez e arrogância sempre mais difundidas.”

A autor dessa declaração, poucas semanas atrás, não é um líder bolivariano ou. um jovem contestador do movimento Occupy Wall Street. Trata-se do renomado professor americano Jeffrey Sachs, economista que outrora flertou com o neoliberalismo, consultor do BM, FMI e ONU, entre outros atributos. Por sorte, Sachs não está só na batalha de ideias que ocorre, finalmente, contra o modelo econômico dominante:

numerosas vozes do mundo acadêmico e da intelligentzia internacional, protestos dos jovens, alguns governos do Hemisfério Sul e, mais recentemente, parte da Europa, fazem parte da minoritária tropa. Já é alguma coisa, mas é dramaticamente pouco para domar a fera do capitalismo selvagem.

 

Resulta particularmente perigoso é que, paralelamente, foi desencadeado um ataque sem precedentes à evolução democrática do chamado Ocidente. Nestas cruciais semanas de agosto, acho importante conferir uma leitura política, precisa e sem nuances, aos acontecimentos econômico-financeiros

europeus, de sorte a aumentar a atenção sobre os riscos deste momento, inclusive nas nossas latitudes.

O epicentro da guerra em curso – que não utiliza armas de destruição física, mas visa igualmente a férrea submissão de homens a outros homens – encontra-se hoje na Europa, com ataques especulativos furiosos contra os países mais frágeis do Euro. O objetivo estratégico, evidentemente, não é a falência

deste ou daquele país, mas o fracasso ruinoso da experiência da moeda única e do processo de integração europeia. Uma vez superado o momento agudo da crise bancária em 2008, graças ao socorro providencial dos governos centrais, o sistema financeiro neoliberal conseguiu evitar qualquer satisfação

à pressão da Administração Obama para o estabelecimento de novas regras e controles. Diante da aliança lobista entre Wall Street, a City londrina, Fundos Hedge e bancos de investimento americanos que administram, entre outros, os imensos tesouros dos paraísos fiscais, até mesmo o mais poderoso

governo do planeta teve de baixar a crista. Ainda assim, foi dado o sinal de que a política quer enfrentar o problema. Juntamente com um novo clima geral, os donos dos mercados (vale lembrar: poucas dezenas de grupos de poder multinacional) perceberam recentemente outros sinais “subversivos”, como a

vitória socialista na França e a onda de críticas teórico-ideológicas, inimaginável na fase precedente do pensamento único.

 

Qual ocasião melhor que a derrubada do Euro, para revertera própria momentânea fraquezaem um sucesso histórico?A inadequada arquiteturado sistema político e financeiroda Europa tem se manifestadode forma patente, com lutase contradições internas quepodem provocar paralisia fatal.

Resulta claro que a sobrevivência do Euro se liga de forma indissolúvel à aceleração da união

política federal, fortalecimento que representaria ameaça gravíssima para os senhores das finanças.

Por outro lado, se a zona da moeda europeia precipitar- se em uma depressão ainda

mais aguda – comprometendo a fraca recuperação americana -os donos dos mercados alcançariam

o primeiro objetivo de curto prazo: a derrota de Obama pelo reacionário integralista Romney, aliado político por definição. Uma vez eliminado o inimigo principal, seria mais fácil o ataque final à moeda

antagônica e, com essa, a definitiva humilhação do quanto resta do modelo social europeu.

Enormes lucros especulativos, dizem os especialistas, escondem- se por trás da constante conspiração de Wall Street & cia. contra o Euro. A possível explosão da União Europeia e a volta às antigas moedas nacionais, ademais, abriria pradarias a novas incursões bárbaras, com compras de bens, territórios

e almas do Velho Continente a preços de saldo.

Fantapolítica, como dizem os italianos? A realidade dos fatos nos diz que a bandidagem do capitalismo contemporâneo supera as piores fantasias.

 

A integração europeia, com todos os limites, representa um exemplo decisivo para similares processos como o Mercosul,uma experiência democrática e um modelo de pacificaçãoacompanhados por crescimento econômico e políticas sociaissem paralelo. A desgraçada hipótese de sua derrota pode

representar uma involução da civilização ocidental com consequências inimagináveis no mundo inteiro. A manutenção e possível evolução virtuosa de tal experiência enfrenta inimigos mortais e, hoje, necessita da aliança vitoriosa entre progressistas e federalistas europeus. Seria importante que os aliados destes, se existem, se manifestassem já .

 

Eles prestaram atenção?

“MENSALÃO” I Apesar da intensa especulação sobre o desinteresse dos ministros, os argumentos da defesa não foram tão inúteis

 

O ÔNUS DA PROVA é do acusador. Baseados nessa premissa jurídica, os defensores dos 38 réus

do chamado mensalão fizeram suas exposições em Brasília para tentar demonstrar os furos no relatório feito pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Também tentaram convencer os ministros do Supremo Tribunal Federal de que não se tratou da compra de votos no Congresso, mas de um esquema de caixa 2 de campanha. Do sucesso dessas duas estratégias paralelas e complementares depende o destino dos principais personagens do julgamento.

 

Apesar das especulações na mídia, paira no Supremo um silêncio significativo de que seria precipitado fazer prognósticos antes do voto do relator Joaquim Barbosa, previsto para começar na quarta-feira

15. Pelo cronograma, Barbosa teria quatro dias para ler seu voto. Os ministros rechaçam, inclusive, a percepção geral de que a maioria já estivesse com o voto pronto antes de ouvir os advogados de defesa. “Uma coisa é ter o voto estruturado, outra é ter o voto pronto. Senão, para que haveria julgamento?”, disse um ministro a CartaCapital. ”Você pode ver, durante as sessões, que todos estão tomando notas.”

Se os advogados conseguiram convencer os ministros da tese do caixa 2, só se saberá quando começar a votação. Mas os defensores tiveram, sem dúvida, êxito ao apontar falhas na acusação feita por Gurgel.

A principal delas foi desconstruir a argumentação do procurador de que os saques em dinheiro foram feitos às vésperas de votações importantes no Congresso. O advogado de Delúbio Soares,Arnaldo

Malheiros Filho, demonstrou na segunda -feira 6, por meio de gráficos, justamente o contrário: quanto mais se sacava dinheiro, mais as votações no Congresso eram difíceis para o governo. Malheiros exemplificou que nas duas votações mais difíceis do governo Lula, as reformas Previdenciária

e Tributária, a aprovação só foi possível graças aum acordo com a oposição (entrevista com o advogado àpág. 32). Segundo o advogado, a relação feita pela Procuradoria entre votações e saques,

o mais forte trunfo da argumentação de Gurgel, não é signifícativa. “O Congresso vota de terça a quinta-feira. Isso, por si só, não quer dizer nada, não dá para condenar ninguém.” Malheiros assumiu, porém, o crime eleitoral. “O procurador disse que nunca foi respondida uma pergunta: por que tudo

isso era transmitido cash, por que não se faziam corriqueiras transações bancárias? Na verdade, porque era ilícito. O PT não podia fazer transferência de um dinheiro que não tinha entrado nos livros”,

afirmou. “Delúbio é um homem que não se furta a responder por aquilo que fez, só não quer ser condenado pelo que não fez. Que ele operou caixa 2 de campanha, operou. Que isso é ilícito, é, isso ele não nega.”

 

Na mesma linha, o advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, colocou o procurador

em maus lençóis: lembrou que, ao analisar o chamado “mensalão mineiro”, o próprio Ministério Público havia excluído parlamentares do processo por entender que o dinheiro repassado pelo publicitário

mineiro a políticos, em 1998, era caixa 2, dinheiro de campanha, portanto, crime eleitoral – e já prescrito, assim como o “mensalão” do PT. E se Gurgel disse em sua acusação que Marcos Valério teria ido oferecer ao PT um esquema que já existia em Minas Gerais, por que esse seria caixa 2 e o outro, criado depois, não?

Outro ponto de destaque na defesa feita pelo advogado foi a contestação de que haveria “desvio de recursos públicos” no esquema, oriundos do Banco do Brasil. O advogado citou provas testemunhais e

documentais de que os fundos da Visanet, que repassou 73 milhões de reais à agência de Marcos Valério, eram na verdade privados, e não públicos, como acusou o Ministério Público Federal. “Não há prova de desvio de recursos públicos”, disse Leonardo, para concluir, dramático: “Marcos Valério não é troféu ou personagem a ser sacrificado em altar midiático”.

 

Na qulnta-felra 9, num sinal de que os votos dos ministros não estão de fato inteiramente prontos e de que os defensores foram eficientes em plantar dúvidas, o relator Joaquim Barbosa acabou por

perguntar a Marthius Lobato, advogado do ex-diretor do BB Henrique Pizzolato sobre os recursos do Visanet. Barbosa quis saber, primeiro, se o BB participava do fundo. Lobato respondeu que era acionista,

mas sem aporte direto de recursos públicos. O ministro perguntou em seguida de onde vinham os recursos. De um porcentual do que os clientes gastam com os cartões do banco com a bandeira Visa,

respondeu o defensor. Por último, Barbosa quis saber se quem decidia repassar o dinheiro do fundo à agência de Marcos Valério era Pizzolato. “Jamais, pois ele não era responsável”, garantiu Lobato.

Vários advogados utilizaram o termo “criação mental” para se referir às acusações do procurador, baseados na carência de provas documentais. O advogado de José Dirceu, José Luis Oliveira Lima,

foi, de todos, quem mais se apegou à tese da falta de provas, mesmo porque Gurgel, em seu relatório, reconheceu não existirem evidências da participação de Dirceu no esquema, embora o apontasse como

“chefe da quadrilha” baseado em testemunhas. “Meu cliente não é quadrilheiro e quem diz isso são os autos”, disparou o defensor do ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, que em 2005 foi cassado

do cargo de deputado federal e teve seus direitos políticos suspensos até 2015.

Oliveira Lima acusou a Procuradoria de “desprezar” provas importantes colhidas no contraditório e de ter se baseado em provas extrajudiciais, em depoimentos feitos em CPIs e em artigos de jornais.

“Foram mais de 600 depoimentos e nenhum deles incrimina José Dirceu”, disse o advogado, para quem a acusação feita por Roberto Jefferson não passou de “um bom teatro”. Ele acusou o procurador de

“fechar os olhos para os autos” e, ao final, novamente provocou Gurgel, que tinha chamado o episódio de “o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção do Brasil” em seu relatório. “O pedido de condenação

de José Dirceu é o mais atrevido e escandaloso ataque à Constituição”, disse.

O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, advogado do diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, acusou o procurador de afrontar a Teoria da Relatividade em seu relatório, porque as datas do começo do que seria a “formação de quadrilha” e a função desempenhada por seu cliente no banco não batem. “Acusá -lo é revogar o conceito de tempo. Esses empréstimos foram dados em 2003 e só

em abril de 2004 ele assumiu a vice-presidência O fato de ele ser responsável por uma instituição financeira não significa, evidentemente, que seja responsável pelos delitos cometidos no âmbito dela”, defendeu Thomaz Bastos. De acordo com o advogado, à época do chamado mensalão, Salgado era responsável pela área internacional e de câmbio do Rural.

 

Mesmo o advogado que foi considerado por todos como o que pior se saiu diante dos juízes do Supremo, Luiz Fernando Pacheco, conseguiu transmitir falhas na acusação. Segundo ele, os pedidos de empréstimo ao Banco Rural que seu cliente, o ex-deputado federal José Genoino, então presidente do PT, assinou foram considerados legais pela perícia, Outra dúvida sobre a acusação viria do advogado de João Paulo Cunha, Alberto Zacharias Toron: se o dinheiro era de corrupção, por que os acusados iam receber no banco? “Se é dinheiro de corrupção, você mandaria sua mulher ir ao banco pegar?”, perguntava o advogado aos jornalistas após a sessão. Embora com raciocínios convergentes,

os advogados dos réus não trabalharam em colaboração. Ao contrário. Havia inclusive certo clima de rivalidade entre os defensores, sobretudo entre paulistas e mineiros. Diante da expectativa de grandes performances dos paulistas, encabeçados por Bastos, apelidado de “God” (Deus), os mineiros celebravam o fato de que o conterrâneo Marcelo Leonardo foi quem fez a defesa mais elogiada, considerada brilhante por muitos especialistas e jornalistas. “É o tipo de coisa. Quando se fala que Pelé

vai jogar, cria-se uma expectativa grande demais. Aí ela acaba não se concretizando”, zombava um mineiro. De fato, houve surpresas e decepções. Muito aguardada, a defesa de Oliveira Lima

foi avaliada como técnica, mas “sem emoção”. O advogado de Genoino, de tão chateado consigo mesmo por ter sido vencido pelo nervosismo, foi embora do Supremo logo após a defesa e teve de ser consolado por colegas depois. Já o defensor de Simone Vasconcelos (secretária de Marcos Valério), Leonardo Yarochewsky, jogou para a plateia ao citar a novela das 9 da Globo. “Até a Carminha já disse que vai

processar a Rita por formação de quadrilha.” No final, citou Chico Buarque para provocar Gurgel, que havia feito o mesmo, com outra canção. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”

Entre os ministros do STF, o clima é de aparente cordialidade, exceto pelo revisor Ricardo Lewandowski, que tem, segundo assessores, apresentado um semblante “angustiado”. Nos intervalos, em vez de ir ao cafezinho com os demais, Lewandowski, acusado por Barbosa de “deslealdade” na primeira sessão por

votar em favor do desmembramento do processo, tem preferido caminhar do lado de fora da Corte. Uma das questões que podem estar incomodando o ministro é a possibilidade de que o voto do ministro

Cezar Peluso seja antecipado para que ele possa participar do julgamento. Peluso tem de se aposentar até o dia 3 de setembro, quando completa 70 anos, e votaria antes de Lewandowski, o que

não agrada ao revisor.

Caso a ordem não seja invertida para beneficiar Peluso, Lewandowski emitiráseu voto em seguida ao relator. A partir da quarta 15, o clima modorrento dos últimos dias deve mudar. A julgar pelo bate-boca na abertura dos trabalhos, gelado mesmo só o ar condicionado do plenário, que já deixou o presidente da Casa, o ministro Carlos Ayres Britto, com uma gripe daquelas.

 

“Por corrupção, o Delúbio não vai só”

Para Malheiros, seu cllente não será o bode

Para o advogado Arnaldo Malheiros Filho, defensor de Delúbio Soares, se o STFconcluir pela existência de crime de corrupção, seria impossível seu cliente ser o único condenado.

 

CartaCapital: Muitos falam, mesmo no PT,que Delúbio Soares pode ser o único condenado, que “vai sobrar para Delúbio’: Como osenhor analisa esse tipo de informação?

Arnaldo Malheiros Filho: Acho muito remota a hipótese de Delúbio ser o único condenado. A questão principal

a ser respondida é: houve ou não corrupção? O procurador·geral sustenta que sim. Nós, defensores,

sustentamos que não há provas. Se não houve corrupção, estão todos livres. Mas, se o Supremo acatar a tese

de que houve corrupção, não será só o Delúbio o condenado, já que não era ele o encarregado de compor a base de

apoio do governo. Eticamente, estou impedido de comentar a situação dos outros réus, mas, se houve corrupção,

é difícil que ele seja o único condenado.

 

CC: Como está Delúbio psicologicamente?

AMF:Tenho até inveja de Delúbio. Está muito tranquilo, confiante, sempre animado, alegre. Acho admirável.

O lado psicológico dele é muito bom. Acho que é uma coisa de temperamento, ele sempre foi assim.

 

CC: O senhor optou pela tese de que Delúbio teria cometido crime eleitoral, ou seja, pelo caixa 2.

Se condenado, ele pode ir para a cadeia?

AMF: Não, porque o crime estaria prescrito. Não cheguei a fazer as contas, mas, pelo que vi nos jornais,

tudo indica que sim. Além disso, o crime eleitoral não comporta prisão.

 

 CC: Se os ministros do STF decidirem que o que houve foi mensalão e não crime eleitoral, alguém pode ser

preso imediatamente após a decisão, como quer  o procurador-geral?

AMF: Oministro Celso de Mello enfatizou na primeira sessão do julgamento que ainda cabe recurso

ao próprio Supremo. Quando o ministro Ricardo Lewandowski justificou seu voto pelo desmembramento, disse que

seria injusto que o STFfosse o último recurso, e Celso de Mello, em sua fundamentação contrária, disse que

não, que ainda cabem recursos. Então, se ainda cabem recursos, seria ilegal se alguém fosse preso após o julgamento.

 

CC: Um de seus principais objetivos foi tentar desfazer a argumentação do procurador de que os depósitos

estavam ligados às votações no Congresso. Acha que conseguiu?

AMF: Claro, inclusive com gráficos. Nas duas votações mais importantes do primeiro governo Lula, as

reformas tributária e previdenciária, o governo só conseguiu aprovar com o apoio da oposição. A base estava

rachada, o governo precisou fazer acordo com o PFL (hoje DEM) e com o PSDB. Fez um acordo político,

como se faz em qualquer país do mundo: deu a PEC(Proposta de Emenda Constitucional) paralela

da Previdência em troca de votos. O procurador-geral, como não conseguiu produzir provas

na votação da reforma, optou pela PEC paralela, uma PEC que a oposição queria, na verdade.

 

CC: O senhor acha que para a população brasileira fazer caixa 2 na campanha é menos grave do que

comprar votos no Congresso?

AMF: Juridicamente, caixa 2 é muito menos grave do que compra de votos. Agora, se é menos grave

para a população brasileira, eu não seria o profissional mais adequado a responder.

 

Duelo no tribunal

JUSTiÇA I Como a defesa dos réus tentou se contrapor às principais teses da acusação do procurador-geral da República

 

ENTRE A SEXTA-FEIRA 3 e a quinta-feira 9 falaram no plenário do Supremo Tribunal Federal o procurador-

geral da República, Roberto Gurgel, como acusador, e os advogados dos principais réus do chamado

“mensalão”. A seguir, apresentamos uma síntese dos argumentos expostos por acusação e defesa em relação a alguns dos acusados mais notórios do julgamento.

 

JOSÉ DIRCEU

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL apoia-se nos testemunhos que indicam o ex- ministro como mentor do esquema. Gurgel argumenta que Dirceu teria beneficiado o Banco BMG para entrar no mercado de crédito consignado de servidores federais em troca de financiamentos fictícios para o partido. Segundo

o procurador-geral, o petista intercedeu no Banco Central e no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, para impedir a fiscalização de movimentações

de lavagem de dinheiro. O advogado de Dirceu, José Luís oliveira Lima, negou a existência de provas

produzidas sob o rito do contraditório “não por inércia, não por incompetência, mas porque não há provas”. Exemplifica com a citação de que a peça do Ministério Público baseia-se em provas

extrajudiciais, depoimentos colhidos durante as CPls e artigos jornalísticos. Quanto ao crime de chefiar uma quadrilha, as testemunhas demonstraram que Dirceu não perdeu os laços com o partido, mas, ao ocupar um “cargo-chave” como a Casa Civil, seria impossível prestar atenção às questões partidárias.

O ex-ministro recebeu o empresário Marcos Valério em seu gabinete assim como o fez com centenas de outros empresários no mesmo período. Sobre o crime de corrupção ativa, os testemunhos desmentem a acusação. A defesa menciona depoimentos da presidenta Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do ex-vice-presidente José Alencar, e justifica que a base aliada foi formada sem a necessidade de ir além da

política comum. Por fim, nega o pagamento de mesada para aprovação dos projetos de interesse do governo. Quanto ao depoimento de Roberto Jefferson sobre uma viagem do publicitário mineiro a Portugal como representante de Dirceu na qual teria pedido dinheiro ao presidente da Portugal

Telecom para o PT, as testemunhas desmentem o ocorrido. Para a defesa, “o pedido de condenação de José Dirceu, com base nos autos, é o mais atrevido e escandaloso ataque à Constituição Federal”.

 

 

 

JOSÉ GENOINO

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

GURGEL SUSTENTOU suas acusações em depoimentos de líderes de partidos e no relatório do Banco Central que comprovavam a assinatura de Genoino, então presidente do PT, como avalista de

falsos empréstimos tomados pelas empresas de Marcos Valério nos bancos Rural e BMG e destinados ao partido, dando o patrimônio pessoal como garantia. Para o advogado do réu, Luís Fernando

Pacheco, a denúncia não individualiza a conduta e conclui pela responsabilidade objetiva. Diz não haver provas feitas sob o crivo do contraditório e que os depoimentos contradizem as alegações  de Gurgel de que o político integrava o núcleo articulador do suposto esquema do mensalão. Por fim, Pacheco nega a existência do esquema de compra de votos de parlamentares.

Em 2002, o PT contraiu dívidas durante a campanha e enfrentou problemas financeiros. Cabia ao tesoureiro do partido, Delúbio Soares, solucionar a crise e a opção teria sido contrair empréstimos. Por ser o presidente da legenda à época, Genoino teria sido apenas o avalista desses contratos, alega

a defesa, e isto teria sido reconhecido pela acusação, que não o denunciou por falsidade ideológica.

Segundo Pacheco, o governo venceu as votações no Congresso em função da adesão da oposição, o que desarticularia a tese do procurador-geral.

 

 

 

 

 

 

 

DELÚBIO SOARES

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

ALÉM DO DEPOIMENTO de testemunhas e outros réus, o procurador-geral apresentou documentos que comprovam os saques feitos pelo então tesoureiro do PT no Banco Rural. Delúbio, diz Gurgel,

era o principal elo entre os núcleos político, operacional e financeiro do mensalão, indicando os beneficiários da propina e recebendo parte dela. Para Arnaldo Malheiros Filho, advogado

de Delúbio, os ministros do STF devem observar exclusivamente as provas colhidas durante a instrução

penal. Por falta de provas, o MP decidiu desenterrar os depoimentos da CPI dos Correios.

A defesa questiona: 1.O que Delúbio Soares obteve em troca da suposta corrupção? 2. Qual o ato praticado pela pessoa corrompida que beneficiou Delúbio? Na tentativa de provar o ato “de ofício”, o MP aponta as vitórias do governo no Congresso das reformas tributária e da Previdência. Para desfazer essa tese, Malheiros Filho se valeu de números. Primeiro, afirmou que saques próximos às datas de votação não provam nada. Sobre a reforma tributária, dos 394 depoimentos judiciais, apenas 39 disseram

conhecer Delúbio Soares e em consequência de sua atuação na vida partidária.

Nenhum disse ter conversado com ele sobre compra de votos. Dos 79 parlamentares que depuseram,

nenhum afirmou ter recebido dinheiro para votar qualquer matéria em especial. Apenas 18 admitiram receber recursos para cobrir despesas de campanhas políticas, sem qualquer vínculo com votação.

Segundo o advogado, os atos eram normais, não ilícitos. O réu, via seu advogado, admitiu o uso de caixa 2 em campanhas. Malheiros insistiu: seu cliente pode responder pelos erros que cometeu,

não por crimes de formação de quadrilha ou corrupção ativa.

 

MARCOS VALÉRIO

Acusações: três por corrupção ativa, três por peculato, uma por formação de quadrilha, uma por lavagem de dinheiro e uma por evasão de divisas.

 

TESTEMUNHOS E PERÍCIAS contábeis que comprovariam a existência do complexo sistema de corrupção do mensalão, por meio de empresas montadas por Marcos Valério e seus sócios, são o cerne da acusação da Procuradoria-Geral da República. Gurgel apontou os recursos repassados às agências do publicitário

por meio da Visanet como prova de desvio de dinheiro público. Marcelo Leonardo, defensor de Marcos

Valério, argumentou que, no caso da Visanet, existem provas documental, testemunhal e pericial que atestam que os recursos financeiros desse fundo eram privados (e não públicos), sem envolvimento

com o Banco do Brasil. A defesa criticou a PGR por se ater às provas colhidas durante a CPI dos

Correios e durante o inquérito policial, sem contraditório. Criticou ainda o conceito de crime de formação de quadrilha no Brasil, especialmente ao se referir aos crimes societários.

Sobre uma suposta correspondência entre saques bancários e votações de matérias importantes, observou que, em depoimentos colhidos em juízo, parlamentares que integraram a CPI dos Correios não apontaram qualquer relação entre saques e votos. Sobre alegações de um suposto favorecimento

da empresa SMP&B pelo deputado federal João Paulo Cunha em um contrato com a Câmara, mencionou que integrantes da Comissão de Licitação da Câmara dos Deputados afirmaram não ter havido favorecimento e que o presidente da Câmara à época não tinha qualquer influência ou controle administrativo sobre o processo licitatório. Quanto ao crime de peculato (desvio de 536 mil reais do valor previsto no contrato com a Câmara, por meio da subcontratação de profissionais pela SMP&B durante a prestação dos serviços), laudos da Polícia Federal atestam que o contrato admitia terceirização

de serviços, sobretudo na área criativa: “Marcos Valério não é troféu ou personagem a ser sacrificado em altar midiático, vítima de implacável e insidiosa campanha de publicidade opressiva, julgado

e condenado pela mídia, sem direito à defesa”, afirmou Leonardo.

 

KÁTIA RABELLO

Acusações: formação de quadrilha, lavagem de capitais, gestão fraudulenta de instituição financeira e evasão de divisas.

 

PARA GURGEL, KÁTIA RABELLO, presidente do Rural à época, como os demais dirigentes, não informou ao Banco Central e ao Coaf os empréstimos realizados e que favoreceriam o suposto esquema.

Segundo José Carlos Dias, advogado, a acusação se baseia na falsa premissa de que eram irregulares os procedimentos bancários nos três empréstimos ao grupo de Marcos Valério e ao PT. A perícia do Instituto Nacional de Criminalística da PF considerou-os legítimos, apontando razões formais e financeiras

para a concessão. A renovação do empréstimo, negociado trimestralmente para liquidação, seria outra evidência da sua regularidade. A defesa alega que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras foi

informado sobre todas as operações. E também aponta o que seria falta de provas, imprecisões técnicas e o fato de a PGR ter desconsiderado as evidências que contradizem a existência

de fraude financeira. A defesa ainda critica a omissão da acusação sobre a liquidação do Banco

Mercantil, que foi apresentada apenas em março deste ano, quando o Banco Rural recebeu 22% da massa falida da instituição. O procurador-geral acusou os executivos do Rural de pretender lucrar com a liquidação do Mercantil e, por isso, investir no suposto esquema.

 

odireito ao voto antecipado

MENSALÃO 3 I Não há nenhum vício jurídico na provável decisão do ministro Cezar Peluso de se manifestar antes da aposentadoria

 

O NERVOSISMO tomou conta da República. Os meios de comunicação, juízes, especialmente

ministros do Supremo Tribunal Federal, advogados de defesa e todos que direta ou indiretamente estão

mais ligados ao julgamento da Ação Penal nº470 necessitam serenar seus ânimos o quanto antes, para que não cometam mais atentados ao Direito e ao bom-senso. Nos últimos dias, vimos um ministro

do STF que ainda não votou no caso manifestar-se em um jornal de grande circulação nacional, que estampou matéria com o seguinte título: “Ministro contesta exigência de ‘prova cabal’”: “Querem confissão? É difícil”.

 

Não sei como não surgiu alguém também sugerindo seu impedimento. Os ânimos estão à flor da pele, isso é evidente. O ministro Cezar Peluso, por sua vez, aposenta-se em 3 de setembro, o que, para

alegria de alguns e infelicidade de outros, configura uma desgraça jurídica, pois seria impossível ele adiantar o seu voto. Há muitas bolas de cristal em regular funcionamento em Brasília ultimamente.

O ministro Peluso, processualista, foi guindado, não se sabe bem por quê, à condição de “maior conhecedor do direito penal do Supremo”? Quem lhe conferiu esse título? Não sabemos.

Pobre do ex-ministro Sepúlveda Pertence. Esse, sim, era conhecido por sua trajetória nesse domínio do Direito, no STF inclusive. Também nestes dias li uma declaração de que um colega do ministro Peluso

teria afirmado que a “antecipação de voto” seria uma leviandade. Não entendi bem o motivo da declaração. Acaso essas pessoas conhecem o conteúdo dos votos desses ministros? Como

podem dizer que tal ou qual ministro vota assim ou assado? Tendências não podem gerar certeza alguma. Só posso atribuir essas declarações, ou a maioria delas, a um excesso de nervosismo

dos colegas da família jurídica nacional. À exceção do tema do impedimento, que de fato causa revolta, os outros não parecem estar com a razão.

 

o impedimento revolta porque não há uma resposta objetiva e criteriosa no ordenamento jurídico nacional que possibilite a todos que participam do processo vetarem o juiz. A lei protege o julgador e atribui ao magistrado o direito de se declarar impedido. São poucas as causas objetivas em que ele é obrigado a sair da “cena do julgamento”. Não sou processualista e não quero comentar o tema.

Apenas lamento (como cidadão) que tenhamos chegado a essa situação em um momento tão delicado, e que o ordenamento jurídico não apresente aparentemente uma solução para o caso, como os especialistas declaram. Já em relação à antecipação de voto(s), quero discordar de tudo quanto

li até agora. O que há é, além do desconhecimento do assunto de alguns, o terrorismo ou

partidarismo de outros ao comentar o tema de cunho eminentemente técnico. Ocorre que parecem turvar a mente e os olhos de várias pessoas interessadas no caso os seguintes fatos incontestáveis:

a aposentadoria do ministro Peluso em 3 de setembro e o direito constitucional de os ministros se manifestarem, votarem após a conclusão da fase inicial. Tenho como fase inicial a leitura

das alegações finais, as sustentações orais e o voto do relator e, eventualmente, do revisor.

Explico-me. Na imensa maioria das ações em todo o Brasil (de natureza cível,

penal, tributária, previdenciária ou administrativa), há um ritual antigo repetido

desde tempos imemoriais em todos os tribunais do País. Depois dessa fase inicial, declarao voto o relator do processo. À ocasião já se estabeleceu o contraditório constitucional e as partes apresentaram tudo que podem. Não há mais nada a fazer. O processo se exaure para as partes. Nada mais é possível

inovar em termos de provas e posições no julgamento. Em alguns tribunais, e é o caso do STF, há a figura do revisor (como o nome sugere, alguém escalado para “conferir”, ajudar o relator em seu trabalho).

A revisão é, na maioria das ações, quase uma exceção, tanto que só existe em alguns casos, no STF: a) ação rescisória; b) revisão criminal; c) ação penal originária; d) recurso ordinário criminal; e) declaração de suspensão de direitos do artigo 5°, VI, evidentemente para garantia das partes a um processo equilibrado, justo, equitativo, o quanto possível devido (devido processo). Assim me parece, com todo o respeito às posições contrárias, não haver qualquer impedimento à antecipação de voto de qualquer ministro em qualquer julgamento. Não há nesse ato nenhum vício jurídico, ético ou desrespeito aos

colegas. A matéria é regimental. Diz o artigo 135, parágrafo 1°,do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal: “Concluído o debate oral, o presidente tomará os votos do relator, do revisor, se houver, e dos outros ministros, na ordem inversa de antiguidade. § 10 Os ministros poderão antecipar o voto, se o presidente autorizar. § 20 Encerrada a votação, o presidente proclamará a decisão”. Aparte final do dispositivo já se me afigura de duvidosa constitucionalidade. É certo que o presidente, em toda sessão de

julgamento, mantém a ordem e o poder de polícia,mas não pode impedir nenhum ministro de votar. Quer se respeitar, é certo, a ordem de antiguidade, dirão alguns. É natural, pois o tempo de casa, a experiência, aconselha que sejam ouvidos, primeiro, os mais jovens no tribunal, a ordem inversa da antiguidade. É um critério. Pode-se até discordar dele. Pode- se sustentar, inclusive, o oposto também

com boas razões. Primeiro, os mais experientes e, depois, os novatos. Tudo depende do que se quer privilegiar. Isso não afeta a essência do julgamento e a livre deliberação de cada juiz, de cada ministro

que forma o colegiado.

 

Claro que um ministro pode, ao ouvir a posição do colega, alterar o seu voto antes do fim do julgamento. Isso é possível, mas é fenômeno raro em casos em que os ministros já estudaram exaustivamente as provas e ouviram os principais atores do processo, compulsaram os autos, ouviram

os advogados, a defesa e a acusação, o relator e até o revisor. A ordem do julgamento, a apresentação dos votos, salvo melhor juízo, não é matéria substancial. Substancial é o colegiado. É a livre manifestação

de todos que compõem o plenário, todos não impedidos, note bem. O resto, com todo o respeito, é firula, é questão de nervos à flor da pele. É questão que se resolve com Maracugina, que parece andar em falta nas farmácias de Brasília. Não vejo, sinceramente, qualquer impedimento para o ministro Peluso adiantar

seu voto, salvo, evidentemente, se ele não quiser, mas aí não há nenhuma razão jurídica, só mesmo convicções de ordem pessoal ou tema de foro íntimo, ou de apego exagerado à ritualística.

 

 

Conflito sem

fronteiras

SíRIA I Mesmo sem bombardear o país, os ocidentais participam da guerra civil de todas as maneiras possíveis. E o embate étnico-religioso se agrava

 

AS DESERÇÕES do primeiro- ministro, de políticos, dezenas de militares, integrantes dos serviços de inteligência e diplomatas revelam que a cúpula de Bashar al-Assad, e por tabela seu regime,

está à beira do precipício. Mas quanto tempo ele conseguirá se manter no poder? Semanas, meses, anos, respondem diferentes estudiosos de relações internacionais. Na elegante Alepo, cidade mais

populosa e rica do país, situada ao noroeste, trava-se a “mãe das batalhas”. A queda de Alepo significaria o fim de Assad. Lá, desde 20 de julho, voluntários do Exército Sírio Livre (ESL) se batem contra forças

regulares pela conquista de cada casa, cada rua. Nesta cidade, outrora a segunda do Império Otomano, onde a maioria dos habitantes é sunita e de classe média, um bairro em particular, Salaheddin, simboliza

o bastião da resistência contra o regime do alauíta xiita AI-Assad. Na quinta-feira 9, os rebeldes sírios

deixaram o disputado bairro. Os bombardeios descomunais de veículos blindados, da artilharia e aviação em Salaheddin e em outros bairros da cidade forçaram o ESL a “realizar um recuo tático”. Recuos

não deixam de ser uma tática importante, inclusive no caso de guerrilha urbana, mas neste caso, tem-se a impressão de que a medida pressupõe uma longa guerra.

A vitória ou derrota dos rebeldes em Alepo, onde morrem em média diária 200 pessoas, não é a única maneira para se colocar um término nessa guerra. Sua queda em mãos rebeldes seria simbólica,

mas não decisiva, escreve Pierre Sawaya, do diário libanês L’Orient Le Jour. E mesmo se os rebeldes conseguissem torná-la independente da Síria, Damasco e outras regiões do país poderiam continuar nas

mãos de Assad. Alepo poderia se tornar a capital dos rebeldes à imagem de Benghazi,

na Líbia. Ademais, a cidade fica a apenas 100 quilômetros da porosa fronteira com a Turquia, país aliado dos Estados Unidos que apoia os rebeldes com armas.

 

A deserção do premier sírio Riad Hijab no domingo também não é decisiva para o fim de quatro décadas da dinastia Assad. No entanto, ela foi bastante significativa porque, como é o caso de todos os

desertores a precedê-lo, sua confissão é sunita. Em troca de cargos e regalias, a elite sunita aceitou integrar um governo dominado pelo pai de Bashar, Hafez. A família dirigente é, vale enfatizar, aluíta

xiita, confissão a representar apenas 10%da população do país. Até o início das manifestações, 17meses

atrás, essas divisões religiosas não pareciam ser problema na Síria. No entanto, pouco a pouco, a guerra civil revelou- se sectária – e não diferente daquela entre sérvios cristãos ortodoxos, e bósnios

muçulmanos, no início da década de 1990. Ocorre que os privilegiados sunitas da elite, como Riad Hijab, se deram conta do seguinte: as armas pesadas de AI-Assad miram sunitas como eles. Hijab é rebento do regíme de Hafez al-Assad. Ocupou cargos de governador e ministro. Nomeado premier apenas dois

meses atrás, ele não havia percebido a chacina perpetrada contra sunitas pelo governo que serviria? Hijab realizou que Assad, cedo ou tarde, provavelmente estaria fora do poder, e, por isso, desertou.

Segundo o vespertino francês Le Monde, Hijab sustenta não ter tido a opção derecusar o cargo de premier em junho de2012. Caso contrário, ele teria terminadoseus dias como um de seus predecessores,o qual teria se suicidado em circunstânciasnebulosas em maio de 2010. Eis outra

confissão extraordinária de Hijab: desde o momento em que assumiu o cargo de premier, esteve em contato com o Exército Sírio Livre. Seu objetivo era receber proteção e apoio logístico para desertar.

 

Não surpreende o fato de Hijab ter buscado refúgio na Jordânia, para, em seguida,

rumar para o Catar. Minúscula monarquia, Catar está em fina sintonia com a poderosa Arábia Saudita, berço do wahabismo e inseparável parceira de Washington que promove e financia movimentos fundamentalistas em todo o mundo árabe, inclusive na Síria. Entre os rebeldes constam grupos

como a Irmandade Muçulmana e a Al-Qaeda, com a qual mais uma vez os EUA estão cooperando.

O cinismo no mundo de relações internacionais (há quem prefira termos como realpolitik) é latente. AI-Assad, com o sangue frio de um tirano, é capaz de deixar 19 mil conterrâneos morrerem numa guerra civil. Hijab não é diferente. Nem facções oportunistas entre os rebeldes, um verdadeiro saco de

gatos. Ao contrário do Magreb, onde os países são relativamente livres uns dos outros, o Levante é uma região nas quais as políticas de países como a Síria e o Libano não podem ser dissociadas. Damasco situa-se no epicentro do Levante, como era conhecida essa região do Oriente Médio nos tempos do

Império Otomano, e englobava vários países: Líbano, Israel, territórios palestinos, Jordânia e Iraque. Religião e etnia sempre foram problemas sérios e guerras jamais escassearam. Mas, como

defende Pascal Boniface, especialista francês de Oriente Médio, a questão central na região sempre foi a luta entre os territórios palestinos e Israel. O quadro geopolítico sofreu uma alteração importante a partir da revolução de 1979 no Irã. Hafez ai-Assad aliou-se ao líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini.

União no mínimo estranha: um laico árabe e socialista com um persa e líder islamita. Mas eles tinham um inimigo comum: Saddam Hussein. Ambos os países concordaram em monitorar os passos de Israel e dos Estados Unidos. Mais: passaram a apoiar os grupos Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica. Portanto, Irã e Iraque, onde predominam xiitas, preferem manter Assad no poder. Para comprovar esse sólido elo, nesta quinta-feira o Irã organizou uma reunião sobre a crise na Síria para propor um acordo de paz como aquele de Kofi Annan, o mediador da ONU e da Liga Árabe que renunciou ao cargo esta semana.

Entretanto, na terça-feira 7 AI-Assad recebeu Said Jalili, emissário do Guia Supremo iraniano – o aiatolá Ali Khamenei -, o qual se mostrou belicista: diz estar pronto a arrasar a rebelião contra o regime

sírio – e contra qualquer invasão externa (leia-se EUA).No entanto, não se sabe ainda se os 48 iranianos presos por rebeldes sírios são peregrinos, como alegam os iranianos, ou guardas republicanos iranianos

a serviço dos dirigentes sírios.

 

Da mesma forma, Rússia e China veem a Síria como sua última esfera de influência no Levante. Portanto, esses dois países, integrantes permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, vetarão qualquer iniciativa de invasão por parte de forças estrangeiras. Por sua vez, Arábia Saudita, Catar e Turquia, com a bênção dos EUA e da União Europeia, querem o fim de Assad. Nesse contexto,

outra aliada de Washington, a mais próxima delas, Israel, gostaria de ver o fim de Assad. O motivo? O elo entre Teerã e o Hezbollah no Líbano seria rompido. O objetivo-mor, óbvio, seria neutralizar o Irã na região. Além disso, Tel-Aviv teme uma transferência de armas químicas da Síria para o Hezbollah. Nesta semana, contudo, Israel foi reconfortado: o exército egípcio matou 20 ativistas fundamentalistas

que haviam, por sua vez, exterminado 16guardas de fronteira do Sinai (península restituída ao Egito por Israel em 1979),cujo objetivo era atacar Israel. Mohammed Morsi, o presidente egípcio

da Irmandade Muçulmana, provou ser favorável a uma estabilidade regional. E foi corajoso. Morsi, afinal, havia estado na Palestina com a liderança do grupo Hamas (considerado grupo terrorista por

Israel e pelos EUA),menos de duas semanas atrás. Em seguida, liberou o ingresso de palestinos ao Egito, fato inédito desde 2007, quando o Hamas venceu as eleições

em Gaza e as fronteiras com Israel e Egito, então presidido por Hosni Mubarak, foram bloqueadas. No entanto, após a morte dos 16 guardas egípcios de fronteira, Morsi mandou fechar todos os túneis

entre o Egito e a Faixa de Gaza. O Hamas condenou o ataque, e há quem diga que

eles não tenham nada a ver com eles, embora Israel, como sempre, duvide.

 

De qualquer forma, a mídia internacional tem abordado o conflito sírio como uma luta pela liberdade. De fato, num primeiro momento uma vasta maioria da população reivindicou, como em outros

protestos da chamada Primavera Árabe, melhores condições de vida e mais liberdade.

Como no Magreb. Pouco a pouco, os manifestantes sírios transformaram-se em grupos de guerrilheiros. Ocorre, como dito acima, que agora a Síria atravessa uma guerra entre religiões e etnias.

No entanto, a atual guerra não é mais pela liberdade de um povo, ela é regional. Os países conservadores do Golfo Pérsico e a Turquia, apoiados pelos Estados Unidos e por alguns países da União Europeia, estão a intervir com a ajuda de paramilitares da CIA. Enquanto isso, na  França, principal interventor na Líbia, reina um grotesco entrevero entre o ex-presidente Nicolas Sarkozye seu sucessor

François Hollande. Num inusitado gesto de diplomacia paralela, Sarko chegou até a ligar para os rebeldes. A Síria é diferente da Líbia. À parte o apoio de Teerã a Damasco, existem armas

químicas na Síria – e a oposição está dividida. Óbvio é isto: embora não estejam bombardeando a Síria como o fizeram na Líbia, os ocidentais têm impacto na guerra civil de todas as maneiras possíveis. Enquanto isso, o genocídio, ou a tentativa de limpeza étnica, à imagem da Bósnia, continua na Síria.

Mas desta feita o cenário é pior: poderá  se transformar num conflito global.

 

 

o talentoso Valterino

ITÁLIA I Quadrilheiro, extorsionário, proxeneta, comerciante de peixe no Brasil, Lavitola chantageia o ex-amigo Berlusconi

 

“VOLTO E vou chutar a sua b…” Esta frase caberia na boca de alguma das inúmeras prostitutas

que Silvio Berlusconi paga para dormir em suas residências, incluindo muitas brasileiras, pelo

menos 19, segundo a Justiça italiana.  Mas quem ameaça o ex-premier é Valter Lavitola, 46 anos, autor de pregressas façanhas, algumas praticadas no Brasil. A revelar a ameaça ao lado B de Berlusconi

para alegria da mídia peninsular, embora os jornais, revistas e tevês de propriedade do ex-primeiro-ministro a tenham  obviamente ignorado, foi a própria irmã de Valter (Valterino para os amigos),

Maria, em depoimento aos promotores de Nápoles. Valterino no momento veraneia na cadeia, de onde, por meio da irmã, saboreia os efeitos da sua chantagem. Três dias depois das revelações de Maria,

seu irmão retornava à Itália, depois de passar oito meses foragido no Brasil, na Argentina e no Panamá. Era esperado pelos carabinieri e pela prisão de Poggioreale, perto de Nápoles.

 

“Temos de falar com o anão maior (Berlusconz)”, desabafou em conversa com Lavitola meses atrás Carmelo Pintabona, presidente da Federação das Associações Sicilianas na América do Sul, e integrante

do Movimento para a Autonomia da ilha, fundado por Raffaele Lombardo, o ex-governador da Sicília afastado do cargo por suas ligações com a máfia ”Uma vez que estiver fora (Berlusconi da chefia do governo), temos de sentar à mesa para jogar briscola, e é certo que ele vai perder”, continuava

Pintabona há mais ou menos um ano. Seria um jogo de 5 milhões de euros. É o preço da extorsão que custou a terceira ordem de prisão a Lavitola, a 3 de agosto passado. Com a mesma acusação,

Pintabona também foi preso. Os promotores napolitanos Henry Woodcook e Vincenzo Piscitelli verificaram o valor da extorsão, apresentado em uma carta redigida no computador de Lavitola no

Panamá e enviada para uma caixa de correio eletrônico, da qual os atuais presos possuíam a senha.

O que Valterino sabe para se habilitar ao chute nos fundilhos do ex-premier? Resposta a esta pergunta é o principal objetivo do procurador-adjunto de Nápoles, Francesco Greco. O magistrado explica como as investigações que levaram  à prisão da dupla consideraram a conduta de Lavitola após o início da sua

fuga para a América do Sul, e o “apoio logístico, operacional e financeiro” que recebeu nesse período. Segundo Greco, para os promotores fica claro que, durante a clandestinidade, Lavitola teve o apoio

fundamental de Pintabona e pediu dinheiro a Berlusconi. Além disso, os policiais italianos também coletaram informações úteis sobre a venda de bens imobiliários de Lavitola no Brasil.

A relação de Lavitola com Berlusconi  é antiga e no mínimo estranha. Mas quais são os outros segredos de Valterino? Maçom, Lavitola completa 18anos e já ingressa na loggia maçônica Arete. Seu pai, Giuseppe, além de ter sido vice–prefeito de Nápoles, foi também psiquiatra de Raffaele Cutolo, o poderoso chefão da Camorra nos anos 70. Valterino torna-se jornalista, cultiva, porém, ambições políticas. Nos anos 80, aproxima-se dos socialistas liderados por Betino Craxi (foragido da justiça italiana

depois do caso Mãos Limpas, e falecido na Tunísia em 2000). Em seguida, cai nos braços de Berlusconi.

 

o contato com o Brasil começa em 2004,  quando valter chega para administrar uma firma para o comércio de peixes no estado do Rio de Janeiro.  A Empresa Pesqueira da Barra de São João Ltda, cujo

número de registro junto ao Banco do Brasil é TA495548, carrega uma história bastante peculiar, pois mesmo tendo sede tem nosso país, não se interessa pela fauna marinha do Sul do Atlântico, segundo o

Comere dellaSera, e sim mediterrânea, incluindo “crustáceos, moluscos e de tudo um pouco”. Outras fontes afirmam o contrário, referem-se à pesca no Espírito Santo, e 90% da exportação dirigia-se para a

Europa, enquanto 10% abastecia os Estados  Unidos. Ninguém sabe onde fica a verdade, o certo é que hoje Lavitola não administra mais a pesqueira.

Como publicado na página 68 da Seção 1 do Diário oficial da União de 6 de fevereiro de 2008, Lavitola recebeu o visto permanente para ficar no Brasil. Fontes que pedem o anonimato sustentam que os negócios de Lavitola no Brasil e no Panamá foram irrigados por 3 milhões a 5 milhões de euros cada mês,

entre 2004 e 2009. Dinheiro de quem? Em maio de 2009, a pesqueira de Lavitola recebeu certamente 300 mil euros, aprovados pelo Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e da Gestão de Informação do Banco do Brasil como “importação financiada”. O mesmo aconteceu em julho de 2009, na

transferência de outros 300 mil euros da Itália para o Brasil. O início das vicissitudes de Lavitola

coincide com a primeira visita de Berlusconi ao nosso país, em junho de 2010. Na ocasião, Lavitola contratou a dançarina de pole dance Alexandra Valença, e outras cinco garotas, frequentadoras do Café photo. O inesquecível show no “privé” do hotel Tivoli Mofarrej, acompanhado de numerosa delegação oficial italiana, foi inteiramente organizado por Valterino. Depois da noitada, Lavitola deixou o

Brasil para acompanhar o premier ao Panamá, onde foi recebido com todas as honras pelo presidente Ricardo Martinelli, amigo íntimo de Valterino. De acordo com a Justiça italiana, que em poucos meses já emitiu ordens de prisão contra Lavitola por corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro,

chantagem e difamação, Lavitola entregou várias maletas de dólares para Martinelli e lhe ofereceu férias na Sardenha, na célebre Villa Certosa de Berlusconi, em agosto de 2011.Tudo isso em troca de um

contrato de 176 milhões de dólares para construir presídios e vender radares a preços inflados, por meio do colosso industrial italiano Finmeccanica, que Lavitola representava no Panamá. Ao cabo, a troca não deu certo e também no Panamá vieram à tona as maracutaias de Lavitola.

 

Traço de distinção

DESICiN I Conferir personalidade a empresas e ambientes públicos é a expertise do arquiteto João Carlos Cauduro

 

OS BANCOS BTG e Pactual estão juntos desde 2009, mas foi neste ano que a maior novidade das finanças

brasileiras decidiu criar uma identidade visual capaz de refletir a vida da companhia pós-fusão.

Resultado da inventividade de uma das consultorias pioneiras do design de marca, a saída encontrada pela Cauduro Associados foi acompanhar o movimento do mundo dos negócios. Os dois

logos originais foram alinhados em um mesmo campo, abandonou-se o fundo escuro onde estava inscrita a sigla BTG, com maior destaque para o nome do banco. Agora apenas um estilo de fonte é usado na composição.  Consultor de, vá lá, branding, como se diz no mundo da publicidade, o arquiteto

João Carlos Cauduro e sua equipe navegam por esses meandros há tempos: 45 anos, no caso de Cauduro, desde sua formatura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Detalhes nada triviais

para quem é do ramo. No caso do BTG Pactual, a ideia também foi ressaltar as melhores características dos logos originais. Detalhe do detalhe, diria o leigo, mas não é de outra forma que as coisas

se dão nessa seara. Referência há décadas na área, um portfólio peso pesado, Cauduro mergulhou

nesse mundo quando o design de marcas ainda engatinhava. Calcular o valor intangível das companhias não fazia parte do dia a dia das empresas quando os controladores do Grupo Villares, então um gigante da metalurgia nacional, quiseram incorporar à sua imagem as quatro divisões de negócios: aço, elevadores, equipamentos e peças. O conglomerado pressentiu que devia repensar a sua identidade e, para isso, seria necessário ver a marca como um “sistema”, não mais como mero carimbo de

propriedade. O conceito final, apresentado à empresa por Cauduro, à época parceiro de Ludovico Martino, de quem seria sócio por vários anos, foi considerado revolucionário. A família comprou a

ideia e deu espaço ao espírito empreendedor dos jovens arquitetos.

 

“Verifiquei que a ideia de ver o conglomerado como um todo não existia nem na marca nem na prática”, relembra Cauduro. O projeto dos quatro logos semelhantes e da sinalização igualmente uniforme

não combinava com a evidente identidade própria das divisões. Quando a Villares decidiu unificar de fato a gestão das quatro unidades, Cauduro propôs a marca única, em preto e branco, uma forma de facilitar a pintura em diferentes meios, como os caminhões das companhias. O signo de comando seria seguido da palavra Villares e a divisão das empresas ficaria em segundo plano. “Foi nossa grande escola”, diz o arquiteto, hoje com 77 anos. Quando topou com o case pioneiro, Cauduro acabara de voltar de uma pós- -graduação na Itália. “Lá, entrei em contato com uma linguagem visual nova e voltei querendo muito trabalhar com isso.” No rol de clientes, a Vale destacou-se a partir de um investimento de 50 milhões

de dólares para mudar a sua marca em 2007, uma década após a privatização. O grupo de trabalho de Cauduro foi contratado para construir a nova cara da ex-estatal de mineração. “Amarca reflete a essência.

Se a empresa muda, ela também tem de mudar. Começamos pesquisando qual era a missão da companhia, seus valores, tudo que deveria dar subsídio ao seu novo visual”, conta Carlos Dranger,

diretor da Cauduro Associados. Foram quatro meses de trabalho intenso. “Percebemos que a atividade de mineração era vista com ressalvas, por ser extrativista. E buscamos enfatizar os produtos viabilizados pela Vale, mas que estavam no dia a dia das pessoas”, diz Dranger  Sai de cena o peso do minério de ferro, entra em campo a leveza de um “aparelho” para corrigir os dentes de uma menina.

O antigo logo inspirado na bandeira  brasileira foi deixado de lado. A Vale queria ser global, ainda que o “verde-amarelo”  tenha sido mantido. “O formato do novo logo pode ser associado ao V de Vale,

mas também aoV de vitória. Tem gente que vê um coração, outros veem o símbolo do infinito. E outros, os morros de Minas”, diz Dranger. O novo visual se impôs amplamente. Foi aplicado nos trens usados para transportar o minério de ferro, com uma pintura mais chamativa como medida de segurança,

nas minas, que ganharam totens brancos de sinalização, sinônimo de limpeza, em todo o material de comunicação e uso interno distribuído no mundo. “A marca está em todos os lugares”, resume.

O trabalho de Cauduro não se limita à esfera empresarial. O fato de ter criado a sinalização da Avenida Paulista e nova cara para os trens de São Paulo tornou-se a menina dos olhos do arquiteto, inclusive

porque o design de ambientes é considerado peça-chave. Foi Cauduro quem trouxe à via-símbolo da cidade, em 1973, os postes de uso múltiplo, aqueles totens negros de 7metros de altura que reúnem toda

a sinalização de trânsito, únicos em toda a megalópole. “Pensamos como a Avenida Paulista poderia ser mais informativa sem ser poluída. Unificar o suporte da  sinalização foi uma solução para atender

pedestres e motoristas”, diz Cauduro. Nem tudo do projeto original foi mantido ao longo do tempo. Estruturas como os pontos de ônibus foram modernizadas, e, sintomaticamente, os espaços reservados

às vendedoras de flores e aos pipoqueiros acabaram sendo licitados e entregues a empresas, que não gostaram do modelo aberto ao público e as cercaram de vidro.

 

Cauduro lamenta as alterações constantes dos vários governos municipais. “As pessoas não sabem andar de ônibus em São Paulo, é uma cidade complexa.” Seu último projeto foi o de redesenho da

marca da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O uso da cor vermelha foi a solução para estabelecer a identidade entre os diversos tipos de trens e as estruturas das estações. pioneirismos à parte, o design de marca tem uma história recente. Foi apenas após os anos 1980 que as empresas passaram a olhar além dos seus produtos físicos. “As companhias começaram a repensar

suas características e como gostariam de ser vistas, o que hoje é essencial”, diz Daniela Khauaja, coordenadora de marketing da ESPM. Para a professora, a compra da Kraft Food pela Philip Morris, em 1988,por um valor bem superior ao indicado no balanço da empresa de alimentos mostrou a existência de um ativo a mais que não podia ser ignorado. “As empresas viram que a marca valia muito dinheiro”, diz a

especialista. Mas ainda com pouca repercussão no exterior, ao contrário da Vale. “Quase não há empresas nacionais nos rankings de sucesso no mundo. Elas não são conhecidas, o que influencia muito

as exportações em um tempo em que os produtos são cada vez mais similares.”

 

 

 

À cata de marcianos

THE ECONOMIST I o pouso em Marte da Curiosity, maior e mais sofisticada sonda exploratória enviada ao espaço, retoma a busca por vida extraterrestre

 

SE OS MARCIANOS existem, qualquer um que esteja perto da cratera Gale no equador de Marte vai ter uma surpresa. Na segunda-feira 6, uma sonda-robô movida a plutônio, do tamanho de um carro, foi depositada em sua superfície. É o Laboratório de Ciência de Marte (MSL, em inglês) da Nasa, a maior e

mais sofisticada sonda exploratória enviada a qualquer região do sistema solar. Ela vai a Marte por vários motivos, mas a parte mais divulgada da missão é continuar a caçada por sinais de vida extraterrestre.

Passados 36 anos da chegada dos robôs Viking americanos, projetados para ver se o solo rochoso marciano abrigava micróbios alienígenas, os astrônomos ainda não têm certeza se o planeta foi habitável algum dia.O consenso é que a missão Viking nada encontrou. E Marte certamente é um lugar inóspito. As temperaturas podem cair a menos de 100 graus, muito abaixo daquelas da Antártida, e a atmosfera extremamente fina não ajuda a atenuar a radiação solar que bombardeia uma superfície tão seca como qualquer deserto da Terra.

 

Existem motivos para se acreditar que o planeta vermelho nem sempre foi árido. Dados de missões anteriores deixaram os cientistas planetários convencidos de que em um passado distante Marte foi muito

mais úmido que hoje.Aágua é amplamente considerada essencial para a vida, graças às suas propriedades de solvente. Uma atmosfera mais densa, menos erodida pelo vento solar, poderia ter permitido que grandes corpos de água persistissem por longos períodos na superficie ou perto dela.

Isso poderia ter bastado para a vida começar. Ageologia sugere que a vida primitiva,

ao menos, começa com relativa facilidade. Os primeiros vestígios de organismos vivos na Terra datam de 3,8 bilhões de anos, não muito depois de o planeta esfriar o suficiente para que a água líquida

se condensasse, e pouco depois do Bombardeio Pesado Tardio, uma chuva de meteoritos que durou centenas de milhões de anos, começasse a se atenuar. Alguns cientistas, inspirados pela descoberta

nos anos 1980 e 1990 de “extremófilos”, bactérias que toleram facilmente um calor escorchante, pressão esmagadora, radiação de fritar e outros insultos na Terra, mantêm esperanças de que alguns

marcianos empedernidos possam existir ainda hoje, talvez abaixo da superficie. Nesse caso, nem mesmo o Curiosity, como é chamado o robô, tem probabilidade de encontrá-los. Ele carrega instrumentos

de alta tecnologia, entre eles, um laser para vaporizar rochas (para melhor analisar sua composição química) e uma furadeira para sondar abaixo da superfície para explorar o registro químico e buscar qualquer molécula orgânica que possa ter sobrevivido. Também examinará a atmosfera, prestando especial atenção aos níveis de metano, que alguns cientistas pensam que podem ser altos o suficiente

para sugerir algum tipo de atividade metabólica. Se ele encontrar provas convincentes de que um dia Marte pode ter sustentado vida, seria uma grande descoberta e levantaria esperanças de futuras

missões destinadas a procurar explicitamente células vivas, como o robô europeu ExoMars. Mesmo que o Curiosity não encontre nada, há outras possibilidades no sistema solar: Enceladus, a lua de Saturno,

por exemplo, parece ter um oceano subterrâneo rico em compostos orgânicos.

 

Mas, hoje em dia, a busca por mundos habitáveis não se limita ao sistema solar. Em 28 de julho, a Nasa divulgou a última série de dados de seu telescópio espacial Kepler. Ele é projetado para procurar

“exoplanetas” em órbita de outras estrelas. Sua existência é sugerida por uma pequena queda de luminosidade causada quando um planeta transita na frente de sua estrela-mãe, como vista da Terra.

Lançada em 2009, a missão Kepler deverá observar cerca de 150mil estrelas na Constelação de Cygnus, avaliando todos os planetas que encontrar para discernir e aqueles do tamanho da Terra, temperados

e habitáveis, são comuns. Embora sua presença tenha sido cogitada há muito tempo, nenhum exoplaneta foi verificado até 1995,quando o primeiro foi descoberto por uma equipe usando um telescópio

baseado em terra. Hoje a Kepler e a missão Corot da Agência Espacial Europeia procuram outros ativamente. Ao lado das observações em terra, isto levou a uma revolução na astronomia empírica, enquanto teorias especulativas sobre quantos planetas podem existir são substituídas por uma riqueza de dados concretos. Esses dados ilustram claramente os perigos de se contar com teorias. “Teóricos

foram deixados completamente na poeira pelas coisas que o Kepler descobriu”, diz Alan Boss, especialista em exoplanetas do Instituto Carnegie em Washington. Por exemplo, pesquisas de exoplanetas sugerem que as estrelas com baixa concentração de elementos “metálicos”

(ojargão astronômico para qualquer coisa que não seja hidrogênio e hélio) têm a mesma probabilidade de abrigar planetas rochosos que as estrelas com alta metalicidade. Como as estrelas e os planetas

se condensam a partir do mesmo disco de poeira interestelar, os astrônomos esperavam que os discos com altos níveis de elementos metálicos, como ferro e silício, teriam maior probabilidade de formar

planetas rochosos. Os dados do Kepler indicam outra coisa. Em 31de julho, um site da web mantido

pelo astrônomo Jean Schneider, do Observatório de Paris, lista 777 exoplanetas confirmados. Somente o Kepler descobriu outros 2.321 possíveis mundos alienígenas. Números tão grandes permitem

pela primeira vez que análises estatísticas substituam a especulação. Dos candidatos do Kepler, 246 têm 1,25vez o raio da Terra ou menos. Outros 676 têm de 1,25 a duas vezes essa largura, substancialmente

maiores, mas, provavelmente, ainda com superfícies rochosas.

 

Um total de 46 planetas candidatos foi encontrado orbitando dentro das zonas habitáveis de suas estrelas, onde as temperaturas devem permitir a presença de água líquida. Desses, dez são aproximadamente do tamanho da Terra. E esse número provavelmente aumentará dentro de um ano

ou mais. Como são necessários três trânsitos para declarar a descoberta de um candidato,

qualquer planeta realmente semelhante à Terra, os que estão na zona habitável de uma estrela parecida com o Sol e cujo período orbital é, portanto, aproximadamente de um ano terrestre, só agora começará

a aparecer nos dados do Kepler. Alguns astrônomos já se sentem confiantes para começar a extrapolar a

partir dos dados do Kepler para determinar quantos planetas semelhantes à Terra podem existir.

Seth Shostak, astrônomo do Instituto Seti na Califórnia, explicou em 2011 que poderia haver 30 mil mundos habitáveis a mil anos-luz da Terra, uma distância minúscula pelos padrões galácticos. Um trabalho de Wesley Traub, cientista-chefe do Programa de Exploração de Exoplanetas

da Nasa, estimou que 34% das estrelas parecidas com o Solpoderiam abrigar planetas habitáveis. Isso implicaria a existência de dezenas de bilhões desses mundos somente na Via-Láctea.

 

o mestre da miséria

TheObsena I Com despudorada teatralidade pictórica, o páthos de Edvard Munch revive em estimulante exposição na Tate Modern em Londres

 

NÁ UM autorretrato nesta estimulante exposição O Olho Moderno, na Tate Modem em Londres até

14 de outubro, em que Edvard Munch (1863-1944) está nu e sangra sobre uma mesa de operação. Uma enfermeira segura uma tigela cheia de sangue e uma grande mancha se espalha pelos

lençóis. Não um, mas três cirurgiões estão trabalhando, e dezenas de estudantes observam as agonias pela janela do teatro: testemunhas, como nós, do martírio do artista norueguês. É uma imagem cômica, se você for um fanático por fatos. Rejeitado por sua amante, Tulla Larsen, Munch havia apontado uma arma contra si mesmo durante uma última briga, estrategicamente errando tudo, menos um dedo da mão

que não usava para pintar. Não houve necessidade de grande cirurgia. O quadro é uma performance, um J’accuse público feito para ser exibido em uma galeria de Oslo onde todo mundo, incluindo

TuBa Larsen e a mídia, pudesse vê-lo.

 

É exatamente o que se poderia esperar de Munch, aquele velho e exuberante miserabilista: exagero a serviço da verdade. Na Tate Modem, TuBa também é retratada como uma assassina em uma câmara

ensanguentada ou uma vampira na noite. Munch como um cadáver esfaqueado em um sofá, um braço inerte pendurado como Marat no grande retrato fúnebre de David. Aimagem é tão transparente

como um cartaz de propaganda e igualmente tendenciosa, mas quem não reconhece a potência de seu sentimento? Você me apunhalou pelas costas, arruinou minha vida, arrancou meu coração!

Raramente há necessidade de títulos, embora as pinturas frequentemente sugiram legendas cômicas. Munch encontra retórica pictorial para cada expressão, tornando as metáforas visuais, para não dizer literais. Aquela mancha no lençol do hospital tem na verdade a forma de um coração humano retirado do corpo, mas também parece algo mais picante e pessoal, o rosto apavorado de O Grito.

 

Visite essa exposição se puder. Os maus tempos são sempre bons com Munch. Ele não se envergonha quando se trata de autocomiseração, hipocondria, ciúme ou remorso, nunca é orgulhoso demais para

confessar desejo ou depressão. Ele é o amigo que não censura a história como o restante de nós poderia fazer, não finge resignação, serenidade ou perdão. Suas emoções são abertas e energicamente diretas.

Sua arte é francamente revigorante. Isso se deve em parte à sua ardente teatralidade. As mais de 60 pinturas dessa exposição são·maiores do que se espera e declaram seus significados com tal força gráfica e clareza que nunca nos perguntamos o que está acontecendo no palco. O inferno

de um relacionamento sem amor, a miséria da solidão, o poder magnético.do sexo, ou o medo dele. Vocêsabe como é,você entende a sensação, poderia ser qualquer um de nós. Esse é o princípio sobjacente, e a presunção do trabalho de Munch Então, a hipérbole torna-se um meio

para alcançar a verdade universal, com o artista se apresentando para todos os outros: solitário, doente, inebriado, tolo, atingido pela gripe espanhola, rejeitado pela amante, perdendo a cabeça ou a visão.

Os autorretratos constituem mais da metade da exposição, e embora os exageros de Munch possam ser cômicos, pense no pequeno gritador, com as mãos no rosto como se fosse construído por uma fofoca

especialmente escandalosa, não há motivo para se acreditar que sejam insinceros. Órfão de mãe aos 5 anos, vítima de um pai excêntrico e punitivo, que o obrigou a sair da cama à meia-noite para

assistir à morte de sua irmã mais próxima, ele era um alcoólatra que sofreu dois colapsos nervosos e uma vida de amargura e morte. Munch é um artista adequado para o século XIX, que desfila suas feridas em nosso benefício. Exceto que ele só morreu em 1944. Três quartos da obra de Munch foram feitos no século XX, incluindo várias versões de O Grito e Criança Doente, que na verdade não é um retrato de sua irmã, mas de outra criança: O objeto desta exposição amplamente revisionista é modernizar

Munch, eliminar as interpretações biográficas que corroem seu trabalho e trazê-lo para o século modernista. Obra icônica do artista, O Grito foi arrematado em maio deste ano em concorrido

leilão na Sotheby’s em Nova York. Por telefone, um anônimo deu o lance máximo já obtido por uma obra de arte: 119,9milhões de dólares. Orecorde até então pertencia a uma tela de Pablo Picasso, Nu, Folhas Verdes e Busto, comprada em 2010 durante leilão da Christie’s em Nova York por 106 milhões de dólares. O quadro criado por Munch em 1895pertencia ao norueguês Petter Olsen, cuja família

conheceu o atormentado artista. Munch trabalhou em séries e em diversas mídias. Citou a si próprio de uma pintura para a seguinte, introduziu o vocabulário do cinema em sua arte. O Olhar Moderno mostra como avanços na fotografia, no cinema e na iluminação influenciaram seu trabalho, o que ele pode

ter tomado de Degas, Caillebotte e das gravuras japonesas que viu em Paris (previsivelmente, ângulos acentuados e espaço achatado). O catálogo pode correr o risco de transformá-lo em um pós-modernista,

mas é bom ter o enfoque curatorial sobre a arte, e não sobre a angústia.

 

As composições de Munch são atordoantes. Pontes que se projetam na distância, figuras correndo em nossa direção como trens saindo de um túnel, corpos caídos como árvores em uma floresta.

Os trabalhos estão agrupados por ideia pictórica. A Tate Modern tem as diferentes versões de Criança Doente, em que a própria tinta parece chorar, ou borrada, ou morta como poeira, cada vez equiparada

à emoção, de modo que vemos que as famosas repetições de Munch são experimentais,

e não meramente comerciais. Mas o que a exposição parece evitar é a fonte de sua longevidade, o que mantém Munch moderno mesmo quando seus temas são beberrões sifilíticos de colarinhos

engomados ou Medusas puxando os cabelos em longas túnicas pretas. E isso tem a ver com seu extraordinário dom para cunhar arquétipos e formas. A figura solitária sobre uma ponte, delineada

por violentas ondas de rádio, o sólido bloco de amantes unidos por atração fatal, o verme, a ameba, o buraco da fechadura, o rosto em forma de diamante com marcas de pontuação nos olhos, as

sombras que vazam de corpos nus como manchas que se espalham. Você os reconheceria

em qualquer lugar, juntamente com as belas cores e aquela original alternância

de pinceladas bruscas e fluidas. Nada disso está além da paródia, especialmente não o rosto que grita. De fato, é difícil dizer o que Munch pretendeu ao repetir essa forma e Na Mesa de Operação,

senão alguma espécie de piada. Mas olhe para a Mulher Chorando, ou melhor, as dez mulheres chorando na Tate Modern, um nu com olhos escondidos e a cabeça pendente. É uma imagem fraca

não porque Munch a pinte mal, embora haja um tremor na pincelada que não se transmite como passivo-agressivo (uma das forças singulares de Munch). A mulher é apenas um nu convencional, não a

forma simbólica ou carga psicológica. A pintura poderia ser de qualquer pessoa. E as fotografias de Munch, super-representadas aqui, são igualmente banais e anônimas. De fato, essas imagens mecânicas, especialmente os superexpostos filmes caseiros do artista espreitando entre a hera, parecem empurrá-lo ainda mais para o século XIX, como ouvir Tennyson a recitar A Carga da Brigada

Ligeira no fonógrafo moderno.

 

“A fotografia”, Munch escreveu, “nunca competirá com a pintura na medida em que a câmera não pode ser usada no céu ou no inferno.” O homem ciumento em seu quarto verde e amarelo, uma porta aberta

revelando um casal que se beija e pode ser imaginário ou real, o trio de zumbis em Sala da Morte, tão enlutados que poderiam estar mortos, sangue na neve, claustrofobia negra, exaustão vibrante e paranoia:

suas pinturas sempre mostram muito mais do que as lentes poderiam revelar. A mais longa luta na vida de Munch foi contra o temor da extinção que obscurece nossos dias, e ela produziu sua maior obra-

-prima, Entre o Relógio e a Cama. O artista é visto em sua atitude tardia, as pernas abertas, braços pendurados junto ao corpo, emparedado entre o relógio e a cama estreita, ambos arautos da morte. Como representação de um velho que se esforça para permanecer ereto é incomparavelmente

pungente, não há necessidade de exagero: vida e arte são uma, finalmente, e também heróica. Há coragem na desolação de Munch, universal e inspiradora. É um final soberbo para esta exposição.

 

 

ocopista

da revolução

LIVRO I o historiador Stephen Greenblatt mostra como a descoberta de um poema da Antiguidade deu asas ao Renascimento

 

CONTA-SE QUE Maomé ouvia a palavra de Deus e a transmitia a seus escribas. Um dia, enquanto ditava

ao escriba Abdullah, hesitou, interrompendo a frase ao meio. Instintivamente, o escriba sugeriu-lhe o final da frase e Maomé, distraído, aceitou a emenda como sendo a palavra divina. Este fato escandalizou Abdullah, que abandonou o profeta e perdeu a crença. Desta anedota, o escritor Italo Calvino observa

que ao copista faltou a fé não em Deus, mas na escrita e em si mesmo, como operador da escrita. A anedota pode não ser verdadeira, mas revela as condições nas quais foi escrita e transcrita

a maioria dos textos antes do aparecimento da prensa de Gutenberg.

 

A história também ilustra a trajetória de Poggio Bracciolini, um homem baixo, afável, ardiloso, grande piadista e contador de casos que viveu na Florença do final do século XV, mas não se parecia

muito com os homens de sua época, ainda tão marcada por traços medievais. Não era padre, nem teólogo, nem jurista, nem inquisidor. Estudou muito, adquiriu raros conhecimentos de latim e grego e,

mais importante, tornou-se um competente escriba com excepcional caligrafia. Ainda jovem, conseguiu o cargo de scriptor, um redator profissional do Vaticano. Mas, quando estava para ser promovido

a secretário apostólico do papa, perdeu o cargo porque o pontifice, Baldassare Cossa, um notório corrupto, foi destituído, condenado e preso. Frustrado com sua crise profissional, Poggio voltou-se cheio

de ânimo à sua atividade de caçador de livros, os quais, naquela época, não passavam de rolos (volumen, do latim) de pergaminhos mofados, carcomidos de traças e praticamente indecifráveis. Foi assim que em 1417 descobriu, na biblioteca de um mosteiro, Da Natureza das Coisas, do

poeta-filósofo romano Lucrécio, um livro de poemas até então dado como perdido, e logo providenciou sua cópia. Essa é a tortuosa e fascinante história que serve de inspiração ao historiador de

Harvard e especialista em Shakespeare Stephen Greenblatt emA Virada, o Nascimento

do Mundo Moderno (Companhia das Letras, 282 págs., 39 reais), um estudo sensível e engajado que ilumina um aspecto obscuro da história cultural, o da descoberta e recepção dos clássicos da

Antiguidade pelos humanistas do Renascimento. Como toda virada cultural na história, esta foi silenciosa, lenta, equívoca e muito longe de ser associada a uma imagem dramática de guerra, revolução

ou descoberta de um novo continente.

 

 

 

Ela foi associada, em primeiro lugar, à sobrevivência física dos livros. Embora o papiro e o pergaminho fossem mais duradouros que nosso papel barato, o desaparecimento material dos livros clássicos da Antiguidade por efeito das contingências do clima, das pragas e outros flagelos revelou-se enorme, apenas não maior do que o obscurantismo dos primeiros séculos medievais, marcados

de um lado pelo forte recuo do letramento entre os bárbaros e, de outro, pela perseguição e omissões deliberadas da Igreja. Greenblatt recupera a pouco conhecida história do romano Lucrécio e do quanto seu poema atuou como catalisador, ainda na Antiguidade romana, do legado de dois notáveis inconformistas, Demócrito e Epicuro. Foi por acaso que um monge, em um lugar qualquer do século IX, copiou o poema de Lucrécio antes de ele desaparecer para sempre. Também por acaso tal cópia

escapou de todas estas intempéries, naturais e humanas, por cerca de 500 anos, até chegar às mãos de Bracciolini. ”Virada” é um vocábulo que aparece no poema de Lucrécio: um pequeno desvio

que tira as coisas do mundo do seu trajeto natural, no qual os átomos, infinitos e indivisíveis, colidindo uns contra os outros, indiferentes a quaisquer desígnios dos deuses, fundem-se num arranjo novo e contingente. Outras ideias veiculadas no poema de Lucrécio? Todas as religiões organizadas se baseiam em desejos, medos e ignorâncias enraizados: os seres humanos projetam imagens de poder, beleza e segurança que gostariam de possuir e, ao moldar seus deuses de acordo com estas imagens, tornam-se

escravos dos próprios sonhos. Tudo não gira em torno de nós e do nosso destino e a encarnação é particularmente absurda. Por que os humanos se considerariam tão superiores às abelhas, elefantes, formigas ou quaisquer outras espécies a ponto de achar que Deus fosse assumir forma humana e não outra qualquer? Não é preciso continuar o resumo do longo poema de Lucrécio, incluindo suas

efusões eróticas, para perceber o quanto tais ideias demoliam as concepções vigentes

no início da modernidade.

 

 

 

Contudo, é preciso lembrar que, à época de Bracciolini, a leitura de Lucrécio dependia do domínio de um latim muito bom, restringindo a circulação do poema a uma elite intelectual. Até mesmo a cópia

produzida por Bracciolini desapareceu. Ainda assim, graças à teimosia de outros copistas, os manuscritos sobreviveram e foram lidos por gente como Galileu, Giordano Bruno, Maquiavel, Montaigne, Thomas

More e Shakespeare. Séculos depois, impressos e traduzidos em várias línguas, foram sorvidos por Voltaire, Darwin, Thomas Jefferson e Freud, num exemplo fascinante de como o faro de um bibliomaníaco

compulsivo acendeu uma pequena brasa na fogueira de uma reviravolta cultural. Greenblatt só exagera ao simplificar demais a recepção que o cristianismo medieval deu aos clássicos greco-romanos.

Foram os próprios sábios renascentistas dos séculos XV e XVI a forjar esta simplificação quase caricata. Durante gerações medievais, cristãos mais cultos permaneceram mergulhados numa cultura moldada por clássicos pagãos. Assim, o platonismo deu ao cristianismo seu modelo de alma, o aristotelismo

forneceu-lhe a ideia de causa primeira e o estoicismo, seu modelo de providência divina. Só o epicurismo não deu em nada, isto porque foi apagado, distorcido ou censurado. E, neste ponto, o estudo

de Greenblatt é reveladoro Ao contrário de Abdullah, aquele inseguro escriba de Maomé, Bracciolini confiava na sua técnica e no seu faro e passou a ser visto pelos conterrâneos como uma espécie de

curandeiro mágico, que recompunha e animava o cadáver dilacerado e mutilado da Antiguidade. Seus conterrâneos eram florentinos ilustres como Brunelleschi, Donatello, Fra Angelico, Paolo Ucello,

Leon Battista Alberti e Piero della Francesca. Para alguém que amou os livros, haveria melhor companhia?

 

 

 

 

 

 

 

Conhece o Passaralho? A assombrar

redações de todo o País, a ave que

fez seu primeiro rasante em 1973 volta

e meia ceifa profissionais

 

QUAL JORNALISTA não enfrentou um passaralho? Os das gerações mais recentes, que

pontificam nas redações de hoje, entretanto, não devem saber a origem da expressão e sua definição.

Eis a história. Dizia-se nas redações do Rio de Janeiro que a guerra árabe-israelense, em

1973, fez um grande estrago na imprensa carioca: a defenestração de Alberto Dines

do comando do Jornal do Brasil, no início de dezembro daquele ano, resultou

no maior passaralho da história das redações nacionais. E foi mesmo! A médio prazo, todas as chefias ligadas a Dines e Carlos Lemos foram caindo, de uma maneira ou de outra – a maioria

para nunca mais voltar e quase todas indo parar na folha de pagamento da Rua Irineu Marinho, 35; da Praia do Russel, 434; ou da Rua Lopes Quintas, 303.

 

Na diáspora daqueles bravos caciques, Dines, hoje observando os achados e perdidos da imprensa cabocla, foi parar na Universidade Columbia, depois na Folha e, finalmente, na Editora Abril; Lemos

viu-se na Rádio JB, teve o passe comprado pela Rádio Globo, em seguida foi para a sucursal de Brasília do vibrante vespertino, dirigiu a Agência Globo e, aposentado, está na TV Brasil; Marina Colasanti,

jornalista e escritora, é autora de best sellers, como seu livro de memórias Minha Guerra Alheia; Armando Strozenberg foi o poderoso chefão de uma das agências de propaganda mais criativas do Rio de

Janeiro, a Contemporânea, e agora comanda a Casa do Saber; Sérgio Noronha comenta futebol na SporTV; este, digamos, memorialista saiu do B direto para a coluna de Carlos Swann, também no Globo,

onde trabalhou por dez anos, ficou quase 20 anos na área de Comunicação da Petrobras e escreve estas maltraçadas desde 1996; e, assim, a banda tem sido tocada por outros ex-jotabeanos.

Muito embora o velho JB ainda permaneça vivo no coração da gente, a verdade é que aquele grande passaralho de 1973 foi traumático e, portanto, inesquecível. Naquele clima de velório, fofocas

e insegurança, um copidesque do JB produziu um dos melhores textos da imprensa brasileira.

Até hoje inédito e de autor(es) desconhecido(s), é uma obra-prima que reúne bom humor, cultura, informação. Alguns o atribuem ao então redator Joaquim Campelo, mas não há unanimidade.

Trata-se do verbete Passaralho, que aqui vai reproduzido na íntegra:

 

Passaralho s.m (brasl). Designação popular e geral da ave caralhiforme, faloide, família dos enrabídeos (Fornicator caciquorum MFNB &WF). Bico penirrostro, de avultadas proporções, que lhe confere

características específicas, próprio para o exercício de sua atividade principal e maior: exemplar. À sua ação antecedem momentos prenhes de expectativa, pois não se sabe onde se manifestará com a voracidade que, embora intermitente, lhe é peculiar: implacável. Apesar de eminentemente

cacicófago, donde o nome científico, na história da espécie essa exemplação não vem ocorrendo apenas em nível de cacicado. Zoólogos e passaralhófitos amadores têm recomendado cautela e

desconfiança em todos os níveis; a ação passaralhal é de amplo espectro. Há exemplares extremamente onívoros e de atuação onímoda. Trata-se este do mais antigo e puro espécime dos Fornicatores,

sendo outros, como p. ex., o picaralho, o birroalho, o catzralho etc., espécimes de famílias espúrias submetidas a cruzamentos desvirtuados do exemplar. Distribuição geográfica praticamente mundial. No

Brasil, é também conhecido por muitos sinônimos, vários deles chulos. Até hoje discutem os filólogos e etimologistas a origem do vocabulário. Uma corrente defende derivar de pássaro + caralho, por

aglutinação; outra diz vir de pássaro + alho. Os primeiros baseiam-se em discutida forma de insólita ave; os outros, no ardume sentido pelos que experimentaram e/ou receberam a ação dele em sua plenitude.

A verdade é que quantos o tenham sentido cegam, perdem o siso e ficam incapazes de descrever o fenômeno. As reproduções que dele existem são baseadas em retratos falados e, por isso, destituídas

de validade científica. Como dizia o escritor alemão Christian Morgenstern, “es ist das Unglück de

franzosen zu gut schreiben zu kõnnen”, ou seja, “a infelicidade dos franceses é saber escrever bem demais”. No caso do JB, sua infelicidade foi ter perdido um copidesque que escrevia bem demais, a ponto de produzir esse texto definitivo sobre o bicho que adora fornicar jornalistas.

 

 

 

você S/A

FORA DO ARMARIO CORPORATIVO

Você é a favor ou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Alguns funcionários do Google Brasil, inclusive o presidente da empresa, Fábio Coelho, são a favor. Eles se reuniram, há três meses, para gravar um vídeo d eapoio à união homoafetiva. A peça já tem mais de 69 000 visualizações no YouTube. Esse é um exemplo de ação dos gayglers, o grupo de funcionários gays e simpatizantes do Google, que surgiu na sede da empresa, em Mountain View, na Califórnia, em 2003, e chegou ao Brasil em 2006. “Nosso objetivo é criar um ambiente confortável para o funcionário ser o que quiser”, diz Murilo Cappucci, gerente de contas e um dos participantes. Na última Parada Gay de São Paulo, realizada em junho, 50 funcionários festejaram com a camiseta do Google. A iniciativa chamou a atenção de outras empresas, como a P&G,que cogita organizar um grupo semelhante. Companhias como PricewaterhouseCoopers,Dell e Microsoft já têm programas desse tipo.

 

COM A SAUDE EM DIA

Em um ano, a operadora de telefonia Oi incluiu 2 000 funcionários e dependentes em seu programa de promoção da saúde, que visa monitorar problema, como hipertensão, diabetes e depressão. A empresa tem hoje 13 000 empregados  e mais 20 000 filhos e cônjuges incluídos na cobertura. A operadora conseguiu reduzir em 37%o número de internações hospitalares e em 13%as visitas ao pronto-socorro. A hipertensão e o colesterol alto atingem 9% e 5% dos profissionais brasileiros, respectivamente, segundo pesquisa da Funcional, empresa carioca de benefícios de saúde que participou da elaboração do programa da Oi,com 143000 trabalhadores de sua rede de usuários.

 

PRA QUE TREINAR?

Pesquisa do LAS SSJ, empresa de treinamento corporativo, de São Paulo, com 85 empresas, mostra que o investimento em desenvolvimento é movido por necessidade e não por preocupação com os funcionários.

 

so preocupação não basta

Segundo pesquisa da consultoria Accenture, 90% dos brasileiros estão preocupados com a maneira como vão se sustentar quando forem idosos.O receio é maior no Brasil do que em países ricos, onde a cultura de previdência tem tradição. Outro problema é que, apesar da conscientização com a questão, apenas 13% dos brasileiros acreditam ter reservado dinheiro suficiente para a aposentadoria ,- “Uma coisa é se mostrar preocupado; criar um hábito real de poupança é diferente”. diz RaphaeI. Araújo, diretor de prática de seguros da Accenture,de São Paulo.

