Exame – 22-08

o LEILÃO VAI COMEÇAR

o conselho de administração do conglomerado francês  Vivendi passou as últimas semanas discutindo se vende ou não a telefônica brasileira GVT, numa tentativa de recompor suas finanças. Agora, ficou mais claro que a ideia é mesmo passar a GVT adiante. Segundo EXAl\IIE apurou, a Vivendi contratou os bancos de investimento Rothschild e Deutsche Bank para assessorá-la no leilão. A empresa será oferecida aos candidatos óbvios – teles como Oi, TIM, Telefónica e América Móvil – e também a fundos de private equity. O lP Morgan negocia com fundos a criação de um consórcio para fazer uma proposta pela GVT. Cada fundo faria um cheque de, no mínimo, 500 milhões de dólares (a GVT é avaliada em cerca de 10 bilhões de dólares). Em paralelo ao leilão, os bancos vão preparar a empresa para uma possível abertura de capital – um plano B para o caso de as negociações não avançarem. A empresa não comenta.

 

AQUISIÇÃO À VISTA

o banco Pan Americano está negociando a compra da operação brasileira da Ally, mais conhecida no mercado como Banco GM. O banco, hoje controlado pelo governo americano, responde por mais da metade do financiamento de automóveis vendidos na rede da montadora GM no Brasil. Segundo executivos próximos aos bancos, o Pan Americano está fazendo a auditoria nos balanços, e o negócio pode ser concluído nas próximas semanas. Ainda segundo esses executivos, o processo de venda da subsidiária da Ally é aberto a outros interessados. Portanto, é possível que surjam novas propostas. A própria GM anunciou em agosto que pretende comprar as operações da Ally fora dos Estados Unidos .

 

FUNDO RECORDE

O Gávea, fundado por Armínio e Luiz Fraga, vai protocolar na Comissão de Valores Mobiliários o lançamento do maior fundo de crédito da história do país. O fundo terá entre 1,3 bilhão e 1,5 bilhão de reais para financiar empresas médias, hoje dependentes de empréstimos de curto prazo de bancos. O objetivo do Gávea é fazer empréstimos de prazo mais longo, a juros ménores, mas com garantias mais robustas dadas pelas empresas. O fundo será administrado por José Berenguer, ex-Santander.

 

CAOS AEREO DE BILIONARIO

A operação Pouso Forcado, que aprendeu jatinhos, considerado em situação irregular, esta complicando a vida de muita gente. Uma bilionária brasileira esta usando certa criatividade para se deslocar ate a Europa. Seu jato estava em Miami no dia da operação da Policia Federal: como não pode pousar no Brasil ( o risco e ser capturado pela policia), o empresário vai ate o Caribe num aviao menor. O jato titular vai de Miami ate la para encontra o dono. Feita a conexão, ele segue viagem para a Europa. E o caos aéreo.

 

O AVANÇO DAS BOLSAS GRIMGAS

As duas bolsas eletrônicas americanas que querem fincar pé no Brasil estão avançando em seu projeto de competir com a BM&F Bovespa. A Bats, que terá como sócia a gestora brasileira Claritas, definiu que o grupo indiano Tata fará a estrutura para o serviço de liquidação de operações de ações – o Tata já fez esse serviço para as bolsas de Dubai e Nova Zelândia. Bats e Claritas devem investir cerca de 100 milhões de reais para tirar a bolsa do papel. Já a Direct- Edge acertou a vinda do executivo que comandará sua operação brasileira: o carioca Alan Gandelman, que deixou a presidência da corretora britânica Icap no Brasil no início de agosto. As bolsas querem inaugurar suas operações no país em 2014. A bolsa americana Nyse também pretende entrar no Brasil

 

COMPRA DIFíCIL

o grupo Hermes voltou a procurar interessados na aquisição da Comprafacil. com, terceiro maior site de comércio eletrônico do país. Entre os potenciais interessados estão B2W, Walmart, Pão de Açúcar e fundos de private equity. O mandato de venda é do banco JP Morgano  A empresa foi oferecida pela primeira vez há um ano, mas as negociações não avançaram. Segundo executivos que tiveram acesso aos números, a rede vem crescendo de forma acelerada. mas se endividou demais no caminho. A Comprafacil.com faturou 1,7 bilhão de reais em 2011, quatro vezes mais que em 2008. Procurada, a empresa informou que não está à venda, mas “pode reavaliar a situação no futuro”.

 

MENOS FAMILIA

Em plena preparação para a abertura de capital, o grupo Multi, dono da rede de idiomas Wizard, decidiu reformular sua cúpula. O atual presidente do grupo, Lincoln Martins, deixara o cargo. Ele e filho do fundador da Multi, O empresário Carlos Martins. Desde 2010 a empresa tem como sócio o fundo Kinea, que comprou 15% das ações por 200 milhões de reais. O objetivo dos acionistas e contratar um presidente com experiência no mercado de capitais. O processo de busca esta em seu inicio e o novo presidente só deve assumir a função em 2013.

 

NEGOCIO FECHADO

o fundo de private equity americano Car1ylesegue demonstrando apetite para aquisições no mercado brasileiro. Enquanto finaliza a compra da varejista Tok&Stok, o fundo, presidido pelo executivo Fernando Borges, fez seu primeiro investimento minoritário numa empresa local. O alvo foi o grupo Orguel, que fabrica e aluga equipamentos destinados à construção civil, mineração e indústria. O Carlyle gastou cerca de 200 milhões de reais para adquirir uma fatia de 24% no capital da Orguel. No Brasil, o fundo já é dono das redes de lojas de brinquedos Ri Happye PB Kids, da operadora de turismo CVC e da administradora de planos de saúde Qualicorp. O grupo Orguel foi fundado na década de 60 pelos irmãos Fábio Guerra Lages e Francisco de Assis Guerra Lages e tem, hoje, dez subsidiárias.

 

ÀS LOJAS, CIDADAOS

A freada na economia e a valorização de8% no dólar em 2012 não estão segurando o ímpeto gastador do nosso turista. De janeiro a junho, os gastos de viajantes brasileiros nos Estados Unidos cresceram 12% em relação ao mesmo período do ano passado. Os ingleses, por exemplo, gastaram apenas 2% a mais. Os números são de um levantamento da bandeira de cartão de crédito Visa obtido com exclusividade por. De acordo com o estudo, o turista brasileiro é o segundo que mais gasta nos Estados Unidos, atrás apenas do canadense. Os turistas estrangeiros também vêm gastando mais no Brasil. Dados do levantamento mostram que o crescimento foi de 12% no ano passado.

 

SÕ DA MÉXICO MESMO?

Depois da perda da medalha de ouro no futebol  para o México na Olimpíada de Londres, o time do Brasil se consagrou como freguês dos mexicanos. Foi nossa quinta derrota em final de campeonato contra eles. A rivalidade nos gramados tem correspondência na economia. Recentemente, o banco japonês Nomura apostou que, em dez anos, o México voltará a ser a maior economia da América Latina, posto perdido para o Brasil em 2005. Sem chegar a tanto, o jornal Financiai Times questionou se “o México é o novo Brasil, e o Brasil o antigo México”, sobre uma suposta passagem do bastão na preferência dos investidores internacionais. O comentário refletiu a alta da bolsa de valores mexicana em 2012 – ela acumulava 16%de valorização até 9 de agosto, enquanto a bolsa de São Paulo anotava queda de 4%. Outra comparação: enquanto as exportações  do México para os Estados Unidos crescem, o Brasil vê suas vendas perder ritmo com o freio no crescimento da China. A boa vontade com o México é tanta que já há quem esnobe o Bric, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, e celebre o brilho do Mist, acrônimo em inglês do grupo formado por México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia. Faz sentido?

 

A MANOBRA É NO OLHÔMEtRO  

O porto de Santos é o mais importante da América Latina. Neste ano, receberá 5500 navios. Lá, como em todos os demais 37 portos espalhados pelos 8500 quilômetros da costa brasileira, as embarcações manobram na base do olhômetro: 350 profissionais, os chamados práticos ou manobristas de navio, comum rádio transmissor em punho, dizem quando o navio deve avançar, parar, manobrar. Desde 1997, as normas internacionais de tráfego marítimo recomendam o uso de sistemas eletrônicos para essas operações de navios. O Brasil, juntamente com os países africanos, ainda não instalou o seu. A falta do sistema impede o trânsito à noite e que se navegue em condições adversas de tempo. Empresas calculam que o prejuízo para toda a cadeia chegue a 1bilhão de reais por ano – o suficiente para a construção de dois novos terminais. Na Europa, o sistema permite que os portos funcionem 24 horas. A Secretaria dos Portos até aprovou um modelo nacional êm 2010, mas ainda não licitou o equipamento.

 

O NOVO MAPA DO CONSUMO

NOA ANOS 60, O AMERICANO MORAIS ASlMOW, professor de engenharia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, acreditava que a indústria seria capaz de levar o desenvolvimento para as áreas mais remotas do planeta. oi m base nessa crença que, em 1961,Asimow liderou uma expedição ao s o brasileiro. Eram os tempos da Guerra Fria, Fidel Castro acabara de se ar com o bloco soviético e os americanos, sob a liderança do presidente John F. Kennedy, queriam promover a democracia e o empreendedorismo no continente americano. Asimow e uma turma de estudantes americanos e brasileiros desembarcaram em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, com planos de lançar as sementes para a construção de pequenas indústrias de moagem de milho, de produção de farinha de mandioca e de cimento. Em alguns poucos anos, a região de fato ganhou um exemplo de cada uma dessas indústrias. Até uma fábrica de rádios e de motores foi instalada na cidade, então com 68 000 habitantes. Os empreendimentos, porém, sobreviveram apenas enquanto houve dinheiro americano. Quando a verba minguou, no fim da década de 60, as indústrias foram fechando uma a uma. Foi uma lição prática de que o desenvolvimento não se cria em laboratório – e que não há ajuda governamental capaz de induzir a economia se faltarem condições mínimas para que ela floresça. Curiosamente, Juazeiro do Norte é hoje palco de uma transformação ainda mais radical do que a sonhada pelo professor Asimow, morto em 1981. Com uma população de 250000habitantes e outras quase 300000 pessoas que moram nas cidades do entorno atualmente, Juazeiro virou um grande polo varejista e encontra-se em plena ebulição. Uma das evidências  desse novo tempo está ligada à experiência dos anos 60. Em um dos prédios que hospedaram uma antiga fábrica do projeto de Asimow foi instalada no ano passado uma unidade do Hiper Bompreço, rede de supermercados pertencente ao grupo americano Walmart. A loja foi montada mirando no potencial de consumo da cidade, hoje em 570 milhões de reais por ano. Estima-se que esse valor quase quadruplicará até o fim da década. Com base numa pesquisa exclusiva da consultoria americana McKinsey, complementada por dados da empresa de geomarketing Escopo, EXAME traçou o mapa do consumo no Brasil em 2020 – e ele deixa claro que o exemplo de Juazeiro do Norte é tudo menos um caso isolado. Será replicado em todo o pais. No intervalo de uma década, o mercado consumidor brasileiro irá quase dobrar de tamanho: de 2,2 trilhões para 3,5 trilhões de reais. O valor abarca todos os gastos das famílias, que vão de moradia e escola ao carrinho do supermercado. Desse total, a McKinsey analisou o comportamento das 45 principais categorias de produtos consumidos no país, que incluem cosméticos. Comida congelada e vestuário e deverão movimentar 1,3 trilhão de reais no fim da década (veja quadro). Já a Escopo projetou o consumo de itens como carros, eletrodomésticos e passagens aéreas. Somadas, as 55 categorias representarão um mercado de quase 1,8trilhão de reais em 2020, ante 800 bilhões de hoje . . Algumas projeções dão a noção do salto à frente. Até o fim desta década, os brasileiros deverão consumir tanto macarrão quanto os italianos. Devemos ter o terceiro maior mercado de carros do mundo. O consumo de cerveja, que era metade do alemão em 2005, deverá ser três vezes maior. Nos próximos oito anos, o valor das vendas de produtos para cabelo apenas na cidade de São Paulo vai crescer o dobro do que na França. O consumo no país deverá ganhar outra dimensão, chegando a 65% de um PIB de 5 trilhões de reais. “Do ponto de vista econômico, é possível que o consumo de bens duráveis acabe funcionando como investimento no Brasil”, diz o economista Edward Prescott, vencedor do prêmio Nobel em 2004. Para ele, a aquisição de bens como computadores e eletrodomésticos pode tornar uma família mais produtiva, capaz de gerar mais riquezas. Nos últimos anos, o consumo já tem sido o grande motor da economia. Abastecidos com mais crédito e mais renda, os brasileiros conseguiram o improvável: mantiveram a atividade econômica em alta até mesmo durante a crise de 2008, quando o mundo mergulhava numa das mais graves recessões dos últimos 100 anos. A fórmula, porém, começa a dar sinais de esgotamento. As dívidas já correspondem a 45% da renda anual dos brasileiros. Balhadores está empenhado com o pagamento de juros e amortizações. A inadimplência subiu e o ânimo do consumidor esfriou. É um sinal de que o consumo brasileiro teria batido no teto? Sim e não. O sim vale para parte do varejo que depende do crédito. Uma análise da consultoria LCA, de São Paulo, mostra que as vendas desses setores no primeiro trimestre estão se retraindo – mesmo com a explosão de vendas de carros em julho, uma resposta à redução de impostos concedida pelo governo em maio. Já os segmentos ligados à renda, como compras nos supermercados, continuam bem. E esse é um efeito que deve perdurar. Segundo a consultoria paulistana Tendências, a renda  deverá continuar se expandindo nos próximos cinco anos a uma taxa perto de 4% ao ano. Mantida essa trajetória, o consumo no Brasil está no limiar de uma mudança qualitativa. Estudiosos dizem que, quando o PIB per capita deum país entra numa faixa que vai de 12 000 a 17000 dólares (hoje no Brasil está perto de 11000 dólares), há saltos no consumo. “Acontece uma verdadeira explosão de compras, com inúmeras novas categorias de bens incorporadas  ao orçamento doméstico”, diz Fernando Fernandez, presidente da empresa de bens de consumo Unilever no Brasil. Isso ocorreu na Espanha e em Portugal, países em que o poder de compra da população dobrou entre os anos 90 e 2000. Essa é a boa notícia para os grandes grupos varejistas instalados no Brasil. A parte menos agradável é que essas mesmas empresas serão forçadas a sair da zona de conforto. Se quiserem vencer, serão forçadas a explorar mercados fora das capitais e das regiões Sul e Sudeste.. Isso porque a dinâmica do consumo está passando por uma grande transformação. Com base em cruzamentos de dados de renda, de população e de informações de 45 categorias de produtos, a McKinsey identificou o comportamento de consumo das cidades brasileiras com mais de 100000 habitantes. Já a Escopo analisou o orçamento-das famílias das 27 regiões metropolitanas bra- sileiras e projetou o desempenho de outras dez categorias de produtos. Juntos, os dois estudos mostram que o peso das regiões Norte e Nordeste está aumentando e deve continuar nessa toada – estima-se que a participação das duas regiões no consumo nacional saia dos atuais 24% para 28% até o fim da década “Entender o potencial de diferentes pontos do país é fundamental para se prepanu-para.a produção, a distribuição e até o atendimento de clientes”, diz Geraldo Ferreira, diretor da Escopo. São nordestinos os seis estados com maior potencial de crescimento até 2020 – Pernambuco, Alagoas, Piauí, Paraíba, Maranhão e Ceará. RUMO AO INTERIOR As pesquisas reforçam.a ídeía de que o consumo está se deslocando em direção às regiões metropolitanas e ao interior. Hoje, 36% do total está concentrado nas capitais, que se estabeleceram como os centros de consumo por excelência. Levando-se em conta as projeções feitas pela McKinsey, esse percentual deve cair para 32%. Dos 26 estados brasileiros, 13deverão registrar uma taxa de crescimento maior nas cidades interioranas do que nas respectivas capitais. Em lugares como Pernambuco, Bahia e Ceará, em 2020 o interior irá responder Pelo menos metade do consumo. E mais: algumas cidades no interior deverão se destacar com recordes nacionais de crescimento de vendas. Juazeiro do Norte, por exemplo, deve se tomar uma das líderes em vendas de massas. Já Caruaru, em Pernambuco, deverá ter  um consumo per capita de cerveja em 2020 maior do que a média alemã atual. Essa desconcentração das vendas,já em curso, tem colocado milhões de brasileiros no mapa do varejo – algo esperado de um país emergente que cresce e desejável pelo seu caráter inclusivo. ”As empresas vencedoras da próxima década serão aquelas que conseguirem identificar, cidade a cidade, de onde virá o crescimento”, diz Fábio Stul, diretor da consultoria McKinsey. O que toma a atual década delicada para as grandes redes varejistas é a certeza de parte dos especialistas de que  se trata do período em que as grandes marcas se consolidarão – ou ficarão para trás. Historicamente, quem desbrava um mercado pouco explorado tem maior chance de ser recompensado no futuro. Na Inglaterra, a rede de supermercados Tesco lidera o mercado inglês há quase três décadas, fruto de uma forte expansão da marca nos anos 50 e 60.Éisso que o Walmart tem tentado fazer na China ao abrir lojas em cidades consideradas médias para o padrão chinês, como Loudi e Wuhu (ambas com quase 4 milhões de habitantes). “As empresas que se estabelecerem líderes no Brasil até 2020 deverão se perpetuar nessa posição nas décadas seguintes”, diz Aldo Mussachio, professor da Harvard Business School. A corrida pela liderança tem uma justificativa demográfica. Estima tivas apontam que, em 2022, o país estará experimentando o auge do chamado bônus demográfico, quando, de cada dez pessoas, seis estarão no mercado de trabalho. Apartir dai, a relação entre os economicamente ativos e os inativos (basicamente. crianças e idosos) tende a se estreitar. “Depois disso, apenas com aumentos reais de produtividade será possível expandir a renda e manter os altos níveis de consumo na economia brasileira”, diz Rogério Hirose coordenador do estudo da McKinsey. Ou seja, nos próximos anos o consumo no Brasil será favorecido por fatores únicos e que não se repetem.  “Assim como ocorre nos países ricos, a renda no Brasil passará a acompanhar o crescimento econômico”, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, da Tendências, Parte dos varejistas já acordou para esse fenômeno. “Até há pouco tempo  apenas cidades com pelo menos 500000 habitantes estavam no nosso foco. Agora, passamos a analisar o potencial de municípios com no mínimo 150000 habitantes”, diz Hugo Bethlem, vice-presidente do Grupo Pão de Açúcar. Alguns executivos de grandes redes do varejo se transformaram em peregrinos do interior do BrasiL “Há 400 cidades nas quais ainda não temos loja, mas estão sob observação para identificarmos a hora certa de entrar”, diz Ricardo Ribeiro, diretor de expansão da rede de vestuário Marisa, cujo horizonte de análise vai até 2017. A velocidade do crescimento no interior tem sido tamanha que as cidades que chamam a atenção hoje mal eram notadas três anos atrás. “Em 2009, analisamos a viabilidade de Parauapebas, no Pará, e concluímos que ainda não era a hora de abrir uma loja por lá”, lembra Ribeiro. A situação mudou rapidamente. Graças à riqueza gerada pela mineração, Parauapebas entrou na rota da Marisa em 2011,com a inauguração de uma loja no primeiro shopping da cidade. Um tiro certeiro: as vendas de roupas e acessórios em Parauapebas devem crescer 20% ao ano até 2020. As regiões metropolitanas já são as cidades onde ocorre o maior crescimento populacional do pais – que se traduz em maior potencial de consumo. “O aumento dos preços dos imóveis e a piora do trânsito têm feito com que muitas famílias deixem as capitais por cidades próximas”, diz o pesquisador Miguel Matteo, diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Entre os que optam por sair das regiões centrais dos grandes aglomerados, há consumidores de todas as classes sociais. Em estados como São Paulo, Minas Gerais e Goiás, o consumo irá crescer mais fortemente nos municípios que circundam as capitais. Tome-se o exemplo de Aparecida de Goiânia, localizada na região metropolitana da capital goiana. O enorme salto de sua população, que passou de 336000 para 455000 pessoas nos últimos dez anos, ajuda a explicar por que grandes empresas, como Pepsico e Hypermarcas, estão cada vez mais interessadas em ter presença mais firme no Centro-Oeste em geral- e em Aparecida de Goiânia em particular. A ascensão dos últimos anos deu margem a uma dúvida: Aparecida de Goiânia cresce de forma acelerada porque. tem empresas ou tem empresas porque cresce de forma acelerada? Ninguém na cidade parece preocupado em encontrar uma resposta. O município continua atraindo ambos – empresas e trabalhadores. Desde 2000, Aparecida de Goiânia ganhou dois novos distritos industriais – agora são quatro centros do gênero. todos localizados às margens da BR-153, que corta Goiás de norte a sul. A vantagem logística é o trunfo da cidade. “A unidade de Aparecida nos permite abastecer o Centro-Oeste e o norte e o oeste de São Paulo”, diz Gilson Rigotto, diretor na cidade da fabricante de móveis gaúcha Bertolini. “E as vendas aqui têm crescido com força” aqui têm crescido com força” Com tantas oportunidades espalhadas por todos os cantos do Brasil, fica a questão: a indústria e o varejo serão capazes de dar conta de tamanho crescimento do consumo? Afinal, setores como o de alimentos ou o de higíene e limpeza, que devem se expandir em média 8% ao ano, demandariam 13empresas do tamanho da Brasil Foods ou sete do porte da Unilever. Hoje, o descasamento entre a oferta e a demanda dos consumidores tem sido resolvido pela via da importação. Em julho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que o varejo teve um crescimento acumulado de 7% nos últimos 12 meses – enquanto a produção industrial encolheu quase 2%. Ou seja,  haveria espaço para a indústria nacional assumir parte maior do consumo. Essa oportunidade, porém, representa enormes desafios para as empresas. Dado o estado da infraestrutura brasileira, não é crível (nem desejável do ponto de vista da sustentabilidade) colocar três vezes mais caminhões rodando pelo país. Com base nisso, algumas empresas estão revendo suas linhas de produtos e estruturas de logística. Na Unilever, uma das apostas é a popularização do sabão líquido concentrado. Uma embalagem com 315 mililitros de Omo líquido rende o equivalente a 1 quilo do mesmo detergente na versão em pó. Se todos os consumidores da marca migrassem para a versão líquida, haveria uma redução equivalente a 43000 caminhões na rua por ano. Nenhum economista sério encara o consumo como um fim em si mesmo. Sem investimentos, sem avanços naárea da educação e sem inovação nos setores mais importantes da economia, o aumento da renda não se sustenta – e os períodos de forte expansão do consumo viram voos de galinha. Há quem encontre no atual momento da economia brasileira similaridades com a explosão do mercado consumidor americano a partir dos anos 50. Naquela época, o PIB per capita nos Estados Unidos girava em tomo de 13000 dólares em valores de hoje. No Brasil dos últimos anos, milhões de pessoas tiveram acessopela primeira vez a bens que antes eram inalcançáveis – sejam eles o diploma universitário ou a TV de 40 polegadas. Isso tudo tem criado uma sensação de prosperidade no país, apesar da recente desaceleração da economia que jogou um balde de água fria no ímpeto dos brasileiros de contrair novas dividas para gastar mais. O consumo americano acabou durando várias décadas graças ao aumento dos investimentos e da produtividade – tendo como base a alta escolaridade de sua população e seu poder de inovar. No caso brasileiro, o prazo de validade da atual expansão do comércio ainda é uma questão em aberto. O país tem imensos desafios pela frente. Um deles é o baixo índice de poupança – fator fundamental para o crescimento de longo prazo de um pais. Hoje, a poupança privada brasileira gira em tomo de 5% do PIB, pouco se comparada à dos chineses, equivalente a20% do PIB. Outro obstáculo é a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, que equivale a um quinto da dos americanos SINAIS DE um PAis MAIS MODErnOEmbora o caminho para manter a expansão do varejo seja longo, há vários sinais de que um Brasil mais moderno começa a emergir. Por décadas, a principal atividade econômica do município de Juazeiro do Norte foi o turismo religioso, alimentado pelos cerca de 2 milhões de romeiros que visitam anualmente a terra de Padre Cícero. Antes um polo de comércio popular, a cidade agora ostenta 17concessionárias de carros (metade nem existia ali em 2007) e um dos maiores shopping centers do interior do Nordeste. De acordo de Fortaleza, Marcelo Santiago é um deles. Foi atraído para Juazeiro do Norte para coordenar o curso de engenharia de materiais. Mesmo morando há pouco tempo na cidade, Santiago, a esposa, Rita, e os dois filhos, Mateus e Raíssa, já conseguiram identificar o ritmo das mudanças do lugar. “Todo dia abre uma loja ou um restaurante novo”, diz Santiago. A situação para a família só não é perfeita porque os preços dos imóveis em Juazeiro do Norte dispararam nos últimos tempos, o que acabou atrasando um pouco o sonho da aquisição da casa própria. O caso dos Santiago e da cidade cearenseé um entre muitos outros em todos os cantos do país. Longe dos holofotes, centenas de municípios brasileiros estão vivendo silenciosamente um novo ciclo de prosperidade que tem como combustível uma mistura de investimentos, empregos, educação e – sim – um aumento fora do comum do consumo. A transição que está em curso no com o IBGE, em 2000, 44% da população economicamente ativa estava sem renda em Juazeiro do Norte. Em 2010, essa taxa já tinha caído para 34%. Em 2011, o município foi o segundo que mais criou empregos no interior do Nordeste – boa parte deles surgiu na construção civil. Nos últimos anos, Juazeiro do Norte também viu a expansão de vagas de alta renda Inaugurado em 2010, um hospital regional trouxe para a cidade centenas de profissionais da área de saúde. Uma leva de faculdades, tanto públicas como privadas, foi instalada nos últimos anos para atender à demanda da região. Entre elas, veio o campus da Universidade Federal do Ceará, com 11 cursos e professores que chegam a receber salários na faixa de 7000 reais. Natural Brasil pode ser vista nas imagens noturnas feitas por satélite. Hoje elas mostram uma faixa de luz quase contínua no litoral, com pontos mais ou menos isolados fora dela No futuro próximo, serão agregadas centenas de novas fontes de luz por todo o interior do país – com mais ênfase na Região Nordeste. Aos céticos de plantão, um lembrete: há dez anos, muitas empresas demoraram a perceber que o país estava entrando numa fase de crescimento mais elevado e permitiram o avanço de concorrentes locais e de toneladas de produtos importados. Hoje o país é o oitavo maior mercado consumidor do mundo. A previsão agora é que, até 2020, o Brasil deverá ultrapassar França, Inglaterra e Itália e chegar ao quinto posto. Alguém aí está disposto a pagar para ver?

 

UMA AGENDA DO BEM

ANTES MESMO DE SER ANUNCIADO, o conjunto de medidas que integra a terceira fase do plano Brasil Maior – programa lançado em 2011 para dar mais competitividade à indústria – foi saudado como o passo mais firme do governo da presidente Dilma Rousseff contra os gargalos que travam nosso crescimento. Energia, logística e desoneração da folha de pagamentos são as três frentes escolhidas para a batalha. Até o fechamento desta edição, no dia 13, o governo ainda não havia acertado os detalhes e a dimensão das medidas. Mas as linhas gerais mais prováveis sugeriam a adoção de uma verdadeira “agenda do bem” por parte de Dilma. A principal diferença em relação aos pacotes anteriores, todos fracassados na tentativa de estimular o crescimento do pais, é que não se trata mais de prestar socorro a um punhado de setores eleitos pelo governo. O caso da indústria automobilística é emblemático – foram 17 medidas de apoio desde a crise de 2008. Agora, o que se pretende é atacar problemas que sufocam todo o conjunto da economia brasileira. A energia elétrica, por exemplo, virou um enorme enrosco para a indústria do pais, que hoje tem uma das tarifas mais caras do mundo. Uma redução nesse custo beneficia todas as empresas industriais – e, por tabela, também os consumidores. Da mesma forma, o péssimo estado de nossas rodovias, ferrovias, aeroportos e portos representa um dos fatores mais decisivos de perda de competitividade. O que se quer é repassar à iniciativa privada a gestão de uma parcela expressiva da infraestrutura logística do pais. Nesse caso, a medida é especialmente bem-vinda, dada a imensa resistência do PT à ideia de prívatização, Não por coincidência, as concessões ao setor privado praticamente pararam com a chegada do partido ao poder. Somente no final do governo Lula houve uma modestíssima rodada de concessões de estradas, hoje vista como malsucedida no objetivo de melhorar a qualidade. Já na gestão  Dilma,a recente privatização de três aeroportos também gerou polêmica. Espera-seque, com a experiência, seja Possível avançar em soluções mais eficazes para os usuários. Nas páginas a seguir, três exemplos concretos evidenciam a importância da nova abordagem. Infraestrutura precária,energia cara e excesso de tributos estão minando a saúde de milhares d eempresas do país, desestimulando os investimentos e dificultando a retomada do crescimento. O Brasil ainda tem, é verdade, uma infinidade de problemas,da educação sofrível à poluição das cidades. Mas, dessa vez, o governo acertou na escolha dos inimigos a combater. E isso não é pouco. ESTRADA VITAL –MORTAL A BR-Q40, ligação de Brasília ao Rio de Janeiro, foi a primeira rodovia do país a ser asfaltada, em 1931,quando ia apenas do Rio a Minas Gerais. Com o tempo, ela se tornou uma das principais artérias da economia de Minas. É usada como escoadouro de milho, gado e minério – em Paracatu, perto da divisa com Goiás, fica a maior mina de ouro do país. Na área central do estado, 20 milhões de toneladas de minério de ferro passam por ano pela rodovia para servir a companhias como Valee CSN e também a produtores de ferro-gusa – matéria-prima para a produção de aço – instalados em cidadescomo Divinópolis, Sete Lagoas e Betim. Esse é o atestado da relevância da rodovia. As evidências de seus problemas estão no asfalto. EXAME percorreu 250 quilômetros e viu emvários pontos as deformações da pista, as rachaduras do pavimento causadas pelo trânsito de caminhões pesados e a sinalização apagada. As consequências são dramáticas. No ano passado, apenas em um trecho de 21 quilômetros que passa pela cidade de Itabirito. no coração da zona mineral, houve 13 mortes em acidentes. A taxa de uma pessoa morta por ano a cada 1600 metros é superior até à de Santa Catarina, que tem, proporcionalmente, as estradas mais violentas do país. Em 2006,o governo mineiro propôs ao federal o plano de assumir as BRs que. passam pelo estado para, posteriormente, concedê-las à iniciativa privada. Oplano foi rejeitado. Ele poderia ter mudado esse quadro há tempos. Segundo a Confederação Nacional dos Transportes, que analisou 77000 quilômetros de estradas sob gestão pública, apenas 34% estão em estado bom ou ótimo. Nos 15000 quilômetros administrados por operadoras privadas, o índice é de 87%.A concessão à iniciativa privada poderia também ter tornado a rodovia mais segura. De 2005 a 2009, o número de acidentes caiu 10%nas estradas privatizadas, enquanto nas estradas públicas cresceu 12%,de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres. Por isso é tão importante que o governo enxergue o papel da iniciativa privada. A concessão, que resolveu os problemas dos 15000 quilômetros já transferidos a empresas, poderia ter tornado a BR-040 mais segura. E talvez já tivesse feito Itabirito rebatizar o trecho da rodovia que passa pela cidade. É lá que fica o Viaduto das Almas. 2 ATRACAO PELO VIZINHO  A empresa química Sicbras é uma produtora de carbeto de silício – material de grande resistência utilizado pela indústria metalúrgica. Com seis anos de vida e 75 funcionários, tem hoje fábrica em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. A companhia é parte do grupo Granha Ligas, dono de outras duas unidades em Minas Gerais para a produção de ligas destinadas ao setor siderúrgico. Em maio, a Sicbras selou acordo com a Administração Nacional de Eletricidade – a estatal que opera a distribuição de energia elétrica no Paraguai – para construir uma fábrica lá. O que uma empresa instalada na Bahia e com raízes em Minas Gerais foi, de repente, fazer no Paraguai? “Aquestão é a energia”, diz Fernando Granha, presidente da Sicbras. Acontrapartida pelo investimento é a garantia de ser abastecida por energia barata – o valor da tarifa é um quarto do que é pago no Brasil- até 2023, quando o contrato será revisto. A lógica é simples: a Sicbras atua num setor que tem na energia elétrica um insumo-chave, recebeu uma oferta de desconto e decidiu aceitá-la Foi assim que a empresa levou para o Paraguai um investimento de 20 milhões de dólares, que pode gerar até 150 empregos. A declaração do empresário é lacônica, mas a decisão da Sicbras é um atestado loquaz do mal causado pelo alto custo da energia: investimentos deixam de ser feitos,empregos deixam de ser criados, riqueza deixa de ser gerada no país. A indústria brasileira paga uma das tarifas de energia maís altas do mundo. Aqui, o megawatt-hora custa 329 reaís. O valor está bem acima do 9ue se paga nos outros países do Bric: India (188 reais), China (142 reais) e Rússia (91 reais). Encargos e impostos cobrados pelo governo brasileiro correspondem a 49% da fatura. Mas não é só a gula do Fisco que encarece nossa conta de luz. “Ageração de energia no Brasil é muito cara”, diz Eduardo Gouvêa Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Ainda na comparação com o Paraguai, observa-se que temos um custo que é praticamente o dobro do vizinho. Uma opção de barateamento seria fazer novos leilões de concessão em vez de renegociar os contratos de grandes geradoras que começam a vencer em 2015. A decisão a esse respeito era uma das que se esperavam da presidente Dilma Rousseff durante a montagem do pacote de bondades, assim como o tamanho da renúncia de tributos e encargos que o governo aceitaria fazer para ajudar a diminuir o custo da energia. A ideia é que novos leilões sejam capazes de atrair uma competição, forçando os preços para baixo. Já a renovação dos contratos atuais dificilmente produziria o mesmo efeito. Nas contas da Firjan, a energia teria de cair pelo menos 35% para devolver nossa competitividade nesse front. “Mas. com ou sem renovação, o que interessa é que o preço caia”, afirma Gouvêa Vieira. CORTA DE UM LADO, AUMENTA DE OUTRO Para as empresas, toda desoneração de tributos é boa, certo? Embora a resposta  pareça óbvia, no Brasil o melhor a responder é: depende. O que se tem visto aqui é que o governo, apertado pelo alto custo da máquina pública, quando corta imposto de um lado, aumenta de outro – e, no final, a conta para as empresas pode ficar pior do que era antes. Desde lQ de agosto, empresas de 11 setores estão recolhendo menos imposto para o Instituto Nacional do Seguro Social. Segmentos como autopeças, componentes elétricos e hotéis agora pagam menos encargos sobre a folha de pagamentos – assim como os setores de calçados, têxteis, móveis e tecnologia da informação, beneficiados pela medida desde o início do ano. Agora, em vez de um recolhimento de 20% sobre a folha de pagamentos para a Previdência, as empresas desses setores calculam o valor a ser recolhido como uma fatia de 1% a 2% do faturamento mensal. Foi uma troca na base de cálculo do imposto: em vez de incidir sobre a mão de obra no início do processo produtivo, ela passou a ser considerada no final de todo o processo. E foi aí que uma medida que parecia uma benesse infalível transformou-se repentinamente em um tiro pela culatra. A catarinense Specto, fabricante de equipamentos eletrônicos de controle de acesso, tem 40 funcionários e compra parte dos componentes de outras empresas. Com faturamento anual de 10 milhões de reais, a companhia passou a pagar, em média, 44% mais de imposto com a mudança da base de cálculo. “Nossa competitividade foi reduzida”, diz seu presidente, Leônidas Vieira Júnior. Eis a lógica: para que a nova fórmula de cálculo valha a pena, o faturamento da empresa não pode ser maior que dez vezes o valor da folha de pagamentos. Do contrário, em vez de cair, o imposto sobe. Foi o que ocorreu com a Specto e uma série de empresas que empregam pouco ou compram peças de terceiros para abastecer sua linha de produção. Para contrabalançar essa despesa extra com impostos, a empresa teve de repassar o custo adicional para o preço dos produtos. Ao desonerar a folha de pagamentos, o governo quis dar condições para que as empresas evitassem demissões neste momento de crise externa e de economia interna em ritmo lento. Afinal, com uma carga menor de impostos, haveria fôlego para elas passarem a rebentação sem ter de mandar gente para a rua. Mas o balanço não é positivo nos setores de calçados, têxteis, móveis e tecnologia da informação, os quatro desonerados desde o início d ano. Empresas desses setores, que saíram perdendo com a mudança, estão tentando se adaptar à situação. Um exemplo: uma fabricante paulista de software não só começou a recolher mais impostos como, de quebra, passou a perder mercado para um concorrente internacional. Para se adequar ao cenário, os sócios querem dividir o negócio em dois. Com um braço, ela vai fazer avenda do produto. Com o outro, vai fazer a prestação de serviços. Trabalho dobrado, com aumento da complicação burocrática – e para nada além do que apenas voltar ao estágio em que ela estava antes das mudanças. “Acriação da nova empresa está praticamente definida. Só estamos analisando como ficará a parte societária”, diz um de seus donos. Opacote de bondades preparado pelo governo vai incluir uma nova fornada de desoneração da folha. A experiência mostra os limites da escolha de sempre compensar uma desoneração com algum outro aumento de carga. O Brasil cobra impostos de país rico de suas empresas – sem um mínimo de retorno em serviços, A carga e sua complexidade são um dos maiores pesos do chamado custo Brasil. Há, no entanto, devido ao gigantismo do Estado, espaço limitado no orçamento para o governo abrir mão de arrecadação. Noprimeiro semestre, se considerada apenas a desoneração dos quatro primeiros setores beneficiados, o déficit do INSS aumentou 1bilhão de reais. No ano que vem, quando os 15setores estiverem integralmente com o benefício, a renúncia será de 7 bilhões de reais. Ocobertor fica ainda mais curto porque a conta a ser feita tem de considerar os adendos feitos por deputados e senadores à medida provisória que trata das desonerações. O texto original tinha 54 artigos quando chegou ao Congresso – e lá passou a ter 79. O governo enfrenta ainda mais de 30 categorias do funcionalismo público federal em greve. Se os pleitos forem atendidos, a despesa com o funcionalismo crescerá 92 bilhões de reais. De modo geral, a desoneração é uma medida bem-vinda, especialmente em tempos nublados como os atuais. “A estratégia é muito boa para setores com uso intensivo de mão de obra”, diz José Pastore, especialista em relações trabalhistas e professor da Universidade de São Paulo. Mas, como se vê, não necessariamente eficaz, em especial quando o alívio de um lado é anulado por oneração de outro. O governo poderia aproveitar a onda positiva trazida pelo pacote para adotar soluções mais amplas e perenes. Éum enorme avanço a adoção de uma “agenda do bem” por Dilma. Que essa agenda seja o início de um movimento de recuperação da competitividade do país.

 

O PREJUIZO E NOSSO

Entre diversos legados que fazem parte do inventario de micos deixados pelo ex-presidente

Luiz Inácio Lula da Silva para sua sucessora, Dilma Rousseff, a Petrobrás, com certeza, é um dos mais enrolados. Lula, como se sabe, passou anos reclamando de uma imaginária “herança maldita” que alegava ter recebido de seu antecessor. Quando chegou a hora de sair do governo, deixou a sua própria – só que essa foi de verdade. Boa parte das dores de cabeça do atual governo, na verdade, se resume a tentar desmanchar a penca de desastres de diversos tamanhos que recebeu ao assumir – e suas perspectivas reais de sucesso nesse trabalho são para lá de duvidosas. O caso da Petrobras, um dos últimos a sair do armário de esqueletos que Lula empurrou para cima da atual presidente, é um exemplo notável. A empresa acaba de divulgar os resultados do segundo trimestre de 20U – um prejuízo de 1,3 bilhão de reais, o primeiro dos últimos 13 anos. Não foi por falta de vendas, na temperatura morna da economia brasileira de hoje: a receita líquida da estatal chegou perto dos 70 bilhões de reais entre abril e junho, ou vigorosos 10% mais do que tinha conseguido no mesmo período de 2011. O que aconteceu, simplesmente, foi que a Petrobras gastou mais do que recebeu. Os resultados nas áreas em que a empresa deu lucro, como exploração e produção, ficaram praticamente iguais aos do ano passado. Já as despesas furaram o teto. Se o Brasil fosse a Argentina ou a Venezuela, países que nosso governo tanto admira, não haveria maiores problemas. Apresidente Cristina e o coronel Chávez mandariam fazer uma massagem qualquer nos números, e o que é preso juízo viraria lucro. Mas, aqui, embora muita gente gostasse, ainda não dá para fazer essas coisas. Um poço que não produz é um poço que não produz. Preço de venda abaixo do custo é preço de venda abaixo do custo. Um erro é um erro – e a soma de tudo isso significa, apenas, vermelho no balancete. No caso deste último trimestre da Petrobras, o prejuízo é a consequência inevitável da combinação de um pouco disso tudo. Boa parte dos poços do pré-sal, anunciados no governo Lula com muito foguetório e pouca geologia, acabou se revelando seca na hora de ser explorada. Apesar dos pesados aumentos dos preços internacionais do petróleo, as autoridades que mandam na Petrobras resolveram fingir que não estava acontecendo nada; pensando no Ibope da popularidade presidencial, em vez da aritmética, mantiveram as vendas de combustível ao público em preços incompatíveis com seu custo. Erro técnico grosseiros na área de industrialização do petróleo fruta de politicagem e de ideologia nas decisões sobre investimento em novas refinarias, mantêm a capacidade de refino da empresa paralisada há anos. Grandes obras “lançadas” por Lula continuam sendo apenas terrenos baldios; a famosa refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, já está custando quatro vezes o que foi previsto e continua sem ver um centavo do dinheiro que o coronel Chávez comprometeu-se a aplicar nela. O prejuízo superior a 1bilhão de reais no segundo trimestre de 20U não foi construído ontem. “Como gostava de dizer o ex-governador Leonel Brizola, é coisa que ‘‘vem de longe”. Empresas da natureza e do porte da Petrobras não pegam gripes; só pegam doenças que vão sendo incubadas dia após dia em seu organismo e não recebem a profilaxia correta. Nenhuma delas é tão nociva quanto a entrega de decisões empresariais a aproveitadores políticos. É algo que vem de um entendimento perverso: o de que a Petrobras pode perder dinheiro porque é “rica”. Mas o dinheiro não é da Petrobras; é de seus acionistas, e esses acionistas são a população brasileira, que tem a maioria das ações e é representada no controle da empresa pelo governo. Seu dever, nesse papel, é defender os interesses dos cidadãos deste país, que são os verdadeiros donos da companhia. É exatamente o que se espera de sua nova direção e da presidente da República.

 

TODOS CONTRA A AMAZON

O americano Jeff Bezos Fundador da Amazon, comanda um império. A companhia, criada em 1994 na cidade de Seattle para vender livros pela internet, transformou-se na varejista online mais poderosa do mundo. Com mais de 56000 funcionários e 170 milhões de clientes cadastrados, a empresa vende praticamente tudo – de computadores a lagostas vivas. Em 2011, faturou 48 bilhões de dólares. Mas todo esse poder de fogo não vem ajudando a entrar em um mercado considerado chave: o Brasil. Pelo contrário, vem atrapalhando. Desde 2009, a Amazon negocia sua entrada em conversas com editoras e transportadoras. Em janeiro, contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu primeiro funcionário de varejo online. Foi no início de agosto que Bezos aumentou os esforços para lançar sua livraria digital no Brasil ainda neste ano. Ele despachou para o país uma comitiva de quatro executivos, entre eles um de seus vice-presidentes, Russ Grandinetti. Talvez nem eles tenham certeza da data de estreia da Amazon, mas seu interesse crescente faz com que varejistas e editoras se armem para enfrentar a avalanche. O plano da Amazon é estrear com a livraria digital e, consequentemente, com o leitor Kindle. Por isso, os executivos começaram sua viagem por Brasília. Lá, visitaram os ministérios do Desenvolvimento, da Educação, da Fazenda e da Cultura, sob a orientação da consultoria BarralMJorge, que tem como sócio o ex-ministro Miguel Jorge. Aaproximação com o governo é importante porque, para lançar o Kindle a um preço competitivo – nos Estados Unidos ele é vendido por 80 dólares -, a Amazon precisará negociar algum tipo de incentivo fiscal. A varejista também quer incluir o Kindle na disputa das licitações para a compra de tablets para escolas públicas. Depois de Brasília, o grupo se reuniu em São Paulo com pelo menos dez editoras e distribuidoras de liHOS.O plano é comermeçar a importar o Kindle ainda neste ano. Mas a empresa analisa também produzir o aparelho no Brasil, em parceria com a taiwanesa Foxconn, que tem fábricas em São Paulo, em Minas Gerais e no Amazonas. BRIGA COM AS IIDITORAS O avanço só não é mais rápido porque a Amazon enfrenta uma negociação ferrenha com as editoras que detêm os direitos de publicação dos livros brasileiros em formato digital. A varejista americana exíge descontos de 50% nacompra dos livros e o direito de cobrar o quanto quiser por eles. As editoras não topam. Hoje, grandes redes de livrarias, como Saraiva e Cultura, que compram 44% do total de livros impressos, recebem descontos médios de 35%. As editoras temem que a Amazon cobre preços muito baixos para conseguir ganhar terreno, e por isso querem estabelecer um desconto-limite. Nos Estados Unidos, os descontos garantiram à Amazon 30% do mercado, mas levaram dezenas de livrarias à falência e arrasaram as margens de lucro das editoras. “Não queremos acordar amanhã reféns da Amazon”, diz o dono de uma das maiores editoras do país. “Eles não precisam estragar o mercado brasileiro para entrar aqui.” Apesar da resistência, a Amazon fechou, no início de agosto, um acordo com a Xeriph, a maior distribuidora de livros digitais do pais, dona do direito de distribuição de 75% dos cerca de 14000 títulos disponíveis  no mercado. O contrato vale para 180 pequenas e médias editoras, donas de 4000 titulos – com as grandes o impasse continua. Nas negociações com as editoras, a Amazon é tida como intransigente: apesar de as conversas terem começado há três anos, a empresa de Bezos se mantém inflexível em pontos considerados chave pelos empresários locais, entre eles a obrigação de publicar o livro digital ao mesmo tempo que o livro de papel chega às livrarias (veja quadro). Talvez o maior revés dessa lentidão toda, para os americanos, seja a abertura de um flanco que vem sendo explorado por alguns de seus arquirrivais no mermeçar cado de livros eletrônicos: a Apple e o Google. A Apple, por exemplo, concordou em vender livros eletrônicos pelo preço definido pelas editoras. As negociações começaram em março e os contratos estão prestes a ser assinados. A canadense Kobo, que já vendeu 6 milhões de leitores digitais similares ao Kindle, está finalizando um acordo com a Livraria Cultura. Pelo contrato, os leitores digitais da Kobo serão vendidos pelas lojas da rede, que passará a disponibilizar em seu site os mais de 2,5 milhões de titulos da canadense. Começar a operação por livros digitais é uma estratégia inédita para a Itália e Espanha – sempre com a venda deprodutos como livros e brinquedos. No Brasil, no entanto, foi preciso bolar um plano B após a empresa deparar com a barafunda de impostos e a dificuldade de montar uma estrutura de distribuição. “Eles viram que no Brasil tudo é muito mais caro e complicado do que imaginavam”, diz um executivo que trabalha para a Amazon. Aprender a lidar com essas dificuldades é fundamental para os planos da Amazon. É na venda e distribuição de produtos “físicos” que a empresa enxerga suas maiores oportunidades no pais. O mercado de livros digitais, afinal, faturou apenas.s.70()()(}reai&no~passaOO; ou 0,02% da venda de livros no Brasil “É um mercado quase inexistente. A tendência é que cresça, mas lentamente”, diz Luiz Fernando Pedroso, diretor-geral da editora Ediouro. O comércio eletrônico brasileiro, por outro lado, já é um negócio de 19 bilhões de reais que deve chegar a 45 bilhões de reais em 2016, de acordo com a consultoria americana Forrester Research. A Amazon já escolheu, segundo EXAME apurou, as empresas que farão o transporte e a armazenagem de seus produtos: Directlog e Luft Logistics, que têm como clientes walmart, Fnac e Saraiva Ambas se preparam para iniciar o serviço até junho de 2013. Sinal de que o pesadelo de livrarias e editoras brasileiras está perto de virar realidade. Apesar da torcida contra.

 

TERAPIA ANTI-FRANKENSTEIN

A era de ouro da industria farmacêutica terminou no dia 30 de novembro de 2011. Naquele dia, expirou a patente do remédio mais rentável da história, o anticolesterol Lipitor, produzido pela americana Pfizer. No ano anterior, as vendas do Lipitor somaram 10,7bilhões de dólares – o equivalente ao faturamento da nona maior empresa brasileira, a telefônica Vivo. O fim da patente liberou a cópia do remédio pela concorrência e simbolizou o drama vivido pela indústria farmacêutica: entre 2011 e 2015, remédios que vendem o equivalente a 170 bilhões de dólares por ano perderão sua patente. Para a Pfizer, perder a exclusividade de seu principal produto expôs os efeitos colaterais da década decrescimento que fez dela a maior empresa farmacêutica do mundo. Foram mais de 200 bilhões de dólares em aquisições – que, ao fim do processo, transformaram a Pfizer naquilo que os mais maldosos apelidaram de “Frankenstein”. Enorme, remendado, lento e, pior, pouco inovador – como demonstra a falta de remédios para compensar a quebra da patente do Lipitor. As ações da pfizer perderam 25% de seu valor na última década Hoje, a companhia fatura 68 bilhões de dólares por ano. Com 59 anos de idade e 34 de Pfizer, o escocês Ian Read está executando a mais observada reestruturação do setor farmacêutico. Desde que assumiu a presidência da empresa, em dezembro de 2010, Read está preparando a pfizer para sua vida pós- Lipitor. Vendeu unidades, cortou drasticamente o investimento anual em pesquisa, desistiu de 91 projetos de medicamentos. No segundo trimestre, o faturamento caiu 9%, mas o lucro cresceu 25%. Em agosto, durante uma visita ao Brasil, Read falou a EXAME. As empresas farmacêuticas investiram centenas de bilhões de dólares em pesquisa na última década, mas, mesmo assim, estão vivendo a crise da quebra das patentes. A indústria perdeu a capacidade de inovar? Situações como a atual são da natureza do nosso negócio. Precisamos inovar para sobreviver. Para isso, você precisa de uma combinação de ciência, bons processos e um pouco de sorte. As inovações dos anos 80 trouxeram ótimos produtos para os anos 90, mas nos anos 90 a ciência não ajudou. Os alvos fáceis já haviam sido atingidos. A indústria teve de mudar a forma com que encara a pesquisa Nos anos 80, o grande foco era a química Hoje, temos uma compreensão muito melhor da biologia. Acho que a indústria está prestes a dar um novo salto de produtividade. Qual é a chave para que uma empresa com 100 000 funcionários volte a acertar na pesquisa? Criar uma cultura que nos permita tomar decisões mais rápidas e dar aos cientistas a liberdade para fazer o que julgam correto. Antes, cada uma das unidades de pesquisa só podia decidir como usar 10% do orçamento. Hoje, os cientistas controlam 80% do orçamento. Cada time tem de 200 milhões a 300 milhões de dólares para as fases iniciais da pesquisa. Em uma década, a Pfizer gastou mais de 200 bilhões de dólares em aquisições. Tamanho atrapalha? O problema não é o tamanho em si, mas a distração causada por grandes mudanças. Nós fizemos grandes aquisições em sequência e levamos muito tempo para nos reorganizar. Ao mesmo tempo, houve essa série de desafios científicos que mencionei. Deu tudo errado: tivemos uma série de distrações justo na hora em que os tempos de pesquisa fácil estavam ficando para trás. Não acredito em tamanho só pelo tamanho. Se ter escala ajuda, ótimo. Mas, se não adianta nada, para que ser tão grande? osenhor vendeu a unidade de nutrição infantil para a Nestlé por 12 bilhões de dólares, e pretende abrir o capital da unidade de medicina animal. São negócios que aescem mais do que a área farmacêutica. Por que se desfazer deles? Chamo esse processo de simplificação dramática. Esses negócios são realmente ótimos. Mas precisamos decidir como vamos usar nosso capital. E, hoje, nosso foco absoluto tem de estar na transformação do processo de inovação farmacêutico. Diz-se que descobrir novos remédios é em parte uma arte, em parte um processo. Como combinar essa atividade Incerta com a cobrança por resultados vinda dos acionistas? Você precisa ter grandes cientistas, criar uma estrutura correta e cobrálos. É o que é possível fazer. Ciência é um processo, não uma arte. Uma das coisas mais complicadas que a humanidade faz é levar um medicamentonovo ao mercado. Nesse caminho, desperdiçar dinheiro não ajuda em nada É preciso gastar dinheiro suficiente, mas não mais do que isso. Minha função é dar retorno aos acionistas Isso inclui não apenas cortar 30% do investimento anual em pesquisa mas também eliminar 91 projetos de novos remédios no ano passado. Não é arriscado cortar tanto? Chegamos à conclusão de que não havia sentido continuar investindo em tantas áreas. Decidimos investir onde podemos ganhar: doenças cardiovasculares, oncologia, neurologia, vacinas, dores e inflamações. A Pfizer tinha muitas linhas de pesquisa, e não havia como ser melhor que a concorrência em cada uma delas. Um exemplo de como fazemos pesquisa hoje: temos acordos com 20 instituições acadêmicas que submetem a nós projetos em que querem investir. De 300,escolhemos 16, colocamos dinheiro e o trabalho é feito pelos profissionais dessas instituições. Para nós, é uma ótima maneira de nos aliarmos aos melhores cientistas disponíveis – e, esperamos, um jeito que custe menos dinheiro à pfizer do que fazer tudo sozinhos. Remédios como o Upltor atingem um enorme número de pessoas. A era das drogas “precisas”, desenvolvidas para pequenos grupos, está chegando? Hoje investimos muito nesse tipo de droga A maior parte dos tratamentos contra o câncer será muito específica, à medida que o genoma ficar mais acessível. Quando encontramos o Xalkori (remédio contra um tipo raro de câncer de pulmão), descobrimos que funcionava em apenas 3%a 5%dos pacientes, que tinham um certo gene expressado. Temos remédios como esse em vários estágios de desenvolvimento, em áreas como diabetes, oncologia e doenças cardiovasculares. o Brasil está atrás de países como China e rndia na pesquisa de medicamentos? Sim. Na China, o governo escolheu a indústria farmacêutica como área de importância estratégica Não acho que o governo brasileiro tomou essa decisão. O Brasil pode se tornar uma potência farmacêutica, mas com parcerias. A Pfizer é parceira de qualquer cientista que tenha capacidade. O Brasil terá de ser aberto a cientistas do mundo inteiro e investir em qualquer empresa que queira pesquisar no pais. Não quero dizer ao governo brasileiro o que fazer, mas a fizer está no Brasil há 60 anos e somos tão brasileiros quanto qualquer um. Seria ótimo se o governo nos visse assim. Em 2010, a Pfizer comprou 40% do laboratório goiano Teuto por 400 milhões de reais. Por que crescer no mercado de genéricos, com margenstio baixas, é importante? Você tem de ajustar as margens pelo risco. A inovação de alto risco tem de ter um alto retorno. De 50 empresas que existiam há 20 anos, sobraram dez. Os genéricos têm risco baixo, e o retorno é naturalmente menor. Mas faz muito sentido ter os genéricos no nosso portfólio. Estamos bem representados em todos os mercados. Nenhuma empresa local cresce tanto quanto a Teuto, então estamos felizes.

 

UMA FEIRA DE 50 MILHÕES DE REAIS

TODO MUNDO SABE QUEM SÃO os PROTAGONISTAS do varejo de alimentos no Brasil: os franceses do Pão de Açúcar e do Carrefour, os americanos do Walmart, os chilenos do Ceconsud. Todos com faturamento de bilhões de dólares, presença em dezenas de países e muito poder de barganha. Na teoria, é a combinação ideal para cobrar menos, atrair mais clientes e ganhar mais dinheiro. Volta e meia, porém, aparece um concorrente pouco conhecido que chama a atenção não por seu gigantismo, mas por estar fazendo alguma coisa diferente – e certa. Um exemplo recente é o carioca Hortifruti, fundado por dois feirantes nos anos 80, que hoje, com 23 lojas no Rio de Janeiro e uma no Espírito Santo, vende 42000 reais a cada metro quadrado. Nenhuma outra empresa com receita acima de 500 milhões de reais consegue vender tanto. Émais do que o dobro da marca do Pão de Açúcar, de 19000 reais por metro quadrado. O feito chama ainda mais atenção porque o Hortifruti tem 60% de sua receita baseada na venda de frutas, legumes e verduras, produtos que custam pouco e apodrecem rápido. Sua.s loja.s, localizadas principalmente na rica zona sul carioca, lembram feiras livres – muito limpas, organizadas e climatizadas, é verdade; mas, ainda assim, feiras livres. Qual é o segredo? O Hortifruti foi fundado por Gilberto Lopes e Tadeu Fachetti, que há 23 anos abriram um sacolão (daqueles que vendem frutas e legumes com preço único) em Colatina, no interior do Espírito Santo. Na época, Lopes trabalhava como faz-tudo no sacolão de outro empresário local, Paulo Hertel, que também virou sócio do Hortifruti. Em poucos meses, eles perceberam que vender todos os produtos pelo mesmo preço não era o caminho. Os clientes levavam os itens de maior valor e deixavam os mais baratos para trás. Os sócios então decidiram inverter a lógica. Apostaram na qualidade, e não no preço, para atrair clientes interessados no frescor de produtos de uma feira livre com o conforto de um supermercado, como ar-condicionado e estacionamento. Em 1990, a dupla levou o negócio para o Rio de Janeiro e passou a abrir uma loja por ano. Apesar do crescimento, o Hortifruti se mantém fiel ao estilo feira livre de ser. A começar pela logística. Diferentemente de seus concorrentes, tem uma frota própria de 2U caminhões que abastecem as lojas cinco vezes por dia com frutas e legumes frescos comprados de 960 pequenos e médios produtores. O Hortifruti vende também pães, sucos e frios. Mas não oferece as linhas populares dos grandes fabricantes – apenas produtos artesanais e orgânicos comprados de pequenos fornecedores. Ou seja, daqueles que o pessoal do Leblon gosta de levar para casa depois da praia. Com essa estratégia, consegue cobrar até 13 reais por 1 quilo de uva, quase o dobro do que os concorrentes da porta ao lado cobram pela uva da mesma variedade. “Ocupamos de propósito um espaço entre a feira livre e o supermercado”, diz Tiago Miotto, sobrinho de Fachetti e presidente da empresa. Para manter o atendimento personalizado típico das feiras, o Hortifruti tem 140 funcionários por loja – 50% acima da média do mercado. Vender muito por metro quadrado é uma necessidade. As lojas do Hortifruti ficam em endereços nobres, como os bairros cariocas Leblon e Ipanema, e 70% dos clientes são das classes A e B. Encontrar imóveis nessas regiões é cada vez mais difícil – e caro. A últíma loja, inaugurada em Ipanema, demandou dois meses de negociação e um investimento de 4,5 milhões de reais. “Precisamos estar em bairros nobres. Como o preço do aluguel sobe e falta espaço, temos de vender mais com menos”, diz Miotto. As despesas do Hortifrutí com aluguel passam de 20 milhões de reais ao ano. Por isso, a média de vendas por metro quadrado precisa continuar a subir. A meta é chegar a 45800 reais neste ano. É o único jeito de manter a margem de lucro – calculada por analistas em torno de 4%, pouco acima da margem da área de alimentos do Pão de Açúcar, de 3,8%. DO RIO PARA bRASiL?O maior desafio do Hortifruti é conseguir esses números também longe do Rio de Janeiro – já que está em meio ao maior plano de expansão de sua história. A BR Investimentos, do economista Paulo Guedes, comprou, em 2010, 30% do capital da empresa. Pagou estimados 70 milhões de reais e montou uma estratégia para chegar a novas cidades. Só em São Paulo, prevê investir 160 milhões de reais até 2016 para abrir de seis a oito lojas por ano.Outras capitais também estão no radar. Neste ano, a meta é elevar o faturamento de 540 milhões para 650 milhões de reais. “Nossa expectativa é que a companhia esteja pronta para abrir o capital em dois ou três anos”, diz Priscila Rodrigues, sócia da BR Investimentos e conselheira do Hortifruti. Ao chegar a novas cidades, a empresa vai bater de frente com redes locais já estabelecidas – o mercado carioca é mais pulverizado do que o paulista, por exemplo. Grandes varejistas como o Pão de Açúcar, agora sob o comando do francês Jean-Charles Naouri, também investem em unidades menores, de até 1000 metros quadrados, como o mini Extra. “O modelo de lojas de vizinhança é o que mais cresce no país, já que os consumidores fazem cada vez mais visitas aos pontos de venda”, diz Flávio Tayra, da Associação Brasileira de Supermercados. Sair da zona de conforto é difícil. Sair da zona sul do Rio também vai ser.

 

MAIS DE 2 Bilhões DE ESPECTADORES

Um rapaz escolhe laminas de barbear no corredor de um supermercado quando, repentinamente, o lutador Vitor Belfort rompe a gôndola. Num tom, digamos, nada amigável, ele pergunta: “Vaiamarelar?” Outros lutadores surgem dos lugares mais inusitados, como de dentro de um carrinho de compras, para fazer a mesma pergunta Intimidado, o consumidor decide levar o produto da Gillette, que é azul, em vez de ficar com o do concorrente, da cor amarela Ovídeo divulgado exclusivamente pela internet em maio foi assistido por mais de 20 milhões de pessoas naquele mês, bem acima dos 8 milhões de acessos projetados pela Procter& Gamble, dona da marca Além de investir na divulgação por links patrocinados, a empresa contou com tuitadas dos garotos-propaganda da marca, como os jogadores de futebol Kaká e Paulo Henrique Ganso, e sobretudo a divulgação espontânea de milhões de pessoas pela internet. “Investimos apenas um quarto do valor que gastaríamos para ter o mesmo resultado na TV”, diz José Cirilo, diretor de marketing da marca Gillette. Ofilme da Procter&Gamble faz parte de uma estratégia cada vez mais freqüente para as empresas em todo o mundo. Oestoque de vídeos publicitários feitos para a internet mais que dobrou nos últimos 12 meses nos Estados Unidos. Hoje, são 10 milhões de filmes, de acordo com a americana Comcast. Segundo a consultoria americana e Marketer, é a forma de publicidade que mais cresce na internet – com previsão de que as empresas aumentem 55%seu orçamento para essa área em 2012 nos Estados Unidos. ”As empresas estão cada vez mais empenhadas em aproveitar o crescente interesse das pessoas por vídeos na internet”, diz Tatiana Santa Paula, sócia da Media Interactive, agência especializada em marketing digital. O custo reduzido, sobretudo em comparação ao preço pago para inserções na TV; é apenas uma das vantagens. Ao migrar para a internet, as empresas têm como audiência potencial toda a população online – ou seja, um total de 2 bilhões de pessoas no mundo (80 milhões delas no Brasil). Se cair no gosto do público, um,vídeo pode ser visto e revisto inúmeras vezes em poucas horas, num efeito viral. Dependendo do grau de sucesso, um sonho impossível em outras mídias – prender a atenção do consumidor por minutos a fio – pode se tornar realidade. Foi o que conseguiu a subsidiária canadense do McDonald’s, com Um vídeo de 3 minutos e meio, que mostra por que os lanches das lojas nunca se parecem com os dos anúncios (numa espécie de confissão pública, o filme mostra todos os detalhes da maquiagem de um sanduíche). Foi o segundo vídeo mais visto na América do Norte na última semana de junho, com mais de 5 milhões de acessos naquele período. Outro deles é o filme Uncle Drew, da Pepsi. Com mais de 5 minutos de duração, conta a história do jovem astro da liga americana de basquete Kyrie Irving, que passa por uma sessão de maquiagem para parecer um senhor com mais de 60 anos e surpreende uma turma do bairro com jogadas impressionantes. O vídeo teve mais de 10 milhões de acessos em três semanas em maio. Não é fácil prever a fórmula para o sucesso, sobretudo em meio a milhões  de produções – inclusive as caseiras, que transformam em celebridade um bebê que morde o irmão ou um cachorro que anda de skate. A subsidiária brasileira da Procter&Gamble já havia produzido 11 vídeos antes do atual – nenhum com a mesma repercussão. Algumas empresas começam a testar novos limites para chamar a atenção. Um dos casos mais emblemáticos é o da campanha “Perdi meu amor na balada”, lançada pela Nokia em julho. Na ocasião, o paulistano Daniel Alcântara postou um vídeo no seu perfil do Facebook e no YouTube pedindo ajuda para encontrar uma garota que conhecera na noite anterior, Fernanda. Lamentando ter perdido o guardanapo em que ela anotara o telefone, ele dava detalhes do encontro – até o nome da casa noturna. Reproduzido por milhares de pessoas, o vídeo foi assistido mais de 150000 vezes em 24 horas. Não havia indício de que se tratava de  uma campanha. Uma semana depois, um novo vídeo divulgado pela empresa revelou um novo modelo de celular.  Só quatro pessoas na Nokia sabiam da estratégia – o protagonista enganou  até parentes e amigos próximos. A indignação de parte do público motivou uma investigação do Conar, que pode resultar numa multa de 6,5 milhões de  reais. “Só usamos um recurso da publicidade, o teaser, para criar expectativa”, diz Flávia Molina, diretora de marketingda Nokia. A internet tem sido considerada  também um meio certeiro para testar ideias antes de levá-las à mídia convencional. Graças à repercussão na rede, a Gillette decidiu que vai levar o filme de Vitor Belfort à TV.Algo semelhante aconteceu com o filme Uncle Drew, da Pepsi.Após verificar o sucesso na rede, a companhia criou uma versão de 30 segundos para a TV. A6s poucos, as empresas percebem que não basta produzir conteúdo para a multidão, mas também vale a pena saber ouvi-la.

 

A CHINA NÃO VAI TER CRISE

O chinês Fan Gang, professor de economia da Universidade Peking, a  mais importante da China, é considerado um dos principais economistas do país. Ex-membro do conselho de política monetária do banco central chinês, Fan ajudou a fundar e preside o Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas, uma das poucas organizações não governamentais e independentes da China. Para o economista, o país continuará crescendo muito por mais dez ou 20 anos, mas num ritmo inferior ao das últimas duas décadas. Na sua avaliação,os principais desafios do país são universalizar a rede de proteção social, impedir o aumento da inflação e evitar crises provocadas por desastres financeiros ou pelo alto endividamento. Fan falou a EXAME durante visita ao Brasil, onde participou do seminário “O Brasil e o mundo em 2022″, promovido pelo BNDES. Qual deve ser o crescimento da China neste e nos próximos anos? Acredito que ainda seja possível fechar 2012 em 8%. Estamos preparando o terreno para crescer numa média anual entre 8% e 8,5% nos próximos anos. Tivemos superaquecimento em 2009 e 2010, devido ao pacote de estímulo criado para fazer frente à crise internacional de 2008. Apartir desse ponto, o governo começou a desacelerar a economia para promover uma aterrissagem suave – uma expansão em torno de 7,5%no segundo trimestre deste ano. Uma coisa é certa: se á China crescer 9%, terá superaquecimento. O ideal agora é crescer 8%, e esperamos estabilizar nessa faixa. Por quanto tempo a China vai continuar crescendo assim? Acredito que teremos de dez a 20 anos de crescimento alto. Primeiro, na faixa entre 7%e 8%.Depois, entre 6%e 7%  Estimar esse ritmo é perfeitamente justificável Temos uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Cerca de 30%da força de trabalho ainda está no campo. Levando em conta a população total, nossa taxa de urbanização ainda é de 50%.Pense na quantidade de pequenas cidades que se tornarão grandes ao longo da costa nos próximos anos. Pense  em ruas, casas, metrôs e trens de alta velocidade que precisarão ser construídos. Nessa área, ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas,para atingirmos essas metas de crescimento, precisamos  manter as reformas, evitar a inflação e impedir as crises provocadas  por questões financeiras e pelo aumento  desmedido da dívida pública. Quando o senhor fala em impedir crises, parece se referir mais a fatores Internos do que. externos. É Isso mesmo? Sim. Refiro-me a impedir a nossa própria crise. Precisamos aprender com os erros que outros países cometeram no passado: hiperinflação, crises fiscais e décadas perdidas, por exemplo. Como a crise européia está afetando a economia chinesa? No longo prazo, essa crise é uma ótima lição para a China. Se os países europeus estão enfrentando problemas de financiamento, um país em desenvolvimento como a China precisa ser muito cuidadoso. Estamos começando a construir uma rede de proteção social e devemos ter cuidado com a dívida pública. Precisamos prestar atenção principalmente nos governos locais, que não são entidades com responsabilidade fiscal legal. Isso faz com que eles tentem emprestar o máximo possível, mas não se preocupem tanto em receber o dinheiro de volta. Afinal, o governante sabe que será enviado para outra região em cinco anos.A crise europeia resultou numa desaceleração global, mas o impacto não foi tão forte porque o mundo mudou. Hoje, os paises emergentes respondem por 50% do PIB mundial e por 70% a 80% do crescimento. O mundo não é mais só Europa e Estados Unidos. Asexportações chinesas cresceram 15% em maio. Em junho, 11%.Não são os 25% de anos anteriores, mas ainda é um crescimento de 2 dígitos. Quanto tempo o senhor acha que a crise na Europa e nos Estados Unidos ainda deve durar? Acho que de três a cinco anos. Nos Estados Unidos, falam em dez anos. Na Europa, falam em 15.Para mim, será mais rápido do que isso.Seráum tempo de estagnação. Qual é o maior desafio da China na atualidade? Certamente é a desigualdade social. E esse é um problema político. Como reduzir essa desigualdade? Temos de continuar crescendo e também temos de construir uma rede de proteção social, que ainda está no início. A maioria da força de trabalho chinesa ainda não tem direito à aposentadoria. Até pouco tempo atrás, apenas a população urbana podia ter esse direito. Ocorre que os migrantes rurais foram trabalhar nas fábricas das cidades, mas continuaram com status de cidadãos rurais. O governo está unificando o programa agora. Em alguns anos, o trabalhador poderá viver numa cidade e pedir o benefício em outra. É um avanço gradual. Hoje, cerca de 40% da população no meio urbano é coberta pelo programa de aposentadorias. Recentemente, o governo criou um programa para a zona rural que cobre 60% da população dessa área. Metade é financiada pelo governo central e a outra pelos indivíduos. As aposentadorias rurais pagam o equivalente a 1000 dólares ao ano e as urbanas ficam, na média, em tomo de 3000. Quando a China chegará ao padrão de vida de um país desenvolvido? Em algumas cidades, em 20 anos as pessoas viverão como europeus ou americanos. Mas o país é vasto, cheio de lugares pobres, cidades pequenas. Devemos demorar uns 50 ou 60 anos para termos um padrão americano ou europeu em toda a China. Na zona rural, a renda média chinesa é de 3000 dólares ao ano. Nas urbanas. chega-se a 10000 dólares. A disparidade é muito grande. Saber disso é fundamental para entender a China. A população chinesa mostra sinais de insatisfação? Éda natureza humana nunca se sentir completamente satisfeito. Na China, as pessoas falam muito dos problemas. Porém, se você perguntar se elas têm boas expectativas para o futuro, a maioria dirá que sim. A China teve a maior pontuação nesse quesito em uma recente pesquisa internacional. Os chineses entendem que a vída está melhor. Mesmo a população rural, que ainda é pobre. tem a expectativa de conseguir um trabalho melhor para si e para o filho ou a filha. o senhor acha que há espaço para o comunismo diante do individualismo crescente na China? Não sei se as novas gerações se preocupam muito com a igualdade de oportunidades. Hoje, a China está indo na direção de uma economia de mercado. As pessoas do Partido Comunista diriam que estamos num estágio inicial do socialismo. Como na teoria: socialismo primeiro, comunismo depois. osenhor acredita nisso? Não estudo muito esse tipo de assunto. Acredito nos seres humanos. Acredito que é preciso desenvolver um modelo em que as coisas funcionem. Buscar eficiência, tecnologia, educação, incentivos para que as pessoas trabalhem duro. Mas é preciso evitar disparidades sociais muito grandes. Há quem tema que a China se tome uma superpotência e queira lutar por recursos naturais que lhe faltam. O que o senhor acha disso? Nã ocompro essa ideia.Como conseguimos, hoje, os recursos que precisamos? Comprando. Já estamos acostumados com esse processo pacífico.Levaremos uns 60 anos para rivalizar com os Estados Unidos. Até lá, estaremos mais acostumados com esse processo. Mesmo que tenha poderio militar, é improvável que a China tenha de usá-lo.

