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O Liberal – Americana 22-07-12 360 graus 21

OS 50 ANOS DA FAPESP

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) comemora este ano meio século de investimentos em projetos acadêmicos e científicos que beneficiam centros de estudos e universidades paulistas. É um centro de excelência. Entre as principais realizações, destacam-se os financiamentos nos campos do projeto Genoma, inovações na produção do etanol, biodiversidade, sustentabilidade, bioenergia e mudanças climáticas globais. Em 2011, a Fapesp investiu R$ 912 milhões em pesquisas.

 GLOBAL Celso Lafer, presidente da Fapesp, destaca como uma constante nos últimos anos a internacionalização da fundação, por meio de acordos com entidades congêneres no mundo. É uma resposta, segundo ele, ao desafio da interação entre pesquisadores nacionais e estrangeiros, fundamental para o avanço do conhecimento. O diretor científico da entidade, Carlos Henrique de Brito Cruz, afirma que a ciência em São Paulo tem crescido em quantidade e qualidade.

 EXPORTAÇÕES EM ALTA. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) divulgará nesta segunda-feira a participação dos municípios paulistas na pauta de exportação entre janeiro a junho de 2012. As cinco primeiras posições no ranking das exportações das regionais do Ciesp, pela ordem, são: São Paulo (capital), São José dos Campos, Santos, São Bernardo do Campo e Campinas. Juntas, elas são responsáveis por 45,6% do total das exportações do Estado de São Paulo. Exportaram US$ 13,6 bilhões, 3% a mais do total exportado no 1Q semestre de 2011.

EXPORTAÇÕES (2). Os principais setores exportadores do Estado são: soja, refino de açúcar, veículos automotores, máquinas e equipamentos, peças e acessórios para veículos automotores, produtos derivados de petróleo e aeronaves. Os principais países de destino são: China, Estados unidos e Argentina.

 AGRONEGÓCIOS. O primeiro Parque Tecnológico do Interior Paulista focado em agronegócio será criado em Barretos, o AgroPark,

com investimentos do governo paulista da ordem de R$ 6,1 milhões. Integração entre agricultura e pecuária, programas de qualidade de alimentos e controle de resíduos de medicamentos são as ações prioritárias. O AgroPark ocupará uma área de 1 milhão de metros quadrados, próxima ao aeroporto local. Laboratórios, órgãos públicos, centros de pesquisa, instituições de ensino, empresas incubadas, hotéis e centro de convenções fazem parte do empreendimento.

 MELHORIA NOS RIOS. Relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) revela melhoria na qualidade da água de alguns dos principais rios do estado de São Paulo. O estudo Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil — Informe

2012 descreve a atual situação dos recursos hídricos do Brasil e os principais avanços. O documento relaciona 47 unidades de medição que apresentaram melhoras, das quais 37 estão nos rios paulistas. As regiões paulistas que se destacam pelas melhorias são Baixada Santista, Litoral Norte, Vale do Paraíba, Campinas e Presidente Prudente.

 REGIÃO METROPOUTANA. São José do Rio Preto, poderá ser a sede de região metropolitana com. 30 municípios se for aprovado projeto do deputado João Paulo Rillo (PT). A proposta já. passou pelas comissões de Assuntos Metropolitanos e Municipais e de Constituição, Justiça e Redação. Falta o parecer da Comissão de; Finanças, Orçamento e Planejamento, antes’ de ser apreciada pelo plenário.

 

REVISTA. Para marcar os 50 anos de Fapesp, a revista Pesquisa produziu alentado e denso número especial em 258 páginas com 50 reportagens relativas a igual número de projetos apoiados pela fundação ao longo de sua: história. Aversão digital pode ser lida no site http://www.revistapesquisa.fapesp.br

 BREVES. Faleceu quinta-feira, aos 75 anos, o deputado estadual e ex-prefeito de Jundiaí Ary: Fossen. Vítima de pneumonia, no Hospital AI· bert Einstein, em São Paulo.

A partir deste mês, a agência de fomento paulista Nossa Caixa Desenvolvimento passa a chamar-se Desenvolve SP — Agência de Desenvolvimento Paulista. Para acompanhar a situação dos candidatos a prefeito e a vereador em todo o País: http:// divulgacand2012. tse.jus. br

Epoca 23/07

PRIMEIRO PLANO

O salto mortal de Marissa

Uma executiva jovem e grávida lança-se a tarefa de resgatar uma companhia em apuros

A vida profissional de Marissa Mayer não parecia nada má até a semana passada. A bela americana

de 37 anos era uma das vice-presidentes do Google, uma das mais poderosas empresas de

internet do mundo, responsável por uma área importante da companhia, que inclui o Google Maps.

Ela aparece anualmente na lista da revista Fortune das 50 mulheres mais poderosas do mundo dos

negócios – estreou lá aos 33 anos, como a mais jovem da lista. Marissa vem se dedicando também

aos cargos de conselheira na rede de supermercados Walmart, no Museu de Arte Moderna de San

Francisco e no Balé Municipal de Nova York. Essa vida profissional estelar foi construída ao longo de

19 anos, desde que ela se destacou como estudante de computação e inteligência artificial na Universidade Stanford, passando pelo momento em que foi a primeira mulher engenheira contratada

pelo Google e se tornou a 20ª funcionária da empresa, em 1999. Mas isso é passado. Marissa resolveu sacudir um pouco as coisas e, na terça-feira, assumiu os cargos de presidente e executiva-chefe do Yahoo!

 

Ela deixou uma empresa em ascensão, com faturamento anual de US$ 38 bilhões e crescente, por

outra que vem definhando, cujo faturamento anual caiu 20% em 2011, para US$ 5 bilhões. Apesar

disso, diz que foi uma decisão “razoavelmente fácil”. “Não havia muito espaço para ela subir no

Google, e o que importa para Marissa é se mexer e enfrentar situações novas”, afirma o caça-talentos Marc Gasperino, da CTPartners em Nova York, especialista nos setores de tecnologia e mídia. “Se der errado, ela tem só 37 anos.”

 

Coisas difíceis para outras pessoas parecem fáceis para Marissa. No dia seguinte ao anúncio da

contratação, ela divulgou pelo Twitter que estava grávida de seis meses. Ela afirma que conciliará a

gravidez com o trabalho (para a ira de muitas mulheres nos Estados Unidos). Não se sabe quanto de

ajuda ela terá do marido, o milionário Zachary Bogue, um bem sucedido investidor em empresas

nascentes e, segundo a mulher, bom cozinheiro (Marissa admite não saber cozinhar). Os dois vivem

numa cobertura de US$ 5 milhões em San Francisco. Marissa também pratica esportes – ela esquia e promoveu grupos de corrida, natação e ciclismo em sua antiga empresa. Mas nada do que fez até hoje se compara ao desafio do novo trabalho, pelo qual receberá uma remuneração variável, a partir de US$ 1 milhão por ano.

 

Marissa assume uma empresa em apuros. Ela será a quarta pessoa a comandar o Yahoo! (sem contar os interinos) em menos de quatro anos, desde que um dos fundadores, Jerry Yang, deixou o cargo, em 2009. O executivo-chefe mais recente, Scott Thompson, abandonou o posto em maio, após quatro meses, por haver mentido no currículo. Antes dele, o cargo foi de Carol Bartz. Depois de implementar uma administração linha-dura, que incluiu demissões, Carol foi demitida por telefone e saiu reclamando por e-mail. Ainda manifestou interesse em continuar no Conselho da empresa, até perceber que não seria bem-vinda.

 

O Yahoo! tem 18 anos – um vovô entre empresas de internet – e detém ainda vantagens relevantes:

o e-mail gratuito mais usado nos Estados Unidos e a quarta maior audiência da internet

no mundo. Mas isso não tem sido suficiente para atrair anunciantes ou usuários para seu sistema

de busca. O Yahoo! Vem perdendo receita em publicidade tanto para o Google quanto para

o Facebook. Tampouco conseguiu se estabelecer nas redes sociais ou nos dispositivos móveis. Em abril, demitiu 2 mil funcionários, 14% de sua força de trabalho.

 

Marissa chega ao trabalho novo com fama de criadora talentosa de produtos e serviços, detalhista e rígida com as equipes. Ela já entrou para o pequeno grupo das mulheres dirigentes de multinacionais. Se conseguir recolocar o Yahoo! no rumo do crescimento, subirá mais alto ainda e entrará para a história da administração de empresas.

 

FELIPE PATURY

 

E o salário, ó…

 

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, negocia com o governo um aumento para os servidores do Judiciário. Há duas semanas enviou técnicos ao Ministério do Planejamento para exibir a defasagem salarial. O Planalto diz que, se privilegiar o Judiciário, passará a ser pressionado por outros setores com reivindicações semelhantes. Britto se queixa de que a corte perde funcionários por causa dos salários, que considera pequeno. Uma consulta ao departamento de recursos humanos do Supremo demonstra a alta rotatividade dos contratados desde 2008.

Na carreira de analista judiciário, metade dos admitidos para atuar com sistemas de informação se demitiu durante o período. Eles recebiam R$ 6.551. Entre os técnicos judiciários, com salários de R$ 3.993, um terço saiu

 

Mas vem pra cá, veeeim …

 

Hospitalizada por três vezes nos últimos 90 dias, a apresentadora Hebe Camargo recebeu uma ligação de seu ex-chefe Silvio Santos para estimar-lhe melhoras. Contratada pela Rede TV!,ela aproveitou a oportunidade para se queixar de salários atrasados e do desprestígio com a emissora. Em tom de desabafo, disse a Silvio que sonha em voltar ao SST para encerrar a carreira. Ele, elegantemente, respondeu que ainda não é o momento de Hebe pensar em encerrar a carreira, e sim de priorizar sua saúde. No começo do ano, ela já pedira a Ratinho que intercedesse junto a Silvio. Neste ano, Hebe já operou um câncer no intestino e retirou a vesícula.

 

Agricultura sem Fazenda

 

O ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, pediu à presidente Dilma Rousseff que reverta uma decisão do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Há duas semanas, Mantega acabou com a isenção

de 50% na alíquota do IPI para os fabricantes de refrigerantes que adicionam sucos naturais

em suas fórmulas. O setor usa 50.000 toneladas de sucos e ralhou com Mendes Ribeiro. No

Congresso, a bancada ruralista ameaça convocar Mantega para explicar a decisão em agosto. Dá para piorar: o governo quer votar o Código Florestal também em agosto e precisa dos ruralistas para

aprová-lo.

 

Domingueiro

 

O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, tem ido com frequência ao Palácio da Alvorada nos fins de semana. E não é só para discutir formas de desatolar a economia.

Ele é escalado também para apagar incêndios políticos . Recentemente, pôs panos quentes nas divergências de petistas com o ministro Guido Mantega, seu chefe.

 

Banco mundial

 

O Itaú fez um levantamento de quem são os estrangeiros que recorrem a empréstimos de microcrédito, disponíveis para quem fatura até R$ 360 mil por ano. Os bolivianos respondem por 74%do total. Outras 11 nacionalidades, pelos 26% restantes.

 

De pai para filho

 

Os Alves do Rio Grande do Norte estão na política nacional há três gerações. Mas o líder do PMDB. Henrique Eduardo Alves. não quer sucessor na vida pública. Ele desestimula o filho Eduardo.

de 25 anos. à carreira política. Músico. o rapaz toca guitarra numa banda de rock. Acabou

então? Não. o ministro da Previdência. Garibaldi Alves. primo de Henrique tem herdeiro. Seu filho Valter é deputado estadual.

 

O senhor mandou?

 

A submissão do Congresso ao Executivo é maior do que se pensa. Uma fila de quase

2.600 vetos presidenciais a propostas aprovadas pelo Senado e pela Câmara é a

prova. A Constituição diz que os parlamentares têm 30 dias para votar os vetos depois

que eles são impostos pelo Palácio do Planalto. É uma regra que ninguém cumpre. Existem vetos presidenciais que esperam votação há mais de 12 anos. Um exemplo é o que prevê a cobrança de

contribuição previdenciária de instituições religiosas.

 

Camelando

 

A principal atividade do deputado Gladson Cameli (PP-Ac) é recolher assinaturas de apoio ao desembargador Sammy Barbosa Lopes para o Superior Tribunal de Justiça no Congresso. Seu pai. o

ex-governador do Acre Orleir Carnell, perdeu o mandato por denúncias de corrupção. Na CPI do Narcotráfico. Ele foi acusado de pertencer a um cartel de drogas.

 

Vai virar mar?

 

O governador do Ceará. Cid Gomes. foi informado de que a presidente Dilma Rousseff espera uma indicação sua para a presidência do Banco do Nordeste do Brasil. Até agora, ele não se manifestou. Cid teme apresentar um nome que seja barrado nos corredores de Brasília. Ele espera que a presidente lhe faça uma oferta diretamente – e isso até agora não ocorreu. Dilma quer evitar

intrigas com Cid. Há dez dias. ela deu mostras disso ao vetar a ida de Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais, à inauguração do comitê de campanha de Elmano Freitas. Candidato do PT a prefeito de Fortaleza. Freitas não é apoiado por Cid. Ideli cancelou a visita e justificou a ausência dizendo que tivera uma indisposição.

 

Tchau e bênção

 

A prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV), enfrenta uma rejeição acachapante de 90%

da população. Sem grandes perspectivas na política,ela faz planos para o ano que vem quando não terá mais obrigações na prefeitura. Evangélica pretende partir em retiro espiritual para Miami.

onde quer recarregar as energias para tocar seu novo projeto: abrir uma sucursal da Igreja Batista da Lagoinha. de Belo Horizonte. Agora que perdeu a fé dos eleitores ela decidiu virar pastora. Até que

faz sentido. Os natalenses querem mesmo que Micarla vá com Deus …

 

Voou

 

Única fabricante de helicópteros do Brasil, a Helibrás aumentou seus quadros de 260 para

685 funcionários e ampliou a equipe de engenheiros.

 

Não voou

 

Empacaram as negociações entre a Global e a Colt. Holding de aviação executiva da Gol,

Pássaro Azul e Reali a Global ofereceu 18% de participação à Colt. Ela quer 30%. Em meio ao impasse. a Colt perdeu um sócio. Dono da Água de Cheiro. Henrique Pinto vendeu sua

parte aos sócios Alexandre Eckman e Alex Meyerfreund.

 

Arremeteu

 

A presidente Dilma Rousseff prorrogou até dezembro a classificação das empresas que disputam a venda de caças para a Força Aérea. Dilma só quer falar no assunto em janeiro. Com União

Um grupo de deputados luta para mudar a Lei de Responsabilidade Fiscal e renegociar as

dívidas com a União. Eles querem reduzir os juros cobrados. O governo avisou que facilitará a rolagem das dívidas.

 

ENTREVISTA – WALTER RUSSEL MEAD

 

“O Brasil é amaldiçoado pela riqueza”

 

Para um dos principais pensadores da política externa americana. as dificuldades econômicas desnudaram os problemas estruturais brasileiros – como a forte dependência de produtos primários

 

AIMAGEM DA ECONOMIA BRASILEIRA NO EXTERIOR MELHORARA TANTO NOS ÚLTIMOS

anos que caíra em desuso entre os estrangeiros a frase “o Brasil é o país do futuro e sempre será” – uma alusão sarcástica ao livro Brasil, país do futuro, do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), e um sinal da descrença com o potencial brasileiro. Diante da crise global e da desaceleração de nossa economia, o respeitado analista político americano Walter Russell Mead, do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores), uma das entidades mais influentes na política externa americana, perguntou, num artigo recente, se o Brasil voltaria a ser o “país do futuro”. Em entrevista a ÉPOCA, Russell Mead deixa claro que a bolha de entusiasmo com o Brasil no

exterior começa a murchar. “Ainda parece ser difícil o Brasil alcançar o desenvolvimento estável a longo prazo”, afirma.

 

ÉPOCA _ Por que o senhor acredita que o Brasil poderá voltar a ser apenas o “pais do futuro”. sem se concretizar no presente? Walter Russell Mead-O Brasil está num momento de decisão essencial.Em certo sentido, há uma espécie de repetição da história, que ecoa o século XIX.O país se aproveitou do boom de commodities que havia no mundo, mas não foi capaz de desenvolver uma indústria complexa e modernizada. Claro que não ficou parado no tempo desde aquela época.Está

incomparavelmente mais desenvolvido. Mas, novamente, é possível ver, no ciclo econômico atual, a indústria se desenvolver pouco e ser sobrepujada por outras, como a chinesa. De certa maneira, o Brasil continua parecendo uma economia que produz commodities e matéria-prima, em vez

de produtos e serviços avançados. Por outro lado, algumas das barreiras institucionais que limitavam o crescimento do Brasil no passado parecem ter sido resolvidas de modo definitivo. O estabelecimento de uma democracia sólida e o apego ao estado de direito colocaram o país em posição forte no mundo. Mas o Brasil continua sujeito às mudanças de um mercado econômico global, e ainda parece ser difícil alcançar o desenvolvimento estável a longo prazo.

 

ÉPOCA – O que faz o Brasil ter tanta dificuldade para estabelecer esse desenvolvimento estável?

Russell Mead-Se olharmos para o século XIX,os Estados Unidos e o Brasil mantinham relações comerciais quase idênticas com o Império Britânico. Ambos produziam matéria-prima para a Inglaterra e dependiam largamente dos financiamentos e do capital britânicos para investir e desenvolver sua economia. Os EUA de então foram capazes de fazer duas coisas que o Brasil não conseguiu: encontrar uma maneira de desenvolver e investir em sua própria industrialização sem

precisar, necessariamente, perder sua capacidade de exportar para a Inglaterra. Segundo, os americanos foram capazes de criar seu setor financeiro, que passou a competir cabeça a cabeça

com os bancos ingleses.O Brasil não fez nada parecido. De certa maneira, vemos isso se repetir. O Brasil tem presença maciça quando se fala em commodities, mas nem ouvimos falar dele quando se trata de produtos industriais sofisticados. Não há uma presença forte do país em serviços de alta

tecnologia. Isso é uma questão de políticas, leis e estímulos. Outro problema crônico é o baixo nível de escolaridade. O país obteve avanços significativos e louváveis na inclusão educacional nos últimos anos. Mas basta viajar pelo Brasil e comparar o nível de escolaridade dos brasileiros comuns ao de cidadãos na Espanha, na Inglaterra, na Alemanha. Compare o conhecimento de línguas estrangeiras, matemática, história, tecnologia. Há uma lacuna muito grande. Há muitos

obstáculos que o Brasil precisa superar. O país fez um grande trabalho nos últimos 20 anos, mas, para se destacar de verdade na economia global e manter um crescimento estável, precisa fazer mais.

 

EPOCA- Outros palses em desenvolvimento, como China e Índia, também reduziram suas expectativas de crescimento para este ano. A situação do Brasil é mais preocupante? Russell Mead -Eu os colocaria em categorias diferentes. Cada um desses países enfrenta uma série de problemas única e diferente, e o desaquecimento econômico global é um fator agravante diante desses problemas. Na China, o modelo de desenvolvimento econômico exclusivamente voltado

para as exportações se exauriu. Na índia, o setor moderno da economia cresce rápido, mas ainda é muito pequeno. A índia tem sérias dificuldades em produzir uma política econômica nacional coerente diante do tamanho e da variedade de sua população, com várias línguas, grupos étnicos e interesses. Os problemas no Brasil são menos fundamentais que nesses países, mas parecem mais difíceis de resolver.

 

EPOCA- Por quê? Russell Mead – O Brasil é amaldiçoado pela riqueza. Vemos, por exemplo, a

valorização excessiva do real neste último ciclo econômico, que ocorreu justamente

porque a produção brasileira de commodities é muito forte. Isso aumentou o preço de certos produtos, o que motivou e elevou o investimento, inclusive o privado, em certos setores

da economia em detrimento de outros. O Brasil, historicamente, tem uma tendência de ser empurrado na direção da produção de commodities simplesmente porque é um país muito bom para produzir soja e outros produtos como esse.

 

EPOCA – A recente lua de mel entre o Brasil e os Investidores estrangeiros acabou?

Rossell Mead – A relação entre o Brasil e os investidores é um casamento antigo. Desde o século XIX, há uma relação estreita entre investidores e o país. Só que esse velho casal briga de maneira amarga e brutal, algumas vezes. Outras vezes, se relaciona perfeitamente bem. Hoje, a relação está morna. Há uma percepção internacional de que o rápido crescimento que se esperava do Brasil não está mais lá. O crescimento brasileiro, aquele em que muitos acreditavam e outros tantos apostavam, não é mais uma certeza. Isso preocupa muitos investidores. Ao mesmo tempo, você olha para fora, para a Europa, por exemplo, e não tem a sensação de que é um lugar maravilhoso para você colocar seu dinheiro. O Brasil não perdeu seu interesse para investidores estrangeiros, é claro. A situação econômica apenas preocupa esses investidores. Se o país adotar as políticas corretas, será apenas um esfriamento momentâneo.

 

EPOCA- Quais seriam as políticas corretas?

 

RuuelI Mead – Em primeiro lugar, tentar balancear as políticas monetárias da Europa e dos EUA, que tiveram o efeito de enfraquecer o dólar e o euro em relação à moeda dos países exportadores de commodities, como o Brasil. O alto valor do real fez com que os produtos brasileiros se tornassem menos competitivos nos mercados de exportação e também em casa. O passado ainda assombra o Brasil. Depois de tantas gangorras econômicas e da hiperinflação dos anos 1980, o governo

brasileiro se assusta com qualquer sinal de crescimento pífio, A presidente Dilma Rousseff há muito tempo defende a redução da taxa de juros para estimular o crédito e o desenvolvimento de infraestrutura. Aí surge esse medo assombroso de que reduzir as taxas de juros rápido demais trará a inflação de volta. A médio e longo prazo, só medidas impopulares, reformas estruturais

e cortes nos gastos do governo podem manter a inflação sob controle sem prejuízo ao  desenvolvimento.

 

EPOCA – Algum dos países do bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) pode se tornar uma superpotência num futuro próximo? Rossell Mead – Num futuro ainda distante, é possível imaginar que a índia possa se tornar uma superpotência, por sua população e capacidade tecnológica.

Acredito que isso ainda vá demorar algumas décadas. A China, é claro, já realizou muito de seu potencial. É provável que o Brasil tenha um peso preponderante no mundo num futuro

próximo, por sua capacidade energética, seu papel na economia verde e em questões de meio ambiente. Mas não acho que o Brasil queira ser uma superpotência, nem esteja interessado

em carregar todos os fardos e problemas que tal status implica. Nem creio que o brasileiro médio deseje isso. Se fosse possível perguntar aos brasileiros “Você quer que seu país seu respeitado

no exterior?': a resposta seria “Sim, eu quero”; “Você quer que o Brasil desempenhe um papel central

na construção de uma nova civilização?”, a resposta seria “Sim, eu quero': Mas, se perguntassem “Você quer pagar mais impostos para construir estradas e enviar exércitos para Angola ou para o Afeganistão?': a resposta seria “Não, não quero”.

 

A EXPERIENCIA COMO INSPIRACAO

 

A pedido da EPOCA a veterana Anky van Grunsven, em sua sétima Olimpíada, respondeu a perguntas da judoca novata Rafaela Silva

 

Em agosto de 1992, na cidade espanhola de Barcelona, Anky van Grunsven ajudava a equipe da Holanda a obter a medalha de prata no adestramento, uma especie de balé sobre o cavalo. Tinha 24

anos e colocava no peito sua primeira conquista olímpica, quatro anos depois de sua estréia nos Jogos. A milhares de quilômetros dali, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, Rafaela Silva engatinhava. Com 4 meses de idade, sua única luta era com brinquedos e a mamadeira. Passados 20 anos, Rafaela é uma judoca rumo a sua primeira Olimpíada, e Anky continua na ativa. Em Londres, a holandesa, hoje com 44 anos, competirá em sua sétima edição dos Jogos Olímpicos

- e possivelmente a última. Alguma dica para a jovem Rafaela? A pedido de ÉPOCA, Anky respondeu às dúvidas enviadas pela judoca brasileira.

 

Quarta colocada no ranking na categoria até 57 quilos, Rafaela é vice-campeã mundial. A ideia de conseguir uma medalha em sua primeira Olimpíada só aumenta a ansiedade. “Estou um pouco nervosa sim:’ A poucos dias do evento, Rafaela perguntou a Anky sobre a vida na Vila Olímpica. Queria saber da veterana: “O que você sentiu ao pisar na Vila Olímpica pela primeira vez?”.Anky lembrou-se do longínquo ano de 1988, na sul-coreana Seul, quando aos 20 anos viu-se entre os melhores atletas do mundo. “Nem sequer sabia para onde olhar”, afirmou. “Eram tantas pessoas

diferentes, de tantos esportes diferentes. E muita gente famosa também:’ Rafaela quis saber ainda sobre o dia a dia na Vila. “Não há uma regra, você vai ter sua própria rotina, com alimentação,

treinos e tempo para dormir”.

 

Rafaela começou a praticar judô aos 5 anos, no Instituto Reação, na Cidade de Deus. Não fosse pela Reação, diz ela, seu caminho poderia ter sido o futebol. A escolha foi também uma questão de

temperamento: “Como brigava muito na rua, entrei num esporte de luta”.Pela primeira vez, o judô brasileiro leva a uma Olimpíada uma equipe feminina completa – e Rafaela é peça fundamental.

Entre as brasileiras, é considerada uma das que têm mais chances de trazer uma medalha.

 

De medalhas, Anky entende. Atual campeã olímpica do adestramento, conquistou oito – três delas de ouro – em seis Olimpíadas. Em seu esporte, homens e mulheres competem juntos. Cavalo e cavaleiro precisam mostrar perfeito entrosamento para realizar, com o menor esforço possível, uma

série de movimentos programados, como trotar elegantemente. Sobre o cavalo, Anky é reconhecidamente a maior bailarina do mundo – além das medalhas olímpicas, soma dois títulos

mundiais. Um feito incrível para quem, na infância, tinha medo de cavalgar: “Quando ganhei meu pônei, no primeiro ano só escovava seu pelo. Estava assustada demais para montar”.

 

Rafaela perguntou a Anky sobre sua preparação antes de uma Olimpíada. “Não mudo minha rotina de treinos. Acho importante que você se atenha àquilo que sempre faz:’ Segundo Anky o equilíbrio emocional é tão importante quanto um bom preparo físico. Foi o que garantiu sua primeira medalha individual, na Olimpíada de Atlanta, em 1996, em meio a desafios emocionais para a amazona. “Várias coisas deram errado, e meu avô morreu. No final, fiquei feliz por ter conseguido duas medalhas de prata.” A novata Rafaela quis saber sobre o futuro da veterana. “Esta será sua última Olimpíada?” Anky prefere o mistério: “Precisamos ver o que a vida me reserva. Nunca se sabe”

 

É CADA VEZ MAIS DIFICIL BATER RECORDES

 

O professor do King’s College London, estudioso da musculatura humana, diz que o homem pode estar próximo de sua capacidade máxima no esporte

 

OS JOGOS OLÍMPICOS DO FUTURO PODERÃO SER MAIS MONÓTONOS, PELO MENOS NO QUE depender da quebra de recordes mundiais. Steve Harridge, professor de fisiologia humana e aplicada do King’s College London, estuda a capacidade de resposta dos músculos a novos desafios. Ele sabe por que as pernas de Usain Bolt fazem o que fazem – e por que ele talvez seja um dos últimos a maravilhar o mundo com seus recordes. “Vimos tamanha aceleração na melhoria das marcas, com avanços tecnológicos, que chega um momento em que começa a se esgotar o que podemos melhorar': diz Harridge a ÉPOCA. Segundo ele, diferenças culturais – e não raciais – explicam por que há melhores atletas de modalidades específicas em certas partes do mundo.

 

ÉPOCA – Com base na análise da musculatura, é possível dizer se um garoto de 5 anos será um bom velocista? SteveHarrldge – Não. Certamente, a partir de uma análise de seus músculos, um pré-requisito para você ser um bom velocista é que você tenha uma proporção grande de suas fibras musculares do tipo 2, de contração rápida. Isso porque você precisa gerar força para ser capaz de correr rápido – e essas são as fibras que lhe permitem fazer isso, por causa da forma como seus motores moleculares funcionam. Elas geram muita força porque são rápidas. Mas há muitos outros

fatores envolvidos, em termos da anatomia – como seus ossos são estruturados, como você consegue controlar e ativar seus músculos no momento certo para obter o melhor movimento e até os fatores psicológicos. Muitas coisas influenciam a produção de um grande atleta.

 

ÉPOCA – Há diferenças entre a composição muscular de um velocista e a de um praticante de outra modalidade. como basquete? Harridge- Velocistas precisam de músculos que gerem força, porque eles têm esta simples missão: correr o majs rápido que puderem. No outro extremo do atletismo, a maratona, os corredores também desempenham uma atividade simples, correr. Mas eles precisam de algo bem diferente, não estão interessados em gerar muita força para correr por dez ou

15 segundos, precisam durar por duas horas e meia. Então, a forma como seus músculos podem ser alimentado da forma como seus sistemas operam é muito diferente. Você conta com a capacidade de seus músculos usar oxigênio de forma bem eficiente, para que você possa manter um desempenho durante um período de tempo longo. É aí que entram as fibras musculares de contração lenta. Esses são dois extremos, os velocistas e os maratonistas. Você pode dizer a mesma coisa sobre a natação, em relação a provas rápidas e provas longas e lentas. Em esportes mais complexos – um bom jogador de basquete, por exemplo, não tem apenas a capacidade de gerar muita força, mas todos os componentes de habilidade -, há menos exigências fisiológicas. O futebol é hoje mais rápido do que era 15 ou 20 anos atrás, houve um aumento no desempenho físico dos jogadores. Mas as exigências para alguém ser um grande jogador de basquete ou de futebol não são muito grandes. No basquete, você precisa ser alto, então há uma predisposição genética. Você

precisa ser capaz de pular, então precisa de fibras musculares que lhe permitam pular. E você não pode durar apenas 20 segundos, há um componente de resistência também. Nesses esportes, você tem várias coisas, uma mistura de exigências, tanto velocidade e explosão curta como resistência. Além disso,você tem a habilidade – ser capaz de arremessar e tomar uma bola. É muito mais complicado entender a fisiologia dos esportes coletivos.

 

ÉPOCA- As mulheres podem, em algum esporte, Igualar o desempenho masculino por melo de treinamento? Harrldge – Em média, os homens sempre correrão mais rápido e pularão mais alto que as mulheres. As melhores velocistas ou maratonistas podem vencer a maioria dos homens,

mas, se compararmos a elite masculina com a elite feminina, as mulheres são limitadas. As mulheres não têm a mesma massa muscular que os homens. O hormônio-chave, testosterona, é responsável pelo desenvolvimento de massa muscular, especialmente na parte de cima do corpo – os homens

têm os ombros mais largos. Os músculos são praticamente os mesmos, mas nos homens eles tendem a ser maiores. As mulheres também têm, naturalmente, uma taxa maior de gordura no corpo. Então, se você precisa desempenhar uma tarefa em que tem de carregar seu corpo, como numa corrida, as mulheres terão de carregar uma proporção maior de “peso morto”, por assim dizer: a gordura. Tudo isso tende a conspirar contra uma igualdade entre homens e mulheres.

 

ÉPOCA – Uma questão polêmica são as diferenças entre raças no esporte. Existe alguma base científica que explique desempenhos diferentes em modalidades diferentes? Asiáticos, africanos ou

europeus vão melhor em alguns esportes do que em outros? Harrldge – Essa é uma área polêmica, mas interessante do ponto de vista biológico. Os velocistas são tradicionalmente de origem oeste-africana, sejam eles dos Estados Unidos ou do Caribe. O leste ou o norte da África têm oferecido mais atletas de provas de resistência, como os da Etiópia ou do Quênia. Em termos fisiológicos, é muito difícil identificar razões para isso. Há influências culturais que complicam nosso entendimento de qualquer influência biológica. Numa região do Quênia, os heróis são corredores de longa distância, as pessoas não sonham em ser jogadores de futebol, sonham em ser corredores. Como, nos últimos anos, de repente a Jamaica explodiu com velocistas talentosos? É alguma coisa genética ou o fato de que, depois de Asaf Powell e Usain Bolt, eles são uma nação de velocistas, onde os garotos querem ser velocistas? Vinte anos atrás, eles queriam ser jogadores de críquete, porque as índias Ocidentais (o Caribe) eram tão fortes em críquete. É muito difícil identificar explicações biológicas quando há razões culturais que se sobrepõem.

 

ÉPOCA – Nos Jogos Paraolímpicos, atletas atuam em modalidades que não disputavam antes de perder parte de sua mobilidade. Uma pessoa pode desenvolver músculos específicos, com uma nova

habilidade, numa idade mais avançada? Harrldge-Sim, certamente. Os Jogos Paraolímpicos são fascinantes. Eles são divididos entre muitas diferentes características, dependendo da deficiência. Pessoas que sofreram ferimentos na espinha dorsal e foram esportistas ativos anteriormente podem achar formas de praticar um esporte diferente e aprender habilidades novas. O corpo humano é

uma máquina incrivelmente adaptável.

 

ÉPOCA – Desde os primeiros Jogos Olímpicos modernos (em 1896), recordes têm sido quebrados constantemente em todas as modalidades. Quais os limites do ser humano? Harridge – Alguns argumentam que talvez já tenhamos atingido os limites do possível. Vimos tamanha aceleração na

melhoria das marcas em 100anos, com avanços tecnológicos dos equipamentos, calçados e pistas e entendendo melhor o treinamento e tratamento de atletas, que chega um momento em que começam a se esgotar as coisas que podemos melhorar. Vamos nos modificar geneticamente? Isso é improvável. Nas corridas de cavalos, um grande componente dos melhores cavalos é um fenômeno genético, de criação. Os melhores cavalos são sempre descendentes de campeões anteriores. Estamos muito longe disso: criar – geneticamente um pequeno grupo de atletas. Então, é difícil ver quanto mais podemos avançar – certamente, na ausência de agentes farmacêuticos que possam melhorar o desempenho.

 

O QUE QUEREM AS MULHERES

 

Por que o romance erótico Cinquenta tons de cinza virou fenômeno mundial de vendas? Resposta: ele foi escrito sob medida para as fantasias de submissão das mulheres modernas e autossuficientes

 

Meu marido nunca leu uma linha escrita pela autora britânica Erika Leonard James. Mas, desde a semana passada, quando mergulhei na leitura de sua primeira obra, ele virou fã dela. Isso

porque, apesar de os termômetros de São Paulo denunciarem o auge do inverno, dei férias a meu

pijama de flanela. Enquanto avançava nos capítulos do livro, meu marido me via tirar do armário

uma ou outra camisola rendada. Mesmo recém-casada, aos 25 anos, e editora do blog de

sexo de ÉPOCA, o Sexpedia, não estou imune às armadilhas que a rotina pode impor a um

longo relacionamento – nem ao estímulo que os livros de E.L.Iames podem produzir

na vida dos casais. Sua trilogia vendeu 31 milhões de cópias apenas em língua inglesa. Agora, se converteu em best –seller lá em casa.

 

A ficção adulta que movimentou minha vida doméstica, Cinquenta tons de cinza (um trocadilho com o sobrenome de um dos protagonistas, Grey, que significa cinza em inglês), é um fenômeno editorial comparável a sucessos como Harry Potter ou O código Da Vinci. A obra já foi traduzida para 37 idiomas, foi motivo de leilões disputadíssimos e chegará no dia 1º de agosto ao Brasil. O primeiro volume da trilogia será lançado pela Editora Intrínseca com tiragem inicial de 200 mil exemplares, uma das maiores para a estréia de um autor no país. Nos Estados Unidos, atores de Hollywood digladiam pelo papel dos protagonistas Anastasia Steele, uma universitária desajeitada e virgem de 21 anos, e Christian Grey, bilionário misterioso cinco anos mais velho por quem ela se apaixona.

 

O enredo não traz grandes surpresas. Depois do primeiro encontro casual – Ana conhece Grey ao entrevistá-lo para o jornal da faculdade -, seguem-se os recursos ficcionais de praxe. Os dois se

trombam em situações improváveis, e a atração mútua, que fora instantânea, torna-se irrefreável. Greyvira uma espécie de anjo da guarda. Aparece do nada para salvar Ana de uma bebedeira na

balada. Leva a moça aturdida e encantada para jantar, pilotando um helicóptero. Até apresenta 1\na para a família, como a primeira namorada digna desse privilégio. Em troca dessa atenção e proteção,

e de presentes que ela aceita relutante, Grey propõe que Anastasia seja sua escrava sexual. Em seu apartamento principesco, mantém o “quarto vermelho da dor': repleto de chicotes, mordaças e outros aparatos sadomasoquistas. Ele quer que ela se comprometa a seguir estritas regras de conduta, entre elas chamá-lo de “senhor” e estar sempre disponível para transas. Enquanto pensa no assunto, Ana experimenta, sempre corando, sessões demonstrativas de tortura sexual para mocinhas, durante as quais sua “deusa interior” – uma espécie de ego 100% feminino – produz interjeições

excitantes como … “Uau!”.

 

Uma mulher que se julga moderna como eu, independente emocional e financeiramente, pode se sentir insultada. O livro reúne todos os clichês contra os quais aquelas moças na década de 1960 empilharam sutiãs: a mulher fraca e ingênua que precisa ser protegida, que salva o mulherengo problemático de si mesmo, que não resiste aos afagos do dinheiro. Some-se a isso um texto fraquinho, e chegamos ao mistério: por que uma mistura rala e antiquada como essa faz tanto sucesso? Confesso que devorei as 480 páginas do primeiro volume em três dias. Na televisão americana, leitoras gratas pela retomada de sua vida sexual já deram depoimentos agradecendo calorosamente à autora. De onde vem isso?

 

A origem da trilogia não explica a enorme aceitação entre as mulheres. Cinquenta tons de cinza nasceu sob inspiração da saga Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, que conta a história

de amor da humana Bellae do vampiro Edward. Era uma fanfiction, modalidade em que leitores publicam em sites novas tramas para seus heróis preferidos. A tensão sexual enrustida da história

adolescente de Crepúsculo tem se mostrado uma fonte prolífica para autores amadores. A britânica Erika, uma ex-produtora de televisão de 48 anos, casada e mãe de dois adolescentes, foi apenas uma das fãs que resolveram escrever letra por letra aquilo que Bella e Edward queriam fazer, mas Stephenie não deixava. Deu certo. Os capítulos de sua historinha atraíram tanta audiência na internet que uma pequena editora australiana transformou a saga em livro e pediu que Erika fizesse uma versão sem vampiros. Foi questão de tempo até que parasse no topo da lista do jornal The New York Times. No começo, Erika ficou constrangida com a situação e se recusava a aparecer. Agora, caiu feliz nos braços do público.

 

Se o sucesso do livro não embaraça mais sua autora, seu efeito ainda constrange mulheres modernas que se percebem excitadas pela historinha água com açúcar (mais chibatadas) de Anastasia Steele. Seríamos todas, no fundo, versões dissimuladas de Anastasia, sem um

Grey para chamar de nosso? O que há no livro que desperta tanto interesse – e tanta excitação

entre nós, mulheres?

 

Para responder a isso tudo, comecemos pelo início: admitindo que, sim, gostamos de sexo. Uma historinha picante – pornográfica, por que não? – produz efeito. Há quem diga que nada pode ser mais excitante para uma mulher do que ver seu marido lavando louça suja ou varrendo a sala. A ideia empolga, é verdade. Ter um parceiro com quem dividir as tarefas domésticas libera tempo livre para nos emocionarmos no quarto. Mas essa piada revela que a sociedade menospreza o prazer sexual da “mãe de família”, da “mulher casada': da “dona de casa': O rótulo dado à obra de Erika pela imprensa estrangeira, “pornô para mamães”, é um indício. O gênero “pornô para papais” é impensável. Presume-se que, depois de casar ou ter filhos, o homem continue com necessidades eróticas. Da mulher não se espera o mesmo. O sucesso de Cinquenta tons de cinza sugere que há muito desejo represado entre a pia da cozinha e a mesa do escritório. Mostra, também, que as mulheres estão perdendo o constrangimento em usar pornografia para satisfazê-lo – ou alimentá-lo.

 

Outra coisa que ajuda a explicar o apelo desse livro entre as mulheres é uma linguagem adequada a nosso desejo. Não é aquela dos filmes eróticos produzidos para o público masculino. Eles mostram, basicamente, paisagens genitais e doses de penetração. “No pornô para homens, o sexo é atlético

e mecânico, com pessoas conectadas apenas pelos genitais. As mulheres precisam de fantasia para alcançar o contexto erótico. E não são explícitas como os homens. A imagem de um homem nu

da cintura para cima, sorrindo de olhos vendados, pode ser muito mais excitante que um dose

no pênis dele”, afirma a diretora sueca Érika Lust, premiada por seus roteiros pornôs feministas.

 

O que excita as mulheres é ser o centro das atenções de um homem forte (moral e fisicamente),

como acontece com Anastasia. Culpem a evolução por ter deixado esses rastros primitivos em nosso cérebro. “Para a manutenção da espécie, era essencial escolher um parceiro saudável, capaz de gerar filhos resistentes e ajudar na subsistência da prole”, afirma o sexólogo Theo Lerner, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. A biologia é sempre uma ferramenta perigosa nessas discussões, mas é certo que o clima de romance – e a virilidade do homem – é muito excitante para as leitoras. “A mulher precisa de mais tempo e de contexto para liberar suas fantasias”, diz a ginecologista Carolina Ambrogini, coordenadora do projeto Afrodite, que atende mulheres com dificuldades sexuais.

 

Erika James seguiu à risca a receita erótica que une tempo e contexto. A cena de sexo inaugural entre Anastasia e Grey acontece na página 103 do livro. Difícil imaginar um autor do sexo masculino

com paciência para adiar por tantas páginas a consumação. Ela não tem pressa em desenvolver o ambiente, o clima e os diálogos. As preliminares são longas – e tão psicológicas quanto sensoriais. Erika investe no tal contexto, pré-requisito para acender nossa chama. Outra novidade do livro é o foco narrativo, inteiramente voltado para as características físicas e gestuais de Grey. A autora o descreve com a mesma volúpia de detalhes com que Jorge Amado passeia pelo corpo de Gabriela. Com base na riqueza de detalhes providos por Erika, pesquisadores da Universidade de Lancashire, no Reino Unido, conseguiram até fazer um retrato falado do personagem. Sobre Anastasia, pouco se sabe. Com cabelos castanhos, de pele e olhos claros, tem baixa auto estima e começa o livro virgem

até em masturbação. Mas tem uma invejável facilidade de atingir o clímax. Na passagem em que relata a primeira transa de sua vida, ela experimenta três orgasmos seguidos. O primeiro, apenas

com sopros e beijos nos mamilos. Os outros, logo em seguida, comas duas primeiras penetrações de sua vida. Mais fácil que tomar um chazinho …

 

Antes que as mulheres se sintam extraterrestres ou questionem sua vocação para esse negócio de sexo, é bom conferir o resultado de uma enquete feita pelo site de relacionamento Par Perfeito a pedido de ÉPOCA: mais de 80% das 1.000 brasileiras consultadas disseram não ter experimentado orgasmo ao perder a virgindade. Anastasia está mais próxima da fantasia que da trabalhosa realidade das mulheres. “Ela seduz porque a leitora gostaria de estar no lugar dela”, afirma Sai Gaddam, co autor de A billion wicked thoughts (Um bilhão de ideias malvadas). Seja por seu gozo instantâneo ou pela coragem de se entregar aos fetiches mais obscuros, Anastasia encarna fantasias de felicidade feminina.

.

É improvável que a maioria das mulheres assinasse o acordo de Grey para ser sua escrava sexual. Mas não deixa de ser intrigante que essa fantasia de submissão seja avidamente consumida por

mulheres modernas. Depois de ascender socialmente nas últimas décadas, elas controlam a família, os filhos e as finanças do casal. Ganharam voz ativa em casa e no trabalho. Por isso, parece natural

que, no teatro sexual, se permitam perder o controle. “Elas passaram a se impor no cotidiano e, no sexo, se sentem mais à vontade para buscar a submissão como forma de equilíbrio emocional': afirma Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexualidade. “É uma brincadeira”, diz a psicanalista Diana Corso. “Não significa que ela será submissa em outras esferas da vida”.

 

As feministas, claro, não gostam desse tipo de explicação. Ela reverte, ao menos entre quatro paredes, décadas de conquistas psicológicas. Simpatizantes do universo sadomasoquista argumentam que Cinquenta tons de cinza é piegas e não reflete a verdadeira cultura do grupo.

Conservadores dizem que a história é degradante e inspira violência contra as mulheres. Curiosos leem para entender o burburinho. São pessoas como eu, que acabam multiplicando o efeito viral

e os lucros de Erika. Aos amigos homens, uma sugestão: a leitura talvez os faça entender que não basta dizer “eu quero tchu eu quero tcha” para conseguir uma noite memorável. Às amigas que perguntam se o livro é bom, respondo: depende. Literariamente, não. Literalmente, sim. Faz lembrar que o sexo deveria ser prioritário mesmo na correria do dia a dia. Lá em casa, no instante em que

terminei a leitura, meu marido perguntou: “E então, amor, quando você começa o segundo volume?”.

 

Parece pimenta-biquinho

 

Para os homens, o livro de E.L. James é fraco. Mas ensina um bocado sobre as fantasias das nossas parceiras

 

Cinquenta tons de cinza foi evidentemente escrito para as mulheres, mas os homens também

podem se divertir com ele. As peripécias sexuais de Anastasia e seu namorado sadicorromântico

não são propriamente excitantes, mas, pedagogicamente, lançam luz sobre o universo das

fantasias sexuais femininas, a que os homens raramente têm acesso de forma tão cândida.

 

Fiquei com a impressão de que Erika Leonard James, a escritora. despejou no livro seus mais intensos devaneios adolescentes com um toque suave de perversão adulta na forma de sadomasoquismo. Os tapas e as amarrações funcionam como pimentabiquinho numa coxinha dietética: dão tempero a uma história que de outra forma naufragaria em suspiros olhares penetrantes. joelhos trêmulos e rubores.

 

Um exemplo da prosa de Erika: “As palavras dele são uma espécie de equipamento incendiário meu

sangue ferve. Ele se debruça e beija meus lábios gentilmente suga meu lábio inferior. ‘Eu quero beijar este lábio murmura”. Ou então: “‘Você é muito bonita. Anastasia Steele. Não vejo a hora de estar dentro de você’. ‘Deus meu! As palavras dele. Ele é tão sedutor. Me deixa sem fôlego.

 

Nestes tempos da turbopornografia pela internet os arrebatamentos de Anastasia soam quase comoventes. São uma espécie de homenagem pós-moderna ao passado. agora distante. em

que moças psicologicamente saudáveis Chegavam ao último ano da faculdade não somente virgens.

mas totalmente inocentes de qualquer experiência erótica. Ou autoerótica.

 

Para os homens que cruzarem esse mar de clichês e nostalgia. Há recompensas à frente. na forma

de erotismo e compreensão. Primeiro o erotismo: quando o livro esquenta as cenas de sexo

começam a lembrar vagamente aquilo que homens e mulheres fazem na vida real quando estão excitados. A linguagem acompanha a mudança evoluindo do estilo Sabrina para o da francesa Catherine Millet. Fica mais divertido para nós.

 

O campo da compreensão é ainda mais frutífero. Erika nos ensina com o sucesso do livro. que as fantasias eróticas femininas são mais importantes do que elas deixam transparecer no dia a dia. No interior de nossas práticas companheiras de cotidiano. parece haver uma adolescente ao mesmo tempo romântica e danadinha precisando nos dois sentidos de uma enorme quantidade de atenção

masculina. Atenda ao apelo.

 

O livro também confirma algo que já sabíamos: o tempo delas é outro. Chama a atenção a lentidão com que a história se desenrola. As páginas vão passando a heroína hesita gagueja e se derrete diante de seu Apolo bilionário e nada de sexo. Ele só acontece depois da página 100 sugerindo ao

menos para mim que a noção de preliminares das mulheres se estende muito além daqueles

minutos apressados de atenção que os homens costumam dedicar à anatomia feminina antes do sexo propriamente dito. Se Erika está certa. as preliminares das mulheres começam no primeiro encontro e não param pelo resto da vida. Pode ser uma boa ou uma má notícia dependendo de quem você tem ao lado.

 

AS AMARRAS DA PAIXAO

 

A submissão histórica da mulher criou O romantismo que norteia Cinquenta tons de cinza. Um outro livro afirma que essa forma de amor vai sair de cena

 

O entusiasmo das donas de casa americanas com as algemas de Christian Greynão surpreendeu

os estudiosos da sexualidade. Longe de ser uma novidade, o fascínio pela postura dominadora do personagem masculino de Cinquenta tons de cinza obedece às regras mais antigas da história das relações afetivas. Desde que os primeiros seres humanos começaram a se organizar em casais,

por necessidades econômicas, religiosas ou emocionais, o jogo de poder se instaurou. A história do amor e dos relacionamentos é um enredo de acordos, sexo e submissão, no qual coube à mulher, até há pouco tempo, o papel de obedecer. A evolução dos relacionamentos e da posição da mulher ao longo dos tempos é o tema central do lançamento a livro do amor (Record, dois volumes, 720 páginas), da psicóloga Regina Navarro Lins.

 

Em seu extenso trabalho de pesquisa, Regina aborda o amor não como algo biológico e inerente à natureza humana, como costuma ser visto, mas como mais uma invenção do ser humano, sujeita a constantes alterações ao sabor das mudanças na política, na religião e na economia. O amor tal como conhecemos hoje, base dos namoros e casamentos do mundo ocidental – e também da relação apimentada entre Christian Grey e Anastasia – é chamado de amor romântico. É um sentimento calcado na idealização do parceiro e na ideia de que duas pessoas podem se encaixar completamente, sem deixar lacunas de qualquer tipo. Para chegar a esse sentimento, ou a essa forma de sentir, a relação entre duas pessoas se modificou profundamente através dos séculos (leia o quadro na página 72). Entre gregos e romanos, a noção de amor romântico nem sequer existia.

A paixão era um passatempo, uma diversão alheia ao casamento. Os maridos conviviam pouco com suas mulheres, que tinham posição subalterna na sociedade. Só faziam sexo com elas para procriar. Casais nem dormiam no mesmo quarto. No século 111,o cristianismo começou a modificar os relacionamentos. Amonogamia ganhou força por causa da castidade e do surgimento da noção de pecado. O objeto de amor naquele tempo não era o homem ou a mulher, mas sim a figura de Deus.

a prazer carnal era censurado como algo animalesco, e a mulher continuava tendo um papel submisso.

 

No Renascimento e no Iluminismo, quando o ser humano passou a ser o  centro do universo, a paixão voltou a ter posição de destaque nos relacionamentos. Nos 200 anos que se seguiram,

nos séculos XVII e XVIII, o romantismo como o conhecemos se instaurou. A família ganhou importância, e o sexo passou a ser um dever dos cônjuges. Até mesmo o orgasmo feminino deixou de ser visto com maus olhos – desde que, é claro, a mulher conhecesse seu lugar menor na sociedade. Simultaneamente a essa escalada dos sentimentos ocorreu uma explosão na busca por prazer fora do casamento. A prostituição, os bailes de máscaras eróticos e a literatura de

transgressão viraram moda nas cortes européias, como uma espécie de  resposta materialista ao longo período de religiosidade da Idade Média.

 

Apesar da ruptura entre amor e prazer, a sociedade descobriu que era impossível ser feliz sem o amor romântico. Cartas de amor viraram costume entre os jovens. O sofrimento romântico era um valor em si. Houve uma onda de suicídios, impulsionada por livros de finais trágicos, em especial

Os sofrimentos do jovem Werther, de Johannes Goethe. Nele, o protagonista se suicida por não poder ter sua amada. “Pede-se ao amor o que antes se pedia a Deus”, diz o psicanalista Jurandir

Freire Costa no livro A invenção do amor, em que investiga a criação romântico. Com a criação do amor romântico. Com a criação do cinema, as comédias românticas de Hollywood se aliaram à literatura para consolidar essa visão de mundo. O casamento já estava desvinculado da moral

cristã da Idade Média, que bania os prazeres carnais. Mas a submissão da mulher ainda era forte, escondida sob a ideia de que ela deveria ser a rainha do lar.A mulher romântica só poderia

ter sexo e prazer se estivesse casada, e entre quatro paredes. A virgindade era exigência para as moças direitas, que sonhavam com um marido capaz de lhes dar um lar, filhos e segurança

econômica e emocional.

 

A trajetória dos relacionamentos afetivos é, de acordo com Regina Navarro Lins, a própria história da

mulher. O comportamento feminino e suas modificações sempre foram o balizado r dos sucessivos cenários do amor. A submissão da mulher ao longo da história sempre esteve ligada ao controle de seu prazer por parte dos homens. Aquelas que confrontaram o padrão foram surradas, queimadas ou

isoladas socialmente, de acordo com o tempo em que viveram. Apesar de ter ganhado liberdade com a revolução sexual e a invenção da pílula anticoncepcional nos anos 1960, a mulher vive agora outro tipo de angústia: a submissão emocional, fruto do amor romântico. “Ao contrário do homem, estimulado a ser independente desde a infância, a mulher não é criada para defender-se e cuidar de si própria”, afirma Regina. “Por mais que ela estude e faça planos profissionais para o futuro, alimenta o sonho de um dia encontrar alguém que dará significado a sua vida.”

 

Se, por um lado, o best-seller Cinquenta tons de cinza levanta uma discussão sobre o desejo das mulheres pela submissão emocional e sexual, por outro chama a atenção para um pequeno avanço: o erotismo ganhou importância no universo feminino. A jovem Anastasia se submete aos desejos

do milionário Grey, por quem é romanticamente apaixonada. A diferença para a submissão clássica feminina, no entanto, é que, nesse caso, a submissão de Anastasia é um desejo dela. “Apesar de o masoquismo estar mais associado às mulheres, devido ao treinamento de passividade que receberam ao longo de tantos séculos, esse tipo de prazer faz parte das fantasias de ambos os sexos”, diz Regina. “Dor e prazer são sensações intensas, e a fronteira entre elas não é marcada

com nitidez.” Mesmo assim, Anastasia repete o papel hollywoodiano de mocinha submissa à espera de um príncipe encantado – ainda que o cavalo branco tenha dado lugar a helicóptero, equipado com algemas e chicotes.

 

Para Regina,esse sentimento sairá de cena em breve. O foco no outro e a exigência de exclusividade,a base do amor romântico, não combinam com um mundo individualizado de múltiplas escolhas. De acordo com o filósofo polonês Zygmunt Bauman, autor de Amor líquido, o imediatismo e a valorização do prazer pessoal modernos se opõem ao conceito do amor romântico, que supõe elevada abnegação. Não haveria mais espaço, no futuro, para a construção de algo profundo e durável a dois. No futuro imaginado por Regina, o romantismo dará lugar à diversidade. Casamentos abertos, bissexualidade, sexo grupal – e até a fidelidade monogâmica – conviverão. Se essas previsões estiverem certas, as mulheres que impulsionaram o sucesso da autora E.L. James podem pertencer à última geração que se identifica com a mocinha subjugada de Cinquenta tons de cinza.

Às escritoras do futuro, restaria dar cor a relacionamentos abertos e sem amarras, que encerrariam a tradição de romantismo e submissão.

 

ENTREVISTA Dan Shechtman

 

Empresas de tecnologia ajudam a salvar o mundo.

 

O ganhador do Nobel de Química de 2011 deu aulas sobre como criar negócios a 10 mil alunos em Israel- e incentiva outros países a fazer o mesmo

 

CYRUS SMITH ESTAVANUMA SITUAÇÃO terrivelmente infeliz, perdido numa ilha desconhecida. Graças a seus conhecimentos de engenharia e ciências, ele e os companheiros conseguiram fabricar ferramentas, construir diques, plantar, erguer casas e sobreviver. Além de todos esses feitos fictícios, Smith – protagonista do livro A ilha misteriosa, do escritor francês Júlio Verne – serviu de inspiração ao menino israelense Daniel Shechtman. O jovem leitor cresceu, estudou engenharia mecânica, tornou-se doutor em ciência dos materiais e, em 2011, ganhou o Prêmio Nobel de Química. Sua pesquisa revelou uma nova forma de organização dos átomos em materiais sólidos, os quase cristais, descobertos em 1982. Hoje, discute- se a aplicação desse tipo de material em várias

frentes, como utensílios de cozinha e equipamentos eletrônicos. Shechtman precisou defender sua descoberta por anos, diante de ataques duríssimos de outros especialistas em sua área. Em 2009, a comunidade científica se convenceu de seus argumentos.

 

Ao longo dessa jornada vitoriosa, ele encontrou tempo para aplicar o estilo “mão na massa” de seu herói Cyrus Smith a outra paixão: o estudo das empresas inovadoras. Desde 1986, Shechtman ministra um curso de empreendedorismo tecnológico no Instituto de Tecnologia de Israel, o

Technion, em Haifa, mesmo local onde começou a estudar engenharia. O Technion é a instituição de ensino e pesquisa mais importante de um país cujo desenvolvimento e segurança se apoia, principalmente, em tecnologia. No ranking global de inovação da escola de negócios francesa

Insead, Israel aparece à frente de países como Coréia do Sul, França e Japão. Na Bolsa americana Nasdaq, Israel só perde, em número de empresas listadas, para Estados Unidos e China. Durante o programa desenvolvido por Shechtman, os alunos de ciência e engenharia assistem a palestras com

empresários iniciantes, para saber as dificuldades que eles enfrentam, e aprendem noções de administração, marketing e propriedade intelectual. Ao tratar do assunto, Shechtman assume um tom quase messiânico. Ele acredita que quem abre um negócio próprio baseado em tecnologia não apenas prospera individualmente – também trabalha por uma sociedade melhor e pela paz global. Ele estará no Brasil no período de 22 de julho a 1 de agosto e passará por São Luís, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.

 

ÉPOCA – O senhor diz que a Importância do empreendedorismo vai multo além da economia. Como assim? Dan Shechtman – Muitos países vivem da venda de matérias primas, petróleo, minério, recursos não renováveis que, com o tempo, diminuirão e, eventualmente, desaparecerão. E, depois, o que esses países farão? Para ter outra fonte de receita, essas nações devem tentar desenvolver novos setores da economia e fabricar produtos tecnológicos que consigam vender – podem até ser produtos agrícolas, mas que exijam uso de tecnologia. Os países que fizerem isso encontrarão formas de dar um bom padrão de vida a todas as pessoas. Acredito que o empreendedorismo tecnológico é o caminho para manter a paz no mundo, porque as pessoas que trabalham duro para ganhar mais não querem desperdiçar isso numa guerra. Os países que não fizerem isso não

prosperarão. Eles correm o risco de ver a qualidade de vida cair. Muitos desses países, em algum momento, começarão a desmoronar, e milhões e milhões de pessoas começarão a emigrar para as nações mais ricas. Como lidar com essa visão melancólica do futuro? Podemos resolver isso ao incentivar e ensinar o empreendedorismo tecnológico. Para que os cidadãos numa nação dediquem sua capacidade intelectual a projetar, fabricar e vender produtos inovadores, é necessário que o país crie as condições certas. Entre elas, encorajar a formação de engenheiros e cientistas, e encorajá-los a empreender.

 

ÉPOCA – O senhor poderia se dedicar a ensinar e pesquisar química. Por que e como o senhor começou a tratar de empreendedorismo na universidade? Shechtman – Inaugurei há 26 anos o programa de aulas de empreendedorismo tecnológico no Technion, para ensinar os alunos a iniciar um negócio próprio. O programa começou por causa das necessidades em Israel e foi estimulado

pelo crescimento das exportações israelenses de produtos de altíssima tecnologia. Encorajamos nossos alunos a pensar o futuro e a ser independentes. As boas universidades passam a mensagem: “Você é tão bom que as grandes empresas vão querer contratar você': No Technion, a mensagem que transmitimos é: “Voce é tão bom que pode abrir sua própria empresa tecnológica” Cerca de 10 mil alunos formados já passaram pelo curso, e eles estão espalhados pelo país todo.

Desde então, o bem-estar da população israelense aumentou dramaticamente, assim como a renda per capita. Isso é um incentivo às pessoas de outros países a também fazer algo assim. Alunos de outros países são bem-vindos ao curso.

 

ÉPOCA – O que há de tão especial no empreendedorismo tecnológico? Ele é mais importante que o empreendedorismo tradicional, como abrir uma loja ou um restaurante? Shechtman-Uma diferença é que o serviço de um restaurante, supermercado ou loja não pode ser exportado. E o empreendedorismo tecnológico é o melhor jeito de fabricar os produtos que abastecerão esses supermercados e essas lojas, de ganhar mais dinheiro com esses produtos e de fazer as pessoas gastar mais dinheiro com eles.

 

ÉPOCA – No Brasil, não funciona muito bem a transmissão de conhecimento entre as universidades e as empresas. Entre esses dois mundos, há divergências em relação a sigilo, objetivos, prazos,

custos, patentes, divisão de lucros. O senhor tem uma sugestão para mudar isso?

Shechtman – Normalmente, a pesquisa básica fica com a universidade, e a pesquisa aplicada fica com as empresas. Não acho que seja possível mudar a mentalidade das empresas – elas precisam defender sua propriedade intelectual. Isso é típico de companhias. Mas parte da pesquisa em que essas companhias se envolvem poderia ser aberta. Em alguns países, as companhias já perceberam que não podem fazer tudo sozinhas e que a academia pode contribuir com boas ideias.

 

ÉPOCA – Vários países tentam reproduzir o modo de funcionamento do Vale do Silício, nos Estados Unidos, com empresários, universidades e investidores trabalhando juntos, para incentivar o nascimento de empresas inovadoras. Mas a maioria dessas tentativas de Imitação não vai multo longe. Por quê? O senhor acha que Israel também tenta reproduzir a estrutura do Vale do Silício?

Shechtman -Os países que tentaram imitar o Vale do Silício adotaram iniciativas de cima para baixo, e ele não cresceu desse jeito. Temos um tipo de Vale do Silício em Israel, mas ele avançou de baixo para cima. O governo não deve se envolver nos projetos, deve apenas dar apoio para que os jovens

corajosos criem suas empresas. O governo deve encorajar a criação de negócios, mas sem tentar controlar ou administrar as empresas. Não acho que Israel tenha tentado copiar o modelo (do Vale do Silício), mas estamos seguindo seus passos,uma vez que uma série de empreendedores israelenses começaram lá.Em Israel, há um grande espírito de empreendedorismo, com muitos engenheiros pensando diferente e sonhando com a companhia que podem fundar.

 

ÉPOCA – Israel tem muitas empresas de tecnologia. Por quê? Shechtman- Muitos dos jovens em Israel pensam ativamente no que podem fazer na ciência e na tecnologia. Talvez a conexão esteja no ambiente de pensamento claro, de boa comunicação entre as pessoas e na natureza israelense de questionar tudo. Os jovens não aceitam nada sem entender. Eles precisam entender tudo e perguntam muito.

 

ÉPOCA – O senhor também foi bem insistente ao defender a descoberta que o levou a ganhar o Nobel. Foi difícil continuar, mesmo depois de ser desacreditado por colegas cientistas? Shechtman- Pude defender meus resultados porque sabia que estava correto. Eu era o especialista no assunto, podia repetir os experimentos e provar os resultados. Apenas continuei dizendo: “Eu sei que estou certo”.

 

OS JOGOS DA MINHA VIDA

 

Subindo ou não ao pódio, conquistando a medalha de ouro ou não, os atletas brasileiros que foram as olimpíadas sentem que elas são eternas

 

O que os atletas sentem ao cruzar a linha de chegada numa final olímpica? “Alivio. Graças a Deus tudo acabou”, diz um medalhista anônimo no livro O segredo olímpico, que acaba de ser publicado na Inglaterra. A partir desta semana, 10.500 atletas de 205 nacionalidades começam a competir em Londres pelo direito a um lugar no pódio. Eles têm treinado duro há muitos anos. Deles se esperam resultados sobre-humanos. Os louros serão para poucos. Terminadas terão migrado do plano real para a eternidade. Participar da cerimônia de abertura, do convívio na Vila Olímpica e da atmosfera das competições são momentos fugazes que marcarão os atletas por toda a vida. Nesta reportagem, fomos perguntar a alguns dos brasileiros que estiveram nas Olimpíadas o que isso significou para eles. Orgulho, desapontamento, realização, saudade foram algumas das respostas. Mesmo passadas variam décadas, a memória e o sentimento dos Jogos permanecem vivos. É assim com o judoca Chiaki Ishii, que trocou o Japão pelo Brasil e subiu ao pódio. Assim também como o jogador de vôlei Carlos Nezman, que não ganhou medalha, mas devotou a vida ao esporte. O mesmo acontece com o pugilista Servilio de Oliveira, nosso único medalhista no boxe. Sua conquista no México, em 1968,sobrevive em sua memória, embora o país pareça tê-la esquecido.

 

Adriana de Behar – Vôlei de Praia

 

Metade da dupla brasileira no vôlei de praia dos Jogos de Sydney não conseguiu dormir na véspera da estréia. “Não tem Olimpíada toda semana nem todo ano. Não adianta achar que é um campeonato normal. Dá frio na barriga”. Diz Adriana Behar. Ela e Sheila Bede ocupavam a segunda colocação no ranking mundial de vôlei de quadra e desembarcaram em Sydney como favoritas na quadra de areia. Voltaram para casa com a prata. O que parece um feito e tanto foi motivo de frustração. “Ficamos arrasadas”, diz Adriana. “Naquele momento, não ganharmos a medalha de prata. Perdemos o ouro”. A experiência de Sydney não aliviou a carga nos Jogos de Atenas, em 2004. Nas quartas de final, Adriana e Shelda enfrentaram as brasileiras Sandra Pires e Ana Paula. A partida foi duríssima. A dupla de Adriana venceu o jogo e conquistou, mais uma vez, a medalha de prata. Perder o ouro, outra vez, foi motivo de tristeza. “Se você perceber, o terceiro lugar está sempre mais feliz do que o segundo, porque o terceiro veio de uma vitória, o segundo de uma derrota.”As duas medalhas de prata que Adriana ganhou estão na casa da mãe.”Ela tem troféu em tudo quanto é lugar, usa até de vaso”,diz. Ao lado de sua cama Adriana, hoje com 43 anos, guarda em Atenas. “As vezes vejo as fotos da competição. Não sou muito melancólica, mas da muita saudade”.

 

Carlos Arthur Nuzman

 

No dia em que completava 21 anos, Carlos Arthur Nuzman foi cortado da seleção de vôlei que iria aos Jogos Pan- Americanos de 1963, em São Paulo. Nuzman passava os dias divididos entre a quadra e a faculdade e não pôde se dedicar aos treinos. Depois do corte,disse a si mesmo que iria ao Jogos de Tóquio. Passou a treinar duas vezes por dia e foi convocado. Em 1964, no desfile de abertura da olimpíada, Nuzman chorou. Se para muitos a frase “estar ali já é uma vitoria”não passa de um chavão, para ele tinha significado literal. “no desfile você percebe que está nas Olimpíadas. Lembrei a luta que tinha sido para estar ali, e me senti escolhido dos deuses do Olímpio”, diz Nuzman, hoje com 70 anos, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. O ano de 1964 marcou a estréia do vôlei na olimpíada, e o Brasil ficou em sétimo lugar. Desempenho modesto, mas inesquecível.

 

Servilio de Oliveira

 

Servilio de Oliveira já foi chamado de “O novo Éder Jofre”, o maior nome do boxe brasileiro. Paulistano do bairro do Ipiranga, ele é ainda hoje, aos 64 anos, o único medalhista olímpico de nosso boxe. Ganhou a medalha de bronze da categoria peso-mosca nos Jogos do México, em 1968. Se dependesse dos cartolas, nem teria ido aos Jogos. No mesmo ano da olimpíada, Servilio disputou o torneio sul-americano em Santiago, Chile. “Eu e mais três ganhamos,mas o Comitê Olímpico Brasileiro disse que ninguém iria ao México. Alegaram que os bons resultados não valiam, porque o sul-americano era fraco. Reclamamos e decidiram me enviar: “Uma vez na Cidade do México, Sevilio ganhou duas lutas. Perdeu a terceira, por pontos, para o mexicano Ricardo Delgado. “A culpa foi dos jurados e do juiz! Sevilio dominou  a luta, esteve por noucatear o mexicano varias vezes. A vitoria foi arranjada”, disse a imprensa brasileira na época. Passados 44 anos, Servilio, de 1.63 metro de altura, não guarda mágoa do oponente. “Delgado sabia que eu tinha pegada. Manteve a distancia. Fez o que tinha de ser feito. Mereceu a vitoria.” A mágoa de Servilio é contra os cartolas: “A Confederação Brasileira de Boxe já realizou torneios para homenagear o Éder Jofre, o Ralph Zumbano e o Popó. Nunca fizeram um torneio para homenagear o Servilio, o único medalhista olímpico do boxe brasileiro”.

 

Vanderlei Cordeiro de Lima

 

Vanderlei de Lima começou a correr ainda moleque, quando era bóia-fria nas lavouras do Paraná. “Quando acabava o dia de trabalho, eu corria até a escola.”Eram 5,10,12 quilômetros todos os dias. Foi assim que Vanderlei acabou descoberto como uma promessa do esporte e começou a treinar. Foi aos Jogos de Atalanta, em 1996, e Sydney, em 2000. A chance real de medalha surgiu em Atenas. Era 29 de agosto de 2004,e Vanderlei parecia prestes a se tornar o primeiro brasileiro a conquistar o ouro na maratona, a mais tradicional modalidade olímpica. Aos 38 quilômetros de prova, faltando apenas 5 quilômetros para o final, Vanderlei liderava com 30 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. “Eu estava totalmente concentrado na corrida.”até hoje, ele não se lembra de ter visto o irlandês maluco que rompeu o cordão de segurança, entrou no meio da corrida e o empurrou para fora da pista. “Cai no chão. Minha perna doía. Me ergui e voltei a correr”. A queda lhe custou bem mais que os preciosos segundos de vantagem. Custou-lhe a concentração necessária para suportar a dor e disparar até a linha de chegada. Vanderlei entrou no Estádio de Atenas em terceiro lugar, saudado pela multidão. “sou um medalhista olímpico. Se é bronze ou ouro, não importa”, diz ele, hoje com 43 anos. “O esperte me proporcionou uma vida com a qual nunca tinha sonhado. Siinto-me realizado.”

 

Ricardo Prado

 

Paulista de Andradina, Ricardo Prado começou a nadar aos 5 anos. Aos 15, foi aos Jogos de Moscou, em 1980, e voltou sem medalha. Aos 19, em Los Angeles, subiu ao pódio para receber a prata na prova dos 400 metros nado medley. Ele era o favorito naquela prova. Hoje, com 47 anos, não esquece a pressão de ser a grande esperança de medalha brasileira naqueles Jogos. “Eu já nem andava por mim”, diz. “Nadava pelo país, pelas pessoas, pela imprensa. ”A decepção que sentiu ao perder o primeiro lugar foi grande. “Nadei bem, dei 110%, só que o canadense foi melhor”- mas a sensação ao sair da piscina foi de alivio. Ganhara uma medalha e não tinha de provar mais nada a ninguém, passados 30 anos, Prado – ou o Pradinho, como era chamado – ainda é reconhecido nas ruas. E se emociona: “Sou privilegiado por ter tido essa experiência”.

 

DJAN MADRUGA

 

Djan Madruga se orgulha de ter sido o primeiro sul-americano a nada 1500 metros em menos de 16 minutos numa Olimpíada. O recorde durou pouco: foi superado por outro nadador na final. Djan desembarcara em Montreal  sem expectativas. Justamente por isso, estava tranquilo na Sala da Morte, apelido do local onde os finalistas de uma prova de natação aguardam a competição. “Ficamos olhando um para o outro por minutos intermináveis. Depois disso, você tira qualquer coisa de letra”. Nossa delegação ganharia duas medalhas de bronze. Ele, nenhuma, Djan participaria ainda dos Jogos  de Moscou, onde ganharia o bronze no revezamento 4×200 metros livre. Hoje, aos 53 anos, ele treina novos talentos em sua academia no Rio de Janeiro. Seu filho, de 15, compete e já bateu recordes no campeonato estadual.”É possível que ele vá a uma Olimpíada, mas é cedo para dizer.”

 

Chiaki Ishii

 

A primeira medalha olímpica do judô brasileiro está pendurada na parede da salinha de recepção de uma academia de judô no bairro da Pompéia, em São Paulo. Ela pertence a chiaki Ishii, que a recebeu nos jogos de Munique, em 1972. Hoje com 70 anos, Ishii impressiona pelo porte. É grande como um armário. Aos 29, quando ganhou o bronze na categoria meio-pesado, devia ser forte como um touro. Com um sotaque que resistiu a meio século no Brasil, ishii conta que nasceu em Ashikaga, perto de Tóquio, em 1964. Desapontando, imigrou para o Brasil. Começou a lutar nos jogos da colônia japonesa. Tornou-se tricampeão brasileiro. Em 1967, a Confederação Brasileira de Judô convidou-o a defender o Brasil.”eu era japonês. Só podia participar dos campeonatos da colônia. Par ir as Olimpíadas, teria de me naturalizar.”Foi o que fez, sempre de olho no sonho olímpico. Com um bronze no mundial de 1971 e o bicampeonato sul-americano, Ishii chegou a Munique. Seu golpe preferido – o hane-makikomi – consitia em agarrar os adversários com violência, lançá-los ao tatame e cair em cima deles. Isso as vezes rendia costelas quebradas. Foi assim que derrotou o alemão Paul Barth no Mundial. Eles se reencontraram em Munique, e Ishii dava como certa uma nova vitoria, mas Barth venceu por pontos. “Fiquei aborrecido. Queria a medalha de ouro”, desse Ishii após a luta. De volta a São Paulo, comprou a casinha onde montou a academia. O sonho olímpico virou tradição de família. A filha mais velha, Tânia,k ficou com a prata nos jogos pan-americanos de Caracas, em 1983. Ela representaria o país nos jogos de Barcelona, em 1992. A caçula, Vania, ganhou o ouro no Pan de Winnipeg, em 1999, terminou em sétimo lugar em Sydney, em 2000. Foi a Atenas, em 2004. Em Londres, agora, uma nova geração representara o clã Ishii nos Jogos. Shophie, a filha de Tania com judoca americano Mike Twain, vai a Olimpíada na equipe americana de judô. Os olhos do avo, ao falar da neta, faíscam de orgulho.

 

Candidata a Grace Kelly

 

Quem é Tatiana Santo Domingo, a filha e neta de brasileiras que pode restaurar a popularidade da monarquia de Mônaco ao casar com Andrea Casiraghi um dos herdeiros do trono

 

O mundo parou para assistir à cerimônia de casamento do príncipe Albert lI, de Mônaco, com a nadadora sul-africana Charlene Wittstock, em julho do ano passado. Não apenas pela grandiosidade

do evento, televisionado para todo o mundo, com celebridades e membros de todas as casas reais européias. Mas porque, dias antes, circularam rumores de que a noiva tentara fugir para seu

país natal e teria sido “dissuadida” por oficiais monegascos que apreenderam seu passaporte. Charlene subiu ao altar, sorriu para as câmeras durante os três dias de festa, mas não convenceu. “Ela não se esforça para ser aceita”,diz uma relações-públicas local. ”Até hoje não aprendeu a falar francês, que absurdo.” Charlene não preencheu o posto de musa, vago desde 1982,quando a princesa Grace Kelly, mulher do príncipe Rainier III e mãe de Albert e da princesa Caroline, morreu num acidente de carro. Agora aposta-se que essa vaga está prestes a ser ocupada.

 

A candidata é a jovem Tatiana Santo Domingo, filha da socialite paulistana Vera Rechulski e do empresário  colombiano Julio Mario Santo Domingo, morto em 2009. Tatiana está noiva de

Andrea, neto de Grace Kelly e filho da princesa Caroline com o empresário e esportista italiano Stefano Casiraghi.

 

Tatiana e Andrea têm 28 anos, conhecem-se desde crianças e namoram há sete. No fim do ano passado, eles haviam rompido o relacionamento pela quarta vez.Voltaram às boas em março. A festa de noivado aconteceu na semana passada no barco da princesa Caroline, no sul da França, e o casamento deverá acontecer em 2013.A imprensa francesa especula sobre uma possível gravidez.

 

Como Albert e Charlene ainda não produziram um herdeiro do trono, especula-se sobre quem sucederá ao monarca. O casamento com Tatiana habilita Andrea à sucessão.A questão é vital para a sobrevivência do principado, assombrado pelo fantasma de ser anexado à França caso o trono fique vago. Encravado num rochedo de 2 quilômetros quadrados, Mônaco sobrevive basicamente

dos atrativos tributários (que o transformaram num paraíso fiscal e enclave de milionários) e do turismo de luxo (que gira em torno do calendário de eventos e do cassino Monte Carlo,um dos maiores do mundo). O charme da realeza Grimaldi, que governa há mais de 700 anos, também ajuda a atrair dinheiro. Tatiana herdou parte da fortuna de US$ 8,4 bilhões do avô, o magnata Julio Santo Domingo. Ele era dono da cervejaria Bavaria e da companhia aérea Avianca. A holding da família, Valór em, faturou quase R$ 100 milhões em 2010. O único irmão da moça, Julio Mario Ill, é DJ e produtor de animadas festas em Nova York.

 

Tatiana e Julio foram criados em Genebra, na Suíça, e, desde pequenos, rodaram o mundo com os pais. Ela estudou em Paris, fez faculdade na Inglaterra e completou mestrado em comunicação

visual em Nova York. “É uma pessoa adorável, acessível, não tem frescura nenhuma. É uma princesa no espírito': diz a decoradora Esther Giobbi, sócia da mãe de Tatiana em duas lojas de objetos de decoração em São Paulo. Recentemente, Tatiana tornou-se defensora da moda ética. Com a amiga cipriota Dana Alikhani, fundou um site de e-commerce, o Muzungu Sisters, em

que vende roupas e bijuterias colhidas em ateliês de pequenos artesãos de todo o mundo, para fomentar as economias locais. Sarongues de Bali, boleros peruanos, pulseiras brasileiras e túnicas turcas integram também o guarda-roupa de Tatiana, eleita pela revista americana Vanity Pair uma das mulheres mais bem vestidas do mundo. Ela também angaria fundos para a ONG Motrice, de pesquisas sobre a paralisia cerebral. Nunca comentou publicamente seu relacionamento com Andrea. Por isso, é adorada pela sogra, que disse, segundo amigos: “Ela é rica, bonita e educada':

 

 

O noivado de Tatiana e Andrea animou o verão monegasco. Eles são vistos como uma versão mediterrânea dos ingleses William e Kate, um sopro de frescor e renovação juvenil na monarquia. Assim como a duquesa de Cambridge impulsionou as vendas da – grife Issa, da brasileira Daniella Helayel, ao usar um vestido da marca em seu noivado, Tatiana desfilou no seu uma bolsa da amiga anglo-brasileira Charlotte Dellal, modelo que praticamente esgotou na semana passada. Tatiana é

uma espécie de líder da nova geração do high society europeu. Frequenta as primeiras filas dos desfiles em Paris, Milão e Nova York. É amiga de estilistas internacionais, fala diversas línguas -

inclusive português perfeito « e nunca falta ao Carnaval carioca. Vida e jeito de princesa ela já tem. Só falta o título.

 

Há pouco mais de uma semana, hackers divulgaram as senhas de 453 mil pessoas do portal de notícias Yahoo! Vocês. Nos últimos três meses, outros dez vazamentos ocorreram, e mais de 27 milhões de senhas foram furtadas. O site de músicas Last.fm, o portal de namoro eHarmony e as redes sociais Twitter e Linkedln foram os principais alvos. Sim, é um alerta sobre a falha na segurança das empresas. Mas também revela nossa falta de habilidade para criar boas senhas.

 

No vazamento do Yahoo!, o termo mais encontrado foi… senha (password, em inglês). E o código,

“123456”. No LinkedIn, uma rede de contatos profissionais, “emprego” e “trabalho': temas relacionados ao conteúdo do site, foram os códigos mais usados. O americano Mark Burnett, especialista em segurança e autor de A senha perfeita, ·confirmou nossa falta de criatividade

ao analisar 6 milhões de códigos divulgados na rede. Uma variedade de apenas 1.000 senhas

era usada em 91% dos casos.

 

O americano Ioseph Bonneau, cientista da computação da Universidade de Cambridge (Reino Unido), estudou 70 milhões de senhas anônimas cedidas pelo Yahoo!, a maior análise feita até hoje. Bastaram dez tentativas para descobrir 1% delas, ou 700 mil senhas. ‘1\5 pessoas não entendem o risco das senhas fracas ou o ignoram': diz Bonneau.

 

As senhas são a forma mais popular de identificação eletrônica no mundo desde os anos 1960. Há

uma década, elas se limitavam ao computador, aos e-mails e a algum outro site. Hoje, u.a pessoa tem, em média, 25 cadastros on-line. Memorizar tantas senhas é um trabalho árduo.

 

Nossa capacidade de lembrar seqüências aleatórias é limitada. Preferimos criar códigos simples

e previsíveis a correr o risco de esquecê-los. “Outro erro é usar a mesma senha para tudo': diz José

Matias, diretor da empresa de segurança on-line Mc Mee. ‘1\5 pessoas colocam na balança a segurança e o conforto:’ E pendem para a segunda opção.

 

Um atalho comum é usar números com significado pessoal. Datas de aniversário, endereços ou telefones antigos. O mesmo acontece com palavras. Usamos os nomes de nossos filhos ou pais, o time do coração, um apelido de infância. Só que essas informações são facilmente encontradas

em blogs e redes sociais. Em outras palavras, são um cartaz de boas-vindas para os hackers.

 

Senhas curtas facilitam os ataques Hackers usam dicionários e listas de senhas com programas

capazes de testar até 2 bilhões de combinações por segundo. Um código de cinco caracteres, com

10 bilhões de possibilidades, não resistiria por cinco segundos. Com mais três caracteres, exigiria

57 dias de trabalho para ser descoberta. “Toda senha pode ser quebrada”, diz o especialista em

segurança digital Maurício Balassiano, da empresa de identidades digitais Certisign, ”A diferença é o

tempo necessário.”

 

Existem técnicas que, combinadas ou não, dificultam o trabalho dos hackers. Uma delas é substituir letras por números e símbolos, “Estante” seria “&s7an7&': Outra é usar combinações de quatro ou mais palavras aleatórias,como “estanteazultetobelo” A terceira alternativa é recorrer às iniciais das

palavras de um trecho de livro ou música. Se a canção “Garota de Ipanema” for usada como exemplo, os versos Olha que coisa mais linda/mais cheia de graça se transformariam em”oqcmlmcdg”. Uma senha que só o dono entende.

 

Não adianta criar novos códigos e manter velhos hábitos, como reutilizar senhas e deixá-las desatualizadas. Troque-as a cada um, três ou seis meses. Isso varia de acordo com a segurança da senha e a relevância do site.Uma saída é dividi-las em três categorias. Uma senha simples para sites sem importância, como perfis em blogs. Outra, mais forte, para redes sociais e endereços com  informações pessoais. E a mais segura para sues com dados financeiros e sua conta principal de e-mail, por onde são recuperadas outras senhas. Uma alternativa são programas que memorizam

e completam os dados do perfil para você, conhecidos como gerenciadores de senhas (leia o quadro ao lado). Nenhuma senha é perfeita, mas fugir do óbvio e ter alguns cuidados pode ajudar bastante a preservar sua privacidade on-line.

 

“Não procurei Lula depois das vaias no Pan”

 

O ex-prefeito Cesar Maia se arrepende de não ter falado com o ex-presidente após a polêmica abertura do Pan em 2007

 

 

Surpreenderam a todos as cinco vaias seqüenciais que Lula, então presidente, recebeu na

abertura dos Jogos Pan-Americanos em 2007,no Maracanã (Rio de Janeiro). Para piorar, houve falhas do protocolo da cerimônia. Informaram ao presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB),

Carlos Nuzman, que Lula não falaria na abertura. Nuzman fez um discurso no exato momento em que o pedestal do microfone era colocado na frente de Lula- que estava pronto para abrir a cerimônia. Foi um constrangimento geral. Mais uma vez,o nome de Lula foi citado – e vaiado. O ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o espanhol Juan Samaranch, me perguntou o

que estava acontecendo, pois sabia que Lula era muito popular. Eu não sabia o que dizer.

 

Lembro que pouco antes da abertura dos Jogos, quando Lula fazia uma visita à Vila do Pan e tratavam da cerimônia, comentei com o pessoal do COB,citando Nélson Rodrigues: vamos minimizar

a exposição das autoridades maiores, porque no Maracanã ‘torcedor vaia até minuto de silêncio’. Trágica profecia.

 

Depois do encerramento da abertura do Pan, Lula me cumprimento normalmente. Descemos pelo mesmo elevador, fechado para autoridades do camarote presidencial. Ao chegar ao térreo, a imprensa toda me cercou. O então ministro do Esporte, Orlando Silva, repetiu o que ouvira do entorno presidencial: que quem programara as vaias tinha sido eu. Um absurdo. Mais fácil seria eu ser alvo de vaias.Na hora, relevei pelo calor dos fatos. Queriam um bode expiatório. Se havia algum clima nesse sentido, seria obrigação do serviço de inteligência do presidente pré-informar.

 

Deixei passar o tempo. Tinha certeza de que os boatos desapareceriam, e Lula voltaria a me receber, como sempre. Não foi assim. O presidente tornou-se agressivo.A cada vinda ao Rio, me criticava dizendo que eu falhara nisso ou naquilo, que não o recebia etc. De 2003 a julho de 2007, nada havia ocorrido. Por que a um ano e meio do fim de meu governo seria diferente?

 

Só em 2008, quando sentia que a agressividade de Lula crescia, fiz uma reflexão. Logo em seguida aos fatos da abertura do Pan, um ano antes, era minha obrigação ter pedido oficialmente

uma audiência com o presidente. Nela, trataria do assunto e demonstraria que nada daquilo que sua assessoria comentara era verdade.

 

E os desentendimentos continuaram. Todo o processo que culminou na vitória do Rio de Janeiro para ser a cidade sede dos Jogos Olímpicos em 2016 ocorreu na época em que eu era prefeito. Quando se formava a delegação que assistiria, em 2009, à solenidade da escolha da cidade sede, Orlando Silva propôs meu nome. A rejeição presidencial foi total.

 

Recebi um telefonema de Orlando Silva quando o Rio venceu a disputa para sediar os Jogos Olímpicos. Naquele momento – dez meses depois de ter saído da prefeitura-, senti o impacto

maior de meu erro. Eu me perguntava, e ainda me questiono, a razão de não ter pedido uma audiência com o presidente imediatamente depois da abertura do Pan em 2007. Queria dizer-lhe

que nada do que ele pensava condizia com a verdade. Não orquestrei aquelas fatídicas vaias. Foi um erro político e protocolar que um político não pode cometer, mas cometi. E senti – e sinto até hoje – o peso desse erro”.