 

ATE O CHAVES AJUDA

O número crescente de executivos estrangeiros que chegam expatriados ao .Brasil faz aumentar a oferta de serviços de coachíng para acelerar a adaptação dos profissionais ao país, “Eles chegam com pouco conhecimento da cultura e crus em português”, diz o coach Guilherme Rego, de São Paulo, que já trabalhou com dez executivos, entre europeus, chineses e americanos. A língua, segundo Guilherme, é o principal entrave. Com 18 anos de Brasil, o mexicano Francisco Lara, presidente da Sofftek, empresa  de serviços de TI, conta que chegou ao Rio de Janeiro com apenas duas aulas de português na bagagem. Para aprender o idioma, assistia ao seriado televisivo de seu conterrâneo Chaves. “Conhecia as falas em espanhol de cor e ia traduzindo para o português”, diz Francisco, que não se irrita ao contar essa história .

 

AJUDANDO OS MAIS VELHOS

A estimativa é de que até 2020 a proporção de trabalhadores com idade acima de 50 anos suba de 25% para 45% na Alemanha tem assustado as empresas. Preocupadas, elas passaram a adotar políticas e programas para aproveitar melhor essa força de trabalho sem prejudicar a produção. Algumas fábricas, como a BMW,fizeram mudanças ergonõmícas e instalaram pisos e cadeiras especiais, adaptaram a iluminação, diminuíram o ruído e implementaram a rotatividade de tarefas para melhorar o rendimento no trabalho e evitar a perda de pessoal por problemas de saúde. No Brasil, 20% das companhias já empregam aposentados. Metade, pela necessidade de experiência.

 

Crise de talentos

O interesse das companhias por inovação em produtos, processos e serviços tem valorizado muito os profissionais de pesquisa e desenvolvimento. Cerca de 68% das multi nacionais na Ásia temem não ter pessoal nessa área, segundo pesquisa da Deloitte. Nas três Américas, essa apreensão é de 45%.

 

Brasil sem presença

As empresas brasileiras estão perdendo oportunidades de negócios na China deixando de atuar em setores estratégicos, como novas energias, máquinas avançadas e tecnologia da informação, segundo um levantamento do Centro Empresarial Brasil-China, que Listou 57 companhias brasileiras presentes no mercado chinês, em 26 segmentos

 

PRO-LABORE OU CLT?

questão de carreira Há dois anos, a jornalista Daniela Buono, de 37 anos, se dividia entre o trabalho estressante como produtora de vídeos e os cuidados com as filhas, Clara, de 7 anos, e Bebel, de 4. Em busca de uma rotina mais flexível, ela teve a ideia de montar um site com artigos para gestantes e crianças de O a 6 anos. Juntaram-se a ela a violinista Roberta Marcinko:wiski, mãe de Julia, de 6 anos, e a advogada Kátia Raele, mãe das pequenas Gabriela, de 5 anos, e Mariana, de 2. O site Cia das Mães, lançado em 2010, foi bem recebido por seu público-alvo e vendia entre 80 e 100 produtos por mês. Em julho, Daniela se viu diante da questão: fechar o site e procurar um emprego ou seguir como empreendedora. Odilema Desde o lançamento, o site ganhou audiência e conquistou a clientela. Os produtos da Cia das Mães eram produzidos por outras mães que também resolveram investir na autonomia. A loja virtual recebia 30 000 visitantes únicos por mês e vendia, mensalmente, entre 80 a 100 produtos. Com o crescimento do site também vieram os problemas. “Produtos artesanais em alto custo de produção, o que tornava nossos preços pouco competitivos. Além disso, o faturamento era suficiente para pagar as despesas de operação, mas não sobrava dinheiro para o pró-labore, a remuneração das sócias”, diz Daniela. A decisão “Nossa projeção nas redes sociais traziam muitas visitantes querendo o mesmo produto, que rapidamente se esgotava, e não havia reposição por parte das fornecedoras -.: que não tinham condição de produzir em larga escala. Isso prejudicou a lucratividade, pois só ganharíamos dinheiro se vendêssemos umas dez a 20 peças do mesmo produto. A plataforma de e-commerce também era um problema. Contratada a baixo custo, ela não conseguiu acompanhar o crescimento de tráfego do site. A operação logística do e-commerce tem um custo alto. Resolvemos encerrar o site no mês passado. Foi uma das decisões mais difíceis que já tive na vida. A Cia das Mães era reconhecida e tinha sido finalista, em 2011, de um prêmio nacional importante, que apóia novas empresas inovadoras. Agora, depois do luto inicial, díreciortei meu trabalho para a comunicação em mídias sociais. O que aprendi com essa experiência tem um valor incalculável – e certamente esse aprendizado abrirá novas portas profissionais.”

 

 

PESCA NO BRASil

Primeiro brasileiro a trabalhar no Facebook (está lá desde 2008), Rodrigo Schmidt, de 33 anos, tem o cargo de engenheiro sêníor de software e atualmente responde pela equipe de desenvolvedores que aprimora os anúncios e fanpages da rede social. Rodrigo tem outra missão: recrutar novos engenheiros para trabalhar na sede da empresa, em Menlo Park, Estados Unidos. Desde 2009, quando veio como funcionário pela primeira vez ao Brasil, acompanhando o fundador Mark Zuckerberg, Rodrígo já levou 20 brasileiros para lá. Em julho e agosto, ele esteve em Recife e São Paulo participando de eventos e incluiu mais três profissionais no processo seletivo. “Depois que eu venho, chove currículo”, diz o gaúcho Rodrígo, Ph.D. em engenharia de software. “O mais difícil é convencer o brasileiro de que ele pode participar do processo de seleção, que é possível trabalhar no Facebook.”

 

A EQUIPE CONVENCE

Em julho, a Cielo, empresa de transações eletrônicas comprou a americana Merchant e-Solutions (MeS), do mesmo ramo, por 670 milhões de dólares. Foram dois anos de negociação até o presidente da Cielo, Rômulo de MeLLoDias, conquistar o coração do presidente da MeS, Sharif Bayyari. Também pesou o lobby dos executivos que torciam pela Cielo, impressionados ‘ com o tamanho da empresa brasileira. “A negociação foi emocional”, diz um executivo que acompanhou Rômulo no negócio

 

ESTRANGEIROS DESEJADOS

ABRR, união .entre Sadia e Perdigão, pretende dobrar de faturamento até 2015. Para cumprir  essa meta, tem buscado líderes mais experientes para trabalhar na empresa. O diretor de RH Internacional da BRF, Pérsio Pinheiro,.visitou no começo do ano cinco grandes universidades·nos Estados·Unidos, entre elas Harvard e Kellogg. “Fui convidar estudantes de MBA para fazer summer Jobs por aqui”,conta. Três·estrangeiros fazem estágio na BRF Para o próximo ano, a empresa pretende ter dez pessoas no programa.

 

ARTE PARA PEDREIROS

arquiteto paulista Arthur Zobaran Pugliese, de 38 anos, tinha tudo para construir sua carreira dentro da empresa de seu pai, o engenheiro Ricardo Pugliese, mas resolveu seguir outro rumo. Assim que se formou em arquitetura pela Universidade Anhembi Morumbi, em 2000, criou um projeto para levar arte aos canteiros de obras. “Ao longo da minha experiência, acompanhando meu pai e na faculdade, percebi que a relação com os operários poderia ir além da obra”, conta Arthur. Assim surgiu o projeto Mestres da Obra, que virou ONG, oficialmente, em 2007 e já atendeu 7000 pessoas em cinco estados brasileiros. “Levamos aulas de fotografia, artes plásticas e teatro às obras.” Construtoras como OAS, Toledo Ferraria, Cetim e Racional contratam a ONG para dar aulas dentro dos canteiros – 70% da verba é destinada a pagar os salários dos três funcionários da ONG e do próprio Arthur, os outros 30% são usados para a manutenção da ONG e para financiar exposições das obras produzidas, como a realizada em Barcelona, na Espanha, em 2007. O material usado nas aulas são os resíduos das próprias construções. Nos últimos três anos, a ONG passou a fazer um estudo para entender melhor quem eram os operários e descobriu que mais de 80%deles eram analfabetos. Com esses dados em mãos, Arthur decidiu partir para uma nova etapa do projeto: levar educação formal a eles. “Primeiro ensinamos arte, e ele cria laços com os colegas e com o local, algo que já fazemos bem; depois, partimos para o ensino regular. Afinal, não basta apenas levá-los para a sala de aula”,afirma Arthur

 

CRIATIVOE COMI PROPOSITO

Lourenço Bustani, de 32 anos, é filho de diplomatas brasileiros, nasceu em Nova York e, além dos Estados Unidos.já morou no Uruguai, no C~adá, na Holanda e no Brasil. Del>ois de se formar pela Universidade da Pensilvânia, foi trabalhar em uma agência de branding (que cuida da marca de  grandes empresas) em Nova York.Em 2004, teve a chance de visitar São Paulo profissionalmente e quis voltar a morar no Brasil. Lourenço abriu, ao lado de um sócio, a Mandalah, em 2006. Seis anos de existência, escritórios em seis cidades do mundo, 50 funcionários e uma missão: ajudar as empresas a criar projetos que gerem lucro e tenham propósitos, o que foi batizado de “inovação consciente”. Entre os clientes estão gigantes como a Petrobras e a Natura. No início deste mês, Lourenço fechou um projeto com o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro para dirigir a linguagem visual do evento, com base em referências de aspectos culturais da Cidade Maravilhosa Veja o que Lourenço aprendeu em sua trajetória. Saiba o que o faz levantar da cama pela manhã. A Mandalah surgiu dessa busca. Nós acreditamos profundamente no que fazemos. Valorize a diversidade. Criatividade precisa encontrar um campo fértil para se manifestar. Ela é um reflexo das pessoas que rodeiam você. Aprenda com os outros. Eu tenho mentores que me inspiram muito. Acho que a minha criatividade é uma soma das pessoas que moram em mim – que vão do meu pai a Homero Santos [consultor e professor da Fundação Dom Cabral], referência absoluta em sustentabilidade. Valorize pessoas com diferentes experiências. E vivência internacional. Acredito que isso traz uma sensibilidade diferente, uma tolerância maior ao novo. • Tenha uma visão precisa do negócio. Temos uma gestão financeira impecável, e isso pará mim é essencial. Essa visão me dá liberdade para ousar.

 

PESQUISA EXCLUSIVA DE CARGOS E SALÁRIOS EM PEQUENAS, MÉDIAS E GRANDES EMPRESAS NO BRASIL MOSTRA COMO ESTÁ O MERCADO DE TRABALHO. HÁ BOAS OPORTUNIDADES NO SETOR DE ÓLEO E GÁS E DESACELERAÇÃO NO MERCADO FINANCEIRO. SAIBA COMO SE MOVIMENTAR NESSE CENÁRIO

O primeiro semestre deste ano, a economia brasileira decepcionou, pois seu crescimento ficou aquém do projetado pelo governo. Desde janeiro, as previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012 foram minguando, até chegar aos números atuais, que estimam crescimento entre 1%e 2,5%.Mesmo assim, a geração de empregos teve saldo positivo. Os empregos e os salários não foram afetados pelo mau desempenho geral foram criados 1 milhão de vagas nos seis primeiros meses do ano. Apesar de ter havido uma queda de 26%, numa comparação entre o primeiro semestre de 2012 e o mesmo período no ano passado, ou 366 000 postos de trabalho a menos, o índice de desemprego continuou muito baixo, na casa dos 6%. Os números são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. O órgão também registrou que as empresas pagaram, na média, salários 5,9%maiores do que no primeiro semestre de 2011para contratar. Em geral, as contratações continuam, mas num ritmo mais lento por causa da desaceleração da economia. “As empresas estão mais cautelosas”, diz Fernando Mantovani, diretor da Robert Half, empresa de recrutameIlD de São Paulo, que fez a pesquisa de 213 cargos e salários para esta reportagem. mercado de trabalho para profissionais qualificados -, os aumentos são maiores, de 20%, em média. Os números usam como base São Paulo e refletem o que tanto se fala sobre escassez de talentos: quanto maior a competência, mais difícil de encontrar a pessoa certa, e mais valorizado está o profissional. Essa demanda é o que explica a manutenção do índice de desemprego em níveis baixos. “Há uma defasagem entre o número de vagas abertas e o de profissionais preparados para preenchê-las”, diz Madeleine Blankenstein, sócia da Grant Thornton Brasil, consultoria com escritório em São Paulo. Ruim para as empresas, bom para o profissional, que, na maioria dos mercados, encontrará ofertas de trabalho. A indústria de transformação é o setor que menos gera emprego. O segmento de serviços foi responsável por quase metade das vagas abertas este ano. As empresas de petróleo e gás são as que mais sentem a falta de mão de obra especializada. “Faltam engenheiros, geólogos e geofísicos preparados”, diz o consultor Cristian Mattos, da Towers Watson, consultoria especializada em remuneração, de São Paulo. Um coordenador de comunicação e inteligência de mercado numa companhia de petróleo, por exemplo, chega a ganhar 20% a mais do que em outras indústrias. Aárea é das mais promissoras para os próximos anos no quesito emprego e salário. “Vejo,pelo menos, 15 anos de mercado aquecido”, afirma Jorge Martins, gerente da divisão de vendas e marketing de óleo e gás da consultoria Robert Half. Outro segmento que se destacou em termos salariais foio de vendas, com aumento médio de 25% para a área comercial. O mercado que mais sofreu foi o financeiro, principalmente os bancos internacionais, que responderam mais lentamente às mudanças ocorridas nesse mercado no Brasil durante o primeiro semestre deste ano, como a redução da taxa básica de juros (a Selic, atualmente em 8%), e à oferta de juros ao consumidor com taxas mais baixas nos bancos de varejo, além da maior dificuldade de captar dinheiro no exterior para investir aqui. No mercado financeiro, houve redução-salarial em praticamente todas as áreas e as contratações foram menores. “Não é uma boa hora para se movimentar nesse segmento”, explica o gerente sênior das divisões Robert Half, Fabio Saad. A indústria de construção civil residencial e o setor automotivo, em alta no ano passado, também sofreram com os impactos da crise. As construtoras lançaram mais do que venderam e as montadoras não cresceram nas mesmas taxas dos anos anteriores. “Mas estamos longe de uma retração. É preciso, apenas, cautela”, afirma Fabio. O governo trabalha com uma expectativa de que a economia brasileira melhore um pouco durante o segundo semestre. Se isso ocorrer, o mercado de trabalho deve manter-se como está ou apresentar leve reaquecimento A perspectiva é que as empresas continuem contratando, mas de forma mais planejada, e os aumentos salariais tenham um crescimento mais racional,de 12% a 15%”,afirma Fernando, da Robert Half. O mercado continua favorável,mas ficou um pouco mais difícil ser escolhido. Para aproveitar o momento, é preciso investir em formação – técnica e de gestão. “Para os profissionais preparados, não faltarão vagas”, diz Clara Linhares, professora de gestão de pessoas da Fundação Dom Cabral (FDC), de Minas Gerais. “Investir em cursos de especialização, como pós-graduação e MBA,é essencial para se destacar nesse mercado”, afirma Clara.

 

AS MAIORES OPORTUNIDADES

A previsão é que, até 2015,sejam criadas mais de 400 000 vagas na área de óleo e gás, setor que movimenta mais de 440 milhões de reais por ano, segundo dados da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip). As contratações devem se concentrar nas regiões Sudeste e Nordeste, onde estão as principais reservas de petróleo e os investimentos em refinarias. É a área mais promissora em termos de emprego. As empresas procuram engenheiros, em especial mecânicos e navais, geólogos e geofísicos. Mas o ingresso nesse ramo é difícil- é preciso buscar especialização, “Faltam pessoas preparadas”, diz Samuel Pinheiro, diretor da Petrocenter, escola técnica de petróleo e gás, do Rio de Janeiro. “As áreas técnicas e operacionais são as que mais sofrem com a escassez de mão de obra.” Uma função que ganhou força este ano foi a de coordenador de comunicação e inteligência de mercado. As empresas de óleo e gás perceberam a importância de ter uma boa estratégia de comunicação para se posicionar em casos de acidentes ambientais, por exemplo.”Isso é muito comum nesse setor e faltava um profissional para atuar de maneira correta”, afirma Jorge Martins, gerente da divisão de vendas e marketing de óleo e gás da Robert Half do Rio de Janeiro. Em geral, a área paga bem. Um coordenador  júnior, com dois anos de experiência, começa com salário df 5 000 reais em uma pequena empresa. Na área de engenharia, o destaque fica para engenheiro de produtos, diretor e gerente de operações e comprador.

 

TEMPO BOM

área jurídica, em geral, está num bom momento. Houve valorização salarial e maior procura por profissionais. Nas empresas, os advogados passaram a ter um espaço mais estratégico, com atuação integrada com todas as áreas da companhia. “Diante disso, para os cargos de diretor e gerente jurídico, houve um aumento salarial de 15% a 30%”, d! Mariana Horno, gerente sêníor da divisão de Direito, RHe TI da consultoria Robert Half de São Paulo. Segundo ela, as organizações buscam um advogado com perfil mais estratégico para os cargos de confiança, pois muitos procedimentos contábeis e comerciais devem passar pela área jurídica. “Não é um profissional fácil de achar”, diz Mariana. De acordo com ela, é preciso conhecer o negócio da empresa, dominar outro idioma além do inglês, como o espanhol, ter conhecimento técnico e cursos de especializações no exterior e MBA. Uma exceção a esse movimento positivo são os bancos. “Houve uma desaceleração devido às mudanças no mercado financeiro.Alguns até congelaram posições”, afirma a headhunter. Como já vinha acontecendo em 2011, as empresas estão buscando advogados nos escritórios para preencher as vagas da área jurídica devido ao profundo conhecimento técnico desse profissional. “Aumentou em 15% a mi gração de advogados dos escritórios para as empresas”, afirma. Nas bancas de advocacia, os profissionais da área imobiliária foram um dos mais valorizados, tanto nas pequenas quanto nas grandes bancas. Porém, a busca é mais voltada para advogados seniores, já que normalmente os empreendimentos envolvem altos valores e exigem responsabilidade e experiência. “Eles devem saber trabalhar em operações estruturadas e entender, por exemplo, de constituições de sociedades na área imobiliária”, diz Mariana. Segundo ela, um advogado sênior em um escritório de grande porte chega a ganhar até 18000 reais por mês. “Noano passado chegava a receber 14000 reais por mês”,diz a headhunter, Para o advogado Gilberto Costa, sócio do escritório Macedo e Costa Advogados, o que acontece é que faltam profissionais preparados para atuar no setor imobiliário. “Os advogados, principalmente os mais jovens, se dedicam mais a áreas corno direito eletrônico, ambiental e internacional”, diz Gilberto. De acordo com ele, isso faz com que os poucos que atuam nessa área sejam ainda mais valorizados. Os escritórios especializados, principalmente na área tributária, também merecem destaque. Isso porque, explica Mariana, é essa área que ajuda as organizações a reduzir a carga tributária. “Sempre há boas vagas nessa área”, afirma. Com o aumento de fusões e aquisições no último ano, a área empresarial também foi bem valorizada. “Toda negociação desse tipo deve estar amparada por um advogado.” Segundo Mariana, esse profissional deve entender o momento do mercado para fazer as operações e cuidar de assuntos corno normas do Banco Central e legislação civil. Já á área consultiva tributária é sempre valorizada tanto nas corporações quanto nos escritórios.

 

VAGAS NOS NOVOS NEGOCIOS

Corno reflexo da abertura de novas empresas no país, a área de vendas como um todo ganhou força, principalmente nas funções gerenciais. Isso porque, quando se abre uma companhia desse tipo, o departamento de vendas é quase sempre o primeiro a ser montado, o que faz com o que profissional da área seja mais valorizado. De acordo com Daniela Ribeiro,gerente sênior da divisão de engenharia e vendas e marketíng da Robert Half, isso fez a remuneração inicial de um gerente-geral subir para 24000 reais nas pequenas e médias. “Essas organizações buscam um profissional mais completo, que tenha experiência comercial mas que saiba lidar com pessoas. E aí ele vai custa mais”, afirma. Dados da Aceleradora, organização que apóia a criação de startups, estimam que hoje existam no Brasil de 2 000 a 3 000 empresas desse tipo, e a perspectiva é que esse número aumente. “O cenário é promissor”, diz Daniela. Segundo ela, um bom vendedor não precisa ter anos de experiência para desenvolver um bom trabalho, é o perfil pessoal que conta. “Ele pode nunca ter vendido, mas se tiver o perfil comercial e foco no cliente vai se destacar”, diz. Entre as áreas que mais contratam estão as de bens de consumo e serviços. Em geral, os salários subiram 25%. Em marketing, o destaque foi para inteligência de mercado. “Antes víamos poucas companhias com uma área voltada apenas para isso”, afirma. Um coordenador chega a ganhar 13 000 nas grandes empresas. De acordo com Rodrígo Rodrigues, professor de MBA em marketing da PUC do Paraná e presidente da agência Opus- Múltipla. isso é reflexo do aumento da competitividade. “As companhias perceberam que precisam monitorar com mais atenção a movimentação da concorrência e o comportamento do consumidor”, diz. Esse profissional deve analisar grandes cenários e correlacionar dados para auxiliar na tomada de decisões estratégicas.

 

PARACONSEGUIR UM “SIM”

A hora é boa para negociar um aumento. Segundo uma pesquisa mundial da consultoria Grant Thornton em 40 países, 88% das empresas brasileiras devem conceder reajustes salariais a seus funcionários nos próximos 12 meses, ante uma média global de 65%. As condições favoráveis ao trabalhador brasileiro se devem ao baixo índice de desemprego, atualmente na casa de 6%. Some-se a isso a falta de mão de obra qualificada e o resultado é que as organizações aceitam pagar mais plra não perder colaboradores. A crise econômica europeia, que leva as companhias a agir com cautela quando o assunto é iniciar um novo investimento, ainda não contaminou o mercado de trabalho. “Isso resulta em uma propensão maior dos empresários em aumentar salários”, diz Madeleine Blankenstein, sócia da Grant Thornton Brasil. Porém, como há setores menos aquecidos, principalmente na indústria, a consultora recomenda bom senso aos profissionais na hora de negociar. Antes de qualquer conversa, confira qual a situação da empresa em que trabalha ou se está em contenção de gastos. E só continue o processo se o momento estiver favorável. Brasileiros não lidam bem com a questão do pedido de aumento. Em geral, os profissionais se intimidam. “Eles acham que solicitar um aumento pode  soar como mercenário. Alguns relatam até medo de perder o emprego”, afirma Mário Andrade, headhunter da Robert Half de São Paulo. Segundo pesquisa feita pela empresa de recrutamento com 700 brasileiros, 32% dos profissionais que pediram aumento no ano passado foram atendidos. O levantamento mostra que 38% dos aumentos foram concedidos como um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos meses anteriores. E 47% dos profissionais usaram a estratégia de falar com o chefe depois de um projeto bem executado. Na visão de Mário, a maioria das pessoas espera ser reconhecida naturalmente e esquece que, ao não falar sobre o assunto cem o chefe, pode perder boas oportunidades. Na egociação de ‘salário pode ser mais simples do que se imagina. É o que afirma Jim Hopkinson, professor de estratégias de marketing na Universidade de Nova York e autor do livro Salary Tutor, lançado nos Estados Unidos e sem previsão de chegar ao Brasil. Ao.contrário do que se imagina, um período de economia instável pode ser, sim, adequado para um pedido de aumento ou promoção.”O fato de você mostrar-se consciente da situação e falar sobre as metas da carreira comprova a sua iniciativa e foco”, diz o professor. Entre os passos mais importantes para conseguir um aumento estão a organização, o planejamento, a realização correta de tarefas e uma boa comunicação com a equipe. O funcionário deve, ainda, estar sempre atualizado sobre sua real ~osiÇãO no mercado de trabalho, não apenas se seu salário está dentro do mercado, mas se suas competências estão atualizadas. “Descobrir o maior nível de remuneração no mercado é essencial para negociar”, diz Sílvio Celestino,sócio fundador da consultoria Alliance Coaching,de São Paulo.A pesquisa pode ser feita por meio de consultas a conhecidos e sites de empregos. “É importante pensar em quais argumentos seu chefe irá usar para não lhe dar o aumento e que argumentos e fatos você vai usar para convencê- lo”,diz Sílvio. Se você está seguro e tem dados para mostrar sobre sua evolução,não há nada de errado em solicitar um aumento. O máximo que pode acontecer é ouvir um “não”.Caso isso ocorra, há o que aprender. Questione o que falta para você obter um aumento e que aspectos deve trabalhar. E, claro, corra atrás de preencher as lacunas apontadas pelo chefe. ESTÁ ALTO MESMO? Nos últimos anos, o crescimento econômico do  Brasil e a disputa por profissionais fizeram com que os salários no país aumentassem. Numa comparação com países ricos, sobretudo os europeus, que vivem uma situação de crise e achatamento da renda, a remuneração brasileira passou a figurar entre as melhores do mundo. Isso é fato. Porém, um levantamento feito pelo professor Wilson Amorim, da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo, mostra que o salário do brasileiro recebeu aumento apenas um pouco acima da inflação na última década. Com base em dados das pesquisas de emprego do IBGE e do Dieese, a FIA mostra que, em 2011,por exemplo, 86% das empresas deram aumentos superiores à inflação. No entanto, 62%concederam reajustes de, no máximo, 2% acima da inflação. No outro extremo, só 1,6% das organizações deu aumento 5%acima da inflação em 2011- e grande parte se deve mais a acordos sindicais do que a mérito. Resumindo: os salários podem estar altos em relação aos do mundo, mas a renda do trabalhador não aumentou tanto quanto as companhias ,não há querem fazer crer.

 

ATUALIZAÇÃO CONSTANTE

Com a obrigatoriedade de adoção das normas internacionais de contabilidade por todas as empresas brasileiras com capital acima de 300 milhões de reais desde o ano passado, as funções de gerente contábil, gerente fiscal, coordenador contábil, fiscal e contador tornaram-se as mais requisitadas entre os profissionais de finanças. A dificuldade é encontrar gestores atualizados não só com as novas normas mas também na maneira de liderar. “Os mais disputados são os que demonstram facilidade de relacionamento”, diz Marcela Esteves, gerente da área de finança se contabilidade da Robert Half.

 

MEIO IGUAL

Na área de seguros não houve grandes mudanças de um ano para cá. Com o aumento dos investimentos para a Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, que serão realizados no Brasil, o mercado de seguros de alto risco, que fazem a proteção de grandes obras de engenharia e eventos, ganhou força e está atraindo profissionais. O mercado de seguros massificados – voltados para a baixa renda -, que estava contratando no ano passado, se estabilizou e o número de profissionais contratados baixou.”De maneira geral, não houve muito crescimento nesse setor”,afirma Ana Guimarães, gerente da divisão de mercado financeiro da Robert Half. Segundo a headhunter, as únicas funções valorizadas foram a de gerente de subscrição, responsável por assegurar a conformidade legal da venda, e a de gerente técnico, que é o profissional que dá apoio às vendas e que atua em todas as linhas de produto.

 

MOMENTO FAVORAVEL

 

O número de vagas abertas no mercado de tecnologia da informação em 2012 deve ser de Aproximadamente 115000 postos, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). Isso mantém a situação de muita procura por profissionais da área. A diferença é que o grau de exigência das companhias está aumentando e, apesar da oferta de trabalho, muita gente não atende ao perfil. “Não há mais espaço para profissionais com habilidade meramente técnica, principalmente para cargos de gestão”, diz Mariana Horno, gerente responsá vel pelo recrutamento de profissionais das áreas de Direito,RH e TI da consultoria Robert Half. Os profissionais mais Valorizados da área são os diretores e gerentes experientes, com domínio total da gestão de TI. “Eles devem entender de infraestrutura, sistemas e projetos e ainda se aprofundar na estratégia de negócios, além de ter perfil inovador”,afirma Mariana. E há vagas abertas. O Centro Global de Tecnologia (GLT) do Grupo HSBC, por exemplo, anunciou a abertura de 200 vagas na área de tecnologia, desde estagiários e analistas até técnicos especializados. De acordo com o diretor de RH da empresa, Caio Doi o GLTestá em expansão. “A ideia é chegar a 1 000 colaboradores até o fim do ano”, afirma Caio. O analista de ERP experiente está valorizado em regiões que passam por uma expansão da atividade industrial, como o interior paulista. Como geralmente as vagas estão em multinacionais, ter inglês fluente e costume para lidar com chefes e fornecedores em outros países é exigências comuns (segundo o Robert Half, 95% das vagas de TI têm o idioma como pré requisito). Laboratórios farmacêuticos, serviços e empresas de comércio eletrônico são os mercados mais aquecidos para profissionais de TI e, nos próximos meses, são os que devem oferecer maiores oportunidades de crescimento e uma remuneração mais atraente. Um diretor de TI com mais de dez anos de experiência de uma companhia de serviços pode chegar a ganhar até 45 000 reais. “Para alcançar um cargo’ como esse é preciso boa comunicação e habilidade para liderança”, diz Mariana.

 

o BOM PIOROU

O mercado financeiro passa por uma fase relativamente ruim em termos de remuneração. As contratações estão em ritmo lento. Os bônus caíram em média 40% de 2011 para 2012. Apesar da queda brusca, resultado da menor atividade das operações financeiras este ano, a área permanece sendo a que Melhor paga os profissional no Brasil. Tome-se como exemplo o cargo de analista de sales trader, responsável por vender papéis como derivativos e outros produtos financeiros. O salário base desse profissional não aumentou de 2011 para 2012, variando de 3 500 a 8 000 reais. Já o bônus, que no ano passado podia chegar ao equivalente a 15 salários, neste ano atingirá no máximo sete. É um resumo do setor: houve quedas acentuadas nos bônus, mas ainda assim os ganhos estão muito acima da média do setor, quando comparados a outras profissões. A previsão da consultoria Robert Half é de que a situação não mude para o próximo ano em virtude, principalmente, da economia internacional. “O que se discute, hoje, é a redução da carteira de clientes, o que vai se refletir diretamente em bônus menores”, afirma Fabio Saad, gerente sênior da Robert Half, uma das responsáveis pelo recrutamento de profissionais do mercado financeiro. É possível que ocorra fechamento de vagas no segmento. A queda da taxa básica de juros (Selic) no primeiro semestre deste ano afetou fortemente as instituições de pequeno e médio porte, o chamado middle market. Segundo o headhunter, os bancos brasileiros até conseguiram atuar bem nesse cenário. Entre os internacionais, a situação é pior. Essas empresas vêm tendo dificuldade para captar dinheiro no exterior e investir no Brasil. “Essas instituições provavelmente serão vendidas ou haverá fusões e fechamento de capitais”, afirma Fabio. Para conseguir se manter nesse mercado, é preciso adaptar-se ao novo cenário, de crise internacional e juros baixos. “Quem estiver preparado para oferecer opções mais lucrativas para os clientes será valorizado”, diz Marcelo Ferrari, diretor de negócios da Mercer, consultoria de remuneração, de São Paulo.

 

SOBRAM VAGAS

A área de engenharia segue como o principal gargalo de mão de obra no Brasil. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), serão demandados até 2014 algo em torno de 91 000 engenheiros e outros profissionais, como tecnólogos, para atuar em ramos da engenharia. Se for mantida a média atual de profissionais que ingressam no mercado, de 50 000 por ano, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (lnep), o país chegará em 2014com um déficit de 48 000 engenheiros. A falta de gente beneficia os profissionais da área, que podem escolher onde trabalhar. No segmento de construção, os arquitetos estão valorizados. “Tivemos alta demanda por profissionais nessa área, principalmente para projetos de prédios corporativos”, afirma Daniela Ribeiro, gerente das áreas de engenharia e vendas e marketing da consultoria Robert Half. Em São Paulo, o salário inicial de um arquiteto fica em torno de 4 000 reais. Em grandes empresas, segundo Daniela, exige-sê do arquiteto perfil inovador, base técnica sólida e familiaridade com métodos sustentáveis de construção. Outra função que se destacou foi a de gerente de incorporação, profissional que atua desde a busca de terreno até a avaliação do espaço e gerenciamento do projeto. Nesse caso, a formação em engenharia é fundamental, além do perfil comercial. “Trata-se de uma posição em alta”, diz Daniela. O salário inicial desse cargo é de 10 000 reais e pode chegar a quase 28 000 reais para os mais experientes. A engenharia civil, que no ano passado estava em alta, com profissionais recém- formados ganhando de 6 000 a 8 000 reais, sem ter experiência necessária, neste ano está estável. “As empresas perceberam  que não adianta contratar alguém sem experiência porque a falta de maturidade leva a problemas de execução da obra”, conta Daniela. As funções mais valorizadas não estão no canteiro de obras. Os destaques são as áreas de compras, logística e customer service, que cuida do relacionamento com clientes corporativos. Pessoas que ocupam esses cargos ganham de 15% a 20% a mais que a média dos engenheiros. Facilidade para trabalhar em equipe é um requisito difícil de encontrar nesse ramo.

 

Currículo completo

GIULlANO TRINDADE, DE 32 ANOS, CONSULTOR DA ERM, CONSULTORIA DE GESTÃO AMBIENTAL, APOSTA NA ATUALIZAÇÃO CONSTANTE PARA SE DESTACAR. ENGENHEIRO CIVIL DE Formação, ELE TEM PÓS EM GESTÃO DE PROJETOS E ESTÃ FINALIZANDO SEU MESTRADO EM ENGENHARIA GEOTÉCNICA. NO MÊS PASSADO FOI PROMOVIDO A CON. SULTOR SÊNIOR. “FALTAM PROFISSIONAIS COMPLETOS”, AFIRMA.

 

SUCESSO A MINEIRA

Belo Horizonte continua crescendo e é um das cidades que mais geram empregos no país. O segredo está em conciliar o investimento na velha indústria com o forte incentivo à inovação e à indústria de tecnologia. Discrição mineira, consagrada na expressão  mineira come quieto”, esconde o bom desempenho da capital de Minas Gerais nos últimos anos. A região metropolitana de Belo Horizonte apresenta o menor índice de desemprego do país desde 2007, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), e a segunda menor taxa de desocupação da Pesquisa Mensal de Emprego, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2004. Minas Gerais é o terceiro maior Produto Interno Bruto do Brasil, superado apenas pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro – embora de acordo com um importante indicador de capacidade econômica, a arrecadação de ICMS de Minas supera a do Rio de Janeiro na classificação nacional. Belo Horizonte, a capital mineira, que tem pouco mais de 5,5 milhões de habitantes, passa por uma transformação silenciosa. A locomotiva dessa mudança é a diversificação econômica, que tem atraído investimentos para diferentes setores da economia local, impulsionada por urna série de políticas bem-sucedidas de cooperação entre as três esferas de governo – federal, estadual e municipal- nos últimos 20 anos. Essa diversificação de investimentos é sustentada por importantes centros de ensino e pesquisa, berço de novos negócios e gente muito bem capacitada, que estão sediados na capital mineira e em seus arredores. Ao lado das tradicionais indústrias mineradora, siderúrgica e automotiva, a cidade vive um boom de incentivo a setores de base tecnológica, que engloba, principalmente, a criação de empresas de tecnologia de informação, biotecnologia e aeronáutica. Essa última, impulsionada pela ida do centro de tecnologia e capacitação aeronáutica da Embraer para o município vizinho de Lagoa Santa. O início da operação está previsto para 2015. O mais recente exemplo da parceria entre conhecimento aplicado e investimento público foi a criação do parque tecnológico BH-Tec, em que pequenas companhias de tecnologia são estimuladas a trocar conhecimento com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o objetivo de se tornar grandes centros de inovação. A UFMG é a maior formadora de engenheiros do país, com 1010 vagas distribuídas em nove cursos. O primeiro dos 15 prédios do BH-Tec, previstos até 2022, foi inaugurado em maio deste ano. Até o mês passado, 13 de 16 empresas já estavam instaladas no novo edifício. Uma fila de mais 72 companhias está na lista de espera dos demais prédios. “Muitas dessas empresas nasceram de projetos da universidade e por isso estamos estrategicamente ao lado dela, exatamente para facilitar a troca de informações e a inovação entre elas e o campus”, diz o professor Ronaldo Pena, diretor-presidente do BH-Tec e ex-reitor da UFMG. Mesmo não sendo pequeno, o centro de engenharia e tecnologia da Embraer ocupa temporariamente um dos andares do parque. Lá trabalham 35 engenheiros, e deverão chegar a 100 em 2013, com engenheiros aeronáuticos, mecânicos, eletrônicose analistas com formação em computação. No mesmo ambiente de inovação está sediada a Ecovec, uma pequena empresa de biotecnologia de apenas 15 funcionários, que projetou uma armadilha para captura do mosquito da dengue e um aplicativo que gera dados para o monitoramento de insetos infectados. A capital mineira é considerada um dos maiores polos de biotecnologia do país, com mais de 70 companhias. Criada em 2002, a Ecovec jávende seus produtos para algumas prefeituras do Brasil e exporta para Havaí, Cingapura e Ilha da Madeira. A empresa deve contratar mais cinco biólogos e biomédicos até o fim do ano. “Nós conseguimos provar que cada real investido na armadilha gera 11 reais de economia com gastos hospitalares e abstinência no trabalho”, afirma Cecília Maues Toledo, gerente de atendimento. Outra empresa que divide um dos andares do BH-Tec é a Samba Tech, que em 2009 recebeu 5 milhões de reais de um fundo de venture capital, que investe em negócios nascentes, para desenvolver uma tecnologia com a ajuda do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. Hoje, ela é líder na América Latina de software de vídeos online para diferentes formatos da internet. “Estamos criando uma cultura parecida com a do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Por isso, optamos por transferir nossa sede para o parque tecnológico a fim de trocar ideias em um ambiente que respira inovação”, diz Gustavo Caetano, fundador da Samba Tech, que vai contratar 50 profissionais ainda este ano em marketíng, vendas, finanças, RH, programação e desenvolvimento de software. Gustavo também é presidente da Associação Brasileira de Startups, criada há pouco mais de um ano com base em uma iniciativa local e que já conta com 1 400 membros no país. Somente em Belo Horizonte são 105 startups de base tecnológica com menos de três anos de vida. “Nossa preocupação é colaborar e não competir para que possamos desenvolver gente com perfil empreendedor, pois sem estímulo à inovação não há profissionais nem mercado”, diz Gustavo. InspiraçãoExemplos para se inspirar não faltam. O mais célebre é o caso do professor Berthier Ribeiro-Neto, do departamento de ciência da computação da UFMG,que, por meio de um projeto de pesquisa com outros colegas e alunos, criou, em 2000, o site de buscas Akwan, comprado em2005 pelo Googlepara ser seu centro de pesquisa e desenvolvimento na América Latina, o principal das Américas depois da sede nos Estados Unidos. Além de continuar ensinando na pós-graduação o curso de tecnologias de buscas e introdução a sistemas de informação, Berthier dirige um time de 100 engenheiros que trabalham em ferramentas estratégicas globais do Google, Berthier reconhece que existe um boom de TI e biotecnologia em Belo Horizonte, mas diz que gostaria de ver mais pesquisas baseadas em conhecimento profundo sendo feitas na capital mineira e no Brasil. “Quanto mais denso for esse conhecimento, mais tempo levará para outros copiarem. É preciso ficar mais na universidade, pesquisando e se especializando”, afirma. Outros casos de sucesso à mípeíra também vêm de fora da universidade. É o caso da MXT,a primeira do país a desenvolver e produzir modem com tecnologia GSM,a mesma dos chips de celulares, e o tablet para uso em aplicações industriais .e em atividades de campo. A Polícia Militar de São Paulo comprou 11000 deles em 2011.AMXT tem 230 funcionários, mantém escritório em Belo Horizonte e fábrica em Betim, a 30 quilômetros de distância da capital mineira, com 60 engenheiros. “Nos últimos cinco anos, os investimentos dos governos para viabilizar essa indústria e a sensibilização quanto à necessidade de qualificação da gestão das empresas têm aumentado”, diz Gustavo Travassos, presidente da MXT. Os investimentos na indústria de tecnologia motivaram o centro de pesquisa suíço CSEM a escolher Belo Horizonte para implantar sua filial brasileira, especializada em micro e nano tecnologias. ”A qui encontramos a visão mais avançada e diferenciada do ponto de vista jurídico de incentivo ao mercado de alta tecnologia”, diz Tiago Alves, diretor-presidente do CSEM Brasil. O centro desenvolve produtos de eletrônica orgânica impressa, que são dispositivos eletrônicos leves e flexíveis impressos em papel. ”Agente está participando da comitiva de frente, que tem perspectivas mundiais imensas nessa área da eletrônica”, diz Tíago. Com 20 profissionais, o centro vai dobrar de tamanho em 12meses e contratar gestores com experfência no exterior e especialistas com vivência acadêmica e industrial. A busca será de engenheiros de micros sistemas, de materiais e de eletrônica, além de físicos e químicos. SustentabilidadeÉ nesse ambiente de estímulo à inovação e diversificação que ·a Precon Engenharia apostou em um novo método na construção civil, com a fabricação industrializada de empreendimentos residenciais pré-moldados, e se tornou a primeira construtora do país a receber o selo azul de sustentabilidade da Caixa Econômica Federal. O selo avalia 53 critérios do empreendimento em relação a qualidade urbana, projeto e conforto, eficiência energética, conservação de recursos materiais, gestão da água e práticas sociais. “Desenvolvemos um sistema que nos dá vantagem competitiva, que gera 80% menos entulho que uma obra tradicional e que corta pela metade o tempo de entrega do imóvel”, diz Marcelo Miranda, presidente da Precon Engenharia. O processo de fabricação e construção se assemelha ao de um Lego,jogo de encaixe de peças, em que as paredes e escadas, vindas da fábrica, são montadas entre estacas e vigas de concreto para edifícios de quatro e oito andares. O método foi desenvolvido para o programa Minha Casa Minha Vida,do governo federal. Cada andar tem quatro apartamentos de dois quartos cada. São exemplos como esses que deixam claro que é possível garantir a geração de empregos com uma gestão mais eficiente e um ganho de valor agregado real de alto desempenho para toda uma cidade e uma região .

 

BONS COM OS NÚMEROS

Todos os dias, Dan Resnik e sua equipe, que conta com três engenheiros, enviam e-mails para os mais de 20 milhões usuários do Peixe Urbano, o maior site de compras coletivas do Brasil. Cada interação gera informações valiosas. Quem abriu uma oferta postada no site? Quem se interessou por qual assunto? Quem comprou? O desafio de Dan e seu time é pegar todas essas respostas e transformá-las em estratégias de negócios para aumentar as vendas da empresa. “A partir dó que observamos, podemos automatizar as próximas interações e fazer ofertas mais relevantes para o cliente, personalizando a experiência e aumentando o potencial de retorno”, diz Dan, cientista de dados do Peixe Urbano. O cientista de dados é um especialista em análise de informações. A característica mais importante desse profissional, portanto, é a capacidade analítica. Por isso, quem tem uma sólida formação em matemática e lógica, como engenheiros, economistas, estatísticos e matemáticos,é forte candidato a se sair bem na carreira. “Ter um consistente background em matemática é fundamental, senão a pessoa tem que suar muito para preencher a lacuna”, diz o professor Renato Souza, responsável pelo mestrado de modelagem matemática da informação, da Fun dação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ),lançado em 2011.O conhecimento da indústria em que vai trabalhar também é muito importante, já que esse profissional faz a ponte entre as áreas técnicas e a de negócios. “Se a companhia atua no ramo de petróleo, por exemplo, o profissional tem que se aprofundar no assunto, do contrário ele não conseguirá ter a atuação estratégica que é esperada dele”, diz Osvaldo Aranha, consultor do setor de tecnologia da empresa de recrutamento Michael Page, de São Paulo. De olho nos padrõeso carioca Gabriel Baptista, de 26 anos, ouviu falar da carreira de cientista de dados no final do curso de engenharia da computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2011.Ele, então, decidiu fazer o mestrado da FGV-RJ para aprender mais sobre o tema. “É a partir da matemática que você consegue entrar nos dados e descobrir padrões de comportamento”, explica. Hoje,Gabriel trabalha como analista de risco da Gávea Investimentos, fundo de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Ele utiliza seus conhecimentos para trabalhar com séries financeiras de dados e descobrir quais são os ativos mais arriscados para se investir – eles possibilitam maiores retornos financeiros. Como a carga de trabalho é alta, o mestrado teve de fica rpara depois. Ainda há poucos profissionais  especializados na área, por isso os salários são sedutores. Um recém-formado pode ganhar até 7000 reais, mesmo antes de concluir uma especialização ou mestrado. Já um profissional mais experiente, com doutorado concluído, pode ganhar até 15 000 reais. As empresas também oferecem ótimas perspectivas para quem vai trabalhar na área. É um mercado que se abre para um tipo de profissional que no passado só tinha lugar garantido nos laboratórios das universidades.  Demanda crescente A demanda vem de empresas que manipulam grandes volumes de informação. “Há oportunidades em diversos segmentos – de telefonia, energia e petróleo a mercado financeiro e varejo”, diz Alexandre Evsukoff, professor da Coppe-UFRJ, que também oferece cursos voltados para a modelagem de dados dentro do mestrado e do doutorado de engenharia civil da instituição. A Petrobras é uma das companhias que estão em busca de profissionais com esse perfil. Ela utiliza as técnicas de análise de dados em projetos diversos, desde processamento de informações de grandes refinarias até experiências microscópicas. “Nossa demanda é gritante. Já tentamos buscar e temos dificuldade. É mais fácil até formar do que procurar no mercado”, conta Luis Gustavo Neves, analista de sistema da Petrobras. Mas as oportunidades não estão apenas nas grandes organizações. Formado em economia pela FGV-RJ, Ariel Teixeira, de 28 anos, trabalhava na mesa de operações de um grande fundo de investimentos. Após ingressar no mestrado da FGV-RJ,recebeu o convite para fazer parte do time inicial da Trading One, fundada há três meses. Lá, ele está ajudando a desenvolver uma ferramenta que tomará decisões de investimento pelos clientes, com base em cálculos matemáticos avançados. O principal atrativo da proposta, para ele, é a possibilidade de contribuir com inovações que poderão transformar o mercado em  que atua. “Sou jovem e acho que  esse é o momento de arriscar”, diz. Apesar de gratificante, o dia a dja  apresenta desafios. “Não é fácil encontrar uma estratégia que funcione bem de primeira. É preciso ser persistente, trabalhar duro e ter a mente aberta”, diz ArieI.

 

LINDA, COMPETENTE E A PROVA DE TOMATES

Desde que foi anunciada como a nova presidente do Yahoo!, em 17 de julho, a ex-googler Marissa Mayer viu sua vida virar motivo de um intenso julgamento virtual. Não bastasse uma jovem mulher assumir a presidência de uma grande empresa de tecnologia, ela também anunciou que está grávida de seu primeiro filho. Em uma entrevista à revista americana Fortune, Marissa afirmou que pretende parar de ir ao escritório apenas por algumas semanas depois de dar à luz, e que mesmo nesse período não deixará de acompanhar as decisões e rumos do Yahool, As opiniões não tardaram a pipocar e variaram do deboche por ela ser mulher, jovem e linda a críticas ferrenhas por ela ter sido namorada de um dos fundadores do Google, Larry Page, e por suas declarações a respeito da gravidez. “Independentemente da atitude que ela viesse a adotar, as críticas viriam”, diz a economista Regina Madalozzo, professora e pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo. Isso porque, segundo Regina.não há um modelo estabelecido que sirva de referência quando a líder é mulher. “As mais agressivas e menos femininas são criticadas por ser assim. Se forem vaidosas e antenadas em moda, como a Marissa, também são criticadas, pelo motivo oposto”, diz. Regina acredita que isso só vai mudar quando o número de mulheres nos cargos de liderança aumentar. Hoje, apenas 4% das organizações que compõem o ranking Fortune 500, que mostra as maiores companhias americanas, têm uma mulher como presidente. Marissa é a mais jovem delas. Já existem iniciativas para mudar esse quadro. No Brasil, a SAP Labs, braço de inovação da multinacional alemã de tecnologia SAP, criou uma série de ações para aumentar o número de mulheres nos cargos de liderança. Uma delas é o programa de preparação de líderes. Em 2007, quando ele foi criado, elas eram 5% do público – hoje, são 24%. “O programa  tem três anos, e o primeiro deles é focado em mentoring e na construção de um plano de carreira, levando em conta também as metas familiares e o que aquela funcionária deseja para seu futuro”, conta Adriana Kerstíng, gerente de recursos humanos da SAP Labs para a América Latina. Com a criação do programa, a necessidade de conhecer melhor as dificuldades de carreira enfrentadas pelas mulheres aumentou, e desde 2010 a SAP realiza reuniões trimestrais com esse objetivo. “Identificamos três dificuldades para a ascensão feminina”, diz Adriana. “A primeira é o medo de sair de licença-maternidade e perder espaço”, afirma. “Elas também tendem a deixar a própria carreira em segundo plano diante da do marido e têm dificuldade em demonstrar  que querem e merecem mais.” Uma pesquisa conduzida pelo escritório brasileiro da consultoria e auditoria Ernst & Young Terco com suas funcionárias revelou que 100% das  mulheres que ainda não eram mães  disseram que era impossível conciliar maternidade e carreira. Para mudar isso, a empresa criou o Clube de Mães e Futuras Mães, com o objetivo de desmistificar o tema. “É claro que é difícil conciliar as duas coisas”, diz Tatiana da Ponte, sócia-líder de capital humano para a América do Sul. “Mas não é impossível”, conclui ela, que quando ingressou na companhia, há dez anos, tinha um filho de 2 anos e um de 6 meses. Hoje, Tatiana é uma das duas mulheres que fazem parte do comitê executivo da Ernst & Young Terco, composto por 12 pessoas. “Há pouco tempo, quando uma funcionária sugeriu que a empresa adotasse a licença-maternidade de seis meses, o comitê começou a analisar esse pedido pensando no custo que a mudança  geraria”, conta Tatiana. “Nós conseguimos tirar o foco da discussão do custo e mostrar ao comitê que reter essa mulher era muito mais importante, e que esses dois meses a mais fariam uma diferença significativa na vida da mãe.” A extensão foi aprovada. Atualmente, 15% dos cargos de liderança em toda a América do Sul são ocupados por mulheres.Arrumando a casaVoltando o olhar para as mulheres que chegam à presidência, é normal notar que elas assumem esse cargo muitas vezes em momentos de crise. “Essa, inclusive, é uma dificuldade que temos, academicamente, para comparar o desempenho de presidentes homens e mulheres”, afirma Regina, do Insper. Isso porque as condições das companhias assumidas por uma mulher, em geral, são bem mais adversas. É o caso, por exemplo, da americana Meg Whitmann, que foi nomeada presidente da HP em setembro de 2011 com o objetivo de revigorar os negócios da multinacional americana de tecnologia. No caso de Marissa, os desafios são ainda maiores. Enquanto o Google continua atraindo jovens talentos e é dono de uma política de inovação constante e eficiente, o Yahoo! viu suas ações despencarem nos últimos anos. Sua fatia no mercado de buscas caiu de 20% para 7% – e as criticas ao seu visual poluído e à falta de inovação da empresa são comuns. Marissa é a quinta presidente em um ano – e a falta de rumo da organização preocupa o mercado. Uma das primeiras ações de Marissa no comando será contratar os melhores programadores e engenheiros, que debandaram do Yahoo! há alguns anos, para voltar a inovar na criação de produtos e serviços. É um belo desafio

 

A VANTAGEM DA BELEZA

A aparência importa quando o assunto é carreira? A  resposta é “sim” – para o bem e para o mal. O lançamento do livro O Valor da Beleza – Por Que as Pessoas Atraentes Têm Mais Sucesso CE do Campus/Elsevier), de Daniel S. Hamermesh, economista americano que traz à tona essa discussão que ainda é um grande tabu dentro das organizações. “Os executivos não gostam de admitir que a beleza afeta o modo como eles lidam com outros profissionais”, diz Daniel, em entrevista à VOCÊS/A.Professor da  Universidade de Houston, nos Estados Unidos, Daniel se dedica aos estudos de pulchronomics Ceconomia da beleza) e, em seu livro, divulga resultados de pesquisas que mostram que a aparência pode in.• fluência – e muito – os salários. De acordo com seus levantamentos, mulheres belas têm rendimentos 4% maiores que a média. Já os homens mais bonitos do que o comum têm contracheques 3% maiores. O mais surpreendente, de acordo com o autor, é que os que são considerados feios tendem a receber até 22% a menos (no caso dos homens) e 3% a menos (no caso das mulheres). A aparência, para os homens, seria mais importante do que a educação. “A cada ano de escolaridade, há um aumento de 10%nos ganhos financeiros”, escreve Daniel no livro.Uma boa estampa equivaleria praticamente a um MBA. A pesquisa de Daniel foi feita nos Estados Unidos e talvez a realidade brasileira seja diferente. Mesmo assim, fica a dúvida: que razões fazem com que os belos sejam privilegiados e conquistem salários mais polpudos? Daniel arrisca a resposta: auto estima nas alturas. Afinal, quando você está satisfeito com a própria aparência (e tem competência para exercer seu cargo) fica mais fácil enfrentar os desafios de carreira. “Quem se sente bem com seu modo de ser é mais seguro”, diz a headhunter Adriana Prates, diretora da Dasein Executive Search, de Belo Horízênte. “E confiança ajuda a transmitir ideias e habilidades, o que acaba conquistando os chefes.” Por estar o tempo todo em contato com clientes, Rodrigo Cheiricatti de Carvalho, de 35 anos, gerente da operadora Vivo em Belo Horizonte, cuida para estar sempre com a apresentação impecável. “Essa atitude ajuda a abrir portas. Depois da primeira impressão, fica mais fácil mostrar minhas competências técnicas”, afirma Rodrigo. A boa aparência tem outra vantagem: aumentam as chances de outros prestarem mais atenção no que você tem a dizer. De acordo com uma pesquisa da Universidade Rice, dos Estados Unidos, feita com profissionais em busca de um emprego, sinais faciais marcantes, como cicatrizes, distraem os recrutadores e fazem com que eles não foquem no conteúdo do candidato, só em seu aspecto exterior. “Qualquer elemento muito chamativo pesa em uma entrevista”, diz Marcela Esteves, consultora da Robert Half, empresa de recrutamento de São Paulo, que admite se policiar para não cometer injustiça com candidatos menos privilegiados esteticamente. “Quando há dois candidatos com habilidades idênticas disputando uma vaga, corre-se o risco de usar a aparência como critério de desempate.” Os bonitos também podem ser privilegiados por recrutadores e chefes porque, mesmo inconscientemente, são vistos como menos ameaçadores. “Nosso cérebro tende a ficar mais confortável em frente ao que reconhecemos como harmônico, por isso temos mais propensão a nos abrir para ouvir pedidos, críticas e sugestões de uma pessoa agradável”, diz Lucas Copeli, diretor da Vallua, consultoria de gestão, de São Paulo. E o que deve fazer quem convive com a desvantagem da falta de beleza? Relaxe, você não precisa ter o rosto do George Clooney, o corpo da Gisele Bündchen ou passar horas na academia, no salão de beleza e na clínica de estética para ter sucesso. Para os consultores e headhunters, o que conta mais é o bom e velho charme. “Steve Jobs  não era nenhum modelo de beleza, mas sabia envolver com seu discurso. Encontrar a melhor maneira de se portar para encantar os outros é o que realmente vale”, afirma Adriana, da Dasein. A grande lição não é se preocupar em ter os olhos mais lindos do mundo, mas conseguir transmitir empatia, segurança ou qualquer outro sinal positivo. Isso todos podem fazer, cuidando ‘os detalhes: no sorriso aberto que você dá quando se apresenta; na maneira como você se levanta para cumprimentar com firmeza; na roupa que você escolhe para participar de uma reunião formal ou para comparecer a um almoço informal. Todas essas atitudes contam pontos a seu favor. “Se o profissional se preocupa em ser agradável, veste-se de maneira adequada para o trabalho, sabe ouvir e mostra que é competente no que faz, a aparência física em si fica em segundo plano”,diz Rodrigo Vianna, diretor da Hays, empresa de recrutamento de São Paulo. Por isso, é bom tomar muito cuidado com sua atitude. Uma palavra rude, por exemplo, faz mais estragos do que um mau penteado. “Toda a empatia acaba quando alguém transmite arrogância e se mostra desinteressado na fala do interlocutor. Não importa quão bonita a pessoa seja, isso destrói uma primeira impressão”, explica Marcela, da Robert Half. O gerente para a América Latina do órgão turístico Visit Britain, de São Paulo, Samuel Lloyd, de 30 anos, leva essa lição a sério. Ele, que já passou por empresas formais e informais, sabe que o que ajuda a crescer, além da aparência alinhada com sua atividade, é se conectar verdadeiramente com chefes, clientes e colegas. “O que me ajudou a estabelecer boas relações é aprender a me colocar no lugar do outro e tentar entender quais são os desejos e os sentimentos de quem trabalha comigo”, diz Samuel. E a tática parece ter dado certo. “Todas as pessoas em que me espelho profissionalmente tinham um comportamento semelhante ao que estou adotando, e isso certamente me ajudou a conquistar o cargo em que estou hoje.” Obviamente, a aparência, sozinha, não sustenta a carreira de ninguém. “Beleza é apenas mais um dos vários fatores que influenciam o sucesso. Todas as pesquisas mostram que beleza importa, mas somente se estiver ligada a outros aspectos”, diz Daniel Hamermesh. “Em um país cada vez mais competitivo como o Brasil, é fundamental, em primeiro lugar, ter as habilidades técnicas para exercer bem a sua profissão”, diz Rodrigo, da Hays. Sem educação  em dia e atualização constante diante das novidades de seu setor, ninguém consegue manter-se no mercado. Se você é bonito, considere-se com sorte – apenas. E para os que se acham feios, além de procurar formas de aumentar o próprio carisma, é bom seguir o conselho de Daniel: “Enfatize as coisas em que você é excelente, como sua inteligência e aspectos marcantes de sua personalidade. Assim, a aparência física ficará em segundo plano”. Bonitos demaisBeleza também pode prejudicar _ belos acima da média podem ter mais sucesso ao longo da carreira, de acordo com a teoria de Daniel, mas ainda enfrentam alguns preconceitos. O mais comum é um velho, porém real, clichê: ter de lutar para demonstrar que existe conteúdo por trás de um rosto bonito. A publicitária Marina Tomagniní, de 24 anos, gerente de marketing promocional da agência de publicidade Future Group, de São Paulo, já enfrentou esse tipo de situação. “É muito comum ouvir colegas dizendo que achavam que eu era linda, mas superficial”, diz. Para quebrar essa discriminação, Marina investe em treinamentos e cursos e tenta, sempre, ser discreta e atenciosa. “Depois de conversar com as pessoas eu mostro que tenho competências técnicas, e o impacto da minha imagem acaba ficando em segundo plano”, diz Marina. De acordo com Lucas Copeli, da Vallua, esse tipo de preconceito já está em extinção. Afinal, as organizações estão com falta de mão de obra qualificada e não podem mais se basear apenas em atributos físicos: “Há alguns lideres machistas que ainda se prendem muito à beleza, mas eles estão perdendo espaço. Não dá mais para desperdiçar profissionais qualificados”

 

0 BRASilEIRO GlOBAL

em setembro, quando as primeiras unidades da nova versão do jipe Ford EcoSport chegarem às ruas, os funcionários brasileiros da montadora terão muito a comemorar: trata-se do primeiro modelo mundial da empresa, a ser vendido em mais de 100 países, cujo projeto foi chefiado pela subsidiária do Brasil. O desenvolvimento do EcoSport é um exemplo bem-acabado de trabalho globalizado, Participaram da criação do carro mais de 500 engenheiros e designers de 21 nacionalidades de todos os continentes, entre eles egípcios, indianos, surinameses e filipinos (veja quadro Por Dentro de um Projeto Global). Parte desses profissionais esteve na fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, quartel-general do projeto. “Foi um enorme esforço de comunicação”, diz Rogélio Goldfarb, vice-presidente da Ford. O caso do EcoSport mostra que a participação de profissionais do país em projetos globais e times multiculturais mudou de patamar: os brasileiros estão deixando de ser meros integrantes para liderar os processos. “Estou certo de que isso vai ocorrer com mais freqüência”, afirma Rogélio. E, para assumir o papel de protagonista, há competências que o profissional brasileiro precisa desenvolver. “À medida que as empresas brasileiras se expandem mundialmente, a pessoa com características globais tem mais chances e oportunidades de ascensão e crescimento na carreira”, afirma Sherban Leonardo Cretoiu, professor e coordenador do núcleo de negócios internacionais da Fundação Dom Cabral, em Nova Lima, Minas Gerais. Diferentes estilos Há cinco anos, Ricardo Faria, de 38 anos, gerente de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina da gigante de bens de consumo Unilever, aceitou uma proposta para trabalhar no centro de tecnologia e desenvolvimento da matriz, na Holanda. Na bagagem, levou a experiência obtida em projetos realizados com países latino-americanos, além de conversas com colegas que já haviam passado pelo processo de expatriação. Era a primeira oportunidade que ele tinha de atuar, de forma integrada, com equipes de vários países. “‘ui inserido em um time composto por 50% de holandeses e a outra metade com pessoas de diferentes nacionalidades”, diz Ricardo. Para encarar o desafio, ele precisou desenvolver flexibilidade na hora de se relacionar com os profissionais de outras culturas. “Quando cheguei lá, tive de aprender qual era o estilo de cada um, o que cada profissional tinha para me ensinar”, afirma Ricardo. O movimento que Ricardo fez é cada vez mais comum em organizações que têm projetos de âmbito global. Expatriações e oportunidades de liderar trabalhos que envolvam times de diferentes países representam ganho não só para os negócios como também para os profissionais que estão à frente desses desafios. No caso da Unilever, que tem centros de pesquisa e desenvolvimento na Europa – em países como Inglaterra e Holanda -, na Ásia e em alguns países da América Latina, a pessoa com mentalidade global, que está aberta a novas culturas e quer ampliar sua visão de negócios tem boas chances de crescer dentro da companhia. “Ter flexibilidade e disponibilidade para passar por essas experiências é o que vai impulsionar a carreira”, diz Lucyane Rezende, diretora de re- cursos humanos para a América Latina da Unilever. Idioma é o mínimo Já foi o tempo em que o profissional que sabia falar inglês tinha “vantagem em relação aos que não dominavam o idioma. Hoje, não basta conhecer, compreender e falar fluentemente a língua inglesa. Isso é competência básica para quem está à frente de projetos globais e lida com equipes de diferentes países. “É fundamental conseguir trabalhar e negociar usando bem os idiomas. Por exemplo, em reuniões com russos e chineses, que costumam falar um inglês peculiar, fora do comum”, diz Sherban Cretoiu, da Fundação Dom Cabral. Entender a realidade e a cultura dos países com que está trabalhando é outra característica que é preciso ter ou desenvolver. De acordo com Sherban, os brasileiros geralmente são mais flexíveis com horários e, no exterior, isso é mais rígido. “Os europeus têm um perfil de ser mais diretos do que os latino americanos. Em reuniões de projetos de que participei e em algumas que me contaram, dava para perceber esse aspecto cultural”, diz Ricardo, da Unilever. Mais do que mergulhar nos meandros da cultura dos países, quem lidera ou atua fortemente em um projeto de âmbito mundial precisa ter ampla visão global. “É uma competência que vai sendo adquirida aos poucos e permite acompanhar as mudanças no mercado, na economia e até na política”, diz Sherban. Essa noção de contexto, do que está acontecendo na economia e nos negócios internacionais, é algo a ser desenvolvido a partir da curiosidade e da vontade de aprender, outras características fundamentais. Liderar projetos globais exige muita dedicação por parte do profissional, segundo o professor Sherban. Ganha pontos aquele que tem apetite por desafios, gosta do novo e de se aventurar – “no bom sentido”, ele faz questão de ressaltar. “A pessoa que tem uma característica mais conservadora, um pouco avessa a mudanças, dificilmente vai conseguir enfrentar desafios como esses”, diz o professor. “Quem chega a outros países achando que não tem nada a aprender já caminha para o fracasso.” Após dois anos convivendo com uma cultura profissional diferente da brasileira, Ricardo, da Unilever, conta que o aprendizado foi bem rico e proveitoso. “Trouxe para o Brasil uma visão diferente de liderança.” Sua experiência em terra holandesa fez com que ele enxergasse as particularidades do país, o que atualmente o ajuda na hora de pensar e desenvolver um novo produto. “Desde o meu retorno, tive oportunidade de participar de projetos que começaram na Europa e foram montados em conjunto com a América Latina, que estava sob minha liderança. Posso dizer que a cultura global serve também para compartilhar as boas práticas entre os países.” O trabalho em equipe, com a participação de times no exterior, oferece ao profissional a possibilidade de ampliar sua rede de contatos e relacionamentos, além da visão de negócios, aspecto que Tatiana da Ponte, sócia da Ernst & Young Terco, de São Paulo, considera fundamental para a geração de novas ideias. A experiência internacional, seja por meio de expatriação, seja pela liderança em projetos globais, contribui também para o crescimento pessoal. “Quem está conectado, é multifuncional e multicultural tem mais chances de se desenvolver”, diz o professor Sherban .

 

 

VOCE NO Controle DO CONSUMO
Jogue a primeira pedra quem nunca se arrependeu de uma compra de impulso. É quase irresistível. Você vê o produto na vitrine, acompanhado da palavra “promoção” em letras garrafais, e em segundos está sacando o cartão de crédito da carteira. Daí, sai feliz da loja.A felicidade, no entanto, tem prazo para acabar. No caso de Pablo Somoza, de 37 anos, gerente de contas da Alog Data Center, no Rio de Janeiro, a satisfação dura 24 horas. “É o tempo que leva para cair a ficha de que fiz uma compra desnecessária”, diz. Neste mês, um de seus quatro cartões de crédito vencerá com uma fatura quase três vezes maior do que seu salário – 81%do total corresponde a dívidas de meses anteriores. Há três meses, o gerente está rolando a dívida no cartão de crédito. Assim como Pablo, 21% das famílias brasileiras estão com as contas em atraso. o último levantamento da Serasa Experian aponta o avanço de 19% no número de inadimplentes no primeiro semestre. Desses devedores, 60% têm débitos que superam a receita mensal. O valor da dívida de Pablo é resultado de três meses de gastos descontrolados, mesmo sendo um profissional bem remunerado – de acordo com a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele recebe mais do que 99% dos brasileiros que trabalham. Sua renda mensal é constituída de salário fixo mais remuneração variável por desempenho. Ele diz que nos últimos três meses não recebeu boas comissões, por isso se enrolou com as contas. Pablo, como muita gente, conhece a fórmula para evitar o endividamento: compre apenas o que precisa, faça algumas reservas para realizar seus sonhos e não gaste mais do que ganha. No entanto, o executivo simplesmente não consegue controlar o ímpeto consumista. “Quando vejo, já estou pagando”, diz. Em julho, sua maior despesa foi com o pagamento de contas, que incluem condomínio, telefone e outras despesas da casa, que somam 28,1%do montante do mês. No cartão de crédito ele acumula milhas, porém, a estratégia é válida somente para quem tem as contas planejadas. Outros 23,85% foram para bares e restaurantes, enquanto 9,46%desembolsados em supermercados. As roupas contribuíram com 8,34% da fatura do cartão e os eletroeletrônicos, que ele considera seu verdadeiro vício, ocuparam 7,26%. O conselho do consultor de finanças Ricardo Fairbanks, da Dinheiro em Foco, é quitar os débitos o quanto antes. Os juros do cartão de crédito são os mais altos do mercado, chegando a 323%ao ano. E, depois, diz o consultor, Pablo deve trocar o cartão de crédito pelo de débito. “Nos primeiros meses ele vai surtar, percebendo que a grana está acabando. Mas depois perceberá que é possível ganhar o dinheiro primeiro para gastar depois”, diz Ricardo.

 

CONSUMO EXCESSIVO

O que separa pessoas como Pablo de uma vida financeira saudável é o consumo excessivo. A má notícia é que esse é um comportamento ditado, em boa parte, pelo seu cérebro. Já a boa-nova é que é possível aprender a controlar o ímpeto consumista. O ato de comprar compulsivamente leva o cérebro a se comportar de forma diferenciada, ativando o sistema de recompensa cerebral, uma área que é responsável pela sensação de prazer após a compra. Em boa parte dos casos, a impotência diante de um impulso consumista tem base fisiológica gastar se torna uma importante fonte de prazer em momentos de estresse e de falta de tempo para outras atividades. Martin Lindstrom, publicitário dinamarquês e especialista em estudos do comportamento do consumidor, acredita que ninguém está imune ao consumo desvairado. A difícil relação entre o homem e as compras é tema de seu livro A Lógica do Consumo CE do Nova Fronteira), que o levou à lista de uma das 100pessoas mais influentes do mundo, de acordo com a revista Time. Em entrevista à VOCÊS/A, ele afirma que “nosso cérebro se comporta da mesma forma quando usamos drogas ou fazemos compras. Exatamente a mesma química é liberada”. O segredo é dar um tempo para que o organismo dilua a dopamina, que é o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. “Se você se apaixonar por algo, espere 24 horas e depois volte à loja. Se ainda estiver apaixonado, possivelmente é um produto que merece ser adquirido.” O especialista também aconselha usar mais o pagamento em dinheiro vivo. “Assim, você cria uma relação tangível com o preço do produto, o que o fará gastar menos. De acordo com as nossas pesquisas, isso reduz o gasto em 11%”, afirma. No supermercado, o conselho é carregar todos os produtos nas mãos, ainda que isso seja feito com mais frequência no mês. “Nos últimos cinco anos, o tamanho do carrinho dobrou, aumentando em 40% as vendas das grandes redes varejistas”, diz Martin. Ele garante que ouvir uma música bem acelerada durante as compras leva a uma redução de 19% nos gastos, enquanto deixar as crianças em casa pode resultar em uma economia de 26%. Outra sugestão do especialista é comer antes de fazer qualquer compra. “Isso fará seu consumo diminuir aproximadamente 22% Freando o impulso o neurologista Fernando Campos Gomes Pinto, coordenador da Liga de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, destaca que a melhor ferramenta para colocar o sistema nervoso em ordem é o repouso. “O sono reorganiza os pensamentos, pois é o momento em que o cérebro sai do estado de vigília”, explica o médico. Também não abra mão das atividades artísticas nem dos exercícios físicos. O ganho na qualidade de vida pode frear o impulso consumista. Mais uma sugestão do neurologista é curtir o produto. “Vá à loja, experimente, converse com os vendedores e manuseie o produto. É uma forma de induzir o cérebro a se sentir realizado antes de passar no caixa”, aconselha. Essas foram as ferramentas adotadas por Carolina Fernandes, coordenadora de marketing da Asyst International, multinacional de TI, com escritório em São Paulo. Em 2009, ela esteve nos Estados Unidos a passeio. De lá trouxe 35 tubos de hidratante, sete relógios, notebook, tablet e uma fatura de 12 000 reais no cartão de crédito. Todas as suas economias foram usadas para o pagamento da conta. Ainda assim, a dívida perdurou por mais seis meses. “Durante esse período fui pagando o máximo que pude, mês a mês. Foi o maior susto da minha vida”, conta Carolina.  Hoje, aos 27 anos, afirma que “os últimos meses têm sido terríveis”. Isso porque ela está praticamente em um processo de reeducação financeira graças ao estímulo do namorado – ela o considera super controlado quando o assunto é dinheiro. Os passeios em shopping nos fins de semana foram substituídos pela academia, pelos tratamentos estéticos e até por visitas a amigas. “Quando chega a noite, respiro aliviada por ter conseguido mais um sábado sem fazer compras”, diz Caroline, que ainda tem peças com a etiqueta em seu guarda-roupa. Para matar a vontade de adquirir roupas novas, ela aproveita parte do guarda- roupa da irmã. O esforço já resulta em um corte de 50% no valor mensal da fatura do cartão de crédito. “É difícil, mas fico muito feliz de ver a grana ir para um destino mais nobre”, diz ela, que agora investe 40% do salário. “Ver meus recursos crescerem na poupança me dá prazer. Fico muito feliz.

 

 

SUPERMERCADO DE INVESTIMENTOS

Já foi a época em que era preciso ter muito dinheiro para desfrutar de boas oportunidades de investimentos com baixas taxas de administração. Agora, com 50 reais na conta bancária é possível acessar mais de 500 fundos de investimentos de diferentes instituições financeiras e escolher o que melhor lhe convém. E tudo pela internet. Esses sites são popularmente chamados de “supermercado de investimentos” ou, na linguagem técnica, arquitetura aberta de aplicações. Pioneira nesse campo, a carioca XP Investimentos, em dea anos de vida, saiu de urna sala de 30 metros quadrados voltada para cursos sobre educação financeira para se tornar o maior “supermercado de investimentos” do Brasil, com mais de 400 fundos na prateleira, desenvolvidos por cerca de 100 gestores parceiros, além de opções em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e ações. Com o sucesso da XP, outras butiques de investimentos, como Mirae e Órama,estão entrando nesse mercado. Mas o que é exigido para entrar em um desses supermercados? Mesmo com estruturas distintas em tamanho e oferta de produtos, o que todos os sites têm em comum é a possibilidade de operação plena do investimento por meio da internet nos próprios portais. Todas as corretoras, bem como os gestores dos fundos, são registrados e autorizados a operar pela Comissão de Valores Mobiliários(CVM).Entre os grandes bancos, apenas o Citibank oferece plataforma aberta de produtos de terceiros, mas exclusivamente para seus clientes. “É uma estratégia global iniciada há dez anos, para clientes de alta renda”, diz Ennio Ferreira de Moraes, diretor executivo de investimentos ~o Citibank. Uma vez escolhida a corretora, o interessado preenche os dados solicitados e os envia também por e-mail. A aprovação costuma ser feita em menos de um dia e o cliente recebe um login e um número de conta para operar. É importante, nesse momento, antes de realizar o seu primeiro aporte, preencher um questionário conhecido como Análise de Perfil do Investidor, que irá definir em que classe você se encaixa – conservador, moderado ou agressivo (mais sujeito a riscos). A aplicação do questionário está em fase de normatização pela CVM,que defende que nenhuma empresa de serviços financeiros poderá apresentar um produto incompatível com o perfil do investidor. Aí, é só fazer uma transferência da grana de sua conta para a da instituição. As corretoras não cobram taxa de abertura de conta ou mensalidades. O ganho vem por meio do reparte das taxas com os gestores.  Segundo o administrador de investimentos Fabio Colombo, o modelo de arquitetura aberta é interessante tanto para o investidor como para o gestor do fundo. “O investidor comum passa a ter à disposição produtos até então oferecidos a clientes private, e os gestores têm a possibilidade de ampliar a base de investidores em seus fundos”, afirma. O cuidado maior, diz Fabio, é quanto à transparência das taxas cobradas, principalmente a de performance aplicada nos fundos multimercado, que impactam na rentabilidade do produto. A voes S/A acessou os  principias sites que oferecem os melhores produtos e dá as dicas do que encontrar e por onde navegar. Como migrar sem medo Se você está acostumado a associar os nomes dos grandes bancos a seus investimentos, talvez estranhe em um primeiro momento que corretoras pouco conhecidas do grande público possam abrigar produtos de pesos-pesados do mercado financeiro, como JP Morgan, BTG Pactual e BNP Paribas, bancos que exigem aportes acima de três dígitos apenas para abrir uma conta. Mas é isso mesmo. Aos 36 anos, o economista Guilherme Benchimol comanda hoje uma equipe de 700 pessoas e 2 000 agentes distribuidores na XP Investimentos. São cerca de 70 000 clientes, sendo 30 000 com aplicações em fundos, com taxas de administração mais em conta do que as ofertadas pelos grandes bancos. “Oferecemos produtos que antes eram exclusivos da alta renda e que na XP são acessíveis a pequenos e médios investidores. Por sua vez, as grandes casas enxergam na XP um canal de visibilidade e exposição”, afirma Guilherme. Daí a parceria interessar para as duas pontas do negócio. Na XP, o investidor pode iniciar com 50 reais em um fundo referenciado DI, com taxa de 0,3%, ou, se tiver um pouco mais de grana, a partir de 5 000 reais dá para aplicar no fundo DI do BTG PactuaI, que rende 95% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) , em fundos imobiliários, operar na bolsa por home broker ou até investir em Letras de Crédito Imobiliário (LCls) ou Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRls), papéis que, assim como a poupança, são isentos de Imposto de Renda. Desconfiança inicial Descontente com o atendimento de seu banco e com a elevada taxa de administração cobrada em seu fundo multimercado, o engenheiro de petróleo Norton Torres atendeu a sugestão de amigos e, há nove meses, aplicou 50 000 em um fundo multimercado do BTG PactuaI, com taxa de administração de 0,6%, por meio da corretora Orama. “No começo, fiquei meio desconfiado”, admite. Surpreso com a rentabilidade, Transferiu todas as suas aplicações para o supermercado de investimentos e diversificou os produtos com fundo de ações, multimercado e renda fixa. Apesar do pouco tempo, Norton estima que seus ganhos atuais estão entre 150;6e 20% superiores ao que teria obtido caso deixasse seus recursos no banco. Com cerca de 7 000 clientes, a Órama concentra todo o atendimento aos investidores diretamente de seu escritório no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Segundo Guilherme Horn, CEO da corretora, o uso mais intenso da internet em operações financeiras está proporcionado uma pulverização geográfica dos investidores. “Hoje, 20% dos clientes são do Nordeste”, revela. Ex-sócio da Agora (vendida para o Bradesco em 2008), Guilherme acredita que a arquitetura aberta é uma forma de desconcentrar a indústria de fundos e contribui para a melhor educação financeira da população. A Órama trabalha com 15 gestores independentes (como BNY Mellon, JGP, Gávea e Opportunity) e possui três fundos próprios, com taxa de 0,3%. O tíquete de entrada na corretora é maior do que o da concorrência, e está em 5 000 reais. Pesquise a melhor opção Falta de informação não foi o caso do analista de sistemas Cristian Tetzener, que percorreu longo caminho até chegar ao supermercado de investimentos. Há 15 anos, começou a aplicar em poupança e renda fixa em um grande banco de varejo. “Não estava satisfeito nem com o retorno nem com a atenção que recebia da instituição e fui pesquisar várias corretoras até chegar à Mirae. O que me chamou a atenção foi a baixa tarifa do home broker, que hoje é de 2,90 reais por operação, e a rentabilidade dos fundos”, recorda, destacando que optou por dois produtos que rendem “bem acima” do CDI. Com uma estrutura mais enxuta, a corretora sul-coreana entrou nesse tipo de operação em janeiro de 2011 e conta hoje com 7 000 investidores, dos quais 30% têm a grana aplicada nesses fundos. A corretora oferece 50 fundos de cinco gestores diferentes. São desde produtos populares, como o fundo multímercado Mapfre Inversion, com aplicação inicial a partir de 200 reais e taxa de 1,2%, até investimentos com tíquete mínimo de 50 000 reais. De acordo com Luciana Pazos, diretora de gestão de fortunas da Mirae, a corretora mantém reuniões mensais com os gestores e a equipe faz  contatos freqüentes com os investidores para recomendar investimentos. Sediada em São Paulo, a Mirae tem 13 profissionais 100% dedicados a esse tipo de atendimento. No primeiro semestre, o fm\do Mirae Asset IMA-B, com taxa de 0,3% e aplicação mínima de 25 000 reais, conseguiu ganhos de 12,72%, enquanto o Ibovespa declinou 4,23% no mesmo período.

 

LEAO DO BEM

Dívida é algo que não costuma sair da cabeça de quem a tem, ao menos enquanto não se resolve a pendência. Por isso, qualquer graninha extra deve logo ser usada para pagar o débito. E esse pode ser um ‘om momento para se pensar no assunto. A Receita Federal começou a liberar os lotes da restituição do Imposto de Renda (IR) referente a 2011 e anos anteriores. A boa notícia é que, de um montante de 2,6 bilhões de reais devolvidos pelo Leão, uma parte pode ser sua. Dá para aproveitar de diversas maneiras essa grana, que será liberada mês a mês até 17 de dezembro. Mas a prioridade número zero é amortizar as dívidas para só depois pensar em investir, alertam os especialistas. “Para a maior parte dos brasileiros, que não tem reservas, o dinheiro da restituição pode ser usado como um colchão financeiro, se não houver nenhuma dívida a pagar. É o primeiro passo para a realização dos sonhos. A recomendação é não deixar a grana entrar no orçamento e desaparecer”diz Erasmo Vieira consultor financeiro da Planilha Planejamento Financeiro. Assim o fez Fernando Santos de Oliveira, de 44 anos, produtor gráfico que recebeu 2 400 reais liberados na segunda semana de julho, e priorizou o pagamento de parte de sua dívida, além de efetuar alguns investimentos. Sua opção foi usar 900 reais desse bolo para o pagamento de três parcelas de um empréstimo de 35 000 reais que contratou em 2010- que, segundo ele, já chega a 65 000 reais com a cobrança de juros. Fernando conta ainda que separou 1 500 reais do total recebido e aplicou em parcelas iguais em planos de previdência privada de seus três filhos. “Sobraram 150 reais, que usei para fazer uma ‘feirinha”‘, diz, ironicamente. O exemplo de Fernando, típico brasileiro endividado, mostra uma das formas de como é possível usar a grana da restituição, porém, segundo os especialistas, não é a melhor delas. “Com o dinheiro que recebeu, uma boa opção para Fernando seria pagar mais parcelas do empréstimo. Isso porque o que ganhará de rendimento na previdência é muito menos do que os juros que paga ao banco”, analisa Meire Poza, gestora da Arbor Contábil, consultoria financeira paulistana. Por isso, a atitude mais recomendada é encarar a dívida como uma guerra. “É como se você estivesse enfrentando um adversário”, afirma Augusto Sabóia, consultor financeiro da Sabóia Advisors. Hoje, o cenário de endividamento no país é crescente. Na esteira de certo consumo desenfreado dos brasileiros, a inadimplência registrou aumento de 19,1%no primeiro semestre de 2012, em comparação com igual período do ano passado, segundo dados da Serasa Experian. Monte seu colchão financeiro Quem não tem dívidas pode usar a grana de diferente; maneiras. “Se a pessoa não conta com reservas, a sugestão é colocar o valor da restituição em uma aplicação de longo prazo. Imagine quanto é possível ter daqui a dez anos se todos os anos colocar o dinheiro do IR em um plano de previdência?”, diz o consultor Augusto Sabóia. O ideal é transformar esse dinheiro, que vem do salário,  em carteira de investimentos que vão render depois. Não há fórmula pronta para usar bem a restituição. É importante avaliar se o objetivo é de curto, médio ou longo prazo. “Caso a ideia seja fazer uma viagem no fim do ano, é possível olhar com carinho para a poupança, já que o horizonte de tempo é próximo”, afirma Tiago Pessoa, coordenador do site de orientação financeira InvestMania. A principal vantagem da poupança é que não há incidência do próprio Imposto de Renda sobre as aplicações, sem contar a facilidade dos resgates e das operações – enquanto em aplicações como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou o Certificado de Depósito Bancário (CDB),as reduções tributárias só começam a valer a pena a partir do segundo ano. Agora, se o seu olhar estiver sobre os compromissos de começo de ano, como IPTU, IPVAe compra de material escolar dos filhos, a poupança aparece como abrigo seguro. “É preciso calcular de quanto será o gasto do começo de ano. Mas, antes de decidir, calcule se esses custos serão inferiores ao valor que írás receber do IR, pois o restante do dinheiro pode ir para aplicações de longo prazo, como a compra de ações ou de títulos públicos de Tesouro Direto”, diz Tiago.