 

A BRIGA QUE PARALISOU A EUROPA

PRIMEIRA –TRIIVISTA Que o ITALIANO MARIODraghi deu ao tablóide Bild, de Berlim, como presidente do Banco Central Europeu (BCE), em março, começou com uma pergunta capciosa. Para os alemães, disse o editor do jornal, um bom banqueiro precisa seguir rigorosamente a cartilha do combate à inflação, assegurar sua independência e favorecer a força da moeda. Logo após essa breve introdução, disparou: “Quão alemão o senhor é?”. Sem pestanejar, Draghi respondeu: “Essas são. virtudes germânicas, mas todo banqueiro central da zona do euro deveria tê-las”. A declaração soou como música aos ouvidos de Jens Weidmann, o ortodoxo presidente do Bundesbank, o banco central alemão. Para que Draghi não se esquecesse do que havia dito, os editores do Bild, cheios de graça,opresentearam comumpickelhaube, capacete tradicional do Exército prussiano no século 19.Essa lua de mel. No entanto, durou pouco. No final de julho, Draghi escandalizou muitos alemães ao dizer que faria “E que fosse preciso” para preservar o euro, frase interpretada como o prenúncio de uma compra massiva de títulos públicos emitidos por países europeus à beira do colapso financeiro. Para conseguir atrair investidores, os governos de Espanha e Itália têm sido obrigados a oferecer juros perigosamente próximos, ou até superiores, à marca de 7% – nível considerado insustentável, que precedeu os resgates da Grécia e de Portugal. A lógica de fendida por Draghi é fazer o BCE comprar esses papéis, o que forçaria as taxas para baixo. OBild, sempre com humor, logo traduziu a insatisfação alemã numa manchete: “Chega de dinheiro alemão para Estados falidos, Herr Draghi!”. No texto da reportagem, um recado: “Queremos nosso capacete de volta!”.Weidmann também não deixou Draghi sem resposta. Em uma entrevista publicada no site do Bundesbank, no começo de agosto, Weidmann elevou o  tom: “Somos o maior e mais importante dos bancos centrais do euro. Temos mais voz do que os outros”. A visão conservadora de Weidmann é uma característica tão largamente conhecida que um ex-chefe seu costuma dizer que “ele bebeu política monetária no leite da mãe”. Para Weidmann, as propostas de Draghi estão mais para o financiamento de países – em grande parte, com dinheiro alemão – do que para política monetária. Na tentativa de reduzir as críticas mais ortodoxas, Draghi, mesmo sem dar detalhes, já sinalizou que qualquer compra de titulos estará condicionada a um pedido formal de resgate dos paises. Mais que uma formalidade, essa é uma maneira de assegurar que os governos se disponham a fazer ajustes fiscais. Grosso modo, essa imposição é a principal diferença em relação às compras de títulos realizadas pelo BCE a partir de 2010, que também receberam uma saraivada de críticas da Alemanha. A discordância entre Draghi e Weidmann, que invariavelmente freia a adoção de medidas consideradas cada  vez mais cruciais para a sobrevivência do euro, tem como pano de fundo uma discussão que ultrapassa as fronteiras europeias: qual é, afinal, o limite da atuação dos bancos centrais? Acrise global iniciada com a-quebra do banco Lehman Brothers impeliu as autoridades monetárias do mundo a ampliar seu raio de atuação para além do controle da inflação, no qual se focaram desde fins do século passado. Também as obrigou a usar armas mais potentes do que a calibragem das taxas de juro, até então o principal componente de seu arsenal. “Os bancos centrais têm cada vez mais retornado às origens, reforçando seu papel de emprestadores de última instância e de garantidores da estabilidade.financeira”, afirma David Green, que passou 30 anos no banco central inglês antes de escrever o livro Banking on the Future: The Fall and Rise of Central Banking (“Banco do futuro: a queda e a ascensão dos bancos centrais”, numa tradução livre). Tanto o BCE como o Fed, sigla do banco central americano, lançaram novas linhas de crédito e encheram seus cofres com títulos públicos e papéis privados. Com isso, despejaram trilhões de dólares na economia e viram o volume de seus ativos ser multiplicado por 5 na comparação com os anos 90. “Os bancos centrais precisaram adotar um foco multidimensional, olhando para o funcionamento mais amplo da economia”, defendeBarry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia. MUITO OU POUCO  Nos Estados Unidos, onde zelar pelo emprego também é função formal do banco central, Ben Bernanke, presidente do Fed, surpreendeu pelo uso agressivo do seu poder de fogo. A taxa de juro americana é mantida em quase zero desde 2008, algo sem precedentes no pais. Só com a compra de papéis lastreados em hipotecas e outros créditos podres, o Fed gastou mais de 1trilhão  de dólares. Embora seja reconhecido por ter evitado uma crise ainda pior, Bernanke é alvo de críticas de todos os lados. Para os economistas mais à esquerda, o presidente é o “revolucionário relutante”, por se recusar a dar mais estímulos a uma economia cambaleante. Na visão dos mais liberais, Bernanke vai trazer de volta os tempos de ração alta da década de 70. “O Fed já ultrapassou seu mandato há a; muito tempo”, diz Alan Meltzer, professor da Universidade Carnegie Mellon e um dos maiores estudiosos do banco central americano. Numa audiência no Congresso há dois meses, Bernanke fez um desabafo: ”A política monetária não é uma panaceia. Me sentiria mais confortável se o Congresso tomasse de nós um pouco dessa carga”. Para o Fed, novas decisões em áreas como a fiscal exigiriam um esforço menor da autoridade monetária. Protestos à parte, inércia dos governos continua imperando nos dois lados do Atlântico. Por isso, apesar das lamentações, a pressão sobre os bancos centrais não deve parar tão cedo.

 

MENORES E MAIS BARATOS

As vendas de automóveis nos Estados Unidos encerraram o período entre janeiro e julho no melhor patamar desde 2008, ano da quebra do banco Lehman Brothers. O resultado foi impulsionado – quem diria – pelo bom desempenho das vendas de automóveis pequenos e médios, que cresceram 18% e 22%, respectivamente, bem acima dos 13% do mercado como um todo. A paixão dos americanos pelos carrões, como picapes e utilitários esportivos, arrefeceu por causa da crise. O preço mais alto da gasolina também contribuiu para a mudança no perfil das vendas no mercado americano. Em junho. quando a GM reportou alta de 15% nas vendas, a companhia atribuiu boa parte do resultado às vendas do sub compacto  Chevrolet Sonic, que também é comercializado  no Brasil. A previsão da indústria americana é que sejam vendidos 14 milhões de veículos neste ano. Apesar de ser um resultado expressivo, quase quatro vezes o total vendido pelo Brasil no ano passado, ainda seguirá bem abaixo da máxima histórica de 17,4 milhões de unidades, registrada em 2005.

O FUNIL DA SELEÇAO

Atualmente, os programas detrainee mais concorridos do país chegam a reunir 40000 candidatos. Diante dessa concorrência, ser aprovado para uma das poucas dezenas de vagas disponíveis . Parece missão quase impossível, principalmente quando não se está familiarizado com as etapas dessa mega seleção e quando não se sabe quais os critérios usados na avaliação. Pensando nisso, a VOCE S/A decidiu detalhar as três grandes etapas do processo seletivo: online, presencial de triagem e presencial final. Consultores que participam desses exames também deram dicas sobre o que costuma ser levado em conta para ranquear os candidatos. É informações valiosas para você superar seus concorrentes . ONLINE Na etapa online,os candidatos são submetidos a testes de inglês, português, raciocínio lógico e atualidades. A fase se estende por até dois meses. Porém, as provas podem ser realizadas num mesmo dia, se o candidato assim preferir. Esta tapa está ficando mais longa, pois muitos recrutadores têm aproveitado para analisar características comportamentais de seus candidatos já nessa fase. Na fabricante de cosmética Natura, a duração da avaliação online passou de uma para oito semanas. Ao longo de dois meses, o candidato a traínee desenvolve uma série de atividades no meio virtual, como contar sua história em ciclos de sete anos, opinar sobre vídeos postados pela companhia e responder a questionários pelos quais a empresa analisa seus valores e características comportamentais por meio da busca de palavras-chaves associadas a diferentes perfis de personalidade; Os jovens também participam da apresentação de cases na etapa online, nos quais os recrutadores avaliam a habilidade de trabalhar em.equipe e como funciona o processo de tomada de decisão dos concorrentes. No programa de trainee da Kraft & Foods, do setor de alimentos, foi criada uma plataforma digital que simula uma rede social, na qual os participantes realizam atividades em que se avalia seu grau de adesão aos valores da empresa. Para a organização desses programas, as novas ferramentas virtuais!Permitem conhecer características comportamentais do jovem antes das .etapas presenciais. E Muitos candidatos não costumam dar a devida importância às atividades online por pensar que elas não são decisivas. Mas as consultorias que trabalham na organização desses processos lembram que a etapa online elimina entre 90% e 99% dos candidatos. Por isso, a primeira dica para se sair bem nela é participar de todas as atividades propostas, já que cada uma delas pode contar pontos a seu favor. “Juntamos o resultado dos testes online, dos questionários e dos games e montamos um ranking para definir os candidatos que passa tão para.a próxima fase”, explica Renata Magliocca, gerente de inovação da Cia de Talentos, empresa especializada no recrutamento de trainees. Para conseguir o .melhor.desempenho, a orientação é planejar a execução das tarefas propostas. “Se for pedido que poste um vídeo, não deixe para produzi-lo na última hora, o que provavelmente vai comprometer a qualidade do material”, aconselha Eline Kullock,presidente do grupo Foco, consultoria de recrutamento. “Os chats com gestores da empresa são uma boa oportunidade para se mostrar. Mas faça comentários Objetivos,não faça várias perguntas numa só. Lembre-se que essas ferramentas podem chamar a atenção para você positiva ou negativamente diz Eline Kullock, Para Renata, da Cia de Talentos, é possível se preparar para os testes online de modo a conseguir os melhores resultados. “Em alguns programas, entre o fim da fase de inscrição e a abertura das provas .onlíne, há um prazo de um mês. Aproveite esse tempo para revisar seus conhecimentos em inglês e pesquisar na internet testes de raciocínio lógico para ter noção do que é pedido nas questões. “Nas bancas de jornais, também dá para comprar revistinhas com desafios matemáticos, que podem ajudar bastante”, sugere Renata Magliocca. “Há candidatos que aproveitam esse tempo para pegar aulas de matemática e raciocínio lógico, e isso é válido, sim”, acrescenta.  Chega à primeira etapa presencial 1%dos candidatos, mas só um décimo deles será aprovado para a fase seguinte. Aqui, o filtro usado para selecionar os candidatos serão as dinâmicas de grupo. “Normalmente, trata-se de uma atividade que já aborda o negócio da empresa, mas de forma Iüdíca”, diz Renata Magliocca. Para a especialista, nesse tipo de atividade o mais importante é ter uma atitude colaborativa, ajudando o grupo a chegar ao resultado. “Você não precisa necessariamente ser o mais falante nem ser extrovertido. Existem várias formas de colaborar – apresentando o trabalho, organizando o grupo na divisão das tareias, controlando o tempo ou trazendo o grupo para o foco quando as pessoas começam a se dispersar. É preciso que você tenha algum papel no grupo, ou o consultor não terá como avaliá-lo”, orienta Renata. Ainda nessa etapa é possível que ocorra uma entrevista com os consultores de RH envolvidos na seleção.Prepare-se para essa entrevista recordando situações vividas por você que ilustrem suas qualidades e pontos fortes. Certamente, os avaliadores pedirão exemplos que demonstrem que você realmente tem as competências. que diz ter. Jamais minta, pois você será eliminado. Apenas 0,1%dos candidatos inscritos chega à etapa final, na qual passarão pelo painel de negócios e pela entrevista com a diretoria. Nessa etapa, o candidato é avaliado por gestores da companhia, por íss({é importante que mostre estar.familiarizado com o negócio e “com o mercado da organização. Na etapa final, à qual chegam candidatos com currículos e perfis parecidos, estar mais bem informado sobre a companhia e seu negócio faz a diferença. “É interessante que os gestores sintam que você fala do negócio como se já trabalhasse na organização”, diz Renata Magliocca, da Cia de Talentos. Para o painel de negócios, uma dica é treinar apresentações  diante de amigos e colegas. “Prepare se para falar em público e para reagir às críticas, argumentando de forma consistente. Os gestores vão tentar colocá-lo na parede para saber como você se comporta sob pressão. No caso da entrevista, mais uma vez será necessário ter em mente um bom estoque de exemplos para responder às perguntas dos recrutadores. Tenha na ponta da língua exemplos de um projeto que você coordenou e de obstáculos que teve de superar . para conquistar algo que desejava. São casos que, se bem expostos, contarão a seu favor

 

VELOCIDADE MAxiMA

Quando concluiu seu programa de trainee na Telefônica Vivo, em dezembro do ano passado, o publicitário paulista Eduardo Cozer, de 25 anos, assumiu o posto de analista pleno.

Apenas seis meses depois, em junho deste ano, ele foi promovido a analista sênior da área de controle de gestão da empresa de telefonia. A rápida promoção do publicitário, cuja experiência antes do trainee se limitava a alguns estágios e a uma passagem por uma organização júníor, aconteceu como resultado de um treinamento que a Telefônica Vivo faz para acelerar O amadurecimento dos jovens. A ideia é tornar ainda mais rápido o período de aprendizado desse pessoal, fazendo com que as pessoas tenham bom desempenho no trabalho já no primeiro ano. Esse procedimento está se tornado mais comum em grandes corporações. A Telefônica Vivo iniciou o programa com essa configuração há três anos. Além do tradicional job rotation, os jovens cursam pós-graduação em gestão de negócios, com ênfase em telecom, na Escola Superior de Propaganda e Marketing CESPM),em São Paulo. Após é paga pela companhia. Eles também podem passar por um módulo internacional, que envolve uma temporada de estudos no exterior, aliado experiência de trabalho num dos escritórios Da. América Latina ou da Espanha. “Nosso objetivo é reduzir o tempo para que eles se sintam prontos para começar a agregar valor à empresa”, diz Carolina Gil, gerente de desenvolvimento e gestão de talentos da Telefônica Vivo. A telefônica recruta, em medida, 30jovens por ano e todos eles são enviados ao curso na ESPM. O amadurecimento emocional dessa galera também é trabalhado .no processo, tendo como base um assessment, que mapeia as principais características emocionais que eles precisam desenvolver. Ao longo  do programa, que tem duração de um ano, eles recebem feedback constante do gestor e passam por sessões de coachíng, que no dia a dia é dado pelo gestor. “Percebemos que o sucesso de um trainee depende muito da qualidade da relação que ele tem com seu líder. Por isso, hoje temos uma preocupação em preparar também os líderes sobre como fazer a gestão do desempenho e como lidar com a geração mais jovem, desafiando-a”, diz Carolina. A interação entre os gestores e os trainees se dá em encontros Promovidos pela companhia. Nessas ocasiões, um consultor orienta sobre o papel dos lideres e dos jovens. As iniciativas de liberação- são tendência,atualmente, -entre os programas de trainees, motivadas, principalmente, por dois fatores. O primeiro é a necessidade de formar lideranças em ritmo rápido, acompanhando o crescimento da economia nacional e a expansão das multinacionais instaladas no país, que tem priorizado os investimentos • mercados emergentes em

no brasileiro – diante do 8.balo provocado pela crise econômica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson &Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30 jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. mica internacional na Europa e nos Estados Unidos. O segundo motivo é a necessidade ~ lidar com a suposta imaturidade demonstrada pela Geração Y (pessoas nascidas a partir de 1980). De acordo com Martha Magalhães, consultora de desenvolvimento da DMRH, consultoria de serviços de RH, de São Paulo, pelo menos um terço das grandes empresas com programas de trainee no Brasil já incluiu ferramentas de aceleração em sua estratégia. “É uma forma de fazer com que o potencial que os trainees representam se converta mais rápido em realidade”, diz Martha. Outra companhia que vem adotando iniciativas do gênero é a gigante de bens de consumo Johnson & Johnson (J&J), que prefere usar a expressão desenvolvimento, em vez de aceleração, para descrever as ferramentas que incluiu nas duas últimas edições de seu programa de trainee. Ao longo da formação, que tem duração ‘de dois anos, é promovido o amadurecimento profissional dos 30jovens por meio da Academia de Desenvolvimento. O programa é dividido em três módulos – cada um com duração de uma semana – e fornece uma capacitação intensiva em temas como visão estratégica, comunicação e negociação, finanças no meio corporativo, tendências macroeconômicas e técnicas de apresentação, etapa durante a qual os jovens chegam a ser filmados para aperfeiçoar seu desempenho. “Ao fim do módulo, eles participam de um business game, no qual simulamos uma situação em que precisarão aplicar tudo me aprenderam”, conta Sônia Marques, diretora de RH da organização. Os trainees também recebem formação em processos de RH, como contratação, políticas de remuneração e desenvolvimento de carreira. “Nossa.expectativa é de que eles venham a gerir equipes e, por isso, precisam estar preparados para lidar com essas questões práticas”, afirma Sônia. Outra novidade é que,além do tradicional rodízio entre as áreas, o trainee também ‘tem a chance de passar parte do programa fora da matriz,em outras unidades da J&J em Recife, Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Na J&J, o amadurecimento emocional dos jovens é trabalhado em sessões de eoachíng realizadas a cada dois meses e também por meio de eventos, como o Superando Limites -uma semana durante a qual os. trainees são testados em desafios envolvendo esportes radicais, como arvorismo, ou trabalhos voluntários. Em uma das provas, por exemplo, há o desafio de construir uma jangada para recuperar’ bandeiras fincadas no meio de um lago -.: o que exige competências como liderança, trabalho em equipe e persistência. “É uma grande experiência de autoconhecimento, em ,’,que 9S jovens descobrirão come lidam. com questões como insegurança e frustração e avaliarão sua resistência”,diz Sônia Marques. BONS RESuLTADOS Um.sinal dos bons resultados colhidos pela J&J a partir dessa abordagem é o desenvolvimento acelerado do ex-trainee Victor Vendramíni, de 26 anos. Durante o programa, concluído em novembro de 2011, ele desenvolveu a estratégia de marketíng digital da marca Johnson’s Baby. O sucesso do projeto foi tão grande que Victor foi encarregado do marketing digital de todas marcas da empresa no Brasil. {jffi cargo até então inexistente ~ () de assistente sênior’ de marketing digital – foi criado especialmente para ele, que hoje já e gestor  de outras duas pessoas. E não é só. Como a Johnson & Johnson é patrocinadora oficial da Gopa de 2014, Victor será o responsável  por liderar a estratégia de marketing.digital da multinacional para <> evento. Formado em administração de empresas com ênfase em agroaegos,.Vitor atribui o sucesso de sEm-desempenho aos treinamentos em  Iíderança  capacitações e ao feedback recebidos durante o traínee, “O programa me deu as ferramentas necessárias para que eu mesmo abra os’ caminhos para o meu crescimento profissional”, diz oa exemplo. de Victor não é um case iso.lado. Segundo a direção de RH da J&J, desde que as

ferramentas, de desenvolvimento foram implantadas,em 2008, o índice de retenção de ex-trainees é de 95% – 40% da população formada nas duas últimas edições do programa já ocupa postos gerenciais na companhia. O programa trainee da incorporadora Brookfíeld, lançado em novembro do ano passado, já foi concebido de forma a favorecer a aceleração do desenvolvimento e o amadurecimento dos jovens. Para isso, em vez da tradicional apresentação. de um projeto conclusão ao.fim do programa, os trainees têm de entregar projetos menores bimestralmente. Comissão, a cada dois meses eles são avaliados pelo gestor da área em que atuam, por

um coach e pelo. RH da empresa. “A intensidade desse acompanhamento faz toda a diferença, porque as orientações constantes permitem ao profissional ajustar a rota ao longo do Processo. e alcançara atitude e o desempenho adequados mais- cede”, diz Lygia Villar, diretora deRH da Brookfield. Além de workShops realizados a cada dois meses, nos quais são simuladas situações vividas no dia a dia da corporação.,. os trainees também têm! Ao fim do programa, uma apresentação:inglês .diante  membros do.conselho de administração. Da multinacional,sediada no Canadá.Graças ao autoconhecimento. Adquirido durante o processo, os jovens já concluem o programa com maior clareza sopre as áreas em que querem atuar e sobre o que precisam desenvolver para chegar aonde querem”, diz Martha Magalhães, da consultoria DMRH, de São Paulo.

 

CARREIRA DE· ESPECIALISTA

E cada vez maior o número de organizações que estão cria não programas de trainee para as áreas técnicas. É o caso, por exemplo, da  cervejaria Ambe”, que,além do trainee convencional – generalista, voltado para a formação dos futuros líderes -, realizar trainee industrial. O objetivo do programa, que recruta profissionais egressos “dos cursos de engenharia, química, farmácia, agronomia, biologia, ciências da alimentação e biotecnologia, é treinar seus futuros gerentes de meio ambiente, de qualidade, de processos e de engenharia, além de mestres cervejeiros, profissionais responsáveis por supervisionar todo o processo de fabricação da cerveja, de acordo com os padrões de qualidade da empresa. A criação do trainee industrial, há três anos, é reflexo da expansão dos negócios. “Decidimos abrir novas fábricas nos últimos anos e havia necessidade de líderes para área industrial”, explica Daníel.Cócenzo, gerente de gente e gestão. Um dos que optaram pelo traírtee industrial da Ambev foi o engenheiro químico carioca Marcelo Mansur, de 24 anos. Ele conta que chegou a ler a descrição. dos dois programas ,:- convencional industrial e acabou se decidindo pelo industrial” pela possibilidade de conciliar a visão global do negócio com o aprofundamento na área técnica. Isso porque o formato do programa prevê cinco meses de imersão no negócio e na cultura da AriIbev por meio do conhecimento das Urtidáâes fabris, centros de distribuição e área de vendas e de treinamento esta sede da companhia, meses dedicados a conhecer todo o processo de fabricação da cerveja. “O trainee industrial me proporciona todas as vantagens do trainee administrativo e ainda reserva um tempo para o aprendizado sobre o produto que fabricamos, desde a fase da chegada do caminhão de malte até o engarrafamento da cerveja, diz Marce19.Neste ano, ele foi aprovado em seleção interna para o curso de mestre cervejeiro. “É uma formação que me propicia supervisionar todo o processo de produção sob a óptica da eficiência e da redução de custos, e me gabarita como responsável técnico de uma fábrica”, conta Marcelo Quem também não se arrepende da escolha feita é o ex-trainee da América Latina Logística (ALL) Luciano Johnson Neves, de 30 anos, hoje no posto de superintendente de manutenção de vias permanentes da empresa, maior operadora logística da América Latina. Desde a conclusão, em 2006, do Programa Engenheiro – programa de trainee da ALL voltado para a carreira técnica -, ele foi promovido anualmente e hoje é o executivo responsável por toda a malha viária da companhia no país. Luciano explica  que os profissionais que optam por essa modalidade de programa recebem uma pós-graduação em sistemas de infraestrutura logística ferroviária, o que os torna profissionais valorizados no mercado, já que não há graduação em engenharia ferroviária no Brasil. Além da pós-graduação, o trainee de 12 meses inclui o desenvolvimento em competências gerenciais, licte;ança e metodologia Seis Sigma. “Ao combinar a formação executiva com o conhecimento técnico, nossa cotação,. See leva,já que a oferta de profissionais da nossa área é muito restrita”, explica Luciano. “É mais fácil substituir um executivo do que .um profissional com o nosso perfil”, opina o superintendente. Por isso mesmo, a política de remuneração, bônus e promoções vigente na ALL para a carreira executiva é exatamente a mesma para quem opta pela carreira técnica. A SELE(,’ÃO Os programas de traínee para especialistas foram criados inicialmente para garantir o amplo recrutamento e a capacitação de mão de obra em empresas cujo negócio depende de profissionais altamente especializados. É o caso da Mineração Usíminas, cujo programa Jovens Engenheiros recruta graduados em engenharia de minas, mecânica, mecatrônica, metalúrgica, civil e ambiental, além de geólogos, para atuar na área de mineração. A. seleção para esses programase costuma ser semelhante à dos trainees convencionais, com testes online de raciocínio lógico e inglês, dinâmica de grupo e entrevista com o RH e gestores. Porém, o formato do programa difere um pouco dos trainees tradicionais – ele é dividido em dois eixos principais.: a realização de um curso de aperfeiçoamento técnico ou de pós-graduação e um módulo em habilidades gerenciais e estratégia do negócio. No Trainee Expert da Oi, por exemplo, voltado para a área de tecnologia, o programa inclui uma PÓS”graduação em engenharia de redes e a rotação por várias áreas do negócio e suporte na parte comportamental. “Ao final do traínee, não serei só u profissional técnico, mas um profissional completo, apto a atuar como especialista ou como gestor de uma “, acredita Tobias Leal, de 24 anos,tecnólogo em redes de computação e trainee expert da Oi. Mas as oportunidades dos traínees não executivos não estão restritas aos graduados em exatas ou tecnologia. Na área da saúde, por exemplo, já existem programas do gênero. É o caso do Trainee Enfermeiro, da rede de hospitais São Camilo, de São Paulo. Desde março deste ano foram iniciadas as atividades da primeira turma, que conta com 28 treinees. Uma das que optaram pelo programa foi a enfermeira Débora Díniz, de 30 anos, de São Paulo. Graduada em 2011, ela acredita que o programa é uma porta privilegiada de acesso ao primeiro emprego na área. “Na minha carreira, é difícil ingressar no mercado de trabalho sem experiência anterior. Ao aprimorar as minhas competências e me proporcionar a possibilidade de realizar um  .trabalho supervisionada por profissionais mais experientes, ganho. Segurança para o exercicio da profissão, que é de uma enorme responsabilidade porque trabalhamos com vidas”, diz Débora. Além do treinamento científico, o programa também prevê a passagem dos trainees pelos diversos setores  do hospital, de modo que os jovens conheçam as rotinas, o fluxo de trabalho e os processos de todos os departamentos. “Essa formação nos prepara para, um dia, vir a assumir postos-chaves e posições estratégicas no hospital”, afirma Débora:’ Outro exemplo de trainee não executivo é o Trainee Social Cultural Itaú Unibanco. O programa recruta profissionais de carreiras como administração pública, arquitetura, ciências sociais, artes cênicas, serviço social, filosofia e pedagogia para atuar no Instituto Itaú Cultural, no Instituto Unibanco e na Fundação Itaú Social, em projetos de responsabilidade social. Kássia Beatriz Bobadilla, de 23 anos, graduada em gestão de políticas públicas, é trainee social do ltaú Uníbanco desde julho do ano passado. Alocada na área de planejamento estratégico do Instituto Unibanco, Kássia tem a missão de profissionalizar a gestão dos projetos da instituição no Terceiro se.”O trainee me deu a possibilidade de continuar fazendo o que amo, mas sendo valorizada profissionalmente”, diz. Segundo Josué Bressani Júnior, diretor-presidente da Ge.mte Consultoria, especializada em serviços de RR, como a função maior dos trainees não administrativos é a prospecção e a formação de mão de obra especializada, o fator idade não é tão decisivo nesses programas, ampliando a possibilidade de admissão para profissionais com certa experiência. Para Josué, outra vantagem desses programas é permitir ao trainee atuar. tanto na carreira técnica quanto como gestor. “Teoricamente, ele ingressa para atuar e como especialista, mas, se tiver perfil dele e vir a se tornar gestor ou executivo”,diz. “Todos os trainees contratados são selecionados tendo a expectativa de que se tomem futuros dirigentes. Independentemente de a porta de entrada ser uma função técnica, como engenheiro QU agrônomo”, afirma Gilbert6~ diretor de desenvolvimento humano e organizacional da Votorantim,  que está com as Inscrições  abertas para seus programas de trainee corporativo e especialista.

 

NO FINAL, O DESAFIO DA Gerência

Depois do trainee, o jovem tem de encarar a hora da verdade, quando ele assume a posição de supervisor ou gerente  posições de liderança em que ele terá de justificar até três anos de formação e investimento. É o início da vida real no mundo corporativo. O maior desafio nessa transição é mudar o jeito de pensar. Até esse momento, os trainees são avaliados pelo desempenho individual “Com a promoção a gerente, eles serão medidos pela habilidade em gerir pessoas e obter resultados ~ que só vão aparecer mesmo se o jovem conseguir integrar a equipe e colocar todo mundo na mesma sintonia”, diz Vivian Dib, sócia-gerente da Asap, consultoria de São Paulo, especializada em recrutamento de jovens para posições gerenciais. “Um bom gerente precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar U]J\cargo de chefia depois de um programa  de trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe”, diz Maurício Teixeira, ex-trainee da extinta Telemar e atual diretor  financeiro- da Sascar, empresa de amento de frota; de São Paul6.Para isso.é preciso se conhecer bem, para entender os pontos fortes e fracos, e ter maturidade para comandar os subordinados. “O gerente precisa filtrar as é cobranças que ~ para não pressionar demais sua equipe”, diz Vivian. Para aliviar a pressão, Majorei Dias, gerente interna da fabricante de computadores Deu, distribui  as tarefas que recebe do chefe para os funcionários de sua equipe. É uma solução simples, mas que muito chefe novo demora a colocar em prática, com medo de que os subordinados não executem a função tão bem quanto ele faria. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso  deixá a equipe motivada”, diz Majorei: A seguir, você vai conhecer as histórias de jovens que assumiram a posição de gerente após ter saído do prograrna.de trainee.  Essa turma tem valiosas lições para compartilhar com você.

OLHO NA TURMA

Rodrigo cavaleiro tem apenas 28 anos e é coordenador da Central de Operações da Simpress, empresa especializada em Business Proces Outsourcing (BPO, ou “terceirização de processos do negócio”) de documentos. Atualmente, estão sob sua responsabilidade 1 200 contratos ativos. Apesar do bem-sucedido período como trainee em 2011, Rodrigo não conta com os êxitos do passado. “O que me trouxe até aqui não é o que vai me manter nessa posição”, diz. “É preciso progredir.” Rodrigo compensa a pressão se mantendo consciente de que, a despeito do cotidiano corrido, estar na posição atual é o resultado de uma guinada em sua vida profissional, exatamente como sonhava. Formado em engenharia elétrica, atuou por uma década na área técnica em uma empresa de telecomunicações, até que sentiu necessidade de trabalhar mais diretamente com pessoas. ”Tem sido complexo, mas sinto que aprendo a cada dia.” O coordenador tem 25 subordinados. “Tento fazer com que pensem sobre a carreira dois anos adiante – e eu gosto de ajudá-los nesse planejamento.”

 

PERFIL IDEAL

“O que os gestores buscam nos jovens candidatos a líder Queremos gente que trabalhe com paixão e tenha pretensão de deixar um legado.” Eduardo Feres,diretor comercial da ALL, que começou como trainee e passou por seis cargos em nove anos até chegar à diretoria. ‘-‘- Esperamos que esse profissional traga oxigênio para a empresa. Que saiba combinar conhecimento técnico e habilidade para lidar com pessoas com uma visão moderna de tecnologia.” Paulo The ophiLo, diretor de marketing da Simpress, que estreou seu programa de trainee há dois anos. ‘- ‘- Um bom gerente  precisa ter credibilidade. Muitas vezes, ao ocupar um cargo de chefia depois de um programa de  trainee, o profissional pode enfrentar resistência e vai precisar conquistar a confiança da equipe, dos pares e dos superiores.” Maurício Teixeira, diretor financeira  da Sascar, empresa de monitoramento defr&ta, que lançou seu primeiro programa de trame» em 2011. Maurício começou a carreira como trainee na antiga telefônica Telemar

CABECA DE DONO

Majorei Dias, gerente interna de vendas da Del~ de 33 anos, assumi  a função em 2010, depois do programa de trainee na área de vendas.  “A grande mudança é o aumento de responsabilidade, agora dependendo de outras pessoas para entregar resultado.·A estratégia da gerente é enxergar o negócio com cabeça de dono e encarar as cobranças como parte natural do processo. Para aliviar a pressão, Marjorie também distribui o  trabalho, delegando tarefas para a equipe. “Além de evitar que eu fique sobrecarregada, isso deixa a equipe motivada, envolvida, por se sentir parte do sucesso da empresa

FÉ NO QUE FAZ

A biôloga lnis Francke, de 29 anos, gerente científica da fabricante de cosméticos Natura, saiu do trainee para se tornar lr derde uma área de pesquisa. E La trabalha em contato com universidades em busca de novas ideias e tecnologias. Para Inês, o mais importante é acreditar nos valores da empresa e praticá-los no dia a dia. ·0 Ifder é uma referência e tem de dar o exemplo”, diz-,Segundo e ta, mantendo-se fiel aos próprios valores e acreditando  nos propósitos da empresa, facil trabalhar com o time.

FOCO E ORGANIZAÇÃO

Débora Carvalho chegou aos 30 anos como coordenadora e compras da Kraft Foods, dona de marcas como Lacta, Tang, Club Social e Halts. Na função desde 2010, ela acaba de ter suas responsabilidades ampliadas – do Brasil para a América Latina Para manter a sanidade, Débora tenta ser muito organizada. “Mantenho um planejamento semanal. de atividades, sempre alinhado com a direção e a minha equipe”, diz. “Manter o foco pontual em cada prioridade me ajuda a trabalhar com equilíbrio.· No mais, atividade física: spinning e ginástica três vezes por semana

 

É HORADE SE INSCREVER!

número de vagas oferecidas  em programas de trainees não para de crescer. Em 2011, um levantamento feito pela Cia de Talentos, que assessora as maiores empresas no Brasil a selecionar seus jovens talentos, detectou um aumento de 133% na quantidade de vagas abertas. No ano anterior, esse número já havia se elevado em 74%. Para efeito de comparação, em 2011 as oportunidades para estágio cresceram apenas 20%. Com mais companhias disputando os jovens mais qualificados formados pelas faculdades brasileiras, as empresas têm tido de se empenhar para atrair a atenção dos candidatos. Uma estratégia na briga para prevalecer na memória e na preferência Dos loveIlS é aproximá-los de líderes e de outros profissionais da organização. Isso porque as pesquisas indicam que 22% dessa moçada opta por uma empresa após conhecer um profissional  que atua ou já atuou nela – e recomenda a companhia como um bom lugar para trabalhar. Atenta a . esses dados, a organização do prol@made trainees 2013 da Cielo, que processa pagamentos eletrônicos, permite aos candidatos interagir e participar de video chats com líderes e ex-trainees para conhecer melhor os valores, as pessoas e os negócios da companhia. Mas as táticas para seduzir e atrair os melhores não param por aí. Uma pesquisa realizada pela consultoria de recrutamento Page Talent, de São Paulo, com 150 profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro com idade entre 20 e 29 anos mostra que para 44,1% deles um bom salário é o principal atrativo para trocarem de emprego. Por isso, as empresas também têm trabalhado com uma política agressiva de remuneração e benefícios, como se pode conferir nas páginas seguintes. Um levantamento da Cia de Talentos mostra que as perspectivas de crescimento profissional pesam na escolha de 58% dos candidatos, 6’q!le explica as oportunidades de investimento na carreira por meio de capacitações oferecidas durante o programa, bem como a visibilidade dada aos projetos dos trainees. A Votorantim, que atua nos setores de cimento, mineração e siderurgia, permite que o trainee apresente seu trabalho final aos presidentes do grupo. Com tantas opções, os jovens devem escolher com atenção o programa com o qual mais se identificam e que mais se alinhe com suas expectativas. Para ajudá-lo.nessa missão, detalhamos as características de alguns programas que estão com as inscrições abertas. Confira e faça sua escolha!  C&A -Perfil: Maior rede de varejo de moda do BráSi. Período de inscrições: De O de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.cea.com.br. Pré-requisitos: Formação entre dezembro de 2010 e dezembro de 20U nos cursos de administração de empresas, comércio exterior, engenharia, economia, marketing,publicidade e propaganda, comunicação social, relações internacionais, arquitetura e moda; inglês fluente. Benefícios: Plano médico e odontológico, participação nos lucros, desconto nas lojas C&A. Diferencial do programa: Foco no desenvolvimento de competências que permitem ao trainee .assumir uma posição gerencial ao fim do programa GRUPO BOTICÁRIO-Perfil: Empresa brasileira de cosméticos. Período de inscrições: Até16 de agosto. Onde se inscrever: www.grupoboticario.com.br. Pré-requisitos: Ter concluído a graduação há, no máximo, dois anos ou estar no último semestre do curso superior; mobilidade. !: desejável experiência profissional anterior ou estágio. Benefícios: Todos os benefícios relacionados a transporte, saúde, alimentação e previdência oferecidos aos demais funcionários do

Grupo Boticário. Diferencial do programa: Com duração de 18 meses, o programa é focado no desenvolvimento de competências técnicas, comportamentais e com temas voltados

ao negócio. VOTORANTlM Perfil: Opera nos setores de demento, mineração e siderurgia. Período de inscrições: De 7 de agosto a 17 de setembro. Onde se inscrever: www.eunavotorantim.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa entre dezembro de 2010 e dezembro 2012, sem dependências; inglês avançado e mobilidade para morar em outros estados. Benefícios: 5 000 reais, previdência privada,’ assistência médica e odontológica (opcional), remuneração variável Diferencial do programa: O trainee realiza um projeto da empresa que será apresentado num evento com a presença dos presidentes das diversas unidades de negócios do grupo. VLI Perfil: Transporte de carga por portos, ferrovias e terminais marítimos. Período de inscrições: De 25 de julho a 16 de setembro. Onde se inscrever: www.traineevLi.com.br. Pré-requisitos: Graduação em uma das carreiras listadas pela empresa no site. Benéficos: 4 300 reais, vale refeição e alimentação, participação nos lucros, assistência médica e odontológica e previdência privada Diferencial do programa: Treinamentos técnicos, que incluem pós-graduação para as turmas de engenharia BRF Perfil: Empresa de alimentos. Periodo de inscrições: De 7 de agosto a 5 de setembro. Onde se inscrever: www.brasilfoods.com/geracaobrf. requisitos: Graduado há, no máximo, dois anos, disponibilidade para viajar e morar em outras cidades, fluência em inglês. , Beneficios: Previdência privada, cooperativa de crédito e desconto em produtos da BRF. Diferencial do programa: Job rotation e alocação em uma das vice presidências para desenvolvimento de projetos supervisionados por executivos da companhia. ERNST li VOUNG TERCO Perfil: Presta serviços de consultoria contábil e auditoria. Período de inscrições: O ano todo. Onde se inscrever: www.traineeseyt.com.br. Pré,.requisitos: Recém- formados ou graduados em ciências contábeis, administração, Direito, economia, relações internacionais, ciências atuariais, engenharia, matemática, estatística e TI. • Benefícios: Vale transporte e alimentação e assistência médica. Diferencial do programa: Serão selecionados 900 jovens para atuar em 12 escritórios no Brasil. Certo Perfil: Processadora de pagamentos eletrônicos. , . Perto do de inscrições: De 13 de . agosto até 24 de setembro. Onde se inscrever: http://www.ciadeta-  Lentos.com.br/ trainees cielo. Pré-requisitos: Conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 e conhecimentos em inglês. Benefícios: Salário fixo, participação nos resultados, plano de saúde e odontológico (opcional), vate transporte,transporte fretado.o ou estacionamento, vale-refeição, ptano de previdência privada. Diferencial. ~ Após os primeiros 12 meses, o trainee passa a ser elegível acoaching Com um gestor da Companhia e aos programas de capacitação’ cta Universidade Corporativa cieLo, que podem resultar em promoções dentro da empresa. REDECARD Perfil:- Empresa de cartões de crédito e débito. Período ele iII$aiçiês: De 16 de  agosto) a 30 de setembro. Onde,se escrever: http://www.redecard.com.br. . Pré-requisites: Ter até 27 anos -,” em janeiro de 2013, conclusão da graduação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 em engenharia, administração de empresas, economia, marketing, comunicação social, publicidade e propaganda e relações públicas;  inglês. avançado. 8eIIefides: W salário, vale refeição, vale-alimentação, assistência médica e odontológica, previdência privada. Diferencial  do Os trainees possuem mentores, de reteres ou superintendentes para orientá-los sobre as expectativas pessoais e as trilhas de carreira . EMbRACO Perfil: Multinacional brasileira especializada em soluções para Refrigeração. Período de inscrições: De 28 de agosto a30 de setembro. Onde se inscrever: http;//trainee.embraco.com. pré-requisitos: Ter concluído curso superior em ciências exatas ou humanas há no máximo dois anos; inglês fluente. Benefícios: 4 100 reais, plano de saúde, alimentação, auxilio Instalação e vete-transporte, diferencial do programa: O trainee coordena um projeto estratégico, com o suporte de ex-trainees, profissionais de RH e líderes da área para a qual. o projeto se destina. O jovem com melhor potencial e desempenho é selecionado para desenvolver um projeto de até três meses nas unidades da empresa no exterior. UNILEVER Perfil: Uma das maiores empresas de bens de consumo do mundo. Pré-requisitos: Graduado ou pós graduado entre junho de 2010 e dezembro de 2012. Período de inscrições: Até 27 de agosto. Onde se inscrever: www.uniLever.com.br/carreiras. Benefícios: 5 000 reais, participação nos resultados, assistência médica e odontológica, plano de previdência privado Ao fim do programa de três anos, todos estão prontos para ser Lidere. AM8EV sediada no Brasil e com operações em outros 16 países. Pré-,..aisitos: Habilidade para gerenciamento de pessoas, capa de de liderança, disponibilidade para viagens e inglês fluente. Período de Inscrições: Até 10 de setembro. Onde se inscrever: www.traineeambev.com.br. Benefícios: 4 600 reais, bolsa para pós-graduação, assistência médica e odontológica, previdência privada; e salário, entre outros. Diferencial do programa: Treinamento no Brasil e no exterior.GRUPO FLEURY,Perfil:. Centros.de medicina Integrada e solicitações diagnósticas. Pré-requisitos: Graduação entre “‘dezembro 2OlOe dezembro De 26l2; inglês avançado. Período de inscrição: Entre agosto e setembro de 2012. Onde se Inscrever: www.fleury.com.br. Benefícios: Previdência privada, assistência medica e odontológica, auxilio creche para mulheres e participação nos lucros. Diferencial do Programa: O Fleury forma lideres para atuar em áreas diferentes de negócios.

 

Por que muita Gente boa Tropeça na execução

E ALGO Que JÁ obserVei  eM MUITAS eMPReSAS – MUITOS De NÓS PeNSAMOSque, para atingir metas, basta estabelecê-las. Mas não existe atalho. O trabalho de alcançar resultados é árduo, exige muita disciplina e muito conhecimento de método e técnica. Muitas vezes o planejamento nem sequer chega ao conhecimento de todo mundo que será responsável por executá-lo – em geral, as pessoas da base da empresa. É bastante curioso que as escolas de negócios não ensinem técnicas de execução de planos. E o pior é que todo mundo acha que sabe colocar a mão na massa. até a hora em que tem de efetivamente estabelecer uma meta ou montar um plano de ação – e, na prática. as coisas não andam. A primeira coisa que sugiro é treinar todos os executivos de sua empresa nas coisas básicas do gerenciamento: como desdobrar metas, como montar bons planos de ação, como implementar planos de ação, como conduzir e se preparar para reuniões de controle, como fazer correções de rumo, como padronizar e por aí vaí. As metas de uma empresa. como sugestão, devem se originar de sua necessidade de geração de caixa. medida pelo Ebitda, e devem ser técnica e aritmeticamente desdobradas até o nível de operação. A partir desse desdobramento, devem-se estabelecer os planos de ação, um plano de ação para cada meta. Existe um ritual para estabelecer planos de ação. Planos de ação simples podem se originar de sessões de brainstonníng para as quais você deve convidar pessoas que entendem do que está sendo tratado independentemente de sua posição hierárquica e se são empregadas da empresa ou não. O importante nessas reuniões é fazer a pergunta certa. Por exemplo: “Por que estamos com determinado problema de atendimento na parte da manhã?” Deixe cada pessoa dar sua opinião sem que seja interrompida ou criticada por outros. No final, faça uma votação das melhores opiniões e parta para o plano de ação. Planos de ação também podem se originar de estudos e análises de informação que chegam a durar meses, em alguns casos. Depois vem a fase da execução. Muita gente boa tropeça aqui. Somos todos procrastinadores por natureza, gostamos de postergar tudo até a última hora e às vezes não dá mais tempo, e muita coisa fica sem ser feita ou simplesmente é malfeita Sugiro que a execução seja acompanhada pelo menos com  frequência mensal pela diretoria, semanalmente no nível gerencial e todos os dias na execução, se é que você quer que as metas sejam atingidas. Finalmente, temos as reuniões de acompanhamento, que devem ter agenda anual definida e nunca – veja bem, nunca – ser postergadas. Nessas reuniões, que têm seu ritual próprio, quem bateu a meta fica  quieto e quem não bateu deve levar um plano complementar para garantir que o resultado seja atingido. O que se discute nas reuníões de acompanhamento são esses planos complementares. Se todo mundo bateu a meta, a reniao deve mesmo ser muito curta. E POSSIVEL PENSAR EM UM CONJUIITO DE INDICADORES COMUNS A TODAS as organizações. Uma organização existe para servir as pessoas. Essas pessoas são chamadas “partes interessadas” (ou stakeholders). São clientes, acionistas, empregados e vizinhos (ou sociedade). Com o objetivo de garantir a sobrevivência de sua empresa, você terá de satisfazer todas essas partes de forma simultânea Para isso, você deve criar indicadores sobre cada um deles. Vou lhe dar alguns exemplos de indicadores que eu acho mais fundamentais. Indicadores de mercado: participação de mercado, volume de vendas, margem. Indicadores financeiros: Ebítda, lucro líquido e fluxo de caixa. Indicadores de empregados: rotatividade de pessoal, absenteísmo, clima organizacional. Indicadores de relacionamento com a sociedade (ou imagem): menções positivas e negativas na imprensa, nível de sustentabilidade. Os indicadores financeiros são os mais importantes porque, quando as finanças vão mal, é sinal de que o resto já não está bem. Uma empresa deve ter o cuidado de se manter financeiramente estável e evitar dar saltos maiores do que aqueles que suas pernas permitem. Tenho visto empresas quebrar apesar de baterem recordes de vendas e crescerem. Não podemos nos esquecer de que esses dois movimentos demandam capital que nem sempre está disponível- e muitas vezes a empresa tem de ir aos bancos, e acaba entregando seu resultado futuro e entrando em espiral negativa. Um problema que tenho notado é a dificuldade que alguns de nós temos em correlacionar indicadores financeiros com a realidade operacional da empresa. Seria bom você pensar nisso. Por exemplo: a relação percentual entre o Ebitda e a receita indica diretamente a eficiência de sua operação e pode ser comparada com outras empresas do mesmo setor. Normalmente, cada empresa dá ênfase a certos mercados e indicadores em razão das peculiaridades de seu negócio. No entanto, o importante é manter a consciência e o foco na razão da existência de uma organização – servir as pessoas. Várias organizações, sobretudo algumas governamentais, se esquecem dessa realidade da vida.

 

AS EMPRESAS CAIRAM NA REDE

o FIM DE 2011, A FABRICANTIl DE BRINQUEDOSdinamarquesa Lego lançou um desafio – tanto a seus mai s ardorosos fãs quanto a simples indivíduos desejosos de embolsar uns trocados. Funciona assim: quem tem uma sugestão de novo produto para a Lego deve fazer um projeto, colocá-lo em votação e fazer campanha para ganhar 10000 votos. Tudo isso dentro do site Lego Cuusoo,  uma espécie de rede social desenvolvida pela empresa. Quem alcança a votação mínima tem seu projeto avaliado pelos engenheiros da Lego. E, caso o projeto seja aprovado e o brinquedo acabe nas lojas, ganha o equivalente a 1%das vendas. Dois garotões toparam o desafio e se deram bem. Eles desenvolveram uma versão “Lego” para o jogo de videogame Minecraft, que já vendeu 10milhões de cópias. Oprojeto levou 48 horas para alcançar os 10000 votos (e derrubou os servido res), a empresa encampou a ideia e, lançado em junho, oMinecraft Lego já sumiu das prateleiras. “Não temos nenhuma peça em estoque”, diz Tim Courntey, executivo da Lego responsável pelo site Cuusoo. Quando começaram a surgir, as redessociais logo foram tachadas de inúteis, sobretudo pelos pais que viam seus filhos passar horas babando em frente ao computador. E, no início, pode ser que a crítica fizesse mesmo algum sentido. Mas, aos poucos, as redes foram mudando, e os usuários também. Hoje, abrigam currículos, servem de site pessoal para profissionais liberais – e os pais também passam horas babando na frente do computador. Com as empresas, tem-se observado uma mudança semelhante. Nos primeiros anos, executivos enxergavam sites como Orkut e Facebook como uma ameaça. Era preciso “fiscalizar” o que se dizia. Outra obsessão era disputar com os concorrentes quem tinha o maior número de “fãs”. Tudo muito interessante, até que as empresas começaram a perceber que as redes sociais também são o lugar certo para ganhar dinheiro, inovar, vender – e, claro, continuar dando aquela fiscalizada básica no que se diz. A Lego é um dos milhares de empresas que encarnam essa mudança de atitude. Um estudo recente da consultoria Deloítte mostra que 52% dos executivos consideram as redes sociais importantes para o negócio. E 86% deles afirmam que essa importância crescerá nos próximos três anos. Dado o ritmo alucinado das transformações, muitas empresas presentes nas redes sociais ainda estão rodando num “software” antiquado -‘há aquelas que chegam a usar a lista de seguidores para mandar sparns, algo que já era condenável quando os e-mails se popularizaram, há cerca de 15 anos. “Vivemos um início parecido com o boom do comércio eletrônico, no final da década de 90″, afirma o brasileiro Alexandre Hohagen, vice-presidente do Facebook na América Latina. “Todo mundo queria estar lá, mas poucos sabiam o que fazer.” Hoje, as experiências mais bem sucedidas em redes sociais mostram que o caminho, depois de aberto, melhora o atendimento ao consumidor, cria novos canais de venda e ajuda até mesmo na concepção de novos produtos. Até o poder “fiscalizador” das redes sociais acaba gerando efeitos positivos para o negócio, como vem acontecendo com o Bradesco. Quando um correntista descontente reclama pelo telefone, sua insatisfação pode ser ouvida pelas poucas pessoas ao redor. Um comentário negativo numa rede social pode chegar a milhares de pessoas. Por essa razão, o banco começou a fazer atendimentos por meio do Facebook e do Twitter em 2010. “Hoje, o cliente recebe uma mensagem minutos depois de fazer um comentário negativo no Facebook ou no Twitter”, afirma Luca Cavalcanti, diretor de canais digitais do banco. Um dos efeitos das redes sociais no banco foi o surgimento de duas categorias de clientes. Os que continuam fazendo suas reclamações pelo telefone esperam, em média, até dois dias por uma solução. Muitos daqueles que recorrem às redes sociais veem suas demandas atendidas em algumas horas. Como essa mudança não passou despercebida pelo público, a média mensal das ligações ao SAC do Bradesco caiu de 455000, em 2011, para 260000, neste ano. Não deixa de ser curioso que uma ação defensiva – proteger o banco de críticas – tenha servido para melhorar o serviço de relacionamento com os correntistas, pelo menos com a fatia das redes sociais. Se melhorar o relacionamento com a clientela é uma forma quase óbvia de aproveitar o poder das redes sociais, as empresas estão descobrindo que elas são a forma mais simples de atingir uma espécie de nirvana da inovação – o crowdsourcing, expressão sem tradução para o português que significa “usar a inteligência coletiva para resolver problemas”. É o modelo adotado pela Lego. No Brasil, nenhuma empresa fez isso de forma tão barulhenta quanto a gigante de alimentos Pepsico, quando lançou, no ano passado, a campanha que selecionou um novo sabor para a batata Ruffies. Os consumidores enviaram quase 2 milhões de sugestões por meio de mídias sociais. A empresa selecionou três finalistas, mas levou a decisão final para os supermercados. Em dois meses, colocou os três novos sabores à venda e, com base na votação dos consumidores  nas redes sociais, acabou premiando o Strogonuffles, sugerido pelo empresário Helder Lanzoni, de 28 anos, morador de Itapira, em São Paulo. Ele levou 30000 reais e 1% sobre a renda gerada pelo produto durante os seis meses em que ficou no mercado. “Recebi mais de 50000 reais”, diz Lanzoni. De acordo com Renata Figueiredo, diretora de marketing da Pepsico, a iniciativa ajudou a marca a crescer’ 15% as vendas de Ruflles no ano passado. Se a ideia de uma batata frita com gosto de estrogonofe tivesse nascido numa reunião de engravatados na sede da Pepsico, seu autor acabaria obrigado a procurar emprego (atualizando seu currículo no LinkedIn, claro). Com uma abordagem parecida, a rede americana de cafeterias Starbucks já recebeu 135000 sugestões de produtos e serviços em quatro anos de sua rede social. Mais de 220 foram implementadas. Um dos internautas sugeriu que a empresa criasse um aplicativo de celular para usá-lo como meio de pagamento nas lojas. Hoje, ele está disponível nos Estados Unidos, no  Reino Unido e no Canadá. “Desde o lançamento do aplicativo, em janeiro de 2011, foram mais de 55 milhões de dólares em transações só nos Estados Unidos”, diz Kelley Myers, responsável pelo marketing da Starbucks, A~POR….-nlO A primeira grande mudança provocada pelas redes sociais no mundo dos negócios  foi aumentar o contato com o consumidor. A segunda começa a acontecerdentro das companhias, na forma como os funcionários trocam informações. Nos anos 90, o então presidente da empresa de tecnologia americana Hewlett-Packard, Lew Platt, disse que, se a empresa soubesse o que todos os funcionários pensavam, ela seria três vezes mais produtiva. Passadas duas décadas, as mídias sociais estão se tornando, aos poucos, a principal plataforma de troca de ideias entre a empresa e seus funcionários. Um exemplo americana Yammer, considerada o Facebook das redes corporativas. Adotado por 18% das empresas nos Estados Unidos, o serviço oferece ferramentas que permitem aos funcionários acessar a intranet do celular e trabalhar em projetos em equipe de qualquer lugar. O sucesso do Yammer chamou a atenção da Microsoft, que comprou a empresa em junho por 1,2 bilhão de dólares. Segundo a fabricante sul-coreana de eletrônicos LG,o uso do Yammer poupa, em média, 3 horas de trabalho por semana dos gerentes. Um grupo que recebeu a missão de criar um guia de treinamento para novos funcionários completou o projeto em quatro semanas, oito a menos do que o esperado, porque o contato com as subsidiárias era mais dinâmico. Quem não adere a serviços como o Yammer pode montar sua rede social dentro de casa. A Portugal Telecom criou há três anos uma intranet aberta apenas aos 11000 funcionários da empresa no mundo. As mais de 5000 ideias recebidas até hoje geraram ganhos que devem chegar a 70 milhões de reais em 2012. “São propostas que poderiam ter sido adotadas antes, mas não havia um canal eficiente para isso”, afirma Ricardo Rosado, gestor de inovação  da Portugal Telecom. Ele explica que o ambiente de competição e de incentivos toma as redes sociais mais atrativas do que formas antigas de participação, como a inútil caixa de sugestões. A ideia que trouxe mais retomo foi dada em novembro de 2011:reformar 100%das caixinhas receptoras de sinal de TV por assinatura, recolhidas quando os usuários cancelavam o serviço. De acordo com a empresa, a medida deve resultar na economia de 50 milhões de reais por ano. VENDAS PELO MCEBOOK Um dos setores da economia que olham o fenômeno das redes sociais com mais atenção é o varejo. Seja é-possível usadas para traçar um perfil detalhado de quem compra, o próximo passo é o chamado comércio social – transformar os fãs em vendedores da marca. Depois de fazer um projeto piloto entre agosto de 2011e fevereiro deste ano, o Magazine Luiza estreou o Magazine Você,um serviço que permitiu a usuários criar páginas no Facebook para vender produtos da loja. A pessoa se leciona os produtos, compartilha essa lista com seus contatos e, a cada venda realizada, ganha uma comissão que varia de 2,5%a 4,5%do valor total. Segundo Eduardo Galantemick, diretor de comércio eletrônico do Magazine Luiza, já são 47000 vendedores pelo Facebook. O executivo explica que a taxa de conversão – relação de pessoas que visitam e finalizam uma compra no Magazine Você – chega a ser 40% maior do que na loja online do Magazine Luiza. O cearense Josyano Ferreira, coordenador de tecnologia de uma escola de Fortaleza, é um dos campeões de vendas. Segundo ele, as comissões das vendas rendem 400 reais por mês, o que equivale a 20% de sua renda. “O canal já vende mais do que uma loja física do Magazine Luiza com tamanho razoável”, diz Galanternick,que se negou a revelar os dados oficiais do Magazine Você. Os consultores de varejo ouvidos por EXAME estimam que uma loja de porte médio do grupo fature mensalmente entre 1milhão e 1,5milhão de reais. Nos últimos meses, houve um aumento no ceticismo em relação ao investimento de empresas nas redes sociais por causa da crise enfrentada pelo Facebook. A companhia abriu o capital no dia 18de maio de 20U e, desde então, o valor de seus papéis caiu de 38 para menos de 20 dólares. Uma das razões apontadas por analistas de mercado foi a redução no crescimento do gasto de empresas em campanhas publicitárias, responsáveis por 84% do faturamento. Mesmo com os dados negativos, o Facebook, uma companhia com oito anos de vida, tem valor de mercado de 50 bilhões de dólares. “Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Essa febre de usuários do Facebook poderá até passar nos próximos anos e outra empresa surgir como a força dominante”, diz Gerald Kane, professor de sistemas de informação da Universidade de Boston. “Oque não irá retroceder é a interação entre empresas e pessoas nas redes sociaís.” Bradesco, Lego, Pepsico, Starbucks e Portugal Telecom, entre tantas outras empresas, não têm a menor dúvida disso.

 

O NOVO BILIONARIO DO VALE

A carreira do empreendedor  americano Jack Dorsey, de 35 anos, começou cedo. Aos 13 anos, ele ganhava dinheiro programando sistemas de rotas para empresas de táxi em sua cidade natal, St. Louis, no estado do Missouri. Aprendeu programação sozinho em um PC da IBM comprado pela famíla  em 1984.Aos 21 anos, foi estudar programação na Universidade de Nova York. Depois de passar por diversos empregos, chegou em 2006 à Odeo, uma jovem empresa da Califórnia especializada em podcasts, softwares de áudio digital. A empresa não estava indo bem. Certo dia, Evan Williams, fundador da Odeo, fez uma enquete com seus funcionários: o que eles fariam se a empresa precisasse começar do zero? Valia qualquer resposta. Dorsey mostrou, então, um projeto que guardava na gaveta: um aplicativo que permitia que as pessoas informassem aos amigos, por mensagens de celular, o que estavam fazendo em determinado momento. Williams gostou, mas decidiu transformar o aplicativo em um site. Em duas semanas, o projeto, batizado de “Twitter”, estava no ar. “Convidando colegas de trabalho”, foi o primeiro post do Twitter, escrito por Dorsey,em julho de 2006. Deu tão certo que o programador virou o presidente da empresa, e Williams ficou no comando do conselho. ‘ O sucesso meteórico de Dorsey não veio sem traumas. Logo começaram a aparecer problemas de gestão aparentemente simples e previsíveis, como os picos de acesso, que, nas mãos do jovem programador, tornaram-se grandes confusões. Diariamente, o site do Twitter saía do ar. Não tardou para que os dois amigos rompessem. Williams retomou o cargo de presidente, e Dorsey passou para o conselho de administração.Apesar dos percalços iniciais, o Twitter seguiu sua trajetória ascendente e acabou se consolidando como uma das maiores redes sociais do mundo, com 500 milhões de usuários. Mas o rompimento com Williams não fez bem a Dorsey. Na única vez em que se pronunciou sobre o assunto, foi enfático. “Foi um soco no estômago”, disse em uma entrevista à revista Vanity Eair. A briga, no entanto, abriu caminho para ele criar a segunda empresa. No início de 2009, Jim McKelvey, um ex-chefe seu que havia abandonado o mundo da tecnologia para se dedicar às artes plásticas, ligou para contar que havia perdido uma venda de 2 000 dólares porque uma cliente não tinha dinheiro vivo e ele não possuía uma máquina de cartão de crédito. McKelvey, então, perguntou por que Dorsey não criava um aplicativo de celulares para que pequenos comerciantes aceitassem pagamentos de cartões.  A conversa foi o embrião da Square, empresa que tem como principal produto um leitor de cartões de crédito e débito que se conecta a smartphones e tablets, e cobra uma taxa de 2,75% de cada transação. Quando surgiu em 2007. o Twitter foi considerado um serviço inovador, mas acabou demorando dois.anos para deslanchar. Hoje, é o Square que está no mesmo estágio. Visto como uma.promessa na forma como fazemos nossos pagamentos, ainda precisa provar que será um marco. O americano Sam Hamadeh, sócio da PrivCo., consultoria especializada em empresas de capital fechado, e amigo de Dorsey, lembra da primeira vez em que o Square foi usado, em janeiro de 2010. “Eu, Dorsey e Sean Parker (presidente do Facebook na época) organizamos um evento em minha casa, em Nova York, com a intenção de arrecadar fundos para a campanha política da democrata Reshma Saujani, que disputou uma vaga na Câmara dos Deputados”, diz Hamadeh. Segundo ele. mais de 100 pessoas compareceram à festa. Dorsey passou smartphones com os leitores do Square para seus convidados, que fizeram as doações usando cartão de crédito. “Levantamos 20 000 dólares. Mas o mais importante foi que as pessoas ficaram entusiasmadas com a invenção”, lembra Hamadeh. No início de agosto, o Square anunciou uma parceria de 25 milhões de dólares com a rede americana de cafeterias Starbucks. Na fase inicial do projeto, os clientes de 7 000 franquias do Starbucks nos Estados Unidos poderão pagar suas compras com um código de barras em seus smartphones, Já usado por 1milhão de comerciantes, o Square recebeu, em julho, 220 milhões de dólares do fundo de private equity britânico Rizvi Traverse. Oaporte elevou seu valor de mercado para 3,2 bilhões de dólares e acabou fazendo de Dorsey; que tem 3%do Twitter, o novo bilionário do Vale do Silício. Em uma entrevista para o apresentador americano Charlie Rose, Dorsey tentou resumir tudo o que vinha fazendo desde o primeiro software que desenvolveu em seu PC da IBM ainda na adolescência em St. Louis. “Meu objetivo sempre foi simplificar as interações humanas”, disse. Além de suas incursões como empreendedor, Dorsey tem mostrado talento como investidor. Em 2011,participou de uma rodada de investimentos de 7milhões de dólares no Instagram, aplicativo de fotografias para smartphones.Um ano depois, a empresa foi vendida ao Facebook por 1bilhão de dólares. Seu perfil no Twitter tem mais de 2 milhões de seguidores, número próximo ao de celebridades como o roqueiro Ozzy Osbourne e a atriz americars Miley Cyrus. Apesar do interesse que desperta, Dorsey é conhecido por ser  reservado. Além disso, tem fama de ter demorado a usufruir dos  confortos que sua fortuna pode oferecer. Por anos, morou num apartamento de 1milhão de dólares em São  Francisco Quando, em junho, decidiu troca-lo por uma mansão de mais de 10 milhões de dólares, com vista para a te Golden Gate, fez questão de evitar qualquer comentário sobre o assunto – foi a corretora de imóveis que espalhou a notícia. “Com seu estilo reservado, Dorsey já mudou a forma como nos comunicamos pela internet e deu início a uma revolução em como fazemos compras”, afirma Peter Fenton, sócio do Benchmark Capital, fundo americano de capital de risco. Se o sistema de pagamentos imaginado por Dorsey será mesmo revolucionário, ainda não sabemos. O que se sabe é que o Square já contribuiu para alçá-lo ao seleto clube dos empreendedores bilionários do Vale do Silício.