 

Resistente sem perder o brilho

 

O esmalte permanente da Nails Beauty dura até duas semanas e não descasca

 

A marca portuguesa Nails Beauty promete esmaltes que ficam nas unhas por duas semanas,

sem sair ou desbotar. Você pode comprar o kit e fazer as unhas em casa ou ir a um salão. Nos salões, a manicure empurra as cutículas com uma lixa mecânica, semelhante à usada por podólogos, e passa uma base especial para fixar o esmalte – são 30 cores diferentes.

A cada unha que recebe o esmalte, a mão é posta dentro de um aparelho de luz ultravioleta para secar o produto. Isso torna o processo demorado. Por fim, é aplicada uma camada de finalizador.

 

Durante os dez dias em que usei o esmalte, a cor permaneceu tão viva e brilhante quanto no

momento da aplicação. O único problema foi o crescimento das cutículas e das unhas, visível após

uma semana (foto abaixo). Dá para tirar o esmalte em casa. Cada unha deve ser coberta por um algodão embebido em removedor e, depois, embalada em papel-alumínio. Depois de oito minutos, o esmalte solta por inteiro da unha. A aplicação custa R$ 35 e pode ser feita em algumas cidades de São Paulo. O kit custa R$ 549.

 

JAIRO BOUER

 

Suicídio e gravidez na adolescência

 

Duas pesquisas recentes sobre comportamento e saúde dos jovens – principalmente das adolescentes – chamam a atenção por dois motivos: abordam o delicado tema da morte das garotas no mundo e divergem sobre qual seria a principal causa dessa tragédia.

 

O primeiro estudo, publicado em junho na revista médica The Lancet, esmiúça a questão do suicídio.

Diz que é a segunda causa de morte de jovens no mundo e a principal entre as garotas. O segundo,

divulgado neste mês pela ONG inglesa Save the Children, revela que a maior causa de morte das jovens são as complicações decorrentes de uma gravidez precoce.

 

O suicídio na juventude foi sempre um tema espinhoso. Dizia se que os índices eram altos em locais

como o Japão (em que os jovens seriam submetidos a muitas exigências) e nos países nórdicos

(onde o excesso de proteção social causaria impacto na perspectiva de vida). Não se imaginava, porém, que o fenômeno tivesse proporção planetária nem que transtornos psiquiátricos, como depressão e dependência de drogas, fossem tão prevalentes entre os jovens. Nem que estivessem tão intimamente ligados ao suicídio.

 

Instabilidades emocionais típicas da adolescência, contato precoce com situações da vida adulta

(como sexo) e imaturidade para lidar com questões complexas são outros fatores que podem tornar a vida dos jovens uma mistura explosiva. Uma sociedade que impõe padrões rígidos de desempenho, imagem e consumo também pode contribuir para os suicídios.

 

Com relação à gravidez na adolescência, sabe-se que, em muitos países, como o Brasil, houve uma redução importante do número de casos nas duas últimas décadas. Mesmo assim, em cada cinco ou seis nascimentos no país, há uma adolescente na sala de parto. Quase metade planejou engravidar. Isso revela como a maternidade representa um projeto de vida e uma esperança de estruturação familiar para elas. Vale lembrar que problemas como diabetes, pressão alta e complicações no parto são mais comuns no corpo de uma adolescente. Cerca de 50% dessas gestações não chegam ao final por abortos espontâneos ou provocados.

 

Mais importante que saber a principal causa de morte é pensar em estratégias para identificar e

tratar os transtornos mentais. Outro ponto é trabalhar a prevenção da gravidez na adolescência.

Deixo duas questões. Será que o medo e o despreparo em lidar com uma gestação ou com um aborto não podem desestabilizar o equilíbrio emocional e contribuir para um maior risco de suicídio Ou será que uma garota com a auto estima abalada engravida para tentar achar um papel social? Talvez os dois problemas estejam mais próximos do que imaginamos.

 

O ator inglês Christian Bale veste bem os ternos Armani que simbolizam os anos de prosperidade

de Wall Street. Em 2000, no filme O psicopata americano, ele foi o investidor yuppie Patrick

Bateman. Narcisista e violento, o personagem se tornou o símbolo perverso dos Estados Unidos do final dos anos 1980,quando a prosperidade econômica do governo Ronald Reagan impulsionava as

Bolsas de Valores e produzia milionários da noite para o dia.

 

Agora, com o CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE, que estréia no dia 27 nos cinemas brasileiros, Bale volta a vestir ternos elegantes, mas num cenário econômico distinto. Na pele do bilionário Bruce Wayne, ele depara com uma população inflamada pela desigualdade social. Cidadãos ressentidos são atraídos pelo vilão Bane (Tom Hardy), um terrorista carismático que alicia

a multidão para seu projeto de destruição de Gotham City com um discurso ao mesmo tempo

populista e intimidador. Sob o comando de Bane, a cidade vive .lima espécie de revolução criminosa,

com julgamentos e execuções sumários, expropriações e acerto de contas social.

 

A história fictícia tem correspondência no mundo real. Trata-se de uma parábola dos embates

sociais que se estenderam pelo fim do ano passado no Parque Zuccotti, em Nova York,próximo

a WallStreet – não por coincidência, vizinho ao local escolhido para as filmagens. O personagem

Bruce Wayne,mesmo meio falido, faz parte do 1% de ricos e milionários que foram alvo dos protestos

Ocupe Wall Street. Os 99% excluídos de Gotham ficam na sombra, assustados, ou se aliam

aos criminosos que dominam a cidade. Formam uma massa confusa e amorfa, que requer proteção

e comando. Batman, a sua maneira inarticulada e muscular, é o líder conservador que detém

a revolução e restaura a ordem. Um legítimo representante da elite econômica e moral da cidade.

 

O conflito social é o motor do filme, o último de uma trilogia iniciada em 2005. A nova Mulher

Gato, interpretada por Anne Hathaway, veio de baixo na pirâmide. Filha de operários, ela rouba

e seduz milionários idiotas, movida por um vago propósito social. Seu lema é fazer os abastados se

arrepender de seus excessos. “Ela se encaixa perfeitamente em nosso universo de personagens sombrios”, disse a ÉPOCA a produtora Emma Thomas, mulher do diretor Christopher Nolan. “Você

nunca sabe de que lado ela está.” Numa das cenas mais simbólicas do filme, durante um baile de gala, ela encosta a boca vermelha e sensual no ouvido de Wayne e sussurra: “Há uma tempestade chegando. Quando ela nos atingir, vocês não entenderão como puderam viver com tanta largueza e deixar tão pouco para o resto de nós': A frase poderia ter saído de um poema militante de Bertold Brecht. Para frear a avalanche criminosa e social, Batman, pela primeira vez, se alia oficialmente à polícia.A mensagem é clara: o Homem Morcego e a Justiça representam as forças capazes de vencer o mal, encarnado pelo ativismo social.

 

Nolan, o diretor do filme, diz que sua principal influência para o roteiro foi o romance Um

conto de duas cidades, de 1859, do britânico Charles Dickens. O livro, ambientado na Revolução

Francesa de 1789, acompanha o impacto dos acontecimentos históricos sobre a vida de personagens que pertencem a diferentes grupos sociais – o aristocrata, o malandro, o miserável…

As multidões, ora inflamadas, ora submissas, conferem o pano de fundo contra o qual a trama

se desenrola. Da mesma forma, Nolan tentou fundir a complexidade das lutas e dos interesses

sociais aos dilemas morais e afetivos de seus personagens. Em alguns momentos, com a ajuda

de atores como Michael Caine, Batmam ganha tons quase shakespearianos.

 

Com ele, Nolan se consagra como o diretor que melhor traduziu o personagem dos quadrinhos

para o cinema. Foi o único capaz de captar a essência violenta e triste do Homem Morcego.

Traz, ao mesmo tempo, realismo e modernidade para suas histórias. Agora, com O cavaleiro das

trevas ressurge, ele acrescentou a isso tudo um toque de profundidade que o maniqueísmo original

dos quadrinhos não tinha. Um Oscar para premiar a trilogia, e seu imenso sucesso comercial, não seria nenhuma surpresa.

 

A musa dos corações partidos

 

A melancólica Fiona Apple é aclamada por seu novo disco – e a ciência tenta explicar o

fascínio por canções tristes

 

Aos 8 anos, Fiona Apple entrou no quarto de sua mãe e pediu um piano. Explicou que

queria “fazer as pessoas felizes”. Não foi bem isso o que aconteceu, apesar de o instrumento ter sido

fundamental na educação musical de uma das maiores cantoras e compositoras da música americana. Fiona está com 34 anos e se tornou especialista em lacerar a alma de seus fãs. Lançou no mês passado seu quarto disco, aclamado pela crítica. O jornal americano Los Angeles Times definiu-o como “essencial para qualquer um interessado em música popular como arte”. No site Metacritic, que reúne avaliações da imprensa especializada, teve média 90 de 100. Ao mesmo tempo, é apontado como um dos discos mais tristes e sombrios de Fiona.

 

“É quando começa a dor …”, ela canta em “Every single night”, a música de maior sucesso de

seu novo disco. “Toda noite é uma batalha com meu cérebro” diz o refrão da canção. Depois

dele, segue-se um mantra. “Eu só quero sentir tudo, eu só quero sentir tudo” … The idler wheel …

(o título do disco tem outras 20 palavras, o que justifica as reticências) não é musica de

. fundo para tardes ensolaradas.

 

Fiona sofre de transtorno obsessivo- compulsivo, depressão e fobia social, inspirações declaradas

de seus sucessos. Passa quase todo o tempo sozinha com sua cadela Ianet, numa pequena casa

na Califórnia. Quando lançou seu primeiro disco, Tidal (1996), considerado um dos 100 melhores

da década de 1990 pela revista Rolling Stone, perguntaram a ela se uma das canções, “Sullen girl”

(Costumava navegar por mares tranquilos/Mas ele me levou ao litoral/E ele tomou minha pérola), era sobre um namorado. Ela respondeu que não, e revelou que a canção era sobre o estupro que sofrera

aos 12 anoso triunfo arrebatador logo no disco de estréia, e com uma estranha aversão ao sucesso, o suicídio tornou-se uma obsessão para ela. Seus próximos discos ficaram ainda mais deprimidos.

E raros. Ela demora vários anos para fazer um disco – foram sete para The idler wheel… – mas

nunca deixou de agradar a público. e crítica com sua melancolia.

 

Fiona é estrela recente de uma longa linhagem de cantoras de fossa. A voz trêmula da diva

americana do jazz Billie Holiday lamentando o amor não realizado em “I’m a fool to want you”. Ou

Maysa, a rainha da fossa no Brasil, cantando “Meu mundo caiu”. Ou mesmo a britânica Adele, com

seu sucesso mundial “Someone like you” (e quase todo o seu disco 21). As canções de Fiona são

dolorosas o bastante para que fugíssemos delas, mas não. A fossasempre provocou fascínio – e a

ciência tem explicações para isso.

 

O pioneiro nesse campo foi o psicólogo britânico John Sloboda. Em 1983 ele lançou o livro A

mente musical, no qual descreve uma progressão de sons que são identificados como tristes pelos

ouvintes, mas que, paradoxalmente, causam sensação de conforto. A principal dessas progressões

é chamada appoggiatura . Quase imperceptível a ouvidos leigos, ela nada mais é que uma

nota musical dissonante que quebra a melodia. “Isso causa uma tensão no ouvinte”, disse ao Wall

Street [ournal o psicólogo Martin Guhn, que estuda o assunto na Universidade da Colúmbia Britânica,

no Canadá. “Quando a música volta à melodia normal, a tensão se resolve, e dá uma sensação

boa”, afirma Guhn. A canção “Never is a promisse”, do primeiro disco de Fiona, é um exemplo típico do bom uso da appoggiatura. Ela aparece em muitas das listas de “músicas mais tristes da história”

Assista na internet.

 

O prazer causado pelas canções de Fiona pode estar ligado também à liberação de um hormônio

chamado prolactina. O professor David Huron, da escola de música e do centro de ciência cognitiva da Universidade de Ohio State, nos Estados Unidos, promoveu um estudo e descobriu que canções

tristes induzem à tristeza e, por isso, o organismo libera a prolactina no sangue. Segundo Huron,

o hormônio causa um efeito psicológico de conforto em situações como a morte de um parente ou

o fim de um relacionamento. “É como a Mãe Natureza dizendo: ‘Calma, calma, está tudo bem”‘,

afirma Huron. Só que, ao fim de uma canção triste, nada de realmente ruim aconteceu com o ouvinte. “É apenas música, mas você é beneficiado pela liberação desse hormônio e fica bem”, diz Huron. “É o choro bom.”

 

Em meio ao zunido das balas

 

O escritor espanhol Javier Cercas mirou na ficção e acertou no jornalismo

 

As imagens estão disponíveis no YouTube. Um soldado com chapéu esquisito entra na Câmara dos Deputados em Madri. Atrás dele, uma turma de militares. Surpresos e incrédulos, os congressistas

cochicham, mas dura pouco a confabulação. Os militares atiram para o alto e ordenam a todos que

se abaixem. Entre os poucos que desobedecem estão um velho militar, um líder de oposição e o presidente do governo, cargo equivalente ao de primeiro-ministro. Num quadro eloquente, Adolfo Suárez, o presidente, permanece impávido entre as balas que zunem a seu redor. Era o dia 23 de fevereiro de 1981, e a Espanha enfrentava mais um golpe de Estado. Reproduzida na primeira página dos principais jornais do mundo, a fotografia de Suárez, indiferente ao tiroteio, ajudou

a abortar o golpe, conferindo a certidão de nascimento à democracia espanhola.

 

O vídeo que mudou a história da Espanha sempre foi uma obsessão do escritor espanhol Iavier

Cercas. A atitude de Suárez sempre foi tema de debate entre ele e seu pai – o adulto considerava

o presidente um herói, enquanto o jovem o via como um oportunista. Mais tarde, já escritor,

Cercas decidiu que o episódio seria um bom tema para um romance. Ao pesquisar sobre o assunto,

decidiu que a abordagem jornalística seria mais adequada. “O golpe em si tinha uma aura de ficção”, disse Cercas a ÉPOCA. “Achei mais produtivo me concentrar na realidade.” Assim surgiu Anatomia de um instante,recém-lançado no Brasil-livro que mostra que não há hierarquia de qualidade entre a literatura de ficção e a boa prosa jornalística.

 

O livro de Cercas forma na liga do jornalismo literário, gênero criado nos Estados Unidos nos

anos 1940. Ao teorizar sobre o movimento, o escritor Tom Wolfe diz que “a técnica de apresentar cada cena por intermédio dos olhos de um personagem particular dá ao leitor a sensação de estar experimentando a realidade emocional da cena como o personagem a experimenta”. É em cima desse recurso que se estrutura Anatomia de um instante. A história é narrada, alternadamente, pelos olhos de Antonio Tejero, o militar golpista; de Santiago Carrillo, o líder comunista de oposição; de Manuel Gutiérrez Mellado, o general que era o comandante militar de Adolfo Suárez; e do próprio Suárez.

 

Para entender cada um desses personagens, Cercas pesquisou livros e jornais, entrevistou políticos

e historiadores e, sobretudo, viu várias vezes o vídeo. “O filme é a principal matéria-prima de meu

livro”, afirma. A obra ganhou vários prêmios literários, mas causou polêmica entre jornalistas. Alguns

acharam que Cercas tomou liberdades excessivas – digamos, literárias – na reconstituição dos

fatos. Quando se compara o livro as obras-primas do gênero, nota-se que ele segue os cânones

da tradição. Como Iohn Hersey, autor de Hiroshima, Cercas centra seu livro na trajetória dos personagens. Como Truman Capote, de A sangue frio, tem especial sensibilidade para instantes dramáticos. Se há alguma inovação em Anatomia de um instante, talvez sejam os longos trechos de análise política. No fim, o escritor sé reconcilia com o pai, que morreu enquanto ele escrevia o livro: “Eu havia entendido que não tinha tanta razão e ele não estava tão errado”.

Veja 25/07

CRIME URBANO, ENFIM UMA ESPERANCA

 

Uma reportagem desta edição de VEJA relata os dramas de pessoas que sofrem de uma dolorosa

doença psíquica conhecida como stress pós-traumático, ferida mental e emocional que teima em não se fechar em vítimas te sequestro, assalto, roubo e invasão de sua casa por bandidos. Para essas

pessoas, tão afetadas quanto soldados veteranos de batalhas sangrentas, o terror nunca termina. São centenas de milhares os brasileiros nesse estado.

 

A reportagem traz também uma pesquisa inédita feita em todas as capitais do país sobre como as pessoas estão tentando se defender da guerra urbana promovida pelos criminosos. As soluções paliativas são velhas conhecidas – carros blindados, casas que parecem fortificações medievais, muros eletrificados, segurança privada contratada para dar a sensação de viver em um lar indevassável, este um direito básico que o poder público não consegue garantir. Alguns cidadãos, mais alarmados, estão se cercando de aparatos de segurança que em países normais são privativos de chefes de estado – vigilância por radar de aproximação, detectores de movimento por raios laser.

 

No meio da treva, acende-se uma luz. Especialistas ouvidos por VEJA analisam com otimismo o que ocorre em algumas regiões urbanas, São Paulo e Rio principalmente. As estatísticas de roubo estão

no mesmo patamar, mas essas regiões têm experimentado uma constante e rápida queda no número de assassinatos. Isso é resultado de uma feliz combinação de estabilidade financeira, pleno emprego, firme ação policial e maior acesso a técnicas científicas de investigação criminal.

É um avanço. Mas só será possível ao Brasil reivindicar seu almejado posto de potência mundial no dia em que os moradores das grandes cidades puderem voltar para casa a pé dos restaurantes, cinemas ou shopping centers à noite sem medo de ser vítimas de algum predador à espreita na esquina.

 

O Davi contra o Golias

 

O candidato da oposição a Presidência da Venezuela conta como é enfrentar a maquina eleitoral de Chavez e explica por que não é bom momento para o país entrar no Mercosul

 

Em contraste com a monotonia vermelha dos comícios em apoio ao presidente venezuelano Hugo Chavez, as passeatas do candidato único da oposição as eleições  de outubro, Henrique Capriles Radonski, são uma profusão de cores. Elas representam os mais de vinte partidos que apóiam seu nome para presidente. Nos eventos de Capiles, conhecido como “o Magro”, também não há ônibus fretados pelo governo ou bonés e bandeiras com o logotipo da petrolífera estatal PDVSA, alguns dos sinais mais óbvios do escandaloso uso de dinheiro publico a serviço da reeleição de Chavez. Capriles, advogado, governador do estado de Miranda, tem quase três meses para reverter o favoritismo de Chavez. Sua esperança é tornar-se conhecido pelos 23% de eleitores indecisos. Para apoiá-lo, é preciso coragem. Em um único dia de campanha testemunhado por VEJA, a caravana Capriles furou três barricadas de chavistas que batiam nos carros e faziam ameaças aos passageiros. Dentro de um ônibus na cidade de Maturin, no leste da Venezuela, e com os braços arranhados pelas mulheres (ele é solteiro e acaba de fazer 40 anos), Capriles concedeu a seguinte entrevista.

 

Os governos do Brasil e da Argentina aproveitaram a suspensão do Paraguai, no mês passado, para acelerar a adesão da Venezuela ao Mercosul. Apesar do subterfúgio usado para aprová-la, a entrada no bloco será boa os venezuelanos? Depende do cenário. Se o modelo econômico vigente em nosso país for mantido, não teremos nada a ganhar. As ex-propriacoes de empresas e de fazendas, os confiscos, os blecautes de energia, as estradas malconservadas e os assaltos destruíam o aparato produtivo em todas as áreas. A Venezuela hoje não exporta nada além do petróleo, e ate esse setor está em declínio, por causa da falta de investimentos. A produção, que já esteve acima de 3 milhões de barris, caiu para 2.4 milhões de barris por dia. A Venezuela se tornou essencialmente um país importador. Há filas de barcos ao longo do litoral esperando para desembarcar contêineres cheios de produtos vindos do exterior. Depois, voltam todos vazios para os países de origem. O ingresso no bloco regional só será positivo se mudarmos o modelo econômico, valorizando as exportações. A Venezuela é uma terra bendita, que pode diversificar a economia, desenvolvendo o potencial agrícola, o turismo, a indústria e a mineração de ouro e de ferro. Os outros integrantes do Mercosul poderiam comprar nossos produtos com tarifas de importação reduzidas, o que beneficiaria os trabalhadores venezuelanos. É nesse cenário que eu aposto. Não quero que a Venezuela seja uma economia de portos.

 

Se não há vantagens comerciais, por que Chavez se empenhou tanto para o país entrar no Mercosul? Seu interesse é paramento político. O presidente quer entender sua influencia. Ele não está preocupado com o desenvolvimento da Venezuela. Um de seus argumentos foi que os produtos importados ficarão mais baratos. Não há nenhuma preocupação com a produção nacional. Vivemos um momento de bonança petrolífera, com o preço do barril de petróleo cotado a preços altíssimos. Quando se olha ao redor, porem, parece que estamos exatamente como há quarenta anos. As estradas não têm asfalto e os hospitais estão em ruínas. Na ultima década de governo Chavez, a Venezuela perdeu uma gigantesca oportunidade de se desenvolver.

 

No inicio da campanha, o senhor dizia inspirar-se em Lula. Recentemente, ele declarou apoio a Hugo Chavez. Foi uma má ideia associar-se a imagem do ex-presidente brasileiro? Isso não importa. Não sou do tipo que personaliza as coisas. Lula foi o capitão da equipe, mas o time é o Brasil. O capitão mudou,e o Brasil continuou produzindo. Desde o plano Real, os brasileiros entenderam que tento o estado como a iniciativa privada têm um papel a cumprir. Quando esses dois trabalham juntos, os mais pobres se beneficiam. No fim, a saída da pobreza é ter um emprego que permita as pessoas se superar. O Brasil compreendeu isso e matem um modelo de sucesso.

 

Muitos eleitores de Chavez são beneficiários das misiones, como são chamados os programas sociais do governo. Elas reduziram a pobreza na Venezuela? Os cidadãos só saem da pobreza quando conquistaram condições de vida dignas. Não basta ter recursos para comprar  comida. Sair da pobreza é ter um emprego estável, ter oportunidades para que os filhos estudem em uma escola de qualidade, morar em uma casa em bom estado e poder ser atendido decentemente em um hospital. O governo criou programas sociais que ajudam, mas não resolvem o problema. Os recursos do estado são insuficientes para que todos possam desfrutar do bem-estar a que aspiram. E preciso contar com a ajuda da iniciativa privada, e isso não aconteceu na Venezuela. Como governador do estado de Miranda, eu também criei programas sociais. Eles têm um objetivo final, pois apontam para uma porta saída. Quem vive na pobreza deve ter um sustento digno ate que se capacite para encontrar um emprego formal. Ocorre que, na Venezuela não se criaram novos empregos. Eles foram reduzidos. O único empregador que aumentou sua folha de pagamento foi o estado, e ainda assim são postos de trabalho mal remunerados.

 

O senhor faria alguma mudança na misiones chavistas? Eu proponho que elas não sejam partidarizadas e que a escolha dos beneficiários não obedeça a critérios políticos. Se o cidadão não pertence ao partido do governo, não ganha nada. Isso é uma chantagem, uma maneira de comprar apoio para o presidente. Não importam quem seja o governante, os programas precisam estar bem regulamentados para que cheguem ate onde devem chegar, ou seja, a todos os venezuelanos que de fato necessitam.

 

Chavez está no comando da Venezuela há treze anos e, nesse período, as expropriações de empresas, os apagões de eletricidade e os homicídios se tronaram mais freqüentes. Apesar disso, ele lidera as pesquisas eleitorais. Como explicar isso? A alta no preço do petróleo permitiu a ele repartir os lucros desse recurso com os mais pobres, uma parcela da população antes ignorada pelos governos nacionais. Eu não reivindico o passado. Chávez é a conseqüência de um sistema que implodiu, e se apresentou como um salvador. O problema é que ele não salvou o país.

 

Como Caracas se transformou na capital com a maior taxa de homicídios do mundo? Governos como o de Chavez se sustentam na anarquia. Quando há uma situação como a atual, de insegurança, quem são os fortes? São dois, o estado e o delinqüente. O fraco é o cidadão. O que ele faz? Esconde-se nessas condições, é mais fácil para Chavez manter os cidadão sob controle, porque eles estão amedrontados. O medo e o terror estão presentes na vida dos venezuelanos, isso é uma realidade.

 

O que o senhor mudaria na política externa da Venezuela? A Venezuela prioriza as relações com países cujo governo é uma vergonha para todos, como a Bielorrússia e o Irã. Veja os amigos que temos. A política exterior deve fortalecer  as relações com países em que há democracia, que respeitam os direitos humanos e com os quais temos interesses em comum: Brasil, Colômbia e Estados Unidos, por exemplo. Chavez fala em não ingerência e em respeitar a soberania de outros países, mas ficou numa situação complicada no Paraguai. Menos por causa da reunião do chanceler Nicolás Maduro como militares paraguaios ( em que o venezuelano insuflou um golpe militar para evitar o impeachment do presidente Fernando Lugo), e mais pela ameaça de Chavez de suspender a venda de petróleo a Assunção. Como alguém que se opõe ao embargo econômico a Cuba pode defender o mesmo tipo de sanção ao Paraguai? Isso prova que diplomacia da Venezuela obedece apenas as preferências políticas e pessoais de Chavez. Ele se relaciona com quem sente afinidade ideológica, se distancia de todos os outros.

 

O que Cuba, cujo regime Chavez patrocina, pode esperar do futuro se o senhor se tornar presidente? Não pretendo suspender as relações diplomáticas com a ilha. Cuba e Venezuela podem ter uma relação ainda mais proveitosa. Atualmente,o que existe é uma admiração de Chavez por Fidel Castro, e uma tentativa do governo venezuelano de manter de pé o modelo cubano. Este, contudo, é insustentável. O processo de abertura de Cuba vem sendo adiado há muitos anos, mas é inevitável.

 

O senhor disputa as eleições em igualdade de condico4es com Chavez? Qualquer pessoa que ficar uma semana na Venezuela perceberá que não. Ao ligar a televisão, verá todos os canais públicos dedicados a fazer campanha para o presidente. Mais do que isso, verá como esses programas pagos com o dinheiro dos contribuintes se esmeram em me desprestigiar. Também verá as publicidades do governo que todos os jornais e canais são obrigados a divulgar, de graça. Em compensação, as visitas que tenho feito pessoalmente aos povoados do país são inéditas. O governo até tentou impedir que eu fizesse a campanha dessa forma. Chavez nunca se empenhou em um corpo a corpo como esse. Assim vencerei essa eleições, não colando cartazes por todos os lados falando o tempo todo na televisão.

 

 

O senhor se considera de direita, como afirma Chavez? Não, e esse não é o debate da minha geração. Essas etiquetas não servem mais. A china é comunista? É um debate do passado, assim como as ideias de Chavez. O atual governo, que se diz de esquerda, na realidade é apenas retrogrado. Chávez nunca quis que eu fosse candidato, por isso tenta me desqualificar inventando  um rótulo qualquer. Ele queria enfrentar um candidato que representasse o passado. Lamentavelmente para ele, não foi o que aconteceu. Quem comparece aos meus atos de campanha são, em maioria, jovens. Entre eles, a taxa de desemprego chega 20%. As mensagens ideológicas de Chavez não fazem o menor sentido pra eles.

 

Chavez diz que há um plano da oposição para reconhecer o resultado das eleições. Por outro lado, alguns militares chavistas deram a entender que não aceitarão uma derrota do presidente. Que credibilidade terão essas eleições? Eu  propus a Chavez a assinatura de um acordo formal em que nos comprometeremos a respeitar a decisão das urnas. Esse documento, contudo, deve incluir o compromisso de não usar os recursos da petrolífera estatal na campanha, de não transmitir discursos políticos em cadeias de televisão, de não obrigar os funcionários públicos a ir aos comícios do presidente e de não usar a polícia para impedir nossas passeatas. Essas violações das leis eleitorais ocorrem diariamente.(o acordo foi assinado após a entrevista, sem os compromissos adicionais propostos por Capriles).

 

Quais são os outros métodos usados pelo governo para intimidar a oposição? Houve a criação das milícias fieis ao presidente, que não obedecem as Forcas Armadas. Todo país tem o seu contingente de reservistas. Chavez transformou civis em um braço político armado de seu governo. O objetivo é amedrontar a população. Em Caracas, também existem os coletivos armados, que atacam os opositores do governo e controlam territórios inteiros da capital. É preciso desarmá-los totalmente.

 

Chavez passou o ultimo ano recebendo tratamento contra um câncer, sobre o qual o governo faz muito mistério. A doença pode influenciar no resultado das eleições? Não acho que a enfermidade possa ajudar ou atrapalhar. O debare é outro. As pessoas estão cansadas de sentir medo e de ter de falar o que não pensam apenas para agradar ao governo e viver em paz. Estou convencido de que a partir de 8 de outubro, após a voracao, haverá uma nova realidade política no país.

 

 

EDUCACAO PROTEGE O MEIO AMBIENTE?

 

Neste ensaio, não ataco, não catequizo. Pergunto e tento responder com o melhor que a ciência tem a oferecer. Talvez o assunto do aquecimento global seja controvertido. Mas há evidência sólida de que o meio ambiente está sendo estragado a um ritmo alarmante. Os recursos naturais são escassos e a voracidade no seu uso só tende a crescer. A conta ecológica não fecha. Tampouco se sustenta a dicotomia entre os ecoirresponsáveis e os ecobobos – esses últimos, com sua romântica tirania de que é preciso preservar tudo. O Caminho do Meio é aprender a usar a natureza com parcimônia e inteligência. E o papel da escola nisso tudo? No caso, falamos de escolaridade, pois é o que se pode medir. Que fique claro, escola não faz mágica. A União Soviética cometeu incontáveis barbaridades contra o meio ambiente (por exemplo, secar o Mar de Aral), apesar de ser, na época, uma das nações mais escolarizadas do mundo. E não é o único exemplo de gente escolarizada pecando contra o meio ambiente. Além disso, sem longo tempo na escola, os avanços se tornam muito difíceis. Assim sendo, parece ser condição necessária, mas não suficiente.

 

Para entender melhor, podemos pensar que ir à escola traz consequências de dois tipos: cognitivas

e afetivas. Ou seja, no entendimento e nos valores. Vejamos uma de cada vez. Não parece ser possível usar os recursos naturais com juízo sem entender os processos e ciclos biológicos.

Aliás, tanto quanto sei, apenas demografia rala e tecnologia impotente permitiram a povos primitivos

não danificar a natureza. Nossos índios praticavam a coivara (queimar/cultivar/abandonar).

Só não deixaram grandes estragos porque eram  poucos. Equilíbrios são delicados. Uma mexidinha aqui estraga algo acolá. Por que as abelhas estão sumindo? E os sapos e as rãs? Em lagos da

Nova Inglaterra, os pássaros migratórios escassearam. Eis a razão: o homem matou os lobos e, com

isso, a população de veados cresceu, deixando sem comida os passarinhos. E por aí afora.

 

Sem pesquisa séria não compreendemos os ciclos da natureza e seus acidentes. E, sem um ensino

de qualidade para todos, a sociedade não entende as explicações dos cientistas. Sem escola, o entendimento só atinge onde a vista alcança, em assuntos em que muitos problemas não são visíveis a olho nu, como o aquecimento global. Da mesma forma, se eu destruo intinitesimamente, nada acontece, mas, se todos destroem o seu infinitésimo, o somatório é a catástrofe ecológica (caso clássico de falácia de composição). As consequências da educação sobre valores, atitudes, aspirações e hábítos são potentes. Alinho adiante alguns dos resultados mostrados por pesquisas recentes e metodologicamente confiáveis. No espírito do ensaio, apenas constato que quem tem mais escolaridade valoriza mais o futuro e, em prol dele, dispõe-se a abrir mão de gratificações presentes. Pensa mais no filho, no neto e no mundo que deixará para eles. Não é supérfluo lembrar que os mais escolarizados avaliam melhor seus governantes e votam naqueles mais comprometidos

com o interesse coletivo. Pesquisas revelam: a educação reduz a fertilidade. De fato, só há explosão demográfica entre os ignorantes. Também é demonstrado por pesquisas: aumenta com a escolaridade a intolerância para com o ilícito. Apesar de cenas manchetes de jornal, o descumprimento da lei ocorre com mais frequência entre os menos educados. A expressão “capital social” se associa à propensão para a ação coletiva, confiando e colaborando com os outros, sem a certeza de que os outros farão o mesmo. É a disposição voluntarista de investir no que promove o interesse coletivo. Nos assuntos de meio ambiente, esse investimento sem garantia de reciprocidade é essencial, pois é difícil fiscalizar o que cada um faz de bom ou de ruim para o meio ambiente. E, hoje sabemos, quanto mais escolaridade, maior a facilidade de desenvolver capital social.

 

Há muito a ser feito para mitigar os impactos de um uso desmedido da natureza ou uma demografia excessiva. Mas a tarefa é infinitamente mais árdua, se não impossível, se é pouca e ruim a educação. Pena que a Ri0+20 quase se esqueceu dela

 

Sobre o aumento de gastos públicos na educação

 

É bem-intencionado o aumento dos gastos públicos em educação para 10% do PIB, aprovado

em comissão especial da Câmara. Mas é também um enorme equívoco. Não quebrará

o país, corno se disse, mas vai exigir maior carga tributária (a margem para novas despesas é

ínfima) e pode reduzir o potencial de crescimento. Ou seja, menos emprego, menos renda e menos

bem-estar, ao contrário do que parece.

 

Não é o volume de gastos que melhora a educação. O Brasil já despende 5, I% do PBI na área, enquanto é de 4,8% a média dos países-membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), quase todos muito ricos. Segundo as Nações Unidas/Unesco, nossos gastos superam, como proporção do PIB, os de Japão (3,3%), Alemanha (4%), Coréia do Sul (4,5%) e Canadá (4,6%). Mesmo assim, no último teste conduzido pela OCDE/Pisa, ficamos em 53° lugar entre 65 países em leitura, matemática e ciência. À nossa frente estão Colômbia, México, Uruguai, Chile, Tailândia, Turquia e outros países emergentes. A China (Xangai) ficou em primeiro lugar nas três matérias.

 

Quem faz fé no mérito desse aumento de gastos deveria examinar o caso da China. Lá se despendem menos de 4% do PIB, mas a educação é a alavanca do seu robusto desenvolvimento. Nos últimos vinte anos, a taxa de analfabetismo caiu de 22,8% para 5,7% da população adulta (9,7% no Brasil). Para o professor José Pastore, a educação é a arma definida por eles para dominar o mundo, revolucionando a preparação de talentos para ciência e tecnologia. Na última década, o número de jovens chineses nas melhores universidades do mundo cresceu dez vezes. Em 2009, havia 120000 deles em escolas americanas, a maioria em cursos de pós-graduação. Os brasileiros eram 7 500 (3 500 em pós-graduação). Segundo o Wall Street Journal, em 2011 os chineses compunham quase a metade dos estudantes estrangeiros em cursos de mestrado e doutorado nos Estados Unidos.

 

Com gastos relativamente menores do que os do Brasil, a China avançou muito em pesquisa e

desenvolvimenro, o que requer pessoal de altíssima qualificação. Conforme relatório da Thomson

Reuters, em 2011 a China superou os Estados Unidos e o Japão no registro de patentes. Não por acaso, sua economia cresce cada vez mais com base em produtos de alta tecnologia, como bens de capital para telecomunicações. Os chineses ganharam da Alemanha a liderança em painéis solares.A China é o terceiro país a enviar astronautas ao espaço. Sua estação espacial será concluída em 2020. Há plano de pôr um chinês na Lua até 2025.

 

O Brasil precisa mesmo é de uma revolução no uso dos gastos públicos em educação: melhorar

a gestão dos recursos, aumentar a qualificação dos professores e remunerá-los bem e por desempenho, como acontece nos países bem-sucedidos em elevar a qualidade da educação. Há que abandonar a resistência ideológica à cobrança de mensalidade nas universidades públicas, o que beneficia essencialmente os estratos mais ricos. A propósito não existe ensino gratuito. Os respectivos gastos são cobertos pelos contribuintes. Cabe lembrar que os pobres pagam, como proporção de sua renda, mais impostos do que os ricos. Na China, a educação superior é.paga. O governo subvenciona os alunos talentosos cujas famílias não podem custear seus estudos universitários. O Brasil poderia fazer o mesmo.

 

A proposta da Câmara para aumentar os gastos em educação amplia projeto igualmente

inconseqüente do Executivo, de elevados para 7% do PIB mais do que em países campeões de êxito na educação, que gastam relativamente menos: Suécia (6,7%), Noruega (6,4%) e Finlândia (6,1%). O Brasil perderia para Cuba (13,6%). Lá, até camareira de  hotel tem curso superior, mas a educação não evita que o país, reprimido pelo comunismo, continue pobre e sem futuro.

 

Entre 2010 e 2050, a população de crianças de até 14 anos diminuirá 42,7%: de 49,4 milhões para

28,3 milhões. Além de estudarem os efeitos da demografia nos gastos em educação;os deputados

poderiam ler o excelente texto sobre o tema, de Mareio Gold Firmo, no novo livro de Fabio

Giambiagi e Armando Castelar Pinheiro (Além da Euforia, Edítora Elsevier). Decidiriam melhor.

 

Economia brasileira

 

Na elogiável reportagem “A mão que não embala o PIB” (18 de julho), considero muito instrutiva a comparação sucinta de diversas orientações de administração econômica apresentada na infografia “Da mão de ferro à mão invisível”, publicada nas páginas 80 e 81. Há elementos circunstanciais.

Alguns desses se originam da desatenção ao equilíbrio orçamentário e a boas práticas.

É função do governo observar e fazer observar esses princípios, inclusive para evitar intervenções

“corretivas” e seus “efeitos colaterais imprevisíveis”. A qualidade profissional da administração pública, independentemente do governante ocasional, está bem evidenciada. Reprimir a iniciativa

privada resulta em pobreza. HARALD HELLMUTH São Paulo. SP

 

A reportagem especial do jornalista Giuliano Guandalini e equipe mostra com clareza quanto é Importante investir em nossa precária infraestrutura, que estrangula o país. Para crescer, é fundamental reduzir o custo Brasil. Só assim o país se desenvolve e coloca preço justo nos seus

produtos para o mercado externo. Caso contrário, continuaremos reféns das grandes

nações e da burocracia que emperra o crescimento industrial. FELIPE BUONORA Recife. PE

 

Quando se juntam ações governamentais que prevêem apenas o crescimento imediatista,

com pouca disposição de acabar com os entraves que realmente prejudicam o desenvolvimento da economia, temos o resultado que se pode constatar no horizonte: estagnação econômica.

DIOGO P. DA SILVA Araguati, MG

 

A mão pesada do estado é feita de aço nacional exportado para a China como matéria-prima e ímportado como produto manufaturado (mais caro); as engrenagens são adquiridas em licitações direcionadas e combinadas: as compras são superfaturadas; e assim por díante… Desse modo, a

“mão do estado” não consegue atingir o objetivo da teoria econômica: regular as desigualdades

produzidas pela “mão invisível”. SILVIO CARLOS DOS SANTOS São José dos Pinhais. PR

 

Parabéns pela reportagem. O grande problema do Brasil é que nestes dez anos de governo petista o que vimos  foi a concretização de um plano de governo que teve por objetivo apenas “estar no poder”. O PT nunca apresentou um plano de governo que visasse ao desenvolvimento do país a médio e longo prazos. Essa é a mais pura verdade. LESLIE HERINGER São Paulo. SP

 

Lya Luft

 

Solidarizo-me com VEJA e com a escritora Lya Luft pelo artígo “O instinto animal” (18 de julho), no qual ela desperta os leitores e autoridades para a importância da educação na transformação do povo que precisamos ser. O mundo desenvolvido asiático fez cinqüenta anos o que nós não temos feito em 500. Antônio Rafael de Menezes Presidente da Academia Pernambucana de Educação e Cultura (Apec) Recife,PE

 

Fernando Henrique Cardoso

 

Ganhei o ano ao ler a entrevista com o expresidente Fernando Henrique Cardoso (“Mas onde foi parar o debate?”, 18 de julho). Que saudade de ter como presidente uma pessoa culta. inteligente e de visão. Deborah MARQUES ZOPPI São Paulo. SP

 

Com seus 81 anos, Fernando Henrique Cardoso está lúcido e nos deu uma verdadeira lição de economia, com bastante clareza e sinceridade. MARIA Borges MAGATON Moldo. SP

 

Oportuna, esclarecedora e bem realizada a entrevista com FHC. Eu era feliz e sabia. NEIL Ferreira

Carapicutba, SP

 

Cada vez que leio uma entrevista com Fernando Henrique Cardoso, meu pequeno universo de informações torna-se vasto a respeito de qualquer assunto que ele discute. Que bom poder usufruir essa fonte de inteligência. REGINA BITENCOURT João Pessoa. PB

 

FHC consegue sintetizar o momento brasileiro e mundial de uma maneira simples, educativa e sem o ranço da oposição por não estar no comando. O prêmio Kluge, concedido recentemente a ele pela Biblioteca do Congresso americano, é mais do que merecido. MARCELO ALVES MOREIRA

São Paulo. SP

 

O prêmio recebido por Fernando Henrique Cardoso se deve ao reconhecimento internacional pela sua cultura, honestidade e capacidade administrativa.  LUIZ CARLOS NASCIMENTO TOURINHO Curitiba PR

 

O prêmio KIuge foi o reconhecimento àquele que talvez seja a maior figura política da nossa história, e a quem devemos, de fato. a guinada para a nossa evolução e o reconhecimento internacional hoje desfrutado pelo Brasil. ANTONIO PARANHOS Rio de Janeiro. RJ

 

Estamos carentes na política brasileira atualmente não apenas de políticos que representem

os nossos interesses e lutem pelos nossos direitos; precisamos de homens e políticos como FHC.

ADRIANA BARBOSA FIGUElREDO Vila Velha. ES

 

Parabéns a VEJA pelo espaço e muito obrigado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Bem mais que uma reflexão de deliciosa leitura, foi uma mudança de assunto, um convite ao debate e ao pensamento, uma prestação de serviço cívico, uma pessoa Influente que fala com responsabilidade

de tudo e com todos de forma clara e transparente. JOSEMAR FUREGATTI DE ABREU SILVA

Campinas. SP

 

FHC foi muito coerente em seus argumentos ao falar sobre “Bolsa Empresa”, concentração

de renda e monopólio. O setor de refrigerantes no Brasil passa exatamente por isso. As grandes corporações – apenas duas empresas que concentram mais de 90% do faturamento do setor -

recebem muitos incentivos do governo federal e, quando provocamos as discussões, os interlocutores fingem não ouvir. O reflexo disso é claro: éramos 850 pequenas empresas regionais no fim dos anos 90 e agora somos menos de 200. FERNANDO RODRIGUES DE BAIRROS Presidente da Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil (Afrebras) Guarapuava. PR

 

J.R. Guzzo

 

No artigo “Fé ao avesso” (18 de julho), J.R. Guzzo analisa o pífio desempenho da outrora brilhante, competente e orgulhosa chancelaria brasileira. Esquisita a chancelaria brasileira nitidamente contra os brasileiros e o Brasil. FÁTIMA ROSADO Rio de Janeiro. RJ

 

O artigo mostra uma realidade dolorida sobre a política externa brasileira. O respeito

pelo Brasil vai se esfarelando na América do Sul. NIVALDO JOSÉ CHIOSSI São Paulo. SP

Mais um excelente artigo de Guzzo. Sua análise sobre a nossa política externa dos últimos anos é perfeita. NEWTON DE R. B. COTRIM Juiz de Fora, MG

 

Seu artigo desta semana é uma verdadeira catarse para nós, seus leitores. FABIO RAI.STON

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No artigo “Fé ao avesso”, despertou-me atenção o fato de o Paraguai ter descumprido o acordo firmado ‘!m relação à Usina de Itaipu e o contribuinte brasileiro (lê-se classe média brasileira) ter novamente pago a conta. Até quando seremos extorquidos dessa forma? LUIZ BlANCHI

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Jhonatan de Sousa Silva

 

A reportagem “Profissão: assassino” (18 de julho), sobre o assassino Jhonatan de Sousa Silva, é emblemática por mostrar por que, em nosso país, a mesma impunidade que brinda os corruptos garante também aos criminosos sanguinários a grande probabilidade de não ser apanhados.

CARLOS ALBERTO DEFAVERI Delegado de polícia Vacaria, RS

 

Cassação de Demóstenes Torres A cassação de Demóstenes Torres foi primordial na busca de urna política mais salutar no Brasil (“Antítese cassada”, 18 de julho). Mas não podemos politizar a ética! Aristóteles asseverava que justiça é tratar os iguais de maneira igual. e os desiguais, na medida das suas desigualdades. RODRIGO AUGUSTO LEMOS DA SILVA Cruzeiro, SP

 

Num mar turbulento, repleto de baleias assassinas, o peixinho Demóstenes foi punido com a pena máxima, quando haveria a possibilidade de uma variedade de sanções. E os outros? EUDES CABRAL Pono Velho. RO

 

É impossível não fazer um paralelo entre os inflamados discursos do então senador Demóstenes

Torres pedindo a cabeça de colegas pegos em maracutaias e as boas notícias (falsas) divulgadas pelo personagem Jakob, no filme Um Sinal de Esperança (Jakob lhe Liars. Assim como as falsas notícias alimentavam a alma daqueles judeus desesperançados. os discursos do ex-senador nos

davam a esperança de que ainda existiam homens probos e destemidos na política JESIEL CUNHA

Natal, RN

 

A reportagem “Antítese cassada” afirma: “Renan foi absolvido no plenário e as representações

contra Sarney não chegaram sequer a virar processo no Conselho de Ética, apesar das incontestáveis evidências contra ambos”. Renovada à exaustão a tese de que o Conselho de Ética do Senado Federal atuou contra as “incontáveis evidências” não se sustenta. Todas as providências e esclarecimentos, sempre pautados em documentos, estão em http://www.senado.gov.brlsenado/presidencia/ anexos/verdade3.swf. De outro lado, também de conhecimento da revista, as representações contra o presidente José Sarney foram arquivadas por falta absoluta de provas e fundamento. Não apresentavam nenhum documento, apenas repetiam

notícias de jornais. Quanto ao “escândalo dos atos secretos”, informamos que os atos não publicados foram identificados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), contratada pelo presidente Sarney para elaborar projeto de reestruturação administrativa do Senado. José Sarney criou comissão de sindicância para apurar os fatos. Também a pedido dele, a Procuradoria- Geral da República e o Tribunal de Contas da Uníão integraram-se à comissão. O grupo de técnicos constatou a existência de 952 atos que não tiveram a respectiva publicidade obedecendo a uma cronologia por presidências do Senado. Nos dois períodos em que a Casa foi presidida por José Sarney. constam dezesseis atos (do total de 952) sendo somente dois assinados por ele que tratavam de assuntos

da rotina administrativa. Também por decisão de José Sarney, um inquérito foi aberto sobre essa irregularidade e os responsáveis foram punidos. FERNANDO CESAR Mesquita Secretaria de Comunicação Social do Senado Federal Brasília, DF

 

Planos de saúde

 

É lamentável que o cidadão brasileiro tenha de sofrer as consequências do péssimo

serviço de alguns planos de saúde nacionais (“As armadilhas dos planos de saúde”. 18 de julho) – como se não bastassem os elevados tributos financeiros que são pagos ao estado (e que deveriam ser maciçamente investidos em saúde educação e segurança pública). MARI.o RENAN ROCHA Lopes Fortaleza, CE

 

O que mais me assusta é que o governo diz que pode intervir! E vai fazer o quê? Instalar

o padrão SUS de atendimento? RONALDO DOS SANTOS Limeira, SP

 

Uma pena que o trabalho das agências reguladoras do governo federal. como a ANS, sirva apenas para cobrar eficiência na prestação de serviços pela iniciativa privada. Considerando a enorme carga tributária imposta pelo governo, deveria existir o mesmo esforço com sua obrigação constitucional-

a saúde é um direito de todos e um dever do estado. RODRIGO DE OLIVEIRA Limeira, SP

 

Na oportuna reportagem de VEJA faltou informar que os planos coletivos podem ser cancelados unilateralmente – e legalmente! Pelas operadoras se o “índice de sínístridade” atingir certo valor.

JAIME NAZARIO Barueri, SP

 

Os planos de saúde proliferam porque os governos não cumprem sua função básica

de devolver aos contribuintes sob a forma de serviços públicos decentes os impostos

extorquidos do cidadão, PAULO SERGIO FRANCO DO AMARAL Campo Grande. MS

 

Danilo Forte

Durante minha gestão como presidente da Funasa tive o cuidado de só autorizar pagamentos

com o devido parecer jurídico da procuradoria do órgão (leia-se AGU). evitando assim irregularidades (“Da saúde para o ralo”, Holofote, 18 de julho). DANILO FORTE Deputado federal (PMDB-CE) Brasflia. DF

 

Dom Eugênio Sales

 

Parabéns a VEJA pela bela página que dedicou à memória do cardeal-arcebispo dom Eugênio Sales (“Combateu o bom combate”. 18 de julho). Ele foi o grande pastor, que iniciou no Rio Grande do Norte a Campanha da Fraternidade depois assumida em nível nacional pela CNBB. Foi o criador das escolas radiofônicas para combater o analfabetismo no interior do Nordeste depois assumidas pelo Movimento de Educação de Base (MEB). O primeiro bispo brasileiro que confiou a mulheres religiosas a direção de uma paróquia. a de Nísia Floresta. na arquidiocese de Natal. Arcebispo do Rio. dom Eugênio promoveu grandes trabalhos sociais nas favelas cariocas, acolheu, como VEJA

lembrou, milhares de perseguidos políticos pelos regimes autoritários latino-americanos e realizou. sem alarde. como uma vez ele mesmo me confiou muitos outros trabalhos sociais. Daí se vê que o cardeal Sales de conservador não tinha nada a não ser sua adesão inquebrantável ao sucessor

de Pedro na direção da Igreja de Jesus.  DOM EDVALDO GONÇALVES AMARAL Arcebispo emérito de Maceió Recife, PE

 

Dom Eugênio Sales foi um sacerdote que combateu o modernismo dentro da Igreja, sobretudo as modificações nefastas do ritual litúrgico após o Concílio Vaticano 11. Em diversas ocasiões afirmou

que a doutrina católica nunca deveria ser modificada, tampouco a missa, que tem como significado central a renovação do sacrifício do calvário. LUlGI SERRATRICE Borro Silo Paulo, SP

 

VEJA Olimpíada de Londres

 

Jornalismo-arte: não há outra definição para as imagens fantásticas do ensaio “Personagens”.

publicado na edição especial VEJA Olimpíada de Londres (julho de 2012). Parabéns. VEJA!

HELAINE PÓVOA Brasília, DF

 

Medalha de ouro para VEJA. Que os atletas brasileiros busquem inspiração para aumentar em Londres a nossa produção aurífera olímpica. RONALDO CARDOSO Caxias do Sul, RS

 

A capa do especial com Neymar vestido de guarda real britânico homenageia a primeira

capa da revista Realidade, da Editora Abril, em 1966, com Pelé tendo na cabeça o busby usado pela guarda da rainha Elizabeth. A semelhança para por aí. Pelé é incomparável. ROBERTO BARCELLOS Brasília. DF

 

CACHOEIRA OU ZÉ DA ARARA?

 

Nas conversas entre Carlinhos Cachoeira e o agora cassado Demóstenes Torres, os amigos se tratavam por “professor” e “doutor”. Mas grampos da PF registram que Cachoeira também se auto proclamava “Zé da Arara” ao trocar e-mails com o contador do grupo criminoso, Geovani

Pereira da Silva. Este, por sua vez, não deixava por menos: o endereço eletrônico do qual ele encaminhava documentos ao chefe tinha como login “Zé do Burro”. Em tempo: o burro integra o grupo 3 do jogo do bicho; já a arara nem aparece entre os 25 animais do jogo de azar.

 

PANORAMA

 

Abraços de despedida

 

Piora a situação para os 200 gorilas que ainda resistem em parque no Congo

 

Se para os humanos o Congo já é provavelmente o pior lugar do planeta para viver, imagine para os

poucos gorilas-das-montanhas que ainda restam na natureza. Ao todo, são mais de 700 animais remanescentes. Cerca de 200 deles estão no Parque Nacional Vírunga, onde uma situação que já era difícil voltou a piorar nas últimas semanas, com o aumento das atividades mortíferas de

um dos inúmeros grupos armados que transformaram o país num inferno. Os gorilas, normalmente assolados por caçadores “clandestinos” – um conceito de difícil aplicação no Congo – e até fuzilados por simples diversão por soldados com ou sem farda, ficaram ainda mais desprotegidos depois

que a maioria da equipe do parque teve de ser desloca para se proteger dos novos combates. Cerca de quarenta abnegados funcionários continuaram lá. Entre eles, Pabick Karabaranga, um dos encarregados de tratar de quatro gorilas órfãos, que só sobrevivem com a ajuda dos cuidadores, responsáveis por tudo de que mais precisam: comida, cafuné e colo, mesmo se já bem grandinhos. As montanhas dos gorilas ficam numa região bela e maldita do Congo, onde as intratáveis

disputas entre etnias, tribos, rivais políticos, militares ambiciosos e vizinhos agressivos provocaram nos últimos quinze anos as chamadas Primeira e Segunda Grandes Guerras da África. Fome, deslocamentos forçados, combates. expurgos, motins, matanças e a constante e hedionda prática

de estupros em massa criaram devastação em escala difícil de avaliar – o número de mortos é calculado em algum lugar tenebroso entre 1 milhão e 5 milhões. Para os raros gorilas espremidos no.

meio de tantas desgraças, só há uma certeza: estão irremediavelmente condenados. Que ainda recebam colo é uma pequena vitória do espírito humano.

 

Morreu o inglês Jon Lord, um dos fundadores da banda Deep Purple. Pianista erudito, foi um dos primeiros instrumentistas a combinar, com êxito, rock e musica clássica. Nascido em Leicester, mudou-se para Londres em 1959. Nove anos depois, criou o Deep Purple com o baterista Ian Paice, o guitarrista Ritchie Blackmore, o baixista Nick Simper e o vocalista Rod Evans. Na banda, ficou conhecido pelos velocíssimos solos de teclado Hammond, que abrilhantam clássicos como Highmay Star e Space Truckin’. Quando o grupo se desfez, em 1976, lord foi para o Whitesnake, com David Coverdale. Participou do retorno do Deep Purple,em 1984, e ficou com a banda até 2002. Dia 16, aos 71 anos, de câncer no pâncreas, em Londres.

 

Assassino

O agente da Policia Federal

 

Wilton Tapajós Macedo. Ele foi morto com dois tiros na cabeça no cemitério Campo da Esperança, em Brasília. Macedo, no cargo havia 24 anos, participou da Operação Monte Carlo, que resultou na prisão na prisão de Carlinhos Cachoeira.

 

Detidos

Pela morte do pai da ex-presidente do Chile Michelle Bachelet os coronéis da reserva da Forca Aerea chilena Edgar Ceballos Jones e Ramón Cáceres Jorquera. Alberto Bachelet, general leal a Salvador Allende, foi preso após o golpe militar que instaurou a ditadura de Augusto Pinochet, em 1973, e morreu sob tortura.

 

Reduzido

Em 7.1% o salário do rei da Espanha, Juan Carlos. A decisão foi do próprio monarca, logo após o corte nos salários dos funcionários públicos. Dos 292700 euros (720000 reais) que o rei recebia anualmente, serão descontados quase 21000 euros (51600 reais). O mesmo corte será aplicado aos demais membros da realeza.

 

Preso em Budapeste o nazista hungro Laszlo Csatary, de 97 anos, acusado da morte de mais de 15000 judeus quando chefe da polícia em Kassa, a atual cidade eslovaca de Kosice, durante a II Guerra Mundial. Em 1948, Csatary foi condenado á morte por uma corte checa, mas se refugiou no Canadá. Desde 1995 está na Hungria. Quem descobriu o seu paradeiro foi o Centro Simon Wiesenthal. A detenção ocorreu depois que o the Sun divulgou fotos de Csatary em sua casa.

 

Anunciada a desistência do tenista Rafael Nadal de disputar os Jogos Olímpicos de Londres. O motivo é uma tendinite no joelho esquerdo. Nada, ouro individual em Pequim, seria o porta-bandeira da delegação espanhola.

 

Registrado um prejuízo de 492 milhões de dólares no quarto trimestre fiscal da Microsoft. É o primeiro prejuízo desde que a empresa abriu o capital, em 1986. A perda foi atribuída ao mau desempenho da empresa de publicidade on-line aQuantive, adquirida em 2007.

 

Encontrados na casa de Sage Stallone sessenta frascos vazios de remédio que poderiam armazenar 30000 pílulas. Filho mais velho de Sylvester Stallone, Sege, de 36 anos, foi achado morto em seu apartamento, em Hollywood, na sexta-feira 13. Suspeita-se que ele traficasse medicamentos, principalmente a hidrocodona, um opiaceo para dor crônica.

 

 

O exército socialista

 

Após consolidar o PSB no Nordeste, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, busca reforçar o partido no Sudeste. Seu principal objetivo é convencer o senador Lindbergh Fariasa trocar o PT pelo PSB e concorrer ao governo do Rio em 2014. Se conseguir, Campos fincará bases sólidas em toda a região. Em São Paulo, há uma aliança com o prefeito Gilberto Kassab. Em Minas, o PSB

tem o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda. No Espírito Santo, conta com o governador Renato

Casagrande. Embora negue em público querer disputar a Presidência em 2014, Campos vem montando o seu exército.

 

Trabalho em dobro

Principal cabo eleitoral do petista Fernando Haddad, o ex-presidente

Luiz Inácio Lula da Silva tem outro motivo para se concentrar na eleição para prefeito de São Paulo. Sua única filha, Lurian lula da Silva,é assessora do deputado federal Gabriel Chalita, candidato do PMDB. Embora receba cerca de 10000 reais mensais da Câmara para dar expediente no escritório

de Chalita em São Paulo, Lurian tem trabalhado nos principais eventos da campanha de Chalita, o que fere o regimento interno do Legislativo.

 

Um lobista de peso No início de agosto. o comitê organizador abrirá licitação para definir a

empresa que fornecerá as cadeiras para o Itaquerão e o Maracanã, palcos da abertura e da final da Copa de 2014. Os assentos terão de ser feitos de plástico verde, que tem etanol na sua composição e é à prova de fogo (o que significa que eles começam a derreter apenas acima de 300 graus).

Com essa especificidade, a matéria prima só poderá ser fornecida pela Braskem. Na etapa da fabricação das cadeiras, três empresas participarão da concorrência: Recato, Giroftex e Marfinite. Essa última é considerada a favorita nos bastidores, por contar com um lobista de peso: o ex-atacante Ronaldo, representante comercial da empresa no Brasil.

 

Prestigio inabalável

 

Alvo de dois processos no Conselho de Ética da Câmara, o deputado José Carlos Bacelar,do PR da

Bahia, segue com prestígio no governo federal. Ele conseguiu emplacar o aliado José Rebouças na presidência do Porto de Salvador. Rebouças vai comandar uma licitação de 30 milhões de reais para a ampliação da área de embarque e desembarque de contêineres do porto. Resolvida a nomeação do amigo, Bacelar poderá se dedicar à sua defesa para evitar a cassação do mandato. Ele é acusado de nepotismo cruzado e de destinar emendas do Orçamento a empresas de sua

própria família.

 

A musa e o craque

 

Uma das atrizes brasileiras de maior sucesso no exterior, Alice Braga terá sua primeira experiência na direção. Ao lado dos cineastas Felipe Braga e Gustavo Rodrigues, ela está produzindo

um documentário sobre a carreira de Neymar. Ainda sem nome definido, o filme abordará a vida

pessoal e profissional do craque que comanda a seleção brasileira na busca da inédita medalha

de ouro olímpica. Alice já acompanhou treinos do Santos e agora embarcará para Londres, para seguir o jogador durante a Olimpíada.

 

Seguindo o dinheiro

 

Uma estranha movimentação financeira feita em um intervalo de poucos dias tem intrigado a cúpula da CPI do Cachoeira. O empresário Marcelo Limírío, sócio de Carlinhos Cachoeira,  depositou 6 milhões de reais na conta de Ataídes de Oliveira, suplente do senador tucano João Ribeiro. Logo depois, os mesmos 6 milhões de reais foram parar na conta da Nova Faculdade, que tem Demóstenes Torres como um dos donos.

 

Áudios virgens

Ainda tem muita história para sair das escutas feitas pela PF em cima da quadrilha de Cachoeira. Até o fim do mês, os assessores da CPI que passam o dia com fones nos ouvidos esperam alcançar

a marca de apenas 50% de grampos passados a limpo.

 

Sob suspeita

Nos últimos tempos, Fernando Cavendish não tem tido sossego com Dilma Roussetf. Depois de declarar a Delta inidônea para novas obras públicas, agora o governo vai tentar anular o resultado

de um julgamento da CVM que absolveu Cavendish, acusado de fraude na BM&F,em 2003. O Ministério da Fazenda alegará que Otávio Yazbeck, relator do caso, teria de se declarar impedido

de participar do julgamento por já ter assessorado corretoras envolvidas no processo.

 

Me tira dessa

 

Kátia Abreu não recebeu nenhum telefonema de Gilberto Kassab depois do bate-boca público produzido pela intervenção no PSD mineiro. Surpreendentemente, o único político

ligado a Kassab que a procurou foi José Serra. Além de tentar apaziguar os ânimos, Serra fez questão. de dizer que não havia a sua digital na guinada do partido contra Marcio Lacerda,

o candidato de Aécio Neves.

 

Troca de comando

 

Por orientação direta de Dilma Roussetf, a Infraero contratará uma grande operadora de aeroportos. O objetivo: melhorar a gestão dos que permanecem estatais e auditar o desempenho dos aeroportos já concessionados.

 

A todo o vapor

 

A cidade do Rio de Janeiro ultrapassou o estado e a capitaI de São Paulo e é hoje o segundo maior orçamento de investimentos em obras do Brasil. Só perde para o governo federal. No primeiro

quadrimestre, a prefeitura do Rio investiu 2,7 bilhões de reais. À sua frente, apenas a União

(11,1 bilhões de reais).

 

Sob medida

 

João Santana terá missões opostas nas duas campanhas presidências – ambas de reeleição – que terá sob o seu comando neste ano. Na Venezuela, vai estimular o confronto ideológico e reforçar

a postura radical de Hugo Chávez. Em Angola, fará o contrário: dará cores mais centristas ao esquerdista José Eduardo dos Santos.

 

Cara de pau

 

Luiz Sandoval, ex-presidente do grupo Silvio Santos, e os ex-altos executivos da cúpula do Pan Americano entraram com ação contra o BTG Pactuai, o atual controlador do banco.

Pedem 150 milhões de reais de indenização trabalhista.

 

De mal a pior

 

o relacionamento entre a Chevron e a ANP é o pior possível. No centro da discórdia os vazamentos de óleo na Bacia de Campos. A ANP considerou um abuso de a petroleira negociar durante meses com ela e com o MP um termo de ajustê de conduta (TAC) pelo qual se comprometeria a

pagar multas e cumprir uma série de exigências mas, aos 44 minutos do segundo tempo, avisar que não assinaria o documento.

 

Onde pousar?

 

O governo estima que, para a abertura da Copa de 2014, 800 jatinhos pousarão no Brasil. Na final, serão 1000.

 

400 milhões de dólares

 

A Globo vai gastar 400 milhões de para exibir as Copas de 2018 e 2022: os direitos de transmissão

custarão 180 milhões de dólares para O Mundial da Rússia e 220 milhões dólares para o do Catar. Em outubro passado, a Fifa arrecadou mais do que o dobro com a venda dos direitos para as TVs dos EUA. Urna licitação acirrada entre as emissoras, que não aconteceu no Brasil, bateu o patamar de 1 bilhão de dólares.

 

 

AI maré

 

José Batista Júnior, um dos donos do JBS, acaba de encomendar um iate de 140 pés para navegar pelas águas do litoral de Miami. Pagou 15 milhões de dólares pelo brinquedo, que lhe será

entregue dentro de dois anos.

 

Justos bate Neves

 

Uma briga judicial entre Roberto Justos e Milton Neves, que se arrasta desde 2009, acaba de chegar ao fim de mais um capítulo – desta vez, com a vitória do publicitário. O juiz paulista Alberto Mufioz julgou improcedente o pedido de indenização de 70 milhões de reais feito por Neves. E por que

ambos brigavam? Em 2008, Neves foi convidado por Justos para apresentar um talk-show na Band, que seria produzido pelo empresário-apresentador. Neves disse adeus aos bispos da Record

e assinou com Justos, mas, dias antes da estréia, o projeto foi cancelado. Agora, a Justiça considerou que não há “indícios de má-fé” na decisão de Justus. Neves, contudo ainda pode recorrer.

 

Sexo vende

 

A Intrínseca já vendeu às livrarias cerca de 70% dos 200000 exemplares da tiragem inicial de Cinquenta Tons de Cinza, que será lançado na semana que vem. Descrito corno “pornografia

para mães”, o livro de estréia da inglesa E.L. James é o maior fenômeno literário desde Harry Potter: só nos EUA a trilogia vendeu 20 milhões de cópias desde março .

 

Trump in Rio

 

DonaId Trump decidiu erguer um mega empreendimento na área do Porto do Rio de Janeiro. Em sociedade com investidores búlgaros, Trump negocia a compra de um terreno de 32000 metros

quadrados. As Trump Towers Rio terão seis torres de cinquenta andares de escritórios e lojas e ficarão prontas até os Jogos Olímpicos de 2016.

 

O MASSACRE DA SALA DE CINEMA

 

Um atirador mata doze pessoas na estréia de filme do Batman, no Colorado. Relacionar a

à ficção, porém, só deixará o assassino ainda mais satisfeito

 

Á Oh O1 da sexta-feira 20, numa das salas do complexo Century 16, na cidade de Aurora, nos

arredores de Denver, capital do estado americano do Colorado, começou a estrela do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o último da trilogia sobre o super-herói dirigida pelo cineasta

Chrístopher Nolan. Com ingressos esgotados, na sessão havia dezenas de fãs fantasiados como personagens do universo do homem-morcego. Pouco mais de trinta minutos após o início da exibição os espectadores viram algo que inicialmente pensaram se tratar de parte de uma ação de marketing. Pela saída de emergência entrou um jovem alto, com os cabelos pintados de vermelhor, todo vestido de preto usando colete e calca á prova de balas, capacete e mascara de gás. O homem jogou duas bombas de efeito moral, provavelmente gás lacrimogêneo, em direção a uma platéia formada por adultos, jovens e crianças no mesmo momento em que a tela mostrava uma cena de tiroteio .Foi só quando ele começou a disparar tiros reais que os espectadores perceberam

tratar-se de um maníaco. Ele estava armado com um fuzil de assalto, uma escopeta e uma pistola. O massacre durou cinco minutos. O atirador parou em frente à tela e começou a disparar contra as

pessoas. Só parava para recarregar a arma. As vítimas se arrastavam pelo chão e sobre as cadeiras, numa tentativa desesperada de se salvar. Segundo as testemunhas. o assassino não disse uma palavra. Algumas balas atravessaram a parede e uma delas atingiu uma pessoa na sala ao

lado. A polícia chegou um minuto e meio depois da primeira chamada de emergência. O assassino foi preso junto a seu carro, no estacionamento do cinema. Até o fim do dia, a polícia tinha confirmado

que 70 pessoas haviam sido atingidas pelos disparos ou se feriram na fuga: destas, doze morreram.

 

O atirador chama-se James Eagan Holmes, tem 24 anos e é natural do Tennessee. Ele se mudou para Aurora em 2011 para cursar pós-graduação em neurociência na Universidade do Colorado.

No mês passado, porém, abandonou o curso. Duas semanas antes do massacre, ele fez um perfil num site de sexo casual. Depois de ser preso, Holmes contou à polícia que tinha uma

bomba em seu apartamento. Segundo relato do vizinho, havia uma música tecno tocando durante toda a noite na residência de Holmes. A tentativa de criar um espetáculo montando uma armadilha

para a polícia com direito a trilha sonora – e o fato de Holmes ter pintado o cabelo (uma referência ao

personagem Coringa?), usado uma máscara de gás (para se parecer com outro vilão, Bane?), além, é claro, de ter escolhido matar os espectadores de um filme de ação – prontamente fez reiniciar

a eterna discussão sobre a influência da indústria do entretenimento nos jovens.

 

O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme sombrio, pessimista, violento _ mas sua bússola moral aponta de forma irrepreensível para o norte verdadeiro. Em todos os três episódios, um mesmo

tema está em jogo: qual, a medida justa para a reação de uma sociedade aos agentes que desejam reduzi-la ao caos e à violência? Pode-se justificar uma resposta de intensidade e natureza comparáveis? Ou estaria assim essa sociedade irmanando-se aos malfeitores que a ameaçam? É uma terrível ironia que Holmes tenha escolhido promover seu massacre durante a exibição de um filme que é um claro indiciamento dos indivíduos que, em nome das injustiças reais ou imaginárias sofridas, sequestram o ideal civilizado do direito à reparação para cometer barbaridades. O fato é que, sejam quais forem as alegações do assassino, há um método na sua loucura, ou na do atirador que, em 1999, matou três espectadores e feriu outros quatro em uma sessão de Clube da Luta em São Paulo. Não se registram episódios como esses durante sessões de filmes de Woody

Allen, ou de comédias românticas com Jennifer Aníston, porque nesses casos os criminosos seriam expostos em toda a sua crueza. Os filmes escolhidos como pano de fundo para o horror que

eles perpetram contêm violência (ainda que a condenem, como Batman) porque assim se deflagra imediatamente uma discussão exculpatória: seria, então, o entretenimento violento o responsável

pelo comportamento violento, ou ao menos seu tributário? Mas engajar-se nesse pretenso debate não é só improdutivo. Equivale, na verdade, a validar a afrontadora peça de defesa proposta !”elo criminoso: a de que a culpa não pertence a ele, mas à sociedade e às suas distorções, e que é então cabível ou esperado que esta sofra as consequências de seus atos e divida com ele, o homem armado, a autoria deles.

 

O CRESCIMENTO NÃO É DESCULPA

 

Um novo estudo revela que a China alcançou a Europa em emissões per capita de carbono para produzir energia

 

Os chineses, cuja renda per capíta não chega à metade da dos brasileiros, estão poluindo como

se já fossem ricos. Segundo um estudo divulgado na semana passada e realizado pela Comissão Européia em conjunto com a Agência Holandesa de Avaliação Ambiental, cada chinês emite. em média. 7,2 toneladas de gás carbônico por ano como resultado da queima de combustíveis fósseis.

Os europeus produzem 7,5 toneladas do gás do efeito estufa por pessoa. Isso representa

uma queda de 18% em relação a duas décadas atrás. Na China. Houve um aumento de 227% no mesmo período. Em números absolutos, o pais já era o maior emissor de gás carbônico,

um dado não muito surpreendente considerando- se que a China concentra em seu vasto território um quarto da população mundial. Já o fato de a poluição per capita do pais asiático ser quase

igual à européia é preocupante, porque os chineses têm um padrão de consumo muito mais baixo. Isso significa que o impacto ambiental do crescimento econômico da China supera em muito os

ganhos da população com a produção de riqueza.

 

O governo chinês chegou a estabelecer metas de redução das emissões, mas pelo menos três fatores jogam contra. O primeiro é a importância da indústria pesada, que demanda muita energia na economia nacional. O segundo é o fato de o pais ter a terceira maior reserva mundial de carvão mineral – uma matéria-prima barata para a produção de energia e altamente poluente. O terceiro é o caráter autoritário da hierarquia administrativa na China. Pressionadas pelo comando central do Partido Comunista para conseguir desempenhos econômicos estratosféricos as autoridades provinciais não têm muito escrúpulo ao aprovar indústrias e usinas. 7 2 Quando a população local se

, opõe a um projeto por temer danos ao ambiente, é reprimida de maneira violenta, como ocorreu no início deste mês em Shifang, durante um protesto contra a construção de uma refinaria. Como resultado dessa postura, além do ar das grandes cidades, dois terços dos rios e lagos do país

estão poluídos. Na extinta Alemanha Oriental, os primeiros cidadãos a se organizar para fazer oposição à ditadura comunista estavam indignados com os poluentes químicos lançados no Rio Saale. Regimes autoritários são um veneno para a natureza.

 

CAIU A LIGACAO!

 

Três operadoras são punidas, mas a baixa qualidade da telefonia celular brasileira não vai melhorar por isso

 

A expansão da telefonia celular, catapultada pela privatização do sistema Telebras, em 1998, está

- entre as maiores conquistas da economia brasileira nas últimas duas décadas. Existem hoje 256 milhões de linhas ativas, mais que os 191 milhões de pessoas da população brasileira, o que põe o Brasil na quarta colocação mundial. A cada segundo, um novo numero é ativado no país, fator que levou à introdução de um nono dígito nas linhas da Grande São Paulo. Agora, a telecomunica- .

ção móvel começa a entrar em uma nova era, com o avanço dos aparelhos com acesso à internet, os smartphones. Para suprirem o aumento do tráfego nas redes, as operadoras investiram

uma montanha de dinheiro na última década – estimados 200 bilhões de reais. Todos esses recursos não têm sido suficientes para a prestação de .um serviço de boa qualidade. As empresas

de telefonia celular aparecem em primeiro lugar nos índices de insatisfação dos consumidores e são também as campeãs nas reclamações feitas ao Procon.

 

Por isso, depois de emitir ameaças por meses, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decidiu agir. Determinou, na semana passada, que a TIM, a Oi e a Claro ficam proibidas de

vender novas linhas nos estados nos quais são as mais mal avaliadas, de acordo com os parâmetros da agência. A medida começa a valer a partir de segunda-feira.As companhias terão um prazo de trinta dias para apresentar um plano concreto de ações para sanar os problemas, sobretudo a queda nas ligações, a dificuldade para completar chamadas e também a existência de zonas de sombra, em que o sinal é sofrível ou inexistente. Para a Oi, a sanção valerá em cinco estados pouco importantes no faturamento da empresa. A Claro ficará barrada de vender chips em São Paulo, o

maior mercado do país. A TIM foi a mais duramente atingida. Ficará impedida de atrair novos clientes no Distrito Federal e em dezoito estados. As ações da empresa acumularam queda de 10%

depois do anúncio das medidas.

 

A TIM estava na mira dos órgãos reguladores havia dois anos. A empresa lançou uma estratégia tarifária agressiva, com o intuito de atrair novos clientes. Nas chamadas entre dois aparelhos

com o chip da operadora, pagava-se apenas pelo primeiro minuto. Isso elevou rapidamente o tráfego da TIM nas ligações de longa distância. É comum, por exemplo, que as pessoas tenham

dois ou mais celulares, ou aparelhos que componem mais de um chíp, para assim tirar proveito das diferentes promoções das operadoras. Nenhuma cresceu como a TIM. Desde o fim de 2008,

o número de usuários da empresa subiu 88%, ante uma expansão média de 60% da concorrência. A estratégia deu certo,e ela roubou da Claro, no ano passado, o segundo lugar no ranking da telefonia

móvel. A Vivo. isenta das sanções, permanece na liderança, e a Oi é a quarta entre as maiores. Mas, com o aumento no número de clientes e também no total de minutos de utilização, houve uma

piora na qualidade do serviço da TIM. De acordo com os indicadores da Anateí, multiplicaram-se as queixas de queda nas ligações. Decisões judiciais chegaram a proibir a empresa de vender linhas

em diversos estados. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já havia advertido mais de uma vez nos últimos meses que ela seria punida caso não melhorasse a qualidade. A ideia inicial

da Anatel era penalizai apenas a TIM. No fim, os conselheiros da agência optaram pela adoção de uma fórmula de sanção que atingisse a pior em cada estado. A TIM, por meio de nota, discordou dos critérios utilizados e afirmou que “reduziu em 36% a taxa de reclamações no primeiro trimestre deste

ano e hoje tem a segunda melhor performance do setor”. A empresa entrou com uma ação na Justiça para sustar a punição. A Oi e a Claro informaram que estão trabalhando em um plano de aumento nos investimentos.

 

Todas as empresas, incluindo aquelas que escaparam da punição, terão de apresentar seus planos de melhora nos serviços e passarão por um acompanhamento mensal. O governo considera

que o total de recursos aplicados anualmente terá de subir para pelo menos 25 bilhões de reais. Os investimentos incluirão a implementação da rede 4G. Esse novo padrão permite navegar pela

internet numa velocidade dez vezes superior à do 3G. As operadoras, no entanto, terão de lidar com um entrave. Diversas cidades, como o Rio e Porto Alegre, impõem restrições severas à instalação de torres, e o 4G exigirá dobrar o número das antenas de retransmissão. Cada município possui sua própria legislação sobre o assunto, o que impõe um pesado custo burocrático aos investidores. Uma lei sobre o tema tramita na Câmara, com o intuito de uniformizar as regras. É um sinal de que o governo pode fazer mais pela qualidade da telefonia móvel, além de sua bem-vinda decisão de apenar as operadoras.

 

o segredo de Fátima

 

A apresentadora FÁTIMA BERNARDES está diferente. O cabelo e o figurino ficaram mais descontraídos do que no tempo do Jornal Nacional, e os 5,5 quilos limados no último ano

também reforçaram o ar mais jovial. Mas é no sorriso de Fátima que está o  segredo: aos 49 anos, ela corajosamente enfrentou a chatice de colocar aparelho fixo nos dentes. “No JN, eu usava na arcada inferior, mas ele nunca apareceu. Nos seis meses em que fiquei fora do ar, aproveitei e usei na superior também, Agora, estou com um móvel”, diz. Até nisso ela viu um aspecto positivo: “Foi divertido frequentar o dentista com meus filhos”.

 

MUMU DAUDAU É INTELECTUAL

 

Reconhecem o sujeito alinhado ai do lado? Na vida real, o ator Juliano Cazarré é quase assim, o oposto de Adauto, o gari bonitão e intelectualmente prejudicado de Avenida Brasil, encarregado de aliviar a barra da família principal da novela com farta emissão de abobrinhas. Suas tiradas hilariantes, em que chama lavabo de “lavábulo”, bufê de “bufete” e século X a. C de século “xaque”, são reproduzidas por fãs em blogues e no Twitter. “Tem de ser muito inteligente para fazer um cara burro. Se não for benfeito, não fica crível, e o personagem vira um macaquinho”. Diz autor. Filho do escritor Lourenco Cazarré, nas horas vagas ele escreve poesias “fofas e inúteis”. Em meados de agosto, lança seu primeiro livro. Uma amostra: “Ali, senhores! Belo exemplo de biodiversidade!/ Um punk e uma freira comendo de pé / Um yakissoba no meio da tarde”.

 

UMA COZINHEIRA QUE CAIU DO CÉU

 

Ela deveria se chamar Heaven Marie. Mas, quando o pai, um empresário português, chegou ao cartório com esse nome, o tabelião se recusou a fazer o registro. O jeito foi ir de Maria do Céu. Agora, a deliciosa chef do Programa Amaury Jr,. Que se apresenta como HEAVEN DELHAYNE, 27, está na Justiça tentando ganhar o nome original. “Minha mãe é franceses os amigos dela, quase todos, são ingleses. É por isso que eu as vezes erro no português”, diz Heaven, que,na TV, já soltou pérolas como “Vegetarianos, não de alo”. Louca por bacon, creme de leite e parmesão, ela segura as curvas com a fórmula dos 50%: “Seja qual for o prato, só como metade”.

 

NESSA HORA, uma menininha igual às outras

 

Fazer o herói das missões impossíveis no cinema e ser derrotado pela ex-mulher vida real não deve ter sido nada fácil para TOM CRUISE. Enquanto ele filmava Islândia e na Califórnia, Katie Holmes pediu o divórcio, conseguiu um acordo – aumentando a suspeita de que ele tem algo a esconder -, ficou com a da filha, SURl,  e saltitou com ela diariamente em Nova York, com um sorrisinho mal disfarçado de triunfo. Essa pane pelo menos Cruise equilibrou ao pegar a menina para o primeiro reencontro pós-divórcio, levando-a no colo e diante pelotão de fotógrafos a um passeio de helicóptero pilotado pelo papai Top Pela janelinha foi possível ver o rosto de Suri. Está triste.

 

ROLETA-RUSSA

INDICAÇÃO PREVENTIVA DE REMÉDIO ANTIAIDS LIBERADO NOS ESTADOS UNIDOS PODE TER EFEITO CONTRÁRIO AO ESTIMULAR COMPORTAMENTO SEXUAL IRRESPONSÁVEL

 

Na semana passada, o antirretroviral Truvada foi liberado pela FDA, o órgão responsável pela regulamentação de medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, para a prevenção .do vírus da aids, o HIV. O aval é para pessoas saudáveis que pertencem a grupos de altíssimo risco de contaminação, como usuários de drogas injetáveis ou pessoas que têm parceiros contaminados. A medida representa um avanço no controle dessa infecção que já matou 25 milhões de pessoas no mundo nos últimos trinta anos. Mas ela foi recebida com cautela por muitos infectologistas. Isso porque, apesar de a autorização ter sido restrita, os médicos temem que o medicamento seja utilizado de forma indiscriminada, como o principal método para se proteger da aids. “A indicação

estimula componamentos desajuizados, por dar uma falsa impressão de total proteção”, diz o infectologista Paulo Olzon, professor de clínica médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

 

Um dos principais temores apontados pelos especialistas diz respeito à própria eficácia do remédio. Quando usado preventivamente, o Truvada reduz o risco de infecção em cerca de 70%. “O índice é bom, mas está longe de resolver o problema”, diz o infectologísta Anue Tímerman, do Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo. O HIV é extremamente resistente à imunização. A começar

por seu mecanismo de ação. O vírus tem como primeiro alvo no organismo os linfócitos CD4, as principais Células de defesa do sistema imunológico. Ele entra nos linfócitos CD4 de forma tão veloz e se multiplica tão rapidamente que o corpo não consegue produzir anticorpos eficientes. O Truvada age antes mesmo da infecção, impedindo a entrada do vírus no. DNA das células CD4. Mas aqui surge um novo problema, que explica por que a eficácia do medicamento é de 70% e não] 00%. Há

pelo menos 500 subtipos de HIV identificados  na medicina, sendo que uma mesma pessoa pode se infectar por mais de um deles. Cerca de 10% das variantes, justamente as mais prevalentes, são resistentes à ação desse tipo de medicamento. O Truvada está disponível nos Estados Unidos para o tratamento de pessoas infectadas desde 2004. Basta a apresentação de uma receita médica,

com nome e RG do paciente, para comprar o remédio. No Brasil, só as importadoras de produtos de saúde o vendem. O preço é de cerca de 1500 dólares (aproximadamente 3000 reais) a caixa,

que dura um mês.

 

Em toda a história da medicitfa, são poucos os casos em que o tratamento de uma doença tenha progredido. Tanto quanto o da aids. No início dá década de 80, quando não havia os antirretrovirais, a presença do HIV no organismo representava uma sentença de morte pratica mente imediata. Entre o diagnóstico e a fase terminal. transcorriam cerca de cinco meses. Em 1986. com a chegada ao mercado do primeiro remédio antiaíds, o AZT, os pacientes com aids passara a viver um pouco mais de um ano. Já no fim dos anos 1990, com a criação do coquetel antiaids, composto de pelo menos três tipos de medicamento antírretrovíraI, foi possível prolongar, com qualidade, a vida dos doentes por tempo indeterminado. Mas, se as mudanças na área dos tratamentos são indiscutíveis, a prevenção ainda deixa muito a desejar. A cada ano, cerca de 2,5 milhões de pessoas se infectam com o vírus da aids -35000 delas no Brasil, um número equivalente aos casos de câncer de intestino.

Nesse cenário, o Truvada, claro, pode ser um bom aliado. Entretanto, como acertadamente determinou a FDA, seu uso tem de ser limitado àqueles para os quais o risco de contágio é iminente.

 

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

 

A FDA aprova em um mês dois remédios para tratar obesos.

 

Dois terços dos americanos estão acima do peso. Isso representa um contingente de 190 milhões de pessoas em guerra com a balança. A doença da obesidade, que eleva às alturas o risco de diabetes e problemas cardiovasculares, é a responsável pela morte de 300000 homens e mulheres a cada ano. Mesmo assim, ao longo de mais de uma década, a FDA, a agência de controle da indústria médica dos Estados Unidos, manteve uma postura passiva diante do cenário dramático. Em nome dos efeitos severos das medicações para emagrecer (que existem, sim), nenhum novo remédio desse tipo havia entrado nos Estados Unidos desde 1999. No último mês, no entanto, o órgão regula mostrou ter final cedido em razão da gravidade da epidemia – aprovou dois remédios contra a doença. Depois de liberar a lorcaserina (de nome comercial Belvíq), na última semana de junho. a

FDA acaba de dar sinal verde ao Qsymia. O medicamento traz em sua composição dois princípios

ativos com ações distintas no cérebro. Um deles é a fentermina, derivado da anfetamína, que intensifica a ação de substâncias associadas à redução do apetite e ao ‘aumento do metabolismo.

O segundo é o topíramato, um anticonvulsivante. Ele estimula um neurotransmissor de ação calmante, característica que, indiretamente, leva à sensação de saciedade. O bombardeio cerebral

traz bons resultados: o paciente perde até 8,9% de seu peso em um ano. No entanto, três a cada dez

pessoas que tomam a medicação sofrem de algum efeito colateral, como formigamento, boca seca, problemas de memória, insônia e aumento da frequência cardíaca. A ação americana está a anos-luz da posição do órgão regulatório brasileiro.Em outubro do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda das substâncias da família das anfetaminas, um dos compostos do Qsymia, alegando que esses medicamentos oferecem mais riscos do que benefícios. Dado relevante: metade da população está acima do peso no Brasil.

 

LADYGOOGLE TROCA DE TIME

 

Marissa Mayer, a poderosa do Vale do Silício que criou os principais produtos do maior site de buscas da web, assume a presidência do Yahoo! em seu momento mais crítico

 

No Vale do Silício, na Califórnia, o centro da tecnologia digital do mundo, Marissa Mayer sempre

foi uma figura destoante. Num ambiente amplamente dominado pelos homens, ela se tornou vice-presidente da maior empresa da internet, o Google. Em contraste com o figurino adotado mesmo entre os altos executivos da região – bermudão, camiseta e agasalho -, Marissa desfila modelos do estilista Oscar de la Renta. Na semana passada, uma das mulheres mais poderosas da indústria

da web anunciou uma virada em sua carreira. Ela deixou o Google para ocupar o cargo de CEO no Yahoo!