 

MbA E CURSO NO EXTERIOR

Vou começar um MBAe m agosto que custará 1100 reais por mês – 28 800 reais no total. Concluído o curso, pretendo passar um período no Canadá ou nos Estados Unidos melhorando meu inglês. Estou em transição de emprego e vou receber 10 000 reais. Além disso, tenho 4 500 reais em um Certificado de Depósito Bancário (CDB) e pretendo economizar entre 1 000 e 1 500 reais por mês. Qual é o melhor investimento para que em dois anos eu tenha 50 000 reais? HeLder Lameirinhas, 28 anos, administrador de empresas, de São Paulo(SP). Quem responde: Fabiano Pessanha, gerente comercial e consultor de investimentos da Geração Futuro, de São Paulo (SP) – Uma viagem ao exterior, como a sua, em que contará apenas com a renda dos investimentos acumulados para o MBA,deve ser  muito bem planejada. Usando um valor mensal de investimento de 1 250 reais, acrescidos de seu montante inicial de 14 500 reais, busque uma aplicação de alta liquidez e baixa volatilidade, para chegar aos 50 000 reais. Supondo que a inflação ficará controlada e que o seu CDB tenha menos de seis meses, resgate e transfira para fundos de renda fixa, com títulos de crédito privado e rentabilidade superior a 105% do cm e taxa inferior a 1% ao ano. Para os novos investimentos, coloque 60% em renda fixa e 40% em fundos cambiais, para comprar euros ou dólares com antecedência. Não invista em fundos de ações ou multimercado no curto prazo.

 

Grana do FGTS

Estou trocando de emprego e recebi 30 000 reais de Fundo de Garantia. Tenho 10 000 reais aplicados em ações e 6 000 reais no Tesouro Direto. Invisto 400 reais mensais na Previdência, 150 reais em títulos de capitalização, além de 200 reais na poupança. Qual é a melhor aplicação, pois quero comprar uma casa em cinco anos? Mario Ernando, 31 anos, analista tributário da Vale, do Rio de Janeiro (RJ) Quem responde: Paulo Bittencourt, diretor da Apogeo Investimentos, de São Paulo (SP). Vamos supor que seu perfil de investidor seja moderado e que esteja disposto a correr um certo risco, sem comprometer boa parte do investido. Os 6 000 reais no Tesouro devem ser mantidos até o vencimento. A previdência também é sagrada. Os 200 mensais na poupança só fazem sentido se você for utilizar esses recursos em menos de 12 meses. Senão, é melhor investir em um fundo multimercado sem renda variável (do tipo juros e moedas), pois tem maior rentabilidade que a poupança para aplicação de até dois anos. Para os 30 000 reais, destine 20 000 para um fundo de ações de dividendos e os 10 000 reais restantes para um multimercado com renda variável. Lembre-se: o segredo é manter disciplina e diversificação.

 

O FUNIL DA SELEÇAO

Atualmente, os programas detrainee mais concorridos do país chegam a reunir 40000 candidatos. Diante dessa concorrência, ser aprovado para uma das poucas dezenas de vagas disponíveis . parece missão quase impossível, principalmente quando não se está familiarizado com as etapas dessa mega seleção e quando não se sabe quais os critérios usados na avaliação. Pensando nisso, a VOCE S/A decidiu detalhar as três grandes etapas do processo seletivo: online, presencial de triagem e presencial final. Consultores que participam desses exames também deram dicas sobre o que costuma ser levado em conta para ranquear os candidatos. São informações valiosas para você superar seus concorrentes . ONLINE Na etapa online,os candidatos são submetidos a testes de inglês, português, raciocínio lógico e atualidades. A fase se estende por até dois meses. Porém, as provas podem ser realizadas num mesmo dia, se o candidato assim preferir. Esta tapa está ficando mais longa, pois muitos recrutadores têm aproveitado para analisar características comportamentais de seus candidatos já nessa fase. Na fabricante de cosméticos Natura, a duração da avaliação online passou de uma para oito semanas. Ao longo de dois meses, o candidato a traínee desenvolve uma série de atividades no meio virtual, como contar sua história em ciclos de sete anos, opinar sobre vídeos postados pela companhia e responder a questionários pelos quais a empresa analisa seus valores e características comportamentais por meio da busca de palavras-chaves associadas a diferentes perfis de personalidade; Os jovens também participam da apresentação de cases na etapa online, nos quais os recrutadores avaliam a habilidade de trabalhar em.equipe e como funciona o processo de tomada de decisão dos concorrentes. No programa de trainee da Kraft & Foods, do setor de alimentos, foi criada uma plataforma digital que simula uma rede social, na qual os participantes realizam atividades em que se avalia seu grau de adesão aos valores da empresa. Para a organização desses programas, as novas ferramentas virtuais!Permitem conhecer características comportamentais do jovem antes das .etapas presenciais. E Muitos candidatos não costumam dar a devida importância às atividades online por pensar que elas não são decisivas. Mas as consultorias que trabalham na organização desses processos lembram que a etapa online elimina entre 90% e 99% dos candidatos. Por isso, a primeira dica para se sair bem nela é participar de todas as atividades propostas, já que cada uma delas pode contar pontos a seu favor. “Juntamos o resultado dos testes online, dos questionários e dos games e montamos um ranking para definir os candidatos que passa tão para.a próxima fase”, explica Renata Magliocca, gerente de inovação da Cia de Talentos, empresa especializada no recrutamento de trainees. Para conseguir o .melhor.desempenho, a orientação é planejar a execução das tarefas propostas. “Se for pedido que poste um vídeo, não deixe para produzi-lo na última hora, o que provavelmente vai comprometer a qualidade do material”, aconselha Eline Kullock,presidente do grupo Foco, consultoria de recrutamento. “Os chats com gestores da empresa são uma boa oportunidade para se mostrar. Mas faça comentários Objetivos,não faça várias perguntas numa só. Lembre-se que essas ferramentas podem chamar a atenção para você positiva ou negativamente diz Eline Kullock, Para Renata, da Cia de Talentos, é possível se preparar para os testes online de modo a conseguir os melhores resultados. “Em alguns programas, entre o fim da fase de inscrição e a abertura das provas .onlíne, há um prazo de um mês. Aproveite esse tempo para revisar seus conhecimentos em inglês e pesquisar na internet testes de raciocínio lógico para ter noção do que é pedido nas questões. “Nas bancas de jornais, também dá para comprar revistinhas com desafios matemáticos, que podem ajudar bastante”, sugere Renata Magliocca. “Há candidatos que aproveitam esse tempo para pegar aulas de matemática e raciocínio lógico, e isso é válido, sim”, acrescenta.  Chega à primeira etapa presencial 1%dos candidatos, mas só um décimo deles será aprovado para a fase seguinte. Aqui, o filtro usado para selecionar os candidatos serão as dinâmicas de grupo. “Normalmente, trata-se de uma atividade que já aborda o negócio da empresa, mas de forma Iüdíca”, diz Renata Magliocca. Para a especialista, nesse tipo de atividade o mais importante é ter uma atitude colaborativa, ajudando o grupo a chegar ao resultado. “Você não precisa necessariamente ser o mais falante nem ser extrovertido. Existem várias formas de colaborar – apresentando o trabalho, organizando o grupo na divisão das tareias, controlando o tempo ou trazendo o grupo para o foco quando as pessoas começam a se dispersar. É preciso que você tenha algum papel no grupo, ou o consultor não terá como avaliá-lo”, orienta Renata. Ainda nessa etapa é possível que ocorra uma entrevista com os consultores de RH envolvidos na seleção.Prepare-se para essa entrevista recordando situações vividas por você que ilustrem suas qualidades e pontos fortes. Certamente, os avaliadores pedirão exemplos que demonstrem que você realmente tem as competências. que diz ter. Jamais minta, pois você será eliminado. Apenas 0,1%dos candidatos inscritos chega à etapa final, na qual passarão pelo painel de negócios e pela entrevista com a diretoria. Nessa etapa, o candidato é avaliado por gestores da companhia, por íss({é importante que mostre estar.familiarizado com o negócio e “com o mercado da organização. Na etapa final, à qual chegam candidatos com currículos e perfis parecidos, estar mais bem informado sobre a companhia e seu negócio faz a diferença. “É interessante que os gestores sintam que você fala do negócio como se já trabalhasse na organização”, diz Renata Magliocca, da Cia de Talentos. Para o painel de negócios, uma dica é treinarapr”isentásseis diante de amigos e colegas. “Prepare se para falar em público e para reagir às críticas, argumentando de forma consistente. Os gestores vão tentar colocá-lo na parede para saber como você se comporta sob pressão. No caso da entrevista, mais uma vez será necessário ter em mente um bom estoque de exemplos para responder às perguntas dos recrutadores. Tenha na ponta da língua exemplos de um projeto que você coordenou e de obstáculos que teve de superar . para conquistar algo que desejava. São casos que, se bem expostos, contarão a seu favor

 

VELOCIDADE MAx/MA

Quando concluiu seu programa de trainee na Telefônica Vivo, em dezembro do ano passado, o publicitário paulista Eduardo Cozer, de 25 anos, assumiu o posto de analista pleno.

Apenas seis meses depois, em junho deste ano, ele foi promovido a analista sênior da área de controle de gestão da empresa de telefonia. A rápida promoção do publicitário, cuja experiência antes do trainee se limitava a alguns estágios e a uma passagem por uma organização júníor, aconteceu como resultado de um treinamento que a Telefônica Vivo faz para acelerar O amadurecimento dos jovens. A ideia é tornar ainda mais rápido o período de aprendizado desse pessoal, fazendo com que as pessoas tenham bom desempenho no trabalho já no primeiro ano. Esse procedimento está se tornado mais comum em grandes corporações. A Telefônica Vivo iniciou o programa com essa configuração há três anos. Além do tradicional job rotation, os jovens cursam pós-graduação em gestão de negócios, com ênfase em telecom, na Escola Superior de Propaganda e Marketing CESPM),em São Paulo. Após é paga pela companhia. Eles também podem passar por um módulo internacional, que envolve uma temporada de estudos no exterior, aliado experiência de trabalho num dos escritórios Da. América Latina ou da Espanha. “Nosso objetivo é reduzir o tempo para que eles se sintam prontos para começar a agregar valor à empresa”, diz Carolina Gil, gerente de desenvolvimento e gestão de talentos da Telefônica Vivo. A telefônica recruta, em medida, 30jovens por ano e todos eles são enviados ao curso na ESPM. O amadurecimento emocional dessa galera também é trabalhado .no processo, tendo como base um assessment, que mapeia as principais características emocionais que eles precisam desenvolver. Ao longo  do programa, que tem duração de um ano, eles recebem feedback constante do gestor e passam por sessões de coachíng, que no dia a dia é dado pelo gestor. “Percebemos que o sucesso de um trainee depende muito da qualidade da relação que ele tem com seu líder. Por isso, hoje temos uma preocupação em preparar também os líderes sobre como fazer a gestão do desempenho e como lidar com a geração mais jovem, desafiando-a”, diz Carolina. A interação entre os gestores e os trainees se dá em encontros Promovidos pela companhia. Nessas ocasiões, um consultor orienta sobre o papel dos lideres e dos jovens. As iniciativas de liberação- são tendência,atualmente, -entre os programas de trainees, motivadas, principalmente, por dois fatores. O primeiro é a necessidade de formar lideranças em ritmo rápido, acompanhando o crescimento da economia nacional e a expansão das multinacionais instaladas no país, que tem priorizado os investimentos • mercados emergentes em

no brasileiro – diante do 8.balo provocado pela crise econômica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson &Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30 jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. mica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson & Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. O programa é dividido em três módulos – cada um com duração de uma semana – e fornece uma capacitação intensiva em temas como visão estratégica, comunicação e negociação, finanças no meio corporativo, tendências macroeconômicas e técnicas de apresentação, etapa durante a qual os jovens chegam a ser filmados para aperfeiçoar seu desempenho. “Ao fim do módulo, eles participam de um business game, no qual simulamos uma situação em que precisarão aplicar tudo me aprenderam”, conta Sônia Marques, diretora de RH da organização. Os trainees também recebem formação em processos de RH, como contratação, políticas de remuneração e desenvolvimento de carreira. “Nossa.expectativa é de que eles venham a gerir equipes e, por isso, precisam estar preparados para lidar com essas questões práticas”, afirma Sônia. Outra novidade é que,além do tradicional rodízio entre as áreas, o trainee também ‘tem a chance de passar parte do programa fora da matriz,em outras unidades da J&J em Recife, Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Na J&J, o amadurecimento emocional dos jovens é trabalhado em sessões de eoachíng realizadas a cada dois meses e também por meio de eventos, como o Superando Limites -uma semana durante a qual os. trainees são testados em desafios envolvendo esportes radicais, como arvorismo, ou trabalhos voluntários. Em uma das provas, por exemplo, há o desafio de construir uma jangada para recuperar’ bandeiras fincadas no meio de um lago -.: o que exige competências como liderança, trabalho em equipe e persistência. “É uma grande experiência de autoconhecimento, em ,’,que 9S jovens descobrirão come lidam. com questões como insegurança e frustração e avaliarão sua resistência”,diz Sônia Marques.

BONS RESuLTADOS

Um.sinal dos bons resultados colhidos pela J&J a partir dessa abordagem é o desenvolvimento acelerado do ex-trainee Victor Vendramíni, de 26 anos. Durante o programa, concluído em novembro de 2011, ele desenvolveu a estratégia de marketíng digital da marca Johnson’s Baby. O sucesso do projeto foi tão grande que Victor foi encarregado do marketing digital de todas marcas da empresa no Brasil. {jffi cargo até então inexistente ~ () de assistente sênior’ de marketing digital – foi criado especialmente para ele, que hoje já e gestor  de outras duas pessoas. E não é só. Como a Johnson & Johnson é patrocinadora oficial da Gopa de 2014, Victor será o responsável  por liderar a estratégia de marketing.digital da multinacional para <> evento. Formado em administração de empresas com ênfase em agroaegos,.Vitor atribui o sucesso de sEm-desempenho aos treinamentos em  Iíderança  capacitações e ao feedback recebidos durante o traínee, “O programa me deu as ferramentas necessárias para que eu mesmo abra os’ caminhos para o meu crescimento profissional”, diz oa exemplo. de Victor não é um case iso.lado. Segundo a direção de RH da J&J, desde que as

ferramentas, de desenvolvimento foram implantadas,em 2008, o índice de retenção de ex-trainees é de 95% – 40% da população formada nas duas últimas edições do programa já ocupa postos gerenciais na companhia. O programa trainee da incorporadora Brookfíeld, lançado em novembro do ano passado, já foi concebido de forma a favorecer a aceleração do desenvolvimento e o amadurecimento dos jovens. Para isso, em vez da tradicional apresentação. de um projeto conclusão ao.fim do programa, os trainees têm de entregar projetos menores bimestralmente. Comissão, a cada dois meses eles são avaliados pelo gestor da área em que atuam, por

um coach e pelo. RH da empresa. “A intensidade desse acompanhamento faz toda a diferença, porque as orientações constantes permitem ao profissional ajustar a rota ao longo do Processo. e alcançara atitude e o desempenho adequados mais- cede”, diz Lygia Villar, diretora deRH da Brookfield. Além de workShops realizados a cada dois meses, nos quais são simuladas situações vividas no dia a dia da corporação.,. os trainees também têm! Ao fim do programa, uma apresentação:inglês .diante  membros do.conselho de administração. Da multinacional,sediada no Canadá.Graças ao autoconhecimento. adquirido durante o processo, os jovens já concluem o programa com maior clareza sopre as áreas em que querem atuar e sobre o que precisam desenvolver para chegar aonde querem”, diz Martha Magalhães, da consultoria DMRH, de São Paulo.

 

 

CARREIRA DE· ESPECIALISTA

E cada vez maior o número de organizações que estão cria não programas de trainee para as áreas técnicas. É o caso, por exemplo, da  cervejaria Ambe”, que,além do trainee convencional – generalista, voltado para a formação dos futuros líderes -, realizar trainee industrial. O objetivo do programa, que recruta profissionais egressos “dos cursos de engenharia, química, farmácia, agronomia, biologia, ciências da alimentação e biotecnologia, é treinar seus futuros gerentes de meio ambiente, de qualidade, de processos e de engenharia, além de mestres cervejeiros, profissionais responsáveis por supervisionar todo o processo de fabricação da cerveja, de acordo com os padrões de qualidade da empresa. A criação do trainee industrial, há três anos, é reflexo da expansão dos negócios. “Decidimos abrir novas fábricas nos últimos anos e havia necessidade de líderes para área industrial”, explica Daníel.Cócenzo, gerente de gente e gestão. Um dos que optaram pelo traírtee industrial da Ambev foi o engenheiro químico carioca Marcelo Mansur, de 24 anos. Ele conta que chegou a ler a descrição. dos dois programas ,:- convencional industrial e acabou se decidindo pelo industrial” pela possibilidade de conciliar a visão global do negócio com o aprofundamento na área técnica. Isso porque o formato do programa prevê cinco meses de imersão no negócio e na cultura da AriIbev por meio do conhecimento das Urtidáâes fabris, centros de distribuição e área de vendas e de treinamento esta sede da companhia, meses dedicados a conhecer todo o processo de fabricação da cerveja. “O trainee industrial me proporciona todas as vantagens do trainee administrativo e ainda reserva um tempo para o aprendizado sobre o produto que fabricamos, desde a fase da chegada do caminhão de malte até o engarrafamento da cerveja, diz Marce19.Neste ano, ele foi aprovado em seleção interna para o curso de mestre cervejeiro. “É uma formação que me propicia supervisionar todo o processo de produção sob a óptica da eficiência e da redução de custos, e me gabarita como responsável técnico de uma fábrica”, conta Marcelo Quem também não se arrepende da escolha feita é o ex-trainee da América Latina Logística (ALL) Luciano Johnson Neves, de 30 anos, hoje no posto de superintendente de manutenção de vias permanentes da empresa, maior operadora logística da América Latina. Desde a conclusão, em 2006, do Programa Engenheiro – programa de trainee da ALL voltado para a carreira técnica -, ele foi promovido anualmente e hoje é o executivo responsável por toda a malha viária da companhia no país. Luciano explica  que os profissionais que optam por essa modalidade de programa recebem uma pós-graduação em sistemas de infraestrutura logística ferroviária, o que os torna profissionais valorizados no mercado, já que não há graduação em engenharia ferroviária no Brasil. Além da pós-graduação, o trainee de 12 meses inclui o desenvolvimento em competências gerenciais, licte;ança e metodologia Seis Sigma. “Ao combinar a formação executiva com o conhecimento técnico, nossa cotação,. See leva,já que a oferta de profissionais da nossa área é muito restrita”, explica Luciano. “É mais fácil substituir um executivo do que .um profissional com o nosso perfil”, opina o superintendente. Por isso mesmo, a política de remuneração, bônus e promoções vigente na ALL para a carreira executiva é exatamente a mesma para quem opta pela carreira técnica. A SELE(,’ÃO Os programas de traínee para especialistas foram criados inicialmente para garantir o amplo recrutamento e a capacitação de mão de obra em empresas cujo negócio depende de profissionais altamente especializados. É o caso da Mineração Usíminas, cujo programa Jovens Engenheiros recruta graduados em engenharia de minas, mecânica, mecatrônica, metalúrgica, civil e ambiental, além de geólogos, para atuar na área de mineração. A. seleção para esses programase costuma ser semelhante à dos trainees convencionais, com testes online de raciocínio lógico e inglês, dinâmica de grupo e entrevista com o RH e gestores. Porém, o formato do programa difere um pouco dos trainees tradicionais – ele é dividido em dois eixos principais.: a realização de um curso de aperfeiçoamento técnico ou de pós-graduação e um módulo em habilidades gerenciais e estratégia do negócio. No Trainee Expert da Oi, por exemplo, voltado para a área de tecnologia, o programa inclui uma PÓS”graduação em engenharia de redes e a rotação por várias áreas do negócio e suporte na parte comportamental. “Ao final do traínee, não serei só u profissional técnico, mas um profissional completo, apto a atuar como especialista ou como gestor de uma “, acredita Tobias Leal, de 24 anos,tecnólogo em redes de computação e trainee expert da Oi. Mas as oportunidades dos traínees não executivos não estão restritas aos graduados em exatas ou tecnologia. Na área da saúde, por exemplo, já existem programas do gênero. É o caso do Trainee Enfermeiro, da rede de hospitais São Camilo, de São Paulo. Desde março deste ano foram iniciadas as atividades da primeira turma, que conta com 28 treinees. Uma das que optaram pelo programa foi a enfermeira Débora Díniz, de 30 anos, de São Paulo. Graduada em 2011, ela acredita que o programa é uma porta privilegiada de acesso ao primeiro emprego na área. “Na minha carreira, é difícil ingressar no mercado de trabalho sem experiência anterior. Ao aprimorar as minhas competências e me proporcionar a possibilidade de realizar um  .trabalho supervisionada por profissionais mais experientes, ganho. Segurança para o exercicio da profissão, que é de uma enorme responsabilidade porque trabalhamos com vidas”, diz Débora. Além do treinamento científico, o programa também prevê a passagem dos trainees pelos diversos setores  do hospital, de modo que os jovens conheçam as rotinas, o fluxo de trabalho e os processos de todos os departamentos. “Essa formação nos prepara para, um dia, vir a assumir postos-chaves e posições estratégicas no hospital”, afirma Débora:’ Outro exemplo de trainee não executivo é o Trainee Social Cultural Itaú Unibanco. O programa recruta profissionais de carreiras como administração pública, arquitetura, ciências sociais, artes cênicas, serviço social, filosofia e pedagogia para atuar no Instituto Itaú Cultural, no Instituto Unibanco e na Fundação Itaú Social, em projetos de responsabilidade social. Kássia Beatriz Bobadilla, de 23 anos, graduada em gestão de políticas públicas, é trainee social do ltaú Uníbanco desde julho do ano passado. Alocada na área de planejamento estratégico do Instituto Unibanco, Kássia tem a missão de profissionalizar a gestão dos projetos da instituição no Terceiro Se\ür.”O trainee me deu a possibilidade decôntinuar fazendo o que amo, mas sendo valorizada profissionalmente”, diz. Segundo Josué Bressani Júnior, diretor-presidente da Ge.mte Consultoria, especializada em serviços de RR, como a função maior dos trainees não administrativos é a prospecção e a formação de mão de obra especializada, o fator idade não é tão decisivo nesses programas, ampliando a possibilidade de admissão para profissionais com certa exwriência. Para Josué, outra vantagem desses programas é permitir ao trainee atuar. tanto na carreira técnica quanto como gestor. “Teoricamente, ele ingressa para atuar e como especialista, mas, se tiver perfil dele e vir a se tornar gestor ou executivo”,diz. “Todos os trainees contratados são selecionados tendo a expectativa de que se tomem futuros dirigentes. Independentemente de a porta de entrada ser uma função técnica, como engenheiro QU agrônomo”, afirma Gilbert6~ diretor de desenvolvimento humano e organizacional da Votorantim,  que está com as Inscrições  abertas para seus programas de trainee corporativo e especialista.

 

NO FINAL, O DESAFIO DA Gerência

Depois do trainee, o jovem tem de encarar a hora da verdade, quando ele assume a posição de supervisor ou gerente  posições de liderança em que ele terá de justificar até três anos de formação e investimento. É o início da vida real no mundo corporativo. O maior desafio nessa transição é mudar o jeito de pensar. Até esse momento, os trainees são avaliados pelo desempenho individual “Com a promoção a gerente, eles serão medidos pela habilidade em gerir pessoas e obter resultados ~ que só vão aparecer mesmo se o jovem conseguir integrar a equipe e colocar todo mundo na mesma sintonia”, diz Vivian Dib, sócia-gerente da Asap, consultoria de São Paulo, especializada em recrutamento de jovens para posições gerenciais. “Um bom gerente precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar U]J\cargo de chefia depois de um programa  de trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe”, diz Maurício Teixeira, ex-trainee da extinta Telemar e atual diretor  financeiro- da Sascar, empresa de amento de frota; de São Paul6.Para isso.é preciso se conhecer bem, para entender os pontos fortes e fracos, e ter maturidade para comandar os subordinados. “O gerente precisa filtrar as é cobranças que ~ para não pressionar demais sua equipe”, diz Vivian. Para aliviar a pressão, Majorei Dias, gerente interna da fabricante de computadores Deu, distribui  as tarefas que recebe do chefe para os funcionários de sua equipe. É uma solução simples, mas que muito chefe novo demora a colocar em prática, com medo de que os subordinados não executem a função tão bem quanto ele faria. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso  deixá a equipe motivada”, diz Majorei: A seguir, você vai conhecer as histórias de jovens que assumiram a posição de gerente após ter saído do prograrna.de trainee.  Essa turma tem valiosas lições para compartilhar com você.  OLHO NA TURMA Rodrigo cavaleiro tem apenas 28 anos e é coordenador da Central de Operações da Simpress, empresa especializada em Business Proces Outsourcing (BPO, ou “terceirização de processos do negócio”) de documentos. Atualmente, estão sob sua responsabilidade 1 200 contratos ativos. Apesar do bem-sucedido período como trainee em 2011, Rodrigo não conta com os êxitos do passado. “O que me trouxe até aqui não é o que vai me manter nessa posição”, diz. “É preciso progredir.” Rodrigo compensa a pressão se mantendo consciente de que, a despeito do cotidiano corrido, estar na posição atual é o resultado de uma guinada em sua vida profissional, exatamente como sonhava. Formado em engenharia elétrica, atuou por uma década na área técnica em uma empresa de telecomunicações, até que sentiu necessidade de trabalhar mais diretamente com pessoas. ”Tem sido complexo, mas sinto que aprendo a cada dia.” O coordenador tem 25 subordinados. “Tento fazer com que pensem sobre a carreira dois anos adiante – e eu gosto de ajudá-los nesse planejamento.”

 

PERFIL IDEAL

“O que os gestores buscam nos jovens candidatos a líder Queremos gente que trabalhe com paixão e tenha pretensão de deixar um legado.” Eduardo Feres,diretor comercial da ALL, que começou como trainee e passou por seis cargos em nove anos até chegar à diretoria. ‘-’- Esperamos que esse profissional traga oxigênio para a empresa. Que saiba combinar conhecimento técnico e habilidade para lidar com pessoas com uma visão moderna de tecnologia.” Paulo The ophiLo, diretor de marketing da Simpress, que estreou seu programa de trainee há dois anos. ‘- ‘- Um bom gerente  precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar um cargo de chefia depois de um programa de  trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe, dos pares e dos superiores.” Maurício Teixeira, diretor financeira  da Sascar, empresa de monitoramento defr&ta, que lançou seu primeiro programa de trame» em 2011. Maurício começou a carreira como trainee na antiga telefônica Telemar CABECA DE DONO Majorei Dias, gerente interna de vendas da Del~ de 33 anos, assumi  a função em 2010, depois do programa de trainee na área de vendas.  “A grande mudança é o aumento de responsabilidade, agora dependendo de outras pessoas para entregar resultado.·A estratégia da gerente é enxergar o negócio com cabeça de dono e encarar as cobranças como parte natural do processo. Para aliviar a pressão, Marjorie também distribui o  trabalho, delegando tarefas para a equipe. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso deixa a equipe motivada, envolvida, por se sentir parte do sucesso da empresa.· FÉN08UE FAZ A biôloga lnis Francke, de 29 anos, gerente científica da fabricante de cosméticos Natura, saiu do trainee para se tornar lr derde uma área de pesquisa. E La trabalha em contato com universidades em busca de novas ideias e tecnologias. Para Inês, o mais importante é acreditar nos valores da empresa e praticá-los no dia a dia. ·0 Ifder é uma referência e tem de dar o exemplo”, diz-,Segundo e ta, mantendo-se fiel aos próprios valores e acreditando  nos propósitos da empresa, facil trabalhar com o time.

 

FOCO E ORGANIZAÇÃO

Débora Carvalho chegou aos 30 anos como coordenadora e compras da Kraft Foods, dona de marcas como Lacta, Tang, Club Social e Halts. Na função desde 2010, ela acaba de ter suas responsabilidades ampliadas – do Brasil para a América Latina Para manter a sanidade, Débora tenta ser muito organizada. “Mantenho um planejamento semanal. de atividades, sempre alinhado com a direção e a minha equipe”, diz. “Manter o foco pontual em cada prioridade me ajuda a trabalhar com equilíbrio.· No mais, atividade física: spinning e ginástica três vezes por semana

 

É HORADE SE INSCREVER!

número de vagas oferecidas  em programas de trainees não para de crescer. Em 2011, um levantamento feito pela Cia de Talentos, que assessora as maiores empresas no Brasil a selecionar seus jovens talentos, detectou um aumento de 133% na quantidade de vagas abertas. No ano anterior, esse número já havia se elevado em 74%. Para efeito de comparação, em 2011 as oportunidades para estágio cresceram apenas 20%. Com mais companhias disputando os jovens mais qualificados formados pelas faculdades brasileiras, as empresas têm tido de se empenhar para atrair a atenção dos candidatos. Uma estratégia na briga para prevalecer na memória e na preferência Dos loveIlS é aproximá-los de líderes e de outros profissionais da organização. Isso porque as pesquisas indicam que 22% dessa moçada opta por uma empresa após conhecer um profissional  que atua ou já atuou nela – e recomenda a companhia como um bom lugar para trabalhar. Atenta a . esses dados, a organização do prol@made trainees 2013 da Cielo, que processa pagamentos eletrônicos, permite aos candidatos interagir e participar de video chats com líderes e ex-trainees para conhecer melhor os valores, as pessoas e os negócios da companhia. Mas as táticas para seduzir e atrair os melhores não param por aí. Uma pesquisa realizada pela consultoria de recrutamento Page Talent, de São Paulo, com 150 profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro com idade entre 20 e 29 anos mostra que para 44,1% deles um bom salário é o principal atrativo para trocarem de emprego. Por isso, as empresas também têm trabalhado com uma política agressiva de remuneração e benefícios, como se pode conferir nas páginas seguintes. Um levantamento da Cia de Talentos mostra que as perspectivas de crescimento profissional pesam na escolha de 58% dos candidatos, 6′q!le explica as oportunidades de investimento na carreira por meio de capacitações oferecidas durante o programa, bem como a visibilidade dada aos projetos dos trainees. A Votorantim, que atua nos setores de cimento, mineração e siderurgia, permite que o trainee apresente seu trabalho final aos presidentes do grupo. Com tantas opções, os jovens devem escolher com atenção o programa com o qual mais se identificam e que mais se alinhe com suas expectativas. Para ajudá-lo.nessa missão, detalhamos as características de alguns programas que estão com as inscrições abertas. Confira e faça sua escolha!  C&A -Perfil: Maior rede de varejo de moda do BráSit. . Período de inscrições: De O de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.cea.com.br. Pré-requisitos: Formação entre dezembro de 2010 e dezembro de 20U nos cursos de administração de empresas, comércio exterior, engenharia, economia, marketing,publicidade e propaganda, comunicação social, relações internacionais, arquitetura e moda; inglês fluente. Benefícios: Plano médico e odontológico, participação nos lucros, desconto nas lojas C&A. Diferencial do programa: Foco no desenvolvimento de competências que permitem ao trainee .assumir uma posição gerencial ao fim do programa GRUPO BOTICÁRIO-Perfil: Empresa brasileira de cosméticos. Período de inscrições: Até16 de agosto. Onde se inscrever: www.grupoboticario.com.br. Pré-requisitos: Ter concluído a graduação há, no máximo, dois anos ou estar no último semestre do curso superior; mobilidade. !: desejável experiência profissional anterior ou estágio. Benefícios: Todos os benefícios relacionados a transporte, saúde, alimentação e previdência oferecidos aos demais funcionários do

Grupo Boticário. Diferencial do programa: Com duração de 18 meses, o programa é focado no desenvolvimento de competências técnicas, comportamentais e com temas voltados

ao negócio. VOTORANTlM Perfil: Opera nos setores de demento, mineração e siderurgia. Periodo de inscrições: De 7 de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.eunavotorantim.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa entre dezembro de 2010 e dezembro 2012, sem dependências; inglês avançado e mobilidade para morar em outros estados. Benefícios: 5 000 reais, previdência privada,’ assistência médica e odontológica (opcional), remuneração varjáveL Diferencial do programa: O trainee realiza um projeto da empresa que será apresentado num evento com a presença dos presidentes das diversas unidades de negócios do grupo. VLI Perfil: Transporte de carga por portos, ferrovias e terminais marítimos. Período de inscrições: De 25 de julho a 16 de setembro. Onde se inscrever: www.traineevLi.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa no site. Benéficos: 4 300 reais, vale refeição e alimentação, participação nos lucros, assistênda médica e odontológica e previdência privada Diferencial do prugrama: Treinamentos técnicos, que incluem pós-graduação para as turmas de engenharia BRF Perfil: Empresa de alimentos. Periodo de inscrições: De 7 de agosto a 5 de setembro. Onde se inscrever: www.brasilfoods.com/geracaobrf. ~uisitos: Graduado há, no máximo, dois anos, disponibilidade para viajar e morar em outras cidades, fluência em inglês. , Beneficios: Previdência privada, cooperativa de crédito e desconto em produtos da BRF. Difenmcial do programa: Job rotation e alocação em uma das vice presidências para desenvolvimento de projetos supervisionados por executivos da companhia. ERNST li VOUNG TERCO Perfil: Presta serviços de consultoria contábil e auditoria. Período de inscrições: O ano todo. Onde se inscrever: www.traineeseyt.com.br. Pré,.requisitos: Recém- formados ou graduados em ciências contábeis, administração, Direito, economia, relações internacionais, ciências atuariais, engenharia, matemática, estatística e TI. • Benefícios: Vale transporte e alimentação e assistência médica. Diferencial do programa: Serão selecionados 900 jovens para atuar em 12 escritórios no Brasil. Certo Perfil: Processadora de pagamentos eletrônicos. , . Perto do de inscrições: De 13 de . agosto até 24 de setembro. Onde se inscrever: http://www.ciadeta-  Lentos.com.br/ trainees cielo. Pré-requisitos: Conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 e conhecimentos em inglês. Benefícios: Salário fixo, participação nos resultados, plano de saúde e odontológico (opcional), vate transporte,transporte fretado.o ou estacionamento, vale-refeição, ptano de previdência privada. Diferencial. ~ Após os primeiros 12 meses, o trainee passa a ser elegível acoaching Com um gestor da Companhia e aos programas de capacitação’ cta Universidade Corporativa cieLo, que podem resultar em promoções dentro da empresa. REDECARD Perfil:- Empresa de cartões de crédito e débito. Período ele iII$aiçiês: De 16.de agostc) a 30 de setembro. Onde,se escrever: http://www.redecard.com.br. . Pré-requisites: Ter até 27 anos -,” em janeiro de 2013, conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 em engenharia, administração de empresas, economia, marketing, comunicação social, publicidade e propaganda e relações públicas;  inglês. avançado. 8eIIefides: W salário, vale refeição, vale-alimentação, assistência médica e odontológica, previdência privada. Diferendal  do Os trainees possuem mentores, de reteres ou superintendentes para orientá-los sobre as expectativas pessoais e as trilhas de carreira . EMbRACO Perfil: Multinacional brasileira especializada em soluções para

refrigeração. Periodo de inscrições: De 28 de agosto a30 de setembro. Onde se inscrever: http;//trainee.embraco.com. pré-requisitos: Ter concluído curso superior em ciências exatas ou humanas há no máximo dois anos; inglês fluente. Benefícios: 4 100 reais, plano de saúde, alimentação, auxãlo- Instalação e vete-transporte, diferencial do programa: O trainee coordena um projeto estratégico, com o suporte de ex-trainees, profissionais de RH e líderes da área para a qual. o projeto se destina. O jovem com melhor potencial e desempenho é selecionado para desenvolver um projeto de até três meses nas unidades da empresa no exterior. UNILEVER Perfil: Uma das maiores empresas de bens de consumo do mundo. Pré-requisitos: Graduado ou pósgraduadoentre junho de 2010 e dezembro de 2012. Período de inscrições: Até 27 de agosto. Onde se inscrever: www.uniLever.com.br/carreiras. Benefícios: 5 000 reais, participação nos resultados, assistência médica e odontológica, plano de previdência privada. ~do~:Aoftm do programa de três anos, todos estão prontos para ser Lidere. AM8EV sediada no Brasil e com operações em outros 16 países. Pré-,..aisitos: Habilidade para gerenciamento de pessoas, capa-Q~de de liderança, disponibilidade para viagens e inglês fluente. Período de Inscrições: Até 10 de setembro. Onde se inscrever: www.traineeambev.com.br. Benefícios: 4 600 reais, bolsa para pós-graduação, assistência médica e odontológica, previdência privada; e 1~ salário, entre outros. Diferencial do programa: Treinamento no Brasil e no exterior.

 

GRUPO FLEURY

Perfil:. Centros.de medicina Integrada e solicitações diagnósticas. Pré-requisitos: Graduação entre “‘dezembro 2OlOe dezembro De 26l2; inglês avançado. Período de inscrição: Entre agosto e setembro de 2012. Onde se Inscrever: www.fleury.com.br. Benefícios: Previdência privada, assistência medica e odontológica, auxilio creche para mulheres e participação nos lucros.

 

PINTERESSANTE

Em algum momento da vida todo mundo fez uma coleção – de chaves antigas, figurinhas de futebol, receitas culinárias ou de selos. No Pinterest você pode colecionar essas e outras coisas – e de uma vez. A rede social de imagens foi lançada no primeiro semestre de 2010 e cresce mais rápido do que o Twitter e o Facebook. Atualmente há mais de 17 milhões de usuários trocando imagens todos os dias. Para participar,· basta solicitar um convite na home do próprio site. Ao fazer um perfil, a pessoa cria painéis que são divididos por temas: filmes, restaurantes, arte. O próprio Pinterest oferece uma série de categorias. Depois, é só “pinar” (versão aportuguesada do verbo inglês to pin, que significa fixar) as imagens que achar mais interessantes. Como o Pinterest é uma coleção extremamente pessoal, o usuário vê na rede umre1lexo de si -ou do que gostaria de ser, criando um laço afetivo com suas coleções. Além disso, é um site lindo, como se pode esperar de coleções de imagens. A rede conecta pessoas com interesses em comum, que passam a se seguir, como é o de praxe nas redes. O Pinterest está repleto de referências que vale a pena conhecer, Empresas têm começado a utilizar a  rede social para circular sua marca e mostrar seus produtos. Enquanto os usuários compõem seus painéis: publicitários e marqueteiros descobrem os desejos de consumo de seu público. Em fevereiro deste ano, o Pinterest levou mais tráfego aos sítes do que Twitter, Facebook, Google +, Linkedln e YouTube juntos, segundo a revista Fortune.

 

UMA COLEÇÃO SOB MEDIDA

Bem Silbermann,de 29 anos, presidente e fundador do Pinterest, foi um colecionador aficionado, que juntava de insetos a selos quando era criança. Foi da paixão pelas coleções que Bem buscou a inspiração para o conceito do Pinterest. Ele trabalhava no Google quando decidiu investir na ideia do Pínterest junto com dois amigos.

 

EMPREGO E ATIVISMO 2.0

Qual é a sua opinião?Ela diz muito sobre você. Com as redes sociais, nunca foi tão fácil ser ouvido. Mas precisamos exercitar nossa voz para dizer coisas importantes. E isso tem tudo a ver como trabalho que você faz. Participei, em julho, de um debate em São Paulo com a ex-senadora Marina Silva, no evento Youth2 Business, da Aisec, ONG internacional de apoio à educação. Fiquei com uma frase dita por Marina na cabeça: “Eu não sou nem situação nem oposição. Eu sou de opinião”. No Brasil, e em quase todos os países, a imagem dos políticos é ruim. Mas a responsabilidade de mudar é nossa. Precisamos participar ativamente das discussões sociais, a partir do nosso trabalho, das competências que temos. Recentemente, em um debate sobre o “Brasil do século 21″,perguntaram quando teríamos bons políticos.”Um dos debatedores elegantemente respondeu:” Quando pessoas de bem ensinarem a seus filhos que eles podem ser administradores, nutricionistas e bons políticos”. Política faz parte da vida. Posicionar- se politicamente no trabalho é algo que fazemos muito pouco. As competências nem são tão diferentes. Os bons oradores e estrategistas também se destacam nos negócios, certo? Não é preciso ser um político tradicional, que concorre a eleições,para ser um ativista corporativo. Discuta em seu mundo profissional assuntos de vanguarda, como economia verde, cidades inteligentes, empresas cidadãs, voluntariado ou educação. Lidere essas discussões. Seu chefe vai escutá-lo. E a sua reputação, moeda mais valiosa do século 21, irá aumentar entre seus pares. Não tem tempo para isso? Faça tudo online. Seja um web ativista. Denuncie os corruptos com o não aceito corrupção.com.br, ajude um repórter a encontrar sua fonte em ajudeumreporter.com.br ou informe-se no queonibuspassaaquí.tumblr, Confira o que os porto-alegrenses estão fazendo para mudar sua cidade por meio da web cidadania em Porto alegre. cc ou shoottheshit.cc. e inspire-se e crie um projeto que conecta o cidadão ao governo no meurio.org.br. Não está preparado? Inscreva- se gratuitamente no Coursera e estude política online nas universidades americanas. No meu blog, no site da voes S/A, dá para conferir 100exemplos de como fazer política no século 21. Boa sorte, espero um dia votar em você ou aplaudi-lo como presidente da sua empresa

 

EMPREENDER E SEU PLANO B?

Um dos temas da atualidade dentro e fora das rodinhas corporativas é o empreendedorismo. Entre os jovens, basta perguntar quem pensa em abrir um negócio para ouvir algumas propostas pipocarem. Mais gente tem deixado as empresas para empreender, mas esse não é um caminho fácil. O que move o empreendedor são o crescimento nas vendas, o reconhecimento do cliente, o desconforto da concorrência e as distinções públicas, entre outros. Porém, sem equilíbrio nas finanças, organizações de qualquer porte estão fadadas ao fracasso. Não adianta vender bem se a operação não é lucrativa. Em meu livro sobre o assunto destaco que, por falta de planejamento adequado, empreendedores cometem  seus maiores erros muito  antes de acumular dívidas. Geralmente, erram na magnitude de seus investimentos – imobilizando capital para evitar o aluguel e a conseqüente repartição de lucros – e na dificuldade de antever as necessidades de caixa. Isso resulta em investimento do capital pessoal em ativos, que poderiam ser financiados a custo baixo, e busca de crédito caro para custear a falta de capital de giro. A falta crônica de capital de giro é sinônimo de erro no planejamento. O maior equívoco que um empreendedor pode cometer é interpretar sua empresa como trabalho, e não como ativo. A maioria dos empreendedores ainda insiste em tratar seu negócio próprio como fonte de renda, e não como investimento. Drenam os lucros para custear sua vida pessoal, como compensação ao suposto trabalho intenso. Se a companhia lucra 10 000 reais, o padrão de vida do empreendedor assume o nível de 10 000 reais. Ao confundir lucro com receita pessoal, empreendedores normalmente ignoram que, sendo a empresa o melhor investimento que poderiam fazer, deveria ser natural que parte dos lucros fosse reinvestida continuamente, para gerar o desejável efeito dos juros compostos – essencial à multiplicação de riqueza. Quem mama nos lucros da firma está altamente exposto à concorrência. Alguém um pouquinho mais perspicaz irá perceber que o negócio é promissor, abrirá uma concorrência, segurará seus impulsos de consumo para reinvestir no negócio e, em pouco tempo, irá engolir a fatia de mercado do acomodado concorrente. Juros compostos são a essência de um bom investimento. Cuide de seus ativos para não se tornar escravo deles

 

o FUTURO “s” DO BRIC

Em 2001, o economista Jim O’Neill, presidente da gestora de recursos do Banco Goldman Sachs, cunhou o termo Bric – uma maneira de referir- se a Brasil, Rússia, Índia e China, as economias que transformariam o quadro mundial em algumas décadas. Desde então, vários candidatos a ingressar no grupo de potências emergentes apareceram. Por exemplo, o México e a África do Sul. Neste ano, é uma região inteira a gabaritar- se para entrar nesse clube. Trata-se do Sudeste Asiático e sua constelação de seis nações: Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã. Visitei este último país em julho, aproveitando uma reunião anual da Amrop. O Vietnã, hoje unificado, tem 84 milhões de habitantes em uma superfície de 330 milhões de quilômetros quadrados – uma área semelhante à do estado de Goiás. Ao longo da história, chineses, franceses e americanos invadiram o país. Os vietnamitas expulsaram todos. Sempre enfrentaram adversários poderosos de forma inteligente, inovadora e criativa. Hoje, é esse mesmo espírito que o Vietnã oferece às grandes manufaturas mundiais, que lá instalam suas fábricas. Só em 2012, cerca de 90 plantas de fabricantes chineses, taiwaneses e sul coreano serão inauguradas no país. Claro que a mão de obra barata influencia essa decisão, num momento em que os salários crescem na China e na Coréia do Sul. O Vietnã, com sua energia, orgulho nacional e um expressivo investimento em educação; será sem dúvida um ator importante na economia mundial. E o Sudeste Asiático tem ainda, em situação de prosperidade semelhante, Indonésia, Malásia, Tailândia, Filipinas e Cingapura. Juntos, reúnem 524 milhões de habitantes e um PIE de 2 trilhões de dólares, quase igual ao do Brasil. Parece mesmo que teremos um novo participante e seremos Brics. Em tempo: uma grande empreiteira brasileira contratou um grupo de 20 engenheiros civis vietnamitas para trabalhar em obras na África. Como continuamos formando apenas 40 000 engenheiros por ano, as empresas brasileiras com operações no exterior começam a voltar seus olhos para profissionais de países emergentes, que aceitam trabalhar em países de qualidade de vida irregular, como Angola e Meçambique. Com a expansão das indústrias no Vietnã, essa fonte pode secar e provavelmente nossas organizações voltarão os olhos para outro país do Sudeste Asiático.

 

POR QUE E BOM SER GENEROSO

A Poetisa goiana Cora Coralina (1889-1985) dizia que feliz é a pessoa que divide o que aprende e sabe com os que estão ao seu lado. Sábias palavras, vindas de uma mulher muito simples e muito elegante também. O ato de compartilhar é uma gentileza. Há uns bons anos li uma notinha numa revista feminina que dizia que a gentileza faz bem à saúde. A nota informava que um cardiologista americano estudou as reações que os atos de generosidade f gentileza provocavam nosso corpo. Segundo ( estudo, todas as vezes que você é gentil com outra pés soa, uma reação interna faz com que você desacelere to dos os seus órgãos e, dessa maneira, proteja seu coração dos males do estresse O profissional que, além de polido, é generoso fazer bem enorme a si mesmo e a própria carreira. Ao b compartilhar seus conhecimentos e sua experiência, o generoso tende a ganhar a admiração e o respeito de seus pares e subordinados. Afinal, quem de nós não quer estar perto de uma pessoa genuinamente generosa, que joga limpo sempre e que o tempo todo divide com o time aquilo que sabe? Tendo a equipe ao seu lado, as chances de o generoso obter bons resultados aumentam. Que delícia é ser parceiro de um líder ou de um colega que vibra de forma verdadeira a cada conquista nossa e a cada passo dado que nos deixa mais perto do sucesso. [O ser humano generoso compreende que, quanto mais ele divide o que sabe com os que o rodeiam, mais ele agrega aos outros e, ds mesma forma, mais ele cru possibilidades de expandi] sua sabedoria, sua experti se e seu conhecimento também. Aquele que costuma agir de maneira contrária, temeroso por levar a pecha de bonzinho ou de bobão, precisa rever conceitos: dividir na vida profissional é quase sempre sinônimo de somar. Não tema que outros levem os louros da glória em seu lugar – os parceiros generosos sempre se lembram de mencionar seus mentores ou sua fonte de inspiração para o sucesso. Os mesquinhos que não agem assim em pouco tempo despencam das alturas, pois, à medida que as pessoas percebem aproveitadores ao seu redor, tratam de se relacionar com eles de outra maneira, quase sempre numa distância polida que os coloca no lugar que pessoas assim merecem ocupar.

 

o SEGREDO DE BABSON

Dogtown, na região de Boston, nos Estados Unidos, não é exatamente um lugar de grandes atrativos turísticos e também não é próprio para a agricultura ou para a indústria. Acidentado e pedregoso,é procurado só pelos que gostam de trilhas rústicas, porém, quem o visita acaba tendo algumas surpresas. De repente, assim do nada, aparece uma grande pedra com uma inscrição simples, mas inspiradora, do tipo “Quem não tenta nunca vence”. Há dezenas de pedras assim, e nota-se que quem fez a inscrição teve um trabalho considerável. O que há por trás desse mistério? Uma bela história. Durante a Grande Depressão, que seguiu-se à quebra da bolsa em 1929,alguns homens de posses se dedicaram a ações beneficentes para acudir os menos favorecidos. Um deles, entretanto não acreditava em caridade, então “contratou” operários desempregados e os desafiou a esculpir as pedras e, para que se sentissem realmente úteis, deviam gravar frases que lhes fizessem sentido e que pudessem ajudar a outros. O resultado são as pedras de Dogtown. Ohomem?Umtal de Reger Babson, engenheiro formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, e criador de um instituto de análise de riscos para investimentos. Babson, aliás, foi o primeiro que previu a tal quebra da bolsa de Nova Yorke depois chegou a ser candidato à presidência dos Estados Unidos, perdendo para Franklin Roosevelt. Babson criou várias empresas e fez muito mais: fundou uma escola que, segundo sua orientação, devia ter como eixo central a preparação dos jovens para empreenderem seus próprios negócios. Hoje a Babson College é a grande referência quando se trata de preparação para o empreendedorismo – já formou milhares de empreendedores e intraempreendedores (como é chamado quem empreende dentro da empresa), até mesmo muitos brasileiros – e não abandona seu eixo nem os princípios de seu fundador. Para Reger Babson, um empreendedor precisa de conhecimento. Por isso, ele fundou a escola. Mas Babson dizia que o conhecimento é apenas a ferramenta. O que faz mesmo surgir a obra é o braço moral que vai utilizar a ferramenta – e esse braço é enrijecido pelo auto controle e pela disposição à luta e ao sacrifício. Sem ISSO uma pedra continua sendo apenas uma pedra. Com perseverança, é possível se transformar no que se queira, inclusive em uma grande inspiração

fapesp 17 – 08

USP quer centralizar  revisão e tradução

SÃO PAULO

o Sistema Integrado de Bibliotecas (Sffii),da Universidade de São Paulo (USP),pretende centralizar os serviços de revisão e tradução de artigos para acelerar o processo de publicação das revistas científicas editadas pelas universidades paulistas, Atualmente, cada corpo editorial das revistas científicas editadas pela Universidade de São Paulo é responsável por contratar seus próprios colaboradores por licitação, em um processo longo e demorado, que dificulta a aplicação da verba distribuída De modo a tomar mais ágil esse processo, o Sffii contratará empresas com qualidade .internacionaI e passará a oferecer os serviços de revisão e tradução de artigos às publicações. A iniciativa integra um conjunto de ações planejadas pela USP para ampliar o impacto de suas cerca de 200 publicações científicas’ que é avaliado como um passo fundamental para aumentar o destaque da universidade no cenário acadêmico internacional.

Uma das ações planejadas é aumentar o número de periódicos em sistemas de indexação com acesso on-line, como o SciEW, da Bireme/Fapesp; e oWeb of Scíence, da Thornson Reuters, que conta atualmente com 12 revistas produzidas pela USP.

Uma comissão formada por professores e bibliotecários estabeleceu critérios de qualificação fundamentados no reconhecimento e mérito de cada publicação em âmbito institucional, no Brasil e no exterior. A idéia é estimular o aperfeiçoamento contínuo dos periódicos Vinculados ao Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas da universidade. ‘“As ações são um modo de Dara orientação necessária às publicações menores e incentivá-las a crescer”, disse Sueli Mara Soares Pinto Ferreira, diretora-técnica do Sffii. Os serviços editoriais oferecidos pelo Sffii serão diferenciados, orientando-se pelo perfil de cada revista Mais informaçõesnosite: www.usp.brlsibi.

 

DCI – SP – 17-08-12 – C 3 – São Paulo

 

 

 

A inovação nas pequenas e micro empresas – 1

 

Um dos grandes desafios. para o desenvolvimento brasileiro é o da qualificação das pequenas e microempresas, corno elementos centrais de desenvolvimento – e não apenas como agentes de subemprego. Ocorrido ontem em São Paulo, o 270 Fórum Brasilianas discutiu “A Inovação na Pequena e Micro Empresa” e mostrou alguns paradoxos do setor. Numa ponta, a constatação da importância das chamadas inovações incrementais – as pequenas inovações, em embalagens ou processos produtivos, mas que afetam grande quantidade de pequenas empresas.

 

Na seqüência, a existência de um bom número de organizações públicas e privadas trabalhando o tema. Como lembrou o especialista Silvério Crestana, poucos países dispõem de recursos tão volumosos para aplicar no setor. Os problemas decorrem da falta de indicadores adequados de acompanhamento, da dificuldade de acesso das PMEs aos instrumentos disponíveis (por falta de informações ou de cultura), da falta de uma articulação maior entre órgãos públicos.

 

A insensibilidade dos governantes acabou anulando grande parte  dos avanços obtidos na Lei do Super  simples. Ela previa que PME seria isenta de cobrança de ICMS. Mas na gestão José Serra, o estado de São Paulo ampliou o sistema de substituição tributária – pelo qual a empresa produtora paga o tributo antes da comercialização. Com isso inviabillzou a possibilidade de PMEs serem isentas de pagamento,

conforme prevê a Lei.

 

Não apenas isso. As PMEs se beneficiam das subcontratações das grandes. Mas não existe até hoje uma regulamentação adequada. Além disso, a Lei previa que 20% das compras públicas fosse de PME. Mas não se previu essa hipótese em nenhuma parcela dos R$ 20 bilhões anunciados pela Presidência da República para investimentos do PAC (programa de Aceleração do Crescimento). Uma das melhores ferramentas de estímulo à inovação são osfundos de investimento – os venture capital. Tanto a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) quando o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) dispõe de recursos visando estimular a formação desses fundos. Um dos problemas centrais, explica João Furtado – Coordenador da Área de Pesquisas e Inovação da Fapesp – são os sistemas de controle que inibem atitudes mais ousadas dos investidores. Todo projeto inovador tem três fases. Na Fase 1, a idéia. Na Fase 2, a abordagem para colocar a idéia de pé. Na Fase 3, o investimento maciço. Os fundos têm que correr riscos, diz Furtado. Se o fundo buscar altas taxas de sucesso, só irá atrás de idéias já provadas – e, portanto, menos inovadoras. A idéia altamente inovadora é de alto risco. Se o criador do Facebook apresentasse um projeto no qual as pessoas se cadastrassem para mostrar fotos de família, provavelmente não conseguiria nenhum aporte no país. Daí a necessidade de ousar e deixar o mercado dar a última palavra.

Portanto, os fundos deveriam lidar COI1l altas taxas de risco na Fase 1, um pouco menos na Fase 2 e ser mais conservadores apenas na Fase 3. É preciso soltar amarras e permitir ao sistema ser mais criativo,

propõe Furtado.

 

Jornal da Cidade – Bauru – 10-08-12 – 18 – Brasil

 

Gastos no País com desastres crescem 15 vezes em 6 anos

 

Relatório do IPCC aponta que eventos extremos aliados à alta exposição humana a situações de risco podem aumentar tragédias

 

PLANETA

Giovana Girardi

Nos últimos 30 anos, o aumento da ocorrência de desastres naturais no mundo foi responsável por perdas que saltaram de poucos bilhões de dólares em 1980 para mais de 200 bilhões em 2010. No Brasil, em somente seis anos (2004-2010), os gastos das três esferas governamentais com a reconstrução de estruturas afetadas nesses eventos evoluíram de US$ 6S milhões para mais de US$ 1bilhão – um aumento de mais de IS vezes. Os dados foram citados ontem durante evento de divulgação do Relatório Especial sobre Gestão de Riscos de Extremos Climáticos e Desastres (SREX), do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). A elaboração do documento foi motivada justamente por conta dessa elevação já observada de desastres e perdas. O alerta, porém, é para o futuro – a expectativa é de que essas situações ocorram com freqüência cada vez maior em conseqüência do aquecimento global. Alguns dos autores do relatório estiverem presentes ontem em São Paulo, em evento promovido pela Fapesp e pelo Instituto Nacional dê Pesquisas Espaciais (Inpe), para divulgar para a comunidade científica e tomadores de decisão os resultados específicos de América Latina e Caribe.

A principal conclusão é que para evitar os desastres naturais .

 

 

Governo prevê rede de adaptação e detecção

 

 

• Após lançar na semana passada o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Respostas a Desastres Naturais, o governo já estuda outros mecanismos para se antecipar a cenários de mais desastres no futuro. Para a Conferência do Clima, que ocorre no fim do ano no Qatar, está sendo programada a apresentação da revisão do Planos, poderão aparecer a cada cinco, dois ou até anualmente. Outra tendência também é que elas possam se inverter, chuva forte num ano, seca em outro. Independentemente do clima, porém, o relatório alerta que o risco de desastres continuará subindo uma vez que mais pessoas estarão em situação vulnerável.

“É daí que virão os problemas. É um alerta para pensarmos em formas de adaptação. O Nordeste teve uma grande seca neste ano e o que o governo fez? Mandou cesta básica. A população, assim, não se adapta”. Nacional de Mudanças Climáticas, já com algumas definições dos planos setoriais. E para o ano que vem, o governo planeja ter uma estratégia nacional para adaptação às mudanças cLimáticas, de acordo com Carlos Klink, secretário do Ministério do Meio Ambiente para o assunto. Outra abordagem vem do Ministério da Ciência e Tecnologia. O secretário de Políticas e Programas de Pesquisa, Carlos Nobre, disse que iniciou estudos para elaborar uma rede nacional de detecção precoce de impactos de eventos extremos- o pesquisador José Marengo,

do Inpe. _ Além de alertar para ações dos governos, os pesquisadores chamaram a atenção também para a necessidade de mais estudos regionais. A confiança sobre o que é mais provável de acontecer, principalmente na Amazônia, ainda não é alta. Uma das ferramentas para isso é o desenvolvimento de modelos climáticos regionais. O projeto de um está sendo coordenado pelo Inpe e pela Fapesp, que pode estar pronto em até um ano, adaptado para a realidade brasileira.

 

O Estado de S. Paulo – SP – 17-08-12 – A 20 – Vida

 

Desastres naturais matam mais mulheres no mundo Daniela Chiaretti

 

De São Paulo

 

Mulheres e meninas são as maiores vítimas de furacões, terremotos, tsunamis, inundações e outros eventos extremos, climáticos ou não. Elas representam de 68%a 89%das mortes que ocorrem nesses fenômenos no mundo todo. As· mulheres são 72%das pessoas que vivem em condições de extrema pobreza o que as toma mais vulneráveis em situações de desastres. Há mais de dez anos a médica e ecologista Ursula Oswald Spring, da Universidade Nacional Autônoma do México, tenta descobrir os motivos. Há.várias razões – desde o abandono do companheiro ao uso de roupas longas, como burcas, que limitam seu movimento em momentos urgentes. “O papel das mulheres é o de cuidar, então salvam filhos, pais e animais e não enxergam o risco que correm”, diz.

 

Os dados foram apresentados ontem, em São Paulo, no seminário “Gerenciando Extremos Climáticos e Desastres na América Latina e no Caribe”, que repercute os resultados de um relatório especial do IPCC,o braço científico das Nações Unidas. No evento, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), discutiu-se como os países podem se adaptar aos impactos da mudança climática. A tendência é estudar o cruzamento de eventos extremos com o grau de vulnerabilidade da região, explicou José Marengo, do Inpe. Ele lembrou que, na última seca no Nordeste, o governo enviou cestas básicas aos habitantes – o que não representa um esforço de adaptação à mudança climática. “A seca no Nordeste é algo que não podemos combater, temos que aprender a conviver com ela”,explicou.

 

Valor Econômico – SP – 17-a 19-08-12 – A 11 – Internacional

INFO Exame Agosto

NEGÓCIOS A VISTA

NAVIO PARA HOSPEDAR CANDIDATOS A EMPREENDEDORES PRETENDE

SER ALTERNATIVA BARATA E MENOS BUROCRÁTICA PARA QUEM DESEJA

TENTAR A SORTE NO VALE DO SILÍCIO

Facebook, Twitter, Instagram … O Vale do Silício ajudou a impulsionar uma série de startups, mas nem todos os empreendedores têm a sorte de conseguir um espaço por lá. “Os imóveis estão caros e os estrangeiros não conseguem vistos para morar nos Estados Unidos”, disse a INFO Max Marty, presidente da Blueseed. Para tentar resolver esse problema, a empresa planeja lançar até 2014 um navio capaz de abrigar 300 startups. Ancorado a 22 quilômetros de distância da costa da Califórnia, ele estará em águas internacionaise hasteará a bandeira das Bahamas. A manobra burocrática permite que seja preciso apenas o visto de turista para embarcar no navio e trabalhar. O custo da hospedagem vai variar entre 1,2e 3mil dólares por pessoa ao mês e inclui cabine com acesso à internet e duas idas diárias a terra firme. “A ideia é que as pessoas trabalhem em um ambiente criativo e mantenham contato com o Vale do Silício. Quando a empresa vingar, será mais fácil conseguir um visto e se mudar”, afirma Marty. Serão necessários entre 30 milhões e 80 milhões de dólares para a compra e a reforma navio. Como a Blueseed também é uma startup, 20% desse valor está sendo arrecadado com investidores. O restante virá de empréstimos bancários. Para pagar a dívida, o que se quer não é

apenas lucrar com o aluguel, mas também apostar no sucesso dos próprios clientes. Toda startup que embarcar cederá 6,5% de suas ações à Blueseed. “Queremos ser o local onde os Facebooks e Twitters do futuro se desenvolverão”, diz Marty.

Você ainda vai querer um

Sempre achei que os óculos com realidade aumentada seriam esquisitos e nunca fariam

sucesso. Até o dia que vi a tecnologia em ação

À primeira vista, Thad Starner não parece deslocado no Google. Um engenheiro que pesquisa computadores feitos para serem vestidos, ele é um cara grande, encantador ecom um cabelo bagunçado. Mas todo mundo que o encontra olha para um pequeno retângulo colocado na lente esquerda dos seus óculos. Parece um espelho retrovisor de um carro adaptado para orosto humano. Trata-se de um minúsculo monitor de computador direcionado para o olho. Starner vê a tela (e-mails, fotos, qualquer coisa) sobreposta ao mundo, no melhor estilo Exterminador do Futuro. Thad Starner é um especialista em fazer com que nossa vida fique mais parecida com a de um ciborgue. Ele tem usado computadores desde o início dos anos 1990. O O protótipo que hoje usa não é o do Project Glass, os óculos com realidade aumentada anunciados pelo Google em abril. Ele está ligado a um computador que Starner carrega numa mala, máquina que controla com a ajuda de um pequeno teclado que está sempre na mão esquerda.

Durante a conversa, Starner recebia mensagens e fazia pesquisas na web. Apesar de estar vestindo um computador, não parecia perdido no mundo digital, como acontece quando consultamos diferentes dispositivos ao mesmo tempo. “Estamos tentando elaborar sistemas móveis que ajudem as pessoas a ter mais atenção com o mundo real”, diz Starner. Após a entrevista, tenho certeza de que se o Google elaborar um dispositivo parecido com a máquina de Starner, computadores usáveis conquistarão o mundo.

 

A CIÊNCIA A SERVIÇO DE HOLYWOOD

o astrobiólogo Kevin Hand é cientista do laboratório de propulsão

a jato do Cal Tech, na Califórnia, Mas seu trabalho de mais glamour

é o de consultor científico em filmes como Promefheus, Avafar e Thor

 

“Alô,doutor Hand, aqui é Ridley Scott.”Oastrobiólogo Kevin Peter Hand está acostumado a receber ligações de celebridades. Por isso ele não estranhou ao ouvir a voz do cineasta de Gladiador. Era 2009 e Scott queria convidar Hand para ser consultor em seu novo filme de ficção científica, o Prometheus. Kevin Hand é cientista-chefe da exploração do sistema solar no Laboratório de Propulsão a] ato do Cal Tech (California Institute of Technology). Sua missão: investigar formas de vida fora da Terra. Nos últimos anos, ele tem sido um dos mais requisitados cientistas em Hollywood. Aos 36 anos, formado em biologia e geologia pela Universidade Stanford, Hand ganhou fama – e o assédio dos cineastas desde que foi “descoberto” por ]ames Cameron, que o convidou a ser consultor em suas produções, como Avatar. Em março deste ano, o cientista fez parte da expedição Deep Sea Challenge, que explorou a região mais profunda da crosta terrestre, a Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico,

e foi patrocinada por Cameron, que fará um documentário em 3D. “Os filmes ficam melhores quando capturam a ciência de forma correta”, disse Hand a INFO, Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como começou seu envolvimento em Prometheus?

 Recebi uma ligação doRidley Scott. Ele queria saber se estavainteressado em colaborar num filme,Sófui descobrir que se tratava de uma obra sobre as origens de Alien, sobre os antecedentes da saga, quando nos reunimos.

Onde entre o cientista num filme de ficção?

Minha função é tirar dúvidas, mostrar soluções plausíveis para cenas específicas. Em Prometheus, Ridley Seott tinha uma lista enorme de dúvidas sobre ciência, O que é preciso para uma viagem a planetas distantes? Por que esses planetas não são habitáveis para humanos? Como seria a vida alienígena? Ele faz questão que tudo que diga respeito à ciência em seus filmes seja verossímil, ou pelo menos possível, em tese.

Comocomeçou seu trabalho de consultor científico em Hollywood?

Um amigome indicou para]ames Cameron. O diretorestava procurando um cientistacom quem pudesse conversar sobrepossíveis formas de vida no sistema solar.Poucas semanas depois, estávamos

embarcando num submarino russo. Cameron comandava a expedição rumo às profundezas do Oceano Atlântico. Foi lá, no submarino, a nossa primeira conversa. Foi surreal. Fantástico.

o senhor foi consultor em Avatar. Oual foi sua colaboração?

Tivemos diversasconversas sobre as coisas mais variadas,como a possível natureza de civilizações inteligentesem outras galáxias.Trabalhar com Cameron é inspirador.Ele escreve, dirige, produz, desenhaas criaturas e os gadgets. Ele constróias câmeras. É um dos firas mais brilhantes

e criativos que já vi. O que mais aprendi com ele foram organização e liderança. Cameron é muito exigente. Acho que me tornei mais disciplinado nos projetos depois de vê-lo em ação.

 

Qual foi seu papel em Thor?

Kenneth Branagh, o diretor do filme, tinha a preocupação de puxar Thor para o lado realista. Afinal, boa parte da trama se passa em Asgard, terra da mitologia nórdica. Ou seja, essa história já tem um componente grande de fantástico.

E aí entrou a ciência …

Um aspecto que discuti com os roteiristas foi a impossibilidade física de se ter um planeta achatado como um disco. Essa é a imagem clássica que se vê nos livros infantis sobre mitologia nórdica. Mas é impossível… Dei sugestões para o design do planeta dos gigantes de gelo, os inimigos do Thor. Mostrei fotos de aspectos bizarros do nosso sistema solar. Acho que isso os ajudou a formatar uma visão coerente para o visual do filme.

Eles seguiram seus conselhos?

Em certa medida, sim. É claro que, em se tratando de Thor, tem coisas de pura fantasia’

como uma ponte em pleno espaço.

 

Isso não distorce a ciência?

Para o bem da ciência, é melhor ter um filme divertido, que passe uma mensagem

construtiva, inspiradora. Ninguém quer ver uma explicação de cinco minutos sobre um conceito científico.

Acho melhor ter uma obra que capture 80% da ciência corretamente, e com 20% de pura fantasia, mas que seja divertido, do que ter um filme correto em termos científicos, mas chato.

Mas Hollywood não exagera às vezes?

Pode parecer estranho o que vou dizer, mas, na minha opinião, Hollywood ainda é um pouco tímida quanto à ficção ciêntifica. Acho que os roteiristas dão pouca vazão a imaginação. Estão muito atrelados às leis da física, da química e da biologia da Terra, quando poderiam explorar outras possibilidades.

Oue tipo de possibilidades?

Sempre que um filme mostra um alien, ele tem  aspecto de hominídeo. Esse aspecto decorre

da fisiologia humana. Outros seres, em outras galáxias, poderiam ser diferentes. As reais paisagens geográficas de outros planetas também são bem mais loucas do que aparecem na maioria

dos filmes de ficção científica. Os lagos de metano da lua Titã, de Saturno, têm atmosfera laranja. Veja os gigantescos penhascos de gelo de Europa, lua dejúpiter, Uma das coisas que mais gostaria de ver nas telas é um filme sobre o oceano congelado dessa lua. Ela é do tamanho da nossa. Porém, possui

um oceano congelado com 96 quilômetros de profundidade. Na Terra, a parte

mais funda dos oceanos tem 11quilômetros. Há em Europa uma reserva de água duas ou três vezes maior do que a reserva total de água líquida da Terra.

 

Ouem tem o trabalho mais glamouroso? O Kevin no laboratório ou o Kevin em Hollywood?

Sem dúvida o Kevinde Hollywood. Mas, para mim, o trabalhode laboratório é o gratificante.

Encontrar traços de vida de micróbios no oceano congelado da lua Europa talvez não soe interessante para 99,99% das pessoas, mas para mim, se isso acontecer, é mais incrível do que um blockbuster cheio de efeitos especiais.

Oual o seu objetivo com a consultoria para Hollywood?

É educacional. Dizrespeito a inspiração. Para que a novageração goste de ciência. Para que um futuro bilionário, que cresceu assistindo Thor e Homem de Ferro, chegue à idade adulta e banque uma missão tripulada espacial. Os cientistas têm grande responsabilidade. A educação começa moldando-se o imaginário das pessoas.

 

Conflito de gerações

Só o nome Dodge Dart é o mesmo, Há muitas diferenças entre o carro que a montadora

americana lançou este ano e o carrão produzido no Brasil entre 1868 e 1881.Confira:

 

 

1970 O DART ANTES

MOTOR

Com seu poderoso motor 5,2, ainda dos tempos do carburador, o Dodge Dart rodava 3,9 quâômetros com um litro de gasolina. Apesar do tanque com 62 litros, mal chegava a 240 quilômetros rodados

CHASSIS

Produzido na fábrica da Chrysler, em São Bernardo do Campo (SP),o Dodge dos anos 1970 tinha 4,96 metros de comprimento por 1,77metro de largura. Feito de aço estampado, pesava 1,5tonelada

TECNOLOGIA

Nos anos 1970, o câmbio era manual, com três marchas, acionáveis por alavanca Junto ao volante,

Depois ganhou freios a disco, Portas só abriam com chave, Por dentro, rádio AM-FM e ar-condicionado

FORA

Linhas retas com imensa grade frontal cromada e faróis redondos

DENTRO

Volante enorme, revestido de madeira, direção hidráulica. Um dispositivo iluminava o miolo da chave quando as portas eram abertas

 

 

 

 

2012 O DODGE AGORA

 

MOTOR

Nunca o Dart bebeu tão pouco. Equipado com pneus de baixa resistência e mais peças de liga de alumínio, que reduzem o peso, a versão Aero 1.4 a menor da geração, faz 17.4 quilômetros por litro.

CHASSIS

O Dodge diminuiu para valer o tamanho. Agora tem 4.67 metros de comprimento e 2.70 metros de distância entre eixos.

TECNOLOGIA

O Dart 2013 terá câmbio com nove marchas. Hoje são seis, e pode ser manual ou automático. A direção tem assistência elétrica, há sensor de estacionamento e pontos-cegos. Tem dez  airbags.

FORA

Tem grade frontal robusta e lanternas traseiras com LED. Para melhorar a aerodinâmica, passou por testes de 600 horas em túneis de vento.

DENTRO

O painel terá sistema de navegação com tela tátil de 8.4’’, capaz de receber dados de tráfego ou tempo, controlados por voz. Passageiros de trás terão Wi-Fi.

SUPERPDDERDSA

Marissa Mayer começou no Google aos 24 anos e se tornou uma das

mulheres mais influentes do Vale do Silício, Agora presidente do Yahoo!,

No dia 17de julho, a executiva americana Marissa Mayer, 37 anos, recebeu um kit de boas-vindas que incluía uma mala com camiseta, gorro, caneca e um simpático patinho de borracha roxo, cor símbolo do Yahoo!, empresa em que assumiu cargo de presidente. Ex-vice-presidente do Google, onde

trabalhava desde 1999, Marissa é formada em ciências da computação e ficou famosa por criar o visual de produtos como o Gmail. Agora. sua missão é dar um novo rumo ao Yahool, que atravessa uma crise sem fim. Eis a sua trajetória.

1975

Nasceem Wausau, Em Wisconsin, nos Estados Unidos. É filha de uma professora de arte e um engenheiro.

1983

Forma-se na Wausau West High  School, em Sua Cidade natal

1997

Graduada em sistemas simbólicos pela Universidade de Btanford. O curso aborda temas como ciência cognitiva, inteligência artificial e interação homem-máquina

1999

Conclui o mestrado de ciências da computação em Stanford. Aos 24 anos, começa no Google,Torna-se a funcionária

número 20 e a primeira engenheira contratada pela empresa como  programadora

2001

É promovida a gerente de produto e se dedica ao aperfeiçoamento do sistema de busca.

2003

Nomeada diretora de serviços web para o consumidor. Desenvolve produtos famosos como Gmail e Orkut

2005

Vice-presidente de busca e experiência do usuário, é uma das responsáveis pelo Visual simples,

elegante e colorido do Google

 

2008

Ocupa a  50ª posição na lista da Fortune das 50 mulheres mais poderosas dos negócios.

2009

Casa·se como investidor eempreendedorZachary Bogue

2010

Assume seu último cargo no Google, o de vice-presidente de serviços locais e mapas, Supervisiona produtos como Maps, Earth e Street View

2012

Entra para o conselho diretor do walmart. Apontada presidente do Yahoo! em meados de julho,’ é a mais jovem lider de uma companhia  listada na Fortune 500 e a primeira grávida. No dia que foi anunciada, revelou que espera um filho

 

 

Copa mais ecológica

o Estádio Nacional de Brasília vai receber o jogo inaugural da Copa das Confederações

e abrigará sete partidas da Copa de 2014. Mas ele pode ficar conhecido por outro

título: a arena esportiva mais sustentável do mundo, Saiba por quê:

ENERGIA SOLAR

A energia do estádio será captada por 8,6 mil painéis Fotovoltaicos instalados na

cobertura. Eles vão gerar 3,5 milhões de kWh ao ano, o suficiente para iluminar 2 mil

residências por dia

PAISAGISMO

Espécies vegetais nativas do cerrado, como ipê, quaresmeira, sucupira,’copaíba,

paineira e aroeira, serão plantadas ao redor do Estádio Nacional de Brasília.

A irrigação das plantas será feita com a ajuda de biovaletas, sistemas

que armazenam a água da chuva

PAVIMENTO

Todo o piso do estádio e de seu entorno será feito de material permeável.

A água da chuva será captada por cisternas e levada para um lago

FOTOSSINTESE

A cobertura será revestida de um material que, além de não acumular fuligem, quebra as moléculas poluentes do óxido de nitrogênio (NOx)

ESTACIONAMENTO

Haverá pontos para abastecimento de carros elétricos. Quem chegar ao estádio com automóveis ganhará vagas privilegiadas. O estádio também contará com 3.348 vagas para bicicleta.

ILUMINAÇÃO

As lâmpadas serão de LED, mais econômicas. Serão instalados detectores de presença para apagar as luzes automaticamente.

RECICLÁVEL

Parte dos 72.634 assentos do Estádio Nacional de Brasilia será feita do plástico reciclado de garrafas PET, como as usadas para refrigerantes.

IPHONE5: VERDADES

E MENTIRAS

 

Em meio ao turbilhão de notícias que começam a tomar conta do mundo digital

nos meses que antecedem o lançamento do novo smartphone da Apple, INFO

aluda a separar o que é factível do que não passa de rumor infundado

Mais fino e mais leve

Bem, não necessariamente. O novo iPad é mais grosso e mais pesado do que o modelo anterior. Ou sela

a Apple iá provou que não vai encolher seus gadgets a qualquer custo

Novo design

Segundo o The Wall Street Joumal, o iPhone 5 terá umacara radicalmente diferente.

Mas o smartphone da Apple (assim como os outros telefones) nunca mudou tanto de formato

Encaixe do Carregador

Dizem que o conector será substituído por uma alternativa menor. Todos os telefones poderiam ser

carregados com a aluda de um microUSB. Esse rumor é sem graça, mas plausível

 

Chlp quad core

A Apple se preocupa mais com a experiência do usuário do que com especificações

técnicas. Não será surpresa se o novo telefone ainda tiver chip dual core, mas com gráficos melhorados

 

Tela maior

É uma diferença importante entre o iPhone e seus concorrentes. Dizem que o modelo será mais comprido

para reproduzir vídeos no formato 16:8 e para ter mais uma fileira de apps

 

E mais…

A câmera vai continuar com 8 MB e 1D80p. A Apple vai se gabar de que o telefone liga mais rápido e tem interação com o Facebook. Não terá tecnologia 3D e nem vai fazer pagamento com NFC

 

 

IDEIAS DENTRO DA CAIXA

Concurso do Google premiará projeto para o mercado publicitário

TEM UMA GRANDE IDEIA? Procure a caixa inteligente do Google. Iniciativa brasileira, o

Creative Sandbox  Brief é um concurso voltado para o mercado publicitário que aposta em novos projetos

que utilize produtos da empresa, como Ad Words, Maps ou Street View. Após ser avaliado por um júri de 12 profissionais da área de criação, o vencedor ganhará 35 mil reais e terá a oportunidade de desenvolver a ideia nos Estados Unidos, ao lado da equipe do Google.

Os interessados podem enviar os projetos pela internet ou pela Google Box, uma caixa eletrônica que percorrerá as 20 principais agências de publicidade do Brasil e cuja localização

atualizada pode ser encontrada no endereço creatlvesandbox.com.br. A caixa utiliza o sistema

Android, dos smartphones e tablets, para digitalizar as ideias escritas em papel e enviá-Ias para o site do concurso. As inscrições encerram-se no dia 14 de setembro.

 

Ser hacker é o

novo rock n’ roll

Mais do que moda, o movimento está virando estilo de vida,

e nos Estados Unidos há até escola e hotel para hackers

 

Todo mundo já sabe que a palavra hacker não tem mais o mesmo significado que há cinco anos. Hoje, o termo não se restringe a assuntos relacionados a segurança de informação. De acordo com a Wikipédia, hacker agora é uma habilidade extraordinária que pode ser usada tanto para identificar um criminoso quanto para designar um especialista em determinada área. Vi recentemente um curso anunciado no site Skillshare. com com o título: Como Hackear Nova York e Viver de Graça na Cidade.

Parece que a palavra não só teve seu significado ampliado, mas também tornou- se um símbolo de status, um movimento cultural e até uma marca cool. No início deste ano, durante a conferência

de tecnologia, música e cinema SXSW (South by South West), um dos assuntos mais discutidos foi o

ônibus dos hackers que seguia de San Antonio a Austin, no Texas, palco do evento. O ônibus hacker era quase VIP e todo mundo queria estar lá dentro. Projeto criado por Elias Bizannes, os dez ônibus, saídos de Boston, Las Vegas, Nova York, Vale do Silício, Los Angeles, Louisiana, Florida, Ohio e Cidade do México, juntaram empreendedores que procuravam ajuda para começar suas empresas. Eles se conheciam melhor durante a viagem entre as suas cidades e San Antonio, e de lá até Austin trabalhavam juntos no projeto. Esse é um tipo de colaboração coletiva, também conhecido como hackathon,

no qual especialistas em uma área passam geralmente um fim de semana, dia e noite, resolvendo problemas de tecnologia. Os hackathons acontecem quase todo fim de semana aqui em Nova York. É como se participar de um evento desses fosse tão importante como socializar-se nos lugares mais badalados da cidade.

HACKER HOTEL

Por falar em socialização, o albergue San Francisco Hostel, em São Francisco, na Califórnia, acomoda futuros empresários de todo o mundo que querem tentar a sorte no Vale do Silício. Jovens de 20 anos que desejam ser o próximo Mark Zuckerberg dormem em beliches e pagam 40 dólares por dia pelo privilégio.

Assim como os hackathons, o que caracteriza esse novo tipo de acomodação (o hacker hotel) é a troca de ideias entre pessoas com interesses e especialidades semelhantes. Nesse caso, o empreendedorismo e a tecnologia. Num hotel desse tipo, as pessoas não apenas se hospedam, mas têm a oportunidade de trabalhar juntas.

O movimento hacker também se ampliou para a área da educação. Em Nova York existe a Hacker School, uma escola que ensina como ser hacker. Uma das suas fundadoras, Sonali Sridhar, quer construir uma escola onde não existem professores ou currículo e as pessoas aprendem umas com as outras. “Isso é uma mudança tremenda em relação a minha educação na Índia”, diz Sonali. “Passei  tanto tempo obcecada em aprender que os professores queriam que não tive tempo para explorar o que é importante para mim em meu futuro trabalho.” Agora, seu entusiasmo é colaborar com 200 alunos hackers que, a cada quatro meses “vão mudar o futuro de Nova York”.

Mais do que moda passageira, o movimento hacker veio para ficar. Da mudança de significado de uma palavra à criação de experiências. Ser hacker está virando um estilo de vida, um símbolo de status e uma qualidade. Em breve, os pais se orgulharão ao ouvirem seus filhos serem chamados de hackers.

 

Quando a web vira

uma zona de guerra

Estamos mais inseguros do que parece na internet e quase

sempre somos nós mesmos, os usuários, os culpados

 

Nos últimos três meses, dois importantes sites foram hackeados e milhares de registros comandados de usuários foram espalhados pela internet. No começo de junho, o Linked In, maior rede profissional do mundo, teve algumas contas roubadas. Segundo dados não oficiais, foram mais de 6 milhões. Apesar de as senhas estarem criptografadas, pelo  menos 300 mil foram decifradas. Em julho foi a vez do Yahoo! Apareceram na rede 400 mil contas do Yahoo! Voices. As informações estavam sem nenhum tipo de criptografia. É bem provável que você não tenha sido um dos afetados. Esses serviços são usados por centenas de milhões de pessoas e apenas uma pequena fração foi comprometida. Mas a pergunta que fica é: estamos seguros na internet?

Apesar de ser relativamente seguro utilizar serviços na rede, a realidade é que estamos bem longe da segurança total. Do lado das empresas, o problema é como lidar com a crescente complexidade

de suas infraestruturas de TI. Porém, não é apenas no lado corporativo que estão as brechas de segurança. Muitas vezes elas são causadas pelo próprio usuário, por descuido ou por desconhecimento das diversas nuances do tema de segurança da informação.

Segundo a empresa americana White Hat Security (whitehatsec.com),

especializada em segurança na web, em 2010 mais de 44% dos sites que ela monitora estiveram expostos a alguma brecha. Mais de 75% dos sites ficaram expostos pelo menos cinco meses. Para

chegar a esses números, a White Hat Security testa continuamente mais de 3 mil sites de 400 empresas de vários tamanhos contra vulnerabilidades conhecidas. Os resultados são assustadores,

e não é por falta de orçamento que isso acontece. O orçamento para TI da Nasa é 1,5 bilhão de dólares, dos quais 58 milhões dedicados à segurança’ e ainda assim foi invadida milhares de vezes nos últimos anos. Mesmo que um sistema nasça 100% seguro, é bem provável que com o tempo e a evolução das técnicas de invasão ele deixe de ser seguro e precise ser alterado. Mas é praticamente impossível manter tudo sempre 100% seguro. E você? Toma cuidados com as senhas? Escolhe senhas seguras? Usa senhas diferentes para cada serviço? Não as deixa armazenadas em arquivos no computador ou no celular? Troca suas senhas com frequência? E nunca, nunca mesmo, compartilha suas senhas com outras pessoas? É bem provável que tenha respondido negativamente a cada uma dessas questões.