 

 A LUZ DO VIZINHO E MAIS VERDE

O QUE SIGNIFICA PARA UMA FAMILIA gastar 200 quilowatts-hora por mês na conta de luz? Para um leigo, a informação de consumo não quer dizer muita coisa É um gasto excessivo? Está dentro da média de consumo de residências similares? Foram dúvidas assim ,que inspiraram os americanos AlexLaskey e Dan Yates,ex-colegas da Universidade Harvard, a fundar em 2007, na cidade americana de Arlíngton, a Opower. A empresa traduz a conta de luz de 15milhões de residência sem cinco países – Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido e Austrália Nos últimos três anos, a companhia ajudou os consumidores a economizar cerca de 1terawatt-hora de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de 200000 habitantes por um ano. O conceito é simples: um sistema online reúne as informações colhidas por relógios de energia nas residências, componentes básicos do que se convencionou chamar de redes elétricas inteligentes. Odiferencial do software da Opower, que lê e processa esses dados, é o nível de detalhamento de sua análise. Ele compara o consumo de determinada residência com o gasto médio de casas semelhantes nas redondezas. Se o usuário estiver gastando muito, a empresa indica os horários com tarifas mais baixas, junto com um aviso escrito na conta: ”Você usou 49% mais energia do que seus vizinhos no último mês. Isso lhe custará um extra de 558 dólares por ano”, como descreve o material promocional da empresa “Essas informações fazem muitas pessoas tomarem uma atitude mais sustentável”, diz o americano Michael Sachse, vice-presidente da Opower, que tem contrato com 75 fornecedoras de energia, sendo que oito estão entre as dez maiores dos Estados Unidos. Aexpectativa é que mais 1terawatt- hora seja poupado nos próximos 12meses, ou 120milhões de dólares  em contas de luz. Pode soar estranho as fornecedoras de energia se aliarem a uma empresa que faz seus clientes gastar menos. Mas elas também saem ganhando. Os horários variam, mas todas as empresas de eletricidade do mundo sofrem com os picos de consumo. Em países frios, os relógios de energia giram mais rapidamente das 17às 19horas, quando as pessoas chegam em casa e ligam o aquecedor. No Brasil, o consumo sobe das 18às 21horas, período em que vários ‘eletrodomésticos e chuveiros são acionados. Para atender a essas variações, as empresas gastam muito na construção de usinas e de linhas. Se conseguem que os consumidores evitem os picos com tarifas diferenciadas, as empresas também reduzem a necessidade de ampliar a capacidade de geração e transmissão. É nesse ponto que entram empresas como a Opower, que mostram quais são as casas e os horários em que as pessoas estão gastando acima da média. Por que não programar a máquina de lavar louça para funcionar na madrugada, quando o preço da energia é menor? Estima-se que, se ao menos 10% do consumo dos americanos em horários de pico fosse transferido, o ganho seria de cerca de 23 bilhões de dólares, ou o equivalente a um ano de geração de energia no país. A Opower, como era de esperar, não está sozinha CPFL Energia, com sede em Campinas, no interior de São Paulo, assinou um contrato para comprar medidores da eMeter, fabricante de leitores inteligentes do grupo Siemens. Já a Light, presente no estado do Rio de Janeiro, começou um projeto que prevê a instalação de 100000 medidores até o fim deste ano. Aos poucos, as tecnologias que conseguem aliar redução de custos para as empresas de energia a um consumo mais responsável por parte dos usuários começam a se disseminar. No caminho, atraem cada vez mais investimentos privados e aplausos no meio político. Em visita recente à sede da Opower, Barack Obama resumiu o sentimento geral: “Empresas assim são boas para a economia, para o meio ambiente e para o pais”

 

 

 

PENSAO SEM FUNDOS

PERsPECTIVA DE O BRASIL TER, finalmente, juros baixos tem sido justamente comemorada. O crédito fica mais barato, a bolsa costumam ganhar impulso, as empresas tendem a aumentar seus investimentos. Mas um grupo de pessoas está apavorado (ou, se não está, tem motivos para se apavorar) com esse cenário tão celebrado: os diretores e os investidores dos fundos de pensão. Quando os juros caem, a rentabilidade desses fundos – que reúnem as reservas para a aposentadoria de 3,2 milhões de funcionários de empresas e bancos, públicos e privados – cai junto, como ocorre com todas as aplicações que dependem da renda fixa. O problema é que muitos desses fundos têm, por contrato, a obrigação de render mais do que os juros de mercado, hoje em 8%.Em média, os valores das aposentadorias têm de ser corrigido sem 12,4% ano a ano. Atingir esse percentual tem sido quase impossível. E ninguém consegue imaginar de onde o dinheiro virá. Um levantamento feito por EXAME mostra que, em 2011,dez das 15maiores fundacões do país não conseguiram entregar  que prometeram. É o caso de Previ, do Banco do Brasil, Valia, da mineradora Vale, e Postalis, dos Correios. O déficit somado do mercado de fundos foi de quase 9 bilhões de reais. A maioria dos planos tem recursos em caixa para fechar a conta e seguir pagando as aposentadorias normalmente. Mas, se o descompasso continuar, vai faltar dinheiro. Em risco, só no caso desses dez fundos, está a aposentadoria de 1milhão de trabalhadores – e essa, como se verá adiante, é apenas uma parte do problema. Só para recu perar o que não fizeram no ano passado, as fundações precisam entregar um retorno de, no mínimo, 14% em 2012, segundo um estudo da consultoria Mercer. No ano passado, a Previc, autarquia do Ministério da Previdência que fiscaliza esse segmento, interveio em quatro fundos de médio porte, entre eles o Portus, da Companhia Docas, que estão perto de ficar sem dinheiro para pagar as aposentadorias. Há duas alternativas: pedir dinheiro às companhias que patrocinam os fundos ou aumentar as aplicações mensais dos investidores – o que não é fácil: a Fundação Cesp tentou aprovar isso recentemente e não conseguiu. Esse é um problema novo num setor que convive há anos com a perspectiva de uma trombada. No fim dos anos 90, o Tesouro Nacional teve de colocar dinheiro nos fundos de pensão do Banco do Brasil,da Petrobras e de outras companhias estatais para evitar que eles deixassem de pagar aposentadorias (o buraco era de quase 20 bilhões de reais). Ficou tudo bem por uma década Agora, os riscos voltaram. A origem do desafio atual é uma lei de 1977, que criou a garantia de rentabilidade dos fundos de pensão – na época, o principal título público, a ORTN, rendia 6% mais a inflação, e estabeleceu-se que os planos tinham de pagar, no mínimo, isso. Essa obrigação ficou por aí, como um fóssil financeiro de tempos remotos. Com a estabilização da economia, ficou evidente que seria impossível manter essa situação por muito tempo, e o modelo vem sendo abandonado nos novos planos. Mas, apesar disso, 31% dos planos do mercado brasileiro ainda têm rentabilidade definida, e o Ministério da Previdência não sabe o que fazer com eles, dados os riscos que correm no cenário de queda de juros &MA MEDIDA PALIATIVA Segundo EXAME apurou, uma das alternativas em estudo é reduzir as metas de retomo, tomando como base o rendimento dos títulos públicos de longo prazo atrelados à inflação (que, atualmente, rendem cerca de 4% acima do IPCA). Seria, na melhor das hipóteses, uma medida paliativa. “Se o juro cair mais, a rentabilidade desses titulos também vai diminuir”, diz José Roberto Ferreira Savoia, professor de finanças da USP e ex-secretário de Previdência Complementar. Alguns fundos, como o Aceprev, da siderúrgica ArcelorMittal, reduziram as metas por conta própria nos últimos meses. Só que estender essa mudança a todo o mercado não é simples, porque é preciso fazer um ajuste contábil. Como a previsão de rentabilidade no longo prazo diminui, o volume atual de recursos nos planos precisa aumentar para que não falte dinheiro para pagar as aposentadorias no futuro. Ou seja, os fundos precisam colocar dinheiro para fazer a mudança, e nem todos têm caixa A outra hipótese em estudo para salvar os fundos de pensão depende da ajuda do governo. Quando um plano consegue bater suas metas de retorno com folga por três anos, ele precisá distribuir o ganho aos investidores. Ou  seja, não pode manter a sobra de caixa para usá-la em períodos conturbados – em que, por exemplo, as ações ficam mais baratas, abrindo uma oportunidade de ganhos no longo prazo, algoquE deveria ser a meta maior de um gestor de fundos de pensão. A Previc diz que planeja mudar essa regra para aumentar a flexibilidade na gestão. “Para conseguir esse dinheiro extra num cenário de juros mais baixos, os fundos precisam mudar seus investimentos e arriscar, mas nem todos vêm fazendo isso”, diz François Racicot, diretor da consultoria Mercer. Na média, a carteira de ações das fundações está no mesmo patamar de 2004: representa 30% do pa- trimônio. No mesmo período, a taxa básica de juro caiu pela metade. Os gestores, portanto, seguem viciados em investimentos de renda fixa que pagam cada vez menos. Quem muda se dá bem. A Fundação Cesp e a PrevDow, da empresa química Dow, reduziram a carteira de títulos públicos que seguem os juros de mercado e passaram a comprar papéis atrelados à inflação – com isso, ficaram entre as poucas que cumpriram suas metas em 2011.A Valia e a Funcef, da Caixa Econômica, passaram a aplicar em fundos de private equity, como é praxe nos Estados Unidos. Se a situação dos fundos de pensão de bancos e empresas é delicada, a dos planos de previdência dos estados e dos municípios é critica. Criados em 1998, já estão sem recursos para pagar as pensões. Alguns estão fechando a conta com dinheiro público – no Rio de Janeiro, parte dos recursos dos royalties do petróleo está sendo usada para pagar as aposentadorias. O principal problema, dizem os especialistas, é a gestão pouco profissional. Até 2008, qualquer funcionário podia cuidar dos investimentos dos fundos (hoje, é exigido um certificado comprovando algum conhecimento do mercado financeiro, o que também não ajuda muito). Esses planos estavam entre os principais cotistas dos papéis do banco Cruzeiro do Sul, que está sob intervenção do Banco Central desde junho. Também aplicaram em CDBs do banco Santos, que quebrou em 2004, Casos como esses chamaram a atenção de tribunais de contas, que estão processando os gestores pelos prejuízos. Só no caso dos planos estaduais e municipais, 7,5 milhões de aposentadorias estão em jogo – gente que tem motivo para se preocupar com a queda de juros comemorada pelo resto do país.

 

AS EMPRESAS QUEREM SAIR

Os investidores individuais estão saindo da bolsa – e as empresas também. No início de agosto, havia 369 companhias na Bovespa, o menor número desde 2007. Isso ocorreu porque 130empresas fecharam o capital nesse período (enquanto 99 lançaram ações). Quando as ações chegam a um patamar considerado baixo demais pelos controladores, é natural que ocorram ofertas para recomprar os papéis dos minoritários e deixar a bolsa. A Laep, sócia do laticínio LBR, e a empresa de logística LLX foram as últimas a anunciar a intenção de sair da bolsa.

 

PARA GANHAR DOS JUROS

Um dos títulos de renda fixa com melhor rendimento do mercado são as letras financeiras: Emitidas por grandes bancos, elas têm pagado aos investidores em torno de 106% do CDI – o equivalente a 8,5% ao ano. O problema das letras é a falta de liquidez: o vencimento costuma ocorrer em dois anos e ‘os bancos não compram de volta antes do prazo; quem quiser vendê-las antes precisa negociar no mercado, geralmente dando um desconto.

 

O FUNDO DE 158%

Um prédio comercial no bairro da Barra Funda, tem feito a alegria dos investidores. O dono do prédio e o Fundo Memorial, administrado pela corretora Coinvalores. O rendimento em 12 meses foi de 158%. A valorização se deve a renovação de contrato de aluguel. Em 2010, a empresa de telemarketing Ateno, que ocupava 80% do edifício, saiu.  Em 2011 os andares foram alugados por outras empresas, que pagaram 175% a mais. O aumento compensou a queda causada em 2010 pela saída da Ateno. Em dois anos, o retorno acumulado foi de 110%, o quinto maior do setor.

 

CONTINUA BARATO

Mesmo com a alta da bolsa nas últimas semanas – o Ibovespa subiu 10% em três semanas -, as ações brasileiras seguem historicamente baratas, segundo um levantamento da gestora Franklin Templeton. Os pesquisadores mediram a relação entre o valor de mercado e o patrimônio das empresas listadas (quanto mais baixo, mais barato está o papel). Chegaram à conclusão de que, por esse critério, a bolsa está no nível mais baixo desde 2003. Antes de sair comprando, é bom lembrar que, se nada melhorar, as ações – mesmo as mais baratas –  podem continuar em baixa. “Os grandes investidores, que movimentam o mercado, estão cautelosos. Eles só vão comprar quando estiverem seguros sobre os números das empresas”, diz Frederico Sampaio, gestor da Franklin Templeton.

 

A FESTA DOS ROYALTIES

subiu à tribuna da para parabenizar a dos Goytacazes, no por ter entregue à cidade o Populares Osório Peium sambódromo. Com inaráveis às do Anhembi, na capital paulista, a passarela pode receber 40000 pessoas, o equivalente a quase 10% da população de Campos. O sambódromo foi entregue em março para o seu Carnaval fora de época, com mais de um ano de atraso. Consumiu 80 milhões de reais, 10 milhões a mais que o previsto. O dinheiro veio de uma fonte especial: os royalties do petróleo, uma espécie de participação na receita obtida com a extração diária de milhares de barris na bacia marítima que leva o nome da cidade. Para Feijó, o sambódromo é um exemplo: “Isso é o dinheiro dos royalties bem aplicado, porque resulta em melhor qualidade de vida para a população”, disse o deputado, correligionário da prefeita Rosinha Garotinho, mulher de Anthony

Garotinho, ex-governador fluminense. Orávio de Campos, secretário municipal de Cultura, defende a mesma tese: “O Centro de Eventos Populares era uma necessidade do município. Não podia deixar de ser feito”. Como Campos é a cidade que mais recebe royalties do petróleo – quase 10 bilhões de reais na última década -, a impressão que se tem é que a prefeitura já resolveu problemas em áreas que costumam ser criticas, como saneamento, saúde e educação, e agora pode dedicar parte do caixa para tocar projetos mais festivos. Não é bem assim. De 2000 a 2009, a cidade caiu da 17~para a 42~ colocação no ranking de desenvolvimento dos municípios fluminenses. Elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, o ranking associa indicadores de educação, saúde, geração de emprego e renda da população. A situação da educação ilustra bem o motivo da perda de posições na lista. Campos tem 40 escolas e creches funcionando em casas alugadas – 17% da rede municipal. Localizada a 20 quilômetros do sambódromo, a Escola Municipal de Campo Novo funciona numa casa de três quartos que é alugada há 18 anos. As 180 crianças que lá estudam em

dois turnos contam com um único banheiro e não têm nenhum refeitório. A vizinha Escola Municipal Jacques Richer tem refeitório, mas ele está ocupado por uma sala de aula para abrigar os alunos de outra instituição, a Escola Municipal João Goulart, que estava caindo aos pedaços e foi demolida no final do ano passado. Hoje, além de conviver com a superlotação, a Jacques Richertem turmas “multisseriadas” – os alunos do 4º e do 9 ano do ensino fundam~ntal têm aula juntos para “economizar” professores. Oconteúdo que era para ser dado ao longo de um ano é achatado em um semestre. OÍndice de Desenvolvimento da Educação Básica de Campos, divulgado em 2010, foio mais baixo do estado para os primeiros anos do ensino fundamental: nota 3,3.”Campos tem recursos de sobra, mas aplica de maneira errada”, diz Denise Terra, economista da Universidade Candido Mendes e especialista em aplicação de royalties. Infelizmente, a festa dos royaltíes não ocorre apenas em Campos. Bem longe dali, em Guamaré, no Rio Grande do Norte, o dinheiro do petróleo embala uma folia depois da outra Nos últimos dez anos, a pequena cidade a 170 quilômetros de Natal recebeu 202 milhões de reais em royalties. No mesmo período,  Guamaré trocou de prefeito oito vezes. O Tribunal de Contas do Estado deu parecer contrário à prestação de contas de três deles. Um foi preso por desvio de verbas. Neste momento, o Ministério Público investiga os gastos com festas dos dois últimos prefeitos. Auricélio Teixeira precisa explicar os 785000 reais pagos a bandas no Carnaval de 2011. O atual prefeito, Emilson Borba Cunha, tirou do caixa 2 milhões de reais para animar o Carnaval deste ano e mais 2,2 milhões para bancar o oba-oba no aniversário da cidade, ao som das vozes de Zezé di Camargo e Luciano, Fábio Jr. e Reginaldo Rossi Guamaré tinha tudo para ser próspera Além de poços de petróleo, tem três parques eólicos, um terminal aquaviário,  últimos quatro anos, o número de empresas locais dobrou para 266. Guamaré é hoje o 2()!! município do Brasil em PIB per capita: 90230 reais, quase o triplo da renda paulistana Aprosperidade, porém, não passa de um efeito contábil, fruto da divisão de um PIB turbinado por uma pequena população de 12000 habitantes. Não muito longe do centro estão comunidades como o Morro do Judas, um bairro com ruas de terra, sem água, luz e esgoto. Os moradores, como o agente de saúde Raurison Souza, precisam fazer gambiarras para garantir o mínimo de água em casa A Petrobras chegou à cidade em 1982, mas até hoje a maior parte da população não tem qualificação para aproveitar as centenas de vagas abertas no setor de energia. Enquanto as empresas de petróleo importam trabalhadores de outros estados, um quarto da cidade trabalha na prefeitura, os analfabetos representam mais de um quinto da população (o dobro da média brasileira) e quase 10% vivem na extrema pobreza O único local onde os moradores poderiam obter alguma qualificação é no pequeno centro técnico do município, que oferece apenas 68 vagas em três cursos. Lucas Fenix de Oliveira, de 22 anos, até tentou entrar lá,mas não conseguiu. Como as vagas são restritas, a escola não aceita que duas pessoas da mesma família estudem ao mesmo tempo. No caso de Oliveira, deram preferência ao irmão mais velho. Mas ele não desistiu de melhorar a formação. Após o traba lho como monitor ambiental numa fundação, faz bicos em um supermercado e usa o dinheiro para bancar o curso de eletrotécnica, na cidade vizinha Oque prospera em Guamaré é o assistencia- Iismo.Umtotal de 2300 famílias recebe da prefeitura um cartão com 120 reais para gastar no comércio. Outras 267 estão no programa de auxílio-aluguel. . Há ainda 1604 beneficiadas pelo Bolsa Fanu1ia.Morando à beira do rio Aratuá, que contorna Guamaré, o pescador Toninho Fonseca e sua mulher acompanharam a transformação da terra natal nos últimos 30 anos. Criaram cinco filhos com a renda da pesca, a principal atividade da cidade antes da chegada da Petrobras. O que mudou para eles? O casal agora pode observar a cidade mais do alto, pois a casa ganhou um segundo piso erguido com restos de materiais abandonados por empresas. “O dinheiro que corre por ai não chega aos filhos de Guamaré”, diz Fonseca. DISTORCOES Um estudo da consultoria Macroplan, obtido com exclusividade por EXAME, indica que distorções observadas em Campos e Guamaré podem estar ocorrendo em muitos dos 905 municípios beneficiados por repasses da indústria do petróleo. O estudo avaliou as 25 cidades (16 no Rio de Janeiro, cinco no Espírito Santo e quatro em São Paulo) que mais receberam royalties de 2000 a 2010. No conjunto, elas arrecadaram, em repasses do setor do petróleo, um total de 27 bilhões de reais no periodo. O dinheiro deveria ser aplicado para ampliar e aprimorar os serviços públicos, mas não foio que se deu. Enquanto a arrecadação com royalties triplicou na década, o investimento das prefeituras cresceu apenas 24%. Isso explica em parte por que, na prática, a convivência com a cadeia do petróleo, que deveria impulsionar um ciclovirtuoso, tem contribuído para piorar a qualidade de vida em muitas localidades. Oque ocorreu é uma espécie de contrassenso. O dinheiro fez o produto interno bruto dos municípios crescer a taxas superiores às dos respectivos estados. Mas a renda da população não aumentou na mesma proporção e ainda é baixa. No conjunto das 25 cidades, quase 10% dos habitantes vivem com renda equivalente aum quarto do salário mínimo. É verdade que a chegada de novas empresas e o aumento dos investimentos elevaram a oferta de emprego formal – mas criaram efeitos colaterais. De 2003 a 2010, o número de postos com carteira assinada nas 25 cidades cresceu 65%, uma alta acimada média brasileira, de 49% no periodo.Mas os empregos em geral não foram ocupados com a mão de obra local (que em sua maior parte não dispõe da qualificação exigida pela cadeia do petróleo). E também não foram suficientespara absorver o grande volume de migrantes que afluiu para essas localidades. Resultado: 90% dos municípios tiveram taxas de crescimento demográfico superiores à média de seus estados e 80% acumularam um índice de desemprego acima da média nacional. Como as cidades incharam, cresceu a demanda por serviços de saúde, saneamento, educação, treinamento de mão de obra e policiamento. A falta de trabalho e a precariedade da infraestrutura contribuíram para o aumento da violência Hoje, 13 das 25 cidades têm taxas de homicídio acima das respectivas médias estaduais. Quatro delas – a capixaba Linhares e as fluminenses Búzios, Cabo Frio e Parati – estão na lista das 100 mais violentas do Brasil. “Esses municípios deveriam estar crescendo mais rapidamente e melhor do que os outros que não recebem royalties”, diz Alexandre Mattos, diretor da Macroplan e coordenador da pesquisa “Mas não é o que está ocorrendo. Não há regras nem mecanismos de controle para a aplicação dos royalties, muito menos metas em relação aos benefícios que devem gerar.” Liberadas para fazer o que bem entendem com o dinheiro, as prefeituras deixam de lado investimentos que seriam importantes para o desenvolvimento local e consomem a maior partecom o custeio da máquina pública. Carapebus, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Recebeu mais de 380 milhões de reais em royalties, mas nada lá lembra a pujança do petróleo. Ainda é uma cidade-dormitório para quem trabalha em Macaé, municipio vizinho do qual se emancipou em 1997.Opoder público  responde por quase 90% dos postos de trabalho formal de Carapebus. A falta de mecanismo de controle e de transparência na aplicação dos royalties tem outro efeito nefasto: abre margem para a corrupção. Denúncias de desvio de recursos são recorrentes nas cidades do petróleo – com repercussão sempre desagradável. Agestão pública e a economia do município de Presidente Kennedy, no Espírito Santo, perderam o rumo em abril, depois que uma operação da Polícia Federal, batizada de “Lee Oswald” (nome do acusado de matar John F. Kennedy em 1963,ano de fundação da cidade capixaba),prendeu o então prefeito, Reginaldo Quinta (PTB), e mais 27 pessoas, entre elas o presidente e o vice-presi dente da Câmara Municipal. O grupo é acusado de aplicar sobrepreços de até 80% em contratos de terceirização que somam 55 milhões de reais, o equivalente a um quarto do valor dos royalties recebidos pela cidade em 2010. Ao assumir a prefeitura, o vereador Jardeci Terra achou por bem romper e investigar os contratos com as empresas citadas no inquérito que investiga o caso. As terceirizações sob suspeita deixaram sem emprego cerca de 1000 pessoas, o que provocou um baque no comércio da cidade, cuja população é de 10 000 habitantes. Mesmo quando há acerto nas prioridades, a execução corre o risco de dar errado por falta de funcionários públi- cos competentes para gerenciar os projetos. Em 2001, Campos lançou o Fundecam,  um fundo pelo qual a prefeitura oferecia empréstimos a juros baixos para as empresas que se instalassem na cidade. O objetivo era diversificar a economia, mas a avaliação das propostas e da idoneidade dos tomadores do dinheiro era falha. Ao final, a taxa de inadimplência do fundo superou 40%. “Apareceu picareta do país inteiro atrás do dinheiro fácil do Fundecam”, afirma Roberto Moraes, engenheiro do Instituto Federal Fluminense, de Campos. “Não houve um esforço para formar uma cadeia produtiva As empresas escolhidas eram tão diversas quanto fábricas de fraldas e de macarrão:’ A fá brica de macarrão a que Moraes se refere é a Duvêneto. Ela pegou empréstimos sucessivos, funcionou precariamente e fechou as portas em março, deixando uma dívida de 34 milhões de reais. Já a fábrica de refrigerantes do  grupo Coroa, que deve 3,5 milhões à prefeitura, nem operou. Oesqueleto do galpão industrial está abandonado às margens da rodovia BR-I01. A sucessão de descalabros que hoje se veem nas cidades beneficiadas pelos royalties deve servir de alerta: o Brasil precisa reavaliar o modelo de distribuição e de controle do uso da riqueza do petróleo. Como se tem notado nas dicussões de governadores e prefeitos, a mera perspectiva de que essa riqueza tome mais corpo, caso se confirmem as previsões em relação à exploração do pré-sal, já deflagrou uma guerra entre políticos pela partilha. “A exploração do petróleo vive de ciclos de 20 a 40 anos, que um dia terminam”, diz Mattos, da Macroplan. “O ciclo do Brasil está apenas no começo e precisamos  decidir como usar melhor os recursos, para que, ao final, tenhamos municípios pujantes, e não grandes favelas.” O risco é o desperdício proliferar – e o país jogar fora uma grande chance de dar um salto de qualidade.

 

O exemplo Esta nO NoRtE

Além de fazer uma radiografia do uso dos royalties do petróleo, o estudo da consultoria Macroplan obtido por EXAME traz recomendações para mudar a atual realidade das cidades beneficiadas por esses repasses. A orientação mais importante: “É preciso fazer um plano para o futuro de cada uma, e essa tarefa não cabe apenas ao município”, diz Alexandre Mattos, diretor da Macroplan. “Estados e governo federal precisam contribuir para que o bônus do petróleo possa melhorar o saneamento, as rodovias, a educação, a formação das pessoas.” Como exemplo para o Brasil, Mattos cita Stavanger, a capital do petróleo na Noruega. Quando o primeiro poço foi descoberto, em 1969,a cidade dedicava-se a pescar e enlatar sardinhas e a construir barcos, atividade desenvolvida desde o século 19.Como ocorre hoje com as cidades brasileiras, Stavangeratraiu.empresas do setor de petróleo de várias partes do mundoeviu.a população crescer rapidatl1ente. Mas láariqu.ezafói aplicada para transformar a cidade em centro comercial e cultural. Junto com as empresas, vieram profissionais especializados de outros países. Boa parte se fixou lá, não apenas transferindo conhecimento técnico, mas dinamizando a cultura local. Atualmente, 18% dos 126 000 habitantes são estrangeiros que formam uma pequena babei de 170 nacionalidades. O ambiente criado pela diversidade fez com que Stavanger recebesse da União Europeia, eIl12008, o titulo de capital cultural da Europa, apesar de a Noruega não fazer parte do bloco. Ogoverno norueguês se preocupou em desenvolver a mão de obra e a indústria local, mas, nos primeiros anos, como opaís não tinha conhecimento no setor, fez da iniciativa privada uma parceira. “O poder público concordou que as empresas treinassem as pessoas e importassem máquinas e equipamentos”, diz o economista Petter Osmundsen, da Universidade de Stavanger. Numa segunda etapa, a cidade priorizou investimentos que beneficiassem a população no longo prazo. Um deles foi aprimorar a educação desde a infância até a idade de ingresso no mercado de trabalho, incentivando o ensino técnico, uma tradição no mercado europeu, e também a graduação. A universidade local oferece cursos voltados para a área de óleo e gás,como geociência de engenharia do petróleo e tecnologia para exploração em alto-mar. Preocupada em não se tomar dependente da cadeia de petróleo, a cidade atraiu empresas de setores tão distintos quanto varejo, hotelaria, serviços financeiros e  construção civil. Hoje, mais de 60%. dos quase 25 000 postos de trabalho estão no setor de serviços e em lojas. Stavanger tem uma das menores taxas de desemprego da Europa, 1,8% – inferior até à da própria Noruega, que está em 2,4%. Aideia mais engenhosa dos noruegueses para não apenas preservar, mas principalmente multiplicar os ganhos com o petróleo, foi a criação de um fundo governamental com recursos do setor. O fundo recebeu aporte inicial de 336 milhões de dólares em 1996.Ao final de 2011,a reserva somava 542 bilhões de dólares. O fundo está sob a tutela do Ministério das Finanças, que deve indicar as políticas de investimento, mas quem gerencia a operação é o Norges Bank, o banco central. O governo não pode sacar o principal. Tem acesso a apenas 4% do retomo anual do fundo – uma regra austera que evita a tentação do desperdício e é essencial para preservar a riqueza do petróleo para as gerações futuras. Uma ideia que deveria inspirar o Brasil.

 

UM ESPIRITO MUITO ANIMAL

HÁ SEIS ANOS, o AMBIICANO FLOYD LANDIStomou uma decisão que fez sua carreira de ciclista ir do céu ao inferno. Ele teve cassado seu título de campeão da Volta da França, a mais channosa e importante competição de ciclismo do mundo, após ser flagrado no exame antidoping. Foi detectado um nível de testosterona muito acima do normal em seu corpo justamente na 17ãe última etapa da prova. Como perdera tem recorrer à droga e acabou protagonizando uma das chegadas mais emocionantes da história da prova. Vista a posteriori, a trapaça foi um dos episódios mais vergonhosos nos mais de 100 anos da Volta da França. No mundo dos esportes, a testosterona, quando ingerida artificialmente para melhorar a performance, é um exemplo da falta de escrúpulos. Na vida real, produzida de forma natural pelo corpo, ajuda a explicar vários dos comportamentos humanos. Mais presente nos homens, a testosterona está associada à autoconfiança e à agressividade. John Coates, pesquisador do departamento de neurociência da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, centrou seu trabalho na tentativa de ligar dois mundos aparentemente distantes: a biologia e as finanças. Mais especificamente, comparou os níveis de hormônios e o desempenho de operadores de bancos, a quem ele chama de “atletas”. Em suas pesquisas, Coates conseguiu provar a correlação entre elevadas taxas hormonais e os altos e baixos da bolsa. Antes de tomar a decisão sobre investir milhões em determinada aplicação, a respiração d um gestor costuma ficar cada vez mais curta, o batimento cardíaco acelera, aumenta a tensão muscular e, às vezes, até o estômago reage. Quando o resultado imediato da aplicação é positivo. o corpo produz, num estado de euforia, uma quantidade maior de testosterona. É nessa hora que os operadores ficam mais corajosos e competitivos, o que faz os riscos parecer menores. Nos casos em que as decisões de investimento vão mal, o corpo eleva a produção de outro hormônio, o cortisol. Inicialmente, ele aumenta o grau de excitação e atenção, mas, se os níveis permanecem elevados por muito tempo, os efeitos passam a ser contrários aos da testosterona. O gestor é dominado por uma sensação de incerteza desmedida, o que ajuda a explicar os momentos do mercado conhecidos como de aversão ao risco – quando não há explicação racional para as quedas nos valores dos papéis. Coates fala com a propriedade de quem conhece seu objeto de estudo em detalhes. Antes de se dedicar à carreira acadêmica, trabalhou em algumas das instituições mais renomadas deWall Street: Goldman Sachs, Merrill Lynch e Deutsche Bank. Em conversa com EXAME, Coates disse lembrar bem das incoerências de  seus colegas nos períodos de alta. “Eles se sentiam invencíveis, onipotentes. Acabavam perdendo a capacidade de analisar criticamente seus investimentos.” Agota d’água para Coates foi a bolha das em presas de tecnologia no final dos anos 90, uma fase de grande volatilidade. Diante da loucura que imperava nas mesas de operação, decidiu largar o mercado financeiro e passou a estudar o tema sob o prisma da biologia. o~ DA I’BTOSIMOllA Em suas pesquisas, Coates analisou as taxas hormonais de profissionais do mercado financeiro que trabalhavam em Londres e confirmou uma impressão que já tinha desde os tempos de Nova York – nas mesas de operação há uma clara predominância de gênero. Dos 250 operadores analisados, apenas três eram mulheres. “Nesse reino da testosterona”, afirma Coates, “as taxas hormonais flutuavam exatamente no mesmo ritmo dos altos e baixos do mercado:’ Há dois meses, o pesquisador encerrou um ciclo importante de suas pesquisas ao lançar o livro The Hour Between Dog and Wolf: Risk Taking, Gut Feelings and the Biology of Boom and Bust, ou “A hora entre o cão e o lobo: tomada de risco, instinto e a biologia dos altos e baixos”, numa tradução livre. O título remete a uma expressão francesa da Idade Média uti lizada para descrever a mudança de comportamento de soldados no campo de batalha minutos antes do início dos embates. Em meio a urros, com os soldados dominados pela euforia, aqueles momentos eram marcados pela transformação de “cachorros em lobos”. Para Coates, se as gestoras de recursos quiserem reduzir as decisões de investimentos irresponsáveis, terão de controlar o número de “lobos” e dar mais espaço a mulheres e homens mais velhos e experientes. o trabalho de Ceares está inserido numa ampla área do debate econômico que coloca em dúvida ideia da racionalidade das decisões. Na primeira metade do século 20, leconomista britânico John Maynard {(eynes deu ênfase ao papel do “espírito animal”. “Nossa base de conhecimento para estimar o retorno a ser obtido em dez anos com a construção de uma ferrovia, uma mina de cobre, fábrica de tecidos, um medicamento patenteado, um navio ou um edifício na City de Londres é insuficiente e às vezes nenhuma”, escreveu no clássico Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro. Se esses cálculos são apenas projeções, como então as decisões são tomadas? “Somente podem ser tomadas como resultado do espírito animal.” São o resultado de “uma exortação espontânea à ação”. Impelidos pela crise financeira mundial de 2008, George A. Akerlofprofessor de Berkeley e prêmio Nobel de Economia em 2001, e Robert J. Shiller, professor de Yale, voltaram ao tema com o livro Espírito Animal, lançado em 2009. Tendo como um de seus objetivos achar explicações para o fato de a economia mundial ter chegado à bei ra do precipício, os autores exploram a interferência da psicologia humana na tomada de decisões. “Cada grande queda das bolsas de valores parece inexplicável se olharmos apenas para fatores que logicamente deveriam influenciar os mercados. Quase sempre a mudança está no próprio mercado, e não nos fundamentos da economia”, afirmam Akerlof e Shiller. Assim como teóricos das finanças comportamentais, Coates, o ex-operador de mesa transformado em pesquisador, buscou explicações para as reações humanas diante da ambigüidade e da incerteza Sua inovação foi encontrar evidências biológicas que indicam por que as pessoas, em alguns momentos, ficam paralisadas e, em outros, sentem-se energizadas. Seus maiores críticos, temerosos de que suas pesquisas acabem resvalando numa espécie de “determinismo hormonal”, sempre lembram: quem ocupava o cargo de diretor financeiro do Lehman Brothers quando o banco quebroú em 2008 e detonou o início da crise era Erin Callan. A senhora Erin Callan.

 

 E PRECISO TER CARIDADE PARA SALVAR A GRECIA

A GRECIA E A FERIDA ABERTA DA ZONA DO EURO, EM RECESSAO DESDE 2008, o país parece sufocado por uma dívida pública de 280 bilhões de euros, uma das maiores do mundo quando comparada ao tamanho do PIB. Para tirar o país do atoleiro, Peter Nomikos, um empresário dono de uma cervejaria em Santorini, lançou um movimento com nome em inglês: Greece debt free, ou Grécia livre de dívidas. A ideia é que cada cidadão doe 3000 euros para a compra de titulos públicos – assim o problema da dívida seria resolvido. Em 40 dias, o movimento comprou o equivalente a 2,5 milhões de euros em papéis gregos. 1) Um quarto dos gregos está desempregado. ÉJ usto pedir doações a eles agora? Nenhum grego é forçado a doar nada. Doa quem quer. Vemos que alguns participantes de nossa campanha são cidadãos de outros países, engajados num objetivo comum: salvar a Grécia e ajudar a resolver a crise do euro. Se ganharmos escala, faremos a diferença. 2) Como exatamente funciona sua proposta? Com o dinheiro doado à nossa organização, compramos títulos do governo da Grécia no mercado ao menor preço possível. Hoje, eles são negociados pelo equivalente a um oitavo de seu valor real. Em outras palavras, cada euro em títulos do país custa no mercado cerca de 13centavos. Compramos esses papéis para cancelá-los antes de seu vencimento. Isso é como perdoar parte da dívida grega 3) Quanto foi arrecadado até agora? Em apenas 40 dias de campanha, levantamos 350000 euros, suficientes para comprar o equivalente a 2,5 milhões 4) Evangelos MarlnaIds, dono do clube Olymplacos, doou por seus 55 jogadores e fullCionarios. Que outras celebridades abaracaram a campanha? Éclaro que buscamos o apoio de gente conhecida Mas identificar nossa campanha como um movimento de milionários seria reduzir a participação dos cidadãos comuns. Apenas a ação coletiva pode resolver a crise grega 5) O caso ela CoreIa do Sul, onde os cldaclios doaram ouro para tentar tirar o pafs ela crise em 1998, foi uma inspiracao? Esse episódio é um belo exemplo de patriotismo. É difícil medir todo o seu impacto na solução do problema, mas certamente contribuiu para o país sair da crise mais rapidamente. O caso coreano foi uma grande inspiração. 6) Os gregos c:onsideram o salvamento da GNeIa uma missão deles ou de outros paIses europeus? É inegável que os gregos são muito patriotas. Mas também é verdade que deixam a desejar como cidadãos. Muitos acham que já estão pagando a dívida do país ao suportar as medidas de austeridade adotadas pelo governo. Ninguém gosta, mas todos somos obrigados a conviver com isso. 7) Por que o senhor está bancando todos os custos ela campanha? Nossa entidade está tentando conquistar a confiança de uma sociedade em que governo, empresas e pessoas ricas não têm crédito. É difícil superar esses estereótipos. Se usássemos as doações para cobrir custos, a campanha seria menos atraente. Por isso, assumi os gastos. É mais fácil que as pessoas acreditem no que fazemos se seu dinheiro for usado para uma única função: comprar títulos gregos .

VEJA 22 – 08

O MAL CONTRA O MAL NA NOVELA DAS 9

Eugênio Bucci

O que mais vem chamando a atenção dos adoradores da novela das 9, Avenida Brasil, é que a vilã é uma troglodita, e a mocinha é pior ainda. Nenhuma é boazinha. No festival de maldades apoteóticas que virou obsessão nacional, não existe a princesinha de porcelana, inocente e indefesa. Carminha (Adriana Esteves), que até aqui respondeu pelo papel de bandida oficial, até sabe fazer beicinho, como se fosse uma donzela da extinta Jovem Guarda, mas sua candura, quando aflora, é puro fingimento. No polo oposto, Nina (Débora Falabella), que seria a mocinha, guarda uma bruxa má e ressentida dentro de sua formosura adolescente. Tem os braços finos de garota rica e os olhos flamejantes de dragão, olhos que são uma janela para o inferno.

Mas … e o bem? Onde foi parar o bem? No duelo do mal contra o mal, irrompe essa pergunta aflita. No universo das novelas, é uma interrogação incomum – e muito corajosa.

Aí está o sentido profundo do engenhoso suspense criado por João Emanuel Carneiro. O bem evaporou. Qual será a referência moral agora? Avenida Brasil é um melodrama escarrado, como todas as novelas anteriores, mas é, ao mesmo tempo, um melodrama diferente. É melodrama porque os elementos melodramáticos estão todos lá: o casalzinho que enfrenta descaminhos antes de consumar seu desejo, a criança injustiçada que cresceu e quer vingança, o moço bonito que não sabe quem é seu pai de verdade, a pobre que fica rica, a rica que fica pobre, além da inveja, do ódio e do amor, o amor, o amor.

No mais, Avenida Brasil é diferente. Nela, não cabem as soluções moralistas. Uns são maus, e os outros também. Uns e outros são mensageiros da perfídia. Até mesmo Tufão, o raríssimo exemplar de bom caráter, é meio abobado e tem seu lado sombrio: atropelou e matou um homem, ainda que acidentalmente e, no início da história, fraquejou e traiu a noiva, ainda que lhe reste a desculpa de que só agiu mal por ter caído na armadilha de Carminha.

Uns roubam, outros premeditam as agressões mais vis, e há os que escondem crimes, próprios e alheios, num ambiente em que toda fidelidade será castigada. Ao menos por enquanto, Avenida Brasil não trabalha com a ideia de pureza e não alimenta esperança na virtude. E, se não há virtude, se o mal é convocado a lutar contra o mal, existirá um happy end em que o bem possa finalmente vencer?

O potente sucesso do atual novelão das 9 pode ter a ver com essa pergunta. Além dos bons atores, quase de praxe, dos novos enquadramentos, dos diálogos que finalmente trazem alguma espontaneidade, Avenida Brasil reflete dúvidas morais que tocam a alma brasileira do nosso tempo. Esse talvez seja o ponto central. Muito se falou que a novela tinha acertado ao pôr a classe C como protagonista, mas isso já foi tentado antes – e só isso não explica o êxito. Se a trama das 9 nos magnetizou é porque soube perguntar no tom exato, com os personagens certos: a virtude é factível nessa grande avenida chamada Brasil?

Desde muito tempo, a novela das 8 (que hoje vai ao ar às 9) tem sido a grande metáfora do país. Desta vez, a metáfora ficou mais explícita, a começar do nome: Avenida Brasil. Segundo a radiografia chocante que essa metáfora nos apresenta de nós mesmos, somos um país que perdeu a inocência e teve de amadurecer no desencanto, pondo em xeque todos os idealismos.

A pergunta sobre a existência da virtude está, para nós, na ordem do dia. Pensemos um pouco sobre o desmoronamento de nossas esperanças mais recentes. Logo após o fim da ditadura militar, nosso eleitorado acolheu as promessas de um salvador da pátria, um “caçador de marajás”, que fazia poses de príncipe anabolizado em cima de um cavalo branco (ou de uma motocicleta japonesa). Terminou em impeachment. Depois, os que derrubaram o salvador desmoralizado, que posavam de heróis, com aura de redentores, revelaram-se, eles também, um tanto malignos. Agora, estamos aí às voltas com o julgamento do mensalão, que evolui como novela misturada com reality show.

Não, não há mais lugar para redentores. O imaginário nacional parece mais adulto. Em lugar de buscar o paraíso na Terra, parece mais aberto a lidar com saídas realistas, humanas e dignas. Já não aposta tanto no herói incorruptível+ e vai descobrindo o valor de instituições sólidas, ainda que operadas por homens e mulheres imperfeitos.

Na novela é fácil: o amor (sempre ele) acaba dando jeito nas misérias. Quanto ao Brasil de verdade, é mais difícil. Não perca os próximos capítulos da nossa história real.

PERSONAGEM DA SEMANA

 

Apenas três pontos percentuais têm separado o presidente Barack Obama do rival republicano Mitt Romney nas últimas pesquisas de opinião para as eleições dos Estados Unidos. É pouco, mas Romney nunca conseguiu realmente fazer Obama se preocupar com essa proximidade. Faltava alguém na campanha republicana para compensar o perfil meio insosso e hesitante de seu candidato e incomodar os democratas. Não falta mais. Romney escolheu como vice de sua chapa o jovem deputado Paul Ryan, de 42 anos, formado em economia e ciência política. Casado, pai de três filhos e católico fervoroso, ele é a nova estrela dos círculos conservadores mais radicais, com quem compartilha a rejeição ao aborto, ao casamento homossexual e ao controle de armas.

Na Câmara dos Representantes desde 1998, eleito pelo Estado de Wisconsin, de economia industrial, Ryan ganhou projeção no partido em 2009, ao lançar uma proposta austera para reduzir o deficit do país, intitulada Mapa para o futuro da América. Trata-se de uma reforma fiscal com cara de manifesto do liberalismo econômico, inspirada em economistas como Friedrich von Hayek (1899-1992) e Ludwig von Mises (1881-1973). O plano defendia uma semiprivatização da previdência social, além de profundos cortes de gastos e redução de impostos. De início, os republicanos mais moderados temeram sua ousadia. Veio a ascensão do Tea Party, um movimento popular de extrema-direita, e o mapa de Ryan ressurgiu com novo nome: Caminho para a prosperidade. Foi embutido na proposta de Orçamento republicano para 2012.

O presidente Obama, que elogiara a postura “moderada” de Ryan por tentar abrandar o tom do Tea Party em alguns temas, atacou sua reforma num discurso em abril. “Esse plano é um darwinismo social”, disse Obama. “Não há nada corajoso em pedir sacrifícios para aqueles que menos podem suportá-lo:’ Ryan conseguira irritar Obama num ponto central da campanha, exatamente aquilo que Romney não tivera capacidade de fazer. Logo, era um bom nome para ajudar Romney na corrida pela Casa Branca. Diante da fragilidade das outras opções, Ryan tornou-se o vice natural. Nos três primeiros comícios em que a dupla esteve presente, na Virgínia e na Carolina do Norte, milhares de eleitores se reuniram e gritaram em coro o nome de Ryan.

Para um partido ridicularizado nas eleições passadas pela escolha da apatetada Sarah Palin como vice de John McCain, os republicanos parecem ter marcado um ponto importante. Claro que os democratas tentaram não acusar o golpe. Viram na indicação de Ryan uma oportunidade de ter munição gratuita para transformar a eleição num duelo do 1% do topo da pirâmide contra os 99% restantes, mote da campanha de reeleição de Obama, usurpado do movimento Ocupe Wall Street. Mas a campanha de Romney perdeu o medo do embate ao colocar Ryan no ringue. O foco sai das credenciais administrativas do empresário e investidor Romney e passa a ser o discurso puramente ideológico, em que Ryan se sente à vontade. “Ninguém se engane sobre o que está em jogo nestas eleições': disse ele no começo do ano. “Trata-se de um duelo entre individualismo e coletivismo:’ Charles Krauthamer, analista conservador do jornal The Washington Post, escreveu: ”A disputa eleitoral de 2012 será a mais ideológica desde a era Reagan”.

Nascido numa família influente de Wisconsin – seu bisavô fundou a Ryan Inc., uma grande empreiteira americana -, Ryan tinha 16 anos quando encontrou o pai morto na cama. Fora fulminado por um ataque cardíaco, o mesmo mal que matara seu avô, seu bisavô e seu tataravô. ”A morte dele despertou cedo em mim a busca por um sentido na vida”, afirmou à revista The New Yorker. Os republicanos esperam que Ryan o encontre nestas eleições, transformando uma disputa sonolenta numa dor de cabeça para os democratas.

COMO MONTAR SEU PRATO

A combinação correta dos alimentos aumenta nossa capacidade de aproveitar o melhor de seus nutrientes. As novas regras para uma dieta saudável

Natália Spinacé e Margarida Telles

 

Houve um tempo em que, se alguém dizia que uma comida era boa, queria dizer que sentia prazer na refeição. Hoje, quando alguém fala em comida boa, em geral quer dizer que faz bem à saúde. Parece que, depois de 2.500 anos, finalmente estamos prestando atenção ao que o grego Hipócrates, pai da medicina, pregava: “Faça do seu alimento seu remédio”. E tome alho para resfriado, abacate para a pele, feijão para controlar o nível de ferro … Se você é dessas pessoas (e quem não éi) que vivem prestando atenção aos efeitos dos alimentos que consomem, prepare-se: a lista acaba de crescer. Segundo estudos recentes em culinária e saúde, os alimentos não têm efeito isolado. Eles agem em conjunto. Ingerir dois ingredientes juntos surte efeitos diferentes de consumi-los em separado. Isso porque, em seu corpo, eles interagem. No pior dos casos, fazem você passar mal. No melhor, facilitam a absorção de seus nutrientes e podem ajudar no tratamento de doenças como alergias, insônias e até alguns tipos de câncer. Antes, para comer bem, bastava procurar alimentos saudáveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais e carnes com pouca gordura. De preferência, de boa procedência. Agora, os pesquisadores de alimentos afirmam que é preciso pensar em como combinar esses ingredientes.

Vem daí a nova moda no mundo da culinária saudável: o poder da combinação dos alimentos. De acordo com ela, comer dois ingredientes cria reações super poderosas. “Ao somarmos um mais um podemos obter quatro. O total é maior que a soma das partes individuais”, diz Elaine Magee, nutricionista da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e autora de 25 livros sobre nutrição, incluindo o Food sinergy (Sinergia da comida). “Está provado que alguns componentes produzem grandes resultados quando consumidos juntos.” Essas combinações podem ser feitas em nossa casa. Uma série de estudos mostra que ampliar a potência de um nutriente é simples. A maior parte usa alimentos comuns à mesa do brasileiro, como alface, rúcula, tomate, laranja, ovos e peixes. As combinações são especialmente valiosas para quem precisa repor algum tipo de nutriente ou usar a alimentação como forma de reforçar terapias.

A importância da combinação entre alimentos voltou a ganhar força nos últimos anos com o aumento do número de estudos. “A eficácia de certas combinações é comprovada”, afirma Steven Schwartz, pesquisador de ciência dos alimentos na Universidade de Ohio. “Um exemplo é a união do tomate ou da cenoura com a gordura presente em comidas como o abacate. Quando consumidos juntos, esses alimentos reduzem a ação das substâncias chamadas radicais livres, que aceleram o envelhecimento das células.” Diferentemente de outras dietas famosas, que ainda levantam polêmica sobre sua eficácia para a saúde, a sinergia entre alimentos é apoiada por diferentes linhas de pesquisa. Médicos e nutricionistas concordam que, em muitos casos, comer dois nutrientes numa mesma refeição aumenta o aproveitamento de um deles. “Alguns alimentos precisam necessariamente de outros para ser absorvidos”, diz Renata Cintra, professora do instituto de biociências da Unifesp.

A ciência da combinação dos alimentos começa a chegar às mesas de restaurantes. Foi criado nos Estados Unidos, no fim do ano passado, um selo para cozinhas que investem em misturas saudáveis, o SPE, abreviação do latim Sanitas per escam (algo como “saúde por meio da comida”). Seu criador, o belga Emmanuel Verstraeten, pesquisou durante dez anos combinações de alimentos na cozinha de seu restaurante, o Rouge Tomate, em Bruxelas. Ao levar seu  estaurante para Nova York, Emmanuel se uniu aos pesquisadores Eric Rimm, de Harvard, Ieffrey Blumberg, da Escola de Medicina de Tufts, e Iohn Foreyt, da Escola de Medicina de Baylor, ambas nos EUA, para criar combinações que ajudem os nutrientes dos pratos e tenham menos gordura, sal e açúcar. Ele conseguiu montar um cardápio sem descuidar do sabor. Seu Rouge Tomate está entre os restaurantes recomendados pelo conceituado guia de gastronomia Michelin. De quebra, Emmanuel criou um novo negócio: presta consultoria para restaurantes que queiram ajustar seus menus às combinações propostas pelo selo. Ele cobra, em média, R$ 600 por prato. Nos EUA, mais seis restaurantes conseguiram o certificado, e outros 15 estão com o processo em andamento.

No restaurante The Living Room, em Nova York, um dos primeiros a aderir ao SPE, o frango assado passou por modificações para conseguir o certificado. A manteiga foi trocada por uma quantidade reduzida de óleo, que deve permanecer no prato para auxiliar a absorção da vitamina A. As batatas assadas com a casca são ricas em fibra e em vitamina C. Entraram no lugar do purê de batatas. A couve-de-bruxelas deu lugar às folhas de dente-de-leão, fonte de minerais como potássio e cálcio e das vitaminas A, B6 e C. O resultado foi uma diminuição em 39% das calorias totais, e o prato passou a ter 25% do total de vitaminas e minerais recomendados durante um dia. “Já seguíamos essa filosofia da comida saudável, mas o certificado legitimará isso”, afirma Iames Carpenter, chef do The Living Room.

No Brasil, ainda não existe iniciativa parecida com o SPE. A última tentativa de estimular a adoção de escolhas mais saudáveis nos restaurantes falhou. Em 2009, o Conselho de Nutricionistas de São Paulo criou um certificado para restaurantes com um nutricionista na equipe. “A maioria dos donos de restaurantes acha um custo desnecessário”, diz Maria Lúcia Tafuri Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição. O certificado foi abolido no ano passado.

Mas há restaurantes que cuidam da combinação de nutrientes. A chef Tatiana Cardoso, formada pela Natural Cookery School, em Nova York, é uma delas. “Pensar em combinar os nutrientes adequados é nutrição básica. Mas quase ninguém se lembra disso”, afirma. Tatiana comanda as cozinhas do Moinho de Pedra e do Natural com Arte, em São Paulo. O paulistano Renato Caleffi, chef do Le Manjue Bistrô, conta com a ajuda de um nutricionista para montar seus pratos. O arroz amazônico, um dos mais pedidos, mistura pirarucu em cubos grelhado com três tipos de arroz: cateto, vermelho e negro integral. Leva ainda pequi, espinafre, castanha-de-caju, salsa, tomate-cereja e azeite. O ferro do espinafre é absorvido com a ajuda da vitamina C da salsa; o licopeno do tomate, com o auxílio do azeite; e a gordura do pirarucu ajuda a diluir as vitaminas da castanha e do pequi. ”A comida precisa ser pensada como uma forma de obter saúde': diz Renato.

TERAPIA ALIMENTAR

Uma combinação campeã são alimentos ricos em gordura (como azeite, castanhas e abacate) com as fontes de vitaminas A (do agrião), E (do brócolis), D (do salmão) e K (da couve-flor). São ingredientes que muitas vezes andam juntos nas receitas do dia a dia. Além de gostosa, agora se sabe que a combinação também é boa para a saúde. “Essa mistura é eficaz porque essas vitaminas precisam ser dissolvidas na gordura para uma melhor absorção pelo intestino': diz Linda Antinoro, nutricionista do hospital Brigham and Women’s, em Boston. Muitas dessas duplas de alimentos parecem eficazes no combate às células cancerígenas. Diferentes estudos sugerem que sua ingestão é aconselhável para quem trata algum tipo de câncer ou tenha predisposição à doença. A ingestão de um nutriente presente nas maçãs (a quercetina) aumenta a capacidade de outro encontrado nas framboesas (o antioxidante elágico) para destruir células cancerígenas. A combinação de uma substância presente no chá-verde (a catequina) com a vitamina C encontrada no suco de limão tem efeito similar. A vitamina C também pode fazer par com outra substância. Quando consumida com aveia ou cenoura (ricos em ácido fenólico), atua de forma mais rápida e eficaz para combater o colesterol ruim, que pode entupir as artérias (LDL). Isso é importante para pessoas com doenças coronárias ou histórico de derrames.

Um desses estudos, conduzido pela Universidade de Illinois e publicado na revista científica Cancer Research, trata dos benefícios da combinação de tomates e brócolis para quem tem câncer de próstata. Os cientistas de alimentos Iohn Erdman e Kirstie Canene-Adams alimentaram ratos com células cancerígenas com uma dieta composta de 10% de tomate e 10% de brócolis. Outros ratos comeram esses alimentos separados, ou apenas suplementos com seus princípios ativos. Depois de 22 semanas, os ratos com dieta combinada de brócolis e tomate tinham os menores tumores. “Homens mais velhos com câncer de próstata que optaram por observar a evolução da doença antes da químio ou da radiação devem considerar seriamente a inclusão de mais brócolis e tomate em suas dietas”, afirma Kirstie. As pesquisas sobre combinações de alimentos consideram apenas os ingredientes naturais, não suplementos nem vitaminas em cápsulas. Os estudos do pesquisador David Iacob, da Universidade de Minnesota, mostram por quê. Ele afirma que a interação existe até mesmo dentro de um único ingrediente. “Cada alimento tem milhares de componentes. Eles são digeridos pelo corpo em sequências que ajudam na absorção dos nutrientes, ou para evitar componentes ruins”, diz. Como as nozes, ricas em propriedades antioxidantes que protegem contra as gorduras do próprio alimento.

A nutricionista Márcia Barletta, de 57 anos, se curou de uma diarreia crônica que persistia por dez anos com a ajuda de uma alimentação regrada e das combinações certas. Ela teve uma peritonite, infecção de uma membrana que reveste o abdome. Fez cirurgia e ficou 60 dias internada, tomando antibióticos. Quando recebeu alta, seu intestino não era mais o mesmo. “Tinha dores de barriga todos os dias. Mal acabava de comer e corria para o banheiro.” Márcia teve desnutrição e chegou a pesar 38 quilos. Foi quando procurou a ajuda de uma nutricionista funcional, especializada em tratamentos com alimentos. “Desenvolvi alergia ao glúten e à lactose”, diz. A alimentação de Márcia mudou. Sua fonte de cálcio passou a ser o suco de couve com alguma fruta ácida. A acidez da fruta aumenta a do estômago – e isso favorece a absorção dos minerais da couve. “Ela passou a comer mais frutas, legumes e cápsulas de lactobacilos, para recompor a flora intestinal”, diz a nutricionista Gisela Savioli, que tratou Márcia.

A melhora na dieta pode auxiliar na cura de outras doenças. A analista de sistemas Carla Adriana Nogueira Cirilo, de 39 anos, sentia dores por todo o corpo, tinha ínguas e foi diagnosticada com fibromialgia, um tipo de reumatismo caracterizado por dores generalizadas. Mesmo com o tratamento com um reumatologista, as dores persistiam. Carla procurou uma nutricionista para tratar outro problema, a intolerância à lactose, e acabou com as dores da fibromialgia. “É uma doença relacionada ao estado emocional do paciente. Essa mudança na alimentação e a solução para a intolerância podem ter tido um impacto nas dores”, diz Roberto Heymann, reumatologista da Universidade Federal de São Paulo. Carla passou a comer mandioca ou batata-doce e suco verde (couve com maçã) no café da manhã. As raízes são ingeridas com azeite ou óleo de coco, para que essa gordura segure o alimento por mais tempo no estômago e, dessa forma, a liberação da glicose seja mais lenta. No café da tarde, Carla toma sopa de abobrinha e come polpa de coco. A gordura do coco ajuda a absorver as vitaminas da sopa. Com o corpo nutrido da forma correta, Carla resolveu outro problema, a insônia. “Passei a ter sono às 21h30.A alimentação correta e nutritiva mudou minha vida': diz.

Apesar do grande número de pesquisas acumulado nos últimos anos, há ainda algumas divergências em torno de algumas misturas específicas. É o caso das fontes de ferro, um nutriente importante para nosso metabolismo. Há duas fontes principais de ferro em nossa alimentação: as carnes vermelhas e os vegetais (legumes e verduras). O ferro da carne é abundante e facilmente absorvido por nosso organismo. O ferro que vem dos vegetais é mais difícil de ser aproveitado por nosso corpo. Isso é um desafio para quem mantém uma dieta estritamente vegetariana. Uma das soluções é misturar esses vegetais ricos em ferro com outros bem dotados de vitamina C. Um estudo da Universidade de Syracuse, em Nova York, mostrou que a vitamina C aumenta em 30% a absorção desse ferro. Ninguém discorda que essa combinação funciona. A polêmica gira em torno de alguns vegetais. Segundo pesquisadores, o espinafre, apesar da concentração de ferro que inspirou o personagem Popeye, não pode ser considerado boa fonte desse nutriente. Tudo por causa de uma substância do próprio espinafre, chamada ácido oxálico. Ela dificulta a absorção do ferro por nosso organismo. Para alguns médicos e nutricionistas, o espinafre não é boa fonte de ferro, mesmo com a ajuda da vitamina C. De acordo com Anita Sachs, nutricionista do núcleo de medicina preventiva da Unifesp, comer espinafre pode atrapalhar até a absorção de ferro de outras fontes. “Para quem precisar de ferro, o melhor é recorrer às carnes': afirma Anita. O ácido oxálico existe em outras fontes de ferro, como beterraba e feijão.

COMBINAÇOES QUE EMPOBRECEM

Assim como as pesquisas descobriram combinações boas para o organismo, também detectaram algumas que devem ser evitadas. Consumir bebidas com cafeína com comidas gordurosas é uma delas. Estudos da Universidade de Guelph, Canadá, afirmam que os níveis de açúcar na corrente sanguínea, que disparam quando alguém ingere comidas gordurosas, dobram quando acompanhados de alguma bebida com alta dose de cafeína. Nos casos estudados na pesquisa, as taxas de açúcar no sangue de alguns aumentaram 65% após duas xícaras de café. Asbebidas ricas em cafeína, como chás-pretos, também atrapalham na absorção do ferro dos vegetais. Outro cuidado importante para os vegetarianos: quem tem anemia provavelmente precisa cortar o café após as refeições. Pessoas com problemas específicos de saúde devem ter cuidados extras.

Há outras combinações suspeitas. Um composto ácido presente no vinho e no café (o tanino) reduz a absorção tanto do cálcio como do ferro. Outra substância (o ácido fítico) encontrada no tofu, na linhaça, no farelo de aveia e no milho tem interação semelhante e prejudica a absorção do cálcio, do ferro, do magnésio e do zinco.

O aposentado Horácio Falvela, de 65 anos, desenvolveu diabetes tipo 2 há dez anos. Parou de fumar, começou a praticar exercícios e, com a ajuda de uma nutricionista, descobriu que adicionar alimentos com fibras solúveis (das frutas secas, da aveia e do grão-de-bico) em todas as refeições auxilia no controle glicêmico. “Quando ingeri das com os carboidratos, que se tornarão glicose, as fibras solúveis retardam a absorção dessa glicose e reduzem a concentração do açúcar no sangue”, diz Celeste Elvira Viggiano, nutricionista da Sociedade Brasileira de Diabetes. “Minha glicemia, que sempre estava alta, agora está controlada”, afirma Horácio.

A combinação de nutrientes pode ser uma boa forma de multiplicar o efeito de substâncias indispensáveis para o corpo, como vitaminas, ferro ou cálcio. Mas não faz milagres. É preciso ter uma alimentação equilibrada e hábitos saudáveis.” Não adianta comer molho de tomate com azeite todos os dias para prevenir câncer de próstata se você continuar ingerindo muito açúcar, gordura e fumando': afirma Nathaly Russo, nutricionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “É preciso ter hábitos saudáveis para aproveitar os benefícios da alimentação.”

LIGADA NA TOMADA

Descanso é uma palavra que não existe no dicionário de Regina Duarte. “Descansarei na próxima encarnação. Temos sempre de realizar algo. estar sempre ‘causando ‘, diz a animada Regina. soltando em seguida a sonora gargalhada que a consagrou. O motivo de tanto trabalho são as comemorações dos 50 anos de carreira. “Começou no ano passado. mas até 2015 tem celebração”. afirma. A eterna Namoradinha do Brasil está em cartaz com Raimunda, Raimunda e inaugura no dia 21 a exposição Espelho da arte – A atriz e seu tempo. no Centro Cultural Correios. no Rio de Janeiro. A festa de gala será apresentada por Rodrigo Santoro. Ele antecipou sua volta das férias nos Estados Unidos para ser o mestre de cerimônias da noite. Na mostra. todos os filmes de Regina serão exibidos. inclusive EI hombre deI subsuelo. inédito no Brasil e dirigido pelo argentino Nicolás Sarquís em 1981. O programa-piloto que deu origem à série Malu mulher também será mostrado. “Tem coisas que nunca estiveram no YouTube. São mais de 500 fotos em oito ambientes. divididos por décadas.” Regina está nos final mentes de uma biografia escrita por lzzo, de nome provisório Regina 50 anos – Namoradinha do Brasil. com previsão de lançamento para outubro. e acaba de filmar o longa-metragem Gata velha ainda mia. “Farei uma louca que ficou enclausurada num apartamento”. diz. “É o papel mais contundente que fiz na vida.”

CHÁ DE FUNGOS

Alanis Morissette chegará ao Brasil só no fim do ano, quando fará turnê do sétimo álbum inédito. Havoc and bright Iights. em sete cidades do país. Mas já enviou sua lista de pedidos – a herança hippie continua fortíssima – à produção brasileira. Na parte tradicional do cardápio estão oito garrafas da água francesa sem vidro e em temperatura ambiente, framboesas, suco de limão sem açúcar, amêndoas, nozes e sementes de girassol sem sal. leite de soja e iogurte sem gordura. A inovação chega com as duas garrafas de Synergy Kombucha, nova mania entre as celebridades internacionais. O nome esquisito é de uma bebida fermentada feita de mistura de chás e fungos. Na China, a especiaria tem sido usada por séculos com a promessa de saúde e bem-estar.

OS 90 DE TÂNIA

Tônia Carrero completa 90 anos no dia 23. Afastada do trabalho desde que atuou no filme Chega de saudade, de Lais Bodansky, em 2009, a diva vive reclusa em seu apartamento no Leblon. Tônia não dá mais entrevistas. “Há pouco mais de um ano mamãe não consegue falar direito”, afirma Cecil Thiré, filho único de Tônia. Ela é vitima de hidrocefalia, acúmulo anormal de liquido no cérebro. Isso contribui para a debilidade tisica. Apesar da retirada de cena, Thiré diz que Tônia continua festeira. “Ela me pediu que marcasse a comemoração do aniversário para as 16 horas do dia 19. Será uma celebração para a família e poucos amigos. Ela fez questão de participar de toda a preparação, desde a escolha do bolo até as taças de champanhe.”

EM MEMÓRIA DE WALY

Quase dez anos depois da morte do poeta Waly Salomão, seu irmão, o também poeta Jorge Salomão, começou a escrever o livro Duas ou três coisas que sei dele ou Waly; Waly! “Assim que as editoras souberam do meu desejo, começaram a fazer propostas”, diz Jorge. “A publicação terá 180 páginas e quase nenhuma foto, só histórias desde que nos mudamos para Salvador. Será um retrato cru e doce.” Ele se lembra de ter visto com o irmão um show de João Gilberto em Jequié, no interior da Bahia. “Ficamos chocados com o espírito renovador da bossa nova.” Jorge convidou

Caetano Veloso para falar sobre o irmão, que também foi perseguido pela ditadura militar.

 

NEOCASAL 20

Namorados há quase três anos, os modelos Agatha Moreira e Pablo Morais moravam juntos em Nova York até janeiro, quando decidiram fazer testes para as próximas produções da TV Globo, a nova temporada de Malhação a minissérie Subúrbia. “Ela filmou meu teste e eu filmei o dela. Aí mandamos para os produtores de elenco no Brasil”, diz Pablo. Deu certo. Agatha pegou um dos principais papéis da novelinha adolescente, e ele vai viver o antagonista da minissérie de Luiz Fernando Carvalho e de Paulo que estreará em janeiro. “Primeiro, ele foi aprovado. Três dias depois, veio a resposta que eu tinha sido escolhida para Malhação. Foi bom, porque estava tensa de ele ficar no Rio de Janeiro e eu em Nova York”, diz Agatha. Ela continua morando com o namorado depois de voltar ao pais e pensa em casamento. “Somos jovens, estamos focados na carreira e temos muito o que construir ainda. Mas já falamos, sim, sobre isso.” Pablo já foi apontado como novo Cauã Reymond, sonho de nove em cada dez aspirantes.

“QUERO SER PRESIDENTA DA REPÚBLICA”

Há sete anos, Chesller Moreira passou a integrar o Conselho Nacional de Juventude, órgão do governo federal nas ações relacionadas à política nacional de juventude. “Foi nessa época que me descobri drag queen e passei a fazer parte também do Conselho Nacional LGBT,órgão ligado diretamente à Presidência da República”, diz ela. Em2010, foi recebida no Palácio do Planalto pelo presidente Lula e assumiu a identidade de Lohren Beauty. “Lula foi um fofo. Pedi rigor nos casos de homofobia.” Lohren é candidata a vereadora em Campinas, interior de São Paulo, pelo PCdoB.”Sou muito fã de Sophia Loren, por isso escolhi o nome.”

ÉPOCA – Qual sua plataforma polltlca?

Lohren Beauty- Hã? Como assim?

ÉPOCA – Pelo que você vai lutar?

Lohren – Pelos direitos da comunidade gay, pela cultura nos bairros e pela defesa da família. Quando falo em defesa da família, muita gente estranha. É que aquela família tradicional, com papai, mamãe e filhinhos está em extinção. Hoje em dia, o tio cria o sobrinho, a avó às vezes faz o papel de pai do neto. A constituição familiar mudou, e isso não pode ser ignorado.

ÉPOCA – Uma drag na Câmara dos Vereadores deverá causar estranhamento, não?

Lohren – Estou preparada. Quando fui recebida por Lula, muitos reacionários torceram o nariz. Mas nem liguei. Inclusive disseram que eu era a mais bem vestida do evento. A maioria das mulheres estava de jeans e camiseta. Eu estava de longo, linda, bem diva.

ÉPOCA – Quem arca com os custos da campanha?

Lohren – a partido ajuda um pouco. Não estou panfletando por aí nem colocando placa em tudo quanto é lugar. Prefiro ir pessoalmente, montadíssima, encontrar o povo. O Facebook também está me ajudando bastante. Quero ser a primeira homossexual assumida a ser presidenta da República.

ÉPOCA – Como funciona a Escola jovem LGBT fundada por você?

Lohren – Somos a primeira escola gay do Brasil. Não tem escola de cabeleireiro, de moda? Somos um polo de cultura, funcionamos há três anos e ensinamos informática, sociologia, tudo com a temática LGBT. Temos até um curso de drag queen.

SEM FEIJÃO COM ARROZ

O produtor Gabriel Dantas, de 24 anos, é um dos principais nomes do Brazilian Day Canadá, entre os dias 27 de agosto e 3 de setembro. Embora o evento aconteça anualmente em mais de 20 cidades, apenas as versões americana, japonesa e canadense ganham destaque. “Isso precisa ser mudado. Entrei no ano passado e percebi que a festa estava muito feijão com arroz, acontecia tudo num dia só. Não havia nada que promovesse, de fato, nossa cultura”, afirma Gabriel. Ele criou uma semana dedicada ao Brasil, com exposição de arte brasileira nas dependências da Câmara Municipal de Toronto, apresentações de capoeira e baterias de escola de samba, a ponto alto será o show apresentado por Serginho Groisman, com a dupla Jorge & Mateus e os cantores Thiago Corrêa e Leo Rodrigues.

A MULHER TROFÉU

Walcyr Carrasco

Tenho amigos que gostam de exibir a mulher. São homens maduros que entram em crise no casamento de muitos anos. E apaixonam-se por outra mais jovem. Conheço um empresário que teve um caso com a secretária. Pagou novos seios de silicone para a nova paixão. Plástica total no rosto. Transformada em sex symbol, a secretária foi promovida a diretora. Ganhou carro e apartamento. Orgulhoso, ele a exibia diante dos funcionários. A mulher, elegante e refinada, descobriu tudo. Separaram-se. Mas a secretária já era casada. Na loucura da paixão, o empresário teve problemas financeiros. Hoje vive sozinho numa casa alugada. A secretária continua com o marido. Mesmo assim, ele não se arrepende. Mostra fotos dela, de peito inchado:

-Vejam só que mulher!

Sempre acreditei que um relacionamento vive de afinidades. Hoje vejo que alguns são alicerçados no exibicionismo masculino. Um grande empresário paulistano, apesar da idade, cerca-se de garotinhas. Suponho que a maior parte delas recebe um “presente” a cada encontro. Durante certa época, ele oferecia um carro a cada namorada do momento. Eram tantas que, dizia-se, tinha conta corrente na concessionária. A vida é dele. Se é feliz assim, não é problema meu. Eu me admirava com o prazer que esse senhor tinha em ser fotografado ao lado das moçoilas. Bem, pelo menos uma prova de sanidade ele deu: não se casou com nenhuma. Há casos em que o madurão não só se apaixona como se casa com a bonitona. Nada contra. O amor é possível em qualquer situação, e a diferença de idade não quer dizer coisa alguma. Mas é surpreendente. Boa parte dessas relações, assim que nasce uma criança, termina no tribunal, com a moça exigindo pensão e boa parte do patrimônio. Na verdade, nesses casos, tenho pena é da criança.

Uma vez fui visitar um casal. Ele, advogado. Ela, precocemente aposentada da carreira de sexy simbol. Às tantas, ele puxou o assunto:

- Sabe que ela já posou nua?

Claro que eu sabia. Mas fiz expressão de surpresa.

-Não diga!

Ele foi até o quarto. Voltou com a revista, já bastante manuseada.

- Olhe aqui.

Mostrou as fotos orgulhoso.

- Quando nos casamos, ela havia acabado de posar.

O que dizer para um marido que exibe as fotos da esposa nua? Nenhum livro de etiqueta explica! Exclamei:

- Que corpo perfeito!

Como sou autor de novelas, ambos viram, na minha admiração, uma oportunidade.

- Leve a revista, disse ele. Tenho outras.