 

Marissa encara o Yahoo! no pior momento de sua história. Sua missão é recuperar o sucesso – e, em consequêncía, o lucro – da empresa que já foi a mais popular da internet, na década de 90. Mas entrou em decadência. Em doze anos, as ações do Yahoo! caíram 85%. Sua fatia de mercado no serviço de buscas despencou de 20% para 7% em oito anos. Já a fatia do Google, nesse mesmo segmento, disparou de 40% tentar dar novo fôlego ao Yahoo! Chega na esteira de um episódio que ajudou a manchar ainda mais a imagem da empresa. O CEO anterior, Scott Thompson, foi demitido

após 130 dias no cargo porque mentiu em seu currículo. Ele disse que teria se graduado em ciência da computação, quando, na verdade. Se formou em contabilidade.

 

Aos 37 anos, Marissa Mayer se tomou a mais jovem presidente entre as 500 maiores empresas americanas. Seu desafio será imprimir ao Yahoo! as inovações pelas quais foi responsável no Google. É dela a ideia da aparência limpa e agradável da tela inicial do Google.com. Marissa esteve

por trás dos principais produtos da empresa, como o Gmail, o Chrome e o Google Maps. Na

antiga casa, a Lady Google teve um amor – namorou Larry Page, fundador da empresa – e amealhou uma fortuna de 300 milhões de dólares. No Yahoo!, vai ganhar 70 milhões de dólares nos próximos cinco anos.

 

Hoje casada com um advogado e investidor do Vale, Marissa está grávida do primeiro filho, mas descarta a possibilidade de que a maternidade atrapalhe seus planos profissionais. “Trabalharei

normalmente logo após o nascimento do bebê”, garantiu aos novos patrões. A declaração provocou protestos, principalmente de mulheres, no Facebook. Ela não deu bola. Limitou-se a completar: “Manterei o ritmo”. E o ritmo de Marissa é o do Vale do Silício. Trabalha muito, dorme pouco e não vê necessidade de ter horas de lazer – até porque, nas empresas de tecnologia, a diversão muitas vezes está dentro das próprios escritórios, em forma de videogames, máquinas de pinball e pistas de skate. É um ambiente que ela ajudou a criar.

 

BATALHA DE BUMERANGUES

 

Surpresa no mundo dos artigos esportivos: a Speedo internacional abre processo no Brasil para recuperar sua marca, que se passa por original – mas não é

 

Líder absoluta no mercado de artigos para esportes aquáticos, do qual detém 80% das vendas no

mundo todo, a Speedo também se tomou a marca preferencial de amadores e profissionais no Brasil. Pois saiba: os óculos de natação de última geração que você  acabou de adquirir numa loja com o famoso logotipo em forma de bumerangue na fachada parecem ser Speedo, mas não são. Trata-se

de imitação. Praticamente rodo o que é vendido com a marca Speedo no Brasil é fruto de um acordo não escrito para uso da marca que uma empresa paulista, a Multisport, pôs em prática há mais

de trinta anos e que ISpeedo internacional tenta reverter há pelo menos vinte. Ambas têm o grosso de sua produção feito na China – com a diferença de que os artigos vendidos aqui vêm dos fornecedores da Multisport, com matéria=prima-encomendada pela-Multísport, sem o aval da Speedo Internacional. Eles podem até ser iguais, mas não são originais. A Speedo internacional entrou na Justiça em 2010 com ações para Coibir as cópias e obter a recuperação definitiva da marca. Trata-se

de processos em andamento, sem prazo para terminar. Pairando sobre a disputa estão duas Olimpíadas, a de Londres, que começa no dia 27, e a do Rio de Janeiro, em 2016 – justamente a ocasião em que as marcas esportivas mais ficam em evidência e mais –aproveitam para se mostrar. “São momentos-chave em que as vendas aumentam cerca de 20%”, explica Frederico Mandelli, gerente de inteligência de mercado da consultoria de marketing esportivo Global Sports Nerwork,

 

A briga entre as duas Speedo é resquício do Brasil pré-l990, quando o mercado interno era fechado a produtos estrangeiros. Foi aí o apogeu das bebidas falsificadas e da pirataria em geral. Como importar estava fora de cogitação, tornou-se prática corriqueira transplantar uma marca famosa para o Brasil, registrá-la no Instituto Nacional da Propriedade Industrial e seguir em frente com o negócio, sem impedimento algum. A dona original da marca raramente se dava ao trabalho de inibir a ação num mercado ainda incipiente e no qual não tinha mesmo condições de competir. Agora que isso é possível, grandes empresas enfrentam longas batalhas para atuar no Brasil (veja o quadro) – caso da Speedo neste momento. “O Brasil é o único país do mundo em que os produtos comercializados com a nossa marca não são fabricados por nós”, diz o advogado da empresa,

Peter Eduardo Siemsen.

 

A própria Speedo, em parte, contribuiu para esse estado de coisas. No fim dos anos 1970, o ex-jogador de pólo aquático e empresário paulista Raul Hacker propôs à Speedo, fundada na Austrália em 1928, um contrato de representação para comercializar a marca no Brasil. Sem assinar um acordo, a empresa aceitou facilitar a fabricação e a divulgação dos produtos no país por intermédio

de Hacker, disponibilizando desenhos originais e campanhas de marketing. A essa altura, já era a maior empresa do ramo, impulsionada pelo espanto-so desempenho do nadador –americano Mark Spitz na Olimpíada de Munique, em 1972:. ele conquistou sete medalhas de ouro e quebrou o recorde mundial em todas as provas de que· participou – sempre usando maiôs Speedo. Quando

as restrições às importações foram relaxadas no Brasil, no começo dos anos 1990, a empresa estava mudando de mãos: foi comprada pelo grupo inglês Pentland Os novos donos procuraram

Hacker para retomar a marca e assumir o fornecimento dos produtos Speedo vendidos no mercado brasileiro. As negociações se arrastaram durante anos, sem sucesso. Hack:er, inclusive, ampliou

os negócios. Em 2002, lançou uma coleção de óculos de sol e de grau e, mais tarde, -passou a vender bieicletas, raquetes e mesas de pingue-pongue e até suplementos alimentares – tudo exclusivo da “Speedo do Brasil” (como a empresa se denomina) e inexistente no catálogo

da marca original. Em 2004, ele abriu a primeira das quatro lojas próprias em São Paulo, todas espelhadas na aparência das lojas-conceito da Speedo fora do país. Com faturamento anual estimado em 350 milhões de reais, a Multísport rebate as acusações de apropriação indevida. “Não podemos falar sobre os processos, que correm em segredo deJustiça, mas a empresa sempre atuou conforme as normas éticas do mercado. É, inclusive, patrocinadora da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos”. diz seu advogado, José Mauro Decoussau Machado.

 

Por trás da disputa está o hiperativo mercado brasileiro de artigos esportivos, em que todo mundo está de olho. A indústria do esporte fatura no Brasil 50 bilhões de reais por ano, e cerca de 70% desse montante vem da venda de artigos esportivos. Nos Estados Unidos, são 300 bilhões de dólares por ano, mas só 30% vêm do varejo. “O que atrai mais ainda os investimentos no mercado brasileiro é o acesso recente das classes C e D a esse tipo de produto”, diz o consultor Fábio Wolff. “O Brasil é um dos países onde o mercado mais cresce no mundo. Todas as marcas querem estar

aqui”, resume Mário Andrada e Silva, diretor de comunicação na América Latina de outro gigante, a Nike. A briga, como se vê, é olímpica.

 

CABO DE GUERRA COSMICO

 

A inédita observação da matéria escura não é só um atestado da existência dessa substância. E um grande passo para desvendar um dos maiores mistérios da ciência: quais são as forças que atuam na batalha entre a contração e a expansão do universo

 

No último século a ciência passou a compreender o mundo subatômico. A teoria da relatividade de

Einstein, que relaciona massa e energia, e a mecânica quântica de Max Planck significaram passos gigantescos para explicar a natureza e o comportamento da matéria. Mas tudo o que já foi observado, como prótons, neutrinos e elétrons, representa apenas 5% do universo. Os demais 95% são compostos de duas substâncias ainda restritas ao campo teórico: a energia escura e a matéria escura. Esses dois elementos não s6 preenchem a maior parte de tudo o que existe. Eles também atuam em um jogo de empurra-empurra determinante para o futuro de estrelas, planetas e todos

os seres vivos. Uma batalha travada entre a contração e a expansão 40 universo. Agora, uma inédita observação de aglomerado de matéria escura, feita cientistas americanos e europeus, finalmente abre caminho para a compreensão das duas forças antagônicas.

 

Os pesquisadores observaram pela primeira vez um amontoado de matéria escura com 58 milhões de anos-luz de comportamento. Até agora se supunha a existência da matéria escura com base na

como sua força gravitacional com partículas. A teoria foi concebida pelo astrônomo suíço Fritz Zwicky em 1933. Zwicky notou que a força gravitacional de galáxias era maior do que aquela que deveria ser criada pela atração da massa total de sua matéria. Em outras palavras, percebeu que existia algo mais na composição dessa força. A esse algo mais ele chamou de matéria escura. Disse a VEJA o astrofísico Douglas Clowe, da Universidade de Ohio, coautor do estudo que detectou a matéria escura: “A astrofísica imaginou esse novo elemento apenas pela observação de seus efeitos. Nossa conquista é fazer sua primeira fotografia. com a qual estudaremos sua composição”. Como a

matéria escura não é visível, a estratégia para detectá-la foi analisar como sua força desvia a luz – segundo a regra prevista pela teoria da relatividade.

 

Acredita-se que gigantescos filamentos de matéria escura, como o estudado, surgiram logo após o Big Bang, a súbita expansão que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Eles formam uma

cola que une a estrutura de galáxias. A força de contração que exercem tem direção contrária à expansão do universo. Pela lógica, deveria desacelerar seu crescimento. O destino do cosmo seria sofrer uma aproximação da matéria até tudo voltar a ser um ponto menor que uma partícula. O primeiro a perceber que a teoria estava incorreta foi o astrônomo Edwin Hubble. Em 1929, ao analisar o componamento de galáxias, ele descobriu que ocorre o oposto: os corpos celestiais

estão se afastando. Logo, o universo se expande em ritmo acelerado. Em 1998, observações de telescópios espaciais confirmaram essa suposição.

 

Os cientistas deram nome à força que impulsiona o universo: energia escura. Explica o astrofísico José Ademir Sales de Lima, da Universidade de São Paulo: “Percebemos que algo tem expandido

o espaço. Graças a isso, o universo pode vir a existir indefinidamente”. A energia escura se tornou mais presente há 7,5 bilhões de anos. Foi quando sua força se sobrepôs à da gravidade. Antes disso, o ritmo de crescimento sofria um processo de desaceleração, em consequêncía da força de

atração entre os corpos. Desde que a quantidade de energia escura no universo superou a de matéria, foi retomada a velocidade de expansão. Disse a VEJA o cosmólogo Jõrg Dietrich, o principal autor do estudo da matéria escura: “Essa teoria é uma suposição. Usamos a designação ‘escura’ por não termos uma ideia clara do que se trata. Nossa meta maior é achar, em como o LHC (o maior de partículas do mundo), o que essas forças”. Assim, ser meros espectadores dessa batalha.

 

AQUI ESTA FALTANDO ALGO

 

A feira Fruit Logística, realizada anualmente na Alemanha, reúne em suas gigantescas instalações em Berlim os maiores produtores e exportadores de frutas frescas do mundo. O ponto alto da feira é a entrega do cobiçado prêmio de inovação, dado à empresa ou entidade de pesquisa cuja descoberta teve maior significado para a expansão do comércio mundial de frutas. Os ganhadores deste ano foram os pesquisadores holandeses da empresa suíça Syngenta. O prêmio, entregue em, fevereiro, foi concedido pelo desenvolvimento de uma variedade de pimentão sem sementes. Toda·dona de -casa sabe como é trabalhoso tirar as sementes do pimentão, mas pouca gente sabe que o desenvolvimento de frutas sem sementes vem se tornando uma das tecnologias mais valiosas na indústria mundial de alimentos modificados. O pimentão sem sementes da Syngenta chega aos supermercados das cidades européias com preço até cinco vezes superior ao da fruta tradicional. Ab, sim, pimentão é fruta.

 

Certas variedades de frutas sem sementes ocorrem na natureza, mas apenas raramente elas possuem as qualidades nutritivas e de sabor exigidas pelos consumidores. Por essa razão, os desenvolvedores recorrem ao cruzamento de variedades e, desde o ano passado, à engenharia  genética para obter frutos saborosos, nutritivos e sem sementes. Essa última é uma qualidade crescentemente valorizada nas sociedades contemporâneas, em que as pessoas têm menos tempo para preparar sua comida e aceitam pagar mais por qualquer praticidade na cozinha – seja um cortador automático de legumes ou frutas sem sementes. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já distribui há anos aos agricultores do Brasil cultivares (variedades de plantas produzidas por meios artificiais) de alguns tipos de laranja sem sementes.

 

No ano passado, os pesquisadores José Hormaza e Maria Herrero, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas em Málaga e Zaragoza, na Espanha, anunciaram um importante avanço.

Eles compararamos genomas (o material genético completo) de frutas da mesma família do brasileiríssimo araticum- do campo, uma das delícias do cerrado, e descobriram a existência de

um gene cuja mutação é responsável pela produção de frutas sem sementes. A descoberta dos espanhóis terã-aplícação prática em todos os tipos de planta. “Muitas frutas extremamente

saborosas, mas com sementes grandes e difíceis de extrair, nunca se popularizaram. Sem sementes, elas podem se tomar tão universais quanto a banana”, diz Charles Gasser, professor de biologia vegetal da Universidade da Califórnia, em Davis. Vem justamente da Califórnia

um dos maiores sucessos nesse campo. Pelo seu sabor adocicado, casca fácil de extrair e por não possuir sementes, uma tangerina produzida pela empresa Cuties tomou-se a sensação do verão americano. As frutas da Cuties são a cultura cítrica mais rentável dos EUA, com preço final ao consurrâdor quase dez vezes maior que o das frutas similares com sementes. Os pais pagam o alto preço por se sentir seguros em entregar a fruta inteira para crianças pequenas e deixar que elas se

virem sem ajuda.

 

 

 

“ELAS QUEREM UM MARIDO RICO”

 

A socióloga inglesa Catherine Hakim diz que não há igualdade entre os sexos e incentiva as mulheres a usar todos os seus atributos para ascender na carreira

 

Pesquisadora da London School of Economics por duas décadas e uma das mais respeitadas estudiosas da inserção feminina no mercado de trabalho, a socióloga inglesa Catherine Hakím, de 64 anos, tornou-se uma das principais expoentes do novo feminismo europeu – uma espécie de feminismo às avessas. As ideias defendidas por ela e por suas colegas – a maioria intelectuais francesas e alemãs – chocam por sua simplicidade e incorreção política. Igualdade entre os sexos?

Bobagem. Marido? De preferência, rico. Barriga de aluguel? Um fluxo de receita inexplorado. Autora de dezesseis livros, com uma respeitável carreira no governo inglês no currículo como pesquisadora e foi consultora de vários ministros), Hakim compilou suas reses excêntricas no recém-lançado Capilal Erótico (Ed. Best-Business; 336 páginas; 49,90 reais). O tema central do livro é a importância da beleza na ascensão profissional das mulheres. Justifica a autora: “O feminismo radical deprecia o encanto feminino. Por que não encorajar as mulheres a aproveitar-se dos homens sempre que puderem?”.

 

BRElA E CARREIRA “Aristóteles já dizia que a beleza é melhor do que qualquer carta de apresentação. As vantagens de uma boa aparência podem ser percebidas desde a infancia. Pesquisas. Revelam que 75% das crianças que se encaixam nos padrões de beleza aceitos universalmente, como um rosto simétrico, são julgadas como corretas e cativantes, enquanto só 25% das que não têm essas características são vistas dessa forma.

 

Presume-se que os belos são mais competentes e eles são tratados como tal. Atratividade e beleza são fundamentais para a ascensão profissional das mulheres nas sociedades modernas.”

 

OS MAIS MOS DEVEM GANHAR MAIS “Inteligência e beleza são duas habilidades necessárias

para o sucesso e muito semelhantes entre si: metade é hereditária, metade é resultado de investimentos de tempo e esforço. Não existe diferença moral entre a aparência e a inteligência.

Acho justo que os mais belos ganhem mais. É frequente presumir que quaisquer benefícios concedidos a pessoas atraentes são desmerecidos e injustos. Quando se fala em sucesso, ninguém duvida do mérito dos inteligentes nem questiona a exclusão dos ignorantes. Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada?”

 

AS MAS QUE ME PERDOEM “Beleza extrema é algo raro, um item de luxo. Nem todo mundo nasce Elizabeth Taylor. Quem não tirou a sorte grande deve aprimorar o seu poder de atração. Na França, é comum o conceito de BeIle Laíde, a mulher feia que se toma atraente graças à forma como se apresenta à sociedade e ao seu estilo. Chrístíne Lagarde, a diretora do Fundo Monetário Internacional, o FMI, é Um exemplo de mulher que não ostenta a beleza clássica, mas é extremamente atraente. Tem personalidade,  carisma, charme e boas maneiras. Se você não é bonito,  por favor, vá à luta. Cultive um belo corpo, aprenda a dançar, desenvolva habilidades. E dístribua sorrisos. Como Marilyn Monroe sempre soube, o mundo sorri de volta para quem sabe sorrir. O sorriso é um sinal universal de acolhimento, aceitação e contentamento em relação aos demais. Toma a todos mais atraentes.”

 

OS TIPOS DE FEMINISMO “O feminismo é uma ideologia abrangente. contém muitos elementos adversos. Há escritoras radicais que adotam o feminismo-vítima, no qual as mulheres sempre saem perdendo. Outras. como Camille Paglia, insistem que o feminismo impõe responsabilidades às mulheres, de forma que elas não podem culpar os homens todas as vezes que algo der errado em sua vida pessoal ou em sua carreira. Tenho ao meu lado as intelectuais francesas e as alemãs. De maneira geral elas reconhecem e valorizam o capital erótico das mulheres. As anglo-saxãs repudiam

esse conceito. Elas rejeitam tudo o que está relacionado ao sexo e ao prazer e têm aversão à beleza”

 

IGUALDADE ENIRE OS SEXOS “O mito feminista da igualdade dos sexos é tão infundado quanto a afirmação de que todas as mulheres almejam a total simetria nos papéis familiares, emprego e salário. As feministas insistem que a independência financeira é necessária para a igualdade em casa. Argumentam ainda que a maior parte das mulheres é carreirista, como os homens, e detesta ficar em casa para criar os filhos. Diversos estudos indicam o contrário. A maioria das mulheres prefere ficar em casa em tempo integral quando as crianças são pequenas, pelo menos até elas começarem a frequentar a escola, Um parceiro bem-sucedido toma essa opção mais viável.”

 

O MARIDO IDEAL “Tornar-se uma dona de casa ‘à toa’, em tempo integral, é uma utopia moderna para a maioria das mulheres. Em estudos realizados em todo o mundo, quando questionadas sobre as características mais valorizadas em um parceiro, as mulheres afirmam preferir homens com recursos, condição que viabiliza a permanência delas no lar.”

 

TER OU NÃO FILHOS “Dizer que a mulher é pouco feminina ou não verdadeiramente realizada se ela não tem filhos é difundir um mito patriarcal. Os homens sem filhos raramente são criticados desse modo. Não há nada de errado com a mulher que não quer ser mãe. É cada vez maior o número de europeias que abdicam da maternidade, principalmente na Alemanha e na Inglaterra.”

 

DÉFICIT SEXUAL MASCUUNO “Desejo sexual é uma questão de gênero. As mulheres têm um nível mais baixo de desejo sexual, de forma que os homens passam a maior parte da vida  igualmente frustrados em vários graus. Existe um sistemático – e, ao que parece. Universal – déficit sexual masculino. Os homens geralmente querem muito mais sexo do que conseguem, em todas as idades. Assim, a capacidade de atração sexual feminina perante os hormônios deles pode ser uma ferramenta valiosa de que as mulheres se beneficiem. Os homens sempre exploraram as mulheres, razão pela qual o feminismo foi necessário. Nós, mulheres, deveríamos explorar qualquer vantagem que temos sobre os homens, sempre que possível.”

 

BARRIGA DE ALUGUEL “Se os homens pudessem produzir bebês, essa seria uma das maiores ocupações pagas do mundo. As leis foram inventadas pelos homens para o interesse deles próprios, e não incluem os interesses femininos. Muitas vezes, a legislação impede que as mulheres recebam integralmente os lucros de seus talentos, com valor comercial adequado. A barriga de aluguel, por exemplo, é um fluxo de receita inexplorado e do qual nós, mulheres, poderíamosnos beneficiar.”

 

PELO RM DA HIPOCRISIA “Sou uma feminista convicta. Sempre busquei o melhor para as mulheres. Dediquei mais de duas décadas de minha carreira a responder a uma questão: por que as mulheres raramente são as heroínas? Há quem não me entenda, mas o que ofereço é uma nova perspectiva feminista, sem hipocrisia Muitos dos escritos feministas modernos conspiram a favor das perspectivas chauvinistas masculinas ao perpetuar o desprezo pela beleza e pelo sex appeal das mulheres, O feminismo radical deprecia o encanto feminino. Por que não estimular a feminilidade

em vez de aboli-la?”.

 

MADAME QUEBRA O BARRACO

 

Fina, intelectual. engajada? A mulher do insosso presidente francês mostra seu lado Carminha, briga com a ex dele e se intromete em assuntos políticos. Mas promete se controlar. Poucos acreditam que consiga

 

Pobre François Hollande. Administrar uma economia na zona disfuncional do euro, com pálido crescimento de 0,3%, dívida pública equivalente a 90% do Pffi e o maior desemprego em doze anos não é nada comparado aos problemas familiares que contempla com seus olhinhos caídos  Complicado mesmo para o presidente francês é equilibrar a atual mulher, a ex e os filhos conjuntos, sete no total, todos em estados variados de insatisfação. As relações entre cônjuges presentes e passadas raramente são pacíficas, ainda mais quando a atual é mais nova. Mais metida e mais malvada – e a transição amorosa foi iniciada muitos anos antes que a ex ficasse sabendo. Como são todos ardorosos integrantes do Partido Socialista, talvez fosse possível manter uma emente moderadamente pouco cordial se Valérie Trierweiler, a temperamental jornalista de 47 anos que ocupa o coração de Hollande e um gabinete cheio de assessores no Palácio do Eliseu. não resolvesse detonar a ex, Segolene Royal, com o infame tuíte que abalou Paris. A intervenção

foi tão violenta, com uma reação justificadamente tão negativa. que Valérie precisou sair de cena. Reapareceu em público no feriado nacional, o 14 de Julho, vestida com uma capa sem graça e

colocada fora do palanque presidencial. Mas sem nenhuma cara de ter cedido a Bastilha. “Agora vou contar até dez antes de usar o Twítter”, tripudiou, sacudindo a cabeleira de leoa.

 

A ironia da encrenca familiar de Hollande é que ele e seus partidários o colocavam como o total oposto do antecessor derrotado, Nicolas Sarkozy, com seu exibicionismo e sua movimentada

vida conjugal (a mulher, Cécilia, o abandonou logo depois da posse e voltou para o amante; um mês depois, a exmodelo Carla Bruni entrou em sua vida com estrépito global). A própria Valérie semeou entrevistas em que se punha no papel de politicamente engajada e intelectualmente refinada em comparação com Carla. Na verdade, a vida amorosa do sem dúvida discreto Hollande sempre

teve complicações maiores. Durante trinta anos, ele compartilhou a estrada com Ségolene Royal. Como ele, Ségolene era uma política de pouca expressão até resolver tentar a Presidência.

Na disputa interna do partido, venceu o próprio HoIlande, que teve dificuldade para deglutir a derrota. Em compensação, já podia se sentir vingado. Havia anos mantinha o caso com Valérie, ela também casada, com três filhos. Logo após a derrota de Ségolene para Sarkozy, a separação foi oficializada.

 

Era, portanto, a traída e abandonada que teria direito a curtir mágoa eterna, mas os caminhos do coração são tortuosos. Com a vitória de Hollande, Segolene se reaproximou do ex e estava até esperando ser a futura presidente do Congresso francês. Bastava só ser reeleita deputada. como acontecia fazia décadas. Na cidade dela, porém, o partido estava rachado e Hollande manifestou o “apoio presidencial” à ex-mulher. Enciumada, Valérie foi ao Twitter e defendeu o adversário de Segolene. Ela perdeu, como aconteceria de qualquer maneira. e o mundo político francês tremeu. Como qualquer cônjuge de político, Valérie tem direito a falar tudo o que acha dentro de casa (alguém imagina que o marido da primeira-ministra Angela Merkel não tenha uma opinião ou duas sobre o papel da Alemanha na crise grega”). Mas interferir no jogo político com base apenas em sua vantajosa posição conjugal é uma afronta às regras da democracia. Ségolene declarou-se mortificada e,. depois, o filho mais velho dela com Hollande, Thomas, disse que nem ele nem os irmãos estavam mais falando com Valérie. “Eu sabia que alguma coisa viria dela algum dia. mas não um golpe tão violento. Foi uma loucura”, fuzilou.

 

Hollande viu-se, assim, em cima de um vulcão familiar. Recolhida ao silêncio obsequioso, Valérie lançou um livro, já planejado, de fotos sobre a campanha do marido. Número de fotografias em

que ela própria aparece: cinquenta. Referência a Ségolene: “Sim. O homem que amo teve outra mulher antes de mim”. A “outra”, claro, é a mãe dos quatro filhos de Hollande. “Ela agiu por ciúme e, como é inteligente, viu que errou. Como primeira-dama, ela não tem legitimidade para interferir em política”, disse a VEJA o especialista em comunicação política Arnaud Mercier, da Universidade

de Lorraine. “Os assuntos’ privados têm de ser resolvidos em particular”, suspirou Hollande. Só falta convencer disso suas mulheres. Uma das quais apelidada de Rottweiler.

 

GURU, DO CARATER

 

Há dois fatos fundamentais na vida de Stephen Covey: ele era mormon e era guru empresarial.

Consultor de empresas, com MBA pela Universidade Harvard, tornou-se best-seller ao conjugar. em sua sobras, certos preceitos filosóficos de sua igreja aos ditames da eficiência corporativa.Comessa fórmula, Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes foi traduz idem;381ínguas e vendeu 25 milhões de exemplares no mundo _ 500 000 deles no Brasil. Foi seguido de outros sucessos, como O Oitavo Hábito e Os 7 Hábitos das Famílias Altamente Eficazes. O autor americano morreu na segunda 16, em Idaho Falls, das sequelas de uma queda de bicicleta ocorrida em abril. Tinha 79 anos e deixou nove filhos e 52 netos.

 

Nascido em Salt Lake City, centro da religião mormon, e criado numa fazenda nos arredores da cidade, Covey chegou a fazer trabalho missionário, na Inglaterra, antes de estudar em Harvard.

Ele negava a existência de qualquer tendência mormon em seus livros, nos quais, de fato, não há proselitismo religioso. Certos princípios éticos, porém, advêm de sua formação missionária.

Ele foi um raro guru do mundo dos negócios que falava da importância do caráter na constituição de uma liderança empresarial. Sem esse fundamento, disse Covey numa entrevista a VEJA em

2005, um líder volta-se apenas para seu projeto pessoal, para seu ego – e não consegue “inspirar os liderados valendo- se de uma conduta moral exemplar”. Os princípios de Covey eram na aparência

simples, baseados no senso comum (“seja proativo” e “comece com um objetivo em mente” estão entre seus sete hábitos). Mas, como ele mesmo dizia, “aquilo que é senso comum não é prática

comum”. Covey foi consultor de empresários e CEOs-e também de líderes políticos como o então presidente americano BiII Clínton. Mas o guru tinha um saudável ceticismo em relação ao governo: “O político não precisa enfrentar a competição de um alto executivo para manter o cargo numa empresa. É por isso que os governantes se dão ao luxo de errar mais como líderes e recorrer a práticas atrasadas de gestão”, disse ele na mesma entrevista a VEJA.

 

Em 1983, Covey fundou uma empresa especializada em consultoria e seminários corporativos, a Covey Leadership Center – que se fundiu, em1997, com outra empresa do setor, Franldin Quest, convertendo-se então na FranldinCovey Company. NQ ano passado. essa empresa teve receita de

161 milhões de dólares. Segundo a revista Forbes, o império Covey amealhou 1,4 bilhão em pouco mais de vinte anos. Os princípios da eficácia de Covey funcionaram bem para ele mesmo.

 

À SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR

 

As protagonistas de Girls são jovens às voltas com as dores do crescimento na Nova York em crise. E um retrato geracional mais honesto e realista que o do antecessor Sex and the City

 

Hannah Horvath (Lena Dunham) queria ser Carrie Bradshaw. Assim como a personagem de Sarah Jessica Parker em Sex and the City, exibida entre 1998 e 2004, a heroína da série Girls (que estreiano país nesta segunda- feira, no canal pago HBO) busca o sucesso como escritora em Nova York. Mas morrem aí as semelhanças entre ambas. Hannah tem 20 e poucos anos, enquanto Carrie já havia virado os 30 (e terminaria a série às portas dos 40). Com 7 quilos a mais do que gostaria. ela não tem o corpinho esguio da antecessora. A distância que a separa do sucesso profissional da

escritora retratada em Sex and lhe Ctty, então, é drástica. Interiorana que divide uma residência modesta com uma amiga na cidade, Hannah aceita trabalhar como estagiária sem salário em uma editora, na ilusão de que isso poderá ser o trampolim para seu vago projeto de uma carreira literária. E ela está longe de achar um tigrão como Mr. Big, o eterno amante de Carrie. Hannah conta tão somente com os préstimos de Adam (Adam Dríver), um bobalhão interessado apenas em aliviar as inesgotáveis pulsões eróticas nas curvas portentosas da moça. Adam comete grosserias nomináveis, como dar tapinhas na barriga da namorada e sugerir que ela emagreça. O contraste com a vida de glamour de Carrie e sua trupe (veja o quadro na página seguinte) se elucida de vez quando Hannah é informada pelos pais de que sua mesada será cortada. Ela tenta argumentar, suplicante: “Por favor, me dêem mais tempo. Tenho boas razões para crer que serei a voz de minha geração”.

 

A afirmação expõe quanto há de patético na paradoxal mistura de pretensão oca com ausência de ambição na protagonista. A mesma conjunção infeliz é compartilhada por suas amigas: a bonitinha mas nervosa Marnie (Allison Williams), a estouvada Jessa (Jemima Kirke) e a virgem neurótica Shoshanna (Zosia Mamet, filha do dramaturgo e cineasta David Mamet). Retrato impiedoso e acurado de uma parcela expressiva das mulheres jovens de hoje, Girls reselase, afinal, um seriado mais honesto – e, em que pese a imaturidade das personagens, adulto – que a infantilizada visão sobre as balzaquianas da virada dos anos 2000 oferecida por Sex and lhe City. Impressiona verificar nos créditos que a criadora. produtora. diretora e atriz principal de Girls esteja no olho do mesmo furacão etário. Aos 26 anos, Lena Dunham despontou como idealizadora e estrela de vídeos amadores e séries para a internet. Em 2010, fez sua estreia como diretora de longa-metragem

com Tiny Furniture (“mobília minúscula”), outro retrato da chamada geração Y, como se rotula o pessoal que nasceu entre o início dos anos 80 e meados dos 90. O zettgeist tem seu peso na diferença colossal entre o mundo de Hannah e o de Carrie. Assim como as suas contrapartes do mundo real, as protagonistas de Girls têm à frente um futuro dificultado e apequenado pela recessão econômica (levantamentos recentes mostram que um quarto dos jovens americanos entre 18 e 34 anos teve de voltar para a casa dos pais, o que lá é considerado humilhação suprema; e a situação anda tão feia que mais de 40% dos recém-formados em cursos universitários que conseguiram emprego estão em postos que não requerem esse tipo de instrução — viraram garçonetes, valetes e assemelhados). Mas, apesar de terem menos idade e dinheiro, elas revelam mais potencial para

evoluir rumo à maturidade plena do que as Barbies tardias de Sex.

 

A passagem para a vida adulta, porém, é assolada por ansiedades neuróticas, todas de grande efeito cômico. A obsessão de Marnie por se relacionar com alguém que preencha suas expectativas narcisistas joga a jovem nos braços (bem, não exatamente nos braços) de um roqueiro de estilo coxinha, que compartilha com ela o gosto por certo brinquedo de alcova, enquanto Shoshanna é tão fixada em sua virgindade que repele qualquer pretendente disposto a inicia-la. As cenas de sexo são uma espécie de resumo geracional: premidas pela urgência de afirmar para os outros e para si mesmas que possuem, sim, uma vida afetiva, as personagens se jogam na cama de forma afoita — e frustrante.

O talento de Lena Dunham se comprova no modo como ela equilibra o humor ácido com um olhar generoso sobre suas meninas — em particular, sobre a personagem que ela mesma interpreta.

Na Nova Yorlc anticlimática de Girts, Hannah vai, aos trancos, virando uma mulher mais interessante do que a peruíssima Carrie Bradshaw jamais foi. Lena Dunham jáfoi chamada de Woody Allen de saias. E tem chances de ser, de fato, a voz de sua geração.

 

UM HOMEM A SER EXPLICADO

 

E EXPLICAR JOÃO BAPTISTA FOGUEIREDO, O ÚLTIMO E O MAIS RELUTANTE DOS GENERAIS A OCUPAR O PODER, É O QUE SAÍD FARHAT, QUE CONVIVEU ESTREITAMENTE COM O PRESIDENTE NO PLANALTO, SE PÕE A FAZER EM TEMPO DE GANGORRA

 

Esses, pelo menos. não saíram daqui dizendo as coisas diferentemente do que conversamos”, comentou com um assessor o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informações do governo Ernesto Geisel, no fim da tarde de 31 de janeiro de 1978. “Esses” eram Guilherme Figueiredo e Said Farhat. E “as coisas que saíram dizendo” foram as respostas dadas pela dupla às perguntas dos jornalistas interessados em saber o que haviam conversado por mais de uma hora o militar já escolhido para encerrar o ciclo dos generais iniciado

em 1964, o escritor e teatrólogo que acumulava o posto de irmão mais velho do futuro presidente e o risonho acriano que suspendera as atividades de empresário  e jornalista para dirigir a Embratur.

O resgate do episódio é um dos momentos mais saborosos e reveladores de Tempode Gangorra (Editora Tag&Line; 472 páginas; 45 reais), em que Said Famal, como informa o subtítulo, apresenta

uma “visão do processo político – militar no Brasil de 1978 a 1980″.

 

O confronto entre o que ouviram os jornalistas e o que escutaram as paredes do gabinete no 40 andar do Palácio do Planalto sugere que, se gostou da lealdade dos visitantes, Figueiredo gostou mais ainda de como as coisas foram ditas e, sobretudo, do que os visitantes deixaram de dizer. A  imprensa ficou sem saber, por exemplo, que Guilherme, então funcionário da Embrarur, só

invocou a necessidade de tratar de questões ligadas ao turismo para conseguir incluir na agenda a audiência, que em princípio duraria quinze minutos, em que apresentou Farhat ao irmão. Eles combinaram que Farhat tentaria, com a exposição de ideias e conceitos inesperáveis do liberalismo clássico, ajudar a pavimentar o caminho da abertura política que seria percorrido pelo quinto (e último) presidente do regime militar. A conversa a três invadiu sem cautelas assuntos perigosos demais para frequentar sem disfarces entrevistas coletivas.

 

Farhat confirmou que havia sugerido ao general alguns retoques na imagem. Mas omitiu o comentário de Figueiredo quando o aconselhou a abandonar as meias verdes que terminavam

no meio da canela: “Qualquer dia, vocês vão querer que eu ande por aí de collant”. No noticiário do dia seguinte, graças à habilidade de um diplomata vocacional, clarins soaram como flautas, bumbo virou marimba e a batucada ficou parecida com um minueto. Reinterpretado por Farhat, Figueiredo pareceu bem melhor que na partitura original.O futuro presidente encontrara seu mais perfeito tradutor, mas Farhat soube disso só no segundo encontro, em 8 de junho de 1978, quando foi convidado ajuntar-se à equipe do candidato. Primeiro como “assessor polívalente”, depois como porta-voz do presidente eleito, enfim como ministro da Comunicação Social do chefe de governo,

Parhat conviveu intensamente, durante dois anos e meio, com “o homem que cumpriu o juramento de fazer deste país uma democracia”.

 

“A devolução do poder aos civis ocorreu graças à teimosia de Figueiredo”, garante Farhat. A declarada simpatia pelo personagem às vezes induz o autor a enxergar no desbocado oficial da Cavalaria um audaz cavaleiro andante. O olhar é amistoso, mas sempre honesto. O livro comprova que só um turrão incurável poderia completar o trabalho de desmonte iniciado por Geisel, outro teimoso de nascença. Os dois enfrentaram zonas de turbulência forjadas pela involuntária parceria entre ultraconservadores fardados incapazes de admitir a agonia do regime e oposicionistas sem paciência para avaliar o tamanho do perigo a um palmo do nariz. A anistia de 1979, por exemplo,

descontentou a esquerda e açulou o animo beligerante da linha dura. E, à exceção de Thncredo Neves, revela Farhat, ninguém aceitou apenar a “mão estendida” por Figueiredo num dos’ primeiros

discursos como herdeiro do trono.

 

Pena que Farhat não tenha detalhado as ameaças anônimas de que foi vítima, nem identificado claramente os liberticidas que seguiram em ação até a restauração da democracia. Mas os fatos que narra confirmam que, efetivamente, ele viu “o bastante para perceber quanto estivemos arriscados, mais de uma vez, a tudo perder”. Farhat diz que lhe coube “verbalizar a vocação democrática do presidente e, sempre que encontrava caminho aberto, aprofundar razões, reduzir a escrito seu pensamento político, muitas vezes inexpresso”. Fez muito mais do que isso. E foi muito além da repaginação que trocou João Baptista de Oliveira Figueiredo por João Figueiredo, demitiu os pesadíssimos óculos e, claro, mudou tanto a cor quanto o comprimento das meias.

 

Graças à insistência de Farhat, o oficial do Exército que chefiara em silêncio o Gabinete Militar de Emílio Médici e o SNI de Ernesto Geisel começou a conversar com jornalistas – e o país descobriu que o general caladão camuflava um presidente que falava até demais. Recorrendo a complicadas

acrobacias semânticas, Farhat frequentemente teve de minimizar, traduzir ou revogar declarações que consolidaram o estilo de alguém que se definia como “rude e franco”. Não foi fácil explicar

por que o presidente preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo. Ou por que daria um tiro na cabeça’ se tivesse de sobreviver ganhando salário mínimo. Ou, ainda, por que Figueiredo, depois de prometer a ressurreição da democracia num épico pronunciamento redigido por Farhat, brindou com a advertência famosa o jornalista que lhe perguntara o que faria se alguém se opusesse ao que havia prometido: “Eu prendo e arrebento”.

 

Somados os governos aos quais serviu e o- que chefiou durante seis anos, ninguém ficou mais tempo no Palácio do Planalto do que Figueiredo. Nunca foi feliz. Aceitou a contragosto a indicação

para a Presidência, que qualificou sinceramente de “missão irrecusável”. Para não repassar a faixa presidencial a José Sarney, que considerava “um traidor”, deixou o palácio pela porta dos fundos. Longe do poder, enfurnou-se num apartamento no Rio de onde saía apenas para os fins de semana no sítio em Petrópolis ou para caminhadas solitárias no calçadão do Leblon. Quando percebia que alguém o reconhecera, evitava a interceptação com o mesmo drible: “Sou parecido com quem você está pensando, mas não sou ele”. Até morrer, em 1999, perseguiu o desejo manifestado na entrevista concedida a Alexandre Garcia semanas antes de encerrar o mandato: “Quero que me esqueçam”. Saíd Famat preferiu esquecer o pedido, ouvir o apelo da história e lembrar o presidente que conheceu. O retrato produzido pelo livro ajuda a iluminar o começo da última etapa da viagem para longe das trevas.

fapes30

Ataque ao viés  doscânones

 

 

 

Crítica EM TEMPOS de setores da sociedade no texto A Educação Depois

DE  VIOLÊNCIA tradicionalmente excluídos de Auschwitz, de que, após , Jaime Ginzburg das listas canônicas, como o Holocausto, se tem de

No livro em tempos de violência editado pelo Edusp-Fapesp  Jaime Ginzburg professor de letras da universidade de São Paulo faz em diferentes ensaios, um bem documentado e bem argumentado ataque frontal ao elitismo dos cânones literários e propõe um reformulação geral do ensino.

   

Contra o chamado lançamento,  editado pela Edusp- esteticismo da crítica obra clássica das ciências Fapesp, Jaime Ginzburg, literária e do ensino de humanas brasileiras. Talvez que só se ocupa dos o alarme para a necessidade Universidade de São Paulo, pretensos “grandes autores”, de reeducar a sociedade faz, em diferentes ensaios, uma das constatações mais devesse ter soado logo depois um bem documentado e bem importantes de Ginzburg dos genocídios contra índios

ao elitismo dos cânones fechar num nicho de beleza e África, como os perpetrados literários e propõe uma harmonia em meio ao mundo pela Coroa belga.

 

 

Os 50 anos , da Fapesp

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo lFapesp) comemora este ano meio século de investimentos em projetos acadêmicos e científicos que beneficiam centros de estudos e universidades paulistas , E um centro de excelência. Entre as principais realizações, destacam-se os financiamentos nos campos do projeto Genoma, inovações na produção do etanol, biodiversidade, sustentabilidade, bioenergia e mudanças climáticas globais. Em 2011, a Fapesp investiu R$ 912 milhões em pesquisas. Celso Lafer,presidente da Fapesp, destaca como uma constante nos últimos anos a internacionalização da fundação, por meio de acordos com entidades congêneres no mundo. É uma resposta, segundo ele, ao desafio da interação entre pesquisadores nacionais e estrangeiros, fundamental para o avanço do conhecimento. O diretor científico da entidade, Carlos Henrique de Brito Cruz, afirma que aciência em São Paulo tem crescido em quantidade e qualidade. Para marcar os 50 anos de Fapesp, a revista Pesquisa produziu alentado e denso número especial em 258 páqínas com 50,reportagens relativas a igual número de projetos apoiados pela fundação ao longo de sua história. A versão digital pode ser lida no site www.revistapesquisa.fapesp.br

 

EXPORTAÇÕES EM ALTA

O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Cíesp) divulgará nesta segunda-feira a participação dos municípios paulistas na pauta de exportação entre janeiro a junho de 20,12. As cinco primeiras posições no ranking das exportações das regionais do Ciesp, pela ordem, são: São Paulo (capital), São José dos Campos, Santos, São Bernardo do Campo e Campinas. Juntas, elas são responsáveis por 45,6% do total das exportações do Estado de São Paulo. Exportaram US$ 13,6 bilhões, 3% a mais do total exportado no 10 semestre de 2011.

 

AGRONEGÓCIOS

O primeiro Parque Tecnológico doInterior Paulista focado em agronegócio será criado em Barretos, o AgroPark, com investimentos do governo paulista da ordem de R$ 6,1

milhões. Integração entre agricultura e pecuária, programas de qualidade de alimentos e controle de resíduos de medicamentos são as ações prioritárias. O AgroPark ocupará uma área de 1 milhão de metros quadrados, próxima ao aeroporto local. Laboratórios, órgãos públicos, centros dê pesquisa, instituições de ensino, empresas incubadas, hotéis e centro de convenções fazem parte do empreendimento.

 

MELHO RIA NOS RIOS

Relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) revela melhoria na qualidade da água de alguns dos principais rios do estado de São Paulo. O estudo Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil – Informe 2012 descreve a atual situação dos recursos hídricos do Brasil e os principais avanços. O documento relaciona 47 unidades de medição que apresentaram melhoras, das quais 37 estão nos rios paulistas. As regiões paulistas que se destacam pelas melhorias são Baixada Santista, Litoral Norte, Vale do Paraíba, Campinas e Presidente Prudente. REGIÃO METROPOLITANA

São José do Rio Preto poderá ser a sede de região metropolitana com 30 municípios se for aprovado projeto do  deputado João Paulo Rillo (PT). A proposta já passou pelas comissões de Assuntos Metropolitanos e Municipais e_de_ Constituição, Justiça e Redação. Falta o parecer da Comissão de Finanças, Orçamento e Planejamento, antes de ser apreciada pelo plenário.

JORNALISMO

“Jornalísmo e inovação – construindo novos modelos denegócios” será o tema do 90 Congresso Brasileiro de Jornais a ser realizado nos dias 20 e 21 de agosto de 2012, no Sheraton São Paulo WTC Hotel, na capital paulista. Promovido

pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), trata-se do mais importante evento da indústria jornalística brasileira, que reúne, a cada dois anos, cerca de-700 participantes de jornais de todo o País. Estarão presentes profissionais ligados à gestão dos meios de comunicação em suasmais diversas áreas como redação, tecnologia, multimídia, mcomercial, marketing, gestão de pessoas, jurídico, circulação e distribuição.

 

 

BREVES

• Faleceu quinta-feira, aos 75 anos, o deputado estadual e ex-prefeito de Jundiaí Ary Fossen. Vítima de pneumonia, no Hospital A1bert Einstein, em São Paulo.

• A partir deste mês, a agência de fomento paulista Nossa Caixa Desenvolvimento passa a chamar-se Desenvolve

SP – Agência de Desenvolvimento Paulista. • Para acompanhar a situação dos candidatos a prefeito

e a vereador, em todo

 

 

Inpe mostra subsistema desenvolvido no Brasil

 

 

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentou o primeiro

subsistema de propulsãopara satélite desenvolvido no Brasil, que entrará em órbita a bordo do Amazónia. O equipamento é necessário para correção de altitude e elevação de óbita durante a vida útil do satélite. E foi desenvolvido pela Plataforma Multimissão (PMM), criada pelo Inpe para base de satélites como o Amazônia’ , o’ Lattes, em parceria com a empresa Fíbraforte, e Sao José dos Campos SPl, que já teve dois projetos de pesquisa apoíaios  pelá Fundação de Ampàro a Pesquisa do Estado

 de São Paulo (Fapesp) no bito do Programa Pesquisa Inovatíva em Pequena

Empresa (Pipe). O modelo de qualifiação’ do subsistema de ropulsão da PMM foi

Submetido a uma sequência iade testes severos, rearfiza do sem laboratórios do Inpe, que reproduzem todo tipo de esforços e o ambíerite hostil que o satélite terá desde o lançamento ao fim de sua vida útil no espaço.

No Laboratório de Integração e Testes (LIT),em São José dos Campos, foram realizados os testes de vibração, termo vácuo, alinhamento e vazamento.

Antes disso, em conjunto com a Fibraforte, o LIT também foi responsável pelo desenvolvimento dos processos de soldagem, pela qualificação dos corpos

de prova e pela própria soldagem de todas as tubulações do subsistema.

Já no Banco de Testes com Simulação de Altitude (BTSA),em Cachoeira

Paulista, aconteceu o teste de tiro real sob vácuo, que simula manobras em órbita. Todos os testes foram aprovados na etapa de qualificação. “Como os testes foram realizados pela primeira vez em um subsistema de propulsão,

os laboratórios tiveram adaptações em suas estruturas. O BTSA,que integra

o Laboratório de  Combustão e Propulsão, obteve investimentos para adaptações e melhorias”, contou Heitor Patire Júnior, pesquisador do Inpe e responsável técnico pelo projeto. “Novos desenvolvimentos  e domínio de tecnologia foram necessários

para a construção do ‘ subsistema de propulsão, tanto do lado Inpe como pela empresa contratada”, completou. Segundo o pesquisador, alguns equipamentos

que fazem parte do subsistema de propulsão ainda foram importados por não haver produto similar no país, enquanto outros foram desenvolvidos pela Fibraforte, como propulsores, válvulas de enchimento e dreno de combustível e gás pressurizante, ‘tubulação e a própria estrutura e suportes do subsistema. Já no Inpe está sendo desenvolvido o catalisador que abastece os propulsores (onde o combustível sofre reação química gerando a propulsão nos motores), além de todo processo de soldagem da tubulação que transporta o combustível entre o tanque e os propulsores e o treinamento das equipes de vários laboratórios envolvidos no desenvolvimento do equipamento. Para os próximos satélites, a Fibraforte pretende desenvolver também o tanque de propelente. A empresa desenvolveu, com apoio da Fapesp, um propulsor monorepelente para satélite e uma ferramenta para otimização de estruturas.

 

 

Governo cria outros meios de incentivo

Nova lei aumentou participação de pequenas empresas em licitações

 

o governo federal regulamentou, no ano passado, uma lei que facilita a participação

das micro, pequenas e médias empresas em licitações públicas. De acordo com Renato Garcia’ professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), há três novidades. Uma é a regulamentação de subcontratações  uma grande empresa que vence uma licitação pode ter fornecedores de menor porte. A segunda garante ao pequeno empresário a preferência no caso de empate com uma grande companhia, na concorrência por um contrato público. E,por fim, licitações de até

R$80 mil são destinadas apenas a micro e pequenas empresas. O efeito foi um aumento na participação desses empresários nas compras governamentais. No primeiro semestre deste ano, micro e pequenas empresas tiveram uma participação de 360/0 no fornecimento de bens e serviços para o governo federal-em 2010, a participação desse setor foide 250/0. Apesar da maior participação, nem todos estão satisfeitos. Para Paulo Feldmann, presidente do Conselho da Pequena Empresa da Fecomercio (Federação do Comércio), a lei restringe a participação das pequenas empresas em licitações ao proibir que elas construam consórcios para concorrer. “A legislação brasileira está errada.” “O que o governo pode fazer é não atrapalhar”, diz o

professor de empreendedorismo da FGV Marcelo Aidar. Ele considera que reduzir

as burocracias deve ser a principal política para impulsionar o empreendedorismo no país. Aidar lembra que, no Brasil, uma empresa demora, em média, 120 dias para

ser aberta. No Chile, são necessários 27 dias. Além da nova regra, há órgãos

destinados a incentivar o desenvolvimento dos pequenos e médios empresários. Um deles é a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), ligada ao Ministério da

Ciência e Tecnologia, cujo programa Inovar busca estimular o investimento em capital

semente e a formação de investidores anjos. AClanSoft, empresa de desenvolvimentode softwares de Campinas(SP),foiuma das beneficiadas por programas governamentais. Ela contou com R$ 120 mil para desenvolver um aplicativo para tablets chamado Tacticalpad, que mostra dados e informações sobre esportes coletivos, conta o sócio Pedro Henrique Borges de Almeida, 30.

O dinheiro veio do programa Pipe (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), da Fapesp (Fiundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). (FG)

” O qu e o governo pode fazer é não atrapalhar.

 

 

 

Brasil está desenvolvendo políticas de apoio’

 

Gilberto Sarfati é professor de empreendedorismo da FGV(Fundação Getulio Vargas)

e fez um estudo sobre políticas públicas de incentivo no Brasil comparadas às de

quatro países: Canadá, Chile, Irlanda e Itália. Folha – O Brasil já tem políticas

relevantes de apoio aos pequenos empresários? Gilberto Sarfati – Está começando

a ter. Destaco a lei do Simples e o trabalho da Finep (Financiadora de Estudos

e Projetos, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia], que tem um papel importante para formar a indústria de capital de risco.  Quais iniciativas podemos aprender de outros países? Nos países ricos, há um foco em empreendedorismo de alto impacto (empresas que crescem mais de 20% ao ano). O futuro do desenvolvimento

econômico –geração de empregos e novas tecnologias- está aí. Para isso, é

preciso ter educação empreendedora, preocupação com desenvolvimento regional e

simplificar a vida dos empresários. É o que fazem o Canadá, a Irlanda e o Chile. E o que não se deve fazer? A Itália é o antiexemplo. Lá, as regras trabalhistas são

muito rígidas. Um empregado não é demitido nunca, pois a quantidade de encargos que a empresa é obrigada a pagar é praticamente o salário para o resto da vida do sujeito. (FG)

 

BIOFABRIS CRIA POLíMEROS PARA PRÓTESES

 

Desenvolver polímeros de fontes renováveis como alternativas aos metais utilizados em próteses destinadas à reconstrução de partes do corpo humano é um dos objetivos do INC&TBiofabris

(Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia Biofabris), rede de laboratórios composta por núcleos instalados em doze instituições, entre elas: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisas Nucleares (Ipen), Ministério da Ciência e Tecnologia e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT). Na Unicamp, as pesquisas do Biofabris já resultaram em novidades, como um novo monômero – a caminho de gerar um polímero -, cuja fonte é a laranja, e um poliuretano proveniente do poliol do açaí, capaz de substituir metais como o titânio em próteses cranianas ou destinadas à região da face (poliol é uma substância extraída dos despolpados – frutos já sem a polpa -, do açaí). De acordo com Luiz Jardini Munhoz, pesquisador do Biofabris, da Unicamp, desde a sua criação, em 2009, já há algum uso de polímeros em próteses para o crânio ou para a face. Entre eles, destaca-se hoje o PMMA (polimetilmetacrilato), um derivado do petróleo. “E em próteses ortopédicas para joelho e fêmur, por exemplo, nas quais a solicitação mecânica é maior, o titânio ainda é mais adequado”, destaca Munhoz. Mas ele ressalta: embora apresente determinadas vantagens quando aplicado em próteses, como biocompatibilidade (não gera reações indesejáveis nos organismos), e elevada resistência, nesse uso o titânio também tem desvantagens, como peso elevado e densidade.

Além disso, é um material caro e sua fixação é feita somente com parafusos, passíveis de rompimento, podendo criar problemas de deslocamento de próteses. “As próteses de polímeros também são fixadas com parafusos, mas como a elaborada com açaí é porosa, permite o crescimento celular do osso no interior das próteses, melhorando a fixação”, argumenta Munhoz, citando o desenvolvimento do poliuretano formulado com o poliol do açaí, promovido no Biofabris pela pesquisadora Laís Pellizzer Gabriel. E mesmo as próteses sujeitas a grandes solicitações mecânicas logo poderão ser confeccionadas também com polímeros, prevê Anderson Bonon.

 

CIÊNCIA MELHORA BIOCOMPATIBILlDADE

 

Anderson Bonon pesquisa, no núcleo do Biofabris, da Unicamp, materiais cuja biocompatibilidade seja referendada por todo o processo de sua produção, desde a obtenção do pré-monõmero, proveniente de fontes vegetais, passando pela transformação em monõmero para chegar à estruturação do polímero. Segundo Bonon, muitos polímeros hoje utilizados em próteses provêm de monõmeros oriundos do petróleo e, alguns deles, embora não sejam prejudiciais ao organismo humano, têm origem em substâncias tóxicas; caso do PMMA, cujo monõmero é o metacrilato de metila. “E, ao final da síntese polimérica, sempre sobram monômeros residuais que devem ser removidos com técnicas apropriadas”, explicou.

A pesquisa de Bonon tem como base o limoneno extraído do óleo da laranja (integrante da categoria dos terpenos, o limoneno é o responsável principal pelo aroma desse fruto). “É uma

fonte limpa, pois esse óleo é um resíduo da extração de suco, e não tem nenhum

contaminante tóxico”, salientou. Seu trabalho começou pelo desenvolvimento de um processo de extração do limoneno do óleo da laranja, e prosseguiu com sua posterior transformação em epóxido, sem a utilização de catalísadores ou oxidantes tóxicos, e também sem gerar resíduos com essa característica: “O oxidante do processo convencional, ácido peracético, por exemplo, libera um moi de ácido acético para cada moi de produto. Isso acarreta aumento nos custos de obtenção do produto final e no tratamento de efluentes, enquanto nosso processo libera apenas água”, comparou Bonon. Depois de desenvolver um monõmero com base no limoneno, ele agora trabalha na confecção do polímero: “Estamos avançando rapidamente:

em dois anos, desenvolvemos todo o processo de obtenção do prémonõmero e do monõmero, daqui a três ou quatro anos chegaremos ao polímero”, projetou Bonon.

Segundo ele, ainda não é possível dizer exatamente quais serão as características e as melhores aplicações desse polímero, poís seu monõmero é totalmente novo. “Tudo indica que será um polrnero muito resistente e leve, com aplicações tanto na área ortopédica quanto na odontológica”, detalhou. “Essas aplicações requerem materiais com alto desempenho mecânico e, se possível, leves (tudo indica que será um polímero pouco denso), para causar menos desconforto ao usuário”, finaliza o pesquisador, que vê no processo no qual trabalha potencial para a geração de três ou quatro patentes Materiais bioabsorvíveis – Outra vertente das pesquisas atualmente em desenvolvimento no núcleo da Unicamp do Biofabris é a chamada Engenharia Tecidual (algo como o desenvolvimento de dispositivos que, após a implantação nos pacientes, no tempo certo, são eliminados por sistemas do próprio organismo, como a urina).

Entre os polímeros já utilizados nesse processo de construção de dispositivos bioabsorvíveis aparecem o PLA (ácido poliláctico) e o PGA (ácido poliglicólico). “O PLA tem sido utilizado em parafusos e placas de fixação. Como o ácido lático é produzido pelo próprio corpo humano, ele é eliminado pelo processo de hidrólise”, explica Munhoz. Segundo ele, parafusos de PLA têm sido muito empregados em cirurgias

plásticas, mas um único deles pode custar até mil dólares. “O ácido lático do qual se obtém o PLA é hoje importado, mas temos pesquisas para produção de PLA biotecnológico utilizando a canade- açúcar”, destaca o pesquisador. Na Unicamp, o Biofabris hoje desenvolve também materiais para a construção de pele e cartilagens; por exemplo, o hidrogel, um acrilato com densidade similar à de um menisco, proveniente do 2 hidroximetil metacrilato “No processo de construção de cartilagens, usa-se também o PVA (polivinil álcool)”, complementa Munhoz. O Biofabris emprega processos químicos mesmo no desenvolvimento de versões mais eficientes de próteses de titânio e de ligas de titânio: uma das teses ali em andamento estuda a incorporação, pelo processo de plasma frio, de polímeros de biocerâmicas – cerâmicas biocompatíveis, como trifosfato de cálcio e hidroxiapatita – às próteses metálicas. “A incorporaçãodessas biocerâmicas às próteses serve para melhorar a parte da biointegração, aceitação óssea, e mesmo a resistência mecânica”, justifica Munhoz. Demanda aquecida – O Biofabris é financiado principalmente por recursos provenientes de órgãos de fomento à pesquisa, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Fundação de Amparo à

Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Seus projetos envolvem profissionais de diversas áreas, como engenharia, medicina e odontologia, entre outras. Em seu núcleo da Unicamp, pesquisa também, nesse caso, em parceria com a Faculdade de Medicina da mesma universidade, a incorporação de células em biorreatores, projetadas para, via estímulos mecânicos e eletromagnéticos incitar a criação de partes do corpo humano. A infraestrutura desse núcleo hoje inclui uma máquina de Sinterização Direta de Metal por Laser (DMLS) capaz de confeccionar as próteses de ntitânio com informações geradas por modelamento matemático: instalado em 20 IO, esse equipamento exigiu investimentos de aproximadamente 700 mil euros. Além do titânio, conta Munhoz, outros metais são utilizados em próteses, como liga de cobalto e cromo, e aço inox 316L. “Mas tem crescido bastante o processo de substituição dos metais pelos polímeros. O PMMA tem um uso já consagrado nessa área,

e tem crescido o uso do PLA”, ele destaca. Mais de quarenta alunos/pesquisadores hoje desenvolvem no núcleo do Biofabris da Unicamp teses de mestrado, doutorado e pós-doutorado, em cerca de 25 temas diferentes. Ali já foram defendidas doze dissertações, e requeridas onze patentes “Há uma demanda muito grande por próteses, basta ver, por exemplo, a grande quantidade de acidentes com motoqueiros, ou a necessidade de reconstituir partes perdidas ou desfiguradas dos corpos, para melhorar a qualidade de vida das pessoas”, enfatiza

Munhoz.. Antonio C. Santomauro.

 

 

FIEMA APRESENTOU TÉCNICAS PARA LIDAR BEM COM O LIXO

 

Responde pelo nome de Empacotador Embolsador Veicular (EEV) uma alternativa

para a rnitigação racional e ecologicamente interessante das milhões de toneladas de lixo urbano retiradas todos os dias das ruas das cidades brasileiras. O equipamento permite a separação entre recicláveis e orgânicos. Posteriormente, o material orgânico é depositado em aterros sanitários, com terreno impermeabilizado com geomembranas. Depois de aproximadamente dois anos, isso será convertido em adubo. A novidade foi apresentada na Feira Internacional de Tecnologia para Meio Ambiente – Fiema Brasil 2012, realizada em Bento Gonçalves-RS, de 24 a 27 de abril, com organização da Fundação Proamb. A grande vantagem do Empacotador Embolsador é o fato de ele funcionar como usina móvel. Realiza o recolhimento dos resíduos de forma ágil, simples e segura, conforme informações do fabricante, a Ecosol, soluções ecológicas, situada em Santo Antônio da Patrulha-RS, a 70 km de Porto Alegre. A operação do Empacotador vem sendo realizada em caráter industrial na cidade gaúcha de São Borja, nfronteira com a Argentina. O fabricante aguarda homologação pela Cetesb, órgão ambiental de São Paulo, para entrar em negociação com uma concessionária de recolhimento de lixo situada na capital paulista. Segundo o diretor e sócio da Ecosol, Lindomar Silveira, os equipamentos são adaptados às atuais necessidades dos municípios, pois têm a finalidade de recolher o lixo e transportá-lo ao destino final, onde o aterro funciona como uma usina de fertilizante orgânico de propriedades químicas modestas. Esse adubo, após examinado por engenheiros agrônomos e tratado por químicos, conforme as necessidades da terra, pode funcionar em diversos tipos de lavouras. O empacotador é autopropelido porque, depois de triturado no caminhão com caçamba especial, todos os detritos são aspirados para

INFO EXAME JULHO

Em busca da partícula de Deus

 

 

O físico brasileiro Alberto Santoro, 70 anos, está à frente de uma pesquisa que tem uma missão difícil: encontrar o bóson de Higgs, elemento conhecido como a “partícula de Deus”, que teria surgido logo após o Big Bang. Os trabalhos estão sendo realizados no LHe, o acelerador de partículas instalado na Suíça, e têm como objetivo entender a origem do universo. “A pesquisa pode provar que a partícula não existe”, diz Santoro. “Isso nos obrigaria a repensar todas as teorias dos últimos séculos.”

 

SETE VlDAS DO GATO NET

 

Uma investigação da INFO mostra como funciona o mercado ilegal de receptores de TV a cabo, equipamentos que desbloqueiam os sinais dos canais pagos e permitem piratear os pacotes de TVs como Net, Sky e TVA. Vendidos livremente no varejo de rua das grandes cidades do país e em sites de comércio eletrônico, os dispositivos desafiam a lei e oferecem riscos aos consumidores, como multa e processos judiciais movidos pelas operadoras.

Veja vídeo de uma lrnpressora 3D em ação / Entrevista com Phil Libin,

criador do Evernote _ / Os novos helicópteros autônomos do exército americano

 

 

Apaixonado por tecnologia, Marcelo Tripoli é formado em publicidade e

propaganda pela FAAP e construiu sua carreira explorando o potencial das novas mídias. No final da década de1880 teve sua primeira experiência à frente de uma empresa, a produtora MTM. Doze anos depois fundou a iThink, que tornou-se uma das principais agências voltadas ao mercado digital, afendendo clientes como Microsoft e Santander. O publicitário é o convidado especial

da coluna Inside Information.

 

 

SANDRO CASTEW

Quando criança, Sandro Castelli era o melhor desenhista da classe. Fã de seriados japoneses como Ultraman e Godzilla, o paulistano se inspirava naquelas criaturas surreais para criar seus’ próprios monstros. Após levar desenho a sério, fez um curso para ilustração e quadrinhos na escola Hector e Roko e passou a colaborar para diversas publicações nacionais e estrangeiras.

Aos 38 anos, Sandro é o autor do cenário de ficção científica da ilustração que abre a seção

 

 

 

ELES ESTÃO DE VOLTA

ANIME QUE VIROU FEBRE NA DÉCADA DE 1880, CAVALEIROS  DO ZODíACO

Chegam ao Playstation 3

 

 

Um dos jogos mais aguardados do ano. É assim que pode ser definido o lançamento de Os Cavaleiros do Zodíaco: Batalha do Santuário, game que chegou às lojas em junho pela Namco Bandai. Vendido por 200 reais e disponível apenas para PlayStation 3, o jogo permite que os fãs do anime acompanhem  as aventuras de Seiya e seus amigos na luta contra as hordas do mal. A trama coloca o jogador na pele dos cavaleiros

de bronze durante a Saga do Santuário, considerado o ponto alto da série. No Brasil, o game tem legenda em português’desenvolvida por uma equipe de

fãs. “Traduzimos quase 500 termos específicos para não perder a essência do

desenho”, diz Eduardo Vilarinho, dono do site Cavzodiaco.com.br.

 

 

RECORDAR É VIVER

 

OUTRAS IDEIAS GENIAIS QUE MARCARAM A DÉCADA DE 1880

_

Videogames de 16 bits/Nada supera Sonic, Super Mario,Street Fighter, Aladdin e,shinobi.

 

 

 

 

TODOS os  ÂNGULOS DE SARAH

Quando criança, Sarah Oliveira não gostava de jogar videogame. Isso ajuda

a explicar por que ela nunca baixou um game no seu iPhone. “Gosto de pàssar

o tempo vendo fotos. Sigo pessoas que nem conheço no Instagram, mas que têm fotos interessantes”, afirma a apresentadora de 33 anos, criadora do programa Viva-Voz, do canal GNT. Aqui, Sarah mostra seus aplicativos preferidos na hora de clicar, editar e compartilhar fotos

“Gravo todos os dias em locações diferentes, então o iPhone acaba virando a minha mesa de trabalho. Uso para ver e-mail e postar nas redes. Seja

na rua, na van, na maquiaqern

 

“Este app para fotos tem os filtros mais legais. Com ele, fiz uma imagem incrível no show da Marisa Monte.” “Para previsão do tempo. Foi baixado pelo meu marido [Thiago Lopes).

Ele tem um telefone da Samsung e um iPad, mas às vezes lota meu

iPhone de coisas.” crianças da  e dos amigos. No usei o app para fazer

montagens que imprimi e dei de presente.”

 

 

FOTOS DIVULGAÇÃO EDIÇÃo DE IMAGEM ARTNET DIGITAL

“Não uso tanto, mas é  bem legal para fazer GIFs. Quem baixou

no meu celular foi o [apresentador] Serginho Groisman.

Ele á viciado.”

“Descobri por causa da equipe do programa há bastante tempo, em

2010. São eles que sempre me apresentam essas novidades. Hoje;trato

as imagens em outros apps e uso o Instagram só como rede social.”

“Tem filtros muito legais. Acho que dá um foco melhor que o do Instagram.”

•…-,

“Eu e o Thiago tiramos essa foto com o Câmera+ em Itacará, mas não postei. Apesar de supertecnológico, meu marido não gosta muito de redes sociais.”

 

 

Para brincar de Harry potter

Cientistas americanos e iaponeses estão desenvolvendo uma capa de

invisibilidade como a usada pelo bruxo A ARTE DE VESTIR uma capa que deixa qualquer pessoa invisível iá não está mais restrita aos corredores de

Hogwarts, a escola de bruxinhos frequentada por Harry Potter e sua turma. Cientistas do Japão e dos Estados Unidos estão desenvolvendo um material capaz de tornar os obietos imperceptíveis. A técnica de camuflagem não

deixa de ter um pouco de magia: as roupas são feitas de meta materiais, estruturas artiflciais menores do que as ondas eletromagnéticas e responsáveis por fazer com que a luz contorne o obieto e proiete aquilo que está atrás dele.

Como era de se esperar, por enquanto os militares são os mais interessados pela nova tecnologia. A empresa canadense HyperStealth Biotechnology Corp, especializada em produzir uniformes de camuflagem, iá se associou à companhia bélica americana AOS Inc. para produzir capas de invisibilidade para os soldados que vão ao campo de batalha. Batizado de Quantum stealth, o proieto ainda está em fase inicial de desenvolvimento, mas já conta

com algumas imagens [como a divulgada acima]. Entenda com a ilustração ao lado o funcionamento da capa.

 

Criado sistema contra a censura de sites

 

Em janeiro, milhares de sites como Tumblr e Wikipedia exibiram mensagens contra dois projetos de lei que abririam brechas para a censura online nos Estados Unidos. Juntos, mobilizaram mais de 30 milhões de pessoas

e conseguiram o arquivamento de ambos. “Mas novas ameaças podem surgir”,

diz Holmes Wilson, fundador da Fight for The Future, organização que coordenou o movimento. Para evitar que isso aconteça ele se juntou a sites como Reddit e WordPress e criou a Liga de Defesa da Internet, cujo símbolo é um gato. “Quando houver perjgo à li, verdade, todos os membros ativarão o mesmo alerta”, afirma Wilson. Para ele, a luta é contra “governos e empresas que se sentem ameaçados pelo poder da internet.

 

OFF-ROAD COM PEGADA GEEK Câmera mostra a imagem da traseira

no retrovisor, para facilitar manobras

 

A picape  Ford Ranger chega ao mercado com uma lista de equipamentos para quem busca lama e tecnologia.Sensores acionam limpadores na mchuva, faróis à noite e até evitam colisão. A nova picape Ranger, da Ford, chega com aquela relação tradicional modelo LTD, que custa 130 900 reais, controlam desde a inclinação dos bancos de equipamentos para quem adora e- até o modo como as rodas giram num lamaçal  uma boa estrada de terra no fim maçal, por exemplo. Num dia chuvoso, de semana. A diferença é que agora a

 

 

 

 

INFO dirigiu a Ranger numa fazenda Ranger ganhou um banho de loja para na cidade de Itatiba, a 80 quilômetrosde São Paulo.

 

 

 

COMO SERÃO SEU MOUSE E TECLAOO?

Conheça o MaKey MaKey, kit que transforma objetos em controles para computador

 

 

Que tal usar letras de macarrão para digitar um texto? Ou umjoystick de massinha para jogar Tetris? Isso já é possível com o kit MaKey MaKey. Ele atribui as funções do teclado e do mouse a qualquer objeto. Basta conectá-lo a uma placa usando um cabo. E o melhor: não precisa programar nenhuma linha de código. O segredo está em transformar o usuário e os objetos em partes do circuito. “O kit funciona porque praticamente tudo conduz pelo menos um pouco de energia”, diz Jay Silver, 32 anos, estudante do Massachusetts Institute ofTechnology (MIT). O MaKey MaKey é o centro da tese de doutorado

de Silver . Ele e o colega Eric Rosenbaum, também do MIT, passaram dois anos desenvolvendo um protótipo antes de postá-lo no site de crowdfunding Kickstarter. Na plataforma, que permite a qualquer pessoa investir na ideia, os estudantes arrecadaram 560 mil dólares em três meses, ou mais de 20 vezes o valor solicitado para produzir a primeira leva de kits. “Vamos conseguir vender cada kit por menos de 40 dólares”, diz Rosenbaum. “Queremos manter o preço acessível para que muitas pessoas possam fazer suas experiências com MaKey

. MaKey.” O kit está à venda

1/A placa se conecta ao computador por USB. Ela possui comandos do teclado e do mouse: botão direito, barra de espaço, setas e algumas letras. Cada comando tem uma saída específica. 2/Com um cabo, é possível conectar uma saída a um objeto. Por exemplo, a letra W a uma maçã. Outro cabo deve ficar em contato com corpo do usuário.  3/Ao tocar a maçã, o usuário fecha o circuito e o sinal do W é enviado ao PC Ao conectar cabos que correspondem às setas a bolas de massinha, elas passam a comandar o Super Mario

para PC Pianos virtuais aceitam comandos de algumas letras. Plugue essas saídas a bananas e toque um dó-ré-mi com as frutas.

 

Artista ou investidor?

Até pouco tempo os primeiros sintomas de riqueza no show busine ss americano eram as mansões gigantescas, os jatinhos particulares e a m perseguição dos paparazzi.

Hoje as celebridades investem em startups de internet e aplicativos para celulares.

Confjra algumas das-estrelas que bancam empresas iniciantes [ou nem tanto)

 

Com um investimento de 4 milhões de dólares, DI Caprio deu uma força

para o aplicativo que adiciona tags às fotos tiradas com o celular

 

Spotify

Além do serviço música online Spotify, o astro pop também investiu nas redes

sociais Tinychat.com e Stamped.com

 

 

Elevation Partners

investimento coloca dinheiro em várias startups promissoras.

Seu maior acerto foi comprar 1.5% do Facebookem 2010

 

 

Tout

Aplicativo que registra vídeos de até 15 segundos e posta o resultado no Twitter e no Facebook\

 

Profissão: caçador de demônios

 

O game diablo 3 trouxe muitas novidades para a série de RPG de ação da Blizzard. A maior delas é a Casa de Leilões, onde jogadores podem comprar e vender objetos virtuais encontrados durante o jogo. O preço de cada item varia conforme sua utilidade, mas uma clava mais letal pode ser vendida por até 450 reais, ou 4,5 vezes o valor da licença do game. Dependendo do nível do jogador, dá até para ganhar a vida caçando demônios virtuais. Veja ao lado exemplos de itens vendidos na casa de leilões brasileira.

 

 

Celular open Source

Criadora do Firefox, a Mozilla entra no mercado,de sistemas operacionais móveis

Boot to Gecko seguirá o padrão de aplicações web, com apps em Javascript, HTML 5  e CSS3, mais leves . A partir de 2013, o mercado de sistemas operacionais para smartphones vai ganhar um novo concorrente. Produzido pela Mozilla, a empresa que criou o navegador Firefox, o Boot to Gecko será lançado em primeira mão no Brasil, resultado de uma parceria com a operadora Vivo e a fabricante Qualcomm. OBoot to Gecko será desenvolvido totalmente em código aberto. “Não gostamos de cercas. Todos terão plena liberdade para criar aplicativos e realizar melhorias no sistema”, afirmou

a INFO Christopher Arnold, desenvolvedor para novos mercados da Mozilla. A interface do novo sistema operacional móvel seguirá o padrão de aplicações web. Com aplicativos escritos em javascript, HTML 5 e CSS3, a plataforma pretende ser muito mais leve e rápida que as concorrentes, permitindo que celulares básicos e simples tenham funções de smartphone. Será que o Boot to Gecko conseguirá encarar de igual para igual os sistemas móveis do Google, da Apple e da Microsoft? A conferir.

 

 

APAREÇAM,Botões

o estilo do iPhone com as teclas do BlackBerry, Foi pensando  neste casamento que Craig Ciesla, presidente da Tactus, anunciou o desenvolvimento de uma tecnologia que permitirá utilizar botões físicos em um smartphone touchscreen, Na prática, as teclas literalmente surgirão da tela, Funciona assim: a Tactus é construída com microfluídos que induzem pequenas vibrações físicas na superfície de um chip e são capazes de deformar a tela para criar botões, Após utilizar o teclado, basta acionar o comando para que o touchscreen volte à sua textura normal. Ainda em desenvolvimento, a tecnologia será oficialmente apresentada em 2013 e pretende ir além dos smartphones, para estar presente em outros dispositivos que utilizem superfícies sensíveis ao toque, como tablets e GPS.

 

Chaves repaginado

Como seria a vida dos personagens do seriado mexicano se eles tivessem acesso às tecnologias de hoje?

 

o site Isitold.com evita que você passe vergonha ao mandar links com conteúdo manjado para seus amigos. Ele analisa o quanto o material já foi espalhado pelo Twitter e recomenda que você não repasse o endereço para a frente pensendo que aquilo ali é uma grande novidade. O serviço funciona mesmo, como comprovou um teste* realizado pela INFO com os vídeos ao lado.

 

 

Chefe Novo

 

 

O alemão Patrick Schmitd tem a missão de comandar o groupon na América Latina

 

 

Patrick Schmidt é um nômade. Nos últimos 15 anos , o executivo  que nasceu na Alemanha , trabalhou em dez cidades de cinco continentes . A experiência ensinou Schimitid  a se adaptar a diferentes ambientes . Agora , ele está  aprendendo a conhecer o Brasil. Desde fevereiro , quando se tornou vice-presidente  do Groupon na América Latina , Scmidt mora em São Paulo .  Ter vivido em tantos lugares me ensinou o quanto as culturas podem ser distintas  e como é importante ser flexível, afirma Schimidt. Não adianta levar o jeito alemão ou americano para um país  e esperar que as pessoas se ajustem a ele.

 

Entender melhor  como pensam os consumidores latino- americanos é parte de sua recente atribuição. O novo chefe tem como missão manter o Groupon á frente de seu maior rival na região, o peixe urbano. O objetivo tornou-se ainda mais importante depois que a febre das compras coletivas começou a diminuir.

No ano passado houve uma multiplicação de serviços , mas o  frenesi , passou.

Sem a febre ficamos mais saudáveis diz Schimitid . O mercado tem apenas dois anos . Estamos no começo.

 

O groupon registrou prejuízo na sua operação mundial. No ultimo trimestre de 2011º déficit chegou a 65 milhões de dólares. A empresa realizou mudanças internas  que amenizara os números . Queremos agora nos tornar mais relevantes , afirma Schimitid .

 

 

 

o anti-herói argentino

Longe do dinheiro que sobra no Vale do Silício, Lucas Velez luta pela sua própria história de sucesso na web com o site Compare em casa . Quase todas as histórias de empreendedores de sucesso da internet trazem um roteiro em comum. O protagonista é um moleque tímido, o cenário é uma universidade top dos Estados Unidos e a fortuna vem de investidores do Vale do Silício. A vida de Lucas Velez, 34 anos, foge desse clichê. Nascido em Córdoba, na Argentina, ele se mudou para a Inglaterra para cursar um MBA na London University com a ajuda de uma bolsa de estudos .

Enquanto trabalhava e estudava em Londres, Velez teve a ideia de levar para a América Latina o modelo do Moneysupermarket.com,site que compara preços de passagens aéreas, seguros e banda larga. Mas como criar uma página que cobra comissões de empresas sem ter tempo, dinheiro ou um nome conhecido? “Muitos dos contratos eu negociei pelo celular, escondido no banheiro do ‘ escritório”, diz ele.Para criar sua empresa, que também compara preços de passagens, seguros e banda larga, fazia uma segunda jornada de trabalho em casa .

O esforço foi premiado neste ano, com o investimento de 1milhão de .dólares de um grupo de investidores ingleses.

O Compar e emcasa acaba de ganhar uma versão em português e deve chegar ao México até o final do ano. A luta de Velez acabou? Não. O site procura novos investimentos para montar um escritório no Brasil e continuar a crescer.

 

Um algoritmo vale mais que o charme?

Uma nova safra de sites de namoro usa a tecnologia para iuntar as pessoas à moda antiga. Vale”até um PowerPoint sobre a sua vidas redes sociais ampliaramnão só osgrupos de amigos,mas também o númerode pessoas comas quais pode-se terum relacionamento amoroso. Mas oproblema é que as redes sociais aumentarama quantidade, não a qualidadedos candidatos. O novo desafioamoroso é exatamente esse: filtrar aspessoas que interessam. Daí entramserviços como o eque ajudam a selecionarparceiros(as) dentro ou fora da sua redecom a ajuda de algoritmos que analisama compatibilidade entre duas pessoas.Agora as mais novas tendências desites de namoro excluem os algoritmosem favor de outros dados. Ou melhor,outras maneiras de selecionar candidatos.A geolocalização é uma delas.Aplicativos como Glancee ( ),e Blendr ( )foramcriados para ajudar a conhecer pessoasque estejam a alguns metros de você.Eles funcionam da mesma maneira:juntam dados de geolocalização comAPls do Twitter ou do Facebook parasaber se quem está por perto tem algumconhecido em comum. Tudo isso só

para começar um papo. Deixando  a geolocalização de lado, mas ainda

contando com a ajuda dos APls, existem os serviços . Mas há; ainda exemplos

que excluem GPS ou grupo de amigos, como o How About We’«::::~ _ e o Me So Far (. O How About We acredita que um interesse em comum, é suficiente

para juntar um casal. Funciona assim: você verifica várias sugestões de

programas e aceita uma proposta. O resto fica por conta da química do primeiro encontro. O Me SoFar leva o pragmatismo do namoro aos extremos.

O serviço propõe um encontro cara a cara numa forma de speed dating em

grupo. Ou seja, em vez de falar cinco minutos com cada candidato, o interessado em achar seu par faz uma apresentação (isso mesmo, em PowerPoint ou Keynote). Quem gostar, gostou. É tipo uma versão amorosa de uma competição para ganhar investidores. Nesses tempos em que fazemos

tudo online, esses são dois exemplos extremos de sites de namoro onde os algoritmos estão sendo substituídos por encontros parecidos com os de velhos

tempos. Mais uma evidência dessa onda retrô vem do aplicativo PairoVamos dizer que você conheceu alguém e começou a namorar. Você muda o status no Facebook e faz alguns tuítes. Mas, na hora de falar uma coisa mais privada,

em vez de mensagens, muitas pessoas estão usando o Pair, que mistura funções de redes sociais com a privacidade das mensagens. O aplicativo que ganhou um investimento de 4,2 milhões de dólares, é um tipo fresco de SMS: duas pessoas podem compartilhar rabiscos, descobrir onde o outro está e até dividir um calendário de atividades. O interessante é que aplicativos como o Pair dão grande importância à privacidade num mundo onde  interações sociais são cada vez mais públicas. Combinando a volta da privacidade a novas tendências de sites de namoro podemos concluir que, apesar de tanta tecnologia, relacionamentos estão voltando às antigas. Com encontros cara a cara e muita privacidade. E se der tudo errado, existem vários sites de divórcio. Se você quer manter o lado tradicional da separação, mas sem a lentidadão da justiça, hospede-se.Só se entra nesse site para se divorciar, ficando-se em.quartos separados. Tudo se resolve em menos de um fim de semana. E com muito estilo. Alessandra Lariu, 39 anos, é publicitária e cofundadora do site SheSays, que ajuda mulheres a entrar na carreira de criação digital.

 

 

A guerra das plataformas

Apple, Google, Facebook e vários outros travam batalhas épicas por nosso bolso e nossas empresas, Isso é bom?

 

L:embro quando tinha uns oito anos e ganhei meu primeiro videogame,

um Atari 2600. Os amigos se reuniam para jogar Missile Command e Berzerk. Depois outros amigos começaram a comprar seus consoles e o legal era trocar jogos. Foi a primeira vez que deparei com a questão da compatibilidade.

Alguns compraram outros consoles, como Odyssey e Intellivision, e, para nossa tristeza, os cartuchos não eram compatíveis. Eu não sabia, mas

estava bem no meio de uma das primeiras guerras de plataformas digitais,

Várias dessas guerras foram travadas nos anos 1970 e 1980. VHS versus

Betamax, Apple II versus TRS-80, PC versus Macintosh, TK90X versus MSX,

Nintendo NES versus Sega Master System, Game Boy versus Game Gear,

Microsoft Office versus Lotus 1-2-3e WordPerfect. Todas as batalhas acontecem pela dominância do mercado e são bastante violentas, mas o que as torna interessantes são as dinâmicas envolvidas. Em geral, uma plataforma atende a dois tipos de públicos distintos: os consumidores, no lado da demanda, e os produtores, no lado da oferta. A primeira dinâmica interessante é a de lock-in, ou seja, uma vez que optou por uma plataforma os usuários tendem a ficar presos a ela. Se você comprou um console e depois investiu em

games só poderá trocar jogos com quem utiliza a mesma plataforma e pensará

duas vezes antes de mudar, Outra dinâmica é a dos efeitos de rede, ou externalidades, como preferem os economistas, Se seus amigos optaram por uma plataforma, a cada novo amigo que adere a ela mais atraente (evaliosa) ela se torna para você. Todos os usuários já existentes ganham com a chegada de um novo. Essa dinâmica é importante, pois é autorreforçante, deixando a rede cada vez mais representativa. Quando uma plataforma goza de efeitos fortes de rede, tende a crescer de maneira acelerada e deixar seus competidores para trás. Hoje, com a internet e a interconexão quase que contínua dos participantes das novas plataformas digitais, esses efeitos se tornam mais significativos e as batalhas são travadas por recompensas cada vez maiores. Volta e meia somos afetados por essas guerras. Se você é usuário de iPhone e organizou sua vida ao redor dos serviços da Apple, como o iCloud, ao escolher um tablet não terá muitas opções senão a de comprar um IPad. Éo lockin em suas formas mais básicas, a da compatibilidade e dos custos de troca. Mas a briga também acontece no lado dos desenvolvedores de aplicações ou dos produtores de conteúdo. Como as plataformas não são compatíveis entre si e é cada vez mais caro desenvolver aplicações para todas,

é necessário escolher qual delas atacar. E a escolha é por aquela com mais

usuários ou mais atividade. O fato de os aplicativos ficarem disponíveis apenas para a plataforma escolhida a torna ainda mais atraente para novos usuários. De novo temos uma dinâmica autorreforçante, Ou seja, quando uma plataforma atinge esse status, ela fica cada vez mais importante e cresce, É no meio dessas batalhas que nos vemos hoje: iOS versus Android, Xbox versus PlayStation, Google+ versus  Facebook. O campo de batalha está cada vez mais complexo e nós, usuários, somos peões nesse jogo, Algumas vezes beneficiados pela guerra, que traz produtos cada vez melhores e mais baratos, mas quase sempre presos na estratégia desses gigantes gladiadores.

E você? De que lado está?

 

 

A lâmpada de Aladim?

Ouando aplicativos são acionados, nosso celular transforma-se no que deseíamos, O próximo passo é implantá-Ios no corpo

 

Se você terminou  um casamento e está  com medo de ter uma recaída, esse

aplicativo vai salvar a sua vida.” O tal app funciona assim: 1.você registra o

número da sua ex (ele não fala em ex-homem, só mulher); 2. coloca cinco amigos numa lista; 3. se você tentar ligar para sua ex, os cinco amigos são avisados e têm dois minutos para ligar para você; 4, se você não atender a ligação dos amigos e ligar para a ex de qualquer jeito, será denunciado por seu crime no Facebook. É o aplicativo mais estúpido jamais criado. Mas serve de exemplo claro da era em que vivemos, Apps são a melhor coisa que aconteceu à nossa funcionalidade de cidadãos do século 21.Os computadores estão virando monitores da internet. Aplicativos em celular conseguem outro efeito. Eles pegam esses aparelhinhos que antes serviam simplesmente como um telefone portátil e os transformam em gadgets completamente independentes uns dos outros. Num momento você usa aquele aparelhinho retangular no seu bolso para conversar com sua mãe. No momento seguinte aquele mesmo aparelhinho virou um relógio de precisão

Enciclopédia Britânica. Um guia global de tráfego aéreo. Um gravador digital

de alta performance, Uma locadora de vídeo. Um planetário. Um scanner.