Essas práticas ajudam a minimizar as chances de ter as contas comprometidas. Uma senha fraca, fácil de deduzir, torna factível os chamados ataques por bruta força. De posse de um arquivo com as senhas mais comuns, um hacker pode quebrar sua senha rapidamente. Em 2009, o serviço RockYou (rock you.com) foi hackeado, expondo 32 milhões de contas. Segundo análise da empresa de segurança Imperva (imperva,com), se alguém tentasse invadir o site usando apenas as 5 mil senhas mais comuns, teria sucesso a cada 111 tentativas. Ou conseguiria invadir mil contas a cada 17minutos. Não é difícil extrapolar e imaginar que a rede será uma das principais zonas de guerra das próximas

décadas. Seja na violência virtual contra pessoas comuns, seja no competitivo mundo corporativo, nos conflitos entre países e até mesmo no ciberterrorismo. É hora de começar a pensar

nisso e trocar todas as suas senhas.

 

 

 

A cultura está

desencarnando?

Estamos entrando numa nova fase de fartura e facilidade

de acesso a arte e informação como nunca se viu antes

 

Por coincidência ou sincronicidade conheci a Rdio ao mesmo tempo em que

mudava de residência. A mudança para um apartamento menor me desafiou a diminuir pela metade meu acervo cultural. Olhei para minha coleção de CDs, para minhas estantes abarrotadas de livros e o paredão de DVDs. Eu tinha de tomar uma providência, e radical. Separei 0% livros que nunca tinha

lido, e provavelmente nunca mais leria. (Quem ainda tiver tempo e paciência para encarar Guerra e Paz de Leon Tolstói levanta a mão. Não vale mentir.) Separei os livros mais fundamentais e mandei o resto sem piedade para o sebo. Quanto aos CDs e DVDs, guardei os disquinhos em pastas específicas, que

couberam num armário do novo apartamento. Os encartes foram compactados em pastas comuns. E as caixinhas foram encaminhadas para reciclagem. Só as 600 caixas de DVD, se colocadas uma sobre a outra, formariam uma pilha de seis metros de altura. Estou jogando cultura fora? Não. Só dispensando

mídias ultrapassadas e espaçosas. Já a Rdio …Pode parecer propaganda gratuita, mas é apenas a descrição de um novo paradigma. A Rdio tem base em São Francisco e escritórios em cinco

países, incluindo o Brasil (onde foi lançado em parceria com a operadora Oi). Ela oferece 15 milhões de músicas. Num cálculo chutado, isso equivale a um século de som contínuo, sem repetições.

Existem muitos e excelentes serviços de música online, em que o cliente não tem o controle sobre o que vai ouvir. Na Rdio, você tem acesso aos álbuns, que pode ouvir como CDs online. Pode

também baixar faixas para audições offline, no celular e no tablet (mas não no computador, para evitar pirataria).

QUEM PRECISA OE DISCOS?

E aí começa um conceito diferente. O usuário pode extrair do CD as faixas de que não gosta. Pode reclassificar as músicas como desejar: por artista, por gênero, por país. A imaginação é o limite.

Isso já era possível nos players de MP3. Mas jamais tive 15milhões de músicas para colocar em listas como Pop, Brasil, Clássicos, [azz. Quanto custa o acesso a esses milhões de gravações? 14,90 reais

por mês. Isso, para quem usar celular e tablet. Para ouvir somente no computador, a conta cai para 8,99 reais por mês. A qualidade sonora é de 320 Kbps. Uma desvantagem: tudo o que temos é a capa, sem nenhuma outra informação sobre cada disco (a Wikipédia é uma boa alternativa para compensar

essa falha). E não espere encontrar na Rdio tudo o que você deseja. Isso depende dos acordos de distribuição. Os Beatles não estão lá. Mas procure por Duke Ellington. Eu parei nos 700 álbuns.

Johann Sebastian Bach? Parei nos 800. Gilberto Gil? 58 CDs, incluindo edições raras gravadas em Londres. A força da Rdio se manifesta na lista de CDs mais ouvidos, o tipo de música que faz realmente dinheiro: trilha sonora de novela, Paula Fernandes, Rihanna, Ivete Sangalo, Luan Santana, Lady Gaga. Quando esse mercado on demand embalar, quem vai querer pagar 30 reais por um único CD quando

pode ter todos por metade do preço?

Estou ouvindo música pela Rdio e assistindo filmes pelo sistema Now, da Net. Pelo Netflix posso assistir quatro temporadas de Mad Men. Quem precisa de discos, caixinhas ou locadoras?

Como espírita, eu diria que a cultura está "desencarnando". E que estamos entrando numa nova fase de

fartura e facilidade de acesso a arte e informação como nunca se viu antes.

Bola, chuteira,

gol e tecnologia

ouso de chip pode acabar com os erros de arbitragem

nas partidas de futebol? Pelé acha que ainda não

 

É um fato simples: no futebol, quanto mais rápido melhor. Trata-se de um mundo diferente do

de outros esportes, como o tênis ou o futebol americano. E não se deve esquecer disso nessa nova

corrida pela adoção de chíps para detectar se a bola cruzou a linha do gol.

À medida que se expandem as transmissões dos jogos também avança a tecnologia usada na cobertura. Depois l dos erros nos campeonatos europeus deste ano, a Copa do Mundo de 2014 tende a ser o evento futebolístico mais analisado da história. Embora seja possível argumentar que isso é bom para o esporte, é inegavelmente ruim para os árbitros. Você pode dizer "Ah, o árbitro cometeu um erro", mas ele tem de decidir no ato se é falta ou não, se o atleta jogou sujo. Isso é o futebol. Obviamente, pode-se usar uma câmera para ajudar nas decisões mais importantes, mas qual o custo disso para o esporte?

Entendo os apelos em favor de decisões corretas nesta era de patrocinadores e salários astronomicamente altos. Não sou contra as mudanças, se necessárias. As chuteiras que os jogadores

usam hoje (leves e cheias de estilo) são fantásticas. E em minha carreira marquei 1281 gols, mas se tivesse tido a sorte de jogar com chuteiras como essas talvez tivesse feito o dobro.

Até escrevi em minha autobiografia, alguns anos atrás, que queria ter tiros livres sem barreiras. Para mim é tudo uma questão de justiça. Quando jogava, passava por um, dois, três jogadores, e então o último cometia uma falta fora da área. Sempre por trás e em cima da linha, mas não era pênalti. Aí todos aqueles jogadores vinham formar a barreira. Acho que tinha de ser apenas o que cometeu a falta. Se você já ultrapassou todo o meio de campo, não devia enfrentá-los outra vez. As barreiras são essencialmente injustas.

CONTRA-ATAQUE

Mas há uma diferença muito grande entre justiça e eliminação de erros. Estes sempre vão acontecer. O futebol é um jogo muito rápido. O jogador tem de tomar decisões num piscar de olhos.

O pensamento por trás da defesa da tecnologia para a linha do gol é:se o árbitro acredita que a bola entrou, vai parar o jogo e perguntar a alguém num estúdio de TV,que vai responder sim ou não.

Mas o que acontece se o outro time arma um contra-ataque relâmpago? Como saber se não está sendo impedindo de marcar? Certo, se é gol tudo bem.

E se o quarto árbitro concorda que a bola não Cruzou a linha do gol,já foi parada a partida e potencialmente evitou-se um gol - o que, mais uma vez, não é justo. Nos esportes que têm paradas regulares isso é ótimo. Há tempo para verificar as reclamações. No futebol as

coisas estão sempre acontecendo, e é tudo muito complicado. O gol de Geoff Hurst para a Inglaterra, no jogo contra a Alemanha na final da Copa do Mundo de 1966, foi rapidíssimo. Será que esse gol se manteria de pé após um exame minucioso? Eu preferiria que houvesse árbitros extras atrás de cada gol para ajudar a decidir se a bola entrou ou não e se realmente houve um pênalti.

Na realidade, a tecnologia para a linha de gol já se mostrou problemática. Em Dubai foram feitos experimentos com um chíp na bola, mas quando o goleiro cobria esse chip, o dispositivo não funcionava. Se você usa a tecnologia e ainda assim não obtém resultados certos em todas as situações, ela não

aumenta o nível de justiça no jogo. Então, para que implementá-la? Não sejamos apressados para adotar essa tecnologia. Faz muito mais sentido gastar algum tempo e avaliá-la melhor.

INVENÇÕES INUSITADAS E GENIAIS

Aparelho portátil capaz de ler para deficientes visuais. Sistema para codificar telefonemas. Cofre que rejeita notas falsas. Conheça três criações que desafiaram a lógica do mercado.

De cientista e louco. todos temos um pouco. E isso é ótimo. Pesquisadores continuam a surpreender o mundo com inventos inusitados e ao mesmo tempo. úteis. Estatísticas recentes da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Wipo, na sigla em inglês) mostram que o número de pedidos de registro de patentes por ano em todo o planeta dobrou entre 1985 e 2010. Os Estados Unidos e a China lideram a lista como os países em que a inovação está mais presente. O Brasil aparece em 11º lugar. à frente do

Reino Unido. da França e de outros países latino-americanos.

A tecnologia pessoal é hoje uma das principais vitrines da inovação. O ritmo anda frenético no mundo dos computadores pessoais. dos smartphones, dos aplicativos móveis e também da internet. Uma boa ideia hoje pode valer milhões.

A capacidade de criar nem de longe está limitada às gigantes da tecnologia. Pode vir de qualquer lugar. de um inventor. Basta uma boa sacada. Itens inusitados têm surgido para dar conta dos mais variados tipos de problemas e facilitar a vida de milhões de pessoas. Algumas das invenções que começam

a aparecer no Brasil- desenvolvidas por aqui ou importadas - desafiam a lógica do mercado. Conheça. a seguir. três delas.

 

CARLOS WOLKE

FUNDADOR DA PINÁCULO                   UMA MÁQUINA QUE ENXERGA

                                                                 VOCALlZER

Aos 20 anos, Carlos Wolke descobriu que perderia por completo a visão. Diagnosticado com retinose pigmentar, uma doença genética, ele mergulhou no trabalho à medida que o mundo ao seu redor escurecia. Tornou-se um empreendedor. Fundou a Pináculo, uma empresa de segurança e telecomunicações com sede em Taquara, nas proximidades  de Porto Alegre (RS).

Quando deixou completamente de enxergar, aos 32 anos, Wolke, que hoje está com 40, passou a usar um software para leitura da tela do computador. Percebeu, então, que não existia ainda um aparelho portátil capaz de fazer algo semelhante. E decidiu inventa-lo.

Criou o Vocalizer, um dispositivo portátil que, por meio de uma câmera de 5 megapixels, lê jornais, livros ou revistas. Um sintetizador de voz reproduz o conteúdo. É possível gravar os textos memória ou descarregar arquivos de um pen drive. O equipamento, to tamanho de um radiocomunidador, também consegue reconhecer cores, códigos de barras e cédulas, além de funcionar como agenda, relógio, calculadora e editor de textos. “Como roda Linux, é possível desenvolver outros aplicativos para ele”, afirma Wolke.

O projeto do Vocalizer só saiu do papel após receber 1,3 milhão de reais da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Não tínhamos domínio da tecnologia que seria usada, e por isso o desenvolvimento sairia muito caro.”, afirma. O aparelho levou três anos para ficar pronto. Agora, está na fase de ajuste e deve chegar ao mercado em setembro. O preço inicial é de 4 mil reais.

Rubens Bulgarelli Filho

DIRETOR DA GUNNEBO GATEWAY                   COFRE QUE REJEITA NOTAS FALSAS

                                                                               INTELISAFE

 

 

Foi-se o tempo em que os cofres eram caixotes de metal reforçados com uma roda numerada que, ao ser girada para os lados, destravava a porta. O InteliSafe é um cofre inteligente que traz um sistema de reconhecimento de imagens capaz de identificar notas falsas. O cofre recebe maços de até 30 cédulas por vez, faz a contagem e rejeita as que não forem originais ou que estiverem danificadas. “Uma relação de todas as operações fica disponível online”, afirma Rubens Bugarelli Filho, diretor geral da Gunnebo Gateway Brasil.

Se um comerciante, por exemplo, possui vários cofres digitais em suas lojas, pode acompanhar pela web quanto dinheiro dói depositado ao longo do dia em cada um deles. Para que nenhum invasor acesse as informações, a conexão com a internet é feita de modo seguro por meio de uma VPN (rede privada virtual, em português). Para destravar a fechadura eletrônica do InteliSafe, cada pessoa usa uma senha e um código aleatório, digitados em uma tela sensível ao toque de 15 polegadas.

Tudo o que acontece com o aparelho fica gravado, incluindo os momentos em que a porta foi aberta, eventuais problemas com os componentes e falhas de comunicação. Até 10 mil notas podem ser depositadas.

O público-alvo da Gunnebo Gateway Brasil são profissionais liberais e grandes varejistas, como supermercados e lojas de departamento. A empresa não definiu ainda o preço, mas estuda vender ou alugar o InteliSafe a partir de agosto.

THARITA CHERULLI

DIRETORA DA PARTNERS RISKS                   CELULAR COM CRIPTOGRAFIA

                                                                               ENIGMA E2

 

 

No cinema, agentes secretos usam celulares capazes de codificar todas as suas conversas ou de se autodestruir em 10 segundos. Na vida real, existe uma solução parecida para quem costuma conversar sobre assuntos sigilosos pelo telefone – como empresários e políticos – e não quer ver informações vazarem. O celular Enigma E2, da Tripleton, não tem nem de longe as mesmas funções de um IPhone 4S ou Galaxy S III, mas traz um recurso incomum: um chip capaz de criptografar as ligações. Com isso, grampea-lo torna-se bem difícil.

Para o sistema funcionar, é necessário ter dois aparelhos iguais, o que não sai barato. Cada celular custa, em média 8.500 reais. A proteção s[ó existe quando um Enigma E2 liga para outro. “É gerado um código randômico para cada telefonema”, afirma Tharita Cherulli, diretora executiva da Parters Risks, responsável pela comercialização do sistema pelo Brasil.

Os dois aparelhos trocam chaves, o que permite escutar a conversa, codificada por um algoritmo simétrico AES de 256 bits. Chamadas para celulares comuns ou telefones fixos não são protegidas.

O design do Enigma E2 lembra o dos aparelhos fabricados há três anos. A câmera tem só 3 megapixels e o celular possui autonomia para duas horas e meia de conversação protegida. Não há tela sensível ao toque, nem loja de aplicativos. Uma versão mais simples, o Enigma T3O1B, já era vendido pela Partners Risks. Segundo Tharita, a maior parte dos clientes da empresa está em São Paulo, Brasilia e Fortaleza. Por isso, se você estiver em uma dessas cidades e topar um político com um celular meio estranho nas mãos, pode desconfiar.

UM CURRíCULO PERFEITO

 

Facilitar a vida do entrevistador é a principal ideia por trás de um currículo perfeito. Por isso, use uma ou duas linhas para explicar suas atividades e realizações nos empregos anteriores, além de mencionar o tamanho das empresas onde trabalhou. "É muito importante escrever seus objetivos com clareza", diz Ricardo Basaglia, diretor da empresa de recrutamento Michael Page International. Outra dica de Basaglia é evitar o spam e customizar o e-mail que acompanha o currículo de acordo com a vaga pretendida. "Dizer a razão pela qual você deseja a vaga é uma boa ideia", afirma.

Evitar erros de português é crucial, assim como erros bobos." Não existe 'inglês técnico'. O nível de fluência deve ser descrito como básico, intermediário ou avançado." Vale indicar links para suas redes sociais? Para Basaglia, é comum que o empregador procure pelo entrevistado no Facebook e no Twitter, com ou sem link, por isso é bom ter um comportamento contido nas redes na fase em que procura emprego.

Para deixar sua mãe mais geek

 

Em alguns casos pode parecer um passo muito grande, mas experimente dar um tablet a sua mãe. A interface com tela sensível ao toque é mais amigável e intuitiva do que os sistemas criados

para serem controlados por mouse e a configuração dos apps é mais simples que a dos softwares

para PC. Mostre a ela que é possível usar o gadget para fazer algo que ela goste, como, por exemplo,

ler o jornal, ouvir música ou trocar mensagens com familiares que moram longe. Depois, ajude

na criação de contas e na configuração de serviços. Isso é uma atividade corriqueira para veteranos,

mas quem está começando sente que é uma barreira. Mais do que incentivar sua mãe, sua tia

ou seu pai a usar gadgets e apps, é preciso deixar tudo pronto para eles. Outro passo importante é

compartilhar conteúdo e dar dicas de links para geeks de primeira viagem. Aos poucos, a rotina

digital fará parte da vida de todos da família.

EViTAR MICOS NO FACEBOOK'

Quanto mais você posta no Facebook, maiores são as chances de ter algo de que se

arrepender depois. Por isso, configurar as opções de privacidade da rede social ajuda.

Comece separando seus contatos em listas. Assim você limita a interação apenas aos amigos

mais próximos. Na página do seu perfil, coloque o mouse sobre o item Amigos, na barra

lateral. Aparecerá o link Mais. Clique sobre ele e,na página que surge, aperte o botão Criar Lista.

Recomenda-se, por exemplo, separar colegas de trabalho, familiares e amigos próximos.

Feito isso, clique sobre a seta que fica no canto superior da tela, perto do seu nome, e abra o item

Configurações de Privacidade. Ali, comece definindo o controle como Personalizado e depois

confira todas as alternativas com calma. Em cada opção é possível definir que usuários e

que listas terão acesso às suas informações. Feito isso, você pode publicar fotos de baladas sem

que seu chefe veja. Na mesma tela, altere as opções de Linha do tempo e marcação, para evitar

que outras pessoas citem você sem o seu consentimento .

Esconda-se do Google

 

Quem usa Gmail, YouTube, Android e o buscador do Google deixa uma boa quantidade de dados

na mão de uma só empresa. Para controlar e limitar o acúmulo de informações pessoais que o

Google tem sobre você, acesse o Painel de Controle (abr.io/231W) e veja o que cada serviço armazena

sobre sua conta. Outra dica útil para quem se preocupa com privacidade é desativar o histórico

de buscas. Faça isso em google.com/history.

ESCOLHER UM ROTEADOR

 

Por uma questão de preço e longevidade, vale a pena procurar um modelo de roteador compatível

com o padrão B02.11n com velocidade nominal de 300 Mbps. Os roteadores que oferecem 150 Mbps

no padrão lln costumam ser mais baratos, mas podem apresentar problemas de compatibilidade.

Antes disso, verifique se todos os seus gadgets operam nesse padrão. Errar nesse ponto pode deixar

seu PC velhinho de fora da rede. Se você procura um roteador que funcione com um modem 3G/3G+,

não se esqueça de verificar se ele é compatível com o modelo do seu modem. A lista de compatibilidade

costuma ser limitada. Se você quer mobilidade, saiba que existem minirroteadores que aceitam modem

3G e funcionam usando bateria. Extras como entrada USB, para compartilhar arquivos e impressora

pela rede, são sempre bons (além de fáceis de configurar). Não se esqueça

também de que um ambiente com muitas paredes pode limitar e até interromper o sinal. Nesse caso

você pode adquirir dois roteadores do mesmo fabricante, compatíveis com o protocolo WDS (Wireless

Distribution System). Um se conecta ao outro para aumentar a cobertura.

TRANSFORMAR A WEB EM REVISTA

Com o aplicativo gratuito Flipboard, para iOS e agora também para Android, qualquer conteúdo

da web pode ser formatado com design semelhante ao de uma revista. Além de diversos

sites com versões otimizadas para o aplicativo, é possível adicionar os vídeos preferidos

do YouTube e postsde amigos nas redes, como o Google+ e o Twitter. Aprenda a fazer isso.

Canais/

É possível criar um canal com os dados de apenas um usuário do Twitter. Basta digitar o nome da

conta dele (@usuário) no campo de buscas do Flipboard, também acessível pelo ícone da Lupa

Leitura/

o app pode ser integrado a serviços que salvam links para ler depois. Clique na engrenagem no canto Inferior do Flipboard, depois em Read Later e escolha entre o Pocket, o Instapaper e o Readability. Feito isso, quando encontrar algo que queira guardar, basta tocar no item Read Later, que aparecerá lunto das opções de compartilhamento

Sites/

o mesmo procedimento usado para seguir uma conta individual do Twitter pode

ser usado para adicionar qualquer blog ou site de notícias ao Flipboard. Basta procurar pelo nome da página e depois tocar no item RSS

Redes/

Clique na Lupa, no canto direito do app, e depois em Accounts para adicionar suas contas de redes sociais. OFlipbpard conversa, entre outros, com Twitter, Instagram, Linkedln e Facebook

 

 

 

ZERAR SUA CAIXA POSTAL

 

Uma caixa postal desorganizada e cheia de mensagens não lidas é mau negócio tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Você perde contatos e deixa de fazer tarefas importantes. O autor americano Merlin

Mann,guru da produtividade, criou um método para fugir do caos. Segundo Mann, é preciso classificar as

Mensagens com cinco verbos de ação: apagar, delegar, responder, adiar e fazer. Essa divisão deve ser feita no momento "mais intenso do que só olhar e menos intenso do que ler". Durante essa etapa, você age de acordo com a dificuldade de cada caso. Comece apagando o que não interessa, depois encaminhe as mensagens que devem chegar a outras pessoas. Responda

e-mails que trazem perguntas. "Se você não tem a informação, devolva com outra pergunta. É importante manter a bola rolando", diz Mann. As mensagens que não podem ser respondidas no momento devem ser separadas das outras e colocadas na sua lista de tarefas do dia, logo após as tarefas que chegaram nos e-mails  importantes. Veja a palestra na íntegra, em inglês, no endereço abr.io/inbox-zero,

Deixar os e-mails engraçados para depois

 

Sabe aquele amigo que manda mensagens com links ótimos quando você não pode abrir?

Para não perder as piadas enviadas por gente como ele use a extensão Boomerang (boome

ranggmail.com) para o Gmail. Com versões para Chrome e Firefox, ela agenda uma

data para a chegada de e-mails, É possível programar para que mensagens engraçadas cheguem no fim de semana. O serviço é útil para criar lembretes. Basta enviar um e-mail para você mesmo determinando dia e hora que gostaria de ser lembrado sobre um assunto.

Acabar com notificações chatas

 

A maioria dos e-mails chatos que chegam à sua caixa postal está lá por sua culpa. Afinal, newsletters, ofertas de sites de compra coletiva e notificações de redes sociais só aparecem na caixa porque você as solicitou. Para fugir da chateação de receber esse conteúdo sem parar, crie regras de filtragem. No Gmail, clique no item Filtrar Mensagens Semelhantes, que aparece na seta ao lado do botão Responder. Entre

as ações disponíveis, está a opção de arquivar os e-mails e guardá-los com um marcador.

FOTOGRAFAR NO ESCURO

Nem sempre as configurações do modo automático da sua câmera digital proporcionarão uma boa foto.Se o ambiente tiver pouca luz.por exemplo. é preciso encarar o modo Manual e experimentar opções

mais avançadas. Mostramos. a seguir. como fazer isso sem traumas.

Dispense o flash /

Câmeras compactas têm flash com alcance de poucos metros. por isso, não adianta usá-lo

para iluminar obiotos distantes ou paisagens. Nesses casos, vale a pena desligá-lo e aumentar a

sensibilidade da captação de imagem [ISO]

Abertura maior /

Para fotos noturnas, o ideal é prolongar o tempo de abertura do diafragma da câmera, que é mostrado no

menu por combinações como f5.6 e f16, por exemplo. Nesse caso, o menor número é a melhor opção

Firmeza é fundamental/

Com maior sensibilidade e maior abertura, a câmera demora mais tempo para fotografar e, por isso, é essencial que permaneça estática. Na falta de um tripé, improvise um apoio para as mãos ou cotovelo numa mesa ou no parapeito de uma janela

 

COMPRAR MAIS BARATO

 

Analisando o monitoramento realizado pelo serviço Price Monitor e-bit. com dados do Índice Fipe e do Buscapé. Detectamos os meses em que o preço dos eletrônicos mais cai. No caso das TVs.

maio registrou as maiores variações negativas. Na categoria notebooks. As quedas mais acentuadas ocorreram em abril. Já entre celulares e smartphones, o melhor mês para se comprar é junho.

Nos três casos. o final do ano também registra redução de preços. Por isso.vale esperar um mês ou dois para comprar seu gadget. Outra dica é ficar ligado no noticiário e ver se o objeto do seu desejo

não será substituído por uma nova ver· são em breve e pensar se vale a pena economizar.

mesmo tendo menos recursos.

Fazer reuniões  mais curtas e produtivas

 

Não é preciso ser programador para usar alguns conceitos de desenvolvimento ágil, métodos de trabalho criados para organizar e acelerar a produção de software. No Scrum, um dos métodos mais populares, há reuniões diárias para discutir os avanços de cada membro da equipe. Esses encontros são feitos sempre no mesmo horário e local, em pé, e não podem durar mais do que 15 minutos. Cada participante responde rapidamente a três questões: O que você fez desde ontem? O que você planeja fazer hoje? Você tem algum problema que o impeça de realizar seu objetivo? Depois, mãos à obra !

 

ENROLAR NO TRABALHO SEM DAR BANDEIRA

 

É possível que você já seja um profissional experiente na arte de enrolar. Ou vai dizer que passa o dia inteiro de trabalho sem acessar o Facebook e o Twitter? Ou sites de notícias? Quem tem chefe mais rígido precisa ficar esperto com esse hábito, pois tem tudo para se tornar um problema. Uma saída é acessar o Facebook com o serviço TheFriendMail.com, que é gratuito e não desperta a atenção de quem vigia a sua tela. Com ele da para saber tudo o que está rolando com seus contatos da rede social sem sair do programa de e-mail. Há opções para ver e curtir fotos e posts de amigos, entre outros recursos.

Como investir em startups

A receita do investimento em startups pode ser resumida em buscar pessoas com excelentes

Ideias  que proporcionarão retornos saudáveis. O primeiro ponto é olhar o modelo de negócios, que não

é só uma planilha de Excel. É preciso entender a razão pela qual os consumidores e clientes usarão o serviço, qual será a fonte de receita e por que ele é sustentável no médio prazo. Melhor ainda

se for um modelo inovador. O segundo aspecto são as pessoas que participarão do projeto. Elas precisam acreditar, estar motivadas e demonstrar uma capacidade boa de implementar a ideia.

Por último, é preciso acreditar que o retorno financeiro do investimento vai ser saudável, em números

pelo menos três vezes maiores do que o investido

Como obter investimento

O empreendedor tem que conhecer bem o mercado onde atuará. Deve apresentar seu

protótipo a potenciais clientes, pesquisar concorrentes e avaliar eventuais parceiros.

Precisa ainda procurar cofundadores que complementem suas competências

técnicas e operacionais. A seguir, elaborar um bom plano de negócio. Este consta

de uma apresentação sumária da necessidade atendida pelo produto, a qual oportunidade

ele se dirige e como e quando será executado. É necessário ainda montar um plano de execução, indicar

a forma de monetização da ideia, quanto investimento será necessário e como esse investimento será usado. Depois, o empreendedor deve buscar investidores em sua rede de relacionamentos,

em eventos e competições.

QUEBRAR ROTINAS

Todo vício é formado por um loop que começa com uma deixa, cresce com a rotina e termina com uma recompensa. Essa é a conclusão de Charles Duhigg, autor do livro The PowerofHabit (“opoder do hábito”, sem versão em português). Ele sugere que as pessoas devem desmontar seus vícios para depois mudá-los. Um exemplo? Parar de trabalhar para fumar no mesmo horário. O truque para quebrar a rotina é definir uma recompensa, que não é fumar, mas fazer uma pausa e relaxar. Para abandonar esse

hábito, basta trocar o cigarro por uma visita à lanchonete da empresa.

Como borrar um rosto no YouTube

O YouTube lançou nova ferramenta, o Desfoque de Rosto, que borra o rosto das pessoas nos vídeos. Com isso, fica mais fácil disfarçar gente que aparece nas ruas ou proteger crianças. Para usá-la,

faça login e clique em seu nome de usuário. Acione Vide o Manager e clique no botão Editar, ao lado do clipe desejado. Na barra superior, clique em Melhorias. Por fim, clique em Opções Adicionais e,

na área Desfocar Todos os Rostos, dê o comando Aplicar. Mas pode não funcionar em certos frames. Se não ficar bom, é melhor manter o vídeo privado.

ACELERAR O TELEMARKETING

Se você não conseguiu resolver o problema por e-mail ou chat da prestadora de serviço e a sua única opção for o telemarketing, respire fundo e siga as dicas que os especialistas deram a INFO.

A primeira é fazer a ligação no horário em que as pessoas estão indo ou voltando do trabalho (entre 8h e 10h ou entre 17h e 18h). Evite a hora do almoço ou o intervalo da novela. Ouvir as alternativas

do menu até o fim poupa tempo, pois a transferência entre uma área e outra é uma das partes que mais demoram. Tenha sempre comprovantes e documentos à mão e jamais esqueça de anotar

o protocolo de atendimento e o nome do atendente. Isso pode ser a diferença entre ter ou não o problema resolvido.

 

Como fazer storytelling

A cura para uma apresentação chata pode estar no uso de um bom roteiro. Bruno Scartozzoni, professor de storytelling na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), mostra como aplicar essa ideia. “Histórias são relatos de como pessoas enfrentam obstáculos para alcançar um objetivo que irá transformar suas vidas, resolvendo problemas e lidando com emoções”, diz. A técnica de contar histórias e emocionar é usada desde os primórdios para entreter e, ao mesmo tempo, compartilhar conhecimento. “Reorganize as informações de sua  apresentação nesse formato e sua audiência irá agradecer”, afirma Scartozzoni.

MADE IN JUNDIAÍ

INFO revela como funciona a única fábrica de iPhones e iPads construída fora da China. Cerca de

3 mil funcionários da Foxconn 11, no interior de São Paulo, montam os gadgets da Apple. Mas eles são vendidos nas lojas pelo mesmo valor dos importados. Por quê?

 

O DIA AINDA ESTÁ ESCURO. SÃO 5h40 QUANDO O COMBOIO

 

de 42 ônibus da transportadora  Brasiliense desembarca 1,3 mil trabalhadores na fábrica da Foxconn,

localizada no quilômetro 66 da Rodovia Anhanguera, em São Paulo. Outros 700 funcionários espremem-se em vários carros com mais de 20 anos de uso pelas ruas lamacentas do Engordadouro, o novo bairro operário da cidade de jundiaí, a 57 quilômetros da capital. Em menos de 20 minutos, o dia clareia, o cheiro de diesel se dissipa no ar e o exército de 2 mil ex-vendedores, comerciários e empregadas

domésticas estará uniformizado, operando a primeira fábrica de iPhonese iPads construída fora da China.

Aos 32 anos, a sorocabana Márcia trocou o emprego, sem registro, em uma operadora de telemarketing por seu primeiro contrato com carteira assinada. Ela desembala e faz polimento em componentes usados no iPad. Das 6h da manhã, início do primeiro turno na fábrica, até às 15h, Márcia e outras

centenas de operadores terão montado 600 iPads, que sairão da Foxconn com o selo “indústria brasileira” aplicado em seus cases de alumínio. A menos de 10 metros dali, no galpão B, outro grupo de operadores terá montado 900 iPhones até o fim de seu turno. A produção não chega a 30% da capacidade instalada nos galpões da Foxconn 11.Ali, ao menos quatro máquinas importadas do Japão é de Taiwan para integrar os componentes dos iGadgets poderiam operar até 20 horas por dia, um ritmo bem mais

acelerado do que o atual. Mas, segundo Evandro dos Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí, a fábrica está em plena expansão. “A produção de iPhones começou

em outubro do ano passado e a de iPads em maio de 2012. Muitas máquinas estão sendo instaladas e as contratações são feitas de forma acelerada”, diz Santos. O sindicalista não conhece

o interior dos galpões da Foxconn 11. “A empresa nunca nos deu acesso às linhas de produção”, afirma.

Como acontece em todas as fábricas da Foxconn no mundo, o acesso é restrito e o esforço para preservar os segredos industriais é imenso. INFO procurou a Foxconn para esta reportagem,

mas não foi atendida. Em Jundiaí, quem trabalha no galpão A não pode frequentar o B e cada componente é embalado em plástico opaco, de forma que um funcionário nunca sabe o que

está transportando. “Os estoquistas e os conferentes trabalham apenas com materiais lacrados. Só quem está na linha de montagem sabe o que há em cada caixa que transportamos”, afirma Maurício, um jovem de 21 anos que trabalha no setor de expedição. Toda a movimentação na fábrica, da entrada dos funcionários à circulação dos caminhões de distribuição de peças, é acompanhada por uma dezena

de seguranças. Na porta da Foxconn II, quatro carros com oito homens armados protegem a operação. O momento mais tenso do trabalho dos vigilantes é o deslocamento de caminhões da porta da fábrica aos galpões da Apple, a seis quilômetros de distância, onde são armazenados os iPads e iPhones que

serão enviados para o varejo brasileiro e da Argentina, país que iniciou a importação de

iGadgets made inJundiaí. Antes de cada veículo deixar a fábrica, um carro da segurança segue à frente,

para avaliar as condições da estrada. Após a partida do caminhão, outro carro com homens armados o escolta. Apesar do alto valor de um carregamento de iPads e iPhones, não há registro de ocorrências na estrada. O único incidente denunciado pela Foxconn II à polícia desde o início de suas operações

no Brasil, há um ano, foi o furto de sete iPads de seu galpão A, em abril passado.

Apesar das 400 câmeras de vigilância, a indústria negou -se a ceder imagens do circuito interno aos investigadores, o que levou o delegado Antonio Seleguim Junior, do 2° Distrito Policial de Jundiaí,

a queixar-se publicamente da má vontade da Foxconn com a investigação.

IMPOSTO BAIXO, PREÇO ALTO

Segredos e crises com funcionários são marcas da Foxconn em todo o mundo. Em Jundiaí não foi diferente, pelo menos no início da operação. “Houve falta de água, alimentação deficiente e

problemas com o transporte”, afirma o sindicalista Evandro Santos. Além das queixas dos trabalhadores, os quase 3 mil empregos gerados, com salário médio de 1150 reais, são, até agora, a única

parte palpável do festejado acordo fechado em Pequim, no ano de 2011,entre a presidente Dilma Rousseff e o taiwanês Terry Gou, o fundador da Foxconn, Único porta-voz da empresa, que

criou nos anos 1980, em Taiwan, Gou tornou-se conhecido no mundo,em2009, quando a Foxconn foi acusada de exploração dos operários na China, que resultou em 16 suicídios de trabalhadores. Em

meio à crise, Gou decidiu que era hora de falar. Mas as poucas entrevistas que

concedeu nada contribuíram para melhorar a imagem de sua empresa. Goujá comparou a força de trabalho da Foxconn a “I milhão de animais” que lhe causam “dor de cabeça”.Sobrou até para os trabalhadores da empresa no Brasil, uma turma que “ganha muito e trabalha pouco”. Quando a presidente Dilma prometeu a Terry Gou pesados incentivos fiscais, como os que permitem fabricar iPads no Brasil com redução de 80% dos impostos, na comparação com um importado, Gou mudou o discurso.

Em Pequim, disse que investiria 12bilhões de dólares até 2015 no Brasil, geraria 100 mil empregos diretos, sendo 20 mil postos para engenheiros. Prometeu que iria transferir tecnologia e abrir no país sua primeira fábrica de telas de cristal líquido das Américas. oex-ministro da Ciência, Tecnologia

e Inovação Aloizio Mercadante chegou a anunciar que tablets made in Brazil chegariam com preços 30%

menores para o consumidor final. O que acontece na prática? Um iPad Wi-Fi de 16GBvendido a 1549 reais no varejo recolhe mais de 50% de seu preço final em impostos de importação. O mesmo produto, fabricado no Brasil sob regras fiscais especiais soma cerca de 12%em trio butos. Na matemática de Mercadante, mesmo incluindo custos adicionais de fabricar eletrônicos no Brasil, onde a

escala de produção é muito menor que na Ásia, seria possível reduzir o preço dos iPads em 30%. Mas não é o que o consumidor vê nas lojas. Os iPads montados em jundiaí começaram a chegar

ao varejo brasileiro em maio deste ano pelo mesmo preço dos importados.

Na avaliação de Hugo Valério, diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee),

isso acontece porque falta competição. Enquanto o iPad reinar como líder absoluto de mercado, os preços permanecerão altos. “Quando um fabricante de notebooks recebe incentivos fiscais,ele

repassa 100% dos ganhos ao consumidor, pois está em um mercado muito competitivo”, diz Valério. “Mas se a empresa atua num segmento em que é líder, pode simplesmente transformar os ganhos fiscais em margem de lucro Hugo Valério classifica como exageradas as promessas de Mercadante.

“A indústria nacional de eletrônicos emprega 120 mil pessoas. É improvável que uma única empresa gere, subitamente, 100 mil novos empregos.” O secretário executivo do ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Virgílio Almeida, acha precipitado dizer que fracassou o acordo com a Foxconn. Segundo Almeida, os incentivos fiscais são temporários e, nos próximos anos, a empresa será obrigada a

aumentar a presença de itens nacionais nos iPads e iPhones que produz no país. “Em 2015, até 50% dos componentes devem ter fabricação nacional, o que aquecerá o setor”, afirma Almeida.

Ele acredita que o nível de qualidade exigido pela Apple de seus fornecedores levará a indústria brasileira a outro patamar. “As fábricas deverão produzir memória flash, circuitos e telas sensíveis nos padrões mais exigentes do mundo, comprar o maquinário mais moderno e treinar sua mão de obra”, afirma Virgílio Almeida.

 

TELAS SENSívEiS

O ponto mais delicado do acordo entre A Foxconn e o governo é a fabricação de telas sensíveis. A empresa taiwanesa exige incentivos fiscais do governo federal, menor ICMS no estado em que se

instalar e impõe à prefeitura da cidade condições como cessão do terreno, desconto no

IPTU e ajuda para tratar o lixo Tóxico gerado por esse tipo de operação. Além disso, a Foxconn quer um

parceiro brasileiro para arcar com 60% dos investimentos, estimados em 4 bilhões de dólares. Outros 30% viriam de um empréstimo do BNDES. À Foxconn, caberiam 10% dos investimentos e a

transferência de sua tecnologia. Por mais excessivas que pareçam as exigências, essa é a parte mais simples do acordo.

O ponto mais controverso está em decidir que tipo de tela será feito no país. OBNDES diz que só libera o investimento se a Foxconn concordar em fabricar telas Oled, a tecnologia mais avançada

nessa área. A empresa, porém, prefere produzir no Brasil telas de LCD/ LED. As telas Oled ou Amoled formam imagens pela emissão de luz própria e, por isso, dispensam a retroiluminação

usada nas LCD convencionais. Sem essa retroiluminação, as telas Oled tornam-se bem mais finas, leves e de melhor resolução. Embora produzir essas telas possa se tornar barato no futuro, hoje representa um custo alto fabricá-las em grandes formatos. Por isso, quase não há televisores e computadores

com telas Oled no mercado. Isso explicaria, em parte, a opção da Foxconn pela produção de LCD/LED.

Mas a empresa pode ter outros motivos para não ter pressa de investir no país. Com a desaceleração da economia, a Foxconn parece ter concluído que este não é o momento mais apropriado para

construir sua sexta unidade brasileira. Além da Foxconn II e da unidade de armazenamento Apple, na Rodovia Anhanguera, a taiwanesa mantém uma fábrica de peças para notebooks Dell na Rodovia dos Bandeirantes, também em Jundiaí, uma integradora de computadores em Manaus (AM) e uma fábrica de peças para celulares em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Juntas, as fábricas da Foxconn geram menos de 10 mil empregos no Brasil. Para cumprir a promessa feita à presidente Dilma, Terry Goe precisa criar mais 90 mil postos de trabalho. Ao que tudo indica, para se tornar um colega de Márcia, e pendurar um crachá da Foxconn no pescoço, os brasileiros vão precisar ter paciência oriental.

ELES VÃO AMEAÇAR O LÍDER IPAD?

o NEXUS 7,DO GOOGLE, TEM UMA LOJA DE APLICATIVOS TURBINADA. JÁ O SURFACE, DA MICROSOFT, É COMPATÍVEL COM PROGRAMAS PARA WINDOWS. OS DOIS TABLETS CHEGARÃO AO MERCADO NOS PRÓXIMOS MESES COM O

DESAFIO DE TOMAR ESPAÇO DA APPLE. CONSEGUIRÃO?

Nos últimos dois anos, o iPad reinou absoluto no mercado de tablets. Dono de 63% das vendas mundiais, o tablet da Apple é a estrela de uma categoria de produtos criada a partir de seu próprio lançamento, em 2010. Apesar da liderança, não faltam competidores. Produtos como o Eee Pad Transformer, da Asus, e o Inspiron Duo, da DeU, chegaram com a fama de matadores do iPad, mas não tiraram

sequer uma casquinha do brilho do tablet da Apple. Quem ficou mais perto disso foi o Galaxy Tab, da Samsung, vice-líder do mercado, mas com apenas 7% de participação.

Agora, dois novos produtos se posicionam como bons desafiantes: o Nexus 7,do Google, e o Surface,

da Microsoft. Apresentados no meio do ano, eles são peças estratégicas das duas concorrentes que podem levar perigo ao império da Apple. Motivos para apostar nesse mercado não faltam. Segundo

a consultoria Transparency Market Research, as vendas de tablets cresceram 276% no ano passado

e atingiram 67 milhões de unidades. Até 2015, esse número deve aumentar quase quatro vezes.

Enfrentar a soberania do iPad não é fácil. Mais do que em qualquer área do mundo digital, a competição no campo dos dispositivos móveis depende de um conjunto complexo de fatores.

Começa com o próprio gadget e suas características de hardware. Mas a receita para o sucesso inclui um número alto de aplicativos disponíveis para a plataforma e o interesse dos desenvolvedores em criar novidades. Outros itens são o design, o conteúdo, o sistema operacional e a experiência de uso, conjunto

que explica a liderança do iPad. A Microsoft investiu no design do Surface. Já o Google trouxe para

o Nexus sua imensa oferta de livros. Apresentados em junho, ainda é cedo para dizer se os dois tablets vão conseguir brigar de igual para igual com o iPad. INFO destaca os pontos positivos (e negativos) de cada um deles.

 

NEXUS TEM BOM CONTEÚDO

O Nexus 7,do Google, já existe e até desembarcou no INFOlab para uma bateria de testes-Com um projeto simpático, ele tem tela de 7 polegadas (contra 10 do iPad), pouco espaço de armazenamento

e não traz câmera para fotos e vídeos nem entrada para cartão de memória. Está equipado com o Nvidia

Tegra 3, processador quad core que faz com que o Android 4.1 seja bastante ágil. Por causa do tamanho e do peso (340 gramas), é confortável usá-lo com uma mão para ler, ver filmes em alta definição ou navegar na web. O Nexus 7 marca a arrancada do Google Play em direção aos periódicos.

A empresa integrou a loja de aplicativos ao Google Books, serviço online que oferece mais de 4 milhões de livros em seu catálogo. Além da livraria, a loja de apps oferece banca de revistas, venda de música, filmes e seriados.

O objetivo do Google é reforçar bastante o conteúdo, calcanhar de aquiles do

Android. Se a intenção é boa, na prática a empresa ainda tem muito trabalho a fazer. Quem lê revistas no iPad já notou que as páginas são exibidas quase em tamanho natural e enriquecidas com multimídia e interatividade. No Nexus 7 não é assim. Os testes do INFOlab mostraram que as revistas são apresentadas em formato PDF, o que impõe uma leitura mais rígida e sem interatividade. Ou seja, a experiência ainda é pobre em comparação com a oferecida pelo tablet da Apple. A grande aposta do Google para o Nexus 7 é o custo/benefício. Nos Estados Unidos ele é vendido por 199 dólares, ou 2,5 vezes menos do que o iPad mais simples. Não há outro tablet equipado com um processador

quad core nessa faixa de preço.

 

SURFACE EM DUAS VERSÕES

O cenário para o Surface, da Microsoft, é diferente. Ninguém ainda colocou as mãos nele. Tudo o que se sabe vem das informações fornecidas pela Microsoft. O tablet terá dois modelos: o Surface e o Surface Pro. O primeiro é um dispositivo de 10,6 polegadas, equipado com tela de alta definição e processador ARM, o chip encontrado em boa parte dos smartphones e tablets. Éum hardware concebido para rodar o Windows RT,uma versão do sistema específica para esse tipo de processador e que tem apenas a

nova interface do sistema operacional, o Metro. Ou seja, só é compatível com aplicativos feitos para essa interface. O Surface Pro é mais do que um tablet. Tem tela de 10,6 polegadas, oferece

vídeo com melhor definição (full HD) e é equipado com um processador Intel. Roda o Windows 8 Pro, o mesmo sistema que estará nos PCs de mesa e nos notebooks. Assim, além de ser um tablet

de operação idêntica à do Surface, o Pro é também um notebook. Isso significa que será capaz de rodar todos os aplicativos Metro e também os programas tradicionais do Windows. Para quem é

usuário do sistema, em tese, isso significa uma boa vantagem para o produto.

O design do Surface, feito com esmero, parece atender ao objetivo de mostrar que é possível ter uma alternativa tão atraente quanto o iPad, mas sem imitar o padrão Apple. Há no gabinete um apoio integrado, que se afasta, formando um cavalete para manter o gadget curvado sobre a mesa. A capa

que protege a tela é também um teclado de 3 milímetros de espessura. Com isso, o Surface poderá ser operado por meio de toques e por um teclado real. A versão Pro traz ainda uma caneta que permite fazer anotações e desenhos na tela. Embora não tenha definição de preço, sabe-se que o Surface será mais

caro do que os tablets produzidos por outros fabricantes de PCs. Omotivo? Ele quer figurar no topo da categoria e ser uma espécie de exemplo a ser seguido. O Surface não é a primeira tentativa

da Microsoft nó mundo das telas sensíveis ao toque. A primeira foi o sistema Windows for Pen Computing, apresentada em 1991. Era uma versão do Windows 3.11para gadgets operados

com caneta. Não deu certo. Veio depois o Windows XP Tablet Edition, em 2002. Notebooks como o Compaq Tablet PC, da HP, conquistaram espaço no mercado, mas nunca decolaram.

Houve ainda uma mesa sensível ao toque. Também batizada de Surface, ela foi lançada em 2008 e era voltada para estabelecimentos comerciais. Ainda não se sabe quando os dois novos tablets vão chegar ao Brasil. Nos Estados Unidos, concorrerão com o Kindle Fíre, da Amazon, cujo modelo de

negócio está focado na venda de conteúdo. Há hoje mais de 1milhão de livros e revistas disponíveis. Com preço subsidiado (199dólares), o Fire vendeu, no último trimestre de 2011, 6 milhões de

unidades, o equivalente a 54% do mercado americano de tablets com Android. Resta saber se o Nexus 7e o Surface conseguirão ter o mesmo desempenho.

UM ANO BOM AS 200 MAIORES EMPRESAS DIGITAIS DO PAís MOVIMENTARAM US 812 BILHÕES EM 2011 E CRESCERAM MAIS DO QUE A CHINA

Boa parte das empresas que compõe o ranking desta 15ª edição do levantamento INFO200 não tem por que reclamar do ano de 2011. Elas aumentaram o faturamento e mantiveram o resultado e a rentabilidade de suas operações em relação aos trinta anos anteriores. A soma da receita liquida de vendas das 200 empresas que compões o ranking totalizou 125 bilhões de dólares, quantia equivalente a quase 6% do PIB brasileiro.

Se as companhias de INF0200 fossem um país, seu PIE estaria entre os das 60 maiores economias do mundo. Foi de 11%o crescimento médio das empresas que respondem por mais de 80% do faturamento do estudo. Esse salto é maior do que o registrado pelo PIE da China, de 9,2% em 2011,e mais ainda que o crescimento do PIE brasileiro, de magros 2,7%. As empresas digitais alcançaram, na média, lucro

de 11%sobre a receita líquida de vendas. Isso significa que o crescimento de vendas em relação ao ano anterior foi obtido sem sacrifício das margens e sem redução da lucratividade. “Apesar do desenho sombrio feito para a economia brasileira neste ano, vamos torcer para que em 2012 aconteça com as empresas INFO200 o mesmo que na crise de 2008. Ou seja, praticamente nada”, diz Edson Taniguti, consultor responsável pelo estudo. Em 2011, as 200 maiores empregavam cerca de 600 mil pessoas, pouco menos de 1% dos 70 milhões de empregos formais existentes no Brasil no período.

A empresa do ano de INF0200 é a Telefônica/Vivo. Vire a página e descubra por quê. Veja também o ranking completo com as 200 maiores empresas digitais do país.

FUSÃO DE

SUCESSO

APÓS UM COMPLEXO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO, TELEFÔNICANIVO É A EMPRESA DO ANO DE INF0200

No pelotão de frente das maiores empresas do mundo digital, o setor de telecomunicações é sempre desta que. Nesta 15a edição do levantamento INF0200 não foi diferente. A novidade é a chegada da Telefônica/Vivo ao topo do ranking, desbancando a Oi, líder entre as maiores no últimos cinco anos. “O ano de 2011 foi muito bom para as empresas de telecom. Vários serviços cresceram dois dígitos”,

diz Samuel Rodrigues, analista da consultoria IDC Brasil. Para 2012, esse ritmo deve se manter e a expectativa é que o mercado cresça 9%. O motor desse salto estará nos serviços, como os de banda larga fixa e internet móvel. Com receita líquida de 15,5 bilhões de dólares, o grupo Telefônica começou 2011com um desafio imenso. A empresa finalizou, em abril, um dos maiores processos de integração

de empresas vistos no país. A união foi deflagrada depois que, em julho de 2010, a espanhola Telefónica assumiu o controle da Vivo, antes compartilhado com a Portugal Telecom. A integração seguiu o modelo adotado pela Telefônica em outros países: o de unir todas as operações sob uma única marca.

“Fizemos uma das reestruturações societárias mais complexas já realizadas no Brasil”, afirma Antonio Carlos Valente, presidente da Telefônica/Vivo. ”A esse desafio se juntou o fato de atuarmos em um mercado extremamente competitivo.”

Segundo Valente, apesar de o grupo Telefônica já ter passado por experiências semelhantes em outros países, o caso do Brasil foi mais delicado, devido ao porte das empresas envolvidas e às

particularidades do nosso mercado. Entre os problemas da fusão, a Telefônica/Vivo teve de lidar com a integração da estrutura de tecnologia, ainda em curso. “Estamos bastante avançados, mas ainda há muito trabalho a fazer nos próximos anos”, diz Valente. As dificuldades da iniciativa se devem, principalmente, ao fato de a Telefônica, ao contrário da Vivo, ter muitos sistemas legados, de difícil evolução. Além

disso, há a questão da cultura de cada companhia, que precisa ser unificada.

 

SERVIÇOS OIVERSIRCAOOS

A fusão permitiu empacotar produtos com uma mesma marca, a Vivo,

o que facilitará o trabalho de manter fiéis os clientes tanto de telefonia móvel quanto de telefonia fixa. Para o consumidor, a integração também pode ser considerada uma boa notícia. “A fusão

permitirá à empresa oferecer pacotes integrados, além de proporcionar economia operacional”, afirma Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco. “O usuário poderá ter produtos mais abrangentes com preços mais baixos.” No volátil mercado de telefonia, o consumidor brasileiro já se acostumou

e gosta da ideia de ter vários serviços em um único pacote, já que isso reduz o trabalho na hora de gerenciar a fatura e ter acesso ao suporte técnico. Além disso, há a questão dos descontos que pacotes desse tipo permitem.

Líder do mercado brasileiro de telefonia móvel, com quase 30%de participação, segundo dados da Anatel, a Vivo aposta na diversidade de serviços para aumentar a receita. Um exemplo é o Vivo Kanto o, serviço que permite aperfeiçoar o inglês e o espanhol usando o celular. Com mais de 4 milhões De usuários, segundo Christian Gebara, diretor de estratégia, Marca e novos negócios da empresa, o Kantoo deve agora ganhar aulas de francês. Outro produto da empresa na área de educação é o Vivo Português, em que o usuário recebe dicas e vídeo aulas assinadas pelo professor celebridade Pasquale

CiproNeto. Lançado em junho, o serviço atingiu 100 mil usuários em três semanas, segundo dados da empresa. Na banda larga, a aposta é o Vivo Speedy Fibra, disponível no estado de São Paulo. Com velocidades de até 100 MB,oserviço de fibra óptica foi lançado em 2010 e conta com 80mil clientes, mas tem capacidade para chegar a mais de 1milhão de domicílios. A tecnologia de fibra óptica também

será utilizada em um produto a ser lançado em outubro deste ano para TV por assinatura, desenvolvido em parceria com a Microsoft. “Com essa tecnologia, podemos oferecer mais canais em HD, vídeo on demand e uma melhor experiência para o usuário”, afirma Gebara. O serviço permitirá a gravação de

programas de TV e será lançado inicialmente em São Paulo. Em internet móvel, a empresa vai investir no 3G+ (HSPA+], que oferece velocidades até três vezes mais altas que as alcançadas nas conexões atuais em 3G. Lançado em 2011, pode ser a resposta aos usuários que querem um upgrade na conexão móvel. Para os próximos anos, o foco será o 4G. Em junho deste ano, a Vivo adquiriu uma das principais licenças no leilão de telefonia de quarta geração. “O 4G representa um investimento maiúsculo, com impacto para os próximos cinco ou seis anos”, afirma Antonio Carlos Valente.

SEU CELULAR DE CARA NOVA

 

APPLE E GOOGLE TRABALHAM EM NOVAS VERSÕES DE SEUS SISTEMAS MÓVEIS. MAS O IOS 6 E O JELLY BEAN SÓ SERÃO LANÇADOS EM ALGUNS MESES. ENQUANTO ISSO, CONHEÇA SEUS MELHORES RECURSOS USANDO APPS.

 

JELLY BEAN AGORA!

 

Teclado vidente

Vários aparelhos Android contam com recursos como previsão de palavras e facilidade de digitação.

A versão Jelly Bean traz um teclado melhorado, mas é possível obter os mesmos efeitos com um app

como o SwiftKey (abr.io/swiftkey). Ele analisa o que foi digitado, prevendo palavras conforme o contexto.

 

Voz vira texto

Uma novidade legal do jelly Bean é a entrada de textos com o uso de voz. E o que é melhor: sem precisar

conectar a internet. Ainda não há um bom app para Android que reconheça voz sem estar conectado.

O Dragon Dictation (abr.io/dragondictation) faz isso, mas roda n~OS.Já o Dragon Go! (abr.ío/dra

gongo) roda também em Android, mas é usado para pesquisas e tarefas rápidas, e não para textos maiores.

 

Compartilhamento rápido

O Android Beam, disponível no novo Jelly Bean, ajuda a compartilhar imagens, vídeos e outros

arquivos usando Bluetooth. Apps já fazem isso muito bem. Para dividir fotos e contatos entre

smartphones ou com micros há o Bump (abr.io/ bump). Outras opções são o Photo Transfer App

(abr.io/phototransfer) e o Hoccer (abr.ío/hsccer).

 

Câmera turbinada

o novo sistema jelly Bean traz uma versão melhorada do aplicativo da câmera fotográfica. Mas nenhum

dos apps oficiais dos sistemas móveis, iaS ou Android, chega perto dos melhores programas feitos

por terceiros. Além dos consagrados aplicativos Camera+, para iaS, e Camera Zoom FX, para Android,

o Camera Awesome (abr.io/cameraawesome), para iPhone, tem ajustes avançados de foco e exposição. Já no Android, o Camera FV-5(abr.io/camerafv5) possui interface semelhante à de uma câmera profissional.

 

NO ESTILO DO lOS 6

 

Mapas e instruções

Antes de tudo, uma má notícia: nenhum app atual traz formas de visualização 3D de mapas, como prometido tanto pela Apple quanto pelo Google, nos novos sistemas. Mas alguns recursos já podem ser usados. Para instruções passo a passo e por voz, os melhores são o Sygic (abr.io/svgic), que roda em Android e iOS, e o TomTom (abr.io/tomtombrasil), que só tem versão para iaS. Ambos são pagos e têm mapas do Brasil.

 

 

 

Carteira virlual

Um dos novos aplicativos no iaS 6 é o Passbook, carteira virtual para armazenar dados. a app LastPass

Wallet (abr.io/Jastpass-wallet), para iaS, pode guardar informações confidenciais, como números de

cartões, e oferece de graça 50 MB de espaço online. a serviço completo dá acesso aos apps que rodam

também em Android, BlackBerry e Windows Phone.

 

Papo em vídeo pelo 3G

A Apple barrou o acesso ao Facetime com conexão 3G para evitar falhas na transmissão de áudio e vídeo. Mas há uma forma simples de obter um resultado semelhante: usando um app alternativo, como Skype (abr.ío/skvpemobile), 00Voo (abr.io/oovoomobile) ou Tango Video Calls (abr.io/tangovideocalls). Eles rodam em vários sistemas e permitem a comunicação em vídeo com amigos que não têm iPhone ou iPad.

 Respostas automáticas

Aqui, a Apple caprichou. a novo recurso de responder a uma chamada telefônica com um SMS, escolhendo essa opção na hora que o aparelho toca, não tem equivalente na App Store.já no Android, a funcionalidade pode ser obtida usando o aplicativo SMS Call Responder (abr.io/smscallresponder). Mas ele só permite uma resposta genérica, sem a escolha no momento em que o smartphone toca, como no da Apple.

O GOOGLE TALK É TUDO ISSO?

o COMUNICAOOR 00 GOOGLE É, SIM, ÓTIMA OpçÃO AO LlVE MESSENGER

 

Exporte os COntatoS

Vai deixar o Live Messenger? É bom criar uma cópia dos contatos. Assim, os dados não serão perdidos.

A opção de exportar os contatos foi removida do Messenger, mas é acessível pelo Hotmail. Faça o login e clique em Contacts. Depois, acesse Manage > Export. Será gerado um arquivo CSV,compatível

com várias agendas. Pode ser aberto no Excel.

 

Crie um login

Se você prefere usar o e-mail do Hotmail no Google Talk, para facilitar sua localização por amigos que

já o conhecem do Messenger, acesse accounts. google.com/NewAccount e insira todos os dados.

 

Todomundo aqui

Feito o login no Google, é possível importar os contatos do Hotmail. Acesse o Gmail, clique no botão

com ícone de engrenagem e escolha Configurações. Acesse Contas e Importação. Clique em Importar

Mensagens e Contatos. Tecle seu e-mail e senha da conta do Hotmail. Clique em Iniciar Importação.

 

Aviso geral

Uma boa ideia é manter o Live Messenger funcionando por um tempo, após a mudança, para que

seus amigos atualizem a forma de entrar em contato. Você pode enviar um e-maíl para todos ou usar,

como mensagem de usuário no LiveMessenger, um aviso que indique sua nova conta do Google Talk.

USE O CHROME PARA NAVEGAR

NO SEU TABLET

SAIBA COMO APROVEITAR OS RECURSOS  do BROWSER DO GOOGLE PARA IPHONE E IPAO

 

Sem rastros

O Safarijá permitia acessar sites sem deixar rastros. Mas a configuração exige vários toques. No

Chrome, basta clicar no botão com três traços horizontais e selecionar Nova Guia Anônima. É

aberta uma nova área de navegação, com um ícone de espião no canto superior esquerdo. Todas as

guias dessa área são anônimas, e o Chrome não guarda dados sobre elas. Para eliminar a área

segura, basta fechar a última guia de navegação.

 

Mantenha a sincronia

Por usar a conta do Google, o Chrome sincroniza dados do navegador para o desktop, como favoritos

e senhas. Basta acessar Configurações> Coisas Pessoais e preencher seu login e senha do Google.

soffeavoz

Um bom recurso do Chrome para iOS é a busca por voz. Basta tocar no botão com desenho de microfone

e falar o termo a ser buscado. O idioma que o Chrome reconhece vem da língua configurada no

iOS. Caso você faça buscas em outro idioma, clique no botão com três linhas horizontais e selecione

Configurações. Em Configurações Avançadas, clique em Pesquisa Por Voz e escolha a língua.

 

Mande ao Chrome

Não dá para usar o Chrome como navegador padrão no iOS, mas há uma forma de facilitar o acesso

aos endereços. Abra o Safari em uma página qualquer e clique no botão da barra que tem uma

seta saindo de um quadrado. Escolha Adicionar Favorito. Dê um título como Abrir No Chrome.

Depois, clique no botão do Safari com o desenho de um livro e em Editar. Toque no item e substitua o

endereço pelo seguinte código: javascript:location. href=’googlechrome’+location.href.substring(4);

Depois selecione Barra de Favoritos e a opção Salvar. Basta tocar no atalho criado na barra defavoritos

para abrir a página no Chrorne. Se a barra não estiver visível, faça o seguinte: acesse Ajustes>

Safari e clique no item Mostrar Barrade Favoritos

 

MEMÓRIA ETERNA

OUE TAL ORGANIZAR POSTS, FOTOS, CHECK-INS E TUDO O OUE ENVOLVE SUA VIDA DIGITAL NA FORMA DE UMA LINHA DO TEMPO?

 

Quem é fã de redes sociais tem uma lista enorme de posts no Twitter e no

Facebook,fotos no Flickr  e no Instagram e check-ins no Foursquare. Juntando essas informações é possível recriar os principais momentos da sua vida online nos últimos meses ou até anos. De

olho nisso, surgiram alguns serviços que capturam as informações online (de redes sociais, fotos e sites navegados) e as organizam para consulta ou até mesmo para montar uma linha do tempo.

 

Navegaçãorasrreada

Precisa se lembrar de uma página visitada na semana passada e não a está encontrando no Google? Quem usa o serviço Archífy (abr.io/archify) reduz as chances de ter esse problema. O aplicativo

captura o texto e faz uma cópia em imagem de todas as páginas visitadas, montando uma linha do tempo da sua navegação. Com o plugin do serviço, são mostrados os resultados de sites acessados junto com as buscas do Google, o que facilita a localização de uma página. O Archify não guarda dados

de sites que exigem login, e é possível definir manualmente endereços cujos texto e imagens não serão arquivados.

 

Linha do tempo

A forma mais interessante de visualizar a história de sua vida digital é

montar uma linha do tempo bacana. É possível ver os tuítes e as fotos de uma viagem ou de um evento, por exemplo. A melhor opção para montagem é o Memolane (abr.io/memolane). Ele guarda dados do Facebook, Twitter, Flickr, Google+, Last.fm, Foursquare, Instagram e outros serviços digitais.

Você pode criar linhas do tempo pessoais ou públicas, e o Memolane além disso envia mensagens periódicas, mostrando quais foram os posts feitos no mesmo dia do ano anterior.

Facebook melhorado

A interface do Facebook já traz uma linha do tempo, mas há uma opção que monta uma visualização mais bonita. Trata-se do Timeline Movie Maker (abr.io/timelinemoviemaker). O serviço

é simples de usar: basta acessar sua página e clicar em Criar Seu Filme. Faça o login com sua conta do

Facebook e pronto. O filme será gerado e pode ser compartilhado com os amigos do Facebook. Mas há um ponto fraco: para gerar o filme é preciso ter no mínimo 50 fotos publicadas.

Todos os check-ins

Uma versão específica para a visualização de check-ins é feita pelo serviço Weeplaces (abr.io/weeplaces). Mas ele mostra apenas os posts publicados nas redes Foursquare e Facebook. Para usálo, basta fazer o login com a conta do serviço e escolher a cidade para análise.

Será mostrado, então, um mapa do local, com os check-ins que foram marcados. O tamanho da marcação indica o número de check-ins feitos na mesma posição. É possível ainda visualizar os check-íns ao longo do tempo, como num pequeno vídeo. Com certeza você irá se divertir.

Epoca

ELE E UM INOVADOR EM SERIE

O futuro era promissor para Iack Dorsey em 2009. Três anos antes, ele criara o Twitter. Hoje, a rede de microblogs tem 500 milhões de membros e é avaliada pelo mercado em US$ 8 bilhões.  Naquele mesmo ano, quando o Twitter decolava, Dorsey foi obrigado a abrir mão da presidência, em favor do cofundador Evan Williams, um gestor mais experiente. “Foi um soco no estômago”, disse Dorsey. Programador precoce, na melhor tradição do Vale do Silício, ele largara a universidade para entrar nos negócios. O soco ajudou a mudarsua vida, para melhor. Na condição de acionista do Twitter,mas sem trabalhar na empresa, Dorsey criou o Square, um sistema que permite a pessoas físicas e profissionais autônomos receberem pagamentos com cartões de crédito ou débito. No último ano, o Square evoluiu para um meio de pagar compras usando o celular, em vez de cartões ou dinheiro. A rede de cafeterias Starbucks anunciou na semana passada que aceitará o Square em 7 mil lojas nos Estados Unidos e investirá US$25 milhões na empresa que administra o sistema. A origem do Square foi uma conversa de telefone com o vidraceiro Iim McKelvey.Ele contou a Dorsey que perdera uma venda porque o cliente só podia pagar com cartão de crédito. Dorsey percebeu que a solução para esse tipo de problema estava no smartphone. O aparelho poderia processar os pagamentos com cartão para profissionais autônomos, que esbarram na burocracia de aprovação das empresas de cartões e nas altas taxas cobradas. No Square, basta instalar um programa no smartphone, registrar-se e associar uma conta de banco ao serviço. Não leva dois minutos. Depois, chega gratuitamente a sua casaum leitor de cartões para ser conectado ao celular. A cada pagamento, a Square cobra 2,75% mais US$ 0,15. Nos serviços tradicionais, esse valor pode ser maior. O comerciante também precisa esperar o fim do mês para receber. A Square acerta as contas diariamente. Já tem 1milhão de credenciados e proc,essa US$ 5 bilhões por ano. A inovação pegou o setor financeiro de surpresa. A reação não demorou. O sistema de pagamentos on-line PayPal lançou uma cópia, assim como a VeriFone, líder em pagamentos com cartão nos Estados Unidos. ”A Square inovou numa indústria sonolenta”, diz Iennifer Miles, vice-presidente da VeriFone. “A ideia pode ser copiada:’ O talento de Dorsey, não. Enquanto a concorrência corria atrás, ele já bolava o próximo passo. “Quero sair da loja sem lembrar que paguei’: disse Dorsey a sua equipe. Lançado no ano passado, o Pague com Square permite pagar com o celular sem tirá-lo do bolso. O sistema faz do iPad uma caixa registradora inteligente. Quando o cliente chega a uma loja credenciada, seu celular avisa pela internet que ele está ali. Para pagar, basta dizer seu nome ao funcionário, que verifica a foto do cliente na tela. “É o começo de algo novo”,disse Howard Schultz, presidente da Starbucks. Por seu talento, Dorsey é apontado como um sucessor de Steve Iobs, o fundador da Apple. Assim como Iobs, o empresário de 35 anos é descrito como uma pessoa detalhista e obcecada por designo”Um presidente fundador precisa ser capaz de pensar em design, tecnologia e estratégia”, disse o executivo Keith Rabois, que deixou a PayPal para trabalhar com Dorsey. “Pessoas bem sucedidas são boas em dois desses aspectos. Iack é bom nos ilrês.”Ao criar duas empresas multibilionárias – US$ 8 bilhões do Twitter e US$ 3,2 bilhões 00 Square -, Dorsey mostrou que não se trata de “um cara que teve sorte’:Ele é um dos mais talentosos inovadores do Vale do Silício.

Só entendi meu pai depois de ler Mentes perigosas

BRASIL INTEIRO GOSTARIA DE SABER ONDE ESTÁ ROGER ABDELMASSIH, O EX-MÉDICO condenado a 278 anos de prisão por crimes sexuais contra 39 pacientes e foragido desde janeiro de 2011. A bióloga Soraya e o médico Vicente, que trabalhavam com ele, afirmam não ter ideia do paradeiro do pai. O delegado Waldomiro Milanesi, da Divisão de Capturas da Polícia Civil, duvida, mas acha que interroga-los seria perda de tempo. “Abrigar um pai procurado pela Justiça não é crime’: diz. Soraya e Vicente, filhos da segunda mulher de Abdelmassih, firam criados por ele e adotados quando eram adultos. Tentam reconstruir a carreira na clínica Embryo Fetus, do especialista Sang Cha. Nesta entrevista, retratam um pai ausente, rígido e manipulador. Época- Roger Abdelmasslh está foragido há um imo e sete meses. Nunca mais tiveram contato com ele? Soraya Abdelmasslh- Nunca. Nem queremos. Vicente Abdelmasslh- Faleicom ele por telefone pela últimavez no Natal de 2010.Ele disse que sumiria se tivesse de voltarpara a cadeia (Roger ficou preso durante quatro meses). Nãoconcordo. Deveria se entregar, seguir o caminho de recursos.Seguir o que a lei manda. Avisei que, se fugisse,eu não queriater mais nenhum contato. Para mim, acabou. Soraya- Elenão podia ter nos deixado como deixou. O Vicentetinha 1% da clínica. Meu pai o colocou como sóciopara constituir outro tipo de empresa e pagar menos taxas.Fez questão de colocar uma cláusula que determinava que o Vicente não teria nenhum poder de administração. Semprefomos tratados como funcionários. Ele deixou dívidas e processostrabalhistas, e á Justiça vem atrás de nós.

epoca- Onde ele pode estar? Soraya- Ouvi dizer que estava num resort no Recife.E também que estaria no Líbano, comprando numa loja de grife. É bem típico dele. Acho difícil.Todo mundo sabe, e a polícia não sabe? Se ele se entregasse, aliviaria alguns dos meus sentimentos.Queria que ele cumprisse com a responsabilidade. Que desse a cara a bater como nós estamos. Nós e nossos filhos estamos cumprindo a pena no lugar dele.Somos insultados e nossas contas bancárias são bloqueadas. Não perdôoo que ele fez com a família. época -  difícil acreditar que Abdelmasslh nunca mais tenha procurado os filhos._ Soraya- As pessoas precisam entender que essa coisa de preocupação,de presença, de paternal nunca existiu. Não posso dizer que senti um alívio com a ausência dele, porque o escândalo me causou muitos problemas. Mas me sinto livre dapressão e da convivência difícil. época- Vicente, o senhor tem um filho de 12 anos chamado Roger Abdelmasslh Neto. Ele sofre agressões? Vicente – Foi um pedido da minha mãe. Tenho mais esseproblema para administrar. Soraya- Quandoo garoto nasceu, meu pai disse para minhacunhada: “Esse menino está carregando meu nome. Olha a responsabilidade que ele vai ter, hein?”. Vicente- Um dia meu filho estava jogando futebol e disserampara ele ir procurar o vovô estuprador. Não quer falar sobre isso. É como se ele se ausentasse. Pensei em mudar o nome. Acrescentar o Ghilardi, sobrenome do meu pai biológico. Meu filho não quis. No Facebook, insultaram minha filha. Numa aula de atualidades, uma colega fez questão de levar o jornal com as notícias sobre meu pai. ÉPOCA - Vocês sabiam do que acontecia na clinica? Soraya- Nunca vi nada que sugerisse abuso ou estupro. Não tenho condições de julgar. Se tanta gente o acusa de tanta coisa, não posso acreditar que nada aconteceu. No centro cirúrgico, sempre havia vários profissionais com a paciente.ÉPOCAMas ele tinha a chance de ficar sozinho com a paciente … Soraya- Sim. Poderia entrar no quarto e ficar sozinho com ela, mas essa não era rotina. Às vezes eu via uma paciente que chegava mais arrumada, de vestidinho decotado. Achava estranho, mas nunca vi nada além disso. ÉPOCAComo era o Roger pai? Soraya- Rígido. Podava, ameaçava. Quando era criança, ele brigava comigo e depois dizia que ia falar para minhas irmãs não conversarem mais comigo (Juliana, Mirela e Karime são filhas de Roger com a mãe de Soraya e Vicente). Era o mesmo comportamento com todos os filhos. Não batia, fazia jogo psicológico. Uma vez me proibiu de sair do quarto durante um mês porque fiquei de recuperação na escola. Vicente – Ele não sabia ser pai. Talvez agora esteja passando por um curso intensivo se estiver vivendo num lugar pequeno com gêmeos de 1 ano (em 2011, Roger teve um casal de gêmeos com a procuradora Larissa Sacco). ÉPOCA - Vocês acham que ele tem alguma doença psiquiátrica? Vicente – Não sei. Soraya – Essa pergunta é difícil. Não sei. Na época do escândalo,li o livro Mentes perigosas, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa. Não que eu o esteja chamando de psicopata, mas comecei a entender o comportamento dele. Muitas coisas encaixavam. Se tivesse lido esse livro aos 13 anos, talvez tivesse compreendido muitas coisas. ÉPOCA – O que encaixava? . Soraya - A falta de remorso. Aquele jeito de ele fazer as coisas e depois achar que não fez nada. Não tinha remorso algum. Foram várias condutas inadequadas com os filhos e com a mulher.Ao final da vida de minha mãe (Sonia Abdelmassih morreu de câncer em 2008, antes do escândalo), ele poderia ter estado mais presente. Só pensava em trabalho. Saí de casa aos 16 anos e fui morar com meu pai biológico (o ator Marco Ghilardi morreu poucos meses depois, de infarto, aos 43 anos). Minha vida com o Roger era um inferno por causa da possessão, da rigidez dele. ÉPOCA - Alguma vez ele abusou sexualmente de você? Soraya – Não. Deus me livre. ÉPOCA - Vocês estão passando por dificuldades financeiras? Soraya- Estou com tudo bloqueado. Antes do escândalo, meupai pediu para ser avalista de um empréstimo e assinei. Ele não está pagando. Há duas semanas, bloquearam R$ 2 mil que eu tinha na conta. Não posso dar cheque. Meu nome está no Serasa. Meu condomínio está atrasado. ÉPOCA – Onde está o dinheiro do seu pai? Soraya- Nunca usufruímos o dinheiro e ele não nos contava nada. O casarão da clínica era alugado. A fazenda ele perdeu. Quando bloqueiam nossos bens, não temos nada dele para indicar para a Justiça. Sobrou a casa, única coisa que minha mãe deixou para os cinco filhos. Vicente – Quando estava preso, ele me pediu R$ 400 mil. Acho que era para pagar advogados. Respondi que não podia dar. Só tenho meu apartamento. Ele ficou bravo. época- O casal de gêmeos que ele teve no ano passado foi gerado naturalmente? Soraya- Não sei. Nós não fizemos. ÉPOCAA mãe das crianças se envolveu com ele depois do escândalo? Soraya- Não sabemos quando foi o primeiro envolvimento, mas ela apareceu mais fixamente com ele em janeiro de 2009, logo depois da bomba. Nem Freud explica. Vicente- Nesse caso, o amor não é apenas cego. É cego, surdo e mudo.

 

ELES ESTAO POR TODA PARTE

A Organização dos Jogos de Londres recebeu mais de 30 mil candidatos a carregar a a pira olímpica. Entre eles, estava iCub. Um robô. Com 1 metro de altura e articulações que imitam as de um ser humano, ele pode segurar a tocha e correr os 300 metros do revezamento. “O iCub tem a inteligência de um bebê de 18 meses”, diz o criador, Giorgio Metta. “Maneja pequenos objetos, tem expressões faciais, reconhece cores e formas e repete palavras ditadas a ele.” Os argumentos não convenceram o Comitê Organizador. Menor de 12 anos e sem residência no Reino Unido, o iCub foi barrado. Melhor sorte tiveram os 11 robôs fotógrafos da agência Reuters. Pendurados em cabos e orientados à distância, registrar pontos de vista inéditos de esportes como salto em distância e ginástica artística. No encontro Rio+ 20, em junho, no Rio de Janeiro, o robô Hermes, da Força Aérea Brasileira (FAB), garantiu a segurança de 93 chefes de Estado. Hermes é um drone (também chamado de Vant, ou Veículo Aéreo Não Tnpuladu), capaz de ficar 15 horas seguidas no ar, a 5.000 metros de altitude. Inauguradu pela FAB em 2011 na patrulha das fronteiras brasileiras (leia mais sobre os drones no Brasil na página 70), atuou pela primeira vez num grande centro urbano. Sonhados pelos homens há centenas de anos – Leonardo da Vinci chegou a rascunhar alguns, no século XV -, os robôs estão tomando o mundo. Este e outros: na última segunda-feira, Curiosity chegou a Marte, na mais ambiciosa missão de-busca por vida extraterrestre já feita. Quarenta anos após o último homem pisar na Lua, cabe a robôs astronautas  dar grandes passos pela humanidade. Há 8,6 milhões de robôs no mundu, o equivalente à população de Tóquio, segundo o último censo da Federação Internacional de Robótica (FIR). Seu boom demográfico começou na década de 1960, para dar eficiência às fábricas. Nus últimos anos, o uso em outras áreas se turnou tão comum que os robôs industriais, embora onipresentes nas linhas de produção, representam hoje apenas 16% do total. Cerca de 80% dos robôs são de serviço, dedicados a pequenas tarefas. A maioria (7,3 milhões) são aspiradores de pó Roomba, feitos pela iRobot, empresa fundada em 1990 por inventores do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Com o diâmetro de uma pizza grande, Roomba usa sensores para desviar-se de móveis e não cair de escadas, Na hora marcada, ele acorda, aspira o chão e volta à base de recarga. No Brasil, é vendido por importadores independentes, por cerca de R$ 1.400. Em 2010,2,2 milhões de robôs de serviço furam vendidos no mundo. Até 2014, prevê a rIR, serão mais 14 milhões. Quando pensamos em robôs, costumamos imaginar homens de metal – parecidos com as imagens do C3PO, de Guerra nas estrelas, ou do Robô, de Perdidos no espaço. Na verdade, a definição de robô é mais ampla. “Não consigo dizer o que é”, afirma o engenheiro americano Ioseph Engelberger, um dos pioneiros da robótica. “Mas reconheço um quando vejo.” As definições convergem em certos pontos. A mais aceita diz que robôs são máquinas elétricas autônomas ou semiautônomas programadas para colher e analisar informações que as ajudem a realizar uma tarefa. Uma máquina de lavar roupas realiza uma sequência de tarefas, mas não é um robô, pois não está programada para colher e analisar informações. Da mesma forma, um computador que processa dados não executa tarefas – portanto, não é um robô. O termo robô tem origem na palavra tcheca robota, que significa trabalho escravo. Os robôs modernos adaptam esse conceito ao dedicar-se a tarefas sujas,chatas ou perigosas. A fabricante Epsco,de Dubai, criou um modelo para limpar tubulações de esgoto – trabalho que, na índia, cabe a crianças pequenas capazes de entrar nos dutos. O National Physical Laboratory, do Reino Unido, criou um robô bóia-fria. Ao olhar com raio de micro-ondas para uma plantação de morangos, ele distingue folhas de frutos – algo que as colheitadeiras fazem pior que humanos. E vaitlém: ao analisar o teor de água em cada morango, identifica e colhe apenas os maduros. Cerca de 80% do investimento na evolução da robótica vem da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa (Darpa), das Forças Armadas dos Estados Unidos. Nos laboratórios da Darpa, há um robô capaz de moldar seu corpo de acordo com a missão. Outro, o Alphadog, tem quatro patas e transporta até 180 quilos. Esses robôs serão usados primeiramente para fins militares. À medida que o custo de produção e o interesse estratégico diminuírem, as tecnologias chegarão ao público. Foi o que ocorreu  em outros projetos do governo americano, como o sistema de localização GPS (cuja versão restrita estreou em 1963) e a internet (iniciada em 1969). Os aviões-robôs, ou drones, foram usados pelos EUA pela primeira vez na Guerra do Vietnã, entre 1955 e 1975, para monitorar as ações dos inimigos vietnamitas. No Exército americano, há modelos pequenos como um passarinho, para espionar discretamente, ou grandes como um avião comercial, para carregar bombas (leia mais sobre o uso de robôs em combates na página 66). Hoje, versões para uso civil dos drones da Guerra do Vietnã pulverizam plantações e encontram cardumes em alto mar. A Petrobras supervisiona as obras de um gasoduto no interior de São Paulo com um dirigível não tripulado, de 20 metros de comprimento. “A partir de 2013, vamos testar drones em reconhecimentos aéreos de grandes áreas, ações policiais e combate a incêndios”, diz Nei Brasil, diretor da fabricante Flight Technologies. O primeiro drone da ForçaAérea americana custou R$ 20 milhões. Hoje, qualquer um pode comprar, por R$ 2 mil, modelos tão refinados quanto os de uso militar. Trata-se da regra geral da popularização da tecnologia. Lançados nos últimos cinco anos, aparelhos como smartphones baratearam componentes importantes para o avanço da robótica. À venda no Brasil por R$ 1.500, o iPhone 4S tem sensores de aceleração, GPS, tela sensível a toque e capacidade de processamento de dados infinitamente superior à da nave Apollo 11, a primeira a pousar na Lua, em 1969. Por R$ 330, o sensor Kinect, desenvolvido pela Microsoft para o console Xbox 360, enxerga o mundo ao redor com sensores a laser e uma câmera de 5 megapixels. Quando chips e placas impressas caíram de preço, na segunda metade dos anos 1970, jovens americanos com pouco dinheiro puderam exercitar sua criatividade. Um deles chamava-se Steve Iobs, Outro, Bill Gates, Dá para imaginar o que iPhone e Xbox podem fazer pela robótica? Dá. Basta visitar a Willow Garage, na Califórnia, onde o robô PR2 passeia desenvolto, orientado pelo Kinect, Antes, usava um sistema de reconhecimento espacial de R$ 14 mil. O PR2 pode ser comprado, por R$ 800 mil, por equipes de pesquisa dispostas a aperfeiçoá-lo. Ele dobra roupas, busca bebidas du lanches para seus donos, recolhe fezes de animais domésticos e prepara o café da manhã. “Por ora, ainda são programados para isso”, diz Tim Smith, portavoz da Willow Garage. “Em dez anos, tomarão essas iniciativas sozinhos.” o homem confia até sua vida a robôs. O Da Vinci é um braço mecânico usado em 200 mil cirurgias por ano, no mundo. Controlado por um cirurgião, faz incisões mais precisas e menores que as feitas pela mão humana. Isso diminui a dor do paciente e o prazo de internação. O Hospital Albert Einstein comprou um equipamento desses em 2008′, por R$ 3 milhões, e, desde então, realizou cerca de 1.000 operações. De início, era usado em cirurgias urológicas. Hoje, é aplicado também nas gastrointestinais e cardíacas. “Todo tipo de cirurgia está aos poucos ganhando a ajuda de robôs”, afirma Antônio Macedo, presidente do Conselho de Cirurgia e Oncologia do Einstein. Da Vinci já tem sucessor. É o Raven, mais portátil e barato – custa R$ 500 mil. A Universidade Harvard, nos Estados Unidos, o está adaptando para trabalhar em sincronia com as batidas do coração. Poderá operar corações pulsando, sem precisar pará-los. Na Universidade da Califórnia, pesquisadores desenvolvem um meio de o robô transmitir tato, para dar sensibilidade ao operador. Outra equipe trabalha para que o Ravên imite os movimentos de cirurgiões, de modo que possa operar sozinho. Na Coreia do Sul, crianças aprendem inglês com Engkey, um robô professor. Engkey ministra aulas programadas ou é comandado por professores de verdade, nas Filipinas. Até o ano que vem, o projeto será estendido a 8.400 salas de pré-escola e jardim de infância, por US$ 45 milhões. A cidade coreana de Pohang experimenta robôs como agentes penitenciários. Ao custo unitário de R$ 1,8 milhão, eles vigiam detentos com uma câmera 3D e um software capaz de analisar comportamentos. Quando desconfiam de alguma coisa, chamam um policial. No futuro, afirmam os responsáveis pelo robô carcereiro, nem esse policial será necessário. “Queremos diminuir o volume de trabalho dos guardas e tirá-los de um ambiente péssimo”, diz Lee Baik Chul, do Fórum Asiático Correcional.  Em maio, o Estado americano de Nevada deu a primeira carteira de motorista a um robô, o Google Street Caro Ele reconhece pedestres, ruas, placas, ciclistas e outros carros e calcula as informações 20 vezes por segundo. Se o motorista quiser assumir o comando, basta acionar os freios ou o volante. “O carro toma decisões melhor que os humanos”, diz Sebasthian Thrun, diretor do projeto. “É um atraso ainda dirigirmos.” Os automóveis do Google já rodaram mais de 500.000 quilômetros. Registraram um único acidente – quando o carro era guiado por um humano. Os pesquisadores não abandonaram o sonho de criar robôs a nossa imagem e semelhança. É o caso do iCub, o robozinho preterido para carregar a tocha olímpica. Ele é desenvolvido desde 2004 num sistema de consórcio, o RobotCub. Hoje, há 20 iCubs em 11 universidades da Europa, dos Estados Unidos e da Turquia. Cada time se dedica a melhorar uma habilidade do robô, e a troca de aprendizado acelera o desenvolvimento. “Hoje, robôs são criados isoladamente”, afirma Giorgio Metta, diretor do projeto. “Mas, para resolver problemas complexos, devemos partilhar descobertas.” Metta pretende recriar o ambiente de plataforma aberta que fez prosperar os computadores pessoais. Os robôs humanoides ainda precisam superar dois obstáculos. O primeiro deles é de ordem motora. Os modelos atuais reproduzem nossos movimentos de forma limitada, lenta e  falha, se comparados aos humanos. Fazê- los agir naturalmente é o desafio de diversos grupos de estudo. Nos Estados Unidos, na Universidade Goldsmith, o robô Paul desenha um modelo vivo com movimentos sofisticados. O robô Mabell, da Universidade de Michigan, detém o recorde de maior velocista do mundo robótico. Atinge 11 quilômetros por hora em duas pernas, tanto quanto um ser humano em boa condição física. A Universidade de Zhejiang, na China, criou um robô apto a jogar pingue-pongue, rebatendo a bolinha até 145 vezes seguidas. Organizador da RoboCup, um torneio de futebol de robôs, Peter Stone afirma que, em 2050, máquinas serão capazes de jogar com a desenvoltura de um profissional. Tão difícil quanto se mover como um humano é conversar fluentemente. Quem mais chegou perto disso foi o computador Watson, da IBM. Fazendo 80 trilhões de cálculos por segundo (800 vezes mais rápido que um computador comum), Watson interpreta diferentes sentidos para cada palavra. Seu potencial foi exibido no ano passado no programa Ieopardyl, na televisão americana. Nele, o entrevistador fala uma frase e pede uma associação de ideias, em vez de fazer uma pergunta para a qual há uma resposta objetiva. No ar, Watson venceu os dois maiores campeões do [eopardyl, A IBM está adaptando a tecnologia do Watson para ajudar médicos, simplesmente conversando com o robô, a analisar sintomas e chegar a diagnósticos mais precisos. “Isso ajudará a criar robôs capazes de se comunicar conosco”, afirma David Bravetold, um dos cientistas à frente do projeto. Watson será capaz de pensar? “Ele realiza milhões de análises complexas em paralelo, velozmente”, diz Bravetold. “Masele não é consciente.” Futurólogos otimistas acham que um robô tão ou mais inteligente quanto os seres humanos pode virar realidade nos próximos 20 anos. O mais conhecido é o americano Ray Kurzweil. “Se forem espertos e convincentes em suas respostas emocionais, a ponto de nos fazer rir e chorar, então essas máquinas serão conscientes”, afirma. Nos anos 1970, Kurzweil inventou o scanner de imagens e o primeiro sistema capaz de transformar voz em texto. Em seu livro A singularidade está próxima, de 2005, ele diz que, em 2029, um computador passará no teste de Turing, um critério proposto pelo matemático inglês Alan Turing para determinar se uma máquina é capaz de pensar. Para passar no teste, uma máquina tem de sirmllar uma conversa que, comparada à de um ser humano, não possa ser atribuída a um robô. “Computadores são feitos para ser mais espertos do que seres humanos”, afirma Kurzweil. “E nós nem somos tão bons assim.” Será mesmo?