-Mas … mas …

- Eu autografo!, ela se ofereceu, animadíssima, cruzando as pernas no shortinho minúsculo.

E me deu a revista orgulhosa.

Quando me despedi, o marido ainda deu a ideia:

- Quem sabe você bota minha mulher nua numa novela, hein?

Quando conto essas histórias, muita gente acha que só acontecem no meio artístico. Coisa nenhuma. Acredito que seja mais frequente no mundo empresarial e entre altos executivos. Afinal, é onde rola mais dinheiro. Nem acho que as maiores culpadas sejam as garotas. Muitas delas, vindo da classe média baixa, são criadas para encontrar um príncipe encantado. Para elas, um príncipe barrigudo e grisalho não é tão ruim assim. Estão acostumadas com a ideia desde a adolescência. Além disso, muitos homens também mantêm a boa forma. Algumas até devem sentir-se surpresas quando o marido gosta que saiam vestidas de piriguetes. Outras, mais espertas, acham que faz parte do acordo. Já vi isso acontecer em todo lugar. Até mesmo há alguns anos no Hotel Ritz, em Paris, numa ceia de Natal. Um senhor maduro degustava a refeição ao lado de uma jovem quase nua, de tão curta a saia e grande o decote. De vez em quando, ele olhava para as outras mesas, com ar vitorioso.

Atualmente, há uma tendência entre algumas mulheres de se comportar de maneira semelhante. São profissionais de sucesso que se relacionam com um garotão. O musculoso faz o mesmo papel da piriguete. Ou também não trabalha ou tem um emprego mais leve, distante da concorrência selvagem das grandes empresas. Elas também se exibem para as amigas:

-Viu meu gato?

É um risco abandonar a companhia de anos, com quem se divide a vida. Principalmente em troca de um troféu que parece ridículo para quem tem bom-senso. O que mais me espanta é ouvir esses homens e mulheres narrando fatos para provar que a bonitona ou o rapagão estão realmente apaixonados. Já dizia Nelson Rodrigues que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Mas, certamente, é outra qualidade de amor.

ENCONTRO COM CARAVAGGIO

No prédio onde trabalha como porteiro, José da Silva está quase sempre acompanhado de um livro sobre o pintor italiano Michelangelo Caravaggio. Agora, pôde estar diante da obra do ídolo

Aline Ribeiro

“Épor aqui”, diz ele, apontando o caminho para a exposição. É a segunda vez que José Carlos da Silva, de 50 anos, percorre o Museu de Arte de São Paulo (Masp) para apreciar as obras do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), um dos mais notáveis artistas da ‘Renascença. A primeira visita foi só um dia depois de a mostra começar, em 2 de agosto. Seu José, como -todos o chamam, escapuliu em seu horário de almoço da portaria do prédio onde trabalha para finalmente encontrar, cara a gente mesmo. Tudo muito real”. Quando se trata de Caravaggio, o porteiro José é um especialista.

Versado em literatura e artes, com conhecimentos gerais emprestados dos cursos que frequenta para se “reciclar” seu José buscou no aprendizado uma forma de mudar a própria condição. É um homem inteligente e determinado. Quando sobrava um dinheiro, estudava Caravaggio e inglês. Desafiou o senso comum segundo o qual um porteiro não pode entender de artes plásticas. Recita versos de literatura de cordel, de cabeça e sem titubear, comenta trechos de seus livros favoritos (já leu boa parte da obra de Graciliano Ramos e Machado de Assis), conversa sobre música clássica e artes plásticas. “O saber ninguém tira de você. É o que a gente tem de mais valioso': diz. Seu José, a sua maneira, é um contestador. Isso explica sua afeição por Caravaggio. “Gosto mesmo é da audácia dele”,afirma. Caravaggio começou a pintar no final do século XVI e enfrentou a doutrina da época ao colocar os rostos das prostitutas que frequentava em madonas, como no quadro Marta e Maria Madalena. Transferia para a arte sua vida de tabernas, trapaças no carteado, embriaguez e brigas de rua. Sua trajetória foi conduzida pelo excesso. Só foi reconhecido dois séculos depois de sua morte.

A ânsia por descobrir mundos diferentes fez seu José sair da cidade de Carpina, no interior de Pernambuco, com 18 anos. Eram os anos 1980. Ele pediu ao pai, dono de um pequeno comércio de secos e molhados, os 1.600 cruzeiros da passagem de ônibus e seguiu o rastro de um primo que já se mudara para o Sudeste. Quem recomendou a migração foi a professora do primário, a mesma que lhe ensinou as letras e contou sobre a existência de autores como Graciliano Ramos e Machado de Assis. “Ela falava que a gente poderia conhecer grandes bibliotecas, ter acesso a essas obras”, diz.

Em São Paulo, seu José trabalhou como faxineiro e segurança em loja de departamento até virar zelador e porteiro. Durante esses anos, cruzou a cidade a pé ou de ônibus atrás das bibliotecas e dos grandes autores da literatura. Mais recentemente, encontrou as artes. Em 2001 ou 2002, não lembra bem, leu no jornal sobre o milionário japonês Ryoei Saito, que expressara o desejo de ser enterrado com seu tesouro particular – os quadros o Retrato do dr. Gachet, de Van Gogh, e Baile do Moinho da Galette, de Renoir, arrematados em 1990 por US$ 82,5 milhões e US$ 78,1 milhões. “Quis entender que maravilha tinha essa tal de arte para alguém gastar essa fábula numa pintura’, diz. Por uns três anos, seu José ligou insistentemente ao Masp para tentar se matricular num curso de um ano de história da arte. Até que o homem do outro lado da linha se sensibilizou com a história do porteiro e lhe ofereceu uma bolsa. “Na primeira aula já pensei: é esse mundo aqui que eu quero mesmo”, diz.

Certa vez, um carrão encostou à portaria onde seu José faz vigília, e, do banco de trás, um senhor de meia-idade desceu vestido de roupas pretas. Pediu para falar com José Carlos da Silva. Enquanto o motorista tirava caixas do porta-malas, o homem misterioso se apresentou. Era Charles Cosac, dono da editora Cosac & Naify e de um dos maiores acervos particulares de arte brasileira. Havia ouvido de uma jornalista conhecida de seu José sobre sua paixão por Caravaggio. Resolveu presenteá-lo com mais de 30 livros de arte. Seu José desde então vive agarrado a eles. Quando pode, veste o chapéu e vai até o cemitério da Consolação contemplar as esculturas de Victor Brecheret. Faz sempre uma fezinha na loteria para, se um dia ganhar, ir até o Vaticano, onde ouviu dizer que há muitas obras dos pintores renascentistas. Enquanto isso não acontece, está satisfeito em ter sentido o gostinho de ficar próximo de Caravaggio por aqui: “Agora já posso dizer que vi uma obra dele de verdade”.

AS MULHERES QUE ADORAM BIGODES

Eles passaram décadas exilados nos álbuns de fotografias, mas voltaram com tudo. Agora, até as mulheres querem um (se for de mentira, claro)

Mulher de bigode nem o diabo pode. Mas menina pode. Não só pode, como agora é fashion. O bigode virou moda entre jovens e adolescentes. De repente, vitrines e redes sociais foram invadidas por objetos enfeitados por um bigodão de fazer inveja ao Barão do Rio Branco, aquele da velha nota de Cr$ 1.000, o barão. Camisetas, tênis, bótons e até coelhos de pelúcia com bigodes. É o bigodismo.

A fotógrafa paulistana Sharon Smith, de 31 anos, não sabe de onde vem sua paixão pelos bigodes que se espalharam por sua casa e por seu escritório. Ímãs bigodudos estão grudados nos gaveteiros. Na sala, um enorme bigode de cortiça, trazido da Austrália, enfeita uma das paredes. “Os bigodes me fazem sorrir”, diz Sharon. A estudante carioca Vitória Monroy, de 11 anos, também aderiu ao bigodismo. Ela tem dois coelhos de pelúcia bigodudos e um par de tênis com estampas de dezenas de bigodes. “Todo mundo comenta quando uso': diz ela. Vitória conta que conheceu a moda com amigas da escola.

De onde vem o bigodismo? Houve um tempo em que o bigode era considerado brega. Num mundo cada vez mais depilado, ele ficou por um fio. Há três teorias sobre seu retorno. A primeira é que os bigodões começaram a aparecer em eventos ligados aos 108 anos que Salvador Dalí faria se estivesse vivo. Outra teoria é que eles surgiram na celebração de outro bigodudo, Freddie Mercury, cuja morte fez 20 anos. Outra explicação é que a fama surgiu por causa da ação da Movember, uma ONG australiana que promove o exame de câncer de próstata e faz campanhas publicitárias usando o bigode como símbolo.

Ninguém é capaz de apontar exatamente a origem dessa novidade antiga. Sabe-se que a mania decolou com Iustin Bieber e Demi Lovato. Os astros teens dos Estados Unidos apareceram num clipe caseiro parodiando a música “Call me maybe”, da canadense Carly Rae. Usavam bigodes. Bieber foi além: pintou um bigode falso e foi fotografado na saída de um restaurante. Estava feito. Meninas do mundo inteiro começaram a comprar produtos com bigodes. Nas redes sociais, elas fazem fotos com o cabelo comprido sobre o lábio para fingir que é um bigode. Ou simplesmente adotam moustache (bigode, na tradução do francês) como um sobrenome para seu nickname no Twitter e no Facebook.

Foi na internet que a estudante Ana Carolina Alves do Santos, de 11anos, conheceu os bigodes. Hoje, ela tem um anel de dois dedos com bigode e pretende comprar um par de tênis com a mesma decoração. “Na escola todo mundo coloca o dedo embaixo do nariz como se fosse um bigode para fazer foto e colocar no Facebook”, diz ela.

Quem milita pelo bigode há muito tempo ficou feliz com a moda. Em setembro, começa em Brasília a quinta Moustache Fashion Week. O evento surgiu em 2007, na Universidade Federal de Brasília. Um grupo de amigos, intitulado “cúpula do bigode”, resolveu fazer o Dia do Bigode. A brincadeira agradou e cresceu. Agora, todos os anos eles promovem uma semana de atividades para os bigodudos. No site, vendem camisetas com o “Eu amo bigode”. O ponto alto da festa deste ano será a Noite do Bigode Cantante, karaokê só para bigodudos em 3 de setembro. O biólogo Stefano Salvo Aires, de 30 anos, um dos organizadores da Moustache Fashion Week, diz que o bigode virou contracultura. “O bigode sofreu preconceito”, diz Aires. “Como ninguém gostava de usar, virou cool.”

VOCÊ LEVA UM VÍRUS NO BOLSO?

O sucesso dos smartphones não passou despercebido aos hackers. Os ataques a celular estão em alta e mais sofisticados. Saiba como se prevenir

Acompanhar uma Olimpíada é trabalho árduo. Em Londres, foram 302 provas em 19 dias. O programa para celular London Olympics Widget, disponível para download grátis nos celulares com o sistema Android, prometia facilitar essa tarefa ao reunir todas as notícias do evento. Era um golpe de hackers. O aplicativo roubava a lista de contatos e monitorava mensagens, Não foi o único programa malicioso, ou malware, a aproveitar o interesse pelos Jogos. Outro aplicativo se passava pelo game olímpico oficial. Ao ser instalado no celular, ativava, sem conhecimento do dono do aparelho, serviços pagos oferecidos pelas operadoras. Londres foi a primeira Olimpíada em que hackers atacaram os smartphones. Até Pequim, há quatro anos, sites e e-mails eram os meios mais comuns para espalhar vírus. Agora, os criminosos virtuais estão atentos ao sucesso dos smartphones.

De janeiro a junho, 13 milhões de smartphones foram invadidos, de acordo com a empresa de segurança NetQin, 117% a mais do que no mesmo período de 2011. No ano passado, o número de vírus para celulares cresceu 155%. Foram 28 mil ameaças diferentes registradas no mundo, segundo a empresa de segurança digital Iuniper Networks, dos Estados Unidos. “Antes, havia quatro sistemas para celular entre os mais populares. Isso dispersava esforços dos hackers e reduzia os ganhos': diz Daniel Hoffman, diretor da Iuniper. “Hoje, o mercado se divide entre os sistemas da Apple e o Android, do Google. Ficou mais fácil espalhar os vírus.” Por essa lógica, é natural que o maior alvo dos hackers seja o líder de mercado, o Android, presente em 65% dos smartphones vendidos no mundo. Os vírus para Android cresceram 3.325% em 2011. O risco do Android é maior porque ele permite a você instalar no aparelho aplicativos de lojas terceirizadas e menos seguras.

Uma forma de evitar esses vírus seria usar as lojas de aplicativos de grandes empresas. Mas nem elas estão imunes. O Google permite que qualquer produtor de aplicativo coloque um programa à venda na loja oficial Play Store sem testes prévios. O Google faz varreduras periódicas para expurgar programas perigosos e investiga rapidamente quem for denunciado. Até lá os hackers já aproveitaram a brecha para espalhar o vírus. A App Store, da Apple, era tida como a mais segura por só vender aplicativos depois de avaliá-los. No mês passado, o sistema foi burlado pela primeira vez. O aplicativo Find and Call deveria simplificar o uso da agenda do telefone. Em vez disso, roubava os números de telefone e enviava SMS para divulgar o vírus em nome do dono do celular. Foi baixado por 100 mil pessoas até ser removido.

Os hackers tiram proveito dos hábitos de quem tem smartphone. A cada mês, surgem dezenas de novos programas para celular. Instalar e testar esses programas virou uma tentação. Segundo a consultoria ABI Research, cada dono de smartphone baixa, em média, 37 aplicativos por ano. Em todo o mundo, serão 36 bilhões de downloads. Um em cada quatro aparelhos não tem um antivírus instalado, segundo a empresa de segurança Trend Micro. Isso inclui os antivírus que já vêm instalados de fábrica.

A maioria dos ataques visa roubar dados pessoais e monitorar ligações, mensagens, navegação e até mesmo o sinal de GPS. São os vírus espiões, ou spyware. Os dados roubados podem ser vendidos ou usados para acessar o e-rnail ou a conta bancária do dono. Outro tipo popular de vírus assume o controle do smartphone para enviar mensagens de texto. São conhecidos como Cavalos de Troia SMS. As mensagens autorizam a compra de serviços para celular, como alertas de notícias, sem o dono do aparelho perceber. São serviços falsos oferecidos por empresas criadas por hackers. A cobrança vem na conta do celular. O valor cobrado normalmente é baixo para o golpe passar despercebido. A soma de milhares de vitimas costuma dar um bom dinheiro. O vírus ainda envia novos SMS para os contatos da agenda para se espalhar. “Aplicativos são uma oportunidade para os hackers obterem acesso às funcionalidades do telefone, como ligar o GPS': diz Leandro Mantovam, diretor da empresa de segurança on-line AVG no Brasil. “Já houve casos em que o hacker bloqueou o aparelho à distância e pediu resgate.”

Um antivírus ajuda a prevenir ataques. A maioria dos programas para PC já tem versões pagas para celular. Também há boas opções gratuitas. A melhor prevenção é tomar alguns cuidados. Não clique em links ou baixe arquivos de e-mails de desconhecidos. Antes de baixar, leia as avaliações do aplicativo feitas por outras pessoas e verifique o nome do fabricante. Ao instalá-lo, atenção às permissões exigidas. Esses comandos autorizam o aplicativo a acessar a agenda ou uma conta de rede social. Podem ser necessários a seu funcionamento. Um programa de mapa precisa do GPS ou sinal do celular para localizar você. Mas desconfie se as permissões forem excessivas. Um jogo de palavras cruzadas não precisa do GPS. Como no caso dos vírus para PC, um pouco de bom senso e paranóia ajudam.

“COMECEI A FUMAR”

O ator Alexandre Borges diz que se arrepende de ter começado a fumar e fala da dificuldade de largar o vício

“Meu maior erro foi ter fumado o primeiro cigarro, aos 24 anos. E um erro do qual me arrependo, mas não consertei. Ainda não consegui parar.

Venho de uma geração que não era completamente informada sobre os perigos do cigarro. Fumar era charmoso, principalmente no meio do teatro e do cinema. Comecei quando fui morar um ano e meio em Portugal, no início dos anos 1990. Fazia parte de um grupo de teatro chamado Boi Voador. O diretor foi convidado para levar a peça Gota d’água, de Chico  Buarque, para o país. Fui como assistente de direção e acabei ficando por lá. Morei no Porto. Ao contrário do Brasil, alegre e tropical, Portugal tem um clima de melancolia, uma coisa bem Fernando Pessoa. Fado, bar, café,

vinho e cigarro. Naquela época, era um lugar em que se fumava muito. Tinha uma ideia romântica do cigarro. Como se ele estivesse ligado à criação, ao pensamento, à poesia. Essa boemia me fascina tanto que hoje estou fazendo um projeto chamado Poema Bar,  em que recito Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes, acompanhado por um pianista que toca fado e clássicos.   Não estou enaltecendo o cigarro. Quero parar mesmo. Já consegui ficar sem ele durante um ano. Logo   depois, em 1998, fiz uma peça – mais uma vez em Portugal! – e tive de fumar no palco. Comprei um cigarro de ginseng, mais natural. Só que fedia. Comprei um normal e não larguei mais. Hoje fumo um maço por dia. Minha vida de fumante não é escancarada. Nunca fumo dentro de casa. Vou  sempre para o terraço ou para a janela. Também não me desespero por ficar sem fumar num avião, durante 12 horas.Aguento bem.

Sou o único fumante de casa.A cobrança para parar vem de todo lugar.Na rua, as pessoas me falam “o cigarro vai te matar” ou “fumei durante 50 anos, não faça isso!”.Ando sempre com um chicletinho. Escovo o dente depois ou bochecho. Não estou em processo de parar de fumar ainda, mas não quero  ser um velhinho tossindo o tempo todo.Acho legal assumir esse erro, porque não

é saudável e traz conseqüências terríveis. Para me manter saudável, ando sempre na Lagoa e faço caratê há sete anos. Sou faixa roxa. Minha mulher, Iúlia (Lemmertz), se preocupa com a comida aqui de casa.Tem sempre legumes por causa do meu filho Miguel. Comemos castanha

e granola, essas coisas saudáveis.Eu me cuido em tudo o que é possível e um dia vou parar com o cigarro.
O melhor é não começar, não fumar o primeiro maço. É muito difícil largar. E sempre tem um gatilho para voltar. Um cigarrinho na hora de ler o texto e decorar. Mais um para espantar um

pouco o tédio, a solidão e a carência. Acho ótimo que hoje os jovens tenham consciência sobre os males do cigarro e que seja proibido fumar em lugares fechados. Concordo com tudo. O problema

é a facilidade para comprar. Até menores de idade conseguem. Acho importante dar esse depoimento para os  jovens e também para os fumantes. Ta aí um erro que vale superar.

 

MENTE ABERTA

Quando Quintana se casou, ela usava flores de jasmim entrelaçadas na grossa trança que lhe pendia nas costas. Seus pais, os escritores Joan Didion e John Gregory Dunne, brindaram a ela,

sua única filha, e a Gerry, agora seu genro. Duas vezes. Uma na catedral, a outra mais tarde, num

restaurante chinês de Nova York. Desejaram a eles felicidade, saúde, amor, sorte e filhos bonitos. Naquele dia, 26 de julho de 2003, eles ainda chamavam a isso de “bênçãos triviais”, aquilo que se deseja com sinceridade para quem amamos, mas quase sem pensar. Cinco meses depois, John estava morto. Um ano e oito meses depois dele, Quintana estava morta. Restou Joan, perplexa, pensando que houve um dia, houve uma vida, houve alguém com seu nome que acreditara que felicidade, saúde, amor, sorte e filhos bonitos pudessem ser bênçãos triviais.

Noites azuis (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 29,90, tradução de Celina Porto carrero), o último

livro da jornalista, roteirista e escritora americana Joan Didion, é a narrativa de uma mulher que se

descobre sozinha para testemunhar o próprio fim. Antes dele, Joan escrevera O ano do pensamento

mágico, sobre o período que se seguiu à morte do homem com quem vivera por quase 40 anos,

com quem escrevera roteiros para Hollywood, com quem sonhara com uma filha que se chamaria

Quintana Roo. Um homem que caiu de repente sobre a mesa do jantar porque o coração parou,

deixando-a só e perplexa.
Ao escrever sobre a vida sem John, ela alcançou uma síntese perfeita da catástrofe humana: “A vida muda num instante. Você  se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de  repente”.

a emergência para a qual não há equipes de salvamento. O ano do pensamento mágico tornou-se um best-seller nos Estados Unidos e vendeu 100 mil exemplares no Brasil. Quintana morreria pouco antes do lançamento, depois de  meses com complicações de saúde cujos detalhes Joan escolhe não explicar. Tinha 39 anos.

Noites azuis é a continuação que Joan jamais esperaria escrever.É a história de uma mulher que restou. E talvez se possa dividir a condição humana em três destinos: ou morremos jovens, de doença, tiro, terremoto, acidente de trânsito, como aconteceu com Quintana; ou vivemos até uma idade madura, mas um câncer, um infarto ou um derrame nos leva um pouco antes de todos os outros, como John; ou restamos. No território de seus afetos, Joan foi a que restou. Tinha 70

anos quando se descobriu só.
O que fazer quando você é a que resta? Se você é uma escritora, escreve. Agarra-se às palavras

na tentativa de compreender o impossível, agarra-se para  não afundar. Agarra-se porque é preciso enfrentar as lembranças, sempre fragmentadas, e com elas construir uma memória que faça algum sentido na paisagem devastada que agora é você. Com 1 metro e 56 centímetros e meio de altura e a silhueta de quem poderá ser levada embora na primeira brisa, Joan Didion é uma escritora feroz.Examina a si mesma sem autopiedade  ou pieguice e entrega-se ao leitor com todas as suas marcas. A grandeza de seu texto está na capacidade de entrelaçar a tragédia às pequenas delicadezas do cotidiano. Como ao perceber que, por muito tempo, escrevera vendo as roupas de Quintana secar ao sol

As lembranças espreitam Joan atrás de cada porta, dentro de cada gaveta. Ela levanta a tampa da caixa de joias forrada de cetim e encontra lá dentes de leite.Abre a porta do guarda-roupa e vê três velhas capas de chuva de John, uma jaqueta de camurça dada a Quintana pela mãe de seu primeiro namorado e um bolero de angorá, há muito comido pelas traças, que sua mãe ganhara de seu pai depois da Segunda Guerra Mundial. Ela abre caixas e acha convites para casamentos

de gente que há muito se separou, cartões de agradecimento de funerais de pessoas cujo rosto

esqueceu. “Em teoria, essas lembranças servem para trazer de volta o momento”, escreve.”Na prática, servem apenas para demonstrar quão inadequadamente apreciei o momento quando ele aconteceu.”
Em que momento surgiu Quintana Roo?Antes de setornar criança,ela havia sido uma paisagem. estivessem em casa para atender o telefone? E se tivessem sofrido um acidente na estrada, o que teria

acontecido comigo?': perguntava.

Joan nunca teve respostas para as perguntas da filha. Como a maioria dos pais, ela se iludira que

seu bebê era uma página vazia, à espera de uma história. Mas todo recém-nascido é uma página que

já começou a ser preenchida pelo desejo, ou pela neurose, ou pelo desespero, ou pelos genes, ou por

tudo isso junto. No caso de Quintana Roo, também pelo abandono que assombra os filhos que um dia

restaram, antes de ser escolhidos por um triz. Durante a maior parte da vida, Ioan não conseguia compreender: “Como ela pôde pensar que eu não cuidaria dela?”.

Mas isso foi antes, quando Joan ainda não tinha ouvido do médico da UTI: “Ela não consegue obter

oxigênio do ventilador há pelo menos uma hora”. O que aconteceu? “Se ontem mesmo eu a segurei

em meus braços. Ontem mesmo eu prometi a ela que estaria segura conosco.” Enquanto escreve, Joan

sabe que homens e mulheres só descobrem a mortalidade quando têm um filho. Quando você jura

proteger sua criança para sempre, mas acorda sem ar no meio da noite porque sabe que está mentindo.

Você mente porque algumas mentiras são necessárias para seguir vivendo, mas você sabe – e seu

filho também sabe. Com a terrível lucidez de ser aquela que restou, [oan agora é capaz de inverter a

pergunta, perigosamente perto da verdade que sempre esteve lá: “Como ela poderia sequer imaginar que

eu tomaria conta dela?”.
Joan descobre, enquanto amarra amarra lembranças, que um filho será sempre, em alguma medida, uma terra incógnita. O nome, afinal, não estava deslocado. Possivelmente ela nunca precisaria pensar nisso se a

ordem da vida – e da morte – não tivesse sido rompida. Agora, aqui está ela, perplexa, apavorada. É a

esta altura que Joan acorda um dia e percebe que se tornou uma velha. Ela sabe o momento exato.

Era manhã de quinta-feira, 2 de agosto de 2007. Joan acordou com manchas avermelhadas no rosto e

algo parecido com dor de ouvido. Desde então, seu corpo tem falhado de várias maneiras. A ponto de

uma noite ela ter se surpreendido com medo de não conseguir se levantar de uma cadeira dobrável

num evento público. Como foi ela que restou, agora gasta horas a fio na sala de espera de hospitais, às

voltas com o preenchimento de formulários nos quais lhe pedem algo nebuloso: indicar quem chamaria

em caso de emergência.
Joan descobre que não tem mais medo de morrer. Tem agora medo de não morrer – de restar sem  consciência ou movimento. Restar sem poder contar nem consigo mesma. Percebe então que as noites azuis

não voltarão. Aquelas noites assim chamadas porque anunciam o verão e só vão embora depois que ele

acaba, nas quais podemos nadar em azul no crepúsculo antes de a escuridão nos alcançar. “Será que

eu pensava que as noites azuis durariam  para sempre?”, indaga-se,para sempre perplexa.

Ela escreve, porém. As palavras também começam a lhe escapar, ela sente que seus verbos e substantivos

“não dizem o que deviam dizer ou não querem': Mas Joan vive enquanto escreve – e escreve para saber que ainda vive. Enquanto escreve, mantém todos vivos. Um truque desesperado do ilusionista que é todo escritor,

mas também um milagre humano. No livro, Quintana, Iohn e tantos outros que povoaram o mundo

de Joan Didion ainda vivem. E as noites azuis continuam lá.

 O HOMEM QUE AMA E COLETA QUADROS.

O marchand Jean Boghici, de 84 anos, observava sua cobertura pegar fogo, em Copacabana, com os olhos marejados. “Vou me vingar fazendo uma bela exposição': repetiu aos que se acercaram dele naquele momento difícil. Dentro do duplex da Rua Barata Ribeiro, ardiam telas como Samba, de Di Cavalcanti, uma obra-prima do modernismo brasileiro avaliada  em R$ 50 milhões, e Floresta tropical,de Alberto da Veiga Guignard, cujo valor é estimado em R$ 5 milhões. O incêndio da segunda-feira, dia13, atingiu um dos andares da cobertura e consumiu um número ainda indeterminado de peças da coleção de Boghici, que compreende

centenas de telas. A perda monetária poderá ser coberta por um seguro, mas, para o colecionador, as obras têm valor afetivo maior que o financeiro. Um amigo conta que já viu o marchand subir o valor de um quadro a níveis estratosféricos para o comprador desistir, e ele continuar com a obra.
Dono de uma das maiores e mais valiosas coleções particulares  do país – há quem diga que o valorsomado das obras que Boghici tem em casa ultrapassa os R$ 300 milhões -, o romeno aportou no Rio de Janeiro em 1949. Tinha 21 anos e não trazia documentos. Sem dinheiro, chegou a dormir    na areia das praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Para evitar a fiscalização contra imigrantes, foi para Minas Gerais. Levava consigo

uma experiência artística que mudara sua vida. Um ano antes  de vir para o Brasil, visitara umaexposição de Van Gogh em Paris. Ficou tão tocado pelo que viu que  decidiu desenhar e estudar sobre o pintor. Assim que se estabeleceu em Minas Gerais, Boghici procurou o melhor professor de arte da cidade para estudar desenho e caricatura. Assim conheceu o pintor fluminense Guignard (1896-1962). Apaixonou-se de vez pela arte, mas ainda precisava pagar suas contas.
De volta ao Rio, trabalhou consertando rádios, foi ferroviário,  vitrinista e técnico de som. A virada veio em 1958. Dono de uma memória invejável e estudioso de Van Gogh, participou do programa O céu é o limite, na TV Tupi, em que os candidatos respondiam a perguntas ao vivo sobre temas específicos. Ganhou o equivalente a US$ 200 mil, mesmo desistindo com menos do que poderia ganhar. ”As pessoas me pediam na rua para eu não desistir': disse então.
Com o dinheiro do prêmio, comprou o apartamento de Copacabana, um carro e quadros. Ao aparecer na TV, ganhou popularidade como conhecedor de arte. Com esse patrimônio abriu a Galeria Relevo, que se tornaria ponto de encontro de intelectuais, colecionadores e apreciadores  de arte. Como os principais pintores  acionais da época tinham contratos com outras galerias, Boghici garimpava obras antigas. Ao mesmo tempo, revelava talentos, como Vanda Pimentel. Namorou a escultora e pintora mineira Lygia Clark (1920-1988), que lhe deu crédito pela ideia de usar dobradiças na série de esculturas Bichos Casado com a francesa  Genevieve  Boghici, ele tem uma filha chamada Sabine Coll, de 39 anos. Os três tinham cinco cachorros e dez gatos no apartamento. A gata preferida de Boghici, Pretinha, morreu no incêndio. “Foi a maior perdi: disse.
“Ele é um marchand que colecionou para os outros e colecionou para si mesmo': diz Leonel Katz, curador da mostra O colecionador, que levará parte da coleção de Boghici ao Museu de Arte do Rio em setembro. Quinze das 150 telas programadas foram perdidas, mas o colecionador terá sua vingança.

O RAP DE RESULTADOS

Oscríticos apregoam a morte do gênero rap no movimento hip-hop há pelo menos três anos. Usam as canções conhecidas do estilo, todas com 30 anos ou mais, para retratar aquilo que consideram ser uma “crise de meia-idade': “O hip-hop não traz mais a vanguarda da música  popular': afirmou a revistaThe New Yorker em 2009, no aniversário de 30 anos de “Rapper’s delight”. Lançada pelo trio nova-iorquino Sugarhill Gang em 1979, a música popularizou o estilo. Revistas como Time e Esquire proferiram o mesmo veredicto

com ar de obituário. Ainda assim, o gênero permanece nas paradas de sucesso.
Na semana passada, a música “Whistle”, lançada pelo rapper FIo Rida, de 32 anos, tornou-se a mais ouvida dos Estados Unidossegundo a revista Billboard. Acabou  com a supremacia de nove semanas de “Call me maybe”, da cantora pop Carly Rae Iepsen, O  rapper Rick Ross lançou o discoGod forgives, I don’t em 31 de julho e estreou como o mais vendido do país em todos os gêneros. Os dois rappers, curiosamente,

foram criados na pequena cidade de Carol City, na Flórida. São exemplos de sucesso popular num

estilo que passou a vender menos, mas continua a su
Segundo os críticos, os ídolos do rap vivem seu crepúsculo e  deixaram de inovar (leia o quadro ao lado). Ainda assim, descobriram como manter as vendas de álbuns e shows. Esse parece ser o caso de FIo Rida e Rick Ross. Eles escolheram o caminho do dinheiro no início da carreira, quando

o estilo dava os primeiros sinais de crise. Em 2006, pela primeira vez em cinco anos, nenhum dos

dez discos mais vendidos nos Estados Unidos era de rapoUm dos sucessos do rap naquele ano foi

o álbum de estreia de Rick Ross, Port to Miami. Ross ajudou o conterrâneo Fio Rida com uma

parceria na canção “Birthday”. Fio Rida chegou ao estrelato no ano seguinte, com o disco Mail

on Sunday.
O que, no estilo deles, ainda encanta os ouvintes? Ambos falam de mulheres e dinheiro, como quase todos os cantores de hip-hop. As diferenças são mais importantes. Fio Rida é forte na pista de dança, com arranjos que remetem ao pop. Depois que ele  se aproximou do produtor francês David Guetta, ídolo da dance music, suas músicas passaram a figurar nas listas de canções pop, ao lado de KatyPerry e da banda Maroon 5. A crítica odeia, mas vende como energético gelado. Mais pesado que o amigo, Rick Ross conta histórias do gueto. Drogas, violência, crime e erotismo.

Ross tirou seu nome artístico de um famoso traficante de drogas. Mantém o estilo bad boy, apesar

ter em sua ficha criminal apenas porte de maconha e bagunça no camarim. Nem ele nem FIo Rida

são tidos como a salvação do hiphop. Seu sucesso sugere, porém, que o estilo ainda tem força para se reinventar – enquanto aguarda uma geração inovadora.

O PADRÃO SUICIDA DAS GREVES.

Ruth de Aquino.

A Polícia Federal está com concurso na rua, salário inicial de R$ 7.700para agentes e escrivães, funções de nível superior. Você acha que esses salários são exorbitantes em relação às atividades que esses profissionais desempenham?
Recebi esse e-mail de um leitor da coluna, incomodado com minha crítica suave às greves dos  servidores públicos federais. Greves que considerei irresponsáveis por infernizar a vida de inocentes que ganham bem menos. Como o piso dos jornalistas – profissão que também exige  diploma universitário e pode incluir riscos de vida – varia entre pouco mais de R$ 1.000 e pouco mais de R$ 2.000, respondi que os servidores parados estão descolados da realidade do país.
Será difícil para grevistas com estabilidade e salários em torno de R$ 10.000ganhar apoio, ainda  mais pelo desrespeito à população. Por que os 300 mil funcionários parados não vão para Brasília e fazem um protesto gigante na Praça dos Três Poderes? Talvezporque o ar esteja seco demais  a Capital. Dá preguiça. Exige planejamento.
O motivo principal é que protestos democráticos não causam o prejuízo emocional e financeiro de bloqueios em estradas, aeroportos, portos, hospitais e universidades.
O leitor desta coluna tem a resposta para o impasse – ele convida todos a fazer parte da casta dos servidores: “Os salários do funcionalismo são um pouco mais altos para reter no serviço público funcionários compromissados, que desempenham atividades essenciais ao funcionamento do país, como se pode inferir dos transtornos que temos observado nos últimos dias. Se tais salários são invejáveis, os cidadãos que os invejam podem também participar dos concursos, basta vontade de estudar por meses, até anos”. Podemos deduzir que só os servidores estudam com afinco – e que nosso trabalho não é essencial.
Provavelmente, a maioria dos leitores achará mesmo “exorbitantes” os salários iniciais da Polícia Federal. E mais exorbitante ainda o aumento exigido: eles querem R$ 12.000. De piso. Esse bando de baderneiros de uniforme e boné vem distribuindo bombons e pizzas nos aeroportos para famílias, assalariados, crianças e idosos. Reféns enfileirados por horas, impotentes diante de uma operação padrão de chantagem.
Vocês deveriam distribuir nariz de palhaço, não bombons! -, disse um passageiro aos policiais federais no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.
Há 643.404 civis trabalhando para o Poder Executivo, ou seja, para Dilma. O piso dos auditores da Receita Federal, entre 2003 e 2010, deu um salto mortal (para nós, não para eles): foi de R$ 5.000para R$ 13.600,um aumento 55% acima da inflação. É exorbitante. Mas eles não estão satisfeitos.
Lula alimentou, em seus mandatos, a megalomania das centrais sindicais, que estão se achando. Dilma demorou a reagir, o sentimento de onipotência se alastrou entre os servidores, mas agora a presidente precisa do apoio do país e da Justiça para não ceder aos grevistas.
Se as exigências fossem aceitas, o impacto nas contas públicas seria de R$ 92 bilhões. Não dá.  são existe. Ponto. Lula demorou a apoiar Dilma, mas elogiou a atitude da presidente na quarta-feira: “O dinheiro é curto”.
Os grevistas acusam “a mídia desinformada” de jogar a população contra os servidores parados há meses. Os grevistas produzem as manchetes e se ressentem delas.
Há, sim, categorias com salários defasados. Elas erram e perdem a força ao se unir a coleguinhas bem remunerados e ensaiar um rolo compressor. Os reajustes pedidos variam de 20% a 70%. Que país pode hoje conceder esses níveis de aumento?
Cito outro e-mail que recebi, de Virginia Paranhos Jardim, servidora do Ministério Público Federal de Goiás: “Não se pode juntar toda a categoria de servidor federal num só bolo. Tanto o Ministério Público Federal como o Judiciário Federal estão sem qualquer reajuste há mais de seis anos. Enquanto isso, assistimos à inflação corroendo nosso poder aquisitivo todos os dias”. Virginia me pediu que não divulgasse seu salário. Entendo sua revolta. Mas quem está colocando tudo em “um só bolo” são os 300 mil grevistas de mais de 30 categorias. Eles apostam na orquestração do caos.
Eles não têm o direito de parar o país, parar você, me parar, parar os carros e caminhões, parar o  estudo de nossos filhos, parar a assistência médica a nossos parentes, parar a importação de remédios. Isso não se chama greve, mas abuso de poder. O governo deveria regulamentar as  fronteiras da greve no serviço público, de uma vez por todas.
Os sindicatos oportunistas estão incomodados com o “autoritarismo de Dilma”. Dilma responde que  está mais preocupada com quem não tem direito a estabilidade e nem consegue emprego. Estou com Dilma.Os grevistas incomodados que se mudem … para a Zona do Euro!

veja 22

DIPLOMA DE INSENSATEZ

O Senado aprova a volta da exigência de certificado para jornalistas, derrubada em 2009 pelo STF

 

As ideias ruins a história reservou o mesmo lugar destinado às más lembranças, o passado. Vez ou outra, porém, alguém tenta subverter essa lógica. É o caso dos que defendem a volta da exigência do diploma em comunicação social para a prática do jornalismo no Brasil. Trata-se de uma má ideia surgida durante a fase mais repressiva da ditadura militar, em 1969, e derrubada em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, o STF considerou a regra inconstitucional por ferir o direito à liberdade  de expressão. Desde então, sindicalistas e faculdades de comunicação, vendo-se ameaçados em sua sobrevivência, iniciaram uma campanha para anular a decisão da Suprema Corte. No início deste mês, a iniciativa prosperou e o Senado aprovou uma proposta de emenda constitucional (PEC) que ameaça forçar o pais a dar meia-volta na direção do passado.

O decreto de 1969 foi imposto no auge da repressão à liberdade de expressão – dois anos antes, o governo havia criado, por exemplo, a Lei de Imprensa, que previa a prisão de jornalistas em caso de “subversão da ordem pública ou social”. Ao exigir o diploma e o cadastro dos profissionais no Ministério do Trabalho, o decreto procurava controlar quem teria acesso às redações. A norma vigorou por quarenta anos, até virar tema de discussão no STF.”O jornalismo e a liberdade de expressão são atividades imbricadas

por sua própria natureza e não podem’ ser pensados e tratados de forma se parada”, afirmou o ministro Gilmar Mendes, relator do processo que enterrou a

obrigatoriedade do diploma para jornalistas no Brasil.

O jornalismo existe para relatar à sociedade fatos de interesse público ligados a todos os campos de conhecimento. Nada mais lógico, portanto,

que profissionais das mais diversas áreas tenham espaço para tratar desses acontecimentos. Um jornalista deve conhecer técnicas de apuração, saber selecionar informações, organizadas e relatá-las com clareza e precisão. Cursos que ofereçam essas ferramentas podem auxiliar na formação de profissionais, mas não devem servir de barreira para impedir que aqueles que investiram em outras formações usem seu conhecimento para atuar no jornalismo. Se a exigência do diploma atende a interesses de certos grupos,não contempla os da sociedade. Esta só tem a ganhar com uma imprensa formada por profissionais de matrizes diversas.

A proposta aprovada no Senado no dia 7 nada mais é do que uma tentativa marota de driblar uma decisão tomada há três anos pela corte máxima do país. Ela agora foi encaminhada à Câmara dos Deputados, a quem cabera decidir se o texto seguirá adiante ou se lhe será dado o destino devido às coisas do passado, a poeira das gavetas.

 

POR QUE SE ACREDITA NO INACREDITAVEL

Há trinta anos o psicólogo americano Michael Shermer se dedica a combater superstições; Ele criou uma ONG, uma revista (Skeptic Magazine), sites e programas de TV focados em promover o pensamento cientifico e desmascarar

charlatões. Shermer, que chega ao Brasil no fim deste mês para uma série de

palestras, é autor de quinze livros. O último, Cérebro e Crença, foi lançado em

português na semana passada. Nesta entrevista, ele diz que a tendência de se iludir com fantasias é própria do processo sso mental humano e defende o combate à crendice em favor do progresso.

Por que as pessoas acreditam no inacreditável? A evolução fez do cérebro uma espécie de máquina de reconhecimento de padrões na natureza. Às vezes, esses padrões são reais, mas na maioria dos casos são fruto da imaginação. Milhões de anos no passado, ao ouvir um barulho vindo da mata,

um hominídeo poderia supor que se tratava de algo inofensivo, como o vento. Se estivesse errado, e fosse um predador, correria o risco de ser devorado. Nosso ancestral poderia, por outro lado, imaginar a presença de uma divindade perigosa no mato e se afastar o mais rápido possível. A segunda opção é a que a maioria adota. Imaginar o perigo e fugir garante a sobrevivência, mas  também a ignorância. Ir até o mato verificar do que realmente se trata o barulho exige curiosidade e uma batalha contra os instintos. É nessa categoria, a dos homens que não se rendem a narrativas fictícias, que se encaixa o cientista. Os crentes seguem a trilha inversa, .a dos que se contentam com suposições sobrenaturais. É um fenômeno que tem a ver com a química do cérebro: a convicção de que o pensamento mágico é o que basta para a compreensão do universo produz uma sensação de prazer. Ficamos felizes em imaginar qu seres místicos, sejam eles deuses ou extraterrestres, se preocupam e cuidam de nós. Não nos sentimos sós.

Como se sabe que o cérebro é propenso a acreditar 110 fantástico? A neurociência identifica padrões de ondas cerebrais distintos que nos levam a criar crendices e a ter prazer na constatação de que temos respostas às nossas dúvidas. Em situações extremas, como as enfrentadas por quem está no limite daresistência física ou próximo à morte, océrebro reage com a redução da atividadena área responsável pela consciênciae o aumento em regiões ligadas àimaginação. Essa reação natural estána origem das alucinações. Não hámistério nesse processo. Os cientistassão capazes de produzir visões ou asensação de transcendência espiritualcom o estímulo artificial de cenasáreas do cérebro.

O senhor foi um cidadão evangélico ativo no esforço fieis para sua igreja. Como se tornou um cético? Somos mais abertos à religião na juventude e na velhice. Naturalmente, no fim da vida é comum procurar por conceitos reconfortantes, ainda que irreais. No meu caso, o apelo da crendice me atingiu na juventude, como uma explicação fácil para tudo o que existe. A religião tem um apelo social enorme. O ambiente alentador de uma comunidade ajuda a afastar as dúvidas ate daqueles  que não acreditam plenamente no sobrenatural e nos dogmas religiosos. Desvencilhei-me da crença ao entrar para a comunidade cientifica. O método científico, cujo princípio básico é ode que qualquer atírmação deve ser comprovada em experimentos repetidos, alimenta o ceticismo e favorece o progresso.

O que faz com que a ciência seja a melhor ferramenta para explicar o mitos? A ciência é democrática. Qualquer umpode estudar e chegar a conclusões racionais. Cientistas estão abertos à possibilidadede estarem errados e, por isso,promovem a invenção e a reinvençãode conceitos. É o que garante o avanço do conhecimento. A crendice é intolerante. Fixa uma verdade e não abre espaço para perguntas. Se nos apegássemos apenas ao sobrenatural, nunca teríamos saído da floresta e criado a civilização.

No mundo moderno, ainda precisamos da crença? É impossível deixar de crer. A ciência também depende da – nossa capacidade de elaborar crenças. Qualquer experimento nasce com uma premissa baseada no que se acredita ser verdade. Ideologias também precisam da habilidade de crer. Eu acredito no liberalismo, na democracia e nos direitos humanos. Podemos, porém, abandonar Ó que não pode ser explicado, como deuses e bruxos. Não nos faria falta.

Há vantagens na crença? A evolução nos concedeu a habilidade de acreditar por boas razões. A crença em divindades nos levou a temer o mundo e, com isso. nos ajudou a sobreviver nele. Também contribuiu para a formulação de leis que regiam comunidades primitivas. A moral e a ética

nasceram na religião.

Se a ética tem origem, por que ela prevalece na sociedade laica?As igrejas se tomaram um fator de corrupção, motivo de guerras e perseguições. Por sorte, presenciamos o declínio da crença no sobrenatural. Países do norte europeu, onde apenas um quarto da população segue alguma religião, têm índices de criminalidade, suicídio e doenças sexualmente transmissíveis inferiores- aos de estados em que a maioria dos habitantes é de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religião se declara um bastião Ia bondade, por que, historicamente, estados teocráticos são mais suscetíveis à criminalidade do que os seculares?

Apesar de vivermos na era da ciência, cresce a crença no sobrenatural. Pó quê? É verdade que vivemos num mundo em que a ciência faz parte do dia a dia Todos gostam de iPhones e admiram as naves que pousam em Marte. Mas poucos abdicam de crenças sobrenaturais e aceitam a ciência como ferramenta para explicar o universo. A maioria só quer aproveitar os produtos da ciência Quando se trata de responder a dúvidas primordiais, como a origem do universo ou o sentido da existência, preferem explicações irreais, mas convincentes em suas narrativas fictícias.

Por que o senhor se dá ao trabalho de combater a superstição?Sempre me perguntam por que não deixo os crentes em paz. Ocorre que a crença no sobrenatural não é inócua. Ao contrário, é bastante perigosa Acreditar na dita medicina alternativa é um exemplo. Muita gente morre por substituir o tratamento médico sério por procedimentos supersticiosos, como o consumo de ervas com propriedades supostamente milagrosas.

Não é possível provar a existência de divindades e criaturas fantásticas. O senhor concorda que também é difícil provar que não existem? O fato de não explicarmosum mistério não significaque ele exija explicações sobrenaturais. Só mostra que ainda não há resposta Oônus da prova cabe aos crentes. O céticosó crê no que é provado. Nesse aspecto,a ciência tem feito bom trabalhoao desmascarar mitos. No passado, jáse acreditou que a Terra viajava pelocosmo no lombo de um elefante. Existem10 000 religiões. Espanta-me a arrogânciade quem supõe que só umacrença seja correta em meio a tantas.

O senhor leva em consideração que pode estar errado? Assim como todos, sódescobrirei a resposta quando morrer.Como cientista, estou aberto à possibilidadede ter me enganado. Se houverum ou vários deuses, ficarei surpreso. Mas não tenho medo. Se há um Deus,ele me deu um cérebro para pensar,Meu pecado seria usá-lo para raciocinare buscar explicações? Um ser benevolentenão me puniria por utilizarbem as armas que me concedeu.

 

HORMÔNIOS ELES COMANDAM TUDO, DO HUMO AO EMAGRECIMENTO.

 

Por acelerar o metabolismo, a irisina vem sendo chamada de “ginástica em gotas. Ela é o mias novo achado da intricada e fascinante rede hormonal que rege nosso corpo e nosso mente.

 

Confirmado o efeito da irisina em humanos, o hormônio levaria a uma perda de 4 quilos em seis meses*

 

“A existência humana é definida por um mar interior.” Com essa certeza, o médico francês Claude Bernard (1813-1878), considerado o pai da fisiologia,entrou para a história da medicina. O “mar interior” foi a metáfora usada para sintetizar o seu último (e maior) achado: o de que o organismo é controlado por “fluidos que circulam pelo, corpo”. Até então, acreditava-se que as células trabalhavam em circuitos fechados, sem comunicação entre eles. A mudança de paradigma aconteceu em 1848, a partir de experimentos com cachorros. Ao analisar as entranhas dos animais, Bemard percebeu que substâncias produzidas no pâncreas e no ffgado poderiam ser encontradas também em órgãos distantes, como os intestinos. Foi dado ali, em um laboratório do ColIege de France, em Paris, o primeiro passo para a descoberta dos intricados mecanismos reguladores do mar interior que determinam a existência humana  os hormônios.

Até agora, contam-se duas centenas de hormônios e, graças a eles, nossas células são abastecidas de energia, nosso coração bate, nossas artérias pulsam, temos fome e nos saciamos, dormimos, acordamos e

nos emocionamos. Tão poderosos são que, caso fossem agrupados, todos os hormônios circulantes em nosso organismo somariam apenas dez gotas. Ao longo do século XX, a compreensão sobre eles avançou extraordinariamente, mas as pesquisas estão em constante ebulição. Data apenas de um mês, por exemplo, o anúncio do detalhamento da ação da irisina, o hormônio produzido

pelos músculos com ação nas células de gordura – ele próprio revelado no início do ano. A medida da importância desse achado é dada pelo endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clínicas (CPClin): “Fazia pelo menos duas décadas que não se via uma novidade tão impactante na área”.

Imagine o sistema hormonal como uma orquestra. O hipotálamo, no miolo do cérebro, é o diretor artístico, e a hipófise, na base do crânio, o maestro. Nesse conjunto, os hormônios sintetizados por outros órgãos e glândulas equivalem às orquestras de câmara. Como em um concerto, em que todos os músicos tocam juntos, os hormônios interagem entre si – e o bom funcionamento de um depende da ação precisa de outro. No quadro abaixo, com a consultoria dos médicos Malebranche Berardo  Carneiro da Cunha Neto, Freddy Eliaschewitz e Antonio Carlos do Nascimento, VEJA listou o mecanismo de síntese e ação dos trinta principais hormônios, que participam de 70% de todas as funções do corpo humano

As descobertas sobre a irisina foram divulgadas pelas prestigiosas revistas científicas Nature e Cell. Os estudos conduzidos pelo médico Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, avaliaram o impacto da irisina em camundongos. Durante três semanas, as cobaias praticaram uma hora diária de atividade física sobre rodas (o equivalente a um exercício em esteira ergométrica), em ritmo de caminhada rápida. A partir do 21º dia ( da décima semana no calendário humano) os animais produziram irisina em quantidade suficiente para ativar em determinadas células de gordura a produção de calor. Ou seja, o que se mostra aqui é que a irisina tem o poder de acelerar o metabolismo do tecido adiposo (em até cinquenta vezes) e, portanto, de fazer emagrecer.

De posse dessas informações, os pesquisadores desenvolveram em laboratório a versão sintética do hormônio. O composto foi então injetado em camundongos obesos e sedentários, 5 alimentados à base de uma dieta híper calórica, rica em gorduras. Ao cabo de   dez dias, apesar da inatividade física e do excesso de comida gordurosa, os roedores perderam 2% do peso corporal – o que, entre homens e mulheres, equivale a uma redução de 4 quilos em seis meses. Nenhuma outra substância, seja ela hormônio, alimento ou suplemente, é capaz de aumentar nesse grau (e de forma tão rápida) a velocidade de o funcionamento do organismo. As experiências com a irisina em humanos devem começar a partir de 2013. “Confirmados os resultados obtidos com as cobaias, estará deflagrada a maior revolução no tratamento da obesidade desde os tempos da descoberta dos anorexígenos, na década de 40″, diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Trocando em miúdos, a irisina é a ginástica em cápsula – ou em gotas.

Depois de ser liberada pelas fibras musculares, a irisina chega às células de gordura, onde estimula a produção da enzima UCPl. A célula sofre então uma alteração em sua estrutura química e, em vez de estocar a gordura, passa a queimá-la, sob a forma de calor. As células transformadas pela irisina foram chamadas de células bege, já que, no processo de termogênese, absorvem mais ferro e, por isso, escurecem. A pesquisa publicada na revista Cell mostrou que as células bege possuem, em relação às células adiposas normais (as brancas), uma quantidade cerca de vinte vezes superior de mitocôndrias, as pequenas usinas de energia localizadas no interior dessas estruturas. Normalmente, a maioria dessas miniusinas se mantém desativada, e elas sê entram em funcionamento sob a ação do hormônio – liberado pelo exercício físico, Suspenso o estímulo da ginástica, essas mitocôndrias são desativadas e a célula retoma seu comportamento original, de estocar energia na forma de gordura. Até o artigo na revista Cell descreve as células bege, acreditava-se que a irisina agia nas células marrons, encontradas sobretudo em recém- nascidos. Nas primeiras semanas de vida, quase um terço da gordura corporal dos bebês é formada pela gordura marrom, que, produzem intenso calor. Em outras palavras, as células marrons fazem o mesmo que as bege, só que sem precisar da irisina. Elas são importantes para a adaptação do recém-nascido à temperatura fora do útero materno.

A Irisína pertence a um dos chamados circuitos hormonais paralelos. Ou seja, ela é produzida por um órgão fora do eixo hipotálamo – hipófise, da mesma forma que a insulina, sintetizada no pâncreas, e a leptina, nas células de gordura. Imagine os’ 200 hormônios organizados como  numa orquestra. Os sistemas paralelos equivaleriam às orquestras de câmara, que, apesar de parecer funcionar de forma independente,têm  de seguir o ritmo do conjunto. Nessa composição, o cargo de diretor artístico caberia ao hipotálamo, uma glândula minúscula localizada no miolo do cérebro. A regência dessa orquestra bioquímica, no entanto, seria da hipófise, glândula do tamanho de um grão de feijão encontrada na base do crânio. Descrita pela primeira vez no ano 150 pelo médico grego Claudio Galeno (129-216), a hipófise só foi definida como o maestro dos hormônios nos anos 1920, pelo endocrinologista americano Philip Edward Smith (1884-1970). Entre os vários hormônios produzidos pela hipófise, seis estão envolvidos em 70% do funcionamento da máquina humana (veja o quadro nas págs. 90 e 91).Essa glândula é tão vital que, caso seja tomada por um tumor, perde suas funções gradativamente e de acordo com uma hierarquia bem definida. Nela, os hormônios menos importantes para a sobrevivência deixam de ser produzidas antes. As primeiras células a entrar em falência são as produtoras do GH, o hormônio do crescimento “Se  a reposição de GH não ocorre, o paciente pode levar uma vida péssima, com alterações graves de memória e perda de massa óssea e muscular, mas dificilmente morrerá por causa desse desfalque hormonal”, diz Malebranche Berardo Carneiro da Cunha Neto, neuro endocrinologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Na escala de prioridades, o ACTH, em caso de comprometimento da hipófise, é um dos últimos que deixam de ser fabricados. Tal composto é o precursor do cortisol, O hormônío do stress. Entre as suas funções, uma das mais importantes é manter a pressão arterial. Sem ele, o sangue deixa de circular adequadamente e, em consequêncía, os órgãos entram em falência. Não há vida sem cortisol. Além disso, do ponto de vista evolutivo, o hormônio tem um papel fundamental (veja o quadro nas págs. 92 e 93). Diante de uma ameaça iminente, é ele que nos põe em posição de alerta para enfrentar o perigo ou fugir dele.

Chaves da vida, os hormônios têm uma complexidade de ação que fascina. Por vezes, é preciso que dois ou mais se aliem para cumprir uma mesma função. Para manter o equilíbrio hídrico do organismo, por exemplo, são necessários pelo menos quatro hormônios fabricados em locais diferentes. Um hormônio pode ainda servir para estimular a produção de outro. É o caso da grelina. Produzida pelo estômago com a função de abrir o apetite, na hípofíse, ela tem a missão de ajudar na síntese de OH, o hormônio ligado ao crescimento. Um terceiro exemplo do intricado funcionamento da teia hormonal é o fato de que, a depender da quantidade produzida, da sensibilidade do alvo atingido e do estímulo externo, um mesmo hormônio pode exercer funções completamente diferentes. É o que acontece com um dos mais intrigantes compostos produzidos pelo organismo, a oxitocina. Fabricada pelo hipotálamo e distribuída pela hipófise, ela auxilia a produção do hormônio insulina no pâncreas e participa do transporte do esperma nos testículos. É a oxitocina também a responsável pelas contrações uterinas no momento do parto e durante a relação sexual. Ela ainda está presente durante a amamentação, facilitando a liberação do leite materno. Por ser um dos poucos hormônios produzidos diretamente no cérebro, a oxitocina é uma das substâncias que mais influenciam o comportamento humano. É ela que regula a intensidade dos vínculos afetivos, a autoconfiança e a sensação de relaxamento. A testosterona é outro hormônio curioso. Embora seja fabricada também pelo organismo feminino, ela é o hormônio masculino por excelência. Em ambos os sexos, a

testosterona está envolvida na produção de ossos, massa muscular e oleosidade da pele. Ao agir no cérebro, estimula a libido. O fato de o sexo

masculino produzir cerca de trinta vezes mais testosterona do que o feminino explica por que os homens são em geral mais fortes e mais peludos, têm

a voz mais grossa e estão sempre pensando naquilo. Graças aos progressos na área da biotecnologia, hoje é possível a fabricação de hormônios quimicamente idênticos aos produzidos naturalmente pelo organismo (veja o quadro nas págs. 94 e 95). “A reposição hormonal, como a que é feita na menopausa, aplica-se a absolutamente todas as situações causadas pela falta de hormônio”, diz Marcos Tambascia, endocrinologista da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Um desafio ainda persiste: não basta que os hormônios sintéticos tenham a mesma estrutura química de seus equivalentes naturais. É preciso fazer com que eles se submetam aos comandos do organismo como os originais. Por isso é tão complicado (mas não impossível)o tratamento, por exemplo, do diabetes. Em um organismo saudável, a insulina é liberada em doses precisas, que, ao longo de um único dia, variam muitas vezes em função de diferentes circunstâncias. A indústria farmacêutica tentou contornar o problema com a criação de insulina de longa e curta duração. Mas, apesar dos acertos, esses medicamentos ainda não conseguem acompanhar totalmente o ritmo natural do organismo. Como o mar de verdade, o da metáfora de Claude Bernard é vasto, fascinante e cheio de segredos ainda por desvendar.

 

MEDIDAS EXTREMAS

 

Treinamentos físicos de altíssima performance são a novidade do momento entre os malhadores. Corpos muito mais musculosos do que ‘no passado foram a tônica da última Olimpíada e, agora, o modelo bombado domina academias. Vai encarar a marretada?

 

Atacar pneus de trator com marretas, carregar cordas de 12 quilos nas costas e praticar outras loucuras está na moda entre os perseguidores do físíco explosivo. Loucura não é totalmente força de expressão. Nos Estados Unidos, o nome do programa de exercícios extremos do momento é Insanity, e ele reúne uma quantidade tão radical de movimentos que chega a queimar I000 calorias por sessão. Com uma folga por semana. Quem achava que duas a três aulas na academia. Alternando esteira e alguns aparelhos de musculação, eram suficientes pode engolir em O “fervor olímpico” que geralmente baíxa.

depois da grande competição  esportiva mundial, os preparativos para a próxima estação quente , a moda dos corpos cheios de músculos e a tendência da hiperginástica estão se combinando para tirar o fôlego dos amadores

A Olimpíada evidentemente foi a grande vitrine dos músculos fenomenais. A diferença entre o bronze de Cesar Cielo e o ouro do francês Florent Manaudou foi infinitesimal, mas os corpos igualaram-se no poder escultõrico. “Até dez anos atrás, o treino dos nadadores era nadar e nadar, por horas a fio. A musculação era mal vista pelos técnicos porque eles achavam que muito músculo tirava a forma aerodinâmica do corpo do nadador e, por isso, atrapalhava a performance”, diz Paulo Zogaib, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo. “Hoje, sabe-se que nadadores e corredores, por exemplo, precisam passar a metade do tempo se dedicando a seu esporte  específico e a outra metade fazendo exercícios funcionais que trabalham diversos grupos musculares ao mesmo tempo”, explica Turibio de Barros, fisiologista especialista em esporte. O conhecimento cada vez mais avançado do funcionamento do físico e da importância dos músculos para aumentar a propulsão e amenizar os efeitos do esforço embasa o treinamento dos atletas de ponta. “É por isso que as pesquisas mostram agora que as maraotonas nõa destroem tanto o corpo do atletas:, diz Turibio. “Como eles hoje se preocupam em  criar e fortalecer os músculos, seus corpos estão mais preparados.”

Os aperfeiçoamentos alcançados com atletas de elite transbordam para os esportistas amadores. Os treinamentos de altíssima exigência aproveitam as lições dos profissionais para produzir, em lugar de medalhas, corpos extremamente em. forma. ”As pessoas se sentem melhor ao ver que ultrapassaram seus limites físicos”, diz Shaun Thompson, o criador do Insanity. Os nomes são feitos mesmo para impressionar. As aulas de Heroes Camp, dadas na academia Reebok, em São Paulo, reúnem o jeitão de treinamento militar e acessórios que injetam novidades de ar rústico. “Na quarta vez em

que levantei a corda, já queria parar”, relembra a designer de interiores Isabela Queiroz, 24, hoje habituada a arrastar a carga de 12 quilos brincando. “Quando a aula acaba, todo mundo tem certeza de que foi ao limite e, por alguns segundos, até o ultrapassou”, diz o treinador Julio Mariano, 37, que enfrenta o ataque ao pneu de trator com uma marreta de 16 quilos brandida vinte vezes por minuto.

Existem limites para a expansão dos músculos? O ciclista alemão Robert Forstemann, bronze em Londres na competição por equipes, é uma espécie de madrinha de escola de samba do esporte: sempre dá para aumentar mais um pouco. Suas estarrecedoras coxas têm 86 centímetros de circunferência – vinte a mais do que as de Valesca Popozuda. “Ele já tinha predisposição genética para ter coxas grossas. Com treinamento

direcionado, ficou fora do comum”, analisa o fisiologista Paulo Roberto Correia,

ex-velocista olímpico. Do ponto de vista esportivo, músculos descomunais geram cenas desvantagens. “O atleta pode ter muita potência, mas, se não tem resistência, não consegue manter a velocidade por muito tempo. Écomo séele fosse um carro com rodas grandes, mas com motor comum e pouca gasolina”, diz Correia. Mas o coxudo alemão, policial de profissão, é um exemplo que muita gente quer seguir. Exercícios extremos não são para quem quer controlar o colesterol, o diabetes ou algum outro corolário da vida contemporânea, e sim obter um físico de babar. Em sua forma mais radical, só são permitidos para quem já tem um bom condicionamento, mas a ginástica intensa aparece cada vez mais como a alternativa consistente para o emagrecimento.

A clássica combinação de dietinha e caminhada diária de quarenta minutos não é suficiente para perder quilos e, acima de tudo, não reencontrá-los. Há levantamentos científicos indicando que até 80% das pessoas que emagrecem e continuam fazendo regime e exercícios leves, em um ano, voltam a engordar pelo menos 5 quilos. Disposta a desafiar a lei do eterno retomo, Nathália Santoro, 23, ganhou no mês passado o significativo título de Garota Fitness São Paulo. Em cinco meses de malhação pesada, ela trocou um corpo “celulítoso de 62 quilos” por outro, definidíssirno, de 52. “Meus colegas de

academia fazem um exercício para o bíceps, com três séries de quinze repetições. Eu faço três exercícios seguidos para o mesmo músculo, com quatro séries de vinte repetições”, especifica. “Mas não quero ficar grande, feito uma Panicat,” Está explicado.

 

A NOVA FACE DA EUROPA

 

Em menos de cinquenta anos, um em cada quatro moradores da região será imigrante ou descendente de estrangeiros. O desafio será assimilá-los sem

subtrair da sociedade os melhores valores ocidentais

 

As fotos nos passaportes brasileiros e americanos não deixam dúvidas de que essas são nacionalidades forjadas com a intensa imigração. A variedade de formatos de rosto, de tons de pele e de típos de cabelo faz com que, no retrato 5×7, qualquer cidadão do mundo passe tranquilamente por brasileiro ou americano. Em cinco décadas, o mesmo acontecerá com os passaportes europeus. Segundo a agência oficial de estatística NATHALIA WATKINS cão da União Europeia, Eurostat, até 120 I22 DE AGOSTO. 2012 I’IIeja 2061 pouco mais de um quarto de seus habitantes será imigrante ou descendente de estrangeiros. Na Áustria, a proporção poderá chegar a 40%. Do ponto de vista econômico, a mudança é necessária. A chegada dos Imigrantes impede que a população desses países diminua. As mulheres européias estão tendo poucos filhos, uma tendência que já vem de décadas. Por causa disso, a região precisará receber 700 milhões de pessoas até 2050 apenas para manter o atual nível populacional. O desafio será assimilar esse contingente de origens culturais e religiosas variadas sem prejuízo para os traços de identidade marcantes da Europa, como o secularismo, o respeito às minorias e a liberdade de expressão. Trata-se de um dilema que nenhum país europeu conseguiu, até o momento, solucionar plenamente.

A dificuldade na assimilação de  imigrantes costuma ser atribuída à falta

de planejamento dos governos europeus, em outros temas tão eficientes em aplicar políticas com uma visão de longo  prazo. Enquanto nos Estados Unidos

se criaram diretrizes para receber novos cidadãos desde a independência, isso só foi feito recentemente na Europa. “Nos Estados Unidos, os requisitos mínimos para alguém obter o status de americano são aceitar as normas da sociedade e estar disposto a trabalhar”, diz o consultor grego Demetrios Papademetriou, presidente do Instituto de Polfticas de Migração, em Washington. “Os europeus sempre pediram mais que isso. Exigem o respeito  à tradição, à cultura e ao idioma.”

A verdade é que a Europa não pretendia  ser um destino natural de imigrantes. Pensava-se que os três principais fenômenos migratórios do século XX na região seriam temporários, e que logo os estrangeiros voltariam para

sua terra natal. Nos anos 50 e 60, cidadãos dos países do sul da Europa mudaram-se para os do norte para trabalhar na reconstrução após a II Guerra Mundial. Depois, nações comprometidas com os direitos humanos, como a Inglaterra, a Alemanha e os países escandinavos, passaram a conceder asilo a refugiados de guerra e perseguidos políticos vindos principalmente do Oriente Médio e da Ásia. Com a independência das ex-colônias européias na África e na Ásia. nos anos 70 e 80, o fluxo de pessoas alcançou seu auge. Ainda assim, as políticas migratórias só entraram em vigor nos últimos quinze anos. Sem fluência na língua local, com valores e costumes diferentes e penando para encontrar trabalho – que ficou mais raro com a atual crise econômica, muitos imigrantes se colocaram nas franjas das sociedades que os receberam e vivem em guetos. Alguns desafiam as regras locais como se vivessem em um mundo paralelo. Um exemplo disso são os crimes de honra cometidos por imigrantes muçulmanos mais radicais. A tensão que nasce da falta de integração às vezes explode sob a forma de confrontos com a polícia, como o que ocorreram em Amiens, no norte da França, na semana passada. Indignados com uma batida da polícia em um funeral, jovens vândalos, na maioria filhos ou netos de imigrantes, atearam fogo a carros e feriram dezesseis oficiais. De maneira simplificada, os europeus dívídem-se em duas visões conflitantes sobre como resolver o problema. Uns pedem o fechamento das fronteiras e a expulsão dos estrangeiros. Outros dizem que os imigrantes devem ser aceitos como são, ainda que entrem em conflito com os valores e com as leis europeias. Daqui a é inquieta anos, essas duas posições provavelmente terão se tomado obsoletas. E o que é ser europeu terá adquirido um novo significado, ainda em formação.

NEM TODA ALFACE É IGUAL

 

Há várias décadas já a nutrição ocupa o posto de preocupação prioritária entre os profissionais de saúde e os consumidores informados. mas a nutricêutica, como é chamado o estudo do papel dos alimentos na cura e prevenção de doenças, ainda é vanguarda.

 

“Em vez de tomar suplementos, compensa mais buscar as substâncias que ajudam a manter o organismo saudável diretamente nos alimentos”,

diz Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração (HCor) de São Paulo. “Neles, essas substâncias costumam ser mais biodisponíveis _ ou seja, são mais facilmente processadas e aproveitadas por nosso corpo:’ Mas corno saber em quais alimentos encontrar vitaminas e outros micronutrientes? O ideal é discutir o assunto com um médico ou um nutricionista. Mas nem um nem outro estarão ao lado do consumidor toda vez que ele for às compras ou ao restaurante. E aí surgem as dúvidas: do ponto de vista nutricional, a banana-nanica é igual à banana-maçã? Todas as laranjas têm teor idêntico de vitamina C? Dá na mesma comer pimentão verde ou vermelho? A resposta é não, não e não: há diferenças significativas nos valores de alimentos que parecem iguais. Uma tabela elaborada pela Unícamp, por encomenda do governo federal, estabelece valores médios para os alimentos mais consumidos pelos brasileiros no dia a dia. Antes de ir ao supermercado novamente, vale a pena conferir alguns deles.

UMA BOA DIGESTÃO

As fibras são o que mais importa numa alface. Segundo a nutricionista Camila Leonel, da Unifesp, essa folha possui tanto fibras solúveis quanto insolúveis. As primeiras ajudam no controle do colesterol, das doenças cardíacas e do diabetes. As insolúveis promovem o bom funcionamento do intestino, contribuindo assim para a prevenção do câncer de cólon. “A alface é também uma boa fonte de potássio”, diz Camila – “e o potássio ajuda a eliminar o sódio e, com isso, a equilibrar a pressão arterial. É bom para quem pratica atividades físicas”.

ALFACE

Os pigmentos não apenas tomam os alimentos atraentes: têm também função nutricional. No caso dos pimentões, por exemplo, a cor indica a quantidade de betacaroteno que cada variedade apresenta – e o betacaroteno é um precursor da vitamina A (ou seja, é convertido nela no organismo), importante para a saúde dos olhos. Segundo Camila Leonel, o vegetal é também rico em potássio.