Um terminal de banco. Uma lanterna. É o mais próximo que chegamos da lâmpada de Aladim. Quando um aplicativo é acionado, o celular se transmuta no que desejamos. E eles são gratuitos, Ou ridiculamente baratos. Por exemplo: apps são cada vez mais úteis na medicina. Calculam pulsação, taxa de glicemia, avisam a hora de tomar o remédio, registram a localização de uma ponte de safena, indicam os prontos-socorros e hospitais mais próximos, medem nossas performances em corridas e caminhadas, mandam relatórios de nossas condições diretamente para centros médicos, Aplicativos possibilitam um acesso rápido ao que está sendo chamado de realidade aumentada, O ritmo do nosso coração ou a localização da estrela Polaris são dados da vida que a gente não conseguia acessar com facilidade com nossos sentidos naturais, Agora adquirimos essas capacidades por 99 centavos de dólar, E vai chegar o momento em que o celular em si vai ser apenas mais um aplicativo. Esses microfones e óculos (como o que a Google apresentou recentemente). Veremos o que nossos olhos normalmente não veem, ouviremos o que nossos ouvidos não costumam ouvir, saberemos além dos limites de nossos sentidos.

É apenas uma questão de tempo para que aplicativos sejam implantados em nossos corpos, e funcionem tão naturalmente quanto rins e glândulas,

Seremos então ciborgues. O termo (segundo a Wikipédia) foi criado em 1960 pela contração dos vocábulos da expressão “cybernetic organism”, mistura de elementos naturais com artificiais. Ainda outro dia uma mulher com paraplegia total conseguiu tomar água sozinha pela primeira vez, movimentando um braço mecânico com a força do pensamento. Seremos menos humanos como ciborgues? Não acredito nessa conclusão fácil e cômoda, Algumas das pessoas mais mesquinhas e egoístas que conheci na vida tinham horror à tecnologia. Gadgets não diminuem a humanidade de ninguém.

 

Pronto para uma revolução?

Estamos no centro de uma transformação conduzida pela tecnologia que ainda vai surpreender e gerar oportunidades estive recentementeem Palos Verdes, naCalifórnia, para a décimaedição do que éconsiderado o maior evento de tecnologia no mundo: o D: All Things Digitalou DlO. Organizado a cada ano pelo The Wall Street Journal, o evento reforçaesse reconhecimento com uma programaçãoconsistente, que reúne os líderesdas principais empresas de tecnologia,além de ser palco para ávant-prernierede produtos da indústria digital.Neste ano não foi diferente. ODIO começoucom a aguardada conferência deTim Cook, em sua primeira exposiçãoem evento não organizado pela Apple,após assumir a empresa fundada porSteveJobs. ODIO reuniu ainda nomescomo Tony Bates, CEO da Skype; LarryEllison, fundador e CEO da Oracle,Reid Hoffman, chairman do Linkedln;Iohn Partridge, presidente da Visa;Edwin Catmull, diretor da Walt Disneye Pixar, e Daniel Ek, CEO da Spotify,Depois de três dias, uma convicção:vivenciamos, neste momento, a maiortransformação dos últimos tempos. Uma verdadeira revolução que temum protagonista em especial, a tecnologia.Os participantes reforçarama mudança radical pela qual passamos desde a primeira edição do AllThings Digital, lá em 2002, quandonão existia quase nada do que hoje

enxergamos como tecnologia “fundamental” para o dia a dia: smartphones,

telas touch, GPS e até o Facebook.

ÁREAS NÃO EXPLORADAS

 

Olhando para tudo isso fica óbvio como a tecnologia mudou todos os aspectos

da nossa vida nesta última década. Uma das analistas mais respeitadas do

mundo digital, Mary Meeker, da consultoria KPCB, revelou uma série de

dados no DlO que comprovam como as mudanças estão em ritmo ainda mais

acelerado. Você pode perceber isso por meio de alguns números divulgados por Mary em sua apresentação. »0 avanço do mobile: 10% do tráfego da internet vem do celular e 8% do e-commerce acontece por meio dos telefones móveis. Mais de 50% do acesso ao Facebook também já é feito por celular. » Os tablets. nos últimôs três anos, o número de americanos que utilizam tablets passou de 2% para 29%; o crescimento do iPad é três vezes mais rápido do que foi o do iPhone. 3G no Brasil: o país cresceu 1OO% em penetração na tecnologia 3G no ano passado, com mais de 40 milhões de pessoas conectadas. São dados que representam essa grande e importante transformação. A consultora Mary apresentou também o que define como “white space”. São áreas ainda não exploradas e que trazem grandes oportunidades para os mercados de tecnologia e comunicação. As três principais são: a evolução do touchscreen e de tecnologias que permitem

a você interagir com a fala e o corpo; as TVs conectadas e o second screen,

que mudarão a forma como consumimos TV;e,por último, o tempo que passamos em trânsito dentro de um carro. De acordo com Mary, os americanos

gastam, em média, 52 minutos por dia dentro de seus automóveis, 76% deles, sozinhos. Em São Paulo, esse tempo é maior: 2 horas e 45 minutos. É a realidade dos principais centros urbanos pelo mundo e representa uma oportunidade em potencial para marcas e produtos digitais. Por todo esse cenário apresentado durante o evento DlO, podemos assegurar que a revolução já começou e é bom estarmos preparados para o que ainda vai vir. Você já está?  Marcelo Tripoli é CEO da agência iThink. Formado em publicidade pela FAAP, construiu sua carreira explorando as potencialidades

das mídias digitais (@marcelotripoli).

 

 

 Imprima nesta engenhoca ao lado sua idéia

 

Um campeonato inusitado vai acontecer em breve.

 

O crânio de dinossauro e depois fundiu a peça. Altero planeja estudante Henrique Rossi Altero e o escultor Kiko Azevedo construir a maquete de uma estação de tratamento de água. estão organizando uma corrida de carrinhos, impulsionados por balões de ar. Coisa de criança? Mais ou menos. Só vão competir veículos de plástico impressos por seus donos. Altero, um estudante de engenharia ambiental de 24 anos, e o artista plástico Azevedo, de 57,são donos de impressoras 3D. Eles têm como hobby fazer experimentos variados com as máquinas. Recentemente, Azevedo fabricou um crânio de dinossauro.

Histórias semelhantes tendem a se repetir, Antes restritas a empresas e universidades, as impressoras 3D começam a se popularizar. O preço dessas máquinas despencou, nos últimos dois anos, no mundo e no Brasil. Muitas startups têm produzido versões de custo mais baixo e já é possível encontrar modelos por cerca de 4 mil reais. Quem tem habilidade manual pode até se arriscar a montar uma.

 Por menos de 2 mil reais, é possível fa- impressoras 3D tinham a tecnologia controlar isso”,afirma. Pelo meno fazer uma impressora em casa e usá-la para fabricar outras para seus amigos

- ou para revender. Tanto quem adquire uma pronta como quem se ideal para isso”, diz Bowyer. O primeiro modelo é de 2008 e, com o tempo, vieram outros, com adaptações sugeridas por colaboradores de diferentes países. startups começaram a fabricar aventura a produzi-la pode fazer pro- O pesquisador inspirou-se no movitótipos em poucas horas, sem sair de” mento do software livre e criou uma existia demanda no país. Resolveu, e a casa. Na prática, cada pessoa passa a impressora open source, ou seja, que ser dona de uma fábrica de inovação. pode ser alterada livremente. Todas as e fundou a Cliever  As impressoras 3D foram inven . tadas há mais de 25 anos, mas só recentemente se tornaram acessíveis. Segundo o professor Adrian Bowyer, da Universidade de Bath, no Reino Unido, o fim das patentes permitiu essa mudança. “As patentes estão expirando. Até pouco tempo, seus donos detinham o monopólio da tecnologia. Essas empresas quase não investiram em desenvolvimento e preferiram vender poucas máquinas, a preços altíssimos”, afirmou Bowyer a INFO. Mas a reviravolta só se tornou possível por conta da RepRap, uma invenção de Bowyer. O modelo é uma impressora 3D de baixo custo, capaz de reproduzir todas as suas peças plásticas. Quase todas as iniciativas de startups têm inspiração na RepRap, cujo projeto começou em 2005. “Sempre me interessei pela ideia de máquinas que se autorreplicam e percebi que as

 uma inovação surgida, por exemplo, no Japão, possa ser aproveitada por todos.

CÓPIAS PERMITIDAS

 

A versão mais popular da RepRap, a Prusa Mendel, é resultado de uma

série de modificações feitas em 2010 por Josef Prusa, um estudante checo que tinha 20 anos na época. Por causa das melhorias incorporadas, ela foi carinhosamente apelidada de Ford T, referência ao veículo que popularizou os automóveis. Assim como o carro, a máquina tornou-se muito mais fácil de fabricar, consertar e aprimorar. Ainda assim, Bowyer se esforça para criar

configurações cada vez mais simples. Ele não se importa que as RepRaps sejam copiadas, adaptadas e revendidas. “Fico contente. Meu interesse maior é ver como elas se espalham. Não quero controlar isso!

Pelo menos duas startups controlar isso”,afirma. Pelo menos duas startups começaram a fabricar opções mais baratas de impressoras 3D no Brasil. No ano passado, o estudante de engenharia de controle de automação Rodrigo Krug, 25anos, descobriu que existia demanda no país. Resolveu, então, produzir um modelo de baixo custo e fundou a Cliever ).A pequena empresa, que por enquanto tem três funcionários, fica hospedada na incubadora Raiar, ligada ao Parque Científico e Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre.

O primeiro modelo fabricado, a Cliever CL-Ol, tem como base a tecnologia da RepRap. Sua chegada ao mercado estava prevista para o início do mês “Vamos oferecer um produto pronto, para pessoas que não querem ou não têm tempo de montar uma impressora”, diz Krug. “Desenvolvemos a parte eletrônica e toda a estrutura mecânica. Nada foi copiado, mas inspirado em equipamentos que existem no mercado.” Vai custar 4500 reais, virá com um quilo de matéria I de impressão e terá como público alvo empresas que precisam produzir protótipos rapidamente. Segundo Krug, o principal obstáculo para baratear ainda mais o produto é a carga tributária.

Uma outra startup, a Metamáquina ( metamamaquina..com.br) de São Paulo, surgiu da iniciativa de três jovens, os estudantes Rodrigo Rodrigues da Silva, 25 anos, Felipe Sanches, 28, e Filipe Moura, 29. Eles resolveram fabricar e vender impressoras 3Dinspirados pelas visitas a hackerspaces, oficinas colaborativas cada vez mais comuns nos Estados Unidos e na Europa, em que inventores se reúnem para criar que imaginarem. “Durante muito tempo trabalhamos como ativistas do software livre. Queríamos uma forma de ganhar dinheiro que não conflitasse com nossos valores éticos”, diz Sanches.

 

INOVAÇÃO PARA TODOS

O trio decidiu fabricar um modelo com tecnologia aberta, por isso a escolha natural foi a RepRap Prusa Mendel. Primeiro, adquiriram uma Thing-OMatic, impressora 3D fabricada pela startup americana MakerBot. Com ela, imprimiram as peças e montaram o protótipo da versão da RepRap que pretendem comercializar, batizada de Metamáquina 3D. Faltava, no entanto,

dinheiro para começar a produção. Para concretizar a ideia, em fevereiro os três colocaram o projeto no site de crowdfunding Catarse, com oobjetivode arrecadar recursos. Conseguiram 30 mil reais para começar. Alguns dos colaboradores contribuíram para receber, como recompensa, kits de peças ou aparelhos montados.

O trabalho da startup é quase artesanal. Na linha de produção há apenas uma Metamáquina 3D e a Thing-OMatic. “Conseguimos fabricar sem ter uma estrutura industrial”, afirma Rodrigo Silva. O grupo, contudo, pretende ampliar o número de impressoras funcioando paralelamente, com o objetivo de acelerar o ritmo e reduzir os preços. Um modelo testado e calibrado da Metamáquina 3D custa 3 700 reais.

Também é possível adquirir todas as peças necessárias para a montagem por 2900 reais. Existem ainda kits mais baratos, sem a parte eletrônica. Até o fim de junho, o trio tinha vendido sete máquinas e 16conjuntos de peças. Entre os interessados estão entusiastas, ativistas digitais, arquitetos, estúdios de design, empresas de software e universidades.

 

EMPREENDEDOR ACIDENTAL

Quem tem uma impressora 3D dificilmente a deixa encostada num canto. A conseqüência é que, de uma hora para outra, pode-se virar um microempresário. Foi o que aconteceu com o estudante Henrique Rossi Altero, o Muringa, um dos idealizadores da corrida de carrinhos impressos por seus

donos. “Acho muito interessante a ideia de pegar um objeto criado no computador e trazê-lo à realidade”, diz Muringa.

Bastou que construísse uma.impressora para que se tornasse produtor e revendedor das partes plásticas das máquinas. Sua história mostra que ninguém precisa ser um técnico experiente para se aventurar nesse novo mundo. Os principais requisitos são a curiosidade para montar e desmontar

coisas. uma boa dose de paciência e relativa desenvoltura com ferramentas. Movido pela vontade de ter um novo hobby, Muringa começou a montar sua impressora 3D em julho de 2011. Apesar de não ter conhecimentos avançados de mecânica. o estudante não se intimidou. Buscou dados e tutoriais na web, trocou e-mails com aficionados e importou algumas peças. O modelo feito por ele também é uma RepRap Prusa Mendel. O estudante levou quatro meses e gastou cerca de 2 mil reais. “Hoje. acho que levaria só um mês”. diz.

A impressora de Muringa já produziu 30 kits completos de peças de si mesma e prepara-se para fazer mais dez. Se tudo correr como planejado. Terá se replicado em 40 novas impressoras. que também tendem a se multiplicar. A comunidade de colaboradores da RepRap estimula quem construiu um equipamento a ajudar a fazer outros. O estudante segue a recomendação. mas a demanda tem sido tanta que ele teve de

parar de aceitar pedidos até receber mais matéria-prima edar conta da fila.O sucesso levou-o a transformar seu blog em loja online ).Com as encomendas que recebeu. já conseguiu recuperar todo o dinheiro gasto para fabricar a primeira máquina.

O processo de funcionamento d euma impressora 3D é relativamente simples. Primeiro. usa-se um software de modelagem tridimensional para desenhar o que será impresso. Boa parte dos programas trabalha com arquivos no formato STL. comuns em projetos 3D. O computador envia, então, as instruções para a impressora. que aquece a matéria-prima a uma temperatura de até 230 graus e a deposita. em camadas. sobre uma superfície plana. dando origem à forma desejada.

O processo todo leva algumas horas. Pode parecer uma eternidade, mas nunca foi tão rápido criar um protótipo. Também dá para imprimir objetos prontos, como armações de óculos. Esculturas ou peças de reposição – um puxador que brado. por exemplo -. disponíveis em sites como oThingiverse( thingiverse.com). Existem. contudo. limitações. As impressoras 3Dmais populares trabalham com dois tipos de termoplástico, por isso só dá para criar objetos que possam ser confeccionados com esses produtos. As matérias-primas mais usadas são o ABS. derivado do petróleo (écom eleque são feitas as peças de Lego.por exemplo). e o PLA, que é biodegradável e pode ser produzido a partir de fontes renováveis, como milho e batata. Ambos têm de vir em fioscom espessura de 2.9milímetros. com variação máxima de 0,1 milímetro, para não enroscar e interromper a impressão, fazendo o trabalho se perder. Se encomendado nos Estados Unidos. um quilo de material custa 280 reais. A boa notícia é que tanto o ABS como o PLA estão começando a ser vendidos no Brasil. A empresa Movtech Technologia )iniciou a produção de ABS. e um quilo custa 100 reais. A Cliever promete vender ABS e PLA importados. pelo mesmo preço.

Graças à RepRap e a iniciativas de empreendedores pioneiros. o preço das impressoras também despencou. Hoje é possível construir uma impressora 3D em casa por 1700 reais. A estimativa inclui impostos e frete dos componentes importados. Nos Estados Unidos. já existem modelos por 500 dólares.

 

CU/DADO CDM A MÃO

As impressoras ainda são equipamentos perigosos. Para operá-las. é preciso cuidado. pois não há proteção para evitar contato com o bico extrusor, o equivalente ao cabeçote das impressoras jato de tinta. A peça aquece o filamento plástico a altas temperaturas. derretendo- o para formar os objetos. Encostar em algum componente durante o funcionamento pode provocar ferimentos graves. Por isso. algumas empresas decidiram fabricar modelos que qualquer pessoa possa usar com segurança – e que também sejam simples de operar.

Um deles. o Cube, foi anunciado nos Estados Unidos em maio. “Foi desenvolvido para ser amigável, intuitivo e acessível”, disse a INFO Rajeev Kulkarni, vice-presidente de negócios para o consumidor da 3D Systems. A empresa foi a primeira a fabricar e vender uma impressora 3D. nos anos 1980. e resolveu competir comorrio, delos mais baratos disponíveis hoje no mercado. A Cube parece um brinquedo. Conecta-se ao computador por Wi-Fi, dispensando cabos. e usa cartuchos de encaixe fácil, com dez cores diferentes. “Nosso alvo é a família. Achamos que as pessoas podem se )untar para criar e se expressar em 3D”, diz Kulkarni. O software adotado é bem mais intuitivo que os de modelagem tridimensiona compatíveis com outros equipamentos. Mas os arquivos dos modelos 3D usam um formato proprietário, o que dificulta muito o aproveitamento do enorme acervo deobjetos na web.A impressora é vendida por 1299 dólares e,por enquanto, a empresa pretende fazer entregas só para Estados Unidos, Canadá e Europa.

 

FAÇA VOCÊ MESMO

A maior desvantagem de adquirir um modelo como o Cube são as limitações para modificá-lo. Criar projetos ousados também fica mais difícil. Aqueles que se aventuram a montar uma RepRap em casa costumam aprimorar algumas peças ou criar versões alternativas da máquina. Há até quem vá além e se arrisque a criar uma impressora 3Ddo zero. Com a ajuda de outros aficionados, Alain Mouette inventou a Mesa X-Y-Z. “Essas atividades são uma maneira de manter a minha sanidade mental”, diz, brincando, o empresário e engenheiro eletrônico de 57 anos, que mora em São Paulo. Ele não pretende vender a máquina, e sim estudar as tecnologias envolvidas.

O ponto de encontro virtual de Mouette, Muringa e outros que têm esse mesmo hobby é a lista de discussão RepRapBRG’ 1 T 7 7F).Lá,iniciantes conseguem ajuda e dicas para montar sua primeira máquina, enquanto os mais experientes debatem sobre suas invenções e dificuldades. Ofórum funciona como um grupo de estudos e recebe mais de mil mensagens por mês. “Insisto muito para que os participantes criem blogs e publiquem fotos. Isso ajuda a aumentar as informações”, diz Mouette, criador de um bico extrusor feito só com peças disponíveis no país.

‘Foi como auxilio dos integrantes do fórum que Leonardo Tuorto, 16 anos, montou sua impressora ‘2>D. “ficou pronta em fevereiro. Agora estou terminando a calibragem, que é um processo bem difícil”, diz. As informações trocadas na RepRapBR também ajudaram o empresário Paulo Fernandes, 42 anos, a fazer sua RepRap. “Levei 45 dias, do momento em que li sobre o projeto até a primeira peça, uma moedinha com cara de pirata”, diz. “O futuro é a popularização da impressora 3D doméstica. O Lego vai perder espaço.”

 

QUEBRA-CABEÇA DIFíCIL

Há também quem passe por apuros para montar e operar sua 3D. Evandro Stein, de Belém (PA),comprou uma impressora SeeMeCNC H1 nos Estados Unidos. O modelo veio desmontado. “Não é como uma máquina que você compra pronta e já começa a imprimir. Tem gente que leva meses e não consegue terminá-la”, afirma. Algumas das dificuldades são comuns. Depois de pronta, é preciso calibrar a máquina. A impressão de cada objeto também depende de vários parâmetros definidos pelo usuário, como a altura de cada fatia de plástico, a temperatura e a velocidade.

A tendência, no entanto, é que tudo isso se torne tão fácil quanto imprimir um texto em uma folha de papel. O professor Adrian Bowyer acredita que as impressoras 3D poderão se tornar eletrônicos comuns nas casas em cinco anos. Para ele, o impacto dessa nova realidade na sociedade será imenso. Quando as impressoras 3D se multiplicarem, qualquer ide ia se transformar á em um objeto. Será o começo de uma nova Revolução Industrial’?

 

A ECONOMIA DOS APPS

 

A ascensão de instagram e evernote ao patamar que US$ 1 bilhão  marca uma transformação que vai mudar para sempre a indústria do software. Bem –vindo à era dos aplicativos?

 

E os intelectuais garantiram que a revolução começara a declinar. O professor acreditou, mas continuou viajando pelo país. Com assombro, verificou que a revolução parecia entrar em nova fase de desenvolvimento.” Este trecho em que o escritor americano John Reed descreve a percepção de um pesquisador sobre o andamento da Revolução Russa, no livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, está incrivelmente alinhado com os fenômenos que sacudiram o Vale do Silício entre os dias 9 e 18 de abril deste ano, apesar dos quase 100 anos e dos 9 mil quilômetros que separam a Califórnia dos geeks da São Petersburgo czarista.

Correram exatos dez dias entre o anúncio da venda do Instagram ao Facebook, por 1bilhão de dólares, e a divulgação, pela publicação americana Business Insider, de que outra startup, a Evernote, fechara a venda de 10% de seu capital por 100 milhões de dólares, alcançando o mesmo valor de mercado do Instagram, o aplicativo de fotos criado pelo brasileiro Mike Krieger e

seu colega americano Kevin Systrom. Um mês antes, analistas previam o esfriamento da economia dos aplicativos, impactada pela recessão americana e o menor fluxo de recursos para os fundos que suportam os fabricantes de apps.

Mas os analistas de Wall Street estavam errados, e coube a um russo

demonstrar isso. Phil Libin, um empreendedor de 39 anos que emigrou com a família, em 1979,da então União Soviética, foi quem assinou a cessão de parte do capital de sua Evernote ao fundo Meritech, inaugurando o segundo aplicativo de 1bilhão de dólares da história. Libin descende de uma aristocrática família russa que fugiu do comunismo para fazer a América. “Sou a primeira pessoa em várias gerações dos Libin a não ter um diploma, não tocar nenhum instrumento nem ser campeão de xadrez”, disse Libin a INFO. O fundador e hoje CEO da Evernote abandonou a Universidade

de Boston, nos Estados Unidos, para se dedicar ao desenvolvimento do aplicativo, que permite fazer anotações por texto, voz ou imagem e sincronizálas na nuvem. “Queremos ser o cérebro virtual das pessoas”, diz Libin.

 

UMA NOVA INDÚSTRIA

“A ascensão dos aplicativos está suprimindo a navegação peie~ padrões TCP/ IP que entendemos por web”, afirma Rakhi Gera, pesquisadora da Media Agility, consultoria responsável pelo maior estudo já feito sobre a economia dos aplicativos. “Você lê seu e-mail no iPad, checa o feed do Facebook no celular, acessa notícias no app da CNN, faz uma chamada por Skype e, trânsito, ouve seu podcast preferido”, diz Rakhi. “Ao final do dia, joga um

game na rede Xbox ou assiste um filme no Netflix. Tudo isso usando exclusivamente aplicativos, o que permite a cada usuário criar sua própria internet sem acessar qualquer site o dia todo.”

A descrição de Rakhi é curiosa e impactante. Mas será que a indústria de apps conseguirá reduzir drasticamente o uso da web nos próximos anos? De acordo com a consultoria TechNet, só nos Estados Unidos existem 460 mil desenvolvedores suportando essa nova indústria. Esse exército que mergulha em tutoriais de Java e Objective C, as em que o usuário baixa o software de graça e, se quiser, paga por recursos premium, como mais cores para desenhar. Há ainda uma quarta forma, a monetização pela venda dos chamados virtual goods, em que o usuário usa dinheiro de verdade para comprar bens virtuais, como um trator que ara as terras pixelizadas do FarmVille. Outro recurso possível é a venda de assinaturas, como faz o software de música Shazam, que cobra 5dólares ao ano de seus usuários para descobrir o nome de músicas captadas pelo gravador do smartphone.

O veterano Foursquare, lançado em março de 2009, estreou o modelo

offer and survey. Funciona assim: quem faz checkín em um bar ou restaurante

nos Estados Unidos pode receber uma notificação de que acaba de ganhar um desconto de 5 dólares numa cerveja, desde que pague a conta com o cartão American Express, parceiro do Foursquare. “A operadora do cartão repassa parte da receita que obtém em função do nosso app”, disse a INFO Holger Luedorf, vicepresidente de negócios do Foursquare.

 

BRASIL NA LANTERNA

O americano Paul Madera, criador do fundo Meritech, o mesmo que investiu no Evernote e que em 2{)06 apostou no Facebook, alerta para o fato de poucos aplicativos merecerem as cifras que estão captando hoje no mercado financeiro. “Claramente existem muitos apps que estão sobrevalorizados. São pouquíssimas as startups que valerão mais que 500 milhões de dólares nos próximos anos”, afirma Madera. Com exceção de Mike Krieger e de talvez seis ou sete desenvolvedores espalhados pelo mundo, os brasileiros ainda estão à margem dessa revolução. O baiano Leonardo Copello, fundador da fábrica de apps uTouchLabs, com sede em Salvador, diz que o mercado nacional está mais focado em criar aplicativos sob encomenda que desenvolver serviços inovadores. “Quando olhamos a participação de startups de diferentes países na economia dos apps, o Brasil só pode ser percebido com o uso de uma luneta”, diz Copello. Au Touchl.abs, em 2010, colocou na App Store o Ask The Octopus, um aplicativo em que o usuário digita uma pergunta qualquer, como “devo ir jantar num restaurante japonês ou italiano’?”, e um molusco virtual escolhe aleatoriamente uma das opções. O app foi lançado no auge do buzz causado pelas previsões do polvo alemão Paul, celebridade da Copa do Mundo dê Futebol da África do Sul. “Cobrávamos um dólar por download e o app foi baixado 120 mil vezes em todo o mundo. O timing do lançamento foi fundamental para o sucesso”, diz Copello, que criou versões para iOS e Android.

HTML5 NA ESPREITA

Leonardo Copello não precisaria desenvolver várias versões de seu app se o Octopus funcionasse com recursos de HTML5,javascript e CSS 3, tríade que ameaça o futuro dessa revolução. Atualmente, os aplicativos são criados

e desenhados nas linguagens e padrões que cada plataforma define. Um game é feito em Objective Cpara rodar em iOS. Depois passa por um ciclo de programação em Java para funcionar em smartphones com Android e assim por diante. Todo esse esforço consome uma commodity cara e escassa. Horas de trabalho de desenvolvedores.

“O avanço do HTML5 poderá mudar esse cenário e acabar com os apps como conhecemos”, diz Rakhi, da Media Agility. O HTML5 permitirá a criação de webapps (aplicativos que rodam no browser móvel). Mas como acontece em todo processo que desencadeia revoluções, é fácil apontar o modelo a ser superado. O difícil é prever-os desdobramentos do novo. Enquanto isso não acontece, os apps se alastram como pólvora. Vire a página e veja uma seleção de 100 aplicativos que você não se arrependerá de baixar. Nossa equipe testou todos, para recomendar os que realmente funcionam. Bom proveito!

 

É ASSIM QUE A BANDA TOCA

Sem gravadoras, artistas produzem e distribuem sua obra. Nas redes, conquistam muitos fãs e driblam as polêmicas da pirataria. É como a indústria da música funciona hoje.

 

SUA MÃE PODE NÃO GOSTAR, você pode até não conhecê-los, mas o coletivo de hip hop Odd Future WolfGang Kill Them All, também conhecido pela sigla OFWGKTA ou apenas Odd Future, é a banda mais importante do mundo no momento. A revista americana Billboard decretou que eles são o futuro da música. Os rappers P. Diddy e Lay-Z entraram em guerra para tentar contratados, mas perderam. E quando eles fazem rap e falam de cortar a garganta do cantor (e desafeto) Bruno Mars, os jovens do mundo ocidental ouvem. E normalmente eles fazem isso dentro de um ônibus; num volume muito alto.

Apesar do sucesso, dificilmente alguém compra os discos do Odd Future. Olíder da banda, Tyler The Creator, tem quase 1milhão de seguidores no Twitter e seu vídeo Yonkers atingiu mais de 40 milhões de visualizações no YouTube. Mas o primeiro lançamento do Odd Future não entrou na lista dos mais ouvidos do Reino Unido ou dos Estados Unidos. Por mais que o disco solo de Tyler, chamado Goblin, tenha sido muito elogiado, vendeu apenas 45 mil cópias na primeira semana de vendas nas lojas americanas. Um resultado apenas satisfatório.

A indústria da música mudou. Ela encontra-se nU!ll momento em que Poker Face, música tocada 1milhão de vezes no Spotify, tornando-se uma das mais populares no site de streaming, gerou apenas 167dólares para sua autora, a cantora Lady Gaga. A verdade é que as pessoas não compram mais música. Para desespero das gravadoras, cada lançamento do Odd Future é facilmente encontrado de graça online e não apenas ilegalmente. A própria banda disponibiliza músicas que seriam suficientes para produzir mais de 20 álbuns.

Essa é a parte mais esquisita da história. Os músicos do grupo estão felizes com a atual situação. Eles têm seus próprios programas na TV e os ingressos para os.shows da banda se esgotam em uma questão de horas. Talvez seja que momento de parar de consolar Lady Gaga, Sting e Cliff Richard por causa da morte da indústria e começar a olhai’ como outras bandas estão fazendo para crescer na era digital. Veja nas próximas páginas como isso está acontecendo

VOCÊ JÁ DEVE ter esbarrado e, alguns site de microempréstimo, como o Prosper e o Kiva. São plataformas para pequenos pagamentos feitos por investidores que querem contribuir para um objetivo.seja a abertura

de uma empresa seja a compra de um cavalo de corrida. O mesmo processo agora está sendo usado pelos músicos, e o site Pledgemusic é um dos que está abrindo esse caminho. “Construímos um sistema que permite aos artistas chegar ao público usando e-mail.Facebook.Twitter , diz o fundador Benji Rogers. Durante o movimento de rock alternativo inglês dos anos 1990, o Cast foi uma das maiores bandas do Reino Unido. Seu primeiro disco foio álbum de estreia mais vendido na história da gravadora Polydor. No final de 2011,no entanto, eles escolheram oPledgemusic para lançar o álbum Troubled Times. “Não gosto de mídias sociais”, afirma o vocalista John Power. “Jánão somos uma banda de garotos, mas o fato é que os tempos mudaram e estamos mudando também, e não travados, olhando para trás com nostalgia.”

Foi com esse mesmo sistema de financiamento coletivo (crowdfunding), que A Banda Mais Bonita da Cidade gravou seu primeiro CD, pouco depois de se tornar conhecida com o hit-chiclete Oração. Após estourar no YouTube, em maio do ano passado, a banda de Curitiba recorreu ao site Catarse e pediu ao público para escolher (e patrocinar) suas canções favoritas. “Arrecadamos 52 mil reais e produzimos 12 faixas”, diz o tecladista Vinícius Nisi. “Oferecemos, para cada cota de patrocínio, prêmios diferentes, que vão do próprio CD a festas com a banda.” Michael Gira, da banda americana de pós-punk Swans adotou a mesma estratégia para financiar o último disco do grupo. Dependendo de quanto os fãs quisessem pagar, ganhavam capas autografadas, status de produtor executivo no próximo álbum, ingressos para shows e até teriam o nome mencionado em uma música. Que mais uma banda poderia fazer para envolver os fãs?Só se deixasse alguém tocar bateria.

 

NO ANO passado, 3,6 bilhões de músicas e álbuns foram baixados de forma legal no mundo, rendendo mais de 5,2 bilhões de dólares. Os números são da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a mesma associação que alegou, em 2010, que apenas 5% das faixas baixadas na web eram pagas. O restante seria pirata. Os cálculos do chamado prejuízo da indústria são polêmicos – e há quem diga que chegam a 12 bilhões de dólares por ano. Seja qual for o número, a ideia é a mesma: ficou muito difícil fazer dinheiro vendendo singles e discos. Madonna e outros artistas de grande porte passaram a assinar contratos baseados mais na receita de shows do que na venda de CDs.”As pessoas ainda pagam para ir ver uma banda tocar ao vivo”, diz John Power, do Cast. “As conversas nas redes mantêm os artistas na cabeça dos fãs, que vão aos shows”, diz Benji, do Pledgemusíc,

Os ingleses do Arctic Monkeys foram uma das primeiras bandas a entender isso. Antes mesmo de serem contratados por uma gravadora, já haviam conquistado uma legião de fãs usando o MySpace e o Bebo. Tanto que, em 2006, seu álbum de estreia bateu recorde, com mais de 360 mil cópias vendidas no Reino Unido em uma semana. “A verdade é que eles entregaram uns 50 CJ?snos primeiros shows para um grupo de fãs . Conforme os fãs compartilhavam, os arquivos Se espalhavam pela internet”, diz Johnny Bradshaw, que se tornou empresário dos Monkeys. Quanto mais as pessoas ouviam, maiores os shows ficavam. Tão grandes que eles conseguiram lotar os 2 mil lugares do The Astoria, em Londres, antes de terem uma. gravadora. O mesmo aconteceu com a americana Lana Del Reye com o paulistano Emicida. A diferença é que a cantora de índice pop assinou um contrato, e o rapper brasileiro, que estourou com a ajuda do MySpace, preferiu se manter independente. É ele quem produz, grava e vende seus discos por selo próprio, o Laboratório Fantasma. Outra estratégia é convidar em potencial para assistir shows gratuitamente, fazendo a transmissão ao vivo pela web. O grupo Los Hermanos transmitiu pelo Facebook uma apresentação, em abril deste ano.

 

JOHN BONINI, gerente de marketing da agência Impact Brandingand Design, disse ao jornal americano The Wall Street journal que Lady Gaga fatura quase 30 milhões de dólares ao ano com seus tuítes. Como isso é possível’? Para David Collyero, dono de outra agência especializada em bombar músicos no meio digital, a primeira coisa que alguém faz quando ouve um novo artista é dar um Google nele. “Você precisa se manter atualizado no online para sobreviver”, afirma. E um dos melhores jeitos é usar o Twitter. Ao se manter conectadas com os fãs, as bandas empolgam mais e tornam os fãs parte de sua vida.

Assim eles ficam mais propensos a gastar em um disco. Que odigam os garotos do Restart, abanda que enlouquece adolescentes em todo o Brasil. “A internet foi,no começo, o único meio de divulgar nosso som”, diz Pedro Lucas, o Pe Lu, um dos vocais e guitarrista do grupo. Desde 2008, a banda usa as redes sociais para manter uma relação próxima com os fãs. Tanto que a “família Restart” soma no Twitter quase 4 milhões de membros. Para dar uma ideia do tamanho do poder do Google na indústria musical, Chris Martin, do britânico Coldplay, disse que o único arrependimento em relação ao seu mais recente disco foi de tê-lo chamado de Mylo Xyloto, “duas palavras que não dá para pesquisar no Google, porque ninguém sabe como escreve”.A americana Rihanna também tem um nome difícil, mas isso não parece prejudicar sua carpróprio. A cantora faz um verdadeiro bombardeio multiplatafãs forma e tem maisde 1bilhão de visualizações no YouTube, 54 milhões de curtir no Facebook e 16 milhões de seguidores no Twitter. Com números mais modestos, mas também grandes Ivete Sangalo foi apontada a personalidade brasileira mais influente das redes sociais em abril, pela LabPop Content. Já a banda Móveis Coloniais de Acaju lançou o clipe Vejo em Teu Olhar com fotos enviadas pelos seus seguidores no QUANDO os ingleses do Radiohead lançaram o disco In Rainbows, em 2007, disseram que os fãs não pagariam nada: ou dariam quanto quisessem. O Radiohead não foi o primeiro grupo a distribuir música de graça,mas em uma jogada inteligente, tornou-se a maio banda indie do mundo. No cenário independente, o download gratuito é quase uma regra. Em  2008, a banda paulistana Garotas Suecas já tinha suas faixas livres na web. Com uma parceria com um selo americano, o quinteto gravou o primeiro disco completo, também colocado na rede. “Se você disponibiliza um som de boa qualidade está incentivando as pessoas a ouvir e a se aproximar da banda”, diz a tec1adista Irina Bertolucci. Não dá para subestimar o poder que a amostra grátis tem. Gaby Amaràntos começou distribuindo CDs de graça em Belém, no Pará, até que estourou como a diva do tecnobrega. Com Hoje Eu Tô Solteira, fez sucesso no YouTube: gaah~u o apelido de “Beyoncé do Pará” e foi para a TV. Hoje o cachê para shows varia entre 25 mil e 50 mil reais, mas Gaby ainda mantém o download de algumas faixas gratuitas em seu site.

As estrelas da música da próxima geração vão comandar o mundo de seus quartos, usando laptops e smartphones. Tudo o que os artistas precisam ter é talento e banda larga.

 

DR. KINECT

Como um hospital brasileiro transformou o controle de games da Microsoft em instrumento eficiente para ajudar nas cirurgias, diminuindo riscos para o paciente e o estresse dos médicos

A missão é difícil. Envolver a realização de procedimentos cirúrgicos complexos que requer exames detalhados e muita concentração. Ë preciso estar bem preparado. Com gestos, imagens são aplicadas, exames são visualizados e os melhores trechos de um vídeo selecionados para ajudar e nos detalhe da operação. Tudo deve ser feito muito rápido. O pacientes esta sedado. Há cortes, sangue e o risco de infecção. Cada segundo é precioso para reparar uma coluna vertebral ou uma lesão cerebral. A cena não faz parte de nenhum game ou de séries de TV como Plantão Médico e Hou.se. Ela é real e já entrou para a rotina do Hospital Evangélico de Londrina, no Paraná, o primeiro centro médico brasileiro a desenvolver um método que utiliza o Kinect em salas de cirurgia.

Com investimento baixo e o esforço do time de médicos, o hospital criou o projeto Intera, que usa o controle da Microsoft que reconhece movimentos para inovar. E no hospital não é apenas a geração-Yque se dá bem com a tecnologia. “Tenho 60 anos, mal uso o computador eme adaptei rapidamente”, diz o neurocirurgião Luiz Soares Koury, um dos responsáveis’ pelo projeto. O Intera não surgiu com pretensões hollywoodianas de revolucionar a medicina. Luiz Koury conta que a solução foi criada para resolver um problema pontual. O centro médico paranaense queria acabar com o uso das chapas em filme e do antigo negatoscópio, um aparelho com iluminação especial que permite a observação das radiografias. usado em medicina praticamente desde a descoberta do raio X,em 1895.

“O filme radiológico está em extinção”, afirma Koury. “Nós tínhamos   necessidade de criar algo para substituir as chapas por uma versão digital, já oferecida pelos aparelhos diagnósticos em CD ou pen drives.”

Em determinadas cirurgias, como as neurológicas, as de coluna ou as cardíacas, a equipe médica orienta-se por exames específicos. Para atender a esses casos mais sensíveis, a equipe de tecnologia do hospital apostou inicialmente no uso de tablets. As imagens selecionadas pelo cirurgião poderiam ser carregadas no dispositivo e consultadas durante o procedimento.

Uma chapa de exame mede aproximadamente 35 centímetros de largura largura por 45 centímetros de altura, e um painel normalmente comporta no máximo três chapas. Em cirurgias mais complexas, é comum realizar a troca de imagens inúmeras vezes. Como a equipe médica não pode tocar em nada, para evitar contaminação, a exibição dos exames ficava a cargo de enfermeiros ou assistentes.

Fulano, pega aquele filme que está no envelope e coloca na parede era a frase mais ouvida. “Éruim depender de outra pessoa numa cirurgia”, diz Koury. Os pequenos tablets mostraram-se viáveis, já que podem ser envoltos em plástico esterilizado, permitindo, assim, o manuseio sem risco de infecção.

 

QUE DIABO É ISSD?

Foi durante Uma conversa com a equipe de tecnologia, com a solução dos tablets quase pronta, que o uso do Kinect foi sugerido. “Kinéti? Que diabo é isso?”, disse Koury na reunião. Mas logo a ideia de realizar as trocas das imagens dos exames sem a necessidade de tocar em nada pareceu sedutora.

A equipe de’ tecnologia do hospital começou então a trabalhar no desenvolvimento do software, que utiliza o Kinect para Xbox acoplado a um PC. As imagens são exibidas em TVs de plasma de 51polegadas e resolução full HD.

Durante quatro meses os desenvolvedores trabalharam com Koury e com o neurocirurgião Marcos Antonio Dias, para ajustar a solução às necessidades dos doutores. “Pedimos um software fácil de usar e prático”, afirma Dias. “Disse para a equipe de TI que eles teriam só cinco minutos para convencer os médicos a substituir o processo que usavam.

” Os ortopedistas Alexandre Jaccard, 37 anos, e Cesar Daniel Macedo, 30, também se interessaram pela solução e,depois de um dia de treinamento, passaram a utilizar o Intera nas cirurgias de coluna. Como são procedimentos demorados, que geralmente utilizam muitas imagens em cada uma das etapas da cirurgia, a ideia parecia promissora.

Eles contam que o sistema diminuiu o estresse das trocas de imagens

e eliminou o vaivém entre a mesa de cirurgia.e a parede onde ficava o negatoscópio. Uma cirurgia com duração média de quatro horas foi reduzida em meia hora. “Um grande ganho do= sistema é a riqueza da imagem. Como a tela é bem grande, não preciso me deslocar para observar os detalhes de

uma vértebra”, afirrnajaccard. “Se quiser, posso aplicar o zoom ali mesmo:’

Outro grande potencial do Intera é sua capacidade para exibir diagnósticos dinâmicos, como o de cateterismo. Desde o início do projeto, em abril deste ano, os quatro médicos realizaram, 12cirurgias usando o Kinect.O controle de jogos foi instalado em quatro salas do centro cirúrgico e, pará amplias ..o uso da solução, outros 12profissionais receberam treinamento em junho. Até o final de julho, mais 36 pessoas deverão estar familiarizadas com o controle. A aposta do Hospital Evangélico de Londrina é a de que a solução vai mesmo pegar. “Provamos que é possível fazer algo inovador”, diz Luiz Koury.

 

FUI ROUBADO. E AGORA?

 

Saiba como recuperar o celular ou tablet com aplicativos de rastreamento e evite que o ladrão acesse seus dados

Lá se foi o ladrão com o celular ou tablet. Pode ter sido um furto ou, pior, um roubo, com toda a carga de estresse que uma situação como essa causa. A vítima logo pensará sobre o que poderia ter feito para evitar essa situação. Depois, ficará imaginando se dá para recuperar Depois, ficará imaginando se dá para recuperar o celular e os dados. A boa notícia é que existem, sim, formas de descobrir onde está o aparelho e de apagar todo o conteúdo. A má é que a pessoa deveria ter se preparado para isso antes de ser roubada. E, mesmo tomando precauções, não há como garantir que tudo vai dar certo.

Ter sangue-frio e ser rápido são as duas principais regras que precisam ser seguidas para tentar recuperar um celular ou tablet desaparecido. Obteve a localização? A polícia deve ser acionada. Não tente resolver o problema sozinho. Manter a calma é fundamental. São vários os passos que requerem atenção para o rastreamento dar certo. Os smartphones e tablets são aparelhos inteligentes, mas não pensam sozinhos. Se não estiverem com

tudo configurado e ativado da maneira correta, as dificuldades aumentam. …

Mas com sorte a busca pode funcionar. Casos em que a polícia conseguiu recuperar um aparelho e encontrar os assaltantes têm se tornado cada vez mais frequentes. Nos últimos dois meses, pelo menos cinco foram noticiados. Policiais conseguiram localizar celulares ou tablets horas depois de os crimes terem sido cometidos em São Paulo e nas cidades paulistas de Barueri e São Carlos, no Rio de Janeiro e em Recife. Em todos os casos, os donos dos aparelhos tinham ativado um aplicativo ou serviço de rastreamento e passaram as informações para os policiais. Com isso, foi possível surpreender os ladrões.

 

INSTALE UMAPLICATIVO

Tanto o iOS como o Windows Phone trazem soluções antifurto. Foram batizadas de Buscar iPhone e Localizar meu Telefone, respectivamente. Para usá-las, basta acessar as configurações do aparelho e habilitá-las. Alguns fabri cantes, como a Samsung, desenvolvem serviços próprios. Há também uma série de aplicativos, gratuitos e pagos, que prometem encontrar aparelhos perdidos ou roubados. Eles estão disponíveis para download na App Store, na Play Storeeno Windows Marketplace. Usar os apps não garante que o aparelho será achado. Mas, se você não tiver nenhuma delas, suas chances são nulas. O ideal é escolher uma solução, ativá-la e entender bem como funciona, fazendo testes em casa (veja quadro na pág. aq lado).

Pense em ter dois aplicativos diferentes instalados, porque um deles

pode falhar. No Android, écomum esse tipo de software incluir um antivírus. Nesse caso, cuidado para não ficar com dois antivírus rodando ao mesmo tempo, o que pode prejudicar a velocidade do aparelho. Quem tem o hábito de feehar aplicativos que estão rodando em segundo plano – ou de usar programas que fazem isso automaticamente, os chamados task killers – precisa repensar se vale a pena, lá que isso pode atrapalhar a localização. O melhor é deixar o Android gerenciar sozinho o que deve permanecer aberto. A partir da versão 2.2 (Froyo), o sistema foimelhorado para fazer esse controle de modo adequado.

Depois de baixar o software, vale a pena testar as principais funções disponíveis no serviço escolhido. Os recursos básicos, presentes em quase todos eles, são três: rastreamento do aparelho, mostrando a posição em que ele está dentro de um mapa; bloqueio remoto, que impede o uso por quem não souber a senha; e eliminação de todos os dados.

Alguns dos programas trazem funções mais avançadas e bem úteis, como disparar um alarme sonoro do tipo “Este celular está sendo roubado”, mostrar uma mensagem na tela ou tirar uma foto de quem estiver com o equipamento nas mãos, usando a câmera frontal.

Poucos permitem fazer o backup remoto do conteúdo. Prefira os que prometem cópias só do que for essencial, como contatos e mensagens. Os que trabalham com recuperação total não são aconselháveis, pois o processo é bem demorado e pode não dar certo. Isso acontece porque o celular ou o tablet terão de transferir uma grande quantidade de dados pela web e, para isso, precisará estar conectado.

O aparelho só irá acessar o Wi-Fi se não estiver bloqueado e o ladrão resolver navegar, fazendo login em uma rede protegida, ou se houver uma rede aberta nas proximidades. No caso do 3G, mesmo se o dono do aparelho tiver um plano de dados, pode ser que o equipamento não dê conta de enviar todos os arquivos antes de atingir a cota mensal. Depois disso, a velocidade é drasticamente reduzida.

O melhor conselho para quem não quer perder dados é fazer backups regulares e ativar serviços de sincronização automática com a nuvem.

Os aplicativos Dropbox e Google+, disponíveis paraiOS e Android, salvam automaticamente cópias online de todas as imagens. Ainda no Android, prefira associar contatos e compromissos à sua conta do Google, em vez de gravados no aparelho. Isso garante o acesso a tudo se alguma eventualidade ocorrer.

No Windows Phone, vale a pena ir até o menu Fotos-câmera e ativar a opção Carregar automaticamente no SkyDrive, para ter uma cópia das imagens no serviço de armazenamento virtual. Arquivos importantes também devem ser enviados manualmente para o SkyDrive. Nos dispositivos da Apple, vale a pena usar o iCloud, que armazena as últimas 1mil fotos por 30 dias, os contatos e 08 compromissos, entre outros itens. Autorize também o backup do iCloud, realizado por Wi-Fi,

ATIVE TUDO

Além de ter pelo menos uma proteção contra assalto funcionando, é obrigatório manter sempre ligadas as duas conexões de dados, o3Ge o Wi-Fi. Isso vai aumentar o consumo de bateria, mas é um requisito para o funcionamento dos serviços de localização em diferentes situações, especialmente se o aparelho estiver dentro de um prédio ou de uma residência. Afinal, em ambientes fechados, o sinal do GPS não funcíona.

Alguns aplicativos permite ativar o 3G e o Wi-Fi remotamente, por mensagens SMS, mas é uma coisa a mais com que se preocupar. Acredite: na hora do aperto, quanto menos passos forem exigidos, melhor. Deixar o GPS ligado é ainda mais importante, porque vai permitir obter as coordenadas precisas quando o aparelho estiver em um local aberto. A desvantagem é que também gastará bateria, mas vale a pena. Em muitos casos, o Wi-Fi só ajuda a obter localização aproximada, com grande margem de erro. Pode indicar um bairro ou uma cidade, por exemplo. O 3G  dá um resultado mais preciso, porque são usadas as antenas de celular para a localização. Nesse caso, a margem de erro fica em cerca de 100 metros. Em áreas muito populosas, porém, pode ser difícil achar o ponto exato. Com o GPS, o erro será mínimo. O ideal, portanto, é manter os três ativados.

Quase todos os serviços de localização contam com uma interface

web, que dá acesso a um mapa com a posição do equipamento. Quando o aparelho tiver sido levado, a primeira medida, depois de fazer o boletim de ocorrência, é procurar um lugar em que se possa acessar a internet, entrar no painel do aplicativo e buscar a localização. A maioria dos programas faz isso durante determinados intervalos de tempo. Por essa razão, é necessário ter

paciência. Capture as telas que aparecerem e envie o material para a polícia.

 

TRAVEA TELA

Outra medida importante é definir um bloqueio de tela. Isso vai atrasar a ação de criminosos menos preparados e ajudar a ganhar tempo. Com o aparelho travado, o bandido não poderá desinstalar o software de rastreamento, nem desligar GPS,3Gou Wi-Fi. Claro que ele ainda pode desligar o celular ou o tablet e botar tudo a perder. Também poderá levar o equipamento para um especialista, que vai restaurar as configurações de fábrica, apagando o conteúdo. Por isso, é importante tentar encontrar  o aparelho o mais depressa possível

Vários programas permitem fazer o bloqueio do smartphone ou do tablet remotamente, o que é uma ótima notícia se você não tiver o costume de travar o aparelho. Essa ação precisa ser imediata.

O procedimento é feito geralmente pela interface web do software. Além de enviar o comando para travar o celular, define-se uma senha de desbloqueio, de quatro dígitos. Ao fazer isso, anote a senha porque, no desespero, há grandes chances de esquecê-la. Aí, quando o dispositivo for recuperado, não será possível destravá-lo sem apagar o conteúdo.

Uma das decisões mais imediatas entre as pessoas que têm ocelular roubado é ligar para a operadora e pedir para desativar o chip. Se você quiser ter uma chance de recuperar o telefone, não faça isso. O procedimento vai impedir uma conexão com a rede celular, desativando a localização pelo 3G.Se o smartphone estiver bloqueado, não há motivo para pressa. Tente encontrar o aparelho. Se não conseguir, solicite a desativação.

Alguns dos programas antifurto alertam se o chip foi trocado pelo criminoso e informam até o novo número do bandido. Se você receber o aviso, pode entrar em contato com a operadora. A última recomendação é jamais andar com a bateria com pouca carga. Sempre que notar que isso pode acontecer, conecte o celular ou o tablet na energia.

Se for a algum lugar em que passará horas longe de uma tomada, carregue antes de sair. O motivo é simples: enquanto o equipamento estiver funcionando  o serviço de rastreamento ficará ativo. As baterias atuais, de íons de lítio, não viciam e é até bom que recebam energia com frequência. De resto, basta torcer para o ladrão ficar empolgado com o aparelho roubado e nem perceber que caiu em uma armadilha. E cruzar os dedos para que tudo funcione.

 

COM QUE NUVEM EU VOU?

Quer usar  um site de armazenamento mas não sabe se o novo Google Drive é o melhor do que o Dropbox? Conheça aqui os pontos fortes e fracos de quatro serviços populares

Um dos precursores dos serviços de armazenamento online, o Dropbox tem várias vantagens. Ele possui aplicativos oficiais em praticamente todas as plataformas, seja no desktop, smartphone ou tablet. A lista de apps para smartphone que leem e gravam arquivos diretamente do Dropbox é extensa. Mas o serviço também tem pontos fracos. O principal é o espaço oferecido gratuitamente, de 2 GB.É suficiente para documentos e planilhas, mas não para fotos e vídeos. É possível receber espaço extra, sincronizando imagens

de câmeras e smartphones e indicando amigos. Os valores dos planos pagos do Dropbox são bem mais altos do que os de seus principais concorrentes

 

SKYDRIVE

Em abril, a Microsoft adicionou os recursos de sincronia ao serviço de HD online Skydrive, tornando-o mais completo. Mas ainda assim ele parece um pouco verde. Seu ponto forte está no espaço gratuito, maior do que o oferecido pelo Dropbox. Quernjá utilizava o serviço e o acessou até o final de abril conseguiu manter o espaço original gratuito do Skydrive, de 25 GB. Os novos usuários recebem 7 GB.Os planos pagos têm preços acessíveis. Outra vantagem é a possibilidade de compartilhar arquivos usando links reduzidos do Bit.ly.Isso permite a visualização de estatísticas e outros dados úteis fornecidos pelo encurtador de URLs

 

GOOGLE DRIVE

Um dos mais novos serviços de armazenamento onlin conta com uma vantagem em relação aos concorrentes: a integração direta com o Google Does. Como muita gente utiliza as planilhas e documentos online do Google, compartilhar um arquivo pelo novo serviço fica bem mais fácil. Além disso, a empresa deverá adicionar recursos para facilitar a gravação de anexos no Drive, assim como o envio rápido de arquivos pelo Gmail. Outra provável vantagem vem da compra pelo Google do app Quickoffice, que permite aos usuários acessar e editar documentos do pacote Office, produzido pela Microsoft. Ele deverá ser integrado de forma mais profunda ao Drive, dando mais opções a quem usa smartphones e tablets.

 

SUGARSYNC

 

Apesar de ser o menos conhecido entre os serviços testados, o SugarSync tem vários pontos fortes. Ele roda nas principais plataformas para desktop, smartphone e tablet. Além disso, tem mais opções para resolver problemas de sincronia, como quando o mesmo arquivo é editado em vários computadores

diferentes. O Dropbox mantém ambas as cópias com nomes distintos, enquanto o SugarSync tenta verificar o conteúdo do arquivo, além da data de modificação, para facilitar a decisão de qual item será .mantido. Por ser um serviço quase tão antigo quanto de Dropbox, o SugarSync permite a integração com vários programas para smartphones e tablets.

 

SOLTE O VERBO NO TWITTER

 

Formas de mandar seu recado no mIcroblog, escrevendo muito mais

 

Estilo bloco de notas

Há vários serviços para colar ou digitar um texto mais longo. O mais conhecido é o Pastebin . ).Basta entrar com a frase e pressionar Submit. Com isso, será gerado um endereço direto e curto, que pode ser colado no post. Se quiser, você pode definir um tempo para que o texto expire e saia do ar. Outro serviço bastante parecido é o Tiny Paste. Ele permite texto com formatação (negrito, itálico, etc.) e senha de acesso.

Serviços especializados

Uma opção para postar mensagens mais longas é o Tall Tweets ).O

login é feito com a conta do Twitter. Basta digitar ou colar a frase desejada e clicar em Post Tweet. O texto será quebrado em quantos tuítes forem necessários e postados de forma sequencial. Já o Twitlonger( abr.io/talltweets)mantém o uso de um link curto para uma página externa, com uma diferença: as primeiras palavras são mostradas no post do Twitter.

Com comentários

O serviço shortText (abri.io/shorttext) permite o envio de comentários nos textos. Basta colar a frase e marcar a opção Allow Comments. Usa formatação, mas não mostra uma barra de atalhos (é preciso definir negrito e itálico com tags). Dá ainda para adicionar um vídeo ou uma imagem.

Truqye ninja

Seu tuíte usa muitas letras? Há um truque para comprimir o texto. Acesse o serviço Tweet Compressor (abr.io/tweetcompressor),cole a frase no primeiro campo e clique no segundo. Algumas combinações de letras são substituídas

por um único caractere, visualmente equivalente, em outra língua. O resultado é variável, mas pode ser interessante.

 

TRABALHO FEITO.DE OUALOUER LUGAR

Bons serviços, truques e ferramentas para e editar textos e planilhas ou criar arquivos para serem usa os por várias pessoas em tempo real.

 

Docs compartilhado

Com o lançamento do Google Drive, mais pessoas vão armazenar seus documentos no Google. Isso torna o recurso de colaboração do Google Does ainda mais atraente. Para compartilhar um documento, planilha ou apresentação, abra o item no Does e clique no botão Compartilhar, no canto superior direito da página. Use o campo Adicionar Pessoas para teclar os nomes ou e-mails de todos os que poderão editar o arquivo. Se quiser, use a caixa de seleção à direita para restringir o acesso à visualização. Para concluir, clique em Comparti1har e Salvar. Caso mais de uma pessoa esteja editando o texto ou planilha, surge uma indicação do trecho ou célula que ela está modificando, com cores distintas para cada colaborador.

 

Peça ajuda ao Google+

O Google+ é uma boa ferramenta para interação em grupo, especialmente com os recursos recentemente adicionados aos Hangouts, videoconferências que agora rodam aplicativos de forma compartilhada entre os participantes. Para usar esse recurso, crie um Hangout, clicando no botão com esse nome no Google+. Depois, convide os participantes desejados e clique no botão +Adicionar Aplicativo. Há várias opções, como um editor de diagramas, um quadro branco, um gerador de apresentações e até o próprio Google Does. Cansou da reunião e quer relaxar? Entre as opções de aplicativo há o jogo de pôquer Aces Hangout.

 

Quadro branco e diagramas

Não quer usar o Google+ como opção de quadro branco para começar a reunião ou o trabalho? Uma das melhores ferramentas para isso é o Scribblar ).Os quadros incluem, além do desenho em grupo, papo por voz e texto,

integração com o Skype e suporte a inserção de equações e símbolos científicos. Após a reunião, é possível guardar uma , imagem com o resultado final da edição. Outro serviço que funciona bem é o Scriblink ).Basta acessar o

site para criar automaticamente o quadro branco, sem precisar fazer login. Para convidar participantes a usar é só clicar em Email ou em Get URL, para obter um endereço que pode ser enviado por mensagem instantânea para as pessoas

 

Reunião rápida

No estilo de serviços que dispensam a criação de logins, o Meetings.io ) é perfeito para reunir rapidamente pessoas para um papo utilizando voz e vídeo integrados. Para isso, basta acessar o site e pressionar Get a Meeting Room. Será gerado, então, um endéi’eço (com uma URL curta, inclusive), que deve ser enviado a todos os participantes do trabalho ou da reunião. O próximo passo é entrar na sala e esperar até que todos marquem presença. Aí a reunião já pode começar. Além do bate-papo, no Meetings.io é possível compartilhar vários arquivos e até a imagem do desktop com os participantes.

 

AVEZ E DA CASA INTELIGENTE

 

Redução do custo da tecnologia e integração dos sistemas ao celular e ao tablet estimulam o mercado de automação residencial.

 

Imagine poder ligar o ar-condicionado,. acen~er a luz do jardim ou até mesmo encher a banheira de água quente antes de entrar em casa, usando o celular – ou tabletcomo controle remoto. Cena de filme de ficção futurista? Não, essa já é a realidade de quem mora em uma casa inteligente – como são chamadas as residências equipadas com sistemas de automação.

Por meio de dispositivos eletrônicos distribuídos pelas áreas e equipamentos da casa, esses sistemas permitem abrir portas, controlar a iluminação e o ar-condicionado, ligar a TV,programar o home theater e o som ambiente, fechar persianas, cortinas e toldos, acionar a irrigação do jardim e até checar a segurança, por meio de câmeras IP.

Com a integração dos sistemas de automação residencial à teenologia móvel- e à internet -, é possível fazer tudo isso a distância, usando o tablet ou o smartphone.

Essa é, sem dúvida, uma alavanca importante para o crescimento desse mercado, que tem atraído diversos fabricantes de peso para o conceito conhecido como home control (controle da casa). Prova dessa tendênci’l.foi o espaço ocupado por empresas oferecendo produtos e sistemas desse tipo na CES2012, grande feira de produtos eletrônicos de consumo realizada no início deste ano, em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Diversas construtoras também apostam no conceito de

casa inteligente, acrescentando alguns pré-requisitos de  automação às plantas de novos edifícios. Com as tecnologias de comunicação sem fio – em especial, o Wi-Fi -, ficou mais fácil instalar sistemas de automação também em casas ,e apartamentos prontos, uma vez que não é preciso quebrar paredes para colocar uma tubulação específica para isso. Além disso, as redes Wi-Fi oferecem a vantagem da conexão direta com a internet em banda larga.

CUSTO MAIS BAIXO

Estudo recente da empresa de pesquisas e consultoria Strategy Analytics indica que, em 2016,42% de todas as residências do mundo – cerca de 800 milhões de lares – terão instalado redes domésticas basead.as em tecnologia Wi·Fi. Atualmente, o percentual está em 25%, o que representa pouco mais de 400 milhões de domicílios com conexão à internet sem fio. Segundo a consultoria, a proliferação de dispositivos preparados para a comunicação no padrão Wi-Fi, aliada à própria expansão dos serviços de banda larga, tem contribuído para o rápido crescimento desse mercado. E isso tem reflexos no segmento de automação residencial. “A evolução da tecnologia nessa área, com a introdução dos sistemas sem fio, baixou muito os custos de instalação”, afirma o engenheiro Ricardo Trauer, que fez mestrado na Inglaterra em Advanced Automation and Design. “Além disso, o aumento da oferta de sistemas no mercado também fez os preços caírem, tornando a automação residencial mais acessível.”

Trauer dá um exemplo: hoje, com 5 000 reais, é possível implantar um projeto de automação de uma sala de aproximadamente 20 metros quadrados, envolvendo o controle de iluminação e dos aparelhos do home theater. Há três anos, o investimento no mesmo projeto girava em torno de 15000 reais. Além disso, o painel de controle do sistema – o modelo touchscreen, para instalação na parede, custa entre 6 000 e 10 000 reais – agora pode ir para dentro de um

taolet como o iPad, de preço mais acessível e que ainda pode ser usado para outras funções, como navegar na internet.

 

FIM DO CONTROLE REMOTO

A comodidade é, sem dúvida nenhuma, a primeira vantagem – e a mais visível- da instalação de ull1 sistema de automação residencial. Oconforto é ainda maior se o painel de controle estiver em um dispositivo móvel, como o tablet, que pode ser levado para qualquer lugar da casa. “A interação com equipamentos eletrônicos, por exemplo do home theater, ficou muito mais fácil com o iPad”, acrescenta Trauer. Ele observa que, quanto mais sofisticadose complexos os aparelhos, maior é a quantidade de dispositivos para o seu controle. “É possível trocar todos  os controles remotos pelo tablet, o que facilita o uso dos aparelhos até por quem não domina tecnologia”, afirma.’

Outro benefício da automação é a redução no consumo de energia, graças ao controle da iluminação e do uso mais eficiente do ar-condicionado e dos equipamentos eletrônicos da casa. Só com a colocação de dimers no sistema de iluminação [que permitem ajustar os níveis de intensidade da luz), Trauer diz que a economia chega a 30% a 40%. Além disso, é possível introduzir um comando no sistema de automação para que todos os aparelhos eletrônicos sejam efetivamente desligados quando não estiverem em uso (em geral, eles permanecem e’rT\standby, o que acaba consumindo energia).

A segurança é outra vantagem importante da automação residencial. A possibilidade de acender as luzes da casa antes de abrir o portão, ainda dentro do carro, pode afastar intrusos que preferem agir na escuridão. Ea conexão do sistema a câmeras de vídeo IP,que enviam as imagens captadas diretamente pela internet, permite monitorar a casa mesmo estando a quilômetros de distância, em viagem de férias.

DE VOLTA AO DRIVE A:\

 

Toda vez que usa o Word você vê o ícone de um disquete no canto da tela como atalho para salvar documentos. Mas será que consegue se lembrar quando usou um deles pela última vez? Ou se usou? Os disquetes guardavam e transferiam arquivos. Foram substituídos por CDs e pen drives no início da década de 2000. Lançado em 1971, o floppy disk é fruto de uma experiência malsucedida da IBM. Quase dez anos antes, uma equipe tentava criar um modo prático de armazenar dados nos mainframes e o engenheiro David Noble mostrou ao chefe um disco magnético maleável. Era feito de um material parecido com o das fitas, mas não era possível ser reescrito. O problema foi resolvido, mas nascia ali uma solução que seria usada por milhões de pessoas nas próximas três décadas. O modelo original do disquete tinha oito polegadas e era capaz de armazenar 79 quilobytes.Já os modelos de 3,5 polegadas

tinham 1,44 megabyte de espaço. Num mundo pré-internet, osfloppy disks foram a primeira forma de distribuição de software, documentos e até vírus entre os computadores.

FAPESP

HDL ajuda a absorção do colesterol

 

Pesquisa da FMUSP revela que a lipoproteína influencia a síntese do lipideo no organismo A sigla HDL, popularmenteconhecida como “colesterol

bOI;11″, tornou-se familiar até para quem não é da área da saúde depois que diversos estudos demonstraram a importância dessa lipoproteína na prevenção

da aterosclerose e das doenças cardiovasculares. Acreditava-se que o efeito protetor da HDL fosse devido à sua capacidade de roubar o colesterol presente na parede das artérias e carregá-lo de volta para o fígado, para ser reaproveitado ou excretado. Mas uma pesquisa recémconcluída na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) revela que as concentrações dessa lipoproteína no sangue influenciam também a

síntese e a absorção do colesterol no organismo, além de: estarem

associadas à ação da insulina no metabolismo da glicose. Os dados foram publicados na revista Clinica Chimica Acta. “Compreender melhor o papel da HDL no metabolismo do colesterol é fundamental, pois o benefício causado pelo aumento dessa lipoproteína no sangue supera o malefício causado

pela elevação da LDL (o colesterol ruim)”, afirmou Eder C. R. Quintão, coordenador da pesquisa financiada pela. FAPESP na modalidade Auxílio à

Pesquisa – Projeto Temático. Segundo Quintão, os medicamentos

existentes para combater 6 colesterol atuam reduzindo a concentração de LDL (sigla em inglês para lipoproteína de. baixa densidade) e de VLDL (sigla em inglês para lipoproteína de muito baixa densidade), que também têm a missão de levar, colesterol aos tecidos’, mas ao atravessarem a parede da artéria

ficam presas e contribuem para a formação da placa aterosclerótica.

oideal seria desenvolver drogas capazes de aumentar a HOL no sangue. A

dieta e o exercício têm pouco impacto nesse processo. A ingestão’

habitual de bebida alcoólica, embora’ eleve a HOLi provoca

aumento de mortalidade por causas não cardiovascúlores”, disse Quintão.

 

Resultado surpreendente

A análise dos resultados mostrou que os voluntários do grupo com HDL baixo sintetizam mais colesterol, mas absorvem menos essa substância pelo intestino. Já os participantes com HDL alto sintetizam menos colesterol, mas absorvem mais pelo intestino. “Esse dado nos surpreendeu e nos pareceu incongruente”, afirmou Quintão. Isso porque os estudos epidemiológicos mostram que pessoas que absorvem mais colesterol pelo intestino têm mais risco de sofrer infarto. “É estranho que essas pessoas que absorvem mais  colesterol sejam justamente aquelas com HDL alto”, disse. Para solucionar o novo enigma, o grupo de Quintão pretende seguir a linha de investigação, dando início a um novo projeto de pesquisa. Também surpreendeu os pesquisadores o fato de os voluntários com valores baixos de HDL apresentarem menor sensibilidade à ação da insulina quando comparados aos voluntários’ com HDL alto, Isso foi avaliado ao se relacionar a concentração de insulina com a de glicose no sangue em pessoas em jejum, “Identificamos esse processo de resistência à insulina em um estágio bem precoce. São pessoas saudáveis, sem sintomas e com IMC normal. Não sabemos ‘se daqui a dez anos haverá maior frequência de diabetes nesse grupo. É uma possibilidade de estudo

de longo prazo que se abre”, disse Quintão. Dados da literatura científica reforçam a hipótese de que quanto mais elevado o HDL no sangue melhor é o aproveitamento da insulinaproduzida no pâncreas no metabolismo da glicose em tecidos periféricos.

 

 

 

Os 50 anos da Fapesp

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) comemora este ano meio século de investimentos em projetos acadêmicos e científicos que beneficiam centros de estudos e universidades paulistas. É um centro de excelência. Entre as principais realizações, destacam-se os financiamentos nos campos do projeto Genoma, inovações na produção do etanol, biodiversidade, sustentabilidade, bioenergia e mudanças climáticas globais. Em 2011, a Fapesp investiu R$ 912 milhões em pesquisas.

 

Global

Celso Lafer, presidente da Fapesp, destaca como uma constante nos últimos anos a internacionalização da fundação, por meio de acordos com entidades congêneres no mundo. É uma resposta, segundo ele, ao desafio da interação entre pesquisadores nacionais e estrangeiros, fundamental para o avanço do conhecimento. O diretor científico da entidade, Carlos Henrique de Brito Cruz, afirma que a ciência em São Paulo tem I crescido em quantidade e qualidade.

Revista

Para marcar os 50 anos de Fapesp, a revista Pesquisa produziu alentado e denso número especial em 258 páginas com 50 reportagens relativas a igual número de projetos apoiados pela fundação ao longo de sua história. A versão digital pode ser lida no site www. revistapesquisa.fapesp.br

 

 

Exportações em alta

o Centro das Indústrias’ do Estado de São Paulo (Ciesp) divulgará nesta segunda-feira a participação dos municípios paulistas na pauta de exportação entre janeiro a junho de 2012. As cinco primeiras posições no ranking das exportações das regionais do Ciesp, pela ordem, são: São Paulo (capital), São José dos Campos, Santos, São Bernardo do Campo e Campinas.

Juntas, elas são responsáveis por 45,6% do total das exportações do Estado de São Paulo. Exportaram US$ 13,6 bilhões, 3% a mais do total exportado no 10 semestre de 2011.

Exportações (2)

Os principais setores exportadores do Estado são: soja, refino de açúcar, veículos automotores, rnáquinas e equipamentos, peças e acessórios para veículos automotores, produtos derivados de petróleo e aeronaves .Os principais países de destino são: China, Estados Unidos e Argentina.

Agronêgõcios ‘.

,0 primeiro Parque Tecnológico Paulista focado em agrbiiégócid será  criado em Barretos, o Agro-Park, com investimentos do governo paulista da ordem de R$ 6,1 milhões. Integração entre agricultura e pecuária, programas de qualidade de alimentos e controle de resíduos de medicamentos são as ações prioritárias. O AgroPark ocupará uma área de 1 milhão de metros

quadrados, próxima ao aeroporto local. Laboratórios, órgãos públicos, centros de pesquisa, instituições de ensino, empresas incubadas, hotéis e centro de convenções fazem parte do empreendimento. Elaine Patricia Cruz

 

 

 

Sonho possível

 

Em Avatar, filme dirigido por ]ames Cameron, o ex-fuzileiro Jake Sully (interpretado por Sam Worthington) é paraplégico. Mas, quando decide participar do Programa Avatar, suas conexões neurais o conectam a um avatar e então o ex-fuzileiro consegue andar. No filme, isso só ocorre quando o cérebro de Sully consegue controlar, de forma virtual, o seu avatar no belo mundo de Pandora. No mundo real, apesar de muitos estudos científicos sobre b tema, ainda não é possível fazer uma pessoa com as limitações de Jake Sully voltar a andar. Mas cientistas brasileiros estimam que isso pode começar a ocorrer em 2030. A ideia de pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (lCMC) da Universidade de São Paulo (USP), câmpus de São Carlos, é que um chip seja implantado na parte mais externa do córtex cerebral.

Quando for ativado, esse dispositivo os  movimentos de uma pessoa com deficiência física por meio de um exoesqueleto (espécie de esqueleto artificial feito de metais resistentes) . ”À medida que um campo magnético mantido fora da cabeça se aproximasse desse chip, ele iria se energizar e passaria a ler e enviar os comandos do cérebro para fora, utilizando essa mesma energia”, explica Mario Alexandre Gazziro, professor do Departamento

de Ciência da Computação da USP. O mecanismo está em estudo por um grupo de pesquisadores de São Carlos, do qual participa Gazziro.A pesquisa está sendo desenvolvida em parceria com a Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos, com a participação do professor Stephen Saddow. “Certamente essa é a solução mais promissora para fazer com

que, por meio de esqueletos mecânicos ou robotizados, paraplégicos e pessoas com outras deficiências voltem a andar de novo”, disse o professor da USP.

Atualmente, segundo ele, o que existe em termos de experimento nesse sentido é a instalação de eletrodos no cérebro. “O que se faz é colocar o eletrodo dentro do cérebro, diretamente,

nos experimentos. Não está disponível comercialmente nem foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, lembra Gazziro.

 

O novo chip, no entanto, funcionaria de forma semelhante ao sistema implantado no personagem Neo, do filme Matrix, mas sem o uso de um fio. “Imagine que aquela conexão na cabeça que é feita neles (personagens do filme) seria feita só de se chegar próximo (à cabeça). Esta é a nossa proposta: uma interface em que colocamos um chip dentro do cérebro e <conversamos>com o chip só de chegarmos próximo (a ele)”, disse.

 

 

Tecnologia bem encaminhada

Além do chip sem fio, uma condição para que um paraplé- gico volte a andar, nessa situação, será o desenvolvimento de • exoesqueletos. “Precisará ter um exoesqueleto, um esqueleto

(robótico) para movimentar perna e braço. Esse exoesqueleto teria uma antena, escondida embaixo do cabelo. O chip seria colocado em uma região específica do córtex. E a pessoa aprenderia a usar aquele membro eletrônico. Seria como aprender  a andar de novo”, explicou o professor. Segundo Gazziro, a  tecnologia de criação do exoesqueleto está bem encaminhada. A pesquisa, que será desenvolvida no instituto durante três anos, pretende focar no desenvolvimento de chips sem fio e de baixo consumo. Eles serão feitos com material biocompatível, como o carbeto de silício, que, segundo a equipe de pesquisa  coordenada por Saddow, tem a propriedade necessária para desenvolver uma interface cerebral. .

: “É um chip especificamente desenhado para ser interligado ao córtex motor. O que fazemos aqui éuma complementação do estudo do professorMiguel Nicolelis(que pretende construir um exoesqueleto robótico, comandado diretamente pelo cérebro,paraque pessoas com paralisia  voltem a andar), que tem conhecimento das pesquisas feita sem São Carlos.O que fazemos é propor uma solução para tirar

o fio que atualmente seria usado em uma interface cerebral”,disse o professor.O estudo está dividido em duas partes. A primeira aborda a questão da biocompatibilidade, que já foi resolvida pela universidade americana. A outra, considerada um gargalo no mundo científico, trata da redução do consumo de energia pelo chip, o que ficará a cargo dos pesquisadores da USP. “Em parceria com o pessoal do sul da Flórida, estamos desenvolvendo novas técnicas para baixar o consumo do chip de forma que, nos próximos quatro ou cinco anos, consigamos

ter um com pouca energia consegündo funcionar dentfo do cérebro”, disse o professor.

A longo prazo

 Depois de desenvolvido, o chipde baixo consumo será testado emratos. “Nossa estimativa é que isso(implantar o chip em ser humanocom sucesso) possa vir a se tornarcorriqueiro no dia a dia em torno de2030. O processo de validação parahumanos leva mais de dez anos. Estamoscom o plano de terminar nossoschips entre 2018 e 2020. A partirdaí, serão mais dez anos de estudos

clínicos para poder validar para uso comercial”, explicou.

O estudo, denominado Interface Neural Implantável, foi aprovado pelo programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal, e tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa

do Estado de São Paulo (Fapesp) “Atualmente temos R$ 250 mil, que acabaram de ser aprovados. E estamos pleiteando mais R$ 2 milhões nos próximos anos. Mas, como vamos usar a fábrica de chip experimental da Flórida, esses R$ 250 mil já vão ser suficientes para fazer os primeiros. Não estamos com carência de recursos . para cumprir essa meta para os primeiros chips, esse orçamento já cobre. Mas estamos pedindo mais orçamentos para aprimorar e construir processos de fabricação industrial aqui”, disse Gazziro.

Além de possibilidade que, no futuro, pessoas com deficiência possam voltar a andar, o projeto pretende impulsionar a pesquisa e a indústria nacional.

“Se esse projeto for bem administrado, mantendo a propriedade intelectual e fazendo a transferência para a industria, ajudará não só as pessoas, mas a indústria médica no país. O interessante seria dar incentivos para que empresas nacionais, via incubadoras, fabricassem esse sistema. Podendo gerar  renda ( para o País), destacou o professor.

 

Hospital de SP pesquisa tratamento para câncer

Os estudos procuram descobrir quais as melhores terapias para os

tumores de pulmão, colorretal e pâncreas

 

O Hospital x.c Camargo, referência no tratamento contra o câncer, iniciou uma pesquisa para identificar padrões nas células tumorais de pacientes com câncer.

O objetivo é desenvolver um marcador sanguíneo capaz de indicar, antes do início do tratamento, a melhor terapia para cada caso. Segundo o patologista Fernando Augusto Soares, quando se estabelece um tratamento mais precoce o resultado é melhor.

De acordo com o pesquisador, os estudos estão em fase inicial e devem levar pelo menos dois anos. Participarão dos testes, 230 pacientes com diferentes tipos de câncer: 100 com câncer colorretal, 100 com câncer de pulmão e 30 com câncer de pâncreas.

Entre os motivos que fizeram com que esses três tipos

da doença fossem escolhidos, está a frequência elevada de ocorrência na pública,Segundo o Instituto”‘Náa’i(filal de Câncer (Inca), o câncer de pulmão é o tipo que mais acomete a população mundial e a mais importante causa de morte por câncer no mundo.

O colorretal é o terceiro tipo de câncer mais comum entre os homens e o segundo mais frequente em mulheres. Já o câncer de pâncreas será pesquisado por ser de difícil detecção.

Outra razão que levou à escolha dos três tipos de cânceres, segundo Fernando, foi por-se tratarem de tumores que, geralmente, encontram-se em estado mais avançado de propagação no corpo.

Ao analisar as células tumorais que circulam pelo organismo, os cientistas esperam estabelecer o significado da presença de diferentes capacidades delas em um

”Ainda vai levar um certo tempo para a gente ter uma perspectiva, mas, hoje, a gente já consegue isolar essas células e determinara frequência delas”.

A pesquisa é inédita no . País, mas estudos já foram feitos para identificar padrões nas células tumorais em outro tipo de câncer por pesquisa- . dores americanos e europeus nos últimos anos. O câncer de mama foi estudado e foram propostas algumas terapias para a doença.

O que impede que a aplicação dos testes seja feita em larga escala, ‘porém, é a ausência de uma metodologia.

“Hoje, é possível fazer isso no laboratório, mas com poucos casos. Para “”a Ir para a população, tem I que ter maior capacidade”. No Brasil, os estudos são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que investirá R$ 700 mil até maio de 2014. Além do coordenador Fernando Soares, que é diretor de Anatomia Patológica do A.C.Camargo, participam da pesquisa Marcello Fanelli, diretor de Oncologia do Hospital e a pesquisadora Ludmilla Domingos Chinen.

 

Os 50 anos da Fapesp

A Fundação de Amparo à Pesquisado Estado de São Paulo (Fapesp) comemora este ano meio século de investimentos em projetos acadêmicos e científicos que beneficiam centros de estudos e universidades paulistas. É um centro de excelência. Entre as principais realizações, destacam-se os financiamentos nos campos do projeto Genoma, inovações na produção do etanol, biodiversidade, sustentabilidade, bioenergia e mudanças climáticas globais. Em 2011, a Fapesp investiu R$912 milhões em pesquisas.

Celso Lafer, presidente da Fapesp, destaca como uma constante nos últimos anos a internacionalização da fundação, por meio de acordos com entidades congêneres no mundo. É uma resposta, segundo ele, ao desafio da interação entre pesquisadores nacionais e estrangeiros, fundamental para o avanço do conhecimento. O diretor científico da entidade, Carlos Henrique de Brito Cruz, afirma que a ciência em São Paulo tem crescido em quantidade e qualidade.

Para marcar os 50 anos de Fapesp, a revista Pesquisa produziu alentado e denso número especial em 258páginas com 50 reportagens relativas a igual número de projetos apoiados pela fundação ao longo de sua história. Aversão digital pode ser lida no site www.revistapesquisa.fapesp.br

Exportações. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) divulgará nesta segunda-feira a participação dos municípios paulistas na pauta de exportação entre janeiro ajunho de 2012.As cinco primeiras posições no rankíng das exportações das regionais do Ciesp, pela ordem, são: São Paulo (capital), São José dos Campos, Santos, São Bernardo do Campo e Campinas. Juntas, elas são responsáveis por 45,6%do total das exportações do Estado de São Paulo. Exportaram US$13,6 bilhões, 3%amais do total exportado no 10semestre de 20l l. Os principais setores exportadores do Estado são: soja, refino de açúcar, veículos automotores, máquinas e equipamentos, peças e acessórios para veículos automotores, produtos derivados de petróleo e aeronaves. Os principais países de destino são: China, Estados unidos e Argentina. Agronegócios. O primeiro Parque Tecnológico do Interior Paulista focado em agronegócio será criado em Barretos, o AgroPark, com investimentos do governo paulista da ordem de R$6,1 milhões. Área será de 1milhão de metros quadrados.

 

Acorrida do Brasil para o padrão-ouro

 

Para o Valor, de São Paulo e Rio o Brasil chega à Olimpíada de Londres, que começa hoje, com 258 atletas e a ambição de entrar, um dia, no seleto grupo dos países que brilham no alto das estatísticas dos jogos. O volume de dinheiro para investir nesse objetivo, de fontes governamentais e privadas, tem crescido, mas é comum a crítica de que falta uma política nacional de aglutinação e distribuição de recursos adequada I à meta de fazer do país uma potência olímpica. O presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Roberto Gesta, reconhece: “Nem se eu tivesse R$ 300 milhões conseguiria melhores resultados. O dinheiro não vale nada sem investimento na base”. Para os jogos de 2016, no Rio, o Comitê Olímpico Brasileiro admite que talvez falte tempo para alimentar o fluxo de novos atletas em todas as modalidades de disputa. O caderno “Eu& Fim de Semana” traz entrevista com o campeão olímpico Lars Grael em “À Mesa com o Valor” .

• Antropóloga diz que investir em jogos só é útil para o capital

• Os atletas viraram modelos pessoais e porta-bandeiras

mento estratégico deles não chega a nós e o

esporte viveum eterno recomeçar,vive de glórias

isoladas.”

Com a ajuda de outro marco no fluxo de investimentos no esporte – a Leide Incentivo ao Esporte, de 2007, que permite que as empresas destinem 1%do imposto de renda a projetos esportivos -, o clube conseguiu aprovar R$72 milhões em projetos de suas modalidades e já captou R$37 milhões. Além disso, conta com os patrocínios da Sabesp, Bradesco, 3M, Asics,Sky e Banco Espírito Santo. “Nem todo esse dinheiro precisa chegar às mãos dos nossos 2,9 mil atletas, mas sim à estrutura que os cerca”, explica Suzana Pasternak, ex-esgrimista e assessora para gestão de recursos ao esporte do clube. Essa estrutura inclui nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, softwares de medição de desempenho, 52 mil metros quadrados de quadras esportivas e duas piscinas olímpicas. “O atleta precisa se concentrar no esporte, não

pode estar permanentemente preocupado com recursos, com burocracias”, afirma Paula. “Ter esse apoio todo permite que a

performance seja o foco.”

É pensando nisso que tanto sua diretoria, que cuida dos recursos da Petrobras, quanto as do Pinheiros, do Minas Clube, do flamengo, pioneiros na gestão esportiva no Brasil,tentam deixar um legado, um formato de administração do dinheiro que chega ao esporte, para que também beneficie aponta da corrente, o atleta, em forma de salário e estrutura. Em seu escritório em São Paulo, a equipe de Paula gerenciou em 2011 quase R$15 milhões da Petrobras. Para isso, criou fluxogramas de 15 procedimentos diferentes, que acompanham a preparação do atleta de alto nível nas competições nacionais e internacionais – contratação de treinadores, viagens, compra de material etc. “Queremos criar um modelo completo, porque cada trâmite é muito dinâmico. Temos que prestar contas precisas ao patrocinador e ao Ministério do Esporte, mas também temos de atender às demandas do atleta, que mudam constantemente,por causa de lesões ou de provas que surgem ao longo do ano”, afirma Paula.

Com processos mais bem acabados, as empresas tendem a se sentir à vontade para investir. O presidente da CBAt,Roberto Gesta, dá a dimensão de como essa mentalidade tem evoluído. Conta que, em uma competição em Manaus, em 1987, conversando com um amigo que era diretor da Coca-Cola,pediu permissão para colocar o logotipo da marca nas pistas de corrida, sem que a empresa tivesse de gastar nada.

Era uma forma de mostrar ao mundo que uma multinacional se interessava pelo esporte. Funcionou. Um mês depois, o atletismo brasileiro conquistava seu primeiro patrocínio, do Açúcar União. Hoje, a atração de corporações dispensa truques como esse. A própria Coca-Cola é uma das que bancam diversas iniciativas.

“Queremos vincular nosso nome aos temas relevantes para o público, especialmente o adolescente, que são a música e o esporte. Por isso, temos um histórico de parcerias com a Copa e a Olimpíada”, diz Michel Davidovich, diretor geral da Coca-Cola para a Copa 2014 e a Rio2016.

A bebida esportiva da Coca-Cola, a Powerade, também patrocina uma equipe

de dez jovens talentos do atletismo e criou o Powerade Team, com pretensões de emplacar alguns deles já nas equipes de 2016. Uma dessas atletas é Tamara de Souza, de 18 anos, campeã juvenil sul-americana de heptatlo, 6 melhor do mundo no ranking juvenil e 23il melhor do mundo no adulto. Seu interesse pelo esporte começou ainda quando menina, na Cidade de Deus, no Rio,pelo futebol, mas “só chutava o chão”. Aos poucos, foi migrando para o salto em distância e, enfim, para o heptatlo. Hoje, conta com uma equipe composta de treinadora, nutricionista, fisioterapeuta, médico e psicólogo para desenvolver seu potencial.  “Com tudo isso, posso sonhar em beliscar uma medalha em 2016″, diz a garota.

O dinheiro público, porém, ainda é o energético mais abundante. Se é fato que o Estado se tomou o principal financiado r do esporte de alto rendimento, também está claro que não há uma política de alcance nacional estabelecida para o desenvolvimento do esporte no país.

O que há é o patrocínio das estatais. Hoje, oito empresas financiam 22 modalidades: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, lnfraero, Correios, Eletrobrás BNDESjCasa da Moeda. Os Correios têm contratos com os esportes aquáticos e o tênis, nos quais investiu, entre 2011 e 2012, R$ 16 milhões e R$ 5,7 milhões, respectivamente. A Caixa prevê investimentos de R$ 62,5 milhões, entre 2011 e 2012, na preparação das seleções de atletismo, ginástica, luta e de esportes paraolímpicos. A Petrobras banca, por meio do projeto Esporte e Cidadania, 110 atletas, divididos entre boxe (26), esgrima (16), levantamento de peso (20), remo (24) e taekwondo (24), com bolsas- auxílio que variam entre R$3,1 mil e R$ 1.250. O total do investimento deve ultrapassar os R$18 milhões em 2012. A estatal, que deve levar20 atletas a Londres,mantém ainda projetos de esporte educacional e de memória do esporte.