 

O SOLDADO DO SECULO XXI

Em 2011, a Força Aérea americana formou 350 operadores de drones (aviões controlados à distância), mais do que pilotos de caça e bombardeiros somados. Sentados em salas cercadas por botões e monitores, sem sair do chão, esses novos Top Guns têm à disposição 7iffiil drones. Com tamanho de 140 vezes o que havia há dez anos, a esquadrilha é tão numerosa quanto a de aviões convencionais. Mandar robôs para a guerra tem umavantagem incontestável. A dezenas de quilômetros de distância do lugar de conflito, um soldado corre menos risco de morrer. Mas trocar homens por máquinas num campo de batalha, como fazem os Estados Unidos em países como Paquistão e Afeganistão, tem implicações éticas e práticas ainda pouco compreendidas. Segundo o site especializado The Long War Iournal, em três anos, o governo Barack Obama autorizou cercade 750 ataques de drones armados com bombas. O número de ações militares é o quádruplo do autorizado por seu antecessor, George W. Bush, em nove anos. Com câmeras, sensores de calor e raios infravermelhos, os aviões-robôs procuram suspeitos no território inimigo. De uma sala de comando, militares acompanham imagens e alertas. Podem decidir o envio de soldados, como fizeram na captura do líder da al-Qaeda, Osama bin Laden, no Paquistão. Ou autorizar o robô a atirar, como fizeram para matar outro líder da al-Qaeda, IIyas Kashmiri. Quando o alvo identificado faz parte de uma lista de procurados, ou diante do risco de atingir civis, o disparo depende de autorização pessoal do presidente Obama. Desde 2006, afirma o site, mais de 1.900 pessoas foram mortas no Paquistão por drones americanos. Das salas de comando, os militares que operam os drones ficam menos sujeitos a erros provocados pela tensão do campo de combate. E, segundo Ronald Arkin, professor de robótica do Instituto de Tecnologia da Geórgia, as máquinas erram menos que os homens em atividades perigosas e de alta precisão. Máquinas não sentem fome, frio, estresse ou ódio. “Não cometem abusos de guerra, como estupros”, diz. Arkin está desenvolvendo, em parceria com o Exército americano, um software para robôs militares se comportarem mais eticamente que humanos no campo de batalha. Mas comandar um exército de robôs à distância, numa sala, torna o combate semelhante a um videogame. É mais fácil encarar o inimigo com indiferença, desumanizá-lo. “Militares perdem o pudor de matar e a opinião pública fica apática”, afirmou a advogada britânica Iennifer Robinson, à rede de comunicações AI [azeera. Autor do livro The United States of fear (Os Estados Unidos do medo, numa tradução livre),o escritor Tom Engelhardt diz que os robôs soldados são a última etapa para tornar a guerra um evento remotp para a maioria das pessoas. “Primeiro veio a batalha profissional, depois a privatizada, então a terceirizada – e todas tornaram o conflito mais distante à maioria do público. Agora, literal e figurativamente, surgiu a guerra remota.” O governo dos Estados Unidos não diz oficialmente quantas vezes usou drones em ataques militares, quantas pessoas matou intencionalmente ou quantas matou sem intenção. Segundo uma autoridade do governo americano ouvida pelo jornal The New York Times, o número de mortos por engano “é inferior a dois dígitos”. Aparentemente, portanto, a eficácia do Exército americano serve de argumento a favor do uso de robôs. Mas a taxa de erro dos robôs é determinada por critérios discutíveis. “Obama considera combatentes todos os homens, em idade de serviço militar, encontrados em área de conflito”, afirma o jornal. “Eles passam à lista de inocentes apenas se o serviço de inteligência assim os considerar, depois de mortos.” Até partidários do presidente Obama criticam a falta de informações sobre o uso de robôs em combate. “Nossas ações militares com drones não têm transparência, contabilidade ou supervisão”, afirmou Dennis Kucinich, congressista de Ohio, do Partido Democrata. A falta de informações sobre o uso Dos drones do Exército americano dá força àqueles que são contra robôs em tarefas de risco. Os opositores dizem ser quase impossível, para uma equipe de programadores de software, preverto das as situações que um robô terá de encarar num campo de batalha. Seus argumentos ecoam ideias abordadas, há seis décadas, pelo escritor britânico Arthur C. Clarke. Inspirado em um conto seu, o filme 2001: uma odisseia no espaço(1968), do diretor Stanley Kubrick, mostraa luta entre homens e uma máquina. Sistema central de uma nave, o computador HAL-9000 recebeu dois comandos: realizar uma missão espacial e não deixar seus tripulantes saber do que se trata. Quando as instruções entram em conflito, HAL-9000 toma a decisão que lhe parece adequada: matar os astronautas. George Bekey, professor de engenharia da Universidade Politécnica Estadual da Califórnia (Calpoly), diz que robôs controlados por inteligência artificial têm ações imprevistas, como as do fictício computador HAL-9000. “Quem diz que temos controle total sobre os computadores está 20 anos atrasado”, afirma Bekey, editor do livro Robot ethics: the ethical and social implication of robotics (algo como Ética dos robôs: a implicação ética e social da robótica). A ideia do robô descontrolado que mata humanos, prenunciada pelo filme de Kubrick, se concretizou em 2007, na África do Sul. Uma bateria antiaérea do Exército sul-africano, com autonomia para mirar e atirar por conta própria, sofreu uma pane durante um teste. Disparando com precisão, matou nove soldados e feriu 14. Em seguida, voltou a funcionar normalmente. Em agosto de 2010, um helicóptero-robô do Exército dos Estados Unidos fugiu da rota prevista durante 30 minutos. Sobrevoou 48 quilômetros em direção a Washington e violou o espaço aéreo da capital americana. Como estava desarmado, provocou apenas um susto. “As máquinas capazes de matar são o começo do nosso fim”, afirma Gianmarco Veruggio, cientista italiano  especialista em robótica. Ele ofganizou, em 2004, na Itália, o primeiro simpósio internacional de “Roboética”, A disciplina discute como programar padrões morais em máquinas e limitar seu poder. “Precisamos criar agora normas elaboradas para não ter problemas com robôs no futuro”, afirma Veruggio. Talvez seja tarde demais para discutir um código de ética ..Cerca de 50 países – entre eles o Brasil- trabalham com drones. Eles podem assinar tratados de restrição à atividade de drones armados, como já se fez a respeito de minas terrestres e armas nucleares. Mas pouco poderão fazer a respeito de  grupos terroristas, indiferentes a acordos diplomáticos e com livre acesso a robôs baratos. Terroristas do grupo Hezbollah já usaram um drone. A popularização dos robôs inspira outra preocupação, quanto à proliferação de vírus. O aumento no número de máquinas baseadas em programas de código aberto, com componentes comuns a videogames e celulares, torna mais fácil e atraente o desenvolvimento de programas para corrompê-las. Com o programa certo, um hacker pode transformar o robô de aliado em inimigo. Ou agente duplo. Foi o que,de certa forma, fizeram os serviços de inteligência de Estados Unidos e Israel ao inocular o vírus Stuxnet em computadores de usinas de enriquecimento de urânio do Irã. Infectado, o computador central das usinas mandava suas centrífugas girar 40% mais rápido, em ciclos de 15 minutos, a fim de rachar suas estruturas. Vulnerável e desprovido de autocontrole, o computador aceitou as novas ordens sem discutir. Os funcionários das usinas nada perceberam, pois passaram a receber relatórios falsos forjados pela máquina. O Stuxnet interrompeu o funcionamento de 1.000 a 5 mil centrífugas. A guerra travada com robôs já começou. Isso não torna o mundo apenas mais difícil. Cria um novo campo de batalha – virtual- e novas preocupações.

 

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL…

céu estava nublado no aeródromo de São Miguel do Iguaçu, uma pequena cidade paranaense na tríplice fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina. Nada, no entanto, que impedisse o voo inaugural do primeiro Veículo Aéreo Não Tripula90 (Vant) da Polícia Federal (PF) naquelã manhã de 10 de novembro de 2011. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a quem a PF está subordinada, foi até a pista ver de perto a aeronave capaz de filmar e fotografar a placa de um carro ou o rosto de um traficante de drogas a 9 quilômetros de altura. Em seguida, Cardozo se dirigiu ao auditório improvisado para falar sobre a maior arma anunciada contra o narcotráfico pelo governo da presidente Dilma Rousseff, uma promessa feita na campanha de 2010: a compra de 14 Vants israelenses, por R$ 655 milhões. Ao fundo do palco onde o ministro discursava, havia um pôster gigante com a foto do avião em voo e o título em letras garrafais: “Fase operacional’: Uma frase que não saiu do papel. Na linguagem policial, operacional quer dizer ação prática. O Vant passaria a fazer missões rotineiras. De acordo com documentos obtidos por ÉPOCA, isso não aconteceu. Depois da festa de inauguração, o avião foi recolhido ao hangar do aeródromo onde fica a base de operação. Os equipamentos foram encaixotados e estão assim até hoje. Uma segunda aeronave já comprada continua em Israel, sem previsão para ser enviada ao Brasil. Não se fala mais em comprar outros 12 aparelhos como foi previsto no início e alardeado com pompa. Brigas internas na PF e o descaso do Palácio do Planalto ameaçam abater, ainda em solo, o projeto no qual o governo já gastou R$ 73 milhões. O valor inclui os dois aviões e o material necessário (antenas e computadores) para mantê-los no ar. Operado por um piloto em terra, que digita os comandos no computador das estações, o avião pode voar por 37 horas ininterruptas a uma distância de até 4.000 quilômetros, enviando imagens on-line para a base sobre as atividades de narcotráfico nas fronteiras brasileiras. Com a varredura, seria possível saber onde os criminosos se escondem, para onde enviam drogas e, principalmente, vigiar seus passos e prendê-los. O combate na fronteira boliviana tem um caráter especialmente crucial para os brasileiros. Pelo menos 54% da cocaína que chega ao Brasil vem do país andino. Boa parte se transforma no crack que assombra nossas metrópoles. A previsão era instalar quatro bases. Além de São Miguel do Iguaçu, outras três funcionariam em Brasília, no Distrito Federal, Vilhema, em Rondônia, e Manaus, no Amazonas, Em junho, a Procuradoria da República no Paraná começou a receber informações de que não havia mais decolagens na primeira estação inaugurada por Cardozo. Os procuradores descobriram que o Vant estava parado. Como o projeto não decolou, a Procuradoria entrou na Justiça para o governo aumentar o número de policiais. O pedido foi rejeitado pela Justiça Federal. O Brasil tem 11.600 quilômetros de fronteiras com Colômbia, Peru, Bolívia (países produtores de cocaína) e Paraguai (fornecedor de maconha). Para cobrir toda essa extensão, a PF conta nessas regiões com apenas 14 delegacias e 826 policiais. A relação é de um agente para cada 16 quilômetros e de um delegado por 100, segundo o cálculo do Tribunal de Contas da União (TCU) nunfrelatório recente de avaliação da política de combate ao narcotráfico. O TÇU recomendou ao governo contratar por meio de concursos mais 3 mil policiais. E destacou o projeto do Vant como o avanço mais significativo diante da falta de pessoal. Um relatório da PF, de março deste ano, mostra que essa Vantagem é desperdiçada. Durante 2011, o projeto do Vant contou com um orçamento de R$ 70 milhões. Isso permitiria a compra de equipamentos e combustível, além de treinamento de pilotos. O documento da PF diz que, “por problemas técnicos’: apenas R$ 6,3 milhões foram efetivamente gastos.Se não é por falta de dinheiro, por que o Vant não sai do chão? O presidente da Associação dos Delegados Federais, Marcos Leôncio, afirma que a PF está sem contrato de manutenção da aeronave, o que impede a decolagem.  “Também existe uma dúvida do governo sobre se o Vant fica com a PF ou será entregue à Aeronáutica’: diz Leôncio. Essa alternativa poderia criar um conflito com Israel, porque o equipamento foi vendido exclusivamente para a atividade policial, e não militar. A PF chegou a divulgar, no dia do voo inaugural, que era a primeira polícia do mundo a usar o Vant para esse fim. A origem do imbróglio está em divergências na cúpula da PF desencadeadas em 2011. Em janeiro daquele ano, a direção-geral da PF mudou de mãos, passando ao delegado Leandro Coimbra. Ele assumiu o posto no lugar de seu colega de profissão Luiz Fernando Corrêa, que defendia para Dilma o emprego dos aviões-robôs. Na gestão de Coimbra, contratos foram interrompidos. A mesma empresa que forneceu os aviões, a Israel Aerospace Industries, treinaria uma congênere brasileira para cuidar da manutenção do programa no futuro. O argumento usado pela área de logística para suspender esse contrato foi um processo aberto pelo TCU para apurar acusações de irregularidades nos pagamentos à empresa israelense. O Tribunal investiga a despesa de R$ 24,6 milhões para o  treinamento de 13 pilotos CR$ 1,9 milhão por cabeça). O processo ainda não foi concluído. Ele não significa o fracasso do projeto. A PF diz que prepara um novo contrato de manutenção e que receberá o segundo Vant ainda neste ano. Somente então vai avaliar se compra as outras 12 aeronaves inicialmente previstas. A tecnologia de ponta dos aviões é uma arma para combater um novo esquema ,montado pelo narcotráfico nas fronteiras. Em outubro do ano passado, ÉPOCA revelou que os novos barões da droga terceirizaram parte das etapas, como refino, transporte e comércio dos entorpecentes. Eles passaram a atuar também nos países vizinhos. Grandes carregamentos de cocaína e de pasta base de coca, matéria-prima do crack, são lançados de aviões em fazendas no lado brasileiro. Nas fronteiras com Colômbia, Peru e Bolívia, policiais federais se vê em diante de uma luta de guerrilha. No fim de 2010,dois agentes federais morreram baleados no Rio Solimões, a 240 quilômetros de Manaus, quando interceptaram uma lancha que transportava cocaína. Uma das principais funções do Vant é passar informações aos homens em terra, adiantando a posição do inimigo durante uma situação de confronto. Para os policiais na linha de frente contra traficantes fortemente armados, os veículos não tripulados podem representar uma proteção a sua vida.

 

o poder das empresas tornou-se um risco global

Dos 193 PAÍSES-MEMBROS DAS NAÇÕES UNIDAS, 161 TÊM MENOS RECURSOS QUE AS 2 MIL principais empresas do mundo. A petroleira americana Exx:on Mobil tem mais escritórios estrangeiros do que a Suécia tem embaixadas. “Nada disso é maléfico em si”, disse a ÉPOCA David Rothkopf, diretor executivo da prestigiosa revista americana Foreign Policy, especializada em política internacional. “Mas torna-se um problema quando os atores corporativos agem para subverter a democracia.” Em seu novo livro, Power, Inc., Rothkopf dá exemplos como esses para mostrar como empresas gigantescas, em busca de benefício próprio, se tornaram um empecilho para o funcionamento dos Estados. Ele diz que os governos dispõem de meios para conter a influência das grandes corporações, mas afirma que os líderes atuais são incapazes de enfrentar o dilema: “Eles são muito egoístas, pouco criativos e excessivamente concentrados em problemas locais”. ÉPOCA- O senhor escreve em seu novo livro que as corporações se tornaram multo poderosas. Isso é ruim? David Rothkopf – As corporações ganharam mais poder do que os criadores do Estado moderno jamais imaginaram ter. Elas operam em escala global, em áreas além de controles legais e regulamentações. Destinam somas significativas para influenciar os resultados políticos, montantes para além do alcance de cidadãos comuns. Elas são projetadas para existir para sempre e agir em interesse próprio, quase nunca pelo interesse público. Nada disso é maléfico em si. Mas torna-se um problema quando os atores corporativos agem em conjunto ou individualmente para subverter a democracia em questões importantes para o mundo, como o aquecimento global ou regimes fiscais injustos. ÉPOCA- Como isso provocou aquilo que o senhor descreve como um “deslocamento tectônico” nas relações internacionais? Rothkopf-A mudança tectônica se refere ao crescimento das corporações em dimensões que superam a maioria dos governos nacionais. As 2 mil principais empresas do mundo são maiores e controlam mais recursos que os menores países do mundo e seus governos nacionais. Em vez de um sistema internacional de Estados que se comunicam com outros Estados, temos hoje um sistema de Estados interagindo com atores privados, que controlam recursos significativos e podem orientar e moldar os resultados da forma que lhes convém, atrasando a regulação dos mercados financeiros globais e pressionando por mais abertura de mercados, mesmo que isso cause problemas. ÉPOCA- Os governos nacionais não conseguiram manter ~ ritmo de crescimento enquanto as multi nacionais cresciam? Rothkopf-Os governos cresceram também. Mas mesmo o maior dos governos enfrenta limites nos gastos-discricionários a sua disposição. Uma economia como a Suécia tem menos recursos disponíveis que uma empresa como a (petroleira americana) Exxon Mobil, cujo faturamento anual é comparável ao PIB sueco. O orçamento do governo sueco é dirigido principalmente para os direitos da população. O dinheiro que gasta com diplomacia é menor do que a Exxon gasta globalmente com relações públicas. O número de países em que a E:xxon atua supera as nações onde a Suécia tem embaixadas. Em parte, essas mudanças são devidas à evolução tecnológica, à globalização, às exigências das novas economias. Mas também se devem à influência política acumulada por essas empresas e usada para bloquear regulamentações globais e mecanismos dos Estados-nação para contrabalançar as concentrações de poder privado. ÉPOCA – Como os governos podem resolver esse problema? Rothkopf – Os governos poderiam fazer globalmente o que fazem em nível nacional: regular os mercados de forma adequada, fazer cumprir as leis contra a corrupção, manter dólares privados fora do financiamento de campanhas públicas, limitar a capacidade dos atores privados para fazer lobby.Também poderiam limitar o tamanho dos bancos, que deixariam de ser “grandes demais para falir”. Poderiam tomar providências em nome de seus eleitores para assegurar que o jogo da democracia permaneça. equânime, tal como as grandes empresas procuram fazer com o jogo do mercado. tpOCA – O senhor diz que os lideres mundiais são. em sua maioria. “zeros à esquerda” . Isso explica por que nenhuma medida é tomada? Rothkopl-Estamos num daqueles momentos históricos em que os líderes nacionais não estão à altura dos problemas que enfrentam. Eles são muito egoístas, pouco criativos e excessivamente concentrados em problemas locais. Não estão dispostos a dedicar o tempo necessário para trabalhar em conjunto. A omissão na crise da Zona do Euro, na Síria, na contenção de armas de destruição em massa e na busca por qualquer movimento real sobre as alterações climáticas, como nas reuniões recentes da Rio+20, são os sinais do presente momento sem lideranças. ÉPOCA – Foi por isso que o senhor escreveu que o multllateralismo se transformou em “muddlelateralism” (expressão irônica em inglês que significa multllateralismo confuso)? Rothkopl-Sim. Essa mudança ocorreu por causa do enfraquecimento sem precedentes das grandes potências. Estados Unidos, União Europeia e Japão estão em momentos econômicos difíceis, e isso gerou introspecção e fraqueza. Ao mesmo tempo, revelou -se que o comprometimento dos EUA com o multilateralismo é uma fraude. O presidente Barack Obama costuma fazer um bom jogo de palavras, mas, quando se trata de realmente mudar o sistema, titubeia: fugiu de um papel relevante no G20,afastou-se de uma nova estrutura de liderança nas instituições financeiras internacionais, principalmente do Banco Mundial, e manteve os EUA alheios ao direito internacional – a prisão de Guantánamo continua aberta, usamos aviões-robôs e a ciber guerra para violar a soberania de outros países. Mas os EU4 não estão realmente prontos nem dispostos a ceder o tipo de papel dominante que sempre tiveram. Ainda acham que merecem essa posição. ÉPOCA – O senhor acredita que a crise financeira levou o mundo a abandonar a abordagem econômica americana? Rothkopf-Sim. Mas esse não é meu ponto de vista. É simplesmente o que aconteceu. Desde a crise, todos reconhecem como intoleráveis os perigos da abordagem econômica permissiva promovida pelos Estados Unidos nas últimas décadas.A desigualdade aumentou, a criação de empregos murchou e a mobilidade social diminuiu enquanto os EUA promoviam a política do laissez-faire. Isso minou a influência dos defensores dessa abordagem.

 

As ligações de Londres para o rio

ESPALHADA POR AEROPORTOS, SHOPPING CENTERS e ruas do Reino Unido, a imagem de Iessica Ennis, de 26 anos, foi o símbolo da Olimpíada de Londres. A filha de pai jamaicano e mãe inglesa, com seus belos traços e corpo atlético, representava um país multicultural e, acima de tudo, vencedor. No sábado 4, Iessica chegou em primeiro nos 800 metros rasos do heptatlo para conquistar a medalha de ouro na competição, sob um barulho ensurdecedor de 80 mil pessoas no Estádio Olímpico. “Fiquei impressionada com o apoio dos torcedores, o barulho era tão alto”, disse Iessica a ÉPOCA. “Na minha volta final dos 800 metros, aquilo me deu mais energia para forçar ainda mais.” Essa emocionante cena, conquista do ouro na pista de atletismo por uma ‘ heroína local, pode não se repetir daqui a quatro anos. Alguns dos maiores sucessos da Olimpíada de Londres, como o clima contagiante no Estádio Olímpico e o eficiente sistema de metrô, não estarão nos Jogos do Rio de Janeiro. O comando do evento brasileiro promete substituí-los por outros. Eis, portanto, a primeira certeza sobre os Jogos cariocas: eles serão bem diferentes daquilo que se viu em Londres. A começar pelo Estádio Olímpico. A Rio 2016 não terá o seu. A abertura e o encerramento do evento ocorrerão no Maracanã, onde serão dil’utadas partidas de futebol, não provas de atletismo. Repetindo a fórmula do Pan-Americano de 2007, as corridas de pista, os saltos e os arremessos serão vistos no Estádio João Havelange, o Engenhão – pela primeira vez na história da Olimpíada, sem a companhia da pira olímpica, que estará no Maracanã. Em Londres, o estádio foi a principal estrela do Parque Olímpico. Quem assistisse às disputas do atletismo podia também aproveitar as floridas áreas verdes, os bares e os restaurantes do belíssimo e movimentado parque _ outro sucesso do evento londrino _,  além das arenas do ciclismo, basquete ou handebol. Isolado na Zona Norte carioca, o Engenhão não oferecerá a mesma experiência nem se beneficiará  do clima e dos visitantes do parque _ que estará em Jacarepaguá, na outra ponta da Linha Amarela. A presidente da Empresa Olímpica Municipal, Maria Silvia Bastos, concorda que isso fará da Rio 2016 uma Olimpíada diferente de qualquer outra. A compensação da versão brasileira, segundo ela, virá da reunião de todas as competições na cidade, com exceção de algumas partidas de futebol. Londres teve de levar provas como remo e vela para o interior da Inglaterra. O Rio será sede de tudo. “Isso é um ativo fantástico para a cidade, não só na Olimpíada, mas depois. Mostra que o Rio de Janeiro pode se tornar a capital dos esportes’: disse Maria Silvia a ÉPOCA. Segundo ela, o fato de a Rio 2016 não estar concentrada num só local, como o Parque Olímpico londrino, é positivo para a cidade. “Quem está no centro de Londres às vezes nem percebe que está havendo uma Olimpíada. A cidade está até vazia, comparada com um verão regular. No Rio, nós sentiremos mais a Olimpíada em toda a cidade.” Ao aceitar o projeto carioca para 2016, o Comitê Olímpico Internacional concordou com sua logística heterodoxa. O risco é a redução do interesse e do status do mais olímpico dos esportes: o atletismo. Os atletas A rara presença do Brasil nas finais do atletismo em Londres é uma evidência da carência de astros nacionais capazes de empolgar a torcida, num esporte vital para o sucesso dos Jogos. A cada quatro anos, o mundo praticamente para, por cerca de dez segundos, para assistir à final masculina dos 100 metros rasos. No Estádio Olímpico, os esportistas medem força, impulso e velocidade em modalidades que já existiam nos Jogos gregos da Antiguidade – como corrida, arremesso de disco e salto em distância. O Brasil, mais voltado aos jogos com bola, pouco participa dessa festa. No esporte que simboliza as Olimpíadas, o país ainda não tem sua [essica Ennis. As duas maiores esperanças em Londres, Fabiana Murer no salto com vara e Maurren Maggi no salto em distância, nem se classificaram para as finais (leia mais na página 80). Esportistas menos conhecidos, como o saltador Mauro Vinicius da Silva, o Duda, e a arremessadora de peso Geisa Arcanjo, conseguiram. Geisa, de 20 anos, ficou em oitavo lugar. Fez a melhor marca da carreira: 19,02 metros. “Hoje foi meu dia”, disse, após a competição. Geisa acredita que a Olimpíada do Rio possa contar com o Brasil  em mais finais do atletismo, mas diz que o país precisa correr. “Se trabalhar com alguns atletas que já estão dando resultado, gente da minha idade, dá para melhorar muito”, afirma. Segundo ela, seu avanço na prova do arremesso foi resultado do investimento feito no Centro de Treinamento de Uberlândia, em Minas Gerais, onde mora há dois anos. “É nesse tipo de coisa que as pessoas têm de continuar investindo:’ A velocista Evelyn dos Santos, eliminada nas semifinais dos 200 metros rasos, não acredita que o público se afaste do atletismo em 2016. “O brasileiro é um povo tão sofrido que, mesmo que a gente não faça grandes resultados, eles já nos ve em como estrelas nacionais:’ Ela diz que o esporte precisa de mais atenção se quiser participar de mais finais olímpicas no Rio.”Tem de começar agora. Não adianta querer em um ano fazer milagre, porque isso não vai acontecer’: afirma Evelyn. Quando o assunto é conquistas, os brasileiros não precisam procurar muito longe por inspiração. Além da experiência como sede da Olimpíada de 2012, os britânicos são também referência em sua política de resultados. As mais de 20 medalhas de ouro obtidas pelo Team GB em Londres não vieram de graça. Antes da atual fase dourada, a Grã-Bretanha precisou correr atrás do prejuízo. Depois de se manter com cinco medalhas de ouro por edição dos Jogos entre 1980 e 1992, em 1996 a Grã- Bretanha chegou ao fundo da piscina. Humilhado após a conquista de apenas um ouro (dois a menos que o Brasil) em Atlanta, de um total de 15 medalhas, o país decidiu socorrer seu esporte olímpico. Em 1997, criou a agência governes mental UK Sport, que passou a investir anualmente 100 milhões de libras, o equivalente a R$ 315 milhões, em competidores que possam trazer medalhas após alguns anos. Grande parte desse dinheiro vem da loteria nacional, criada em 1994. “Tive a sorte de receber recursos da loteria, quando era uma atleta júnior, e isso faz diferença”, diz Iessica Ennis. “Quando você está se desenvolvendo como atleta e não tem muitos patrocinadores, a loteria está presente para permitir que nos concentremos apenas em treinar e competir.” Com mais dinheiro e incentivo, os esportistas britânicos acumularam resultados muito superiores. Em Sydney no ano 2000, o país obteve 28 medalhas, 11 delas de ouro, dez a mais que quatro anos antes. Em 2004, os ouros caíram para nove, num total de 30. Em Pequim 2008 veio o grande salto: 47 medalhas, 19 de ouro. Para a Olimpíada que seria disputada em casa, uma nova fonte de recursos, dessa vez da iniciativa privada, foi criada em 2009, o Team 2012. O dinheiro extra, aliado ao incentivo de receber os Jogos em Londres, resultou no melhor desempenho olímpico britânico desde 1908. Até a última sexta-feira, o país era o terceiro colocado no quadro de medalhas, atrás apenas de China e Estados Unidos, com 57 medalhas, 25 delas de ouro. Em apenas 16 anos, a Grã-Bretanha saiu de um ouro solitário para 25 topos do pódio. O Brasil, durante o mesmo período, não foi a lugar algum. Manteve uma média em torno de três ouros e um máximo em torno de 15 medalhas no total. A INFRAESTRUTURA O compromisso do Brasil com o COI envolve a organização eficiente dos Jogos. Isso inclui o transporte – mais um sucesso da Olimpíada de Londres. A operação no Rio será um desafio. Com disputas em quatro centros espalhados pela cidade – Barra da Tijuca, Copacabana, Maracanã e Deodoro -, a Rio 2016 precisará de nota 10 no quesito deslocamento de atletas, dirigentes e público. Londres, apesar do temor de um caos generalizado, já ganhou sua medalha de ouro. No Parque Olímpico, na zona leste da cidade, um esquema especial dividiu os passageiros entre duas estações de metrô, atendidas por duas linhas diferentes. O trem de alta velocidade foi colocado à disposição do público gratuitamente, o monotrilho DLR ajudava a distribuir os passageiros em duas outras direções, e a liberação da passagem nas catracas acelerou a chegada e a saída dos visitantes. A fragmentação dos Jogos de 2016 por toda a cidade do Rio pode levar a uma maior participação dos cariocas no evento. Exigirá, porém, excelente planejamento e execução do transporte para locais nas zonas Norte, Oeste e Sul. “As realidades são muito diferentes’: diz Maria Silvia Bastos. “Aqui, o metrô é o principal meio de transporte. No Rio, serão as linhas de BRT (sistema rápido de ônibus), complementadas pelo metrô.” A TORCIDA O Comitê Organizador da Rio 2016 enviou 143 observadores a Londres para identificar,-, que deu corte» e o que podeser melhorado daqui a quatro anos. As duas maiores polêmicas nos Jogos londrinos envolveram a segurança e a venda de ingressos. Depois que o Exército teve de ser chamado para completar o contingente de pessoal, tudo funcionou. Soldados extremamente educados e eficientes recebiam torcedores e jornalistas operavam os aparelhos de raio X. Como recompensas ganharam ingressos Extras para vários esportes, depois que as imagens de assentos vazios no começo dos Jogos constrangeram a organização. Lugares antes fornecidos a federações ou patrocinadores não eram aproveitados. O diretor geral do Comitê Olímpico e Paraolímpico carioca, Leonardo Gryner disse em Londres que estudara formas de garantir que lugares vazios sejam rapidamente preenchidos. Provavelmente pela população local. Londres resolveu o problema com a venda de milhares de ingresso pela internet. Quando começaram as provas de atletismo, o estádio olímpico estava completamente lotado. O Rio de Janeiro também viu que o governo britânico, desesperado para reativar a economia, usou a olimpíada para atrair dinheiro. A capital fluminense que fazer o mesmo. “Esta e uma oportunidade única para o Brasil. Como a China, que fez os Jogos Olímpicos para mostrar uma nova China ao mundo”, diz Marcelo Haddad, diretor executivo da Rio Negócios, agência municipal que promove investimentos na cidade. Entre as lições tiradas dos Jogos de Londres está a percepção de que muitos torcedores no Brasil olham para atletas como se fossem jogadores de futebol,daqueles que precisam de gritos de incentivo ou merecem sinais de reprovação. Após a competição, podem ser xingados. A técnica do judô Rosicleia Campos protestou contra os ataques que seus lutadores sofreram na internet. Disseque o povo brasileiro “é ignorante, ignora o esporte”. A jogadora de vôlei Thaisa reclamou da hostilidade contra as meninas da seleção em redes sociais, justamente quando a seleção mais precisava de apoio. Uma brasileira gritou “Burro!” no Estádio Olímpico, após Mauro Vinicius queimar um segundo salto.Nadadores brasileiros reclamaram de gritos de torcedores no momento da largada dos 50 metros livre, atitude vista também antes da apresentação de Diego Hypolito na ginástica. No momento em que Arthur Zanetti subia nas argolas para conquistar seu histórico ouro, um homem gritou da arquibancada: “Vai, moleque!”.Maria Silvia diz desconhecer o problema. “Tenho ido a todos os estádios e visto os brasileiros, como sempre, entusiastas, respeitosos e educados. Não vi nada disso.” Muitos viram. Antes de receber a Olimpíada, o Brasil será palco da Copa do Mundo. Por mais que a primeira experiência possa servir de teste para a segunda, não e o mesmo espírito que as move. O futebol desperta paixões extremadas, de alegria, frustração e raiva. A torcida as abraça e participa do jogo intensamente, com cantos de apoio e cobranças. O esporte Olímpico, apesar de provocar uma frenética corrida do ouro, envolve a confraternização, uma mesma Vila e sob a mesma bandeira, de atletas de mais de 200 países. Exige respeito ao silencio- nas modalidades que dele dependem-, as dificuldades de cada esportista e ao fracasso. Por mais bem organizada que venha ser a Olimpíada do Rio, não se pode confundir com a copa do mundo. Com ou sem ouro para o Brasil, o espírito olímpico não pode faltar.

 

Por que tantos falham na hora H?

Nos sábado 4, quando Fabiana tamanho da frustração: “Trabalhei seis Murer interrompeu pela segunda vez a corrida que a manteria na disputa por uma medalha no salto com vara, espectadores tiveram dificuldade em acreditar que era o fim. Por que ela desistiria do salto, duas vezes seguidas, no tempo escasso que tinha para cumprir a prova? Parecia o desperdício de anos de preparação e treinos exaustivos.”ainda estou anestesiada”, disse ao deixar a pista. Ela chegou a culpar o vento por ter abortado duas tentativas. Depois reconheceu que saltara mal logo na primeira vez. A atual campeã mundial de salto com vara, titulo conquistado na Coréia do Sul no ano passado, não conseguiu superar a barreira dos 4,55 metros- pouco, para quem já saltara 4,85 metros. Seu comportamento surpreendeu outras competidoras. “percebi que alguma coisa tinha saído errado’, disse a russa Yelena Isinbayeva, medalha de bronze. “Talvez alguma contusão ou algum problema psicológico. Uma atleta do nível dela não desiste.” A tristeza estampada no rosto de Fabiana após a prova não faz distinção entre nacionalidade e especialidades esportivas. Em Londres, ela podia ser vista em tosa parte, s cada partida ou prova eliminatória. E resultado de uma ameaça que os atletas vivem: o fracasso. Todos temem não ser capazes de repetir sua melhor marca ou executar um movimento repetido a execução durante os treinos. Quando esse medo paralisa o atleta,ou induz a erros grotescos, ganha vários nomes. Uns chama de amarelar. Outros de pipocar. A expressão da língua inglesa e a que chega mais perto de revelar os meandros dramáticos do insucesso choke under pressure . O verbo choker significa asfixiar, sufocar. Anos de sacrifício destruídos em segundos, por um inimigo interno, invisível . O desabafo da corredora  americana  Lolo Jones, depois de ficar num decepcionante quarto lugar  na prova de 100 metros com barreiras, disputada na terça-feira, denuncia o tamanho da frustração: “trabalhei seis dias da semana, por quatro anos, para uma prova de 12 segundos.” Lola e Fabiana não estão sozinhas. A equipe australiana de natação, comparada em seu país natal a “armas de destruição em massa” – por causa de talentos como James “Missil” Magnussen e James “Foguete” Roberts-, passou a ser chamada nas redes sociais “arma de decepção em massa”. Favorita ao ouro, terminou apenas em 4 lugar na prova de revezamento 4×100 metros. Magnussen, o míssil, nadou os primeiros 100 metros em 48,03 segundos. Três dias depois, ele levou ouro nos 100 metros com a marca de 74,53 segundos, “Não sei o que me aconteceu”, disse. A saltadora brasileira Maruen Maggi também não consegui repetir sua melhor marca. O mais longe que consegui saltar em Londres foi 6,37 metros. Na Olimpíada de Pequim em 2008,quando ganhou a medalha de ouro, saltou 7,04 metros. “Não vou botar a culpa em outra coisa”, disse Mauren que sofreu com uma lesão em abril.”Não era meu dia. Infelizmente”. A seleção espanhola de futebol, principal a repetir em Londres a vitoria que conquistara na Copa do Mundo e na Copa da Europa, foi desclassificada ainda na primeira fase, sem marcar um único gol. O Judoca Leandro Guilheiro, favorito ao ouro da categoria ate 81 quilos por ser líder do ranking mundial, não chegou nem a disputar o bronze. Foi eliminado nas quartas de final e perdeu na repescagem. Assim como a vitoria causa euforia coletiva, a derrota causa desapontamento em serie. E provável que cada um de nos projete naquele atleta humilhado os fantasmas de suas próprias derrotas. Ninguém entende por que isso acontece, e todos reagem muito mal. OS cientistas do esporte são os que chegam mais perto de apontar causas compreensíveis para o colapso emocional de atletas e equipes muito bem preparadas. Eles sabem que um atleta não respeitara em todas as competições seu melhor resultado apenas porque conseguiu o feito em determinado momento. Seria uma extrapolação grosseira. Ninguém repete seus movimentos exatamente da mesma maneira toda vez que os executa. Esses pesquisadores sabem que existe algo além de uma combinação aleatória de fatores quando um ginasta como o brasileiro Diego Hypólito cai de barriga no chão, como fez nesta Olimpíada, ou sentando, como fez na Olimpíada anterior. Eram os momentos mais importantes de sua vida profissional, e ele sucumbiu. “Lembro a outra Olimpíada como algo muito ruim, o que não aconteceu agora’: disse Hypólito a ÉPOCA. “Minha perna já vinha amolecendo no treino, como aconteceu na hora. Não fui para lá esperando medalha:’ Tão ou mais importante que a forma física é o preparo mental. Ainda que inconscientemente, os esportistas podem sucumbir às artimanhas de seu próprio cérebro. A ciclista britânica Victoria Pendleton, de 31 anos, ouro e prata em Londres e ouro em Pequim, em 2008, conhece de perto o pânico de falhar. Chegou a pensar em abandonar o ciclismo após os Jogos de Atenas 2004, quando terminou em sexto e nono em suas duas competições. Para vencer, Victoria teve de superar seu próprio medo de errar. Isso não significa q~ tenha deixado de sentir a pressão. “É uma de minhas maiores falhas: me preocupar com o que as pessoas pensam de mim. Não quero deixar ninguém na mão.” A americana Nicole Miller, que já foi psicóloga da seleção dos EUA de patinação e hoje é pesquisadora da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, diz que poucos atletas sabem lidar com a pressão. Ela traz a sensação de que, nas Olimpíadas, tudo será mais difícil e que os atletas deverão ser melhores que nunca. “Isso detona uma mudança mental que tem grandes chances de acarretar derrota’: diz. É a ansiedade de desempenho. O mecanismo da ansiedade é simples e devastador: para prevenir as falhas, o atleta reforça a concentração. Fixa-se na mecânica do movimento, nos detalhes da execução de cada gesto e provoca um retrocesso mental. Passa a querer controlar o próprio cérebro, algo que ele não precisava fazer desde que conseguira dominar a técnica da modalidade. É como dirigir ou tocar um instrumento, uma habilidade que exige grandes doses de treinamento, mas que, a partir de certo ponto, é realizada quase automaticamente. Pensar em cada movimento antes de executá-lo destrói a naturalidade e, neurologicamente, produz caos no cérebro. Faz com que ele funcione de maneira imprecisa, como com iniciantes. O psicólogo americano Bradley Hatfield, da Universidade de Maryland, constatou essa desorganização ao plugar eletrodos no cérebro de golfistas profissionais  e amadores. Nos experts, as ondas cerebrais se repetiam num padrão semelhante ao de momentos de calma. Nos iniciantes, denunciavam agitação. A lição mais imediata de estudos como esse é surpreendente: concentração demais faz mal. Por isso, não adianta cobrar os profissionais do esporte por se distrair antes das competições. É mais provável que, relaxados, eles tenham um desempenho melhor. O psicólogo britânico Rob Gray, da Universidade de Birmingham, percebeu a importância da distração num experimento com rebatedores de beisebol. Gray fez duas rodadas de teste. Na primeira, ao rebater, o jogador deveria atentar para a posição de suas mãos sobre o bastão. Na segunda, relatar a intensidade de um alarme sonoro acionado durante a jogada. Os rebatedores acertaram mais bolas no segundo teste que no primeiro, quando refletiam sobre seus movimentos. A distração do som os ajudou a manter o cérebro no automático, desempenhando sozinho o que ele sabe fazer melhor. Aprender a tapear o próprio cérebro exige treinamento, mas ainda são poucas as equipes no país que reconhecem o desafio da preparação psicológica. “No Brasil, somente cinco modalidades contam com um psicólogo. E muitos não são especializados’: diz a psicóloga do esporte Katia Rubio, professora da Universidade de São Paulo. Ela coordenou uma equipe multidisciplinar para cuidar da saúde, inclusive mental, da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa durante a preparação para a Olimpíada de Londres. A modalidade não trouxe medalhas, mas talvez seja um início. O Comitê Olímpico Brasileiro (CO B) afirma que, das 32 modalidades, apenas 13 tiveram apoio psicológico durante os Jogos. A atitude inédita do COB foi levar 16 jovens atletas promissores para ver de perto a Olimpíada de Londres. A ideia é que eles possam se familiarizar com o ambiente para que a pressão durante a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, não seja tão assustadora. “Quanto mais você passar por experiências parecidas, mais ferramentas terá para lidar cdm uma situação especial’: diz Soraya Carvalho, ex-ginasta e coordenadora do programa Vivência Olímpica. É a difícil tarefa de aprender a esperar pelo inesperado.

 

Aquele garoto das argolas

Aos 7 anos, Arthur Zanetti até tentou jogar futebol.  nástica treinou por dez dias antes dos

. “Eu era  muito ruim. Sempre ficava no banco. Acabou na ginástica artística por indicação de um professor . Na segunda-feira 6, Zanetti de 22 anos ” finalmente mostrou ao mundo o que prendeu

treinando nos aparelhos da Sociedade Esportiva Recreativa Cultural Santa Maria, em São Caetano do Sul, São Paulo. Com uma apresentação praticamente perfeita, na arena North Greenwich, em Londres, o ginasta de 22 anos conquistou o ouro nas argolas, a primeira medalha olímpica da ginástica brasileira. O aparelho, considerado um dos mais difíceis do esporte, foi uma escolha natural. Baixo para um garoto de sua

idade, Zanetti, hoje com 1,56 metro apresentava dificuldades para treinar no cavalo com alças e na barra fixa. Em , já se destacava pela força nos braços, requisito imprescindível para praticar os ousados movimentos argolas. Ele se especializou na prova aos 10 anos, quando executou pela primeira vez o cristo, posição em que precisa ficar suspenso com os braços abertos, formando uma cruz, por ao menos dois segundos. “Fazer isso com aquela idade é um diferencial’: disse Zanetti a ÉPOCA, às vésperas de viajar para Ghent, na Bélgica, onde a equipe brasileira de ginástica treinou por 10 dias antes dos Jogos de Londres. Esse é o máximo de soberba que se pode esperar de Zanetti. Na maioria de suas entrevistas, ele repetiu frases que expressavam modéstia. “Só , penso em fazer minha parte.” Para entusiastas de última hora da ginástica a conquista de Zanetti pode ter parecido uma grata surpresa, resultado de uma conjunção aleatória de fatores. Mas a escalada rumo ao pódio começara há quase dez anos. Em 2004, Zanetti foi campeão brasileiro infantil nas argolas. No ano seguinte, ganhou o mesmo título no juvenil. Em 2007, foi campeão pan americano juvenil nas provas de argolas e do solo. Dois anos depois, estreou na seleção brasileira adulta e ganhou notoriedade quando ficou em quarto lugar no Mundial,disputado na mesma arena onde subiu ao pódio olímpico. Em 2011, foi vice-campeão do Mundial de Tóquio e prata no Pari-Americano de Guadalajara, onde também participou da conquista do ouro por equipes, o primeiro da seleção masculina brasileira. Foi só há pouco mais de três meses que se tornou membro da equipe do Comitê Olímpico Brasileiro. “Meu ouro veio aos poucos, competição por competição. Nada aconteceu rápido’: diz Zanetti. Antes dos Jogos, venceu três das quatro etapas de que participou da Copa do Mundo. Os resultados o colocaram como candidato ao pódio em Londres, mas ainda não ao ouro. O favorito era o chinês Chen Yibing, tetracampeão mundial e ouro em Pequim 2008. Em recuperação de uma cirurgia, Chen, apelidado de Senhor dos Anéis, não participara das últimas competições vencidas pelo brasileiro. Superá-lo exigiu, além de técnica, uma estratégia de equipe. Para a fase de classificação, Marcos Goto, seu técnico há 15 anos, escondeu a série mais complexa do pupilo para que ele chegasse à final sem ser o primeiro a se apresentar. Zanetti ficou em quarto e foi escalado como o último a subir nas argolas – situação que considerava mais confortável. O melhor na etapa classificatória, Chen abriu a final com uma nota alta, de 15.800 pontos, que o colocou como líder até Zanetti se apresentar. Desta vez, o brasileiro mostrou seu verdadeiro jogo. Apesar de um leve passo para trás com a perna direita, na saída do aparelho, a série de alta dificuldade, executada de forma brilhante, desbancou Chen com 15.900. O bronze ficou com o italiano Matteo Morandi, com 15.733. O técnico chinês Huang Yubin não se conformou com a derrota. Dois dias depois, acusou os juízes de manipular as notas para que Zanetti fosse campeão. Segundo a imprensa chinesa, o treinador disse que a final foi um “roubo” e “uma noite obscura para a história da ginástica”. Um gesto estranho para quem parabenizara Zanetti e seu treinador no dia da prova. Na quarta-feira, os chineses disseram que Yubin pedira oficialmente a revisão do resultado. O Comitê Olímpico Brasileiro diz que não foi informado da reclamação, assim como o Comitê Olimpíco Internacional. Mesmo que ela exista, a tradição olímpica é não rever resultados, exceto em casos de doping.

 

Usain BoII: Como ele é tão rápido

gora eu sou uma lenda.” A frase define o status de Usain Bolt depois de ganhar os 200 metros, na quinta-feira, dia 9. Ele fez o que Carl Lewis em 1986 tentou sem sucesso: repetir a vitória, quatro anos depois, nos 100 e 200 metros. A duvida agora é se Bolt conseguirá manter seu título no Rio de Janeiro, em 2016.

 

Beleza de rebelde

Em meio à correria das gravações da próxima novela das 6 horas da Rede Globo, Lado a lado, Camila Pitanga ainda encontra tempo para apresentar o programa Som Brasil, cuidar da filha, Antonia, de quase 3 anos, dar atenção ao namorado, o músico Lucas Santtana, e ainda voltar às aulas de francês. “Está uma loucura, mas não posso reclamar”, afirma. A protagonista da história passada no ano 1904, dos autores estreantes João Ximenes Braga e Cláudia Lage, está mergulhada no universo de Isabel, sua personagem. “Ela vive num tempo em que ser mulher negra é sinônimo de falta de liberdade e alimenta um desejo feminino subjugado, estrangulado pela moral dominante.É uma rebelde”, diz Camila. Ela teve de estudar tradições africanas para o papel. “Me senti conectada com minhas raízes profundas. Hoje, se vive com mais autonomia e liberdade para contestar. As mulheres podem chegar ao poder, a altos cargos empresariais e continuar exercendo seus papéis de mãe e dona de casa.” Ainda não é tarefa fácil: Camila começou um curso de teoria musical na Uni Rio e uma pós graduação na Escola de Dança Angel Vianna. Acabou trancando os dois para ficar mais tempo com a filha. As aulas eram aos sábados. “Mas tenho um lado musical que um dia ainda desaguará. Isso é muito vivo desde minha infância. Minha mãe foi bailarina.”`

 

GG com estilo

Depois que Preta Gil lançou uma linha para gordinhas, chegou a vez de Léo Jaime. O músico e ator é o garoto-propaganda da nova linha plus size da grife masculina Reserva.”Não está escrito em lugar nenhum que pessoas grandes gostam deusar roupas caretas ou mesmo discretas. Talvez não seja opcionalter o corpo assim ou assado. Terestilo é. Eu escolhi ter”, afirma Léo.Ele volta às novelas no dia 13, nanova temporada de Malhação. Natrama adolescente, seu personagemé um roqueiro que fez muitosucesso nos anos 1980 e, depoisdo fim de sua banda, fica semrumo. No caso de Léo, a históriafoi diferente. Ele está na novatemporada do programa Amor &sexo, ao lado de Fernanda Lima. Ela voltará ao ar em setembro, e aindaparticipa do Saia justa, no GNT.

 

Time apocalíptico

A foto é inspirada na Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. A grifeCavalera recrutou o time improvávelcomposto de Julla Petlt, ReginaGuerreiro, Fernanda Young, Pitty,Sidney Magal, Pedro Neschllng,Emlclda,lggor Cavalera, FacundoGuerra, Viviane Orth, AlexHornast e Henrique Fogaça paraa campanha de verão SalvadorRocks, que mistura a religiosidadebaiana e a irreverente do rock.”Se Jesus fosse vivo, quem seriamseus apóstolos e conselheiros?Escolhi as pessoas mais legais parauma Santa Ceia, uma síntese datolerância”, diz Alberto Híar, diretorcriativo da marca. “Estou mostrandouma história bíblica, não estouzombando. Ninguém ali é Jesus,mas são deuses em seu universo.” Aúnica que assumiu um personagemfoi Fernanda Young, como MariaMadalena. O rapper Emicida debutoucomo modelo, encarnando a sipróprio. “Ele podia fazer o Judas,mas achei que não fosse gostar dopapel de traidor”, diz Alberto. No intervalo do ensaio, Sidney Magaldava detalhes do novo CD e DVD,Coração latino, que lançará em outubro. O mito da moda nacionalRegina Guerreiro contava que, embreve, lançará um novo livro.

 

Memorial de Jorge

Imagine sentar-se no sofá em que um dia repousaram Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes. Ou deitasse na cama em que dormiam Jorge Amado e Zélia Gattai. A imaginação virou realidade para o colecionador de arte Rafael Moraes. Ele comprou o apartamento que pertenceu a Jorge Amado por mais de meia década, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Zélia imortalizou o local num capítulo do livro Chão de meninos, contando um pouco do que viveu em sua vizinhança, grudada ao lendário Beco das Garrafas. “Comprei de porteira fechada, com todo o mobiliário original, incluindo a biblioteca, a coleção de arte popular, roupas do casal e até um lenço bordado por Pablo Picasso”, diz Rafael. Para comemorar o centenário de Jorge, ele acaba de inaugurar na porta do prédio uma placa epigráfica de bronze em que se lê: “Aqui morou Jorge Amado” – a exemplo do apartamento da lte de la Clté, em Paris, onde Jorge e Zélia moraram durante anos. “Adquiri o imóvel em 2009, mas agora consegui reformar e pretendo transformá-lo no centro de referência Jorge Amado. A escrivaninha em que ele criou Gabriela está intacta.”

 

Corri risco de morte

Paulo Coelho escreveu . elogios ao livro Brasil em alta - A história de um país transformado, do jornalista americano Larry Rohter, que acaba de ser lançado em português. Ex-correspondente do New York Times no Rio de Janeiro, Larry ficou célebre entre os brasileiros em 2004, quando quase foi expulso do país depois de publicar numa reportagem que a “predileção do presidente Lula (na ocasião) por bebidas fortes estava afetando seu desempenho no gabinete”. Direto de Nova York, onde mora com -a mulher, a brasileira Clotilde Amaral, ele dá seus pitados sobre economia e mensalão. ÉPOCA – Que balanço poupado da expulsão que o governo faz do governo DI/ma? . no buscava. A imprensa brasileira, Larry Rohter – Ela lidera um governo mesmo não gostando da matéria, sério que enfrenta a cri!à mundial defendeu a liberdade de imprensa. com inteligência. Um amigo meu elo- No livro, tenho uma visão equilibra- TEMPORADA Rohter no Rio de Janeiro. Hoje ele mora em Nova York elogia o jeito de síndica de condomínio dela. Não é carismático como o Lula,mas tem qualidades importantes. Sabe aquela música do Edu Lobo? “Não tolero lero-lero”, Essa é a Dilma. ÉPOCA – Considera-se um jornalista polêmico? Rohler – Não tenho medo. Até hoje acho que aquela matéria sobre o caso Celso Daniel (prefeito do PT assassinado em Santo André) provocou a ira de alguns políticos importantes do PT e corri risco de morte. Mas isso é história, e o país já está em outra etapa. ÉPOCA – O que ficou do episódio com Lula em 2004? Rohler – Ele reagiu com o fígado. Foi uma semana difícil, mas passou.As instituições democráticas funcionaram como deveriam, e fui.época-. 13de agosto de 2012da do governo Lula. O que ele fez foi importantíssimo, tem de dar o mérito devido, e o país prosperou. ÉPOCA – Tem acompanhado o mensalão? Rohler – José Dirceu, José Genoino,Delúbio Soares e Marcos Valério fizeram um dano incalculável à democracia brasileira. O PT chegou ao poder prometendo transparência e honestidade. Em vez de cumprir a promessa, traiu o povo e implantou o governo mais corrupto na história da República, liderado por um presidente que fingia não ver, não ouvir e não entender nada. Inclusive as falcatruas que aconteciam no próprio gabinete dele. Não sei se Lula escapará ileso do mensalão. No sentido legal, sim, provavelmente. Mas a imagem dele está manchada, e ele sabe disso.

 

A chave do Itamaraty

Filha de diplomata, a empresária Raphaela Serrador c6meçou a dar aulas para aspirantes à carreira numa salinha no bairro de Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Quinze anos depois, ela tem 15 unidades de seu curso espalhadas pelo  país e se tornou a principal preparadora para a carreira diplomática no Brasil, “Hoje, um graduado de qualquer área pode seguir a carreira.Tive um caso recente de um cirurgião·chefe de um grande hospital carioca que, depois dos 50, veio estudar conosco. Ele realizou seu sonho de virar diplomata e hoje representa o Brasil em Kuala Lumpur”, diz.No último concurso, Raphaela aprovou nada menos que todos os novos 30 diplomatas, algo inédito na área, mais disputada que o curso de medicina da USP. “O curioso é que eu mesma, quando era mais jovem, fiz o concurso e não passei.” Agora se dedica ao concurso para oficial de chancelaria. A função dá apoio administrativo aos diplomatas. “O salário inicial é de cerca de R$ 6 mil. O último concurso aconteceu em 2008″, diz.

 

Comida também é moda

Quando o tomate seco entrou no cardápio nacional, lá pela década de 1980, não havia ingrediente mais chique.Todo mundo que consegue melhorar um pouco de vida gosta de se fazer de gourmet. Na época, conheci muita gente que venerava o tomate seco. Hoje, existe até pizza de tomate seco. Virou brega. Isso já aconteceu com vários pratos. O estrogonofe era um hit no final dos anos 1970 e1980. Quem queria ser elegante oferecia estrogonofe aos convidados. Raramente conheci alguém capaz de fazer um bom estrogonofe. Em geral é uma tapeação com pedaços de carne, frango ou camarão afogado no creme de leite e acompanhado por toneladas de batata palha. Pasmem: , gelatina colorida era a sobremesa da hora. Outra moda que perdeu o encanto é o fondue. Toda lista de presente de casamento tem uma panela de fondue, que provavelmente ficará juntando poeira num canto. O fondue ainda resiste em restaurantes que prometem um jantar romântico à luz de velas, em torno da fondue. O de queijo costuma ser feito com uma mistura comprada pronta, de gosto duvidoso. O de carne é um susto. Pedacinhos de filé são espetados e mergulhados em óleo fervente. Semelhantes, na verdade, ao “churrasquinho de gato” vendido em portas de estádios em dias de jogo. Graças ao nome pomposo, “fondue”, há quem finja que é chique, apesar da gordura no restaurante, resultado das frituras simultâneas. Como alguém pode acreditar que essa é uma noite romântica? Dois pastéis se beijando na frigideira teriam a mesma sensação. No passado, coquetel de camarão era o ápice do bom gosto. Atualmente, de tão brega virou culto Mas é raríssimo encontrar. perdeu espaço. Gourmets não falam tanto, por exemplo, em “espuma”.Confesso: eu mesmo comi, em Atenas, uma “espuma” de peixe. Era exatamente isso,uma espuma com sabor de peixe.Gostei. Mas não sou referência.Algumas vezes,quando criança fui pego devorando a espuma de barbear de meu pai. E gostava! Devido ao preço, a cozinha molecular só foi moda entre os verdadeiros gourmets e os exibidos, que gostam de contar que comeram isso ou aquilo assim como falam de seus carros e das roupas de grife. Há outras modas em vigor. Uma delas é entender de azeite. Em estabelecimentos elegantes, existe até degustação de vários tipos. Outro dia experimentei alguns deles, em colherinhas mínimas. Havia um grego, caríssimo, com sabor de óleo diesel. Sorri para o vendedor e comentei, para não passar por ignorante: – Este é muito especial. – É dos melhores, ele disse. Não deve nem ter botado na boca. A pasta americana, que permite “esculpir” os bolos com figuras, flores e enfeites, ainda está no auge. Os antenados já estão descobrindo que tem gosto de sabão. O bolo fica lindo, mas e daí? Também no auge estão os brigadeiros gourmets e os cupcakes. Inventaram que brigadeiro é chique, não sei de onde tiraram essa bobagem. Fazem até brigadeiro de pistache, que nada mais é que leite condensado cozido e verde. Os cupcakes são lindos, mas estão em todo lugar. É questão de tempo para saírem de moda. O problema é também este: quando uma receita – ou ingrediente – se populariza, passa a ser feita sem tanto cuidado. Perde sabor e qualidade. Pior é quando se industrializa As pessoas usam a culinária para demonstrar elegância e bom gosto. Aplaudem tudo que subitamente encanta críticos e publicações de culinária. Muitas vezes nem sabem se gostam ou não, na verdade. Fica “feio” não gostar. Quando algo se populariza, torcem o nariz. Ebuscam outra tendência que as faça sentirem-se especiais. Há um prato eterno: caviar. Da rainha Catarina da Rússia até hoje tornou-se uma unanimidade. A força do nome é gigantesca, embora quase ninguém experimente o verdadeiro, de ovas de esturjão, caro até dizer chega. Jt maioria só conhece outras ovas de peixe, tingidas de preto. Inventou-se até um suspeitíssimo “caviar de berinjela”, cuja característica é ser feito com berinjela, ter gosto de berinjela e preço à altura do nome. Devido ao preço, dificilmente se popularizará. Mas há riscos. Um amigo foi convidado para uma festa em que havia potes de caviar por todo lado. Descobriu o truque: o dono da casa havia feito sagu com tinta de lula. Ficou parecido. Como poucos conhecem o sabor do verdadeiro caviar, os convidados se esbaldaram. E todos se sentiram chiquérrimos. Se a ideia virar moda, daqui apouco até o caviar vira brega

 

O QUE APENDI COM MEU PAI

Todo pai ensina e todo filho aprende. Embora raramente um pai consiga apontar qual foi o momento em que mais influenciou o filho. Muita gente acha que sermões, proibições e castigos são eficazes na formação de caráter ou personalidade,quando podem diminuir e magoar .O que fica de bom para sempre, aquilo que faz uma criança querer se mostrar valorosa aos olhos . pai e do mundo são exemplos, gestos, atitudes, atenções, frases na hora certa. Muitas vezes, são detalhes que provocam uma situação, como a bolinha de papel encontrada numa festa pelo hoje PELO Bem Hur Ferras Neto ou um comentário despretensioso que o pai da atriz Carolina Ferraz fez no telhado, num começo de noite em Goiânia. A seguir, algumas lições de vida que vieram de nenhuma formula pretensiosa, e sim da simplicidade.

Carolina Ferraz

Com 11 anos, meu lugar preferido no sobrado em que morávamos era a caixa-d’água. Pegava o radinho de pilha, um gibi ou livro, . ia para a varanda do segundo andar, pulava para o telhado e escalava até quase o topo, onde ficava um patamar com a caixad’água. Passava horas ali,lendo, ouvindo música, fazendo nada, curtindo as tardes de Goiânia. Era o que mais gostava de fazer. Um dia, perto do anoitecer, houve um apagão, e acabou a luz de toda a cidade. Aconchegada em meu observatório,ouvi minha mãe pedir a meu pai: “Ladislau,já vai escurecer, e a Carolina está de novo lá em cima. Pode ir resgatar a menina da caixa-d’água?”. Meu pai escalou o telhado,

sentou-se a meu lado e,em vez de me pedir para descer, engatou uma conversa. Ficamos quase duas horas ali. Dois companheiros desfrutando a companhia um do outro, papeando, vendo o pôr do sol na planície, a variação de luminosidade nas ondulações da paisagem, a cidade ficando às escuras. De repente, já de noite, a energia voltou, aos poucos. As luzes das casas foram acendendo, começando pelos batfros a nossa esquerda, seguindo para a direita, passando por nós, até chegar à outra ponta da cidade. Foi uma cena bonita. Quando Goiânia ficou toda iluminada, meu pai fez um comentário: “Que engraçado. É o mesmo lugar, a mesma cidade, mas parecia uma coisa no escuro e, agora, com a luz, parece outra coisa, muito diferente. Tudo na vida é mesmo uma questão de ponto de vista”. Na hora, não entendi o que ele queria dizer, mas também não perguntei. Só gravei na memória. Anos depois, já adulta, me vi diante de uma daquelas situações em que os dois lados acham que estão certos e, assim, ambos acusam o outro de estar errado. Na mesma hora, me vi sentada na caixa-d’água com meu pai. Lembrei a frase, dei risada. A ficha caiu, iluminada como uma cidade depois do apagão.

 

Bem – hur Ferraz Neto

 

Diretor do programa de transplante do hospital Albert Einstein – 50 anos

 

Na festa de aniversário de um amigo, vi uma bola de papel no chão. Comecei a chutá-Ia, marcando golaços nas pernas das cadeiras. Quando cansei, guardei a bolinha no bolso, feliz por levar para casa o objeto que me dera tantas glórias naquele dia. Meu pai viu e não falou nada até chegarmos em casa. Ainda na sala, perguntou, com voz calma, como se fosse só curiosidade: “Filho, você pegou algo na festa?” .Eu tinha 5 anos, mas já aprendera a falar a verdade, poís me dera mal em todas as vezes em que mentira. “Peguei”, respondi, tirando a bolinha do bolso. “Tem certeza de que podia pegar? Você pediu?” “Não,pai.” “Então, vamos voltar”, ele disse, com tom firme, mas sem drama, como se fosse natural rodar quarteirões para determinar a legitima propriedade de um chumaço de papel. De volta à festinha, meu pai perguntou ao dono da casa se eu podia ficar com a bolinha. Claro que sim, ele disse. Voltamos para casa, pai e filho unidos pela sensação de ter feito a coisa certa. Foi dessa maneira que meu pai, o advogado José Ben-Hur de Escobar Ferraz Junior, me apresentou a uma de suas premissas sagradas: “Todas as conquistas têm de ser feitas de maneira digna e sólida”. Eas condições para isso estavam ligadas a outro principio: “Acredite nos seus valores, mantenha sua posição”. Meu trabalho está associado à fila de transplantes de figado. É um programa de computador que a controla, seguindo critérios que estabelecem prioridades. Há pacientes que me rogam para que eu encontre um modo de furar a fila. São súplicas de cortar o coração. A bolinha de papel, no entanto, ainda fala mais alto. Não existe jeitinho, só a coisa certa.

 

Josué Christiane Gomes da Silva

Empresário I 48 anos

Filho do vice-presidente José Alencar

 

Meu pai me deu muitos bons exemplos. Um dos mais valiosos foi na fase de seu tratamento de câncer. Papai descobriu a doença em Belo Horizonte, Minas Gerais. Tinha um tumor no rim direito. Sempre objetivo, ele me ligou. “Josué, preciso que você agende uma consulta com um especialista porque estou com um tumor no rim direito. Pode ser maligno, e a recomendação que recebi foi operar.” Marquei a consulta e fomos ao médico. O tratamento recomendado pelo médico era mesmo extirpar o rim. Papai respondeu que a cirurgia poderia ser marcada imediatamente. Ele era assim, nunca gostou de solução parcial. Nunca foi de procrastinar nada. Papai conviveria com essa doença, com idas e vindas, por 14anos, até sua morte. Durante todo esse tempo, nunca vi meu pai perder

a calma, se revoltar. E,ao mesmo tempo, ele nunca se acomodou, nunca deixou de lutar. Ele mostrou na prática como aceitar os desígnios de Deus sem revolta e, ao mesmo tempo, enfrentar com coragem. Muitas vezes, recomendava que tratamentos mais fortes – e por vezes sofridos – fossem adotados porque eram os que tinham a maior perspectiva de cura. Ele inspirou muita gente com aquela atitude positiva. No hospital em que fazia a maior parte do tratamento (Hospital Sfrio Libanês, em S§o Paulo), às vezes, as pessoas reconheciam alguém da nossa família no corredora vinham nos pedir para transmitir ao papai um obrigado, porque ele tinha sido ou estava sendo fonte de força para alguém. Para mim, ele é até hoje.

 

NELSINHO PIQUET

Automobilista 127 anos

Filho do corredor Nelson Piquet

 

Meus pais se separaram muito cedo. Até os 8 anos morei na França com minha mãe. Minha relação começou um pouco mais tarde com meu pai. quando fui morar com ele em Brasilia. Demorou um pouco para eu ter intimidade. Nem português eu falava. Só inglês e francês. Meu pai trabalhava muito. O tempo que passávamos juntos era na pista. Logo comecei a treinar kart. Elesempre me incentivou. Mas fazia questão que não descuidasse da escola. Aos 17anos. Quando percebeu que eu seria piloto. me deixou treinar na Inglaterra. A corrida nos aproximou muito.

Compartilhávamos os desafios. Os problemas. Ele sabia pelo que eu

estava passando quando perdia ou tinha um problema com o carro. Ele me dava o apoio que nunca recebeu. Meu avô era médico. foi ministro da Saúde. Um cara estudioso. Um tio trabalhou num banco. O outro era professor na universidade. Meu avô esperava que os filhos seguissem um desses caminhos. Meu pai era diferente. Adorava motor. esportes. Começou a trabalhar com mecânica e passou a correr. Meu avô não podia saber. Ele achava perigoso. Para ele. esporte não dava futuro. Então meu pai corria com outro nome. Escrevia Piket com K.Meu aV2 morreu antes de ele ficar famoso ~ Fórmula 1. Meu pai sempre tomou cuidado em respeitar as escolhas dos filhos e apoiá-los. Ele ficou a meu lado quando decidi ser corredor. Edeu apoio a meu irmão. que correu por um tempo. mas decidiu que queria fazer outra coisa. Elevai completar 60 anos agora no dia 17.e farei uma homenagem. Usarei numa corrida um capacete igual ao que ele usava quando começou a correr escondido, para todo mundo ver.

 

 

Abilio Diniz

Presidente do Conselho

de Administração do Pão de

Açúcar I 75 anos

Filho do empresário Valentim

dos Santos Diniz

 

Meu pai, Valentim dos Santos Diniz, foi meu ídolo. Muito do que fazia era para ele, para contar ou mostrar, para que tivesse orgulho de mim. Na doceria Pão de Açúcar, em 1948, com 12 anos, enrolava os brigadeiros com capricho, para que ficassem como meu pai gostava. Com 13, pedalava rápido na bicicleta para que as encomendas chegassem logo à casa dos clientes. Pois na volta ele elogiaria meu esforço. Com 22 anos, em 1959, desisti de ser professor para ajudá·lo a criar o primeiro supermercado Pão de Açúcar. Fiz isso por enxergar ali um negócio promissor, e também para agradá-lo. Homem simples, que não completou o ginásio, tinha uma sabedoria natural. Cordial, uma unanimidade de simpatia. Não dava má notícia, só queria saber de coisas construtivas. Tinha horror ao desleixo, ao erro. “Nunca deixe nada ao acaso”, era uma frase que escutei desde que me entendo por gente. Quando tinha uns 12anos, meu pai me ensinou a dirigir. Era um tempo de ruas sem carros, e o motorista do furgão da doceria me deixava guiar entre uma casa e outra. Quando passei a dirigir sozinho, com 15 anos, meu pai disse: “Abilio, o acaso também existe no trânsito. Prefiro que você atravesse no farol vermelho com cuidado do que passe no verde sem olhar”. Não entendi. Se estava verde, era meu direito passar. Poderia e deveria ir adiante. “Isso não significa nada”, disse meu pai. “Nem todos seguem as regras. Não dê margem ao erro.” Uma das frases que mais uso hoje é uma variante da máxima de meu pai: “Seja o condutor de sua vida, não o passageiro”. Não deixe que as circunstâncias transformem sua existência no que você não quer que ela seja.

 

WASHINGTON OLIVETTO

Publicitário 60 anos

Filho do comerciante Wilson OIivetto

 

Para não ter de fazer o que a gente não gosta, é preciso escolher bem o que a gente gosta. Essas 20 palavras representam um dos maiores legados de meu pai, Wilson Olivetto, grande vendedor de espírito inquieto e alma engenhosa que me mostrou os dois lados da moeda. Nos fins de semana, meu pai fazia questão que eu= compartilhasse sua paixão, a mecânica, ajudando a desmontar e montar motores na garagem de casa. Era ótimo passar um tempo só com ele, embora aquilo tivesse gerado o efeito colateral de provar que graxa não era minha praia.

Se os domingos me mostraram o que jamais seria, os dias da semana me aproximaram do que me tornaria. Representante comercial dos pincéis Tigre, meu pai às vezes me levava com ele em visitas aos clientes. Ali, compreendi a importância de saber vender. Também aprendi. 13 de agosto de 2012 aprendi que toda venda nasce do bom relacionamento com o cliente. Uma vez, numa loja de tintas, o gerente disse: “Wilson. entra ai, vê o que falta e manda para nós”. Assim mesmo, sem conferir. Seguro de ter feito um bom negócio. “Um dia vou ser assim”, eu pensava. Mas vender o quê? Nem desconfiava. Só sabia que gostava de escrever. Um dia, aos 17anos, descobri que a profissão que unia escrita com venda se chamava publicidade. Aos 18, consegui um estágio na área. Revelou-se ali o que nasci para fazer. As coisas deslancham quando se faz bem-feito o que se gosta. Um ano e meio depois de entrar na agência, recebia mais que meu pai, que estava longe de ganhar mal. Quando lhe contei meu salário, ele achou que era fantasia. Quando viu que era verdade, ficou orgulhoso como se o filho tivesse montado sozinho um motor de caminhão.

 

 

MARA GABRILLI

Deputada 144 anos

Filha do empresário Luiz Alberto Angelo Gabrilli Filho

 

Nem eu nem minha mãe temos registro de nenhuma frase de efeito de meu pai. Esse não era seu estilo. Transparente e correto, capaz de se emocionar só porque o dia estava bonito, o negócio de Luiz Alberto Angelo Gabrilli Filho eram atitudes e exemplos. Em vez de chavões como “o trabalho enobrece o homem”, chegava cedinho na Viação São José, empresa de ônibus de Santo André que fundou e dirigiu por décadas, e voltava para casa à noite. Não alardeava a “importância das pessoas”, mas tratava funcionários com esplrito fraterno. Mesmo na fase rebelde de minha adolescência (que o deixou meio louco), meu pai, apesar tio ciúme que sentia, tinha dificuldade de me negar pedidos, ainda mais quando eu queria muito. Aos 22 anos, um namorado me convidou para viajar a IIhabela. Aceitei, morrendo de medo da reação de meu pai. Como mentir era fora de questão, fiquei no meio-termo: pedi para minha mãe avisá-lo e viajei com a

promessa de ligar em breve. No sábado de manhã, pendurada no orelhão, me preparei para enfrentar a fera. Ao atender, ele disse, bem-humorado: “E então, olha só, uma bela em ilha bela

Isso me desmontou. O medo, muitas vezes, só existe na cabeça das pessoas. Senti-me tola por ter temido a pessoa que virava motorista de ônibus aos domingos para rodar pela cidade .+ comigo e com meu irmão, o cúmplice com quem tomei meu primeiro pileque. Como falava pouco, ele nunca comentou essas coisas. Muitas vezes sorria com ar maroto, orgulhoso de suas traquinagens com os filhos.

 

DUDU BRAGA

Publicitário I 44 anos

Filho do cantor Roberto Carlos

 

Nasci com uma doença congênita nos olhos: glaucoma. Com 15dias de vida. meu pai voou comigo para Amsterdã. na Holanda. para eu ser tratado. Era o único lugar que fazia o tipo de cirurgia de que eu precisava. Passei por sete operações. Enxerguei até os 22 anos. Quando tive um descolamento da retina e perdi a visão. Normalmente. Quando um filho tem um problema de saúde. é comum os pais superprotegerem. Meu pai nunca deixou de me educar. Ele era carinhoso. cuidadoso. Mas me disse tantos “nãos” quantos “sins”. Hoje sou pai e sei como é difícil dizer “não” para os filhos. Como todo artista. meu pai não é dono do próprio tempo. Em minha infância. minha mãe organizava nossa agenda de acordo com a de meu pai para que ficássemos juntos nas temporadas de show. Quando tive o descolamento da retina. ele grudou em mim por dois anos. Nem sei como conseguiu. Ele não é só um exemplo como pai. mas também como pessoa. É simples com todos que conhece e extremamente coerente com as coisas em que acredita. A forma como toca a vida dele é um exemplo para mim.

 

“ACHEI UMA NOVA PLANTA”

O aprendiz de botânico Geovane Siqueira ajudou a encontrar um novo gênero vegetal no Espírito Santo

“Já trabalhei em fábrica de caixa de frutas e de vassoura de piaçava. Naquela época, quase não tinha contato com a natureza. Quando comecei como auxiliar de pesquisas na Reserva Natural Vale (uma área de conservação da mineradora no Espírito Santo), descobri que a piaçava das vassouras vinha de uma palmeira. Engraçado, néi Fazia a vassoura e não sabia de onde vinha. Comecei a trabalhar com as árvores. Fui contratado para medi-las, fazer seu levantamento e ver sua saúde. Aprendi na prática. Tem gente que olha a flores ta e vê um amontoado de verde. Vejo várias tonalidades: mais fraca, mais intensa. É muito rico. Os mateiros me ensinaram muito. Quando fui trabalhar no herbário da reserva, comecei a ler e aprender mais. Entender sobre as famílias, os gêneros, os nomes das plantas. Tive oportunidade de conhecer pesquisadores que viraram grandes amigos. Hoje sei separar as espécies em famílias. Até os gêneros chamo pelo nome. Você só aprende quando gosta. Pegava os livros na biblioteca. Hoje tenho minha biblioteca em casa. Só sobre planta.

Fico cerca de oito horas do meu dia na floresta e faço faculdade à noite.

Meu destino é ajudar o meio ambiente. Andando pela floresta, reconheço quase tudo. Já ajudei a coletar umas seis novas espécies. Quando comecei a trabalhar na reserva, há 17 anos, havia 8 mil exemplares de plantas em nosso herbário. Hoje, são 14 mil. Se não existir a floresta, não haverá passarinho para cantar bonito, onça para rosnar. A planta não dará fruto se não houver a abelha e outros insetos para polinizar. Um depende do outro.

Um dia, um pesquisador chamado Pedro Acevedo-Rodríguez (porto-riquenho do Museu de História Natural do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos) me mostrou unia foto de um fruto desconhecido da ciência. Disse que a planta desse fruto devia existir perto da reserva. No ano passado, andando com dois rapazes numa mata ali perto, encontrei uma árvore diferente. Estava embaixo de uma plantação de cacau. Na hora percebi que tinha chance de ser a tal espécie desconhecida. Quando contei que poderia ser até um gênero novo, ficaram entusiasmados. Não é todo dia que se faz uma descoberta assim. Coletei o material e mandei para o Pedro. Para descrever uma planta, você precisa ter material botânico em flor e

em fruto. Ele tinha recebido uma coleta do fruto havia muito tempo, mas não a flor. Depois que mandei a flor, ele chegou à conclusão de que se tratava de um novo gênero vegetal. Resolveu

me fazer uma homenagem. Usou meu sobrenome para dar o nome da espécie: Alatococcus siqueirae. É uma espécie da família do guaraná.

Agora, estudo biologia para me tornar botânico. Fiquei sabendo que apenas

cerca de 700 pessoas se dedicam exclusivamente à botânica aqui. Parece que a profissão no Brasil está como as matas, em extinção. O país foi descoberto em 1500. Sua flora é uma das mais diversas

do planeta. Ainda há muitas plantas desconhecidas. Em outubro, a que ajudei a descobrir deverá estar com o fruto maduro. Vamos pegar as sementes e reproduzir a espécie. Assim evitaremos que ela corra o risco de extinção”.

 

PARA LIGAR . SEM OS ÓCULOS

 

Projetado para os idosos, o SafePhone é fácil de usar e útil em emergências , Por que os celulares modernos são tão complicados e seus botões tão pequenos? Essa é uma queixa comum entre os mais velhos, Pensado para esse público, o Safe Phone, da Gradiente, cumpre bem sua função. Minha mãe, de 77 anos, testou o aparelho. Ela adorou o tamanho do teclado, que dispensa os óculos. O menu do celular é simples. Tem entre as funções uma câmera fotográfica, rádio FM e lanterna. O carregador é uma base de plástico, fácil de encaixar. O SafePhone tem um botão S.O.S.para situações de emergência. Quando você aperta, ele liga para cinco números cadastrados. Caso não atendam, automaticamente manda um SMScom a mensagem “Urgente! Preciso de ajuda” Se você ativar a função de rastreamento, a mensagem de texto aiIÍtla traz um link para sua localização no Google Maps. Preço sugerido: R$ 499.

Margarida Telles

 

ATORMENTA E PASSAGEIRA

 

No mar, passamos por experiências inusitadas. De um momento para outro, um mar calmo

pode ficar catastrófico.As coisas se transformam rapidamente. É importante lembrar disso, na calma, para nos precavermos. E no momento do sufoco, para não perdermos a calma.

Em novembro de 1997, zarpamos de Florianópolis rumo a Punta del Este, no Uruguai. No verão, os ventos são favoráveis. Sopram do quadrante norte-nordeste em direção ao sul. Naquele ano foi diferente. Desde nossa partida, enfrentamos três frentes frias. Não havia lugar para nos abrigarmos. Quando passamos da costa do Chuí, no Rio Grande do Sul, encontramos fortes ventos, e o mar voltou a ficar tempestuoso. As ondas lavavam o veleiro em toda a sua extensão.As rajadas chegavam a 100 quilômetros por hora.

A noite caiu. Víamos nuvens pretas se aproximando com os flashes dos relâmpagos cada vez maiores. Martin, um tripulante neozelandês, estava comigo no cockpit. Cada um com dois cintos de segurança. O resto da tripulação descansava. O Aysso é de aço e, numa tempestade elétrica, forma uma estrutura de metal que atua como uma blindagem contra os raios, protegendo o que estiver em seu interior. Esse princípio, chamado de Gaiola de Faraday, é o mesmo que faz com que uma pessoa no interior de um carro ou de um avião esteja protegida.

De repente, escutei um estrondo ensurdecedor e, pela primeira vez, vi todo o barco se iluminar como se fosse uma luz fluorescente gigante azulada. Era o Fogo de Santelmo, uma espécie de bolha de ar elétrica e luminosa. Pode ocorrer numa embarcação de dois mastros como o Aysso,mas é raro. Eu nunca tinha passado por um momento tão forte. Numa fração de segundo, Martin, que estava em pé na minha frente, se abaixou em posição fetal ao lado do mastro. Gritei pedindo ajuda. Ele não se mexia.

Outro tripulante subiu rapidamente para ajudar. Como num pulo de canguru, Martin entrou no veleiro e se isolou em sua cabine. Quando finalmente ancoramos na mar in a de Punta del Este, Martin saiu de sua cabine dizendo que nunca mais queria passar por uma experiência daquelas Lembrei-lhe que a superstição marinheira diz que o Fogo de Santelmo é sinal de boa sorte. Martin não se convenceu e foi embora.

Navegando, estamos sujeitos aos imprevistos da natureza. Para enfrentar tempestades. Precisamos estar bem física e psicologicamente. É normal sentir medo. Mas não podemos deixar que ele nos paralise. Lembrar que a tormenta é passageira, no mar e na vida, sempre ajuda.

 

GAROTAS EM TEMPOS DE CRISE

Uma autora de 24 anos escreve sobre girls. A série que retrata a vida de quatro amigas americanas em meio a à recessão

 

Há pouco mais de cinco meses, soube que o canal HBO estava apostando numa nova série polêmica para jovens, intitulada Girls. Escrita por Lena Dunham, uma nova-iorquina de 26 anos, com apenas três de experiência como escritora profissional, Girls prometia chegar à televisão para ser a voz de minha geração .: uma espécie de Sex and the city pósmoderno e rejuvenescido, que migrou de Manhattan para o Brooklyn em tempos de recessão na economia americana.