CAMPEÃ DISPARADA

Na maioria das vezes, as diferenças nutricionais entre variedades de um mesmo alimento são pequenas – mas não no caso da manga. A Palmer tem quase quatro vezes mais vitamina C que a haden, e oito vezes mais que a tommy. “A variação pode ser afetada também por outros fatores, como o grau de amadurecimento do fruto”, diz Renata Padovani, pesquisadora do Nepa (Núcleo de Estudos e Pesquisas em’A1imentação da Unicamp).

FONTE DA JUVENTUDE

A vitamina C é conhecida popularmente como o melhor “remédio” contra gripes e resfriados, por fortalecer o sistema imunológico. Mas, na verdade, tem papel relevante na prevenção de várias outras doenças. Hoje se sabe, por exemplo, que ela é um potente antioxidante- ou seja, protege nossas células contra a ação do oxigênio que as degrada, contribuindo assim para prevenir uma série de males degenerativos e retardar os processos de envelhecimento.

SAÚDE NA VEIA

A ingestão de ferro é fundamental para o funcionamento do organismo. As células vermelhas do sangue, assim como as células dos músculos, dependem de um fornecimento constante desse elemento, e seu consumo regular ajuda

a evitar anemias. Mais fácil de ser encontrado nas carnes, o ferro aparece em boa quantidade também no feijão. Mas atenção: ele é bem calórico.

XÔ, CÃIBRA!

Você já deve ter ouvido dizer que a banana é boa para evitar cãibras. Isso porque a contração muscular involuntária pode ser resultado de um desequilíbrio na taxa de o potássio do organismo – e a banana é rica em potássio. É também uma boa fonte de fibras. Bastante calórica, porém, não deve ser consumida à vontade por quem tem dificuldade para controlar o peso.

 

FRUTAS E LEGUMES FUTURISTAS

Há 10000 anos o homem passou a selecionar as melhores sementes e mudas

para o plantio. No início do século XX, o melhoramento genético de plantas

tomou-se uma ciência. De início, visava a uma maior produtividade das culturas. Hoje o foco se volta para o aumento do valor nutricional. Idealmente, no futuro próximo, na era da biofortificação, ninguém precisará complementar a dieta com suplementos.

Batata-doce laranja – O BioFort, projeto da Embrapa em parceria com instituições nacionais e internacionais, tem aumentado

os teores de ferro, zinco e vitamina A de alguns tipos de feijão, arroz, mandioca, abóbora, batata-doce e milho. O objetivo principal é combater a anemia. “Foi criada uma batata-doce de polpa alaranjada, por exemplo, com 115 microgramas de betacaroteno por grama de raiz fresca. A batata-doce branca comum possui, no máximo, cerca de 10 microgramas”, diz o

pesquisador da Embrapa José Luiz Viana.

 

Feijão com isoflavona – Até pouco tempo atrás, acreditava-se que o feijão, apesar de ser “parente” da soja, não continha isoflavona. Recentemente o Instituto. Agronômico de Campinas (IAC) anunciou que havia desenvolvido um feijão-carioca (o IAC formoso) coma substância – que ajuda a combater os sintomas da menopausa. “Já está no mercado”, diz Alisson Fernando Chiorato, pesquisador do IAC.”Mas as variedades de feijão  todas iguais. É preciso

pressionar para que esse tipo de informação comece a constar do rótul07 Laranja vermelha

- Com polpa avermelhada, a laranja sanguínea de Mombuca tem quase o dobro dos carotenoides totais de outras laranjas – além de alguns que praticamente não existem em nenhuma outra variedade, como o licopeno, que é um potente antioxidante. “É apenas um terço do licopeno do tomate, é verdade”, diz Rodrigo Rocha Latado, pesquisador do IAC, “mas é um nutriente adicionai”.

Tomate roxo – Com propriedades antioxidantes, a antocianina é um pigmento que confere coloração entre o vermelho e o roxo e está presente nas uvas e nos morangos. E, agora, também nos tomates. O tomate roxo, variedade desenvolvida pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, tem também teores mais elevados de licopeno, betacaroteno e

vitamina C. “O brasileiro não come uva nem morango todo dia – mas tomate,sim”, diz lázaro Peres, professor de vegetal da Esalq.`

 

UMAQUEDA PARAOALTO

O novo livro de Diogo Mainardi é uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representação intelectual das emoções

Um dos desenhos mais célebres do mundo faz parte do acervo da Accadernia de Veneza. Trata- se do Homem vitruvtano, de Leonardo da Vinci, em que a única figura humana é retratada em duas posições,

como se houvesse fotogramas sobrepostos – dentro de um círculo

(com os braços esticados na altura da cabeça e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braços abertos na altura dos ombros e as pernas

juntas), círculo e quadrado porque tidos como as formas geométricas per_ feitas. O “Homem Vitruviano” parece fazer um polichinelo, aquele exercício

físico banido da ginástica escolar depois de arrebentar os joelhos das gerações com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em tomo de 1490, a partir das considerações do arquiteto romano Vitrúvio. Um milênio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrúvio estabelecera quais seriam as proporções exatas do corpo humano, por meio de uma série de correspondências matemáticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci é acompanhado, na parte superior e inferior, de explicações sobre tais correspondências, a demonstrar com mais ênfase a intenção do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Yuruvtano é raramente exposto. A última vez foi em 2009. Já sua antítese está em exposição permanente pelas vias e pontes de Veneza:Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primogênito de Diogo Maínardi. Portador de paralisia cerebral, é como uma espécie de “Menino Antivitruviano” que ele protagoníza A Queda-As Memórias de um Pai em 424 Passos (Record; 152 páginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega às livrarias com uma tiragem inicial de 20000 exemplares, é comovente pelo tema, extraordinário na forma e esplêndido como reflexão sobre a arrogância humana.

Tito é personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaboração. Ele começou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primogênito em 2008, ainda no Rio de Janeiro,

para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de médicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro – e ideal para quedas – campo de provas, complementadas pelas garagens térreas dos prédios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmão carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em férias na cidade natal, alcanço  359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: “S6 consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”. Uma das glórias de Veneza, o pintor é umdos artistas abordados por Diogo em A Queda.

A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio à luz – 30 de setembro de 2000 – caiu num sábado, e a médica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rápido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com líquido amniótico que protege o bebê. Só que, ao fazêlo contrariando tods os manuais  de obstetrícia, Tito teve o cordão umbilical esmagado e ficou sem oxigênio. A saída, nesse caso, era realiza uma cesárea de urgência. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diago, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma lesão no cérebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mãos como se faz normalmente. A lesão é tão pequena que é invisível aos exames de imagem mais modernos. Assim, não comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pré-adolescente típico – com disposição infinita para irritar os pais e uma precoce admiração por mulheres altas e esguias.

Outros autores já trataram das deficiências de

seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacência e também evita circunvoluções biográficas que se afastam longamente do tema central. A Queda é também original na forma. Apresenta o exato número de capítulos de seu  subtítulo: 424. Todos eles curtíssimos, alguns com menos de quatro linhas. O numero de capítulos espelha o máximo de passos que Tito conseguiu

dar sem cair, e sem andador, no momento em que Díogo finalmente deixou de contá-los – façanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palácio bizantinorenascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto inédito: muitos dos capítulos são entremeados com ilustrações de pinturas venezianas, imagens de família, cenas de filmes e até a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabeça construído por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu após o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele próprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relação a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.

Em tomo da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da história das fdeías e de seu corolário, a arte que se quer expressão da Verdade – com “v” maiúsculo, seja filosófica, religiosa ou ideológica. Está-se falando da arte de Bizâncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza é uma das jóias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No século XVIII, escreveu o comediógrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: “Veneza é uma cidade tão extraordinária que não é possível ter dela uma ideia exata sem a ver; os mapas, as plantas, as maquetes, as descrições não . bastam; é preciso vê-la. Todas as cidades do mundo máis ou menos se assemelham; essa não tem semelhança com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausências, surgiu em mim um novo espanto. À medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparações a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas”.

Diogo só poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que José Dirceu não emporcalhasse Tintoreno. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances: Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular – e, nela, reconheceu as nossas aspirações evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinária, como na época de Goldoni, mas não como um tributo ao engenho humano, e sim à sua prepotência, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: “O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tomei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensável continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razoável controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porém, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a única possibilidade de livre-arbítrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e não nos fatos em si”.

Nesse exercício de livre-arbítrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexão entre a paralisia cerebral de seu primogênito e o que chama de “estetismo abestalhado”. Mesmerizado pela fachada magnífica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a então Scuola Grande di San Marco, ‘ele deixou de lado os desastres médicos que fizeram a fama daquela instituição e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”. A frase não deve ser interpretada literalmente, mas como achíncalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores cóticos de arte, encama de tal forma o ideal de beleza artística que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como tradução do Bem em contraposição ao Mal, simbolizado pela usura. “Píetro Lombardo não se fez com a usura”, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, “eu só conseguia associar a arte perfeita de Píetro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”. Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembrode 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suíço Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prédio medonho, com blocos de cimento armado, não houvesse Le Corbusier morri projeto, afogado no Mediterrâneo, Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suíço, teria gerado o Bem, visto que Diogo não escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condições na vizinha Pádua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa, O Mal do qual nasce o Bem é o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os teóricos, filósofos e artistas que construíram Veneza e Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho da Sistema. Enfim o Orgulho da Razão.

Por meio dessa operação literária, em que coincidência pessoais e históricas se encaixam umas nas outras de maneira tão admirável quanto arbitrária, por sempre se tratar de uma interpretação dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabeça cujas peças unem a Veneza de Pietro Lombardo à de Canaleno, os filmes de Abbon e Costello aos programas de extermínio de Hitler, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de MareeI Proust. Completado o quebra-cabeça, ele nos mostra a figura de um círculo que abriga não um ser humano de proporções perfeitas, mas Q pequeno Tito, o inverso do Homem VitruVÍano. Com sua paralisia cerebral que obriga a pensar em cada feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim, é o orgulho da razão. Mas da razão possível dentro de uma realidade cósmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razão imperfeita que não raro tem diante de si um menino verde. Dê-se a palavra a Diogo:

“TIto nasceu verde. “Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que TIto permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera também que TIto morreria. “Voltando à maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recém-nascido em uma incubadora. O menino recém- nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o médico? Onde está o enfermeiro? Onde está o pai?

“Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imóvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora: ‘Mingardt’, “Mtngardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recém-nascido na incubadora era meu filho. Min- . gardi era Mainardi. Até nisso o hospttal de Veneza errou: em seu nome. “Olhei Tito pela última vez. Seu rosto era igual ao meu – só que o dele era verde.”

No dia 30 de setembro de 2000, Diogo Mainardi caiu com Tito.E começou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele próprio diz a certa altura. A Queda é um livro magnífico em sua humanidade.

 

“O QUE VALE É A INTENÇÃO”

Com oVingador do Futuro (Total Recall, Estados Unidos, 2012), refilmagem um tanto quanto supérflua do sucesso de ficção científica estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, desde sexta-feira em cartaz no país, o irlandês Colin Farrell quebra um jejum de seis anos em filmes de ação (prazo razoável quando se considera que sua última incursão no gênero fora o horrendo Miami Vice). De lá para cá ele foi pai pela segunda vez, ganhou um Globo de Ouro e deu por encerrada a vida de baladeiro que em certo momento ameaçou engolir o ator de prestígio. Apontado como a grande promessa de sua geração no início da década passada, quando protagonizou o drama de guerra Tigeríand, Farrell passou por muitos baixos. Mas, desde que trabalhou a direção de Woody Allen em O Sonho de Cassandra (em 2007) e fez a comédia de humor negro Na Mira do Chefe (em 2008), quase só tem o que comemorar No Rio de Janeiro para divulgar o novo filme, o 36 anos falou ao editor Mario Mendes sobre excessos, fracassos e a idade da razão.

O senhor gosta do Vingador do Futurooriginai?

Eu o vi aos 15 anos e gosto da aventura e do humor, que está lá até nas cenas de violência. Mas uma das preocupações do diretor Len Wiseman no novo filme foi justamente evitar esse casamento de humor com violência. Não

para ser politicamente correto, mas devido à onda de terrorismo e insegurança que se espalhou pelo mundo nesta década, e que estava longe de ser uma preocupação nos anos 90. Qual a diferença entre a sua interpretação e a de Arnold Schwarzenegger? Não há muita diferença porque não é um personagem que exija grande sensibilidade de um ator. Exigiu, isso sim, preparo físico. Durante seis meses, diariamente eu corri, pulei, caí, lutei, atirei e gritei.Entre Alexandre (2004) • Na Mia • Chefe (2008) o senhor YiYeu um período de lurtJulênda profissional, certo? Com Alexandre. De Oliver Stone, eu recebi as piores críticas da minha carreira. Mas o que vale é a intenção, e sempre digo que gosto das intenções daquele filme, apesar de ele nunca realmente  atingir os seus propósitos. Costumo encarar Alexandre como um glorioso fracasso, comercial e artístico, que me fez começar a questionar a qualidade do meu trabalho e a minha exposição pública, que era imensa. Essa decepção profissional, à qual depois se juntou o fracasso de Miami Vlce, me fez parar, refletir e me colocar novamente no eixo.

Bebedeiras homéricas, drogas e muitas nam0radas.

Como foi esse período? Ooops … Outro dia, Oliver Stone foi entrevistado na televisão e perguntaram se ele conhecia alguém capaz de beber mais do que

Charlie Sheen. Ele disse: “Colin Farrell pode beber mais do que qualquer um”. O senhor bebeu mais do que ChadeSlan? Não, não, claro que não. A verdade é que naquela época eu simplesmente estava fazendo as mesmas coisas que as pessoas da minha idade faziam. A diferença é que eu era uma pessoa pública e ganhava muito mais dinheiro. Mas esse tipo de vida cansa e eu logo enjoei de tudo aquilo, queria sossegar. Afinal, eu já tinha um filho (James, nascido em 2(03). Decidi que deveria me concentrar em ser

um bom pai – e um bom ator.

O senhor diria que atingiu um outro patamar a partir de Na MinI do CheIe?Para ser bem sincero, não vejo minha carreira de  maneira tão objetiva. Então, eu pergunto: qual a medida do sucesso?

O senhor recebeu o Globo de Ouro por Na lfinI do Chefe. Isso é um indicado o de sucessona sua profissão? Sim, ganhei oprêmio e foi um prazer. Mas garanto quenão foi o momento mais importante daminha vida. Eu jamais recusaria um Oscar,mas não é uma meta. Já imaginou

que frustração seria todo ano esperar por uma indicação, não consegui-la e  ficar  pensando, “será que vai ser no ano que vem?”. A satisfação tem de existir é enquanto se faz o trabalho.

Como o senhor escolhe um roteiro? Sempre quero algo diferente do que fiz anteriormente. Se acabo um filme sombrio, procuro algo divertido. E sei que um

papel me pegou de verdade quando começo um roteiro e, lá pela página 5, já estou lendo em voz alta. Porque um ator nada mais é que um bom contador de histórias.

FOGO DE OUTONO

Com humor, algum charme e muitos clichês, Meryl Streep e Tommy Lee Jones vivem as dores de um amor de meia-idade

 

Alguma coisa vai mal, muito mal, quando o presente mais excitante que um casal consegue compartilhar, no aniversário de 31 anos de casamento, é a renovação da assinatura da TV a cabo. “Agora temos muito  mais opções”, justifica a mulher, Kay (Meryl Streep), para. a família, no jantar comemorativo cheio de sorrisos amarelos e silêncios incômodos.  Arnold, o marido (Tommy Lee Jones), aproveita o novo pacote sintonizando apenas o canal de golfe – e dormindo sonoramente na poltrona. Sexo, nem pensar: numa inversão dos clássicos papéis, é ele quem diz estar indisposto. Apesar desse relacionamento

árido entre os protagonistas, Um Divã para Dois (terrfvel titulo nacional para Hope Springs, Estados Unidos, 2012), desde sexta feira  em cartaz, é uma comédia romântica repleta de boas intenções. Juntos pela primeira vez, Meryl e Jones não só revelam excelente quúnica e perfeito timing cômico como também um despojamento raro, para estrelas de seu porte, em exibir sem pudores e nada de Botox os traços devastadores da passagem do tempo. Quando Kay decide investir as economias em uma semana de terapia intensiva para casais com um especialista (Steve Carell) – na cidadezinha de Hope Springs, no estado do Maine -, é a deixa para as desajeitadas tentativas

da dupla de reacender a paixão originai com um exuberante fogo de outono. É quando se percebe também a presença do diretor David Frankelo mesmo de O Diabo VestePrada-,  que se mostra muito mais à vontade nas sequências movimentadas e de humor do que nos momentos que pedem introspecção, quando ele recorre ao expediente de preencher o espaço com uma trilha sonora de rádio FM. Esse não é o único clichê de Um Divã para Dois. Os conselhos do terapeuta são de livro de auto ajuda, e, claro, há a inevitável piada envolvendo uma banana – que Meryl tira de letra apenas com um olhar maroto. Mas seu trunfo é, numa paisagem dominada por filmes de ação vertiginosa e protagonizados por seres sobrenaturais  ou gente muito jovem, conseguir falar dos problemas das pessoas de meia-idade com leveza e um certo charme.

 

fapesp 21- 08

Blocycle esta pronto

 

Após uma década de piloto, plástico blodegradável de cana espera interesse para entrar em escala industrial

 

Há mais de dez anos, a empresa PHB Industrial produz em escala piloto o Biocycle,um plástico biodegradável feito com açúcar de cana. Apesar de dominar a tecnologia para fabricar diversos produtos com o polímero e para tomar seu custo competitivo quando comparado ao do plástico convencional,a empresa ainda não conseguiu elevar sua produção a uma escala industrial.

Para Roberto Nonato, engenheiro de desenvolvimento da PHB Industrial, o caminho mais curto para levar o Biocycle ao mercado  seria uma parceria com a indústria petroquímica. “Temos tentado isso há alguns anos, mas o pessoal do petróleo não costuma conversar com o pessoal do açúcar”, disse durante sua apresentação no workshop “Produção Sustentável de Biopolímeros e Outros Produtos de Base Biológica”, realizado na sede da Fapesp. A história do Biocycle começou no início dos anos 1990, época em, que a Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Ccipersucar) procurava outros produtos que pudessem ser fabricados em uma usina de açúcar que não fossem commodities. Por meio de uma parceria com o Instituto de PesquisasTecnológicas (IPT) e com o Instituto de Ciências Biomédicas (!CB) da ( Universidade de São Paulo (USP), a Copersucar conseguiu produzir o  polihidroxibutirato (PHB) – um polímero da família dos hidroxialcanoatos (pH.A) com características fisicas e mecânicas semelhantes às de resinas sintéticas como o polipropileno  usando apenas açúcar fermentado por bactérias naturais do gênero alcalígeno. Em 1994, uma planta piloto foi instalada na Usina da Pedra, em Ribeirão Preto. Em 2000, foi criada a PHB Industrial e a tecnologia passou a pertencer ao Grupo Pedra Agroindustrial, de Serrana, e ao Grupo Balbo, de Sertãozinho. Com apoio da Fapesp por meio do Programa de’ Pesquisa inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e auxílio de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), a empresa desenvolveu a tecnologia de produção dos pellets – pequenas pastilhas cilíndricas feitas com uma mistura de PHB e fibras naturais -, matéria-prima usada pela indústria transformadora para produzir utensílios de plástico. ”Inicialmente, nos preocupamos apenas em desenvolver o PHB e achávamos que. a indústria transformadora faria:o resto, mas, quando você chega com uma resina nova ao mercado, ninguém sabe corno processar.. Percebemos’ que era preciso ir além”, disse Nonato. A técnica de misturar PHB com fibras vegetais trouxe outra _vantagem: a redução, do custo. Enquanto o quilo do polipropileno custa em tomo de US$ 2, o quilo do PHB sai por volta de US$ 5. “Se você mistura com pó de madeira, por exemplo, barateia o produto e, dá a ele características especiais que podem ser.interessantes”

 

 

Diversas aplicações

 

O PHB é um material duroque pode ser usado na fabricaçãode peças injetadas e tennofonnadas,como tampas de frascos, canetas,brinquedos e potes de alimentosou de cosméticos. Também podeser aplicado na extusão de chapase de fibras para atender a indústriaautomobilística. Serve ainda para aprodução de espumas que substituemo isopor.

“Desenvolvemos diversas aplicações para o polímero em cooperação com outras empresas. A indústria automobilística, por exemplo, nos procurou para testar o PHB e vimos que o polímero eraviável na fabricação de peças para o interior dos carros. Mas, como ainda não temos condições de produzir em escala industrial, não conseguimos entrar no mercado”, disse Nonato. Segundo Nonato, a empresa chegou a ter uma pequena produção industrial de painéis de trator. O produto era mais barato que o equivalente feito com plástico convencional e, ainda assim, o negócio não prosperou,’ “Era urna produção tão pequena para o padrão da indústria, acostumada a comprar centenas de toneladas, que acabaram desistindo por dificuldades operacionais”, disse. Para ampliar a produção, a PHB Industrial teria de aumentar sua planta. Segundo Nonato, isso exigiria um investimento muito superior ao que uma usina de açúcar tem como meta. Seria preciso um parceiro. Também precisaria de ajuda dar suporte aos’ compradores. “E necessário ter uma equipe que vá a campo ensinar qual é a temperarura certa para processar o PHB, o tipo de forma, o tipo de rosca. O mercado é pulverizado e grande parte dele está na Europa. Somente as grandes petroquímicas teriam condições de dar esse suporte”, disse.

 

Europa está na frente ,

 

Enquanto no Brasil o mercado para o PHB é restrito a nichos interessados em fabricar produtos com apelo ecológico a’ um preço mais elevado, na Europa a busca por produtos biodegradáveis e grande, segundo Nonato. “Na Europa, a agricultura hidropônica é forte e a legislação ambiental é rígida. Usa-se muito material biodegradável em estufas”, mcontou. Com o PHB, é possível fabricar braçadeiras para plantas ou tubetes para reflorestamento e depois encaminhar o resíduo plástico nas estações de compostagem, onde ele é rapidamente absorvido pela natureza, Enquanto os plásticos tradicionais levam mais de cem anos para se degradar, os produtos feitos com PHB ‘se decompõem em torno de 12 meses e liberam apenas’ água e dióxido de carbono. Além da agricultura, o material pode ser, usado na fabricação de embalagens para alimentos, cosméticos e outros produtos oleosos que são de difícil reciclagem. “O mercado existe e nosso produto está pronto. O que falta é um canal para chegar ao mercado e um pouco mais de investimento”, disse.

 

Página : F 3 João Pessoa

 

 

“Partícula de Deus” volta a surpreender

 

São Paulo (Folhapress) -

 

partícula de Deus está, ao que parece, do jeito que o diabo gosta: malcomportada. É o que indica uma análise preliminar de dados coletados no LHC, maior acelerador de partículas do mundo. O trabalho, feito por Oscar Éboli, do Instituto de Física da USP, sugere que o chamado bóson de Higgs, que seria responsável por dar massa a tudo o que existe, não está se portando como deveria, a julgar pela teoria que previu sua existência, o Modelo Padrão. Se confirmado, o comportamento anômalo da partícula seria a deixa para uma

nova era da física. A descoberta do possível bóson, anunciada com estardalhaço no mês passado, foi comemorada como a finalização

de uma etapa gloriosa no estudo das partículas fundamentais da matéria. Sua existência, em resumo, explicaria porque o Sol pode produzir sua energia e criaturas como nós podem existir. Dada sua importância para a consistência do Universo (e fazendo uma analogia com a história bíblica da torre de Babel), o

físico ganhador do Nobel Leon Lcderman deu ao bóson o apelido de “partícula de Deus”. Para analisar o bóson de Higgs, é preciso primeiro produzir uma colisão entre prótons em altíssima velocidade  função primordial do LHe. Então, do impacto de alta energia, surgem montes de novas partículas, dentre as quais o Higgs, que rapidamente decai, como se diz. É que, por ser muito instável, O bóson se “decompõe” quando a energia da colisão diminui. Aparecem, no lugar dele, outras partículas. É esse subproduto que pode ser detectado e indicar a existência do bóson de Higgs. Contudo, isso exige a realização de muitos impactos, até que as estatísticas comecem a sugerir a presença do procurado bóson. Os dados coletados até aqui são suficientes para apontar a existência da partícula, mas suas características específicas ainda não puderam ser determinadas. “Estamos ainda num estágio inicial da exploração das propriedades da dela”, diz Éboli. “Contudo, há uma indicação de que o Higgs decaia mais em dois fótons [partículas de luz] do que seria esperado no Modelo Padrão.” Os resultados dessa análise preliminar foram divulgados no Arxiv.org, repositório de estudos de física na internet, e abordados na revista “Pesquisa Fapesp”. presentação da natureza, mas não é a teoria final”, afirma Éboli. “Se de fato for confirmado que o Higgs está decaindo mais que o esperado em dois fótons, isso pode significar que novas partículas podem estar dentro do alcance de descoberta do LHe.” Poderia ser o primeiro vislumbre de um novo “zoológico” de tijolos elementares da matéria. Previa-se que essaspartículas exóticas começassem a aparecer com as energias elevadas do LHe. Tudo muito interessante, mas nada resolvido. “É um trabalho

muito sério, mas eu acho que ainda é muito cedo para se tirar qualquer conclusão se se trata ou não do Higgs padrão”, afirma Sérgio Novacs, pesquisador da Unesp que participa de um dos experimentos que detectaram () bóson de Higgs. “Até o final do ano as coisas estarão um pouco mais claras”, avalia ele.

 

Página : F6 Correio de Paraíba

 

 

 

 

Vereadores repudiam universidade

 

Através de documento, aprovado por unanimidade, Câmara de Epitácio faz denúncia contra a Uniesp

 

 

o diretor-presidente da Uniesp, Fernando Costa, é alvo de uma moção de repúdio aprovada por unanimidade pela Câmara Municipalde Presidente Epitácio.O documento denuncia que a Uniesp está exigindo de alunos bolsistas que se inscrevam no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies),um programa do Ministério da Educação destinado a financiar a graduação na educação superior de estudantes matriculados em instituições não gratuitas. De acordo com a moção de repúdio, a Faculdade de Presidente Epitácio exige dos bolsistas a inscrição no Fies, sob pena de perder o benefício da gratuidade e serem obrigados a arcar com a mensalidade do curso. Ao Oeste Notícias, o

autor da moção de repúdio, vereador Rosnem dos Santos Lopes (PSDB),explica que no início do ano os vereadores foram procurados por representantes da Uniesp.  A instituição de ensino disponibilizou bolsas de estudo integrais que seriam concedidas para alunos carentes indicados pelos parlamentares. “Na época, disse a eles que não acreditava na promessa.

Até porque, quando da implantação da faculdade, eles prometeram bolsas de estudo integrais e era uma verdadeira guerra a cada seis meses para conseguir a renovação”, aponta. Segundo o vereador, desta vez a Uniesp disponibilizou dez bolsas de estudo para cada vereador, ou seja, cada parlamentar poderia indicar dez alunos carentes para estudar de graça

na faculdade local. “Eu recusei as bolsas de estudo. Mas, a maioria dos vereadores aceitou a proposta. E agora todos nós nos sentimos ludibriados, usados pela Uniesp”. Explica que a Uniesp deve ter contatado com o Banco do Brasil, que por sua vez está convocando os alunos bolsistas para que façam a inscrição no Fies. “Tem aluno bolsista que já entrou na Justiça e conseguiu

 liminar para continuar estudando sem pagar nada na faculdade da Uniesp”, revela o vereador. “O pessoal da Uniesp ‘usou’ a Câmara Municipal e por isso propus essa moção de repúdio contra o senhor Fernando Costa, que foi aprovada por unanimidade”, conclui o vereador do PSDB. Problemas – De acordo com a Federação dos Professores do Estado de São Paulo

(Fepesp), as denúncias e reclamações contra a Uniesp em relação ao Fies são um dos alvos de inquérito aberto no dia 20 de junho deste ano pela Procuradoria da República em São Paulo. No mesmo órgão federal, existem outros dois inquéritos em andamento contra a Uniesp, iniciados entre março

e abril, com denúncias semelhantes. No dia 29 de março deste ano, um movimento que se autodenominou “vítimas da Uniesp” apresentou na Assembléia Legislativa diversos documentos e depoimentos de pais de alunos, professores, ex- -professores, advogados e estudantes. As denúncias versavam sobre falta de repasse ao INSS e ao FGTS;demissões arbitrárias de professores; assédio moral a docentes e funcionários; falta de professores; aulas canceladas; superlotação de salas; irregularidades no processo

de concessão de bolsas de estudos; problemas com o Fies e Prouni; irregularidades no programa Bolsa-Universidade (do governo do Estado) com relação à instituição; atraso constante nos salários; e recontratação com redução de remuneração. Outro lado – O jornal Oeste Notícias contatou a assessoria de imprensa da Uniesp em Presidente Prudente e, por e-mail, encaminhou questionamento sobre a moção de epúdio aprovada pela Câmara

Municipal de Presidente Epitácio, tanto para o setor de comunicação

social da instituição de ensino em Prudente, como em São Paulo. Mas,até o fechamento desta edição nenhuma manifestação da Uniesp foi encaminhada.

 

Maestro Aluízio Pontes é homenageado em Prudente

 

A Câmara Municipal de Presidente Prudente homenageou ontem, o maestro Aluízio Pontes com a Medalha de Mérito Grande Colonizador “Colonizador José Soares Marcondes”. A iniciativa partiu da vereadora Alba Lucena Fernandes Gandia que colocou em votação o Projeto de Decreto Legislativo n? 76/12 que foi apreciado pela maioria dos vereadores. O maestro Aluízio Pontes tem mais de 50 anos de carreira Ele é músico e multi instrumentalista e iniciou

seus estudos aos oito anos de idade. Aos 15 anos, dedicou- se ao estudo de  harmonia, com o objetivo de tornar-se arranjador, e aos 18 já era maestro. Estreou como pianista profissional aos 16 anos, em Presidente Prudente.

No início de década de 1960, mudou-se para São Paulo e logo em seguida organizou e liderou o “Sambalanço Trio”, grupo que obteve grande sucesso no

 período de ascensão da bossa nova. Mais tarde montou o grupo “Orfeu Negro” dedicado à realização de shows e à animação  de bailes. Ao longo de sua carreira, participou como pianista na gravação de discos de grandes nomes da música popular brasileira como Cauby Peixoto, Leny Andrade, Pery Ribeiro, Wilson Simonal e Cláudia. Em sua discografia como solista, pelo menos três LPs merecem destaque: “Meu Concerto Para Você”,

 

 

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VALOLOR INVESTe

 

CHOQUE DE REALIDADE

CAPA

Ingerência do governo falta de estratégia e crescimento em marcha lenta tiram do Brasil o posto de queridinho e atrapalham a bolsa. Será que isso pode se transformar em uma boa noticia?

Por Graziella Valenti, Fernando Torres e Alessandra Bellotto

 

O sentimento é de que um salão que já foi reluzente, com um ambiente festivo e cheio de convidados, está com menos luz, música baixa se repetindo ao fundo e as portas entreabertas. Muita gente já deixou a festa. Em meio a humores extremos daquele que ainda é quem lidera o vaivém de convida-. Dos, o estrangeiro, outros acabam desistindo de participar.

A crise global que tem seu epicentro atual na Europa se agravou nos últimos anos e assume contornos

quase crônicos. O fluxo de recursos vem consolidando um comportamento que reflete de maneira bipolar  pequenas notícias de curtíssimo prazo, cada vez menos apegado aos reais fundamentos de um horizonte maior, vitimando de forma alternada as bolsas ao redor do mundo, ora com o abraço do urso – expressão  dotada pelos americanos para falar do mercado em baixa -,.ora com a chifrada do touro, que joga os  motivos para cima e simboliza a alta. O Brasil, que primeiro havia sido elevado às alturas como uma

história exemplar de reversão dos efeitos da primeira fase aguda da crise, em 2009 e 2010, passou a ser alvo de críticas ao intervencionismo estatal nas companhias até ser oficialmente retirado do posto de queridinho dos estrangeiros em meados do primeiro semestre, após revisões drásticas para o crescimento da  economia em 2012, projetado agora em menos de 2%.

Esta conjuntura surge justamente quando o país está em meio a uma emblemática mudança estrutural, com a consolidação de taxas de juros de um dígito, o que tende a tornar o mercado de ações mais atraente. Este seria um apelo ao bolso do investidor individual, que, no entanto, ainda não foi atraído.

A cada dia dos últimos dois anos, nada menos que 600 pessoas abandonaram a base acionária conjunta da Petrobras, Vale e Banco do Brasil (BB), nomes que durante muito tempo foram sinônimos de sucesso inconteste na bolsa. Pelo último dado disponível, o saldo acumulado era de 380 mil aplicadores individuais menos nestas companhias. A dúvida no salão é se, e quando, haverá motivo para uma nova comemoração.

As três empresas já foram as preferidas do grande público e, juntas, chegaram a ter mais de 2 milhões de  acionistas diretos e indiretos (levando em conta os cotistas de fundos dedicados) só no Brasil. Este pico foi  alcançado em 2010, quando a estatal de petróleo concluiu uma mega capitalização de R$120bilhões e o BB  encerrou uma oferta de ações que atraiu mais de 100 mil pequenos investidores. Mesmo sabendo que pode haver dupla contagem em razão de investidores que aplicaram em mais de uma das empresas, são números relevantes.

A compra de ações ou cotas de fundos dessas blue chips foi a primeira experiência com renda variável de muitos dos aplicadores de varejo brasileiros. A primeira impressão foi excelente ‘ mas a má fase que veio em seguida acabou sendo demais para muita gente, que preferiu sair cedo.

A redução da base acionária dessas companhias evidencia a desilusão de pessoas físicas e de investidores institucionais com o desempenho dos papéis. Mas não apenas isso. É o retrato de um mercado em que os agentes, aí incluídos companhias, governo e entidades de classe ‘ ainda não foram capazes de  se comunicar de forma eficiente com milhões de poupadores locais, de maneira que permita conquistar, dentro do próprio país, uma base de investidores mais consciente que pudesse de alguma forma  compensar as ciclotímicas oscilações de humor do capital externo.

É neste contexto que começa a ganhar corpo um consenso de que o comportamento do governo e dos próprios agentes do mercado de capitais ajuda a explicar por que a bolsa do Brasil saiu do ciclo virtuoso “mais empresas, mais capital” vivido desde 2004. Depois de reformas que tornaram a BM&FBovespaum ambiente com giro financeiro diário de R$6,5 bilhões, ante os R$600 milhões em 2001, o mercado  brasileiro carece de novo de rumo, de planos bem definidos para a continuidade de seu desenvolvimento.

O estrangeiro ainda é o principal vetor de tendências para a bolsa local. Quando ele entra, o Ibovespa sobe (ver gráficos nesta página), e quando vai embora, deixa o mercado em maus lençóis. As pessoas  físicas, como mostram os números, estão desiludidas: a participação dos investidores individuais no  volume movimentado na bolsa, que já chegou a superar 30% em 2009, não alcançava 15%no fim do  primeiro semestre deste ano.

Para Mauro Rodrigues da Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), o país carece de uma política de governo que valorize o mercado de capitais. “A função social do mercado é canalizar a poupança privada para o setor produtivo.” Ele lembra que o mercado aloca capital de maneira eficiente formaliza setores, amplia a arrecadação e gera empregos, ao permitir a captação de recursos para investimentos produtivos. “É preciso acabar com o preconceito que existe em Brasília. Político vê o mercado como assunto de gente rica”, diz ele.

O analista André Rocha, autor do blog O Estrategista no site do Valor, destacou em um post recente que  alta atrair a atenção do investidor e mostrar a bolsa como algo mais interessante. “O mercado acionário para a sociedade americana é muito mais do que uma forma de poupança. Faz parte da rotina dos americanos. Há muitos filmes e livros sobre o assunto. Por que os brasileiros são tão reticentes em relação á bolsa? O momento atual não pede uma mudança de mentalidade? “,  questiona. A resposta

é dada com precisão por um leitor do blog: “Trabalho em uma empresa estatal e posso ver como a falta  e  educação financeira se reflete nos comentários dos empregados. Quando há uma notícia de queda da  bolsa, muitos manifestam alegria por ver os ‘especuladores perdendo dinheiro’. A maioria desses trabalhadores contribui para o fundo de pensão da estatal e não sabe que este investe em ações com o  dinheiro dos empregados” .

Do lado da sociedade, empresas, bancos intermediários e investidores não se entendem sobre como avançar no quesito governança corporativa, o que o que ajudaria a colocar o Brasil e fundamentos de longo prazo de algumas companhias novamente em destaque na mira dos investidores. No que cabe ao governo, era de esperar que o país procurasse meios de se diferenciar no cenário internacional. Mas a percepção é de que não é isso que vem acontecendo.

Para especialistas, ao interferir em empresas estatais e privadas, além de escolher quais setores beneficiar ou não, o governo acaba tumultuando o ambiente do mercado. Em um mundo em que há excesso de liquidez, mas uma crônica aversão ao risco, companhias que precisam financiar seus projetos – como é o caso de muitas brasileiras que gostariam de se listar na bolsa – estão competindo por um capital que avalia oportunidades em diversos países.  Para ficar com uma fatia desse dinheiro, é preciso oferecer não apenas o melhor retomo, mas também  facilidades e um risco mais baixo. “O investidor global não tem tempo para acompanhar de perto cada medida para entender as iniciativas do governo no dia a dia. Ele simplesmente fica fora e pensa em voltar quando essa onda passar”, explica Will Landers, gestor para a América Latina da BlackRock, maior administradora de recursos do mundo.

Um capital que, vale lembrar, tem uma importância enorme para a bolsa local. O dinheiro de fora do país oi responsável pela compra de quase 70% do total de R$ 134 bilhões em ações vendidas em ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) no Brasil desde 2004. Com a desconfiança por parte de convidados tão poderosos, não surpreende que o número de aberturas de capital e de colocações subseqüentes de papéis tenha rareado.

Não resta dúvida de que a crise europeia tomou o terreno infértil para captações no mundo todo. Apesar  o mau humor generalizado, foram registradas 206 aberturas de capital no mundo no segundo trimestre  este ano, com um total captado de US$41,8bilhões, conforme dados da Ernst &Young Terco. Um crescimento significativo, em especial no volume captado, quando comparado aos US$17,4bilhões dos três primeiros meses do ano, movimentados por 196 ofertas iniciais de ações mundo afora. O volume do segundo trimestre tem influência dos US$16bilhões levantados pelo Facebook. No Brasil, ocorreram três ofertas iniciais, que juntas movimentaram R$ 3,9 bilhões – pouco menos de US$2 bilhões -, todas na janela e mercado do mês de abril.

Por recursos levantados, as três bolsas de destaque no período foram Nasdaq, Nyse e Bolsa da Malásia. A América Latina registrou apenas um total de sete aberturas de capital entre abril e julho, comparado a 04 transações realizadas na região da Ásia.

 

Ao sabor do humor externo

A avaliação que os investidores estrangeiros fazem do Brasil – em geral, à distância – muitas vezes tem deficiências e proporções ampliadas, seja em momentos de otimismo, como em 2007 e 2010, ou de pessimismo, como o atual. Para Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp, os gringos exageraram ao achar que o país poderia crescer 7,5%(como ocorreu em 2010) de forma constante. “Eles

não tinham razão para acreditar nesse crescimento. Parte disso era uma reação às medidas de incentivo adotadas pelo governo e parte, um efeito estatístico, por conta da base fraca de comparação.” Assim, diz  ele, “os estrangeiros têm um pouco de razão, mas não toda, de estar frustrados”.

O fato é que, certos ou errados, quando os grandes aplicadores internacionais compram ou vendem ações no Brasil,seus efeitos são compartilhados por todos, seja para o bem ou para o mal. E deixam os gestores locais com a seguinte máxima: “contra o fluxo não há argumentos”. O mau humor, evidentemente, reduz a liquidez dos ativos e deprime os preços, trazendo prejuízos para aplicadores locais, institucionais e pessoas físicas. Ao perderem valor, as companhias enfrentam dificuldades maiores para novas captações, sem falar que a BM&FBovespae os demais agentes que vivem do mercado são penalizados pela  diminuição dos negócios.

Diante de tudo isso, seguir a direção dada pelo estrangeiro pode ser muitas vezes, uma armadilha. Comprar depois que o fluxo é de entrada significa pagar caro. E sair depois que o estrangeiro achou que era hora de vender pode significar realizar um prejuízo em seu pior momento. No período mais crítico do ano da crise financeira global, em 2008, debandada internacional atingiu R$ 24,6 bilhões e a bolsa brasileira afundou nada menos que 41%.

Quando o governo agiu, no auge da crise de 2008, a atuação foi aplaudida dentro e fora do pais por conta de seus  feitos práticos. A economia real reagiu rapidamente e foi alcançado o objetivo de manter o consumo aquecido. Em pouco tempo, o Brasil parecia ser o melhor lugar do mundo para aplicar – tinha crescimento, democracia e boa regulação, e isso fez com que o capital externo voltasse com força ao país. Em 2009 e 2010, eles trouxeram R$ 26 bilhões para bolsa, em um período em que o Ibovespa acumulou alta de 84%.

Passados quatro anos, as soluções usadas lá atrás pelo governo não apenas foram repetidas como ampliadas. Só que o crescimento econômico não veio mais no mesmo ritmo, aparentemente, por um esgotamento do modelo, e o Brasil deixou de ser visto como um oásis.

Em 2011, o estrangeiro tirou R$ 1,4 bilhão do pregão e o Ibovespa recuou 18%. No acumulado deste ano, saldo estava positivo em R$1,5 bilhão até 25 de julho, mas por conta dos mais de R$ 7 bilhões colocados aqui em janeiro. Dos sete meses do ano, cinco apresentavam saldo negativo no capital externo.

Mesmo com as dificuldades, investidores locais mais parrudos e frios diante das perdas, em especial os institucionais, têm sustentado suas posições. Para Flavio Sznajder, sócio da Bogari Capital, pressão política sobre empresa estatal existe em qualquer lugar do mundo. O que pode estar acontecendo é uma volta à realidade. “O país entrou na moda, virou Suíça, só que Brasil é Brasil, tem vantagens e  desvantagens.” As taxas de crescimento projetadas para as companhias, especialmente por investidores  estrangeiros, eram muito elevadas, acredita ele. De quem é a culpa? Normalmente do mercado, mas  existem situações nas quais a administração das empresas tem interesse em valorizar o negócio no curto  prazo.

A fraqueza da economia interna, na opinião de Sznajder, é a principal razão para o marasmo atual – mais do que as iniciativas intervencionistas. Para ele, a fórmula do crescimento baseado no crédito para consumo chegou ao limite. “Isso pesa mais do que a interferência do governo.”

 

Efeito capitalização

Curiosamente, o Brasil começou a deixar de ser a estrela do mundo pós-crise ainda em 2010, quando a maior empresa brasileira, a Petrobras, fez uma das maiores operações já realizadas com ações em todo o mundo: captou R$ 120 bilhões com uma emissão primária de papéis. Parece contraditório, mas não é. A megacapitalização da estatal deixou um gosto amargo para os minoritários, pois o governo federal não escondeu seu interesse de ampliar a participação na companhia. Em outras palavras, a União não disfarçou sua intenção de diluir os acionistas minoritários.

O engenheiro aposentado Sérgio Romano, 63 anos, é um colecionador de críticas à Petrobras, empresa da qual é acionista. Na época da operação, chegou a escrever algumas vezes à área e relações com investidores (RI) da companhia, questionando pronunciamentos de autoridades do governo sobre a oferta, mas ficou sem resposta, sob o argumento do “período de silêncio” imposto à empresa pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“É evidente que o mercado quer participar da capitalização da companhia pagando os menores preços possíveis, mas percebe-se claramente que o governo quer aumentar sua participação custe o que custar. Não quer compartilhar com os atuais acionistas privados as vantagens decorrentes das descobertas dos novos poços. Parece esquecer-se de que estes mesmos acionistas ajudaram a companhia a financiar-se e proporcionaram- lhe as condições para que as pesquisas e as prospecções continuassem e tivessem êxito”, escreveu Romano à época.

Economista com MBA em finanças e passagens pelo setor bancário nas áreas de avaliação de projetos e processos de aquisição e reestruturação de empresas, Eduardo Beadle, 47anos, é outro acionista que se sentiu prejudicado pelas “ingerências do governo” na Petrobras. Ele começou a montar sua posição na empresa ainda em 2009, mas entrou com força no primeiro trimestre de 2010, com um claro horizonte de longo prazo. Sentiu, no entanto, o peso do Estado, durante a discussão da cessão onerosa. Em outubro daquele ano, Beadle mudou de idéia e vendeu tudo que tinha na empresa. “Realizei o prejuízo, fui para o setor de bens de consumo e recuperei minha perda com sobra.”

Já as ações da companhia não tiveram a mesma sorte, mas têm servido para Beadle ganhar um dinheiro em operações de mais curto prazo. “Virei especulador de Petrobras”, diz. Segundo ele, os planos de negócio da empresa tomaram-se muito ambiciosos, o que demanda períodos muito longos para alcançar sucesso. “Não vai acontecer nada nos próximos dois anos “, acredita.

A diluição provocada pela capitalização foi especialmente cruel para os estrangeiros, pois aqueles que aplicavam por meio dos papéis listados na Bolsa de Nova York ficaram de fora da festa por razões técnicas. A fatia deles no capital da petrolífera caiu de 40% para 33%%. Hoje, está em 34%.

O balanço de dois anos da operação não deixa dúvidas: nenhum dos públicos investidores da empresa aprovou. Até as pessoas físicas deixaram a empresa. A Petrobras chegou a ter 1,13 milhões de acionistas diretos e indiretos naquela época, sendo 827 mil no Brasil e 300 mil nos Estados Unidos. Atualmente, são 32 mil acionistas no total, sendo 656 mil no país e 276 mil via ADRsem Nova York.

Dos quase 200 mil investidores individuais que perdeu nesse período, a maior parte, ou 162mil pessoas, saiu de fundos dedicados exclusivamente aos papéis da estatal. Em nota, a companhia disse que a Ueda na base de investidores via fundos é mais acentuada pelo fato de esses aplicadores “estarem mais suscetíveis a comparações com o rendimento de outras aplicações, como CDB, cm e poupança”. Ainda segundo a Petrobras, os acionistas diretos “tendem a ser investidores com foco no longo prazo”.

Romano é um dos que permanecem na base de acionistas, mas vem reduzindo sua exposição à empresa. No começo do ano, por exemplo, aproveitou para vender mais um pouco quando a ação aproximou-se dos R$25 – seu preço médio de compra é R$ 24. Do lado estrutural, diz ele, pesaram contra o investimento na companhia a “má gestão” do comando anterior, preços defasados, parâmetros de produção sempre mal estimados e cronogramas não cumpridos. “Tudo isso fez com que a credibilidade da empresa fosse bastante desgastada”, acredita.

O economista José Roberto Mendonça de Barros, que participou, há 12anos, da criação do Novo mercado da bolsa, está entre aqueles que vêem a ingerência do governo sobre a estatal como um dos motivos  ara o quadro negativo atual. “Sem dúvida, uma parte do que estamos vendo na bolsa tem a ver com o caso a Petrobras. Ela tem um plano de investimento ambicioso, mas que está destruindo valor”, afirma.

Para se ter uma idéia, o preço de mercado da Petrobras era de R$250 bilhões no fim de julho, esmo patamar de 2007, o que significa que ela “perdeu” toda a valorização obtida pela descoberta do pré-sal, entre o fim de 2007 e início de 2008, e também pela injeção de caixa na capitalização.

Nem mesmo o ex-presidente da Bovespa Raymundo Magliano Filho, considerado o idealizador o conceito de popularização do mercado de capitais e um de seus maiores entusiastas, esconde os danos causados pela capitalização e pela atual política do governo. “Tudo começou com a Petrobras”, diz, a respeito do mau humor do mercado. “Investidor sempre quer que a regra do jogo seja mantida.”

Em recente evento realizado na BM&FBovespa,Magliano enfatizou  o que para ele é uma das  maiores lições do Novo Mercado: a capacidade de ação da sociedade civil organizada sem a  necessidade do Estado. Mas reconhece que hoje não há a mesma mobilização que existia no fim da década de 90 e início dos anos 2000, quando se criaram os níveis  diferenciados de  governança corporativa em resposta às queixas constantes dos investidores a respeito da falta  e segurança para os minoritários. E que isso, combinado à mão pesada do Estado, está  prejudica os preços no pregão.

Mas não foi só com Petrobras que o estrangeiro se decepcionou. Logo após o episódio da estatal, mais  m temor pesou sobre uma blue chip da bolsa: a Vale, controlada em parceria por fundos de pensão de  empresas estatais, BNDESe mais o setor privado. Na virada de 2010para 2011, começou a se formar entre os investidores um entendimento de que a União estaria articulando a troca de comando da mineradora, segunda maior empresa do país. Em 12meses até o dia 27 de julho, os papéis da Vale caíam 13,6%, bem mais que os 3%do Ibovespa no período. Os fundos dedicados  exclusivamente às ações da Vale,que chegaram a mais de 820 mil CPF sem junho de 2008, têm hoje pouco  ais da metade, algo como 466 mil.

Mais recentemente, o desgosto com as interferências refletiu-se sobre o setor financeiro, após a guerra conduzida pelo governo para reduzir o spread bancário, ou seja, o ganho dos bancos com o empréstimo de dinheiro. Para alcançar o objetivo e pressionar a concorrência privada, não apenas a Caixa Econômica federal tem sido elemento fundamentai, mas também o BB, que tem ações em bolsa. Justamente em um momento de redução na qualidade dos créditos. Desde o fim de março, quando os bancos começaram a reagir à cruzada contra os juros altos, as ações do BB foram as que mais sofreram. No ano, caíam 5,6% até 7 de julho, ante valorização de 5,3 % do índice do setor financeiro. A base de acionistas individuais diretos e indiretos da instituição, que chegou a superar 400 mil em agosto de 2010, estava em 355 mil em abril.

Na opinião de Cunha, da Amec, não se trata apenas de negligenciar o mercado. Ele calcula que foram destruídos quase US$210bilhões em valor da Petrobras desde o anúncio da capitalização para o pré-sal – considerando itens como a queda nas cotações, reaplicação dos dividendos e o custo de oportunidade de aplicações similares. No mesmo período, um ETF do setor de óleo e gás (XOAG) subiu 46%, sem nenhuma descoberta de produção adicional, enquanto a estatal perdeu 48%, considerando os preços em dólares.

Na atual conjuntura de Brasil, sem um crescimento econômico vigoroso para entregar ao investidor, as críticas aumentaram. “Uma coisa é o governo regular o mercado; outra, bem diferente, é interferir em questões comerciais das empresas”, ressalta Landers, da BlackRock. Segundo ele, “microadministrar a economia não está funcionando”, mas o mercado reagiria bem se o governo se esforçasse para fazer reformas que efetivamente diminuíssem o custo de produção. “O Brasil reduziu muito seus riscos intrínsecos”, reconhece, ressaltando, porém, que isso não se reflete no preço atual da bolsa. O resultado esta equação é um grande descompasso entre o mercado de renda fixa (de títulos da dívida federal) e de ações. Enquanto o custo do dinheiro está em queda para o governo, tem subido para as empresas brasileiras.

Karina Lítvack, diretora do fundo britânico Foreign&Colonial,com mais de 100 bilhões de libras de  patrimônio, acredita que o intervencionismo é parte integrante do modelo de desenvolvimento econômico  o Brasil e que os investidores podem perfeitamente conviver e coexistir nesse ambiente. Até mesmo porque esse modelo já entregou resultados positivos. A questão, diz ela, é que coisas como a corrupção, a compra da paz social” com interferências em grandes companhias e regulações arbitrárias estão fazendo  s investidores perderem a paciência e começarem a temer o modelo brasileiro. Para a especialista, o  governo está evitando enfrentar decisões e medidas mais difíceis,porém necessárias, ao crescimento  sustentável.

Na esfera federal, a avaliação é de que muitas das críticas e do eventual mal-estar de investidores estariam em questões já ultrapassadas. A substituição de Sérgio Gabrielli por Graça Foster na presidência da Petrobras teria despolitizado a  empresa. Na Vale,Dilma tem atuado de forma distinta do governo anterior, que persuadiu a companhia a  construir usinas siderúrgicas. Em relação à pressão nos bancos por redução do spread, o governo tem  acompanhado as baixas nas cotações do BB,mas assessores da presidente avaliam que os bancos  privados também caíram.

Na opinião de Jairo Saddi, advogado, coordenador do núcleo de direito societário do Insper e investidor há 28 anos, o Brasil é cada vez mais um país difícil para se montarem posições de longo prazo, sua especialidade. “Cada dia que passa me convenço de que, para tomar decisões de aplicação, é preciso abrir o caderno de política dos jornais antes de ler o de economia.” A visão de Saddi, no entanto, é de que mais importante para as decisões são as políticas públicas, as questões macroeconômicas, e não as iniciativas intervencionistas. “Isto é bravata. A capacidade de o governo de realmente interferir nos negócios não é tão grande assim.”

A falta de otimismo, no entanto, não é generalizada. Thomas Tosta de Sá, ex-presidente da CVM e presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), percebe mudanças no discurso público que sinalizam a presença do mercado nos planos de médio e longo prazo. “O governo percebe que precisa buscar recursos privados para investir. Por isso estão falando de licitação e aeroportos, portos e estradas”, afirma. Para ele, a necessidade econômica de aumentar o investimento se  impõe sobre a política. “Se não fizer, o Brasil vai rastejar em termos de crescimento. Vai ser compulsório.” Dúvida é saber se os investidores vão responder ao chamado do governo.

Tosta de Sá argumenta que essa atração será mais fácil com a queda dos juros. Ele lembra que os institucionais locais como fundos de pensão, seguradoras e fundos mútuos, investem apenas 17%dos recursos em ações e 7% em títulos de dívida privada. “Isso vai ter que mudar, queiram eles ou não: ‘

 

Brasil em baixa, boa notícia?

A sensação de não ser mais o queridinho e o exagero no mau humor com os ativos brasileiros podem trazer desânimo, mas o fato é que essa conjuntura pode ser mais produtiva do que o excesso de euforia, e encarada como uma oportunidade. Para o governo e as entidades do mercado, é uma brecha para calibrar algumas engrenagens a fim de que possam funcionar melhor. Do ponto de vista macroeconômico, passos estão sendo dados (leia a coluna Macro Detalhe na página 24). Para o investidor, a oportunidade é de comprar ativos a preços mais convidativos. Embora se acredite que alguns papéis ainda possam cair no curto e médio prazo, muitos vislumbram barganhas.

Landers, da BlackRock, destaca que o Brasil está barato na comparação com o México, por exemplo. Em meados de julho, a bolsa mexicana estava negociando a 15vezes a projeção de lucro para 2013, enquanto a brasileira, a apenas nove vezes. A grande questão a ser respondida, segundo ele, é se as companhias conseguirão entregar os lucros previstos para o ano que vem o que determinará o tamanho da oportunidade atual.

Por isso, ele enfatiza a importância de o governo encarar as reais questões do pais e buscar ampliar a eficiência dos negócios, promovendo uma reforma tributária e reduzindo a carga da folha de pagamentos.

O ambiente de juro baixo é naturalmente um estímulo para a renda variável, mas o cenário externo que ajuda a reduzir a Selic atrapalha a bolsa, dada a forte aversão ao risco – que cede em alguns  momentos, mas insiste em retornar, “Temos uma conjuntura que não é padrão, com risco de ruptura”, diz  Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp.Este é o pano de fundo que tem impedido  locações mais expressivas no mercado.

Será preciso estômago para agüentar os trancos: há questões a serem resolvidas como a crise na Europa      problema fiscal nos Estados Unidos. “Se a Grécia sair do euro, se a Espanha precisar de ajuda, outros países devem entrar na onda, como a Itália. A bolsa neste cenário pode ir para os 45 mil a 50 mil pontos”, valia. É esse ambiente turbulento lá fora que mais joga contra o Brasil, acredita o gestor. Para ele, um vento de ruptura tem risco de 20% a 30% de acontecer.

O especialista reconhece que esse ambiente cria oportunidades, mas ressalta que o investidor precisa ser hiper seletivo e buscar companhias com capacidade financeira, boa geração de caixa e qualidade de estão (leia mais na página 26). -“Nesse momento, o trabalho de seleção de ações é extremamente importante”, diz.

Ele cita o caso dos bancos, que apanharam bastante. As ações do Itaú, por exemplo, chegaram a amargar perdas superiores ao Ibovespa, sendo negociadas a 1,7vez o valor patrimonial. “Faz sentido?”, questiona. “O retorno sobre o patrimônio não é mais 24%, 26%, mas é 19%”, argumenta. “Os papéis de bancos lá fora estão baratos, mas o setor está em dificuldade: ‘

Para Sznajder, da Bogari, a própria Petrobras, no nível de preço visto recentemente, passa a ter mais chances de ser um bom negócio para os próximos três anos. “A empresa tem um modelo de negócio robusto, gera caixa, mas o governo não é necessariamente o melhor alocador de capital”, destaca. “Sempre pode haver mais desconto, mas os investimentos vão começar a gerar caixa, mesmo que com um retorno ruim”, conclui o especialista.

Coma crônica aversão ao risco vista recentemente, dado o conturbado cenário global, o estrangeiro quer boas notícias para trazer seu dinheiro ao país. E novidades relevantes vindas da sociedade civil, como ocorreu no início dos anos 2000, parecem não existir no horizonte.

A BMF&Bovespa tentou promover uma ampla reforma no Novo Mercado, durante 2009 e 2010, após inúmeras queixas reunidas de minoritários. A iniciativa não teve êxito e apenas algumas mudanças foram aprovadas. A frustração deixou um cheiro de “Brasil velho” no ar, como definiu na época o próprio residente do conselho de administração da bolsa, Arminio Fraga.

O segmento de governança é hoje prisioneiro do próprio sucesso. Com quase 140companhias listadas, o novo Mercado precisa que as sugestões de modificação sejam aprovadas por mais de dois terços de seus participantes. E as companhias não estão interessadas em entregar mais sem que o mercado esteja disposto a pagar por isso.

O Novo Mercado tornou-se um selo especialmente importante para o estrangeiro, que viu padronizadas ali algumas regras das quais gosta, com destaque para o conceito “uma ação, um voto”, e o equilíbrio de direitos econômicos entre controladores e minoritários.

Na tentativa anterior de reforma, a BM&FBovespa sofreu críticas das companhias pela condução do processo. Recentemente, a bolsa promoveu então um evento com a nata do mercado de capitais brasileiro, em busca de sugestões para manter o “frescor” do Novo Mercado, como definiu Gilberto Mifano, ex-vice- presidente da Bovespa, na época da criação do selo, e atualmente sócio da Pragma Investimentos.

O objetivo principal foi mostrar que no lugar de chegar com as sugestões prontas, ainda que vindas de uma Câmara Consultiva, como a criada para a reforma passada, a bolsa quer que as empresas participem do processo desde o início.

Mas o evento deixou evidente clima de nostalgia. Muito se falou da excelência e da importância do Novo Mercado, mas faltou um discurso unificado sobre o futuro. Ficou patente a falta de perspectiva de avanços relevantes.

Karina Litvack, diretora do fundo Foreign &Colonial, destaca que o Brasil se acostumou a ser o queridinho – “the darling” dos Brics (sigla para os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).”O que o  país precisa se perguntar é se sua vantagem comparativa em relação aos emergentes é satisfatória, considerando que está nesse grupo”, afirma. Para ela, essa vantagem que o país estava acostumado a ter é perigosa e pode levar à complacência. “Toda a boa vontade construída junto aos estrangeiros está evaporando.”

Procurada pela reportagem, a BM&FBovespa respondeu apenas por e-mail. Disse que as discussões existentes sobre o mercado são reflexos de seu crescimento. “A cada passo do mercado nesta direção de mais governança corporativa), surgem novas possibilidades, questionamentos e conflitos. “

Na opinião de Mauro Cunha, presidente da Amec, na atual conjuntura é difícil até mesmo definir os avanços necessários. “Não são mais as questões óbvias do passado, como uma ação, um voto, ‘tag along’  acesso ao prêmio de controle em caso de venda da companhia).” Para ele, os assuntos agora são mais  complexos e delicados, como o estímulo à atuação de gestores de recursos com base em seus deveres  fiduciários.

Depois da debandada de empresas e investidores no fim da década de 90, o Brasil passou anos criando regras, reformando leis e aprimorando a autorregulação. Mesmo sem mercado – já que ele não cumpria seu real papel de financiador das empresas e do crescimento.

Os preparativos, porém, permitiram ao país surfar bem a onda da liquidez mundial. As companhias captaram mais de R$ 280 bilhões para investir ou fortalecer sua estrutura financeira desde 2004. Outros R$94 bilhões foram levantados nas ofertas secundárias -liquidez que foi para o bolso de pessoas físicas  ou empresas e pôde voltar para a economia na forma de poupança privada ou novos empreendimentos.

A sensação disseminada no mercado é que, no passado, quando a bolsa brasileira era uma associação de corretoras sem fins lucrativos, cumpria melhor o papel de fomentadora diante do governo.  Vem crescendo entre os participantes a percepção de que, como companhia aberta, a M&FBovespa perdeu m capacidade de desenvolvimento do mercado e de interlocução no governo federal. Como qualquer empresa, sofre pressões para melhorar seus resultados, o que pode levar a decisões de curto prazo – como estímulo ao giro constante dos papéis – em detrimento a projetos consistentes de longo prazo.

Ao falar dos planos para o futuro e do relacionamento com o governo, a BM&FBovespa reconhece que é preciso ampliar o financiamento das empresas por meio do mercado de capitais. A bolsa destaca que,  unto com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)- órgão que regulamenta e fiscaliza o mercado -, lidera  m grupo de trabalho para estudar formas de estimular a captação de recursos por meio de ofertas  menores de ações. A iniciativa nasceu no primeiro semestre deste ano e conta também com a participação do ministério da Fazenda, do BNDES, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Agência Brasileira  e Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Entretanto, nada fala sobre a questão da interlocução com o governo. Diz apenas ter uma boa relação com a CVM e o BNDES.

2012 se consolida como um ano de crescimento pífio. Com um cenário externo cada vez mais adverso e crise de competitividade da indústria, o Produto Interno Bruto (PIE) deve ter uma expansão entre 1,5%e 2%.Neste quadro desanimador, contudo, a Selic e o dólar caminham para níveis muito mais favoráveis para estimular a atividade econômica. Um mix mais propício de juros e câmbio obviamente não é uma panaceia, mas será um incentivo importante para a economia, devendo surtir mais efeito quando o quadro internacional ficar menos nebuloso. Também devem ajudar as medidas que o governo tem tomado para encorajar o investimento e reduzir os custos da indústria.

O Banco Central (BC) definiu uma estratégia para derrubar com força a Selic, aproveitando o cenário de crise global e desaceleração da economia. Os juros básicos, fixados em 8%ao ano na reunião de julho, devem cair para 7,5%ou até menos, acreditam os analistas. A taxa real, medida pela comparação do juro privado de um ano com a inflação projetada para os próximos 12meses, se encontra em patamares baixíssimos para padrões brasileiros – em junho e julho, ficou abaixo de 2%.

Vários analistas questionam a velocidade com que o BC reduziu a Selic, já que a inflação brasileira não mergulhou nem mesmo com a atividade no chão desde o terceiro trimestre de 2011. Ainda assim, a deterioração do cenário externo e a letargia da economia deram mais credibilidade à estratégia do BC.

Embora não se possa descartar uma alta mais forte da Selic em algum momento, a expectativa dominante hoje é de que, quando os juros tiverem de subir, vão aumentar menos, além de partirem de um nível bem mais civilizado. O economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, acredita que a Selic vai cair até 7%, encerrando 2012 neste patamar. Em 2013, com a expectativa de recuperação da economia, os juros devem subir, fechando o ano que vem em 8%.

Juros menores não são garantia de crescimento acelerado, mas certamente terão um impacto benigno sobre a economia. O custo de capital ficará mais razoável e haverá um poderoso incentivo para o desenvolvimento do mercado de capitais.

O câmbio também parece ter mudado de nível. A tendência de valorização expressiva da moeda foi interrompida. O dólar, que foi cotado a R$ 1,55 em julho do ano passado, passa a ser negociado na casa e R$ 2 ou mais. Kawall vê dois principais motivos para o novo patamar. Primeiro, a maior aversão ao risco o cenário internacional, que aponta também um quadro bem menos exuberante para os preços de commodities, produtos com grande peso na pauta de exportação brasileira. Além disso, o governo adotou árias medidas de controle de capitais, tornando mais difícil e mais caro apostar na valorização do real.

“Sem dúvida nenhuma, a combinação de juros mais baixos com câmbio mais valorizado é melhor para o crescimento econômico”, diz Kawall.  “Ainda não mudaram esta regra.” Segundo ele, o cenário consensual de recuperação da atividade na segunda metade do ano e de um 2013 melhor do que 2012 tem como pressupostos importantes uma política econômica mais expansionista, em que se destacam os juros mais baixos, e um câmbio mais competitivo, que  aparentemente veio para ficar” .

Isso não quer dizer que o país vai experimentar taxas de crescimento robustas de uma hora para outra por causa do novo mix de juros e câmbio. O México, por exemplo, derrubou os juros básicos para níveis civilizados há alguns anos e isso não significou uma mudança do padrão de crescimento. Ao mesmo tempo, parece um erro ignorar o potencial impacto sobre a economia de juros reais bem inferiores aos que vigoraram desde o começo do Plano Real.

As medidas para reduzir o custo das empresas – como as voltadas para as tarifas de energia elétrica – e ara intensificar as concessões de obras de infraestrutura para o setor privado também aumentam as perspectivas de crescimento do país. Ainda que um pouco tardias, são iniciativas que enfrentam problemas estruturais. Podem não ter efeito imediato, mas caminham na direção de aumentar a competitividade da  economia brasileira.

Neste quadro, o panorama para a atividade econômica não é sombrio como sugere o desempenho dos últimos trimestres. Se o cenário externo não ficar muito turvo, um risco que existe principalmente por causa a possibilidade de ruptura na zona do euro, há uma chance não remota de retomada mais firme da economia.

Um dos pilares da teoria de finanças diz que o investidor, antes de comprar uma ação, precisa identificar uma boa oportunidade de preço. Assim, em tese, perderia atratividade um papel que, de acordo com  seus indicadores de mercado (os chamados múltiplos), é considerado caro em relação à média histórica e à de seus pares. Não é bem isso, no entanto, o que tem sido visto na bolsa brasileira – sobretudo nos últimos meses. Em meio às incertezas com relação à economia mundial e as revisões para baixo do crescimento brasileiro, muitos aplicadores têm ignorado alertas de valores esticados e alocado recursos no que identificam como “ações de qualidade”.

Em uma espécie de efeito manada, todo mundo saiu à procura de um grupo de papéis fortemente ligados o mercado interno – alimentos e bebidas, varejo e elétricas à frente – e que, por isso, ficaram caros. Foi um movimento potencializado também por uma decepção generalizada em relação às “blue chips” (as ações de primeira linha da bolsa).

No centro da discussão – e das escolhas feitas por analistas e gestores- estão papéis como o da companhia de bebidas Ambev. As ações preferenciais da empresa são negociadas a um múltiplo preço obre lucro (P/L) médio de 24 vezes, de acordo com o consenso Bloomberg do fim de julho. Obtido a partir a relação entre a cotação do papel e o lucro líquido anual estimado, o indicador aponta, em tese, em quanto tempo o capital investido será recuperado, desde que todo o lucro seja distribuído aos acionistas.  Logo, quanto menor, melhor.

No caso da Ambev, o número indica que a ação da companhia levaria 24 anos para devolver o investimento – ante um P/L médio de 5,8 vezes para Vale. Justamente por ser uma companhia sujeita aos ciclos econômicos, é esperado que o múltiplo P/L de Vale seja menor. É a grande distância com relação ao indicador da Ambev que chama a atenção.

Assim como Ambev, a fabricante de cigarros Souza Cruz também é um excelente exemplo de empresa defensiva considerada cara por muitos. Em média, o mercado espera que o lucro da companhia cresça de 5%a 7%neste ano. O papel, contudo, tem sido negociado a um múltiplo P/L médio de 19 vezes, sendo que a média do mercado é de um indicador ao redor de 13vezes. Seguindo este raciocínio, faria sentido investir em ativos com este perfil?

O que é visto como “legitimamente defensivo” por alguns é qualificado por outros como “excessivamente previsível”. O consenso, no entanto, é que a estratégia simplesmente tem funcionado e pode continuar dando certo enquanto o cenário de nuvens carregadas não mudar.

Hoje fazem parte da carteira de boa parte das gestoras, e de muitas das indicações de analistas de  bancos e corretoras, papéis de setores diversos, tais como Cemig (energia elétrica), CCR (concessão  rodoviária), BR Malls (shoppings), Cielo (serviços financeiros), Ultrapar (combustíveis), Pão de Açúcar  varejo) e Localiza (aluguel de carros), além, claro, de Souza Cruz e Ambev.

Este tipo de ação, já apelidadas pelos especialistas de “boring” (enfadonha, tediosa), “Warren Buffett” (estáveis e com geração de caixa previsível), ou, em um tom mais jocoso, “papai e mamãe”, engloba empresas com um histórico positivo de relacionamento com o mercado, financeiramente sólidas e com ma entrega consistente de (bons) resultados. Com isso, a volatilidade em bolsa fica menor e muitas ainda distribuem excelentes dividendos.

Tal postura, mais conservadora, encontra vários exemplos recentes no mercado. Ao longo de julho, em todos os seus relatórios, a Itaú Corretora reforçou a preferência por teses de investimentos mais sólidas e previsíveis, apostando na continuidade do bom desempenho das ações de perfil defensivo, como

Ambev, Cemig e Telefônica. Entre as suas 17 melhores idéias de investimento, nada menos do que as cinco primeiras eram ocupadas no fim de julho por ações consideradas menos voláteis: Cemig, Ambev, Vivo, CCR e BR Malls.