Essa memória tem uma guardiã. A professora e psicóloga Kátia Rubio, coordenadora do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano, da Universidade de São Paulo (USP), elabora, há 12 anos, um censo do esporte olímpico brasileiro, com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Ao grupo de pesquisa, interessa entrevistar todos os atletas que foram a uma edição olímpica, mesmo que não tenham competido ou que tenham participado em modalidade de demonstração. Cerca de 700 entrevistas já foram realizadas. “Uma conclusão é que o brasileiro é formado para ir à Olimpíada, não para ganhar”, diz Katia.

Por aqui, o discurso afirmativo, vencedor, é visto como arrogância. Com isso, dos 1.677 atletas que foram aos jogos, apenas 281 voltaram com medalhas – quando se desdobra o número de 91 medalhas entre os representantes de esportes coletivos. A professora diz que aquela imagem do atleta que treina descalço, nos fundos do Brasil, ainda é mais representativa do esporte nacional do que a do sucesso de um Cesar Cielo. “Nunca tivemos tanto dinheiro, mas o atleta nem sempre tem acesso a ele. Conheço casos de atletas que venderam sua casa, dormem no carro, para poder competir em alto nível, porque a verba está parada nas mãos da ONG que deveria ajudá-los”, relata.

Não se transforma alguém em atleta de ponta em menos de dez anos. Por isso, o Brasil lida ainda com “as sobras” do modelo anterior à lei 10.264, acredita Katia. “A iniciação esportiva, hoje nas mãos dos clubes, não consegue estabelecer um elo com as universidades e, de uma maneira geral, o acesso aos clubes é muito restrito”, diz. Ela se coloca entre os defensores de uma política de governo para o esporte. Por enquanto, o Ministério distribui dinheiro, as estatais fazem o mesmo e o COB gerencia o dinheiro da lei 10.264. Resultado: cada um aplica como quer, sem um plano integrado, com metas bem definidas. “Para 2016, contratamos a banda antes da festa. O Brasil acha que pode dar jeitinho em tudo, mas não tem como dar jeitinho em resultados, em desempenho,” Em contrapartida, ela crê que deve haver uma guinada na mentalidade dos esportistas, tanto para um espírito mais vencedor quanto para uma preparação mais sólida para o pós-ápice.

Essa cabeça voltada para a vitória vem  sendo moldada aos poucos – e pelo marketing. Um ídolo do esporte, hoje, deve ter, além de resultados, carisma para “se vender”, principalmente nas redes sociais, e, assim, atrair patrocínio. “Orientamos nossos atletas a se comunicar de uma forma que aproxime os fãs e, a partir daí, podemos buscar mais financiadores e contratos de trabalho melhores”, observa Alexandre Folhas, sócio-diretor da MVPSports, empresa de marketing esportivo que gerencia as carreiras de atletas como Paula Pequeno, do vôlei, e Fabiana Mürer, do salto com vara. Falta moldar melhor a cabeça do pós-ápice.

Em diversas modalidades, aos 30 anos o atleta já está velho. Se aos 16 começou a ganhar algum dinheiro, o que é raro, teve 14 anos de carreira. Em muitos casos, tornou-se arrimo de família logo cedo. Não poupou. Não estudou. E, além de tudo, tem de lidar com o baque de parar de competir. “Comecei a me preparar para deixar o esporte dois anos antes”, lembra Paula. “Os atletas pensam pouco na transição para outra carreira. O meu projeto, por exemplo, tem bolsa de estudos para os atletas. Se tem 15 que usam, é muito.” A opção mais comum dos que escolhem fazer um curso universitário é pela educação física ou fisioterapia. Mas ainda sã poucos os que conseguem dar esse salto para uma nova profissão. O COBcriou um departamento de educação pensando em ajudar esses atletas. É dividido em um programa de gestores, que inclui o curso avançado de gestão esportiva, em sua terceira edição; uma academia de treinadores, que capacita técnicos, tanto para a formação quanto para o alto rendimento; e em um programa de apoio a atletas, que contempla a transição de carreira. Este último começou em dezembro do ano passado e já conta com 11 atletas, entre eles Maurren Maggi e Daiane dos Santos, que acompanham histórias de transição bem-sucedidas e são treinados para fazer a sua própria. “O Comitê Olímpico Internacional valoriza essa iniciativa, mas não a exige. É uma medida nossa”, diz Soraya Carvalho, ex-ginasta e coordenadora do departamento.

A expectativa de quem lida diariamente com o esporte no Brasil é que, aos poucos, uma nova geração de gestores seja formada. Essa pode ser uma maneira de melhorar a vida do atleta da base, já que ex-esportistas estariam no comando e olhariam com carinho para isso; do atleta de alto rendimento, cercado de gerentes competentes; e do próprio ex-atleta, que encontraria uma forma de permanecer ligado ao esporte mesmo sem competir.

“Ainda não temos diálogo no esporte. Cada um age por si.Mas já está pintando uma turma antena da, que conversa, pensa no macro, tanto de jovens atletas quanto de veteranos”, diz Paula.Quem sabe, assim e com a ajuda do tempo, a única commodity com que o atleta brasileiro tenha de se preocupar seja a do ouro de suas medalhas.

 

Um “sonho que começou mais tarde”

 

Sou atleta desde que notei que tinha pés”, define-se Sandro

Viana, de 35 anos, velocista do Clube Pinheiros. Sua carreira, porém, contradiz sua autopercepção. Até os 24 anos, Viana havia experimentado apenas o atletismo de quintal, de rua, jogando bola e andando de bicicleta com os amigos, em Manaus, sua terra natal. Numa pelada de 5 contra 5, um de seus colegas desistiu do jogo para ir à Vila Olímpica da cidade e assistir ao Meeting Internacional de Manaus. Viana embasbacou- se vendo Claudio Quirino correr e vencer. Pensou em fazer um teste e convenceu- se com o seguinte argumento: “Lá em frente de casa, sou invicto”. Numa disparada de 60 metros, já bateu os recordes locais. Alguns treinadores brasileiros começaram o assédio, mas os cubanos, importados para dar experiência aos demais, desanimaram Viana, por causa de sua idade. Ele insistiu

Quatro anos e dois títulos brasileiros universitários depois, o esguio amazonense decidiu ousar. Vendeu tudo o que tinha – sapateira, máquina de lavar, IV – sem avisar a mulher, comprou uma passagem só de ida para São Paulo e chegou à metrópole no dia de seu aniversário, 26 de março, em 2005. “Tinha o suficiente para sobreviver seis meses, gastando R$ 6,50 por dia”, lembra-se. Ele havia pesquisado na internet quem era o melhor técnico de atletismo da atualidade e encontrou o nome de Katsuhico Nakaya. Foi ao ginásio do Ibirapuera convencer o treinador a trabalhar com ele. “Mas eu não treino a distância, onde você vai comer, dormir?” Aos 28 anos, Viana começava do zero. Morou no alojamento do lbirapuera por cinco meses. A vitória no revezamento 4×100 m no Pari-Americano de 2007, no Rio, e mais 88 viagens em 2008, credenciaram atleta a ir a Pequim. No revezamento,

conseguiu um honroso quarto lugar.

No individual, nas provas de 100 e 200 metros, não conseguiu chegar às finais. “Ir para a Olimpíada foi a realização de um sonho para mim também. Só que um sonho que começou mais tarde.”

Hoje, Viana está classificado novamente para o revezamento em Londres e para os 200 m individual. Desde 2008, consegue ganhar dinheiro  como atleta e sua primeira providência foi repor tudo o que havia vendido para correr atrás de sua vocação. Sabe que a carreira de atleta é curta e a sua está próxima do fim. Por isso, quer concluir a faculdade de economia, iniciada ainda em Manaus. Para quem viveu com menos de R$ 10 por dia em São Paulo, parece que, de fato, economia é o segundo maior talento de Viana. (FI).

 

A menina que treina com os ídolos

 

As costas largas e o andar meio duro pelos tatames do Clube Pinheiros poderiam esconder a meninice da judoca Flávia Gomes, de 18 anos. Mas, logo no primeiro sorriso metálico e no suspiro ao falar dos ídolos do judô com quem treina hoje, nota-se que uma das grandes promessas do esporte para 2016 é uma moleca. No melhor sentido.

Foi meio por tédio que ela começou a lutar. Sua família se mudou para uma cidade pequena do interior de São Paulo e, para não ficar trancada em casa, sem fazer nada, seus pais matricularam a menina numas aulas de judô. Como lutava com os meninos, ela apanhava bastante. Ainda assim, já de volta à capital, começou a competir. Em 2005, ficou tão abalada por ter perdido o campeonato paulista que decidiu que no ano seguinte seria campeã. E foi. Ah, e foi também campeã brasileira. “Foi quando comecei a treinar com os adultos, aos 12 anos. Chorei muito no primeiro dia, um sábado. Mas na segunda estava lá.”

Desde então, seu currículo cresce exponencialmente. Sóem 2008, levou os títulos paulista, brasileiro e pan-americano. Em 2011, foi campeã brasileira e pan-americana na categoria 57 kg júnior e convidada a ir para o Pinheiros’ onde estão quatro dos sete judocas da seleção masculina. Quando se lembra do pai fazendo rifa para que ela viajasse, e de ela própria juntando latinha para vender e financiar sua carreira, quase não acredita que hoje é uma das apostas do judô brasileiro. “É um peso saber que você é uma promessa. Mas é também um incentivo. Ehoje eu treino com meus ídolos, tenho toda a estrutura”, conta Flávia, que estuda fisioterapia. “Mas o esporte é minha vida, minha profissão.” (FI).

 

Os primos no topo do ranking juvenil

Eles são primos”, diz o professor de educação física Roberto Prata. “Mas, mesmo se não fossem, Silva é o sobrenome mais comum da escola.” Prata está falando de Luís Gabriel e Vitor Hugo, de 17 e 16 anos. Um mais atarracado, tipo [esse Owens, outro bem alto, tipo Usain Bolt. Ambos ex-alunos

da Escola Municipal Silveira Sampaio, na periferia do Rio, e hoje parte da equipe BRF,patrocinada pela BRFoods e comandada pelo treinador Paulo Servo. Na família deles, a paixão pelo esporte sempre foi motivada Um avô e um tio atletas no Exército, um outro primo fundista, uma irmã que levanta

peso – em algum canto, sempre tem um Silva se arriscando em alguma modalidade.

A carreira dos dois começou ali, numa pista de 80 metros, feita de asfalto, nos fundos da escola. Vitor Hugo tinha de usar três palmilhas nos tênis largos demais, emprestados. “O mais triste, mesmo, é acordar cedo”, ri. “Ver meus amigos brincando de bola, de bolinha de gude, de pipa, e eu tendo que vir treinar.” São meninos forçados a ser adultos em nome do atletismo. Luís Gabriel, por exemplo, foi comemorar o prêmio de atleta destaque 201 O do Rio empinando pipa. Enroscou-se na linha, cortou o tendão e quase teve de interromper a promissora carreira. “Levei quase um ano para ficar 100%de novo”, lembra-se.

Assim, Luís Gabriel e Vitor Hugo estão hoje no topo do ranking juvenil de revezamento 4×100 da CBAt, e representaram o Brasil no Mundial Juvenil em Barcelona, entre os dias 10 e 16. Talvez, em 2016, ainda não estejam prontos para brilhar nas pistas do Rio, mas garantem que estarão no auge em 2020.

 

Sintonizadas no mesmo objetivo

 

A rima dos nomes não é proposital. Diferentemente da rima de seus movimentos na piscina. Lara e Nayara são as representantes brasileiras do nado sincronizado desde 2007. Uma carioca, de 24 anos, e uma paulista, de 23, em sintonia; uma incentivada pelos pais, a outra pela avó.Ambas dedicadas a treinar, desde 2009, sete horas por dia nas águas do Clube Paineiras, no Morumbi, em São Paulo, com um único objetivo: chegar à final da prova de duetos em Londres. “Temos muita chance. Terminamos o pré-olímpico em nono, ao lado da França, e a final é com 12 duplas”, empolga- se Nayara.

Esse otimismo é oxigênio recente na empreitada das duas moças. Depois de Pequim, elas chegaram a cogitar desistir do esporte. Naquela época, Lara vivia no Rio, Nayara em São Paulo, e o apoio dos Correios não era o suficiente para  manter as viagens para treino, competições e um sossego financeiro para as duas. Mas não existe atleta brasileiro que não persista. Então, elas optaram por seguir ao menos até Londres. E, neste ano, veio o alento. Além do patrocínio

da estatal, o empresário Roberto Ribeiro,da empresa de consultoria Asterisco, decidiu investir nas garotas. Elas o chamam frequentemente de “anjo da guarda”. Lara,que é formada em administração e pensa em ser gestora esportiva no futuro, e Nayara, que quer terminar a faculdade de educação física, hoje já conseguem pensar em 2016. “Não descartamos continuar. Agora, conseguimos relaxar”, diz Lara, sorrindo, depois de duas horas de treino numa piscina gelada, debaixo de chuva. (FI)

 

 SALTO PARA O PADRÃO OURO

Há recursos e iniciativas bem-sucedidas, mas

as ambições do esporte brasileiro ainda não

alcançam a dimensão que tornaria a formação

de atletas um objetivo de todos os dias. Por

Flávia Tavares, para o Valor, de São Paulo e Rio

O navio “Itaquicê” aportou em Los Angeles naquele 1932 com 82 orgulhosos atletas brasileiros, 81 rapazes e uma moça, que representariam o país na Olimpíada. O brilho em seus rostos era produto do suor que brotou da venda que foram obrigados a fazer, nas paradas do navio ao longo de um mês de jornada, de parte das 55 mil sacas de café embarcadas no cargueiro. Olucro serviria para custear sua ida aos Estados Unidos, no contexto do pós-crash de 1929. Quem não tinha habilidades financeiras não desembarcou. Apenas 67 deles participaram daqueles jogos. Oito décadas depois, o Brasil está hoje em sua 21 ª participação nos Jogos Olímpicos, agora em Londres. Os 258 atletas que daqui partiram não tiveram de negociar commodities para financiar sua performance. O que não os toma menos mercadores

si mesmos. Do entusiasmo com a brincadeira de pega-pega no pátio da escola ao alto rendimento de um índice olímpico, os brasileiros que escolhem a carreira de atleta ainda precisam de muito talento para obter, manter e fazer render o dinheiro destinado ao esporte.

“O esporte evolui constantemente. Mas falta ao Brasil decidir o que quer, elaborar uma política pública nacional para o esporte”, diz Paula Gonçalves, a Magic Paula, ex-integrante da seleção brasileira de basquete,hoje diretora-executiva do projeto Esporte e Cidadania da Petrobras, que gerencia o patrocínio da estatal para cincomodalidades olímpicas. Enquanto essa política não vem, a construção da carreira de atleta depende de um fluxo de responsabilidades, comandos e investimentos. Aos papéis do atleta, que são treinar, competir e, preferencialmente, ganhar, somam-se os de diversas esferas. As escolas, com seus professores de educação física e a tarefa de despertar o prazer do jogo; as universidades, que em muitos países completam a formação do desportista; os clubes, ambiente onde esses potenciais se desenvolvem; as federações e confederações, que lidam com o profissional já lapidado; e os patrocinadores, estatais ou privados, que bancam tudo ISS.

Se, por um lado, o esporte brasileiro nunca teve tanto dinheiro, por outro, em alguns pontos dessa corrente há lacunas que ainda impedem que o país seja uma potência olímpica e seus atletas, profissionais completos. Além disso, por ter um perfil piramidal, em que poucos chegam ao topo, a carreira de atleta deixa pelo caminho uma multidão sem acesso ao maior filão dos recursos. Há, por , um marco fundamental, que começou a mudar as perspectivas do esporte brasileiro: a lei 10.264, de 2001, que estabelece que 2%da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país sejam repassados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que fica com 85%,e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), destino do restante. Em 2012, o COBestima em R$ 145 milhões a parte que\ lhe caberá, nos termos da lei.

O repasse desses recursos para as confederações de esportes olímpicos depende de uma série de critérios, entre eles, o desempenho do Brasil nas diferentes áreas – as modalidades com maior destaque recebem mais dinheiro. “É uma questão de planejamento. As confederações mais bem estruturadas, que têm melhores resultados, gestão e um plano bem traçado para manter e aumentar esse sucesso, são nosso foco”, explica Marcus Vinicius Freire, ex-jogador de vôlei da seleção de prata de 1984 e atual superintendente executivo de esportes do COE.

Assim, o atletismo, o vôlei e os esportes aquáticos, por exemplo, devem receber R$ 3,2 milhões cada neste ano. E o levantamento de peso e o tiro com arco, R$ 1,3 milhão. Cabe a cada confederação definir como esse

dinheiro será usado, a partir de um plano quadrienal apresentado ao COE. “Essa grana vai, principalmente, para a organização de campeonatos e para a equipe olímpica. E os outros milhares de atletas que praticam o esporte, como ficam?”, pergunta Mauro Silva, presidente da Confederação Brasileira de Boxe, que recebeu R$2 milhões. Mesmo quem é destinatário de uma fatia generosa do bolo reconhece que pode faltar fermento. O presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Roberto Gesta, costuma usar uma frase para ilustrar as dificuldades do atletismo brasileiro: “Nem se eu tivesse R$ 300  milhões conseguiria melhores resultados. O dinheiro não vale de nada sem um investimento na base”. É opinião corrente que o Brasil tarda em cuidar dos atletas mirins, da formação de desportistas, da base da pirâmide. “O legado da Copa de 2014 e da Rio 2016 tem de ser social e tem de ser o impacto nas escolas”, corrobora Hortência Marcari, ex-jogadora de basquete e diretora de seleções femininas da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Na Escola Municipal Silveira Sampaio, no Rio, a opção foi não esperar por soluções externas. Com abnegação, uma equipe de 12 professores de educação física treina atletinhas de 10 a 15 anos em modalidades como atletismo, levantamento de peso, futsal, tênis de mesa, handbol, basquete e vôlei. ‘Juntamos dinheiro para levar os alunos aos campeonatos, pagar um tênis para quem não tem, comprar o lanche. Tudo porque acreditamos que o esporte molda o caráter das crianças, desperta a liderança e a sociabilidade”, diz Roberto Prata, um desses professores.

Resultado: a Silveira Sampaio é campeã dos Jogos Estudantis há 12 anos consecutivos. E já colocou atletas seus na seleção brasileira de atletismo e de levantamento de peso. “Foi aqui que eu recebi todo meu treinamento, virei um profissional graças à dedicação desses professores”, conta Douglas Santos Costa, de 22 anos, hoje levantador de peso da seleção. Os alunos que se destacam no atletismo na escola são direcionados para a equipe do projeto Lançar-se para o Futuro, patrocinado pela Brasil Foods, e comandado pelo treinador Paulo Servo, ex-professor da Silveira Sampaio. Mas a escola praticamente não tem apoio. Para tentar conquistar patrocínios e escapar da burocracia por ser uma escola pública, os professores criaram uma ONG, a Cia. Cadê. Ainda sem sucesso.

Iniciativas isoladas como essa podem não ser suficientes. O próprio COB reconhece  que talvez falte tempo para alimentar o fluxo de novos atletas em todas as modalidades olímpicas até 2016. Embora 10%dos recursos da lei 10.264 sejam voltados para o esporte educacional, que incluia organização de olimpíadas escolares e universitárias e a mobilização de 2 milhões de crianças por ano, o comitê considera que seu papel seja o de lidar com os atletas de ponta e não necessariamente com sua formação. “Estamos centrados em tomar o Brasil uma das dez potências olímpicas e ganhar entre 24 e 32 medalhas até 2016. Para isso, precisamos nos concentrar no alto rendimento dos esportes em que já temos tradição e nos que temos potencial de medalhas”, diz Marcus Vinicius Freire. Assim, os gastos do COB com o alto rendimento no quadriênio olímpico de 2005 a 2008 foram de US$ 250 milhões.

De 2009 a 2012, devem ser de US$350 milhões, e de 2013 a 2016, de US$ 770 milhões. “Mas a base é responsabilidade do governo e dos clubes”, acrescenta

O Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, vem chamando para si essa tarefa. Além de procurar talentos entre os associados, estabeleceu uma parceria com os 44 Centros Educacionais Unificados (CEUs) de São Paulo, por meio do projeto Brincando de Atletismo, desde 2008, para capacitar professores da rede pública e treinar crianças de 8 a 12 anos. Um evento em dezembro de cada ano celebra a iniciativa – em 2011, 150 crianças de seis CEUs competiram entre si. Eem 2012 a parceria se expandiu, com a Prefeitura de Jundiaí. “Queremos ter 400 alunos competindo em dezembro deste ano. Se conseguirmos tirar daí um atleta olímpico.jâ teremos

cumprido nossa missão”, diz o treinador Cláudio Castilho, supervisor técnico de atletismo competitivo do Pinheiros. Paralelamente à formação, o clube investe nos atletas de ponta das 16 modalidades olímpicas que abriga. Desde 2003, traçou planos

para voltar à elite do atletismo, por exemplo. Naquele ano, o Pinheiros estava em 292 lugar no ranking do Troféu Brasil, principal competição do atletismo brasileiro. Agora, é vice-campeão pelo terceiro ano consecutivo, perdendo apenas para a equipe BMF&Bovespa, há dez no topo. Os melhores resultados

também atraíram patrocinadores e, assim, o dinheiro do clube, que é uma entidade não lucrativa, passou a chegar cada vez mais ao atleta. “Hoje, o atleta bom e excelente vive do esporte, está profissionalizado. O mercado também se abriu para treinadores estrangeiros, capacita melhor os brasileiros e os atletas têm acesso à tecnologia de ponta do esporte”, diz Castilho. “Mas ainda falta muito. O discurso do COB não condiz com a prática, o planejamento  estratégico deles não chega a nós e o esporte viveum eterno recomeçar,vivede glórias isoladas.”

Com a ajuda de outro marco no fluxo de investimentos no esporte – a Leide Incentivo ao Esporte, de 2007, que permite que as empresas destinem 1%do imposto de renda a projetos esportivos -, o clube conseguiu aprovar R$72 milhões em projetos de suas modalidades e já captou R$37 milhões. Além disso, conta com os patrocínios da Sabesp, Bradesco, 3M, Asics,Sky e

Banco Espírito Santo. “Nem todo esse dinheiro precisa chegar às mãos dos nossos 2,9 mil atletas, mas sim à estrutura que os cerca”, explica Suzana Pasternak, ex-esgrimista e assessora para gestão de recursos ao esporte do clube. Essa estrutura inclui nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, softwares de medição de desempenho, 52 mil metros quadrados de quadras esportivas e duas piscinas olímpicas. “O atleta precisa se concentrar no esporte, não pode estar permanentemente preocupado com recursos, com burocracias”, afirma Paula. “Ter esse apoio todo permite que a performance seja o foco.”

É pensando nisso que tanto sua diretoria, que cuida dos recursos da Petrobras, quanto as do Pinheiros, do Minas Clube, do flamengo, pioneiros na gestão esportiva no Brasil,tentam deixar um legado, um formato de administração do dinheiro que chega ao esporte, para que também beneficie a

ponta da corrente, o atleta, em forma de salário e estrutura. Em seu escritório em São Paulo, a equipe de Paula gerenciou em 2011 quase R$15 milhões da Petrobras. Para isso, criou fluxogramas de 15 procedimentos diferentes, que acompanham a preparação do atleta de alto nível nas competições

nacionais e internacionais – contratação de treinadores, viagens, compra de material etc. “Queremos criar um modelo completo, porque cada trâmite é muito dinâmico. Temos que prestar contas precisas ao patrocinador e ao Ministério do Esporte, mas também temos de atender às demandas do atleta, que mudam constantemente, por causa de lesões ou de provas que surgem ao longo do ano”, afirma Paula.

Com processos mais bem acabados, as empresas tendem a se sentir à vontade para investir. O presidente da CBAt,Roberto Gesta, dá a dimensão de como essa mentalidade tem evoluído. Conta que, em uma competição em Manaus, em 1987, conversando com um amigo que era diretor da Coca-Cola,pediu permissão para colocar o logotipo da marca nas pistas de corrida, sem que a empresa tivesse de gastar nada.

Era uma forma de mostrar ao mundo que uma multinacional se  interessava pelo esporte. Funcionou. Um mês depois, o atletismo brasileiro conquistava seu primeiro patrocínio, do Açúcar União.

Hoje, a atração de corporações dispensa truques como esse. A própria Coca-Cola é uma das que bancam diversas iniciativas. “Queremos vincular nosso nome aos temas relevantes para o público, especialmente o adolescente, que são a música e o esporte. Por isso, temos um histórico de parcerias com a Copa e a Olimpíada”, diz Michel Davidovich, diretor geral da Coca-Colapara a Copa 2014 e a Rio2016.

A bebida esportiva da Coca-Cola, a Powerade, também patrocina uma equipe de dez jovens talentos do atletismo e criou o Powerade Team, com pretensões de emplacar alguns deles já nas equipes de 2016. Uma dessas atletas é Tamara de Souza, de 18 anos, campeã juvenil sul-americana de heptatlo, 6il melhor do mundo no ranking juvenil e 23il melhor do mundo no adulto. Seu interesse pelo esporte começou ainda quando menina, na Cidade de Deus, no Rio,pelo futebol, mas “só chutava o chão”. Aos poucos, foi migrando para o salto em distância e, enfim, para o heptatlo. Hoje, conta com uma equipe composta de treinadora, nutricionista, fisioterapeuta, médico e psicólogo para desenvolver seu potencial. “Com tudo isso, posso sonhar em beliscar uma medalha em 2016″, diz a garota.

O dinheiro público, porém, ainda é o energético mais abundante. Se é fato que o Estado se tomou o principal financiado r do esporte de alto rendimento, também está claro que não há uma política de alcance nacional estabelecida para o desenvolvimento do esporte no país.

O que há é o patrocínio das estatais. Hoje, oito empresas financiam 22 modalidades: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, lnfraero, Correios, Eletrobras, BNDESjCasa da Moeda. Os Correios têm contratos com os esportes aquáticos e o tênis, nos quais investiu, entre 2011 e 2012, R$

16 milhões e R$ 5,7 milhões, respectivamente. A Caixa prevê investimentos de R$ 62,5 milhões, entre 2011 e 2012, na preparação das seleções de atletismo, ginástica, luta e de esportes paraolímpicos. A Petrobras banca, por meio do projeto Esporte e Cidadania, 110 atletas, divididos entre boxe (26), esgrima (16), levantamento de peso (20), remo (24) e taekwondo (24), com bolsas- auxílio que variam entre R$3,1 mil e R$ 1.250. O total do investimento deve ultrapassar os R$18 milhões em 2012. A estatal, que deve levar20 atletas a Londres,mantém ainda projetos de esporte educacional e de memória do esporte.

Essa memória tem uma guardiã. A professora e psicóloga Kátia Rubio, coordenadora do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano, da Universidade de São Paulo (USP), elabora, há 12 anos, um censo do esporte olímpico brasileiro, com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ao grupo de pesquisa, interessa entrevistar todos os atletas que foram a uma edição olímpica, mesmo que não tenham competido ou que tenham participado em modalidade de demonstração. Cerca de 700 entrevistas já foram realizadas. “Uma conclusão é que o brasileiro é formado para ir à Olimpíada, não para ganhar”, diz Katia.

Por aqui, o discurso afirmativo, vencedor, é visto como arrogância. Com isso, dos 1.677 atletas que foram aos jogos, apenas 281 voltaram com medalhas – quando se desdobra o número de 91 medalhas entre os representantes de esportes coletivos. A professora diz que aquela imagem do atleta que treina descalço, nos fundos do Brasil, ainda é mais representativa do esporte nacional do que a do sucesso de um Cesar Cielo. “Nunca tivemos tanto dinheiro, mas o atleta nem sempre tem acesso a ele. Conheço casos de atletas que venderam sua casa, dormem no carro, para poder competir em alto nível, porque a verba está parada nas mãos da ONGque deveria ajudá-los”, relatada não se transforma alguém em atleta de ponta em menos de dez anos. Por isso, o Brasil lida ainda com “as sobras” do modelo anterior à lei 10.264, acredita Katia. “A iniciação esportiva, hoje nas mãos dos clubes, não consegue estabelecer um elo com as universidades e, de uma maneira geral, o acesso aos clubes é muito restrito”, diz. Ela se coloca entre os defensores de uma política de governo para o esporte. Por enquanto, o Ministério distribui dinheiro, as estatais fazem o mesmo e o COBgerencia o dinheiro da lei 10.264. Resultado: cada um aplica como quer, sem um plano integrado, com metas bem definidas. “Para 2016, contratamos a banda antes da festa. OBrasil acha que pode dar jeitinho em tudo, mas não tem como dar jeitinho em resultados, em desempenho,” Em contrapartida, ela crê que deve haver uma guinada na mentalidade dos esportistas, tanto para um espírito mais vencedor quanto para

uma preparação mais sólida para o pós-ápice

Essa cabeça voltada para a vitória vem sendo moldada aos poucos – e pelo marketing. Um ídolo do esporte, hoje, deve ter, além de resultados, carisma para “se vender”, principalmente nas redes sociais, e, assim, atrair patrocínio. “Orientamos nossos atletas a se comunicar de uma forma que

aproxime os fãs e, a partir daí, podemos buscar mais financiadores e contratos de trabalho melhores”, observa Alexandre Folhas, sócio-diretor da MVPS ports, empresa de marketing esportivo que gerencia as carreiras de atletas como Paula Pequeno, do vôlei, e Fabiana Mürer, do salto com vara.

Falta moldar melhor a cabeça do pós-ápice. Em diversas modalidades, aos 30 anos o atleta já está velho. Se aos 16 começou a ganhar algum dinheiro, o que é raro, teve 14 anos de carreira. Em muitos casos, tornou-se arrimo de família logo cedo. Não poupou. Não estudou. E, além de

tudo, tem de lidar com o baque de parar de competir. “Comecei a me preparar para deixar o esporte dois anos antes”, lembra Paula. “Os atletas pensam pouco na transição para outra carreira. Omeu projeto, por exemplo, tem bolsa de estudos para os atletas. Se tem 15 que usam, é muito.”

A opção mais comum dos que escolhem fazer um curso universitário é pela educação física ou fisioterapia. Mas ainda são poucos os que conseguem dar esse salto para uma nova profissão. O COB criou um departamento de educação pensando em ajudar esses atletas. É dividido em um programa

de gestores, que inclui o curso avançado de gestão esportiva, em sua terceira edição; uma academia de treinadores, que capacita técnicos, tanto para a formação quanto para o alto rendimento; e em um programa de apoio a atletas, que contempla a transição de carreira. Este último começou em dezembro do ano passado e já conta com 11 atletas, entre eles Maurren Maggi e Daiane dos Santos, que acompanham histórias de transição bem-sucedidas e são treinados para fazer a sua própria. “O Comitê Olímpico Internacional valoriza

essa iniciativa, mas não a exige. É uma medida nossa”, diz Soraya Carvalho, ex-ginasta e coordenadora do departamento.

A expectativa de quem lida diariamente com o esporte no Brasil é que, aos poucos, uma nova geração de gestores seja formada. Essa pode ser uma maneira de melhora a vida do atleta da base, já que ex-esportistas estariam no comando e olhariam com carinho para isso; do atleta de alto rendimento, cercado de gerentes competentes; e do próprio ex-atleta, que encontraria uma forma de permanecer ligado ao esporte mesmo sem competir.

“Ainda não temos diálogo no esporte. Cada um age por si.Mas já está pintando uma turma antena da, que conversa, pensa no macro, tanto de jovens atletas quanto de veteranos”, diz Paula.Quem sabe, assim e com a ajuda do tempo, a única commodity com que o atleta brasileiro tenha de se preocupar seja a do ouro de suas medalhas.

veja 17-07

VEJA

Álcool na adolescência

A reportagem”Vergonha nacional” (11 de julho) mostrou O lado obscuro do consumo de bebida. Tenho 18 anos e desde, os 15 vejo essas tristes cenas com alguns meus colegas; Asleis têm de ser mais severas para os menores.não somente em relação ao consumo de álcool, mas também no que diz respeito aos crimes.

ALYSON RIBEIRO

Maracai, SP

 

Até quando o sofrimento e as tragédias causados pela as bebidas alcoólica vão continuar assolando a nossa sociedade? Família e poder público precisam agir rápido e severamente.

TÂNIA TAVARES VIEIRA.

Manaus, AM

 

Não adianta taparmos o sol com a peneira. Ë necessário dizer que os responsáveis pelas bebedeiras precoces dos filhos são, na maior parte das vezes, os pais. Ë  muito triste essa parte das vezes, os pais.  Ë muito triste essa realidade, infelizmente, hoje a maioria dos pais diz não ter tempo para ficar com os  filhos, mas não confessar tamanha incapacidade e negligência na educação deles. Em algumas situações, dizer “não” é uma formidável prova de amor dos pais.

JOSÉ OSCAR DA SILVA LOPES

Uberaba, MG

 

Meus amigos e eu,pais de1llhos nobres, respeitamos a lei, o que mostra ~ pelo

menos alguns pais brasileiros se preocupam, e muito, com a questão mostrada na reportagem da VEJA.

RICARDO R. G LEMOS

Salvador, BA

 

Se temos algo a imitar dos Estados Unidos não é a proibição, mas a punição. Temos de ensinar nossos adolescentes  a ter responsabilidade, exigindo que;’o, menor

deidade, bêbado ou são, responda integralmente pelos seus atos; .

CAMAL ZURBA

Tubarão, se

 

Depois de quarenta anos de trabalho, ganho 1 700 reais de aposentadoria. Ë o mesmo valor que um mãe da de mesada a um filho adolescente citado na reportagem, que usa o dinheiro para beber e farrear com os amigos no Rio de Janeiro. Nesse pais de desnível social a é vergonhoso, cada um usa o seu dinheiro como quiser. Mas desejo sinceramente que essa mãe abra os olhos enquanto é tempo. ser mãe é ficar 24 horas de olho aberto , dando educação e limites aos filhos, para que eles se tornem pessoas de bem.

MARIA APARECIDA ALVES RODRIGUES

São Paulo, SP

Estamos “enxugando gelo, pois, enquanto recuperamos alguns jovens, outros milhares estão no caminho da autodestruição. Até quando?

JOSÉ ELIAS AIEX NETO

Médico psiquiatra

Centro de Atenção Psicológica Álcool e Drogas Solidariedade

Foz de Iguaçu, PR

 

Federico Franco

Excelente entrevista com o presidente do Paraguai, Federico Franco (“Os generais foram fiéis à pátria”, 11 de julho). AS palavras dele formam uma ilha de serenidade no mar de insensatez vindo dos países vizinhos. O Paraguai fez a opção certa ao remover democraticamente o bufão Fernando Lugo do poder. Em vez de responder às ofensas gratuitas de Hugo Chávez e Cristina Kírchner, Franco ressalta seu compromisso com a normalidade democrática e seus laços com o Brasil. Deu uma aula de visão política e integridade. Já o Brasil perdeu mais uma grande chance de se destacar como liderança latinoamericana e reconhecer o óbvio: a legitimidade do processo político de um país amigo e soberano. Que os paraguaios saibam que há inúmeros brasileiros que discordam da forma como o governo brasileiro agiu nesse processo.

ROLAND BROOKS COOKE

Petrópolis, RJ

 

O presidente paraguaio destacou com lucidez a defesa da liberdade de expressão, a proteção ao presidente afastado e a diplomacia com os demais integrantes do Mercosul. Seu pensamento desenvolvimentista e agregador é um lampejo de esperança nessa região do planeta tão carente de líderes que mostrem algo mais do que discursos populistas e tendências ditatoriais.

DANIL PLAC1DO CAMILO JUNIOR

Brasília,DF

 

Infelizmente, a diplomacia brasileira está enveredando pelo caminho de aceitar as atitudes ditatoriais do títere venezuelano.

CARL   OS LUZIO AFFONSO

Belém, PA

 

Entrevista fantástica. Aliar-se a Hugo Chávez e Cristina Kircbner é um fracasso diplomático. E os brasiguaios? Meio milhão de brasileiros nada significam para o nosso governo? Ab, ia me esquecendo, eles não votam no Brasil. Brasília deve parar de formar fila com populistas ditadores que levam Seu país à bancarrota. Temos interesses enormes. DO Paraguai, desde ltaipu até a Ferroeste, no Paraná, e a Ferro Noroeste, que ligará grandes zonas de produção agrícola no Brasil ao Pacífico. Não dexemos ideologia mesquinhas sobrepujarem o bem de milhões de brasileiros.

ABELARDO LIMA

São Paulo, SP

 

Carta ao leitor

Como o Brasil pode pleitear um lugar no Conselho de Segurança da ONU tendo uma diplomacia que pratica política partidária (“A aliança para o atraso”, 11 de julho)?

Telma Faraco

Belém, PA

 

Bolívia

O esqueleto indigenista está acabando com a Bolívia ( Á Republica da cocaína” 11 julho) . Passei um período a trabalho em La Paz e vi isso ao vivo. A dupla Evo Morales e García Linera é formada por dois prefeitos idiotas latino-americanos que estão destruindo a economia, da Bolívia ao espantar investimentos, estremecer a segurança jurídica e ceder dos indígenas. Perto da Bolívia, o Brasil é a Suíça.

GERALDO CUNHA CARVALHO Jr

 São Luz, MA

 

VaIec

Como é fácil enriquecer de forma ilícita no Brasil! Um dirigente de órgão público (a estatal Valec) constrói, de forma espantosa e injustificável, e em tão pouco tempo, um patrimônio de 60 milhões de reais

(“Fora do trilho”, 11 de julho). Mais inacreditável ainda é que isso tenha acontecido sem despertar a atenção de órgãos de fiscalização da União como o Tribunal de Contas, a Corregedoria e o MinistérioPúblico. José Francisco das Neves, Juquínha, passou todo o governo Lula trapaceando, e só em 2011 a presidente Dilma Rousseff o demitiu, por incompetência. Ela nada viu antes?

ALBERTO DE SOUSA BEZERRIL

Natal, RN

 

Corruptos travestidos de administradores públicos e políticos, como o senhor Juquinba e o deputado federal Valdemar Costa Neto, acumulam fortunas desviando recursos que deveriam atender às necessidades mais elementares da população brasileira. Lamentável.

PROCÓRIO ELVÉCIO PEREIRA

Corupá.SC

 

Renata Bueno

 

Bóson de Higgs

A partícula Híggs, descoberta recentemente, é responsável pela modulação da

energia necessária ao movimento. Abre-se a perspectiva da libertação do lastro que a massa nos impõe.Assim, essa descoberta tem a mesma importância para o homem que a invenção de roda, há milênios. A roda permitiu que nos deslocássemos a largas distâncias no planeta em velocidade inacreditável para os antigos. O que temos diante de nós agora é a possibilidade de fazer o mesmo no universo ( “Encaixou-se perfeitamente”, 11 julho).

 

 

O físico inglês _Peter Higgs, na minha modesta opinião, ragraciado com o Prêmio Nobel de Física já no próximo ano.

GILBERTO BARACAT JÚNIOR

Araçatuba, SP

 

Cláudia Abreu

Brilhante o papel da atriz Cláudia Abreu na novela Cheias de Charme (“A metamorfose da brabuleta”, 11 de julho). Acompanho a novela e já comentava com a minha mãe que, em certos momentos, eu esqueço que é Cláudia Abreu, atriz de diversas novelas e Seriados, quem ‘interpreta a caricata cantora Chayene, ora parecida com Elba Ramalho,’ ora parecida com Joelma, mas. totalmente autêntica. Voa,voa, voa, brabuleta! É chegada a hocra .d,ela

com a “curica” socorro.

 

Veja

Décadas atrás, quando a Abril planejava o lançamento de VEJA, eu, como diretor da Reckítt, planejava o lançamento de Veja – .produto de .límpeza doméstica.· Por sorte, um jovem gerente de produtos se transferia de um firma para outra e descobriu a coincidência. Esse jovem era José Roberto Whitalcer Penteado, atualmente diretor-presidente dá Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Em um almoço com o editor Roberto Civita, ficou decidido que eu adiaria meu lançamento por dois meses – o que por feito. Hoje, ambas as Vejas são óbvio sucesso. Agora, com 77 anos de idade, errou lançando; sem grandes pretensões literárias, o livro Humor na TerceiraltJade- Um Compêndio de Risos .

 

ATCET, O PAI DAFOTOGRARA MODERNA

O Museu Camavalet de Paris exibe uma grande retrospectiva com 230 fotografias de Eugene Atget realizadas entre 1898 e 1927. Atget (1857-19.27) é considerado o pai da fotografia moderna. Ele influenciou o surrealismo e dezenas de fotógrafos, como Walker Evans, Lee Friedlander, Berenice Abbott, Brassaí e Henri Càrtier-Bresson. O fotógrafo e artista plástico Man Ray era seu amigo e o ajudava – financeiramente – comprando e publicando suas fotos. Ray foi um dos primeiros a reconhecer a influência que Atgel exercia sobre a primeira geração de surrealistas.

 

DO PILAR AO PELOURINHO

Antes de ser nome próprio, pelourinho era um substantivo comum com o sentido de “coluna de pedra ou de madeira, colocada em praça ou lugar central e público, onde eram exibidos e castigados os criminosos” (Houaiss). A palavra – assim como a coisa que designa __ existe em português desde 1550. vinda provavelmente do francês ptlon, um vocábulo do século XII oriundo do latim. O pelourinho foi usado por séculos para humilhar e castigar condenados em geral. mas na história do Brasil acabou ligado de forma indissolúvel ao castigar o escravos

 AS MULHERES DA ARÁBIA SAUDITA

O Comitê Olímpico Internacional (CO!) anunciou, na semana passada, que pela primeira vez nos 116 anos dos Jogos Olímpicos a Arábia Saudita terá mulheres entre seus representantes. O comitê olímpico saudita confirmou a participação de Sarah Altar nos 800 metros e Wodjan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani no judô. O anúncio não deixa de ser um alívio para o próprio COI, que se via pressionado por movimentos de defesa dos direitos humanos a adotar sanções contra a Arábia Saudita. A Carta Olímpica, documento que estabelece os princípios e valores dos Jogos, condena’ expressamente qualquer discriminação de gênero. Catar e Brunei, os outros dois únicos países que nunca haviam enviado mulheres à competição, também anunciaram que terão representantes femininas em Londres 2012 .

 

 Os touros sentados

A crise ataca espanhóis por todos os lados

Está difícil pegar o bicho á unha na Espanha fora do sentido  literal, como se vê na foto da festa de São Paulo na foto da festa de São Firmitlo,em Plona (embora até lá o movimento turístico tenha caído). Cada vez falta mais chão sob os pés dos espanhóis, e o governo mal consegue disfarçar o pânico diante das chifradas da crise. “Sei que as medidas que anunciei não são agradáveis, mas são imperativas. Estamos numa situação extraordinariamente

séria”, disse Q maissombriq do que nunca primeiro-ministro Mariano Rajoy ao anunciar que estava fazendo mais cones orçamentários, aumentando o ICMS e limando o décimo terceiro de parte do funcionalismo. É o papel dele, embora pareça difícil que altere minimamente o inferno astral no atual país do não

tem – não tem emprego, não tem confiança, não tem perspectivas e, em situações extremas, não tem vergonha na cara, como no caso do cultuado

arquiteto Santiago Calarrava. Exposto pelos mais de 250 milhões de reais que faturou, sem licitação. só pelos projetos dos elefantes.brancos que plantou em Valênêia,e-b,o, mem das pontes poéticas tripudiou sobre a desgraça nacional: “Meus honorários inclusive são modestos”. Não admira que a festa de Pamplona lembre menos o espetáculo heroico descrito por Hemíngway.em O Sol Também Se Levanta e mais um Carnaval de rua no qual os pobres touros são trucidados no final.

 

MORRERAM

O ator americano Ernest Borgnine Troncudo ‘e comos dentes espaçados, Borgnine tomou-se umdos primeiros antiga lãs deHollywood com Matt»(1955). No filme, que lherendeu um Oscar, ele é umaçougueiro feioso, sem sortecom as mulheres, que conheceuma professora numsalão de baile e tem a melhornoite de sua vida.A primeira atuação memorávelde Borgnine foi emA Um Passo da Eiemldade(1953), como Fatso Judson,o sargento que espanca AngeloMaggío, personagem .de’Frilnk: Sinatra, até amorte. O ator participou demais de 200 títulos em sessentaanos de carreira, entreos quais O Destino doPoseidon (1972). Dia 8,aos 95 anos, de insuficiênciarenal, em Los Angeles.• a americana Ewa Rausing,muIIer do sueco Hans KristianRausing, herdeiro da letra Pak. Um dos casaismais ricos da Europa – a família está em 88″ lugar na lista de milionários da, Forbes -,Eva e.Hans sempre tiveram problemas com . drogas (eles se concederam em 1980, em uma dignidade reabilitação). A dependência química de Eva tornou-se notória em 2008,quando ela foi detida com craek e heroína em uma festa La embaixada americana de Londres, cidade em que eles viviam fazia três décadas. O corpo da americana foi encontrado na residência do casal, no bairro de Chelsea, depois de Hans ser detido com drogas. Suspeita-se de overdose. Dia 9 aos 48 anos, em Londres.

• o engenheiro paulista Arnald Setti. Consultor da ONU, autor demais de vinte livros técnicos, era um dos maiores especialistas em recursos hídricos e saneamento do país. Como técnico do Senado, foi ele quem elaborou o texto que resultou na Lei n° 9433/97, a Lei das Águas, que pôs o Brasil no rumo do uso racional de TeCllfSOS hídricos. Dia 7, aos 63 anos,de.septicemia, em Brasília.

Contestadas

As propriedade “extraterestre”da bactéria GFAJ-.

Em 2010, cientistas da Nasa anunciaram a bactéria com oúnico ser vivo capaz de substituir  o fósforo por arsenio em seu DNA. O fósforo  é um dos seis ele, menos essenciais para .existência da vida.Já o arsênico ‘letal parta a maioria dos organismos. Dois estudos publicados na Science afirmam que não há arsênio no DNA da GFAJ-1

Recebeu alta

O filho de do cantor  Leonanto, Pedro, de 25 aaos,dadapla Pedro e Thiago. Ele foi internadoem abril, depois deum acidente de carro, comhemottagia abdominal etraumatismo craniano.Ficou trinta dias em coma

 

Indezada

Em 11 000 dólares a chenesa Feng Jianmei, de 29 anos forçada a abortar aos setemeses por não pagar amulta imposta a casais quetêm um segundo filho .

Condenado

Por corrupção o ex-ministro  israelense Ehud Olmet. Ele concedeu

Empréstimos ao ex- sócio quando era ministro da Indústria e Comércio,

entre 2003 e 2006; Olmert foi absolvido das acusações de receber propina e/fraudar contas

Internada

No hospital Israelita Allbert Einstein, em  São Paulo, a apresentadora Hebe Camargo, de 83 anos. A causa não foi divulgada.Em 2010, ela foi diagnosticada com câncer no peritônio.

 

A prioridade da presidente

O empenho de Dilma Rousseff em fazer do petista Patrus Anaaias prefeito de Belo Horizonte é urino que ela convidou pessoalmente o marqueteiro João Santana para comandar a campanha. Santana prometeu responder nesta semana Responsável pela estratégia de comunicação do governo, ele reluta em recusar um chamado da presidente, mas já cuida de campanhas em três países. E acha quase impossível encaixar mais uma na agenda. Na segunda feira passada, ele se reuniu com Fernando Haddad em São Paulo e, no dia seguinte, embarcou para a Venezuela, onde comanda atentativa de reeleição do ditador Hugo Chávez. Na sexta. voou para Angola, onde ajuda o presidente José Eduardo dos Santos a conseguir mais um mandato.

 

Promessa é divida

Escalado pelo governo para assumir a relatoria da CPI do Cachoeira, o deputado Odair Cunha ( PT- MG) hesitou em aceitar a missão Temia o desgaste de ter de restringir a investigação  à oposição e preservar os governistas enrolados. Ouviu da ‘ministra Ideli Salvatti a promessa de que seria recompensado. E não se arrependeu. Três meses depois, Odaírnão esconde a satisfação: já conseguiu liberar 7,2 milhões de reais para suas bases eleitorais no sui de Minas Gerais. Ele é o deputado mais contemplado neste ano com verbas do Orçamento. O governo também não tem do que reclamar. Até agora, apenas a oposição foi .investigada para valer.

Homenagem indevida

A escola estadual Perez,em Branco, no Acre, está,com os dias contados. A Justiça determinou que a União suspenda o repasse de verbas para o estado e dez municipios até que todos os bens públicos com nome de pessoas vivas sejam renomeados. Além dos repasses constitucionais, apenas dinheiro para

saúde, educação e assistência social não foi afetado. A usina de arte João

Donato também terá de mudar de nome. Diante disso, o governo prometeu “fazeras alterações. É um exemplo a ser seguido pelo Maranhão,

onde mais de 400 prédios públicos levam o nome de integrantes da família Sarney – todos muito vivos.

Da saúde para O ralo

Auditoria da Fundação Nacional de Saúde apontou irregularidades em 454 convênios firmados entre 2007 e 2010 com prefeituras e ONGs. Os desvios ultrapassam 100 milhões de reais. Desses contratos, 255 foram renovados indevidamente e 199 receberam pagamentos irregulares. A divulgação da auditoria pode azedar a relação entre o PT e o PMDB. Na ocasião em que os problemas surgiram, a Funasa era comandada por DanIIo Forte, atualmente deputado federal do PMDB do Ceará e um dos principais cabos eleitorais da candidatura de Henrique Alves à presidência da Câmara. Hoje, a fundação está sob influência do PT paulista, que também quer o comando da Casa.

 

Uma história de desvios

Em tempos de mensalão, o historiador Marco Morei lança o livro Corrupção,Mostra a Sua Cara, que narra casos históricos de desvios de dinheiro público. Na gestão de Tomé de Souza’ ”  (1549-1553), nasceu o termo “governo da boqúínha”, usado até hoje. No século XVM, a construção dos Arcos da Lapa teve o dinheiro para o pagamento guardado ez uma ana com bis fechaduras: uma chave ficava com a Câmara Municipal, uma com os jesuítas e a outra como governador. Apesar disso, parte do dinheiro foi roubada, como satiriza uma das charges que ilustram o livro…

 

SOBE E DESCE

SOBE

OEA

A Organização dos Estados Americanos declarou que não houve golpe no

Paraguai e rejeitou a suspensão do país da entidade

 

Xenofobia

O partido, neonazimo grego lançou uma campanha para pedir à ‘população que não doe sangue a estrangeiros

 

Leitores

 

A venda de livros no Brasil subiu 7,2 % bi abi passado

 

DESCE

Gansos

Para evitar acidentes com aeronaves, 700 aves foram capturadas nos arredores do Aeroporto JFK, em Nova YOrk, e enviadas para abate

 

Maradona

O ex- craque argentino foi demitido do posto de técnico do clube dos emirados  Ärabes Unidos pois de um ano sem conquista.

 

China

A TV estatal do país “apagou” o órgão sexual do David esculpido  por Michelangelo em um reportagem.

 

CPI DO CACHOEIRA

Família do banllho Adir Assad, o empresário paulista que a Delta e outras empreiteiras usam para lavar dinheiro, já. Ficou conhecido e deve depor na CPI. Menos famoso é o irmão, Samir, que até recentemente éra seu sócio. Atuam da mesma forma, com vários clientes em comum. Samir, aliás, comprou meses atrásum Citation Bravo, um jatinho pertencenteà Cosan.

CÂMARA

 

 Padrinhos fortes

A propósito, é intenso o lobby de algumas grandes empreiteiras para livrar a cara de Adir Assad na CPI

 

Bola das costas

 

Arlindo Chinaglia, ora em conflito aberto com Dilma Rousseft'; apesar de ser o líder do seu governo na Câmara, tem afirmado em diversas rodas de deputados que Lula lhe garantiu que será candidato a presidente em 2014. Não

se sabe se, de fato, Lula lhe disse isso. O que é certo, contudo, é que Chinaglia perdeu a cerimônia com Dílma, me Batista vai fechar a mão nesta

eleição. Pela primeira vez, não doará

 

Sem aparato

Michel Temer voltará a viver,de vez em quando  rotina dos tempos de ,deputado. Com inicio da campanha a Presidência regulamentou ouso do transporte oficial de Dilma Rousseff durante compromissos eleitorais. Pelo texto, o PT pagará pelo transporte dela e de sua comítíva e o Planalto bancará a estrutura de segurança e da assessoria que a acompanha nas viagens.

Com a instrução não menciona o vice, técnico preferiu dispensar o aparato de que dispõe.

 

A todo o vapor

 

O investimento publico é assumidamente um dos trunfos do governo para dar um gás á economia essa toada. No primeiro semestre, investiu 5,4 bilhões de reais em compras de equipamentos e em construção civil 2 ,2  bilhões de reais a mais  do que  no mesmo período do ano passado.

 

 Marcha lenta

Em compensação, os ministérios dos Transportes e da Saúde investiram menos.

 

Cara a cara

 

A negociação – relâmpago entre Itaú e BMG para se associarem durou três dias. Nos dois primeiros foram apenas cinco pessoas na sala incluindo os controladores, que evitaram, assim, o tradicional batalhão de advogados.

Na corrida

Zeinal Bava,Presidente da Portugal Telecom, é um dos candidatos a comandar a TIM Brasil. Já foi, inclusive, entrevistado pelos italianos.

 

Em negociação

A Ongoing/ Ejesa está em negociação com os bispos da Record. No centro das conversas, o jornal O Dia.

 

1283 exemplares

A Tóriba que já publicou livros sobre o Corinthians para colecionadores, , prepara um lançamento de peso (30 quilos) sobre Pelé. A edição.de meio metro de altura, terá fotos inéditas da carreira do jogador e uma tiragem de 1283 exemplares o mesmo número de gols que Pelé fez. Cada custará.

 

O REBELDE BATINA

O bispo de Xangai renuncia à chefia da Associação .’ Católica Patriótica,a Igreja do Partido Comunista que não é reconhecida pelo .. Vaticano, e é preso.Outros podem segue seu exemplo

 

Ao o nascer ria China. um bebê de família católica automaticamente passa a .fazer parte da Associação Católica Patriótica Chinesa a versão da Igreja que segue OS preceitos do Partido Comunista. Nas missas, seus.6 milhões de.fiéis escutam semanalmente pregações incentivando do o amor à pátria, trás jamais ouvem alguma  condenação, aos  abortos dos no pais. Muitos dos casados. Embora a essência da doutrina as liturgias sejam as mesmas, a Associação sempre viveu em conflito como  o Vaticano que se recusa a influência do regime comunista no interior das igrejas á final se deve.da ao partido que é de Jesus. A forma  corriqueira como essas desavenças  afloram aceitos pelo Vaticano são presos, e paróquias rebeldes, fechadas. Há duas semanas, a briga ganhou .uma nova versão. Pela primeira vez, um bispo que

estava sendo preparado para liderar a Associação Patriótica recusou a missão. Seu nome é Tadeu Ma Daqin, de Xangai. Depois de anunciar que deixaria o , cargo na Associação durante uma missa e de ser ovacionado. ele foi preso e enviado para o monastério de Sheshan, nos arredores da cidade. “Seu ato de rebeldia abre um precedente que deve ter assustado muito o Partido Comunista”, de o padre jesuíta canadense Michel Marcil, que pregou em Taiwan. “O medo é que outros bispos sigam o exemplo de Ma Daqin,”

O primeiro registro do cristianismo na China é do século vn. Um texto cravado em pedra narra a chegada de um monge sírio à cidade de Xían. Na revolução comunista de Maq Tsé-tung, em 1949, seus adeptos foram perseguidos e todas as religiões, proibidas. O alívio

veio com as reformas de Deng Xíaopingo

A Constituição de 1982 permite o culto a cinco religiões, maspro1be qualquer

Influência estrangeir. Pará praticarem a fé com o consentimento do Vaticano

os chineses’ devem fazê-lo de forma clandestina. É comum marcarem piqueniques em que rezam a missa, dividem  o pão,  bebem o vinho e, só ao fibal da celebração, para dar credibilidade ap disfarce, comem os quitutes trazidos de casa. Outros encontros são marcados em casas de família , nas quais todos os fiéis se conhecem e não há risco de infiltrados. “Os chineses estão revivendo aquilo que os crisfãos sofreram nos tempos das catacumbas romanas”, diz MarcH. As comunidades católicas clandestinas têm 9 dobro do número·de fiéis da igreja ligada ao PC. Elas ser e forçam com a ousadia de Ma Daqín.

 

 AGORA, CADA UM POR SI

A defesa de Bruno confirma que ele pediu a Macarrão que assumisse a morte de Eliza. A de Macarrão diz que a resposta foi não

A divulgação,na última edição De VEJA de uma cana que o

ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes. acusado de se, que strare mandar assassinar sua amante Eliza Samudío; escreveu ao suposto cúmplice Luiz Henrique Romão, o Macarrão, deixou claro que a· fortíssima amizade entre os dois é coisa do passado. Bruno dizia a “Maka” que erachegada a hora de acionar o “plaDoB”, aquele em que o fiel escudeiro assumiria a culpa pelo crime. Na quinta-feira, em uma das raras vezes em que se manifestou depois de preso, também em carta, o goleiro se eximiu de qualquer participação no enredo de barbáries e referiu-se de forma bem pouco lisonjeira. ao ex-braço direito: “Talvez o único erro da minha vida foi ter confiado em algumas pessoas”. De seu lado, Macarrão não pretende assumir coisa.nenhuma, nem mesmo a existência do crime. “Não há .evidências no processo que comprovem isso”,afirmou seu advogado, Leonaroo Diniz. Ele ainda informa

que os laços de amizade entre bruno e Macarrão, que já compartilharam até mesmo advogados, de romperam em janeiro deste ano. Exatos dois meses antes, o goleiro enviou a cana agora trazida à luz, que foi interceptada na prisão e Macarrão nunca recebeu. Bruno ainda voltaria à carga cerca de um mês depois, como VEJA apurou.

A defesa do goleiro primeiro explicou que a mensagem do plano B, em que Bruno pede três vezes perdão ao amigo, era para ser “o término de um relacionamento sexual”. Mais tarde, corrigiu ·a informação. Era um rompimento “no âmbito da amizade”. Seja como for, a alegação é posta em xequepor outro bilhete que passa bem longe de uma situação de ruptura de finitiva de laços. Enviado um mês depois do primeiro e igualmente interceptado, o texto de sete linhas, publicado acima, contém renovadas declarações de afeto de Bruno a Macarrão: “Maka, confio em você. meu irmão! Hoje, amanhã e para todo sempre. Te amo, cata” eu o goleiro. A autenticidade de ambos os documentos foi atestada por dois peritos. O próprio Bruno admitiu ser autor da primeira carta, que tentou fazer às mãos de Macarrão por meio de Outro detento da Penitenciária Nelson Hungria, na região metropolitana de  Belo Horizonte, onde está preso desde julho de 2010.A acusação vai pedir a tério Público Estadual de Minas que a mensagem seja anexada ao processo. Bruno e Macarrão, que já dividiram cela, permanecem cada qual em seu espaço na prisão.A ordem ali é que não se . esbarrem na hora do banho de sol sob nenhuma hipótese. Eles só estarão frente a frente de novo no julgamento, que não tem data para começar.

 

A MÃO QUE NÃO EMBALA O PIB

 

O governo abre os cofres, dá incentivos a indústrias escolhidas, amplia os

empréstimos dos bancos públicos e reduz os juros. Mesmo assim, a / economia não reage. E um sinal de que o Brasil voltou a esbarrar nos antigos

obstáculos à melhoria da produtividade.

O real chegou aos 18 anos com um sinal irrefutável de seu caminho rumo à maturidade. Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros, a Selic, para 8 % ao ano. Ë o valor mais baixo da história. A importância esse número fica aí. Subtraindo os impostos e as taxas de administração investimentos em fundos DI e de renda fixa atrelados à Selic oferecerão daqui em diante. UID rendimento anual em torno de 5%. Em termos de gaucho real, ou seja, considerando a inflação espera  de 5%, a rentabilidade será nula. Os poupadores brasileiros, nos tempos de juros elevadíssimos, haviam se habituado a ter ganhos de até 5 %acima da inflação sem fazer nenhum esforço,apenas depositando seu dinheiro em fundos de aplicações em títulos da divida pública. Agora, Para obterem remunerações mais elevadas, terão de procurar investimentos de prazo mais longo e também mais arriscados. A economia brasileira, assim. passa a ficar mais parecida com a das nações

Avançadas.

A queda nas taxas de juros derruba uma barreira histórica ao desenvolvimento. Os recursos dos poupadores, em vez de dormir sossegada mente na ciranda dos fundos de Curtíssimo prazo, poderão migrar para o financiamento de projetos como a construção de residências e a renovação da infraestrutura decrépita A redução na taxa Selíc tem sido acompanhada de um barateamento no custo do crédito para o consumo, principalmente bancos públicos. Além da queda no custo do dinheiro, o governo lançou diversos públicos de incentivos a determinados segmentos da indústria, como a redução dos impostos de carros e eletrodomésticos. Houve ainda uma ampliação do caixa do BNDES. Ao todo, foram despejados mais de 100 bilhões de reais na economia desde meados do ano passado. Com todos esses estímulos, seria de esperar que a atividade estivesse avançando em capacita de plena. Nada mais longe da realidade. O PIB permanece em estado de semin estagnação desde o fim do ano passado. Para os analistas mais certeiros do setor privado, a economia não crescerá mais de 2% neste ano. Diariamente surgem notícias de empresas que postergaram projetos de investimentos, e começam a aparecer demissões na indústria, depois de anos seguidos de contratações.

A economia brasileira é um paradoxo. O governo abre li mão e despeja

recursos e incentivos em.massa na economia, outros nunca foram tão. Baixos e o desemprego permanece em patamares mínimos. Tem·se aqui a combinação perfeita para injetar ânimo e insuflar perfeita insuflo consUJl1oe os investimentos. Mas o PIB não dá sinais de reação. Por quê? Uma primeira explicação  estaria nos efeitos da crise do euro  e do pálido crescimento dos países ricos. Mas só isso não explica a desaceleração. Sofrendo as mesmas pressões externas negativas, as mesmas pressões externas negativas, as economias de Chile, Peru e Colômbia tem projetos de 5 % para este ano. O Brasil perdeu o gás por motivos mais profundos. Há dez. anos o governo não faz  nenhuma reforma sigom,cativa, com impacto positivo no principal indutor da riqueza: a produtividade. A melhora na infraestrutura foi medíocre e em todo esse período, fazer negócios continuou a ser um pesadelo burocrático e tributário, e a qualidade dá mão de ,obra evoluiu – mas pouco. O crescimento econômico mais rápido, enquanto durou, foi resultado das políticas de crédito barato, que não podem ser mantidas indefinidamente, e do empuxo das reformas feitas na década anterior. Tudo isso, claro impulsionado pela valorização dos principais itens de exportação – a produção agrícola e os minérios balança comercial favorável trouxe bilhões de dólares e alimentou a expansão do crédito. Agora, sem o vento externo a favor, os antigos gargalos voltam a estrangular PIB. Ficou caro produzir no Brasil, por causa da alta do custo em fatores, como eletricidade e mão de obra. e as indústrias têm optado por importar componentes e até mesmo produtos acabados, no lugar de ampliar os investimentos. Apesar de todos os incentivos, as engrenagens da economia giram em falso (veja o quadro ao lado).

Confrontado com letargia do PIB, o governo, em vez de se dedicar a projetos que diminuam as amarras ao investimentos privado e libertem. as forças do livre mercado, optou por redobrar a carga de suas intervenções na economia. Elevou a tributação dos investimentos e empréstimos internacionais, restringiu a compra de terras por estrangeiros, interveio na cotação do dólar, tolerou a inflação acima da .meta, ‘colocou barreiras aos produtos importados e passou a favorecer o aumento do conteúdo nacionaI em diversas. áreas,’ sobretudo na indústria automobilística ainda mais na produção de petróleo. Afirma o economista Eduardo Giannetti da Fonseca: “O país já havia avançado no processo de uma melhor definição da fronteira entre o estado e os mercados livres, mas agora há uma certa confusão no ar. É um efeito muito claro da crise de 2008″ que acaboupor legitimar uma tentação que já existia. O flanco se abriu, e o governo gostou da brincadeira”. Com as políticas dirigistas, o governo pensou que estaria plantando as sementes de um “Brasil Maior”, para usar o nome de um dos pacotes planálticos. Colheu o PibiQ~o.

“A desaceleração da economia mostra que não basta baixar os juros e elevar o câmbio. É preciso devolver a confiança ao investidor de que o cenário benigno vai se manter”, diz’ o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. A mão pesada do estado brasileiro poderia ser acionada para cortar gastos públicos e fazer as reformas que tragam o custo do país a padrões compatíveis com o crescimento rápido e sustentável. Em entrevista recente,  Carlos Ghosn, presidente da Renault-Nissan, revelou que é mais importar aço sul-coreano feito com minério brasileiro para fabricar seus automóveis do que comprar diretamente das siderúrgicas brasileiras.

A produtividade média da economia, medida pela quantidade que cada

trabalhador produz, ficou estagnada na última década. A exceção é a agropecuária, cuja produtividade tem avançado a um ritmo médio superior a 4% ao ano. Boa parte desse ganho se deve às pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a estatal Embrapa, um caso exemplar, mas tristemente único, de como o governo pode incentivar o

desenvolvimento.

A agropecuária brasileira sofre com a logística deficiente, mas mesmo assim resiste e avança. São inúmeros os exemplos de problemas clamando pela mão salvadora do estado. Um deles: o custo para transportar o algodão produzido na Bahia até o Porto de Santos é o dobro do que se cobra pelo frete marítimo de Santos até a China. A Ferrovia Norte- Sul poderia derrubar o custo de escoamento. As obras estão a cargo da estatal Valec, cujos ex-dirigentes respondem por crimes de superfaturamento e corrupção. Cadê a mão do estado forte para tirar a ferrovia do papel? Nessa hora a mão do estado fica fraca e trêmula. O modelo econômico brasileiro, tão bem-sucedido no decorrer dos últimos dez anos, está .se esgotando. Nas páginas seguintes, economistas falam sobre qual é o papel ideal dos governos na indução do crescimento econômico e do equilíbrio de forças necessário entre a mão de ferro do estado e a mão invisível dos mercados.

 PROFISSÃO: ASSASSINO

Quando matar uma pessoa é uma atividade econômica como outra qualquer. Este homem,de apenas 24 anos, já fez isso quase cínquenta Vezes

Ás 22h30 de 23  de abril deste ano, os jornalistas maranhense Décio Sá foi morto com cinco tiros enquanto jantava em um restaurante da movimentada avenida Litorânea, em São Luís. O assassino não disse uma única palavra antes de atirar. Com  frieza incomum, entrou no restaurante,aproximou-se e disparou três vezes em direção à cabeça do jornalista Depois, mais duas vezes em seu tórax; quando ele já estava no chão,’ provavelmente sem vida. Tudo aconteceu em menos de dos. Sem esconder o rosto, o homem caminhou tranquilamente rumo á saída à saída, sentou na garupa de uma moto que o aguardava do lado de fora e se foi. O assassino, Jhonatan de Sousa Silva, 24 anos, já teve dezenas de noites como, aquela. Matador profissional, começou nesse ramo ainda na adolescência e já acumula 49 mortes.no currículo, pelo cálculo da polícia. Não se arrepende de nenhuma delas. “Ninguém morre de graça”, justifica. Descrito pelas autoridades do estado como um predador frio, um verdadeiro psicopata, Jhonatan não sente remorso nem prazer em matar. Para ele, é Um trabalho como outro qualquer. O jovem de 24 anos já matou traficantes, brigões de bar, agiotas, sem-terra, mulheres e pelo menos uma criança. Não é de recusar “serviço”, como sempre se refere aos assassinatos. Por eles, já recebeu quantias entre 5000 e 100000 reais. E também já matou por camaradagem, atendendo ao pedido de um amigo. Quando foi preso, Jhonatan trabalhava para uma quadrilha de agiotas. O jornalista era parte de uma empreitada de oito “encomendas”.

A polícia apreendeu fotos de seis pessoas que seriam procuradas pó Jhonatan. Todas a mando da quadrilha que ordenou o assassinato de Décis Sá. Chefiado por políticos no Maranhão – suspeita-se que até um ex-secretário de estado esteja envolvido, o bando custeia campanhas para . prefeitos que, uma vês eleitos, recorrem adesivos de dinheiro público para quitar o débito. Quem falha com os pagamentos é apresentação ao “departamento de cobrança” do grupo. Espancamentos e seqüestros de parentes eram os métodos mais, digamos, persuasivos. Se nada disso desse certo, Jhonatan era acionado. A polícia acredita que dois prefeitos mortos no interior do estado tenham sido vítimas da mesma quadrilha. O jornalista morreu depois de relatar em seu blog  algumas das peripécias do bando. Para matá-lo. Jhonatan Silva seguiu o método que desenvolveu ao longo de sua “carreira”; observou a vítima por alguns dias, descobriu sua rotina, seus horários. Na primeira

oportunidade, o serviço foi realizado.

O assassino profissional sempre

teve fascínio por armas e filmes de ação repletos de sangue. Matou pela primeira vez aos 14 anos em sua cidade natal,Xinguara no Pará, depois de um briga em uma festa. Disparou cinco tiros de revolver contra um jovem que agredirá. Ganhou fama de valente. “A primeira vez dá uma emoção diferente. Fiquei nervoso, ansioso, mas depois

 

amigos e a família, e não se acha violento..” Tenho essa profissão, mas não saio gastando violência por aí. Só uso quando preciso”, justifica. Temente a Deus, ele freqüentou até os 16 anos cultos da Assembleia de. Deus. Reza todas as  os irmãos, os dois.filhos pequenos e paraª namorada. de 20 anos, que está grávida. de ‘cinco,meses.De vez em quando. inclui as vítimas em suas preces. “Peço para. Deus guardar, colocar num lugar bom… Sei.que voater de prestat contas a Deus. mas isso .é Para depois”, explica. Jhonatan anrma estar cansado da vidade matador por se tratar de’ um metíer perigoso e que não rende muito dinheiro. Grande parte do que ganha é gasta com advogados ..O resto se perde em farras, mulheres e bebidas. Ainda assim, com a renda dos assassinatos, ele conseguiu ajudar o pai a abrir um posto de gasolina no Pará e a mãe a montar uma disrribuíâora de bebidas em Goiânia. Apesar dó currículo e da longa carreira, ele havia sido preso apenas uma vez, como “suspeito” de um crime. Ficou detido provisoriamente por quatro meses – e acabou solto. No mês passad9, a polícía do Maranhão enfim encontrou o matador, quando ele, aparentemente, levava à frente o plano de mudar de profissão. Jhonatan, que estava com 10 quilos de crack. Contou que .tentava; aos poucos. se estabelecer.

 

MEDULA ÖSSEA A PREÇO DE MERCADO

 

Ao liberar a venda para uso em transplantes, tribunal americapo dá novo.argumento ao debate . sobre o comércio de órgãos humanos.

O tempo médio de espera por um transplante de medula óssea no

Brasil é de seis meses. e o número de pacientes na fila passa de 1000. Quanto um doente em situação de desespero estaria disposto a pagar por uma doação que o livrasse da fila? A opção não existe no Brasil. Que proíbe totalmente o comércio de órgãos e tecidos humanos. Mas já é possível nos Estados Unidos. A decisão recente •.de um tribunal não apenas liberou a venda. como aceitou a quantia de 3000 dólares como uma recompensa justa a. ser paga ao doador. A sentença diz respeito a um processo movido por um grupo de pacientes de câncer contra a legislação de 1984 que baniu a compra e venda de órgãos humanos. incluindo a medula óssea. O argumento aceito pelo juiz foi que o avanço na técnica de extração de material para o transplante de medula óssea transfundo o procedimento em algo simples como a doação de sangue, cuja venda não é proibida nos Estados Unidos. O método tradicional de doação de medula óssea é a punção na espinha, com a aplicação de anestesia. Hoje. é possível extrair células hematopoiéticas. usadas no transplante para o tratamento de leucemia e linfomas, diretamente do sangue. em um processo semelhante à hemodiálise. chamado. De aférese. Extraídas dessa forma, as células.

Como cada pessoa nasce com dois deles, mas pode sobreviver com um SÓ, o rim é hoje o órgão mais facilmente encontrado no mercado clandestino para Transplantes. Estoques fartos dessa peça da anatomia humana o turismo médico na índia, ni;PaqUistão (lá, de forma suspeitíssima, 95% dos doadores são mulheres) e também na China, país que, na teoria, proíbe esse tipo de comércio. Em 2006, o Irã tomou-se o único país a liberar totalmente a venda de rins, cujo preço de mercado está em tomo de 5000 dólares. Ainda que o país , dos aiatolás não sirva de modelo para a solução de nenhum dos problemas mundiais, vale a pena observar no que vai essa experiência.

 

VIDA E MORTE NO VALE DO SILÍCIO

 

O Google eliminou vários de seus produtos.Isso significa que, no melhor estilo das empresas inovadoras, soube aprender com os próprios erros O Google anunciou no início deste mês o corte de cinco serviços, entre eles o popular iGoogle. No ano passado, o gigante da internet cancelou outra dezena. Em seus catorze anos de história, o numero ” de produtos que não deram certo e foram jogados na lata de lixo ultrapassa sessenta – ou seja, cinco por ano. O

que significam tantos fracassos? Na peculiar cultura do Vale do Silício, a soma disso tudo pode ser um aviso de que a empresa vai muito bem, obrigado. Sua estratégia de cancelar levas de produtos “nio é um sinal de que vê problemas no horizonte, e sim de que está aproveitao

do as lições contidas e1Pseus próprios erros. Nas palavras de Eric Schmidt, presidente do conselho do Google: “Celebramos fracassos. ÉnOllDaI tentar algo difícil, falhar e aprender comisso”; Quando secor paramos três primeiros meses deste ano com o mesmo período de 2011, o crescimento da empresa foi de 25%. Para cada leva de fracassos há um punhado de sucessos que garantem os bilhões do fim do ano – no caso do Google, 40 bilhões de dólares anuais. Ele tem portos seguros como o YouTube, o Android (sistema de smartphones e tablets) e, evidentemente, o sue de bllscas que dá nome à empresa. À máxima

 

A FÓRMULA DA SORTTE GRANDE

 

Gusttavo Lima, cujo nome real é Nivaldo, já passou fome e dormiu em rodoviária. Depois de dobrar a consoante, chegou ao patamar de pelo menos 8 milhões por mês

 

Dois anos depois que seu filho caçula nasceu, o tratorista Alcino Lima foi ao cartório para, enfim, registrar a criança. Saiu de casa com recomendação da mulher, a lavadeira Sebastiana, dedar ao menino o sonoro nome de Samuel. No caminho, Alcino encontrou um primo desencontrado pelos desvios da vida. Conversa vai vem, quando conseguiu sair do bar é chegar ao cartório, Alcino registrou a criança com o nome do primo: Nivaldo. Foi como Nivaldo que ele tentou. dos 9 aos 12 anos, levado por irmãos mais velhos.fazer sucesso como

cantor, enquanto as três irmã apegavam no pesado – na roça ou como empregada doméstica. Em Presidente Olegãrio cidade pequenininha de Minas Gerais onde morava, Nivaldo não emplacou. Tentou seguir carreira em Brasília e, por sugestão de um empresário, trocou

o nome para Gustavo.Também não deu certo, Dormiu em chão de rodoviária e chegou á passar fome. Peno de desistir de tudo, outro primo: importante na saga familiar sugeriu: “Tente pela última vez, mas vá para Goiânia. E lá que os sertanejos acontecem”. Colocado no

lugar certo, com a voz certa e o rostinho bonito certo,ele deu o toque final ao acrescentar um segundo “t” ao nome artístico. Estourou.

 

Quem resiste ao tchê tcherere tchê tchê de Gusttavo Uma? Cenamente não as meninas que enlouquecem à simples sugestão da consoante dobrada. Aos 22 anos, o cantor já tem um patrimônio de fazer inveja a muito sertanejo com mais tempo de estrada da vida. Bens mais chamativos: um Lamborguini laranja 2008( preço: 850 000reias), um Maserati branco conversível 2010 (650000), um jatinho de seis lugares (4 milhões) e uma casa de 300 metros condomínio, em Goiânia.

 

MINHA CASA, SUA CASA

Donos de imóveis que querem reforçar o caixa e turistas em busca de bom preço e aconchego se encontram nos novos sites de hospedagem caseira

Ao decidir viajar com a namorada para a Malásia, o publicitário paulista Lucas Rodrigues, de 32 anos; em vez de reservar hotel preferiu alugar um quarto na casa dê Greg, viajante frequente que, quando foi aos Estados Unidos, ficou na casa de Lynne, estudante de música que aproveita o quarto de hóspedes de seu apartamento em NovaYork para ganhar um dinheirinho extra e conhecer pessoas como Grege. o canadense Gabriel,. Que também passou por lá. no.começo do ano. Nenhuma dessas pessoas se conhecia. Airbn, estão todos. conectados pelo Airbnb,um.site de aluguel quartos. casas e apartamentos que serve de ponto de contato entre 20009Q viajantesem  92 países, Como ele. outros três sites grandes os alemães Wundu e 9ftats e o francês Horoelidays–‘ .e. vários outros menores ganham di11U!(!f’9 fazendo

a ponte entre misturas que fogem dos preços altos e da monotonia dos hotéis e donos de imóveis com interesse em reforçar o caixa. No Brasil – país que’ entrou na rota do turismo estrangeiro e onde viajar deixou de ser coisa de poucos -, esse tipo de acomodação dispara:

em número de aluguéis de quartos ou imóveis inteiros, o Airbnb registrou um salto de pouco mais de 5000 para 90000 – só em um ano. “O mercado brasileiro está entre os dez maiores, e a expectativa é que chegue rapidamente ao segundo lugar, ficando atrás apenas ‘dos Estados Unidos”, antecipa Stefan Schimenes, diretor da empresa no país.

As opções de acomodação vão de prosaicos quartos a um imóvel inteiro, que, para quem quer novidade, pode ser um iglu, um castelo, um avião remodelado e, última moda, uma iunta, nome dado às tendas circulares típicas da Mongólia. Para sua lua de mel, os ingleses Nathan e Julia alugaram um castelo inteiro construído em 1841, situado a uma hora e meia de Londres. Relataram a experiência no site do Airbnb. -A decoração e o ambiente davam a impresso de que tínhamos voltado ao tempo” comentou Julia. Foi a procura de “tempero local” que Ievo o o publicitário Rodrigues e sua namorada Karolína Bercken, a se hospedar.

, em Kuala Lumpur, na casa de seguidores do islamismo, a religião pre-  no país. “Entramos no espírito do  lugar. Tirávamos os sapatos em casa,” acompanhávamos a rotina religiosa

deles – o tipo de experiência que nunca teríamos num hotel cinco estrelas”,

diz Karolina.

Somados, os quatro grandes sites de acomodação desse tipo formam urna rede de 432000 integrantes. Deles, o maior é o Airbnb, criado em 2007 pelo empreendedor-padrãO destes tempos: três jovens poliglotas que se conheceram quando’ estudavam desígn na região do Vale do Sitio, na Califórnia, e trocaram os planos originais pelo novo negócio. O principal executivo da empresa, Brian Chesky, não tem casa própria – prefere alugar imóveis anúncios dos em seu site. Um dos fregueses mais famosos é o ator Ashton Kutcher, que possui três residências cadastradas e já alugou casas em Atenas, Berlim, Itália e Nova York. No Havaí,6 site oferece a qualquer mortal muito bem de vida a mesma mansão em que Barack Obama e família costumam passar férias. Preço: 50000 reais por semana, mais 2 000 de taxa de limpeza. Em geral, o sue ganha de dois lados: do dono, cerca de 3% do valor da-reserva, e do inquilino, de 6% a 12% do total das diárias. O pagamento é feito .ao site, no ato da reserva, e repassado ao proprietário do ímovel24 horas depois do check-in. O síte ainda verifica as condições das casas e cuida para que o valor pedido seja compatível com o da vizinhança. Todos os sites trazem comentários. tanto de inquilinos quanto de proprietários, e lêlos

é urna das providências básicas antes de

fechar algum negócio ( Veja o quadro ao lado). .

A prática de se hospedar em casas particulares partiu do pioneiro couch surfing, ou surfe no sofá, uma espécie de rede social em 9ue a pessoa que vai viajar busca a como ação gratuita sob o teto de gente interessada em abrigá-la, orientaria e até accmpanbar seus passos pela cidade. O Airbnb, primeiro, e os demais, em segunda, fizeram disso um negócio que tinha tudo para dar certo. E deu, mais ainda em cidades como o Riode Janeiro, cronicamente prejudicado pela escassez de acomodações e com dois grandes ímãs de atração turística – a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 – pela frente. O carioca Rafael Salmon, analista ‘de sistemas de 28 anos, é um dos que estão vírando.proveito.Ele colocou o apartamento  em Ipanema entre os três mais procurados no site e fez propaganda disso no Google: em menos de seis meses, vinte pessoas se hospedaram lá. “Foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida. Investi 100 reais e poucos dias depois aluguei o apartamento por quatro dias a 1200 reais”. comemora. Assim, vale a pena passar : uns dias longe de casa.

 

COM QUE CARTÃO EU VOU

Perder o controle dos gastos durante a viajem de férias é fácil.Principalmente quando se vai para o exterior, onde é preciso pensar No câmbio a todo instante. Entre dólares, euros e cartões pré-pagos, de débito ou de crédito, o turista pode ter a ilusão de que seus fundos são infinitos.

 

Sabendo-se resistir ao canto das sereias, no entanto, os mecanismos financeiros disponíveis no mercado, mesmo com custos embutidos, podem se.transformar em aliados e até ajudar no controle das despesas. Para a professora de finanças da Fundação Getulio Vargas Myrian Lund, o mais indicado não é Optarpor apenas um deles, mas, sim, aproveitar o que cada um tem de melhor: ou seja, levar um pouco em dinheiro, gastar o grosso em um cartão pré-pago ou de débito e deixar o cartão de crédito para emergências

 

Quanto levar em dinheiro vivo?

Apenas o necessário para pequenos gastos com taxi, ambulantes, go~ta etc. Por questão de segurança, não é recomendável carregar grandes quantias. Se possível, calcule a soma de suas despesas e faça o câmbio direto do real para a moeda do país que vai visitar: a cada troca de dinheiro, o consumidor se arrisca a perder um pouco, comprando por mais e vendendo por menos

Por que comprar um cartão pré-pago?

O IOF (imposto sobre operações financeiras) do cartão pré-pago é bem mais baixo que o aplicado aos cartões de crédito: 0.38% contra 6,38%. . Além disso, o pré-pago é a forma mais fácil de controlar seus gastos.pois você abastece-ce o cartão apenas com o montante pretende gastar, sem surpresas na volta. Para que o controle seja eficaz, porém, é importante acompanhar o saldo pela internet ou por meio dos comprovantes de despesa durante a viagem. Esse cartão é ainda uma boa forma de dar dinheiro aos filhos que saem de férias sozinhos ou, em viagens de família, garantir liberdade dentro de certos limites aos adolescentes outra vantagem: em caso de emergência, é possível recarregar o pré-pago

 

Devo carregar o pré-pago com dólar ou com a moeda do país de destino?

Se possível, carregou com a moeda local, pois alguns bancos trabalham com uma taxa de conversão para saques ou compras em moeda diferente daquela com que o cartão foi abastecido. Por exemplo: seo cartão estiver carregado com dólares americanos e for feita uma compra de 100″euros, você pagará cerca de 123 dólares – tomando-se como base o câmbio da semana passada – mais 3% de tarifa sobre essa” quantia, totalizando quase 127 dólares. Vale a pena, portanto, verificar se no contrato do cartão há alguma cláusula sobre gastos em moeda diferente

 

Todos os pré-pagos são iguais?

Não. As tarifas. para emissão, recarga e saque variam muito, inclusive entre cartões com a mesma bandeira (Visa, Mastercard ou Amex). Dependem mais do banco . emissor – e alguns bancos podem até não cobrar certas taxas. É importante pesquisar as opÇões, portanto. Há também um pré-pago especial que oferece vantagens semelhantes às dos cartões de crédito (seguros, salas vip, serviço de concierge), mas exige uma carga inicial mínima de 2 500 dólares

 

Quais as vantagens do cartão de débito?

Cartões de débito intencionais também têm IOF de apenas 0,38%. Em geral, vocêjá tem um cartão de débito. Portanto, não há taxa de emissão. Preste atenção apenas nas taxas de saque, tanto do seu banco como do banco local. E, quando o limite do cheque especial é alto, é preciso cuidado para não gastar demais e depois pagar juros quasetão elevados quanto os do cartão de crédito. Lembre-se de comunicar a viagem ao banco com antecedência para não correr o risco d,e ter seu cartão bloqueado

 

No exterior, o que compensa mais: sacar grandes quantias ou ir tirando dinheiro conforme a necessidade?

O ideal é sacar o menor número  de veze. casos, a operadora do cartão ou o banco que & emitiu cobram uma taxa por saque em ATMs (caixas eletrônicos) no exterior. Além disso, a empresa local que é dona do caixa eletrônico pode também estabelecer uma tarifa, às vezes até bastante alta, por operação. Supondo que seu banco cobre 2,50 dólares e o banco local, 4,50, se você quatro saques de 100 dólares, terá de pagar 28 dólares emm taxas ( fora IOF).  Se sacar 400 dólares de uma vez, pagará apenas 7 dólares. Que forem cobrar taxas de saque- basta procurar pelos que não impões essa tarifa. Resuumindo, o melhor é evitar dinheiro vivo do bolso e pagar diretamente com o cartão as contas das lojas, hotéis e restaurantes, já que não há taxas para esse tipo de operação fora o IOF.

 

 

Quando compensa usar O cartão de crédito?

“Em primeiro lugar, quando você não tem dinheiro imediatamente disponível mas está esperando receber um pagamento à época da volta como qual poderá cobrir suas

despesas”, diz Myrian Lund. Sé você está querendo acumular pontos no programa de milhas, também pode valer a pena comprar no cartão de crédito”, diz a especial. Do contrário, é melhor evitá-lo. O IOF é bem mais alto que o aplicado aos cartões pré-pagos ou de débito, e o consumidor fica sujeito às variações do cambio. Em uma compra de 10() dólares no dia 11 de abril deste ano, per exemplo, quem passou o cartão de débito pagou, ao câmbio do dia (1,83 reais), 183 reais. Masquem usou um cartão de crédito com vencimento no dia 21 de maio pagou pelo mesmo item 204 reais, já que nesse período houve uma alta significativa do dólar

 

É MAIS BARATO PREVENIR DO QUE REMEDIAR

 

Um pequeno acidente em uma viagem de

três dias ao exterior pode significar um

gasto de milhares de dólâres. ~Nos

Estados Unidos, sem seguro, você mal

consegue o atendimento emergencial”, diz

Carolina de Mona, diretora da SulAmérica.