Fiquei intrigada com a publicidade da série. Aos 19 anos, lancei meu primeiro livro, Fugalaça, escrito à maneira crua e impulsiva dos 16 anos. O livro se baseava em  dolorosas pelas quais passara na adolescência. Por um momento efêmero, fui considerada a tal “voz da geração” no Brasil, sem que me perguntassem se eu queria carregar um titulo tão perigoso. Por isso me identifiquei com a pressão que Lena devia estar sentindo.

No episódio-piloto de Girls, (que estreou em 23 de julho no Brasil e vai ao ar às segundas-feiras, às 22 horas, na HBO), descobri que subestimei Lena Dunham. Indiferente à expectativa em torno dela e da série, ela criou, roteirizou e dirige brilhantemente o seriado, produzido pelo respeitado Iudd Appatow, o mesmo dos filmes Virgem de 40 anos e Ligeiramente grávidas.

Na vida das garotas da série, não existe glamour, mansão em Beverly Hills, cartão de crédito sem limite e programas de computador que escolhem seus modelitos. Girls é sobre quatro amigas de classe média alta passando por dificuldades num país em crise econômica. Elas tentam descobrir quem são e que caminho vão seguir – e cometem muitos erros. Assim como em Sex and the city, cada uma delas representa um tipo de garota e de personalidade: há uma virgem temerosa e certinha, uma jovem sexualmente livre que acaba grávida, a mandona que tem o mesmo namorado há vários anos e a desengonçada Hannah, em torno da qual a série gira, interpretada pela prória Lena. Sua personagem é uma garota de 24 anos com excesso de peso, aparência desleixada e autoestima baixa, que sonha em se tornar escritora. Ela aparece constantemente nua, em cenas de sexo humilhantes. Para uma geração viciada em Photoshop, as imagens são chocantes. Quando os pais anunciam que não vão mais sustentá-la em Nova York, Hannah tenta convencê-los a manter a mesada ao menos enquanto tenta escrever seu primeiro livro. Depois de tomar uma xícara de chá de ópio numa festa, diz a eles: “Acho que sou a voz da minha geração. Ou, pelo menos, uma voz de alguma geração’: A pretensão da personagem foi usada por jornalistas do mundo todo para definir a essência da série, e não está longe da verdade. Hannah pode, ou não, ser a voz da

sua (e da minha) geração, mas ela certamente tem voz própria. Ela e suas amigas Iessa (Jemima Kirke), Marnie (Allisson Williams) Fotos: divulgação e Shoshanna (Zosia Mamet) pertencem

a um grupo específico de meninas de 20 e poucos anos. São brancas, bem-nascidas, se formaram

na faculdade e são sustentadas por pais que não se divorciaram. Usam drogas, fazem sexo, têm aspirações criativas e moram numa cidade grande. Seus problemas são semelhantes aos de muitas garotas de minha idade. Elas lidam com relacionamentos insatisfatórios, baixa auto estima, gravidez indesejada e doenças venéreas. Mas muitas, como eu, não conseguem se identificar inteiramente com os personagens.

Ao assistir à experiência de Hannah em Nova York, sinto que a vivi durante os 16 e 17 anos em São Paulo. Hoje, aos 24, sou bem-sucedida na carreira, casada e moro nos Estados Unidos. Meus problemas já não são os relacionamentos ou estágios sem remuneração, mas as contas do advogado de imigração e o próximo prazo que tenho de cumprir. O essencial no seriado

não é a identificação, mas a honestidade brutal do texto de Lena, que diverte e choca a cada cena.

Após a estreia de Girls nos Estados

Unidos, meninas negras se sentiram ofendidas por sua exclusão da trama. Lena respondeu que não foi sua intenção excluir, mas escrever sobre sua realidade e de suas amigas – que toca, pelas circunstâncias econômicas, aquela de outros grupos sociais americanos.

No primeiro episódio, vemos Hannah reclamando que acabará trabalhando no McDonald’s. Um de seus amigos interfere e diz: “Qual é o problema em trabalhar no Mcdonalds? Você deveria trabalhar no Mcdonalds. É maravilhoso. Você sabe quantas pessoas o Mcdonalds alimenta? Quantas pessoas ele emprega

pelo mundo?’: Hannah diz: “Isso não quer dizer que eu tenha de trabalhar lá. Eu me formei na faculdade’: “Também me formei na faculdade’: o amigo responde. “E sabe aonde isso me levou? Tenho US$ 50 mil em dívidas. Deus, ouvir vocês é como assistir ao filme As patricinhas de Beverly Hills,” A crítica social é boa e divertida. Na vida real, nos Estados Unidos, um funcionário do Mcdonalds recebe um salário melhor do que jovens universitários como Hannah. Se você não se identificar com nada disso, não-importa. Faça como Lena ou como Hannah, e escreva sua próprÍ<l história.

 

CINEMA PARA DEPOIS DOS 60

 

Por que filmes da terceira idade são cada vez mais comuns

 

Em Um divã para dois, filme que estreia no Brasil nesta semana, Meryl Streep vive uma mulher insatisfeita com seu casamento de 30 anos. Elatem motivos. Seu marido, interpretado por Tommy Lee Iones, dorme em quarto separado, não a beija há mais de quatro anos e, toda noite, prefere assistir a um programa de golfe na televisão a ficar em sua comganhia, Quando o assunto é sexo, a barreira é ainda maior. Há muitas desculpas e nenhuma intimidade. Para tentar recuperar a libido, ela procura um renomado terapeuta de casais. Passo a passo, ele envia o casal a realizar missões picantes.

O filme, cômico, integra um nicho que vem ganhando força nos últimos anos: o cinema para a terceira idade. São histórias sobre dilemas amorosos, sexuais e existenciais de pessoas acima dos 60 anos. Entre eles estão os premiados Amour, uma história sobre um casal de 80 anos, vencedor da Palma de Ouro em Cannes deste ano; e O exótico hotel Marigold, de 2011, uma comédia sobre

aposentados que faturou US$ 130 milhões pelo mundo – tendo custado US$ 10 milhões.

A tendência representa uma ruptura com um preconceito  antigo. Anos atrás, filmes que mostravam relações românticas entre casais acima dos 60 anos não eram bem recebidos. Numa das cenas famosas do gênero, do filme Chuvas de verão, de 1977, os experientes atores Iofre Soares e Miriam Pires eram vaiados ao aparecer nus e abraçados na tela. O público parecia agredido pela cena. “Muitas pessoas não gostaram’: diz Cacá Diegues, diretor do longa-metragem. “Os  personagens idosos eram ridicularizados”. De acordo com a médica Marilene Vargas, diretora do Núcleo de Sexologia e Geriatria de Curitiba, acreditava-se até recentemente que os velhos eram assexuados. Hoje, sabe-se que não há idade-limite para levar uma vida romântica e sexual saud~vel.

A explicaçãopara a mudança no comportamento dos produtores de cinema e do público é óbvia: a população está envelhecendo.Segundo dados de 2011 da ONU, 13% dos moradores do planeta Terra (893 milhões de pessoas) têm mais de 60 anos. Mas não é só isso. Para o antropólogo Roberto DaMatta, articulista de ÉPOCA, a percepção de que muitos de nós viveremos mais que 70 anos faz com que pensemos e falemos mais sobre a velhice. “O espaço entre maturidade e o fim está maior’: diz. “Os filmes sobre o tema permitem rever a vida. Propõem que o espectador encontre energia para renovar:’

Outro fator influente, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, é a vontade dos mais velhos em se manter atualizados. Com tantos filmes para adolescentes, aqueles que nasceram entre os anos 1940 e 1960 sentiam-se excluídos. Trazer ao cinema personagens maduros é uma maneira de atrair esse público, que busca ver-se nas telas. Se o cinema segue dados demográficos, é bom estar preparado para mais: estimativas da ONU mostram que, em 2050, o número de idosos será de 2,5 bilhões. O triplo de hoje.

 

Um clássico renasce com o erotismo

Um músico religioso do século XVI faz sucesso ao ser citado na saga pornô Cinquenta tons de cinza

Luis Antônio Glron

Pouca gente conhece o compositor inglês Thomas Tallis. Ele viveu no século XVIe escreveu predominantemente música religiosa, em especial motetos polifônicos, peças corais compostas para várias vozes.Anastásia Steele, a jovem protagonista do romance erótico Cinquenta tons de cinza, da escritora britânica E.L. [ames, também nunca ouvira falar de t” Tallis. É apresentsfla a ele pelo bilionário Christian Grey,seu namorado e iniciador nas artes do sadomasoquismo, bem no início

do romance. Eles estão andando de carro, e Anastasia pergunta a Grey sobre seus gostos musicais. “Sou eclético, Anastasia, gosto de tudo, de Thomas Tallis a Kings of Leon. Depende do meu estado de espírito.” Ela confessa que não sabe quem é Tallis. “Vou pôr para você ouvir uma hora dessas. É música coral sacra da época Tudor”, diz ele. “Parece incomum, mas também é mágico.”

A segunda vez que Tallis aparece é numa fase avançada da educação de alcova de Anastásia. Ela atinge o orgasmo mais intenso e agonizante de sua vida, ao ouvir uma peça coral polifônica – vendada, com fone de ouvido, em meio ao sexo com Grey. “Vozes seráficas…’Que música era aque la?’,murmuro quase inarticuladamente. ‘Chama-se Spem in alium, um moteto de Thomas Tallis’ Eu fiquei… deslumbrada.” Bastaram essas duas menções para a peça coral de Tallis chegar às paradas de sucesso. Como o livro de E.L. [ames tornou-se o maior best-seller mundial da temporada, com 31 milhões de exemplares vendidos em língua inglesa – e 200 mil na tradução em português, lançada há três semanas, uma fração de seus leitores curiosa em ouvir aquela música tão angelical como estimulante foi suficiente para transformar Tallis, com quatro séculos de atraso, em astro das paradas de sucesso. Spem in alium ocupa a lista de faixas clássicas mais vendidas do site iTunese conquistou asparadas britânicas.Agravação que mais faz sucesso foi realizada em 1985pelo grupo londrino The TallisScholars. A música ultrapassou as árias de ópera do tenor Luciano Pavarotti. O site ClassicsOn Line, da Naxos, a maior gravadora e distribuidora erudita do mundo, publicou na semana passada uma lista de 50 CDs com obras de Tallis.Segundo o presidente da Naxos,o produtor e crítico alemão Klaus Heymann, os discos de Tallis estão vendendo como nunca. Por linhas tortas, um autor tardio da Renascença pega carona numa saga pornô para fazer sucesso com uma composição cuja letra em latim soa ainda mais incompreensível pela profusão de vozes. – e por motivos alheios a ele. Os versos contam a história da personagem bíblica Iudite e preconizam a “eiperança no outro” (spem in alium, em latim). O moteto, com suas oito vozes entrelaçadas e clima místico, é a obra mais complexa realizada até então por um compositor inglês.

Thomas Tallis (1505-1585) está longe de ser um astro índice. Muito ao contrário. O músico nascido em Greenwich, cidade então vizinha a Londres e hoje distrito da capital, trabalhou por 40 anos como organista e compositor da corte dos Tudors. Serviu os reis Henrique VIII, Eduardo VI, Maria Tudor e Elizabeth L Entre seus deveres constava escrever austeras obras corais para a liturgia, católica ou anglicana, dependendo do humor dos monarcas. Sua flexibilidade e discrição o fizeram enriquecer a serviço da nobreza. Casou-se com uma certa Joan e não deixou filhos. Há apenas um ano, suas obras eram conhecidas de círculos restritos de musicólogos. Spem in a/ium estreou em 1573 na corte inglesa, por ocasião dos festejos do aniversário de 40 anos da rainha Elizabeth L Ela ainda foi apresentada em 1610 durante a investidura do príncipe Henri- que, irmão mais velho do rei Carlos L E só voltou a ser tocada no século XX, com o interesse pelas pesquisas de arqueologia musical.

Tudo o que ajuda a aumentar o interesse pela música clássica é bem-vindo”, disse Klaus Heymann a ÉPOCA. “Não há nada de errado se uma composição clássica é associada a um romance erótico. Além disso, há muito erotismo, sensualidade e romantismo nos clássicos. Pense em Tristão e Isolda, Pelléas e Mé/isande e O Cavaleiro da Rosa:’ Ele serefere às óperas de Richard Wagner,Claude Debussy e Richard Strauss, todas repletas de cenas

de amor e morte.

Para entender o sucesso de Tallis, é preciso esquecer o ritmo em que se lançam e se apagam os sucessos da música pop. As modas no mundo erudito se mostram mais lentas, e as motivações do público são imprevisíveis.Um tenor morto como Pavarotti pode continuar tendo fãs até o fim dos tempos. Os Tallis Scholars estão na ativa há 39 anos, já fizeram 1.700 concertos, gravaram 70 álbuns para o selo Gimell e, ainda assim, não faz muito, eram respeitados apenas no minúsculo nicho sacro. Partituras eruditas até chegam às paradas de sucesso a partir de trilhas de cinema, mas é raro que isso ocorra por causa de um livro. Romances famosos já ajudaram a consolidar composições de jazz, pop e eruditas (leia o quadro abaixo). No caso de Spem in alium, o frisson está menos no talento dos músicos do que na profanação, pois uma peça religiosa é usada para animar práticas sado masoquistas.

Para muitos especialistas,Thomas Tallis deve estar se revirando em sua tumba na igreja de St. Alphege em Greenwich. A perversão não incomoda Steve Smith,produtor da gravação do coral TallisScholars:”Tallis não poderia ter previsto esse tipo de sucesso”, afirma. “Levando em conta que há uma espécie de arrebatamento na música, posso entender por que E.L. Iames achou-a apropriada a seus objetivos. A música é muito intensa e contém um clímax:’ A composição de Tallis deverá fazer parte da trilha sonora do futuro filme baseado na obra de E.L. James. É possível imaginar a sequência de orgasmos com espancamento ao som dd severíssimo moteto sacro. Não surpreenderá se a peça começar a ser usada para esquentar encontros amorosos em motéis, casas de suingue e afins. Difícil será ouvi-la nas igreja

 

A REVOLTA DOS MEQUETREFES

 

Revoltante a perseguição do Brasil a seus 81 senadores. Durante a vida toda, servindo a nação, eles receberam sem problema dois salários extras por ano, o 14º e o 15º.Nos valores atuais, R$ 53.400. Jamais pagaram algum imposto em cima dessevalor.Zero. E,agora, vem a ReceitaFederal e decide

cobrar deles o imposto devido nos últimos cinco anos, com multas e juros. Como se eles fossem uns mequetrefes. O Leão deu um prazo de 20 dias para Suas Excelênciasenviarem cópias de contracheques e comprovantes de rendimentos anuais.

Os senadores deveriam aderir à onda das greves. Virou moda servidor público partir para o confronto com a presidente Dilma e, por tabela, infernizar a população na rua, nas

universidades, nos hospitais e nos aeroportos. Não importa quanto ganhem. Não importa que tenham recebido aumentos nos últimos anos acima da inflação.Aumentos maiores que os da população, engarrafada pelo poder dos sindicatos.

Uma greve dos senadores teria a vantagem de nem ser percebida, porque não faria a menor diferença para a vida de ninguém. Ou alguém acha que o país sofre durante os meses de recesso em que pagamos aos senadores para que eles não façam drtda? Eles não fazem

nada, e nós sofremos menos ainda.

Cada senador terá de devolver R$ 64.700, fora juros e multas, referentes aos anos de 2007 a 2011. Uma fortuna! Principalmente se calcularmos a merreca mensal que eles recebem de subsídio e verbas extras. Sete deles também ganham aposentadoria de ex-governador. Um é o presidente do Senado, José Sarney, em seu terceiro mandato – que dá exemplo ao não revelar quanto ganha.

Embora sua zelosa assessoria de imprensa se recuse a divulgar, calcula-se que, somando tudo, deve rondar os R$ 80 mil a remuneração mensal do maranhense que adotou o Amapá. Sarney recebe R$ 26.723,12 como senador, mais as aposentadorias de ex-governador do Maranhão e de servidor do Tribunal de Justiça, além das verbas extras, chamadas inexplicavelmente de “indenizatórias”. Se Sarney ganhar menos (e não mais), ÉPOCA receberá uma carta de Fernando Cesar Mesquita, da Secretaria Especial de Comunicação Social do Senado. Esperamos que ele nos informe o exato valor, discriminado, em nome da clareza.

Pelo menos outros seis senadores ganham, como Sarney, aposentadoria de ex-governador. Ela varia de R$ 11 mil a R$ 24 mil. São eles: Epitácio Cafeteira (PTB-MA), José Agripino Maia (DEM-RN), Valdir Raupp (PMDB-RO), Ivo Cassol (PP-RO), Jorge Viana (PT-AC) e Pedro Simon (PMDB-RS). Merecem ser citados por seu empreendedorismo.

Às vésperas de sair da vida pública com uma vingança na manga (deixar Renan Calheiros em seu lugar), Sarney se diz feliz porque a Receita cobrou imposto apenas em cima dos últimos cinco anos: “Se fosse de todos os meus mandatos, não seria uma facada, seria um tiro. Nem se vendesse a 11Fm de Curupu, que não é mais minha, daria para pagar’: Em 1970, Sarney se tornou senador pela primeira vez.

Os senadores se insurgiram contra a cobrança retroativa. Os políticos estão inquietos com essa mania de remexer o passado em nome da moralização e da transparência. Tanto esforço para não ser tratado como homem comum, zé-ninguém, mequetrefe. E, de repente, todas as regalias são ameaçadas, e o “toma muito lá dá muito cá” passa a ser crime. Até os pares cassam mandato. Imagine ter de enfrentar a Justiça de verdade e, pior ainda, o ministro Joaquim Barbosa fazendo

perguntas capciosas ao vivo, na televisão, de supetão, fora do roteiro, sem nada combinado? Por que o Brasil resolveu se tornar um país menos avacalhado e mais sério?

 

Essa facada da Receita Federal não fi cará assim não. Se a estratégia dos réus do mensalão é jogar a culpa no próximo, no subordinado ou no morto, os senadores também não assumem culpa de nada. Dizem que o erro foi do Senado, e não deles. Exigem uma negociação coletiva.

O líder do PSDB, o senador Álvaro Dias (PR), não se conforma em retirar do próprio bolso um dinheiro que, a seu ver, é devido pela instituição. “O erro foi do Senado, e nós é que vamos pagar a conta?”, pergunta Dias, escandalizado. Provavelmente, Dias quer que a dívida dos 81 senadores com a Receita seja retirada dos cofres públicos, de posso bolso. Nenhuma dessas raposas políticas sabia que teria de pagar Imposto de Renda sobre o 142 e o 152 salários. Eles achavam que isso era só ajuda de custo. Porque a vida deles custa muito. Não bastam auxílio-moradia, auxílio-passagem, auxílio telefone, auxílio-combustível, auxílio-assessor,auxílio-correio, auxílio-refeição. Precisamos fazer um mutirão, uma vaquinha para ajudar os senadores amotinados. Caso contrário, eles podem fazer greve. Já pensou? Nem vou dormir.

fapesp 16-08

 

Fertilidade Masculina

 

 

Uma pesquisa feita na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que o hormônio feminino estrogênio também desempenha papel fundamental na fertilidade masculina. ,\ descoberta ajuda a

entender alguns casos de inferrilidade de causa até então desconhecida e abre caminho para novos tratamentos. “O nível de estrogênio na corrente sanguínea do homem é mais baixo que o circulante na mulher. Mas, quando se analisam os órgãos do sistema reprodutor masculino, o teor é até mais alto que o existente na mulher. Queríamos entender qual era a importância desse hormônio nesses órgãos”, conta Catarina Segreti Porto, coordenadora da pesquisa financiada pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático.

,0 analisar material extraído do testículo de ratos, os pesquisadores descobriram -a existência de três diferentes

receptores de estrógenos nas ‘células responsáveis pela manutenção da’ produção do espermatozoide – as chamadas

células de Sertoli. “Essas células proliferam apenas em uma determinada fase do desenvolvimento que ocorre antes da puberdade. E esse processo é o que vai determinar a quantidade de espermatozóides que o indivíduo produz na idade adulta. Quanto mais células de Sertoli, portanto, maior o número de espermatozoides”, explicou Porto. Um dos receptores descobertos pelos cientistas – conhecido na literatura científica como receptor de estrógeno alfa – é justamente o responsável por estimular a proliferação das células de Sertoli. “Alguns casos de infertilidade masculina não têm relação com a falta de testosterona, de outros andrógenos ou de seus receptores. A explicação para

esses casos pode ser falhas na produção de estrogênio ou no funcionamento desse receptor alfa”, disse Porto. Os pesquisadores também demonstraram a existência do receptor de estrógeno beta, que tem a função antiproliferativa nas células de Sertoli e está expresso em maior quantidade no período que antecede a puberdade. O terceiro receptor encontrado é conhecido como C;PER e tem a função de inibir () processo de apoptose das células de Sertoli, ou seja, é responsável por manter as células vivas. “Esse receptor foi descoberto recentemente em pesquisas sobre câncer de mama e ainda não se tinha certeza se ele estava presente apenas em situações patológicas. Agora, mostramos que ele também tem função na sobrevivência de células normais”, disse Porto. pesquisa foi feita com células extraídas do testículo de ratos com 15 dias de idade, período em que o processo de proliferação começa a diminuir. “No futuro, poderemos pensar em ferramentas farmacológicas que seletivamente interajarn com cada um desses receptores. Mas antes precisamos investigar melhor a expressão desses receptores nas diferentes fases de desenvolvimento do animal e descobrir em que momento é possível intervir para garantir no adulto uma produção de espermatozóides normal”, disse Porto. Os resultados dessa linha do Temático já deram origem a quatro artigos – dois publicados na revista Biology of Reproduction, um na Spermatogenesis e outro nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia.

Câncer de próstata

Em outro braço do projeto também coordenado por Porto, os cientistas investigaram se a presença do estrogênio e de seus receptores no sistema reprodutor masculino também teria influência sobre o câncer de próstata.

“Sabemos que os hormônios masculinos ou andrógenos estimulam a proliferação das células malignas, tanto que um dos principais tratamentos para o câncer de próstata é justamente a= castração cirúrgica ou farmacológica”,

disse Porto. Cerca de 85% dos pacientes com câncer prostático respondem bem ao bloqueio dos hormônios andrógenos e o tumor para de se desenvolver, mas, dois ou três anos após o tratamento, uma parcela significativa tem recaída. “Para esses casos de câncer resistente à castração ainda não existe

tratamento efetivo. Eles progridem e causam metástase”, disse Porto. Ao analisar linhagens de células de câncer prostático resistentes à castração, os pesquisadores da Unifesp verificaram que os receptores de estrógeno alfa e beta também estavam presentes.

“Esperávamos encontrar esses receptores, uma vez que o estrogênio também é produzido na próstata, mas o surpreendente foi verificar que nas células cancerígenas eles estavam localizados fora do núcleo. Já nas células normais, mais de 90% dos receptores ficam dentro do núcleo”, contou a pesquisadora. volvimento do tumor. Esses estudos ainda estão em andamento, mas sugerimos que o estrogênio e seus receptores podem ter um papel na progressão do câncer prostático resistente à castração”, disse Porto. Os dados preliminares foram apresentados no The Endocrine Socicry’s 94th Annual Meeting, realizado em Housron, Estados Unidos, em junho.

 

Correio da Paraíba – João Pessoa – 05-08-12 – F 3 – Milenium

 

 

 

 

Mieloma múltiplo em estudo

 

Pesquisa avalia eficácia de terapias para retardar a progressão da doença em pacientes transplantados

 

 

Um estudo multicêntrico realizado por pesquisadores brasileiros mostrou que o uso combinado dos medicamentos talidomida e dexametasona em pacientes com submetidos a transplante autólogo de medula óssea foi mais eficaz para retardar a progressão da doença do que o uso isolado de dexametasona.

Participaram da pesquisa 213 voluntários atendidos em quatro instituições: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Após 27 meses de acompanhamento, 30% dos pacientes que receberam dexametasona ainda estavam livres da doença. No grupo que recebeu a combinação de talidomida e dexametasona, o número foi de 64% – mais que o dobro. Os resultados foram publicados no American Journal of Hematology.

O mieloma múltiplo é um tipo de câncer que se desenvolve dentro da medula óssea devido ao crescimento descontrolado dos plasmócitos, células responsáveis pela produção de anticorpos. A doença prejudica a produção de hemácias, causando anemia, e favorece a liberação de substâncias

que deixam os ossos frágeis. “Ainda não existe cura, mas novos tratamentos estão conseguindo retardar cada vez mais a progressão do câncer. O mieloma, hoje, tem a perspectiva de se tornar uma doença crônica”, disse Angelo Maiolino, professor da UFRJ e autor principal do estudo. O tratamento atualmente considerado como “padrão-ouro”, explica o pesquisador, envolve quimioterapia e drogas antineoplásicas como o bortezomibe, além de transplante autólogo de medula óssea – aquele feito com células do próprio paciente – e uma terapia de manutenção com medicamentos que modulam o sistema imunológico, como corticoides e talidomida. “Apenas 30% dos pacientes, porém, estão aptos para o transplante – recomendável para pessoas até 65 anos. Os outros 70% precisam ser tratados apenas com medicamentos”, disse Maiolino.

Segundo o pesquisador, na época em que o estudo foi idealizado, há cerca de dez anos, ainda não era comum administrar terapia de manutenção após o transplante. “A talidomida era usada apenas nos casos de recaída da doença. Nosso objetivo era investigar se ela traria benefícios também se usada para retardar o reaparecimento do câncer”, explicou. Durante o período de realização do projeto, seis outros estudos foram publicados em diversos países avaliando a eficácia da talidomida como terapia de manutenção. “Alguns compararam com outro tipo de corticóide, como a prednisona, outros com interferon, e outros, com placebo. Todos concluíram que a talidomida aumentou a sobrevida livre de progressão da doença”, contou Maiolino. Além de atuar diretamente nos plasmócitos, impedindo que fiquem aderidos à medula óssea, a droga inibe a formação dos vasos sanguíneos que irrigam as células malignas, que acabam morrendo. “Graças às novas combinações de medicamentos, foi possível aumentar a mediana de sobrevida livre de progressão da doença de três para oito anos na última década. Parece

pouco, mas é um salto considerável quando se trata de câncer”, disse

Maiolino. Na opinião do pesquisador, a tendência para o futuro é que a talidomida seja substituída na terapia de manutenção pela lenalidomida, uma droga da mesma classe, mas de segundageração e com menos efeitos colaterais. “Mais cedo ou mais tarde, todos que fazem uso prolongado da talidomida sofrem de neuropatia periférica, uma inflamação nos nervos que limita o uso do medicamento. Como isso não acontece com a lenalidomida, ela pode ser usada por mais tempo. Mas, infelizmente, esse medicamento ainda não está aprovado no Brasil”, ressaltou Maiolino. Apenas 30% dos pacientes, porém, estão aptos para o transplante – recomendável para pessoas até 65 anos. Os outros 70% precisam ser tratados apenas com medicamentos”, disse Maiolino. Segundo o pesquisador, na época em que o estudo foi idealizado, há dez anos, ainda não era comum administrar terapia de manutenção após o transplante. ‘ talidomida era usada apenas nos casos de recaída da doença. Nosso objetivo era investigar se ela traria benefícios também se usada para retardar o reaparecimento do câncer.

 

 

Projeto multicênfrico

Além dos quatro centros universitários, a pesquisa coordenada por Maiolino contou com a participação do Centro de Transplante de Medula Óssea do Instituto Nacional do Câncer  e teve apoio financeiro da Fapesp e do CNPq. “Toda a parte de citogenética, que investigou mutações cromossôrnicas que permitem determinar o prognóstico do paciente, foi feita com auxílio da Fapcsp. O objetivo era saber se possíveis alterações genéticas desfavoráveis estariam influenciando os resultados, mas vimos que isso não ocorreu”, contou Vânia Tictsche de Moraes Hungria, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. () trabalho foi feito no âmbito de um Projeto Temático coordenado por Carmino Antonio de Souza, na Unicarnp. De acordo com Maiolino, o trabalho tem importância simbólica, pois ainda são raros os estudos clínicos realizados totalmente no Brasil sem qualquer patrocínio da indústria farmacêutica. “Hoje, existem vários estudos multicêntricos sobre mielorna em andamento no país, mas vieram de fora c sào patrocinados”, disse.

 

Correio da Paraíba – João Pessoa – 05-08-12 – F 4 – Milenium

 

 

Celso Lafer se toma professor emérito da USP

 

O embaixador Celso Lafer foi homenageado ontem pelo Instituto

de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo com o título de Professor Emérito. Na cerimônia, no auditório da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que os estudos e iniciativas de Lafer na área de relações internacionais representam “contribuição única e pioneira”. Professor aposentado da Faculdade de Direito, onde dirigiu  o Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito, Lafer foi ministro das Relações Exteriores em 1992 e voltou ao cargo entre 2001 e 2002, no governo FHC. Eleito “imortal” na Academia

Brasileira de Letras e membro da Academia Brasileira de Ciências,

o homenageado é presidente da Fapesp desde 2007. Antes disso, foi chefe da Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Em seu discurso, ele recordou as primeiras aulas sobre relações internacionais, na Faculdade de Direito, em 1973 – ainda sob o regime militar. Era um período no qual ainda se dava pouca atenção à questão das relações internacionais. Segundo Fernando Henrique o Instituto de Relações Internacionais, que hoje agrega áreas de ensino, pesquisa e extensão, constitui a expressão institucional do que Lafer preconizava

há 40 anos. “Sempre me inspirou a ideia de somar talentos e competências de nossa universidade para alargar de maneira integrada os horizontes do conhecimento acadêmico sobre a dinâmica de funcionamento da ‘máquina do mundo”‘, explicou o embaixador.

O Estado de S. Paulo – SP – 16-08-12 – A 9 – Nacional

 

 

fapesp 15 de agosto

Agência Fapesp atende 100 mil assinantes em todo o Brasil

 

SÃO PAULO

A Agência Fapesp, veículo de comunicação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), atingiu, na última segunda-feira, a marca de cem mil assinantes de seu boletim eletrônico. Lançada em 24 de junho de 2003 como um serviço noticioso, eletrônico e gratuito, a Agência Fapesp conquistou um público expressivo por meio da veiculação de reportagens sobre resultados de pesquisas, entrevistas com cientistas e notícias do setor de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Apesar de estar voltada principalmente para a divulgação de pesquisas feitas no Estado de São Paulo e apoiadas pela Fapesp, a Agência conta com leitores em todos os estados brasileiros. As cidades com rnaiores números de assinantes são, pela

ordem, São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Brasília, São Carlos, Curitiba, Salvador e São . José dos Campos.  A Agência também tem um expressivo número de leitores no exterior, sejam brasileiros que vivem em outros países ou estrangeiros que assinam a edição em inglês

do boletim. No exterior, os países com mais leitores da edição em português

são: Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha e  Canadá Já a edição em inglês do portal é mais lida em: Estados Unidos, Reino Unido, Índia, Alemanha e França. A Agência Fapesp também marca presença nas redes sociais, com 16,2 mil seguidores pelo twitter (@AgenciaFapesp) e mais de 2 mil seguidores pelo Facebook (www.facebook.com/agenciafapesp). “A Fapesp tem como uma das suas responsabilidades legais e estatutárias divulgar o resultado das pesquisas que financia e ver como aquilo que é atividade da entidade se insere no mundo do conhecimento. Quando a instituição foi criada, os meios de comunicação eram distintos do que são hoje. Então, evidentemente, há uma mudança muito significativa trazida pela revolução  digital e a Agência Fapesp, ao atingir um público tão expressivo,  é uma mostra dessa mudança”, disse Celso Lafer, presidente da empresa. “Estamos agora verificando um marco da presença da Fapesp na transmissão do conhecimento pela Internet Cem mil é trina divulgação extraordinária, uma vez que as pessoas que se cadastram para receber os boletins são aquelas com interesse pela divulgação feita”.

 

DCI – SP – 15-08-12 – C 8 – São Paulo

 

 

Uma das melhores ferramentas de estímulo à inovação é os fundos de investimento – os venture capital. Tanto a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) quando o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social)

· dispõe de recursos visando estimular a formação desses fundos. · Um dos problemas centrais, explica João Furtado – Coordenador da Área de Pesquisas e Inovação da Fapesp – são os sistemas  de controle que inibem atitudes mais ousadas dos investidores. Todo projete inovador tem três fases. Na Fase 1, a ideia. Na Fase 2, a abordagem para colocar a idéia de pé. Na Fase 3, o investimento maciço. Os fundos têm que correr riscos, diz Furtado. Se o fundo buscar altas taxas de sucesso, só irá atrás de ideias já provadas – e, portanto, menos inovadoras. A idéia altamente inovadora é de alto risco. Se o criador do Facebook apresentasse um projeto no qual as pessoas se cadastrassem para mostrar fotos de família, provavelmente não conseguiria nenhum aporte no país. Daí a necessidade de ousar e deixar o mercado dar a última  palavra. Portanto, os fundos deveriam lidar com altas taxas de risco na Fase 1, um pouco menos na Fase 2 e ser mais conservadores apenas na Fase 3.

• É preciso soltar amarras e permitir ao sistema ser mais criativo, propõe Furtado.

 

Folha de Araçatuba – Araçatuba – 10-08-12 – B 7 – Geral

 

 

 

FAPESP

 

Estudo vencedor de prêmio liga gordura a câncer intestinal

Controle da inflamação do tecido gorduroso pode deter o avanço do tumor, segundo a pesquisa da Unicamp

 

Uma pesquisa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) decifrou um dos mecanismos da obesidade no desenvolvimento do câncer colorretal, doença que afeta 30 mil brasileiros por ano, causando 8.000 mortes.

 O trabalho venceu a categoria Pesquisa em Oncologia, do Prêmio Octavio Frias de Oliveira. É o segundo ano consecutivo no qual a equipe da Unicamp leva a premiação, uma iniciativa do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), em parceria com o Grupo Folha.

 A láurea leva o nome do Publisher da Folha, morto em 2007 e que completaria cem anos anteontem. Ele foi homenageado na entrega dos prêmios, no Icesp.

APOIO HISTÓRICO – Na categoria Personalidade em Destaque, ganhou a família Ermírio de Moraes. Segundo o diretor do Icesp, Paulo Hoff, a família foi escolhida pelo histórico de apoio ao tratamento e à pesquisa do câncer. “Esse apoio não é só na oncologia e não é de hoje, vem de décadas.

A família Ermírio de Moraes administra o Hospital Beneficência

Portuguesa há mais de 50 anos, faz parte do conselho curador e da rede voluntária do Hospital A.C. Camargo, atua e é uma das maiores doadoras da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente).

 A família também já fez contribuições ao Icesp. No ano passado, por exemplo, doou R$ 2,5 milhões, usados na compra de um ultrassom que destrói tumores.

 “É uma satisfação muito grande receber esse prêmio. Nossa família

tem uma missão de ajudar os mais necessitados. Tomara que essa iniciativa estimule outras famílias de maior poder aquisitivo a fazer o mesmo”, afirma Rubens Ermírio de Moraes, presidente da diretoria administrativa do Beneficência e que representou a família na entrega do prêmio.

É a primeira vez que a premiação, agora em seu terceiro ano, é concedida a não médicos. “O comitê decidiu que seria legítimo prestigiar quem tenha se destacado no tratamento da doença”, diz Hoff. Para cada uma das categorias, a premiação é de R$ 8.000. Em 2013, representantes das

principais agências de fomento do país (Fapesp e CNPq) e das academias de medicina e de ciências vão integrar a comissão julgadora.

PESQUISA – Neste ano, 27 estudos nacionais concorreram ao prêmio. A pesquisa vencedora, feita em camundongos, demonstra a relação entre a inflamação do tecido gorduroso e o câncer colorretal.

Estudos epidemiológicos apontam que até 30% dos cânceres estão relacionados à obesidade, mas os mecanismos desse processo não estão bem esclarecidos.

“É interessante ver um grupo brasileiro gerando pesquisa que ajuda a desvendar essa relação”, afirma Hoff.

No trabalho, os pesquisadores também demonstraram que, controlando a inflamação da gordura, por meio de uma droga usada em doenças autoimunes, é possível deter o crescimento do tumor.

“Pode ser que o bloqueio dessa via de sinalização abra possibilidades para novas formas de prevenção, mas outros estudos têm de ser feitos para avaliar a segurança disso em humanos”, diz José Barreto Carvalheira, professor de oncologia da Unicamp e coordenador do trabalho.

A pesquisa será publicada em setembro no periódico Gastroenterology.

 

SURTO DO VÍRUS EBOLA ESTÁ SOB CONTROLE EM UGANDA, DIZ OMS

 

OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que as utorídades de Uganda estão conseguindo conter a disseminação do ebola, causador de uma doença mortal.

Todas as pessoas infectadas com o vírus foram isoladas. Autoridades

sanitárias do pais também criaram uma lista de contatos do ebola, com 176 nomes de pessoas que tiveram o mínimo contato com quem contraiu o virus.

O ebola foi confirmado como causa da morte de moradores de um vilarejo no oeste de Uganda no dia 28 de julho. Houve demora em investigar a presença do vírus porque as vítimas não exibiam os sintomas típicos, como tosse com sangue

Ao menos 16 pessoas morreram. As autoridades locais afirmaram ainda que há sinais de otimismo – nove dos 32pacientes infectados pelo vírus ebola estão respondendo bem ao tratamento e podem ter alta do hospital em breve. Esse é o quarto surto do vírus que atinge Uganda desde 2000,quando a doença matou 224pessoas.

 

Jornal de Piracicaba – Piracicaba – 07-08-12 – A 10 – Saúde

exame

UM PLANO PARA A GAFISA

A incorporadora Gafisa está procurando um assessor financeiro para vender a unidade de loteamentos Alphaville. A empresa vive, como se sabe, um momento dificil Seu valor de mercado caiu 65%em 12meses. Para complicar o que jánão estava simples, a empresa entrou numa disputa judicial com os fundadores de Alphaville – que teve o controle comprado pela Gafisa em 2006. A última parcela de 20% da aquisição venceu em 2012, e dois laudos avaliaram Alphaville em cerca de 2 bilhões de reais. O problema: como estava combinado que a Gafisa pagaria em ações e os laudos foram feitos em momentos diferentes, o total de ações que passariam aos fundadores de Alphaville varia de 14% a 19%. Como a Gafisa quer o primeiro e a turma de Alphaville quer o segundo, a questão foi parar na arbitragem. Até imóveis a Gafisa ofereceu como forma de pagamento, o que não colou. Agora, um grupo de conselheiros da incorporadora decidiu atacar o problema de forma diferente – e vender Alphaville. Com o dinheiro, pode pagar os antigos donos e embolsar a diferença. Procurados, Gafisa e os fundadores de Alphaville não comentaram.

 

DE OLHO NO BRASIL

A Distell, dona da marca de licor Amarula, está avaliando oportunidades de aquisições no Brasil. Acompanhia, que é a maior produtora de vinhos e destilados da África do Sul e fatura cerca de 1bilhão de dólares por ano, tentou comprar a fabricante de cachaça Ypioca no início deste ano – mas perdeu o leilão para a britânica Diageo, que produz o uísque Johnnie Walker. Segundo executivos próximos à Distell, que é assessorada pelo banco de investimento Standard Bank, a empresa parte agora para a aquisição de companhias menores. Os preços, int1ados pela venda da cervejaria Schincgriol para a japonesa Kirin, têm assustado os sul-africanos.

PAROU NO PREço

A rede de lojas de camisas masculinas e femininas Dudalina, que faturou cerca de 400 milhões de reais em 2011, ouviu propostas de aquisição de fundos de investimento atraídos por seu crescimento que, em 2011, foi de 58%. Três fundos tentaram iniciar uma negociação com a presidente, Sônia Hess, que divide o controle do negócio com 15 irmãos. As propostas não foram adiante porque, para os donos, a empresa vale cerca de 20 vezes sua geração de caixa – o que, segundo executivos dos três fundos, é caro demais. Procurada, Sônia disse que a empresa não está à venda. A Dudalina tem como meta faturar 1bilhão de reais até 2016.

 

CASAMENTO DE INDIANO

O indiano Narendra Murkumbi, dono da usina de açúcar e álcool Renuka, está negociando uma fusão com a ETH, do grupo Odebrecht. Ele tenta salvar o cerca de 1bilhão de reais investido nos dois grupos de usinas que comprou dois anos atrás. Na última safra, a Renuka processou apenas 8milhões dos 12 milhões de toneladas de cana previstos – o que dificulta o pagamento do cerca de 1,3bilhão de reais em dívidas que começam a vencer em um ano.A união com a ETH ajudaria a acalmar os credores. Procuradas, as empresas não comentaram.

 

O LEILÃO AVANÇOU

o processo de venda da rede de lojas de material esportivo Centauro está entrando em sua segunda fase. O banco Rotshchild, que assessora a empresa, recebeu as primeiras’propostas e escolherá, agora, os interessados que participarão da segunda fase do leilão. Há, na mesa, tanto propostas de participação minoritária quanto de compra do controle – a empresa é avaliada em cercade 2 bilhões de reais (a Centauro informaque está procurando um sócio, mas não quervender o controle). É uma evidência do bommomento por que passa o setor. Após décadas atuando apenas no sul do país e no Riode Janeiro, a Paquetá, segunda maior domercado, começou em julho uma expansãono Nordeste e em São Paulo. A Paquetá tem38 unidades no país.

 

1 Bilhão PARA INVERTIR

O grupo imobiliário australianoGoodman, que lucrou 390 milhõesde dólares em 2011,está vindo parao Brasil. A empresa contratouo banco BTG Pactual para encontrar um sócio para atuar na áreade logística – nos planos dos australianos,está a administração decentros de distribuição. Os australianossepararam 1bilhão de reaispara investir na nova sociedade.O grupo Goodman tem escritóriosem 19 países e ativos de 19,3 bilhões de dólares.

MULTA MIUONÁRIA

A Receita Federal estima que tem a receber cerca de 340 milhões de reais em impostos sonegados por donos de jatinhos investigados na operação Pouso Forçado. Em agosto e setembro, uma dúzia de empresários e executivos será convocada a depor, entre eles Eduardo de Souza Ramos, presidente do conselho da Mitsubishi Motors, Marcelo Kalim, sócio do BTG Pactual, e Milton Cardoso, presidente da Vulcabras quando ocorreram as investigações. A assessoria de Ramos informou que o jato não pertence ao empresário. O advogado de Kalim diz que o avião pertence a uma empresa da qual Kalimé sócio no exterior. A Vulcabras não vê irregularidade nas operações da aeronave.

 

NA MIRA DO CADE

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recebeu, entre maio e junho, mais de 100 pedidos de avaliação de fusões e aquisições – todas ocorridas antes do nascimento do Supercade, que tomou um pouco mais complexa a aprovação de uma fusão. Feita uma primeira análise das operações, o Cade aprovou 70% delas de imediato. Das 30% que sobraram, uma acendeu a luz amarela no órgão: a compra da loja de brinquedos PB Kids pela rival Ri Happy. As duas são as maiores redes do setor. O Cade está pedindo informações para as empresas e deve julgar o caso até o fim deste ano.

 

EMBUSCA DE UM SÓCIo

A fabricante de fertilizantes paulista Galvani, que faturou 720 milhões de reais em 2011, está  um sócio. O processo vem sendo conduzido pelo banco BTG Pactual, que procurou recentemente possíveis interessados em fazer uma oferta pela empresa. Segundo um executivo que acompanha as conversas, os donos da Galvani pedem propostas que avaliem a empresa em cerca de 1 bilhão de reais. A Galvani diz que busca um sócio para investir em projetos estratégicos.

 

E QUEM COBRA O SETOR PUBLICO

Em julho, duas empresas reguladoras receberam aplausos por sua atuação. Primeiro foi a Agência  Nacional de Saúde Suplementar – no dia 10, ela suspendeu a venda de 268 planos de saúde de 37 operadoras que não cumpriram prazo de atendimento. Uma semana depois a Agência Nacional de Telecomunicações proibiu a TIM, Claro e OI de vender novas linhas de celular em oito estados ate que apresentassem planos para melhorar a qualidade de atendimento, considerado precário. Nos dois casos, as agencias cumpriram seu papel – regular os serviços prestados por entidades privadas. As primeiras agencias foram criadas nos Estados Unidos após a crise de 1929. Era uma forma de garantir uma qualidade mínima no atendimento a serviços considerados essenciais que não eram prestados pelo Estado. O modelo se espalhou e hoje esta presente nos países de economia madura. Se o governo tem formas de regular o serviço que não estão sob sua responsabilidade, quais os meios de garantir qualidade dos serviços que ele próprio oferece aos cidadãos? Os números mostram que os brasileiros sofrem quando dependem do Estado. Um dos motivos e que nos faltam instituições que, como as agencias reguladoras, obriguem os prestadores de serviços publico a entregar um atendimento minimamente razoável

 

EM OBRAS HÁ 26 ANOS

Na última década, a economia de Mato Grosso cresceu quase 90%. O acúmulo de riqueza, porém, não serviu para melhorar o sistema de saúde pública. Na capital, Cuiabá, nem sequer há hospitais suficientes para atender os doentes. A oferta de leitos caiu de 4,7 para 2,7 por 1000 habitantes na década passada, O Hospital Central de Cuiabá é o exemplo do descaso. Está em construção há 26 anos – e nada parece sensibilizar as autoridades para a necessidade de concluí-lo. Nos últimos cinco anos, três hospitais particulares, que prestavam serviços ao Sistema Único de Saúde, fecharam as portas alegando falta de recursos. Médicos mato-grossenses calculam que a carência hoje seja de 2000 leitos (para o governo estadual seriam 1000). E, mesmo assim, o esqueleto do Hospital Central está abandonado. A cidade é uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 e precisa achar uma solução para evitar o vexame de não ter condições de atender uma emergência durante o torneio. Há quem duvide que a solução virá a tempo. Hoje, a saída para contornar a carência de hospitais é uma só: pegar um avião em busca de atendimento onde a estrutura de saúde seja mais organizada.

 

O ESPORI E VAI E OURO PARA A MíDIA

Uma pesquisa realizada pela consultoria PricewaterhouseCoopers mostra que o investimento em mídia e entretenimento (TV, revistas, jornais, rádio, internet, cinema e música) cresce no Brasil e será impulsionado ainda mais graças à Copa do Mundo 2014 e à Olimpíada do Rio 2016. O Brasil, em 2011,ganhou aposição da Coreia do Sul e tomou-se o nono colocado no ranking de gastos commídia. A previsão para 2016 é que o pais seja o sétimo e único na lista dos dez maiores investidores a galgar posições (ranking de investimentos em TV, revistas, jornais, rádio, internet, cinema e música, em bilhões de dólares).

 

PANE NA TELEFONIA

Consumidores indignados, governo e empresas telefônicas em guerra. Catorze anos após as privatizações, há algo de errado com o setor de telecomunicações – tão essencial para a economia moderna quanto a energia elétrica. Para evitar uma pane, as operadoras terão de investir 380 bilhões de reais em uma década. Ao lado da eletricidade, o setor de comunicações e um dos pilares da economia moderna sem um dos dois, ávida em sociedade simplesmente para de funcionar. Enquanto a eletricidade esta ai por mais de um século, a transformação causada pelo avanço nas telecomunicações e coisa de duas décadas. Quem tem mais de 30 anos se lembra dos tempos que era preciso ir ao banco para pagar as contas, da um pulo nos Correios para enviar uma carta, ter a mão uma enciclopédia de 20 volumes para tirar duvidas sobre assuntos diversos. Se hoje esse tipo de coisa parece tão antigo quanto uma lamparina de óleo de peixe, é porque as telecomunicações mudaram o mundo. Dependemos de cabos subterrâneos de fibra óptica para fazer quase tudo – de transações financeiras a pesquisa, passando pelo lazer, que nos faz ficar horas pendurados nas redes sociais. Por isso tudo, ter um setor de telecomunicações em pleno funcionamento é, de novo, tão importante quanto ter luz elétrica. E a má notícia, para os brasileiros, é que, 11 anos após a crise que levou ao racionamento de energia, surge no horizonte uma nova ameaça. Desta vez, o medo é de um apagão na telefonia. Esse temor entrou em evidência em julho, quando a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) proibiu algumas operadoras de telefonia celular de vender novas linhas até que apresentem um plano de investimentos que recoloque o setor nos eixos. Trata-se da maior intervenção da era pós-privatização, de 1998 para cá. Foram punidas as companhias que, segundo os parâmetros da Anatel, estão oferecendo um serviço de má qualidade ao consumidor. Aitaliana

TIM foi a mais afetada pela decisão: teve de suspender as vendas em 18estados e no Distrito Federal. A brasileira Oi congelou as vendas em cinco estados, e a mexicana Claro, em três. Avivo escapou da punição por não ter sido considerada a pior operadora em nenhum estado. O descontentamento dos consumidores com as empresas de telefonia celular tem sido tamanha que, pela primeira vez, o setor desbancou as empresas de cartão de crédito na lista de reclamações elaborada pelo Sistema Nacional de Informáções de Defesa do Consumidor, que reúne dados de 170 órgãos de defesa do consumidor espalhados pelo país. No primeiro semestre deste ano, foram Segundo o ranking elaborado por EXAME em parceria com o Instituto Ibero-Brasileiro de Relacionamento com o Cliente (IBRC),sete das dez empresas que dispensam o pior tratamento ao consumidor são do setor de telecomunicações. Apenas a pequena GVT melhorou seu atendimento no último ano. Até o fechamento desta edição, nenhuma das operadoras punidas pela Anatel havia sido autorizada a retomar a venda de novas linhas.Os brasileiros têm,justificadamente, certo trauma em relação ao serviço das telefônicas. Nos tempos pré-privatização, levavam-se alguns minutos para conseguir fazer uma ligação – e, realizado o milagre, era preciso ouvir a conversa alheia nas famigeradas linhas cruzadas. Nãoé à toa que Telerj, Telesp, Telemig e as outras estrelas do sistema Telebras eram as empresas mais odiadas do Brasil. Na última década, as grandes telefônicas continuaram no topo da lista; o motivo para o ódio, porém, deixou de ser o serviço prestado

(ou não prestado) e passou a ser o tratamento oferecido à freguesia nos infernais call centers, além da cobrança indevida de contas. O que deixou governo e especialistas assustados foi que, de 2010 para cá, o serviço voltou a ser um dos principais motivos de irritaçãodo consumidor. Linhas que não pegam, o sinal que cai. Isso tudo deixou claro que a infraestrutura de telecomunicações país não está dando conta dademanda. E, se o cenário atual é ruim, mais para a frente pode ficar ainda pior. Para oferecer um serviço minimamente razoável, as operadoras terão de investir cerca de 380 bilhões de reais nos próximos dez anos, segundo cálculos da Anatel obtidos com exclusividade por EXAME.Chegar a esse valor exigirá que as operadoras de telefonia fixa, celular, TV por assinatura e internet banda larga aumentem 80% os aportes que vêm fazendo ano a ano. “Nossos cálculos são conservadores”, diz Jarbas José Valente, conselheiro da Anatel. possível que os investimentos tenham de ser ainda maiores. Sem eles, o Brasil vai ficar para trás!’ Demanda Crescente O que aconteceu? Para entender o que há de errado no setor de telecomunicações, é preciso voltar um pouco no tempo. As empresa.’! que venceram os leilões de privatização no final da década de 90 herdaram estruturas sucateadas, com redes de transmissão ecobertura pouco ou nada eficientes – além de caríssimas. Entre as metas que lhes foram impostas, estavam a melhoria da infraestrutura e a universalização do serviço. O resultado mostrou como a abertura ao investimento privado seria benéfica para o consumidor. Os 300 bilhões de reais que as operadoras injetaram de lá para cá permitiram que o Brasil saísse de 4,5 milhões para mais de 250 milhões de linhas celulares em junho deste ano, chegando a uma penetração de 130%- crescimento superior ao verificado na China e na Índia nos últimos +Cinco anos. Desde 2000, o número de usuários de banda larga fixa saltou quase 10000%, para cerca de 20 milhões de conexões. Abanda larga móvel, disponível por aqui desde 2008, cresceu 1200%, para mais de 50 milhões de acesso. Ao mesmo tempo, a competição entre as operadoras derrubou os preços dos serviços, permitindo a inclusão de um enorme contingente de consumidores das classes C, D e E – aparelhos celulares foram vendidos a módicos 10 reais no início da década mde 2000. Um estudo do Banco Mundial mostra que, quando a penetração mde telefonia celular cresce 10% num país, a renda per capita aumenta 0,8%. Foi um fenômeno que mudou a cara do Brasil, e para melhor. Mas o modelo mostrou que tinha seus limites. O ano em que a atual crise começou a nascer foi 2009. Ali, as operadoras embarcaram em uma ferrenha disputa de mercado. Em abril daquele ano, a TIM, então a terceira maior empresa do setor, lançou um agressivo plano destinado a captar usuários: passou a cobrar apenas 25 centavos por chamada (e não mais por minuto, como era comum no setor). A estratégia fez da operadora a que mais conquistou novos clientes em 2010 – foram 9,9 milhões. No ano passado, com a chegada da TIM à vice-liderança de mercado, as rivais Vivo,Claro e Oi lançaram planos semelhantes, c<j>rando uma tarifa ínfima pelas ligaçoes. As operadoras também despejaram no mercado modems de internet móvel para ser usados em laptops, aumentando exponencialmente o uso de espaço nas redes das operadoras – na época, apenas 5% dos assinantes consumiam 80% do espaço disponível nas redes. Enquanto as empresas se engalfinhavam em busca de clientes, as redes, como era de imaginar, foram se sobrecarregando. De 2010 para cá, foram vendidas mais de 80 milhões de novas linhas de celular. Muitos desses consumidores compraram uma de cada operadora, já que cada empresa lançou uma promoção em que quem fala “de TIM para TIM” ou de “Claro para Claro” não paga nada. E esses clientes, por definição, custam caro às operadoras. O tempo médio em que ficam pendurados no aparelho subiu mais de 30%, de 87 minutos em 2009 para 115neste ano. Ao mesmo tempo, o uso da internet no celular – impulsionado pela paixão dos brasileiros pelas redes sociais – sobrecarregou ainda mais o sistema. De acordo com um estudo inédito da consultoria Comscore, o tempo médio gasto pelos brasileiros na internet nos últimos três anos aumentou 67%,e nas redes sociais, 169%.

Com a rede de transmissão congestionada, Vivo, Claro, Oi e TIM deixaram de alardear os tais modems móveis (as ofertas para ligações seguem até hoje). O estrago, no entanto, já havia sido feito: a receita por usuário das operadoras, que foi de 30,1 reais em 2007, caiu para 20 reais em 2012. “A disputa no Brasil é forte”, diz o presidente da Claro, Carlos Zenteno. “Se fossem duas ou três empresas, o cenário seria bem diferente.” Procurada, a TIM preferiu não dar entrevista. Talvez a melhor maneira de entender o problema vivido pelo setor de telecomunicações seja pensar no sistema como um emaranhado de estradas – mas, em vez de carros, os·cabos de fibra óptica que passam sob a terra, rios e mares transportam.bítes, um termo técnico para designar dados que podem ser de voz ou de internet. Quando os celulares serviam apenas para falar, os técnicos das operadoras sabiam exatamente qual o tamanho da rede que deveriam construir, já que o transporte de bites, nesse caso, é relativamente pequeno e estável. Achegada da tecnologia 3G e, com ela, a disseminação do uso da internet pelo celular a partir de 2008 jogaram essa lógica na lata do lixo. Desde então,tornou-se praticamente impossível saber exatamente quantos bites terão de ser transportados pela rede em determinado momento, já que ouso de internet pode elevar o consumo de dados em mais de 30 vezes, dependendo do que o usuário está fazendo – em outras palavras, ficou impossível calcular quantos carros irão passar por uma via em determinado momento. O uso cada vez mais constante de aplicativos e o advento de novas tecnologias, como os tablets, também atrapalharam. A explosão da demanda deixou claro que nossa infraestrutura de telecomunicações – as tais estradas, para seguir na metáfora rodoviária – precisa,urgentemente, avançar. Atualmente, O país tem pouco maís de 55000 antenas de transmissão (postes que captam o sinal do celular e levam os dados até a rede para que sejam transportados) – um quinto do que têm os Estados Unidos e corresponde ao instalado na Itália, país cuja área equivale à do estado de Goiás. Como consequência, cada uma dessas antenas opera em seu limite de capacidade, com maís de 4600 linhas “conectadas” por unidade. A média americana é de 1000 linhas por antena. Na Espanha, são 460 linhas e, no Japão, 400. Estima- se que apenas 30% das antenas brasileiras possam ter sua capacidade estendida – se quiserem ampliar sua cobertura e aumentar a transmissão de dados para a rede, as operadoras terão de construir novas torres, do zero, a um custo médio de 300000 reais cada uma. Feitas as contas, para chegar ao mesmo nível de cobertura e qualidade de transmissão dos Estados Unidos, um país com dimensões parecidas com as do Brasil, teríamos de ter investido cerca de 55 bilhões df reais a maís nos últimos anos – isso apenas em antenas, sem contar os investimentos em outros equipamentos e fibra óptica. “Antena é o principal entrave. Temos 550 na cidade de São Paulo e pedidos para maís 256″, diz Leila Loria, diretora de relações institucionais da Vivo. Daqui para a frente. o desafio será ainda maior.Énatural: à medida que a tecnologiaavança, é preciso gastar bilhões em infraestrutura para que os novos serviços funcionem. O estudo da Anatel prevê que serão necessários 24 bilhões de reais em investimento anual apenas para os mercados de telefonia e banda larga móvel (o3Gdos celulares atuais e O 4G das gerações futuras, com sua promessa de internet de altíssima velocidade no smartphone). Nosmercados de telefonia fixa,internet em casa e TVpor assinatura, o investimento anual terá de somar 14bilhões de reais. Já aconteceu antes – corno se viu, as operadoras in-vestiram 300 bilhões de reais para tirar o Brasil das trevas do sistema Telebras. Pode acontecer de novo? Infelizmente – se a conta feita pela Anatel se provar correta -, é muito difícil que o país chegue a esse nível de investimento na próxima década. Uma peculiaridade do mercado brasileiro é ser servido por empresas oriundas de países que vêm passando, desde a crise de 2008, por dificuldades econômicas. A Oi tem como principal sócia a Portugal Telecom. A Vivo é controlada pela espanhola Telefónica. A TIM é italiana. Nos últimos três anos, a rentabilidade dessas empresas caiu, respectivamente, 15%, 19% e 9% (sobra a mexicana Claro, que vive um bom momento em seu pais de origem). Com as respectivas matrizes em dificuldades financeiras e tendo de remunerar seus acionistas, as operadoras acabaram usando suas subsidiárias em mercados que crescem para melhorar os balanços da companhia-mãe. Segundo dados do Banco Central, as remessas do setor ao exterior mais que dobraram entre 2010 e 2011, de 1,1bilhão de dólares para pouco mais de 2,5 bilhões. Nesse cenário, o movimento inverso – o dinheiro que sai da matriz para ser investido, digamos, em antenas em São Paulo – fica mais raro. Ainda, a queda na receita por usuário verificada nos últimos anos 110 Brasil e a crescente concorrência interna fizeram com que as margens das companhias caíssem 20% de 2002 para cá. Segundo EXAME apurou, as fornecedoras de infraestrutura estão assustadas com a falta de pedidos de equipamentos para, por exemplo, instalar a tecnologia 4G – que tem de estar funcionando já na Copa das Confederações, em abril de 2013. A reação apavorada do governo deve se muito ao temor de que o setor de telecomunicações entre em pane na Copa do Mundo de 2014. Além do aumento do número de usuários durante esses eventos, o problema está na forma como eles usam seus celulares: assistindo, por exemplo, a transmissões ao vivo das disputas. Só para a Copa de 2014 o governo estima que será necessário injetar 60 bilhões de reais em tecnologias de transmissão, no aumento de capacidade da rede e na instalação de novos pontos de acesso à banda larga. Desse total, 3 bilhões sairão dos cofres públicos. O resto terá de vir das operadoras, que já se comprometeram a estar com”o sistema 4G funcionando em todas as capitais do país e em cidades com mais de 500000 habitantes até a Copa. Ajulgar pelo que aconteceu recentemente em outros países, a situação do Brasil é preocupante. A menos de duas semanas do início da Olimpíada em Londres, a rede de celulares da operadora 02, que pertence à Telefónica, caiu devido ao grande número de acessos. A pane só foi resolvida dois dias mais tarde. Em fevereiro, o tráfego durante o Super BowI, a final do campeonato de futebol americano. chegou a 500 gigabites de dados durante a partida. E tudo leva a crer que o cenário por aqui será ainda mais desafiador, até porque a tecnologia dos aparelhos terá evoluído. Segundo dados da empresa de equipamentos Ericsson, o tráfego de dados no celular por aqui deve crescer dez vezes nos próximos quatro anos. “Estamos no começo de uma revolução com os tablets e smârtphones”, diz João de Deus, diretor de planejamento executivo da Oi., Setores como o de telecomunicações, elétrico ou de saneamento foram considerados “monopólios naturais” por muito tempo. De acordo com essa tese, a necessidade de investimentos é tão grande e a importância do setor, tamanha, que seria melhor que fossem tocados por uma empresa. A incompetência natural dos monopólios acabou levando à falência da tese. Do Reino Unido ao Brasil, as estatais foram privatizadas, e o setor, aberto à competição. Pela força do mercado e com o nível de investimentos crescendo, esses setores acabaram se concentrando de novo.No Brasil, as 12empresas criadas após as privatizações se transformaram nas quatro grandes atuais. Se a tese dos monopólios ficou no passado, o mercado de telecomunicações segue precisando de uma regulação atenta por parte do governo. E é consenso que a Anatel não tem sido uma agência com a força necessária para ajudar a colocar o setor nos eixos. Vale lembrar: um bom regulador não é aquele que pune empresas, mas o que evita-os problemas. O órgão demorou muito até tomar uma atitude contra as operadoras de celular. Segundo funcionários da Anatel, a fiscalização é falha. Um dos problemas é que cada empresa dizia estar cumprindo rigorosamente suas metas de qualidade – como cabia às próprias empresas fornecer os dados, aquele era um jogo de “me engana que eu gosto”. Em 2011, pôr exemplo, a TIM cumpriu 99,5%das metas. Hoje, a Anatel possui 513técnicos para fiscalizar todos os estados do país, o que dá menos de 20 funcionários por estado. Às falhas nas fiscalizações soma-se a dificuldade de punir as empresas. Nos últimos seis anos, do 1,3bilhão de reais em multas aplicadas pela AnateI, apenas 500 milhões foram de fato recolhidos pela agência. “Os valores são baixos e as empresas têm uma série de instâncias para recorrer. É mais barato receber multa do que resolver o problema”, diz Marcelo Cunha, diretor da área de fiscalização do Tribunal de Contas da União, que concluiu recentemente uma auditoria na Anatel. Ter um setor de telecomunicações em forma é vital para que a economia brasileira siga se desenvolvendo. Um estudo da consultoria McKinsey mostra que a expansão da internet foi responsável por um décimo do crescimento econômico mundial nos últimos 15 anos. Para que o país ofereça uma infraestrutura de telecomunicações de qualidade na próxima década, as empresas terão de investir. Mas e o governo? Segundo a consultoria Deloitte, o

Brasil pertence ao grupo dos 12países com maior carga tributária do setor no mundo, de 43% – e essa carga vem subindo: no início da década, era de 33%. Segundo cálculos da consultoria LCA, apenas 10%dos mais de 53 bilhões de reais arrecadados desde 2001 em fundos como Fistel, Fust e Funttel ajudaram a custear a fiscalização do setor e a universalização do serviço. Com esse dinheiro, daria para construir 170000 antenas de transmissão. Diante da crise atual, pode-se dizer que a Anatel deu um primeiro passo.A partir de outubro deste ano, a consultoria Price waterhouse Coopers ficará responsável por fiscalizar e auditar a qualidade do serviço de banda larga fixa e móvel oferecido pelas empresas – algo inédito no mundo. Aguarda votação no Congresso um pacote de leis que pode diminuir a carga tributária para 38%. “O imposto é muito alto.Em algum momento, precisaremos rever essa estrutura de forma mais profunda”, afirma o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O governo estuda também uma proposta de lei que unifique a legislação das antenas hoje há cerca de 250 leis municipais diferentes, o que cria uma burocracia enlouquecedora. A Anatel quer ainda incentivar as empresas a compartilhar o uso das antenas, o que poderia acelerar a expansão da capacidade de transmissão de dados nas grandes cidades. Há muito a ser feito. A pancada do governo nas operadoras pode ter sido um movimento necessário. Mas foi quase nada diante do desafio à frente .

 

EM PAZ COM O CONSUMIDOR

Te pelo histórico de ma qualidade nos serviços de utilidade publica – os constantes apagões no setor elétrico em diferentes regiões do  país e a recente punição da Anatel às operadoras de telefone celular  são alguns exemplos disso -, os brasileiros habituaram-se nos últimos anos à nada agradável rotina de seguir de perto os rankings de reclamações em Procons e outras instituições de defesa do consumidor, Pouca ou nenhuma atenção e dada as companhias  que vêm fazendo sua parte, a despeito do setor em que atuam. Com estratégias relativamente simples  – como conversar sobre o tempo com quem esta do outro lado da linha -, empresas como O Boticário, Coca-cola, Natura, Bradesco e Porto Seguro foram consideradas campeões em atendimento  ao consumidor no último ranking elaborado por EXAME, em parceria  com o Instituto Brasileiro de Relacionamento com o Cliente (IBRC) (veja o ranking na pág. 50). Além delas, General Motors, Ambev, LG e GVT aparecem entre as que mais melhoraram seu serviço ao longo de 2011 – hoje, elas contam com níveis de satisfação superiores a 70%, patamar considerado altíssimo em qualquer parte do mundo. Para essas empresas.  atender bem seus clientes é tão importante quanto oferecer produtos ou serviços de qualidade. “Em 2011, 92% das empresas classificadas no ranking fizeram algum tipo de pesquisa de satisfação com os clientes. Em 2010, esse número não passava de 70%”, diz Alexandre Diogo, presidente do IBRC. Sejamos justos: reclamação, toda empresa recebe. A diferença está no modo como elas lidam com essas queixas. Os clientes das telefônicas estão aí para comprovar.

 

o BOTICÁRIO POSiÇÃO NO RANKING 1° O consumidor é rei

Em uma empresa conhecida por vender batons, perfumes e outros mimos, era de imaginar que o volume de ligações para o serviço de atendimento do Boticário fosse relativamente pequeno. Pois não é o que acontece. A empresa praticamente dobrou de tamanho no ano passado, chegando a quase 3000 lojas no país, e viu-se obrigada a aumentar 55% seu call center para dar conta de quase 2000 ligações por dia – isso sem falar nos 4000 e-mails e nas 8600 mensagens diárias nas redes sociais. Para criar um atendimento mais personalizado – os atendentes são treinados para, por exemplo, perguntar sobre o tempo na cidade onde está o consumidor -, a companhia substituiu 60% de sua antiga equipe de atendimento. “Precisávamos criar uma cultura nova, mais próxima do consumidor”, diz Andrea Motta, presidente do Boticário. Com um atendimento mais longo e informal – a média de tempo de ligação é de 7 minutos, ante 3 minutos em um banco -, o índice de satisfação do consumidor saiu de 87% para 93% em 2011,com 90% dos casos resolvidos logo no primeiro contato. A empresa começou a divulgar suas campanhas publicitárias nas redes sociais dois dias antes da estréia na TV para sentir qual seria a reação do consumidor. No final de 2010, o Boticário reeditou um anúncio sobre o Dia dos Namorados depois que um punhado de consumidores reclamou das cenas no YouTube.

 

COCA-COLA POSiÇÃO NO RANKING 1 Personalize o atendimento

Mesmo com um índice de satisfação considerado elevado, na casa dos 90%, a Coca-Cola conduziu no primeiro semestre de 2011uma minuciosa pesquisa com seus consumidores para identificar eventuais problemas em seu atendimento. Descobriu, entre outras coisas, que muitos deles estavam descontentes com o tempo de troca dos produtos e com a forma com que os representantes da empresa agiam na hora de substituir garrafas com problemas – um deles elogiou os atributos físicos de uma consumidora, que ameaçou processar a companhia

A partir desse levantamento, a Coca- Cola reduziu o tempo médio de troca dos produtos de sete para dois dias e passou a treinar os 18distribuidores da marca para que oferecessem tratamento personalizado ao consumidor. Cada representante da empresa agora recebe um histórico da reclamação do consumidor antes de visitá-lo e é orientado a pedir desculpas específicas em nome da marca (se, por exemplo, o cliente machucou o dedo enquanto abria uma latinha de refrigerante. O representante é orientado a fazer perguntas sobre seu estado de saúde). Com isso, a Coca-Cola encerrou 2011 com 94% de satisfação do consumidor. “Vamos repetir essa pesquisa á cada seis meses, até chegarmos a um atendimento impecável”, diz Rino Abbondi, vice-presidente de técnica e logística da Coca-Cola.

 

AMERICAN EXPRESS POSiÇÃO NO RANKING 3 Recompense AS SOLUCOES

Ao renegociar os contratos com as equipes terceirizadas de atendimento ao cliente, a empresa de cartões de crédito American Express, que pertence ao Bradesco, aumentou de 89% para 96% o total de reclamações resolvidas logo na primeira ligação. Pelas novas regras do banco, esses fornecedores passaram a ser remunerados não com base na quantidade de chamadas recebidas, como é de praxe no setor, mas de acordo com o índice de solução dos problemas. Se há melhora nos indicadores internos de qualidade no atendimento, a empresa de calI ceacer recebe até 20% mais pelo minuto de ligação atendida. A redução das queixas no Procon pode elevar em mais 5% o montante pago à companhia. O novo sistema deu

tão certo que o Bradesco já estuda estendê-lo às demais áreas do banco. “No fim, saiu mais barato para a empresa atender bem o cliente”, diz  Alexandre Monteiro, diretor da área de cartões do Bradesco.

 

NATURA POSiÇÃO NO RANKING -4 Contagie a empresa

O descompasso entre o que acontecia no dia a dia das consultoras e o que diziam os sistemas de monitoramento interno sempre foi uma das maiores causas de insatisfação entre as vendedoras da Natura.

Os executivos da companhia não faziam ídeia, por exemplo, se a entrega de um pedido estava atrasada – eles apenas tinham certeza de que elehavia deixado o centro de distribuição. Com base em uma pesquisa feita no início de 2011, a Natura mudou seu sistema de controle para enxergar, de fato, o que se passava com o produto até que ele chegasse à casa das consultoras. Paralelamente, a companhia construiu oito centros de distribuição para diminuir pela metade o tempo de entrega – e evitar desvios pelo caminho. Para fazer do atendimento uma prioridade em todas as áreas, a Natura incluiu o indice de satisfação das consultoras (que fazem o meio de campo com os consumidores) na composição, do bônus de todos os executivos. No ano passado, o número de ligações para a Natura caiu 24% em comparação a 2010.

 

PORTO SEGURO-POSiÇÃO NO RANKING 5 Dê poder à linHa defrente

A cada mês, a seguradora Porto Seguro tem de administrar mais de 2,5 milhões de ligações de clientes, a maior parte com dúvidas e reclamações sobre assuntos tão díspares quanto a fatura do cartão de crédito, carros que não ligam e geladeiras que não gelam. Para dar vazão a toda essa demanda, a diretoria da empresa decidiu dar poder à linha de frente – além de serem treinados para resolver cada caso sem precisar ler um script enervante, os atendentes do call center foram encorajados a telefonar aos principais executivos da Porto Seguro para sanar eventuais dúvidas. Cabe aos atendentes, por exemplo, decidir se um segurado pode usar um guincho extra, por conta da empresa, dependendo da situação em que se encontra. “A regra que prevalece em nossas centrais de atendimento é: se você não sabe, alguém na empresa sabe. É só procurar”, diz Sonia Rica, diretora de relacionamento da Porto Seguro. A empresa tem atualmente a maior taxa de retenção de clientes do setor, na casa dos 80%.

 

GM SUBIU 22 POSIÇÕES (DA 86ª PARA A 64ª) SÓ no call center

Para se preparar para uma nova safra de lançamentos – foram quatro modelos novos só em 2011, sem contar as reestiligações, a General Motors resenhou seu serviço de atendimento ao consumidor. Além de integrar o tradicional sistema telefônico  ao de internet e redes sociais, a empresa extrapolou os limites do call center. A GM passou os últimos dois anos reformando as oficinas de 500 concessionárias espalhadas pelo Brasil, deixando as, digamos, “apresentáveis” aos olhos do consumidor. Ao mesmo tempo, criou uma espécie de universidade móvel para treinar mecânicos e vendedores – elas funcionam dentro de três caminhões. A ideia é que o consumidor discuta com o mecânico a melhor maneira de resolver eventuais contratempos com o carro – e não apenas receba um orçamento com o que precisa ser feito das mãos de um vendedor. A GM está entre as empresas que mais subiram no ranking do IBRC em 2011, passando da 86a para a 64a posição. Como acontece em outras empresas da lista do IBRC, a GM criou metas de satisfação de clientes para diversos cargos – de vendedores a mecânicos de concessionárias. Os vendedores têm de cumprir uma série de requisitos, como ligar para os clientes três dias após a compra para checar o grau de satisfação com o carro .

 

QUANTO MAIS ELES TEM

mais eles querem. Ser funcionário público hoje dá prestígio e reajuste salarial acima da inflação – mas uma onda de greves mostra que sempre se pode pedir um pouco mais. No ultimo dia 25 enquanto técnicos do Ministério do Planejamento, em Brasília, reviravam as planilhas que diriam a eles se seria possível conceder aumentos salariais a servidores do Executivo, o grupo de grevistas que estava na porta do ministério tocava repetidamente, em uma caixa de som, a música Índia, do deputado federal e palhaço Tiririca (PRSP). No mesmo dia, outro grupo de grevistas direcionava duas potentes caixas de som para as janelas do prédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária para tocar, no maior volume possível, músicas da banda Mamona Assassinas. Em ambas as cenas, o som alto advogava por melhores salários para cerca de 350000 servidores federais que paralisaram as atividades, segundo a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal, ou a metade disso, nas contas do governo. E o barulho talvez tenha sido o argumento mais eloqüente a ser usado pelos grevistas. Sem barulho, o que restava era falar das reivindicações. E elas mostram o que está na entrelinha da lista gorda de pedidos apresentada pelos grevistas: quanto mais eles têm, mais eles querem. Ao contrário do que admitem as mais de 30 categorias que seguiam de braços cruzados até o final de julho – algumas delas paradas há mais de dois meses -, os funcionários federais têm hoje alguns dos empregos mais cobiçados do país. Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 88% das carreiras, o setor público paga mais que o privado. De 2003 a 2011, o gasto médio do governo com os servidores do Executivo cresceu 123% – parte disso deveu-se a contratações e parte a aumentos salariais. A inflação no período foi de 52%.”A alta dos ganhos no setor público se acentuou nos últimos anos”, diz José Pastore, professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo. “Para as mesmas profissões, a média do salário do funcionário público é bem mais alta que a do privado.” O salário médio dos servidores em 2010 foi de 2268 reais, quase 12%maior que o de três anos antes. No mesmo intervalo, a remuneração média na iniciativa privada cresceu 8,9%, para 1491 reais. “E o setor público oferece estabilidade, aposentadoria integral, ausência de cobrança por produtividade e de penalizações nas greves”, afirma Pastore. “Isso não se vê no setor privado.” O privilégio das greves sem perda salarial já foi criticado até pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse que “greve não é férias”. A regulamentação das greves do funcionalismo tramita desde 2010 no Congresso – mas o impasse se arrasta desde a promulgação da Constituição, em 1988. CONTAS DISTORCIDAS As reivindicações dos grevistas são graúdas. Não há pedido de aumento salarial de 1dígito, embora a inflação prevista no ano seja de 4,9%. Se todos forem atendidos, as despesas do governo crescerão 92 bilhões de reais, ou metade do que já gasta com o funcionalismo por ano. Mas a distorção das contas com o funcionalismo independe de eventuais reajustes. Ela começa pelas aposentadorias. Por ter direito a pensão integral, os servidores civis recebem por ano uma bolada de 18 bilhões de reais, correspondente à metade do déficit da Previdência em 20lL No funcionalismo federal, 955000 aposentados e pensionistas recebem, em média, 5900 reais por mês, enquanto 25 milhões de aposentados da iniciativa privada levam, em média, 806 reais. Outra distorção é a do alto número de servidores admitidos por indicação, os chamados comissionados, que não atravessam a peneira do concurso público. O Brasil tem 22000 comissionados. No Reine Unido são 300, e na Alemanha, 170.Além do número exagerado, no caso brasileiro

esses cargos, situados no topo da pirâmide dos órgãos públicos, em geral são preenchidos com base não no conhecimento, e sim no apadrinhamento. Os grevistas dão de ombros para o cenário atual de crise externa e economia brasileira fraca. Mas não só eles. Categorias que não pararam também pleiteiam aumentos encorpados. É o caso dos analistas da Receita: eles querem85% mais de salário, reajuste que aceitam parcelar de 2013 a 2015.Vale notar que a categoria teve aumento de 60% em 2008, dividido em três parcelas anuais. São reajustes dignos dos tempos de hiperinflação. “Alguns pedidos são descolados da realidade”, diz Sérgio Mendonça. secretário de relações de trabalho do Ministério do Planejamento. “Uma coisa é receber como na Noruega, onde a renda per capita é de 80000 dólares. Outra é o Brasil.” Como os planos de carreira no serviço público não são homogêneos, algumas categorias podem até estar com salários defasados. Para essas, é lícito pedir algo melhor. Mas o olho gordo de parte do funcionalismo subverteu os preceitos de trabalhar no governo,”Hoje, quem passa em concurso acha que ganhou um direito divino.A partir dali, o Estado teria de servi-lo”, diz o presidente de um órgão público. “Mas é o oposto disso: a pessoa foi selecionada para servir à população.” É nisso que os grevistas deveriam pensar.

 

 

ENQUANTO ISSo, NO ABC PAUliSTA. NO BERÇO DO SINDICALISMO BRASILEIRO, A

NEGOCIAÇÃO ENTRE PATRÕES E EMPREGADOS VIRA REGRa. E ESTÁ A CAMINHO DO CONGRESSO. Sinal dos tempos: os sindicalistas é que estão na vanguarda do debate sobre as relações de trabalho no Brasil. A lição de sensatez sai do ABC paulista, berco do sindicalismo brasileiro. No momento em que pipocam greves no setor público, os companheiros metalúrgicos defendem seus empregos. Em fábricas da região, patrões e empregados negociam acordos diretamente, com a anuência dos sindicatos. O expediente serve como uma carta na manga contra demissões. Na fábrica da Scania, um acordo fechado em maio tomou a carga horária maleável: se a demanda por caminhões for fraca, os trabalhadores entram em licença e, se o mercado se aquecer, haverá expediente em alguns sábados. Em troca, a empresa prometeu não demitir ninguém em 2012. Por causa das amarras legais, iniciativas como essa só podem ser adotadas de maneira informal, mas o projeto que formaliza os acordos está no planalto recebendo acertos para seguir até o Congresso. Se aprovado, os acordos poderão ser adotados em todo o país. “Os tempos mudaram, e nós aprendemos isso”, diz Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, autor da proposta. O expediente não substitui a Consolidação das Leis do Trabalho, mas evita que acordos do gênero sejam contestados nos tribunais. Diz Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade: “As pessoas enfim estão percebendo que, entre fazer greve por um pequeno adicional no salário ou lutar pela garantia do emprego, muito melhor é o emprego”.

 

UM EXTRA PARA A ESCOLA

Dois fundos de investimento formados por doações de ex-alunos, nos moldes das universidades americanas, vão ajudar a Escola Politécnica da USP. A presença das universidades americanas no tono do ranking mundial da/melhores instituições de ensino superior faz parte do orgulho nacional- entre as dez melhores. seis são dos Estados Unidos. Um ex-aluno se identifica com a universidade em que se formou tanto quanto, no Brasil,um torcedor defende seu time. Lá, ter se graduado em Harvard, Yaleou Berkeley vale como cartão de apresentação. A ligação, porém, vai muito além da torcida e do orgulho pelo diploma. Muitos ex-alunos põem a mão no bolso pelas escolas. Isso explica em parte por que dois terços das 4000 instituições superiores americanas possuem endowments- fundos de investimento que gerenciam doações e destinam retornos financeiros para as escolas. A ajuda proporcionada é valiosa. Só em 2011, 19 bilhões de dólares repassados pelos endowments foram usados para aprimorar a pesquisa, a capacidade técnica e a gestão nas universidades americanas. Esse dinheiro extra de ex-alunos é mais do que todo o orçamento da União nas universidades federais no Brasil. A filantropia na educação é comum também no

Reino Unido. Recentemente, o galês Michael Moritz, presidente do fundo de investimento Sequoia, acionista do Google, anunciou a doação de 115milhões de dólares à Universidade de Oxford. Enquanto os endowments americanos existem há séculos – o primeiro, de Harvard, foi criado em 1643,sete anos após a fundação da universidade -, só agora o Brasil vê surgir iniciativas do gênero. Uma das principais escolas de engenharia do pais, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é palco de uma curiosa competição. A Poli, como é conhecida, em menos de um ano viu surgir dois fundos, que agora estão numa corrida para levantar recursos. O primeiro foi o Endowment da Escola Politécnica. criado em maio de 2011. Em março deste ano foi lançado o Amigos da Poli. Para ambos, o primeiro desafio foi criar um modelo legal para o recebimento das doações – a lei brasileira não prevê nada semelhante ao endowment dos Estados Unidos. Lá, esses fundos têm regras especiais: são de caráter perpétuo – ou seja, os doadores não podem resgatar o dinheiro, extinguir o fundo ou mudar os beneficiários. Como isso não existe aqui, a saída encontrada foi a união de duas estruturas: uma associação e um fundo de investimento. O estatuto da associação dá as diretrizes de ‘como o fundo deve funcionar, garantindo a perpetuidade e a destinação dos rendimentos à faculdade. Outra diferença é que a lei americana incentiva as doações – elas são isentas de imposto. Aqui, o dinheiro doado é taxado, em média, em 4% pelos estados. O primeiro endowment da Politécnica surgiu na universidade. A diretoria da faculdade, o grêmio de alunos e a associação de engenheiros politécnicos tomaram a iniciativa. Para montar o modelo legal, contrataram a Endowments do Brasil, empresa fundada por ex-alunos de direito. Desde então, o fundo captou meio milhão de reais. Mais da metade veio de familiares de alunos, ex-alunos e professores. Atualmente, 95 famílias de politécnicos contribuem periodicamente por meio de boleto bancário. A última doação expressiva veio do banco BTG Pactual, que colaborou com 70000 reais. Já os Amigos da Poli nasceu fora da escola. Em 2010, o engenheiro politécnico Eduardo Vasconcellos, na época trainee do Unibanco, bateu à porta do então presidente Pedro Moreira Salles para apresentar o projeto de endowment feito por um grupo de amigos politécnicos. Um acordo foi feito: Pedro apresentaria Eduardo a um grande executivo. Se essa pessoa abraçasse o projeto, Pedro ficaria comprometido a apresentá-lo a um segundo empresário. Se a resposta fosse negativa, o trainee não falaria mais do assunto. Oplano deu certo. Em março de 2012, foi lançado o Amigos da Poli. Endinheirados como Rubens Ometto (Cosan) , Luis Stuhlberger (Credit Suisse Hedging- Griffo), Carlos Terepins (Even),  Newton Simões (Racional Engenharia) e Roberto Setúbal (Itaú Unibanco), formados na Poli, aderiram à causa. Em quatro meses, já foram captados mais de 4 milhões de reais. A meta é chegar a 10 milhões no primeiro ano, quando efetivamente o rendimento do fundo começará a ser aplicado na Poli. Ainda não está definida a destinação do dinheiro – só em 2013o fundo aceitará projetos de professores e alunos. O pontapé inicial, uma doação de 50000 reais, veio do presidente do Grupo Ultra, Pedro Wongtschowski, que fez graduação, mestrado e doutorado na politécnica. “A poiei de imediato. É uma escola rica em recursos humanos, mas não tem como tocar projetos que às vezes precisam de poucos recursos”, diz. Em 2011,o orçamento da Poli para material e contratação de serviços foi de 14 milhões de reais.”Os endowments podem proporcionar um salto de qualidade nas universidades”, diz José Roberto Cardoso, diretor da Poli. Que a ideia prospere.