Em meados de julho, o Deutsche Bank também adotava um viés mais cauteloso, optando  elos  papéis da BM&FBovespa em detrimento de bancos, ainda sujeitos ao que o relatório indicava  como risco de crédito.

Ao lado de Localiza, a Ambev aparecia ainda no portfólio recomendado para “large caps” empresas de maior capitalização) nos meses de julho e agosto da corretora Fator – que  postava no potencial de crescimento do consumo no mercado interno; e na carteira de  dividendos da corretora Concórdia, que tinha ainda CCR entre os cinco papéis recomendados em sua carteira Ibovespa.

“É uma estratégia válida em tempos complicados”, diz Marcelo Varejão, analista da corretora Socopa, que em julho também anunciou uma guinada “à direita”, com a troca dos papéis da MPX elas ações da Ambev, com o objetivo de deixar a carteira um pouco mais conservadora. “É aquela velha história: papel caro e bom pode ficar ainda mais caro.”

Outro que defende o movimento é Jorge Oliveira, gestor do JP Morgan. Ele ressalta que dizer se um papel é caro ou barato é relativo e faz um alerta: o investidor que olha apenas para os múltiplos pode perder dinheiro no longo prazo. A questão, diz ele, não é só saber se a ação está cara ou barata, mas se vale a pena pagar um prêmio por ela. E para isso é preciso olhar para a evolução dos múltiplos nos próximos anos e compará-los também com os de empresas

listadas em outros lugares com o mesmo tipo de negócio.

André Rocha, titular do blog O Estrategista, do site do Valor, lembra que um múltiplo alto não sinaliza necessariamente que a ação encontra- se cara. Empresas com forte expectativa de crescimento de resultados tendem a apresentar múltiplos altos porque, com o aumento dos lucros futuros, o indicador tende a desinflar nos anos seguintes. “Por outro lado, são ações que têm que continuar entregando os resultados esperados para valer a pena o investimento”, diz.

Segundo Oliveira, do Morgan, se houver uma boa gestão e um modelo de negócio sustentável, nada impede que o investidor 49btenha ganhos com uma empresa com um P/L de 20 vezes. “Quem deixou de comprar Ambev há dois ou três anos fez um péssimo negócio.”

De fato, a trajetória das ações da empresa está longe de ser enfadonha. Alinha descrita pelo papel também é um verdadeiro desafio à tentativa do investidor de deixar o mercado no melhor momento. Nos últimos cinco anos, o papel acumulou alta ao redor de 358%, com queda apenas em 2008 (-17,5%), assim mesmo bem menor que o tombo de 41% do Ibovespa. No ano seguinte, quando o Ibovespa subiu quase 3%, a ação não deixou por muito menos, em alta de 80%. Quem saiu no fim de 2010 embolsou mais 51%de alta. Maravilha? Depende. Esse mesmo investidor poderia ter ganhado mais 38% em 2011 e outros 21% em 2012, até o dia 27 de julho.

Em junho, segundo os dados mais recentes da bolsa, o valor de mercado da Ambev, de R$ 216,9 bilhões, só perdia para o da Petrobras. Ficava, porém, acima do valor de mercado da Vale, de R$ 213,3 bilhões. “Como uma empresa que vende cerveja vale em bolsa algo equivalente a segunda maior mineradora do mundo?”, indaga o sócio-gestor da Cultinvest Walter Mendes.

Ele mesmo responde: “A Vale é uma empresa exportadora, portanto dependente da conjuntura internacional e, mais ainda, da China. Fora que ela encontra interferência do governo em suas atividades, enquanto a Ambev não depende do exterior, nem de crédito, vende um produto de massa, é sólida e bem gerida. Tem ainda possibilidade de pagar dividendo razoável de 5% a 6% neste ano”.

A linha descrita pelas ações da Vale refletiria muitas das incertezas destes últimos anos. Depois de subir quase 91% em 2007, o papel passou por altos e baixos e há um ano e meio não sabe o que é território positivo. Em cinco anos, a valorização é bem mais modesta do que a cravada por Ambev: 59%.

Mendes, no entanto, faz questão de ressaltar que optar entre uma ou outra ação é questão de alocação e horizonte de investimento. “Não há preto e branco nisso, mas várias graduações de cinza”, diz.

O próprio Mendes, contudo, foge do lugar comum e diz evitar a compra de ações defensivas – principalmente as consideradas caras. Entre os papéis que avalia como “menos caro”, tem Cemig e Vivo, mas as suas apostas hoje estão mais nos setores de logística (Mills,Julio Simões, Santos Brasil) e  educação. “Admito que poderia ter comprado Ambev há algum tempo. Só não o fiz porque achei que  estava  ara desde o ano passado.”

Para os críticos, o que chamam de “bolha dos múltiplos” não faz sentido em termos de estratégia de longo prazo. Eles dizem que gostam da maior parte das empresas consideradas caras, mas que os altos múltiplos não dão margem de segurança para a compra e acreditam que o desafio estaria em encontrar bons negócios na bolsa ainda não precificados.

André Gordon, sócio responsável pela gestão da GTI Administração de Recursos, diz que a validade da estratégia de se socorrer em empresas caras em tempos difíceis é objeto de discussão diária na gestora. “Do ponto de vista fundamental, faz todo sentido migrar para onde tem maior segurança quando se antevê uma incerteza grande. Isso até a minha avó de 87 anos entende.”

O que Gordon não compreende é como o investidor pode abrir mão do que chama de “outra parte da equação” – o preço. É crucial, diz ele, entender quanto você está pagando pelo papel, qual o retorno implícito esperado ajustado ao risco, assim como o retorno esperado para outros ativos.

O gestor afirma que há empresas que vêm apresentando bons desempenhos “como se não houvesse manhã”. Um dos exemplos, diz, são os papéis da Cielo, que, em sua avaliação, ficaram “caríssimos” e foram trocados pelas ações do Itaú. “O ideal, na verdade, seria estar trocando agora, mas não temos bola e cristal”, reconhece.

Para ele, setores bastante defensivos como os de energia elétrica, concessões e varejo estão caros ou, depois de quedas mais recentes, próximos do preço considerado justo. “O mercado chegou a pagar 30 vezes o lucro pelos papéis de varejo. Quando você faz isso, ou está no Japão, que tem um custo de oportunidade inexistente e qualquer ativo vai continuar parado por muito tempo, ou você acredita que a empresa vai ter um crescimento absurdo”, argumenta. “O problema é que a expansão que vinha em ritmo forte no setor está parcialmente comprometida pela saturação, principalmente, do crédito.”

Gordon diz que, no médio ou longo prazo, não é pessimista a ponto de achar que este cenário de crescimento acabou. Chegou a ter de 7% a 8% da carteira em vestuário, mas se desfez de papéis como Renner e Riachuelo há alguns meses e agora aposta em Magazine Luiza. E em outros setores menos óbvios como logística bancos e construção civil. “Mas no curto prazo não estamos otimistas com nada, nossa visão é mais para dois ou três anos: ‘

O foco de Gilberto Nagai, superintendente de renda variável da Itaú Asset Management, não são tanto as ações consideradas caras porque subiram demais, mas os papéis ainda esticados porque não caíram tudo o que foi projetado.

Atualmente, ele mantém em seus portfólios ações de companhias que entregam resultado como um “reloginho, sem surpresas” – shoppings e boas pagadoras de dividendos -, mas em menor proporção. Segundo Nagai,as empresas de bebidas e de cigarros não devem decepcionar nas próximas safras de  balanço. Porém acredita que, para as ações de varejo, mais perdas estão por vir. “Mas elas vão voltar a ter lucro mais para o fim do ano”, afirma.

Devagar, o gestor do Itaú diz que vai “virando a chave” das suas carteiras para companhias de crescimento (ações com potencial maior de valorização), como as do setor de siderurgia. “Em cerca de seis meses, já vai valer a pena se voltar para as empresas de crescimento. Só não dá para comprar muito ainda porque ainda vamos nos decepcionar com os números”, diz.

Aqui, no entanto, vale uma ressalva, pois não se trata de buscar papéis indiscriminadamente baratos. “Parece que algumas ações estão baratas, mas não geram lucro, e nem vão gerar. Então, na verdade, permanecem caras”, diz Nagai,que prefere não citar nomes, mas alguns setores que podem conter empresas com este perfil – aéreo e construção civil entre eles.

Gordon, da GTI, é mais categórico. Para ele, sem os problemas de governança, Petrobras seria uma empresa na qual investir, o que ainda não é o caso. “O fato é que a Petrobras não vem atingindo as promessas do passado de entrega de produção, fora a questão da capitalização. Todas estas condições destroem valor para o acionista”, diz. “Está barata, mas falta clareza no futuro.”

No geral, a percepção é que, reduzido o grau de incerteza, o apetite por risco tomará o rumo inverso, aumentando as apostas nos papéis de crescimento. “Nesse ajuste, que acho que pode ser forte, vamos voltar a ver a redução dos múltiplos de empresas defensivas”, diz Mendes, da Cultinvest. O movimento, no entanto, dependerá dos sinais de reaquecimento da economia chinesa, de recuperação consistente da economia americana e de que o fundo do poço para a Europa finalmente tenha sido alcançado – fora a reaceleração da economia local.

Para além das questões colocadas entre o que é considerado caro ou barato, o consenso é que o investidor de olho em prazos mais longos fique sempre atento a empresas com espaço para expansão de seus resultados operacionais, vantagens em seus segmentos, que estejam gerando caixa e ganhando participação de mercado. Fora a possibilidade de distribuição de dividendos. Mesmo porque o que é considerado caro hoje pode estar barato – ou ainda mais caro – amanhã.

 

FORA DA CAIXA

 

Lucros S/A

 

Sob novo comando, a Klabín, maior produtora brasileira de

papéis para embalagens e dona de extensas florestas, ganha

eficiência e a simpatia dos investidores. Agora, falta só o

Novo Mercado Por Stella Fontes.

 

Sem muito alarde, a Klabin, maior produtora brasileira de papéis para embalagens e player reconhecida mundialmente no segmento, colocou em curso um processo de reestruturação que está mudando a sua cultura corporativa. Este movimento literalmente derrubou paredes e, aos poucos, vai alterando parâmetros o negócio – assim como a imagem construída, ao longo de muitos anos, junto a analistas e investidores  que acompanham a centenária indústria fundada pelas famílias Klabin e Lafer.

Não que esta imagem fosse ruim. A Klabin, que detém mais de 500 mil hectares de terras, já era  considerada uma empresa com ativos fantásticos, mas os investidores sentiam falta de renovação da estrutura para que o potencial desses ativos pudesse se refletir plenamente em ganhos. Foi o que  começou a acontecer no fim de 2010, quando os próprios controladores convocaram um novo gestor para  tocar a empresa. “O mais importante é que a companhia aceitou um desafio depois de mais de cem anos”, observa o gestor Thomas Mello de Souza, da Gávea Investimentos. Durante o 5 Congresso Value   Ivesting Brasil, realizado em junho, em São  Paulo, ele apresentou a Klabin como uma das “top picks”, ou  seja, uma das preferidas da gestora carioca na bolsa.

A troca de comando deu início a uma série de ajustes. Desde a eliminação das divisórias que impediam o contato visual entre executivos na sede da empresa, na capital paulista, até a construção de uma bilionária fábrica de celulose, que levará a tradicional papeleira a comercializar também a matéria-prima por algum  tempo, as mudanças são diversas e ainda estão em curso. Mas já deixaram marcas no balanço financeiro, nos relatórios de análise e no desempenho da companhia em bolsa.

A boa impressão está evidenciada pelo comportamento das ações da Klabin desde o início do ano passado. Segundo o Valor Data, entre o fim de janeiro de 2011 e 27 de julho de 2012, as preferenciais acumularam alta de 71%, enquanto o Ibovespa, o principal índice da BM&FBovespa, caiu 19%no período. Também estavam muito bem aos olhos da agência de classificação de risco Fitch Ratings, que em junho atribuiu notas iniciais de probabilidade de inadimplência do emissor (IDRs, na sigla em inglês) em moeda estrangeira e local BBB-, colocando a empresa no restrito grupo de companhias brasileiras consideradas grau de investimento.

O nascimento silencioso da “nova Klabin” reflete, em parte, a discrição de seu novo diretor-geral, o executivo Fabio Schvartsman, que chegou à companhia em fevereiro de 2011.Primeiro profissional a comandar a Klabin sem ter sido formado nos quadros da empresa, Schvartsman raramente concede entrevistas –para a Valorlnveste, sua assessoria informou que não haveria agenda compatível com o prazo de fechamento desta edição. Entre os analistas, a impressão é de que o novo comandante trouxe novidades em governança. “A Klabin se modernizou em termos de gestão e de relações com o mercado”, afirma um analista que pediu para não ser identificado.

Em relatório de 10 de julho, os analistas Raphael Biderman e Alan Glezer, do Bradesco BBI, lembram que a companhia sempre foi conhecida pela tomada lenta de decisões e pela presença de integrantes das famílias acionistas no grupo controlador. “De repente, a partir da reestruturação, a Klabin adotou um estilo moderno e agressivo, com estrutura corporativa mais horizontal e práticas de compensação mais agressivas”, escreveram os especialistas.

Em entrevista concedida à época do prêmio Executivo de Valor,em maio deste ano, Schvartsman, Uf1 dos premiados, reconheceu que estava em curso a formatação de uma “nova” Klabin. Calcada sobretudo no estabelecimento de um novo patamar de custos – num segundo momento, a meta é valorar áreas e ativos cujo potencial não é integralmente aproveitado -, a reestruturação já levou o resultado trimestral antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) para a casa de R$ 300 milhões, ante média anterior de R$ 200 milhões a R$ 250 milhões, destacaram os analistas do Bradesco BBI.

Os números chamaram a atenção do mercado. “Em 11,12 meses, a margem saltou de algo na casa de 20 e poucos por cento para algo na casa dos 30 e poucos por cento”, lembrou Souza, da Gávea, durante sua palestra.

Além de ter conquistado a aprovação dos investidores, o diretor-geral apareceu neste ano entre os dez mais influentes executivos da indústria global, perto, por exemplo, de Iohn Faraci, dirigente da americana International Paper, em ranking com 50 nomes elaborado pela RISI, consultoria independente e especializada no setor florestal com sede nos Estados Unidos. Ainda assim, prevalece a postura reservada do engenheiro de produção que fez carreira no grupo Ultra, entre outras empresas.

Além de derrubar barreiras físicas, Schvartsman empenhou-se em trazer ao escritório de São Paulo, de forma definitiva, os 14 diretores antes dispersos em diferentes fábricas – ao todo, são 17unidades industriais no Brasil e uma na Argentina. “É uma iniciativa muito mais simbólica, mas que contribuiu para termos um pensamento mais uniforme”, disse em entrevista ao Executivo de Valor.

Os relatos das mudanças no escritório rapidamente se espalharam, assim como as notícias de que uma ampla revisão do sistema de bônus estava prestes a ser implantada. E logo a companhia confirmou que se preparava para uma revisão completa no sistema de remuneração de seus executivos, resultando em um modelo mais moderno. O novo sistema prevê uma distribuição maior de bônus, atrelados a metas de desempenho. E foi bem recebido pelos analistas.

 

Operando sob um novo patamar de custos, a próxima fase de mudanças na Klabín engloba o aproveitamento melhor do potencial de determinadas áreas da companhia

 

Custo menor. eficiência maior

No aspecto operacional, a primeira fase da reestruturação conduzida por Schvartsman focou a redução de custos e a eficiência operacional. O primeiro alvo foi a unidade Monte Alegre, em Telêmaco Borba (PR), considerada a maior fábrica de papéis do país. Ali, a companhia produz principalmente cartões revestidos, usados em embalagens de produtos líquidos, por exemplo, além da celulose que servíra como matéria-prima. O mais recente grande investimento da companhia – e também o maior aporte já efetuado em sua história, de R$ 2,2 bilhões – já tinha sido direcionado justamente para essa unidade, em 2008. O desembolso ampliou a capacidade de produção de papéis para embalagens de 700 mil toneladas por ano para 1,1milhão de toneladas anuais. Com isso, a capacidade instalada total da Klabin subiu, a partir de setembro daquele ano, a 2 milhões de toneladas anuais.

As novas mudanças em Monte Alegre contribuíram significativamente para a alta de 48% no Ebitda da companhia no segundo trimestre de 2012, em comparação com igual intervalo do ano passado. O custo caixa unitário da companhia, excluindo itens não recorrentes e as paradas programadas de algumas unidades para manutenção, recuou 2% na comparação anual.

Após o projeto de Monte Alegre, outras iniciativas se seguiram, todas sob um rigoroso controle de gastos e despesas. A companhia anunciou investimentos totais de até R$ 500 milhões em duas máquinas. A primeira, voltada à produção de papel para sacos industriais, com capacidade anual de 80 mil toneladas, envolve aportes de R$ 220 milhões e será instalada na unidade de Correia Pinto (SC).Já em Angatuba (SP), os recursos serão direcionados para o negócio de reciclagem – a companhia é a maior recicladora de papéis do país.

O lema agora é aproveitar novas oportunidades. “A Klabin gera forte fluxo de caixa das operações. Isso permite que a companhia reduza a alavancagem rapidamente após o ciclo de investimentos” , avaliou a Fitch à época da atribuição do grau de investimento. Tal premissa deve pesar sobre a mais relevante decisão a ser tomada pela Klabin: a construção de uma nova fábrica de celulose, cujos investimentos devem alcançar R$ 6,8 bilhões. A unidade, que ficará em Ortigueira, no Paraná, e poderá entrar em operação em 2015, terá capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas por ano de três tipos de fibra: curta, longa e “fluff” (usada em fraldas e absorventes). A expectativa, no fim de julho, era de que o anúncio oficial poderia

ocorrer em breve.

A proposta da companhia é ter um sócio minoritário na empresa, que será denominada Klabin Celulose e conduzirá o empreendimento. A companhia poderá aportar apenas florestas e deixará a um sócio ou mais investidores estratégicos a incumbência de injetar recursos. Nas florestas próprias, a Klabin tem uma de suas principais riquezas e a garantia de custos competitivos: são mais de 240 mil hectares plantados, em uma área total que excede os 500 mil hectares de terras. Numa segunda fase da reestruturação, a meta é extrair ainda mais valor do seu portfólio. Vale lembrar que as terras despontam como ativos destacados entre os mais promissores por grandes investidores mundo afora.

Contudo, para a implementação do projeto – que também significa acesso à matéria-prima própria e a custos competitivos no futuro -, falta ainda o aval do conselho de administração. E há dúvidas quanto ao cumprimento do prazo para o início da operação e para a constituição

da joint venture que executará o projeto. Para os analistas Marcelo Aguiar e Diogo Miura, do Goldman Sachs, “em meio às incertezas presentes nos mercados financeiros, há potencial para atraso na conclusão” da parceria.

Os ganhos operacionais e de gestão obtidos até agora, porém, já embasam apostas como a de Souza, da Gávea, que acredita que a companhia ainda tem mais para entregar. “A Klabin é esse pacote de geração de valor, redução de custo, crescimento e melhora de governança, que, na nossa avaliação, é muito poderoso e deve resultar numa apreciação significativa da ação nos próximos anos. Um balanço sólido, ‘dividend yield’ (retorno via proventos) atrativo de 3%… e você tem aí um case interessante”, resume ele.

Embora os analistas vejam avanços importantes, ainda há desafios. Um deles está ligado a ganhos de governança, já que a companhia ainda tem duas classes de ações (com e sem direito a voto) e não integra o Novo Mercado da BM&FBovespa,algo que a deixa de fora do radar de vários estrangeiros, por exemplo. “O primeiro passo já foi dado, com melhora da gestão. O próximo é atingir um nível maior de governança, de excelência mesmo, que seria o Novo Mercado”, observa Souza. Um movimento de unificação das classes de ações, buscando a simplificação societária, poderia trazer mais valor para a companhia. “Isso daria liquidez aos papéis. E deve acontecer, na nossa opinião, talvez nos próximos dois anos” , prevê. A conferir.

(Colaborou Catherine Vieira)

 

BURACO NA DEFESA

SETORIAL

Revisão tarifária e renovação de concessões de energia elétrica turvam resultados e dividendos no setor conhecido por distribuir lucros

Por Sérgio Tauhata e Márcio Anaya

 

Queda na geração de caixa, retenção de lucros e a possibilidade de revisão para baixo na fatia paga ao acionista como dividendos, Tal combinação causa arrepios em qualquer investidor em bolsa, e mais ainda quando atinge um setor visto por anos como claramente defensivo: o de energia elétrica. As turbulências são fruto de processos regulatórios já previstos, que englobam revisões tarifárias e renovação de concessões. Uma reorganização de agenda, no entanto, acabou gerando o acúmulo de decisões importantes principalmente neste e no próximo ano. As mudanças seguem critérios técnicos conhecidos do mercado, mas o resultado final sempre é uma incógnita e o governo já avisou que trabalhará em outras frentes para baratear a energia – o que mexe com o horizonte de aplicadores até então acostumados com receitas bastante previsíveis.

O chamado “terceiro ciclo de revisões tarifárias”, que afeta as distribuidoras, deveria ter começado em 2011,mas a largada só foi dada neste ano. O processo deve se estender até novembro de 2013 e a tendência é clara: queda nos valores praticados pelas companhias. ”A agência define uma metodologia e aplica para todos, por isso já era esperado como regra geral um movimento de re-dução das tarifas”, afirma Romeu Rufino, diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O resultado disso na geração operacional de caixa das empresas, medida pelo Ebitda, será uma queda média de 15% nos 12 meses seguintes ao resultado da revisão, calcula a analista Sandra Boente, do Deutsche Bank. Segundo ela, algumas companhias esperam impacto de até 25%.Outras previsões, no entanto, vão além.

Até agora, o efeito mais agudo nesse processo foi visto na AES Eletropaulo, que terá de suportar uma diminuição média de 9,33% em suas tarifas, definida no mês passado. O diretor vice-presidente e de relações com investidores do grupo, Rinaldo Pecchio Júnior, prefere não falar em valores, mas estima que, pelas regras atuais, “o Ebitda só estará normalizado no fim do período do reembolso (retroativo), que vai até 2015″. Diante disso, ressalta que o caminho da companhia será adaptar-se às novas condições com ganhos de produtividade. “Em termos gerais, a empresa vai ter de se adequar e fazer um programa de investimentos que as condições tarifárias permitam. É um momento de reavaliação.”

Situação esta que deve desembocar em uma decisão de suma importância para os investidores: a redução da parcela do lucro distribuída via dividendos. “É lógico que estará em um nível diferente”, afirma o executivo da Eletropaulo. “Vamos reavaliar os dividendos que conseguiremos praticar nas novas condições tarifárias.” Tal cenário já está expresso nas expectativas dos especialistas quanto ao retomo das ações com proventos, neste e no próximo ano (ver gráficos nas páginas 36 e37).

Os analistas do HSBC prevêem que a fatia equivalente aos dividendos ficará no patamar mínimo de 25% do lucro líquido, ante 54% em 2011.Em relatório de julho, eles ressaltam o impacto do pagamento retroativo de R$ 1bilhão por conta do atraso da revisão tarifária, originalmente prevista para julho de 2011,e projetam uma queda contínua do Ebitda da Eletropaulo – que deve atingir R$ 486 milhões em 2014. Na Citi Corretora, a previsão no mês passado era de que o Ebitda da empresa fechará 2013 no patamar de R$ 900 milhões, equivalente a um terço dos R$2,8 bilhões de 2011.

Citi, HSBC e Barclays cortaram os preços-alvo dos papéis PN (sem direito a voto) da Eletropaulo após os resultados da revisão. A Citi reduziu a projeção de R$ 26,90 para R$ 19,60, com recomendação de venda. O HSBC baixou de R$ 25,50 para R$ 21, com classificação “underweight” (abaixo da média do mercado), a mesma do Barclays,que ajustou a estimativa de R$ 22 para R$17.No dia 27 de julho, as ações valiam no mercado R$19,65.

Para a Votorantim Corretora, a Light é a preferida no setor elétrico, com preço-alvo de R$ 34 para dezembro de 2012 – um potencial de alta ao redor de 30% no fim do mês passado. Entre os destaques, o analista Mareio Loureiro cita o cancelamento de contratos de clientes que não pagavam as contas há bastante tempo. “Isso é positivo no médio e longo prazos, pois a empresa deixa de faturar algo que sabe que não vai receber e não precisa recolher impostos de pontos que não vão pagar.”

O diretor financeiro e de relações com investidores da Light,João Batista Zolini, acredita que o combate às fraudes e os esforços para reduzir a inadimplência continuarão rendendo frutos nos próximos trimestres. Segundo ele, a companhia ampliará, por exemplo, a instalação de medidores eletrônicos. Os aparelhos são blindados e conectados a uma central que acompanha o consumo minuto a minuto, permitindo o corte ou restabelecimento da energia de forma automática.

Conforme o executivo, a expectativa é de que investimentos da ordem de R$2,7 bilhões em ativos elétricos sejam incluídos na base da revisão tarifária da empresa. Zolini diz estar “conservadoramente otimista” com o processo, tendo em vista alguns pontos. Entre eles está o fato de a companhia ter superado a meta de investimentos prevista no ciclo anterior de revisão de preços. O compromisso era de aporte médio anual de R$ 364 milhões, durante cinco anos, mas o resultado ficou um pouco superior a R$ 500 milhões por período.

Além disso, pelo cronograma (ver tabela na página 36), a Light será a última a passar por esta terceira rodada de revisões, o que lhe confere mais tempo para interpretar os critérios do órgão regulador e fazer algum eventual ajuste. “O preparo tem sido constante. Não basta fazer investimentos dentro de custos razoáveis, é preciso contabilizar os ativos de forma correta”, diz o executivo. O plano geral de investimentos da empresa para este ano é de R$ 802 milhões. Para o período de 2013 a 2015, o volume médio anual deve ficar próximo de R$ 615 milhões, totalizando pouco mais de R$ 1,8 bilhão.

Em relação aos dividendos, Zolini afirma que não há mudanças em vista. Segundo ele, a Light tem projetos importantes também na área de geração de energia, suficientes para “contrabalançar” qualquer efeito negativo da distribuição no Ebitda. A empresa tem como política oficial pagar proventos equivalentes a, no mínimo, 50% do lucro líquido ajustado, mas o histórico mostra fatias bem mais expressivas. Nos últimos cinco anos, o menor “payout” foi de 76,3%, em 2009, e em três oportunidades a distribuição atingiu 100%do lucro.

No quesito proventos, a Copel talvez possa reservar surpresas positivas. O presidente da companhia, Lindolfo Zimmer, diz que durante anos foi distribuída apenas a parcela mínima prevista em lei, de 25% do lucro líquido, mas no ano passado a fatia foi elevada para 35%. “E estamos olhando com carinho a possibilidade de melhorar isso”, comentou, com a ressalva de que qualquer decisão futura implicará, necessariamente, resguardar o projeto de “crescimento saudável e equilibrado” da empresa. “Não queremos fazer uma distribuição maior de forma pontual e, no ano seguinte, ter que sacrificar o pagamento, gerando insatisfação aos acionistas.”

De acordo com o executivo, a revisão tarifária da Copel, com uma redução média de 0,65% nos preços, teve um impacto pequeno nas contas. “Não dá para dizer que foi bom, pois o ideal seria uma variação positiva, mas veio um pouco melhor do que o esperado”, afirma. A empresa planeja investir cerca de R$2 bilhões neste ano. Em 2011,a previsão era a mesma, mas os desembolsos ficaram em R$1,7bilhão.

Loureiro, da Votorantim, observa que a companhia vem crescendo em geração e transmissão para diminuir principalmente o risco do ciclo tarifário. O ponto negativo, diz, ainda é a menor eficiência de gestão, pela interferência do governo do Paraná. No Deutsche, a percepção é de que a empresa vem fazendo a lição de casa. “A Copel tem diversificado seus investimentos com eficiência. É um papel interessante do ponto de vista de ‘upside’ (potencial de valorização)”, afirma Sandra, que projeta preço-alvo de R$ 51para as ações PNB,um ganho potencial de 26% com base no fechamento de 27 de julho.

Já no caso de Cemig, apesar do comando do Estado, o analista da Votorantim destaca o fato  e a empresa se beneficiar da administração compartilhada com a construtora Andrade Gutierrez. “Isso faz a companhia ter uma gestão mais ativa do que outras estatais”, afirma Loureiro. Em bolsa, no entanto, dada a valorização acumulada pelos papéis (de 54%no ano, até 27 de julho, ante queda de 0,4% do Ibovespa), o especialista não vê muito espaço para novos ganhos. A cotação estava em R$39,47 e o preço-alvo para dezembro de 2012 era de R$40.

Críticas e novos capítulos à vista

Em uma visão mais geral sobre o atual processo de revisão tarifária, o balanço da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) é de que os resultados têm sido mais duros do que se imaginava. Para a entidade, a Aneel tem deixado de reconhecer investimentos realizados pelas empresas ao aferir a base de remuneração. “O processo de validação da base  o terceiro ciclo foi surpresa para as distribuidoras”, afirma o presidente da Abradee, Nelson Fonseca Leite. “A metodologia implantada implica redução média de 22% na geração de caixa do setor.”

O diretor-executivo da Associação Brasileira das Companhias de Energia Elétrica (ABCE),José Simões Neto, reclama ainda que os critérios mudaram depois de os planejamentos estarem prontos. “Não há 100% de previsibilidade das regras de revisão. Existem normas que foram sendo ajustadas recentemente e os planejamentos acabaram por não estar totalmente aderentes:’

Na visão da Aneel, no entanto, não houve surpresa. “A metodologia recalculou o valor do Wacc [taxa de remuneração sobre o capital investido, que caiu de 9,95% para 7,5%]. Se a concessionária fez um investimento grande entre o segundo e o terceiro ciclos, aumenta a base de remuneração sobre a qual o Wacc incide” , explica Rufino.

 

Associações do setor reclamam de mudanças nas regras das revisões tarifárias. Aneel diz que não houve surpresa

 

Transmissão e geração

Até o fim de 2012, a Aneel deve divulgar as regras para a revisão do segmento de transmissão, programada para ocorrer em 2013. Quase ao mesmo tempo, vem à tona a exigência de definição das normas para a renovação de concessões das geradoras, que será, conforme admite o próprio governo, uma janela para reduzir ainda mais o custo da energia. Os dois segmentos devem atingir 20% da capacidade do país e o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, declarou em 26 de julho que a redução nos valores pode ficar em tomo de 10% e que as concessões devem ser renovadas por 20 anos.

Entre as geradoras, Cesp e Eletrobras estão entre as mais expostas, com concessões equivalentes a 67% e 40% da capacidade de geração de energia advinda de usinas hidrelétricas, respectivamente, vencendo em 2015.Os cálculos são da área de pesquisa do Barclays.

O presidente da Cesp, Mauro Arce, confirma a estimativa. Segundo ele, a companhia apresentou no último dia 7 de julho – com três anos de antecedência – toda a documentação necessária para a renovação das concessões das usinas de jupíá e Ilha Solteira. “Não existe lei que obrigue a entrega antecipada. Fizemos para reforçar a intenção da companhia de continuar com a concessão” , explica. A atribuição relativa a Porto Primavera já foi estendida para 2028, e até o fechamento desta edição, não havia posicionamento do governo sobre Três Irmãos, cuja concessão venceu em novembro de 2011.

Diante das indefinições, Arce prefere não comentar possíveis impactos na receita da estatal. “Temos evitado fazer qualquer conta por enquanto. Não adianta falar quanto a empresa suporta de redução de preço. É preciso aguardar.” Ele diz que a Cesp não pretende se aventurar em investimentos em novas companhias, mas tem desembolsado cerca de R$ 100 milhões por ano em conservação e modernização de suas unidades.

No caso da Eletrobras, o comando da empresa declarou recentemente à imprensa que trabalhava com a possibilidade de perda de receita de até R$ 5 bilhões com o fim das concessões das hidrelétricas em 2015. Mesmo assim, mantinha o plano de investir R$13bilhões neste ano, acima dos R$10 bilhões contabilizados em 2011.

Na visão de Loureiro, da Votorantim, a demora na definição dessas concessões passa justamente pela Eletrobras. O especialista acredita que o objetivo da União, controladora da companhia, é dar tempo ao grupo para fazer caixa e ter fôlego para cumprir seu plano de investimentos. Procurada, a empresa não respondeu aos pedidos de entrevista.

Em meio às discussões, Arce, da Cesp, chama a atenção para um evento importante no fim do ano. É quando vencem contratos de venda de energia da companhia equivalentes a aproximadamente 600 megawatts (MW), que representam 15%da sua capacidade total, de 4 mil MW.Considerando a receita bruta do ano passado, de R$ 3,4 bilhões, a fatia representa algo próximo de R$ 510milhões.

“Em última instância, se nada acontecer, a energia é da Cesp”, diz o executivo, prevendo uma sobre oferta se tiver que ofertar um volume como este no mercado livre. “Por conta disso, esperamos uma definição antes de 31de dezembro.’

 

RECEITA VARIADA

Opções menos conhecidas pelo investidor pessoa física, como LCI e CRI, ganham espaço nas carteiras conservadoras

Por Karla Spotorno

 

Os investimentos em renda fixa sempre estiveram mais para um guarda-roupa conservador, cheio de paletós pretos e cinzas, do que para uma prateleira de camisas polos coloridas. No Brasil dos juros altos, as opções acessíveis para a pessoa física eram poucas e muito parecidas entre si. A principal sempre foi a poupança, considerada o pretinho básico para os conservadores. Além dela, estavam à mão dos investidores os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), títulos públicos e algumas debêntures.

Aos poucos, as prateleiras dos bancos, distribuidoras e corretoras começam a ganhar mais cores. A realidade de taxa de juros mais baixa leva a uma maior oferta de produtos. É verdade que ainda não é possível ver rosas e verdes vibrantes nos portfólios de renda fixa. Mas dá, sim, para vestir as carteiras com algo além dos tradicionais tons de cinza. No início do ano, o engenheiro Gustavo Luiz Caçador, de 29 anos, fez isso. Comprou uma Letra de Crédito Imobiliário (LCI) do Sofisa Direto, papel que deu uma corzinha ao seu portfólio, até então recheado com um fundo DI, títulos públicos, CDBe uma debênture da BNDESPar.

A decisão de Caçador foi tomada pelos atributos da LCI.O retorno do ativo é isento de Imposto de Renda (IR) para a pessoa física e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) protege aplicações até R$ 70 mil. Sem a cobrança de IR, o papel gera um resultado líquido maior que o do CDB, mesmo oferecendo uma taxa de rentabilidade menor, como indica uma simulação no site do Sofisa. A LCI de seis meses paga 93% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), principal referência para os investimentos conservadores. O CDB de seis meses, 103%. Aos juros atuais, quem aplicar R$10 mil na letra imobiliária recebe, no fim do período, R$ 10.351. No CDB,fica com R$10.311 líquidos de imposto. Bom negócio para o investidor e também para o banco, que consegue captar recursos oferecendo uma remuneração menor – no exemplo em questão, uma diferença de dez pontos percentuais.

Não à toa, as LCIs passaram a ser mais oferecidas por instituições financeiras. Na Caixa Econômica Federal, o banco com a maior carteira de crédito imobiliário do país, as LCIs somam mais de R$ 20 bilhões. Há um ano, totalizavam R$ 13 bilhões. “É um produto de grande sucesso. Agora, estamos pensando em reduzir a aplicação mínima inicial [hoje em R$ 50 mil]“, afirma Márcio Percival, vice-presidente de finanças da Caixa. A exigência de um aporte inicial com valor elevado era característica da LCI até pouco tempo. Hoje, porém, já se encontram no mercado opções a partir de R$1mil ou até menos.

Na área de investimentos da Companhia Hipotecária Brasileira (CHB), instituição financeira do Rio Grande do Norte, a LCI é o produto que mais cresce. Segundo o diretor comercial Nelson Campos, foram captados R$ 5 milhões em 2010. No ano seguinte, o volume mais que dobrou, para R$ 12 milhões, e a expectativa é fechar 2012 com um resultado na casa de R$30 milhões.

Outro título de renda fixa ligado ao mercado imobiliário e agora mais acessível para os investidores pessoa física é o Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI).Assim como a LCI, o CRI tem como base o crédito imobiliário e dá isenção do IR para a pessoa física. A semelhança entre os dois, porém, termina aí.

A LCI é emitida por bancos e a rentabilidade depende basicamente de a instituição cumprir o que prometer. O dinheiro que o emissor da LCI capta pode ser usado de qualquer forma, pois não é atrelado a uma operação específica. O CRI, por sua vez, é emitido por uma companhia securitizadora, que estrutura as operações financeiras relacionadas a um empreendimento imobiliário. A rentabilidade do título depende do sucesso do projeto ao qual está atrelado. Uma das maiores diferenças, portanto, está no risco – mais complexo no caso do CRI. “Para colocar seu dinheiro em um CRI, o investidor deve analisar cuidadosamente uma série de riscos, como os jurídicos, de crédito e de estruturação financeira”, afirma Pedro Junqueira, sócio-diretor da Uqbar, empresa de educação e informação financeira.

Pelo risco e complexidade, os CRIs são normalmente indicados para os chamados “investidores qualificados” (com mais de R$ 300 mil aplicados), que procuram uma boa rentabilidade sem sair da renda fixa. Tais ativos, no entanto, não são fáceis de encontrar, pois normalmente não são oferecidos pelos canais tradicionais dos bancos. No ano passado, a Caixa Econômica Federal chegou a colocar um certificado desses em sua prateleira de investimentos. “Houve uma quantidade significativa de investidores interessados”, afirma Percival. Apesar da resposta considerada satisfatória, a ideia não é repetir a experiência. “A operação do produto é mais complicada para o investidor. Poucos entendem o funcionamento”, afirma. Ainda neste ano, a intenção é montar um fundo de investimento lastreado em CRIs e oferecer no balcão da Caixa.

Na comparação, a LCI leva vantagem em relação ao CRI também pela proteção do FGC. Esse atributo foi decisivo para Gustavo Caçador decidir-se, mais rapidamente, pela aplicação. “Provavelmente, eu teria aplicado mesmo sem a garantia. Mas teria pesquisado mais e levado mais tempo para tomar a decisão”, afirma.

Para aproveitar a garantia do FGC em aplicações superiores a R$70 mil, uma saída é comprar LCls de mais de um emissor. “É a sugestão que damos para os nossos clientes” , afirma Eduardo Glitz, diretor da XP Investimentos. A tática comercial da xp faz sentido para a empresa, que vende em seu site LCIs de bancos médios, casas hipotecárias e securitizadoras, e também para o investidor. A razão é a seguinte: o FGC garante o valor por CPF e por instituição. Ou seja, se o investidor tiver R$ 140 mil investidos na LCI de um banco que falir, receberá apenas R$ 70 mil. Mas, se tiver R$ 140 mil distribuídos em dois bancos diferentes que vierem a quebrar, terá de volta os R$140 mil.

Claro que a confiança do investidor não pode estar apenas no fundo garantidor. Ele deve, primeiramente, ter segurança quanto ao emissor do título. Afinal, o seu objetivo com aquela aplicação financeira é conseguir uma determinada rentabilidade, e não apenas ter seu dinheiro garantido. Além disso, quem investe motivado pelo FGC precisa ter em mente os prazos para recebimento dos recursos em caso de problemas com a instituição emissora.

Pelas regras do Banco Central, em caso de quebra da instituição, o resgate da aplicação pode levar pouco mais de 120 dias. José Alfredo Lattaro, gerente-geral do FGC,afirma que a demora não é do fundo. Depois de receber a lista dos credores, os depósitos na conta dos aplicadores são feitos em menos de uma semana. A demora ocorre porque o agente que assume o banco em liquidação ou com problemas de insolvência tem um prazo de 60 dias, prorrogáveis por mais 60 dias, para enviar a lista de todos os credores para o fundo.

 

Ao selecionar produtos financeiros, o investidor deve analisar a qualidade do emissor do papel e não se fiar somente na cobertura dada pelo Fundo Garantidor de Crédito

 

Demais alternativas

Outra opção para dar novos tons a uma carteira de renda fixa é a Letra de Crédito Agrícola (LCA). “O modelo de estruturação da LCA é muito semelhante ao da LCI. A diferença é o objeto do crédito. No lugar dos imóveis entra o crédito agrícola”, afirma Antonio Milano Neto, diretor da SLW Corretora. A vantagem mais explícita para o investidor é a isenção do IR e a inexistência de taxa de administração, como acontece na letra imobiliária.

Uma diferença importante na LCA é que não existe a cobertura do FGC. E, assim como os CRIs, dificilmente são encontradas nas prateleiras dos bancos. Como pode ser emitido somente por instituições com carteira de crédito agrícola, há pouca oferta do título para pessoas físicas. Entre os que disponibilizam a aplicação estão os bancos Pine, BVA, Intermedium e ABC Brasil. A rentabilidade, segundo Neto, da SLW,fica entre 95% e 100% do CDI nos grupos financeiros menores e entre 80% e 95% nos maiores.

Quem não quer se aventurar por LCIs, LCAs e CRIs ainda tem a opção de colorir sua carteira comprando CDBs de bancos médios. Em geral, tais instituições oferecem maior rentabilidade do que as grandes – e, conseqüentemente, um risco mais elevado. Gustavo Caçador também fez isso. Aplicou em um CDB que, no fim de julho, respondia pelo segundo maior rendimento médio mensal de sua carteira. Ganhava da LCI,do fundo DI, da poupança e dos títulos públicos, perdendo apenas para as debêntures.

Os CDBs dos bancos pequenos e médios pagam mais que os maiores por uma questão simples: essas instituições são menos conhecidas, têm menos acesso aos investidores e precisam oferecer mais para captar recursos. Para convencer o correntista de grandes como Bradesco e Santander a comprar um CDB em seu balcão, o banco médio precisa de argumentos. E esse argumento pode chegar a uma oferta de 112% do CDI, dependendo do prazo.

Diante de proposta tão sedutora, vale ligar o sinal amarelo e adotar os cuidados que o jovem engenheiro tomou. Antes de colocar seu dinheiro em um banco que não conhecia, ele leu o balanço patrimonial, procurou notícias e informações, conversou com amigos. Só depois, ciente dos riscos, fez a aplicação. Saiu do básico e está satisfeito com o resultado.

 

COMO CARREGAR MENOS PESO

Com juro baixo, o impacto das taxas e a forma de cobrança delas fazem mais diferença na escolha de um plano de previdência

Por Alessandra Bellotto

 

Quanto vale a troca de um plano de previdência privada que cobra do cliente 4% sobre toda aplicação que ele faz (a taxa de carregamento) e 3%para gerir os recursos por uma alternativa cuja única despesa é uma taxa de administração de 0,8%? Um ganho superior a 50% levando em conta um aporte inicial de R$10 mil e contribuições mensais de R$ 500 por um período de 30 anos, a um juro real (descontada a inflação) de 4%ao ano.

Na simulação feita pelo economista Marcelo d’Agosto, à frente do blog O Consultor Financeiro, do portal Valor, no primeiro plano o investidor acumularia cerca de R$ 214 mil e, na segunda opção, R$ 324,9 mil – uma diferença superior a R$ 110mil.

Em tempo de juro baixo, negociar os custos torna-se obrigatório para não deixar na mesa todo o ganho, destaca o diretor de varejo da XP Investimentos, Eduardo Glitz. “No cenário atual, se o investidor não prestar atenção, corre o risco de passar 25, 30 anos acumulando recursos e, no fim do período, resgatar menos do que colocou, se descontada a inflação”, alerta. Para se ter uma ideia, a fim de recuperar uma taxa de carregamento de 4%,seria necessário pouco mais de um ano de aplicação, considerando um juro real também de 4%.

Por isso é preciso sair da zona de conforto e pesquisar. No varejo, destaca Glitz, ainda são encontradas taxas “abusivas”, já que esse é um mercado que acompanha a concentração bancária, e as informações não são facilmente encontradas nem comparáveis. Basicamente, os custos variam de acordo com o porte do investimento e o relacionamento do cliente com a instituição. E cada seguradora apresenta um modelo de cobrança: umas têm taxa de carregamento na entrada, outras só na saída, algumas na entrada e saída, e há quem não cobre nada.

As taxas são apenas parte do modelo complexo da previdência aberta, que envolve ainda a escolha do plano (PGBL ou VGBL),da tabela de imposto que vai incidir sobre sua aplicação, se progressiva ou regressiva, e do tipo de fundo de investimento que vai receber as aplicações, se renda fixa, multimercado ou composto com até 15%,30% ou 49% em ações – isso tudo considerando apenas o período de acumulação.·

D’Agosto calcula, com base em levantamento da consultoria NetQuant com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que há cerca de 3.600 planos individuais, entre PGBLe VGBL, que investem em menos de cem fundos. As seguradoras não informam o carregamento, mas as taxas de administração variam de menos de 1% até quase 5%. A maior parcela do patrimônio, contudo, está nos fundos mais baratos.

No segmento de renda fixa, que reúne mais de R$ 200 bilhões em ativos, pouco mais de 63% está aplicado em carteiras com taxas de administração de até 1,5%. Nos compostos, 42% do total de R$ 41,6 bilhões está nessa faixa de cobrança. Vale dizer também que esse é o intervalo que mais tem crescido nos últimos anos, aponta pesquisa da NetQuant (ver gráficos na página 50). Há algumas razões para isso.

Segundo D’Agosto, a principal delas é o aumento do interesse por planos de previdência privada de indivíduos com alto poder aquisitivo, que têm condição de avaliar melhor o efeito dos custos no tempo e negociar taxas menores. Além disso, fundos mais baratos tendem a ter

um desempenho melhor relativamente às alternativas com taxas mais altas.

Outro motivo é o investidor que começa a ficar preocupado com a queda da rentabilidade de suas aplicações e passa a pesquisar alternativas. Este é o caso do carioca Sandriel Genuíno Ferreira. Aos 35 anos, ele fez uso de um instrumento que só a previdência tem no universo

dos investimentos, a portabilidade, e trocou de seguradora.

Ferreira saiu de um plano que começava com 5% de taxa de carregamento e cobrava 3% de administração por uma opção sem carregamento e com 1,5% de administração, oferecida por uma seguradora independente. O primeiro investimento foi feito em 2004, com dinheiro que estava na poupança, por sugestão de um gerente do banco no qual tinha conta – na época, Ferreira trabalhava com carteira assinada no ramo têxtil. “Foi a partir daí que comecei a me interessar pelo mercado, ter alguma noção, mas não tinha tempo”, diz.

Em 2007, ele se formou em administração, o que fez seu gosto por finanças aumentar. Há cerca de três anos, ficou desempregado e resolveu mergulhar de vez no mercado. Buscou cursos para aprender a investir na bolsa, virou “trader” e, de quebra, descobriu uma alternativa

mais barata na previdência, que representa fatia de 70% dos seus recursos – a diferença é dinheiro reservado para operar na bolsa. “A gestão do fundo também está melhor”, afirma.

É verdade que Ferreira já tinha acumulado R$ 60 mil no plano original, o que certamente facilitou a portabilidade para um fundo mais barato. Mas um levantamento feito pela ValorInveste com as maiores seguradoras mostra que o setor já começa a se mexer a fim de garantir competitividade.

As instituições independentes, por exemplo, costumam cobrar taxa de carregamento apenas na saída, em percentual que decresce até zerá-la, conforme o prazo de permanência (ver tabela na página 50). Na Icatu Seguros, conta o superintendente comercial Sergio Prates,

a taxa zera a partir de três anos.

Há cerca de três meses, a Caixa Previdência acompanhou este modelo e tirou o carregamento de entrada dos planos novos. “Trocamos pela taxa de saída, porque, se o plano de previdência

é de longo prazo, o cliente acaba não pagando, nada”, explica o diretor Juvêncio Braga. Na Caixa, a taxa também zera depois de três anos. “A queda da taxa de juros está forçando a indústria de fundos em geral e de previdência a rever seus custos”, acredita.

 

As taxas de administração nos planos de previdência variam de menos de 1% até quase 5%

 

A HSBC Seguros também já tinha mexido em algumas taxas há cerca de dois anos, quando os juros experimentaram níveis mais baixos, conta o diretor FuHai. A instituição passou a trabalhar com uma taxa de carregamento menor na entrada, além da cobrada na saída.

Os clientes com maior poder aquisitivo, segundo o executivo, ganharam opções de fundos mais baratos, com taxas de administração de 0,8% e 1,5% ao ano. “Achamos que quem já tinha acumulado um volume razoável de recursos merecia tratamento diferenciado” , conta. Para contribuições menores, que na HSBC começam em R$ 50, as taxas chegam a 3%.

“Astaxas na previdência já vêm caindo. Embora existam fundos que cobram 3% ou 4%, são carteiras que carregam patrimônio do passado, de clientes antigos”, afirma o superintendente de produtos da Brasilprev Seguros e Previdência, João Batista Mendes Angelo.

“Tudo é questão de escala. O Brasil está amadurecendo e, à medida que o patrimônio do setor cresce, como já vem acontecendo, vai havendo, reduções, mas é um caminho que tem de ser trilhado tranquilamente”, diz Angelo. Ele afirma, contudo, que nos segmentos com tíquetes menores, a partir de R$ 25,00 na Brasilprev, o espaço para redução das taxas (em torno de 3%) é menor. O grande desafio, continua, é dar acesso a pequeníssimos investidores ao mercado, por conta dos custos fixos altos.

O superintendente-executivo de previdência do Santander, José Carlos de Paula, destaca que a previdência é mais complexa do que as demais alternativas de investimento. “A seguradora tem de fazer gestão atuarial, fiscal, de investimento, o que demanda gente especializada em todas as áreas”, afirma. Mas ele reconhece que, especialmente no segmento de renda fixa, onde está alocada a maior parcela do patrimônio, há espaço para queda.

Na avaliação de Glitz, da XP – que distribui fundos de previdência de seguradoras independentes na sua plataforma aberta de produtos -, no segmento de renda fixa, o investidor deve buscar taxas de administração de até 1% e zero de carregamento. Vale lembrar que, em grupos como o Santander e o Itaú Unibanco, as taxas variam de acordo com os investimentos totais do cliente na instituição.

O Itaú, conta o diretor-executivo Osvaldo Nascimento, aposta na estratégia de tratar a previdência como parte de uma cesta de opções de investimento. “Ela não disputa espaço com fundos tradicionais, CDBs, poupança, mas é oferecida para os projetos de longo prazo do cliente”, diz. As taxas de administração, segundo Nascimento, são equivalentes às cobradas nos fundos tradicionais e variam conforme o volume global de investimentos do cliente na instituição. “À medida que o cliente aumenta o patrimônio no banco, a taxa cai. Isso vale tanto para a previdência como para os fundos tradicionais.”

Angelo, da Brasilprev, ressalta que o investidor, mais do que os custos, precisa olhar a performance dos fundos. “Pode ter fundo que cobra mais, mas entrega serviço e valor em gestão”, diz. O cliente tem de ir atrás de um bom fundo com uma boa taxa de administração, resume Prates, da Icatu. Com a taxa de juros declinante e o instrumento da portabilidade, o mercado vai acabar regulando o preço, acredita Nascimento. “Se o investidor achar que seu fundo não é competitivo, ele migra para outro plano e empresa”, afirma. Nas seguradoras independentes, por exemplo, as taxas máximas de administração estão em 2,5%.

Na portabilidade de previdência, a grande vantagem é que o investidor pode mudar de um plano caro para um com taxas mais baixas, de um fundo de renda fixa para um com ações, de uma seguradora para outra, sem pagar imposto. Os recursos não saem do sistema.

 

Com a portabilidade, o investidor pode mudar de um plano para outro sem pagar imposto, pois os recursos não saem do sistema

 

Beneficio fiscal

Se os custos forem competitivos, para projetos de longo prazo, a previdência é quase unanimidade no mercado. Aplicações feitas num PGBL, voltado para quem faz a declaração completa de Imposto de Renda (IR) e tem renda acima de R$ 5 mil, podem ser abatidas até o limite de 12% do rendimento bruto anual, tributado em até 27,5%. Trata-se, no entanto, de um diferimento fiscal, uma espécie de adiamento, já que o imposto vai ser pago no plano no momento do resgate, sobre o valor total.

Seo investidor optar pela tabela regressiva, cuja alíquota começa em 35% para prazos de até dois anos e chega a 10% depois de dez anos, tem a possibilidade de conseguir um desconto em relação ao imposto na declaração de IR. Para aplicações superiores a dez anos, o investidor escapa de uma alíquota de 27,5% no início do período de aplicação para pagar 10% só no fim do prazo. “Esse prêmio não encontro em nenhum outro segmento”, afirma Angelo, da Brasilprev. O ideal é aplicar essa economia (17,5%),a fim de alavancar a poupança. “Esta é uma forma de incrementar os resultados que o cliente não percebe”, diz José Carlosde Paula, do Santander.

No VGBL,opção indicada para quem faz a declaração de IR no modelo simplificado ou já usou todo o espaço do abatimento do imposto no PGBL,não há a possibilidade de abatimento no IR.No entanto, os recursos acumulados não sofrem a incidência do come-cotas, imposto cobrado semestralmente nos fundos tradicionais. “O investidor acumula o tempo todo sem pagar imposto”, destaca Braga, da Caixa. A tributação acontece no momento do resgate

e apenas sobre o rendimento.

No Santander, para o investidor que tem objetivos de longo prazo, a dica que se costuma dar é direcionar pelo menos 15% dos recursos disponíveis para aplicação para a previdência, diz De Paula. Mas o horizonte tem de superar cinco anos para que se consiga tirar proveito dos benefícios fiscais, alerta.

Hoje, com juros declinantes, tudo o que investidor fizer para ter um ganho adicional, seja negociar custos mais baixos, seja aproveitar os benefícios fiscais que a previdência oferece, pode resultar em uma diferença grande. A diretora de previdência e vida resgatável da Mapfre Serviços Financeiros, Maristela Gorayb, vai além: na previdência, as pessoas precisam começar a pensar em assumir mais risco nas suas aplicações, com a inclusão de renda variável. “Isso vai ser inevitável, mas é uma questão de experimentar e ver que dá efeito.”

Em uma simulação da Icatu, Prates conta que, quando o juro real estava em 6% ao ano, uma pessoa de 30 anos, para se aposentar aos 60 com R$ 500 mil, tinha de contribuir com um pouco mais de R$ 500 por mês. Com essa taxa de juros caindo para 3,5%, as contribuições deveriam subir para quase R$ 800 por 30 anos para alcançar o mesmo saldo, ou a aposentadoria precisaria ser adiada por quase nove anos. Não dá para perder tempo. É hora de fazer contas.

 

TESTE DE RESISTÊNCIA

Executivos capazes de assumir qualquer negócio são valorizados por consultores, mas empresas ainda preferem profissionais do seu ramo de atuação

Por Mauricio Oliveira

 

Imagine abdicar ao cargo de CEO no Brasil de uma grande fabricante americana de chocolates para assumir o comando de uma empresa nacional especializada em importar e distribuir próteses para implantes ortopédicos, neurológicos e maxilofaciais. Pode soar improvável, mas

foi este o desafio aceito por Elizabeth Peart ao trocar a Hershey’s pela Implamed, grupo que emprega 600 pessoas e fatura R$200 milhões por ano.

Trata-se da mudança de emprego mais radical na carreira da executiva, mas não a única. Ela já havia passado pelos setores automobilístico, de telecomunicações e financeiro. Viveu experiências não apenas em segmentos distintos, mas também em companhias de diferentes

portes, nacionalidades e composições acionárias. Tornou-se, assim, integrante de um grupo de executivos identificados pelo perfil generalista, percebidos pelo mercado como capazes de assumir qualquer tipo de negócio. “A experiência vai mostrando que o mais importante é ter

uma base que se aplica a todas as situações. As especificidades de cada empresa podem ser absorvidas aos poucos sem que os resultados sejam comprometidos”, afirma Elizabeth.

Ainda que essa visão seja compartilhada por muitos outros executivos e analistas, os indícios são de que as empresas, tanto no Brasil quanto no exterior, têm resistido cada vez mais a buscar CEO sem setores muito distantes daquele em que atuam. Basta analisar as principais notícias sobre movimentações de altos executivos nos primeiros meses de 2012 para perceber que o modelo mais frequentemente adotado tem sido apostar em quem já conhece bem o ramo de atuação da companhia – seja pela promoção interna de um executivo que fez carreira na casa, pela contratação de alguém na concorrência direta ou, no máximo, em setores correlatos. Enquadram-se nesse modelo os recentes casos internacionais de Sherilyn McCoy,que trocou a Johnson & Johnson pela Avon, e de Sebastian Suhl, que foi da Prada para a Givenchy. No Brasil, Conrado Engel deixou o HSBC rumo ao Santander e Carlos Alberto Santa Cruz, ex-3M, assumiu o comando nacional da PPG Industries, multinacional especializada em tintas e vernizes – para citar apenas notícias pinçadas ao longo do primeiro semestre.

“Muitas empresas preferem contratar alguém que já conhece as peculiaridades do setor por considerar que os riscos são menores e imaginar que os resultados virão mais rapidamente, mas isso nem sempre se concretiza”, diz a headhunter Andrea de Paula Santos, sócia-diretora da consultoria de recrutamento de executivos Ascend. Ela costuma desaconselhar seus clientes a exigir experiência no ramo, pois considera que esse requisito limita o leque de alternativas e afasta boas possibilidades. “O importante é definir as competências principais esperadas do executivo diante das necessidades da organização naquele momento”, explica.

“Essas habilidades podem ser procuradas e encontradas em profissionais que estão dentro ou fora do setor.”

Para o consultor e professor Luiz Cláudio de Lima, especialista em gestão de recursos humanos do Ibmec, não há solução que possa ser considerada, por definição, melhor ou pior: ambos os perfis são importantes e a melhor indicação depende de cada caso. “Da mesma forma que a experiência no setor se torna fundamental em determinadas circunstâncias, há casos em que trazer alguém de fora ajuda a superar certos vicios típicos daquela atividade”, exemplifica. Ele ressalta, no entanto, que o mais comum é a empresa só contratar alguém sem bagagem em seu segmento de atuação quando planeja passar por uma reformulação profunda ou tenha perspectivas de atuar em outros mercados. “Em geral, a regra é buscar um generalista quando o momento não pode ser de acomodação.”

Lima diz que a carreira de generalista vem sendo chamada nos circuitos acadêmicos de “proteana”, termo inspirado no deus grego Proteu, que tinha a capacidade de assumir várias formas, adaptando-se assim às necessidades de cada situação. “Em um mercado em que ninguém mais imagina permanecer a vida toda na mesma empresa, onde tudo muda muito rapidamente e as possibilidades estão cada vez mais diversificadas, soa quase pretensioso alguém se classificar como especialista no que quer que seja” , ressalta.

Neste ponto, há um detalhe interessante na biografia da maior parte dos executivos que se tornaram generalistas reconhecidos no mercado: uma vivência sólida e marcante no início da carreira. “Antes de sair pulando de galho em galho e acumulando uma sucessão de experiências superficiais, tente se aprofundar em algo, um porto seguro para o qual você poderá voltar se necessário”, diz Daniela Ribeiro, gerente da divisão de engenharia da Robert Half, consultoria especializada em recrutamento de executivos. “Não importa se o executivo vem do mesmo setor de atuação da empresa ou de outro completamente diferente, as empresas só querem contratar quem tenha histórias consistentes para contar” , acrescenta Mariciane Germin, sócia-gerente da Asap, outra consultoria de seleção de executivos.

Elizabeth, por exemplo, iniciou a carreira na Ford, na qual entrou ainda como estudante de economia, e lá permaneceu por 18 anos. Jamais passou mais de três anos no mesmo cargo – ocupou posições nas áreas de marketing, pesquisa, recursos humanos, planejamento estratégico e chegou até a flertar com engenharia de produtos. Incluída no grupo de talento sem que a empresa mais apostava, viajava com frequência para o exterior e fazia treinamentos constantes nos Estados Unidos e na Inglaterra. Viveu os aprendizados e as dificuldades da AutoLatina, a joint venture com a Volkswagen que durou entre 1987 e 1996. “Eu era ainda muito jovem e estava aberta para o mundo. Sabia que a experiência no primeiro empregador havia me dado ferramentas que podiam ser aplicadas com sucesso em qualquer outro lugar”,  destaca a executiva.

 

Para executivos que mudam de setor, a chave do sucesso é cercar-se de especialistas capazes de auxiliar nas decisões

 

Ela conta que aceitou um emprego em uma pequena empresa que vendia créditos de telefonia internacional para entender o funcionamento básico do setor na década de 90. Logo em seguida, assumiu o cargo de diretora de marketing da Nokia, no momento em que a gigante

finlandesa se instalava no país. “A organização era muito bem estruturada e me deu autonomia para aplicar tudo o que eu havia aprendido na Ford. Isso incluía princípios como foco no serviço, qualidade de atendimento ao cliente e criação de medidores de desempenho”, descreve. Depois de quatro anos, a executiva transferiu- se para a Sodexo e, finalmente, para

a Hershey’s – seu primeiro desafio como principal executiva de uma empresa, com a missão de reformular o negócio no Brasil. Três anos depois, em 2009, com os objetivos cumpridos, veio a mudança para a Implamed. “Fui ficando viciada em desafios, e assumir uma empresa médica

era a oportunidade de enfrentar, mais uma vez, algo totalmente novo.”

Há também casos de executivos que, por circunstâncias da carreira.acabam não apenas transitando por diversos setores, mas também chegam até a mudar para “o outro lado do balcão” – ou seja, passam a atuarem setores dos quais antes eram clientes ou vice-versa. É o caso de Marcel Sacco, 45 anos, ex-vice-presidente de marketing da Schincariol, da Cadbury (fabricante de chocolate) e da Telefônica. Há dois anos ele foi convidado a se tornar CEOda

Holding Clube, grupo composto por oito agências de marketing e eventos, fundadas pelo publicitário José Victor Oliva.Juntas, as agências faturam R$ 240 milhões por ano e têm 200 colaboradores fixos.

“Antes, quando eu era cliente de agências, não tinha a percepção do impacto que minha atuação podia causar. Imprecisão no momento de desenhar um projeto, por exemplo, pode atrapalhar todo o processo”, diz Sacco. Ele comenta que, se fosse possível, recomendaria a todo profissional uma experiência semelhante em seu respectivo campo de atuação. “Agente amadurece muito quando vê as coisas pelo ponto de vista do outro.”

Os executivos com perfil generalista aprenderam que a chave do sucesso é se cercar de especialistas capazes de fornecer as informações necessárias às tomadas de decisão. Antônio Maciel Neto, que talvez seja o maior referencial brasileiro desse tipo de CEO – ele começou na Petrobras, passou por cargos no governo, pela cerâmica Cecrisa, presidiu a Ford e está desde 2006 à frente da Suzano -, costuma dizer que orienta todo subordinado a não apenas apresentar três possíveis soluções para um problema, mas também a apontar qual delas considera a mais adequada. Para Elizabeth, este “exercício de humildade” é um ponto crucial ao desembarcar em um setor que não se conhece bem. “É preciso reconhecer que os outros podem ensinar muito a você. Agir com prepotência é sempre ruim, mas em casos assim certamente é fatal”, diz ela.

Recorrendo à própria experiência como consultor, o professor Lima, do Ibmec, afirma que é quase inevitável para o generalista enfrentar certa resistência por parte dos especialistas. “Quando sou chamado para setores em que nunca atuei, logo surgem questionamentos sobre a minha capacidade de lidar com aquela situação. É preciso deixar claro que você está disposto a aprender, mas ao mesmo tempo demonstrar que tem muito mais a oferecer do que apenas conhecimentos pontuais naquela área” ,aconselha.

 

VELOZES. FURIOSOS E RENTÁVEIS

Carros antigos e raros recheiam a carteira do fundo de investimento que projeta rentabilidade líquida de 15% ao ano na Inglaterra

Por Patricia Eloy, de Londres

 

O poderoso ronco de carros de corrida tem sido a trilha sonora constante na vida de Nick Mason, baterista da lendária banda de rock progressivo Pink Floyd. Entusiasta de carros desde a infância, o inglês Mason uniu a paixão de menino ao mercado financeiro numa mistura pouco ortodoxa, para dizer o mínimo: ele atua como conselheiro num fundo de investimento que aplica em carros emblemáticos. Bólidos de acelerar o pulso e tirar o fôlego como uma Ferrari 250 GTO, uma McLaren FI, um Aston Martin DB4 ou uma Ferrari 250 Testarossa estão entre os objetos do desejo dos gestores, que acenam para o investidor com uma rentabilidade líquida mais do que tentadora: 15% ao ano.

Um olhar um pouco mais atento ao mercado de carros raros e de corrida entrega o jogo: a demanda nunca esteve tão aquecida. Neste ano, somente de meados de abril até o início de junho, oito Ferraris raras – ícone que representa quase um terço do segmento de compra e venda de automóveis, digamos, vintage – mudaram de mãos no exterior, movimentando o equivalente a 97 milhões de libras (ou US$145,5milhões) segundo especialistas do setor. No início de junho, uma Ferrari 250 GTO produzida em 1962 especialmente para o então piloto de Fórmula 1 inglês Sir Stirling Moss foi vendida por 22,7 milhões de libras (US$34 milhões), garantindo seu lugar na história como o veículo mais caro do mundo.

“Duas desse modelo já trocaram de mãos neste ano. Elas são o ápice do carro de colecionador. Se nosso portfólio fosse de US$250 milhões, teríamos que ter uma dessas”, afirma Ray Bellm, chairman do IGA Classics, um fundo fechado, o primeiro do mundo a investir em automóveis clássicos. “É preciso entender que foram feitos poucos exemplares, e depois nenhum outro foi fabricado – mas a demanda continua crescendo. Por exemplo, só fizeram 106 McLaren Fl. É uma fórmula simples: demanda em alta e oferta fixa resultam em preços elevados”, diz Bellm, ele mesmo um colecionador e dono de uma McLaren Fl.

Celebrando 50 anos de sua criação em 2012, a Ferrari 250 GTO é considerada a pín-up suprema do universo automobilístico: é a grande paixão de Mason, assim como do designer de moda americano Ralph Lauren e do milionário apresentador inglês Chris Evans. Seu charme está não apenas na aparência ou nas curvas fantásticas abraçadas pela emblemática capa vermelha – ou mesmo verde, no caso da de Stirling Moss – que povoa o imaginário popular, mas especialmente em números: a rigor, 39. Foram essas as únicas Ferrari 250 GTO produzidas entre 1962 e 1964. Dessas, apenas 36 entre 1962 e 1963, as mais colecionáveis de todas. A escassez faz desse modelo uma joia rara cobiçada por aficionados no mundo inteiro.

Enquanto na Inglaterra a boa e velha discussão sobre o clima foi substituída pelo debate sobre a crise na zona do euro, o mercado de veículos raros é um mundo à parte. Esse nicho tem conseguido não apenas se manter forte, mas avançar quilômetros por hora à medida que investidores, numa busca por ativos reais, unem a paixão sobre rodas à expectativa de retornos elevados proporcionados por clássicos com produção limitada. O que se tem então é um mercado superaquecido, com carros vendidos por valores recordes.

Para se ter uma ideia, o índice HAGIF, que acompanha o mercado colecionador de Ferraris e é publicado pelo “Financiai Times”, avançou 9,49% neste ano até junh8. No mesmo período, o ouro subiu 4,41%, o FTSE100 ficou estável e o S&P500 subiu 8,31%. Já o índice HAGITop,

que acompanha o desempenho dos 50 principais carros vintage com fabricação desde antes da Primeira Guerra Mundial até o novo milênio, acusa ganhos de 10,33% em 2012.

O ex-banqueiro Dietrich Hatlapa criou o think tank Historie Automobile Group International e os

índices HAGI (que acompanham de transações privadas a leilões de carros, passando por negócios com dealers). Ele diz que muitos investidores são atraídos pela baixa correlação que o investimento em automóveis tem com, por exemplo, o mercado de ações, o que faz dele uma boa alternativa de diversificação.

“Mas esse é um mercado altamente especializado, muito pequeno em tamanho e altamente ilíquido. É necessário ter experiência e integridade para avaliar corretamente os ativos”, alerta Hatlapa, ele mesmo um colecionador cujo primeiro clássico foi um Porsche Carrera 2.7 RS.

Em seu livro “Better than gold – investing in historie cars”, Hatlapa estima que esse seja um mercado de pouco mais de US$28 bilhões se forem considerados apenas carros de passeio (“road cars”). Quando protótipos, modelos especiais e veículos de corrida entram na fórmula, o número pode chegar a US$40 bilhões.

Atento à demanda cada vez maior por carros raros, Bellm teve a ideia de lançar um produto específico para este mercado. Criado em janeiro deste ano e com cerca de 15 carros na carteira – entre eles um BMW Ml fabricado em 1980 e que pertenceu ao rei Carl Gustav, da Suécia -, o fundo IGA Classics já projeta um retomo anual líquido de mais de 15%.É um desempenho de encher os olhos: o índice DAX,da bolsa alemã, avançou 8,78%, e o CAC,

da bolsa de Paris, acumulou alta de apenas 1,17%até o dia 30 de junho.

“Vi a valorização de carros ao longo dos anos e percebi que, assim como os fundos imobiliários e os que investem em vinhos, estava na hora de alguém olhar para esta classe de ativos”, conta ele, que, do alto de seus 62 anos, já negociou, sozinho, mais de 72 carros raros, venceu

várias competições e participou da mais antiga prova de resistência do mundo automobilístico: as 24 horas de Le Mans, na França.