Para entrar nos países signatários do

Tratado de Schengen (Áustria, Bélgica,

Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha,

Itália, Grécia, l.JJxemburgo, Holanda,

Portugal, Espanha, Suécia, Noruega,

Islândia etc.), é preciso comprovar

cobertura de 30000 euros

 

FÉRIAS TRANQUILAS

O seguro de viagem não é igual ao de saúde. Cobre o retomo ao lar se houver acidente, a hospedagem para a recuperação pós internação e até o repatriamento do corpo em caso de morte, entre outras coisas. Há seguros de diversos tipos, com cobertura de 1 a 366 dias. E os  valores começam por volta dos 50 e vão até poucos milhares de dólares, e os prêmios crescem

proporcionalmente. Peça uma cotação a seu-agente de viagens

 

MÚLTIPLOS

Quem sai dopais com freqUência pode optar por um seguro multiviagens, modalidade que dá cobertura a um número ilimitado de viagens no período de um ano, Os custos podem sair um

pouco mais em conta

 

BENEFICIOS DO CRTÃO

Alguns cartões de crédito garantem o atendimento médico emergencial, no.valor de 3O’OOO euros, exigido pelo Tratado de Schengen, sem cobrar nada a mais por isso. O’ benefício costuma ser válido para quem compra a passagem como cartão, Para obter o certificado exigido na entrada desses países, faça contato com a operadora antes de viajar

 

SEGURO INTERNACIONAL

Antes de comprar um seguro de viagem, verifique o contrato do seu plano ou seguro de saúde. Certos seguros nacionais garantem assistência internacional a associados que morem no Brasil. Além do atendimento em caso de doença súbita, acidentes e ” emergências odontológicas, o segurado tem, por exemplo, auxilio para localização de bagagem extraviada. Na maioria dos casos, é necessário entrar em Contato com a seguradora antes de viajar. Quando o destino for a Europa. lembre-se de pedir o. certificado de cobertura. Você pode ser impedido de entrar em território europeu caso não o tenha em mãos.

 

QUAL O PENTE QUE TE PENTEIA?

A cabeleireira rebelde e cor de fofo da escocesinha Merida, de Valente. É a mais perfeita tradução visual de uma personagem já alcançada por um personagem.

Doze filmes, a uma média de 600 milhões de dólares em bilheteria por filme, e nenhum deles com uma personagem feminina como protagonísta: se a Disney é o reino das princesas, a Pixar é o quintal dos meninos – brinquedos que percorrem o mundo  em aventuras, ratos que querem ser chefs,Carros irrequietos, super-heróis irritados por ter de fingir que não são só':”

per. Um bando de crianças rebeldes, em suma, cheíasjía que ia energia impaciente com que os meninos deixam anãs atrás de si um rastro  de adultos exaustos. Desde o início dos anos 2000, no entanto, os animadores da= Píxar (que, a começar por seu chefe e mentor, John Làsseter; correspondem integralmente à descrição·acima)’têm ciência de que a cultura de sua empresa é a de un1clube de garotos. E que, pelo simples fato de esse constituir um ponto. cego em seu processo criativo, seria necessário superá-lo. Na Pixaê, porém, trabalha- se freneticamente para colher resultados a longuíssimos no prazo. Em 2003, Lasseter contratou Brenda Cbapman, que havia sido supervisora de roteiro em O Rei Leão. Em maio de 2004, Brenda apresentou seu argumento para um filme sobre uma princesa anticonvencional e  convencional e recebeu o sinal verde para proceder imediatamente

à produção e assim  tomar-se a,primeira.

milenar a dirigir um filme na Pixar,

Mas só agora Valente ( Brave, Estados Unidos 2012) chega aos cinemas.

Merida a princesa imaginada Por Brenda uma escocesinha com uma

enorme cabeleira ruiva de cachos indomáveis. Resultado da inspiração e do vir-

virtuosismo técnico característicos da Píxar, essa juba com vida própria ao mesmo

tempo define Merida (não adianta tentar prendê-Ia,porque.ela vai se soltar), ilumina as cenas como uma, chama e mais, toma Merida alegre impetuosa, vibrante e volúvel. Toda a forçada personagem estande,e,quando a mãe de Metida, a

rainha, Elinor, esconde essa maravilha sob uma touca comportada para apresentá-Ia aos  disputar sua mão.em casamento, a princesa teima em libertar um cachinho e deixá-lo à vista sobre a testa: sem essa expressão de sua independência, sente Merida ela não é ninguém.

Ou pelo, menos. não é Metida a menina que. sob O olhar censurador da mãe mas para orgulho do pai, cavalga pelos bosques e ruzes, ri alto demais e tem mira irrepreensível com o arco e flecha. As tentativas de ensina-lá a abordar, cantar ou entreter polidamente visitas formais redundam sempre em fracasso e mais ainda a tentativas de impor com o primogênito de um dos tr6es clãs sob guarda de seu pai. Que noivo que nada, resiste a princesa: ela não está pronta para casar, e talvez nunca venha a estar.

Uma princesa sem príncipe eis algo que faria tremer a Disney. E , segundo se pode peneirar ruimores, encheu de hisitação também Brenda Chapmam. Pelo menos na sua primeira versão de enredo., Merida queria o direito de escolher em vez de ser simplesmente dizer que não e não. Após as habbituais alegações de “diferentes criativas”, Brenda foi removida da função e substituída por Mark Andrews, um talentoso em preparação que fora com ela à Escócia em um ama viajem de pesquisa por ter certa afinidade com o assinto : toda sexta-feira, Andrews, vestindo um Kilt,  a tradicional saia escocesa, fica no gramado em frente à entrada principal da Pixar desafiando quem passa por ali para duelos de espadas ( de verdade). Em uma reportagem recente, a revista Time apurou que Andrews adoto dar apelidos irritantes aos colegas de trabalho, nunca come a verdura do prato e terminou Valetente devendo mais de 1 000 dólares em multas por palavrões. A princesa Merida foi concebida por uma mulher mas ganhou sua forma final e veio ao mundo pela imaginação de um menino.

Ou isso é o que parece. Na verdade Andrews teve papel decisivo como supervisor de roteiro de Os Incríveis, uma  hitoria de crise conjugal disfarçada em filme de anti-herois. E escreveu e dirigiu um dos mais estupendos curtas da Pixar, One Man Band, sobre uma pequena camponesa ardilosa por cuja moedinha dois homens- nada competem. A camponesinha cheia de opinião é um espécie de precusora de Meridoa; e o trajeto seguido por Vletente, assim, não resulta de uma imaghinária divisão entre meninos e meninas, mas da cultura de crivos brutais e responsabilidade absoluta que é a fundação da Pixar e que responde tanto pelo seu êxito criativo quando pó seu sucesso comercial. Na Pixar e que responde funcionários podem andar de  patinete e decorar suas salas como forte apache ou castelo, mas a brincadeira em serviço termina aí. Todo projeto em andamento é regulamente avaliado e trucidado por um conselho independente.

Nenhuma diretor é obrigado a acatar as crítica e sugestões do conselho. Mas pode ser deposto pode ser deposto a qualquer momento se concluír-se que o trabalho não está

satisfatório e sua rota não poderá ser corrigida sob aquela liderança. Além de

Brenda,os diretores iniciais de Toy Story 2, Rauuouille e Carros 2 já haviam

sido tirados da corrida antes de cruzar a linha de chegada Doloroso para o ego e custoso para a empresa, já que quando se demite um diretor é porque será preciso refazer trechos inteiros do desenho, com imenso dispêndio.de tempo e dinheiro. Mas tranqüilizador para a instituição de excelência criativa em que a Fixar se tornou. Merída a exemplo da camponesinha de One Man Band, fez Brenda e Andrews trabalhar duro pelo direito à sua recompensa. Mas, generosamente, deixou que os dois a recebessem – não uma moeda mas ela mesma, uma heroína e pioneira.

EPOCA_16-07

A política e as falácias

 

O julgamento do mensalão não deve ser confundido por exercícios absurdos de retórica

 

Quando faltam duas semanas para o julgamento dos 38 réus do mensalão, o país assiste a

um falso debate sobre o caráter da decisão que será tomada após sete anos de investigação. Estimulado pelo ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, apontado pelo Ministério Público de Roberto Gurgel como “chefe da quadrilha”, o bloco dos acusados se organiza em torno de uma ideia tão simplória quanto absurda. Dizem que não querem um “julgamento político”.

 

Como o próprio Dirceu aprendeu quando era simples calouro do curso de Direito da PUC de São Paulo, onde iniciou a carreira de líder estudantil de 1968, o Supremo Tribunal Federal (STF) está tecnicamente impossibilitado de fazer um julgamento que não seja político. Seus integrantes são indicados pelo presidente da República e referendados pelo Senado. Sua função é tomar decisões a partir de um único documento, a Constituição. Seja sobre cotas raciais, sobre células-tronco ou sobre denúncias de corrupção, todo julgamento no STF tem caráter político. Por um fato simples: trata-se – por definição – da mais alta instância de um dos Três Poderes da República.

 

Mas é igualmente absurdo dizer que uma deliberação do Supremo limita-se apenas a considerações

de natureza política. Quem tem o direito de agir assim é o Congresso. Tal condição permitiu que, na

semana passada, 59 senadores cassassem o mandato de Demóstenes Torres. Nessa votação, cada parlamentar votou de acordo com sua convicção, seus valores, por interesses partidários e até por vingança. Pode ser discutível, mas é assim que funciona numa democracia.

 

No Supremo, espera-se que os juízes tomem decisões a partir de um delicado equilíbrio, que envolve aquilo que se encontra nos autos e aquilo que cada ministro valoriza na Constituição. Não há lugar para preferências partidárias no STE Os juízes se alinham com caminhos ora diferentes, ora semelhantes, de interpretar a Constituição. Por essa razão, muitas vezes o plenário se divide entre maioria e minoria.

 

O Supremo também pode tomar decisões totalmente diferentes do Congresso. Em 1992, os parlamentares aprovaram a abertura de um processo de impeachment contra Fernando Collor, levando o presidente à renúncia. Quando o caso chegou ao STF, decidiu-se anular as principais prmifts contra o ex-presidente, e ele foi absolvido. Parece estranho, mas é natural. Tanto o Congresso como o STF representam poderes soberanos, que não podem ser submetidos aos

demais. Ébom para a democracia que eles funcionem assim.

 

Ao levantar o falso fantasma do “julgamento político” e pedir um “julgamento técnico': os réus do mensalão apenas usam uma palavra neutra para tentar esconder seu problema real: a dificuldade de convencer os brasileiros de sua inocência. É um debate que eles perderam, ao menos até o momento em que Ayres Britto declarar aberta a sessão. Mesmo os desastrados esforços do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para demonstrar a “farsa do mensalão” não levaram a parte alguma. A decisão agora cabe apenas aos ministros do STF – a partir de 2 de agosto.

 

O problema é a saúde pública

 

Numa medida inédita, na semana passada a Agência Nacional de Saúde Suplementar

(ANS) decidiu punir 268 planos de saúde privada, oferecidos por 37 operadoras diferentes. Eles se

recusaram a cumprir os novos prazos para consultas e exames de clientes, estabelecidos em dezembro de 2011. Pelas regras em vigor, em nenhum caso a espera pode ultrapassar o limite máximo de três semanas. A medida não atinge os 3,5 milhões de brasileiros cadastrados nos planos punidos, que conservam seus direitos contratados. Mas impede que as operadoras continuem a oferecer seus serviços no mercado antes de regularizar a situação.

 

Quem entra no mercado de saúde privada sabe que se trata de um negócio sujeito a leis mais rigorosas, que zelam pela saúde da população. Por isso, as autoridades fazem bem em exigir

que os planos privados cumpram o que a lei manda. Mas não custa lembrar que nenhuma punição,

por mais rigorosa que seja, conseguirá melhorar a qualidade do atendimento médico oferecido à

maioria dos brasileiros.

 

A verdadeira dificuldade é de natureza estrutural. A situação precária do sistema público de

saúde tem empurrado cada vez mais brasileiros a bater às portas de planos privados. São milhões de pessoas, com todo o direito de lutar por um atendimento decente, mas sem renda para pagar – em valores de mercado – pelo que necessitam. O resultado é uma situação que lembra as fracassadas experiências do regime comunista: os clientes fingem que pagam pelos serviços que gostariam de receber, enquanto os planos de saúde fingem que fazem o combinado. O resultado são calotes – e a recusa em oferecer os tratamentos necessários.

 

A experiência universal mostra que a saúde da população deve ser assegurada por um bom serviço público, eficaz e de qualidade. O atendimento privado, mais custoso, sempre será incapaz de suprir as deficiências do setor público, O governo só obterá resultados relevantes, portanto, quando for além de punições e se mostrar capaz de usar de forma racional o dinheiro do contribuinte destinado constitucionalmente a zelar pela saúde da população.

 

Investimento? Sim, ministro. Mas não no grito

 

O sujeito que se encaixa hoje na definição “empresário brasileiro”, seja ele dono de um bar

ou de uma siderúrgica, arriscou muito seu dinheiro. Dependendo de quando resolveu empreender, enfrenta ou já enfrentou hiperinflação, a maior taxa de juros do mundo, a maior carga de impostos entre os países em desenvolvimento, uma legislação tributária que cresce e se complica a cada dia, normas em metamorfose constante, burocracia incompreensível, cobranças inesperadas de governos municipais e estaduais, fiscais corruptos e autoridades que dão informações discordantes. Pois, no início de julho, esse sujeito ouviu que seu mal é falta de “ousadia” no uso de seu dinheiro. O diagnóstico veio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, num evento organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Mantega reclamava que o nível de investimento total na economia – que depende principalmente dos empresários – não cresce. O resmungo lembrou a cobrança feita em março pela presidente Dilma Rousseff, numa reunião com grandes empresários na Capital Federal.

 

A presidente e o ministro bem que poderiam, ao deixar o governo, experimentar abrir uma empresa no Brasil a partir do zero, como cidadãos comuns, sem contar com as facilidades da influência e dos contatos nos lugares certos. Poderiam também acompanhar as dificuldades de quem tenta medir a segurança e prever o retorno de um investimento produtivo no país. São ambos exercícios que desafiam a sanidade dos envolvidos.

 

Dilma e Mantega estão certos ao se preocupar com o assunto. É o investimento que coloca para trabalhar novas máquinas industriais, fábricas, usinas, ferrovias, portos – a estrutura necessária para que o país continue a criar empregos, a aumentar salários e a consumir, sem perder o controle da inflação. Mas não há sinal de que o nível de investimento dará neste ano o salto necessário para

compensar a pasmaceira da economia global- e ninguém em Brasília tem o direito de reclamar. O governo federal investiu, no primeiro semestre, apenas um quinto do que estava programado, segundo a ONG Contas Abertas. O resto ficou preso nos desvãos dos ministérios, entre limitações do ano eleitoral, burocracia, demissões por corrupção, retaliações de incomodados e incompetência

administrativa. O desembolso, de R$ 19 bilhões, é inferior ao realizado no mesmo período em 2010.

 

Embora o governo venha fazendo esforços corretos para facilitar o investimento privado, Dilma e Mantega precisam se lembrar de quanto mais há a fazer. Mesmo num período de euforia econômica, entre 2004 e 2007, o nível de investimento total avançou lentamente, de 16% do PIB para 17,5%. Desde 2008, não consegue superar os 19%. Não será num momento de ansiedade global que o empresário correrá na direção do risco. Cabe ao governo federal melhorar o terreno para que

- como e quando aqueles que arriscam seu dinheiro achar adequado – o investimento privado cresça.

 

Fernando Abrucio

 

Que novidade haverá nestas eleições municipais?

 

A realização da oitava eleição municipal pós ditadura é um sinal importante do avanço democrático

no país. Essa importante conquista não significa, porém, que tenhamos resolvido nossos problemas, expostos na vida caótica das grandes cidades. Uma boa oportunidade de discutir o desafio de governar as metrópoles é a eleição em São Paulo, cujo tema básico,colocado pelo candidato a prefeito pelo PT,é a renovação. De tão importante, esse slogan precisa se transformar em referência para o debate. Masvale a pena entender melhor o significado da palavra antes de tomar a forma pelo conteúdo.

 

Obviamente a renovação não tem a ver com as alianças que os principais candidatos montaram. A famosa foto de Paulo Maluf com Lula não é a inovação de que precisamos. Ela apenas revela que

todos os partidos já se aliaram com Deus e com o Diabo para ganhar eleições – e, justiça seja feita,

Serra também sonhou com aquele abraço. Mudar essa realidade vai além destas eleições municipais e depende tanto da aposentadoria de algumas figuras decrépitas de nosso sistema político, como também da melhoria do arcabouço institucional. A implantação da Ficha Limpa ajudará nesse processo purificador. Mas seria importante mexer em questões como os critérios para distribuir tempo de rádio e TV aos partidos. O mais importante é proibir as coligações para as eleições proporcionais. Com essa alteração, o PT não precisaria namorar com o malufismo, e os tucanos não teriam de sejuntar aos companheiros de Valdemar Costa Neto. Claro que ninguém friamente acredita que Maluf mandaria num governo petista ou que o PR comandaria uma prefeitura sob a batuta de José Serra.

 

O ponto central de um debate baseado na renovação deve estar nas políticas públicas. Para

começar, os candidatos deveriam dizer como reformariam a carcomida máquina pública paulistana.

Há muitos cargos comissionados, distribuídos sem controle nem accountability. Eles permitem

que um desconhecido faça fortuna negociando a liberação de alvarás para prédios e shopping centers. Na verdade, a excessiva burocratização para conseguir qualquer documentação da prefeitura paulistana revela que o sistema foi montado não para responder aos interesses dos cidadãos e de empreendedores competentes, mas, sim, para alimentar uma teia de corrupção que congrega políticos e financiadores de campanha.

 

No fundo, se quiserem concorrer sob o signo da renovação, os candidatos terão de propor uma

revolução administrativa em São Paulo. Kassab perdeu essa oportunidade. Para não me colocar

como “professor de Deus”, conhecedor das “soluções perfeitas”, apresento aqui três temas que

devem merecer a atenção dos candidatos.

 

O primeiro é a qualidade dos serviços públicos na cidade.A morosidade na saúde tornou-se uma triste sina para os mais pobres. A obtenção de alvarás e documentos, um espaço de longa espera ou propina. Entramos num novo milênio, o mundo se tornou mais dinâmico, e a prefeitura de

São Paulo atende seus cidadãos com padrões administrativos do século XIX.O que fazer diante

desse descompasso?

 

O segundo tema é o conhecimento. E São Paulo está numa situação paradoxal. De um lado,

tem uma capacidade instalada de saber inigualável na América Latina. De outro, uma educação pública que deixa a desejar. Os mais ricos e parcela da classe média podem se instruir segundo

padrões comparáveis aos países mais desenvolvidos, e os mais pobres continuam sem acesso ao

que há de melhor na própria cidade. Todos perdem com esse cenário, pois a desigualdade extrai investimentos e gera combustível para anomias sociais.

 

Vale frisar que São Paulo até que tem melhorado suas escolas municipais nas últimas gestões. Mas

não o suficiente para remover o abismo existente entre os grupos sociais. Além de avançar com o

modelo de escola de tempo integral e outros dispositivos específicos dessa política, a cidade precisa

mobilizar seus cidadãos para integrar seus fios de  desenvolvimento. É preciso ter centros tecnológicos e de saber científico nas zonas Leste e Sul, com o apoio decisivo das principais faculdades e universidades em solo paulistano. Devem ser estimulados os diversos tipos de empreendedorismo em todos os cantos, e eles devem ser interligados às grandes empresas e aos principais circuitos do mercado. Mais do que melhorar a educação, o fundamental é transformar São Paulo na cidade do conhecimento, transformando essa questão em seu fio condutor e na forma como o mundo exterior reconhecerá a metrópole. Quem se habilita a construir um projeto nesse sentido?

 

O terceiro tema é o trânsito, cada vez mais caótico. Evidentemente, deve-se continuar prolongando

o metrô, como tem sido feito nos últimos anos. Mas também deve-se implantar, ao mesmo tempo, uma política para o transporte de ônibus, questão erroneamente deixada de lado por Kassab.

Outras soluções vinculadas a novas formas de regulação do uso do espaço urbano também terão de acontecer. A maior solução é reduzir o deslocamento de cidadãos e empresas. Revigorar o centro e levar o desenvolvimento para as regiões mais carentes é fundamental. Um prefeito renovador será aquele que descentralizar os recursos e a gestão da cidade. Para tanto, enfrentará a resistência das oligarquias distritais que tomam conta da Câmara Municipal. Que candidato trará essa questão para a campanha? Eis aí o maior obstáculo à inovação que o próximo prefeito enfrentará, se quiser mesmo governar sob o mote da renovação.

 

Guilherme Fiuza

 

cachoeira pode salvar o Brasil

 

Carlinhos Cachoeira perdeu a vontade de viver. Está extremamente deprimido, muito chateado mesmo. Quem deu essa notícia triste foi a noiva do “empresário da contravenção”, Andressa Cachoeira. A mesma que dois meses atrás dava risadas, dizendo que seu amado conquistara

muita gente por ser “uma pessoa encantadora”. Na época, a musa dos caça-níqueis fazia planos para o casamento assim que Cachoeira saísse da prisão. Hoje o casal não parece

mais tão feliz. O que mudou, afinal?

 

Aparentemente, nada. Carlinhos continua preso, Andressa continua linda, e o patrimônio milionário dos Cachoeiras, construído com o suor dos políticos comprados, continua intacto no laranjal da família. O que estará azedando esse conto de fadas do Cerrado? Ao que tudo indica, a culpa é da CPI.

 

Quando todos os holofotes estavam apontados para a Comissão que investiga as obras completas do bicheiro, estava tudo bem. Com o Brasil inteiro olhando para o escândalo, os clientes

de Cachoeira temiam em seus gabinetes. O risco a seus mandatos e pescoços recomendava um olhar carinhoso para com Carlinhos, garantindo-lhe tratamento republicano com a grife de

Márcio Thomaz Bastos, o padroeiro das causas malcheirosas. Era um tempo de otimismo, com governantes e parlamentares suando frio, e a sensação de que a qualquer momento um habeas corpus mágico do doutor Márcio acabaria com aquele constrangimento todo. Como chegou a ponderar Andressa, “ninguém está livre de ser preso” – ou seja, era um mero incidente a

superar, para o bem de todos (os sócios).

 

Mas algo deu errado. O Brasil, entediado, mudou de novela. Preferiu os pilantras de Avenida Brasil e os charlatões da Rio+20. Abandonada pelo público, a CPI ficou à vontade para embromar sem culpa. Aliviou o ex-dono da Delta,barrou sua convocação tranquilamente, enquanto a platéia assistia ao teatro da salvação do planeta no Rio de Janeiro. Os depoimentos de Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot (ex-diretor do Dnit) ficaram para depois das férias, depois das Olimpíadas, depois do início da campanha eleitoral – enfim, ficaram para depois. É como se o desfile da Mangueira fosse marcado para Quarta-Feira de Cinzas.

 

Carlinhos não merecia isso. Com a queda vertiginosa da CPI no ibope, seus companheiros no Congresso e nos palácios descobriram que a farra pode sair mais barata do que parecia. Se o Brasil não está nem aí, eles também não estão. Cachoeira começou a entender que pode mofar onde está. Daqui a pouco o comando da República popular desloca Thomaz Bastos para refrescar outro aloprado, e a jovem Andressa perceberá que ninguém está livre de continuar preso. A essa altura, talvez nem a Playboy a queira mais.

 

Como rei morto é rei posto, Adriano Aprígio, o ex-cunhado de Carlinhos e um de seus principais testas de ferro, já caiu também. Foram descobertos e-mails enviados de sua casa à procuradora Léa Batista de Oliveira, uma das denunciantes do bicheiro, em tom não muito educado: “Sua vadia, ainda vamos te pegar. Cuidado, você e sua família correm perigo”. A prisão de Aprígio, um dos guardiões do patrimônio dos Cachoeiras, fez Carlinhos passar mal na cadeia, como revelou sua noiva, consternada: “Ele desmaiou. O diretor pegou, levou ele para a sala do diretor. Ele passou muito mal, muito mal mesmo”.

 

É comovente ver um homem que tanto fez por tanta gente sofrendo assim, sozinho, com as notícias terríveis que recebe na cadeia. Neste momento de dor, vai aqui um conselho ao torturado réu:

nobre empresário da contravenção, pare de esperar pela providência dos falsos companheiros. Acabe você mesmo com a solidão. Agora.

 

Faça como Roberto Jefferson: aperte o botão vermelho. Conte quem no governo federal mandava proteger a Delta e aprovar todos os acréscimos de contrato que a construtora espetava no PAC.Explique resumidamente como esse dinheiro saía do governo e voltava para as campanhas dos políticos aliados ao governo, passando por suas empresas de fachada.

 

Acorde, senhor Cachoeira. Seus amigos palacianos vão esquecê-lo nesse cubículo. Seus esquemas serão refeitos com outro despachante mais esperto. Entregue esses parasitas com crachás de revolucionários. O Brasil lhe será eternamente grato.

 

As provas do mensalão

 

Em “Temos provas do mensalão” (737/2012), o deputado Osmar Serraglio,relator da CPF que investigou a compra do apoio de parlamentares ao governo Lula, rebateu a versão dos acusados

o Banco Rural esclarece que, diferentemente do que foi publicado, o empréstimo concedido ao Partido dos Trabalhadores, em 14 de maio de 2003, foi integralmente quitado em 28 de junho de 2011. O valor original do empréstimo era de exatos R$ 3 milhões. Depois de algumas renegociações,

foi acordado o pagamento do montante devido, acrescido de juros e correção, em 34 parcelas mensais. O valor total pago ficou próximo de R$ 11 milhões. No processo do mensalão, levantou-se a suspeita de que esse empréstimo não fosse real, mas sim uma operação fictícia. Porém,

além da quitação da dívida, uma perícia da Polícia Federal, solicitada pelo relator do processo do caso no STF, atestou sua veracidade. Em relação ao senhor Marcos Valério, em junho de 2011 o Tribunal de Justiça de Minas Gerais reconheceu a legitimidade e os termos da cobrança judicial

contra ele referente ao empréstimo que lhe fora concedido em 2004. Vale ressaltar que esse é um dos quatro processos de natureza semelhante, e em todos a Justiça deu ganho de causa ao banco.

 

O Universo, Deus e você

 

ÉPOCA discutiu o significado da descoberta da partícula bóson de Higgs para a ciência, nossa visão

de mundo e para a fé

 

Essa partícula de Deus poderá desvendar o maior mistério que o homem vem pesquisando: a origem do Universo. Talvez demore muito tempo até essa descoberta, mas a ciência deu um salto triunfal

descobrindo essa partícula. Fernanda Cecilia Vargas Carnide, 4r São Paulo. SP

 

Toda descoberta científica nos pode ser muito útil. Quando a gente pensa que já viu de tudo

em termos de descoberta, novos horizontes surgem. Paulo Roberto Mattos Luiz, São Paulo. SP

 

Tudo o que foi criado por Deus precisa ser descoberto para alcançarmos a evolução. É graças ao

papel dos cientistas que desfrutamos muitas coisas que Deus criou. Ciência e religião não são opostos, são elementos que caminham juntos. Deus não diz como usar o que foi criado. Cabe aos homens estudar, questionar e explorar este Universo. É isso que Deus quer de seus criados. Que eles busquem a evolução desvendando os mistérios de seus feitos. Luiz Henrique Dias, Rio de Janeiro. RJ

 

Greve nas universidades

 

A greve dos professores das universidades federais foi o tema de”A greve remunerada dos professores universitários” (737/2012)

 

 Tenho 26 anos e ingressarei no doutorado no segundo semestre deste ano. Receberei uma bolsa de auxílio no valor de R$ 1.800 durante os próximos quatro anos. Nesse período, não poderei exercer nenhuma outra atividade remunerada, exceto ser professora numa instituição pública. Como professora, obter recursos adicionais por meio de contratos com empresas privadas, exceto em projetos de extensão, configura uma atividade ilegal, já que a maioria trabalha em regime de dedicação exclusiva. O que o autor Alberto Carlos Almeida sugere como alternativa? Mariana Paes da Fonseca Mala, Juiz de Fora,MG

 

Muito inquietante o autor dizer que as greves de professores nas universidades públicas não

têm seu real valor. Não vamos esquecer que bancamos em Brasília, há anos, políticos que nada

fazem. Devemos agora denegrir uma classe desmerecidamente? Matheus Ferreira de Oliveira, Durinhos, SP

 

FOMOS MAL

 

Na capa da edição 738, o texto correto para a chamada “Chantagem” é: “A pressão do ex-governador do Amazonas na eleição de Manaus “. A reportagem se refere ao ex-governador Eduardo Braga (PMDB), não ao atual governador, Omar Aziz (PSD). ÉPOCA pede desculpas pelo erro.

 

Quem aparece nafoto da página 47, em “Como o Universo funciona” (738/2012), é a pesquisadora

Sylvia Stevenson, no Laboratório de Laser da cidade de Wilmington, no Estado de Delaware (EUA).

 

A cirurgiã do bem

 

“Robin Hood de bisturi” (738/2012) mostrou a história da cirurgiã plástica que reconstrói a face de crianças com malformação usando o dinheiro que ganha fazendo lipoaspirações e implantes de silicone

 

A doutora Vera Lúcia Cardim merece nossa admiração pelo desprendimento financeiro e pelo amor ao próximo. É raro encontrar pessoas assim. Essa senhora, sem dúvida, fez medicina por amor, e não por status. Lécla Marinho, São Paulo,SP

 

Fiquei arrepiada quando terminei de ler a reportagem. São pessoas assim que me fazem acreditar num mundo melhor. Ajudo pessoas próximas como posso, mas ler a história da doutora Vera Lúcia me fez pensar que faço muito pouco e que, querendo, é sempre possível ajudar ainda mais quem precisa. Maria de Fátima loledo, Fortaleza, CE

 

JUNTOS, NA RUA E HONESTOS

 

Um casal de moradores de rua conhece a fama depois de desenvolver R$ 20 mil que encontrou em São Paulo

 

O morador de rua Rejaniel Jesus dos Santos e sua companheira, Sandra Regina Domingues, ambos de 36 anos, chegaram ao fim da semana cansados. Não tinham ainda absorvido a fama instantânea depois  que devolveram ao dono R$ 20 mil que haviam encontrado num saco de lixo jogado na rua.

 

o dinheiro era fruto de um assalto ao restaurante Hakkai Sushi. Os dois devolveram tudo ao dono

do restaurante, Miguel Kikuchi, de 42 anos. Como recompensa, Kikuchi fez uma oferta de emprego

a ambos no restaurante, onde o piso salarial é de R$ 880. Antes de encontrar o dinheiro, Sandra

e Rejaniel viviam com no máximo , R$ 150 mensais. Por dia, carregavam 35 quilos de metais nas costas num ferro-velho. Às vezes recebiam de doadores anônimos um pacote de arroz ou macarrão.

Rejaniel sempre sonhou com o dia em que um carro-forte quebrasse e ele pudesse fugir com

malotes de dinheiro. Não teve jeito. Diante dos R$ 20 mil, decidiram rapidamente: “Vamos devolver

o que não é nosso”.

 

Como o caso se tornou público, os dois logo se viram diante de uma maratona de compromissos

com a mídia, em que tentavam explicar a honestidade – para eles, uma qualidade natural. “Ontem

era uma entrevista atrás da outra, quase não me agüentava em pé”, dizia Sandra, na quarta feira.

No diawseguinte, Rejaniel partiria de avião para o Maranhão, para visitar a família, viagem

oferecida por um programa de TV. Seria a primeira vez em seis meses que estariam a mais do

que poucos metros de distância um do outro. Para quem não tinha uma casa ou uma família por

perto, ficar longe de seu amor fazia Sandra puxar os cabelos, baixar a cabeça e se calar. “Ela pensa

que eu não vou voltar. Que vou arrumar umas dez (mulheres)”, dizia Rejaniel. “Você vai me deixar

aqui com dois chifres enormes. Você é mulherengo”, afirmava Sandra. “Sei que sou gostoso,

mas nem tanto. Vou voltar inteiro”, respondia Rejaniel.

 

Rejaniel saiu da terra da melancia, Arari, a duas horas da capital maranhense, São Luís, quatro meses antes de completar 20 anos. Seu irmão financiara uma passagem de ônibus até São Paulo. No dia seguinte, Rejaniel já dava entrada na documentação para trabalhar como auxiliar de limpeza numa obra. Só viu seu pai, morto quando Rejaniel tinha 3 meses, numa foto, que teme ter perdido. Aos 6 anos, Rejaniel perdeu também a mãe, vencida por uma doença no pulmão. “Deu para gravar a imagem dela na mente': diz.

 

Ele está há 16 anos em São Paulo. Há 13 não vê ou fala com parentes. Não lembra o último

dia em que esteve com o irmão. Arrumou várias companheiras – uma baiana, uma paulista, uma

mineira. Morou num albergue na Zona Leste e trabalhou como porteiro e ajudante-geral para a prefeitura de São Paulo, em caráter temporário. Ao fim de três meses, ficou sem nada. Catava

latinha para manter seus dois vícios: fumar e beber.

 

A chegada de Sandra mudou tudo. Ela nasceu em Andirá, no Paraná, e fala pouco sobre seu passado. Deixou por lá dois filhos – de 2 e 4 anos. Rejaniel diz apenas que ela é brigada com a mãe. “Com ela, foi uma nova fase”, diz. Sua mulher anterior brigava para que ele não bebesse. “Esta aqui”, diz, apontando para Sandra, “bebe e fuma.” Juntos, tentam se policiar para racionar e controlar os vícios. Conheceram-se enquanto ele vivia na calçada em frente à igreja da Comunidade São Martinho de Lima.

 

Sandra passava com frequência pelo local e um dia pediu que ele acendesse seu cigarro. “Estamos

juntos aos trancos e barrancos, ela sempre do meu lado:’ Sandra nem documentos tem – por isso não pôde acompanhar Rejaniel na viagem ao Maranhão. Rejaniel não cansa de tranquilizá-

Ia e promete não traí-la. “A vida nos ensina o que é bom e o que é ruim”, diz ele. “Aprendi isso

com o melhor professor. Aprendi com o mundo.”

 

O verão mais quente de todos os tempos

 

Os Estados Unidos passam pelo período mais quente dos últimos 117 anos. Pode ser uma prévia das mudanças climáticas

 

o Hemisfério Norte está fervendo. A temperatura média para o mês de junho nos Estados Unidos ficou 1,1 grau célsius acima da média do século XX. Os termômetros bateram o recorde desde que os registros começaram, há 117 anos, em cidades como Washington (40,5 graus), Saint Louis (41 graus) e Indianápolis (40 graus). Tempestades violentas deixaram cerca de 3,4 milhões de pessoas sem energia elétrica na Costa Leste no último dia 30.A seca devastou as plantações. Segundo

o Departamento de Agricultura, a estiagem já atinge mais de 1.000 condados em 26 Estados. Poderá causar uma queda de 12% na safra de milho deste ano. Não é só nos EUA. No sul da Rússia, as enchentes provocadas pelas fortes chuvas de verão atingiram 30 mil moradores e mataram 171. As queimadas engoliram milhares de hectares de florestas na Sibéria. A recente onda de calor é coerente com a expectativa das mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. Segundo

a NOAA, agência americana para oceanos e atmosfera, a última década foi a mais quente na história nos EUA. Para o IPCC, órgão de mudanças climáticas da ONU, esses eventos extremos deverão piorar. “A atmosfera mais quente e úmida é uma receita para catástrofes': afirma Michael Oppenheimer, da Universidade Princeton. A onda de calor no Hemisfério Norte pode ser só mais um anúncio do que a Terra nos reserva.

 

FELIPE PATURY

 

Partido Social Brasileiro

 

OPSB e o PSD negociam a formação de um bloco parlamentar e já escolheram até um líder comum: o deputado Márcio França (PSBSP). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi informado do estágio atual das conversas. Se o futuro bloco vingar, terá a maior bancada da Câmara,

com prerrogativa de indicar candidato a presidente da Casa. Quem seria? O próprio França. A aliança pode ser o embrião de um novo partido. Na cúpula de ambos, há até quem tenha sugerido nome: Partido Social Brasileiro, com DNA do Partido Socialista Brasileiro e do Partido Social Democrata.

 

Põe tensão nisso

Já se sabe que o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, abandonou a carreira (curta) de cantor gospel ao entrar na política. Agora, descobre-se que Guiga Ribeiro (seu nome artístico) também

enveredou pelo rock. Teve duas bandas: a Alta Tensão, de pauleira, e a mais progressiva, Clã de Atenas. Gravou dois CDs antes de trocar o Clã de Atenas pelo clã do Partido Progressista (PP). De vez em quando, ainda tem uma recaída metaleira. Ele foi pura Alta Tensão quando botou Paulo

Maluf para tocar na campanha do petista Fernando Haddad a prefeito de São Paulo.

 

PENa de tucano

 

O PEN (Partido Ecológico Nacional) será criado nesta semana com uma bancada de oito a 11deputados. O presidente da legenda, Adilson Barroso, está garimpando adesões em sete partidos.

Teve mais sucesso com o PSDB. Lá, tem a promessa de quatro filiações. Uma delas é o deputado

paranaense Fernando Francischini. Os tucanos que se metamorfosearem em ecologistas devastarão o ambiente do PSDB em 2014: sem eles, o partido terá menos tempo no horário eleitoral.

 

Só Arruda?

 

Denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, o governador cassado do

Distrito Federal, José Roberto Arruda, foi convidado pelo PTB a concorrer a uma vaga de deputado em 2014. Com o julgamento de seu presidente, Roberto Jefferson, pelo mensalão, o PTB,

além de Arruda, precisará de pimenteira, espada-desão- jorge e, sobretudo, de comigo-ninguém-pode.

 

DPVAT

 

Foram feitos 16 mil pedidos ao governo federal com base na Lei de Acesso a Informações. O

tema que suscita mais interesse é como sacar o DPVAT. Ele motiva 11 % das solicitações.

Na sequência, vêm as aposentadorias e os benefícios do INSS. A lista está detalhada

nesta coluna em epoca.com.br.

 

Come-se fria

 

Em 2010. o deputado Natan Donadon (PMDB-RO) foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 13 anos e quatro meses de cadeia por corrupção. Formação de quadrilha e peculato. Com um pedido de reexame do processo. evitou a cana e manteve o mandato. A petição entrou e saiu da pauta do Supremo uma dezena de vezes. Informalmente. Donadon se aconselha com o advogado Nabor Bulhões. que defendeu o senador Fernando Collor (PTB-AU em seu impeachment. em 1992. Se Donadon perder o mandato. quem assume o cargo em seu lugar é Amir Lando. relator da

CPI do PC e carrasco de Collor.

 

Idade não vale

 

Até hoje. vigorou uma regra segundo a qual os crimes prescrevem mais rápido quando o réu tem 70 anos ou mais. A ministra do Superior Tribunal de Justiça Laurita Vaz desconsiderou esse princípio ao julgar uma ação do Ministério Público contra o exbanqueiro Ângelo Calmon de Sá do Econômico. Condenado a quatro anos de prisão por gestão fraudulenta. ele vencera em instâncias inferiores. É uma mudança na jurisprudência.

 

Pegou mal

 

Num encontro com um grupo de deputados a ministra das Relações Institucionais. a petista Ideli

Salvatti. referiu-se ao líder do DEM. ACM Neto como Grampinho. Ele detesta esse apelido. que alude

a grampos telefônicos atribuídos a seu avô ACM.

 

Vermelho não. Rosa!

 

Foi a presidente Dilma Rousseff quem pôs o marqueteiro João Santana na campanha de Patrus Ananias candidato petista a prefeito de Belo Horizonte. Santana garantiu à presidente que conseguirá se dividir entre a capital mineira. São Paulo onde defende o petista Fernando Haddad. e a eleição da Venezuela onde trabalha para reeleger Hugo Chávez. Santana disse até o que fará para Patrus. Uma de suas ide ias é substituir na TV o vermelho petista por uma cor mais esmaecida. o rosa. Tem mais. Santana leva consigo o Vox Popull, do sociólogo Marcos Coimbra. Foi um golpe no prefeito Márcio Lacerda (PSB). que tenta mais um mandato. O Vox Populi tinha uma relação

longa com Lacerda e seu padrinho. o senador Aécio Neves (PSDB).

 

Melhor de três

 

Está aberta a sucessão do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

José Maria Marin.O diretor de candidatíssimo ao cargo. Tem o apoio do ex-presidente Luiz

Inácio Lula da Silva e se vê fortalecido pela vitória de seu Corinthians na Libertadores.

Chefe da Série B do Brasileiro. Reinaldo Bastos corre por fora. Mas o favorito é outro:

Marco Polo Del Nero. Braço direito de Marin. ele foi eleito por unanimidade vice presidente

da CBF. Del Nero foi promovido de candidato natural a substituto formal. Para evitar tiros do trio.

Marin diz que não tentará a reeleição em 2014.

 

Papai Sabe tudo

 

Com Leonel Rocha e Igor Paulin e reportagem de Alberto Bombig Candidato do DEM

a prefeito do Rio. Rodrigo Maia terá como marqueteiro seu pai. O ex-prefeito César Maia.

Foi ele quem vestiu Rodrigo com gibão de couro em visita à Feira de São Cristóvão um

enclave nordestino.

 

Gente fina

 

A Iguatemi Shopping Centers comprou 800.000 metros quadrados no Lago Sul. bairro mais nobre

de Brasília. Pretende construir lá seu segundo shopping na capital. O primeiro foi inaugurado há dois

anos no Lago Norte.

 

Ligou?

 

Uma pesquisa feita pela FSB com 220 deputados de 19 partidos apontou os desempenhos das

agências reguladoras. A mais bem classificada foi a Aneel, de energia. A pior. a Anatel. Precisa

dizer que é de telefonia?

 

Zona fraca

 

A Zona Franca de Manaus empregava 126 mil em outubro de 2011. Hoje gera 115mil empregos. Para estancar a queda. será suspensa a cobrança do ICMS para 30 fábricas de motos. O recolhimento de outros impostos também será adiado.

 

COMO A DELTA PAGOU PERILO

 

Um relatório da Policia Federal obtido com exclusividade por ÉPOCA comprova os elos entre o esquema de Carlinhos Cachoeira e o governo de Goiás

 

No dia 27 de junho, o Núcleo de Inteligência da Policia Federal remeteu ä Procuradoria-Geral da Republica um relatório sigiloso, contendo todas as evidencias de envolvimento do governo Marcon Perillo com o esquema da construtora Delta e do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Como governador de Estado, Perillo só pode ser investigado pelo procurador-geral da República – e processado no Superior Tribunal de Justiça. O relatório, a que ËPOCA teve acesso com exclusividade, tem 73 páginas, 169 diálogos telefônicos e um tema: corrupção.

 

O documento está sob os cuidados da subprocuradora Lindora de Araújo, uma das investigadoras mais experientes do Ministério Público. Ela analisará que providências tomar e terá trabalho:

são contundentes os indícios de que a Delta deu dinheiro a Perillo.

 

Alguns desses 169 diálogos já vieram a público; a vasta maioria ainda não. Encontram-se nesses trechos inéditos as provas que faltavam para confirmar a simbiose entre os interesses comerciais da Delta em Goiás e os interesses financeiros de Perillo. Explica-se, finalmente, o estranho episódio da venda da casa de Perillo para Cachoeira, que não foi bem entendido. Perillo nega até hoje que tenha vendido o imóvel a Cachoeira; diz apenas que vendeu a um amigo. O exame dos diálogos interceptados fez a Polícia Federal, baseada em fortes evidências, concluir que:

 

1) assim que assumiu o governo de Goiás, no ano passado, Perillo e a Delta fecharam, diz a PF,

um “compromisso”, com a intermediação do bicheiro Carlinhos Cachoeira: para que a Delta recebesse em dia o que o governo de Goiás lhe devia, a construtora teria de pagar Perillo;

 

2) o primeiro acerto envolveu a casa onde Perillo morava. Ele queria vender o imóvel e receber

uma “diferença” de R$ 500 mil. Houve regateio, mas Cachoeira e a Delta toparam. Pagariam com cheques de laranjas, em três parcelas;

 

3) Perillo recebeu os cheques de Cachoeira. O dinheiro para os pagamentos – efetuados entre março e maio do ano passado – saía das contas da Delta, era lavado por empresas fantasmas de Cachoeira

e, em seguida, repassado a Perillo, Ato contínuo, o governo de Goiás pagava as faturas devidas à Delta;

 

4) a Delta entregou a um assessor de Perillo a “diferença” de R$ 500 mil;

 

5) a direção nacional da Delta tinha conhecimento do acerto e autorizou os pagamentos. Para compreender as negociações, é necessário conhecer dois personagens, que chegaram a ser presos pela PE Um é o tucano Wladmir Garcez, amigo de Perillo e ex-presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia. Garcez atua como uma espécie de embaixador de Perillo junto à Delta e à turma de Cachoeira: faz pedidos, cobra valores, entrega recados. O segundo personagem é Cláudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste e parceiro de Cachoeira no ataque aos cofres públicos de Goiás. Na hierarquia da Delta, Abreu detinha a responsabilidade de obter contratos públicos para

a construtora e – o mais difícil, custoso – assegurar que os governantes liberassem os pagamentos em dia. A corrupção neste caso, como em tantos outros, nasce na oportunidade que o Poder Público

oferece: um detém a caneta que pode liberar o dinheiro; outro detém o dinheiro que pode mover a caneta. Na simbiose entre a Delta e o governo de Goiás, Garcez e Abreu eram os sujeitos que se dedicavam a fazer o dinheiro girar, multiplicar-se. Não há caixa de campanha ou questiúncula política nessa história. O objetivo era ganhar dinheiro.

 

A PF começou a monitorar as atividades ilegais das duas turmas, de Perillo e da Delta, em 27

de fevereiro do ano passado. Naquele momento, Perillo cobrava o pagamento do “compromisso”

da Delta. Num diálogo interceptado pela PF às 20h06, Cachoeira pede pressa a Abreu. Disse Cachoeira: “E aquele trem (dinheiro) do Marconi (governador), hein? Marconi já falou com o Wladmir (Garcez), viu”. Abreu chora miséria, como bom negociante. “Vou falar amanhã que não tem jeito”, diz Cachoeira. “Mas não é 2 milhões e meio, não. Ele (Marconi) quer só a diferença.” Cachoeira

refere-se, aqui, à operação de venda da casa, o assunto mais urgente naquele momento. Abreu faz jogo duro: “Pois é, doutor, eu não tenho como. Do mesmo jeito que o Estado tá com o orçamento

fechado, eu também tô”. O jogo é simples: uma parte quer que a outra aja antes. Perillo quer o dinheiro antes de liberar a fatura; Abreu, da Delta, quer a fatura paga antes de liberar o dinheiro

para Perillo.

 

As negociações prosseguem, emperradas em alguns momentos por desconfianças mútuas. Numa ligação na mesma noite, Cachoeira certifica Abreu de que Garcez, o interlocutor de Perillo, não está pressionando a Delta sem motivos. “Não é o Wladmir, não. É ele (Marconi) que tem esse trem na

cabeça, da diferença e não sei o quê, viu?”,diz. No dia seguinte, preocupado com a demora da Delta em liberar o dinheiro, Cachoeira pede a Garcez que dê “um aperto” em Abreu, de modo a

garantir o negócio. Garcez liga para Abreu e reforça que a Delta deve pagar logo o “compromisso” com Perillo. Garcez explicara a Perillo que a Delta não conseguiria quitar o acerto logo. Diz Garcez, no diálogo com Abreu: “Tive lá no Palácio, conversei com o governador lá. Falei… ‘Olha, o compromisso que ele (Abreu) tinha feito com o senhor faltava 1 milhão e meio. (…) Ele (Abreu) vai ver se cumpre aquele compromisso com o senhor”. Diante da pressão, Abreu diz que tem “outros

compromissos” em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul. Pede tempo.

 

Nervoso com a lentidão de Abreu, Cachoeira resolve dar prosseguimento ao negócio com Perillo – e cobrar depois da Delta. A partir daí, o acerto realiza-se com rapidez. Ainda no dia 28, Garcez informa a Cachoeira que Perillo quer cheques nominais. Combinam a entrega de três cheques para

o dia seguinte, às 14 horas: dois de R$ 500 mil e um de R$ 400 mil, deposita depositados no dia 1Q de cada mês. Em seguida, no dia 1Q de março, Cachoeira faz a operação: pede ao sobrinho que assine os cheques, avisa a Delta e manda entregar os cheques no Palácio das Esmeraldas,

sede do governo de Goiás. Às 14h53, Garcez, que estava no Palácio, confirma a Cachoeira que os cheques foram entregues e avisa que levará a escritura do imóvel no dia seguinte. Doze minutos depois, Cachoeira já pede a contrapartida a Garcez: “O trem da Delta, aqueles 9 milhões que o Estado • tem de pagar … Você levou para mostrar para ele (Perillo )?”.Garcez confirma:

“Tá comigo aqui. Oito milhões, quinhentos e noventa e dois, zero quarenta e três”.Às 16h37, Garcez informa a Cachoeira que está no gabinete do governador, entregando os cheques.

Em seguida, Garcez comunica a Abreu que os problemas da Delta acabaram. “(Perillo) falou que vai resolver: ‘Não, pode deixar que isso aqui eu resolvo”‘. E resolveu: ainda no dia 1li de março,

o governo de Goiás liberou R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. No dia seguinte, o cheque de R$ 500 mil foi depositado na conta de Perillo.

 

No dia 3 de março, Cachoeira comemora com Abreu a “porta aberta” com Perillo. “Ele (Perillo) engoliu aqueles 500 mil… Ele (Perillo) responde em tudo, deu as contas para pagar”, afirma

Cachoeira. Cachoeira pediu a seu sobrinho Leonardo Ramos, que costuma assessorá-lo, para que preparasse um contrato de compra e venda no nome de um laranja – e começou a chamar

amigos para conhecer a linda casa que comprara de Perillo. No dia 25 de março, o governo de Goiás liberou mais um pagamento de R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. Enquanto os pagamentos

caíam nas contas da Delta, a Delta cobria, por meio de uma empresa laranja, os cheques dados por Cachoeira.

 

O segundo cheque de R$ 500 mil foi compensado no dia 4 de abril. Cachoeira, sempre zeloso, checava tudo com seu contador. No dia 29 de abril, antes da compensação do último cheque, no

valor de R$ 400 mil, Abreu voltou a reclamar com Cachoeira que as faturas da Delta haviam sido retidas novamente. Abreu foi claríssimo na contrapartida necessária para pagar o último cheque:

“Deixa eu te contar uma amarelada que eu dei aqui. Wladmir (Garcez) tá me rodeando aqui. Eu falei: ‘Wladmir, tá bom: que dia vai me pagar? Tá prometido até sexta que vem, tá? Então vamos fazer o

seguinte: eu pago os 400. Se ele (Perillo) não me pagar até sexta (…) você me devolve os 400′. Aí ele amarelou aqui': Os dois reclamaram da demora de Perillo. Cachoeira disse: “Agora tem de tolerar

porque nós já pusemos o pé na jaca”. Eles reclamam, reclamam, reclamam … mas no fim pagam. No dia 2 de maio, Cachoeira ordenou a seu contador que contatasse o pessoal de Perillo e descontasse

o último cheque. ”Aquele lá (o cheque) não podia falhar de jeito nenhum, né?”, diz o contador. O cheque foi descontado. E o que aconteceu? O governo de Goiás liberou mais uma parcela de R$

3,2 milhões para a conta da Delta.

 

Não demorou para Cachoeira perceber que morar na antiga casa do governador de Goiás lhe traria problemas. Num diálogo com sua mulher, Andressa Mendonça, em 17 de maio (leia na página ao lado), Cachoeira compartilhou seu temor por telefone: “Esse trem não vai dar certo (da casa). Vão acabar sabendo que é minha”. Cachoeira começou, então, a procurar um modo de se desfazer do imóvel, apesar dos protestos de Andressa, que já decorara a casa e adorava o lugar. As conversas

interceptadas pela PF mostram em detalhes como Cachoeira repassou a casa para um terceiro, o empresário Walter Santiago, sem aparecer. Para isso, recorreu à ajuda de Garcez, que coordenou

a transação. Garcez assegurou ao empresário que a casa era de Perillo. No dia 12 de julho, Walter

Santiago, rodando num carro blindado, encontrou-se com Garcez e lhe entregou R$ 2,1 milhões

em dinheiro vivo. Cachoeira orientou Garcez pelo telefone: “Manda trazer o dinheiro aqui no Excalibur (prédio onde mora Cachoeira), entendeu? Manda o professor (Walter Santiago) trazer

no Excalibur, porque ele tá com carro blindado”.

 

Em seguida, Garcez informou a Cachoeira que Lúcio Fiúza, então assessor especial de Perillo, estava com eles no carro. Responde Cachoeira: “Então pega tudo e vem para casa. Dá só os quinhentos na viagem para o doutor Lúcio. (…) Já fala para o doutor Lúcio pegar os cem também (parte do assessor de Perillo). É dois e cem, viu (R$ 2,1 milhões, o dinheiro a ser entregue)? Pega os cem logo e já mata ele, ou então já fala a data que ele tem de entregar”. Não fica claro se os R$ 500 mil para Fiúza referem-se à parte de Perillo nessa segunda operação – ou se era um pagamento pendente por outra razão. Também nessa segunda operação, Cachoeira recebeu – e distribuiu

a gente próxima a Perillo – mais dinheiro do que valia o imóvel.

 

Cachoeira confirma isso num diálogo com Andressa, ainda no dia 12. Andressa pergunta por quanto ele vendeu a casa. “Dois e cem”, diz Cachoeira. “Esse trem é do Marconi e não ia dar certo, não. Tem de passar logo esse trem para o nome dele (possivelmente o empresário Walter). Porque eu vou perder um trem de bilhões por causa de um negócio à toa.” Andressa não quer saber de negócios ou dinheiro. Quer saber da prataria da casa e das coisas bonitas e caras que comprou para decorá-la. “Você explicou para ele (empresário Walter) que roupa de cama, coisa pessoal,

acessório de banheiro, nada disso vai, né?”, diz Andressa. Cachoeira se irrita: “Deixa a roupa de cama do jeito que tá lá. Não faça isso, não. Pega as pratarias que o Wladmir escondeu lá

dentro”. “Eu não vou deixar roupa de cama de 400 fios para ele, não. Cê ta louco?”, diz Andressa. Cachoeira, então, confessa o preço real da casa e revela a existência da “diferença”. “Deixa do jeito

que tá. Aquilo lá custou quanto? Afinal, eu comprei ela (a casa) por mil (R$ 1 milhão), vendi por mil e quinhentos (R$ 1,5 milhão). Tá bom, me ajudou a vender.” A conta é a seguinte, segundo a PF: o empresário Walter Santiago pagou R$ 2,1 milhões pela casa. Destes, R$ 100 mil foram para Fiúza, o assessor de Perillo, R$ 500 mil para Perillo, levados por Fiúza – e o restante, R$ 1,5 milhão, para Cachoeira.

 

O que Cachoeira fez depois de receber o R$ 1,5 milhão? Ligou para a Delta. Confirmou o recebimento do dinheiro e perguntou a Abreu se o contador da Delta já fora avisado. Abreu

disse que estava ao lado de Carlos Pacheco, principal executivo da Delta, a quem Abreu chama de “chefe”. Abreu disse: “Eu falei com o chefe aqui, viu, amigo? Ele falou que era para ‘você guardar esse dinheiro, era para você aplicar lá no entorno (entre Brasília e Goiás), no projeto. Que o projeto lá vai exigir uns 4 milhões e meio, mas eu falo com você pessoalmente”. A PF não descobriu que projeto seria esse. Mas a fala de Abreu deixa claro o que outros diálogos confirmam: a direção da Delta nacional não só sabia das operações de Cachoeira no Centro-Oeste, como coordenava algumas negociações. Até agora, a Delta insiste na versão segundo a qual Abreu agia sozinho.

 

E manteve sua lioha de defesa, após ÉPOCA questionar a empresa sobre as novas evidências. Por meio de uma nota, a Delta afirma não ter conhecimento da apresentação de uma fatura da empresa ao governador Marconi Perillo, nem da visita de Wladmir Garcez ao Palácio de governo para

resolver um assunto da empreiteira. A nota também afirma: “Empresas de construção civil que atuam no setor público, como a Delta, precisam zelar e velar pelo recebimento pontual e em dia dos compromissos assumidos a fim de não ocorrer solução de descontinuidade nas obras”. A empresa

diz ainda que o ex-presidente Carlos Pacheco nunca teve relação comercial com Cachoeira e que a empresa tem prestado esclarecimentos necessários aos órgãos instituídos.

 

Perillo também preferiu não prestar esclarecimentos a ÉPOCA. Não respondeu às perguntas sobre eventuais conversas para discutir pagamentos da Delta e sobre a relação desses pagamentos com a venda da casa. Em nota, limitou-se a dizer que “prestou, por meses a fio, todos os esclarecimentos

solicitados pela imprensa, pela sociedade e pela CPI”. Perillo criticou ainda o deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira. Disse que o deputado quer transformar a CPI numa “comissão de investigação do governador Marconi Perillo”. Diz ainda a nota: “No exaustivo crivo a que foi submetido, nenhum fato se encontrou que possa desabonar sua biografia (de Marconi Perillo) de cidadão ou de homem público. Ao contrário, a Receita Federal, por exemplo, emitiu nota técnica

na qual atesta que o patrimônio do governador é compatível com seus rendimentos. Portanto, o governador Marconi Perillo informa que, considerando já devidamente esclarecidos os assuntos

de fato relevantes, não se pronunciará mais a respeito de questões atinentes a sua vida privada, reservando essa providência, como é natural, unicamente para os assuntos relacionados a suas atividades como governador do Estado”

 

Perillo depôs na CPI do Cachoeira há um mês, quando começavam a se acumular evidências de que ele mantinha relações com a empreiteira Delta e com Cachoeira. Na ocasião, foi claro: “O senhor Carlos Cachoeira não teve a menor participação na venda da casa. (A venda da casa) foi feita de forma transparente ao atual empresário Walter Paulo. (…) Os valores (da venda da casa) foram de acordo com o mercado”. Até agora, desconfiava-se que as três afirmações não eram verdadeiras.

Agora, com o relatório da PE sabe-se que são falsas: Cachoeira participou da compra da casa, a operação aconteceu na sombra e o valor da venda foi superior ao de mercado. Perillo também disse à CPI: “De forma desavisada ou maldosa, vejo, aqui ou acolá, afirmações de que o senhor Carlos Augusto, o Cachoeira, teria influência em meu governo”. Os diálogos interceptados pela PF e a

cronologia do pagamento das faturas à Delta revelam que Cachoeira tinha, sim, influência. Outra frase de Perillo: “Falaram (nos diálogos até então divulgados) sobre seus planos (da turma de

Cachoeira), mas nada se concretizou. Nada! Reafirmo: nada se concretizou”. Aqui, mais uma vez, as cobranças da Delta ao amigo de Perillo, os cheques compensados nas contas de Perillo e o consequente pagamento das faturas da Delta apontam o contrário.Por fim, Perillo bradou na CPI: “Não tem propina no meu Estado”.É uma afirmação ousada. Os delegados da Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ao que parece, discordam.

 

O BRASIL PELAS LENTES DE O CRUZEIRO

 

Uma exposição mostra o esplendor das imagens da revista que inaugurou o fotojornalismo no país

 

Os anos 1950, uma piada era contada para ilustrar as diferenças entre as duas principais

revistas semanais em circulação no Brasil, O Cruzeiro e Manchete. Ambas dedicavam grandes espaços para fotografias,  mas dizia-se que O Cruzeiro, mais antiga, informativa e densa, era uma redação com um parque gráfico. Já a concorrente Manchete, mais nova, colorida e leve, era

um parque gráfico com uma redação. O chiste resumia bem as divergências entre as duas publicações. Em Manchete, o impacto visual da fotografia era o mais importante. Em O Cruzeiro, o aspecto estético era igualmente relevante, mas estava a serviço das ideias.

 

Nos anos 1960, O Cruzeiro foi ultrapassado pela rival como parte de um lento processo de decadência que culminou com o fim da revista em 1975. Durante os anos 1940 e 1950, reinou como a publicação de maior penetração social do país, ao influenciar a política, reproduzir os gostos da elite e refletir as mudanças de uma sociedade que buscava ansiosamente a modernização e a superação de atrasos seculares. Grande parte do prestígio se devia à introdução do fotojornalismo

no Brasil. Antes de O Cruzeiro, a fotografia na imprensa brasileira servia como mero adereço visual. Ela simplesmente registrava em imagem o que estava contado no texto. A revista profissionalizou a

fotorreportagem, formou uma equipe de primeira linha e passou a investir na foto .como um veículo que tinha autonomia e importância igual ou até maior que o texto. Trinta e sete anos depois de seu

fim, ela continua uma referência, como mostra Um olhar sobre O Cruzeiro – As origens do fotojornalismo no Brasil, exposição no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

 

Numa era em que a televisão ainda era incipiente, os fotojornalistas de O Cruzeiro tornaram-se os responsáveis pela narrativa visual do país e construíram arquétipos do Brasil que perduram até

hoje, como as imagens da pobreza rural, dos retirantes nos centros urbanos e dos índios. Os repórteres da revista estiveram na linha de frente da Marcha para o Oeste, as expedições comandadas pelos irmãos Villas- Boas que desbravaram os territórios indígenas da Amazônia, e desempenharam um papel importante na estratégia de assimilação do índio pela sociedade. “O Cruzeiro reavivou o mito fundador da nação, encenou a aceitação da superioridade da cultura ocidental por parte dos povos indígenas e vislumbrou um futuro em que eles seriam alegres

personagens da sociedade moderna urbano-industrial': dizem os curadores Sérgio Burgi, do IMS, e Helouise Costa, da Universidade de São Paulo (USP).

 

Os fotógrafos de O Cruzeiro estavam sintonizados com as linguagens e as técnicas mais modernas do fotojornalismo. Eles se miravam em revistas como a francesa Match e a americana Life e apropriavam-se do que consideravam o melhor. A equipe da revista contava com vários colaboradores estrangeiros, como os franceses Pierre Verger, que fotografou os cultos afro-brasileiros, e Jean Manzon. Estrela da revista, Manzon era um especialista no uso da câmera Rolleiflex e em grandes fotos posadas, como as que fazia do ditador Getúlio Vargas, exemplos de

seu preciosismo técnico. Manzon teve discípulos como o piauiense José Medeiros, outro astro da revista, e alguns antagonistas, como o cearense Luciano Carneiro. Adepto da câmera Leica, mais

leve e de fácil manejo, Carneiro preferia o fotojornalismo de ação.Foi um pioneiro do correspondente de guerra no Brasil ao cobrir o conflito na Coreia. Morreu aos 33 anos num acidente aéreo depois

de uma missão muito menos perigosa: fotografar o primeiro baile de debutantes de Brasília, em 1959.

 

Mesmo com todos esses talentos, o fotojornalismo de O Cruzeiro não teria tal repercussão se seu criador não fosse o empresário Assis Chateaubriand. Ele ergueu o primeiro conglomerado de comunicação do país, com métodos para lá de controversos, que iam da bajulação à chantagem. Usava a revista como instrumento de poder pessoal, mas acreditava que a publicidade deveria ser o principal meio de financiamento da imprensa brasileira – e foi um dos responsáveis por sua modernização. Chatô não economizava. Manteve uma equipe de 17 fotógrafos que cruzavam o país em viagens e tinham aviões à disposição. O prestígio da revista durou enquanto ele bancou essa aventura. O fotojornalismo de O Cruzeiro é também o registro de uma época da imprensa que não voltará.

 

Pobres advogados

 

A Defensoria Pública da União dá assistência jurídica a quem não pode pagar. Mas sofre com a falta de quadros estrutura e autonomia

 

O paraibano Serafim Simeão, de 71 anos, é o oitavo de 20 irmãos. Migrou para o Rio de Janeiro

há 50 anos. Fez bicos, trabalhou numa cooperativa de táxis e, depois de sofrer oito assaltos, passou a atuar como pedreiro. Há cinco anos, sofreu um derrame, que lhe deixou sequelas em todo o

lado esquerdo do corpo. Simeão caminha mancando. Um dos braços não lhe obedece. Viúvo, mora numa casa alugada em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Quando foi atrás de sua  aposentadoria, descobriu várias irregularidades em suas contribuições. Por isso, não teria direito

a um benefício. Impedido de trabalhar, não sabia como pagar suas contas.

 

Num dos postos do INSS, um porteiro sugeriu que ele procurasse um lugar de nome “complicado”: a Defensoria Pública da União, perto do mercado popular da Uruguaiana, um dos formigueiros

humanos do centro do Rio de Janeiro. Simeão pegou dois ônibus para chegar até lá. Decisão acertada. Depois de receber assessoria jurídica da DPU, há quase um ano ele recebe seu benefício. Seu caso foi coberto pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), que permite a pessoas carentes ter direito a um benefício assistencial. Ele agora ganha um salário mínimo – R$ 622. Pouco, se comparado a seus gastos: R$ 200 de aluguel e contas gerais, mais pelo menos R$ 80 de remédios

para pressão e colesterol todo mês. Fora a comida. Uma das cinco filhas o ajuda quando pode.

 

A história de Serafim Simeão é semelhante à de muitos outros brasileiros que, no momento de se aposentar, deparam com problemas de contribuição ou com a própria burocracia. A atuação das Defensorias Públicas da União tem sido sinônimo de sobrevivência na vida de gente como ele. Mas esse órgão, cuja missão é representar o cidadão em ações contra a União, ao oferecer assessoria jurídica a brasileiros carentes, precisa de advogados. Em suas sedes, espalhadas pelas capitais

e por algumas outras poucas cidades, a DPU tem estrutura muito aquém de sua importância. O corpo de defensores é considerado pequeno demais: 474 para todo o território nacional. Do outro lado da mesa, defendendo os interesses – também legítimos – da União, a Advocacia-

Geral da União (AGU) conta com a ação de quase 7.970 advogados.

 

As instalações das DPUs são precárias,com equipamentos e infraestrutura ultrapassados. O quadro administrativo é mínimo. “Os defensores instalam cabos, saem para comprar papel e copo de

plástico, muitas vezes do próprio bolso': diz o advogado Eraldo Silva Junior. Por dois anos, ele liderou a equipe da DPU no Rio de Janeiro. Marcus Vinicius Lima, defensor-chefe da DPU de São Paulo, conhece bem esse enredo. “Aqui estamos sem contrato de manutenção. A bomba

de água enguiçou, tive de ficar quatro meses ligando e desligando todos os dias, eu

mesmo. E não ganho nada pelo cargo de chefia. Coordeno tudo mantendo minhas atribuições regulares de defensor”.

 

São Paulo, o Estado mais populoso do Brasil, tem o maior número de defensores: 60. No Rio de Janeiro, são 46. Em Estados com menos habitantes, mas dimensões territoriais imensas, como o Amazonas, há sete – e somente na capital, como ocorre na maioria dos outros Estados fora do eixo Sul-Sudeste. Para chegar a Manaus, onde fica a sede da DPU amazonense, pessoas das comunidades ribeirinhas viajam até cinco dias de barco para conseguir assessoria jurídica gratuita. A imensa maioria das subseções da Justiça Federal no país não tem uma unidade da DPU. Os raros atendimentos itinerantes realizados mostram que, além da necessidade de melhorar as condições das defensorias nas grandes cidades, é urgente levá-las ao interior. Vice-presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos, lotado no Rio de Janeiro, o advogado Thales Treiger participou de um atendimento itinerante na região do Alto Purus, no Acre. O que seria o atendimento de apenas uma tarde transformou- se num trabalho de três dias. “Fizemos de tudo: de conciliação em briga

de vizinhos a uma audiência com índios por uma questão territorial': afirma.

 

A falta de estrutura das DPUs deixa algumas áreas dos direitos dos cidadãos descobertas. Com as imensas demandas nas áreas cível (que envolve remédios e equipamentos), previdenciária e criminal, perdem as questões trabalhistas ligadas à União. Quem enfrenta entraves com algum órgão

federal e não tem dinheiro para pagar um advogado fica sem defesa. É o caso da funcionária do Ministério da Saúde Rosana Pereira, de 47 anos. Ela procurou a DPU no centro do Rio munida

de documentos e comprovantes de renda, para tentar conseguir gratificações que deixou de receber durante dez anos. Em vão. “Não vou ter dinheiro para pagar um advogado particular. Não sei o que fazer.”

 

A assistência jurídica contra o Estado é um elemento básico da cidadania. “Não existe democracia se os cidadãos não têm acesso à defsa contra a União': diz o jurista e professor de Direito Walter Maierovitch, ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. ”A situação das DPUs comunica ao povo que não existe o princípio da igualdade no Brasil. O Estado não pode ter o monopólio da Justiça.” Vinculada ao Ministério da Justiça, a DPU depende do Executivo e da União, para funcionar – e para combater aqueles que a gerenciam. Por isso, muitos juristas afirmam que, para haver verdadeiro equilíbrio, as defensorias deveriam ser autônomas.

 

Caminho para isso já existe. Desde 2007, está no Congresso um Projeto de Emenda Constitucional que prevê autonomia administrativa, orçamentária e financeira para as DPUs. Hoje, uma DPU depende do Executivo para aprovar orçamento, realizar concurso ou requisitar novos grampeadores.

Segundo o projeto, as DPUs poderão enviar suas propostas e projetos diretamente ao Congresso Nacional, sem passar pelo Executivo. As demandas seriam aprovadas pelo Legislativo, que

não é o alvo das ações da defensoria, Se não garantir um salto de qualidade imediato, pelo menos as resoluções não estariam mais nas mãos da União. Em 2004, com a reforma do Judiciário, as

defensorias estaduais ganharam essa autonomia. As defensorias da União, no entanto, ficaram onde estavam. O projeto da autonomia foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, na

Câmara e no Senado, em 2011. Falta agora ser aprovado em plenário nas duas Casas. Mas parou de novo.

 

As defensorias públicas – da União e dos Estados – foram criadas pela Constituição de 1988 (o acesso à Justiça é um direito de pobres e ricos, diz o texto). Só em 1994, seis anos depois, uma lei

regulamentou essa criação. A garantia de assistência jurídica aos mais necessitados é, portanto, uma realidade nova no Brasil. Antes disso, existia apenas a iniciativa de Ordens de Advogados e

de universidades, que voluntariamente ofereciam seus serviços a quem não podia pagar por eles. Em 2011, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou uma resolução que recomenda

uma Defensoria Pública autônoma e independente. O Brasil referendou o documento. Por enquanto, tudo não passa de papel e tinta. “Não existe Justiça sem defensoria pública forte': diz Pedro Abramovay, jurista e professor de Direito da Fundação Getulio Vargas.

 

Se a defensoria consegue obter algumas vitórias, elas se devem ao esforço de seus advogados, que superam obstáculos

para fazer seu trabalho. Não é fácil atender uma população carente e absorvida por suas questões. A gaúcha Letícia ‘Iorrano,de 37 anos, atua na área criminal da DPU do Rio de Janeiro. “Uma vez na

DPU, não dá mais para sair. Vira uma missão': afirma. De familiares e conhecidos, ela costuma ouvir uma pergunta: como ela consegue “defender bandido”? “Vejo nisso um preconceito enorme. Se

estivesse numa banca particular, trabalhando por criminosos ricos, será que fariam essa pergunta?”

 

 

Quem passa no concurso de defensor público tem cacife para trabalhar em qualquer outra área pública. O salário já foi pior. Hoje é de R$ 12 mil, abaixo de outras carreiras. Ainda assim é uma

boa remuneração. A falta de boas condições de trabalho incentiva a rotatividade, embora uma parcela cada vez maior se ocupe da responsabilidade social. A mato-grossense Cecília Lessa da Rocha, de 32 anos, começou sua carreira na Advocacia-Geral da União, em Brasília, defendendo os interesses do governo federal. Hoje, é a subchefe da DPU do Rio de Janeiro. “Queria um trabalho que fizesse diferença real e direta na vida das pessoas. Quando me transferi, minha família brincava que agora, enfim, eu estava do lado bom da força”.

 

ENTREVISTA ALFREDO PASTOR

 

“A chave está na competitividade”

o economista espanhol diz que a crise em seu país não será resolvida só com pacotes de austeridade. É necessário adotar medidas para diminuir o custo das empresas

 

O apresentado na semana passada pelo primeiro-ministro, Mariano Rajoy. Sob pressão dos credores europeus, Rajoy aumentou impostos e cortou benefícios sociais, para somar uma economia estimada em € 65 bilhões. É o maior ajuste aprovado por um regime democrático na história da Espanha, assolada pela recessão e por uma taxa de desemprego de 25%. Em troca, o governo fez jus a um pacote de ajuda que pode chegar a € 100bilhões. Em entrevista a ÉPOCA, o economista Alfredo Pastor, professor da Universidade de Navarra, afirma que as empresas espanholas têm de

ser mais competitivas para superar a crise e fazer com que as medidas de aperto financeiro do governo tenham resultado.

 

ÉPOCA – O primeiro – ministro da Espanha. Mariano Rajoy.prometeu em sua campanha que não aumentaria impostos nem cortaria benefícios do funcionalismo público. Tudo isso foi desfeito em seu

último pacote de austeridade. Ele foi obrigado pelas circunstancias a mudar de ide la ou sabia que não podia cumprir sua promessa? Alfredo Pastor- Ninguém gostaria de tomar as decisões que

Rajoy tomou. Surpreende-me um pouco que Rajoy não soubesse, há um ano, que precisaria tomá-las. Especialmente o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado, semelhante ao ICMS do Brasil). Quando ele estava na oposição, dizia que não subiria nunca esse imposto. De fora,

via-se isso como algo quase inevitável. Desde o começo, essa era uma das condições estabelecidas pelos credores para a ajuda ao setor bancário.

 

ÉPOCA – Mas Rajoy foi desonesto com seu eleitorado ou lhe faltou mais conhecimento da situação econômica? Pastor- Fico mais com o segundo cenário. O Partido Popular (conservador, a que Rajoy pertence) não estava consciente da gravidade da crise que havia adiante. Acreditava que a situação se acalmasse com sua simples chegada ao poder.

 

ÉPOCA – O senhor afirma que a crise na Espanha não se deve apenas à divida. mas à perda de competitividade. Como esses problemas se relacionam? Pastor- Eles se conectam porque a perda de competitividade está na origem da dívida externa espanhola, do deficit em conta-corrente. Isso começou com a bolha imobiliária criada no início dos anos 2000,que elevou demais os preços dos bens não exportáveis. Esse aumento acabou contaminando os bens exportáveis, na forma de uma elevação dos salários e das margens de lucro empresarial. Os preços na Espanha se tornaram

sistematicamente mais altos que a média européia. O IPC (Índice de Preços ao Consumidor) espanhol subiu 56% entre 2000 e 2010. Na Zona do Euro, subiu 26%. Na Alemanha, só 9%.

 

ÉPOCA – Há várias empresas espanholas entre os principais investidores da economia brasileira. como Telefónica. Santander. OHL.lberdrola e Repsol. Essas empresas não são um exemplo de

como atuar globalmente? Pastor – A economia espanhola perdeu competitividade, mas nosso setor exportador vai muito bem, ainda que seja pequeno. As empresas exportadoras da Espanha estão crescendo Nossa única saída neste momento é a exportação. Não se pode esperar muita coisa do consumo interno nem dos investimentos. Mas esse processo ainda caminha muito lentamente. Ganharemos mais competitividade à medida que o resto das companhias se comporte como os exemplos citados em sua pergunta.

 

ÉPOCA – De que maneira as empresas espanholas podem se tornar mais competitivas?

Pastor- Uma via, que já é um fato na economia espanhola, é certamente a “moderação salarial” (negociação entre patrões e sindicatos em que os trabalhadores aceitam receber aumentos

menores que a inflação por determinado período para manter seu emprego). O outro caminho é o aumento de produtividade. Nesse caso, as empresas espanholas estão se ajustando bem, até melhor do que esperávamos. A competitividade é algo que podemos recuperar, mesmo em tempos de crise. Está nas nossas mãos, ao contrário do problema da dívida, que precisou de socorro externo.

 

ÉPOCA – O governopode ajudar de alguma forma nesse ponto? Pastor – Um governo não fixa salários nem tem nenhum poder de interferência direto sobre a produtividade. Mas a diminuição

das taxas de contribuição social e o aumento do IVA são medidas que favorecem a competitividade das empresas.

 

ÉPOCA – Num primeiro momento, apenas o Bankia, terceiro maior banco da Espanha, necessitou de ajuda para não quebrar. Agora, há um pacote europeu para sanear todo o sistema bancário, que

pode chegar ,a€ 100 bilhões (cerca de R$ 250 bilhões). O estrago era maior do que se achava?

Pastor – É necessário fazer uma distinção da banca espanhola em três grandes grupos: os que não precisam de nenhuma ajuda, os que precisam e os que simplesmente deveriam desaparecer. O Bankia foi quem mais recebeu auxílio (cerca de 20 bilhões). Se você olhar apenas para sua situação financeira, o mais correto deveria ser seu desaparecimento. Mas aí entra o problema da repercussão que o fechamento do Bankia teria sobre as outras instituições. Isso não acontecerá,

pelo menos por ora. Mas não sabemos ainda que outras condições a União Europeia imporá à Espanha em troca da ajuda aos bancos.

 

ÉPOCA – E quanto a bancos como Santander e BBVA, que têm projeção internacional? Estão no grupo dos que precisarão de ajuda? Pastor – Tudo leva a crer que Santander, BBVA,Sabadell

e Caixabank não necessitarão. Uns porque têm grande parte de seus negócios fora da Espanha, outros porque já fizeram muitos ajustes para levantar os fundos necessários, como não distribuir dividendos, diminuir contribuições sociais e realizar ampliações de capital. A fatia do sistema

bancário espanhol que funciona bem não deve nada à dos outros países europeus.

 

ÉPOCA – A Espanha convive com um desemprego em torno de 25%, e o pessimismo da população é muito grande. O que pode ser feito para atacar o problema a curto prazo? Pastor – Não há solução imediata. A reforma trabalhista está introduzindo empregos em tempo parcial. Há também programas de reciclagem profissional. Mas isso não levará a uma redução significativa do desemprego tão

rápido, como algo para este ano.

 

ÉPOCA – Mariano Rajoy se queixa da herança econômica deixada pelo antecessor, o socialista José Luis Zapatero. A crítica procede? Pastor – A bolha imobiliária surgiu antes de 2004 (ano em

que Zapatero sucedeu ao conservador José María Aznar, cujo mandato começou em 1996). O financiamento fácil vem desde o fim dos anos 1990. Seja quando estava no governo ou mesmo na oposição, a partir de 2004, o Partido Popular nunca disse nada sobre a bolha. Claro que parte dos

problemas surgiu com Zapatero, mas o PP se aproveitou disso apenas para tirar os socialistas do poder. Digamos que a responsabilidade é compartilhada.

 

ÉPOCA – Rajoy dizia que não haveria precondições para os empréstimos e a soberania espanhola seria mantida. Não foi um erro político negar o óbvio? Pastor- Sim. É algo muito simples. Os devedores não têm soberania. Se a Espanha tem de pedir dinheiro, não estamos em condições de dizer que somos soberanos. Soberanos são os credores.

 

ÉPOCA – Há uma preocupação crescente de que a Espanha siga o mesmo caminho da Grécia. Em que se aproximam as situações dos dois países? Pastor – São casos muito diferentes. A Grécia tem uma economia bem mais frágil, sem um setor exportador. E há um endividamento público muito grande (165% do PIB, em comparação aos 69% da Espanha). A Espanha tem um problema grave de dívida, mas privado. Há até algo de mal-intencionado quando se quer confundir a situação grega com a espanhola. As dificuldades sociais lá são muito maiores que aqui. É claro que, se não houver pelo menos um pouco de crescimento, a Espanha certamente corre o risco de uma fratura social, mas não estamos no mesmo ponto que os gregos.

 

ÉPOCA – O senhor falou em má intenção. A quem interessaria promover isso? Pastor- É uma combinação de pressões. Os credores de um lado, o mercado financeiro de outro, e isso acaba repercutindo na mídia. Há uma simplificação grande quando tentam explicar o que ocorre na Espanha.

 

ÉPOCA – Quais são os pontos principais que Rajoy deve atacar para haver um cenário mais favorável ao crescimento? Pastor – Ele terá de levar a cabo todas essas medidas de

austeridade que deveriam ter sido tomadas há muito tempo, quando havia crescimento. Gostem ou não, terá de fazer. O que precisa haver de novo são medidas que façam a economia crescer um pouco. A mais importante delas é voltar a haver um fluxo de crédito em todos os setores. Rajoy tem de insistir nesse ponto quanto puder. O crédito não precisa vir necessariamente de dentro da

Espanha. Os bancos estrangeiros, entre os quais aqueles que já passaram por recapitalizações, poderiam voltar a emprestar aos espanhóis.

 

ÉPOCA – Qual é a Importância do Banco Central Europeu (BCE) na recuperação da Espanha?

Pastor- O BCE é o único instrumento de ação a curto prazo, mas não pode ser permanente. A União Européia não pode sustentar injeções constantes de liquidez no BCE.

 

 

DOM EUGÊNIO DE ARAUJO SALES

 

A disciplina do pastoreio

 

A chegada de Dom Eugênio à Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 1971, levaria um cardeal moço

a uma nova dimensão pioneira, na organização das Comunidades Eclesiais de Base ou na Campanha da Fraternidade. Ele ampliou essas iniciativas com a Pastoral do Trabalhador,

as Missões Populares e a Pastoral das Favelas. Ao assumir um comportamento nítido perante

os governos militares, exprimiu a voz das “injustiças sem voz” e, essencialmente,

a da luta contra os desaparecidos ou torturados. Isso no regime que arrancava das procissões

religiosas paulistas, a culminar no 31 de março de 1964.

 

Significativamente, enquanto administrador apostólico de Natal, foi um dos pouquíssimos bispos nas capitais a proibirem missas de apoio ao golpe. A intervenção militar devolvia ao vácuo da ditadura e de toda mediação política o embasamento remanescente da organização social. O Episcopado falaria, frente a frente, à cúpula castrense. Nas riquíssimas lideranças religiosas de então, conviviam, em opções distintas, o profetismo da denúncia de Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns e a interlocução direta e corajosa de Dom Eugênio Sales com os donos do poder. Repetiram-se

as cobranças ·das violências do regime no frente a frente com os presidentes Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

 

O cardeal refugava as condenações fáceis de “comunismo” ao compulsar os dossiês da prisão e da tortura com a convicção do pastor. Deste repto resultaria a Comissão Bipartite, com o concurso de Dom Aloísio e Dom Ivo Lorscheiter, presidentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). E com a presença permanente de Dom Eugênio e Dom Avelar Brandão, junto a meu trabalho, na Comissão Justiça e Paz. A frente da Comissão dos Militares, chefiada pelo general Muricy, ao lado do general Paulo Couto e do coronel Carlos Pasquale, e, como representante leigo, o professor Tarcísio Padilha. Muitos foram às reuniões mensais, entre a Casa da Gávea e os quartéis da Ilha das Cobras, em que se avolumava o inventário das denúncias de tortura e desaparição dos detidos, independentemente da crença religiosa. A voz de Dom Eugênio muitas vezes desarmava os impasses e resolvia as prisões. Mantendo linha telefônica direta com o tenente-coronel da Bipartite, o cardeal do Rio podia antecipar colisões continuadas entre a Igreja e o Estado numa rede nacional,

impedindo múltiplas detenções de ativistas leigos e clérigos.

 

A volta ao estado de direito coincidiria com o advento de João Paulo 11em busca de um novo assento social da Igreja pós-Vaticano 11,após a mensagem de Paulo VI, e o recado de um humanismo prospectivo. Esse profetismo levaria ao desabrochar da Teologia da Libertação, pela

ratificação da Igreja em seu corpus da fé, no anúncio da hierarquia. Esse é o pano de fundo da igreja espetáculo, do pontífice sem fronteiras e da comunhão solidária e imediata. Ecoava-a Dom Eugênio, voltado à espontaneidade religiosa popular, porém dentro de uma visão assistencial, sem opções ditas “preferenciais” ao “povo de Deus”. Definia-se um novo perfil conservador no cuidado de evitar a presença da Igreja numa nova luta de classes. Confidente do papa no país, consagra-se o vulto de Dom Eugênio, na apoteose das duas vindas de João Paulo 11ao Brasil. A entrada do novo século,

definirão Dom Hélder e Dom Eugênio os caminhos da modernidade. O anúncio do cardeal do Rio não foi p de uma estrita confiança no triunfalismo transcendente do pontificado de então, mas o do diário recomeço, tantas vezes heróico e secreto, da disciplina de seu pastoreio.

 

Acrobacias Com H

 

Pela primeira vez, o Brasil leva à Olimpíada mais de um atleta para as disputas da ginástica artística masculina. Eles até sonham em trazer uma medalha

 

A equipe masculina de ginástica artística do Brasil é pequena. Ao desembarcar na semana passada

na cidade de Ghent, na Bélgica, onde faz seus últimos treinos antes da Olimpíada de Londres, seus três integrantes não chamavam a atenção. Pois deveriam. Se um é pouco e dois é bom, três é um marco histórico para os ginastas brasileiros. Será a primeira vez que o Brasil levará mais de um ginasta homem para os Jogos Olímpicos. Não apenas isso: dois deles são candidatos a medalha. Num momento em que a equipe feminina, com cinco atletas (uma a menos que em Pequim 2008), carece de estrelas em ascensão, os homens são a maior esperança para que o Brasil possa finalmente ocupar o pódio da ginástica artística numa Olimpíada.

 

Os dois primeiros nomes do inédito trio foram garantidos em outubro, no Mundial do Japão. Diego Hypolito conquistou o bronze no solo, e Arthur Zanetti obteve a prata nas argolas. Sérgio Sasaki, o terceiro, foi indicado na semana passada pela comissão técnica brasileira, depois de o Brasil conquistar o direito a mais uma vaga no Pré-Olímpico. Serão três participações bem diferentes. Para

Sasaki, de 20 anos, os Jogos servirão como preparação para a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Promessa da gi nástica artística brasileira e considerado por Hypolito “o ginasta mais completo

que o Brasil já teve': Sasaki disputará o individual geral sem obrigação de trazer uma medalha para casa logo em sua primeira Olimpíada. A pressão maior ficará sobre o próprio Hypolito, único ginasta masculino do Brasil presente em Pequim. Nos Jogos chineses, ele caiu na final do solo, prova em que era favorito, e ficou em sexto lugar. Aos 26 anos, idade considerada avançada para um ginasta,

Hypolito poderá disputar em Londres sua última Olimpíada.