 

A LUTA PELAS CARTAS

O município de comercinho, em minas gerais, a 640 quilômetros de Belo Horizonte, tem 8000 habitantes e 1400 imóveis registrados para cobrança de imposto predial e territorial. Para reduzir os gastos, o município decidiu entregar neste ano, por conta própria, os carnês do imposto – mesmo sob o risco de ter de brigar com os Correios nos tribunais. A estatal já avisou a prefeitura que a entrega dos boletos fere o monopólio que, por lei, a empresa tem na entrega de cartas. Para os comercienses pareceu despeito. “O carteiro que entrega os carnês éum funcionário da prefeitura, mas que está cedido aos Correios”, diz Edinay Ferreira, chefe do departamento de tributos de Comercinho. “E no ano passado nós só entregamos os carnês das casas que estavam com endereço incompleto. Nó já sabíamos que os Correios iam devolver essas correspondências.” O levante de Comercinho desfalcará os Correios em 1500 reais. É uma ninharia para a estatal, que faturou 13,6bilhões de reais em 2011. Mas, para a cidade, é uma economia que corresponde a 10% do que a prefeitura arrecada com o IPTU. O embate entre os Correios e Comercinho não é apenas anedótico. O episódio mostra que ainda há insegurança jurídica nos serviços IlOstais, que movimentam 21 bilhões de reais por ano. No centro dessa zona de sombras está o monopólio da estatal. O direito de explorar sozinho a entrega de cartas, telegramas e cartões-postais está na Constituição me foi ratificado em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal. Mas esse privilégio anacrônico vem sendo cada vez mais questionado. Itaobim, outra cidade mineira, entrou em atrito com os Correios em 2010. A prefeitura local também achou que seria mais prático – e barato – entregar ela própria seus carnês do IPTU. Os Correios contestaram, e a briga chegou ao STF em março deste ano. O município levou a melhor no seu caso específico, mas o Supremo não entrou no mérito do monopólio. Por isso, a decisão não servirá de base para futuros julgamentos. Em outros casos, a contestação ainda é um jogo aberto. A AES Eletropaulo disputa há anos o direito de entregar suas contas de luz. Com o avanço da tecnologia, os profissionais que fazem a leitura do consumo têm agora um aparelho que emite na hora a conta mensal. Assim, os Correios não são mais essenciais. A disputa foi aos tribunais em 2011.A Eletropaulo venceu em primeira instância, mas a estatal já recorreu. No setor de transportes, que concorrecom os Correios na entrega de encomendas, também há rusgas. “Muitas transportadoras deixam de fazer entregas porque os clientes temem estar ferindo o monopólio dos Correios”, diz Marcos Aurélio Ribeiro, diretor jurídico da NTC&Logística, associação que reúne grandes empresas do setor de cargas. A lei só garante o monopólio nas cartas – as entregas de mercadorias são de livre competição. Em 2011, os Correios notificaram 368 empresas por suposta quebra de seu monopólio. A empresa tem dado lucro – o de 883 milhões de reais em 2011 foi o maior de sua história. Mas, imune à concorrência direta, ela é pouco eficiente na prestação dos serviços. No ranking de eficiência das empresas postais das 20 maiores economias do mundo, feito pela consultoria britânica Oxford Strategic, os Correios estão em um mediano nono lugar. O número de encomendas entregues por carteiro foi de 526 em 2010 – na Deutsche Post, uma das melhores nesse quesito, privatizada em 1995, cada profissional fez 4500 entregas. O que faz diferença é a competição. “Em países como Suécia e Nova Zelândia, os governos mantiveram suas empresas postais, mas elas deixaram de ter monopólio. Obrigadas a concorrer, elas agora têm a eficiência como meta”, diz Eduardo Molan Gaban, advogado do escritório Machado Associados e autor  de Regulação do Setor Postal, que sai em agosto. “O comando dessas empresas não é mais guiado por fatores políticos:’Foi em uma investigação sobre fraudes em licitações dos Correios que se descobriu o mensalão. A quebra da exclusividade pode, além do mais, reduzir o espaço para esse tipo de escândalo.

 

EM FIM UMA BOA MEDIDA

As penas impostas às teles servem para lembrar que as empresas têm obrigações com os clientes, e não apenas com os acionistas. E dão exemplo de quando, onde e por que o poder público tem de intervir.Elogiar decisões tomadas por governo, quais quer que sejam eles, sempre coisa arriscada. No

Brasil de hoje, especialmente, é um perigo – basta falar bem de alguma coisa e logo vem o governo com um doutor Juquinha, ou com uma empreiteira Delta, ou com mais uma m~festação de amor a Hugo Chávez, e joga uma caixa-d’água ~lada em cima do elogio. Não existe, realmente, nenhum sistema seguro para lidar com isso. Esperar que o governo acerte três vezes em seguida, digamos, para sóentão falar algo a favor, comprovadamente não funciona. Nossos altos, médios e baixos comandos nunca conseguem acertar três vezes seguidas; se o critério for esse, não haverá aplauso nunca. Elogiar e ficar torcendo para que nada de ruim aconteça na sequência também não dá certo; não há torcida, novena ou despacho capazes de manter o poder público em estado de graça durante muito mais do que alguns momentos. Recusar-se a fazer qualquer registro positivo, pura e simplesmente, não é uma opção razoável- seria ir contra os fatos, e isso não vale. O único recurso disponível, então, é dizer “aqui o governo acertou” e ficar frio, aguardando erro que virá logo em seguida. Este artigo, por exemplo,se propõe a destacar uma ação meritória do governo nas suas recentes medidas em relação às operadoras de telefones;o castigo certamente chegará a cavalo, com a eclosão de alguma barbaridade que já deve estar no forno a esta altura. Fazer o quê? É preciso ir em frente. As penalidades que as autoridades da área de telecomunicações acabam de impor às teles são um duplo acerto. Em primeiro lugar, servem para lembrar às empresas que, em troca do direito de operar o sistema, têm obrigações especiais para com os clientes, e não apenas para com os acionistas; esse é o preço a pagar por qualquer companhia privada que se dispõe a operar no ramo de fornecimento de utilidades públicas. Em segundo lugar, servem de excelente exemplo prático a respeito de quando, onde e por que o poder público tem de intervir na economia. Deixam claro que a real questão não é ficar discutindo se o Estado tem de ser “forte” ou “mínimo”; o que ele precisa ter, isso sim, é o tamanho necessário. A situação do sistema brasileiro de telefonia é um tema verdadeiramente complexo, com variáveis, dilemas e elementos de incerteza, como mostra a ampla reportagem que EXAME publica nesta edição. Ainda assim, há fatos suficientes para mostrar que a recente intervenção do governo nas operações das teles foi na direção correta. É obrigação do Estado, acima de tudo o mais que pode ou deve fazer na economia, exercer uma função reguladora nas questões que têm de ser controladas para atender aos interesses reais do público. Foi o que o governo fez agora – aliás, fez até mais tarde do que deveria ter feito. As operadoras de telefones no Brasil são, já há muito tempo, as campeãs em matéria de queixas dos consumidores. Têm, todas elas, uma distinção realmente extraordinária: são empresas telefônicas com as quais é impossível falar ao telefone. Seus serviços de atendimento ao cliente simplesmente não atendem cliente algum, e o infeliz que tem um erro de cobrança, uma falha de serviço ou qualquer outra

coisa a reclamar não pode fazer muito mais do que queixarse do seu azar. As teles têm duas portas: uma delas, a de vendas, está sempre aberta; a outra, a que deveria servir aos seus assinantes, nunca abre. Elas acham que podem resolver seus problemas com o público jogando propaganda em massa em cima dele. Mas o que aqueles três homens pintados de azul, por exemplo, ou outras criações igualmente incompreensíveis, podem fazer de útil por você? Depois que o governo Fernando Henrique deu aos brasileiros o direito de falar ao telefone, que lhes ela negado desde Graham Bell, o Brasil fez um avanço milagroso – tem hoje cerca de 300 milhões de telefones, dos quais 80% são celulares. Mas essa vitória já não basta. É preciso que as teles façam muito melhor do que estão fazendo.

 

COM O PE NA LAMA

A construção da siderúrgica CSA, no Rio de Janeiro, começou a dar errado já na escolha do terreno, um manguezal na zona o este da cidade. Hoje, a empresa está à venda.Uma área de manguezal tem diversas finalidades econômicas. A pesca do caranguejo, crustáceo típico desse ecossistema, é a mais famosa delas. O cultivo de plantas ornamentais, a criação de abelhas ou o turismo são outras formas aconselháveis de desfrutar as características únicas de um mangue (tudo de forma sustentável, claro). Há sete anos, o conglomerado alemão ThyssenKrupp e a mineradora brasileira vale decidiram que era hora de tratar esse ecossistema de maneira um pouco mais inovadora: escolheram um terreno pantanoso, ao mlado de um manguezal, na zona oeste Rio de Janeiro, para construir a Companhia Siderúrgica do Atlântico CCSA).Se viver é perigoso, inovar é arriscado.

E, no caso da CSA, logo se viu que a ideia de levantar uma usina com centenas de milhares de toneladas sobre aquele lamaçal todo não era nada boa. Fazer as fundações foi tão tortuoso que, em determinado momento, um quarto dos bate-estacas disponíveis no pais estava sendo usado para estabilizar o solo do mangue carioca. Eis o resumo da história da CSA – a siderúrgica nasceu na lama; em seguida, veio o caos. A estranha escolha do terreno foi, hoje se sabe, apenas a primeira das trombadas que culminaram na recente decisão da Thyssen de passar o negócio adiante. A empresa alemã contratou os bancos Goldman Sachs e Morgan Stanley para encontrar um interessado disposto a pagar estimados 2,7 bilhões de euros por sua participação de 73% na empresa (o resto é da Vale, que admitiu que também pode vender sua parte). É um fim melancólico para um projeto que nasceu repleto, em 2005, de atrativos tidos como óbvios na época. A parceria com a Vale garantiria minério de ferro de qualidade e baixo custo. Aconstrução de uma laminadora do grupo alemão no estado americano do Alabama permitiria transformar as placas brasileiras em chapas de aço para abastecer clientes como montadoras de automóveis, que tinham as vendas em alta naquele momento. A instalação às margens da baía de Sepetiba eliminaria gargalos logísticos com a construção de um porto para despachar as placas para o Alabama. A operação ainda neutralizaria o protecionismo dos Estados Unidos ao aço acabado brasileiro – as placas sofrem menos taxação do que as chapas. Daria tudo certo, não tivesse dado tudo errado. Muito em função do “efeito mangue”, a CSA foi inaugurada com um ano e meio de atraso, no fim de 2010, e custou 70% mais do que o previsto (5,2 bilhões de euros). A usina funciona parcialmente até hoje. E dá prejuízo. A fábrica carioca e a laminadora do Alabama fecharam o último ano fiscalcom mais de 1bilhão de euros no vermelho (a Thyssen divulga os resultados das duas somados). A CSA vem sendo acionada por 40 fornecedores que dizem não receber desde a fase de construção. Procuradas, Thyssen e Vale não quiseram dar entrevista. o BARATO SAIU CARO Como uma multinacional que fatura quase 50 bilhões de euros conseguiu errar tanto? Parte da resposta está no fato de que a Thyssen não erguia uma siderúrgica do zero havia seis décadas.Ainda na fase do arranjo societário, a Thyssen deixou claro que pretendia mandar sozinha na CSA. A ideia original era que os alemães tivessem 70%das ações, mas, no fim, acabaram com90%. A Thyssen enviou ao Brasil duas dezenas de executivos europeus para tocar o projeto no mangue. O plano inicial era contratar apenas uma empresa para fazer o pacote completo – da construção civil à instalação dos equipamentos. Quando os orçamentos chegaram, os alemães acharam caro ‘demais e decidiram assumir a administração do canteiro de.obras. O primeiro problema apareceu na fase de fundação, em razão da instabilidade do solo. “A área era como areia movediça e o alicerce custou várias vezes mais que o projetado”, diz um ex-executivo da empresa. Apesar de o próprio grupo Thyssen ter uma fabricante de coquerias (parte da usina que produz coque, o carvão fundido, um dos principais insumos do aço), a Uhde, os alemães decidiram comprar uma coqueria da chinesa Citic. A ideia, de novo, era economizar. A coqueria sairia pelo preço desejado se fosse montada por 4000 chineses, mas o governo brasileiro só permitiu a entrada de 600 deles, desde que seguissem as leis locais, com descanso semanal e hora extra remunerada. No final, a coqueria não só atrasou como deu defeito, e a Uhde foi chamada para consertá-la. A coqueria só deve operar plenamente a partir de agora. Enquanto isso, a CSA seguiu importando coque. Em 2009, abatida pela crise, a Thyssen ameaçou interromper a construção. O então presidente da Vale, Roger Agnelli, liberou 2,1 bilhões de reais para manter a obra – e a mineradora, a contragosto, elevou a participação de 10% para 27% na sociedade. O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou a siderúrgica em 2010. Quando a CSA finalmente começou a operar, em agosto de 2010, deu origem a um episódio daqueles que poderiam ter sido imaginados por seguidores do realismo mágico latino-americano.O bairro onde fica a usina, Santa Cruz, na zona oeste do Rio, foi coberto várias vezes por uma espessa nuvem de poeira metálica. Apesar de a poeira não ser tóxica, o incidente provocou medo e manifestações de moradores que repercutiram até no Parlamento alemão. A CSA foi multada em 18,6 milhões de reais e obrigada a investir outros 100 milhões em equipamentos para conter a poluição. Se cometeu tantas barbeiragens naquilo que estava sob seu controle, diga se, em defesa da Thyssen, que o mercado também não ajudou. O preço do aço caiu quase à metade depois da crise de 2008 e ainda não se recuperou totalmente. Em 2005, o custo de produção de placas no país era de 232 dólares por tonelada, ante 307 dólares da média mundial. No ano passado, a relação era de 520 dólares no Brasil, ante 573 no mundo. Houve até espaço para uma tragédia no meio do caminho: o executivo sul-africano Erich Heine, enviado ao país para arrumar o que estava dando errado com a CSA, foi uma das vítimas do voo da Air France que caiu no Atlântico em 2009. O novo presidente mundial da Thyssen, Heinrich Hiesinger, decidiu que chegou a hora de se livrar da CSA, mesmo que barato. O processo de venda está em sua fase inicial- Morgan Stanley e Goldman Sachs estão pedindo  propostas de potenciais interessados, sobretudo na Ásia, continente em que a demanda por aço segue aquecida. As coreanas Posco e Dongkuk estão entre as mais cotadas. Entre as nacionais,apenas a CSN, de Benjamin Steinbruch, admitiu interesse. Steinbruch está capitalizado, mas há alguns pontos~ue o atrapalham, como resistências no BNDES (credor da CSA que terá de

aprovar a venda) e na Vale (ter um sócio autos suficiente em minério, como é o caso da CSN, não faria muito sentido). Para a Thyssen, só um ponto interessa – o ponto final.

 

BOLSA NEM PENSA

A construtora paranaense Plaenge se recusou a aderir às últimas modas do setor – como abrir o capital e vender para a baixa renda. Virou uma das maiores do país. Há coisas que seis anos, ficou que a vida das construtoras brasileiras havia mudado.Era hora de pensar grande. O modelo de negócios que reinava até então estava com os dias contados. Eram tempos em que cada um se concentrava em fazer aquilo que sabia, em crescer com os próprios recursos e aos poucos. Na nova era da construção civil,essa lógica foi virada ao avesso.Vinte incorporadoras abriram o capital na bolsa para financiar seu crescimento.Mesmo empresas especializadas em construir para endinheirados partiram para a conquista do promissor consumidor de baixa renda. Passados os anos de oba-oba, essas modas todas acabaram mal. Como todo mundo teve a mesma ideia ao mesmo tempo, os preços de terrenos e material de construção dispararam. Faltou mão de obra e, em alguns locais, sobraram imóveis. Hoje, é difícil encontrar uma construtora que esteja crescendo. Uma rara exceção é a paranaense Plaenge. O motivo? Seus donos ouviram a receita da moda dos últimos anos – e fizeram tudo ao contrário. Sem sócios, sem emitir ações e vendendo quase nada para a classe C, a Plaenge cresceu 589% nos últimos cinco anos e, com faturamento de 745milhões de reais, tomou-se a maior incorporadora de capital fechado do país. Seus donos ficaram de fora da bolsa porque julgavam seu negócio incompatível com as exigências do mercado – argumento que, hoje, começa a ganhar força mesmo entre as empresas de capital aberto. “O ciclo da construção é longo. Um empreendimento leva até quatro anos para dar resultado. Seriamos cobrados pelo desempenho a cada trimestre, e desse jeito não dá”, diz Alexandre Fabian, filho do fundador e um dos diretores da companhia – o outro é o irmão Fernando. A alternativa foi usar recursos próprios. Em 2006, a empresa tinha em caixa um valor superior a seu faturamento anual – a ideia era não depender de empréstimos bancários para construir (a Plaenge só recorreaos bancos quando consegue jurosmais baixos que a média). Como estava com o caixa abarrotado, usou cerca de 100 milhões de reais para comprar terrenos – justamente quando as rivaiscomeçavam a levantar dinheiro na bolsa. Multiplicou seu banco de terrenos por U em menos de um ano. E, como chegou antes da concorrência, pagou menos pelos terrenos. A Plaenge também fez o cqntrárío da” grandes na hora de construir. No afã de crescer em regiões inexploradas, empresas como a líder Cyrela passaram a terceirizar a construção para parceiros locais. Os custos explodiram, as obras

atrasaram, os Procons acabaram lotados de reclamações. A Plaenge faz diferente. Antes de começar a atuar numa cidade, algum membro da família mora no local por cerca de um ano para avaliar o mercado e a burocracia da prefeitura Em 2002, Fernando Fabian se mudou com a família de Londrina, onde fica a sede da empresa, para Curitiba, cidade em que a incorporadora começaria a atuar. Ele organizou grupos de discussão com potenciais clientes e descobriu que a maioria tinha medo de comprar imóveis na planta. Passou a vender apartamentos com um seguro que indeniza se houver atrasos (hoje, a Plaenge é a maiorincorporadora de Curitiba). Mesmo em cidades mais distantes da sede, como Cuiabá e Campo Grande, é a própria Plaenge que toca as obras. CONTROI:E DE CUSTOS Outro pilar da estratégia da companhia é ser conservadora na escolha dos clientes e no controle de custos. Só 8% das receitas vêm da baixa renda, segmento que os donos consideram arriscado demais, porque as margens são apertadas. Um software de gestão permite monitorar a evolução das obras a cada semana “Arnaioria das empresassó descobre o que está errado no fim da obra, e aí fica difícil consertar”, dizCarlos Bueno, sócio da Tallento, uma das principais empresas de gerenciamento de obras do país. É o que está ocorrendo com as incorporadoras de capital aberto: Gafisa, PDG, Tecnisa eCCDI anunciaram, neste ano, estouros nos custos das obras que, somados, chegam a 1bilhão de reais. Olhar o que os principais concorrentes fazem e seguir o caminho contráriotem compensado. A rentabilidade da

Plaenge é de 14%, o dobro da média das incorporadoras listadas na Bovespa. O risco, agora, é o aumento da concorrência, especialmente nas sedes de jogos da Copa de 2014. Brookfield, MRVe PDG já anunciaram in’trestimentos em Cuiabá, onde a Plaenge é líder de mercado. E, desta vez, elas chegam aos nichos da Plaenge de um jeito diferente: tocando as próprias obras e escolhendo terrenos com mais cuidado.À moda antiga, portanto.

 

ALTA RENDA, ALTO RETORNO

Shoppings, escritórios e apartamentos para ricaços fizeram o ano da jhsf. A incorporadora paulista jhsf se habituou a desempenhar o papel de patinho feio do setor na bolsa. Suas ações caíram 22% nos 12 meses seguintes à sua aberturadtcapital, enquanto os papéis de concorrentes como Cyrela e PDG valorizaram mais de 30%. Um problema, diziam os analistas, era que a empresa só construía para a alta renda, e o mercado que mais crescia era o das classes C e D. Outro entrave era seu sistema de vendas: os concorrentes corriam para passar adiante 70% das casas e apartamentos antes de as obras começarem, mas a JHSF preferia vender só 30%, para adequar os preços aos custos da construção. Estava dando errado, até que começou a dar certo. A JHSF não mudou – o mercado, sim. Com seu modelo mais pé no chão, a incorporadora sofreu menos com o aumento dos custos no último ano. O poder de fogo de sua clientela continuou igual, enquanto a baixa renda, bem mais endividada, passou a comprar  menos. No último ano, suas ações subiram 40%; os papéis do setor caíram 11%,em média A empresa não foi a única a apostar no modelo – concorrentes como Eztec e Helbor seguiram essa estratégia e se deram bem (a Eztec tem a maior margem do setor; a JHSF tem a segunda; e a Helbor, a quarta). Agora, a JHSF vai centrar seus investimentos na construção de escritórios e shoppings, para alugá-los. A meta é que as receitas das locações respondam por metade do faturamento, hoje em 961 milhões de reais; “O mercado de alto luxo tem um limite, e estamos perto dele”, diz José Auriemo Neto, presidente da empresa Serão lançados mais empreendimentos como o Cidade Jardim, que reúne prédios residenciais e comerciais e um shopping em São Paulo. Um deles está sendo erguid  a 30 minutos da capital: um complexo de casas, centro de convenções, outlet e até aeroporto. Sempre de olho no topo da pirâmide.

 

RUIM PARA ELES, BOM PARA NOS

O departamento de agricultura dos Estados Unidos tem a fama de ser um órgão conservador. Por isso,ninguém duvidou quando ele previu, no início deste ano, que a colheita americana seria recorde na atual safra. O pais colheria 376 milhões de toneladas – algo como 45% da produção mundial. Hoje, já se sabe que a previsão é furada. O Meio-Oeste dos Estados Unidos, onde se concentra a produção de grãos, arde com a pior seca dos últimos 50 anos. Sofrem os produtores de trigo, soja e, principalmente, milho. Estima-se que as perdas no milho já cheguem a 70 milhões de toneladas. Os mais pessimistas falam que a quebra de safra pode superar 100 milhões de toneladas – o que significaria falta do cereal para suprir a demanda interna. A instabilidade no campo já pressiona os preços na bolsa de Chicago, que baliza a cotação de produtos agrícolas em nível internacional. Neste ano, o preço do milho e da soja acumula alta semelhante, em torno de 40%. Nem a chuva fraca que começou a cair no final de julho deu refresco às cotações. Em meados do mês, depois de se reunir com o presidente Barack Obama para tratar da  seca, Tom Vilsack, secretário de Agricultura, definiu a gravidade da situação: “Se soubesse uma oração da chuva ou uma dança da chuva, eu as faria”. O único sopro de alívio no mercado vem do Brasil. Graças ao clima tropical, o pais planta duas safras de milho por ano. Neste ano, a safra de verão sofreu com a estiagem, mas a chamada “safrinha” (de inverno), beneficiada pelas chuvas, é uma super safrinha, O pais está colhendo 35 milhões de toneladas de milho. Somando a safra e a safrinha, o atual calendário agrícola pode fechar com uma colheita de 70 milhões de toneladas – alta de 21% em relação ao recorde de 2007. A reboque, sobem as previsões de exportação. O Brasil poderá embarcar 15milhões de toneladas de milho, 55%mais que em 2011, e faturar alto: o valor exportado pode chegar a 4 bilhões de dólares, o dobro do ano passado Produtores já conseguem 35 reais por saca destinada à exportação – um extra de 40% em relação aos melhores preços do mercado interno, que também estão em alta. No embalo da festa da colheita, há quem diga que chegou a hora de alcançarmos no milho o que já conquistamos na soja. “O Brasil, que planta milho o ano inteiro, já pode ocupar um papel de destaque no mercado internacional”, diz Alysson Paolinelli, ex-ministro da Agricultura e presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho. De fato, neste momento, o pais pode ajudar a cobrir a falta do milho dos Estados Unidos. Tanto é assim que a americana Smithfield, maior processadora de carne suína do mundo, anunciou que vai fazer uma inédita importação de milho brasileiro para garantir a alimentação de seus rebanhos. A notícia, claro,é músíca para os ouvidos dos produtores brasileiros, especialmente os que têm produtividade alta e capacidade de ampliar a produção. Veja o exemplo da Coamo, a maior cooperativa agrícola da América do Sul,com sede em Campo Mourão, no oeste do Paraná. Na última década, a adoção de novas técnicas de plantio e de novas variedades de sementes permitiu que os cooperados elevassem a produtividade do milho em mais de 30%. A Coamo chega a colher 10 toneladas por hectare – o equivalente à média americana/Hoje,tem 2,5milhões de toneladas de milho para vender. Vai exportar 600000 toneladas porque tem contratos  no mercado interno. “O produtor está ganhando muito mais do que esperava”, diz Aroldo Gallassini, presidente da Coamo. M”Muitos produtores que já compraram sementes de soja estão querendo trocá-las pelas de milho.”  M Mesmo quem ficar “preso” à soja poderá M se dar bem. Nesse caso, os ganhos como consequência da seca americana só virão na próxima safra se os preços, como previsto, se mantiverem em alta. É que, diferentemente do milho, a soja é plantada numa única safra – e ela foi vendida antes da alta de preços. O que está em jogo, agora, é a preparação da próxima safra. Muitos produtores de soja estão prevendo uma produção recorde em 2013.A euforia é tal que os temores agora dizem respeito à capacidade do país de escoar a próxima colheita. Os produtores de milho do Mato Grosso já vivem esse problema. Dobraram a produção da safrinha, mas não conseguem escoá-la.Hoje,há montes de grãos na beira das estradas à espera de caminhões. Como o mercado sempre tem duas pontas – vendedora e compradora -, a alegria de uns é a tristeza de outros . A alta do preço está provocando um forte impacto nos custos de produção das carnes. Só em julho, a saca de milho subiu uma média de 30% no mercado interno. Como o grão responde por mais de 60% dos custos de produção de frangos e suínos, os criadores já amargam perdas na rentabilidade. Na Região Sul,pequenos e médios produtores operam até no prejuízo. O custo de produção de 1quilo de carne suína está em 2,20 reais, mas o mesmo quilo é vendido a 1,60 real – prejuízo de 60 centavos para cada quilo. No frango, o prejuízo é de 50 centavos. Por isso, a estimativa é que haverá fortes reajustes de preços no segundo semestre. Analistas do mercado estimam que só o frango congelado terá . Alta de 20%. “Os produtores de milho no Brasil até podem comemorar por da BRF,a maior produtora e exportadora brasileira de carnes processadas. “Mas toda a cadeia de alimentos no mundo está em alerta.”

 

O NOVO PILOTO DA LAND ROVER

Na índia, a cada dia  aumenta a expectativa sobre a transição de poder no grupo Tata, o maior conglomerado empresarial do país. Com um faturamento global de 83 bilhões de dólares, cerca de 50% maior que o do grupo Vale, o Tata atua em áreas tão diversas como telecomunicações,automobilística e construção.Está prevista para dezembro a primeira mudança de presidente em duas décadas. Sai Ratan Tata, responsável pela internacionalização do grupo, hoje presente em mais de 80 países, dono de marcas renomadas como a montadora Jaguar Land Rover. E entra Cyrus Mistry, de 44 anos, que, além da pouca experiência à frente de um grande conglomerado, não carrega o sobrenome Tata. As más línguas lembram que a família Mistry é a maior acionista individual do grupo Tata, com cerca de 19% de participação – viria daí, e não de seu sucesso como executivo, sua indicação. As ações foram compradas em 1930 pelo avô de Cyrus e, desde então, a família, dona de uma fortuna estimada em 7,6bilhões de dólares, tem lugar cativo no conselho de administração da holding. Mas Mistry venceu. a disputa contra o meio-irmão de Ratan, Noel Tata, tido como um dos favoritos ao cargo, e outros 12 candidatos, entre eles a indiana Indra Nooyi, presidente mundial da Pepsi. A solução caseira por Místry; aprova da por todos os membros do conselho, seguiu o desejo de Ratan, que queria sangue novo no comando. Sangue novo, mas com algumas velhas características. Mistry, assim como Ratan, é conhecido por seu estilo discreto, pela habilidade com temas financeiros e por ter metas ousadas. À frente da construtora da família, Mistry foi um dos principais Responsáveis  pelo aumento do faturamento de 20 milhões de dólares, nocomeço dos anos 90, para cerca de 1,5 bilhão, hoje. No campo étnico e espiritual, sempre uma questão importante na Índia, também há semelhanças entre o presidente que sai e o que chega. Ambos são parses, como são chamados os seguidores da religião zoroastrista na Índia, a que deposita seus mortos no topo de uma torre para ser consumidos por abutres. Criado há 144 anos, o grupo Tata tem como tradição buscar sucessores com características semelhantes às dos líderes de saída. Por mais de um terço de sua história, entre 1938 e 1991, o grupo foi administrado por um só presidente, Jehangir Ratanji Dadabhoy Tata. Quando passou o bastão para Ratan, disse: “Acho que ele é o mais parecido comigo”.

 

VEREDITO

A aposentadoria de Ratan já vinha sendodiscutida havia mais de cinco anos.Há pelo menos dois anos, começou aser trabalhada objetivamente dentrodo grupo. Desde agosto de 2010, foramdiversas as reuniões do conselho deadministração da holding para tratardo assunto e entrevistar os candidatos.Ao final, vieram o anúncio e a explicaçãode Ratan: “Cyrus é membro doconselho da Tata desde 2006. Nesse período, fiquei impressionado com aqualidade e o calibre de sua participação,suas observações perspicazes e sua humildade”. Mesmo tendo todo o apoio do maior ícone do capitalismoindiano e do conselho do grupo, Mistrysabe que o maior teste de sua vida vaicomeçar em dezembro. Os resultados do grupo no ano fiscal 2011-2012 vão ser divulgados nos próximos dias. A expectativa é de um crescimento robusto,algo que eleve o faturamento a uma marca próxima de 100 bilhões de dólares. A Jaguar Land Rover, porexemplo, registrou alta de 37% no faturamentodo último ano, impulsionadapelas vendas na China. Se esses números se confirmarem, a saída de

Ratan será, sem dúvida, triunfal.O problema para Mistry é que o cenário para os próximos anos começa a ficar turvo. A economia indiana, assim como a do restante do mundo, está desacelerando. “A inação do governo da Índia, somada a fatores como inflação e valorização do dólar, enfraquece o mercado interno da Tata Motors. Já para a Jaguar Land Rover, as noticias negativassobre as economias da China, dos Estados Unidos e da Europa não são nada alentadoras”, diz Ashwin Patil, analista da corretora indiana LKP. O mesmo vale para a Tata Steel, uma das dez maiores produtoras de aço do mundo. Desde que foi anunciado como futuro presidente, Mistry não para de ser nomeado para o conselho de administração das empresas do grupo. Os casos mais recentes foram o da TCS, empresa de tecnologia avaliada em 43 bilhões de dólares, e o da Tata Global Beverages, que tem marcas como a Tata ;rea, segunda maior produtora global de chá. O mais impressionante no grupo Tata é a dimensão dos negócios- São mais de 90 empresas, algumas delas, como mostram os casos acima, nomes que estão entre as líderes globais. Mantê-las no topo é a maior missão de Mistry.

 

POTÊNCIA OLIMPICA

A China conseguiu traduzir em triunfo olímpico o salto econômico que deu nas últimas décadas. No total de medalhas conquistadas pelos países do Bric nos últimos Jogos, a China foi o grande destaque. O Brasil, que nunca foi uma potência esportiva. perdeu espaço. A Rússia, principal herdeira da estrutura esportiva da União Soviética, também. Embora tenha aumentado sua participação, a Índia continua insignificante.

 

PRIMAVERA POLITICA E ECONÔMICA

Diante da montanha de incertezas que rondam a economia global, não surpreende que, a cada três meses, o Fundo Monetário Internacional revise – para baixo – suas projeções de crescimento econômico do mundo, reduzindo os percentuais de países emergentes e desenvolvidos. A única exceção a essa regra é o Oriente Médio. A projeção para o PIB dessa região em 2012, que inclui o norte da África, foi a única melhorada pelo FMI desde 2010, quando se oficializou que a recessão americana pós-crise financeira estava encerrada. O aumento da produção de petróleo e a rápida retomada econômica em países como a Arábia, arrasada pelos conflitos da Primavera Árabe no ano passado, explicam a perspectiva mais positiva.

 

ELA PRESISA FAZER O IMPOSSIVEL

Dar uma googada, em português, to google, em inglês, googlen, emalemão, googlear, em espanhol…  O fato de a palavra”google” ter se transformado emsinônimo de pesquisar na internet emvários idiomas é o melhor parâmetro de sua influência. De cada dez usuáriosda web no mundo, oito entram nos sitesda empresa, que parece imune atémesmo à atual crise econômica. Deacordo com os resultados do segundotrimestre divulgados em julho, o Googleteve um lucro por ação de 10,12dólares, mais que os 8,74dólares de umano atrás. Por tudo isso, dá para entenderpor que o ambiente na empresaexala influência, poder e fartura. Dápara entender também por que o Googlese transformou, ao longo dos anos,no sonho de consumo de nove entredez engenheiros de computação e programadores.Quem chegou até o Googlenão quer sair de lá – os funcionários podem dedicar 20% do tempo detrabalho a projetos pessoais.Ou quer? Foi nessa atmosfera aparentementequase perfeita que a executivaMarissa Mayer, a musa dosnerds, fez uma formidável carreira.Mas, a partir de agora, sua vida vai serbem diferente. Ao deixar a vice-presidênciade produtos do Google, em julho,para aceitar o posto de presidentedo Yahoo!,Marissa não poderá mais se dar ao luxo de inovar como hobby. Oque se espera dela, a sexta pessoa a passarpela presidência do Yahoo!em cincoanos, são tiros certeiros, capazes deresgatar a empresa do buraco em quese afundou na última década – umatarefa com ares de missão impossível.A agonia do Yahoo! ficou evidente depoisque o Google abriu o capital, em2004. Desde então, seu valor de mercadocaiu mais de 60%, enquanto o dorival foi multiplicado por 4.A empresanão chega a dar prejuízo, mas sua receita- equivalente a menos de 15% dofaturamento do Google – cai há trêsanos consecutivos. Embora seus sitesainda detenham a quarta maior audiênciada internet global,oYahoo êtempenado ano após ano para transformarcliques em resultado financeiro. Ogrupo,que por anos dominou ó rankingamericano de vendas de anúncios emsites, perdeu a liderança em 2011.Por trás do desempenho cada vez menos relevante do Yahoo!,estão apostas malfeitas após o estouro da bolha da internet em 2001, quando 90% deseu valor em bolsa foi pelo ralo. Em2005, a empresa gastou 35 milhões dedólares comprando o site de compartilhamentode fotos Flickr, que nãotardaria a ser superado pelas ferramentasde troca de imagens das redessociais. Tentou concorrer com o Twitter,mas nunca conseguiu fazer seuslançamentos se tornarem virais. Como tempo, passou a apontar seus canhões para a produção de conteúdo, natentativa de ser reconhecida comouma empresa de mídia, uma estratégiamais cara e menos eficiente que a dosconcorrentes, focados nas redes sociaise preocupados em se adaptar ao usocrescente da internet pelo celular. Nãobastassem tantas furadas, a direção doYahoo! conseguiu dar mais uma: perdeua chance de vender a empresa àMicrosoft, em 2008, por 45 bilhões de dólares (o Yahoo!terminou aquele a no valendo um terço da oferta). No fim de2011, o desânimo era tão grande que integrantes de seu conselho batiam à porta de fundos de private equity, comoTPG, Providence e Silver Lake, embusca de compradores. Ninguém se interessou. “A verdade é que os investidores perderam a fé no futuro do

Yahoo!”, diz Rob Enderle, analista de tecnologia do Vale do Silício. Trazer uma das principais executivas da maior empresa de internet soa como uma cartada final do Yahoo!para evitar o caminho do fracasso seguido por vários outros ícones daera digital. O portal AOL, que parecia predestinado a dominar a web na época anterior ao estouro da bolha, alterna pequenos lucros com imensos prejuízos há anos. A rede social MySpace – que, nos tempos áureos, chegou a ter mais usuários que o Google nos Estados Unidos – foi vendida no ano passado por 35 milhões de dólares, menos de um décimo do que custou ao magnata da comunicação Rupert Murdoch em 2005. Algumas empresas não conseguiram nem ficar de pé. Foi o caso do Netscape, navegador da web dominante no início dos anos 90, que perdeu a batalha contra o Internet Explorer,embutido de graça pela Microsoft no pacote Windows desde 1995. Saída de um concorrente mais do que bem-sucedido, onde liderou projetos avassaladores, como o Gmail e o Google Maps, Marissa deu novo ânimo aos funcionários do Yahoo! A contar pelos primeiros sinais, ela parece ter clareza do que deve ser feito. “Precisamos nos tornar relevantes para o dia a dia dos consumidores”, afirmou em entrevista aojornal britânico Financiai Times. Só não explicou como. A executiva – que substituiu Scott Thompson,aquele que mentiu sobre sua formação acadêmica – prometeu detalhar sua estratégia de resgate apenas depois de dar um mergulho profundo em cada negócio da empresa. Os investidores rezam para que essa primeira fase termine logo. Marissa inspira confiança, mas, para salvar o Yahoo!,os analistas esperam muito mais do que isso. Ela terá de ser a primeira executiva a conseguir tirar uma empresa de internet  do corredor da morte.

 

DE VOLTA À ORIGEM

Empresas bem-sucedidas costumam ser fiéis a princípios. No caso da fabricante de alimentos Forno de Minas, não havia mistério: o segredo era a velha receita de pão de queijo – que custa até o triplo do similar da concorrência. Foi graças a ela que a empresa saiu de uma garagem em Belo Horizonte para atrair a atenção da americana General Mills em 1999. Mas os novos donos mudaram a receita para cortar custos, baixar preços e vender mais. Foi um desastre. Em 2009, a empresa fechou as portas. Semanas depois, o fundador, Helder Mendonça, reassumiu o negócio com o desafio de ressuscitar a Forno de Minas. Trouxe de volta antigos executivos, ampliou a linha de produtos e voltou à receita original. Em 2011, a empresa cresceu 80% e faturou 110milhões de reais. Voltou ao azul no primeiro semestre deste ano. Confira ao lado como isso foi possível.`

 

UM ITEM DE CADA VEZ

Fabrica da Whirlpool  na cidade catarinense de Joinville produz 15000 refrigeradores por dia. Enftuanto boa parte dos 7000 funcionários se dedica a fabricar as tradicionais geladeiras brancas, umgrupo de dez pessoas deixa de lado a produção em massa para cuidar de itens sob medida. São geladeiras em cores comoazul-turquesa e que podem ter mais de 25000 configurações de portas, prateleiras e puxadores. Além dos refrigeradores, a Whirlpool permite a personalização de fogões e de máquinas de lavar louça. Somados, os eletrodomésticos feitossob encomenda representam uma parcela Ínfima das vendas da companhia – que não divulga essa informação. Mas são considerados fundamentais para o futuro dos negócios. “Em alguns anos, os produtos customizados vão deixar de ser exceção. Estamos nos preparando para essa nova realidade”, diz Mário Fioretti, diretor de inovação da Whirlpool. Um número cada vez maior de empresas oferece a seus clientes a possibilidade de criar itens exclusivos. É uma mudança histórica. Desde que a Ford lançou seu primeiro automóvel, no início do século 20, as empresas privilegiam a produção em série. Quanto maior for a escala e menor a variedade, melhor. A lógica de produção continua a mesma desde então: é a fábrica que define o que as pessoas vão comprar. A Dell foi uma das primeiras a inverter o jogo ao permitir, nos anos 90, que seus clientes configurassem os computadores. Mas apenas agora o avanço da tecnologia possibilita a produção de itens exclusivos a custos razoáveis em diversos mercados. Com máquinas inteligentes e sistemas de produção digitais, a mesma fábrica consegue fazer milhares de produtos diferentes. A mudança cultural também joga a favor da customização. As novas gerações cresceram acostumadas a poder fazer escolhas. Os smartphones são o maior exemplo: seus aplicativos permitem que cada pessoa crie o próprio celular. É improvável que existam dois aparelhos iguais em todo o mundo. “Os novos consumidores querem ter a mesma liberdade de escolha em todas as suas compras. E as empresas precisam se adaptar”, diz Miguel Duarte, sócio da consultoria de inovação Strategos. A customização tem uma vantagem óbvia: os consumidores aceitam pagar mais por produtos sob medida. ACoca- Cola instalou 1700 máquinas de refrigerante em restaurantes e cinemas dos Estados Unidos que oferecem 100combinações de sabores. Com elas, os refrigerantes custam 30% mais do que nas máquinas tradicionais. Recentemente, a empresa fechou uma parceria com a rede de fast-food Burger King para instalar as máquinas em 850 lanchonetes. A Mars, que fabrica os chocolatinhos M&M,tem há cinco anos uma unidade de negócios dedicada à customização, chamada de Mars Direct. Ela permite que os consumidores imprimam qualquer desenho nos doces – que custam o dobro dos tradicionais. Mas abandonar a produção em série é um desafio e tanto. Principalmente porque as fábricas precisam estar perto dos consumidores – um movimento que já está em curso. Uma pesquisa do professor David Sirnchi-Levi, da universidade americana MIT, revela que 14%das companhias americanas com produção em outros países estão levando sua produção de volta aos Estados Unidos. Dois terços delas dizem que o principal motivo é a necessidade de responder mais rápido às demandas dos clientes. Mesmo quem já está perto precisa se adaptar para fazer pequenos volumes. A fabricante de móveis gaúcha Todeschini, com vendas de 1bilhão de reais em 2011, comprou nos últimos anos máquinas específicas para itens customizados – elas têm mais opções de regulagens e podem ser reiniciadas com facilidade. Com elas, o tempo de produção dos móveis customizados caiu de 12 para três dias em três anos. No mesmo período, o número de combinações possíveis passou de

10000 para mais de 1bilhão, levando se em conta todas as linhas de quartos e cozinhas nos mais diferentes tamanhos. A fabricante de cosméticos O Boticário, por sua vez, criou uma nova empresa para separar os itens customizados dos tradicionais. Lançada em abril, a Skingen faz cremes para tratar o envelhecimento da pele. A fábrica e o laboratório ficam a 15quilômetros da sede do grupo, em Curitiba. Aempresa tem 16 pesquisadores que recebem amostras de pele e fabricam cremes individuais. Opreço compensa o investimento: 500 reais o pote. A próxima etapa da customização será o uso das impressoras 3D.São máquinas que podem fabricar qualquer coisa depositando finas camadas de matéria-prima. Como fazem um item de cada vez, elas acabam com a necessidade de escala. A tecnologia ainda é incipiente, mas, no futuro, cada pessoa poderá ter a própria impressora 3D – e, talvez, imprimir o próprio telefone. Mas tanto individualismo levanta outro debate: a customização tem limite? Há alguns anos, a Procter & Gamble encerrou uma frustrada experiência de produtos customizados que oferecia 10000 variedades de brilho para os lábios. Certamente, os consumidores não tinham tempo nem interesse para escolher entre tantas opções. Os concorrentes da Chrysler afirmam que a montadora está indo pelo mesmo caminho. Em junho, a empresa lançou seu novo modelo, o Dodgebart, que tem 100 000 combinações de cores e acessórios. Só para as rodas, são sete modelos. As críticas podem ser inveja da concorrência. Mas convém tomar cuidado. Oferecer mais opções pode ser o caminho mais curto para chegar a menos clientes.

 

40 MILHÕES DE REAIS EM DOIS DIAS

Numa crise enquanto muitos choram prejuízos, alguém sempre sai ganhando, mesmo que seja vendendo lenços. Afrase é batida, mas ilustra perfeitamentea situação ocorrida com as ações da empresa de petróleo OGX na última semana de junho. Enquanto a petroleira, controlada pelo empresário Eike Batista, perdeu 40% de seu valor de mercado em apenas dois dias, um pequeno grupo de investidores – gestores de grandes fundos de ações – ganhou dinheiro apostando que ocorreria justamente isso: a queda do preço dos papéis. O pernambucano Dório Ferman, fundador do banco Opportunity e um dos mais renomados gestores de recursos do país, foi um dos que mais lucraram. Foram cerca de 40 milhões de reais nos dois dias de queda das ações da OGX,embolsados em operações conhecidas, no jargão do mercado, como short selling ou venda a descoberto (veja mais detalhes no quadro da pág. 132). Ferman não fala em números, mas admite o ganho, que fica mais espetacular quando se observa o valor que havia sido aplicado na operação: cerca de 136milhões de reais, ou seja,30%de rendimento sobre o capital investido. Hoje, o Opportunity, que administra 18 bilhões de reais, sendo 10bilhões em fundos de ações, voltou a comprar os papéis da OGX.”Achamos que o preço estava abaixo do razoável”, disse Ferman a EXAME,numa de suas raras entrevistas. Por que o senhor estava apostando contra a OGX? Não apostamos contra a empresa, mas contra a percepção do mercado em relação a seu valor na bolsa. Achávamos que a OGX estava um pouco cara. O grau de otimismo do mercado em relação à empresa estava alto demais. Na verdade, já estávamos vendidos há uns dois meses antes de essa desvalorização forte ocorrer. Mas não esperávamos uma baixa tão brusca. No primeiro dia de queda, quando os papéis perderam 25%, revertemos dois terços de nossa posição vendida – ou seja, compramos para devolver aos locadores as ações que tínhamos vendido. Achávamos que a queda tinha sido grande demais. Para nossa surpresa, no dia seguinte, o mercado abriu com a ação caindo mais 5%. Aí,compramos o terço restante e zeramos nossa posição. o senhor passou a comprar as ações da OGX em seguida. Por quê? Achamos que o valor da empresa ficou            abaixo do razoável depois do evento. Essa mesma lógica nos levou a comprar papéis da OGX em 2009. Julgamos que estava barato, investimos e ganhamos. Naquela época, chegamos a comprar ações a280 reais (o que significaria 2,80 hoje, depois da divisão das ações). Na média, compramos a 600 reais e vendemos a 1000 reais. Foi um bom negócio, mas o papel chegou a 2 000 reais. informações. Nesse caso, por exemplo, achamos que a empresa tem um potencial maior do que o mercado julga. M Também temos feito um grande esforço na análise dos bancos. Achamos que estão baratos, e agora temos de comprovar. A OGX nos interessou porque é a maior do grupo EBX. Eike Batista soube montar uma equipe capaz e apostamos nisso. Fomos os primeiros a acreditar na OGX, inclusive antes da oferta pública de ações (IPO). Entramos na empresa ainda no pré- IPO, comum fundo de ações, mas numa operação mais parecida com private equity (fundos que compram participação em empresas para depois vendê-las).Porque a OGX é a única empresa do grupo de Eike Batista em que o senhor investe? Não há uma razão especial. Temos deescolher. Gostamos de analisar a empresa a fundo e, por isso, não dá para acompanhar todas. Seguimos de pertoamineradora Vale, que é muito simples de ser avaliada porque tem poucos produtos, está num ciclo de vida já maduroe tem uma divulgação muito clara de E O senhor está vendido em quais ações atualmente?Não podemos falar nada sobre nossas posições por dever fiduciário. Mas, de forma geral, trabalhamos pouco comesse tipo de operação porque elas são arriscadas demais. Nosso foco é procurar empresas que julgamos estar baratas  e comprar. Somos mais investidores do que especuladores. Como decidir a hora certa de comprar e de vender? Não existe hora certa. Pensamos sempre no fundamento e no preço da empresa, nunca na hora. Calculamos internamente o valor da empresa, Sempre dentro de uma posição fundamentalista, e comparamos com o valor que o mercado está pagando por ela. O desempenho da bolsa brasileira tem sido um dos piores do mundo. Qual é sua estratégia para ganhar dinheiro num mercado assim? Por pior que esteja o mercado, sempre há oportunidades – para comprar e vender. Não dá para adivinhar o futuro. Quem diz saber atesta que sabe muito pouco. Tudo indica que a crise na Europa será longa. Os problemas são profundos, e têm origem na criação de uma união monetária que não foi acompanhada de uma maior integração das políticas fiscais e de esforços para a ampliação da mobilidade da mão de obra. Por isso, em diversas economias da região existem problemas de competitividade entrelaçados a dificuldades fiscais graves. Para resolver a questão da competitividade, os países precisam tomar seu mercado de trabalho mais flexível, reduzir o custo de contratação e demissão, de forma a permitir a dolorosa, mas necessária, redução dos salários reais. Também é preciso que a união monetária se faça acompanhar de uma união fiscal. Os países europeus precisariam renunciar à parte de’ sua soberania em favor de um poder federativo europeu. A superação da crise exige que se avance em reformas institucionais que envolvem desafios políticos enormes. Mudanças dessa natureza se dão ao longo de anos. Mas uma coisa é certa: não é preciso esperar que as coisas se resolvam para fazer bons investimentos.

 

GANHANDO NA BAIXA

O sucesso no mercado de ações resume-se,no fundo, a comprar barato e vender caro. As operações de .Shorf selling, ou venda a descoberto,visam a mesma coisa,só que.por um caminho inverso. Em vez de ganhar na alta de papel.ganha-se na baixa. Na linguagem dos financistas, estar.vendido refere-se a esse tipo de operação. Funciona assim: o investidor que quer apostar na queda de uma ação pode alugá-la no mercado para vende-la em seguida.O objetivo.é esperar que o preço caia , para assim, comprar a ação de volta e devolve-la ao proprietário ..Se dá errado, esse investidor fica no prejuízo e ainda tem de pagar uma taxa ao acionista dê quem alugou o papel (leia mais detalhes sobrei,operação na pág.139).Em junho, além do Opportunity as gestoras dos bancos Credit Suisse Hedging-Griffo e JP Morgan estavam vendidas em ações da empresa de petróleo OGX – eram as maiores posições do mercado, segundo um levantamento da consultoria Economática feito a pedido de EXAME (veja quadro). Procurados, Credít Suisse e JP Morgan não comentaram o assunto. Apesar da forte queda dos papéis no último mês, as apostas contra a OGX aumentaram:em 26 de junho, pregão anterior ao da desvalorização de 25%, havia 97 milhões de ações alugadas da OGX; no último dia 27,havia 101 milhões. A OGX é uma das empresas da Bovespa com o maior volume de posições vendidas: no fim de julho, elas correspondiam a 9% do total de ações negociadas no mercado. Um sinal de que há mais investidores pessimistas em relação ao futuro da empresa.

 

 

POR QUE SÓ SE FALA NELE?

Recém-chegado aos 39 anos, o paulistano, Alexandre de Zagottis tem sido motivo de um zumzum- zum no mundinho formado por gestores, investidores e analistas do mercado financeiro nacional. A bolsa está caindo, os juros oferecem retornos pífios para quem aplica em renda fixa: a rotina de quem vive de ganhar dinheiro para os outros está difieil como nunca no Brasil. Mas Zagottis está, no elegante jargão do mercado financeiro, dando a “porrada” de sua vida em 2012. Em português corrente, isso significa que ele está ganhando dinheiro como nunca. Ao lado de seu sócioEduardo Bodra, de 37 anos, Zagottis lidera a área de gestão de recursos da empresa paulista de investimento Advis desde 2008. Voava relativamente sob o radar até que seu desempenho começou a destoar da média De janeiro a junho, seu fundo de ações deu 49% de retorno. Hoje, grandes bancos brigam para distribuir seus fundos a clientes – entre junho e julho, Banco do Brasil, Citi, HSBCe JP Morgan fecharam acordos com a Advis, Credit Suisse, Itaú e Safra são parceiros desde 2010. Zagottis e sua turma são o maior fenômeno do mercado financeiro brasileiro do ano. Gente é a consistência do resultado dos oito fundos administrados pela Advis. Três multimercados estão entre os mseis melhores do setor no último ano, e o maior deles, o Delta, rendeu 111% em três anos e meio, o dobro do Ibovespa. Também há certo entusiasmo com o estilo de investimento da Advis. Zagottis, herdeiro da rede de farmácias Raia Drogasil e, no passado, forte candidato à sucessão para a presidência da empresa, e Bodra, ex-tesoureiro e gestor dos bancos Fator e Itaú BBA,têm uma trajetória pouco usual. mEm 2000, durante um mestrado em m administração no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Zagottis teve a ideia de criar um modelo matemático, rodado por computadores, para controlar o risco de fundos. Voltou ao Brasil, mostrou o projeto ao amigo Bodra anos depois e os dois passaram a lançar fundos usando esse modelo (até então, a Advis atuava apenas como consultoria financeira). Deu certo na crise de 2008. Com base em dados históricos sobre o mercado financeiro, o modelo ajudou a definir os melhores momentos para comprar e vender ações, moedas e títulos de renda fixa. Segundo os gestores, isso garantiu um retorno de 13% do fundo multimerca dos Macro no ano, enquanto os concorrentes – e a bolsa – desabaram. “Eles começaram a se destacar ali. Poucos gestores conseguem ir bem em momentos tão complicados”, diz Ricardo Rochman, professor da Fundação Getulio Vargas e um dos responsáveis pelo ranking defundos publicado anualmente porEXAME. “Não é o computador que determina onde vamos investir. Selecionamos os ativos com base em aná lises macroeconômicas e no desempenho das empresas. A vantagem do modelo é mostrar quanto comprar e vender”, diz Zagottis. ká, nas carteiras dos fundos, de ações de empresas americanas e europeias a moedas de países emergentes. Parte dessas operações é feita nos mercados futuros – e é alavancada, ou seja, os gestores usam mais dinheiro do que têm para apostar, o que aumenta o potencial de ganhos e perdas. Hoje, 60% do patrimônio da Advis está aplicado fora do Brasil. A principal aposta é que a crise europeia vai piorar antes de melhorar. Para eles, dá para ganhar dinheiro com isso comprando títulos nos mercados futuros que se beneficiem de uma possível desvalorização do euro. Além disso, estão otimistas com o México. Não estão comprando ações mexicanas, porque estão caras – o índice IPC, principal da bolsa mexicana, está próximo de seu pico histórico. Mas estão aplicando em peso mexicano – para a Advis, a moeda valorizará com o aumento de investimentos estrangeiros e exportações. No Brasil, eles têm comprado ações de setores variados voltados para o mercado interno – as principais

são as da varejista Lojas Marisa e as do grupo de energia Cosan – e de pagadoras de dividendos, como a empresa de saneamento Sabesp. A Advis não é a primeira butique de fundos a virar a queridinha dos investidores – algumas se mantiveram no topo por anos, outras nem tanto (e há aquelas que quase quebraram). O caso de sucesso mais duradouro é o da Hedging- Griffo, comandada pelo paulistano Luís Stuhlberger até ser comprada pelo Credit Suisse em 2006. O fundo Verde, criado em 1997 por Stuhlberger e ainda gerido por ele, só teve um ano de desempenho negativo, 2008. Ao todo, rendeu 6600%, quase dez vezes mais que o Ibovespa. O grande fracasso é o da gestora GWI. Durante anos, antes da crise de 2008, seus fundos renderam bem mais do que a média na base do risco: apostas nos mercados futuros correspondiam a 150% do patrimônio. Com a quebra do banco Lehman Brothers, a volatilidade disparou e seus fundos perderam 94% em dias.

Houve casos menos extremos, como o da Geração Futuro, que chegou a ter o fundo de ações mais rentável do mercado em 2007, mas passou a entregar retornos apenas medianos desde então. “Todo mundo especula quanto tempo nossa boa performance vai durar”, diz Zagottis. Lidar com a turma que torce contra será parte de sua vida a partir de agora. Os tempos em que

Zagottis se dava ao luxo de voar sob o radar ficaram para trás .

 

VIVER DE ALUGUEL E MELHOR

Uma alternativa para o investidor ganhar – ou, na atual situação do mercado, perder menos – dinheiro na bolsa é alugar suas ações. É uma operação simples: basta comunicar à corretora, que se encarrega de achar “locatários” – em geral, são fundos com aplicações de curtíssimo prazo.  A estratégia desses fundos é vender os papéis alugados logo no início do contrato para recornprá-los mais tarde e devolvê- los ao investidor (ganham dinheiro se o preço estiver mais baixo na recompra: caso contrário, ficam no prejuízo). Ganhando ou perdendo, os fundos pagam ao investidor a taxa de aluguel negociada no início da operação: hoje, varia de 0,1% a 17% do valor das ações alugadas ao ano (o percentual é maior quando há mais demanda por essas ações, ou seja, quando há mais fundos apostando que seus preços vão cair). Entre as maiores pagadoras de aluguel estão a empresa de comércio eletrônico B2W e a rede de lojas Le Lis Blanc (veja quadro). O risco, para o investidor, é não poder negociar suas ações durante o aluguel- se precisar do dinheiro ou se quiser vender os papéis, vai ter de esperar o fim do contrato.

 

AS EMPRESAS DESISTEM

Três empresas brasileiras cancelaram seus pedidos de abertura de capital neste ano – a ultima delas foi a Biosev, empresa de bioenergia do grupo Frances Louis Dreyfus. E o maior número de desistências entre os países emergentes, segundo a consultoria Dealogic.

 

CONTINUA BARATO

o dólar acumula uma valorizacão de 20% desde o início de 2008, de ~cordo com o Banco Central. Mas, em termos reais, a cotação atual, de 2 reais, equivale à de 1,70 real de quatro anos atrás. Isso porque a inflação por aqui foi muito superior à dos Estados Unidos. É por isso que muitas empresas exportadoras, que em teoria ganhariam com o dólar a 2 reais, não estão tão bem assim. Para quem aplica na bolsa, a consequência é que as ações dessas empresas não têm sido um bom negócio. Para quem vai comprar dólares para viajar, por outro lado, este pode ser um bom momento. Afinal, colocando na conta a inflação, o dólar contínua relativamente barato.

 

CAIU POUCO

O corte dos juros, que diminui o retorno dos fundos DI, não levou as gestoras a baixar as taxas desses produtos, algo que se esperava – seria uma tentativa de manter o poder de atração desses fundos frente à poupança. Segundo a Anbima, associação que reúne informações sobre fundos, a queda foi risível: de 0,01 ponto percentual em 12 meses. Em média, a taxa está em 1,28% ao ano – o que deixa os fundos menos rentáveis do que a poupança. Quem quer continuar no DI deve garimpar taxas menores. A tabela ao lado traz as melhores opções entre os sete maiores bancos do país.

 

PARA OS ESTRANGEIROS, UMA CRISE ÉPOUCO

Os últimos quatro anos foram os mais voláteis da história para as bolsas: altos e baixos de mais de 4% num único dia se tornaram frequentes – em média, ocorreram mais vezes de 2008 para cá do que nas quatro décadas anteriores. Segundo os principais gestores do mundo, esse vaivém vai continuar. Uma pesquisa feita pela empresa americana de investimentos Principal com 289 executivos d fundos estrangeiros mostra que a maioria espera a eclosão de pelo menos duas graves crises financeiras nesta década. Para esses investidores, que administram um patrimônio de 25 trilhões de dólares, o maior problema é a falta de solução para as dívidas soberanas da Europa e dos Estados Unidos.

 

OS NERDS QUE ATRAIRAM OS GRINGOS

Paulistano Fernando Okumura, 34 anos, poderia ter escolhido a profissão que quisesse.  iniciar a faculdade de medicina na Unide São Paulo, abandonou o curso para economia na respeitada escola de adminisharton, da Universidade da Pensilvânia.urgência, fez MBA na Universidade Stanford, alifórnia, outra que está entre as melhores escolas de negócios do mundo. Com um currículo impecável, conseguiu emprego no banco lP Morgan em Nova York. Depois de dois anos, foi trabalhar na consultoria McKinsey na Austrália. Os salários polpudos e as posições em empresas de destaque, porém, não foram suficientes para satisfazer seus anseios. Okumura voltou ao Brasil em 2006 e fundou duas empresas, entre elas o site de compras coletivas ClickOn.Em 2009, com o dinheiro da venda dessas empresas (Okumura não revela os valores, mas estima-se que o ClickOn tenha lhe rendido 100000 reais), iniciou seu terceiro projeto: um guia online de busca e referência de locais, o Kekanto. Não demorou para atrair a atenção de investidores. No ano passado, o Kekanto recebeu aporte de valor não revelado de um dos maiores fundos de venture capital do mundo, o Accel Partners, que tem o Facebook e o site de compras coletivas Groupon em seu histórico de investimentos. Okumura nem chegou aos 35 anos, é presidente de sua empresa e, se amanhã tudo der errado, ainda tem um currículo capaz de recolocá-Io num bom emprego. Uma análise do mercado brasileiro de startups, como são chamadas as empresas iniciantes de tecnologia, mostra que sua história não é exatamente única. Nos últimos tempos, surgiu no país um novo perfil de empreendedor. São profissionais mais velhos do que os da geração anterior, com mais escolaridade – muitas vezes, isso inclui um MBA

no exterior – e mais experiência profissional. Da última vez que o país viveu um boom de negócios de tecnologia, no final da década de 90 e início dos anos 2000, prevaleciam casos como o dos quatro universitários paulistanos fundadores do Busca Pé, liderados por Romero Rodrigues, e o do gaúcho Marcelo Lacerda, que aos 24 anos criou o provedor de internet Nutecnet, a origem do portal Terra.

A maioria dos empreendedores tinha 20 e poucos anos e cursava faculdades em áreas técnicas. “Naquela época, o objetivo dos empreendedores era fazer um produto que atraísse usuários imediatamente, não se dava muita atenção ao planejamento”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Startups, Gustavo Caetano. Passados dez anos, a lógica mudou e a preocupação predominante é com o plano de negócios. Nesse sentido, o maior número de brasileiros em escolas de negócios em universidades americanas ajuda. A experiência no mercado de trabalho antes de empreender também faz crescer as chances de sucesso. Os paulistanos  Bob Rossato e Alex Todres, de 31e 36 anos, trabalharam na Decolar.com, agência argentina de turismo online criada em 1999e avaliada hoje em 800  milhões de dólares. Quando fundaram o Viajanet, em 2009, site especializado na venda de passagens aéreas, já tinham quase 15anos de experiência. O site se especializou nas vendas para a nova classe média e atraiu a atenção dos fundos americanos RedPoint Capital e General Catalyst Partners, que investiram na empresa em 2011(o valor não foi revelado). Osite faturou 200 milhões de reais no ano passado. Os novos empreendedores, justiça seja feita, têm à disposição um ambiente mais favorável aos negócios do que a geração passada. Para começo de conversa, o mercado brasileiro ganhou uma nova dimensão. São 80 milhões de usuários de internet, o quinto maior mercado do mundo. Em vendas de PCs, o Brasil só perde para China e Estados Unidos. Ao todo, o país conta com 200 milhões de linhas de celulares e 40 milhões de pessoas que acessam banda larga via redes 3G.Fora isso, hoje, toda a infraestrutura necessária para começar uma empresa pode ser alugada em serviços de computação em nuvem a custos muito inferiores aos praticados no começo da década passada. ”A estrutura de armazenamento de dados custa um centésimo do preço de dez anos atrás”, diz Yuri Gitahy, presidente da Aceleradora, grupo de apoio a jovens empresas de internet, baseado em Belo Horizonte. Segundo Gitahy, uma startup em seus primeiros dias pode começar a oferecer seus produtos ao consumidor com um custo que raramente ultrapassa 100 reais por mês. Isso ajuda a explicar por que estima-se em 6 000 o número de startups no Brasil, 1000% mais do que no início dos anos 2000. Esse novo cenário vem contribuindo para a formação de um ecossistema mais maduro no setor de internet. Empreendedores mais bem preparados têm mais chances de sucesso e atraem um número crescente de investidores estrangeiros. Em 2009, o site BuscaPé, que compara preços do varejo, foivendido por 342 milhões de dólares ao grupo de mídia sul-africano Naspers. Nos últimos dois anos, mais de 20 fundos americanos e europeus especializados em jovens empresas de tecnologia, entre eles seis dos 15 maiores do mundo, começaram a operar no Brasil. São nomes como Sequoia Capital,Accel Partners, Benchmark Capital e Tiger Global, fundos com históricos que incluem Facebook, Google,Apple e eBay. Um estudo recentemente divulgado pela Associação Americana de Venture Capital concluiu, após ouvir 400 fundos, que o Brasil é O segundo país que mais inspira confiança para investimentos, atrás apenas dos Estados Unidos. “O país vive hoje o cenário que a China apresentava em 2002, quando mais pessoas passaram a ter acesso à renda e estudantes voltavam de cursos de MBAna Europa e nos Estados Unidos para empreender”, diz Jon Karlen, sócio do fundo Flybridge Capital Partners, que investiu em quatro empresas no Brasil, entre elas o site de comércio de calçados Shoes4You.INSPIRAÇÃO A Netshoes é um dos principais exemplos] das empresas que estão atraindo a atenção dos fundos – sites com alto potencial de crescimento. Em 2007, a varejista de calçados nascida em 2000 abandonou suas lojas físicas para se dedicar ao comércio online. Estabeleceu padrões inspirados na Amazon, investi u em logística e em sistemas de recomendação de produtos com base no cruzamento das preferências dos usuários. No fim de 201Ó, recebeu aporte de valor não revelado do fundo americano Tiger Global e cresceu aceleradamente, deixando para trás grandes lojas virtuais brasileiras, como a Saraiva e o Extra. Assim como acontece nos Estados Unidos, os fundos de capital de risco têm olhado aqui no Brasil para sites de diferentes setores. O carioca Julio Vasconcellos, do site de compras coletivas Peixe Urbano, os paulistanos Flávio Pripas, da rede social de moda Fashion. me, e Leonardo Simão, do site de compras coletivas especializado em itens para crianças Bebê Store, são três empreendedores que receberam investimentos recentemente. “A cada novo anúncio de aporte, aumenta o número de jovens que ganham confiança para abrir um negócio”, diz Ricardo de Carvalho, sócio da consultoria Deloitte. Além de motivada pelo desenvolvimento do mercado brasileiro, a chegada dos fundos estrangeiros tem uma lógica externa. A maioria deles possui, há anos, escritórios nos principais pólos mundiais – Estados Unidos, Israel, Europa, Índia e China. Como a competição por empresas nesses lugares fez com que os preços subissem, começou a fazer mais sentido buscar uma nova frente, como a América Latina. A comparação com a China dá uma medida do quanto o mercado brasileiro ainda pode crescer. Nos últimos 18meses, aconteceram 90 investimentos de 40 fundos em empresas chinesas, o triplo do número registrado no Brasil. Para o executivo Alexandre Hohagen, que já foi presidente do Google na América Latina e hoje comanda o Facebook na região, a chegada desses grandes fundos é fundamental não apenas para os empreendedores mas também para disseminar a cultura do risco entre os investidores locais. “Estamos acostumados a aplicar em renda fixa, na bolsa e em imóveis. O interesse de investidores estrangeiros em startups fará com que muitos comecem a prestar atenção nesse segmento”, diz. Recentemente, um grupo de ex-alunos brasileiros da Universidade Harvard criou uma filial do HBS Alumni Angels, uma associação que tem o aval para usar o nome da tradicional escola de negócios americana. O grupo tem a missão de garimpar novos negócios em fase muito inicial – daí o ter mo “anjo”. As empresas escolhidas podem contar com investimentos de gente como Benjamin Quadros, presidente da BRQ,uma das maiores empresas de software de capital nacional, e Álvaro Santos, sócio do Pinheiro Neto Advogados, um dos principais escritórios de advocacia do país, além de outras 40 pessoas com currículo semelhante. O principal ativo do grupo, porém, não é o dinheiro, mas o aconselhamento aos empreendedores. De acordo com Magnus Arantes, sócio da empresa de participações LM-Invest e presidente do HBS Alumni Angels of Brazil, os investimentos serão em jovens empresas de setores como internet, biotecnologia e finanças. Para Bob Wollheim, fundador da empresa de conteúdo digital Sixpix e membro da Endeavor, organização de apoio ao empreendedorismo, a formação de grupos como os de Harvard mostra uma evolução no perfil de quem investe em startups, “Antigamente, quem fazia o aconselhamento não era quem dava o dinheiro”, diz WoIlheim. “Agora, o mentor é quem assina o cheque, e isso faz toda a diferença.” Os avanços do ambiente de negócios para startups no Brasil são palpáveis, mas o ciclo só estará completo quando os fundos que agora estão investindo conseguirem obter o retorno sobre o  valor aplicado. Há duas formas tradicionais de “saída” de um investimento: a venda da empresa para uma companhia maior ou a abertura de capital na bolsa de valores. “Esse é um fator que preocupa os estrangeiros porque o mercado de capitais no Brasil não tem tradição com o lançamento de ações  de empresas de internet”, afirma Cate Ambrose, presidente da Associação Latino Americana de Privare Equity e  Venture Capital. Essa é uma qtJ.estão que pode ser revertida nos próximos cinco anos, prazo que os fundos costumam esperar antes de vender suas participações. O tempo dirá se isso vai mudar. Mas um avanço já é palpável: os nerds brasileiros estão na moda – e ganhando como nunca.

 

SÓ CLONAR NÃO SERVE

Poucos meses depois de criar um negocio de internet, em 1998,dois jovens americanos foram pedir dinheiro ao mais famoso fundo de capital de risco especializado em tecnologia do mundo, o Sequoia Capital. A ideia não era inovadora e o serviço se propunha a fazer frente a empresas de peso na época, com o Yahoo!O fundo viu potencial no negócio e colocou 12,5milhões de dólares no até então desconhecido Google, fundado por Sergey Brin e Larry Page. Quando, já gigante, a empresa realizou sua abertura de capital, o fundo obteve retomo de 2 bilhões de dólares, 1500% mais do que o investido inicialmente. Ao longo de quatro décadas, completadas em 2012,o Sequoia acumula diversas histórias similares em empresas como Apple, Oracle e outras 800 companhias. Depois de se instalar na China, na Índia e em Israel, além da sede na Califórnia, o fundo acaba de abrir suas portas em São Paulo. O americano DougLeone, coordenador-geral do fundo, diz que uma das maiores dificuldades hoje é encontrar empreendedores que pensem a longo prazo. A maioria quer apenas vender rapidamente seus negócios. Sobre essa questão e as particularidades do mercado na América Latina, Leone falou com exclusividade a EXAME. Qual é a maior dificuldade hoje para encontrar boas iniciativas? Um dos maiores desafios é achar pessoas que planejem negócios com uma visão de longo prazo. Há muitos empreendedores que querem fundar uma empresa e vender rapidamente, repetindo casos como o do aplicativo de compartilhamento de fotos Instagram

- no qual investimos -, vendido por 1bilhão de dólares menos de dois anos depois de ser criado. Procuramos oportunidades que possam ser desenvolvidas ao longo de vários anos. Há fundos fazendo negócios no Brasil sem ter um escritório local. Por que o Sequoia decidiu ter uma base local? A intenção do Sequoia é repetir o padrão de atuação que imprimimos na China e na Índia. Temos escritórios nesses países que, como o Brasil, têm uma economia crescente, um grande mercado consumidor e uma classe média ascendente. Essas características abrem portas para que novas companhias se estabeleçam e aumentem suas receitas em alta velocidade em vários segmentos. Mas os responsáveis pelo escritório brasileiro deverão olhar também oportunidades na América Latina. Os dois primeiros investimentos que fizemos, na uruguaia Scanntech, especializada em varejo, e na agência argentina de turismo online Decolar. com, são prova disso. Nós acreditamos que só conseguiremos detectar as reais necessidades da região se estivermos baseados localmente. Apesar de o Brasil ter um mercado de internet maior que o da Índia, há poucas empresas de grande porte por aqui. Por quê? Pode-se dizer que o mercado de internet está em seu estágio inicial no Brasil o Menos da metade da população navega na internet, e muitos fazem isso fora de casa ou abaixa velocidade. À medida que cresce esse número, sobem as chances de surgir grandes empresas. Os lendários empreendedores do futuro podem ser tanto de São Paulo ou do Rio de Janeiro quanto de São Francisco, no Vale do Silício. Não teríamos estabelecido uma base no país se não acreditássemos que seja possível que o próximo Google surja no Brasil. Vamos oferecer nossa experiência para ajudar esses empreendedores, que devem sair das melhores escolas do país ou do mundo, a desenvolver seus sonhos sem que criem apenas clones de empresas que fizeram sucesso no exterior. Mas os brasileiros não são criticados justamente por criarem muitos clones, sem olhar para as particularidades do mercado local? Nem todas as empresas que adaptam modelos de negócios para o mercado brasileiro são cópias. Por isso não somos avessos a investimentos em companhias com esse perfil. Mas as empresas mais valiosas serão desenhadas pensando especificamente no mercado brasileiro e serão criadas por empreendedores que não têm medo de pensar de um jeito diferente. Sabemos que existem alguns profissionais com esse perfil no Brasil porque já conversamos com alguns deles. O Sequola não Investiu nas últimas empresas de internet de destaque na bolsa, como Facebook e Groupon. O que aconteceu? Existem vários negócios em que nós gostaríamos de ter investido em estágios iniciais de desenvolvimento, como a empresa de virtualização  VMware ou a rede social Facebook. Ao mesmo tempo, nós ficamos felizes por não termos adquirido participação em algumas companhias. É preciso olhar atentamente para não entender mal o contexto. O Sequoia está mais bem posicionado do que em qualquer outro momento da história e, no ano passado, lideramos a onda de aberturas de capital. Empresas de nosso portfólio, como a rede social voltada a profissionais LinkedIn, foram muito bem-sucedidas em sua abertura de capital. Também estamos entusiasmados com o crescimento de empresas americanas em que investimos, como o serviço de armazenamento Dropbox, o site de compartilhamento de hospedagens Airbnb, o sístesia de pagamento com celulares Square ou uma dúzia de outras. As  perspectivas são positivas em relação ao futuro, inclusive no Brasil.

 

O CIMENTO MO BANCO DOS REUS

No dia 1 de fevereiro de 2007, agentes da Polícia Federal e representantes da Secretaria de Direito Econômico (SDE) e do Ministério da Fazenda realizaram uma operação de busca e apreensão em escritórios de seis das principais fabricantes de cimento e concreto do país – Cimpor, InterCement (Camargo Corrêa), Itabira Agro Industrial (grupo Nassau), Holcim, Lafarge e Votorantim Cimentos – e na sede de associações do setor, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A operação foi motivada por uma denúncia de Evaldo José Meneguel, excoordenador comercial da Votorantim Cimentos, que acusava as empresas de formar um esquema para controlar preços, dividir mercados e barrar a entrada de novos competidores. Um supost cartel do cimento. Entre 2007 e 2011,os 820 000 documentos eletrônicos recolhidos foram examinados em uma das mais longas e complexas investigações da história da SDE, órgão que analisa casos de práticas contra a livre concorrência e que em maio foi incorporado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Cinco anos depois do inicio das investigações, em novembro do ano passado, a autarquia recomendou ao Cade a condenação de todos os envolvidos. A palavra final sobre o caso será dada pelo Cade, que está avaliando o processo. EXAME teve acesso exclusivo à conclusão do processo administrativo n2 08012.011142/2006-79 da SDEe revela nas páginas a seguir detalhes de como o suposto cartel funcionava – sempre de acordo com a SDE. Além das seis empresas já citadas, foi acusada de integrar o cartel a Companhia de Cimento Itambé. Posteriormente, a Lafarge assinou um acordo com o Cade, pagou 43 milhões de reais e foi excluída do processo. As acusações são graves: se o cartel realmente existiu, o preço do cimento e de tudo que depende dele (a construção civil, por exemplo) ficou artificialmente inflado no Brasil por décadas, prejudicando milhões de pessoas e beneficiando um punhado de empresas. Ao longo de cinco anos, a SDE construiu um processo com mais de 12000 páginas. O relatório final, que está sendo analisado pelo Cade, tem 399 páginas. Nele, a SDE acusa as empresas de terem lucrado, com o cartel, 6 bilhões de reais entre 2002 e 2006 – período em que a investigação se concentrou. Mas, para a SDE. as empresas estariam atuando de forma orquestrada há pelo menos seis décadas. A primeira Comissão Parlamentar de Inquérito da história do Senado, realizada em 1952, já tratava da preocupação com a competição desleal nesse setor. O relatório vem à tona em um dos momentos mais favoráveis para as fabricantes de cimento. Por causa da expansão do mercado

imobiliário e das obras de infraestrutura, o consumo de cimento cresce acima da renda real do Brasil desde 2004. Em 2010, o setor faturou U bilhões de reais - U5% mais do que há dez anos. E um bom pedaço desse faturamento, para a SDE, foi inflado artificialmente pela falta de competição. A SDE calcula que só no programa Minha Casa, Minha Vida, orçado em 7 bilhões de reais, as empresas poderiam lucrar 700 milhões de forma ilegal. A conta vale também para outros contratos – na média geral, o acordo teria inflacionado em 10% a receita anual do setor, calculada pela SDE em 15 bilhões de reais – ou cerca de 1,5 bilhão de reais ao ano. A principal acusação da SDE é que as empresas, responsáveis por cerca de 90% do mercado nacional de cimento, se organizaram para fixar e controlar preços de cimento em diversas regiões do pais. Essa é a base para a acusação de formação de cartel. Durante as investigações, a SDE diz ter encontrado indícios de que as empresas compartilhavam uma tabela de valores usada como referência em cada região. Esse preço seria seguido por todas: quando uma reajustava o preço, as outras aumentavam na mesma proporção. Um fax trocado no dia 5 de dezembro de 1997 por dois executivos da Itabira, João Zamir Grilo e Sérgio Maçães, demonstra, para a SDE, como funcionava o suposto esquema: “Cauê (marca de cimento do grupo Camargo Co’;’êa) não Q subiu no E.S. (Espírito Santo), falei com Sérgio Chaves gerente Cauê em Vitória ~ e me informou que não deu tempo de ã fazer a tabela”.’ Em outro fax, enviado ~ no dia 10 de setembro de 1997, Grilo ~ afirma a Maçães: “Poty (marca de cimento da Votorantim) continua entrando em São Mateus e Linhares (municípios do Espírito Santo), revendedores vendendo no varejo a 5,50 reais. Nosso preço na região 5,65e 5,75reais. Precisamos ver se Poty acerta preço” .’ Além de manipular os preços, as empresas teriam se organizado para dividi   igualmente os mercados e os clientes por região. Em anotações feitas por Maçães, há referências a uma conversa com Karl Bühler, executivo da Ho1cim, sobre as exigências feitas pela InterCement para compensar sua perda de participação em Minas Gerais para a Soeicom, atual Cimentos Liz. (A Cimentos Liz foi investigada, mas excluída da acusação da SDE.)AInterCement queria em troca mais participação no sul do pais. A SDE diz que essa prática era comum e destaca que as próprias empresas sabiam do risco que corriam e,por isso,tentavam maquiar as evidências. Anotações pessoais de Eduardo Garcia, diretor jurídico da Lafarge, revelam sua preocupação ao ser questionado pelo Cade sobre por que a empresa não competia em São Paulo e mantinha a liderança da Votorantim “intocada”. No texto, ele argumenta, segundo a SDE, que algo deveria ser feito para camuflar o cartel – por exemplo, a entrada da Lafarge em SãoPaulo. Ele anotou: “É importante que em razão das operações de concentração haja um novo/desenho de participações (ex Lafarge entra em São Paulo)”. As empresas

chegavam a determinar punições para quem desrespeitasse o acordo. segundo o delator do esquema, caso uma cimenteira do grupo roubasse um cliente de sua aliada, deveria entregar outro

cliente com um contrato de valor 10% maior para compensar. Para fortalecer o suposto cartel, as

empresas teriam estendido o acordo ao setor de concreto, num movimento chamado pela SDE de “verticalização”. A estratégia era conquistar na fabricação de concreto a mesma participação que as empresas do grupo detinham no mercado de cimento. Uma apresentação encontrada nos computadores apreendidos na sede da InterCement confirmaria o plano, diz a SDE: “Atingir a participação de mercado em concreto semelhante à participação de cimento regiões mais relevantes (sic)”. A”verticalização” era uma maneira de ter mais controle sobre os preços de cimento no pais.Ogrupo estabelecia uma tabela de .  preços diferente para as concreteiras independentes e para as “coligadas”, que eram formadas por empresas indiretamente associadas ao suposto cartel,como Topmix,Brasmix e Betonserv,que tinham participação da Holcim;Polimix e Supermix, que são ligadas à Votorantim: Concrepav, à Itambé. O valor do cimento podia variar de 10%, para as coligadas, até 30%, para as independentes, conforme mostra um documento da Votorantim Cimentos de 2002. sa.o qualidade .Mas as cimenteiras não agiam sozinhas, de acordo com o relatório da investigação. Para legitimar suas ações, elas contavam com a colaboração das associações ligadas ao setor de cimento e concreto (ABCPe Abesc) e do sindicato da indústria de cimento (SNIC). Segundo as.investigações, essas entidades trocavam informações entre as empresas, promoviam campanhas para denegrir a imagem das concorrentes e faziam pressão para alterar as normas técnicas com o intuito de aumentar as barreiras de entrada. Para limitar a atuação de concorrentes de menor porte, a associação das cimenteiras criou até um selo de qualidade que somente os membros da associação conseguiam obter. Para a SDE, não era coincidência Por trás dessas práticas havia uma preocupação constante da” cimenteiras investigadas em evitar a entrada de novos concorrentes. De acordo tom os termos do relatório, ela” utilizaram uma “intricada engenharia” de.aquisições para consolidar o setor nos últimos anos. A SDE destaca a compra da Cimento Ribeirão Grande pela Votorantim Cimentos em novembro de 2006 – que teria sido fechada diante do interesse do grupo grego Titan e do mexicano Cemex pela empresa. Uma preocupação do grupo – sempre de acordo com a SDE- era com a siderúrgica CSN,controlada por Benjamin Steinbruch, que começou a fabricar cimento em 2009. Em 20lO, a CSN fez uma oferta hostil para assumir o comando da portuguesa Cimpor.Logoapós a proposta, Votoranrim e Camargo Corrêa entraram na disputa e fecharam negócio. Uma apresentação de PowerPoint intitulada “Definindo prioridades para o grupo Camargo Corrêa”, de 20 de setembro de 2005, é usada pela SDE para mostrar que o grupo restringia o acesso aos insumos do cimento, principalmente à escória de alto-forno – outra maneira de evitar a chegada de concorrentes. Em 2005, a Cimentos Liz protocolou uma acusação no Cade alegando aumento injustificado de preços e recusa de venda de insumo contra a , InterCement, que tinha um contrato de longo prazo exclusivo de compra de escória com a siderúrgica Usiminas. Segundo a SDE, o cartel controlava o fornecimento de escória mantendo participações acionárias em siderúrgicas como a Usiminas, em que Camargo Corrêa e Votorantim tinham 26% das ações com direito a toto (elas se desfizeram dessa fatia ao vender sua participação para a argentina Ternium em novembro do ano passado). AMEAÇA DE MULTA Ainda não há um valor estipulado para a multa que pode ser aplicada às empresas em caso de condenação, mas estima se que a punição poderá chegar a 3 bilhões de reais – 20% das vendas do setor -, o que seria a maior pena a um cartel na história do país. Até hoje, a maior sanção foi dada em setembro de 20lO a cinco empresas de gases hospitalares e industriais – White Martins, AGA,Air Liquide Brasil, Air Products Brasil e Indústria Brasileira de Gases. Elas tiveram de pagar multa de 2,3 bilhões de reais. Se confirmada a atuação irregular das cimenteiras, é pouco provável que a punição vá além das multas. Nos Estados Unidos, um executivo pode ser condenado a até dez anos de prisão por prática de cartel. Desde 2000, mais de 150 empresários já cumpriram essa punição por lá. No Brasil, foram apenas 14 multas no mesmo período. A reportagem de EXAME procurou todas as empresas acusadas, além dos sindicatos e associações. A Cimpor ofereceu-se em dezembro de 2007 a firmar um acordo com o Cade para ser excluída do processo, a exemplo do que fez a Lafarge. Mas o Cade recusou a proposta. Em nota, a empresa afirma que segue todas as leis nos países em que atua e está aguardando “tranquilamente o julgamento pelo Cade”. A InterCement, controlada pela Camargo Correa, que contratou o ex-presidente do Cade Arthur Badin para tocar seu departamento jurídico, contesta as recomendações da SDE e diz que “Aguarda o inicio do julgamento do processo pelo Cade convicta de que não atuou de forma irregular” A Votorantim a firma que o processo ocorre em segredo de Justiça , e em razão disso, “só ira se pronunciar sobre o tema nos fóruns adequados”. A companhia de cimento Itambe diz que não se pronunciara enquanto “não for oportunizada (sic) a defesa no Cade”. O sindicato do setor de cimento afirma que “irá responder a qualquer questionamento ou dúvida nas instâncias devidas, com transparência e tranquilidade”. Procuradas,as associações das concreteiras e do cimento, a Cimento Liz e a Holcim disseram que não vão se manifestar. O grupo João Santos não retornou atém fechamento desta edição. O Cade que só vai se manifestar após o julgamento. O cimento deve ir para o banco dos réus até o fim do ano.