 

Contando protótipos, modelos especiais, carros de passeio e de corrida raros, trata-se de um

mercado de US$40bi

 

A ideia originai era lançar um fundo de US$ 150 milhões no ano passado. Mas, sem encontrar um investidor de peso com US$ 50 milhões para desembolsar nesse novo modelo de aplicação, os gestores optaram por um fundo menor, fechado, com o objetivo de criar um histórico de rentabilidade que mostrasse que retornos de dois dígitos eram, sim, possíveis. Hoje, o fundo, que tem aplicação mínima de cem mil libras (US$150mil) e máxima de 200

mil libras (US$300 mil), conta com cerca de 20 investidores. Hedge funds e fundos de pensão estão entre os clientes potenciais. Brasileiros, se interessados, também podem investir.

“Carros são uma commodity como qualquer outra. Basta conhecer o mercado. E as pessoas que estão envolvidas no fundo, como Nick Mason, conhecem o mercado. Ele é um colecionador. Gordon Murray (designer de carros que criou o McLaren FI e também é conselheiro) tem o conhecimento técnico. Eu estou envolvido no mundo do esporte de velocidade desde que tinha 30 anos, então tenho 32 anos de experiência. Tudo se resume a

experiência. É como com um trader de um hedge fund ou um trader de ouro: você tem que conhecer seu mercado”, afirma Bellm, que foi chairman do British Racing Drivers Club entre 2003 e 2005.

A exemplo de Bellm, Mason também não é estranho a Le Mans, onde competiu cinco vezes. Além de colecionador de carros e consultor de fundos, criou a Ten Tenths, uma empresa com frota de mais de três mil veículos – entre eles, muitos seus – para aluguel em filmes. Recentemente, uma Ferrari F40 (avaliada em US$1,6milhão) saiu da garagem da empresa para o set do novo filme de James Bond. A paixão pelos carros ele aprendeu com o pai, que não apenas participava, mas também filmava algumas competições na década de 50.

E paixão parece -ser mesmo o nome do jogo. Tanto é assim que foi inaugurado, há dois anos, em Abu Dhabi, o Ferrari World, o maior parque temático indoors do mundo.

Segundo Konrad Sippel, diretor-executivo da Stoxx, segmento da Deutsche Bôrse, o interesse dos investidores europeus na indústria automobilística é tanto que eles lançaram há pouco mais de três anos o Stoxx Global Grand Prix Index, que acompanha ações de empresas ligadas à Fórmula 1: de fabricantes de pneus a patrocinadores, passando por fornecedores de combustíveis. No ano, o índice avançava 10,87% até o dia 30 de junho, desempenho superior ao do DAX (8,78%) e do CAC(1,17%)no período.

A verdade é que, a julgar pelos números, esse é um mercado que parece não conhecer crise. E não faltam provas de que a demanda está a mil por hora. Em janeiro, a Talacrest, maior dealer de Ferraris da Inglaterra, vendeu dois carros da escuderia antes mesmo que chegassem

ao Reino Unido: um/modelo 275 GTS que pertenceu ao músico Eric Clapton e uma Ferrari 250 Lusso.

A RM Auctions, maior casa de leilões de carros clássicos do mundo, bateu recordes de vendas no seu evento mais recente, realizado em maio, em Mônaco. Durante o Grand Prix, a empresa vendeu mais de 90 carros, numa transação equivalente a 33,5 milhões de euros. Dez veículos superaram a marca de 1 milhão de euros. O mais caro foi uma Ferrari 625 TRC Spider fabricada em 1957, arrematada por 5,040 milhões de euros.

“Tentamos encorajar os investidores a comprar por paixão, não só por investimento, que é um bônus. Esses são carros dos quais você tem que cuidar para não haver deterioração. Não temos visto muito interesse especulativo e é bom que continue assim. O mercado fica mais

estável”, explica o ex-publicitário Peter Wallman, hoje especialista da RM Auctions na Inglaterra.

Na década de 80, o mercado de carros raros passou por uma bolha que muitos gostam de comparar à da internet no início dos anos 2000. Apesar de todo o frenesi, não seria o

caso das transações recentes. Mas quem viveu aquela época não esquece. “Para um mercado pequeno assim há sempre o risco de que isso possa ocorrer de novo se um ritmo

fanático e caótico de investimento for criado” , pondera HatIapa.

Em 2010, o apresentador Chris Evans vendeu sua Ferrari California Spyder 1960 e alguns outros carros de sua coleção para custear o sonho antigo de estacionar na garagem uma Ferrari 250 GTO Series 11,que custou 12 milhões de libras (US$ 18 milhões). A inglesa Talacrest já segurou o volante da 250 GTO de Stirling Moss em 1996, quando vendeu o carro, que hoje vale US$ 35 milhões, por US$3,5 milhões.

Mas talvez tão fantástico quanto o valor dos negócios seja o fato de que, na terra da rainha Elizabeth lI, não faltam vantagens aos donos desses superbólidos. As megatransações

recentes, pavimentadas pela rápida valorização dos modelos mais caros no mercado, não estão sujeitas à cobrança de imposto sobre ganhos de capital na venda dos veículos porque, como o mais prosaico dos carros, são considerados ativos depreciados (“wasting asset”).

Além disso, eles têm isenção na taxa que equivale ao Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA),segundo Wallman, da RM Auctions.

“Pode parecer injusto não haver cobrança de taxa sobre valores tão altos, mas como a lei poderia fazer distinção entre carros normais, que sofrem depreciação ao longo

dos anos, e carros raros? Alguns poucos automóveis se valorizam, mas a verdade é que, para a maioria, há perdas na venda. E, se você taxa o ganho de capital, precisa haver uma contrapartida, que é um desconto sobre prejuízos na venda, e isso seria inviável”, analisa o professor Werner Haslehner, especialista em direito tributário europeu da London School of Economics.

Esse tipo de incentivo tem atraído investidores de nações como China, Brasil e Argentina para a Inglaterra. Devido a restrições ou severas tarifas de importação de veículos em seus países de origem, muitos optam por manter sua frota pessoal no exterior, onde acontecem competições e estão bons restauradores e mecânicos especializados.

“Esse acaba sendo um mercado bastante internacional, em que o carro muitas vezes não está no mesmo país que seu dono, porque investidores não ficam presos a regiões específicas. O Reino Unido é beneficiado pela legislação favorável, pela quantidade de eventos e pela infraestrutura para carros clássicos”, explica Hatlapa.

“Há muitas maneiras de investir seu dinheiro. Alguns compram objetos de arte, outros especulam com ações, há os que investem em vinhos e os que preferem bebê-lo. Eu e tanto outros preferimos um carro clássico. É um investimento, mas também uma paixão”, diz Wallman, dono de um Jaguar EType 1961, seu sonho de consumo desde os 5 anos de idade.

Sim, porque quando o assunto é carro, especialmente os emblemáticos, não importa se você é baterista do Pink Floyd, ex-banqueiro ou simplesmente um aficionado: essa parece ser uma jornada sentimental, quase uma volta à infância, com os carrinhos de menino substituídos por máquinas possantes e caras. O que vier a mais é lucro. E que lucro.

 

CONFORTO RÚSTICO

Agora já dá para pegar um avião e uma estrada de asfalto para chegar a Visconde de Mauá, mas desvendar a região ainda é missão para um 4×4

Por Maria da Paz Trefaut

 

Boas estradas, em geral, não só aproximam destinos como costumam marcar uma linha divisória entre os paraísos ecológicos e os locais tomados pelo turismo de massa. Talvez ainda não seja o caso de Mauá, cravada na serra da Mantiqueira, entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma nova linha aérea e a construção de uma estrada acabam de mudar o difícil acesso às montanhas da região, que abrange o Parque Nacional de Itatiaia. Mas a conexão entre as vilas de Visconde de Mauá, Maromba e Maringá, que reúnem as principais atrações locais, ainda se dá por estradas de terra. Alguns trechos são tão ruins que, para circular por ali, o visitante precisa contar com um veículo de chassi alto ou com tração 4×4.

De qualquer forma, a antiga aventura de chegar à área, distante 286 quilômetros de São Paulo e 198 quilômetros do Rio, pela Via Dutra, foi bastante abreviada. A conexão aérea parte de São Paulo ou do Rio e chega a Resende, um dos três municípios englobados pela região – os outros são Itatiaia e Bocaina da Serra. E, desde dezembro, a moderna RJ-163 percorre com segurança os 15 quilômetros de curvas acentuadas entre Capelinha, em Penedo, e a vila de Visconde de Mauá. O traçado atravessa florestas com nascentes protegidas e tem túneis subterrâneos para evitar o atropelamento de animais, o que lhe deu o status de estrada-parque.

O asfalto era uma dívida de mais de cem anos com os alemães, suíços e austríacos que ali se instalaram, no início do século XX,para plantar frutas. Pelas dificuldades de transporte, muitos imigrantes acabaram desistindo do projeto inicial. As famílias Bühler, Fresch e Buttner persistiram e abriram os primeiros hotéis do lugar.

Numa quinta-feira no fim de maio, o hoteleiro Osvaldo Caniato saiu do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no vôo recém-inaugurado da Trip, e desembarcou em Resende 45 minutos depois. Com mais 50 minutos de carro, chegou à sua pousada, a Mauá Brasil, uma das melhores entre as 130 que há por ali. “Nunca imaginei que seria possível transpor essa distância de forma tão rápida”, dizia, visivelmente satisfeito. Para quem vem do Rio, a conexão aérea demora um pouco menos e a vantagem é que sai do Santos Dumont.

Há quem diga que Mauá teve a sorte de ser esquecida numa época em que se contruía em qualquer parte e o Ibama não era tão vigilante. Assim, foi preservada a imensa área de mata repleta de cachoeiras, fontes, corredeiras e nascentes, onde o ruído da água é o som ambiente. O rio Preto, que ali divide Minas e o Rio de Janeiro ladeia a estrada de terra que liga os vilarejos de Mauá, Maringá e Maromba.

Descoberta pelos hippies na década de 70, a região foi destino de intelectuais e artistas como Paulo Coelho e Raul Seixas. Ainda é retiro do frei Leonardo Boff, pregador da Teologia da Libertação, e de ex-participantes da luta armada que encontraram uma nova ideologia na paz das montanhas. A liberdade de costumes e crenças acompanha a tradição local desde que os europeus, considerados “liberais” demais para os padrões mineiros, tomavam banho nus nas cachoeiras. Daí vem a tolerância comunitária que agrega casais gays femininos e masculinos, adeptos de Hare Krishna e do Santo Daime e outros. A diferença é que hoje há cada vez mais pousadas e hotéis charmosos e restaurantes diversificados.

Nada de luxo ostentado, é bom dizer. O melhor de Mauá é justamente, sua rusticidade: a simplicidade longe da civilização. A essa vida bucólica se somam bons restaurantes como o Rosmarinus, do paulistano Julio Buschinelli, que há doze anos faz uma comida de ingredientes com um leve sotaque italiano, num ambiente sofisticado. “Vim para cá por que a terra é barata (entre R$ 8 e R$ 20 o metro quadrado), há qualidade de vida e uma área de preservação imensa próxima dos centros onde se concentra no PIB brasileiro. Mas aqui é mato e terra de ninguém. Nem CEP tem. As prefeituras mais próximas ficam a 40 quilômetros”, diz.

O fato de não ter um prefeito próximo e de durante muitos anos não contar nem mesmo com um posto policial fez com que o associativismo substituísse o poder público. É a Mauatur, uma associação de empresários aberta à população, que faz o meio de campo entre a política e o

trabalho social. Para conseguir benefícios como a estrada-parque – reivindicada por 95% dos moradores -, a associação contou com o apoio do deputado estadual Carlos Minc, ex ministro

do Meio Ambiente e freqüentador habitual das montanhas. A construção da estrada, bancada

pelo governo fluminense, foi acompanhada por uma nova estação de tratamento de esgoto, que ajuda a despoluir o rio Preto.

O associativismo é bem visto não só por empresários como por profissionais como Marta Dietrich, do centro de terapia Som Divino, que atende num simpático chalé junto à floresta. A terapeuta, 56 anos, óculos e cabelos curtos grisalhos, adepta da alimentação vegana, é formada em Munique na prática que promove o relaxamento a partir do som produzido por tigelas tibetanas. São 21 peças de tamanhos variados, feitas com sete metais diferentes. Marta envereda pela física quântica para explicar como funciona “o som do silêncio”, que gera uma “massagem na alma e libera tensões”. Basta olhar para a natureza diante de sua janela para

entender do que ela está falando.

Não muito longe fica a Panta Rei, uma loja de artesanato e fotografia do carioca Leonardo Carneiro. Ex-militante do movimento de esquerda MR-8,que atuou contra a ditadura nas décadas de 60 e 70, ele foi preso e torturado. Decidiu ir para Mauá em 1999,viver com o mínimo e conviver com a natureza. Graças a uma indenização da Comissão de Anistia, recebida dez anos depois de se instalar na região, conseguiu abrir a loja, que lhe permite

viver modestamente com a venda de fotos e de objetos decorativos produzidos numa marcenaria. Seu trabalho é, visivelmente, um dos mais requintados da área. Introspectivo,

Carneiro conta que Mauá ainda é muito atrasada e “tem uma faceta cruel” para aqueles que

não são comerciantes bem-sucedidos. “Somos todos uns duros em busca de qualidade de vida.”

O novo turismo trouxe uma hotelaria de preços altos, mas ainda carente de profissionalismo. O Hotel Fronteira, um dos mais caros, foi durante anos um paradigma, muito copiado nos preços e nem sempre na qualidade. Dos hotéis antigos, apenas o pioneiro Bühler sobreviveu. Manteve o aspecto das construções alemãs de montanha, inaugurou a reciclagem de lixo e inovou na economia de energia ao implantar, em 1954, uma pequena central hidrelétrica no rio Preto.

Restaurantes há muitos, mas poucos são destinos gastronômicos, como o Rosmarinus. Pontos altos são o strudel do restaurante Champignon, feito com massa autêntica (e não folhada), e o Gosto com Gosto, de cozinha mineira moderna mais leve, comandado por Monica Rangel. Ativista da cozinha, ela é uma das criadoras do movimento “Ter cinco estrelas é valorizar a gastronomia brasileira”.

Embalada pela agitação turística surgiu, também, a saborosa cerveja artesanal Serra Gelada. Cogumelos frescos e trutas rosa, salmonadas, são ingredientes fartos da mesa local. O mais raro, entretanto, são os queijos da Serra Negra, de Minas, similares ao parmesão, mas menos

curados. Quem os vende são tropeiros autênticos que viajam oito horas no lombo de burros, nos fins de semana, e trazem os queijos em grandes balaios. Em geral, quem compra pede para tirar uma foto.

A categoria dos personagens excêntricos é ampla. Nos tempos em que o “natureba” dominava, uma personagem virou lenda: a atriz e socialite francesa Odile Rubirosa. Viúva do playboy Porfirio Rubirosa, ela largou tudo para se recolher no Vale do Pavão. Seu sítio foi comprado “de porteira fechada” por um ex-comandante da Varig, que o converteu na pousada Um Lugar de MatoVerde.

A casa que Odile construiu nos anos 60 ainda está intacta e, num armário de vidro, há alguns de seus chapéus. Linda, estonteante e louca são alguns dos adjetivos ouvidos sobre ela. Os mais velhos contam que ela desfilou nua numa camionete e que percorria as matas montada a

cavalo, sem uma única peça de roupa. Será? O certo é que essa fase ficou para trás. Ela casou-se com um americano e deixou a cidade. Pelo visto, com saudade.

(A jornalista viajou a convite da Mauatur)

 

A ESSÊNCIA DO REQUINTE

Em Paris, luxo mesmo é ver a Comédie-Française e jantar em um restaurante que repete suas receitas há gerações

Por Rebeca de Moraes, de Paris

 

Bolsas, óculos, joias, hotéis gigantes. Esqueça um pouco a ostentação. O luxo francês de que se tem notícia desde Luís XIV,o rei símbolo da exuberância, é muito mais sutil do que a redoma consumista das lojas. Para os franceses, não se trata apenas de um discurso. “O luxo na França só é possível como uma expressão da cultura”, diz Elisabeth des Portes, diretora-geral e presidente do Comitê Colbert, organização que reúne 75 empresas francesas e 13 instituições culturais com o objetivo de promover o “art de vivre” pelo mundo. Por isso, um mergulho nesse universo de sofisticação extrapola as vitrines da avenida Montaigne ou da Champs-Élysées. O luxo parisiense está no teatro, no restaurante que há décadas repete as receitas mais tradicionais, no hotel que guarda lembranças de ilustres frequentadores, como artistas e acadêmicos, ou na destilaria que demora décadas para aprontar uma bebida de qualidade premium.

O francês tem por hábito a visita ao teatro. Algo quase como o que para os brasileiros significa assistir à novela das oito. Em uma segunda feira fria e chuvosa em Paris, a audiência não está só na televisão. A Comédie-Française, companhia mais antiga da França, tem plateia cheia

em seu teatro durante a semana inteira. Adolescentes aguardam sentados na fila que se forma na entrada do prédio anexo ao salão oficial, que está passando por uma reforma. Eles esperam para assistir à “On ne badine pas avec l’amour”, um drama com dez dos 60 atores da Comédie em cena.

Cada um dos atores contratados da companhia carrega o estímulo (e o peso) de pertencer ao grupo criado por Moliêre, dramaturgo que foi fundamental para a consolidação do teatro francês. Foi ele que liderou o movimento que, mesmo depois de sua morte, levou à criação da Comédie-Française em 1680,por um decreto do rei Luís XIV.

Hoje, o grupo reúne em seu repertório mais de três mil peças, entre textos clássicos e modernos de autores franceses e estrangeiros. A companhia tem três grandes salas,

nas quais há apresentações quase todos os dias. Para não perder a viagem, é preciso comprar bilhetes com alguma antecedência (custam de 27 euros a 39 euros) e preparar os ouvidos – os espetáculos são falados em francês e não há tradução.

Na hora da parada para saciar a fome, é muito provável que o turista se depare com belos e coloridos macarons, os típicos docinhos franceses. Há diversos deles nas vitrines saborosas das várias pâtisseries que em Paris é possível encontrar a cada esquina. Para (tentar) entender como um macaron chega à prateleira dos shoppings brasileiros custando R$9, que tal uma aula de culinária para decifrar os segredos dos doces franceses? Uma das escolas mais tradicionais na arte da pâtisserie, a Lenôtre, oferece aulas para turistas com seus professores

e até mesmo com o diretor da escola, Philippe Gobet. Ele é dono do título de Melhor Artesão da França, concedido pelo Ministério da Educação, e um amante confesso da cultura brasileira.

Gobet tem uma cozinha especial na sede da escola e do restaurante Lenôtre, que fica na avenida ChampsÉlysées, para ensinar os alunos a fazer suas especialidades, como os chocolates e a massa “pata chou”, da famosa éclair francesa. A aula custa 115euros e pode ser agendada pelo site (www.lenotre.com). Ali também há uma pequena loja, onde os gourmets

de fim de semana podem comprar ingredientes premium típicos da França, além de aproveitar para almoçar no restaurante.

O Lenôtre é um dos restaurantes mais reconhecidos de Paris, fundado pelo famoso Gastón Lenôtre, exchef do restaurante parisiense Le Pré Catelan. Ele morreu há três anos e deixou na escola todo o seu conhecimento adquirido na arte da confeitaria – era considerado o “Dior das tortas”, por conseguir, assim como o grande estilista, reproduzir em grande escala o mesmo alto padrão dos produtos únicos e especiais.

Quando o assunto chega à cozinha, uma investigação mais atenta mostra que ali existe mais do que tartare e batatas fritas. O restaurante Taillevent, uma das mais célebres instituições gastronômicas francesas, é um representante da autêntica culinária do país – lá estão os ingredientes mais tradicionais (alguns pouco conhecidos fora da França), do foie gras aos langoustines.

O Taillevent fica em uma mansão do século XIX,clássica e discreta, no bairro de Champs-Élysées. A cozinha premiada, com duas estrelas no guia Michelin, ganhou a preferência

dos executivos franceses (é lá que muitos CEOs fazem suas reuniões de negócios), em especial graças a Iean-Claude Vrinat, o dono do lugar, que morreu em 2008. Ele era considerado um mestre na arte de receber, e passou para a filha e atual diretora do restaurante, Valerie Vrinat, o jeitinho especial de atender aos clientes com simpatia e

simplicidade, mesmo em um ambiente cheio de requinte e que segue à risca todas as regras do mais alto luxo à mesa.

Lá, os pratos custam de 56 euros a 188 euros. Vale atenção especial à carta de vinhos, que tem cerca de 300 rótulos – todos disponíveis diariamente, garante a casa.

Dos milhares de turistas que passeiam todos os dias pela avenida Champs-Élysées, poucos sabem que ali, entre o tumulto das compras, é possível encontrar um precioso museu de perfumes. No lugar, a luxuosa GuerIain está situada em um prédio construído em 1940, onde no início morou a família detentora da marca. Hoje, a loja ocupa o primeiro andar.

 

A carta de vinhos do Taillevent, conhecido pelo requinte e cuidado com o cliente, tem 300 rótulos

 

Quem se aventura a subir a escadaria encontra quadros e embalagens raras de perfumes. O museu da marca abriga peças feitas pela cristaleria francesa Baccarat há um século e edições limitadas do best-selIer Shalimar. A grande coleção de frascos possibilita ao visitante sentir a

evolução dos aromas criados pelo perfumista Thierry Wasser.

Quem se permitir um agrado a mais pode reservar um tempo para receber algum mimo do spa da Guerlain, que fica no mesmo prédio. Há tratamentos faciais, corporais e até manicure. Todos os atendimentos são feitos com horário marcado.

Depois de um (inevitavelmente cansativo) passeio pelo museu do Louvre, quem quiser ainda mais arte deve dar uma esticada até a rua lateral, beirando o Jardin dês Tuileries, na rua Rivoli. Lá está o hotel Le Meurice, fundado em 1835. O local, que era ponto de encontro entre pintores e mecenas, merece uma visita. Salvador Dalí fez do Meurice sua casa por vários anos,

por isso o artista foi o homenageado há alguns anos quando o hotel foi redecorado pelo badalado designer Philippe Starck. Ele se inspirou no pintor para criar ambientes clássicos e aconchegantes, da pintura à escolha do mobiliário.

Quando estiver no lobby admirando as cadeiras douradas ou a imensa tela do teto, que foi pintada à mão por Ara Stark, filha de Philippe, aproveite para chegar até o bar 228 e pergunte pelo monsieur William. Ele está lá há décadas e tem ótimas histórias para contar sobre os artistas que já tomaram seus drinques naquele balcão – inclusive boas passagens sobre

o próprio Dalí.

Para degustar seu drinque como um bom francês, o exercício é não pensar só nos R$ 400 cobrados por uma dose do raro conhaque Louis XIII nos bares da cidade. O francês que consome essa bebida está certamente mais ligado à história dela do que a qualquer outro

“detalhe”, diz Patrick Mariuz, embaixador internacional da marca. O conhaque mais exclusivo da Rémy-Martin é composto por uma mistura de 20 a 30 componentes de aguardente.

Os mais curiosos podem conhecer mais sobre a história da bebida esticando um pouco a viagem até Cognac. A 490 quilômetros de Paris está a cidade que é sede da Maison Remy-Martin, que, além de Louis XIII, produz outros conhaques sob sua marca. Durante a semana

é possível visitar a propriedade de 30 hectares onde a Maison mantém galpões lotados de barricas que envelhecem os vinhos que darão origem à bebida. Porque, afinal, todo o processo é motivo para garantir que haverá no futuro história para contar. E para saborear com gosto seu próprio luxo, o francês é bastante paciente.

A repórter viajou a convite do Comitê Colbert

 

 

DRINQUE DE LABORATÓRIO

A mixologia transforma os balcões de bares em São Paulo e no Rio em palco para experiências etílicas inovadoras

Por Suzana Liskauskas

 

Se juntássemos em uma mesa de bar a cantora Madonna, o escritor Ernest Hemingway e o garçom americano Jerry Thomas, o resultado no fim da noite certamente seria uma carta de drinques capaz de encantar qualquer apreciador de álcool. Apesar de representarem eras

completamente distintas, os três contribuíram muito para que os bares do mundo todo passassem a atrair adeptos dos mais diferentes estilos e culturas. Madonna entrou com seu apego ao glamouroso Cosmopolitan. Hemingway, com seu marcante Daiquiri. E Thomas deu

sua colaboração com inusitadas misturas químicas, que lhe renderam nos Estados Unidos o status de pai da mixologia.

Essa técnica de elaboração de coquetéis vem atraindo para os balcões uma clientela eclética, que tem em comum a busca por experiências etílicas diferentes. A inovação pode estar nos equipamentos utilizados pelos mixologistas para’ criar sabores, cores e texturas surpreendentes em drinques clássicos, como o Negroni. E ainda na criação de novas combinações de bebidas, temperos, frutos, folhas e outros elementos, preparados também com o auxílio de apetrechos que mais lembram um laboratório.

Quem nunca ouviu falar em mixologia, porém, não precisa temer o primeiro gole. O especialista nessa técnica é um estudioso das misturas que já estão na origem dos drinques. A própria palavra coquetel, derivada do inglês “cocktail” – ao pé da letra, rabo de galo -, batiza não por acaso uma mistura: um destilado de qualquer natureza com vermute, um vinho composto. O mixologista trabalha para aprimorar as técnicas utilizadas pelos “bartenders”, O objetivo é realçar o sabor, para que o cliente ganhe mais do que teor alcoólico na corrente sanguínea.

A exemplo da gastronomia, a mixologia vem se aprimorando. A trajetória tem raízes no século XIX, quando Thomas encantou os americanos com seu Blue Blazer, um uísque envolto por chamas que o garçom descreveu no livro “How to mix drinks”, Hoje presente em muitas cartas de bares do Rio de janeiro e São Paulo, a mixologia compartilha as bases da gastronomia molecular. Isso significa lançar mão de equipamentos como maçaricos e decanters, de recursos como resfriamento e defumação e até de substâncias químicas, como hidrogênio,

no preparo das bebidas.

Apesar de São Paulo ainda oferecer a melhor carta de bares do pais, até os locais onde a loura gelada sempre reinou soberana, como o Rio, rendem-se ao charme da mixologia. À frente do Paris Lounge, bar do restaurante Paris, inaugurado no Rio em junho, o mixologista Alex esquita

diz que a coquetelaria mundial vive um momento de revitalização. A afirmação tem o peso do seu curriculo: ele é técnico químico em bebidas, formado em marketing e bartender graduado pela Universidad Del Cocktail, de Buenos Aires, foi eleito o melhor Flair Bartender (prática de malabarismo em bar) do Rio nos últimos cinco anos e campeão sul-americano na categoria Free Style por três vezes consecutivas.

Mesquita explica que, antigamente, os drinques apresentavam misturas muito fortes. O movimento atual mantém as bases utilizadas nessas misturas, mas revitaliza os sabores com a inclusão de ingredientes ou com técnicas de química e física. “Uma cliente veio ao Paris

Lounge e me pediu um gim-tônica. Ela tinha morado em Londres e gostava de gim. Servi o long drink, mas com água livre de cálcio, extras de limão-siciliano e água borrifada de

azeitona. Ao beber, ela disse que era quase um Dry Martini em versão long drink e adorou. Essa é a tradução da nova coquetelaria, que surpreende”, conta.

Além dos drinques inovadores, o Paris Lounge tem uma atmosfera que mescla sofisticação e modernidade. Instalado no segundo andar da Casa Julieta de Serpa, um casarão construído na Praia do Flamengo em 1920, tem piso em parquet que contrasta com as poltronas cor de tangerina, os sofás zebrados e as obras de arte da coleção da família Serpa.

Em São Paulo, o Tutto Italiano, um bar e restaurante retrô inaugurado há seis meses nos jardins, buscou outro talento da mixologia nacional. Formado em hotelaria pela Universidade

Anhembi Morumbi e com 15 anos de profissão, Marcelo Vasconcellos personalizou a coleção de coquetéis com seus néctares, purês e reduções – os caldos obtidos com cozimento demorado, em baixas temperaturas. “Posso fazer o tradicional, mas nunca da forma tradicional.

Faço um mesmo drinque de formas diferentes, para que se note a diferença. Se chega um cliente que quer beber Dry Martini a noite inteira, procuro surpreendê-lo” , diz.

Umdos sucessos da casa é o atual drink da moda em Milão:o Negroni Sbagliato,uma versão efervescente do tradicional coquetel milanês feita com “bitters” (denominação de bebidas amargas feitas com raizes, cascas de árvores e frutas) de Campari, Aperol e vermute Rosso. Vasconcellos criou também uma versão de Sazerac com rum Zacapa Centenario 23, calda fina de açúcar, bitter de grapefruit produzido por ele mesmo e um toque de absinto.

A mixologia também oferece opções para quem não consome álcool. Entre as criações de Vasconcellos, um dos destaques não etílicos é o Mojito de maçã verde. No Paris Lounge, os drinques sem álcool ganharam até uma carta específica. Essas versões atraem um público

ainda mais diversificado para o balcão. Ele comenta que hoje é muito mais comum ver mulheres apreciando bons drinques do que na década de 90. “O público feminino dos bares cresce a cada dia.”

No Rio, o Stuzzi Bar, no Leblon, ainda no primeiro ano de vida, tornou-se reduto de várias tribos, mas atrai especialmente as mulheres pela variedade de drinques. A proprietária, Luciana Almeida, comenta que é comum ver mesas femininas no bar, principalmente às quartas-feiras, quando os homens se concentram no futebol. Entre os sucessos da carta elaborada por Vitor Barros estão uma versão de Spritz com vinho branco, variações de frutas e licor, e também os coquetéis que privilegiam frutas brasileiras, como o Yamí,feito com vodca Absolut, molho de jabuticaba, graviola e limão-siciliano.

Em São Paulo, alguns restaurantes investem na carta de ·drinques para atrair público para os seus bares. É o caso do Venga!, na Vila Madalena, e do BottaGallo, no Itaim Bibi. Inaugurado em novembro de 2011, o Venga! teve sua carta de drinques elaborada pelo barman português João Eusébio, referência da mixologia em Barcelona. Entre as criações de Eusébio destacam-se El Bom, uma homenagem a um dos bairros mais populares de Barcelona, que mistura gim, licores de laranja e de lichia, água tônica e suco de limão-siciliano; Granada, feito com rum, licor de lichia e vinho Pedro Ximenez; Madrid, com vermute Rosso, gim, bitter de laranja e licores Maraschino e de canela; e a Caipiriña Venga!, com cachaça, Pedro Ximenez (um tipo de vinho feito com uva espanhola de mesmo nome), maçã verde e Iimão-taiti.

À frente do clássico bar Montgomery Place, em Londres, o italiano Fabio La Pietra criou uma coleção especial de coquetéis para o paulistano BottaGallo, com seis receitas exclusivas e também clássicos. Entre as novidades estão o Buona Sera Signorina, preparado com Campari,

romã fresca, sucos de laranja e limão, tequila e espumante; e o Spritz do Bexiga, que leva Campari, suco de grapefruit, cachaça e creme de chope com algumas gotas de bitter.

No Rio, onde Madonna já teve uma grande decepção ao pedir um Cosmopolitan – porque a versão servida não tinha suco de cranberry-, os profissionais da mixologia estão ampliando a consultoria a restaurantes. A cantora não deixou a cidade sem apreciar “comme il faut” seu

drinque predileto: o bom e velho Cosmopolitan com o verdadeiro suco de cranberry foi servido a ela no Bar D’Hotel, do grupo Hotéis Marina, cuja carta de drinques é assinada por Santiago Silva. Do mesmo grupo, o Bar do Lado repaginou sua carta com inspirações na mixologia.

Entre as novidades destacam-se o Sofia’s, feito com vodca sabor manga, melão, Monin de melão, hortelã e Cointreau; e o Aphrodite, com vodca sabor pimenta, suco de morango,

amoras, framboesas e gelo.

Outro destaque no Rio é o DoiZ, um dos bares mais descolados da cidade, que leva a assinatura do chef paulistano Fabio Battistella. Apesar de ter cursado administração

e ter começado a trabalhar em uma das empresas do pai, Battistella buscou novos rumos e acabou se encantando com a gastronomia. Cursou a escola francesa Le Cordon Bleu, viajou pela Europa e, quando voltou, se estabeleceu no Rio, onde não encontrava bares e restaurantes que tivessem seu estilo. Criou o Meza Bar, em Botafogo, que também é restaurante e, apesar do estilo paulistano, em pouco tempo caiu nas graças da clientela carioca. No balcão, começou a fazer algumas experiências com coquetéis, assim como faz na cozinha, com os pratos. Inaugurou então, a poucos metros do Meza Bar, o DoiZ,com a proposta de oferecer uma opção noturna para uma clientela jovem que se propõe a explorar mais do que energéticos e destilados puros. Moderno e com uma carta irreverente, o DoiZ apresenta homenagens a clássicos da coquetelaria mundial, como o Redhouse Blues,

versão moderninha do Bloody Mary feita com vodca Ketel One em infusão de pimenta jalapefio, com suco de tomates assados e tempero da casa. Mistura é o que não falta.

 

O INGLÊS PACIENTE

Depois de comprar briga ao promover em Paris uma degustação que premiou vinhos da Califórnia, Steven Spurrier ganhou respeito no mundo todo Por Jorge Lucki

 

Em meados dos anos 70, meu interesse por vinho chegara a um ponto em que beber um rótulo já não era suficiente – ao contrário, aumentava minha curiosidade. Como não havia cursos no Brasil, buscava respostas em livros, paginando conseguir base suficiente para, um dia, me aventurar a ver de perto tudo que lia.

Meu plano era assistir às aulas da Academie du Vin de Paris, cujo mentor, o inglês Steven Spurrier, também tinha uma ótima loja de vinhos, a Caves de la Madeleine, com rótulos diferenciados de pequenos e ótimos produtores. Fiz vários cursos entre 1978e 1979 – fui contemporâneo de Michel Bettane, hoje o crítico mais respeitado da França – e frequentei a loja. Ali troquei algumas palavras com aquele afável jovem senhor de modos britânicos e

profundo conhecimento.

Minha admiração por Spurrier vem daquela época. Sua proposta sempre foi educar o consumidor, desmistificar o vinho e ao mesmo tempo valorizar sua identidade. Isso o levou a organizar inocentemente uma degustação às cegas de rótulos californianos e franceses, que criou celeuma: o resultado apontou vitória dos americanos. O fato de ter sido realizada em Paris dificultou contestações e colocou os vinhos americanos no mapa. A história foi relatada em livro pelo jornalista George Taber e gerou o filme “Battle Shock” (no Brasil, “O Julgamento de Paris”). O roteiro de Hollywood, no entanto, foi financiado pelos donos do Château

Montelena, razão de o filme só falar deles. Spurrier ameaçou processá-los, mas acabou aceitando a menção “baseado em uma história verdadeira” – em vez de “historicamente

verdadeiro”.

Desanimado com os negócios, voltou à Inglaterra em 1990. Passou a dar consultoria e a escrever livros e artigos, principalmente para a “Decanter”, a mais importante publicação

do setor na Inglaterra, onde é consultor editor e “chairman” do Decanter World Wine

Awards, concurso de prestígio internacional. Excelente degustador, também preside competições mundo afora. É uma das pessoas que mais respeito no mundo do vinho -

e é com grande prazer que transcrevo esta entrevista exclusiva.

Como você começou a se interessar por vinhos?

Minha primeira recordação é de um jantar na véspera do Natal, quando eu tinha uns 14anos, na casa do meu avô paterno. Quando chegou a hora de beber o vinho do Porto, ele pediu

para me servirem uma pequena quantidade. Foi maravilhoso. Perguntei o que era e ele respondeu.que era um Cockburn’s 1908. Eu tinha uma coleção de selos e, assim como

os selos, o vinho do Porto tinha um país, uma região, um nome e uma data. Na adolescência, pude ler sobre países que produziam vinho, mas raramente o bebia. Até que fui com meus pais e meu irmão passar férias na França e na Itália. Fiquei fascinado com a vida nos cafés e bistrôs, com a convivência em torno do vinho. Minha mãe era boa cozinheira e, embora minha família gostasse de beber, a discussão era mais sobre comida e menos sobre vinho. Eu me

aproximei do universo do vinho na London School of Economics (LSE), e aos 21anos minha avó materna me colocou como membro da The Wine Society,uma espécie de clube de vinhos

que também negociava. Comecei a comprar vinhos e a visitar lojas especializadas, o que me deu foco.

 

Quais foram seus primeiros passos no universo dos vinhos?

Quando saí da LSE,em 1963,consegui empregos temporários, mas decidi seguir o que realmente me interessava: o vinho. Comecei como estagiário na Christopher and Co,

os negociantes de vinhos mais antigos de Londres, na função de “rato de adega”, em fevereiro de 1964. Durante a colheita de 1964, passei duas semanas na região de Charnpagne e outras duas na Borgonha. No ano seguinte, passei sete meses visitando as principais regiões produtoras de vinho da Europa, para experimentá-lo in loco. Se antes eu ainda não estava totalmente apaixonado por vinho, pelos lugares e pessoas, certamente ficaria quando retornei. A Christopher’s não tinha emprego para mim no escritório, então fui trabalhar num pequeno

importador, onde fiquei até 1967.

 

E a ideia de ir para a França?

Enquanto trabalhava na importadora, comprei um pedaço de terra no sul da França. Queria morar lá e foi o que eu e minha mulher fizemos no dia do nosso casamento, em 1968. Passamos três anos ali, mas as coisas deram errado e partimos para Paris, onde fui procurar

emprego na área de vinhos. Mas o comércio ali não era como em Londres: havia somente um monte de pequenas lojas de vinho. Acabei comprando uma delas, perto da Place de la Madeleine, chamada Les Caves de la Madeleine, em 10 de abril de 1971.No dia seguinte coloquei um anúncio no jornal “International Herald Tribune” que dizia: “Seu comerciante de vinho fala inglês”. Tinha como alvo os americanos, canadenses e britânicos em Paris.

Funcionou, e logo virei um dos melhores “cavistes” da cidade.

 

Lembro que tinha vinhos diferenciados, de pequenos produtores. E a Academie du Vin?

Fora os clientes regulares, para quem eu vendia de tudo, desde “vin ordinaire” e água mineral até Bordeaux e Borgonhas, comecei a atrair gente realmente interessada em vinho. Passei a ir aos vinhedos à procura de novidades e a mostrar o que encontrava em degustações no fim do dia. Alguns advogados americanos que frequentavam essas degustações perguntaram se

eu poderia ensiná-los. Ao mesmo tempo conheci John Winroth, um americano que escrevia sobre o assunto para o “Herald Tribune” e dava cursos nos porões de bares. Criamos aos poucos a proposta de juntar nossos clientes potenciais e demos sorte: a loja vizinha vagou.

Aluguei e abrimos a Academie Du Vin no fim de 1972.

 

Os franceses também freqüentavam a escola, não?

No início, nossos clientes falavam exclusivamente inglês, mas depois a mídia começou a comentar sobre nós e, por volta de 1975,os cursos eram metade em inglês e metade em francês. Era a primeira escola particular de vinho na França e o único lugar para aprender sobre o assunto em Paris, uma espécie de Cordon Bleu de vinho. Naquela época começou também a “nouvelle cuisine”, e crescia muito o interesse por vinho. Fizemos muita coisa

com Lucien Legrand, cuja loja era um paraíso para apreciadores da bebida, e ainda é. Era fácil estar na ponta para uma pessoa jovem e apaixonada como eu, mas ajudou muito a confiança que grandes cavistes, como Legrand., depositaram em mim. Em meados dos anos 70, “le jeune anglais” e sua equipe inglesa eram plenamente aceitos pela sociedade parisiense.

 

Quando e por que você teve a iniciativa de propor o “Julgamento de Paris”?

Tudo corria bem com a Academie du Vin e, para nós, era fácil organizar grandes degustações. Nós também éramos ponto de parada para produtores da Califórnia, que traziam seus vinhos para os degustarmos, e ficou claro para mim que seus cabernets e chardonnays eram excelentes. Decidimos realizar uma prova desses vinhos, escolhidos apenas entre pequenas vinícolas, para mostrar aos formadores de opinião o que estava acontecendo por lá. Nessa

altura, Winroth já havia se afastado por problemas de saúde e minha sócia, Patricia Gallagher, foi à Califórnia para pesquisá-los melhor, voltando cheia de elogios. Ela já havia me dado a ideia de promover a degustação. Fui em abril de 1976 para fazer a seleção final.

 

A proposta inicial, então, não era confrontar vinhos americanos e franceses?

Não era. Estávamos acostumados a realizar eventos. Como éramos respeitados, não foi problema reunir nove degustadores, os melhores que existiam. O plano era apenas fazer o painel – convidamos a imprensa, mas ninguém apareceu -, provar os vinhos e comentá-los,

mas depois percebi que só Aubert de Villaine, do Domaine de la Romanée-Conti, havia degustado um californiano antes. Os outros, apesar das boas intenções, poderiam muito bem dispensá-los com fracos elogios, como vindos de regiões vinícolas de clima quente. Então, decidi introduzir quatro brancos da Borgonha e quatro tintos de Bordeaux para compará-los com seis chardonnays e seis cabernets da Califórnia e servi-los às cegas, pedindo que todos fossem classificados numa escala até 20 pontos. Os juízes não esperavam isso, então eu disse a eles o que eu pretendia fazer antes de a degustação começar, e todos concordaram.

 

Você esperava aquele resultado?

Não, eu não esperava. Imaginava que os californianos poderiam alcançar, vamos dizer, segundo e quarto lugares, ou terceiro e quinto. Eu não esperava que um deles ficasse

em primeiro lugar, e você pode supor isso pela qualidade dos vinhos franceses que incluí. O resultado foi de estupefação. Ninguém discordou que os californianos eram bons, mas o fato de terem derrotado o melhor do vinho francês era quase inacreditável. Tudo o que eu queria era o reconhecimento de que havia alguns vinhos muito bons feitos por vinícolas “boutique” na

Califórnia. Isso eu consegui fazer. Mas não era o resultado que eu procurava. No entanto, testes subsequentes, particularmente dos tintos, têm provado que os vinhos da Califórnia não só eram dignos de seus rankings, mas que melhoraram em relação aos de Bordeaux com o passar do tempo. O Chateau Montelena Chardonnay 1973 provou ser consistentemente bom em degustações posteriores.

 

Você acha que o fato de os vinhos americanos serem produzidos para ser consumidos mais cedo influenciou o resultado?

Esta foi a reclamação contra o Julgamento de Paris. Para tirar a dúvida, realizei uma degustação com os mesmos tintos dez anos mais tarde, em Nova York, com nove grandes experts. Novamente, os californianos se saíram melhor, com o CIos du VaI 1972 em primeiro

lugar, o Stag’s Leap em segundo e, se não me engano, o Ridge Montebello 1971em quarto. Heuve a mesma prova em 1986, que eu não organizei. Mas fui convencido a supervisionar outra; depois de 30 anos, simultaneamente em Napa e em Londres. Nesta, os tintos da Califórnia levaram os cinco primeiros lugares, com Mouton Rothschild em sexto e o Freemark

Abbey em último. Isto provou que os tintos da Califórnia eram bons não apenas quando jovens, mas que tinham qualidades duradouras. Também provou, como subsequentemente se admitiu, que, no início dos anos 70, tanto Bordeaux quanto Borgonha estavam descansando sobre os louros – não existia concorrência para eles naquele momento – e havia pouca seleção nos vinhedos. Houve colheitas de alta produtividade e pouquíssimos “segundos” vinhos, enquanto as pequenas vinícolas da Califórnia tiveram de fazer enormes esforços para fazer o melhor possível. Nas degustações realizadas em 2006, quando fizemos uma comparação com tintos

da colheita de 2000, e desta vez não às cegas, os Bordeaux colocaram abaixo os californianos, o que mostrou que o inverso estava acontecendo: naquele momento, era a Califórnia que estava descansando sobre seus louros.

 

Quais foram as principais mudanças em trinta anos?

O progresso nos anos 70 e início dos 80 estava nas adegas – Califórnia e Austrália foram os primeiros e principais exemplos disto – e, desde o fim dos anos 80, tem sido no vinhedo. A adega pode salvar um vinho ruim, mas não pode fazer um bom vinho. Do lado do consumo, as pessoas não são preparadas para gastar com vinhos bons, diferenciados. O consumidor insiste

em pechinchas, e os vinhos que atendem a esse preço são produzidos de forma industrial – não podem ter individualidade nem ser identificados com sua origem.

 

O estilo também mudou. Os vinhos europeus correm perigo?

Se os vinhos europeus estão em perigo, e estão, é muito mais devido ao grande declínio no consumo local – na França, caiu pela metade em 20 anos – do que à qualidade, que nunca esteve melhor. Fora os grandes nomes e alguns pequenos com reputação internacional, os produtores muitas vezes não têm os meios para fazer e vender seus vinhos. Eles vão se dar conta de que não conseguem exportar, e isso vai ser uma má notícia. A maioria dos governos europeus está fazendo muito pouco para apoiar seus produtores.

 

Você acredita na globalização do gosto do vinho?

Acho que há, sim, uma globalização do gosto. Olhe para a Coca-Cola e para o McDonald’s. É a base da pirâmide. Mas essa base sempre existiu. Nos países produtores de vinho na Europa, até recentemente, ninguém bebia nada que não fosse o vinho de sua região – mas talvez isso acontecesse por falta de informação. Hoje, com tanto acesso e o desejo de experimentar coisas novas, a maior chance é de que as pessoas vão olhar para as diferenças ao consumir

vinho. Elas só vão beber o que apreciam, mas há tantos estilos diferentes que, se não quiserem experimentar, a culpa será só de si mesmas. Por muitas razões, sou otimista quanto ao futuro do consumo de vinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fapesp 20-08

Evento da Fapesp discute impactos climáticos

 AFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (fapesp) e o  Institudo Nacional de Pesquisas  Espaciais (INPE)  realizaram na ultima quinta feira um workshop   gestão dos riscos dos  extremos climáticos desastres

 Na América Central e na América do Sul . O que podemos aprender

com o Relatório Especial do IPCC sobre extremos?’. O evento díscutíu as conclusões do Relatório Especial sobre Gestão dos Riscos de Eventos Climáticos e Desastres, elaborado e recentemente publicado pelo Painel lnter-governamental sobre Mudanças climáticas([POC). Um dos principais apontamentos do relatório é que os impactos  dos eventos climáticos  extremos dependem não só da natureza rnas do nível de Vulnerabilidade e da exposição das pessoas ou grupos humanos em lugares ‘Onde possam ser afetados, Uma das estratégias para diminuir  os riscos De eventos climáticos é reduzir as emissões  dos gases de efeito estufa, que são a principal causa das mudanças climáticas . O documento também indica que é preciso implementar políticas de diminuição  de pobreza e melhorar o nível educacional das populações, principalmente durante o período escolar das crianças, foi discutido a implantação pelo governo, para aumentar  o  grau de conscientização das pessoas sobre os riscos dos eventos climáticos extremos.

 

 

Instituto de Botânica tem workshop sobre represa Guarapiranga

 

O Instituto de Botânica órgão da Secretaria do Meio Ambiente (SMA), promoveu nos dias 7 e 8/8 o 2° workshop “Acqua- Sed – 100 anos de informação sobre a represa Guarapiranga”. O evento teve como base uma pesquisa com informações sobre a qualidade da água e dos sedimentos da Represa Guarapiranga.

 

o projeto é patrocinado pela  (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O objetivo da pesquisa é avançar na proposta de recuperação e conservação das águas, além de elaborar cenários ambientais, trazendo subsídios inovadores para o gerenciamento dos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo.

 

 

Milésimo trabalho de conclusão de Pós-Graduação em Química no IQ

 

 

Aula inaugural para comemorar a efeméride foi ministro  José Ângelo Santilli

o Instituto de Química da Unesp de Araraquara está comemorando o Milésimo Trabalho de Conclusão do Programa de Pós-Graduação em Química. Na tarde de ontem: a aula inaugural do segundo semestre letivo da Pós-Graduação, com o Anfiteatro Prof. Waldemar Safiotti completamente tomado por professores, alunos e convidados, marcou a efeméride. Com o tema “Ético em Pesquisa”, a aula foi ministrada pelo Prof. Herman Chaimovich, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências e coordenador do programa de

Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP . da pelo Prot Herman Chaimovich

o evento comemorativo foi aberto pela Prõ-Heitora de Pesquisa da

Unesp, Profa. Dra. Maria José Mendes Giannini, o diretor do LQ., Prof. Dr. José Roberto Hernandes e pela coordenadora do Programa de Pós- Graduação em Química, Profa. Dra, Sandra Helena Pulcineli “A milésima conclusão é resultado do trabalho de 34 anos no Instituto de Química. Ao longo do tempo, a Pós- Graduação em Química se fortaleceu conjuntamente com o crescimento

da pós-.graduação no Brasil. Fortalecemos as relações nacionais e internacionais, a captação e gestão de recursos e, principalmente, a formação e capacitação de recursos humanos de alto nível para produzir ciência para o desenvolvimento do país”, disse a coordenadora Sandra Pulcinelli. o diretor do 1.0., José Roberto Hernandes, ladeado pela Pró Reitora de Pesquisa Maria José Mendes Giannini e pela coordenadora Sandra Pulcinelli.

 

 

Sabesp projeta em PP tratamento de esgoto inédito no Brasil

Ação visa otimizar tratamento do efluente, reduzindo consumo de energia e eliminando substâncias nocivas Eriberto Margarizo Purga DA REPORTAGEM LOCAL A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em parceria com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) realizam testes na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) localizada no quilômetro (km) 8 da Rodovia Júlio Budisk, em Presidente Prudente, para implantação de sistema de tratamento de esgoto inédito no Brasil. A ação visa otimizar o tratamento do efluente [esgoto tratado], reduzindo o consumo de energia e eliminando maior porcentagem de substâncias nocivas do esgoto, para devolver a água com mais qualidade aos rios e córregos, o que gera benefícios também ao meio ambiente. A apresentação do projeto intitulado “Otimização de tratamento por lodo ativado, objetivando a nitrificação e desnitrificação simultânea”, foi feita na manhã de ontem, na ETE, durante coletiva de imprensa. O projeto deve começar a funcionar dentro de 30 dias, já que os tanques de tratamento passam pelas adequações necessárias. A técnica a ser implantada só foi-desenvolvida até o momento em escala laboratorial, e pela primeíra vez no País será adaptada à escala real de tratamento. O investimento com pesquisas e equipamentos que devem monitorar o processo de tratamento, como os sensores, é de aproximadamente R$ 700 mil. Metade desta cifra deve ser disponibilizada pela Sabesp e o restante será custeado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O superintendente de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Sabesp, Américo de Oliveira Sampaio, explica que o processo tradicional é feito em etapas, ou seja, as substâncias tóxicas que oferecem riscos à vida aquática, por exemplo, são eliminadas gradativamente, e o novo estudo visa concentrar todas elas em apenas uma. Relata que a purificação do esgoto ocorre através do oxigênio presente na água e que os equipamentos farão a leitura exata da quantidade de oxigênio necessária para

otimizar o trabalho. Para o professor doutor da USP e coordenador da pesquisa, Roque Pivelli, a ETE de Presidente Prudente tem totais condições estruturais e de profissionais para desenvolver esse trabalho. Ressalta ainda que as substâncias eliminadas dos efluentes são maléficas para peixes e seres humanos que por ventura tenham  contato com essa água. “Basicamente,

o que pretendemos fazer é a nitrificação e desnitrificação simultânea. Nitrificação é oxidação da amônia até chegar a nitrato,enquanto desnitrificação é a redução do nitrato a nitrogênio gasoso”, explica e  conclui: “Custo menor com nefluente melhor”.atualmente segue os padrões de exigência, ou seja, é acondicionado em bags que constituem o aterro próprio da Sabesp, no entanto, há intenção de reutilizar esse material na agricultura futuramente. Outros avanços Ainda conforme Sampaio, a matéria orgânica que resta desse processo (lodo).

 

 

CARTA CAPITAL

o cineasta e o senador Pablo

Larraín filma o plebiscito que

enterrou a ditadura de Pinochet,

apoiada por Hernán, seu pai

SANTIAGO HOJE é história latente. Uma história revisitada e rediscutida desde que,no inverno de 2011,o movimento estudantil voltou às ruas para reclamar que a transição chilena em direção à democracia não acabou com o modelo econômico da ditadura, como demonstra a crise educacional vivida pelo país. Neste ano, os signos dessa transição incompleta vieram à tona, nas ruas e nas telas do cinema.

Na última quinta-feira 9, os principais circuitos de cinema do Chile estrearam o filme NO, que recria o ano de 1988,quando o país organizou o plebiscito que marcaria o fim do regime do ditador Augusto Pinochet. Exatos 60 dias antes, o centro da capital sofria com uma batalha entre familiares de vitimas da ditadura e representantes dos círculos ultranacionalistas que celebravam a cinebiografia homônima de Pinochet, exibida em uma única e restrita sessão,em um teatro local.

O contraste com o filme pinochetista é mera coincidência, diferentemente do clima gerado nas ruas da cidade pelo movimento estudantil, que, na opinião do diretor Pablo Larraín, foi estimulado pelo mesmo desejo de mudanças estruturais decisivo para o resultado da campanha retratada em seu filme. “Os chilenos sentem que o atual mecanismo de representação democrática não funciona. A ditadura evidentemente enfrentava a mesma rejeição antissistema, porém havia a tortura e a repressão, muito mais marcantes, e era compreensível que fosse o tema preponderante na transição, o que terminou postergando outros anseios pendentes até hoje”, comenta Larraín. Ohistoriador chileno Alfredo Riquelme Segóvia, diretor do programa de doutorado em História da PUC de Santiago, aponta diferenças importantes a partir da semelhança do clima social de ambas as épocas. “Hoje se está lutando por outros ideais, por mudanças mais profundas no modelo econômico, mas diante de um panorama onde existe o Estado de Direito e amplas liberdades individuais e de manifestação de ideias, apesar de certo abuso policial, o que é muito diferente de enfrentar um regime opressor que proibia e cobrava com sangue algumas militâncias políticas divergentes.” O plebiscito retratado no filme aconteceu em 5 de outubro de 1988e foi a terceira votação realizada durante o regime de Pinochet (1973-1990)para respaldar sua continuidade. O pleito terminou com 55%dos votos a favor da opção “NÃO”, que representou o início do primeiro processo eleitoral presidencial no Chile depois de 20 anos, contra 44% da opção “SIM”, que defendia a manutenção do ditador no cargo.

 

A narrativa de NO flui por meio do personagem René Saavedra, vivido pelo astro mexicano Gael García Bernal, um publicitário que volta do exílio no México para participar do plebiscito que decidiria o futuro político do Chile de Pinochet. Como principal marqueteiro da campanha opositora, seu desafio era usar esquetes televisivas como principal arma, pois a campanha nas ruas era extremamente prejudicada pelas restrições impostas pela ditadura. Era proibido, por exemplo, fazer comícios contra o governo. Para retratar os diferentes anseios populares, o roteiro de Larraín utilizou elementos de uma peça teatral que narra a vida pessoal e profissional de alguns chilenos e suas famílias, diretamente afetadas pelo sistema político que o país vivia, e como suas sensações com respeito ao regime e à votação que se aproximava variam ao longo do tempo. A obra em questão é El Plebiscito, do dramaturgo Antonio Skármeta.

Além de retratar a efervescência social na época do plebiscito, Larraín aproveita seu personagem principal para reproduzir alguns dos esquetes televisivos originais usados pelas campanhas eleitorais

do “SIM” e do “NÃO”. Eugenio Tironi, sociólogo e diretor de conteúdo da campanha opositora à ditadura

(o mais próximo, na vida real, ao personagem de García Bernal), comentou que um dos pontos fortes do filme foi saber recriar a angústia que se sentia na época com a possibilidade de vitória do “SIM”. “Toda uma geração que amadureceu politicamente naqueles  anos sabia que era o grande momento da vida e falhar teria um custo muito alto, alguns imaginavam até que poderia haver uma guerra civil se Pinochet ganhasse.” Tironi destaca o anacronismo que se observa hoje nos antigos vídeos dos seus

adversários. Para o sociólogo, sobretudo para as gerações mais jovens, que não viveram o momento histórico, “o mais impressionante do filme NÃO será a campanha do ‘SIM’, essa força que foi capaz de

defender algo que, hoje, com a perspectiva do tempo, soa inacreditável e até risível, tanto que responsáveis por ela parecem ter feito um estranho pacto de silêncio”. Curiosamente, um dos que participaram desse fracasso foi o pai do diretor, o hoje senador conservador Hernán Larraín.

O senador não aparece em nenhum dos vídeos exibidos no filme, mas foi um conhecido colaborador civil e integrante da equipe econômica no período final da ditadura.

 

Os dois evitam falar sobre suas divergências políticas, embora seja conhecido no Chile o fato de o senador ser um dos principais entusiastas da carreira do filho, que já falou da ditadura em outros

momentos. Dois dos três filmes anteriores de Pablo Larraín (Tony Manero e Post Mortem,

ambos com certo êxito no circuito alternativo brasileiro) se passavam no Chile do período  pinochetista, e sempre com uma visão crítica com respeito às violações aos direitos humanos. “E um tema que convida

a relembrar tempos difíceis que o país viveu e alguns deles mesclam boas e más recordações, mas também há espaço para as surpresas, que é a sensação que pretendo causar”, comenta o diretor.

O filme, ganhador do prêmio da Quinzena dos Realizadores na mais recente edição do Festival de Cannes, apesar de não ter feito parte da mostra competitiva, tem previsão para chegar aos cinemas

brasileiros no primeiro semestre de 2013, segundo os produtores.

 

 

A conspirata neoliberal

 

“EM TODA PARTE estamos assistindo a uma epidemia de comportamentos

criminosos e corruptos nos vértices do capitalismo. Os escândalos bancários

não representam exceções nem erros, são fruto de fraudes sistêmicas, de uma

avidez e arrogância sempre mais difundidas.”

A autor dessa declaração, poucas semanas atrás, não é um líder bolivariano ou. um jovem contestador do movimento Occupy Wall Street. Trata-se do renomado professor americano Jeffrey Sachs, economista que outrora flertou com o neoliberalismo, consultor do BM, FMI e ONU, entre outros atributos. Por sorte, Sachs não está só na batalha de ideias que ocorre, finalmente, contra o modelo econômico dominante:

numerosas vozes do mundo acadêmico e da intelligentzia internacional, protestos dos jovens, alguns governos do Hemisfério Sul e, mais recentemente, parte da Europa, fazem parte da minoritária tropa. Já é alguma coisa, mas é dramaticamente pouco para domar a fera do capitalismo selvagem.

 

Resulta particularmente perigoso é que, paralelamente, foi desencadeado um ataque sem precedentes à evolução democrática do chamado Ocidente. Nestas cruciais semanas de agosto, acho importante conferir uma leitura política, precisa e sem nuances, aos acontecimentos econômico-financeiros

europeus, de sorte a aumentar a atenção sobre os riscos deste momento, inclusive nas nossas latitudes.

O epicentro da guerra em curso – que não utiliza armas de destruição física, mas visa igualmente a férrea submissão de homens a outros homens – encontra-se hoje na Europa, com ataques especulativos furiosos contra os países mais frágeis do Euro. O objetivo estratégico, evidentemente, não é a falência

deste ou daquele país, mas o fracasso ruinoso da experiência da moeda única e do processo de integração europeia. Uma vez superado o momento agudo da crise bancária em 2008, graças ao socorro providencial dos governos centrais, o sistema financeiro neoliberal conseguiu evitar qualquer satisfação

à pressão da Administração Obama para o estabelecimento de novas regras e controles. Diante da aliança lobista entre Wall Street, a City londrina, Fundos Hedge e bancos de investimento americanos que administram, entre outros, os imensos tesouros dos paraísos fiscais, até mesmo o mais poderoso

governo do planeta teve de baixar a crista. Ainda assim, foi dado o sinal de que a política quer enfrentar o problema. Juntamente com um novo clima geral, os donos dos mercados (vale lembrar: poucas dezenas de grupos de poder multinacional) perceberam recentemente outros sinais “subversivos”, como a

vitória socialista na França e a onda de críticas teórico-ideológicas, inimaginável na fase precedente do pensamento único.

 

Qual ocasião melhor que a derrubada do Euro, para revertera própria momentânea fraquezaem um sucesso histórico?A inadequada arquiteturado sistema político e financeiroda Europa tem se manifestadode forma patente, com lutase contradições internas quepodem provocar paralisia fatal.

Resulta claro que a sobrevivência do Euro se liga de forma indissolúvel à aceleração da união

política federal, fortalecimento que representaria ameaça gravíssima para os senhores das finanças.

Por outro lado, se a zona da moeda europeia precipitar- se em uma depressão ainda

mais aguda – comprometendo a fraca recuperação americana -os donos dos mercados alcançariam

o primeiro objetivo de curto prazo: a derrota de Obama pelo reacionário integralista Romney, aliado político por definição. Uma vez eliminado o inimigo principal, seria mais fácil o ataque final à moeda

antagônica e, com essa, a definitiva humilhação do quanto resta do modelo social europeu.

Enormes lucros especulativos, dizem os especialistas, escondem- se por trás da constante conspiração de Wall Street & cia. contra o Euro. A possível explosão da União Europeia e a volta às antigas moedas nacionais, ademais, abriria pradarias a novas incursões bárbaras, com compras de bens, territórios

e almas do Velho Continente a preços de saldo.

Fantapolítica, como dizem os italianos? A realidade dos fatos nos diz que a bandidagem do capitalismo contemporâneo supera as piores fantasias.

 

A integração europeia, com todos os limites, representa um exemplo decisivo para similares processos como o Mercosul,uma experiência democrática e um modelo de pacificaçãoacompanhados por crescimento econômico e políticas sociaissem paralelo. A desgraçada hipótese de sua derrota pode

representar uma involução da civilização ocidental com consequências inimagináveis no mundo inteiro. A manutenção e possível evolução virtuosa de tal experiência enfrenta inimigos mortais e, hoje, necessita da aliança vitoriosa entre progressistas e federalistas europeus. Seria importante que os aliados destes, se existem, se manifestassem já .

 

Eles prestaram atenção?

“MENSALÃO” I Apesar da intensa especulação sobre o desinteresse dos ministros, os argumentos da defesa não foram tão inúteis

 

O ÔNUS DA PROVA é do acusador. Baseados nessa premissa jurídica, os defensores dos 38 réus

do chamado mensalão fizeram suas exposições em Brasília para tentar demonstrar os furos no relatório feito pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Também tentaram convencer os ministros do Supremo Tribunal Federal de que não se tratou da compra de votos no Congresso, mas de um esquema de caixa 2 de campanha. Do sucesso dessas duas estratégias paralelas e complementares depende o destino dos principais personagens do julgamento.

 

Apesar das especulações na mídia, paira no Supremo um silêncio significativo de que seria precipitado fazer prognósticos antes do voto do relator Joaquim Barbosa, previsto para começar na quarta-feira

15. Pelo cronograma, Barbosa teria quatro dias para ler seu voto. Os ministros rechaçam, inclusive, a percepção geral de que a maioria já estivesse com o voto pronto antes de ouvir os advogados de defesa. “Uma coisa é ter o voto estruturado, outra é ter o voto pronto. Senão, para que haveria julgamento?”, disse um ministro a CartaCapital. ”Você pode ver, durante as sessões, que todos estão tomando notas.”

Se os advogados conseguiram convencer os ministros da tese do caixa 2, só se saberá quando começar a votação. Mas os defensores tiveram, sem dúvida, êxito ao apontar falhas na acusação feita por Gurgel.

A principal delas foi desconstruir a argumentação do procurador de que os saques em dinheiro foram feitos às vésperas de votações importantes no Congresso. O advogado de Delúbio Soares,Arnaldo

Malheiros Filho, demonstrou na segunda -feira 6, por meio de gráficos, justamente o contrário: quanto mais se sacava dinheiro, mais as votações no Congresso eram difíceis para o governo. Malheiros exemplificou que nas duas votações mais difíceis do governo Lula, as reformas Previdenciária

e Tributária, a aprovação só foi possível graças aum acordo com a oposição (entrevista com o advogado àpág. 32). Segundo o advogado, a relação feita pela Procuradoria entre votações e saques,

o mais forte trunfo da argumentação de Gurgel, não é signifícativa. “O Congresso vota de terça a quinta-feira. Isso, por si só, não quer dizer nada, não dá para condenar ninguém.” Malheiros assumiu, porém, o crime eleitoral. “O procurador disse que nunca foi respondida uma pergunta: por que tudo

isso era transmitido cash, por que não se faziam corriqueiras transações bancárias? Na verdade, porque era ilícito. O PT não podia fazer transferência de um dinheiro que não tinha entrado nos livros”,

afirmou. “Delúbio é um homem que não se furta a responder por aquilo que fez, só não quer ser condenado pelo que não fez. Que ele operou caixa 2 de campanha, operou. Que isso é ilícito, é, isso ele não nega.”

 

Na mesma linha, o advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, colocou o procurador

em maus lençóis: lembrou que, ao analisar o chamado “mensalão mineiro”, o próprio Ministério Público havia excluído parlamentares do processo por entender que o dinheiro repassado pelo publicitário

mineiro a políticos, em 1998, era caixa 2, dinheiro de campanha, portanto, crime eleitoral – e já prescrito, assim como o “mensalão” do PT. E se Gurgel disse em sua acusação que Marcos Valério teria ido oferecer ao PT um esquema que já existia em Minas Gerais, por que esse seria caixa 2 e o outro, criado depois, não?

Outro ponto de destaque na defesa feita pelo advogado foi a contestação de que haveria “desvio de recursos públicos” no esquema, oriundos do Banco do Brasil. O advogado citou provas testemunhais e

documentais de que os fundos da Visanet, que repassou 73 milhões de reais à agência de Marcos Valério, eram na verdade privados, e não públicos, como acusou o Ministério Público Federal. “Não há prova de desvio de recursos públicos”, disse Leonardo, para concluir, dramático: “Marcos Valério não é troféu ou personagem a ser sacrificado em altar midiático”.

 

Na qulnta-felra 9, num sinal de que os votos dos ministros não estão de fato inteiramente prontos e de que os defensores foram eficientes em plantar dúvidas, o relator Joaquim Barbosa acabou por

perguntar a Marthius Lobato, advogado do ex-diretor do BB Henrique Pizzolato sobre os recursos do Visanet. Barbosa quis saber, primeiro, se o BB participava do fundo. Lobato respondeu que era acionista,

mas sem aporte direto de recursos públicos. O ministro perguntou em seguida de onde vinham os recursos. De um porcentual do que os clientes gastam com os cartões do banco com a bandeira Visa,

respondeu o defensor. Por último, Barbosa quis saber se quem decidia repassar o dinheiro do fundo à agência de Marcos Valério era Pizzolato. “Jamais, pois ele não era responsável”, garantiu Lobato.

Vários advogados utilizaram o termo “criação mental” para se referir às acusações do procurador, baseados na carência de provas documentais. O advogado de José Dirceu, José Luis Oliveira Lima,

foi, de todos, quem mais se apegou à tese da falta de provas, mesmo porque Gurgel, em seu relatório, reconheceu não existirem evidências da participação de Dirceu no esquema, embora o apontasse como

“chefe da quadrilha” baseado em testemunhas. “Meu cliente não é quadrilheiro e quem diz isso são os autos”, disparou o defensor do ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, que em 2005 foi cassado

do cargo de deputado federal e teve seus direitos políticos suspensos até 2015.

Oliveira Lima acusou a Procuradoria de “desprezar” provas importantes colhidas no contraditório e de ter se baseado em provas extrajudiciais, em depoimentos feitos em CPIs e em artigos de jornais.

“Foram mais de 600 depoimentos e nenhum deles incrimina José Dirceu”, disse o advogado, para quem a acusação feita por Roberto Jefferson não passou de “um bom teatro”. Ele acusou o procurador de

“fechar os olhos para os autos” e, ao final, novamente provocou Gurgel, que tinha chamado o episódio de “o mais atrevido e escandaloso caso de corrupção do Brasil” em seu relatório. “O pedido de condenação

de José Dirceu é o mais atrevido e escandaloso ataque à Constituição”, disse.

O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, advogado do diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, acusou o procurador de afrontar a Teoria da Relatividade em seu relatório, porque as datas do começo do que seria a “formação de quadrilha” e a função desempenhada por seu cliente no banco não batem. “Acusá -lo é revogar o conceito de tempo. Esses empréstimos foram dados em 2003 e só

em abril de 2004 ele assumiu a vice-presidência O fato de ele ser responsável por uma instituição financeira não significa, evidentemente, que seja responsável pelos delitos cometidos no âmbito dela”, defendeu Thomaz Bastos. De acordo com o advogado, à época do chamado mensalão, Salgado era responsável pela área internacional e de câmbio do Rural.