 

Entre o novato Sasaki e o experiente Hypolito está Arthur Zanetti. Aos 22 anos e também estreante em Jogos Olímpicos, ele chegará a Londres como um dos favoritos ao ouro nas argolas.

Atual vice-campeão mundial no aparelho, Zanetti, atleta de São Caetano do Sul, São Paulo, soma três ouros e uma prata em etapas da Copa do Mundo de 2012 e venceu o Pré-Olímpico de Londres,

no começo do ano. “Tento evitar ao máximo pensar em pressão e não me vejo obrigado a subir no pódio”, afirma. Ele coloca o chinês Chen Yibing, atual campeão olímpico, e o.grego Eleftherios

Petrounias como seus principais rivais. Petrounias foi derrotado por Zanetti na etapa do Mundial em junho, na mesma Ghent escolhida para a preparação atual. Chen está com uma lesão no ombro

direito, vital para a competição de argolas, e seu desempenho continua uma incógnita. “Não dá para saber como está, porque ele não participou das últimas etapas do Mundial”, diz Zanetti.

 

O Pan-Americano de Guadalajara, no ano passado, serviu como termômetro da boa fase dos ginastas brasileiros diante das mulheres. Das seis medalhas conquistadas, os homens foram

responsáveis por três de ouro (duas de Hypolito e uma da equipe masculina) e uma de prata (Zanetti). As outras duas, de bronze, foram de Daniele Hypolito, irmã de Diego. O ouro da equipe

masculina – Diego Hypolito, Zanetti e Sasaki estavam lá – foi um feito inédito. No dia anterior, a equipe feminina sofrera com quedas em várias provas e ficou longe do pódio. A ausência de Jade

Barbosa, com uma lesão no tornozelo esquerdo, pesou contra o desempenho das meninas.

 

Jade também não estará em Londres, por ter sido cortada pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) no começo do mês, depois de não comparecer à apresentação no Rio. Jade se recusara a

assinar um contrato em que se comprometia a usar os uniformes da entidade, com seus devidos patrocinadores, em função de patrocínios pessoais. Chegou a mudar de ideia dias depois, assinou

o documento, mas era tarde demais. Laís Souza, que fez seis cirurgias desde a Olimpíada de Pequim, disputará duas vagas com Daiane dos Santos, Ethiene Franco e Harumi de Freitas, ao final do atual período de adaptação em Londres. Daniele Hypolito, Bruna Leal e Adrian Gomes estão garantidas na lista olímpica e aparecem como maiores forças da conturbada equipe feminina. A torcida brasileira é para que as meninas consigam superar as dificuldades para obter

boas colocações. Os homens, desta vez, podem sonhar mais alto.

 

A TURMA DO “EU ME ACHO”

 

A  educação moderna exagerou no culto ä autoestima – e produziu adultos que se comportam como crianças. Como enfrentar esse problema

 

Os alunos do 3º ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos, numa tarde ensolarada no mês passado, para o momento mais especial de sua vida escolar, a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na platéia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David Mc Cullough Jr, Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais. Elas foram repetidas nove vezes em 13 minutos. ”Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no

começo. ”Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são.”

 

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua

caixa postal. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele

tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV. Teve de explicar que não

menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades':

disse ele a ÉPOCA. “Mas, para se dar bem daqui para a frente , eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro.”

 

A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores

e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo

de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma auto estima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando- os como se eles fossem da realeza': afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo.”

 

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho': Porque se acham mesmo. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja do frescor de seu talento). Eles se acham merecedores de

constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim em seu trabalho ou em

sua turma de amigos? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, ligada em tecnologia e competente em

seu uso. São bons, é fato. Mas se acham mais do que ótimos.

 

“Esse grupo tem dificuldade em aceitar críticas e tarefas que não consideram a sua altura”, diz Daniela do Lago, especialista em comportamento no trabalho e professora da Fundação Getulio Vargas. Daniela conta que, recentemente, uma das empresas para a qual dá consultoria selecionava candidatos ao cargo de supervisor. A gerente do departamento de marketing fazia as entrevistas, e uma de suas estagiárias a procurou, se candidatando ao cargo.A gerente disse que gostara da iniciativa ousada, mas respondeu que a moça ainda não estava madura nem preparada para assumir a função. Ela fora contratada havia apenas dois meses. Mesmo assim não gostou da resposta.

“Achou que sofria perseguição”,diz Daniela. Dentro das empresas brasileiras, esse tipo de comportamento já foi identificado como a principal causa da volatilidade da mão de obra jovem.A Page Personnel, uma das maiores empresas de recrutamento de jovens em início de

carreira, fez um levantamento entre brasileiros de até 30 anos sobre suas expectativas de promoção. Quase 80% responderam que pretendem mudar de empresa se não forem promovidos.

 

A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicelogia da Universidade Estadual de San Diego.

No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou ‘Os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os obrialunos

dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores.Em 2006, dois terços deles pontuaram acima da média obtida entre 1979 e 1985.Um aumento de 30%. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell.

 

Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível. E eles sabem disso. Uma pesquisa da

revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. SallyKoslow,uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois

que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela.”Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos

cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”,diz ela.”Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho”.

 

Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos

têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar

as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam

bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um

dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.

 

O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular

seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada

no Movimento da Autoestima, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a auto estima é uma

necessidade humana. Não atendida,ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto

profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de auto estima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para

a questão. Até a década de 1970,os pais não se preocupavam em estimular a auto estima das crianças. Temiam mimá- las. O movimento de Branden chegou ao auge nos Estados Unidos em

1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, assinou uma lei criando um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como as escolas e

as famílias poderiam estimulá-la.

 

Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a auto estima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar

adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação e fonte de trapalhadas. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas

mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os

psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário

parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar

a mesa, diga apenas obrigado. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios

mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota-, não adianta dizer: “Você jogou bem, o

que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É mentira.

 

Para piorar, um grupo de psicólogos afirma .agora que a premissa fundamental do movimento da auto estima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade Estadual da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970.Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois’ a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser muitas vezes contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações.”

Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma.

 

NARCISISTAS SEM RUMO

 

Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira.

Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação

constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver pânico e depressão. Também são menos produtivos socialmente.

 

Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim,

para comemorar meu aniversário”, diz Priscila. Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, caratê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu

até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em sete colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em três vestibulares,

mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta de novo começar.

 

Claro, nem todos da turma do “eu me acho” estão sem rumo. Muitos são empreendedores bem-sucedidos, e seu estilo de vida – independente, inquieto, individualista – tem defensores ferozes.

Um deles é a escritora americana Penelope Trunk, uma ex-jogadora de vôlei de praia que se tornou a maior propagandista da geração nascida na década de 1980, chamada nos Estados Unidos

de geração Y.”Qual o problema em se sentir o máximo?”, diz ela. “Se você se sente incrível, tem mais chances de fazer coisas incríveis, sem ligar para pessoas que recomendam o contrário:’ Quando os integrantes da turma do “eu me acho” conseguem superar o fato de não ser perfeitos e se põem a usar com dedicação a excelente bagagem técnica e cultural que receberam, coisas muito

boas podem acontecer.

 

Aos 20 anos, no início de sua carreira, o paulistano Roberto Meirelles, hoje com 26, conseguiu seu primeiro estágio. Seu sonho era se tornar diretor de arte. Morava com a mãe numa casa confortável, tinha seu próprio carro e não sofria nenhuma pressão para sair de casa. Resolveu trabalhar até de

graça. Aos 24 anos, foi promovido e assumiu o cargo que almejava. Chamou os amigos e deu uma festa. Seus pais ficaram orgulhosos. Sete meses depois, assinou sua carta de demissão.

Não era aquilo que ele realmente queria. Seus antigos colegas de trabalho riram ao ouvir que ele estava deixando a agência para “fazer algo em que acreditava”. Seus pais não compreenderam

o que ele queria dizer com “curadoria de conhecimento”, expressão que usou para definir seu empreendimento. Apesar da descrença geral, ele foi em frente e criou com dois amigos uma

empresa que seleciona informação e organiza estudos sobre temas diversos, para vendê-los no mercado corporativo e para pessoas físicas. Com dois anos recém-completados, a Inesplorato conseguiu faturamento de R$ 1,4 milhão. “Minha maior conquista foi conseguir ganhar dinheiro com uma ideia própria. Eu amo isso”,diz Meirelles.

 

Uma das conclusões a que o psicólogo Baumeister chegou na revisão dos estudos sobre autoestima pode servir de esperança para os jovens da geração “eu me acho” que ainda estão perdidos:

a autoestima produz indivíduos capazes de fazer grandes reviravoltas em sua vida. Justamente poráer um ego exaltado, eles têm a ferramenta para ser mais persistentes depois de um fracasso.

Em seu último livro, Força de vontade (Editora Lafonte), Baumeister dá outra dica de como conduzir a vida: ter controle dos próprios impulsos é mais importante que a autoestima como fator de sucesso. “A força de vontade é um dos ingredientes que nos ajudam a ter autocontrole. É a energia que usamos para mudar a nós mesmos, o nosso comportamento, e tomar decisões”,disse ele a ÉPOCA no ano passado.

 

Também há esperança para os pais que se pegam diariamente na dúvida sobre como lidar com suas crianças. Muitos deles conseguem criar seus filhos equilibrando limite e afeto e ensinando

a lidar com frustrações sem ferir a auto estima (leia os quadros nas páginas 62 e 64). Na casa de Maria Soledad Más, de 49 anos, e Helder, de 35, pais de Natália, de 9 anos, e Mariana, de 11,

os direitos estão ligados ao merecimento e a responsabilidades. “As meninas aprenderam a lidar com erros e frustrações desse jeito”, diz Helder. Para Mariana, uma frustração é não ter celular,

já que a maioria das amiguinhas tem seu próprio aparelho. “Explico a ela que ter celular envolve responsabilidade e que ela é muito nova”, diz a mãe. “Claro que esse assunto sempre

volta à tona, mas não incomoda. Ela acata bem nossas decisões.”

 

Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocionei criado na família graças ao conjunto de

ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em três tipos: os autoritários, os permissivos e aqueles que têm autoridade, os competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar -, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das

crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja

feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros. Têm altos índices de competência psicológica e baixos índices de disfunções sociais e comportamentais.

 

Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas -, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não

quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais

hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970. Eles pregavam que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse

manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Bonatto Reichert, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem

por trabalhar fora leva a isso.”

 

Se parece difícil implantar em sua casa o modelo dos pais com autoridade, ainda há outra esperança. Nem todos concordam que os pais sejam totalmente responsáveis pela formação da personalidade dos filhos. A psicóloga britânica Judith Harris, de 74 anos, ficou famosa por discordar do tamanho da influência dos pais na criação dos filhos. Para ela, se os filhos lembram em algo

os pais, não é graças à educação, mas à genética. “Os pais assumem que ensinaram a seus filhos comportamentos desejáveis. Na verdade, foram seus genes”, afirma. O resto, diz Iudith, ficará

a cargo dos amigos, a quem as crianças se comparam. É por isso que ela acha inútil tentar dar aos filhos uma criação diferente da turma do “eu me acho”. “Houve uma mudança enorme na cultura”,

afirma. “As crianças vão vistas como infinitamente preciosas. Recebem elogios demais não só em casa, mas em qualquer lugar aonde vão. O modelo de criação reflete a cultura”.

 

ENTREVISTA MICHAEL SANDEL

 

O professor de filosofia em Harvard diz que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate

público – mesmo que tenham origem na fé

SOCIEDADE BRASILEIRA SE ACOMODOU PERIGOSAMENTE AUMA IDEIA.QUEM NÃO PODE PAGAR um colégio particular não tem como garantir aos filhos educação de qualidade. Convivemos com situações variadas em que o dinheiro manda: com ele, é possível eleger políticos, passar à frente da fila em parques de diversões e até adquirir o direito de emitir poluentes no ar comprando créditos de carbono. O fenômeno não é só brasileiro. Em diversos países, ricos e pobres, experimentam-se os limites do poder do dinheiro para que caçadores possam caçar, criança sejam incentivadas a ler mais e pacientes consigam atendimento médico decente. Um dos filósofos mais populares do mundo, o americano Michael Sandel, acha que estamos indo rápido demais.

 

“Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido, e não tivemos, nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado”, afirma Sandel, professor na Universidade Harvard. Ele acha que usar os mecanismos de mercado em aspectos variados da vida é um exagero dos

economistas. Ele se opõe a pesquisadores como o ganhador do Nobel de Economia Gary Becker, maior estrela de uma corrente de pensamento que inclui, entre outros, os brasileiros Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro Rodrigues, autores de Sob a lupa do economista.

 

Sandel, um filósofo de fala pausada, virou celebridade por causa da repercussão de seu curso “Justiça”, à disposição na internet. Em seu livro mais recente, O que o dinheiro não compra (Editora Civilização Brasileira), Sandel defende um resgate dos princípios e das convicções morais diante da

lógica de mercado, em contraponto aos que pregam soluções técnicas e ênfase apenas nos resultados. Nessa defesa, faz propostas polêmicas, como acolher no debate público as convicções religiosas. Sandel estará no Brasil em agosto, a convite da consultoria Amana Key,para apresentar palestras em Fortaleza, São Paulo e Brasília.

 

ÉPOCA – O cidadão comum precisa fazer escolhas sobre questões cada vez mais complicadas, relacionadas a economia, meio ambiente, saúde pública, tecnologia. A filosofia pode nos aJudar?

MlchaelSandel – Sim, potencialmente. A filosofia pode contribuir com a cidadania da seguinte forma: ser um bom cidadão é mais do que votar no dia da eleição. O cidadão deve se manter informado sobre as questões públicas, debater com outros cidadãos sobre o bem comum, ajudá-los a formar as

decisões deles. E o único jeito de deliberar sobre o bem da coletividade é encontrar, logo abaixo da superfície de nossas discordâncias políticas, os princípios importantes que temos em comum – justiça, equidade, liberdade, democracia. Temos de discutir quão diferentes são nossas concepções de justiça e liberdade, e essas questões são filosóficas. Lento promover a ideia da filosofia pública, excitante, desafiadora e acessível a todos os cidadãos.

 

ÉPOCA – O senhor vem tratando dessas questões complicadas em suas aulas, e com elas consegue empolgar alunos Jovens. O que o senhor aprendeu, como professor, nesses anos em que ministra o

curso de filosofia política? Sandel- Uma das mudanças mais dramáticas ao longo da

história do curso foi que, no início, ele era ministrado na universidade, para pessoas que se reuniam num anfiteatro. Nos últimos anos, as aulas completas foram divulgadas pela internet e pela televisão, e o curso se tornou um fenômeno global. O resultado é atordoante, além de qualquer expectativa

que eu tivesse. O que aprendi, ao interagir com pessoas de culturas e origens muito diferentes, foi tratar o mesmo tópico de muitas perspectivas distintas. Em agosto, vou ao Brasil e quero saber as visões e as opiniões das pessoas aí sobre a justiça, a liberdade e o bem comum. Outra mudança

que fizemos ao longo dos anos: os filósofos que estudamos continuam basicamente os mesmos desde o início do curso, mas os eventos que usamos como exemplos vêm mudando.

Ojeito que achei de envolver os estudantes foi fazer com que as leituras filosóficas, os conceitos e as ideias, muitas delas abstratas e difíceis, conectem-se com dilemas contemporâneos, controversos, desafiadores. Sobre esses dilemas, todo mundo tem opinião, mesmo que nunca tenha estudado

filosofia. O jeito de atrair o estudante é mostrar que as opiniões dele estão conectadas às ideias que os filósofos vêm desenvolvendo há séculos. Isso tem muito a ver com engajar os cidadãos. Espero que a filosofia nos ajude a ter melhores ideias no debate público.

 

ÉPOCA – No Brasil, há grupos crescentes de cidadãos que definem suas atitudes na vida, além de suas escolhas eleitorais, de acordo com a orientação religiosa. Isso traz algum perigo para

a vida pública? Sandel- É uma questão complicada. A relação entre política e religião tem uma história longa e difícil. Os filósofos políticos debatem há muito tempo qual seria a relação adequada

entre as duas, com duas preocupações principais. Uma é que as convicções religiosas sejam intolerantes, dogmáticas, estreitas, e tragam isso para a política. A segunda ‘preocupação

é que, como as sociedades modernas abrigam muitas diferenças religiosas, trazer essas divergências para a política poderia gerar discordâncias irremediáveis dentro do debate

público. Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião pode trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas

trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático. Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais

de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas.Não acho que devamos discriminar as origens das convicções ou excluir uma delas. O que importa é o debate

ser conduzido com respeito mútuo.

 

ÉPOCA – Além do componente religioso, há no debate público atual nos Estados Unidos um tanto de ressentimento contra a lógica de mercado. Hoje, o senhor vê mais força no avanço do livre

mercado ou no clamor popular contra ele? Sandel- Vejo força nos dois. O objetivo de meu livro é encorajar e inspirar o debate público sobre o mercado e a sociedade. Nas últimas décadas, vivemos um período de triunfalismo do mercado. Mas o papel dos mecanismos de mercado cresceu e avançou para além dos campos do bem-estar material – chegou às relações pessoais, saúde,

educação, vida cívica. Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido e não tivemos nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado? Se você pergunta

se o livro é um alerta sobre o papel do dinheiro especificamente nos Estados Unidos, acho que os acontecimentos que descrevo representam uma tendência geral. Certo, são mais evidentes, mais traumáticos nos Estados Unidos do que na maioria dos outros países. Acredito, no entanto,

que a mudança em andamento nos países desenvolvidos cria as mesmas questões e desafios também nos países em desenvolvimento economicamente bem-sucedidos. Uma pergunta vale para todas essas nações: queremos ser uma sociedade que conta com a economia de mercado ou uma

sociedade que é um mercado? A economia de mercado é um instrumento para alcançar o bem público, uma ferramenta para a organização da produção. Uma sociedade mercado é algo diferente, em que tudo está à venda, em que as relações de mercado governam cada aspecto da atividade humana. Em muitas nações, não só nos Estados Unidos, há uma tendência de transformar uma sociedade com economia de mercado em uma sociedade mercado.

 

ÉPOCA – Qual o problema em usar mecanismos como uma empresa pagar pela proteção ambiental em outro lugar e assim ganhar o direito de poluir, ou pagar para uma criança ler, se os resultados

finais forem menos poluição global e as crianças lendo mais? Sandel – Algumas vezes, os mecanismos de mercado podem ser eficazes. Não argumento contra todos os usos desses

mecanismos. Mas sempre que usamos incentivo financeiro para resolver problemas sociais, para obter ganhos para a sociedade, temos de considerar o efeito desses mecanismos nas atitudes e nos valores que estamos tentando cultivar. No caso de pagar a uma criança US$ 2 por livro lido, realmente acontece que a criança lê mais livros – e também que as crianças que liam anteriormente passam a ler livros mais curtos. Como o dinheiro afetou a atitude da criança em relação à leitura e ao aprendizado? É provável que ela passe a considerar a leitura como um trabalho a fazer em troca de

pagamento. Se isso acontecer, o incentivo financeiro comprometeu o amor pela leitura e pelo livro. Meu argumento não é contra o mercado, e sim a favor das atitudes e valores com que todos nos preocupamos.

 

ÉPOCA – O senhor afirma haver uma conexão entre a disseminação dos mecanismos de mercado para áreas diversas e o aumento da corrupção. Há algum aumento perceptível da corrupção nos

últimos anos? Sandel – A corrupção tem muitas fontes. Uma fonte é a concentração de poder político sem a correspondente obrigação de prestar contas, são as instituições políticas isoladas do cidadão. Outra fonte é o poder do dinheiro, e permitir que ele domine aspectos da vida pública que não têm a

ver com o mercado. A vida cívica e a política deveriam ser orientadas para o bem comum. Mas, crescentemente, o dinheiro domina a representatividade nas instituições políticas.

 

UM WALT DISNEY PARA O NOSSO TEMPO

 

John Lasseter revolucionou o cinema de animação, e depois revolucionou de novo, e de novo, e de novo. Steve Jobs o chamava de gênio. Seu novo filme, Valente, é mais uma prova de seu talento

 

A imagem que o americano John Lasseter passa a quem o,encontra pela primeira vez é de um menino bochechudo que cresceu demais e não se conforma em já ter completado 55 anos. Ele costuma vestir calças jeans e camisas havaianas largas e coloridas, mesmo numa cidade fria e nevoenta como Edimburgo – onde esteve em junho passado para o pré-lançamento do longa metragem de animação Valente. Ambientado na Escócia medieval, o filme estreia nesta semana no Brasil em 750 salas nas versões 2D e 3D. Os olhos azuis e astuciosos por trás dos óculos redondos se fixam no interlocutor. Quando Lasseter começa a falar, sua voz forte e incisiva formula raciocínios com tanta objetividade e visão de negócios que fica difícil pensar que se trata de um artista – um dos maiores da atualidade. Seu amigo (e, por 20 anos, chefe) Steve Jobs, fundador da Apple,

afirmou que Lasseter é um dos poucos gênios que conheceu. A criatividade alucinante, e o sucesso de filmes como Toy story e Monstros S.A., comprova que a maior parte dos fãs de cinema concorda com Jobs.

 

Desde cedo, Iohn Alan Lasseter se apaixonou pelo que faria a vida inteira: animação. Ele nasceu em Los Angeles, “a meia hora ~ Disneylândia”, como diz. Frequentava o parque da Disney desde criança. A mãe, Iewell, era professora de arte num ginásio, e o pai, Paul, gerente da Chevrolet. Iewell

o influenciou na paixão pelas histórias de aventura e pelo desenho. Paul lhe despertou o gosto pelos carros e por locomotivas. Quando assistiu ao desenho animado A espada era a lei, em 1963, o menino Iohn decidiu que se tornaria animador. Em 1975, ingressou no curso de animação no California Institute of Arts de Los Angeles. Ali, tomou lições de Eric Larson, Frank Thomas e Ollie Iohnston, três fundadores da Disney,pertencentes ao legendário grupo dos “Nove Anciãos” – os

desenhistas animadores que tomaram parte nos primeiros filmes do estúdio, como Branca de Neve e os sete anões (1937) e Pinóquio (1940). Ao lado de colegas como os futuros diretores Tim

Burton e Brad Bird (com quem trabalharia na animação sobre super-heróis Os Incríveis, de 2004), Lasseter fez seus primeiros desenhos animados. A vida profissional começou em 1980, quando

foi contratado pela Disney. Entre seus trabalhos, destacou-se a colaboração no desenho animado O conto de Natal do Mickey, de 1983. Demitido pela Disney num dos muitos cortes que o estúdio realizaria a partir de então, Lasseter especializou-se em computação gráfica, uma área desconhecida

e quase esotérica na época. Entrou para a Lucas film como designer que criava fundos e papéis de paredes de computadores.

 

Poderia ter passado o resto da vida desenhando peixinhos e rosáceas se outro gênio não tivesse cruzado seu caminho em San Francisco, em 1986: Steve Jobs, Jobs acabava de comprar,

por US$ 10 milhões, a divisão de computação gráfica da Lucas film, criada em 1979 por George Lucas. Jobs rebatizou- a de Pixar (palavra resultante da soma de “pixel”, a unidade elementar

da imagem gráfica, e “art”) com o objetivo único de desenvolver um computador da Apple, o Pixar Image Computer. O fracasso do aparelho e a convivência com Lasseter convenceram-se ram-no a transformar a empresa na Pixar Animation Studios para produzir filmes de animação. Iobs ficou impressionado com a habilidade de Lasseter em desenhar e criar histórias. O fato decisivo para a conversão da Pixar em estúdio se deu com Luxo Ir, animação em que Lasseter trabalhava desde os

tempos de George Lucas, sobre um abajur esperto. Ela ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de 1986. O filme inaugurou a animação digital e foi adotado como logotipo da própria

Pixar. Por decisão de Iobs, Lasseter se tornou o supervisor de todas as produções do estúdio desde então.

 

Gênios não costumam se fazer sozinhos. Jobs e Lasseter aprenderam um com o outro. “Com o tempo, Steve e eu nos tornamos irmãos e nos mantivemos próximos até sua morte”, disse

Lasseter a ÉPOCA. “Entre muitas coisas, aprendi duas com ele. Ele me disse: ‘Faça da Pixar algo tremendamente grande’. E me deu um conselho: ‘Lembre que tudo o que você fizer deve se

transformar em algo que deve sobreviver a você. Eu produzo computadores. Você, obras de arte’. Ele me fez prestar atenção àquilo que eu fazia de melhor: arte de animação.” Nove anos depois,

em 1995, Lasseter lançava Toy story, o primeiro longa-metragem de animação digital da história. De alguma forma, Jobs enxergou em Lasseter uma projeção de si próprio. Só que, em vez do inovador tecnológico, encontrou nele o iniciador de uma espécie inédita de artista. Lasseter estava transferindo a fantasia para um ambiente jamais percorrido pelo homem, a animação digital. Como Iobs, ele promoveu não uma, mas várias revoluções no interior desse mundo novo, desbravado à medida que era inventado.

 

São quatro as suas inovações mais visíveis. A primeira é a já citada fundação do filme de animação digital, com Toy story. A segunda é que, além de elaborar os parâmetros técnicos da nova  linguagem, ele soprou espírito no novo tipo de obra. Diante do esgotamento das fórmulas tradicionais, renovou a dramaturgia da animação e superou os padrões das antigas fábulas de Walt

Disney (1901-1966). Com os roteiros de Vida de inseto (1998), Procurando Nemo (2003), Carros (2006) e Up-Nas alturas (2009), a história infantil deixou de ser uma repetição de modelos inspirados

em figuras clássicas da literatura infantil – como Branca de Neve ou A Bela Adormecida. Surgiram os clássicos modernos da animação, com personagens novos e fascinantes e a ambição de ir além do público infantil. Um dos mantras de Lasseter é o seguinte: ”A Pixar não faz filmes infantis. Faz filmes

para todo mundo: crianças, adolescentes, adultos e famílias”.

 

A terceira revolução se deu na fase mais turbulenta do estúdio. Em 2006, Jobs vendeu a Pixar para a Walt Disney Pictures, por US$ 7,4 bilhões, dando origem à Disney-Pixar. O medo de Lasseter era que a Disney se apossasse da criatividade dos animadores da Pixar e transferisse as operações da velha sede, em Emeryville, nos arredores de San Francisco, para Hollywood. Mas Iobs impôs duas condições para a venda: a autonomia da Pixar e a contratação de Lasseter como supervisor

artístico de toda a operação da Disney e da Pixar. A consequência para a Disney foi um salto evolutivo que parecia improvável: além de modernizar as tramas, Lasseter reabilitou o

venerável departamento de animação analógica. Recontratou desenhistas e artistas que haviam sido dispensados anos antes. “Era algo que devia a mim mesmo, já que tinha iniciado minha vida artística ali”, diz. “Sabia que os artistas não deviam ser penalizados pelas histórias ruins dos desenhos animados que o estúdio lançava. Não era um problema de tecnologia, mas de qualidade do conteúdo.”

 

Foi assim que, em 2009, a Disney lançou A princesa e o sapo. Além de ser o primeiro longa-metragem de animação tradicional desde o malfadado Nem que a vaca tussa (2004), sua heroína não pode ser tecnicamente chamada de princesa. Na realidade, trata-se de uma jovem pobre de New Orleans que sonha em montar um restaurante. Antes de realizar seu projeto, ela própria vira sapo. Dessa forma, Lasseter convidava o público a voltar ao desenho animado tradicional e a aceitar uma princesa feminista e negra. Foi um sucesso, repetido no final de 2010 com a animação digital em 3D Enrolados, estrelada por uma princesa Rapunzel que foge da torre e se apaixona pelo chefe de um bando de ladrões.A maior inovação de Lasseter na Disney foi ter abolido um personagem que gozou de respeitabilidade por mais de sete décadas: o Príncipe Encantado. “Levei à Disney a

imaginação da Pixar, e vice-versa”, diz.

 

Agora, com Valente, ele inicia sua quarta revolução. Avança na simulação de texturas e materiais da natureza como cabelos e florestas, além da trama da lã escocesa. Até então, os personagens da Pixar pertenciam ao mundo dos brinquedos e das figuras fantásticas. Em Valente, os protagonistas

são seres humanos de carne e osso, ou melhor, bits e pixels. É como se o espectador assistisse a um filme realista sem atores. Ou quase. Valente é também o primeiro conto de fadas da Pixar e traz sua primeira heroína feminina, a princesa Merida. Até então, a Pixar era conhecida por fazer animação de e para meninos.

 

A ideia de uma heroína surgiu da mulher de Lasseter,Nancy Robbie Coltrane, com quem ele é casado há 26 anos. “Logo depois da primeira projeção de Toy story, Nancy reclamou: ‘Estou cansada de ver filmes de menino. Você não poderia fazer um filme com uma personagem feminina forte para mim e para suas sobrinhas?”‘, diz Lasseter. “Eu não havia pensado nisso porque, para nós, do núcleo fundador da Pixar, todos ‘meninos’, parecia natural criar nossas histórias do jeito que víamos o mundo. Foi então que comecei a pensar no assunto. E, até Valente, fizemos animações principalmente para meninos. Valente é sobre uma menina e para meninas. Mas tomei medidas para que os meninos se divirtam com as estripulias de Merida. Os três irmãos mais novos dela são bagunceiros e se metem em muitas lutas, encrencas e correrias.” A atenção de Lasseter com os garotos é inevitável, até porque ele tem cinco filhos homens, com idades entre 14 e 33 anos. Sempre consultou-os e levou-os para as projeções de teste para dar seu aval. “Isso não quer dizer que eu mantenha distância delas”,afirma. “De minha mãe a minha mulher, passando por muitas funcionárias da Pixar e da Disney, sou rodeado por mulheres fortes!”.

 

Lasseter é tão fortemente ligado ao trabalho quanto à família. Participava de uma conferência sobre computação gráfica quando conheceu Nancy. Na ocasião, ela era ainda estudante. A mulher o arrastou de volta aos prazeres da vida. Em 1992,o casal comprou uma propriedade em Glen Ellen, no Vale de Sonoma, na Califórnia. Ali, mantém um vinhedo e uma vinícola que produz quatro rótulos varie tais a preços acessíveis.”Adoro cultivar uvas, produzir vinhos e conviver com a família e os amigos”, diz. “Não é fácil harmonizar a qualidade de vida e a supervisão dos dois estúdios, mas faço questão de reservar um tempo para mim:’ Sua agenda é apertada, já que divide seu expediente entre compromissos em Los Angeles e San Francisco. Ainda assim, consegue acompanhar corridas de carro e viajar a bordo de sua velha locomotiva – a Marie E., que um dia pertenceu ao animador da Disney Ollie Johnston – entre sua casa e a Disneylândia. São hábitos de um menino crescido que fez fortuna com o trabalho da imaginação. Até hoje, os 1210ngas-metragens da Pixar em que ele trabalhou renderam US$ 7,4 bilhões. Como a maioria das animações da Pixar anteriores, Valente foi o filme mais visto no fim de semana da estréia, na penúltima semana de junho. Atingiu a bilheteria de US$200 milhões na semana passada, quando ocupava o terceiro lugar entre os sucessos da temporada nos Estados Unidos.

 

Se a recepção do público tem sido calorosa, a crítica emitiu sinais variados. Muitos se decepcionaram e afirmaram que Valente é o filme mais “Disney ficado” da Pixar -leia-se “banalizado”.

Um conto de fadas com uma princesa leva a pensar no modelo Disney. Mas há dois detalhes significativos. Primeiro, Merida é uma princesa independente e avessa a príncipes. Segundo, o argumento não é tirado dos irmãos Grimm ou de Charles Perrault como na Disney, e sim da própria

equipe do estúdio. Valente é uma criação original de Brenda Chapman, animadora que esteve à frente da direção do longa-metragem desde 2006. Teria sido a primeira animação do estúdio

dirigida por uma mulher. Mas Lasseter substituiu-a no início deste ano por MarkAndrews. “Foi um procedimento rotineiro”, diz Lasseter. “A história não andava, foi nossa produção mais demorada e precisávamos agilizar o processo.” Andrews encarou o trabalho como uma convocação. “Observo

a regra fundamental da Pixar: obedecer a Iohn Lasseter. Ele percebeu que a história não andava, estava centrada demais no conflito entre mãe e filha. Iohn e eu gostamos de aventura. Brenda

deu uma contribuição fantástica para mostrar a delicadeza da relação entre Merida e a rainha.

Mas era preciso atrair também os meninos”.

 

Boa parte dos cinéfilos ficou fascinada pelas inovações técnicas, como a simulação dos cabelos vermelhos, as paisagens das Highlands da Escócia e seus animais, como peixes, ovelhas e vaga-lumes. “Criamos softwares de simulação, mas a evolução tecnológica depende de nossas necessidades estéticas, e não o contrário”, afirma Lasseter. “Os programas foram elaborados

para narrar visualmente uma história que deve surpreender por simular um mundo plausível, com animais, plantas e seres humanos irreais, mas que parecem vivos.” As aventuras de uma princesa escocesa de 16 anos que, no século XIII, manobra o arco, se embrenha na selva e se recusa a

casar com um dos três pretendentes que a disputam num torneio de arco chamou a atenção. Alguns resenhistas viram um caráter gay em Merida. Adam Markovitz, da revista Entertainment Weekly, transformou Merida em símbolo para o orgulho homossexual. Para Chris Heller, da prestigiosa revista mensal The Atlantic, o filme não diz se ela é gay: “O que importa é que ele faz o espectador se questionar sobre isso”. Lasseter diz que buscou construir uma princesa nada convencional. “Algo parecido com que eu fiz na Disney com Tiana (de A princesa e o sapo) e Rapunzel”, afirma. “É uma personagem ainda mais radical com que as meninas de hoje podem se identificar. Uma princesa da Pixar, não da Disney.”

 

Um dos pontos de honra na visão de mundo de Lasseter é conservar a pureza da imaginação infantil em tempos de ceticismo e deboche. “Creio no conto de fadas”, afirma. “Continuei a acreditar

mesmo quando os estúdios concorrentes passaram a fazer paródias de histórias infantis, com Shrek, na tentativa de abalar certos hábitos da audiência e, assim, obter boas bilheterias. O que tentei

fazer foi restituir o poder à fábula.”

 

De acordo com ele, a chave para o futuro da animação é não se prender à tecnologia. “Eu me aperfeiçoei em computação gráfica como uma ferramenta de trabalho”, diz. “É preciso acompanhar e dominar a tecnologia. Mas não é ela que produz grandes animações, e sim a história que elas têm a contar.” Para atingir a excelência, o artista deve estudar tanto os fundamentos da animação quanto os da narrativa. “Não existe segredo em narrar uma história ou montar um roteiro. Basta imaginar um personagem que desencadeie as ações e seguir os pressupostos que vêm sendo desenvolvidos há 2 mil anos, desde Aristóteles”, diz. “É preciso conhecer como se faz um roteiro em três ou quatro atos. A regra de ouro do sucesso é romper as fórmulas, sem deixar de compreendê-las em profundidade:’

 

Se há um sonho impossível que esse mestre jovial gostaria de realizar, seria encontrar Walt Disney. O que dida a seu inspirador? Lasseter não sabe responder: “Talvez ficasse mudo': Ou declarasse

quanto gosta desde pequeno do desenho 101 dálmatas, de 1961, para ele o auge dos anos dourados dos estúdios. Um mundo que, com seu trabalho revolucionário, ele ajudou a manter vivo.

 

REVOLUCOES POR MINUTO

 

John Lasseter virou a animação do avesso por quatro vezes. Ao lado, alguns filmes que marcaram suas inovações

 

 Toy story 1995 O primeiro longa metragem de animação

 

A primeira animação produzida totalmente por computação gráfica trata das aventuras do

menino Andy, de 8anos, e seus brinquedos, entre eles o caubói Woody e o astronauta Buzz Lightyear Lasseter escreveu, desenhou, animou, dirigiu e produziu o filme, façanha comparável a Branca de Neve e os sete anões (1937),de Walt Disney, o primeiro longa metragem de animação analógica.

 

A princesa e o sapo 2009 A renovação do desenho feito mão

 

O filme marcou a retomada da divisão de animação analógica, que fora fechada em 2004, depois

de mais de 70 anos de atividade. O primeiro resultado da volta dos artistas que desenhavam e

pintavam à mão foi uma paródia aos contos de fadas. A jovem Tiana beija um sapo pensando ser príncipe e se transforma, ela própria, em sapo. O visual lembra a velha Disney.Só que a princesa é

feminista e negra

 

Up – Nas alturas 2009 A criação de uma nova dramaturgia

 

Lasseter fez filmes sem precisar recorrer às tramas dos irmãos Grimm ou Charles Perrault, em

que os desenhos animados bebiam. Um exemplo é Up – Nas alturas. No filme, o idoso Carl se

revolta com a aposentadoria e, em vez de ficar parado, voa com sua casa até a América do Sul,

No caminho, ele encontra o escoteiro Russel, de quem se torna amigo. Carl é um tipo inesquecível, tanto quanto o Buzz Lightyear de Toy story.

 

Valente 2012 O filme realista sem atores

 

o filme encena a rebeldia da princesa arqueira Merida que se recusa a casar com seus pretendentes e contraria sua mãe e o rei. Para reproduzir digitalmente a textura e os movimentos do cabelo vermelho e despenteado de Merilila. o estúdio criou um software de simulação. A expressividade

dos personagens é impressionante. A mais longa produção da Pixar levou seis anos para ser concluída. A equipe viajou várias vezes para a Escócia à cata de paisagens. tipos

físicos. castelos medievais e tecidos.

 

BRUNO ASTUTO

 

A biografia de Gianecchini

 

O jornalista e escritor Guilherme Fiuza, colunista de ÉPOCA, escreverá a biografia de Reynaldo Gianecchini. A parceria surgiu por acaso. “O editor Hélio Sussekind comentou que queria propor um livro a Giane, mas não conseguia contatá-lo”, diz Fiuza. Ele se ofereceu para ajudar por intermédio da amiga Maria Helena Amaral, diretora dos programas de Marília Gabriela. “Quando meu e-mail chegou a Maria, o Gianecchini estava na frente dela gravando. Ligaram imediatamente, dizendo que acharam legal eu escrever o livro. Agradeci, mas disse que era um mal-entendido, que estava só fazendo um favor. Dois dias depois, o mal-entendido havia virado minuta de contrato.” Fiuza afirma que a luta conta o cãncer no sistema linfático será abordada do ponto de vista da rede de solidariedade que se formou em volta do ator. “Nos encontramos para trocar impressões sobre o projeto e comentei que o palco de nossa história era a cabeça dele, onde se passou a guerra contra o inimigo interno.” Os trabalhos já começaram, e Fiuza tem uma bateria de entrevistas gravadas, inclusive com familiares e amigos de Giane. “Contarei a história incrível de um cara que, quis o destino, só pega onda grande.” A editora quer lançar em novembro.

 

Valentino desfila no Brasil

 

Vendida a um grupo de investidores do Catar num negócio estimado em R$1.7bilhão, a grife italiana Valentino não pretende frear sua expansão brasileira. Ao contrário: em novembro, abrirá três

lojas no país – uma da marca principal no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo,e duas de sua segunda linha, a Red,também por lá e no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. A dupla de estilistas Pier Paolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri, que assumiu a direção da marca fundada pelo grande

mestre italiano, confirmou presença na festa de inauguração. Está previsto um desfile em local ainda não definido com a coleção Cruise, que estará nas araras paulistanas. “Estamos animados

com a viagem ao país.As brasileiras estão entre nossas melhores compradoras na Europa e nos Estados Unidos”, diz Maria Grazia.

 

Dinastia hípica

 

O cavaleiro Luiz Francisco de Azevedo acaba de ser convocado pela Confederação Brasileira de Hipismo para as Olimpíadas. Ao lado de atletas como Alvaro Afonso de Miranda Neto, o

Doda, e Rodrigo Pessoa (porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura), ele buscará a quarta medalha do país no hipismo. “Minha vida se resume à ponte aérea Brasil-Bélgica”, diz Chiquinho. Seu pai, Luiz Felipe de Azevedo, conquistou duas medalhas de bronze em Jogos Olímpicos, em Atlanta (1996) e Sidney (2000). O irmão, Luiz Felipe Azevedo Filho, o Felipinho, também é campeão

e treinador do cavalo Special, com o qual o atleta competirá. O avô, Audifax de Azevedo Filho, dedicou 45 anos da vida ao hipismo. “Nunca pensei em fazer outra coisa na vida”, afirma Chiquinho.

Ele conheceu a noiva, Nathalia Sang, há cinco anos na Hípica carioca. “Costumo dizer que a domei”, diz. Aos 59 anos, seu pai quer participar dos Jogos de 2016 no Rio, na prova de atrelagem, com

charretes, ainda não oficializada. “Tem de ter adrenalina, senão não vivo”.

 

Gente fina é outra coisa

 

Há mais poeira sob os tapetes das mansões dos casais bilionários, glamourosos e solidários do reino de Elizabeth 11 do que supõem os tabloides. As vésperas dos Jogos de Londres, dois casais tidos

como exemplares desmancharam-se em escândalos. Flagrado dirigindo erraticamente pelas ruas da cidade, Hans Kristian Rausing, herdeiro do império sueco de R$ 45 bilhões Tetra Lavai, das caixinhas Tetra Pak, tem agora de explicar à polícia o que o corpo de sua mulher, Eva, fazia numa das suítes da casa havia quase uma semana. Suspeita-se que ela tenha morrido de overdose depois

de uma semana polvilhada de álcool e cocaína. Benemerentes de diversas entidades de reabilitação de usuários de drogas, eles se conheceram em 1980 numa clínica dos Estados Unidos, onde

estavam internados. A Scotland Yard tenta agora rastrear a rede de traficantes que atende clientes de luxo como eles. A notícia ofuscou o divórcio de Ben Goldsmith e Kate Rothschild, outro casal

aristocrático da Inglaterra. Depois de descobrir mensagens de texto trocadas apaixonadamente pela mulher e pelo rapper americano Jay Electronica, casado há cinco anos com a cantora Erykah Badu,

Ben estapeou Kate, que o denunciou à polícia. Ambos resolveram dar suas versões dos fatos no Twitter. Com fortuna estimada em R$ 1bilhão, o marido traído comprou uma mansão nova. E pediu a Kate para dar uns pitacos na decoração.

 

Inhotimlândia

 

O milionário Bernardo Paz procura sócios para expandir os domínios de seu complexo de artes plásticas, em Inhotim, Minas Gerais. Entre os planos, está construir um aeroporto para

Facilitar o acesso direto ao local, sem precisar passar por Belo Horizonte, e fomentar a atividades comerciais e hoteleiras nas cercanias do instituto. Dois grupos internacionais já manifestaram interesse na empreitada.

 

ENTREVISTA CAROLINA MUNHOZ, ESCRITORA

 

“Meus personagens fazem sexo”

 

Precoce, aos 16 anos Carolina Munhóz escreveu seu primeiro livro, A fada. Aos 20, já tinha visitado

11países e, neste mês, aos 23, lança sua nova obra, O inverno das fadas, bem diferente dos contos de fadas que costumam atrair jovens de rosto angelical como ela. A obra fala de sexo e morte. Os nomes dos personagens fazem alusão a astros do rock, como Kurt Cobain e Amy Winehouse. Carolina foi eleita a melhor escritora jovem de 2011 pelo Prêmio Jovem Brasileiro, “Posso falar que não quero chegar à lista dos mais vendidos, mas seria uma grande mentira. Todo escritor sonha com isso, poís significa que é lido.”

 

ÉPOCA – Sexo e morte fazem falta nos livros para a juventude? Carolina Munhoz – Não ‘f0 temas

muito abordados por jovens em livros, mas são assuntos do nosso dia a dia. Que jovem nunca pensou em sexo ou lidou com a morte? Em minha vida já lidei com situações complicadas em

relação a perdas e, principalmente, a tentativas de suicídio. Sei quanto é difícil. Eu mesma já pensei, mas nunca tentei me suicidar. Respeito todas as opiniões dos jovens sobre sua sexualidade, mas não concordo com a forma como o tema é tratado. Muitas garotas de 18 anos já tiveram relações sexuais. Nos livros, 99% são retratadas como virgens. As meninas precisam de alguém para conversar.

 

ÉPOCA – Você teve crises? Carolina – Era a gótica do colégio,filha de pais separados e com

dificuldades nas relações. Cheguei a um ponto em que não queria mais viver. Quando escrevi meu primeiro livro, estava num momento péssimo, depressiva mesmo. Colocar meus

 

EPOCA – Em que artistas como Kurt Cobain e Amy Wlnehouse, que morreram de forma trágica,

podem ajudar os jovens? Carolina – Eles falaram com nossa geração. Não tomaram boas decisões

em vida, mas não posso negar sua importãncia. O mundo precisa de pessoas que falem sobre

a revolta e sobre as dores. Esconder isso dos jovens é besteira.

 

EPOCA – Está preparada para a polêmica que a obra pode gerar? Carolina – Dizem que a gente só

descobre se está realmente preparado na hora. Mesmo jovem, já vivi muito e sempre fui do mundo. Não quis criar polêmica, mas meus personagens fazem e pensam em sexo. São jovens

reais. Nada de literatura puritana em que o mocinho e a mocinha têm desejo, mas não têm coragem. Se um livro como esse ajudar alguém a desistir de cometer algo terrível ou lhe tocar o coração, é o que importa.

 

EM FAMÍLIA

 

Depois do elogiado Quebrando o tabu, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

tratou da descriminalização das drogas, o jovem cineasta Fernando Grosteln Andrade se

prepara para lançar seu novo documentário, Cine Rincão, sobre vítimas da violência.

“A revista italiana Colors, da Fabrica (central de artes e design do grupo senetton),estava fazendo um projeto sobre violência e amor. Fui escolhido no Brasil para contar essas histórias”, diz Fernando.

O desafio era encontrar alguém que tomou um tiro e fez algo positivo para a sociedade. Com a ajuda do irmão, o apresentador Luciano Huck, Fernando conheceu a história de Paulo Eduardo, um

jovem que, aos 15 anos, levou um tiro no peito. Paulo foi da primeira turma de editores

formados pelo Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, presidido por Huck. “Luciano é uma fonte de inspiração, sabedoria e, acima de tudo, luz”, afirma Fernando. Ele promete voltar a tratar

o tema das drogas. “Quero incomodar o moralismo, a burrice e o cinismo daqueles que pretendem perpetuar as injustiças do mundo.”

 

WALCYR CARRASCO

 

A forca do casamento gay

 

H á algum tempo, tive uma cozinheira que, ao ser entrevistada, declarou morar com uma amiga. Morro de curiosidade, mas tento me manter discreto a respeito da vida sexual alheia. Dei um nó na língua para não perguntar o que tinha vontade de saber:

 

- Amiga, é? Que tipo de amiga? Hummmm …

 

Como tantas palavras hoje em dia, amizade adquiriu um significado elástico. Pode ser simplesmente um relacionamento de afeto. Mas também um caso fogoso, com direito a gritos, arranhões e reconciliações dramáticas. No caso da minha cozinheira, a verdade explodiu meses depois, quando

veio a separação. Ela mesma contou, em lágrimas, que eram companheiras havia quase 20 anos. A situação tornara-se crítica porque a outra não trabalhava havia muito tempo. Venderam o pequeno apartamento que tinham no centro de São Paulo. A cozinheira instalou-se em meu endereço. A

ex mudou-se para uma pequena cidade do interior, na casa da mãe. Levou quase todo o dinheiro de

ambas. Comprou uma casinha, em seu nome. Alguns meses depois, voltaram a se ver e a passar fins de semana juntas. Insisti várias vezes com minha funcionária:

 

- Você tem de garantir seu direito a esse imóvel. Pense bem. No futuro, é bom que tenha um lugar para morar. Se sua ex morrer, a herança vai para a mãe dela! Minha cozinheira me olhava com expressão desconsolada, de quem acreditava que, por ser homossexual, não tinha direitos. Uma tristeza.

_ Você é uma cidadã, tem de usar a lei a seu favor.

Abanava a cabeça, desconsolada.

 

Deixou o emprego sem resolver a situação. Muitas vezes pensei na injustiça desse caso e de outros semelhantes. Minha ex-cozinheira poderá passar a velhice sem um teto.

 

Por isso, envio meus aplausos ao lançamento de uma publicação dirigida à união gay, Momento Inesquecível. É um avanço. O Brasil já admite a União Estável, que, de acordo com a decisão judicial, pode ser transformada em casamento.Depende do juiz. Alguns processos foram vitoriosos. Outros não. A revista, anual, abrange todas as etapas da União Gay. Entre os artigos, o advogado Ricardo Brajtman, do Rio de Janeiro, explica didaticamente como realizar a união e depois vê-la reconhecida como matrimônio. Outros indicam locais para celebrar a festa, como escolher bufês, doces e lembrancinhas. E, como não podia deixar de ser, dão dicas para a lua de mel. Há até uma coluna social fotográfica, que mostra vários casamentos realizados. No do estilista Carlos Tufvesson com o arquiteto André Piva, a mãe do primeiro, Glorinha Pires Rebelo, celebrou, ela própria, a união: “Com as bênçãos de Deus e a autoridade de mãe, eu vos declaro casados em nome do amor”.

 

Até os bolos são anunciados com miniaturas de dois rapazes ou duas noivinhas em cima. Também há referências a religiões que, ao contrário da Igreja Católica, abençoam uniões do mesmo sexo. A famosa monja Coen, budista, por exemplo, casou duas mulheres.

 

É um passo para a aceitação. Por mais que a família se dê bem e assuma o companheiro de um de seus membros, na hora da herança, a grana fala mais alto (se até irmãos de sangue brigam por causa das panelas da mamãe, imagine uma situação confusa do ponto de vista da lei). Lembro um caso, há muitos anos, em São Paulo, onde um costureiro com aids foi cuidado por seu companheiro,

um rapaz, até o momento final. No velório, o jovem chorava, e a família do outro tentava consolar. De madrugada, o rapaz voltou ao apartamento para trocar de roupa. As fechaduras haviam sido trocadas pelos irmãos do falecido! Só após um longo processo, onde provou ter contribuído para a formação do patrimônio, o rapaz pode voltar a ter casa e conseguiu reaver parte de seus bens.

 

Sempre acreditei que quando duas pessoas se amam, hétero ou homossexuais, o casamento é um detalhe dispensável. Talvez eu tenha sido rígido demais. As pessoas precisam de símbolos para viver. Quando uma união entre dois homens ou duas mulheres é revestida por todo o aparato de um casamento tradicional, incluindo bolo com noivinhos, a ideia parece ser melhor absorvida. A discussão se é certo ou errado fica ultrapassada quando o fato já é isso, um fato.

 

Momento Inesquecível mostra que, embora do ponto de vista judicial o país ainda patine, a União Estável veio para ficar, e o casamento gay, mais dia menos dia, virá também. Mais que isso: se tornará tão comum quanto qualquer outro. Ainda bem. Mesmo porque não resisto a uma festa e espero ser convidado para muitas.

 

Apenas para 250 privilegiados

 

Quem pagaria R$ 48 milhões num par de brincos? Os poucos endinheirados que fazem o mercado

das jóias de alto luxo crescer 20% ao ano

 

A Louis Vuitton, um dos monogramas mais famosos do mundo da moda, adornará a partir deste mês também orelhas, dedos e pescoço de quem pode gastar fortunas em peças eternas. Para lançar sua primeira coleção de joias de luxo, a marca francesa acaba de abrir uma loja dedicada a pedras e metais na famosa Praça Vendôme, o coração da alta joalheria em Paris. Esse mercado utraexclusivo

é mantido por apenas 250 clientes em todo o mundo e cresce 20% ao ano, em relação aos 10%

de crescimento da indústria do luxo em 2012. A festa de inauguração da nova loja Vuitton

reuniu celebridades como a cineasta Sofia Coppola, a atriz Kristen Dunst e a princesa Charlene de

Mônaco. Nas vitrines, era visto um anel com diamante de 30 quilates, no valor de R$ 22,8 milhões, ao lado de um par de brincos vendido por R$ 1.652. “Há peças para todos os bolsos': diz Yves Carcelle, presidente da marca. Os executivos da Louis Vuitton acreditam que as peças mais baratas servirão de iniciação à alta joalheria, como acontece com as bolsas da marca.

 

A Louis Vuitton segue o caminho desbravado por outras famosas casas de artigos de luxo, como Dior e Chanel. Há dois anos, a Chambre Syndicale,órgão que regula a atividade têxtil na França, decidiu acrescentar um dia à semana de alta-costura parisiense, dedicado exclusivamente à apresentação de alta joalheria. São itens excepcionais, talhados por artesãos em laboratórios

durante meses ou anos. Os preços vão de R$ 152 mil (um anel) a inacreditáveis R$ 48 milhões,

caso dos brincos de raríssimos rubis de 27,16 quilates da Tanzânia, da tradicional grife Van

Cleef & Arpels. Neste ano, o destaque das apresentações foram os 80 anos da atividade da

Chanel no setor. Em 1932, a estilista francesa Gabrielle Chanel atendeu a um pedido dos comerciantes internacionais de diamantes para realizar uma coleção de jóias exclusivamente com essas pedras, que tinham saído de moda depois da crise de 1929. A coleção 2012 da Chanel inclui extravagâncias como o colar Cometa, de titânio, ouro branco e 85 quilates em diamantes, vendido a

R$ 12,4 milhões.

 

A chegada da Louis Vuitton à famosa praça, endereço de tradicionais grifes de joias como Chaumet, Van Cleef & Arpels, Cartier, Boucheron e Mellerio, não animou a vizinhança. “Nossa clientela

não está atrás de moda, mas de tradição”, diz, com ar de desdém, o gerente de uma tradicional joalheria do outro lado do obelisco erguido por Napoleão em 1810. A Louis Vuitton deu indícios de que não se intimidará com a concorrência tradicional. Contratou uma equipe de 15 artesãos

comandada pelo badalado designer Lorenz Bãumer, que mantém um ateliê próprio na praça. Na sala de Bãumer, impera um quadro do artista plástico paulistano Vik Muniz. “Fiz uma coleção alegre, cheia de frescor e imponência. Tem tudo a ver com o Brasil”, afirma.Ele diz que adora fazer turismo no Brasil.

 

Com o crescimento econômico dos últimos anos, o Brasil se tornou o novo destino das joalherias europeias. Até a última década, elas delegavam a venda de suas peças a comerciantes locais.

Agora, Van Cleef &Arpels e a relojoaria Panerai acabam de abrir sua primeira loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo. A italiana Bulgari mandou emissários à cidade duas semanas atrás para

procurar pontos onde possa retomar sua atividade nacional. A Dior terá uma área dedicada às joias na nova loja do shopping Cidade Jardim, em São Paulo, que será inaugurada em dezembro. Até

o fim do ano, a Cartier abrirá duas lojas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Cerca de 70% das vendas para brasileiros ainda são feitas em Paris e Nova York, por causa dos preços mais convidativos,livres da pesada carga tributária de importação que dobra o valor dos produtos. Para

conquistar mercado, os executivos planejam reduzir suas margens de lucro no Brasil. Com a avassaladora crise financeira européia e a perspectiva de freio no crescimento chinês, o Brasil é um

diamante que merece ser lapidado.

 

BEBIDA PARA HOMEM

 

Chega de uísque, cerveja e cachaça. Novos sabores de coquetel conquistaram o paladar masculino

 

O escritor Ernest Hemingway e o personagem Iames Bond entornaram muitos daiquiris e

dry martinis. Símbolos de masculinidade e sofisticação antes da década de 1960, os dois eram fãs

de coquetéis. Hemingway e Bond não viviam no Brasil. Por aqui, a mistura etílica mais aceita pelos

homens contém apenas trigo e cevada. Com alguma abertura para o vinho, a cachaça ou o uísque.

Quem ousa escapar da relação monogâmica com a cerveja precisa engolir, antes do drinque,

uma boa dose de chacota. “Acham que é coisa de mulherzinha': diz o apresentador Fred Lessa, aos

risos. Ele adora pedir sugestões aos bartenders e experimentar novas combinações. Diante dos

amigos, a ousadia de seu paladar tem limite. Fred já pediu para servir coquetel em copo longo

para evitar as piadas que uma taça em Y causaria.

 

Preconceito que o consultor inglês Spike Marchant, barman há 25 anos, afirma não encontrar

em nenhum lugar do mundo. “Lá fora, executivos e homens de negócio degustam drinques

naturalmente”, diz Marchant. Ele esteve no Rio de Janeiro entre os dias 8 e 12 de julho como

anfitrião do World Class, uma espécie de Oscar da coquetelaria mundial. O evento desembarcou

no hotel Copacabana Palace depois de edições em Londres, Atenas e Nova Délhi – um indício

de como o setor vive sua melhor fase no país. Por que os boêmios conservadores, preocupados em

manter a imagem de macho alfa, resistem a treinar o paladar arriscando brindes diferentes?

 

Para o barman Fabrício Marques, representante da vodca Diageo no país, os brasileiros não tiveram como referência a coquetelaria clássica. O que se consumia aqui eram variações de caipirinhas, com frutas e sabores adocicados. Ou algo parecido com um arco-íris em forma de bebida, uma apresentação tropical e exuberante. Esses elementos tendem a cair no gosto feminino. Por isso, essas bebidas ficaram associadas às mulheres.

 

Os homens preferem discrição e misturas de destilados com ingredientes cítricos e amargos.

Hoje, há invenções com manjericão, pepino, suco de limão siciliano, chá de bergamota e até

vinagre (experimente as receitas ao lado). Na disputa para atrair o público masculino, a concorrência

nunca esteve tão acirrada. Um levantamento da Diageo revelou que, em São Paulo, o número de

casas especializadas em coquetéis cresceu 750% nos últimos três anos. “Agora é a chance de

educar o paladar”, afirma Marques. “Ninguém gosta de cerveja no primeiro gole.”

 

Atrás do balcão do bar SubAstor, em São Paulo, Rogério Souza toma para si o desafio de convencer seus clientes. Como o drinque costuma “maquiar” o álcool, muitos homens consideram a bebida

fraca. Argumento de quem nunca provou um negroni (composto de Campari, gim e vermute).

A cada pedido de shot puro de uísque ou vodca, Souza investe: “Posso preparar algo com o mesmo

destilado, mas um sabor melhor?': O empresário Rodrigo Pedreira não só se convenceu, como

virou especialista no assunto. Nas confrarias de que participa no SubAstor, ele observa o preparo

do coquetel, repara se exageraram no açúcar ou se alguma raspa de limão escapou do coador. Pedreira defende o custo-benefício de seu hobby. “Chope e cerveja estufam. Preciso tomar muitos

copos para ficar animado”, diz. “Com três drinques, apreciando devagar, já estou satisfeito.”

 

Em geral, o preço dos drinques varia de R$ 20 a R$ 35 nos bares da capital paulista. Isso explica

o perfil dos consumidores. Segundo a Associação Brasileira de Bartenders (ASSBB),eles têm

entre 20 e 40 anos, além de alto nível econômico. “A coquetelaria está se desenvolvendo porque

o Brasil prosperou”, afirma o coordenador de cursos da ASSBB,Fábio Oliveira. Nos anos

1990, ainda era difícil encontrar ingredientes importados, como destilados de luxo ou especiarias

e xaropes. Hoje, as criações abusam de elementos como pó de ouro, ágar-ágar (substância

extraída de algas marinhas) e néctar de agave (um gênero das plantas suculentas).

 

As tendências apontam para novas versões de clássicos como o dry martini, com um “twist”,

ou pitadas de modernidade. Pode ser o acréscimo de pepino macerado à receita original ou

uma vodca aromatizada. Para Marques, como antigamente era mais difícil encontrar destilados

de boa qualidade no Brasil, ficava complicado encontrar o equilíbrio e suavizar  os sabores. “Estamos revisitando esses coquetéis com técnicas atuais”, afirma Marques. A taça em Y, que caíra em desuso até para as mulheres, voltou no seriado Sex and the city. Nele, as quatro personagens brindavam

suas peripécias sexuais com o drinque cosmopolitan, que leva até suco de mirtilo-vermelho

(cranberry).

 

No Brasil, as cenas reforçaram a ideia de que o recipiente, sinônimo de sofisticação, põe em

dúvida a orientação sexual do homem. Uma bobagem. A haste desse modelo de taça evita

o choque térmico e mantém a baixa temperatura da bebida. Ela é usada em drinques com alto

teor alcoólico que não levam pedras de gelo. Os marmanjos que deixaram a zoeira de lado

experimentam novas conquistas. Não necessariamente do paladar. “Meus amigos aprenderam

receitas pela internet só para pegar a mulherada”, diz Fred Lessa. “Para elas, preparar drinques é tão atraente quanto saber cozinhar.”

 

“FIZ UM VELEIRO NA FAVELA”

 

o suíço Mike Horn ensinou famílias pobres de São Paulo a construir um barco para expedições ecológicas

 

“Quando criança, tudo o que queria era entrar no barco do Iacques Cousteau (cientista

e cineasta francês) e participar de uma exploração. Anos mais tarde, pude ajudar crianças a concretizar o mesmo sonho. Nasci na África do Sul e moro na Suíça. Sempre gostei do

contato com a natureza e me tornei um atleta de aventura e explorador. Ao longo das minhas viagens, via como os seres humanos alteravam a natureza. Vi sinais disso do Polo Norte ao

Polo Sul, do Himalaia à Amazônia. Em 2002, comecei uma jornada pelo Círculo Ártico, que durou dois anos e três meses. Viajei sozinho, sem transporte motorizado. Tinha o dia todo para olhar para o gelo e pensar. Nesse período, tive a ideia da expedição Pangaea.

 

O objetivo do projeto era mostrar para os jovens a biodiversidade que ainda existe no planeta e como

ela está ameaçada. Para isso, pensei em construir um barco grande, onde pudesse reunir crianças de diversos países, para fazer essas viagens de conscientização ambiental. A cada mês, duas crianças de cada continente nos acompanhariam na expedição. Consegui patrocínio facilmente, com

a Mercedes-Benz, uma antiga financiadora das minhas expedições.

 

Em 2007, com o projeto aprovado, chegou a hora de construir o barco. Optei por me instalar no Brasil. Já conhecia o país desde uma viagem pela Amazônia, entre 1997 e 1998. Aprendi até a falar um pouco de português com os caboclos. Apesar da experiência amazônica, preferia São Paulo para

montar a embarcação. Tomei essa decisão porque, na cidade, existe muita gente que trabalha bem com as mãos e não tem emprego. Montamos uma espécie de escola numa favela de Itapevi,

onde essas pessoas aprenderam a construir o barco. Duzentas famílias se envolveram

ao longo de um ano. Fizemos também um trabalho de conscientização ecológica com eles. Quando a gente reciclava o alumínio, eu convidava as famílias e as crianças da favela para ver a reciclagem, preparávamos comida e fazíamos uma festa.

 

É difícil trabalhar no Brasil porque, quando precisamos importar equipamentos específicos, as taxas são altíssimas; e os obstáculos burocráticos, grandes. Ao mesmo tempo, este é um país onde tudo parece impossível, mas na realidade é possível. A tecnologia no Brasil é excelente, e o modo como as pessoas trabalham na indústria é bem profissional.

 

A embarcação ficou incrível, e os únicos problemas que tive nas viagens foram por causas naturais, como tempestades. Até agora, dei cinco voltas ao mundo ao longo de quatro anos do projeto. Quando a jornada acabar, queremos fazer um barco maior, para acomodar mais gente e levar nas viagens também adultos. Uma embarcação maior pode custar até uns € 18 milhões, incluídos os seguros e tõdas as normas de segurança que respeitamos para transportar crianças. (orno o barco que fiz no Brasil ficou perfeito, penso em construir o próximo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. Afinal, elas foram uma parte muito importante do projeto Pangaea.’

 

INTELIGENTE? NEM TANTO

 

A TV da Samsung aceita comandos de voz e gestos. mas frustra

 

Samsung diz que suas TV s são o início de uma nova era. A afirmação se revela exagerada depois de um mês com a ES8000, o topo de linha. Ela é feita para reconhecer gestos, como mover a mão para mexer o cursor na tela. E comandos de voz. Você diz: “Ligar Smart TV” – e ela liga. Levei duas horas e meia para configurála. Depois, a TV não reconhecia nenhum de meus gestos. Quando conseguiu, se confundiu. Balancei a cabeça, e ela achou que eu movia o braço para trocar de canal. Desisti. Os comandos de voz funcionaram, mas são limitados. O controle remoto é mais prático.

Um segundo controle tem um touch pad para navegar na internet pela TV e botões para comandar outros aparelhos da casa. Mas nem a TV se comunicava com ele. Pelo menos a ES8000 brilha com

a tela de 46 polegadas de imagens cristalinas, que parece maior com as bordas finas. O modo 3D

impressiona. Custa R$ 6.499.

Rafael Barifouse

 

QUANDO É PRECISO CONFIAR NA VOZ DA EXPERIÊNCIA

 

Em nossa última expedição, navegamos com nosso veleiro pelos fiordes gelados da Patagônia chilena, próximo à Geleira Pio XI, a segunda maior do mundo. Os fiordes são braços de mar que entram nos vales, ladeados por montanhas escarpadas. Eram condições novas para nós e para o veleiro também. David, meu filho e diretor de filmagem, viu um pequeno iceberg ao largo. Pediu para eu mudar de rumo e seguir em direção ao bloco de gelo. Com a câmera posta no tripé, numa saliência plana no gelo, filmaríamos o veleiro Aysso navegando em direção ao bloco.

Durante a cena, a ideia era escalar o iceberg. Entusiasmado, David insistia nessa oportunidade única, aproveitando um ângulo e uma passagem que só poderíamos encontrar na Antártica.

Luciano, fotógrafo profissional com experiência em mergulho em duas temporadas na Antártica, argumentou que os raios de sol estavam muito fortes. Corríamos o risco de o pequeno iceberg perder o equilíbrio e, com nosso peso, capotar. Um incidente desses na água gelada é potencialmente fatal. David estava à procura de imagens inéditas. A preocupação de Luciano era não

pôr em risco aquela operação e, também, a tripulação. Acompanhei o diálogo, sem interferir. Não era o momento de eu dar a palavra final. Fiquei surpreso com a atitude e a determinação de Luciano. Nunca o tinha visto assumir uma posição tão firme, de cmnando. Minha interferência não foi necessária.

 

Luciano convenceu David de que haveria riscos. Eles chegaram a um acordo, e a operação foi cancelada. Continuamos a avançar, lentamente, por entre os blocos de gelo. Passados dez minutos’ o silêncio daquela paisagem foi quebrado por um estrondo, como um tiro de canhão. Olhamos para trás e vimos o iceberg rachar-se ao meio e virar, lentamente, de cabeça para baixo. Pelo tempo decorrido, calculamos que, naquele momento, estaríamos escalando a geleira. Seria um desastre, e a expedição poderia terminar ali.

 

Quando se tem um objetivo comum, a confiança no companheiro e em sua experiência se sobrepõe à hierarquia. A decisão, em momentos como esse, é da pessoa mais experiente.

 

O NOVO MAIOR HUMORISTA DA AMÉRICA

 

Luis C.K. se torna uma estrela com série polêmica, revoluciona o mercado de comédia stand-up e conquista fãs como Woody Allen e Jerry Seinfeld

 

O humorista Louis C.K., de 44 anos, é um pesadelo para os conservadores. E também para os progressistas. Ele acaba de estrear nos Estados Unidos a terceira temporada da série Louie, baseada em sua própria vida de comediante, homem separado e pai de duas filhas. O sucesso é estrondoso, ainda que não seja unânime. Numa cena da nova temporada, ele está no carro com uma mulher que acabou de conhecer. Ela se oferece para fazer sexo oral. Ele aceita, adora, mas se recusa a devolver a gentileza. Pede desculpas. “Isso é muito íntimo, eu mal conheço você”, diz.

Por causa de tiradas como essa, Greta Van Susteren, âncora do canal de notícias Fox News, já o chamou de “porco”. “Ele rebaixa a imagem de todas as mulheres”, afirmou. A ênfase é a mesma para os elogios. A revista americana Time incluiu c.K. entre as personalidades mais influentes do país em 2011 e descreveu seu show como “uma reflexão sobre o que significa ser humano”. A revista Entertainment Weekly foi mais direta na capt da edição do começo deste mês: “O maior comediante

do mundo”.

 

A série Louie – ainda sem previsão de estreia no Brasil – tem orçamento de US$ 200 mil por episódio e atrai 2 milhões de espectadores toda semana. São números baixos para as grandes produções da TV americana, mas o conteúdo repercute. Entre seus temas preferidos estão paternidade, relacionamentos e morte. Sexo, masturbação e violência. A série ganhou admiradores famosos

como o humorista Ierry Seinfeld, que fará uma ponta na atual temporada, e Woody Allen,

que convidou ex. para atuar em seu próximo filme.

 

O nome verdadeiro de c.K. é Louis Szekely, sobrenome que herdou do avô, um judeu húngaro que emigrou para o México. Na adolescência, ele começou a escrever e apresentar espetáculos de comédia stand-up. Logo em seguida passou a se apresentar em talk shows americanos famosos.

No ano passado, inovou ao vender o DVD de seu último espetáculo, Live at the Beacon Theater, exclusivamente em seu site, por US$ S. Faturou mais de US$ 1milhão. Seu modelo de negócios passou a ser imitado por outros comediantes.

 

O texto de c.K. evoluiu com o tempo. Foi das piadas sobre a realidade do “homem branco comum” para tiradas mais cerebrais sobre as contradições da sociedade e da vida de pai divorciado.

CiK, se separou da mulher em 2008 e compartilha a guarda de suas duas filhas.

 

A acidez de seu humor dificilmente seria repetida por humoristas brasileiros. Por maior que

seja o conservadorismo americano, existe nos Estados Unidos um respeito quase religioso à liberdade de expressão. Há um território livre para artistas contestadores (leia o quadro abaixo). No Brasil, a tradição social e jurídica tende a proteger mais quem se sente ofendido do que o direito abstrato de ofender quem quer que seja.O resultado mais recente dessa postura foi a demissão do humorista Rafinha Bastos, que fez uma piada grosseira no programa CQC. Afastado da Band, Rafinha seguiu os passos de c.K. e lançou uma série de TV baseada em sua vida. Até agora, os resultados de crítica e público não são equivalentes.

 

Com a estreia do terceiro ano de Louie, no mês passado, acumularam- se as propostas para

que C.K. largasse o canal FX em troca de audiências e orçamentos maiores nas grandes redes. Além de cachês. Ele recusou. Seu descaso pelo dinheiro é lendárie. Não é só isso que está em jogo. Sua preocupação central é a liberdade de criação. À revista ‘Entertainment Weekly, ele afirmou: “Sou

apenas um cidadão bem sujo. Digo coisas horríveis. Quero ter a liberdade de fazer isso”.

 

PELA GLÓRIA OU POR DINHEIRO?

 

A nova geração revive o velho embate entre escritores cabeça e comerciais

 

A 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty terminou com uma dúvida no ar: o que é mais importante para a literatura brasileira, divertir ou produzir livros com pretensões artísticas? A questão surgiu a partir do lançamento de duas coletâneas com textos de jovens escritores brasileiros. Do lado mais culto estava a Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros (Objetiva, 288 páginas, R$ 34,90). Conhecida por revelar nomes como lan McEwan e Salman Rushdie, a publicação britânica anunciou, com muita badalação, a lista dos que seriam os 20 grandes autores brasileiros com menos de 40 anos. Do outro lado, ali mesmo em Paraty, estava a oposição: Geração subzero (Record,

370 páginas, R$ 39,90), uma festa literária alternativa para autores menos incensados, apresentada como uma compilação de “jovens escritores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores':

 

 

Na apresentação oficial da Granta, o diretor-geral da Objetiva, Robert Feith, deixou clara a ambição de suas escolhas. Afirmou que os nomes da coletânea “definirão os rumos da literatura brasileira nos próximos anos': A partir de novembro, todos eles passarão a ser exportados. Primeiro, serão traduzidos para o inglês e vendidos nos Estados Unidos e na Europa. Depois, é provável que cheguem a outros países onde a Granta atua, como Bulgária, China, Espanha e Itália. Autores como o carioca João Paulo Cuenca, de 33 anos, e o paulistano Antonio Prata, de 34, são tratados como expoentes da literatura nacional. O criador do projeto Geração subzero, Felipe Pena, professor da Universidade Federal Fluminense, também tem uma motivação clara: alfinetar. “Oponho-me à ideia pretensiosa de que é possível relacionar os melhores autores nacionais:’ Em meio às farpas, cabe a pergunta: existe mesmo oposição entre autores “eruditos” e “populares”?

 

Segundo Pena, sim. Em sua coletânea, ele buscou autores que “formassem leitores': preocupados com o prazer da leitura. Ele rechaça a literatura rebuscada, que julga ser o alvo da Granta. “Esse grupo determina que só têm valor os escritores cuja prosa se aproxima daquela receita de que literatura é para poucos': diz. “É uma visão elitista, que afasta leitores.” Pena descobriu os escritores que, segundo ele, os brasileiros realmente leem. No grupo se encontra a escritora carioca Thalita Rebouças, de 37 anos, uma recordista em vendas no país. Com 13 livros no currículo, ela vendeu mais de 1,3 milhão de cópias. Há também  André Vianco. Em 13 anos escrevendo sobre mundo fantástico, ele soma 900 mil livros vendidos Na outra ponta da discussão, os editores da Granta não aceitam a acusação de elitismo. Marcelo Ferroni, que ajudou na coletânea e trabalha na editora Alfaguara, diz que na Granta brasileira há todo o tipo de texto. “Não acho que seja hermética ou intelectualizada”, afirma. Ele também contesta a ideia de que o material da revista afaste a grande massa de leitores. “Ela acabou de ser lançada. Ainda não dá para afirmar o que os leitores acham”, diz. Ferroni admite que o material da Granta é mais literário, porque os textos são escolhidos por gente da academia. Mas não enxerga nenhum preconceito contra a literatura de entretenimento:

“Na Subzero há autores que admiro, como o Raphael Draccon”.

 

Fora do Brasil, essa discussão é tão velha quanto a prensa de Gutenberg. Ela se repete no Brasil agora porque, finalmente, surgiu no país uma literatura de entretenimento, que não existia 15 anos atrás. Ela torna o Brasil mais parecido com mercados como os EUA e a Europa, onde as pessoas andam de metrô lendo best –sellers digeríveis, não obras de Tolstoi ou Philip Roth. Parte dessa nova onda de expressão e comércio acompanha a ascensão da internet. Eduardo Spohr, de 36 anos, autor de A batalha do apocalipse – que vendeu mais de 300 mil cópias -, virou best-seller depois que suas histórias se tornaram populares na rede. Assim como ocorreu com autores de grande sucesso no exterior, ele nunca recebeu críticas positivas em jornais ou revistas. Nem foi preciso. “São dezenas de lançamentos por mês de cada editora, não dá para ler tudo”, diz o crítico José Castelo, colunista do jornal O Globo. “Quem trabalha com livros se sente aflito. Pode ter passado um gênio ali, naqueles milhões de provas que você não conseguiu ler:’ Não é o caso de se preocupar. Se

esse gênio existir, é provável que ele seja localizado pelos leitores em algum lugar da internet.

 

MUY AMIGOS

 

O melhor amigo do homem não é um senador. Muito menos um bicheiro. Demóstenes Torres descobriu isso tarde demais. Aliás, quem descobriu foi a imprensa. Demóstenes foi cassado, segundo ele, por pressão nossa, da mídia e da sociedade. E por não ter amigos no reino da mentira e da promiscuidade. Era um solitário no Senado, visto como falso, arrogante e prepotente. O re’i das grandes frases para os jornalistas.

 

Ficou mais sozinho nos últimos tempos, um “cão sarnento” em suas palavras. Não dormia nem com remédio. Sua mulher evitava sair com ele para beber vinho. Pelo menos, ainda está casado e só se sente traído por seus pares. Para a Justiça de Goiás, Demóstenes continua com força na peruca: ele voltou a ser procurador criminal do Ministério Público. Com salário de R$ 24 mil e dois assessores. O decoro perde assim para a decoração. A sala tem o nome de Demóstenes na porta. Estão vetados rádios Nextel e geladeiras importadas. Menos sorte no amor tem o suplente do senador cassado,

Wilder Pedro de Morais, um homem bem-sucedido nos negócios. Foi o segundo maior doador

da campanha de Demóstenes segundo a Justiça Eleitoral. Deu R$ 700 mil.

 

Filho de peão, criado na roça e hoje mega empresário em Goiás, Wilder perdeu a mulher bonitona e mãe de seus dois filhos, Andressa, para o “padrinho” Cachoeira, a quem chama na intimidade apenas de Carlinhos. Andressa foi morar na casa do bicheiro em 2010, logo após a separação. Um enredo de novela das 8 com nome de Brasil. Wilder perdeu a mulher, mas não o humor. Tachado de “o marido traído da CPI” ou coisa mais chula, ele brinca ao confirmar a “sociedade” com o bicheiro. “É lógico que somos sócios. Sou sócio involuntário do Cachoeira na mulher!” O fingidor Cachoeira teria sondado Wilder: “Quero saber se essa separação é para valer mesmo, sou amigo do casal e.estou preocupado': Wilder teria respondido: “O, Cachoeira, larga de ser cínico que eu sei que a Andressa está morando em sua casa': Cachoeira ainda tentou convencê-lo de sua boa intenção: “Mas ela está lá só como amiga': “Olha aqui, Carlinhos': afirmou Wilder. “Casamento tem dois momentos: o ruim e o bom. O ruim é quando a mulher dá problema. E o bom é quando a gente passa o problema e a mulher para a frente.” Cachoeira nunca perdeu a chance de lembrar a Wilder que foi ele quem o colocou como suplente e secretário de Infraestrutura no governo de Perillo, do PSDB de Goiás. Está gravado e revelado. Cachoeira também tentou derrubar sua criação. Chamou o afilhado de “bosta” e disse a Demóstenes: “Temos de preparar um nome para substituir o Wílder

 

Pelo conjunto da obra, Cachoeira poderia ter sido inspiração para Iô Soares, que criou a expressão “muy amigo” na boca do argentino Gardelón. O personagem sempre se dava mal com traidores que se passavam por bonzinhos. Na semana passada, Wilder estava de férias no Nordeste. Voltou ao Senado na sexta-feira 13, mais bronzeado.Terá muito a explicar. Como substituir um senador cassado por suas relações íntimas com Cachoeira?

 

A ironia perversa é que a cassação de Demóstenes até o ano de 2027 talvez tenha sido ajudada pelo voto secreto no Senado. No escurinho do teatro, quantos beneficiados por “Carlinhos” votaram, na verdade, só para tirar do palanque um arquivo vivo? Tenho curiosidade particular pelos cinco que se abstiveram, envergonhados de si mesmos. A sessão foi transmitida pela TV Senado, e o resultado foi bom para a moralização política. O contrário teria sido um escândalo – como tantos no passado recente. Mas as expressões de orgulho dos senadores soam hipócritas. “Cabeça erguida.”

 

“Cumprimento da justiça e de nosso papel,” “A imagem da instituição está salva.” Tudo isso, numa casa onde reinam figuras como Renan Calheiros, que assistiu à votação de pé. Líder do PMDB, antigo alvo da fúria ética de Demóstenes, Renan deu no cachorro morto um leve abraço muy amigo com três tapinhas nas costas.

 

No discurso de defesa e despedida, Demóstenes ameaçou ao citar o refrão de “Cartomante': de Ivan Lins com Vitor Martins. Cai o rei de espadas/Cai o rei de ouros/Cai o rei de paus/Cai, não fica nada … Eu me pergunto quem será o rei de ouros. O Senado abusou muito tempo de sua arrogância corporativista. Em 2007, fechou ao público a votação do processo contra Renan Calheiros, absolvido por 40 a 35 votos. Foram seis as representações do Conselho de Ética pela cassação. Contas pagas à amante por um lobista de empreiteira. Notas fiscais frias. Empresas fantasmas. Desvios de dinheiro. Laranjas,’vacas. Eram outros tempos. E Renan é do PMDB, amigo do rei. “O Senado esteve à altura. É difícil, mas aqui não é uma confrariade amigos': disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOLAP), autor da representação contra Demóstenes. Pode ser. É uma confraria de muy amigos.

Carta Capital_18-07

Não façam o que fiz

 

O FIM/ No último discurso, Demóstenes Torres pede desculpa pelo papel de xerife da moralidade no Senado

 

DEMÓSTENES TORRES chegou cedo ao Senado na quarta-feira 11.Às 9h52 de um dia cinzento em

Brasília, o ainda senador entrou no plenário acompanhado de seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Caminhava imponente em um terno preto e acenava aos jornalistas e fotógrafos, enquanto se dirigia a um assento na segunda fileira. De lá, algumas horas depois, se levantaria para discursar pela última vez como senador. Sob o olhar de 80 senadores e centenas de jornalistas, inesperadamente o guardião da ética se desculpa por ter sido um paladino da moral.

“Não tentem aproveitar um minuto de fama, pois aprendi amargamente”, recomendou, pouco antes de sua cassação ser concretizada com 56 votos a favor, 19contra e 5 abstenções. A quebra de decoro parlamentar por mentir sobre suas relações com o contraventor Carlinhos Cachoeira

tornou o relator da Lei da Ficha Limpa inelegível até 2027 e o fez o segundo senador cassado na história do País. O primeiro havia sido Luiz Estevão, em 2000.

 

A postura de Demóstenes não escondia seu abatimento. O nervosismo transparecia em pequenos gestos, cabeça baixa e a garganta seca: foram frequentes os apelos à água. Chegou a receber o que parecia um comprimido de Cláudia Lyra, secretária- -geral da mesa diretora. Guardou-o no bolso.

A atenção também era vaga. Quando não conversava com Kakay, olhava o celular. Demonstrava esforço apenas para receber os emblemáticos cumprimentos dos colegas. Por ironia, os primeiros a saudá- -lo foram Renan Calheiros (PMDB-AL) e Jader Barbalho (PMDB-PA).Aquele escapou

da cassação em 2007, por ter as contas pagas por um lobista em representação apresentada por Demóstenes. Esse voltou ao Senado em 2011depois de ser barrado pela Ficha Limpa por ter renunciado em 200l para evitar a cassação. Trocam algumas palavras, mas Demóstenes sorri como

dever de ofício.Osorriso quase desaparece quando recebe um breve aperto de mão do presidente do DEM, José Agripino Maia, que pediu sua expulsão do partido, forçando- o a se desligar da legenda. Ele passaria o restante da sessão olhando para os lados, talvez na busca vã de algum apoio.

 

O Senado encheu-seaos poucos e registrou apenas a ausência de Clovis Decury (DEM-MA), licenciado. Na parte superior da tribuna, os cerca de cem convidados por senhas não apareceram. Nas mesas, acumulavam-se as peças do processo que levou o senador àquela situação. Após a prisão de Cachoeira, acusado de comandar um esquema ilegal de jogos em Goiás, na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, a relação com o bicheiro veio à tona. A princípio, Demóstenes recebeu uma geladeira e um fogão importado do contraventor como presente de casamento.

Mas logo áudios da PF mostraram uma relação mais promíscua, incluindo o pedido do senador por 3 mil reais a Cachoeira para pagar despesas de um táxi-aéreo. Demóstenes ainda recebeu um aparelho de rádio “antigrampo” para conversas exclusivas com o bicheiro, foi acusado de usar o cargo para realizar lobby em favor do jogo de azar, negociar projetos para á Delta Construções – empresa da qual seria sócio oculto – e apontado como destinatário de 30% do dinheiro arrecadado pelo contraventor com o jogo ilegal, conforme noticiou Carta Capital. Em meio a tantos indícios de ação criminosa, o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu investigação contra o senador e o PSOL emplacou o processo, por quebra de decoro no Conselho de Ética, que resultaria em sua cassação.

 

Demóstenes mantinha um semblante fechado e as mãos entrelaçadas na sessão de julgamento. Possivelmente, sabia não haver chances de absolvição. “A opinião já estava formada, foi um processo que demorou bastante, de modo que todos tiveram a possibilidade de ler as peças e formar

uma opinião conforme suas convicções”, declarou o presidente do Senado, José Sarney, depois do resultado.

 

Antes disso, reinava nos discursos do plenário um clima solene de moralidade.

Mesmo assim, em sua apresentação, o relator do processo no Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-SP), foi irônico. Disse não ter usado seu cargo para ser “paladino da ética” e, sob o olhar atento do réu, afirmou que mentir na tribuna é quebra de decoro. Era uma referência a um dos sete discursos pronunciados pelo ex- -demista na semana anterior ao seu julgamento. “Não é normal, nem aceitável que se possa mentir aos colegas e à sociedade. É caso de ficção ter usado a tribuna para afirmar ser apenas amigo de Cachoeira e que os quase 300 telefonemas trocados

eram sobre uma crise conjugal da qual não há referência nas ligações.” E completou:

o colega senador sabia da natureza dos negócios do bicheiro. Uma acusação a qual o ex-demista responderia adiante.

 

Como representante do PSOL, autor da representação contra Demóstenes, Randolfe Rodrigues (AP) subiu ao plenário enquanto a maioria dos senadores parecia dispersa. Suas críticas ao memorial

da defesa, que dizia haver “para absolutamente tudo explicações razoáveis”, disputava a atenção com rodas de conversas e celulares. Assim como as afirmações de que Demóstenes colocou seu mandato a serviço da logística do crime e que não poderia pedir para ser visto como inocente. “A presunção de inocência para homens públicos deve ser relativizada.” Mais tarde, Rodrigues

diria nos corredores que o ex-colega desvirtuou o ambiente político e prejudicou a visão dos jovens sobre a política.

 

Às 12h37, quando Demóstenes se dirigiu calmamente à tribuna, os senadores se calaram. Antes dele, Kakay havia falado por 15minutos para defender a inutilidade da cassação. O senador arrumou

as folhas de sua defesa na mesa. Parecia tenso ao iniciar uma peça quase teatral. O homem que há pouco exibia um olhar humilde se transforma. “Não se julga adjetivação e sim fatos. Ao chamar uma

mulher de vagabunda, ela não tem como provar o contrário. Fui chamado de pilantra e despachante de luxo. Como vou me defender?” Ele nega todas as acusações do processo e volta-se, no momento

de mais arrojo, a um ataque contra o relator. O senador relembra o suposto envolvimento do petista com a máfia dos sanguessugas em 2007, quando Costa era ministro da Saúde. Foi absolvido três

anos depois. “Quero o mesmo tratamento, pois ele pôde provar que é um homem decente. Por que a minha cabeça tem de rolar?” O ex-ministro retrucou: “Não fui grampeado falando com malfeitor”.

 

Demostenes aproveita a atenção e os flashes e envereda pela auto propaganda. Lista leis das quais participou da elaboração, entre elas a que combate a pedofilia e outra favorável à guarda conjunta dos filhos por pais separados. Compara-se, no auge, a Jesus Cristo, entregue à crucificação

por Barrabás. “Não lavem suas mãos, me deixem ser julgado pelo Judiciário (Supremo Tribunal Federal) e pelo povo do meu estado.” Já claramente desorientado, diz ter um patrimônio “ridículo” e

que há espaço para “fazer rolo” no Senado. Enfim, suplica: “Não acabem com a minha vida”. Nervoso, já em sua cadeira, mergulha- se em mais um copo d’água.