 

OS CHEFES NÃO GOSTARAM DAS CRITICAS

O professor Emerito da universidade Princeton, o israelense Daniel Kahneman,de 78 anos, é um dos maiores expoentes mundiais na área do conhecimento dedicada à pesquisa do processo de decisão. Suas investigações ajudaram a colocarem xeque a ideia do Homo economicus, segundo a qual as pessoas sempre tomam decisões racionais movidas pelo interesse próprio. Kahneman provou que, na vida real, todos somos influenciados pela razão, mas também por nossas crenças, ideias preconcebidas, intuições e emoções. Pelo conjunto de seu trabalho, Kahneman, um psicólogo sem formação na área econômica, foi premiado, em 2002, com o Nobel de Economia. Seu último livro – Rápido  eDevagar: Duas Formas de Pensar – é um resumo de toda a sua obra e chega às livrarias brasileiras no começo de agosto. Kahneman falou com ExAME sobre a aplicação de suas ideias no mundo empresarial, a posição alemã na crise europeia e a influência da internet na maneira como pensamos – tudo numa narrativa racional.e, aparentemente, sem se basear na intuição. O senhor diz que a intuição é parte essencial do pensamento humano. É possível usar suas descobertas para melhorar a gestão de empresas? Sim, há muito espaço para melhorar a forma como as decisões são tomadas nas organizações. De certa forma, empresas são fábricas de decisões. Como acontece na fabricação de toda a espécie de produto, é necessário ter um sistema de controle de qualidade. No caso dos processos de decisão, porém, isso infelizmente não acontece com frequência. É muito difícil implementar um sistema de qualidade desse tipo, que consiga avaliar se as decisões foram tomadas tendo como base todas as informações necessárias. Medições que consigam nos dizer se as pessoas envolvidas não foram precipitadas, se não foram influenciadas por preconceitos ou por um viés. Acima fie tudo, responder se a decisão tomada foi a melhor que poderia ter sido alcançada naquelas circunstâncias. – Como esse programa de qualidade poderia ser Implementado? A primeira coisa a fazer é uma lista dos erros que a organização está mais propensa a fazer. Em segundo lugar, a direção da empresa pode ter uma espécie de checklist. Antes de a direção bater o martelo sobre um determinado assunto, um grupo olharia a lista para tentar identificar erros. Do jeito que o senhor fala, adotar um sistema de qualidade no processo decisório parece simples. Por que, então, a maior parte das empresas não o adota? Porque o escrutínio sobre os presidentes das empresas seria muito maior, e ninguém gosta de ter gente olhando por cima do seu ombro. Existe muita resistência a essa ideia. Por isso, as empresas não aprendem com seus próprios erros. Pelo menos, não na velocidade que potencialmente poderiam aprender. Como funciona a fase de identificação de erros? Para identificar os deslizes mais comuns é necessário ter uma boa documentação do histórico das decisões. É a partir disso que se pode fazer uma análise detalhada. A necessidade de ter tudo documentado acaba sendo outro obstáculo. Por questões legais, muitas empresas fazem de tudo para apagar rastros que possam, mais tarde, causar algum tipo de problema. O melhor exemplo disso é que certos assuntos não são mais tratados por e-rnail. Por tudo o que falei, a luta por decisões mais eficientes é difícil, o que -é lastimável. Faz sentido para mim que organizações com processos de decisão mais precisos e menos intuitivos tenham resultados melhores. Em seu novo livro. o senhor diz que as pessoas tendem a correr riscos desproporcionais para evitar uma possível perda imediata. Por quê? Nossa tendência é considerar o futuro distante como algo incerto. Isso nos leva a achar que o futuro é menos importante do que o presente. Diante de uma ameaça imediata, nossa predisposição, desde o nascimento, é tentar evitá-la, mesmo quando isso envolve ter uma perda muito maior no futuro. Para parte dos economistas, a resistência da Alemanha em resgatar os países europeus em dificuldade agora poderá causar uma crise de proporções ainda maiores no futuro. Até que ponto a posição do governo alemão pode ser explicada pela aversão ao risco imediato? Tenho certeza de que muitos analistas concordariam que é esse o caso. Para quem acompanha a situação européia sem fazer parte do debate dentro dos governos, como eu, parece que os alemães não querem assumir grandes perdas imediatamente e, dessa forma, implicitamente, aceitam o risco de perdas que podem até ser catastróficas no futuro. Eles ficam fazendo concessões, porém elas nunca são suficientes para resolver a crise. Mas quero ressaltar que não sou um especialista nesse assunto. o senhor sustenta que a organização básica da mente humana não muda há séculos. e forma ela pode ser alterada pelo uso da Internet? A internet acaba com a necessidade de as pessoas fazerem um esforço para lembrar de informações. Vemos isso o tempo todo. Quando um grupo de pessoas está conversando e alguém pergunta em que ano aconteceu tal fato histórico, logo surge um smartphone e, em questões de segundos, encontra-se a data certa. No futuro, acredito que a internet vai acabar interferindo ainda mais. Quem estiver em dúvida sobre uma determinada questão poderá acessar as decisões tomadas em situações similares por outras pessoas. A influência do meio social deverá ser muito maior. Quando tivermos um problema, haverá uma forma estruturada para nos ajudar a chegar a uma conclusão. Mas o fato de as pessoas não se esforçarem mais tanto para lembrar de dados não irá afetar a maneira como pensamos?.. Não tenho uma opinião formada sobre isso. Quais serão os efeitos no longo prazo? Como isso vai afetar a educação?Como a mania dos jovens de fazer várias coisas ao mesmo tempo afeta a qualidade do pensamento? Ainda temos muitas perguntas em aberto. Quais são as pesquisa que devem ter impacto na área econômica nos próximos anos?No longo prazo, ninguém tem a menor ide ia. No curto prazo, podemos fazer algumas extrapolações. Atualmente, há muitos alunos que estão estudando neuroeconomia (área voltada para a análise do processo de decisão com base na atividade cerebral). Isso nos leva a pensar que parte deles vai fazer toda a carreira nessa área. Quais são as descobertas mais marcantes da neuroeconomia até agora? Algumas ideias teóricas que temos sobre o que ocorre na mente das pessoas realmente podem ser testadas por meio do estudo da atividade cerebral. No momento, isso ainda estâ muito primitivo, mas no futuro vai melhorar. Economistas clássicos sempre sentiram desconforto com explicações com base na psicologia. Quando tivermos evidências neurológicas, pode ser que diminua a resistência.

 

Em 2017, 50% do mundo terá acesso ao 4G”

O sueco Hans Vestberg, presidente mundial da Ericsson foi o responsável por fazer a empresa abrir mão de seus negócios mais tradicionais, os telefones celulares. A Ericsson vendeu sua participação para a Sony no ano passado por 1,5 bilhão de dólares. O foco da empresa voltou-se para os equipamentos usados nas redes de telefonia móvel, como roteadores e cabos de fibra óptica. Segundo vestberg, o mundo está dando os primeiros passos rumo ao 4G – e isso vai aumentar a demanda por infraestrutura de telecomunicações.  1) Como será a próxima geração de redes moveis? Até 2017,50% da população mundial terá acesso a redes 4G. Ainda falamos muito em celulares, são 6,2 bilhões de assinantes de serviços móveis no mundo. Mas as redes vão além disso. Hoje, há eletrodomésticos, automóveis, semáforos e aparelhos médicos ligados à rede. Até 2020 deveremos ter 50 bilhões de aparelhos conectados no mundo. 2) Mio corremos o risco de um apagao cibernetico? Dois fatores são essenciais para que essas redes não parem. O primeiro é a velocidade. Na Suécia, há testes com conexões de 1 Gbps (1000 vezes mais veloz do que o 3G). Além disso, como não há mais espaço para grandes centrais de transmissão nas cidades, a tendência é que pequenas centrais sejam criadas em empresas e até em condomínios. 3) O senhor acredita na promessa ele que O 4G poderá desafogar as redes de celulares no mundo? As redes de telefonia foram construídas para o tráfego de voz. Hoje, voz é uma das funções de um smartphone. Com o 4G, é possível ter um gerenciamento mais eficiente de todo esse conteúdo. São as chamadas redes inteligentes. 4) Como funcionam essas redes Inteligentes? O 4G, por exemplo, permite que as operadoras saibam que tipo de conteúdo cada usuário está acessando, para disponibilizara conexão mais adequada. Se é um vídeo em altaresolução no YouTube ou se é uma simples consulta dee-mail. Elas sabem que tipo de site e em que horário a pessoaacessa. A tecnologia também permite priorizar o acessoa serviços essenciais caso a rede fique sobrecarregada, como  a comunicação com hospitais e delegacias. 5) O BrasIl está atrasado em relação ao 4G? Por enquanto, as redes 4G estão presentes apenas nos paísesricos, como Estados Unidos e Coreia do Sul. O Brasil estájunto com a maior parte dos emergentes, onde muitas operadorasnão tiveram o retomo do investimento em redesantigas. Por aqui, ainda há muito espaço para o crescimentodo 3G. Mas a evolução para o 4G é inevitável. 6) Oque Impede uma a adoção mais rápida  do 4G? Um fator que dará vida longa ao 3G é o preço dos aparelhos.Eles custam, em média, 100 dólares. Os smartphones 4Gsão quatro ou cinco vezes mais caros. 7) Qual é o Impacto financeiro do uso ela banda larga móvel por smartphones e tabIets no mundo? Para cada 10% de acréscimo no acesso à banda larga e móvel,há um aumento de quase 1%no PIB de um pais. Além disso,a cada 1000 novos usuários de banda larga, 80 empregossão criados. Os governos podem usar o acesso rápido paramelhorar a produtividade, a educação digital, a saúde e parafazer uma gestão de trânsito mais eficiente, para ficar emapenas quatro exemplos. Tão importante quanto ter metas de qualidade de transmissão é saber usar a tecnologia.

veja 15 de agosto

SEM BRINCAR EM SERVIÇO

Por que essa boca tão grande, senhor presidente? Para engolir o adversário

Se a eleição presidencial nos Estados Unidos fosse hoje, Banlck Obatnaestaria

reeleito. Aliás, os números indicam que o mesmo deve acontecer em novembro. Embora a média de sua aprovação pela opinião pública

esteja perigosamente empatada (47% e alguns numerozinhos depois da vírgula se dão por satisfeitos; uma maioria minúscula diz o contrário) e o candidato

oposicionista Mitt Romney avance em alguns fronts, o que vale são os votos

no colégio eleitoral. Obama garante atualmente 237 e o adversário, 206. Mesmo assim. o presidente faz uma campanha tipo vale tudo, com aspectos simpáticos como o encontro com crianças numa lanchonete de Ohío, na foto acima, e outros nada bonitos. Até para os nada contidos padrões de agressividade das disputas eleitorais americanas os ataques contra Romney são exerceu Dais. Num dos mais comentados. Um ex-metalúrgico culpa Romney pela morte da mulher. Motivo? A empresa do qual o candidato republicano era sócio, especializada em comprar empresas enforcadas. reestruturá-las ou, nos casos perdidos, fechá-las.= seguiu a última opção com a metalúrgica onde ele trabalhava. Aborrecida e sem plano de saúde, a mulher morreu de câncer. Problemas: a empresa foi fechada em 2001, a morte aconteceu em 2006 e a vítima tinha cobertura médica própria. A equipe de Obama disse que não tinha nada a ver com a peça – nos Estados Unidos, grupos paralelos aos partido financiavam a artilharia pesada nas campanhas -, mas o próprio presidente já havia falado no caso. Ao contrário do carismático e bem- falante Obama, Romney é pouco articulado e enrolado com a imagem de ricão indiferente aos sujeitos comuns. Tem a seu favor, primordialmente, a situação econômica embaçada. Será deglutido se não esgrimir outras habilidades.

 

GENTE

 

NÃO ESQUEÇAM DE MIM

Lindos, célebres e desimpedidos,, os atoers Ashton Kutche e Mila Kunis tiveram de assumir bem suave, mente a relação, mas como estão assumidos problema de ambos são os ex.O fim do casamento com Kutcher foi notoriamente devastador para DEMI MOORE. Ela beirou a anorexia, baixou no hospital. passou por uma clínica de recuperação e enfrentou até a rejeição das três ilhas. Felizmente, parece que melhorou e foi flagrada, Há pouco tempo com ar saudável e um namorado novo, o neozelandês Maritn Henderson. Mais complicada é a situação de Maculy culkim, com quem Mile teve um relacionamento de oito anos. Descarnado e recluso, sem nada remotamente comparável ao sucesso de infância de Esqueceram de Mim, apareceu na festa de casamento da atriz Natalie Portman com cara de quem ia ter uma crise daquelas provocadas por abuso de substâncias.

MAMÃE SABE TUDO

Todos desejam que ela continue na ativa para sempre, mas, se decidisse se aposentar como modelo, GISELE BÜNDCHEN játeria . uma segunda ocupação: inspetora de, maternidade alheia. Quando teve o pequeno

Benjamim (de branco ),em 2009, defendeu uma “lei mundial” obrigando as mães a amamentar até os seis meses. Agora, grávida de cinco meses do segundo filho com o jogador 10M BRADV, defende o parto em casa.A enfermeira da primeira vez (na banheira) escreve apaixonadamente sobre o terna no blogquea modelo mantém. Segundo Mayra caIvetti, o pano natural, sem anestesia, é ”mais seguro e carrega os hormônios do amor”. Eni hospital, com anestesia ou cesárea, vira uma “Matrix obstétrica”.

ELA QUER SALVAR O MUNDO

Como política, o prestígio de SARIH PALIN desabou: tem apenas 6% das preferências na lista dos candidatos em potencial a více-presídente na chapa do republicano Mitt ROInney’ a falta de preparo revelada na vitima eleição, quando fez dobradinha com John McCain, foi arrasadora. Mas a América profunda contínua a amar Saran, ainda mais quando ela aparece na foto acima. . num comício de uma correligionária nos cafundós , do Kansas, com Sandálias feitas para pisotear as fantasias masculinas e camiseta de Super Homem (na verdade, da campanha da candidata que apoia). Pela circunferência dos quadris, ela deve estar à base de chá de criptonita

CARREGANDO A CRUZ

Ser a irmã nova de Penelope Cruz, a esplendorosa atriz espanhola, tem algumas vantagens. A mais óbvia é herdar os mesmos genes. MONICA CRUZ, 35, anos também tem olhos amendoados, biquinho provocante, corpo sinuoso e sensualidade de bailarina de flamengo – as duas irmãs estudaram na tradicional dança. Outra e fazer pontas em dublê de corpo em filme e campanhas como a de lingerie, abaixo, que a irmã famosa hoje dispensa. Na primeira gravidez de Penélope, em 2010, ela a substituiu em cenas de Piratas do caribe. Monica largou o tablado em 2002 e desde então se o mundo tem lugar para mais uma cruz. Será?

UM TESTE PARA A IRMANDADE

Atentado contra soldado egípcio na Península do Sinai força o governo islamita do país a cooperar com Israel.

Um, ataque  que matou dezesseis soldados épicos no domingo

5, em um posto de controle perto de Rafah, entre o Egito e a Faixa de Gaza, jogou os radicais da Irmandade Muçulmana em- um dilema existencial. O grupo que elegeu o engenheiro Mohamed Mursi para a Presidência do Egito adoraria fazer vista grossa ao crescimento de bandos islâmicos.

radicais novato deserto da Península do. Sinai, de onde podem lançar ataques contra Israel, cujo direito de existir não é reconhecido pela Irmandade.

A satisfação de ver a fronteira israelense sendo violada por homens bomba,

no entanto, é suplantada pela necessidade de prestar contas pela morte de egípcios. A Irmandade, portanto, não pode deixar o caos instalar-se no Sinai, sob o risco de perder apoio político e popular dentro de casa. Para isso,

ela terá de relevar seu antissemitismo arraigado, trabalhar com os generais remanescentes do regime de Hosni Mubarsk, deposto em fevereiro de 2011, e

ainda comprar uma briga com o Hamas, o grupo palestino que ajudou a formar e que governa a Faixa de Gaza.

Os guardas egípcios estavam jantando após o jejum diário realiZado no mês sagrado do Ramadã quando foram surpreendidos por homens mascarados. Estavam desprevenidos, pois seus superiores haviam ignorado as informações passadas pelos israelenses de que poderiam ser atacados. Os terroristas roubaram dois veículos militares e seguiram em direção a Israel. Um dos carros explodiu antes da fronteira. O outro, com seis jihadistas e explosivos, foi bombardeado pelos israelenses. A autoria do atentado é atribuída ao Exército do Islã, grupo salafista ligado à AI Qaeda e sediado na Faixa de Gaza.

Após a queda de Mubarak, o novo governo egípcio havia afrouxado o controle da fronteira com a Faixa de Gaza. O tráfico de armas aumentou, e as máfias palestinas, os terroristas ligados à AI Qaeda e os assaltantes beduínosganharam mais liberdade para agir no Sinai. O assassinato de egípcios por palestinos forçou uma mudança de atitude de Mursi. Pela primeira vez, o Egito fez uma operação militar coordenada com Israel por ar e terra no Sinai. Acampamentos jihadistas- foram bombardeados. Mais de vinte militantes morreram. Mursi também pediu ao Hamas que lhe entregue três homens suspeitos de envolvimento no ataque. É cedo para afirmar que Mursi esteja se rendendo ao pragmatismo, mas talvez o episódio o ajude a perceber que há mais ônus do que vantagem em permitir que o Sinai seja um criadouro de terroristas.

O NOME DO JOGO É ATITUDE

A quatro anos da Olimpíada no Rio, chegou a hora de entender que no pódio só cabem heróis dedicados e muito bem treinados- apesar do fenomenal estoicismo de atletas que trocam a vida pelo esporte, mas falham na hora da decisão.

O medalhista de ouro Arthur Zanetti, campeão das argolas na ginástica artística, filho de uma analista contábil e, do dono de uma mecânica

industrial, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, há quatro anos repete diariamente a rotina de movimentos que o levou ao pódio em Londres. O atleta divide o quarto com o irmão. A pane de baixo do beliche é sua. . Por imposição da carreira, ele precisa dormir cedo – o irmão, Victor, ao chegar

mais tarde, põe uma toalha em cima da luminária para não incomodar o sono do jovem, que, aos 22 anos, virou herói. Herói depois de uma lesão no punho e uma cirurgia no ombro direito. Zanetti, pela vida ‘absurdamente dedicada, é um

exemplo do esforço, estoicismo e resistência de verdadeiros atletas o1impicos – como os da natação, para citar outro esporte, que passam horas e horas contando azulejos no fundo da piscina. São seres humanos excepcionais. Infelizmente, essa é uma condição que não basta quando chega a hora de uma Olimpíada. E preciso que eles saiam dos Jogos maiores do que quando entraram,

Fabiana Murer, favorita ao pódio no salto com vara, saiu menor do que entrou. Culpa dela? Não, da natureza. “Comecei a correr e senti um vento forte”, disse, e em seguida justificou a desistência no

terceiro salto: “Era até perigoso me machucar se tentasse”. A russa campeoníssima Yelena Isinbaeva não entendeu nem concorda com a decisão da brasileira: “Uma atleta do nível dela não desiste

nunca”. Cesar Cielo é outro que saiu menor do que estava quando chegou: Foi ouro nos 50 metros em Pequim. Sai com o bronze de Londres. Atribuiu o desempenho abaixo do esperado ao fato de ter disputado a prova dos 100 metros dois dias antes. Se olhasse para o lado, Cielo procuraria outra explicação. O americano Michael Phelps, com duas dezenas de medalhas olímpicas, entrou e saiu da piscina mais vezes do que Cielo do ônibus da delegação. O russo Alexander Popov, campeão dos 50 e dos 100 metros no passado, explicou o desempenho de Cielo melhor do que o próprio brasileiro: “Prova olímpica é vencida pelo mais fone. Tinha gente mais forte do que Cielo na piscina”. Thiago Pereira. fenomenal prata nos 400 medley, deixou para trás

Phelps e também o temor de se indispor com atletas da própria equipe. Disse Thiago: “Faltou um pouco de comprometimento das nadadoras brasileiras. Lá nos Estados Unidos, tem mulher que fica que  nem a gente, não raspa nada e só raspa país melhorar na hora da prova. Aqui, como posso dizer, tem mais vaidade”. A medalha de ouro da desculpa mais esfarrapada da delegação brasileira vai para o cavaleiro José Roberto Reynoso:.”A cultura europeia é voltada para o cavalo, no Brasil a pessoa é voltada a ter cachorro em casa”. Ou seja, as magníficas vitórias de cavaleiros brasileiros em Olimpíadas passadas SÓ poderiam ser explicadas como manifestações de contracultura? Reynoso, então, só vencerá uma prova olímpica quando a cultura brasileira mudar de cachorro para cavalo? Claro que não.

Há dois tipos de atleta em uma Olimpíada: os que vão sabendo que podem ganhar uma medalha e os que sabem não ter chance alguma. Entre os vencedores, tudo se perdoa. Eles podem rir, chorar no pódio, fazer extravagâncias, ser exibicionistas como Usain Bolt e suas flechadas. Asseguram, enfim, seu lugar no panteão dos heróis olímpicos; Até sexta-feira passada, o Brasil contava com um total de 22 ouros desde a primeira participação do país em uma Olimpíada, em 1920. São três a menos do que os conquistados pela Grã-Bretanha só nos Jogos deste ano, O Brasil está longe de ser uma potência esportiva, mas,caminhando para sediar uma Olimpíada em 2016, está passando da hora de começar a selecionar e formar atletas

vencedores – antes: que se abra. a guarda para explicações genéricas antropológicas e depreciativas dando conta do que é “ brasileiro é alegre, expansivo, faz amigos com facilidade, mas não. tem as virtudes. Necessárias para ser um campeão olímpico”. O ciclista belga  Gijs van Hoecke, 15 º lugar na categoria Omnium, saiu carregado de uma festa e foi repatriado, antes que a sociologia de botequim visse no comportamento dele a confirmação de que “esse belgas são bons mesmo é de copo”.

Ser derrotado não é desonra. Sofrei um acidente no treino em meio a uma prova faz parte do cotidiano do cotidiano de um atleta de alto nível. Mas os grandes compeões sempre sabem por que ganham e por que perderam e por que perderam  e nunca do país. Com base na história das delegações que melhoram sobremaneira para outra, tem – se como lição e quase como uma regra que o salto positivo deum atleta, em especial na natação e no atletismo, que não ganhou medalha olímpica em um esporte individual se mede objetivamente pela sua conquista do melhor desempenho de sua carreia. Isso mostra que ele se superou. Chegou ao auge de seu potencial atual na Olimpíada, que é o palco adequado para essa demonstração. Bater um-recorde nacional ou um recorde continental também dá a .:medida

objetiva de um atleta que, mesmo de pescoço vazio, saiu dos Jogos tendo sido um honrado representante do espírito olímpico – citiius, altius, fortius, os termos em latim para “mais rápido mais alto, mais forte”

Fazer seu melhor tempo, bater o recorde continental ao o nacional é uma demonstração de que o atleta chegou à Olimpíadas ao cabo de um programação nacional de trabalho, que ele e seu treinador sabem em que ponto da carreira está o esportista e como ele se compara aos demais da sua categoria. Esse tipo de atleta, quando entrevistado depois da prova, , não chora, não ri nervosamente — principalmente, dá respostas ·coerentes. O

campeão olímpico Zanetti jafói muito criticado por exibir-se apenas nas argolas. Mas seu técnico, Marcos Goto, percebeu, desde os 7 anos de Artbur, que os braços curtos’ e as pernas finas eram ideais para à mais plástica das modalidades da ginástica. Nela eles ficaram, sempre buscando movimentos com maior dificuldade.

O esforço de anos é recompensado, enfim, não necessariamente pelo pódio – mas pela superação de um resultado. Turistas olímpicos são os atletas – não à batidos e contusões e acidentes _ eliminados antes das semifinais, que não batem recordes regionais nem nacionais. Nas entrevistas depois do, fiasco, esse tipo de atleta se dá por satisfeito apenas por ter estado em urna Olimpíada. “A gente veio não para pegar meda1ha, mas experiência”, disse Fernando Saraiva, do halterofilismo. Deveria ter ido buscar sua melhor marca de todos os tempos. Fica a Iição dos países que deram saltos espetaculares no desempenho geral: selecionar atletas Olímpicos com espírito de superação constante – de si mesmos e dos competidores.

Temos muitos exemplos disso aqui mesmo no BrasiL Na Olimpíada de

2004, a seleção feminina de VÔlei desperdiçou sete match points contra a Rússia, tomou a virada e perdeu a chance de chegar à final Ficou .Ficou o trauma. A revanche veio na semana passada, nas quartas de final de Londres, com uma vitória que abrira o caminho para a feminina contra os Estados Unidos. Depois de dar um desproporcional peixinho na quadra para quem é tão contido, o tre4tador José Roberto Guimarães, duas vezes vencedor olímpico (masculino em 1992, feminino em 2008), vibrou: “O campeão voltou”. Que nossos campeões voltem, apareçam, sejam descobertos, se façam descobrir e sejam apoiados em sua caminhada de glória.

JAMAICA ABAIXO DE 10

A prova de 100 metros rasos nunca foi tão rápida. O limite humano teria sido alcançado?

No domingo, 5, Usam Bolt corei para valer, sem farra, diferentemente do que fez em Pequim há quatro anos. Na chegada, o jamaicano baixou a cabeça, como fazem os velocistas

A técnica o ajudou a cravar 9,63 segundos, um ROv9recorde olímpico, reduzindo em 6 centésimos a própria marca, obtida em 2008 – ele viria a vencer também os 200 metros, mas, sem recorde algum. A final dos 100 metros foi tão  intensa que sete, corredores terminaram a prova abaixo dos lQ segundos  o jamaicano Asafa Powell, oitavo e último colocado, sentiu uma contusão e só acabou a corrida por puro espírito esportivo. Considerando apenas os que chegaram em plenas condições, o tempo médio da final foi

de 9,82 segundos – o mais rápido da história.

Bolt, no entanto, não conseguiu melhorar seu recorde de 9,58 segundos. Será, então, que chegamos ao limite humano da prova? Um estudo da Universidade Stanford, na Califórnia, mostra que estamos próximos. O americano Mark Denny compilou dados de 100 anos de disputa e, pela progressão dos recordes, concluiu que os corredores atingirão o ápice quando cruzarem a linha de chegada em 9,48 segundos. “As previsões estatísticas são interessantes, mas é uma ciência inexata”, rebateu a VEJA o americano Kenneth Clark, pesquisador do Laboratório de Performance L0comotora da Universidade Metodista do Sul, no Texas. ”As análises biomecânicas de atletas de elite nos dizem que ainda há espaço para melhora.”

TOURO MORENO ESTÁ, RINDO SOZINHO

Thdos os nomes da família fazem sentido na lógica de Adegard Câmara Florentino, um senhor de 75 anos, cabelos brancos e muito forte que ainda luta boxe e se lembrará de Londres como a cidade onde dois filhos – Esquiva Falcão, de 22 anos, e Yamaguchi Falcão, de 24 – saíram com o pódio olímpico. Esquiva chegou à final. Yamaguchi ficou com o bronze. Adegard é conhecido como Touro Moreno, figura respeitada de Serra, próximo a Vitória, no Espírito Santo. Touro diz ter ”uns dezoito filhos” de três casamentos. Esquiva recebeu esse nome porque o pai imaginou que, ao treiná-lo, poderia orientá-lo no canto do ringue – “Esquiva! Esquiva!” – sem ser interpelado pelo juiz. Yamaguchi é homenagem a um amigo assassinado. E pouco? Vem aí outro Falcão Florentino. ÉEstívan, de 16 anos, bom de luvas, cuionome foi inspirado em Teófilo Stevenson, lendário peso pesado cubano mono há dois meses. O pai, que dividia o boxe com apresentações de luta livre, já desenha o futuro dos rebentos. Quer que troquem o pugilismo pelo MMA, a modalidade de artes marciais mistas que fez a fama de Anderson Silva. O motivo: dinheiro. ‘

Ao vencer o britânico Anthony Ogogo na semifinal, Esquiva calou o ginásio de esportes. Na BBC. o locutor paecía Galvão Bueno em dia de derrota da seleção. Ficou desenxabido. ”Essa medalha foi uma promessa que fiz, já está paga”, disse o boxeador, para concluir com um aceno para a mãe (sim. não é só Thuro Moreno quem manda nos bravos falcões): “Mãezona, fiz o gesto do coração pra você, porque você merece”.

A TUITADA DA SEMANA

“Eu bati nele…Inacreditável”

Da judoca holandesa Edith Bosh, de 1,83 metro e 70 quilos, medalha de bronze ( no círculo). Ela pulou no pescoço do sujeito que, a segundos de plástico na pista. O azarado foi levado por Edith aos policias como quem agarrava um quimono alheio

BETERRABA NÃO É DOPlNG

Os isotônicos, que repõem os sais perdidos pelo corpo, são fundamentais para os atletas. Na saída do pódio dourado, Anhur Zanetti pedia desesperadamente uma garrafinha ao médico da delegação. Mas sucesso mesmo,

entre nove de dez atletas, foi o suco de beterraba. Um estudo feito com ciclistas que ingeriram meio litro do líquido avermelhado antes das cansativas provas de 4 e 16 quilômetros observou que eles tiveram desempenho quase 3% superior. A beterraba é excelente fonte de energia. Por ora, não a consideram doping.

A EMBOSCADA DE DR. DRE.

O Comitê Olímpico Internacional proíbe os atletas de exibir qualquer patrocínio que não seja das onze marcas que pagaram, cada uma, 100 milhões de dólares para anunciar na Olimpíada A empresa do rapper americano Dr, Ore, a Beats, fabricante de fones de ouvido descolados e bonitos,distribuiu aos atletas centenas de aparelhos. Eles os ostentavam antes das provas num

esperto marketíng de emboscada. O e nada pôde faze. r, mas, por cautela, a Beats decidiu fechar o ponto de distribuição dos fones no centro de Londres. Dentro da Vila Olímpica, eles viraram mania entre os esportistas. Era a peça mais cobiçada

OS JOGOS NUNCA MAIS FORAM OS MESMO

OS reflexos do atentado terrorista de 1972, em Munique, ainda hoje impõem mais gastos de segurança e insistentes conflitos políticos

A foto acima, de um terrorista palestino encapuzado, é uma das

imagens mais fortes do século XX. Ela mostra o instante, na manhã de 5 de setembro de 1972, na Vila Olímpica de Munique, em que onze atletas da delegação de Israel foram feitos reféns pelo grupo radical Setembro Negro – dois deles foram mortos na hora. Outros três, além dos onze seqüestrados, conseguiram escapar. Quarenta anos depois, um deles, Shaul Ladany, especialista em marcha atlética, foi ouvido com exclusividade por VEJA (leia ao lado). Ao final daqueladramátíca jornada, após uma tentativa fracassada de resgate no aeroporto, o resultado foi trágico: morreram os nove ísraelenses; cinco terroristas e um policial. Três dos terroristas fugiram.

A primeira reação mundial, dura, equivocada e injusta, culpou a própria

cidade – antiga capital do nazismo -, que havia procurado seu perdão organizando a Olimpíada “mais fraternal e alegre da história”. Mark Spitz, o nadador americano de origem judaica que conquistara sete medalhas de ouro a poucos quilômetros do campo de concentração de Dachau, teve de empacotar às pressas suas láureas e embarcar no primeiro avião de volta. Os Jogos tinham sido ofuscados, e, no entanto, depois de intervalo de um dia e de urna cerimônia no Estádio Olímpico (na qual dez países árabes se recusaram a baixar a bandeira em homenagem aos mortos),

eles prosseguiram. Mas nunca mais foram os mesmos.

Comparado ao da Olimpíada de 2012, o esquema de segurança montado em Munique era do tamanho de um vigia de parque desarmado impedindo crianças de pisar na grama. Na Alemanha, foi gasto

o equivalente a JO milhões de dólares em valores atuais. Londres desembolsou J; bilhões de dólares para a proteção de atíeras, turistas e jornalistas. Nas ruas da cidade, especialmente dentro do Parque

Olímpico, na região leste, há mais soldados que no contingente em serviço no Afeganistão__ são 18400 contra 9500. o atentado de 1972 alterou as necessidades de segurança, multiplicadas desde os’ ataques às Torres Gêmeas em 2001 – e o Rio de Janeiro já se prepara

para uma operação suntuosa. Mas a repercussão daquele crime indelével é ainda mais ampla. De lá para cá, Olimpíada e política se confundiram. As autoridades do Comitê Olímpico Internacional (COl) gostam de celebrar posturas ecumênicas como a do britânico Mohamed Farah, muçulmano, vencedor . dos 10000 metros agora em 2012, que fez reverência a Alá ao cruzar a linha de chegada, e a da ginasta americana Aly Raisman, a campeã do solo, que se apresentou ao som de Hava Nagtla, clássico do folclore hebraico. Essa é a parte bonita. A feia – embora não tenha Ocorrido em 2012 – é construída por atletas de países inimigos de Israel que se recusam a competir para não validar a existência de um estado que eles renegam. Em 2011, no Campeonato Mundial de Natação, um iraniano alegou súbita indisposição para não entrar na piscina ao lado de um israelense.

O COI não ajuda muito a distender a conotação política dos Jogos, com argumentos meramente defensivos.A viúva de uma das vítimas de 1972 desde então pede alguma cerimônia de lembrança da tragédia na abertura ou no encerramento da Olimpíada. Nunca foi atendida. Segundo Ankíe Spitzer, que

defende a memória do marido assassinado, treinador da equipe de esgrima na Olimpíada de Munique, o presidente do COl, o belga Jacques Rogge (atleta de iatismo em 1972), é lacônico em relação ao tema. “Há mais de quarenta países

árabes na Olimpíada, é uma decisão . muito difícil, estou de mãos atadas”, justifica-se ele. Spitzer responde, em entrevista para a revista Sports Illustrated: “Mãos atadas? Meu marido e seus companheiros é que tiveram as mãos

atadas. Os pés também. E voltaram para casa em caixões”

RICOS, MILIONÁRIOS, BILONÁRIOS

Com unia renda cada vez mais concentrada, os Estados Unidos apresentam um enigma: como e por que os americanos, apesar do dinheiro mal distribuído, ainda são os gênios da inventividade econômica?

Quando saiu o primeiro cálculo sobre a. distribuição da renda nos Estados Unidos, em 1915, a reação foi de espanto. Descobriu- se que os americanos que faziam parte do clube do 1% mais rico ‘do país ficavam com 18% da renda nacional. As famílias cujos sobrenomes viraram sinônimo de. riqueza – Roclcefeller, Carnegie, Vanderbilt, Morgan __ moravam em mansões espetaculares e faziam festas monárquicas, mas ninguém imaginava que era mo alta fatia da renda que eles detinham- 18 %! Depois disso; houve uma guerra mundial, a depressão que devastou patrimônios e vidas, outra guerra mundial, e os Estados Unidos cruzaram as décadas de 50, 60 e 70 com uma distribuição de renda muito mais igualitária. O país virou o paraíso terrestre da classe média .. e mesmerizou o mundo com o apelo do ‘ american way oi life. De lá para cá desigualdade racial nos estados do Sul, o colapso soviético, e os Estados Unidos voltaram ao início: hoje, o I% mais rico detém uma fatia muito semelhante aos 18%da renda nacional-18%!

Em outras palavras, os americanos vivem um processo de concentração de renda semelhante ao de quase um século atrás. De 1979 a 2007, a renda do 1% mais rico aumentou 275%. A parcela que esses milionários detêm da renda nacional oscila dramaticamente ao sabor das crises, registrando quedas espetaculares, mas a compensação vem logo que as nuvens mais carregadas somem do horizonte. Na crise financeira.de 2008, o clube do I% detinha mais de 23% da renda nacional. Estima-se que a fatia tenha caído para menos de 18%. Mas, como sempre acontece no pós– crise, os ricos são os primeiros a se recuperar e logo se restabelece o nível de desigualdade anterior. Em 2010. a renda americana voltou a crescer e os ricos, como de praxe, abocanharam a

parte do leão. Nada menos de 93% dos ganhos foram para O bolso do 1% mais rico. Os 99% ficaram com apenas 7% dos ganhos (veja o quadro na pãg. 109).

Para entrar no clube do 1% mais rico nos Estados Unidos é preciso ter renda anual de, pelo menos, 350’000 dólares. Dá quase 60000 reais por mês. Na economia americana, não é uma cifra inatingível, nem é preciso ser desembargador no Amazonas para chegar lá. – Mas dentro do clube do I% há nichos mais seletos. Os mais ricos entre os  mais ricos. Há 400 fann1ias que, juntas, financeiramente valem o mesmo que 150′ milhões de americanos de classes mais baixas. Os milionários ebilionários de hoje não são parasitas, nem vivem de juros. “É uma elite que trabalha”, define o economista Emmanuel

Saez, um dos mais respeitados estudiosos da distribuição da renda americana. Entre eles, sete de cada dez possuem diploma universitário e metade te!ll mestrado. Tendem a se casar entre si, geralmente têm filhos e não gostam de falar publicamente de sua riqueza porque temem a hostilidade dos militantes do movimento Occupy Wall Street e a sanha dos fiscais da Receita Federal. Boa parte deles vive em Manhattan, o disto ‘com a terceira maior taxa de desigualdade de renda do país. O 1% é muito envolvido com. política, é levemente mais republicano do que democrata e está mais preocupado COm o déficit fiscal do que com o desemprego, exatamente o inverso das preocupações dos 99,%. No início do século :XX,os milionários eram barões da indústria.Hoje, são estrelas do esporte e do entretenimento ou fazem parte da camada que mais se beneficiou dos bônus e outros ganhos gigantescos

nas l1ltimas três décadas – os CEOs, .executivos que atingiram o posto corporativo mais alto.

De meados da década de 80 para cá, a remuneração desses executivos teve uma valorização estupenda. A Johnson & Jobnson, por exempíç, pagava 2,2 milhões de dólares poranoa um alto executivo. Chegou a pagar 18 milhões. Os gestores da Occidental Petroleum, gigante da área. de energia com sede  a Califórnia, embolsavam cerca de 2,4 milhões de dólares por ano. Hoje, recebem 20 milhões. É mais de 700% de aumento. De cada dez americanos muito ricos, três são executivos. As estrelas do mundo financeiro são menos numerosas mas vêm ganhando tanto ou mais, mesmo depois da crise financeira de 2008. Járespondem por 14% dos membros do clube dos podres de ricos.

Os economistas dizem que um conjunto de fatores resultou na crescente concentração de renda: a desregulamentação do setor financeiro, o advento de tecnologia que empregam pouca gente oferece mão de obra barata pelo mundo e a redução de impostos sobre ganhos e de capital, umas das principais fontes de renda dos muitos ricos. Em 1970, o imposto sobre ganhos de capital, uma das principais fontes de renda dos muitos ricos, era 40 %. Hoje é de 15%. Estudos mais minuciosos, no entanto, mostram que, até os anos 70, três vetores ajudavam a equalizar a renda dos americanos nas décadas anteriores: sindicatos fortes, comércio exterior fraco e virtual desaparecimento da imigração. Da década de 70 para cá, os sindicatos foram ficando cada vez mais fracos e menos representativos, o comércio exterior explodiu e a imigração para os Estados Unidos voltou a aumentar. Deflagrou-se, assim, a espiral da desigualdade de renda. E Todos os economistas concordam! que a excessiva desigualdade de renda é ruim. Além de ser socialmente corrosiva  a concentração de fenda, na forma de monopólios ou tratamento tributário privilegiado, acaba provocando distorções em cadeia no mercado, tomando-o

menos eficiente. Um exemplo está no enorme contingente de jovens talentosos que saiu da universidade para se concentrar no mercado financeiro.

O enigma do parágrafo anterior está na expressão “excessiva desigualdade de renda”. Os economistas concordam que a concentração excessiva é prejudicial, mas ninguém sabe o que é “excessivo” e o que não é. Os ricos podem ganhar até trinta, cinquenta ou }OOvezes mais? Será que evitar que ganhem mais, a golpes de impostos punitivos,

não mata a galinha dos ovos de ouro? Não reprime os investimentos, o risco, a criatividade? Os cientistas políticos Jacob Hacker e Paul Pierson escreveram um livro em que constatam que os Estados Unidos estão deixando de ser uma democracia afluente que compartilha a expansão econômica para ficar mais parecidos com “oligarquias capitalistas, como Brasil, México e Rússia”. O dilema é que os Estados Unidos, mesmo sendo a economia mais desigual entre os países ricos, ainda ocupam o pelotão de frente da inventividade econômica. São americanas as empresas mais inovadoras do nosso tempo – Google, Facebook, Apple. Por que essas empresas não nasceram em economias mais igualitárias? Os americanos estão ao mesmo tempo revolucionando a economia e mantendo uma nova classe de super-ricos. Isso, de certa forma, é um grande enigma. As virtudes

de uma economia dinâmica deveria ser o bastante para corrigir a desigualdade extrema.

Esse enigma levou alguns estudiosos a desenvolver a tese segundo a qual a desigualdade, de renda pode até ser positiva. Para cada’4ótar.qqe alguém investe,

a sociedade receberia um estímulo, de 5 dólares, sustentam aqueles estudiosos. Portanto, ao aplicarem o grosso do próprio dinheiro em investimentos, os super-ricos azeitam uma engrenagem em que todos saem ganhando. A tecnologia agrícola foi desenvolvida ao cabo de bilhões de investimentos de milionários. O resultado é que os preços dos alimentos vêm caindo há meio século, para benefício da humanidade. Quem investiu na tecnologia da informação ganhou bilhões. O resto do mundo se beneficiou com a multiplicação dos computadores e a democratização do acesso à informação; Os investidores arriscam fortunas em ideias que podem (ou não) funcionar porque esperam ganhos fenomenais. Ao fazerem isso, incentivam a inovação. Para que a distribuição desigual da renda não seja um câncer, há alguns requisitos: os ricos precisam investir boa parte de sua fortuna na produção de ideias – e, claro, o dinheiro não pode comprar privilégios nos tribunais e no mundo político.

MEU CARRO AMARELO

O Camaro voltou à moda. Quem o compra quer velocidade, estilo, desfilar com ele. Alguns também não resistem à música sertaneja, uma ode de capacidade do carrão de atrair atenções femininas.

E uma máquina grande, exibida e, como certas mulheres, recauchutada.

Mas há brasileiros dispostos a fazer loucuras por ela, inclusive pagar três vezes o preço que custa na linha de produção original, sentir em dobro as falhas nacionais de pavimentação e alimentar a coitadinha com gasolina ruim, por falta de opção. Em troca, recebem a sensação de andar numa espécie de arquétipo de todos os carrões e a certeza incontestável de que não passarão despercebidos. “Agora eu fiquei doce, doce, doce, igual caramelo; Estou tirando onda de Camaro amarelo”, celebra a dupla sertaneja Munhoz & Mariano no já clássico do gênero Camaro Amarelo. Quem ainda não ouviu esse refrão é porque passou os últimos meses sem ir a casamentos, formaturas e churrascos em geral. O hino ao carrão ressuscitado pela GM conta a trajetória de um rapaz pobretão ignorado quando andava de moto simplesinha e transformado pela herança do “veio” que lhe permitiu comprar a máquina, deixando o “doce, doce, doce, igual caramelo” aos olhos da mulher que o desprezava. Para não mencionar todas as outras. “Tô na grife, tõ bonito, to andando igual patrão”, canta a dupla. .

O Camaro foi um ícone dos carros esportivos americanos nos anos 1960, que eram uma espécie de versão democratizada dos caríssimos modelos europeus. Em 2002, envelhecido e rejeitado, saiu de linha. Para relançá-lo, aGM investiu na modernização do desenho e no marketíng, em especial nos filmes da série Transformers, em que “contracena” com beldades vividas por Megan Fox e Rosie Hunríngton- Whiteley. No

Brasil do dólar ainda barato, do aumento de renda e da nostalgia por carrões,

em dois anos o Camaro se tornou o campeão de vendas entre os esportivos

importados (à frente da BMW X6 e do Ford Mustang). São Paulo, por motivos

óbvios, é a cidade onde mais circulam Camaros, seguida de Curitiba e de Sorocaba. Nas três, o sucesso responsável por 34% das vendas é o modelo amarelão, enfeitado com faixas. plantasno capô. “Curitiba e de Sorocaba compra de carros esportivos. Temos um autódromo que é um dos mais importantes do país, e onde é permitido correr com os nossos próprios carros”, diz Mario Veigas, diretor de uma rede de concessionárias na cidade. Em Sorocaba, 00 interior paulista, coabitam o maior centro de distribuição da GM na América Latina, o quinto maior PIB do estado de São Paulo e uma loucura por carros, origem de uma frota superior à soma dos estados do Amapá e de Roraima. “Um comprou, o outro viu, comprou também, e assim foi. Cidade do interior é assim”, diz Rogério Corrêa, gerente de concessionárias em Sorocaba, sobre a explosão local de Camaros amarelos. O empresário local Marco Aurélio Martim enfrentou uma certa resistência conjugal por causa das atenções que o Camaro recém-adquirido desperta, acompanhadas das onipresentes fotos por celular. Exatamente o motivo que alimenta a paixão dele. ”Combino com os outros amigos que têm Camaro na cidade e, nos

fins de semana, vamos todos juntos a algum restaurante”, descreve Martim. Elizeu Camargo, que faz parte dos camarianos sorocabanos – “Amarelo, claro,

porque chama mais atenção” -, gosta de encher o carro de crianças e ficar dando voltas no condomínio onde mora. “Meu filho só quer chegar às festinhas de Camaro”, diz.

Homens bem de vida na faixa dos 40 anos formam o cerne do público que não resiste a um carrão com cara de bravo e capacidade de ir de zero a 100 quilômetros por hora em 4,8 segundos (contra 13,9 do Meriva 1.4, da mesma montadora). Quem desrespeita a lei e continua acelerando pode chegar a 250 quilômetros por hora. Nos Bstados Unidos, o Carnaro custa 37 500 dólares, turbinados para 201 000 reais no Brasil, depois de todos os custos de importação, E de arrepiar, mas seu rival histórico, o Mustang, sai por cerca de 300000. Problemas: “É grande – tem 2,09 metros de frente – e incompatível com a buraqueira da cidade. Tem péssima visibilidade traseira e, por ser muito potente, exige do motorista habilidades à altura  da força do motor”, enumera Ulisses Cavalcante, especialista da revista QUATRO RODAS. Mas têm o barulho, o estilo e, claro, a música. Por causa dela, hoje Munhoz e Mariano fazem 25 shows por mês e adquiriram seu próprio exemplar. “O problema é que, com tanto show, só conseguimos andar nele uma vez”, diz Munhoz. Efeito Camaro Amarelo.

PARA DRIBLAR A VISTA CANSADA

 

Quem ainda é jovem e acha a maior graça naquela Pergunta que os mais velhos se fazem uma centena De vezes por dia – ”mas onde estão meus óculos?” – não perde por esperar.

Lá pela virada para os 40, até os mais orgulhosos de sua acuidade visual de repente começam a sentir que “o braço ficou curto”, como brincam os oftalmologistas – ou seja, que é preciso afastar cada vez mais da vista a página que se quer ler, ou o celular em que se quer discar, para conseguir foco. Até o fatídico dia em que enxergar de perto sem óculos torna-se uma tarefa impossível. Todo mundo vai experimentar os efeitos da presbiopia, popularmente conhecida como vista cansada – uns um pouco mais cedo, como quem tem hipermetropia, e outros ligeiramente mais tarde, como os míopes. Os primeiros têm dificuldade para enxergar de perto, por isso a vista cansada pode se manifestar antes. No segundo caso, o defeito na visão que causa a miopia ajuda a compensar a perda de foco para perto decorrente da presbiopia. Os sintomas iniciais são fáceis de identificar. “A pessoa afasta o livro para ler melhor, percebe a vista piorar à noite e pode passar a sentir dores de cabeça”, explica o oftalmologista Newton Kara Junior, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Enquanto a cirurgia definitiva não chega (veja a pág .•.116), óculos (muitos pares deles, espalhados por toda a casa) e lentes de contato ajudam a driblar o problema. Kara Junior e os oftalmologistas Sérgio Meirelles, da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, e Claudio Lonenberg, pr~sidente do Hospital Albert Binstein, apontam as vantagens e as desvantagens dos acessórios que dão uma força a quem sofre com a vista cansada.

ÓCULOS

TIPO: multifocal

Bom para : pessoas que já usam óculos, uma vez que elas têm mais chance de se adaptar a esse modelo

Vantagem:a praticidade de usar um único acessório para tarefas tão diversas quanto ler, trabalhar diante do computador, dirigir e ver televisão

Desvantagem: é preciso posicionar muito bem a cabeça para encontrar a zona certa de foco: quanto mais perto do topo da lente se mira, melhor a visão a distância; quanto mais se dirige o olhar para a área inferior dela, melhor se enxerga de perto. Isso restringe a postura para determinadas atividades (ver TV deitado, por exemplo, é uma ambição inglória para os usuários de multifocais). E pode acontecer também de o paciente pura e simplesmente não conseguir se treinar para procurar a zona certa de foco de forma automática, sem ter de pensar – o que é irritante e também algo doloroso para o bolso, já que essas lentes em geral saem por um preço bem salgado

Tipo:para perto e meia distância

Bom para: quem passa parte considerável do dia em frente ao computador. “São chamados também de óculos de escritório, mas são o modelo perto para dentistas, por exemplo”, diz o oftalmologista NewIDRKara Junior

Vantagem: em comparação com os óculos exclusivos para leitura, as trocas não são tão, frequentes ao longo do dia, pois as lentes atendem às necessidades de quem lê (perto) e utiliza o computador (meia distância)

Desvantagem: da mesma forma que os multifocais, os óculos de escritório exigem movimentos da cabeça para focalizar objetos a diferentes distâncias. Além disso, alcançam uma distância limitada caminhar ou, pior, descer escadas usando-os é um terror, já que o paciente não consegue focalizar direito os próprios pés, distantes demais para o acessório

Tipo:de leitura

Bom para: pessoas que não têm problemas de visão além da vista cansada. Quem apresenta outros erros de refração, como miopia, pode combinar esse tipo de óculos com lentes de contato específicas para corrigi-los

Vantagem: ao contrário dos multifocais, os óculos de leitura oferecem um bom campo de visão para perto, pois toda a área da lente é desenhada para focalizar imagens próximas

Desvantagens: o irritante tira e põe dos óculos, já que é impossível caminhar, dirigir ou mesmo utilizar o computador com eles. Outro problema: como as lentes são feitas para uma distância específica, é preciso manter o texto na posição correta durante a leitura, já que uns meros 20 centímetros para a frente ou para trás fazem uma baita diferença

Solução cirúrgica

Os procedimentos cirúrgicos para a correção da vista cansada ainda não são capazes de livrar o presbíope de vez dos óculos, mas podem melhorar muito sua qualidade de vida. “O paciente deve estar ciente das limitações da cirurgia, para não criar falsas expectativas. Embora o resultado não seja 100%, é possível abolir os óculos e as lentes de contato ao menos da vida social”, explica o oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein. Atualmente, quatro tipos de cirurgia ajudam quem já passou dos 40 a enxergar melhor:

Monovisão

O laser altera a curvatura da córnea de um dos olhos, que passa a enxergar bem as imagens próximas. O outro olho sofre correção para

longe, se houver necessidade. Antes de agendar o procedimento, é

preciso testar o método com lentes de contato, nesse mesmo.esquema de monovisão, para certificar-se de que o paciente se

adaptará ao método após a cirurgia

PRESBYLASIK

A cirurgia é realizada da mesma forma nos dois olhos. Na periferia da córnea, o laser melhora o erro de refração, como hipermetropia ou miopia. No centro da

córnea, ele faz uma pequena alteração na superfície, a fim de corrigir a visão para perto

Implante de lente intracorneana

O médico insere uma lente fixa na córnea de apenas um dos olhos, para o paciente enxergar de perto. Como na ” técnica da monovisão, o teste

prévio com lentes de contato móveis é indispensável

 

Implante de lente multifocal

A técnica só é utilizada em cirurgias para catarata, pois consiste na troca do cristalino por uma lente intraocular multifocal nos dois olhos. Trata-se da cirurgia mais demorada – cerca de quinze minutos – se comparada aos demais procedimentos, que podem ser feitos em menos de dez minutos

Quebra-galho de farmácia

 

Em 2009, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda de óculos de grau em farmácias e drogarias – com exceção dos municípios onde não há óticas. Comprados aqui ou no exterior, porém, eles não passam de uma solução de emergência: uma vez que esses óculos são padronizados, eles não atendem às necessidades individuais, como a distância entre as pupilas ou a diferença degrau entre o olho esquerdo e o direito. “Eles podem causar dores de cabeça e visão dupla”, diz o oftalmologista Sérgio Meirelles. A seguir, OS principais problemas dos óculos de farmácia:

Asduas lentes vêm com o mesmo grau, embora a maioria das pessoas tenha graus diferentes em cada olho

Eles não corrigem a falta de nitidez decorrente do astigmatismo

A baixa qualidade das lentes pode distorcer a Imagem

A falsa correção proporcionada. pelos óculos pode adiar a visita ao oftalmologista

O REI ESTÁ MORTO VIVA O REI

Robert Sullivan, 85 anos, caminha a passos pesados

pelo auditório municipal de Sbrevepon, cidade do estado da Louisiana, no sul dos Estados Unidos. Foi ali, em 1948, que ele iniciou a carreira de técnico de áudio, no programa de rádio Lautsiana Hayride, que disputava a audiência dos amantes do country com o Grand Ole Opry. E foi ali que ele testemunhou o nascimento de uma lenda – talvez a maior delas – do rock: em outubro de 1954, fazia sua estreia no Hayride um jovem de cabelos castanhos (que três anos depois seriam tingidos de preto) e um sorriso de lado que derretia

as mulheres. Era Elvis Presley. Ele vi.- nha de uma experiência infeliz no Grand

Ole Opry, cujo público era tradicional demais para sua música (do episódio, aliás, ficou uma dessas lendas de rejeição prematura que fazem parte do folclore de toda grande estrela: um executivo da rádio de Nashville teria dito ao

iniciante que ele deveria largar a música e voltar a dirigir caminhões). O jovem roqueiro levava dez horas para se locomover de Memphis, no Tennessee, onde morava, até Shreveport, onde fazia duas entradas no programa. “Em uma dessas noites, ele mal acabou de tocar e já saiu para viajar mais seis horas até Oklahoma, onde tinha outro show marcado”, conta Sullivan. Em uma conversa com o técnico, Elvis justificou todo esse esforço em termos que, a distância, soam absurdos: “Tenho de fazer isso enquanto sou jovem, porque daqui a um ano ninguém mais vai se lembrar de mim”. No dia 16 de agosto, completam-se 35 anos da morte de Elvis Presley, e ele continua lembrado como nunca. Mesmo depois dos Beatles, de Michael Jackson e de Madonna, o cantor ainda detém o posto de maior ganhador de discos de ouro e platina de todos os tempos – são 131ao todo. Ele começou a gravar em um período no qual a aferição dê números era nebulosa, mas estima-se que tenha vendido mais de, I bilhão de discos. Elvis deixou sua presença marcada a fogo no imaginário pop. Sem nunca ter excursionado fora de seu país (descontados aí uns poucos shows no vizinho Canadá), tornou-se uma figura global. Sua voz, sua postura de palco, sua indumentária são imediatamente reconhecíveis, e ele é o astro mais parodiado de os tempos. No Brasil, neste dois eventos vão celebrar a morta daquele que foi o Rei do Rock, A exposição vis Experience incluirá 500 gos pessoais do cantor, entre quais o famoso e vistoso American Eagle, que ele usou especial Aloha from Hawaü, 1973. A abertura da mostra, em

de setembro, no Shopping do, em São Paulo. deve contar \’oUIUZil!. A presença da viúva do cantor, Priscilla Presley. Em outubro, São Paulo recebe Elvis Presley in Concerto da TCB Band, que tocou com Elvis de 1969 até sua morte – e vem acompanhada  de projeções em vídeo do cantor. As três noites do show estão com lotação quase esgotada. Mostra e show confirmam o status de objeto de culto que Blvís conquistou antes de qualquer outro astro do rock. VEJA visitou a paisagem original do mito: as cidades de Tupelo, Memphis, Nashville e Nova Orleans, locais decisivos para acarreira e para a formação musical de Elvis. O resultado está na reportagem que o leitor tem em mãos – e que se expande tanto na edição de VEJA para iPad quanto na on-líne, com mais de vinte vídeos especialmente produzidos no Sul americano (navegue por eles a partir de veja.combr/dvis).

“‘Este éo mistério da democracia. Seus frutos brotam em circunstâncias

inesperadas e em solos pouco cultivados pelo homem”, disse o presidente Woodrow Wilson sobre Abraham Líncoln, o lenhador que chegou à Casa Branca. A despeito de seu título de realeza roqueira, Elvis Aaron Presley é também um desses frutos inesperados da democracia. Sua biografia tem aquela combinação de predestinação e adversidade que está na base do chamado sonho americano. Em cena medida, seu rock’n’toll é a expressão do espírito confiante da sociedade americana no pós-guerra: ostensivamente barulhento, rápido, agressivo, mas repleto da mais inocente vitalidade. Não, Elvls.não criou o rock’n’roll. Mas foi sua maior estrela. Nunca estudou ~ música, mas tinha um impressionante conhecimento intuitivo das expressões populares do Sul americano: gospel, country, blues e rhythm’n’blues, todos, os gêneros que serviram de base para o rock’n’roll, Elvis não era compositor, mas colocou personalidade em tudo o que gravou. Tomem-se, por exemplo, as duas músicas que faziam pane do seu primeiro compacto na Sun Records,de

Memphis. Thai’s Ali Right, de Arthur Big Boy Crudup, era uma das prediletas de Elvis desde os tempos em que morava em sua cidade natal, Tupelo. Num discreto lance criativo, ele acrescentou à. letra um expressivo “weelll” na introdução. Blue Moon of Kentucky, de Bill Monroe, recebeu um andamento acelerado, que deixou uma canção por natureza interiorana mais próxima das metrópoles. Elvis falava muito diretamente com o público adolescente, e para isso foi essencial o apelo sexual não só de sua música. mas de seu rebolado no palco (celebremente censurado no programa de TV de Ed Sullivan). ”A gente tocava de acordo com os movimentos do traseiro dele”, confessou certa vez o guitarrista Scony Moore, que acompanhou Elvis por mais de uma década. As meninas suspiravam pelo ídolo, e os rapazes tentavam imitá-lo: topete, casaco de couro e ar insolente. A febre Elvis atravessou o Atlântico, seduzindo os jovens Paul McCarmey e Jobn Lennon. “Os Beatles não

teriam existido se Elvis Presley não houvesse aparecido antes”, reconhe-’

e eu Lennon.

O Rei.do Rock teve a mais humilde das origens. Nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississippi. Hoje com 36000 habitantes, a cidade só tem Elvis para oferecer ao visitante: Estão lá a casinha de dois côrl1odosonde

ele nasceu e, reconstruída nas proximidades, a igreja da Assembleia de Deus onde ele cantava hinos religiosos. Os Presley viviam um nadinha acima da linha da miséria. Gladys, a mãe, era costureira. Vernon, o pai, era caminhoneiro – e chegou a passar oito meses na prisão por ter adulterado o valor de um cheque.A devoção religiosa da família acompanhou Elvis até o fim da vida. Ele gravou discos com cânticos, como Peace in lhe Val~ ley. Peter Guralníck, provavelmente seu melhor biógrafo, especula que Elvís, se vivesse mais tempo, teria aos POUCOS’ se transmutado em um cantor de gospel.

O primeiro violão foi presente pelo aniversário de 11 anos. Fora da igreja, o garoto rezava para cantores de blues e country como Arthur Big Boy Crudup e Bill Monroe. Os Presley mudaram-se de Tupelo para Memphisem 1948, em busca de melhores condições de trabalho. As condições culturais, essas de fato melhoraram. Elvis passou a frequentar a Beale Street, reduto boêmio da cidade, mergulhando rio blues urbano de B.B. Kíng e Furry Lewis (a BeaIe Street atual tem uma estátua de Elvis, mas não é nem a sombra do que foi: tomou-se reduto de , bandas cover derock farofa.A Memphis de Elvis ainda resiste em um inferninho chamado Wild Bill’s, na periferia da cídade). Elvis pensava em se tornar motorista de caminhão, como o pai. Mudou seus planos quando entrou no estúdio da Sun Recordse pagou 4 dólares para supostamente gravar um compacto para sua mãe, com as canções My Happiness e That’s When Your Heartache Bégins. Uma secretária da Sun encantou-se com o jovem cantor e alertou seu chefe, Sam Phillips, para aquele talento potencial. Phíllips, a princípio, manteve-se cético, mas recrutou o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black para que fizessem um teste com o novato. Elvis acabou contratado e se tornou um sucesso local. Phillips venderia seu passe por modestos 35000 dólares à gravadora RCA, na qual ele afinal ganharia o status de astro maior do rock americano (com substancial ajuda do estúdio Paramount: Elvís consolidou sua imagem popular em 31 filmes). O negócio já foi considerado uma mancada indesculpável de Phillips, mas, considerando que o futuro do jovem artista então era incerto, tratou-se de uma decisão razoável. Phillips saldou as dívidas da Sun Records e continuou a investir em novos talentos, como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Johnny Cash.

As explicações pretensamente políticas para o sucesso de Elvis tendem a

menosprezar seu talento e carisma, transformando-o em usurpador branco dos ritmos criados pelos negros. Contraditoriamente. a paixão do cantor pela música negra parece tê-lo transformado em racista. Em sua autobiografia, o bluesman B.B. King põe essa bobagem nó devido lugar. “Elvís foi um grande

divulgador da minha música”, diz. E fato, porém, que a crescente politização do rock a partir dos anos 60 abalaria o estrelato de Elvís. Ele continuou vendendo discos e fazendo shows de imenso sucesso, sobretudo em Las Vegas. Mas já não estava na vanguarda. Os ingleses do ` Led Zeppelin visitaram Elvis em Graeeland, sua mansão em Memphis, mas foram exceção: para os artistas daquela geração, ele era ultrapassado e careta. Afinal, mostrara-se todo orgulhoso em seu uniforme militar, quando serviu no Exército, de 1958 a 1960 (aliás, foi na condição de pracinha que fez sua única viagem à Europa, servindo na Alemanha). Em 1970, piorou sua imagem ao visitar o presidente Richard Nixon na Casa Branca. Foi proclamado embaixador da juventude e aproveitou a ocasião para criticar os Beatles e os Rolling Stones por incentivarem o consumo de drogas (uma triste ironia, se lembrarmos que os barbitúricos foram um fator na morte de Elvis). Para além da política, censura se a breguice flamejante <deEIvis em seus shows de Las Vegas nesse

período. São dessa fase os macacões brancos que se tomaram os favoritos entre os imitadores (exceção notável: Bono, do U2, preferiu o casaco de couro preto de lailhouse Rock quando homenageou Elvís na turnê Zoo TV).”Fui adolescente na década de 70 e conheci o Elvis gordo. Demorei a perceber seu talento como emertainer”, diz o antropólogo Nick Spitzer, estudioso da música popular americana. Não há co mo negar que a veia kítsch corria forte em Elvis, conjugando certo provincianismo regional à tendência universal que os novos-ricos têm para a ostentação. Isso é palpável em Graceland, hoje um roteiro de peregrinação para os fãs. Entre outras aberrações do luxo cafona, a casa tem um .quarto com motivos havaianos, e a sala de TV é decorada com um imenso macaco de porcelana.

Não há muito brilho nos últimos anos de Elvís; A separação de Priscilla – que deixou Graceland na noite de Natal de 1971 – foi barulhenta e dolorosa. Elvis viveu cercado de uma turma de amigos e guarda-costas chamados de “a máfia de Memphis”, tipos parasitários que faziam os mais diversos serviços: arranjavam mulheres, pagavam contas, ameaçavam inimigos. Até hoje, em Memphis, há gente vivendo dessa singular profissão: amigo do Rei. “Quanto você pode pagar?”, perguntam sempre que encontram um jornalista interessado no passado de Elvis (não, nenhum deles pegou carona nesta reportagem). Ao ser encontrado morto no banheiro

de GraceJand, em 1977, Elvis estava, mais do que gordo, inchado – resultado de uma dieta à base de sanduíches de banana com manteiga de amendoim, bacon e doses pantagruélicas de tranqüilizantes. O ídolo, o ícone – estes

permanecem inalterados e esbeltos, com toda a exuberância sexy do melhor rock’n’roll.

 

AS CURVAS DA ESTRADA

 

Dois solitários, um homem e um menino, tentam acenar o passo em À Beira do Caminho, do diretor de 2 Filhos de Francisco.

Cerrado, sol, caminhão, estátua de Nossa Senhora de Fátima no console, Roberto Carlos no rádio e um menino sozinho no acostamento: em À Beira do Caminho (Brasil, 2012), desde sexta-feira em cartaz, o diretor carioca Breno Silveira retoma a ideia de tecer um drama pessoal em tomo de um conjunto de elementos essenciais da cultura popular. E, como em Era Uma Vez… e particularmente em 2 Filhos de Francisco, o faz com limpeza e eficácia admiráveis. Duda, o garoto de seus 11 anos que está na margem da estrada, é órfão; acabou de perder a mãe e nunca conheceu o pai. Mas guarda, dele, uma foto pequenininha com um endereço paulistano anotado no verso. Sem nada a perder, quer rumar para São Paulo para procurar o pai. E, nas suas fantasias, já vai se apaixonando por ele e imaginando que o sentimento será recíproco. João, o motorista cujo caminhão Duda invade e do qual se recusa a sair, é tão taciturno quanto o menino é expansivo: fala muito pouco, e quando fala é ríspido. Gestos de carinho ou consolo não fazem parte de seu repertório; e, no entanto, depois de .largar Duda em Petrolína (PE), de onde será mais fácil ele arranjar outra carona, João muda de ideia e volta para pegá-lo. Trata-se de uma virada clássica, quase inevitável, em histórias de pessoas enjeitadas. Mas o diretor a trata com honestidade irrepreensível, de maneira que o artifício

deixa de sê-lo: é bom roteiro de Patrícia Andrade, colaboradora habitual de Silveira, João precisa de Duda ainda mais do que Duda precisa de João.

A premissa, portanto, é sentimental, assim como a matéria-prima da qual ela se originou – um punhado de canções de Roberto Carlos, das quais quatro, entre elas a linda O Portao, foram liberadas pelo cantor. O que não significa, de forma nenhuma, que o resultado seja, piegas: é, isso sim, comovente, em grande parte porque a honestidade de Silveira= é retribuída em igual medida

pela sinceridade e comedimento de seus protagonistas – o extraordinário João Miguel, de Xingu, e o talento nato Vinicius Nascimento. Não bastassem a graça, a inteligência de Nascimento e seu olhar direto, ele ainda é a rara criança que não corteja a câmera e não tenta parecer nem mais infantil nem mais precoce do que realmente é. Afinados (e às vezes visivelmente surpreendidos) um com o outro, os dois atores, à medida que percorrem estradas sem fim na boleia do caminhão, vão dando corpo e credibilidade à ideia de que famílias formadas por mera necessidade podem às vezes manter-se juntas, quando temam. encontrar também afinidade. Com seus diálogos cortados de todo o superfino, él”;fotografia· nostálgica de Lula Carvantô-pilra o sertão (baiano. quase sempre) e. a música tão apropriada de Roberto tocando ao fundo ou servindo de conversa para os ‘ dois personagens, À Beira do Caminho deixa a melhor das sensações: a de que seu diretor, em vez de tentar manipular. se deixou também ele levar.

IDEALISTA TEIMOSO

 

Em The West Wing, Aaron Sorkin tentou consertar o governo. Em The Newsroom, seu alvo é o jornalismo.

Foi à base de uma postura evasiva que Will McAvoy (Jeff Daníels) se tomou o segundo âncora de maior audiência da TV a cabo. Mas, em um debate com estudantes de jornalismo, ele afinal mostra os dentes que sempre escondeu. “Na sua opinião, o que faz dos Estados Unidos a maior nação do planeta?”, pergunta uma aluna. “Oportunidade”, “diversidade”, “liberdade”, respondem monotonamente os outros debatedores. Will tenta sair pela tangente, mas por fim contesta: “E quem diz que é isso que somos?”, replica, enfileirando uma enxurrada de  negativas. A platéia de inocentes está consternada, e Will está libertado: falou das coisas como as coisas são. E, por sua vez, Aaron Sorkin, o criador de The NewsT’Oom, em exibição pela HBO, já se plantou assim com os dois pés em um território que é em grande parte de sua invenção – o da América como ela deveria ser. Durante os anos em que esteve à frente da série The West Wing, Sorkin conjurou uma Casa Branca em que o presidente e seus assessores erravam, sim, mas por serem humanos, nunca por serem venais – um ideal da governança norteada pela moralidade e pelo bem maior.

Agora, em Newsroom, ele quer demonstrar à imprensa tudo o que ela

poderia ser. Nem todo mundo, claro, acha a América de Sorkín ideal ou quer viver nela – nem que seja pelo fato de seus personagens, sempre que abrem a boca, recitarem editoriais à velocidade de 100 palavras por segundo (a artilharia verbal de Sorkin foi um dos pontos altos também de A Rede Social,que lhe deu o Oscar de roteiro). Há umas tantas contradições, ainda, das quais Sorkín passa ao largo. A mais vital delas é que o noticiário com que Will e sua produtora e ex-namorada Mackenzie (Emily Mortimer) querem informar de maneira responsável o telespectador tem de se desprender de ditames vulgares como audiência e receita publicitária – ao passo que, no mundo real, esses são os mecanismos com que os veículos garantem sua independência de associações com governos, lobbíes e facções. Outro ponto a mencionar é que não são os âncoras brandos comoWIll que hoje dominam a audiência americana – são os da variedade truculenta. Como os da Fox News, que Sorkin, aliás, adora desancar em sua série.

Feitas essas ressalvas, contudo, Newsroom é ainda assim Aaron Sorkin no seu melhor: personagens carismáticos (Alison Pill é um achado como a novata da equipe); diálogos ultra-articulados e deliciosos e, sim, a crença teimosa de seu criador dê l:Jue o mundo em geral, e os Estados Unidos em particular, sempre poderiam ser melhores. De uma coisa ele não pode se queixar: só em um país que dedica respeito devocional à liberdade de expressão ele poderia fazer as invectivas que faz, e dar nome aos bois como dá com amparo da lei e paz de espírito.

DISCO

A dupla americana formada pela cantora Bethany Cosentino e pelo multiinstrumentista Bobb Bruno compõe melodias gostosas e de fácil assimilação, muito distantes do rock barulhento de seus pares do cenário alternativo. A matriz do Best Coast está na SUIf music e no rock agridoce de bandas dos anos 70. Cr-yfor You e The Onty Place estão sendo lançados no Brasil de uma tacada SÓ, para aproveitar a visita do grupo, que toca

em outubro num festival de rock em São Paulo. Crozy for You, de 2010, é

direto, C()ID canções rápidas e letras que parecem saídas do diário de uma garota adolescente, como a fofa Goodbye, dedicada a um gato. Leve e ainda mais acessível. The Onty Place, deste ano, lembrão rock lfrico de um R.E.M. A balada No Onelike You é de uma doçura irresistível.

 

BLU-RAY

O aviso de praxe: desconsidere-se o medonho título nacíonai desta

produção francesa de inspiração quase que experimental, cujo título original significa “noite em claro”. No prólogo, o policial Víncenr (Tomer Sisley) rouba. junto com um colega. Uma sacola com cerca de 10 quilos de cocaína de um mafioso. A ação é mal planejada; Vincent é reconhecido; e, no mesmo dia, o mafioso seqüestra o filho do policial e o leva para seu imenso clube noturno para que seja feita uma troca. Desde o instante em que Víncent adenrra o Clube, e por todas as horas seguintes, ele estará envolvido em uma combinação de fuga (dos mafiosos e de outros policiais) e de caçada (ao filho) cada vez mais frenética, e tão bem orquestrada pelo diretor Frédéric Jardín que o próprio espectador CRAZY FOR YOU termina sentindo-se exaurido.

LIVRO

Lima Barreto (1881-1922) Ocupa um lugar ambivalente no cânone literário

brasileiro. Negro, alcoólatra satirista de gênio, esnobado pelos meios intelectuais cariocas de sua época, ele é ao mesmo tempo um clássico inconteste e um escritor marginal. O livro organizado por Antonio Arnoni Prado, da Unicamp, não traz textos ditos. Sua originalidade elidade está no modo

como o crítico recortou e organizou trechos dispersos de diários, crônicas, cartas e obras de ficção de Lima Barreto. Ordenados por tema. esses excertos vão compondo um mosaico. no qual se tomam mais claras a personalidade e as concepções sociais, políticas e literárias do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. “A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos

de independência”, sentencia Lima Barreto.

Exposição

O italiano WiUy Rizzo é o paparazzo original. Ele começou a fotografar a dolce vira bem antes de ela ser celebrada por Fellini nos anos 60. Talento precoce, Rizzo, recém-saído da adolescência – depois da fi Guerra -, armou-se com uma câmera fotográfica e saiu clicando o brilho das estrelas no Festival de

Cinema de Cannes com espontaneidade até então inédita. Imprimiu um estilo irreverente e despachado sobre tudo em dois títulos clássicos da imprensa internacional criados na época. as revistas Paris Match e Elle. Esta mostra é a maior retrospectiva já feita do trabalho de Rízzo – hoje com 84 anos e ainda na ativa. Além dos instantâneos de paparazzo, há uma série de retratos, fotos de moda e imagens do Carnaval carioca que não eram exibidos desde sua publicação, em 1959. Entre ,. os notáveis capturados pelo fotógrafo estão Picasso, Coco Chanel, Brigitte Bardot, Salvador Dali, Marilyn Monroe (Rízzo foi um dos últimos a fotografá-la) e, claro, Federico Fellini. Um amplo retrato do mundo no tempo em que as celebridades exalavam glamour e a fama não durava apenas quinze minutos.

 

BAIXAR A BOLA

De quatro em quatro anos, por ocasião da Olimpíada e sob a influência do colossal volume de espaço e de tempo que os meios de comunicação decidem dedicar ao tema, o Brasil desenvolve uma súbita e desesperada paixão por esportes que não interessam praticamente a ninguém. Falando francamente: fora os próprios atletas, suas famílias e um magro círculo de aficionados, quem está ligando, por exemplo, para o futebol feminino, os 400 metros de nado medley ou as competições de arco e flecha? Uma ou outra modalidade, como vôlei ou basquete, ainda tem algum público fora dos Jogos, mas assim que acaba a cerimônia de encerramento tudo volta à apatia de sempre. De onde vem, então, essa agonia por medalhas que tortura tanta gente no período de disputa olímpica? O que se sabe, por enquanto, é que não são as competições, em si mesmas, a grande atração; o que interessa é a contabilidade de ouros, pratas e bronzes que “o Brasil” consegue. levar para casa Como essa soma, por melhor que seja em relação ao passado, nunca chega a colocar o Brasil no pelotão de frente, o público se vê condenado a ouvir que há uma “crise” grave em tudo aquilo que os brasileiros perdem, do basquete feminino ao remo masculino. Não passa pela cabeça de quase ninguém, em condições normais, que qualquer derrota dessas possa ser um problema Por que seria? Durante a Olimpíada, porém, tudo se toma um caso de extrema-unção.

Se o que realmente interessa é o número de medalhas, e não o esporte, a situação fica realmente difícil, pois ninguém ainda descobriu como se faz para conseguir um número ideal de vitórias na Olimpíada. Não é prático, ao que parece, pensar na criação de um sistema de cotas para a distribuição das medalhas, apesar da alta estima que o governo brasileiro e seus admiradores têm por esse tipo de solução. Faltam negros nas universidades? Criamse cotas para equilibrar os números. Faltam empregos para deficientes físicos? Criam-se cotas para forçar sua contratação pelas:empresas. Faltam me dalhas de ouro nos Jogos Olímpicos? por que não fixar, então, uma cota mínima de pódios para cada país participante? A tristeverdade é que existe uma concentração indiscutível de medalhas, principalmente de ouro, nas mãos de uma minoria; num mundo com quase 200 países, os cinco primeiros ganhadores ficam com mais ouros que todos os outros somados. E o que dizer de casos extremos. Como o do nadador americano Michael Phelps? Com apenas 27 anos de idade, e apenas entre 2004· e 2012, o rapaz acumulou sozinho dezenove medalhas de ouro – não muito menos que o total ganho

pelo Brasil inteiro, em todas as modalidades, desde que disputou sua primeira Olimpfada, em 1920. Onde. está a justiça de um sistema que leva a tais desigualdades? Cotas iriam garantir, certamente, uma distribuição mais democrática das medalhas entre os competidores. Um jeito de fazer isso, por

exemplo, seria obrigar Phelps a só cair na piscina quando os outros já estivessem na metade do percurso, ou segurar por cinco segundos a largada de Usain Bolt na corrida dos 100 metros livres. Outra solução, bem mais direta e. segura, seria distribuir logo no início dos Jogos um número mínimo de medalhas a cada país, de acordo com critérios destinados a promover um pouco mais de igualdade social. O Brasil, em razão do tamanho de seu temório, população de 190 milhões de habitantes e injustiças sofridas no passado, poderia começar, digamos, com pelo menos dez medalhas de ouro; o que conseguisse ganhar além disso seria lucro.

Como ninguém vai aceitar nada parecido, a começar pelos atletas brasileiros (e todos os demais), a saída mais razoável é iniciar, desde já, um esforço para encarar com um pouco mais de calma toda

essa história de Olimpíada – até porque a próxima será no Rio de Janeiro, e os níveis de histeria em relação a medalhas já prometem superar tudo o que se viu até agora. O Brasil, principalmente por causa da pressão feita pela mídia, tem muita dificuldade para aceitar a ideia de que os adversários ganham . uma competição por terem chegado na frente, saltado mais alto ou feito mais pontos. ”fU4Io-é uma questão de honra nacional- de “atitude”, “entrega”, “superação”, ”vergonha na cara”. O atleta tem de ser “guerreiro” etc. Quando ganhamos alguma coisa, há uma gritaria alucinada: ”É o Brasil!

É o Brasil!”. Não é; é apenas o mérito individual de quem ganhou. Quando perdemos, é o mesmo barulho, só que ao contrário: faltou “raça”, “respeito”, “apoio”. Está mais do que na hora de baixar essa bola.

fapesp 14-08

 

 

A ciência da grama

 

Pesquisadores brasileiros criam o primeiro centro de pesquisa nacional para gramados esportivos

 

Em breve, o Brasil terá o primeiro centro de pesquisas especializado em gramados esportivos.

A iniciativa é dos engenheiros agrônomos Roberto Lyra Villas Boas (UnespjBotucatu) e Leandro Grava de Godoy, da Unesp em Registro, no Litoral Sul. Um dos objetivos é criar o primeiro padrão brasileiro para classificação dos campos usados em grandes eventos, como o Campeonato Brasileiro de Futebol, a futura Copa do Mundo e a Olimpíadado Rio de Janeiro em 2016. Hoje, a definição de qualidade de um gramado natural ainda é feita na base do ‘olhômetro’. “No caso do futebol, cabe ao juiz, em sua vistoria prévia, determinar se o campo está apto. Não existem parâmetros técnicos que possam determinar se ele é ótimo, bom ou médio. Teremos que criar essa classificação”,explica Godoy. Para isso, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), equipamentos estão sendo importados e mini campos serão construídos para se testar uma série de parâmetros.

 

Eles incluem desde a superfície e os melhores tipos de grama para cada clima do País, passando pelo processo de construção do campo e drenagem, até a análise da velocidade da bola e seu quique, sem falar na interação com os atletas, seja de que modalidade for. Hoje, explicam os especialistas, esse tipo de definição só existe para a grama artificial. No mês passado, inclusive, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) anunciou novos padrões que devem ser seguidos pelos fornecedores. O primeiro

 

 

 

PIONEIRISMO

 

 

Nos EUA, a gramicultura já é muito difundida, com centros de pesquisas em várias universidades.

“No Brasil, seremos os primeiros”, diz Godoy.

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 O gramado sintético foi inaugurado na década de 60, no estádio de beisebol Astrodome, em Houston, no Texas (EUA). Porém, para o professor Godoy, no caso brasileiro, a grama natural é a melhor alternativa. ”Temos tecnologia que nos permite obter um gramado de ótima qualidade”. No máximo, o que pode ser feito é uma espécie de fusão entre o sintético e o vegetal, como aconteceu em alguns estádios da última Copa do Mundo da África do Sul.

 

COSTURADA

Lá, a grama sintética foi ‘costurada’ à grama natural. Essa alternativa, que pode ser aplicada já em 2014, é mais indicada para climas frios e áreas muito sombreadas – gramados naturais gostam de sol e muita água – mais de 40 mil litros a cada dois dias no verão. Por isso, com exceção da Região Sul e de estádios que venham a ter cobertura, mesmo que parcial, já há uma espécie de grama que se adapta muito bem ao clima tropical. É a bermuda’ (Cynodon dactylon), que ainda possui uma variedade,  chamada de ‘celebration’, que resiste bem ao sombreamento. Esse tipo de grama é usado, por exemplo, na Vila Belmiro. Mas é a partir da chegada dos equipamentos, que são portáteis, que os pesquisadores vão literalmente entrar em campo. Com a ajuda da tecnologia, eles vão começar a descobrir quais os campos onde a bola tem o seu quique e velocidade ideais.

Eles pretendem, também, determinar quais as superfícies que melhor interagem com os atletas, evitando, por exemplo, problemas nas articulações. Outra preocupação é com a tração, evitando que tuchos de grama se soltem ou, pior, que acabem prendendo os pés e gerando torções. Até mesmo a coloração da grama, que a Fifa preconiza como sendo verde escura, levada em consideração.

 

SEGREDO

Tudo isso será feito a partir do zero,já que os parâmetros utilizados em gramados artificiais

não são divulgados pela FIFA, Já as empresas,  de segredo industrial, também

não fornecem dados. “Nós não sabemos o que é o bom. Mas, lima vez tendo as informações precisas, poderemos criar índices e tabelas que nos permitirão gerar um ranking”, explica Godoy. Para isso, eles contam com uma parceria internacional, firmada com a Universidade de Auburn, no Alabama. Nos EUA, a gramicultura já é muito difundida, com centros de pesquisas em várias universidades. “No Brasil, seremos  os primeiros”, diz Godoy.

 

A Tribuna – Santos – 13-08-12 – C4 e C5 – Economia