 

Mesmo o advogado que foi considerado por todos como o que pior se saiu diante dos juízes do Supremo, Luiz Fernando Pacheco, conseguiu transmitir falhas na acusação. Segundo ele, os pedidos de empréstimo ao Banco Rural que seu cliente, o ex-deputado federal José Genoino, então presidente do PT, assinou foram considerados legais pela perícia, Outra dúvida sobre a acusação viria do advogado de João Paulo Cunha, Alberto Zacharias Toron: se o dinheiro era de corrupção, por que os acusados iam receber no banco? “Se é dinheiro de corrupção, você mandaria sua mulher ir ao banco pegar?”, perguntava o advogado aos jornalistas após a sessão. Embora com raciocínios convergentes,

os advogados dos réus não trabalharam em colaboração. Ao contrário. Havia inclusive certo clima de rivalidade entre os defensores, sobretudo entre paulistas e mineiros. Diante da expectativa de grandes performances dos paulistas, encabeçados por Bastos, apelidado de “God” (Deus), os mineiros celebravam o fato de que o conterrâneo Marcelo Leonardo foi quem fez a defesa mais elogiada, considerada brilhante por muitos especialistas e jornalistas. “É o tipo de coisa. Quando se fala que Pelé

vai jogar, cria-se uma expectativa grande demais. Aí ela acaba não se concretizando”, zombava um mineiro. De fato, houve surpresas e decepções. Muito aguardada, a defesa de Oliveira Lima

foi avaliada como técnica, mas “sem emoção”. O advogado de Genoino, de tão chateado consigo mesmo por ter sido vencido pelo nervosismo, foi embora do Supremo logo após a defesa e teve de ser consolado por colegas depois. Já o defensor de Simone Vasconcelos (secretária de Marcos Valério), Leonardo Yarochewsky, jogou para a plateia ao citar a novela das 9 da Globo. “Até a Carminha já disse que vai

processar a Rita por formação de quadrilha.” No final, citou Chico Buarque para provocar Gurgel, que havia feito o mesmo, com outra canção. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”

Entre os ministros do STF, o clima é de aparente cordialidade, exceto pelo revisor Ricardo Lewandowski, que tem, segundo assessores, apresentado um semblante “angustiado”. Nos intervalos, em vez de ir ao cafezinho com os demais, Lewandowski, acusado por Barbosa de “deslealdade” na primeira sessão por

votar em favor do desmembramento do processo, tem preferido caminhar do lado de fora da Corte. Uma das questões que podem estar incomodando o ministro é a possibilidade de que o voto do ministro

Cezar Peluso seja antecipado para que ele possa participar do julgamento. Peluso tem de se aposentar até o dia 3 de setembro, quando completa 70 anos, e votaria antes de Lewandowski, o que

não agrada ao revisor.

Caso a ordem não seja invertida para beneficiar Peluso, Lewandowski emitiráseu voto em seguida ao relator. A partir da quarta 15, o clima modorrento dos últimos dias deve mudar. A julgar pelo bate-boca na abertura dos trabalhos, gelado mesmo só o ar condicionado do plenário, que já deixou o presidente da Casa, o ministro Carlos Ayres Britto, com uma gripe daquelas.

 

“Por corrupção, o Delúbio não vai só”

Para Malheiros, seu cllente não será o bode

Para o advogado Arnaldo Malheiros Filho, defensor de Delúbio Soares, se o STFconcluir pela existência de crime de corrupção, seria impossível seu cliente ser o único condenado.

 

CartaCapital: Muitos falam, mesmo no PT,que Delúbio Soares pode ser o único condenado, que “vai sobrar para Delúbio': Como osenhor analisa esse tipo de informação?

Arnaldo Malheiros Filho: Acho muito remota a hipótese de Delúbio ser o único condenado. A questão principal

a ser respondida é: houve ou não corrupção? O procurador·geral sustenta que sim. Nós, defensores,

sustentamos que não há provas. Se não houve corrupção, estão todos livres. Mas, se o Supremo acatar a tese

de que houve corrupção, não será só o Delúbio o condenado, já que não era ele o encarregado de compor a base de

apoio do governo. Eticamente, estou impedido de comentar a situação dos outros réus, mas, se houve corrupção,

é difícil que ele seja o único condenado.

 

CC: Como está Delúbio psicologicamente?

AMF:Tenho até inveja de Delúbio. Está muito tranquilo, confiante, sempre animado, alegre. Acho admirável.

O lado psicológico dele é muito bom. Acho que é uma coisa de temperamento, ele sempre foi assim.

 

CC: O senhor optou pela tese de que Delúbio teria cometido crime eleitoral, ou seja, pelo caixa 2.

Se condenado, ele pode ir para a cadeia?

AMF: Não, porque o crime estaria prescrito. Não cheguei a fazer as contas, mas, pelo que vi nos jornais,

tudo indica que sim. Além disso, o crime eleitoral não comporta prisão.

 

 CC: Se os ministros do STF decidirem que o que houve foi mensalão e não crime eleitoral, alguém pode ser

preso imediatamente após a decisão, como quer  o procurador-geral?

AMF: Oministro Celso de Mello enfatizou na primeira sessão do julgamento que ainda cabe recurso

ao próprio Supremo. Quando o ministro Ricardo Lewandowski justificou seu voto pelo desmembramento, disse que

seria injusto que o STFfosse o último recurso, e Celso de Mello, em sua fundamentação contrária, disse que

não, que ainda cabem recursos. Então, se ainda cabem recursos, seria ilegal se alguém fosse preso após o julgamento.

 

CC: Um de seus principais objetivos foi tentar desfazer a argumentação do procurador de que os depósitos

estavam ligados às votações no Congresso. Acha que conseguiu?

AMF: Claro, inclusive com gráficos. Nas duas votações mais importantes do primeiro governo Lula, as

reformas tributária e previdenciária, o governo só conseguiu aprovar com o apoio da oposição. A base estava

rachada, o governo precisou fazer acordo com o PFL (hoje DEM) e com o PSDB. Fez um acordo político,

como se faz em qualquer país do mundo: deu a PEC(Proposta de Emenda Constitucional) paralela

da Previdência em troca de votos. O procurador-geral, como não conseguiu produzir provas

na votação da reforma, optou pela PEC paralela, uma PEC que a oposição queria, na verdade.

 

CC: O senhor acha que para a população brasileira fazer caixa 2 na campanha é menos grave do que

comprar votos no Congresso?

AMF: Juridicamente, caixa 2 é muito menos grave do que compra de votos. Agora, se é menos grave

para a população brasileira, eu não seria o profissional mais adequado a responder.

 

Duelo no tribunal

JUSTiÇA I Como a defesa dos réus tentou se contrapor às principais teses da acusação do procurador-geral da República

 

ENTRE A SEXTA-FEIRA 3 e a quinta-feira 9 falaram no plenário do Supremo Tribunal Federal o procurador-

geral da República, Roberto Gurgel, como acusador, e os advogados dos principais réus do chamado

“mensalão”. A seguir, apresentamos uma síntese dos argumentos expostos por acusação e defesa em relação a alguns dos acusados mais notórios do julgamento.

 

JOSÉ DIRCEU

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL apoia-se nos testemunhos que indicam o ex- ministro como mentor do esquema. Gurgel argumenta que Dirceu teria beneficiado o Banco BMG para entrar no mercado de crédito consignado de servidores federais em troca de financiamentos fictícios para o partido. Segundo

o procurador-geral, o petista intercedeu no Banco Central e no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, para impedir a fiscalização de movimentações

de lavagem de dinheiro. O advogado de Dirceu, José Luís oliveira Lima, negou a existência de provas

produzidas sob o rito do contraditório “não por inércia, não por incompetência, mas porque não há provas”. Exemplifica com a citação de que a peça do Ministério Público baseia-se em provas

extrajudiciais, depoimentos colhidos durante as CPls e artigos jornalísticos. Quanto ao crime de chefiar uma quadrilha, as testemunhas demonstraram que Dirceu não perdeu os laços com o partido, mas, ao ocupar um “cargo-chave” como a Casa Civil, seria impossível prestar atenção às questões partidárias.

O ex-ministro recebeu o empresário Marcos Valério em seu gabinete assim como o fez com centenas de outros empresários no mesmo período. Sobre o crime de corrupção ativa, os testemunhos desmentem a acusação. A defesa menciona depoimentos da presidenta Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do ex-vice-presidente José Alencar, e justifica que a base aliada foi formada sem a necessidade de ir além da

política comum. Por fim, nega o pagamento de mesada para aprovação dos projetos de interesse do governo. Quanto ao depoimento de Roberto Jefferson sobre uma viagem do publicitário mineiro a Portugal como representante de Dirceu na qual teria pedido dinheiro ao presidente da Portugal

Telecom para o PT, as testemunhas desmentem o ocorrido. Para a defesa, “o pedido de condenação de José Dirceu, com base nos autos, é o mais atrevido e escandaloso ataque à Constituição Federal”.

 

 

 

JOSÉ GENOINO

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

GURGEL SUSTENTOU suas acusações em depoimentos de líderes de partidos e no relatório do Banco Central que comprovavam a assinatura de Genoino, então presidente do PT, como avalista de

falsos empréstimos tomados pelas empresas de Marcos Valério nos bancos Rural e BMG e destinados ao partido, dando o patrimônio pessoal como garantia. Para o advogado do réu, Luís Fernando

Pacheco, a denúncia não individualiza a conduta e conclui pela responsabilidade objetiva. Diz não haver provas feitas sob o crivo do contraditório e que os depoimentos contradizem as alegações  de Gurgel de que o político integrava o núcleo articulador do suposto esquema do mensalão. Por fim, Pacheco nega a existência do esquema de compra de votos de parlamentares.

Em 2002, o PT contraiu dívidas durante a campanha e enfrentou problemas financeiros. Cabia ao tesoureiro do partido, Delúbio Soares, solucionar a crise e a opção teria sido contrair empréstimos. Por ser o presidente da legenda à época, Genoino teria sido apenas o avalista desses contratos, alega

a defesa, e isto teria sido reconhecido pela acusação, que não o denunciou por falsidade ideológica.

Segundo Pacheco, o governo venceu as votações no Congresso em função da adesão da oposição, o que desarticularia a tese do procurador-geral.

 

 

 

 

 

 

 

DELÚBIO SOARES

Acusações: formação de quadrilha e corrupção ativa.

 

ALÉM DO DEPOIMENTO de testemunhas e outros réus, o procurador-geral apresentou documentos que comprovam os saques feitos pelo então tesoureiro do PT no Banco Rural. Delúbio, diz Gurgel,

era o principal elo entre os núcleos político, operacional e financeiro do mensalão, indicando os beneficiários da propina e recebendo parte dela. Para Arnaldo Malheiros Filho, advogado

de Delúbio, os ministros do STF devem observar exclusivamente as provas colhidas durante a instrução

penal. Por falta de provas, o MP decidiu desenterrar os depoimentos da CPI dos Correios.

A defesa questiona: 1.O que Delúbio Soares obteve em troca da suposta corrupção? 2. Qual o ato praticado pela pessoa corrompida que beneficiou Delúbio? Na tentativa de provar o ato “de ofício”, o MP aponta as vitórias do governo no Congresso das reformas tributária e da Previdência. Para desfazer essa tese, Malheiros Filho se valeu de números. Primeiro, afirmou que saques próximos às datas de votação não provam nada. Sobre a reforma tributária, dos 394 depoimentos judiciais, apenas 39 disseram

conhecer Delúbio Soares e em consequência de sua atuação na vida partidária.

Nenhum disse ter conversado com ele sobre compra de votos. Dos 79 parlamentares que depuseram,

nenhum afirmou ter recebido dinheiro para votar qualquer matéria em especial. Apenas 18 admitiram receber recursos para cobrir despesas de campanhas políticas, sem qualquer vínculo com votação.

Segundo o advogado, os atos eram normais, não ilícitos. O réu, via seu advogado, admitiu o uso de caixa 2 em campanhas. Malheiros insistiu: seu cliente pode responder pelos erros que cometeu,

não por crimes de formação de quadrilha ou corrupção ativa.

 

MARCOS VALÉRIO

Acusações: três por corrupção ativa, três por peculato, uma por formação de quadrilha, uma por lavagem de dinheiro e uma por evasão de divisas.

 

TESTEMUNHOS E PERÍCIAS contábeis que comprovariam a existência do complexo sistema de corrupção do mensalão, por meio de empresas montadas por Marcos Valério e seus sócios, são o cerne da acusação da Procuradoria-Geral da República. Gurgel apontou os recursos repassados às agências do publicitário

por meio da Visanet como prova de desvio de dinheiro público. Marcelo Leonardo, defensor de Marcos

Valério, argumentou que, no caso da Visanet, existem provas documental, testemunhal e pericial que atestam que os recursos financeiros desse fundo eram privados (e não públicos), sem envolvimento

com o Banco do Brasil. A defesa criticou a PGR por se ater às provas colhidas durante a CPI dos

Correios e durante o inquérito policial, sem contraditório. Criticou ainda o conceito de crime de formação de quadrilha no Brasil, especialmente ao se referir aos crimes societários.

Sobre uma suposta correspondência entre saques bancários e votações de matérias importantes, observou que, em depoimentos colhidos em juízo, parlamentares que integraram a CPI dos Correios não apontaram qualquer relação entre saques e votos. Sobre alegações de um suposto favorecimento

da empresa SMP&B pelo deputado federal João Paulo Cunha em um contrato com a Câmara, mencionou que integrantes da Comissão de Licitação da Câmara dos Deputados afirmaram não ter havido favorecimento e que o presidente da Câmara à época não tinha qualquer influência ou controle administrativo sobre o processo licitatório. Quanto ao crime de peculato (desvio de 536 mil reais do valor previsto no contrato com a Câmara, por meio da subcontratação de profissionais pela SMP&B durante a prestação dos serviços), laudos da Polícia Federal atestam que o contrato admitia terceirização

de serviços, sobretudo na área criativa: “Marcos Valério não é troféu ou personagem a ser sacrificado em altar midiático, vítima de implacável e insidiosa campanha de publicidade opressiva, julgado

e condenado pela mídia, sem direito à defesa”, afirmou Leonardo.

 

KÁTIA RABELLO

Acusações: formação de quadrilha, lavagem de capitais, gestão fraudulenta de instituição financeira e evasão de divisas.

 

PARA GURGEL, KÁTIA RABELLO, presidente do Rural à época, como os demais dirigentes, não informou ao Banco Central e ao Coaf os empréstimos realizados e que favoreceriam o suposto esquema.

Segundo José Carlos Dias, advogado, a acusação se baseia na falsa premissa de que eram irregulares os procedimentos bancários nos três empréstimos ao grupo de Marcos Valério e ao PT. A perícia do Instituto Nacional de Criminalística da PF considerou-os legítimos, apontando razões formais e financeiras

para a concessão. A renovação do empréstimo, negociado trimestralmente para liquidação, seria outra evidência da sua regularidade. A defesa alega que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras foi

informado sobre todas as operações. E também aponta o que seria falta de provas, imprecisões técnicas e o fato de a PGR ter desconsiderado as evidências que contradizem a existência

de fraude financeira. A defesa ainda critica a omissão da acusação sobre a liquidação do Banco

Mercantil, que foi apresentada apenas em março deste ano, quando o Banco Rural recebeu 22% da massa falida da instituição. O procurador-geral acusou os executivos do Rural de pretender lucrar com a liquidação do Mercantil e, por isso, investir no suposto esquema.

 

odireito ao voto antecipado

MENSALÃO 3 I Não há nenhum vício jurídico na provável decisão do ministro Cezar Peluso de se manifestar antes da aposentadoria

 

O NERVOSISMO tomou conta da República. Os meios de comunicação, juízes, especialmente

ministros do Supremo Tribunal Federal, advogados de defesa e todos que direta ou indiretamente estão

mais ligados ao julgamento da Ação Penal nº470 necessitam serenar seus ânimos o quanto antes, para que não cometam mais atentados ao Direito e ao bom-senso. Nos últimos dias, vimos um ministro

do STF que ainda não votou no caso manifestar-se em um jornal de grande circulação nacional, que estampou matéria com o seguinte título: “Ministro contesta exigência de ‘prova cabal'”: “Querem confissão? É difícil”.

 

Não sei como não surgiu alguém também sugerindo seu impedimento. Os ânimos estão à flor da pele, isso é evidente. O ministro Cezar Peluso, por sua vez, aposenta-se em 3 de setembro, o que, para

alegria de alguns e infelicidade de outros, configura uma desgraça jurídica, pois seria impossível ele adiantar o seu voto. Há muitas bolas de cristal em regular funcionamento em Brasília ultimamente.

O ministro Peluso, processualista, foi guindado, não se sabe bem por quê, à condição de “maior conhecedor do direito penal do Supremo”? Quem lhe conferiu esse título? Não sabemos.

Pobre do ex-ministro Sepúlveda Pertence. Esse, sim, era conhecido por sua trajetória nesse domínio do Direito, no STF inclusive. Também nestes dias li uma declaração de que um colega do ministro Peluso

teria afirmado que a “antecipação de voto” seria uma leviandade. Não entendi bem o motivo da declaração. Acaso essas pessoas conhecem o conteúdo dos votos desses ministros? Como

podem dizer que tal ou qual ministro vota assim ou assado? Tendências não podem gerar certeza alguma. Só posso atribuir essas declarações, ou a maioria delas, a um excesso de nervosismo

dos colegas da família jurídica nacional. À exceção do tema do impedimento, que de fato causa revolta, os outros não parecem estar com a razão.

 

o impedimento revolta porque não há uma resposta objetiva e criteriosa no ordenamento jurídico nacional que possibilite a todos que participam do processo vetarem o juiz. A lei protege o julgador e atribui ao magistrado o direito de se declarar impedido. São poucas as causas objetivas em que ele é obrigado a sair da “cena do julgamento”. Não sou processualista e não quero comentar o tema.

Apenas lamento (como cidadão) que tenhamos chegado a essa situação em um momento tão delicado, e que o ordenamento jurídico não apresente aparentemente uma solução para o caso, como os especialistas declaram. Já em relação à antecipação de voto(s), quero discordar de tudo quanto

li até agora. O que há é, além do desconhecimento do assunto de alguns, o terrorismo ou

partidarismo de outros ao comentar o tema de cunho eminentemente técnico. Ocorre que parecem turvar a mente e os olhos de várias pessoas interessadas no caso os seguintes fatos incontestáveis:

a aposentadoria do ministro Peluso em 3 de setembro e o direito constitucional de os ministros se manifestarem, votarem após a conclusão da fase inicial. Tenho como fase inicial a leitura

das alegações finais, as sustentações orais e o voto do relator e, eventualmente, do revisor.

Explico-me. Na imensa maioria das ações em todo o Brasil (de natureza cível,

penal, tributária, previdenciária ou administrativa), há um ritual antigo repetido

desde tempos imemoriais em todos os tribunais do País. Depois dessa fase inicial, declarao voto o relator do processo. À ocasião já se estabeleceu o contraditório constitucional e as partes apresentaram tudo que podem. Não há mais nada a fazer. O processo se exaure para as partes. Nada mais é possível

inovar em termos de provas e posições no julgamento. Em alguns tribunais, e é o caso do STF, há a figura do revisor (como o nome sugere, alguém escalado para “conferir”, ajudar o relator em seu trabalho).

A revisão é, na maioria das ações, quase uma exceção, tanto que só existe em alguns casos, no STF: a) ação rescisória; b) revisão criminal; c) ação penal originária; d) recurso ordinário criminal; e) declaração de suspensão de direitos do artigo 5°, VI, evidentemente para garantia das partes a um processo equilibrado, justo, equitativo, o quanto possível devido (devido processo). Assim me parece, com todo o respeito às posições contrárias, não haver qualquer impedimento à antecipação de voto de qualquer ministro em qualquer julgamento. Não há nesse ato nenhum vício jurídico, ético ou desrespeito aos

colegas. A matéria é regimental. Diz o artigo 135, parágrafo 1°,do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal: “Concluído o debate oral, o presidente tomará os votos do relator, do revisor, se houver, e dos outros ministros, na ordem inversa de antiguidade. § 10 Os ministros poderão antecipar o voto, se o presidente autorizar. § 20 Encerrada a votação, o presidente proclamará a decisão”. Aparte final do dispositivo já se me afigura de duvidosa constitucionalidade. É certo que o presidente, em toda sessão de

julgamento, mantém a ordem e o poder de polícia,mas não pode impedir nenhum ministro de votar. Quer se respeitar, é certo, a ordem de antiguidade, dirão alguns. É natural, pois o tempo de casa, a experiência, aconselha que sejam ouvidos, primeiro, os mais jovens no tribunal, a ordem inversa da antiguidade. É um critério. Pode-se até discordar dele. Pode- se sustentar, inclusive, o oposto também

com boas razões. Primeiro, os mais experientes e, depois, os novatos. Tudo depende do que se quer privilegiar. Isso não afeta a essência do julgamento e a livre deliberação de cada juiz, de cada ministro

que forma o colegiado.

 

Claro que um ministro pode, ao ouvir a posição do colega, alterar o seu voto antes do fim do julgamento. Isso é possível, mas é fenômeno raro em casos em que os ministros já estudaram exaustivamente as provas e ouviram os principais atores do processo, compulsaram os autos, ouviram

os advogados, a defesa e a acusação, o relator e até o revisor. A ordem do julgamento, a apresentação dos votos, salvo melhor juízo, não é matéria substancial. Substancial é o colegiado. É a livre manifestação

de todos que compõem o plenário, todos não impedidos, note bem. O resto, com todo o respeito, é firula, é questão de nervos à flor da pele. É questão que se resolve com Maracugina, que parece andar em falta nas farmácias de Brasília. Não vejo, sinceramente, qualquer impedimento para o ministro Peluso adiantar

seu voto, salvo, evidentemente, se ele não quiser, mas aí não há nenhuma razão jurídica, só mesmo convicções de ordem pessoal ou tema de foro íntimo, ou de apego exagerado à ritualística.

 

 

Conflito sem

fronteiras

SíRIA I Mesmo sem bombardear o país, os ocidentais participam da guerra civil de todas as maneiras possíveis. E o embate étnico-religioso se agrava

 

AS DESERÇÕES do primeiro- ministro, de políticos, dezenas de militares, integrantes dos serviços de inteligência e diplomatas revelam que a cúpula de Bashar al-Assad, e por tabela seu regime,

está à beira do precipício. Mas quanto tempo ele conseguirá se manter no poder? Semanas, meses, anos, respondem diferentes estudiosos de relações internacionais. Na elegante Alepo, cidade mais

populosa e rica do país, situada ao noroeste, trava-se a “mãe das batalhas”. A queda de Alepo significaria o fim de Assad. Lá, desde 20 de julho, voluntários do Exército Sírio Livre (ESL) se batem contra forças

regulares pela conquista de cada casa, cada rua. Nesta cidade, outrora a segunda do Império Otomano, onde a maioria dos habitantes é sunita e de classe média, um bairro em particular, Salaheddin, simboliza

o bastião da resistência contra o regime do alauíta xiita AI-Assad. Na quinta-feira 9, os rebeldes sírios

deixaram o disputado bairro. Os bombardeios descomunais de veículos blindados, da artilharia e aviação em Salaheddin e em outros bairros da cidade forçaram o ESL a “realizar um recuo tático”. Recuos

não deixam de ser uma tática importante, inclusive no caso de guerrilha urbana, mas neste caso, tem-se a impressão de que a medida pressupõe uma longa guerra.

A vitória ou derrota dos rebeldes em Alepo, onde morrem em média diária 200 pessoas, não é a única maneira para se colocar um término nessa guerra. Sua queda em mãos rebeldes seria simbólica,

mas não decisiva, escreve Pierre Sawaya, do diário libanês L’Orient Le Jour. E mesmo se os rebeldes conseguissem torná-la independente da Síria, Damasco e outras regiões do país poderiam continuar nas

mãos de Assad. Alepo poderia se tornar a capital dos rebeldes à imagem de Benghazi,

na Líbia. Ademais, a cidade fica a apenas 100 quilômetros da porosa fronteira com a Turquia, país aliado dos Estados Unidos que apoia os rebeldes com armas.

 

A deserção do premier sírio Riad Hijab no domingo também não é decisiva para o fim de quatro décadas da dinastia Assad. No entanto, ela foi bastante significativa porque, como é o caso de todos os

desertores a precedê-lo, sua confissão é sunita. Em troca de cargos e regalias, a elite sunita aceitou integrar um governo dominado pelo pai de Bashar, Hafez. A família dirigente é, vale enfatizar, aluíta

xiita, confissão a representar apenas 10%da população do país. Até o início das manifestações, 17meses

atrás, essas divisões religiosas não pareciam ser problema na Síria. No entanto, pouco a pouco, a guerra civil revelou- se sectária – e não diferente daquela entre sérvios cristãos ortodoxos, e bósnios

muçulmanos, no início da década de 1990. Ocorre que os privilegiados sunitas da elite, como Riad Hijab, se deram conta do seguinte: as armas pesadas de AI-Assad miram sunitas como eles. Hijab é rebento do regíme de Hafez al-Assad. Ocupou cargos de governador e ministro. Nomeado premier apenas dois

meses atrás, ele não havia percebido a chacina perpetrada contra sunitas pelo governo que serviria? Hijab realizou que Assad, cedo ou tarde, provavelmente estaria fora do poder, e, por isso, desertou.

Segundo o vespertino francês Le Monde, Hijab sustenta não ter tido a opção derecusar o cargo de premier em junho de2012. Caso contrário, ele teria terminadoseus dias como um de seus predecessores,o qual teria se suicidado em circunstânciasnebulosas em maio de 2010. Eis outra

confissão extraordinária de Hijab: desde o momento em que assumiu o cargo de premier, esteve em contato com o Exército Sírio Livre. Seu objetivo era receber proteção e apoio logístico para desertar.

 

Não surpreende o fato de Hijab ter buscado refúgio na Jordânia, para, em seguida,

rumar para o Catar. Minúscula monarquia, Catar está em fina sintonia com a poderosa Arábia Saudita, berço do wahabismo e inseparável parceira de Washington que promove e financia movimentos fundamentalistas em todo o mundo árabe, inclusive na Síria. Entre os rebeldes constam grupos

como a Irmandade Muçulmana e a Al-Qaeda, com a qual mais uma vez os EUA estão cooperando.

O cinismo no mundo de relações internacionais (há quem prefira termos como realpolitik) é latente. AI-Assad, com o sangue frio de um tirano, é capaz de deixar 19 mil conterrâneos morrerem numa guerra civil. Hijab não é diferente. Nem facções oportunistas entre os rebeldes, um verdadeiro saco de

gatos. Ao contrário do Magreb, onde os países são relativamente livres uns dos outros, o Levante é uma região nas quais as políticas de países como a Síria e o Libano não podem ser dissociadas. Damasco situa-se no epicentro do Levante, como era conhecida essa região do Oriente Médio nos tempos do

Império Otomano, e englobava vários países: Líbano, Israel, territórios palestinos, Jordânia e Iraque. Religião e etnia sempre foram problemas sérios e guerras jamais escassearam. Mas, como

defende Pascal Boniface, especialista francês de Oriente Médio, a questão central na região sempre foi a luta entre os territórios palestinos e Israel. O quadro geopolítico sofreu uma alteração importante a partir da revolução de 1979 no Irã. Hafez ai-Assad aliou-se ao líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini.

União no mínimo estranha: um laico árabe e socialista com um persa e líder islamita. Mas eles tinham um inimigo comum: Saddam Hussein. Ambos os países concordaram em monitorar os passos de Israel e dos Estados Unidos. Mais: passaram a apoiar os grupos Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica. Portanto, Irã e Iraque, onde predominam xiitas, preferem manter Assad no poder. Para comprovar esse sólido elo, nesta quinta-feira o Irã organizou uma reunião sobre a crise na Síria para propor um acordo de paz como aquele de Kofi Annan, o mediador da ONU e da Liga Árabe que renunciou ao cargo esta semana.

Entretanto, na terça-feira 7 AI-Assad recebeu Said Jalili, emissário do Guia Supremo iraniano – o aiatolá Ali Khamenei -, o qual se mostrou belicista: diz estar pronto a arrasar a rebelião contra o regime

sírio – e contra qualquer invasão externa (leia-se EUA).No entanto, não se sabe ainda se os 48 iranianos presos por rebeldes sírios são peregrinos, como alegam os iranianos, ou guardas republicanos iranianos

a serviço dos dirigentes sírios.

 

Da mesma forma, Rússia e China veem a Síria como sua última esfera de influência no Levante. Portanto, esses dois países, integrantes permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, vetarão qualquer iniciativa de invasão por parte de forças estrangeiras. Por sua vez, Arábia Saudita, Catar e Turquia, com a bênção dos EUA e da União Europeia, querem o fim de Assad. Nesse contexto,

outra aliada de Washington, a mais próxima delas, Israel, gostaria de ver o fim de Assad. O motivo? O elo entre Teerã e o Hezbollah no Líbano seria rompido. O objetivo-mor, óbvio, seria neutralizar o Irã na região. Além disso, Tel-Aviv teme uma transferência de armas químicas da Síria para o Hezbollah. Nesta semana, contudo, Israel foi reconfortado: o exército egípcio matou 20 ativistas fundamentalistas

que haviam, por sua vez, exterminado 16guardas de fronteira do Sinai (península restituída ao Egito por Israel em 1979),cujo objetivo era atacar Israel. Mohammed Morsi, o presidente egípcio

da Irmandade Muçulmana, provou ser favorável a uma estabilidade regional. E foi corajoso. Morsi, afinal, havia estado na Palestina com a liderança do grupo Hamas (considerado grupo terrorista por

Israel e pelos EUA),menos de duas semanas atrás. Em seguida, liberou o ingresso de palestinos ao Egito, fato inédito desde 2007, quando o Hamas venceu as eleições

em Gaza e as fronteiras com Israel e Egito, então presidido por Hosni Mubarak, foram bloqueadas. No entanto, após a morte dos 16 guardas egípcios de fronteira, Morsi mandou fechar todos os túneis

entre o Egito e a Faixa de Gaza. O Hamas condenou o ataque, e há quem diga que

eles não tenham nada a ver com eles, embora Israel, como sempre, duvide.

 

De qualquer forma, a mídia internacional tem abordado o conflito sírio como uma luta pela liberdade. De fato, num primeiro momento uma vasta maioria da população reivindicou, como em outros

protestos da chamada Primavera Árabe, melhores condições de vida e mais liberdade.

Como no Magreb. Pouco a pouco, os manifestantes sírios transformaram-se em grupos de guerrilheiros. Ocorre, como dito acima, que agora a Síria atravessa uma guerra entre religiões e etnias.

No entanto, a atual guerra não é mais pela liberdade de um povo, ela é regional. Os países conservadores do Golfo Pérsico e a Turquia, apoiados pelos Estados Unidos e por alguns países da União Europeia, estão a intervir com a ajuda de paramilitares da CIA. Enquanto isso, na  França, principal interventor na Líbia, reina um grotesco entrevero entre o ex-presidente Nicolas Sarkozye seu sucessor

François Hollande. Num inusitado gesto de diplomacia paralela, Sarko chegou até a ligar para os rebeldes. A Síria é diferente da Líbia. À parte o apoio de Teerã a Damasco, existem armas

químicas na Síria – e a oposição está dividida. Óbvio é isto: embora não estejam bombardeando a Síria como o fizeram na Líbia, os ocidentais têm impacto na guerra civil de todas as maneiras possíveis. Enquanto isso, o genocídio, ou a tentativa de limpeza étnica, à imagem da Bósnia, continua na Síria.

Mas desta feita o cenário é pior: poderá  se transformar num conflito global.

 

 

o talentoso Valterino

ITÁLIA I Quadrilheiro, extorsionário, proxeneta, comerciante de peixe no Brasil, Lavitola chantageia o ex-amigo Berlusconi

 

“VOLTO E vou chutar a sua b…” Esta frase caberia na boca de alguma das inúmeras prostitutas

que Silvio Berlusconi paga para dormir em suas residências, incluindo muitas brasileiras, pelo

menos 19, segundo a Justiça italiana.  Mas quem ameaça o ex-premier é Valter Lavitola, 46 anos, autor de pregressas façanhas, algumas praticadas no Brasil. A revelar a ameaça ao lado B de Berlusconi

para alegria da mídia peninsular, embora os jornais, revistas e tevês de propriedade do ex-primeiro-ministro a tenham  obviamente ignorado, foi a própria irmã de Valter (Valterino para os amigos),

Maria, em depoimento aos promotores de Nápoles. Valterino no momento veraneia na cadeia, de onde, por meio da irmã, saboreia os efeitos da sua chantagem. Três dias depois das revelações de Maria,

seu irmão retornava à Itália, depois de passar oito meses foragido no Brasil, na Argentina e no Panamá. Era esperado pelos carabinieri e pela prisão de Poggioreale, perto de Nápoles.

 

“Temos de falar com o anão maior (Berlusconz)”, desabafou em conversa com Lavitola meses atrás Carmelo Pintabona, presidente da Federação das Associações Sicilianas na América do Sul, e integrante

do Movimento para a Autonomia da ilha, fundado por Raffaele Lombardo, o ex-governador da Sicília afastado do cargo por suas ligações com a máfia ”Uma vez que estiver fora (Berlusconi da chefia do governo), temos de sentar à mesa para jogar briscola, e é certo que ele vai perder”, continuava

Pintabona há mais ou menos um ano. Seria um jogo de 5 milhões de euros. É o preço da extorsão que custou a terceira ordem de prisão a Lavitola, a 3 de agosto passado. Com a mesma acusação,

Pintabona também foi preso. Os promotores napolitanos Henry Woodcook e Vincenzo Piscitelli verificaram o valor da extorsão, apresentado em uma carta redigida no computador de Lavitola no

Panamá e enviada para uma caixa de correio eletrônico, da qual os atuais presos possuíam a senha.

O que Valterino sabe para se habilitar ao chute nos fundilhos do ex-premier? Resposta a esta pergunta é o principal objetivo do procurador-adjunto de Nápoles, Francesco Greco. O magistrado explica como as investigações que levaram  à prisão da dupla consideraram a conduta de Lavitola após o início da sua

fuga para a América do Sul, e o “apoio logístico, operacional e financeiro” que recebeu nesse período. Segundo Greco, para os promotores fica claro que, durante a clandestinidade, Lavitola teve o apoio

fundamental de Pintabona e pediu dinheiro a Berlusconi. Além disso, os policiais italianos também coletaram informações úteis sobre a venda de bens imobiliários de Lavitola no Brasil.

A relação de Lavitola com Berlusconi  é antiga e no mínimo estranha. Mas quais são os outros segredos de Valterino? Maçom, Lavitola completa 18anos e já ingressa na loggia maçônica Arete. Seu pai, Giuseppe, além de ter sido vice–prefeito de Nápoles, foi também psiquiatra de Raffaele Cutolo, o poderoso chefão da Camorra nos anos 70. Valterino torna-se jornalista, cultiva, porém, ambições políticas. Nos anos 80, aproxima-se dos socialistas liderados por Betino Craxi (foragido da justiça italiana

depois do caso Mãos Limpas, e falecido na Tunísia em 2000). Em seguida, cai nos braços de Berlusconi.

 

o contato com o Brasil começa em 2004,  quando valter chega para administrar uma firma para o comércio de peixes no estado do Rio de Janeiro.  A Empresa Pesqueira da Barra de São João Ltda, cujo

número de registro junto ao Banco do Brasil é TA495548, carrega uma história bastante peculiar, pois mesmo tendo sede tem nosso país, não se interessa pela fauna marinha do Sul do Atlântico, segundo o

Comere dellaSera, e sim mediterrânea, incluindo “crustáceos, moluscos e de tudo um pouco”. Outras fontes afirmam o contrário, referem-se à pesca no Espírito Santo, e 90% da exportação dirigia-se para a

Europa, enquanto 10% abastecia os Estados  Unidos. Ninguém sabe onde fica a verdade, o certo é que hoje Lavitola não administra mais a pesqueira.

Como publicado na página 68 da Seção 1 do Diário oficial da União de 6 de fevereiro de 2008, Lavitola recebeu o visto permanente para ficar no Brasil. Fontes que pedem o anonimato sustentam que os negócios de Lavitola no Brasil e no Panamá foram irrigados por 3 milhões a 5 milhões de euros cada mês,

entre 2004 e 2009. Dinheiro de quem? Em maio de 2009, a pesqueira de Lavitola recebeu certamente 300 mil euros, aprovados pelo Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e da Gestão de Informação do Banco do Brasil como “importação financiada”. O mesmo aconteceu em julho de 2009, na

transferência de outros 300 mil euros da Itália para o Brasil. O início das vicissitudes de Lavitola

coincide com a primeira visita de Berlusconi ao nosso país, em junho de 2010. Na ocasião, Lavitola contratou a dançarina de pole dance Alexandra Valença, e outras cinco garotas, frequentadoras do Café photo. O inesquecível show no “privé” do hotel Tivoli Mofarrej, acompanhado de numerosa delegação oficial italiana, foi inteiramente organizado por Valterino. Depois da noitada, Lavitola deixou o

Brasil para acompanhar o premier ao Panamá, onde foi recebido com todas as honras pelo presidente Ricardo Martinelli, amigo íntimo de Valterino. De acordo com a Justiça italiana, que em poucos meses já emitiu ordens de prisão contra Lavitola por corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro,

chantagem e difamação, Lavitola entregou várias maletas de dólares para Martinelli e lhe ofereceu férias na Sardenha, na célebre Villa Certosa de Berlusconi, em agosto de 2011.Tudo isso em troca de um

contrato de 176 milhões de dólares para construir presídios e vender radares a preços inflados, por meio do colosso industrial italiano Finmeccanica, que Lavitola representava no Panamá. Ao cabo, a troca não deu certo e também no Panamá vieram à tona as maracutaias de Lavitola.

 

Traço de distinção

DESICiN I Conferir personalidade a empresas e ambientes públicos é a expertise do arquiteto João Carlos Cauduro

 

OS BANCOS BTG e Pactual estão juntos desde 2009, mas foi neste ano que a maior novidade das finanças

brasileiras decidiu criar uma identidade visual capaz de refletir a vida da companhia pós-fusão.

Resultado da inventividade de uma das consultorias pioneiras do design de marca, a saída encontrada pela Cauduro Associados foi acompanhar o movimento do mundo dos negócios. Os dois

logos originais foram alinhados em um mesmo campo, abandonou-se o fundo escuro onde estava inscrita a sigla BTG, com maior destaque para o nome do banco. Agora apenas um estilo de fonte é usado na composição.  Consultor de, vá lá, branding, como se diz no mundo da publicidade, o arquiteto

João Carlos Cauduro e sua equipe navegam por esses meandros há tempos: 45 anos, no caso de Cauduro, desde sua formatura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Detalhes nada triviais

para quem é do ramo. No caso do BTG Pactual, a ideia também foi ressaltar as melhores características dos logos originais. Detalhe do detalhe, diria o leigo, mas não é de outra forma que as coisas

se dão nessa seara. Referência há décadas na área, um portfólio peso pesado, Cauduro mergulhou

nesse mundo quando o design de marcas ainda engatinhava. Calcular o valor intangível das companhias não fazia parte do dia a dia das empresas quando os controladores do Grupo Villares, então um gigante da metalurgia nacional, quiseram incorporar à sua imagem as quatro divisões de negócios: aço, elevadores, equipamentos e peças. O conglomerado pressentiu que devia repensar a sua identidade e, para isso, seria necessário ver a marca como um “sistema”, não mais como mero carimbo de

propriedade. O conceito final, apresentado à empresa por Cauduro, à época parceiro de Ludovico Martino, de quem seria sócio por vários anos, foi considerado revolucionário. A família comprou a

ideia e deu espaço ao espírito empreendedor dos jovens arquitetos.

 

“Verifiquei que a ideia de ver o conglomerado como um todo não existia nem na marca nem na prática”, relembra Cauduro. O projeto dos quatro logos semelhantes e da sinalização igualmente uniforme

não combinava com a evidente identidade própria das divisões. Quando a Villares decidiu unificar de fato a gestão das quatro unidades, Cauduro propôs a marca única, em preto e branco, uma forma de facilitar a pintura em diferentes meios, como os caminhões das companhias. O signo de comando seria seguido da palavra Villares e a divisão das empresas ficaria em segundo plano. “Foi nossa grande escola”, diz o arquiteto, hoje com 77 anos. Quando topou com o case pioneiro, Cauduro acabara de voltar de uma pós- -graduação na Itália. “Lá, entrei em contato com uma linguagem visual nova e voltei querendo muito trabalhar com isso.” No rol de clientes, a Vale destacou-se a partir de um investimento de 50 milhões

de dólares para mudar a sua marca em 2007, uma década após a privatização. O grupo de trabalho de Cauduro foi contratado para construir a nova cara da ex-estatal de mineração. “Amarca reflete a essência.

Se a empresa muda, ela também tem de mudar. Começamos pesquisando qual era a missão da companhia, seus valores, tudo que deveria dar subsídio ao seu novo visual”, conta Carlos Dranger,

diretor da Cauduro Associados. Foram quatro meses de trabalho intenso. “Percebemos que a atividade de mineração era vista com ressalvas, por ser extrativista. E buscamos enfatizar os produtos viabilizados pela Vale, mas que estavam no dia a dia das pessoas”, diz Dranger  Sai de cena o peso do minério de ferro, entra em campo a leveza de um “aparelho” para corrigir os dentes de uma menina.

O antigo logo inspirado na bandeira  brasileira foi deixado de lado. A Vale queria ser global, ainda que o “verde-amarelo”  tenha sido mantido. “O formato do novo logo pode ser associado ao V de Vale,

mas também aoV de vitória. Tem gente que vê um coração, outros veem o símbolo do infinito. E outros, os morros de Minas”, diz Dranger. O novo visual se impôs amplamente. Foi aplicado nos trens usados para transportar o minério de ferro, com uma pintura mais chamativa como medida de segurança,

nas minas, que ganharam totens brancos de sinalização, sinônimo de limpeza, em todo o material de comunicação e uso interno distribuído no mundo. “A marca está em todos os lugares”, resume.

O trabalho de Cauduro não se limita à esfera empresarial. O fato de ter criado a sinalização da Avenida Paulista e nova cara para os trens de São Paulo tornou-se a menina dos olhos do arquiteto, inclusive

porque o design de ambientes é considerado peça-chave. Foi Cauduro quem trouxe à via-símbolo da cidade, em 1973, os postes de uso múltiplo, aqueles totens negros de 7metros de altura que reúnem toda

a sinalização de trânsito, únicos em toda a megalópole. “Pensamos como a Avenida Paulista poderia ser mais informativa sem ser poluída. Unificar o suporte da  sinalização foi uma solução para atender

pedestres e motoristas”, diz Cauduro. Nem tudo do projeto original foi mantido ao longo do tempo. Estruturas como os pontos de ônibus foram modernizadas, e, sintomaticamente, os espaços reservados

às vendedoras de flores e aos pipoqueiros acabaram sendo licitados e entregues a empresas, que não gostaram do modelo aberto ao público e as cercaram de vidro.

 

Cauduro lamenta as alterações constantes dos vários governos municipais. “As pessoas não sabem andar de ônibus em São Paulo, é uma cidade complexa.” Seu último projeto foi o de redesenho da

marca da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O uso da cor vermelha foi a solução para estabelecer a identidade entre os diversos tipos de trens e as estruturas das estações. pioneirismos à parte, o design de marca tem uma história recente. Foi apenas após os anos 1980 que as empresas passaram a olhar além dos seus produtos físicos. “As companhias começaram a repensar

suas características e como gostariam de ser vistas, o que hoje é essencial”, diz Daniela Khauaja, coordenadora de marketing da ESPM. Para a professora, a compra da Kraft Food pela Philip Morris, em 1988,por um valor bem superior ao indicado no balanço da empresa de alimentos mostrou a existência de um ativo a mais que não podia ser ignorado. “As empresas viram que a marca valia muito dinheiro”, diz a

especialista. Mas ainda com pouca repercussão no exterior, ao contrário da Vale. “Quase não há empresas nacionais nos rankings de sucesso no mundo. Elas não são conhecidas, o que influencia muito

as exportações em um tempo em que os produtos são cada vez mais similares.”

 

 

 

À cata de marcianos

THE ECONOMIST I o pouso em Marte da Curiosity, maior e mais sofisticada sonda exploratória enviada ao espaço, retoma a busca por vida extraterrestre

 

SE OS MARCIANOS existem, qualquer um que esteja perto da cratera Gale no equador de Marte vai ter uma surpresa. Na segunda-feira 6, uma sonda-robô movida a plutônio, do tamanho de um carro, foi depositada em sua superfície. É o Laboratório de Ciência de Marte (MSL, em inglês) da Nasa, a maior e

mais sofisticada sonda exploratória enviada a qualquer região do sistema solar. Ela vai a Marte por vários motivos, mas a parte mais divulgada da missão é continuar a caçada por sinais de vida extraterrestre.

Passados 36 anos da chegada dos robôs Viking americanos, projetados para ver se o solo rochoso marciano abrigava micróbios alienígenas, os astrônomos ainda não têm certeza se o planeta foi habitável algum dia.O consenso é que a missão Viking nada encontrou. E Marte certamente é um lugar inóspito. As temperaturas podem cair a menos de 100 graus, muito abaixo daquelas da Antártida, e a atmosfera extremamente fina não ajuda a atenuar a radiação solar que bombardeia uma superfície tão seca como qualquer deserto da Terra.

 

Existem motivos para se acreditar que o planeta vermelho nem sempre foi árido. Dados de missões anteriores deixaram os cientistas planetários convencidos de que em um passado distante Marte foi muito

mais úmido que hoje.Aágua é amplamente considerada essencial para a vida, graças às suas propriedades de solvente. Uma atmosfera mais densa, menos erodida pelo vento solar, poderia ter permitido que grandes corpos de água persistissem por longos períodos na superficie ou perto dela.

Isso poderia ter bastado para a vida começar. Ageologia sugere que a vida primitiva,

ao menos, começa com relativa facilidade. Os primeiros vestígios de organismos vivos na Terra datam de 3,8 bilhões de anos, não muito depois de o planeta esfriar o suficiente para que a água líquida

se condensasse, e pouco depois do Bombardeio Pesado Tardio, uma chuva de meteoritos que durou centenas de milhões de anos, começasse a se atenuar. Alguns cientistas, inspirados pela descoberta

nos anos 1980 e 1990 de “extremófilos”, bactérias que toleram facilmente um calor escorchante, pressão esmagadora, radiação de fritar e outros insultos na Terra, mantêm esperanças de que alguns

marcianos empedernidos possam existir ainda hoje, talvez abaixo da superficie. Nesse caso, nem mesmo o Curiosity, como é chamado o robô, tem probabilidade de encontrá-los. Ele carrega instrumentos

de alta tecnologia, entre eles, um laser para vaporizar rochas (para melhor analisar sua composição química) e uma furadeira para sondar abaixo da superfície para explorar o registro químico e buscar qualquer molécula orgânica que possa ter sobrevivido. Também examinará a atmosfera, prestando especial atenção aos níveis de metano, que alguns cientistas pensam que podem ser altos o suficiente

para sugerir algum tipo de atividade metabólica. Se ele encontrar provas convincentes de que um dia Marte pode ter sustentado vida, seria uma grande descoberta e levantaria esperanças de futuras

missões destinadas a procurar explicitamente células vivas, como o robô europeu ExoMars. Mesmo que o Curiosity não encontre nada, há outras possibilidades no sistema solar: Enceladus, a lua de Saturno,

por exemplo, parece ter um oceano subterrâneo rico em compostos orgânicos.

 

Mas, hoje em dia, a busca por mundos habitáveis não se limita ao sistema solar. Em 28 de julho, a Nasa divulgou a última série de dados de seu telescópio espacial Kepler. Ele é projetado para procurar

“exoplanetas” em órbita de outras estrelas. Sua existência é sugerida por uma pequena queda de luminosidade causada quando um planeta transita na frente de sua estrela-mãe, como vista da Terra.

Lançada em 2009, a missão Kepler deverá observar cerca de 150mil estrelas na Constelação de Cygnus, avaliando todos os planetas que encontrar para discernir e aqueles do tamanho da Terra, temperados

e habitáveis, são comuns. Embora sua presença tenha sido cogitada há muito tempo, nenhum exoplaneta foi verificado até 1995,quando o primeiro foi descoberto por uma equipe usando um telescópio

baseado em terra. Hoje a Kepler e a missão Corot da Agência Espacial Europeia procuram outros ativamente. Ao lado das observações em terra, isto levou a uma revolução na astronomia empírica, enquanto teorias especulativas sobre quantos planetas podem existir são substituídas por uma riqueza de dados concretos. Esses dados ilustram claramente os perigos de se contar com teorias. “Teóricos

foram deixados completamente na poeira pelas coisas que o Kepler descobriu”, diz Alan Boss, especialista em exoplanetas do Instituto Carnegie em Washington. Por exemplo, pesquisas de exoplanetas sugerem que as estrelas com baixa concentração de elementos “metálicos”

(ojargão astronômico para qualquer coisa que não seja hidrogênio e hélio) têm a mesma probabilidade de abrigar planetas rochosos que as estrelas com alta metalicidade. Como as estrelas e os planetas

se condensam a partir do mesmo disco de poeira interestelar, os astrônomos esperavam que os discos com altos níveis de elementos metálicos, como ferro e silício, teriam maior probabilidade de formar

planetas rochosos. Os dados do Kepler indicam outra coisa. Em 31de julho, um site da web mantido

pelo astrônomo Jean Schneider, do Observatório de Paris, lista 777 exoplanetas confirmados. Somente o Kepler descobriu outros 2.321 possíveis mundos alienígenas. Números tão grandes permitem

pela primeira vez que análises estatísticas substituam a especulação. Dos candidatos do Kepler, 246 têm 1,25vez o raio da Terra ou menos. Outros 676 têm de 1,25 a duas vezes essa largura, substancialmente

maiores, mas, provavelmente, ainda com superfícies rochosas.

 

Um total de 46 planetas candidatos foi encontrado orbitando dentro das zonas habitáveis de suas estrelas, onde as temperaturas devem permitir a presença de água líquida. Desses, dez são aproximadamente do tamanho da Terra. E esse número provavelmente aumentará dentro de um ano

ou mais. Como são necessários três trânsitos para declarar a descoberta de um candidato,

qualquer planeta realmente semelhante à Terra, os que estão na zona habitável de uma estrela parecida com o Sol e cujo período orbital é, portanto, aproximadamente de um ano terrestre, só agora começará

a aparecer nos dados do Kepler. Alguns astrônomos já se sentem confiantes para começar a extrapolar a

partir dos dados do Kepler para determinar quantos planetas semelhantes à Terra podem existir.

Seth Shostak, astrônomo do Instituto Seti na Califórnia, explicou em 2011 que poderia haver 30 mil mundos habitáveis a mil anos-luz da Terra, uma distância minúscula pelos padrões galácticos. Um trabalho de Wesley Traub, cientista-chefe do Programa de Exploração de Exoplanetas

da Nasa, estimou que 34% das estrelas parecidas com o Solpoderiam abrigar planetas habitáveis. Isso implicaria a existência de dezenas de bilhões desses mundos somente na Via-Láctea.

 

o mestre da miséria

TheObsena I Com despudorada teatralidade pictórica, o páthos de Edvard Munch revive em estimulante exposição na Tate Modern em Londres

 

NÁ UM autorretrato nesta estimulante exposição O Olho Moderno, na Tate Modem em Londres até

14 de outubro, em que Edvard Munch (1863-1944) está nu e sangra sobre uma mesa de operação. Uma enfermeira segura uma tigela cheia de sangue e uma grande mancha se espalha pelos

lençóis. Não um, mas três cirurgiões estão trabalhando, e dezenas de estudantes observam as agonias pela janela do teatro: testemunhas, como nós, do martírio do artista norueguês. É uma imagem cômica, se você for um fanático por fatos. Rejeitado por sua amante, Tulla Larsen, Munch havia apontado uma arma contra si mesmo durante uma última briga, estrategicamente errando tudo, menos um dedo da mão

que não usava para pintar. Não houve necessidade de grande cirurgia. O quadro é uma performance, um J’accuse público feito para ser exibido em uma galeria de Oslo onde todo mundo, incluindo

TuBa Larsen e a mídia, pudesse vê-lo.

 

É exatamente o que se poderia esperar de Munch, aquele velho e exuberante miserabilista: exagero a serviço da verdade. Na Tate Modem, TuBa também é retratada como uma assassina em uma câmara

ensanguentada ou uma vampira na noite. Munch como um cadáver esfaqueado em um sofá, um braço inerte pendurado como Marat no grande retrato fúnebre de David. Aimagem é tão transparente

como um cartaz de propaganda e igualmente tendenciosa, mas quem não reconhece a potência de seu sentimento? Você me apunhalou pelas costas, arruinou minha vida, arrancou meu coração!

Raramente há necessidade de títulos, embora as pinturas frequentemente sugiram legendas cômicas. Munch encontra retórica pictorial para cada expressão, tornando as metáforas visuais, para não dizer literais. Aquela mancha no lençol do hospital tem na verdade a forma de um coração humano retirado do corpo, mas também parece algo mais picante e pessoal, o rosto apavorado de O Grito.

 

Visite essa exposição se puder. Os maus tempos são sempre bons com Munch. Ele não se envergonha quando se trata de autocomiseração, hipocondria, ciúme ou remorso, nunca é orgulhoso demais para

confessar desejo ou depressão. Ele é o amigo que não censura a história como o restante de nós poderia fazer, não finge resignação, serenidade ou perdão. Suas emoções são abertas e energicamente diretas.

Sua arte é francamente revigorante. Isso se deve em parte à sua ardente teatralidade. As mais de 60 pinturas dessa exposição são·maiores do que se espera e declaram seus significados com tal força gráfica e clareza que nunca nos perguntamos o que está acontecendo no palco. O inferno

de um relacionamento sem amor, a miséria da solidão, o poder magnético.do sexo, ou o medo dele. Vocêsabe como é,você entende a sensação, poderia ser qualquer um de nós. Esse é o princípio sobjacente, e a presunção do trabalho de Munch Então, a hipérbole torna-se um meio

para alcançar a verdade universal, com o artista se apresentando para todos os outros: solitário, doente, inebriado, tolo, atingido pela gripe espanhola, rejeitado pela amante, perdendo a cabeça ou a visão.

Os autorretratos constituem mais da metade da exposição, e embora os exageros de Munch possam ser cômicos, pense no pequeno gritador, com as mãos no rosto como se fosse construído por uma fofoca

especialmente escandalosa, não há motivo para se acreditar que sejam insinceros. Órfão de mãe aos 5 anos, vítima de um pai excêntrico e punitivo, que o obrigou a sair da cama à meia-noite para

assistir à morte de sua irmã mais próxima, ele era um alcoólatra que sofreu dois colapsos nervosos e uma vida de amargura e morte. Munch é um artista adequado para o século XIX, que desfila suas feridas em nosso benefício. Exceto que ele só morreu em 1944. Três quartos da obra de Munch foram feitos no século XX, incluindo várias versões de O Grito e Criança Doente, que na verdade não é um retrato de sua irmã, mas de outra criança: O objeto desta exposição amplamente revisionista é modernizar

Munch, eliminar as interpretações biográficas que corroem seu trabalho e trazê-lo para o século modernista. Obra icônica do artista, O Grito foi arrematado em maio deste ano em concorrido

leilão na Sotheby’s em Nova York. Por telefone, um anônimo deu o lance máximo já obtido por uma obra de arte: 119,9milhões de dólares. Orecorde até então pertencia a uma tela de Pablo Picasso, Nu, Folhas Verdes e Busto, comprada em 2010 durante leilão da Christie’s em Nova York por 106 milhões de dólares. O quadro criado por Munch em 1895pertencia ao norueguês Petter Olsen, cuja família

conheceu o atormentado artista. Munch trabalhou em séries e em diversas mídias. Citou a si próprio de uma pintura para a seguinte, introduziu o vocabulário do cinema em sua arte. O Olhar Moderno mostra como avanços na fotografia, no cinema e na iluminação influenciaram seu trabalho, o que ele pode

ter tomado de Degas, Caillebotte e das gravuras japonesas que viu em Paris (previsivelmente, ângulos acentuados e espaço achatado). O catálogo pode correr o risco de transformá-lo em um pós-modernista,

mas é bom ter o enfoque curatorial sobre a arte, e não sobre a angústia.

 

As composições de Munch são atordoantes. Pontes que se projetam na distância, figuras correndo em nossa direção como trens saindo de um túnel, corpos caídos como árvores em uma floresta.

Os trabalhos estão agrupados por ideia pictórica. A Tate Modern tem as diferentes versões de Criança Doente, em que a própria tinta parece chorar, ou borrada, ou morta como poeira, cada vez equiparada

à emoção, de modo que vemos que as famosas repetições de Munch são experimentais,

e não meramente comerciais. Mas o que a exposição parece evitar é a fonte de sua longevidade, o que mantém Munch moderno mesmo quando seus temas são beberrões sifilíticos de colarinhos

engomados ou Medusas puxando os cabelos em longas túnicas pretas. E isso tem a ver com seu extraordinário dom para cunhar arquétipos e formas. A figura solitária sobre uma ponte, delineada

por violentas ondas de rádio, o sólido bloco de amantes unidos por atração fatal, o verme, a ameba, o buraco da fechadura, o rosto em forma de diamante com marcas de pontuação nos olhos, as

sombras que vazam de corpos nus como manchas que se espalham. Você os reconheceria

em qualquer lugar, juntamente com as belas cores e aquela original alternância

de pinceladas bruscas e fluidas. Nada disso está além da paródia, especialmente não o rosto que grita. De fato, é difícil dizer o que Munch pretendeu ao repetir essa forma e Na Mesa de Operação,

senão alguma espécie de piada. Mas olhe para a Mulher Chorando, ou melhor, as dez mulheres chorando na Tate Modern, um nu com olhos escondidos e a cabeça pendente. É uma imagem fraca

não porque Munch a pinte mal, embora haja um tremor na pincelada que não se transmite como passivo-agressivo (uma das forças singulares de Munch). A mulher é apenas um nu convencional, não a

forma simbólica ou carga psicológica. A pintura poderia ser de qualquer pessoa. E as fotografias de Munch, super-representadas aqui, são igualmente banais e anônimas. De fato, essas imagens mecânicas, especialmente os superexpostos filmes caseiros do artista espreitando entre a hera, parecem empurrá-lo ainda mais para o século XIX, como ouvir Tennyson a recitar A Carga da Brigada

Ligeira no fonógrafo moderno.

 

“A fotografia”, Munch escreveu, “nunca competirá com a pintura na medida em que a câmera não pode ser usada no céu ou no inferno.” O homem ciumento em seu quarto verde e amarelo, uma porta aberta

revelando um casal que se beija e pode ser imaginário ou real, o trio de zumbis em Sala da Morte, tão enlutados que poderiam estar mortos, sangue na neve, claustrofobia negra, exaustão vibrante e paranoia:

suas pinturas sempre mostram muito mais do que as lentes poderiam revelar. A mais longa luta na vida de Munch foi contra o temor da extinção que obscurece nossos dias, e ela produziu sua maior obra-

-prima, Entre o Relógio e a Cama. O artista é visto em sua atitude tardia, as pernas abertas, braços pendurados junto ao corpo, emparedado entre o relógio e a cama estreita, ambos arautos da morte. Como representação de um velho que se esforça para permanecer ereto é incomparavelmente

pungente, não há necessidade de exagero: vida e arte são uma, finalmente, e também heróica. Há coragem na desolação de Munch, universal e inspiradora. É um final soberbo para esta exposição.

 

 

ocopista

da revolução

LIVRO I o historiador Stephen Greenblatt mostra como a descoberta de um poema da Antiguidade deu asas ao Renascimento

 

CONTA-SE QUE Maomé ouvia a palavra de Deus e a transmitia a seus escribas. Um dia, enquanto ditava

ao escriba Abdullah, hesitou, interrompendo a frase ao meio. Instintivamente, o escriba sugeriu-lhe o final da frase e Maomé, distraído, aceitou a emenda como sendo a palavra divina. Este fato escandalizou Abdullah, que abandonou o profeta e perdeu a crença. Desta anedota, o escritor Italo Calvino observa

que ao copista faltou a fé não em Deus, mas na escrita e em si mesmo, como operador da escrita. A anedota pode não ser verdadeira, mas revela as condições nas quais foi escrita e transcrita

a maioria dos textos antes do aparecimento da prensa de Gutenberg.

 

A história também ilustra a trajetória de Poggio Bracciolini, um homem baixo, afável, ardiloso, grande piadista e contador de casos que viveu na Florença do final do século XV, mas não se parecia

muito com os homens de sua época, ainda tão marcada por traços medievais. Não era padre, nem teólogo, nem jurista, nem inquisidor. Estudou muito, adquiriu raros conhecimentos de latim e grego e,

mais importante, tornou-se um competente escriba com excepcional caligrafia. Ainda jovem, conseguiu o cargo de scriptor, um redator profissional do Vaticano. Mas, quando estava para ser promovido

a secretário apostólico do papa, perdeu o cargo porque o pontifice, Baldassare Cossa, um notório corrupto, foi destituído, condenado e preso. Frustrado com sua crise profissional, Poggio voltou-se cheio

de ânimo à sua atividade de caçador de livros, os quais, naquela época, não passavam de rolos (volumen, do latim) de pergaminhos mofados, carcomidos de traças e praticamente indecifráveis. Foi assim que em 1417 descobriu, na biblioteca de um mosteiro, Da Natureza das Coisas, do

poeta-filósofo romano Lucrécio, um livro de poemas até então dado como perdido, e logo providenciou sua cópia. Essa é a tortuosa e fascinante história que serve de inspiração ao historiador de

Harvard e especialista em Shakespeare Stephen Greenblatt emA Virada, o Nascimento

do Mundo Moderno (Companhia das Letras, 282 págs., 39 reais), um estudo sensível e engajado que ilumina um aspecto obscuro da história cultural, o da descoberta e recepção dos clássicos da

Antiguidade pelos humanistas do Renascimento. Como toda virada cultural na história, esta foi silenciosa, lenta, equívoca e muito longe de ser associada a uma imagem dramática de guerra, revolução

ou descoberta de um novo continente.

 

 

 

Ela foi associada, em primeiro lugar, à sobrevivência física dos livros. Embora o papiro e o pergaminho fossem mais duradouros que nosso papel barato, o desaparecimento material dos livros clássicos da Antiguidade por efeito das contingências do clima, das pragas e outros flagelos revelou-se enorme, apenas não maior do que o obscurantismo dos primeiros séculos medievais, marcados

de um lado pelo forte recuo do letramento entre os bárbaros e, de outro, pela perseguição e omissões deliberadas da Igreja. Greenblatt recupera a pouco conhecida história do romano Lucrécio e do quanto seu poema atuou como catalisador, ainda na Antiguidade romana, do legado de dois notáveis inconformistas, Demócrito e Epicuro. Foi por acaso que um monge, em um lugar qualquer do século IX, copiou o poema de Lucrécio antes de ele desaparecer para sempre. Também por acaso tal cópia

escapou de todas estas intempéries, naturais e humanas, por cerca de 500 anos, até chegar às mãos de Bracciolini. ”Virada” é um vocábulo que aparece no poema de Lucrécio: um pequeno desvio

que tira as coisas do mundo do seu trajeto natural, no qual os átomos, infinitos e indivisíveis, colidindo uns contra os outros, indiferentes a quaisquer desígnios dos deuses, fundem-se num arranjo novo e contingente. Outras ideias veiculadas no poema de Lucrécio? Todas as religiões organizadas se baseiam em desejos, medos e ignorâncias enraizados: os seres humanos projetam imagens de poder, beleza e segurança que gostariam de possuir e, ao moldar seus deuses de acordo com estas imagens, tornam-se

escravos dos próprios sonhos. Tudo não gira em torno de nós e do nosso destino e a encarnação é particularmente absurda. Por que os humanos se considerariam tão superiores às abelhas, elefantes, formigas ou quaisquer outras espécies a ponto de achar que Deus fosse assumir forma humana e não outra qualquer? Não é preciso continuar o resumo do longo poema de Lucrécio, incluindo suas

efusões eróticas, para perceber o quanto tais ideias demoliam as concepções vigentes

no início da modernidade.

 

 

 

Contudo, é preciso lembrar que, à época de Bracciolini, a leitura de Lucrécio dependia do domínio de um latim muito bom, restringindo a circulação do poema a uma elite intelectual. Até mesmo a cópia

produzida por Bracciolini desapareceu. Ainda assim, graças à teimosia de outros copistas, os manuscritos sobreviveram e foram lidos por gente como Galileu, Giordano Bruno, Maquiavel, Montaigne, Thomas

More e Shakespeare. Séculos depois, impressos e traduzidos em várias línguas, foram sorvidos por Voltaire, Darwin, Thomas Jefferson e Freud, num exemplo fascinante de como o faro de um bibliomaníaco

compulsivo acendeu uma pequena brasa na fogueira de uma reviravolta cultural. Greenblatt só exagera ao simplificar demais a recepção que o cristianismo medieval deu aos clássicos greco-romanos.

Foram os próprios sábios renascentistas dos séculos XV e XVI a forjar esta simplificação quase caricata. Durante gerações medievais, cristãos mais cultos permaneceram mergulhados numa cultura moldada por clássicos pagãos. Assim, o platonismo deu ao cristianismo seu modelo de alma, o aristotelismo

forneceu-lhe a ideia de causa primeira e o estoicismo, seu modelo de providência divina. Só o epicurismo não deu em nada, isto porque foi apagado, distorcido ou censurado. E, neste ponto, o estudo

de Greenblatt é reveladoro Ao contrário de Abdullah, aquele inseguro escriba de Maomé, Bracciolini confiava na sua técnica e no seu faro e passou a ser visto pelos conterrâneos como uma espécie de

curandeiro mágico, que recompunha e animava o cadáver dilacerado e mutilado da Antiguidade. Seus conterrâneos eram florentinos ilustres como Brunelleschi, Donatello, Fra Angelico, Paolo Ucello,

Leon Battista Alberti e Piero della Francesca. Para alguém que amou os livros, haveria melhor companhia?

 

 

 

 

 

 

 

Conhece o Passaralho? A assombrar

redações de todo o País, a ave que

fez seu primeiro rasante em 1973 volta

e meia ceifa profissionais

 

QUAL JORNALISTA não enfrentou um passaralho? Os das gerações mais recentes, que

pontificam nas redações de hoje, entretanto, não devem saber a origem da expressão e sua definição.

Eis a história. Dizia-se nas redações do Rio de Janeiro que a guerra árabe-israelense, em

1973, fez um grande estrago na imprensa carioca: a defenestração de Alberto Dines

do comando do Jornal do Brasil, no início de dezembro daquele ano, resultou

no maior passaralho da história das redações nacionais. E foi mesmo! A médio prazo, todas as chefias ligadas a Dines e Carlos Lemos foram caindo, de uma maneira ou de outra – a maioria

para nunca mais voltar e quase todas indo parar na folha de pagamento da Rua Irineu Marinho, 35; da Praia do Russel, 434; ou da Rua Lopes Quintas, 303.

 

Na diáspora daqueles bravos caciques, Dines, hoje observando os achados e perdidos da imprensa cabocla, foi parar na Universidade Columbia, depois na Folha e, finalmente, na Editora Abril; Lemos

viu-se na Rádio JB, teve o passe comprado pela Rádio Globo, em seguida foi para a sucursal de Brasília do vibrante vespertino, dirigiu a Agência Globo e, aposentado, está na TV Brasil; Marina Colasanti,

jornalista e escritora, é autora de best sellers, como seu livro de memórias Minha Guerra Alheia; Armando Strozenberg foi o poderoso chefão de uma das agências de propaganda mais criativas do Rio de

Janeiro, a Contemporânea, e agora comanda a Casa do Saber; Sérgio Noronha comenta futebol na SporTV; este, digamos, memorialista saiu do B direto para a coluna de Carlos Swann, também no Globo,

onde trabalhou por dez anos, ficou quase 20 anos na área de Comunicação da Petrobras e escreve estas maltraçadas desde 1996; e, assim, a banda tem sido tocada por outros ex-jotabeanos.

Muito embora o velho JB ainda permaneça vivo no coração da gente, a verdade é que aquele grande passaralho de 1973 foi traumático e, portanto, inesquecível. Naquele clima de velório, fofocas

e insegurança, um copidesque do JB produziu um dos melhores textos da imprensa brasileira.

Até hoje inédito e de autor(es) desconhecido(s), é uma obra-prima que reúne bom humor, cultura, informação. Alguns o atribuem ao então redator Joaquim Campelo, mas não há unanimidade.

Trata-se do verbete Passaralho, que aqui vai reproduzido na íntegra:

 

Passaralho s.m (brasl). Designação popular e geral da ave caralhiforme, faloide, família dos enrabídeos (Fornicator caciquorum MFNB &WF). Bico penirrostro, de avultadas proporções, que lhe confere

características específicas, próprio para o exercício de sua atividade principal e maior: exemplar. À sua ação antecedem momentos prenhes de expectativa, pois não se sabe onde se manifestará com a voracidade que, embora intermitente, lhe é peculiar: implacável. Apesar de eminentemente

cacicófago, donde o nome científico, na história da espécie essa exemplação não vem ocorrendo apenas em nível de cacicado. Zoólogos e passaralhófitos amadores têm recomendado cautela e

desconfiança em todos os níveis; a ação passaralhal é de amplo espectro. Há exemplares extremamente onívoros e de atuação onímoda. Trata-se este do mais antigo e puro espécime dos Fornicatores,

sendo outros, como p. ex., o picaralho, o birroalho, o catzralho etc., espécimes de famílias espúrias submetidas a cruzamentos desvirtuados do exemplar. Distribuição geográfica praticamente mundial. No

Brasil, é também conhecido por muitos sinônimos, vários deles chulos. Até hoje discutem os filólogos e etimologistas a origem do vocabulário. Uma corrente defende derivar de pássaro + caralho, por

aglutinação; outra diz vir de pássaro + alho. Os primeiros baseiam-se em discutida forma de insólita ave; os outros, no ardume sentido pelos que experimentaram e/ou receberam a ação dele em sua plenitude.

A verdade é que quantos o tenham sentido cegam, perdem o siso e ficam incapazes de descrever o fenômeno. As reproduções que dele existem são baseadas em retratos falados e, por isso, destituídas

de validade científica. Como dizia o escritor alemão Christian Morgenstern, “es ist das Unglück de

franzosen zu gut schreiben zu kõnnen”, ou seja, “a infelicidade dos franceses é saber escrever bem demais”. No caso do JB, sua infelicidade foi ter perdido um copidesque que escrevia bem demais, a ponto de produzir esse texto definitivo sobre o bicho que adora fornicar jornalistas.