 

Em menos de cinco minutos, o Senado vota seu destino. O placar indica a cassação e o senador deixa o local imediatamente. Carta Capital procurou o ex-senador para uma entrevista diretamente em seu gabinete, mas ele se recusou. No gabinete, os funcionários aguardavam a posse

do primeiro suplente wilder Pedro de Morais (DEM-GO) para definir quem permaneceria

em seus cargos.

 

O suplente tem 30 dias para ocupar a vaga, mas já chega sob suspeita por sua

relação com Cachoeira. O secretário de Infraestrutura de Goiás é dono da Orca Construtora e de shopping centers no estado, além de ser o segundo maior doador da campanha eleitoral de Demóstenes em 2010. Famoso por ter sido casado com Andressa Mendonça, atual mulher do bicheiro teria omitido parte de seus bens, avaliados em 14,4 milhões de reais, na prestação de contas eleitorais. Além disso, áudios da PF revelam que Cachoeira o teria indicado para a vaga de suplente. “Se tivermos razões para crer que há algo mais nesta relação, entraremos com representação”, adianta Rodrigues.

 

Após a cassação, os senadores evitaram comentara futuro político de Demóstenes. Para Aécio Neves (PSDB-MG), o “tempo dirá” se a vida pública do ex-demista está terminada. Eduardo Suplicy (PT-SP) e Rodrigues não descartaram um retorno após a punição. “Se ele tiver boa saúde

e bastante tempo, poderá um dia voltar.” Por enquanto, o caminho do ex-senador deve ser o retorno ao Ministério Público de Goiás, onde era procurador da República. Antes ele pretende recorrer ao

STF contra a decisão do Senado.

 

Segundo interpretação da Secretaria- Geral da Mesa do Senado, Demóstenes pode voltar a atuar no MP por ter sido nomeado antes da Constituição de 1988. Nesse período, os integrantes do órgão

eram autorizados a seguir carreira política e retornar ao Ministério Público, caminho hoje vetado. Licenciado desde 1999,o senador poderá retornar ao trabalho na 27ª Procuradoria de Justiça com atribuição criminal e salário mensal de 22 mil reais. Caso reassuma seu posto, a Corregedoria-

Geral do MP de Goiás adotará, porém, “as providências pertinentes para instauração de procedimento disciplinar para apuração de eventual falta funcional”.

Já o fardo da associação explícita a um contraventor, enquanto desempenhava o papel de arauto da moralidade Demóstenes Torres será obrigado a carregar pelo resto da vida.

 

Uma baixa na CPI O tucano Francischini é afastado pelo próprio partido. Por Leandro Fortes

 

Deputado federal em primeiro mandato, Francisco Francischini (PSDB·PR) chegou ao Congresso Nacional com fama de durão. Delegado da Policia Federal, tomou-se famoso ao prender o mega traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadia em junho de 2010. Na Câmara, perfilou-se na luta contra a corrupção e credenciou-se, entre os tucanos, para ser titular da CPI do Cachoeira. Na comissão, notabilizou-se por ser um dos parlamentares da oposição mais atuantes. Mas, ao chegar para assinar a lista de presença na terça-feira 10, foi informado de que não mais fazia parte da CPI. Ordem do líder do seu partido na Câmara, Bruno Araújo.

 

Entre a ascensão e queda do tucano estão as costuras políticas da legenda no Paraná, a performance do deputado na CPI e, recentemente, a suspeita de que ele pode ter participado de um complô para atingir o governador Agnelo Queiroz, do Distrito Federal. Em todos os casos, o delegado virou um peso para o PSDB,partido do qual pretende sair para fundar o nanico Partido Ecológico Brasileiro (PEN) em companhia dos colegas Romário (PSB-RJ) e Sílvio Costa (PTB-PE).

 

A ruína de Francischini se deu, primeiramente, no processo de escolha do candidato tucano a viceprefeito na chapa de Luciano Ducci, do PSB,apoiado pelo governador do Paraná, 8eto Richa.Odelegado achou, por muito tempo, que seria o escolhido, mas de última hora ganhou

força o nome do deputado Rubens Bueno (PPS-PR),também integrante da CPI. Irritado, Francischini começou a falar na disposição de voar do ninho tucano, decisão adiada por falta de espaço político no estado.

 

Some-se o fato de que o delegado sempre tenha sido visto pelos colegas de partido como um

parlamentar “fora de controle” na CPI,tanto por ser independente nas opiniões quanto por atropelar

os acordos feitos nos bastidores na hora de montar a agenda de convocações. No recente depoimento do governador goiano Marconi Perillo à comissão, o líder Araújo reclamou do comportamento de Francischini. Emcerto momento, o parlamentar paranaense acusou

o relator Odair Cunha (PT-MG) de ser “tigrão” contra Perillo, mas “tchutchuca” contra Queiroz.

 

Para piorar, o site Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, publicou a transcrição

de um grampo da Operação Monte Carlo, de posse da CPI, no qual o deputado tucano aparece numa estranha ligação com o procurador geral da República, Roberto Gurgel. Em e-mail interceptado pela Polícia Federal, relata Amorim, o exdeputado Alberto Fraga, do DEM do DF,sugere ao jornalista Edson Sombra que fale com o colega Mino Pedrosa, ambos de Brasília, para “maneirar” as denúncias contra Queiroz. “Você tem que falar com o Etelmino para ele ir com calma. Pois todo esse alvoroço pode até atrapalhar o trabalho que o Gurgel está fazendo junto com o Francischini”. O deputado, assim como Gurgel, nega ter participado de qualquer complô contra o governador.

 

A TRAMOIA DO NAOUM

 

Novos detalhes da perceria Veja-Cachoeira para invadir de forma legal a privacidade do ex-ministro José Dirceu

 

INSTAURADO na quarta-feira 11 um inquérito policial na 5 Delegacia de Polícia Civil do Distrito

Federal poderá desvendar finalmente como funcionava a teia de relações entre o bicheiro Carlinhos

Cachoeira e a revista Veja. A polícia de Brasília decidiu investigar o roubo de imagens feitas por câmeras de segurança de parlamentares e autoridades nos corredores do Hotel Naoum, onde o ex-ministro José Dirceu mantinha um escritório político. Novas gravações da Operação Monte Carlo, obtidas por Carta Capital, revelam as negociações entre os arapongas de Cachoeira e funcionários do hotel para que, em 31de agosto de 2011, essas imagens fossem estampadas em matéria de capa da semanal da Editora Abril.

 

No texto produzido por Veja, intitulado “Ele ainda manda em ministro, senador …” e assinado por dois repórteres, Daniel Pereira e Gustavo Ribeiro, a publicação acusa Dirceu de manter uma suposta

influência política. Dirceu, afirma a revista, teria participado ativamente da derrubada do então ministro Antonio Palocci, como se a dificuldade de Palocci em explicar seu extraordinário enriquecimento não fosse suficiente. A semanal exibiu imagens de políticos em visita ao

quarto de Dirceu no Naoum. Um dos diálogos entre Cachoeira e o araponga Jairo Martins, captados pela Monte Carlo, revela a intenção do vazamento para a Veja. No trecho, o bicheiro, em 2 de agosto de 2011, quer saber detalhes do material anteriormente passado para o jornalista Policarpo Junior,

diretor da revista em Brasília:

 

Carlinhos Cachoeira:Ah, tá. E o que que é, basicamente (que está nas imagens)? o JD (José Dirceu) recebendo o pessoal • lá e comemorando a queda do outro (o ex-ministro Antonio Paloccí)?

Jairo Martins: É. A importância, a influência dele nos momentos de crise, a importância dele. Todo mundo vem pedir a bênção pra ele.

 

Para registrar essa “bênção” dali a 29 dias, Veja aceitou utilizar o produto de, provavelmente, um duplo crime, tanto pela quebra da privacidade dos hóspedes do Naoum quanto pelo vazamento

das imagens, da qual se suspeita terem sido furtadas, sob encomenda, com o auxílio de funcionários do hotel.

 

A partir do conteúdo dos áudios, percebe-se que Cachoeira está interessado em manter influência sobre a semanal da Abril. O bicheiro, encarcerado no presídio da Papuda, em Brasília, mantinha

esse poder a partir de um baú de dossiês alimentado pelas informações de Martins e do sargento Idalberto Matias de Araújo, o Dadá. Assim pautava a semanal contra inimigos da quadrilha ou

a favor de interesses pessoais, e em troca oferecia informações contra os desafetos da editora, petistas em particular.

 

Em 2 de agosto de 2011, Cachoeira e Martins trocaram uma série de telefonemas para discutir um ponto crucial do vazamento do Naoum. O araponga queria saber do bicheiro como conseguir

a autorização de alguém do hotel para liberar a publicação das imagens das câmeras de segurança. Segundo outros diálogos, havia um acordo prévio entre Martins e Policarpo Junior: Veja

somente usaria as informações, sem as imagens. O araponga liga então para um funcionário ainda não identificado do Naoum. Do grampo da PF, contudo, é possível deduzir a participação de outras

pessoas do hotel.

 

Funcionário do Naoum: Oi. Jairo Martins: Fui almoçar com ele (Policarpo) aqui, tem um acordo aqui. Pode mandar elepublicar?

 

Funcionário: Minha preocupação é só o meu colega. Avalia aí, cara. A preocupação dele é só o emprego dele, alguma coisa assim nesse sentido. O resto …

 

JM: Mas acha que cai nele?

 

Funcionário: Pode ser que sim, pode ser que não. Porque tem rastro, né? Tem mais gente que mexeu, né?

 

Não foi fácil convencer a Polícia Civil de Brasília da necessidade de se investigar essa operação. Isso apesar” dos acontecimentos de 24 de agosto de 2011, na semana anterior à publicação

da reportagem. Naquele dia, um repórter da revista, Gustavo Ribeiro, tentou invadir um dos quartos utilizados por Dirceu no 16° andar do Naoum. Ribeiro identificou-se como assessor

da prefeitura de Varginha (MG), onde nasceu, para tentar convencer a camareira Jôse Maia Medeiros a abrir a porta do quarto do petista.

 

A funcionária, alegou ter esquecido alguns papéis no lugar. Jôse desconfiou. A camareira alertou a recepção do hotel e, em seguida, o gerente Rogério Tonatto acionou a segurança interna,

comandada por Gilmar Lima de Souza. Tonatto registrou ainda um boletim de ocorrência na 5 DP. O repórter de Veja fugiu pelas escadas, conforme as imagens captadas, ironia do destino, pelas

mesmas câmeras usadas por Cachoeira para flagrar os encontros de Dirceu. Toda essa história está contada no relatório do inquérito presidido pelo delegado Edson Medina de Oliveira, apresentado

ao Ministério Público do Distrito Federal em 26 de setembro de 2011. Jôse e Souza foram à delegacia depor sozinhos. Ribeiro, com três advogados.

 

Segundo o delegado, Ribeiro demonstrou “vontade livre e consciente” ao tentar invadir o apartamento de Dirceu. “Sabe-se lá para quê”, afirma o ex- ministro, hoje instalado, por motivos

óbvios, em uma casa alugada no Lago Sul de Brasília. “Ele poderia tanto roubar alguma coisa quanto plantar drogas para me incriminar, ou uma escuta, para me espionar.” O delegado recomendou

ao Ministério Público Distrital que levasse o processo adiante na Justiça.

 

Não foi o bastante. Em 19 de dezembro de 2011, o promotor Bruno Osmar Freitas pediu o arquivamento do caso com base em um argumento confuso. Segundo ele, como a camareira Jôse

impediu o repórter de entrar no quarto de Dirceu, cessaram-se as intenções criminosas. Cerca de um mês depois, em 24 de janeiro, o juiz Raimundo Silvino da Costa Neto acatou o pedido e o

caso foi encerrado. Quer dizer, não absolutamente. O delegado, que indiciou o repórter, acabou de certa forma punido. Oliveira foi removido sem mais explicações da sa DP para uma delegacia em

Planaltina, cidade-satélite de Brasília, a 38 quilômetros da capital.

 

Os vazamentos dos autos da Monte Carlo mudaram, porém, a perspectiva do caso. Até então a polícia brasiliense nunca tinha investigado o possível roubo das imagens do Naoum. Centrara-se

apenas na tentativa de invasão ao quarto de Dirceu. Estranhamente, também a direção do hotel se mostrou desinteressada na ação contra a privacidade de seus hóspedes. Com a revelação dos diálogos entre Cachoeira e seus acólitos, foi possível à defesa de Dirceu pressionar o Naoum a tomar uma atitude. Oficialmente, todas as providências tomadas até ali pelo hotel se resumiam a uma sindicância interna sem resultado algum.

 

Em 12 de agosto de 2011, em conversa grampeada, Martins fala a Cachoeira da negociação em curso no hotel para a liberação das imagens. No diálogo, alheio às formalidades do idioma, o bicheiro não só trata de intermediar o material como faz questão de se colocar como dono da última palavra

sobre o assunto:

 

Carlinhos Cachoeira: E aí, Jairo, o que que rolou? Jairo Martins: Não, ele (um funcionário

do Naoum) me falou do negócio do rapaz, que tá tranquilo (…). Que tu ia ajudar. Eu falei, “não pode deixar, eu to conversando com meu amigo (do Naoum)”. Eu conversei com ele lá, entendeu?

A princípio, acho que vai ficar tranquilo dentro daquilo que a gente combinou, tá?

 

CC: É, mas pro “caneta” (Policarpo Junior) lá cê tem que falar que é eu, viu?

 

JM: Não, pô, a hora que ele falar pra mim  que está 100% tranquilo, o amigo. Ele ficou de, nesse final de semana, dar uma analisada aí com a primeira-dama. Coo) aí, é você que vai dar o OK,não sou eu não, né?

 

CC:Ah, então tá bom. Ocêjá falou pra ele (Policarpo) que nós que pegamos, né?

 

JM: Já falei, já.

 

A tal “primeira-dama” citada por Martins é um dos mistérios a serem desvendados pelo inquérito policial, aberto coincidentemente logo depois de Carta Capital buscar informações a respeito

de sua instalação. Desde 16 de maio, portanto há quase dois meses, o assunto repousava sobre a mesa do delegado Marco Antônio Cardoso, atual titular da 5 DP.A notícia-crime havia sido enviada

pelo advogado Celso Renato D’Ávila, representante do Grupo Nauom, uma rede de hotéis sediada na goiana Anápolis, sede dos negócios de Cachoeira.

 

Dada a coincidência entre a origem da rede hoteleira e o bunker do bicheiro, uma pista não poderá passar despercebida aos olhos do delegado. A única pessoa que, por ora, poderia se enquadrar

no perfil de “primeira-dama” no hotel é Elizabeth Naoum, filha de Mounir Naoum, patriarca da família. Ela é mulher de Aroldo Azevedo dos Santos, operador da rede em Brasília. Também vale

checar se após a conversa de 2 de agosto de 2011 entre Cachoeira e Martins a quadrilha

deu mesmo “um pau” no equipamento do hotel para destruir os rastros da operação, conforme está registrado em um dos áudios disponibilizados à CPI e obtidos por Carta Capital.

 

Crianças ou mulheres?

 

Meninas de 11 a 14 anos casadas são comuns nos grotões do País. Com a chegada do Estado, cresce o embate entre lei e cultura

 

FAZ CERCA de um ano que Carlos Augusto Catanhei de prestou atenção na menina

de bochechas cor de jambo e olhos esverdeados que entrou em sua venda para comprar

farinha. Ela tinha 13 anos. Ele, 47.Calejado, ex-garimpeiro curtido na lida das minas de ouro de Roraima, havia três anos ele decidira “sossegar” na Conceição do Lago Açu natal, tomar tino,

curar a solidão. Foi quando conheceu a rechonchuda menina, ainda na quarta série do primário e decidiu: “era ela”.A mãe dele tinha seus 13 anos quando casara com o pai,bem mais velho. Foi sem remorsos, então, que numa tarde de sol Carlinhos deixou o cubículo ladeado por garrafas de cachaça e sacos de víveres, caminhou 20 metros na mesma rua, entrou na sala de chão

batido de Tânia Fonsect e “pediu” sua filha. Ela suspirou aliviada. “Eu disse: Olha, não é mais virgem e anda aprontando”, lembra Tânia. “Mas se o senhor quiser, e ela gostar, tá feito. Eles passaram a noite. No outro dia ele veio dizer que ela ficava.”

 

Em Conceição do Lago Açu, cidade de 15 mil habitantes a 346 quilômetros de São Luís, nos rincões do Maranhão, casar aos 16 anos é “casar tarde”, como explica Tânia, enquanto indica as cadeiras de

plástico num canto. Com a rede e a tevê de 14 polegadas, elas completam a sala da casa de pau-a-pique rachada pela pobreza e pelo tempo, onde ela vive com o marido e dois dos seis filhos, graças à pesca e aos l30 reais do Bolsa Família. Ela só sabe assinar o nome. “Aqui, com 12 anos menina

solteira é problema pruma mãe. Rapaz de 20 quer nada sério, só droga e bagunça.” A filha “começou” aos 12: foi estuprada. O namorado acabou na cadeia. O segundo batia nela. Separaram-se. Depois, ela “passou a esperar moleque na rua”. Até que o comerciante surgiu na sua porta,

chapéu de palha na mão, proposta na ponta da língua. “Foi uma bênção. Nós somos pobres. Eu tirava a sandália do pé pra botar no dela. E já pensava que ela ia botar filho no mundo pra nós criar.” Quando a filha foi viver com Carlinhos, ela não estudava havia dois anos, conta. Ele a devolveu

à escola. “Errado? Quando ela andava atrás de homem na rua, ninguém dizia nada. Agora que endireitou, se arrumou com o coroa, fazem denúncia? Não entendo.”

 

Retrato do embate entre lei e costume, entre a presença do Estado de Direito e uma cultura arcaica enraizada na fímbria de uma gente esquecida por séculos pelo próprio país, Lago Açu é uma dentre

centenas de cidades nos rincões do Brasil a testemunhar, da maneira mais difícil, as mudanças trazidas pelo crescimento econômico e pelo acesso à informação. Aqui, por causa do Bolsa Família, as lojinhas pulsam na única rua asfaltada, datada da última eleição. Entre as casas de pau-a-pique despontam umas poucas de alvenaria. As motos substituíram os burros, extintos como meios de transporte. Um posto de gasolina improvisado guarda a entrada da cidade, sinal dos novos

tempos. Mas as taxas de natalidade seguem altas. O esgoto escorre negro nos cantos das ruelas, caindo no lago onde porcos, urubus e peixes dividem espaço. Falta transporte, saúde, educação.

“A vida tá melhor”, assevera Maria do Rosário, dona do hotel Maranhão. “Mas falta emprego.” Rosário medita, os olhos fixos na rua enlameada. “Essas meninas não têm o que fazer e ficam na folia. Eu mesma queria pegar uma de 12 pra me ajudar. Mas pega pra ver: dá cadeia.”

 

O Açu sobe vários metros na época das chuvas e baixa outros tantos na seca, quando a desova obriga os pescadores a cruzar os braços. É quando o tédio ocupa as cabeças. Os homens jogam bingo e atentam para as meninas, tão desocupadas quanto, a vagar pelas ruas. O resto é estatística. Com as “modernidades”, o que era visto como costume vira uma questão legal. Pois os funcionários públicos não só enchem os cinco quartos do único hotel: trazem junto uma rede de acesso a informações e serviços. Com o posto de internet comunitária e o de saúde, o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e a unidade do Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil (Pair), recém-abertos, vêm noções de legalidade. E as denúncias de abuso crescem na velocidade da presença estatal.

 

“Disseram que a gente não tinha mais o que fazer pra se meter entre marido e mulher”, suspira o conselheiro Flávio Lopes, ao lembrar o episódio em maio desse ano em São Mateus do Maranhão, a 150 quilômetros de Lago Açu. Ao descobrir que um rapaz de 18 anos vivia com uma

menina de 11, o conselho tutelar fez a denúncia. A polícia prendeu José Silva em flagrante. A menina foi devolvida à família. Tudo resolvido. Até a cidade descobrir e, indignada, tomar o partido de Silva:um bom rapaz, disseram à TV,Ele respeitava a menina e ela o amava. A própria família

era a favor.”É um costume daqui”, explica Jussara Brito, assistente social do município.

“Se a família aceitou, Xaifazer o quê?”

Enquanto ajeita o topete no espelho para receber a visita na sua venda, entre um sorvete pedido aqui e um guaraná Jesus ali, Evandro Pereira sorri satisfeito. Logo se entende o motivo. É quando chega a mulher, uma menina de 14 anos, corpo de modelo e rosto de boneca. “Ela não era

mais virgem”, relativiza o vendedor, ao relembrar o romance. “Namorava um traste que batia nela. Opai deu até casa pros dois. Sabe como é, menina, depois que começa, não tem mais jeito. Mas se separaram e nós começamos.” Ela tinha 13,a idade da sua primeira mulher quando os dois se conheceram, dez anos atrás. Amavam-se. Mas ela o traiu, ele “triscou a mão” na menina,

ela levouo filho de 6 anos embora, só tristeza. Até conhecer a nova menina dos olhos. ”Agente vive bem”, diz a garota, entre goles de refrigerante cor-de-rosa. Ela largou a escola e agora ajuda nas vendas. Não pensa em voltar. ”Aqui isso é normal”, interrompe a sogra. O testemunho de dona Elisa Pereira, 70 anos desenhados no rosto ressecado pelo sol,cruza gerações no tempo para dar

a dimensão estática do costume. “Eu mesma me casei com 12 anos. Fazer o quê.”

 

De tempos em tempos, o Unicef, agência das Nações Unidas para a infância, realiza campanhas para alertar sobre os malefícios do casamento precoce. O foco é sempre Índia, Bangladesh, África

e Oriente Médio, onde meninas são vendidas como mercadorias aos milhões. O Brasil está longe do topo do ranking, o que faz do fenômeno algo marginal, esquecido pelo governo, ignorado pela

sociedade. “Mas nos interiores do Brasil ainda se trocam meninas por um quilo de arroz”, afirma Catharina Bacelar, secretária estadual da Mulher do Maranhão.

 

Sob os auspícios da imagem da governadora Roseana Sarney, que sorri satisfeita da parede atrás de sua mesa, ela abre um mapa do estado com quatro cores diferentes, de azul a vermelho. Metade da população das cidades em vermelho está na linha de pobreza extrema. Seu dedo indicador crava o município de Conceição do Lago Açu. “Além de cultural, essa é uma questão de política pública. Nesses lugares, não havia nenhuma. Nós estamos levando informação, mostrando os direitos. Mas, sem mudar a pobreza, como mudar os costumes?” Avã do Pair começou a percorrer o interior atrás de denúncias de violência contra a mulher. Com a Lei Maria da Penha sob o braço, as assistentes foram atrás de um problema e se defrontaram com outro, o do casamento precoce. “Esse é um tema que não é a maior preocupação de ninguém. Essas meninas têm o que comer, o que vestir, muitas nem sofrem violência. Para essas pessoas, dos males, esse é o menor.”

 

Bacelar conta o caso de uma família do interior que pagou um trabalho de macumba

dando a própria filha ao curandeiro. Casos como esse, diz, são comuns. Suas duas funcionárias aquiescem. “Nesses lugares, a família é uma questão de foro privado. Entre marido e mulher,

ninguém deve meter a colher”, completa Cláudia Gouveia. A adjunta da pasta, Crisális Fonseca, vai além. “O que é preciso entender é que não compactuamos com essa prática criminosa.” Bacelar, ciente da complexidade do fenômeno, contemporiza. “Claro, é dar uma vida melhor para

essas meninas. Mas o povo não tem essa noção de certo ou errado da lei. Eles se baseiam no costume. Cultura é cultura. E eu lhe asseguro: isso não é só no Maranhão. É nesses interiores do Brasil todo.”

 

As estatísticas falam por si. Mais de 65 mil meninas de 10 a 14 anos vivem relacionamentos

estáveis no Brasil, segundo levantamento feito nos dados do Censo de 2010, do IBGE. A maioria vive em união consensual, sem registro, já que a prática é ilegal. Os casos pipocam nos quatro cantos do País, ainda que só ganhem notoriedade quando confrontados pela lei. Em Sarandi, interior do Paraná, um homem de 30 anos foi preso no ano passado por viver com uma menina de 12 anos (havia dois). Em janeiro deste ano, um homem da mesma idade passou a ser procurado

pela polícia em São Carlos, interior de São Paulo, acusado de raptar uma menina de

12, com o consentimento dela. Há ainda casos mais peculiares. Em Vila Valério, no Espírito Santo, o candidato a vereador Jeremias Ramalho de Souza, de 22 anos, foi preso acusado de sequestrar e manter relações sexuais com uma menina de 11. Souza não só vivia com ela com consentimento

da família, diz a polícia, mas morava com os pais da criança, dormia em uma cama de casal com ela ao lado da dos”sogros”, arcava com as despesas da casa e tinha os pais dela como cabos eleitorais.

 

Mas a situação é mais comum nos estados do Norte e Nordeste, onde a porcentagem de meninas casadas precocemente é sempre maior que sua porcentagem da população brasileira, enquanto no Sul e no Sudeste, a proporção se inverte. O Maranhão desponta: tem 3,45% da população

nacional e 6,7% das meninas de até 14 anos casadas do País. O caso é semelhante ao do Pará, que tem cerca de 4% da população nacional e 6,9% dos casos. Pernambuco, Ceará e Sergipe têm proporção semelhante. São Paulo tem 11,3% das meninas casadas com até 14 anos, mas 21% da população. Santa Catarina tem 2,7% dos casos e 3,3% da população, metade da incidência do Maranhão.

 

É onde entra Braz Andrade Castro, o ex-pescador atarracado de 36 anos que há cerca de um virou conselheiro tutelar de Conceição do Lago Açu, encarregado, dentre outras coisas, de proteger as cerca de 700 meninas de 10 a 14 anos das redondezas. Braz anda pelas ruelas com a segurança de quem conhece cada família, a dona de cada bucho crescendo sob vestidinhos de chita. “Em meia hora, encontro 30 casos de meninas casadas com homens mais velhos.” Braz aponta para uma rua. “Numa casa ali tem três meninas de menor com filho pra criar, todas separadas. A mais nova teve filho com dez anos. Mas a mãe não quer ouvir falar de conselho tutelar. O pessoal diz: por que não vão fechar as bocas de fumo ao invés de se preocupar com a vida dos outros.” Ele se permite um riso triste, desgostoso com a matemática da rotina. “Costumo dizer que a vida sexual aqui começa aos 10 anos e 7 meses. A gente diz pras mães: lugar de menina é na escola, não é porque a senhora casou com 13 anos que tem de dar sua filha pro primeiro que aparecer.”

 

Como explicar noções de direitos humanos a uma gente desempregada e semianalfabeta,

imersa até o pescoço não só no lago lamacento que provém o sustento, mas numa sociedade pobre, reclusa e machista, na qual o homem é sempre o provedor e decide o rumo das vidas e a mulher, sobretudo a menina, não passa de um fardo a ser resolvido por meio do casamento? Como cruzar a linha entre cultura e legalidade sem passar por cima da cultura? “A verdade é que não temos

hoje instrumental para enfrentar essa situação”, afirma Carmen Silveira de Oliveira, secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Para a tuberculose existem remédios, procedimentos, o controle é possível. Em direitos humanos, qualquer política envolve

mudanças culturais profundas. E elas não se dão da noite para o dia.”

 

o governo depende dos projetos de saúde familiar do SUS e da rede de assistência social dos eras e dos conselhos tutelares para chegar a tais meninas. O “Brasil Protege”, plano recém-lançado pelo governo para “criar uma rede de proteção contra a violência física, sexual e psicológica

sofrida por crianças e adolescentes”, pretende estabelece” uma espécie de notificação

integrada entre os órgãos públicos. A ideia é que cada caso seja analisado separadamente, por um viés: saúde, justiça, assistência social. O que não dá, diz, é para generalizar. “Pelo fator etário, a gente diria que essa menina é uma criança. Mas a situação cultural do casamento a

coloca numa posição diferente na comunidade, outro papel social. Resta saber se isso traz sofrimento para a menina. É preciso ouvir a opinião dela.” Evitar o “adultocentrismo”,

explica. “E é preciso se dar conta da coexistência de dois Brasis: um moderno e desenvolvido e outro tradicional, de valores arcaicos. Qualquer política precisa levar isso em conta e não tentar

resolver as coisas a partir dos gabinetes.”

 

A lei é clara: qualquer envolvimento carnal com menores de 14 anos é estupro de vulnerável. Mas o embate não emerge de um limbo legal, mas antropológico: são crianças ou mulheres essas meninas casadas? Vítimas de violência ou decididas a melhorar de vida, a sair da pobreza extrema do lar por meio do casamento? “Existe um sentimento generalizado de verdadeiro horror a qualquer coisa que conecte sexo e criança ou, mais especificamente, que conecte sexualmente o adulto à criança”, explica a antropóloga Laura Lowenkron, que pesquisa a construção social da pedofilia. “Trata-se de uma repulsa entendida como ‘natural’, portanto, inquestionável. No entanto, como ensina a

antropologia, as diferenças ‘naturais’ são construções culturais e históricas”. Lago Açu é a materialização do conceito.

 

Em uma rua de barro que desce até o lago, meninas caminham com baldes de água na cabeça. São donas de casa, senhoras dos barracos cobertos de palha. Numa delas vive “Lila”, 14 anos, seu segundo marido, um pedreiro de 33 anos, sua sogra de mais de 70 e os dois filhos da menina, um de 2 anos e outro de 6 meses. Na casa ao lado vive a concunhada de 17 anos, “Mila”, casada há quatro com o irmão do marido de Lila, e seu filho, de 3. Com um filho em cada braço, Lila conta que se casou pela primeira vez aos 11 anos. Não é cedo demais? “Que nada”, diz a menina mirrada, tão magra que a blusinha dança no corpo, com jeito de matrona do lar. “É bom ter a família da gente,

começar a vida cedo. Se Deus me der um netinho cedo, eu crio.” Lila adora ser mãe.

Planeja ter o terceiro filho é depois fazer a ligadura das trompas. “Minha mãe não me quis. Me teve com 11anos e caiu na vida. Eu não. Quero dar toda a atenção que não tive pros meus filhos.”

 

NOVO REMENDO NA PREVIDENCIA

O governo estuda uma formula para substituir o fator previdenciário

 

HERANÇA DAS reformas dos anos 1990, o fator previdenciário está com os dias contados. Desde

a sua criação como regra de transição, em 1998, cumpriu o papel esperado por seus criadores: reduziu os gastos públicos em cerca de 40 bilhões de reais a partir daí, recursos que de outra forma

engordariam a renda dos aposentados pelo Regime Geral da Previdência, hoje um contingente de 16,3milhões de cidadãos.

 

O fator previdenciário nasceu polêmico. Surgiu para consertar uma derrota sofrida pelo governo FHC no Congresso, por um voto, desfalque atribuído ao deputado governista Antonio Kandir, que na hora de se posicionar a favor da idade mínima para a aposentadoria de 60 anos, no caso dos homens, e de 55, para mulheres, apertou o botão errado, o de abstenção.

 

A saída foi criar um dispositivo transitório, válido para aqueles que em 16de dezembro de 1998 contribuíam à Previdência Para esse grupo foi criado o fator previdenciário, na prática uma tabela com porcentuais a serem descontados de acordo com a idade do contribuinte, o tempo de contribuição e a expectativa de vida após deixar o mercado de trabalho. A aposentadoria proporcional exige o mínimo de 53 anos e 30 de contribuição, para os homens, e de 48 mos e 25 de pagamentos, para as mulheres. Foi criado ainda um “pedágio” pelo qual seria preciso acrescentar 40% ao tempo que faltava para a aposentadoria pelas regras anteriores. Para quem entrou no sistema após a data de corte, não há idade mínima, mas a exigência de 35 anos de contribuição (homens) ou de 30 anos (mulheres).

 

Pressionado por parlamentares e centrais sindicais, o governo negocia, inclusive para evitar um veto presidencial, como fez Lula, em 2009, quando o fim do fator foi aprovado sem a criação de um mecanismo alternativo de financiamento.

 

Na terça-feira 10,uma reunião liderada pela ministra Ideli Salvatti com representantes da equipe econômica e do Ministério da Previdência Social pretendia fechar a proposta do governo. O adiamento do encontro em cima da hora sugere que as divergências internas persistem, com a

área econômica preocupada em garantir as receitas. “Aexpectativa é que no lugar

do fator previdenciário seja usada a fórmula 85-95″, diz o senador Paulo Paim (RS-PT), em referência à proposta apresentada pelas centrais sindicais, a que reúne maiores chances na votação prevista para agosto, após o recesso parlamentar.

 

Pela fórmula, os trabalhadores poderiam solicitar a aposentadoria integral quando a soma da idade e dos anos de contribuição atingisse 95 anos, no caso dos homens, e 85, no das mulheres. Aprovado o projeto de lei em discussão, uma mulher com 30 anos de contribuição e 55 anos de idade ficaria fora

do fator previdenciário. Pelas regras atuais, essa mesma contribuinte receberia 30% menos. Em conversa com Paim na quarta- -feira 11,o ministro da Previdência, Garibaldi Filho, teria indicado que o governo poderia aceitar esse expediente, ainda que represente “prejuízo aos cofres públicos”.

 

Como nas privatizações das telecomunicações u do setor elétrico, a reforma que criou o fator previdenciário tinha como objetivo estimular a privatização progressiva do sistema previdenciário brasileiro, segundo especialistas, em sintonia com as orientações do FMI/Banco Mundial,

que àquela altura elegeram o modelo chileno de Previdência Social, invenção da ditadura Pinochet, como o exemplo a ser seguido na região.

 

“No caso brasileiro, houve um estimulo às aposentadorias por meio dos planos privados, vendidos pelos bancos, que serviriam a quem queria ganhar além do teto das aposentadorias”, diz o economista Eduardo Fagnani, da Unicamp. “Mas outros nove países latino-americanos foram

além e privatizaram completamente seus sistemas como queria o Banco Mundial:’

 

Além de ideológica, a opção tinha a ver com a conjuntura econômica ruim para as contas públicas. “De 1990 a 2006, a economia cresceu em média 2% ao ano. Nesse período houve a recomposição do mínimo e a reforma da Previdência de FHC levou muitos a antecipar a aposentadoria e a voltar ao mercado. Esses fatores somados, que não vão se repetir, serviram à argumentação conservadora com ênfase no aumento das despesas”, diz Fagnani.

 

Como as centrais sindicais e parlamentares ligados ao tema, caso do senador Paim, Fagnani critica o resultado divulgado mensalmente pela Previdência, segundo o qual haveria déficit no chamado Regime Geral, aquele dos trabalhadores da iniciativa privada, urbanos e rurais, estimado neste

ano em 36,5bilhões de reais.

 

“Não há déficit, mas superávit de mais de 15bilhões ao ano”, diz Paim, que, como os sindicatos, considera errado incluir as aposentadorias rurais no cálculo, o que serviria para dar munição a quem defende critérios mais severos para as aposentadorias. Vista como uma política correta de

distribuição de renda, as aposentadorias rurais teriam de ser bancadas por tributos específicos criados para esse fim.

 

Na ponta do lápis, a diferença é grande: enquanto os trabalhadores das cidades contribuiram,

em 2011,com246 bilhões de reais, os do campo entraram com 5,4bilhões. Na coluna das despesas, as aposentadorias urbanas somaram 225bilhões, ante 63bilhões das rurais. O resultado é o déficit líquido anunciado de 36,5bilhões de reais,com superávit de 21bilhões na Previdência urbana

 

Além da regra 85/95, está na mesa de negociações o índice a ser usado para corrigir

as aposentadorias. As centrais queriam que o reajuste tivesse por base o desempenho

do PIB no ano anterior, mas o Planalto não parece disposto a aceitar. Proposta intermediária em discussão é atrelar o porcentual à massa salarial. “O governo deixou claro que prefere não falar em índices. O máximo que conseguimos foi um compromisso de que o tema será debatido nos próximos meses”, diz o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).

 

Ex-secretário da Previdência Social,cargo que ocupou entre 2003 e 2010, Helmut Schwarzer considera necessário criar compensações ao fator.”Em 2009, orientamos o presidente Lula no veto pelo fato de o projeto não prever nenhuma receita para cobrir as despesas”, diz Schwarzer, hoje pesquisador- sênior da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Genebra

”É irresponsabilidade simplesmente acabar com o fator.Diante da transição demográfica

que o País atravessa, com o aumento da expectativa de vida e o amadurecimento da população, é preciso pensar na sustentabilidade da Previdência no médio e longo prazos”, diz Schwarzer, qúe frisa não falar sobre o tema como porta-voz da OIT. Na sua avaliação,melhor seria criar uma idade

mínima, como previa a reforma de FHC.

 

A PARTICULA ESSENCIAL

 

O anúncio da descoberta do bóson de Higgs coroa uma das mais bem-sucedidas teorias científicas

 

TEMOS UMA descoberta.” Rolf Heuer, diretor-geral do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern),

não tinha dúvida. Ele não deixou o espaço de manobra que os físicos muitas vezes se reservam ao fazer seus anúncios quando resumiu os resultados da busca de sua organização pelo bóson de

Higgs. Estes foram apresentados em detalhe em 4 de julho por Joe lncandela e Fabiola Gianotti, líderes dos dois experimentos que procuram essa partícula fugaz. O CMS, dirigido pelo doutor lncandela, e o Atlas, dirigido pela doutora Gianotti, são ligados aJtGrande Colisor de Hádrons (LHC), o principal equipamento do maior laboratório de física de partículas da Europa, perto de Genebra, dirigido pelo Cern. Ambos encontraram evidências conclusivas de uma partícula de tipo e massa certos para ser o Higgs. Se não for realmente o Higgs, será o maior revés para a física em um século.

 

Foram necessários cinco décadas, bilhões de dólares e milhões de horas-homem. Mas, finalmente, o físico britânico Peter Higgs e quatro outros indivíduos menos conhecidos – François Englert,

Gerald Guralnik, Tom Kibble e Carl Hagen – podem estourar uma garrafa de champanhe. Foram eles quem, em 1964, extraíram o que veio a ser conhecido (injustamente, segundo alguns) como

bóson de Higgs de fórmulas em que trabalhavam para solucionar um problema da teoria quântica. Outro cooriginador, Robert Brout, morreu em 2011.

 

A descoberta dá os retoques finais no Modelo-Padrão, a melhor explicação dada até hoje para o funcionamento do universo, exceto no campo da gravidade, que é governado pela teoria geral da relatividade. O modelo inclui 17partículas. Dessas, 12 são férmions, como os quarks (que se fundem aos nêutrons e prótons nos núcleos atômicos) e elétrons (que giram em torno dos núcleos).

Eles formam a matéria. Outras quatro partículas, conhecidas como bósons de calibre (gauge), transmitem forças e assim permitem que os férmions interajam: os fótons transmitem eletromagnetismo, que mantém os elétrons em órbita ao redor dos átomos. Os glúons ligam os quarks aos prótons e nêutrons através da força nuclear forte. Os bósons W e Z carregam a força nuclear fraca, responsável por certos tipos de decomposição radioativa. E depois há o Higgs.

 

o Higgs, embora seja um bóson (o que significa que tem um valor particular de uma propriedade da mecânica quântica conhecida com spín), não é um bóson de calibre. Os físicos não definem

se ele transmite força, mas dizem que dá massa às outras partículas. Duas das outras 16, o fóton e o glúon, não têm massa. Mas sem o Higgs, ou algo parecido, não se pode explicar de onde vem

a massa das outras partículas.

 

Para os férmions isso não importa muito. As regras do Modelo-Padrão permitiriam que a massa fosse atribuída a eles sem mais explicações. Mas o mesmo truque não funciona com os bósons. Na ausência de um Higgs, as regras do Modelo- Padrão exigem que os bósons sejam sem massa. OW e o Z não são. Eles são muito pesados na verdade, quase cem vezes mais que os prótons. Isso torna o Higgs a pedra angular do Modelo-Padrão. Coloque-a no lugar certo e a estrutura permanece de pé. Tire-o, e ela desmorona. Não admira que os físicos estivessem impacientes.

 

Há vários motivos pelos quais levou quase meio século para se agarrar o Higgs. Para começar, a teoria sugere que a massa da própria partícula (que ela obtém interagindo consigo mesma) deveria ser enorme. Já que, como demonstrou AIbert Einstein, energia e massa são a mesma coisa, uma partícula pesada exige mais energia para ser produzida. Isso significava máquinas maiores, mais poderosas e caras, como o LHC, que causa o choque de prótons que viajam em direções opostas em um túnel circular de 27 quilômetros de circunferência. Para complicar as coisas, o Modelo- Padrão não define quanto um Higgs deveria pesar, e, por isso, os físicos tiveram de examinar um amplo leque de massas possíveis. Isso signifícou ter de peneirar entre milhares de trilhões de colisões.

 

Eles tampouco procuravam propriamente o Higgs. Os bósons de Higgs são tão instáveis que nunca podem ser observados diretamente. OAtlas e o CMS, que se situam em lados opostos do anel

do LHC, são projetados para detectar padrões de partículas observáveis nas quais, segundo a teoria, o Higgs deveria se decompor. Infelizmente, esses padrões não são específicos do Higgs. Outros processos subJfômicos produzem traços semelhantes.

 

Os experimentos não poderiam, portanto, simplesmente identificar um sinal do Higgs. Em vez disso, eles procuraram um excesso de possíveis sinais, representando uma fração da porcentagem acima daquela que seria esperada se o Higgs não fosse real. Ambos o encontraram com uma massa de cerca de 125 gigaeletronvolts, nas unidades arcanas usadas para medir o peso das partículas subatômicas. Com uma chance em 3 milhões de ser uma flutuação aleatória, as descobertas não deixam lugar para dúvidas. Uma nova partícula foi observada.

 

O passo seguinte é certificar-se de que é realmente o tipo de Higgs que os inventores imaginavam. Embora o Modelo-Padrão diga pouco sobre o peso que os Higgs devem ter, é bastante específico sobre como a massa afeta o modo como eles se decompõem. Medindo as proporções dos diferentes modos de decomposição observados, e comparando- as com essas previsões, deveria mostrar se a partícula recém-descoberta é a variedade comum do Higgs sonhada resultado final são previsões absurdas, em 1964, ou algo mais exótico.

 

Aqui os dados são mais confusos. Algumas decomposições observadas, em particular uma em que o Higgs se transforma em dois fótons, surgem com maior freqüência do que deveriam segundo o Modelo-Padrão, embora isso ainda possa ser provado como um caso estatístico.

 

Para muitos físicos, um Higgs exótico seria boa noticia. Apesar de toda a sua proeza explanatória, o Modelo-Padão não pode ser a ultima palavra em física. Um Higgs monótono reforçaria essa venerável teoria, mas ofereceria poucas pistas quanto ao que poderia substitui-la.

 

Um problema é que cerca de 20 constantes sejam exatamente  o que são até uma confortável 32 casa decimal. Inserindo-se valores diferentes, o resultado final são previsões absurdas, como fenômeno que ocorrem com uma probabilidade maior que 100%.

 

A natureza poderia se mostrar tão meticulosa, é claro. Mas os físicos aprenderam a assumir a necessidade dessa sintonia fina, como são conhecidos no jargão os cálculos de precisão, como um sinal de que falta algo importante em sua imagem do mundo.

 

Um modo de olhar além do Modelo-Padrao é questionar a posição do Higgs como partícula elementar. Segundo uma ideia chamada technicolor, se ele fosse feito de novos tipos de quanks mantidos juntos por uma nova interação, semelhante, mas diferente da foca forte, a necessidade de sintonia fina desaparece.

 

Alternativamente, o Higgs pode manter sua condição elementar, mas ganhar irmãos. Essa é uma conseqüência cia de uma ideia chamada supersimetria, ou “susy” para encurtar. Assim

como todas as partículas conhecidas da matéria têm versões em antimatéria no ModeloPadrão, no mundo de susy todo bóson conhecido, inclusive o de Higgs, tem um ou mais parceiros férmion, e

todo férmion conhecido tem um ou mais bósons associados.

 

Crucialmente, ambas as teorias têm uma vantagem sobre muita coisa que o Modelo-Padrão deixa sem resposta. Por que o universo é cheio de matéria e não de antimatéria, por exemplo? Ou por que forças fundamentais diferentes têm forças extremamente diferentes? Respostas para essas perguntas fluem naturalmente de matemáticas supersimétricas e technicoloro Assim como os candidatos a partículas que formam a matéria escura, uma substância obscura cuja presença pode

ser deduzida de seu empuxo gravitacional, mas que não interage muito através das três forças do Modelo-Padrão. As mais leves dessas partículas de matéria escura podem aparecer no LHC.

 

O problema dessas e outras propostas tem sido uma constante falta de evidência sobre qual delas, se houver alguma, é uma boa descrição da realidade. Uma década atrás os físicos previam confiantemente que as partículas supersimétricas ou “techniquarks” seriam descobertas

em pouco tempo no Tevatron (um acelerador americano menos potente, que foi fechado no ano passado), mesmo antes que o LHC estivesse funcionando. Essa esperança não se materializou. De vez em quando os experimentos se conformavam nitidamente ao Modelo-Padrão, sem dar pistas do que poderia haver depois, para tristeza de muitos nesse campo. Isso poderá finalmente mudar quando eles começarem a descoser o Higgs.

 

A descoberta do bóson, portanto, é acertadamente saudada como a conquista que coroa uma das mais bem-sucedidas teorias científicas da história. Mas também é quase certamente o início da

desmontagem dessa teoria e sua substituição por algo melhor. Na ciência, em sua constante busca pela verdade, isto é algo a se comemorar.

 

Fred Astaire das quadras

 

Federer é novamente número 1ao vencer em Wimbledon. Seria também o melhor de todos os tempos?

 

DESDE SUA ÚLTIMA vitória no Aberto da Austrália, em 2010, ninguém acreditava que

Roger Federer pudesse vencer novamente um torneio como Wimbledon. O suíço não ganhava um dos quatro do Grand Slam (Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon, Aberto dos EUA) há dois anos e meio, e aos 31 anos, o tempo não jogava a seu favor. Além disso, diante de talentos como

Novak Djokovic e Rafael Nadal, a ocupar, respectivamente, a primeira e segunda posições no ranking da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), uma nova ascensão do número 3 do

mundo, Federer, parecia impensável.

 

Às vésperas da final de Wimbledon no domingo 8, comentaristas argumentavam nos jornais britânicos que o escocês Andy Murray, primeiro britânico a chegar à final desde Bunny

Austin em 1938, “estava com fome” e tinha as armas para vencer Federer. The Sunday Times publicou uma foto do britânico Fred Perry, campeão em 1836 de Wimbledon, batendo uma esquerda

ao lado de uma foto de Murray a evocar o gesto de seu antecessor. O holandês de origem tcheca Richard Krajicek, vencedor de Wimbledon em 1996, previu uma vitória de Murray, de 25 anos e 4° da ATP, em 5 sets.

 

Previsões apressadas. Na grama da quadra central de Wimbledon – e a grama é a predileta de Federer -, vimos o suíço no topo de seu jogo. Desempenho fluido, elegante, bailarino, Fred Astaire

de raquete. Resultado: 4-6, 7-5, 6-3, 6-4.

 

Com a vitória, o suíço, que ocupou o primeiro lugar do ranking da ATP desde fevereiro de 2004, voltou a ser o número 1 do mundo. Djokovic passa para a segunda posição e NadaI para a

terceira. Foi a sétima vitória de Federer no torneio londrino e com isso iguala o recorde de Pete Sampras na era do open tennis, iniciada em 1968. William Renshaw, um reverendo anglicano, foi

campeão de 1881a 1889.

 

Ao voltar a ser o primeiro do mundo, Federer certamente ultrapassará o

número de semanas, 286, passadas por Sampras no trono do tênis mundial. Como se isso não bastasse, agora Federer é dono de 17 troféus de torneios do Grand Slam, ante 15 para Sampras,

12 para o australiano Roy Emerson e 11 para Nadai e Rod Laver.

 

O início da final, bastante tenso, não foi um passeio no parque. Agressivo, Murray, nunca vitorioso de um torneio de Grand Slam e derrotado em três das quatro finais que disputou com Federer (Austrália em 2010, Estados Unidos, 2008, e agora em Wimbledon), começou o primeiro set com uma vantagem de 2 a o. Empatados em 4 a 4, Murray quebrou o saque de Federer e venceu o primeiro set.

 

No segundo set, Murray teve uma oportunidade crucial para quebrar o serviço de Federer quando estavam empatados em 4 a 4 – e um break point àquela altura poderia ter dado a ele uma vantagem de 2 sets a O.Mas o fato é que o 4° tenista da ATP jogou suficientemente bem para elevar o nível de maestria de Federer. Quando, no segundo set, estava vencendo por 6 a 5, Federer fez duas jogadas geniais, ambas terminadas com impecáveis drop volleys, ou voleios curtos. Naquele momento,

o jogo estava empatado. Federer passou a mostrar sua nítida superioridade quando, empatados em 1 a 1, terceiro set, a chuva forçou os organizadores do torneio a fechar o teto da quadra. Reiniciada

a partida, Federer apresentou seu melhor tênis. Tim Henman, ex-top ten e ex-número 1 do Reino Unido, comentou: “Não acho que ele esteja consistente como há dois anos. Mas, quando

Federer joga seu melhor tênis, ele é melhor do que qualquer um”.

 

Murray parececompartilhar a admiração de Henman por Federer. O escocês, pouco apreciado pela maioria dos britânicos, conquistou-os com sua sinceridade no discurso após a partida. Tentando segurar as lágrimas, a verter sem parar, ele disse: “Estamos falando de um dos maiores atletas de

todos os tempos, e, portanto, temos de colocar as coisas no contexto”, disse Murray. “Perdi para o cara que venceu esse torneio sete vezes e é o número 1 do mundo (…) Ele ainda joga muito

tênis. Não creio que você possa ser número 1 sem merecê-lo.”

 

Após a vitória de Federer vieram, como sempre, as comparações. Quem é o melhor tenista da era ao open tennis? Da lista de favoritos constam três: Federer, Pete Sampras e Laver. “Quem não viu Laver jogar não pode decidir entre Federer ou Sampras”, sentenciou um comentarista britânico. De fato, é difícil descartar Laver. Ele é o único jogador da história a vencer duas vezes os quatro torneios do Grand Slam no mesmo ano. Isso em 1962, quando o jogo era amador, e em 1969, já na era do open tennis.

 

No entanto, para Nicola Pietrangeli, vencedor de Roland Garros duas vezes, a disputa é entre Federer e Sampras. O campeão italiano lembra que Federer ganhou em todas as superfícies e

Sampras nunca venceu na terra de Roland Garros. Sampras tinha boa mão, era jogador de saque e voleio. Federer também vai à rede, como fez, aliás, no domingo contra Murray, mas vai menos.

Eram perfeitos os voleios de esquerda e direita de Sampras, enquanto Federer vôlei a melhor de esquerda. A direita de Sampras era ótima, mas a de Federer é mais variada. A esquerda de Federer é infinitamente superior à de Sampras, seu ponto fraco. Federer, ademais, é um mestre da deixada. Veredicto de Pietrangeli: Federer é um  pouco superior a Sampras.

 

Gianni Clerici, provavelmente o maior comentarista e historiador, do tênis, diz no La Repubblica: “Não tenho dúvidas de que Feder6J seja o melhor tenista do mundo”. Clerici, ex-integrante

da equipe italiana da Copa Davis e parceiro de duplas do brasífeÍro Armando Vieira em torneios internacionais, aprecia em particular a esquerda de Federer.

 

Para Clerici, a maneira como Federer mescla slices (cortada; a bola desliza rasante) com top spins (a bola é golpeada de baixo para cima e quica alta) demonstra como ele pode tirar o peso da bola com o primeiro efeito e acelerá-la com o segundo. Clerici chama esse fenômeno de alteração de timing de turbotennis, cujo rei é o suíço. Ao longo do jogo, esse mix de efeitos de esquerda causou crescentes dificuldades para o escocês com seu 1,90 metro de altura. Acostumado a bater todas as bolas com

top spin, não é fácil para ele ter de flexionar os joelhos repetidamente para tentar desferir potentes golpes a partir de um efeito profundo, mas sem peso. Mas quem é o melhor de todos os tempos? Clerici rebate: “Não podemos comparar Homero a Dante, ou Leonardo a Picasso”.

 

O MUNDO ESPERA A EUROPA

 

As incertezas na Zona do Euro afetam a industria global

 

OS LÍDERES europeus mostraram muito mais progresso ao atacar sua interminável crise da

dívida do que se esperava quando se reuniram em Bruxelas, em 28 e 29 de junho. Eles decidiram, entre outras coisas, permitir que o novo fundo permanente de resgate recapitalize diretamente

os bancos em economias deficitárias, em vez fazê-lo por meio de seus governos. Eles também permitiram que os fundos de resgate comprem títulos dos governos de países em dificuldades sem impor condições tão estritas quanto antes.

 

O euro rapidamente subiu. As Bolsas de Valores recuperaram certa energia. O preço do petróleo disparou. O rendimento dos títulos do governo caiu na Espanha e na Itália. Despencou ainda na Irlanda, sob expectativas de que vai ganhar algum alívio retrospectivo dos pesados custos

de sua faxina bancária. Em resposta, o governo irlandês decidiu angariar dinheiro por meio da emissão de papéis de curto prazo em 5 de julho, seu primeiro leilão desse tipo desde 2010.

 

Mas a cúpula de junho também ofereceu muito menos do que a’ recuperação do mercado sugeria. Em teoria, o acordo promete romper a ligação de autorreforço entre governos fracos e bancos fracos.

Na prática, isso não acontecerá até que o Banco Central Europeu (BCE) seja encarregado

da supervisão bancária da Zona do Euro, o que poderá demorar muito mais que os planejados seis meses.

 

Antes disso, um acordo alinhavado nas horas imprecisas bem poderia enfrentar dificuldades legais sobre redefinir a abrangência do fundo permanente sem modificar o tratado que o definiu, ou

sob objeções políticas de economias menores do Norte. A Finlândia, por exemplo, não gosta da ideia de usar os fundos de resgate para comprar títulos de governos de mercados secundários. Enquanto

isso, a Grécia não perdeu nada de sua capacidade de causar problemas, enquanto um novo governo fraco tenta extrair concessões dos países credores.

 

Tudo isso significa ainda mais incertezas e ainda mais danos à economia global. Dentro da própria Área do Euro, o índice de desemprego alcançou 11,1%em maio, um recorde sobre dados que remontam a 1995 para os 17países que hoje participam da união monetária. O índice composto

de gerentes de compras CPMI, em inglês), que cobre serviços assim como manufatura, subiu um pouco em junho, mas com 46,4 permaneceu bem abaixo do nível de 50 que separa a expansão

da contração. Até a formidável economia alemã hoje parece vacilar. Seu índice composto PMI aponta para um pequeno declínio na produção nacional no se-o gundo semestre, segundo a Markit, que compila os índices. Existe uma fraqueza particular na manufatura alemã, que estava em contração em junho em seu ritmo mais rápido em três anos.

 

A fragilidade industrial hoje se espalhou por todo o mundo. Nos Estados Unidos o índice de manufatura do Instituto para Gerência de Suprimentos caiu, em junho, para menos de 50, pela primeira vez em quase três anos. As novas encomendas despencaram, o que sugere que

a fraqueza persistirá. Um dos principais motivos foi um declínio acentuado em novas encomendas de exportações, com os fabricantes culpando a menor demanda na Europa e na China. Em sua checagem anual de saúde da economia americana, o Fundo Monetário Internacional acaba de afirmar que a recuperação continua “morna” e que teme as consequências de uma crise do euro intensificada.

 

Na Ásia a desaceleração industrial também está em curso. O PMI do Japão caiu abaixo de 50 em junho pela primeira vez desde novembro. Depois de cair nos últimos meses, o PMI oficial da China hoje está apenas um pouco acima desse limite, embora para os chineses isso provavelmente

signifique uma produção industrial crescendo a um ritmo anual de cerca de 10%, em vez dos habituais 15%. Qualquer desaceleração prejudica as economias, como o Brasil, que prosperaram

vendendo matérias-primas para a China, O setor industrial do Brasil apresentou contração pelo terceiro mês consecutivo em junho.

 

Se os mercados continuavam relativamente animados no início deste mês, foi sem dúvida por esperarem que os bancos centrais cobrissem a brecha mais uma vez. Em 5 de julho, depois que The Economist havia ido para a gráfica, tanto o BCE quanto o Banco da Inglaterra anunciavam o abrandamento de suas políticas monetárias. O Banco Central Britânico já havia indicado outra dose de facilitação quantitativa. Por sua parte, o BCE parecia inclinado a reduzir sua principal taxa política abaixo de 1%pela primeira vez, provavelmente para 0,75%. Passar desse marco mostraria quanto mais precisa ser feito para pôr fim à crise.

 

O ÚLTIMO BASTIÃO

 

Os republicanos estão dispostos a gastar milhões para tirar dos democratas o controle do Senado e inviabilizar Obama

 

A SEGUNDA-FEIRA 9, a maior parte dos moradores de Nova York, este repórter incluído, recebeu

uma longa carta do senador democrata Charles Schumer. Não era uma correspondência de praxe há quatro meses das eleições gerais. Candidata à reeleição, a senadora democrata Kirsten Gillibrand lidera com folgatodas as pesquisas na disputa contra seu oponente republicano e a outra cadeira no estado, ocupada há 31 anos por Schumer, só entra em jogo em 2016.

 

Em tom desesperado, um dos principais quadros do partido de BJrack Obama pedia que o eleitor democrata, maíoria absoluta na cidade, considerasse a disputa em sua dimensão nacional e contribuísse com ao menos 35 dólares cada O objetivo é impedir a oposição conservadora de garantir a maioria no Senado.Areeleição do presidente, se combinada com a perda da casa parlamentar pelos governistas, destaca Schumer, transformaria Obama em refém da direita,

em um segundo mandato desprovido de qualquer significância.

 

A Casa dos Representantes,equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, já é controlada pelos republicanos desde 2010, com pouquíssimas chances de retomada democrata neste ano. No Senado, a história é diferente. “Vou ser franco: os republicanos precisam ganhar apenas quatro cadeiras para tomar o Senado de assalto. Neste momento, nós somos a única barreira

protegendo a maíoria da população de um país gerido pela visão ultraconservadora dominante na Casa dos Representantes”, diz Schumer.

 

A mutação do Senado se dará no caso davitória de nomes como os do vice-líder da maíoria na Câmara Baixa, o ultraconservador Conníe Mack, próximo da comunidade cubana da Flórida, e o ex-governador de Wisconsin, Tommy Thompson, famoso por barrar, por questões políticas, cientistas

considerados hberais (entre eles,um detentor do Prêmio Nobel) para o conselho gestor do Instituto Nacional da Saúde durante o segundo governo Bush. Thompson, que exerceu o cargo equivalente ao de ministro da Saúde do maís recente presidente republicano, lidera as pesquisas. Mack começa a encostar no liberal Bill Nelson.

 

“Nunca vi tantas disputas apertadas para o Senado neste estágio da peleja A campanha de

MittRomney acaba de anunciar que é justamente nas disputas para o Senado que sua vantagem econômica deverá ter maíor efeito no resultado final. Se eles controlarem o Senado, não reconheceremos mais este pais”, profetizou Schumer.

 

No mesmo dia, em Washington, sério, cabisbaixo, os óculos de aros negros sobre a ponta do nariz, o senador, principal articulador da Casa Branca e de Wall Street, apareceu ao lado de um grupo de cçlegas democratas erguendo um quadro imenso com dados gritantes da Comissão Eleitoral

Federal, instituição remotamente similar ao Tribunal Superior Eleitoral no Brasil, informando a diferença de gastos previstos nas eleições geraís de 2008 e as deste ano: de 5,28 bilhões para 11bilhões de dólares. O salto de mais de 100% é resultado da aprovação, pela Suprema Corte de maioria conservadora, da contribuição sigilosa de indivíduos e corporações, sem limite definido,

para campanhas eleitorais de níveis federal, estadual e local nos Estados Unídos.

 

Apenas um desses grupos, o Crossroads GPS,comandado por um dos mentores da candidatura Bush júnior, Karl Rove, deve gastar 300 milhões de dólares em propaganda contra os democratas. Um terço deste valor já se transformou, segundo o site Huffington Post, em propagandas televisivas de ataque aos candidatos governistas nos estados em que o controle do Senado será decidido. Para se ter umaideia, o Majority PAC, o supercomitê oficial de apoio à eleição de senadores democratas,

arrecadara 5,4 milhões de dólares até a quinta-feira 12.

 

Os democratas pediram à Comissão Eleitoral que inicie uma investigação formal sobre o Crossroads GPSe o Americans for Prosperity, grupo formado pelos bilionários irmãos Davíd e Charles Koch, principais financiadores do Tea Party, a facção de extrema-direita que tomou o Partido Republicano de assalto. ”Esses grupos afirmam não ter conotação política e não ser voltados para o lucro. Eles comparam suas ativídades com igrejas, sinagogas e até com a Associação Americana do Câncer, o que é um absurdo”, diz o documento elaborado pelos senadores democratas.

 

Os parlamentares argumentam que esses grupos são associações lobistas conservadoras, interessados nas vantagens financeiras garantidas pelas eleições de candidatos republicanos por

eles financiados.

 

A melhor ilustração da renhida disputa pelo Senado, muitas vezes escondida por causa do protagonismo da batalha Obama x Romney, deu-se na reação desafiadora do líder da minoria no Senado, Mitch McConnell, minutos após a decisão da Suprema Corte de declarar constitucional

a reforma da Saúde Pública, principal projeto de política interna da administração Obama: “Nosso primeiro ato, ao tomarmos o controle do Senado em novembro, será repelir por completo

o Obamacare”.

 

O Ato de Garantia de Saúde Acessível obriga a maioria dos cidadãos a contar com um plano de saúde a partir de 2014, mas o governo federal oferece subsídios para milhares de contribuintes e impõe uma série de regulamentações ao setor, desagradando tanto aos planos de Saúde

quanto aos republicanos. Na quarta-feira 11,a Casa dos Representantes aprovou projeto repelindo a legislação. Com a maioria do Senado ainda em mãos democratas, a ação tem, no momento, valor

meramente simbólico, mas galvaniza a base republicana em uma eleição apertada disputada à sombra da crise econômica, a ser decidida em estados-chave, alguns deles com disputas apertadas, como Flórida e Nevada.

 

A agenda republicana para o Senado inclui ainda o ataque aos direitos trabalhistas nos moldes do que se viu em Wisconsin (incluindo o fim das negociações de aumento com sindicatos dos setores

públicos), a redução dos benefícios da Previdência Social e do Medicare, o sistema de saúde público voltado para maiores de 65 anos e pessoas com deficiência física, o estabelecimento de um controle fiscal rígido, impedindo qualquer investimento substancioso do Estado na economia, e a aprovação de nomes conservadores para eventuais posições na Suprema Corte.

 

É o resultado da disputa pelas oito vagas que decidirão o controle da Câmara Alta do Legislativo americano, enfatiza o senador Schumer, e não a eleição presidencial, que decidirá de fato o rumo

do debate sobre o papel do Estado na sociedade americana, incluindo o destino das heranças mais palpáveis do modelo ianque do Bem-Estar Social, aprovadas durante o New Deal de Roosevelt

nos anos 1930 e o pacote de reformas sociais de Lyndon Johnson na segunda metade dos anos 1960.

 

A VOLKS ULTRAPASSA

 

A montadora alemã previa liderar as vendas mundiais em 2016. Atingiu o objetivo antes

 

QUANDO Ferdinand Píéch chegou a executivo-chefe da Volkswagen em 1993, as coisas pareciam

péssimas. A fabricante de automóveis estava com excesso de gastos e de funcionários,

era ineficiente e tinha perdido sua reputação de qualidade. Como as coisas mudaram: no ano passado os lucros do grupo mais que dobraram e atingiram um recorde de 23,8 bilhões de dólares. Enquanto outros fabricantes de carros europeus tentam fechar fábricas e cortar empregos,

a Volks busca maior participação de mercado na Europa, tem grande crescimento na China e ensaia uma retomada nos Estados Unidos. Ela pretende gastar 76bilhões de euros em novos modelos e novas fábricas até 2016.Sua força de trabalho global é de mais de meio milhão de empregados. E continua a crescer.

 

Foram necessáriosanos para que Píêch, hoje presidente, mas ainda com as mãos firmemente no leme, domasse a fauna de marcas VW semi-independentes e conseguisse controlar seu império global de fábricas. Ele contratou e demitiu executivos impiedosamente. No mês passado,

Karl-Thomas Neumann foi removido da diretoria de operações chinesas, supostamente

por seu desempenho decepcionante, apesar dos lucros suculentos que a montadora obtém na China. Neumann havia sido citado como possível sucessor do executivo-chefe, Martin Winterkom.

 

Piêch é neto de Ferdinand Porsche, que fundou a Volks depois de Hitler chamá-lo em 1934para criar um veículo barato, um “carro do povo”, ou Volkswagen. O clã Piech- Porsche controla aVW e a Porsche, fabricante de carros esportivos que hoje está sendo absorvida pela primeira depois do fracasso de uma aquisição reversa super ambiciosa e altamente alavancada. Em 4 de julho, a Volks concordou em comprar os 50,1% da Porsche que ainda não possui por 4,46 bilhões de euros.

 

A montadora também negocia a compra da Ducati, fabricante de motocicletas de luxo, e consolida a MAN e a Scania, duas fabricantes de caminhões, em sua divisão de veículos comerciais. Mas continua faminta. Há muito tempo ela cobiça a Alfa Romeo, divisão de carros elegantes

da Fiat. E há rumores de que está de olho na fabricante de caminhões americana Navistar. Winterkorn rejeita, porém, a sugestão de que o grupo esteja grande demais e inadministrável.

 

O plano de Piêch era de que a Volks se tornasse a maior fabricante de carros do mundo em volume até 2018. Mas no ano passado, enquanto a Toyota lutava contra as consequências do tsunami no Japão e a General Motors fracassava na Europa, a VW atingiu sua meta sete anos antes. Isso

se foram excluídas a Subam, afiliada distante da Toyota, ou a joint venture da GM na China, Wu1ing,que fabrica principalmente carros com marcas chinesas.

 

Os 8,5 milhões de veículos que a montadora alemã fabricou em 2011 cobrem todos os cantos: Volkswagen, Skoda e Seat no mercado de massa, Audi em carros de luxo, Porsche, Bugatti e Lamborghlni em carros esportivos, Bentley no altb luxo, além de várias marcas de veículos comerciais.A maioria (exceto a Seat) dispara em todos os cilindros. Afirma de previsões IHS Automotive espera que a Volks facilmente supere sua meta de 11milhões de vendas até 2018.

 

A feroz competição e a pressão regulatória para desenvolver carros com combustíveis alternativos obrigam outros fabricantes a buscar parcerias para dividir custos. A Toyota e a BMW se uniram em tecnologias de baixo carbono. A divisão Opel da GM na Europa negocia com a Peugeot-Citroên para

fabricar carros menores. A Daimler se aproxima da aliança Renault-Nissan. Sergio Marchionne, o patrão da Fiat e da Chrysler, recentemente sugeriu fundir vários fabricantes europeus para

criar “outra Volkswagen”.

 

A VW foi melhor que suas rivais em reduzir o número de “plataformas” comuns em que seus carros são construídos. Isto lhe permite oferecer uma fabulosa variedade de marcas e estilos, enquanto

corta os custos fabris. A próxima etapa, lançada neste ano, é uma plataforma versátil chamada de MQB, que será a base do Golf, Audi A3, Skoda Octavia e Seat Leon, em todas as suas variações.

 

Em muitos dos 26 países onde a Volks tem fábricas, ela está há tempo suficiente para ser considerada uma empresa nacional, por isso os protecionistas geralmente a deixam em paz. Uma participação acionária controladora da família fundadora, e uma participação com direito a veto do

estado da Baixa Saxônia, onde fica a sua sede, permite que ela resista a pressões no curto prazo para sair de qualquer mercado que se mostre difícil. Os adversários invejam essa estabilidade, especialmente agora, diz Winterkorn.

 

Enquanto a Volks dirige incansavelmente rumo à dominação mundial, o analista Max Warburton, do banco de investimentos Sanford C. Bernstein, diz que Piêch “entrará para a história como uma lenda do automobilismo, na mesma classe de Gottlieb Dairnler, Henry Ford e Kiichiro Toyoda”.

 

A volkswagen conseguiu, na segunda-feira 9, a aprovação de um financiamento de 342 milhões de reais pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A montadora não se manifestou até o fechamento desta edição sobre que projetos serão contemplados com os recursos, mas, segundo a instituição financeira, o montante será aplicado no desenvolvimento de novos modelos no Brasil e na modernização de outros já fabricados aqui. Também haverá investimento

na ampliação de dois projetos sociais da Fundação Volkswagen. O aporte faz parte de um plano de investimento de 8,7 bilhões de reais da montadora no Brasil até 2016. Dentre os veículos a serem desenvolvidos estariam um subcompacto e um sedã médio, com o aprimoramento de tecnologias

desenvolvidas pela Volkswagen em outros países. Especula-se que o compacto seja o Up!, modelo eleito o carro do ano no Salão de Nova York em abril deste ano. Segundo o BNDES, haverá nacionalização das peças utilizadas na fabricação deste modelo. A modernização de automóveis

produzidos no Brasil deve contemplar alterações estéticas na frente e na traseira, acabamento interno e novos motores, aprimoramento da engenharia e do design dos veículos. A decisão de investir na produção ocorre num momento em que a indústria automobilística vê com cuidado o mercado. Apesar da recuperação recente das vendas em maio e junho, puxadas pela redução

do IPI, a produção de veículos continua em queda, reflexo dos estoques acumulados. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o licenciamento de automóveis da Volkswagen cresceu 36,7% em junho em relação ao mês anterior, acima

dos 31,3% do setor, mas o resultado do ano é apenas 0,3% maior que o de 2011. Para o BNDES,os planos da montadora de lançar novos modelos no Brasil “são coerentes com a atual conjuntura automotiva mundial, uma vez que a maturação do mercado nos países desenvolvidos levou

as montadoras a buscar novos mercados com potencial de crescimento”.

 

O ANIMAL EM NÓS

 

O filósofo e colunista de Carta Capital propõe uma releitura do conceito de humanidade

 

VLADlMIR SAFATLE não vive encastelado na academia. Herdeiro das tradições dos séculos

XIX e XX, é um intelectual disposto a dialogar com a opinião pública, mesmo se do outro lado do debate encontre nada além de um Caetano Veloso. São as agruras de uma decisão consciente, que

faz dele um pensador acessível, mas não superficial, como os interessados em filosofia poderão conferir em Grande Hotel Abismo (Martins Fontes, 338 págs. R$ 49,80), sua tese de livre-docência na USP agora publicada em livro. Colunista de Carta Capital, Safatle fala a seguir sobre a noção de humanidade, os 4esafios das esquerdas e os limites do modelo de desenvolvimento implementado pelo governo Lula. Em www.cartacapital.com.br. Christian Ingo Lenz Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, analisa a nova obra de Safatle.

 

CartaCapital: Em Grande Hotel Abismo, o senhor afirma que a humanidade liberada da imagem do homem poderiafomecer um novo horizonte para as lutas políticas. Por quê?

 

Vladimir SafatIe: No interior da nossa ideia de razão existe como horizonte regulador uma noção antropológica de homem que funda, por exemplo, a noção política de indivíduo, a noção do que é o sujeito do conhecimento. Por isso,acredito, todo esforço filosófico deve partir da critica dessa noção naturalizada que acaba parecendo um dado impossível de ser pensado de outra forma. Acreditamos que o homem é aquele que tem certos atributos: autonomia, autenticidade, unidade …E nos é impossível pensar qualquer coisa para além Isso traz uma série de consequências no campo da ação, de tudo o que é moral, e no campo da política.

 

CC: Qual seria, por exemplo, o limite desse ideal no universo da moral?

 

VS: Existe uma estratégia hegemônica que poderíamos chamar de redução egológica do sujeito. Ou seja, a ideia de que o ‘eu’ é a figura fundamental de organização da vída psíquica, de organização daquilo que entendemos por sujeito. Tudo aquilo que não tem a forma de um ‘eu’ deve ser

recusado como irracional, como vinculado a uma certa dimensão dos impulsos, da animalidade, com potencial desagregador. Acabamos desenvolvendo um tipo de pensar muito dependente de uma

certa ideia de ‘eu’ e de indivíduo. O foco do meu livro é um pouco criticar não só essa ideia como mostrar como essa é uma ideia que produz uma série de matrizes de sofrimento psíquico.

 

CC:Aí entramos no campo político, na definição de loucura, irradonalidade, terrorismo.

 

VS:O Bento Prado Júnior, um dos maiores filósofos brasileiros, adaptou uma frase de um pensador europeu. “Sempre se é o imoralista de alguém”, afirmava. O que ele queria dizer? Sempre se é o irracionalista de alguém porque sempre tem alguém disposto a te expulsar do campo da razão

e da comunicação. A falar que o que você tem a defender não pode ser sequer discutido

por quebrar completamente nosso plano de valores, princípios e normas. Poderiamos fazer uma nova adaptação, contemporânea: sempre se é o terrorista de alguém. Pois há sempre alguém disposto a te tirar de maneira radical do campo do embate político, como se você não tivesse

nada a dizer a não ser extravasar ressentimentos, irracionalismo fanático. O interessante

é a maneira completamente flexível, elástica com que conceitos como terrorismo são utilizados. Serve para o vendedor de CD pirata a integrantes de movimentos de sem-terras. Isso demonstra um caráter eminentemente estratégico do termo, embora eu não negue a existência de um uso

bastante preciso da palavra terrorista.

 

CC: O senhor lançou recentemente um livro no qual reflete sobre o significado do conceito de esquerda. E tem dito que as esquerdas, após 1968, se concentraram em lutas particularistas,

de gênero, de raça. Qual a relação entre as duas obras?

 

VS:O livro sobre a esquerda é conseqüência de Grande Hotel Abismo, minha tese de livre-docência. Seria um desdobramento prático. Durante muito tempo, a esquerda compreendeu a essência da sua

luta como uma batalha pela redistribuição de riquezas. Nesse processo, os problemas de  reconhecimento foram de uma certa maneira negligenciados. O fato de haver uma sociedade onde grupos ou indivíduos querem se fazer reconhecer em sua singularidade não era importante. A partir

de maio de 1968, houve uma inversão radical da pauta das esquerdas. Vieram as lutas dos negros e dos homossexuais, por exemplo, e a constituição estrutural do multiculturalismo. Sem renegar a importância dessas lutas, de fato fundamentais para a universalização de direitos, insistiria

no seguinte: talvez estejamos em uma outra fase. Talvez seja possível sair de uma certa política da diferença para entrar na política da indiferença.

 

CC: Como assim?

 

VS: Existe uma zona de indiferenciação que nos une de uma certa forma, uma área no interior da qual nossas diferenças não são vistas como algo contra o qual devo me defender. A minha diferença em relação a você, a sua diferença em relação a mim, não é nada que me faça tentar me defender de você por sermos diferentes. Ao contrário, essas diferenças caem em uma indiferença porque eu me reconheço talvez não na sua singularidade, não no seu modo singular de ser, mas na sua tentativa, no seu modo de construir uma singularidade.

 

CC: O senhor fala em limites do modelo de desenvolvimento implementado por Lula. Quais seriam?

 

VS: Existem duas versões do que aconteceu nos últimos dez anos no Brasil. É importante apontar o problema pois estamos em uma situação absolutamente inacreditável: somos incapazes de desenvolver esquemas conceituais para pensar o Brasil contemporâneo. Fomos acometidos de uma espécie de timidez reflexiva que nos impede de pensar. São os mesmos argumentos de

sempre, os mesmos preconceitos, que fazem que, em última instância, nada do que aconteceu nos últimos anos seja visível de maneira clara. É bastante triste, pois em momentos centrais de sua história o Brasil foi capaz de construir os próprios conceitos para pensar seus problemas de formação. Temos nomes fundamentais como Celso Furtado, Milton Santos, Sérgio Buarque de

Holanda, Antonio Candido. E hoje?

 

CC: Qual a razão desse vazio?

 

VS: Há um certo transtorno bipolar brasileiro. Ou nos vemos como uma espécie de nova Roma, como dizia Darcy Ribeiro, prestes a fornecer ao mundo uma outra referência civilizatória ou como uma sociedade em processo de desagregação contínua, de catástrofe absoluta É necessário

escapar dessa bipolaridade. Isso afeta, por exemplo, a reflexão sobre o “lulismo”. Ou foram os dez anos de implementação de um modelo de desenvolvimento social que justifica tudo, até os piores absurdos políticos e o imobilismo em várias áreas, ou nada aconteceu, tudo já tinha sido definido

antes, por outros governos, como se o Pais vivesse uma espécie de ilusão coletiva

 

CC:E a sua interpretação?

 

VS: O Lula percebeu que era possível desconcentrar renda e criar um processo de ascensão social sem acirrar de maneira radical conflitos de classe. O tempo mostrou que ele não estava errado. Mas

o preço foi alto: imobilizou pautas de transformação social. Da maneira como o governo se deixou aprisionar pelo presidencialismo de coalizão, pelas alianças, não é possível avançar mais.

 

ENFRENTA-ME OU TE DEVORO

 

O economista resume o dilema do PT diante das elites e acusa Fernando Henrique Cardoso de plagiar intelectuais banidos pela ditadura

 

FORAM NECESSÁRIOS 43 anos para que Subdesenvolvimento e Revolução, do mineiro

Ruy Mauro Marini, desse o ar da graça no Brasil. Publicada pela primeira vez no México em 1969,

a obra clássica do marxismo brasileiro ganhou edições em diversos países, inclusive naqueles da Amérfh Latina a viver sob o jugo de ditaduras. O que nos leva a perguntar: por que tanto tempo para

se reconhecer um grande intelectual brasileiro? Marini (1932-1998), presidente da Política Operária (Polop) e autor de Dialética e Dependência, passou 20 anos no exílio a partir do golpe de 1964. Professor no México e no Chile, onde dirigiu o Movimento de Izquierda Revolucionária (MIR), ele não era, é óbvio, bem-vindo pela ditadura brasileira.

 

Sua obra continuou, porém, a ser censurada durante a chamada “transição democrática”. Nas palavras de Nildo Ouriques, autor da apresentação de Subdesenvolvimento eRevolução (Editora

Insular, 2012, 270 págs.), professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina e ex-presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos

da UFSC, a hegemonia liberal “monitorada” por Washington queria uma transição isenta de teorias radicais como aquelas de subdesenvolvimento e dependência de Marini.

 

Segundo Ouriques, nessa empreitada para marginalizar radicais, Fernando Henrique Cardoso e José Serra serviram à hegemonia liberal e, entre outros feitos, adulteraram um famoso texto de Marini. Na esteira, FHC pegou carona para “formular” a teoria da dependência que o tornou famoso. Subdesenvolvimento e Revolução, iniciativa do Iela-UFSC, inaugura a coleção de livros críticos que

serão publicados pela primeira vez no Brasil pela Pátria Grande: Biblioteca do Pensamento Crítico Latino-Americano.

 

CartaCapital:Como explicar a popularidade intelectual de Ruy Mauro Marini mundo afora?

 

Nildo Ouriques:A importância do Marini é teórica e política. Ele tinha rigor teórico, metodológico, e expressava a visão da ortodoxia marxista. Na experiência brasileira, e aqui me refiro ao grande movimento de massas interrompido com a derrubada de João Goulart em 1964, ele polemizou a tese socialista chilena no sentido de afirmar os limites da transição pacífica ao socialismo. Soube usar a pista deixada por André Gunder Frank do desenvolvimento do subdesenvolvimento e fez a melhor crítica aos postulados estruturalistas dos cepalinos. Fernando Henrique Cardoso, José Serra e em parte Maria da Conceição Tavares divulgavam o debate sobre a dependência como se não fosse possível haver desenvolvimento no Brasil. Para Marini, haveria desenvolvimento, mas seria o desenvolvimento do subdesenvolvimento. A tese de Frank tinha consistência, mas não estava sustentada plenamente na concepção marxista. Marini, por meio da dialética da dependência,

deu acabamento para a tese que é insuperável até hoje. Daí a repercussão do seu trabalho na Itália, França, Alemanha, sobretudo nos demais países latino- -americanos, inclusive aqueles submetidos

a ditaduras, com exceção do Brasil.

 

CC: O senhor escreveu na introdução do livro que a teoria da dependência de Fernando

Henrique Cardosofoi influenciada pela hegemonia liberal burguesa.

 

NO:Indiscutivelmente. Os fatos agora demonstram claramente que FHC estava a favor de um projeto de Washington de conter movimentos intelectuais radicais no Brasil. Uma das metas de Fernando Henrique e José Serra era minar o terreno de radicais como Marini. Em 1978, Fernando Henrique e Serra, que havia ganhado uma bolsa nos Estados Unidos, passaram, na volta ao Brasil,

pelo México. Marini dirigia a Revista Mexicana de Sociologia CRMS), da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Eles deixaram um texto de crítica ao Marini, As Desventuras

da Dialética da Dependência, assinado por ambos. Marini disse que publicaria o texto desde que na mesma edição da RMS de 1978 constasse uma resposta crítica de sua autoria. FHC e Serra concordaram. E assim foi feito. Em 1979, FHC e Serra publicaram As Desventuras nos Cadernos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) número 23. A dupla desrespeitou a prática

editorial que Marini lhes reservou no México. Em suma, a resposta de Marini não foi publicada aqui.

 

CC: FHC e Serra teriam adulterado o texto por eles assinado ao se referir a um conceito econômico de Marini.

 

NO: Alteraram um conceito fundamental na teoria de Marini: o da economia exportadora. Marini previa a redução do mercado interno e a apologia da economia exportadora no Brasil. Segundo

ele, com a superexploração da força de trabalho não há salário e mercado interno para garantir a reprodução ampliada do capital de maneira permanente. A veloz tendência da expansão das empresas brasileiras força-as a sair do País, e no exterior elas encontram outras burguesias ultracompetitivas. Fernando Henrique e Serra mudaram o conceito de “economia exportadora” e substituíram por “economia agroexportadora” no texto publicado pelo Cebrap. Marini falava que o Brasil exportaria produtos industriais, inclusive aviões, como de fato exportamos. Mas isso não muda nada. A tendência da economia exportadora implica a drástica limitação do mercado interno. FHC e Serra queriam levantar a hipótese de que Marini não previa a possibilidade de o Brasil se  industrializar. Em suma, Marini seria, segundo FHC e Serra, o autor da tese de que no Brasil se estava criando uma economia agro exportadora. Essa adulteração do texto numa questão tão central não ocorre por acaso.

 

CC: Mas FHC, apesar disso, é tido como o pai da teoria da dependência.

 

NO: É rigorosamente falso e irônico. Ele e Serra tinham a meta de bloquear essa tendência mais radical, mais ortodoxa, mais rigorosa do ponto de vista analítico de, entre outros, Marini, e pegaram carona. Daí a astúcia, no interior do debate mais importante na área de Ciências Sociais na América Latina: o da teoria da dependência. E nesse contexto se apresentaram como os pais da famosa teoria, especialmente FHC, quando em parceria com Enzo Falleto publica Dependência e Desenvolvimento na América Latina.  À época, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) já não tinha condições para 4efender seus projetos teórico e político, e eles se apresentam como interlocutores nesse debate. Visavam por um lado recuperar as posições

cepalinas e de outro evitar o radicalismo político. E foram exitosos, turbinados pelas elites nacional e internacional favoráveis a um projeto de transição lenta, gradual e segura. Um projeto dessa natureza precisa ter uma direita clássica, fascista etc., e também uma versão liberal na qual se encaixa Fernando Henrique Cardoso.

 

CC:E o que ele representava?

 

NO: De fato, ele encabeçou a oposição liberal à ditadura. Tornou-se suplente de senador de Franco Montoro e logo em seguida com a eleição deste para o governo do estado se transformou no

grande modelo de intelectual político “dentro da ordem”, para usar uma feliz expressão de Florestan Fernandes. Não é um movimento fútil o de FHC. Ele percebe a política do Partido Democrático

em Washington, no sentido de democratizar o Brasil, percebe o movimento da elite empresarial em São Paulo por meio do manifesto de 1977 contra o gigantismo estatal e percebe o movimento de massa pelo crescimento do MDB. E assim teve uma brilhante carreira política. Idem o Serra, para falar de políticos mais notórios. E conseguiram produzir numerosos intelectuais no mundo universitário, exceto a intelectualidade que estava mais presa a um novo sindicalismo e ao petismo.

 

CC: O FHC parece não ter muita credibilidade no mundo acadêmico.

 

NO:Ele não tem uma obra. Fernando Henrique é no máximo um polemista no interior de um debate acadêmico (dependência) no qual ele não era a figura principal. Mas cumpriu o papel decisivo no

sentido de bloquear, coisa que fez com certa eficácia, as correntes mais vitais desse debate. Teve êxito especialmente com a obra de Marini, mas também com livros muito importantes de Theotonio

dos Santos, Imperialismo e Dependência, ou Socialismo ou Fascismo, o Novo Dilema Latino-Americano, este publicado até em chinês, mas jamais no Brasil.

 

CC: Marini concordaria com o senhor que o discurso sobre a nova classe média é uma forma de legitimar o subdesenvolvimento no Brasil?

 

NO: Completamente. Esse debate esconde algo fundamental, a gigantesca concentração de renda. Enquanto se fala na ascensão da classe média, a pobreza é muito maior: 76% da população

economicamente ativa vive com até três salários mínimos, 1,5 mil reais. Ou seja, nem sequer alcançam o salário mínimo do Dieese. Com meu salário de professor em greve (por aumento salarial), pertenço aos 24% mais ricos da sociedade, ao lado do Eike Batista.

 

CC: Mas, de fato, Lula elevou o nível de vida de milhões de brasileiros.

 

NO: Lula fez política social. O problema de Fernando Henrique e José Serra é que eles odeiam o povo. FHC não tinha uma política social para o País. Mas política social não traz emprego e renda.

Num país subdesenvolvido, inclusive . numa estratégia revolucionária, é preciso ter programas emergenciais. A estratégia da erradicação da pobreza de Dilma Rousseff não pode ser realizada

exclusivamente com política social. O petismo está mostrando seus limites porque terá de confrontar o poder, o prestígio social e a elite. Se não enfrentar tudo isso, será devorado.

 

OS DEUSES DA CARNIFICINA

 

Na monumental 1917, na França, obras de grandes nomes das artes atestam a explosão criativa durante a guerra

 

O ANO DE 1917 foi o penúltimo da Primeira Guerra Mundial, uma tragédia européia que deixou o saldo de milhões de mortos e mutilados e redesenhou o mapa do continente. Paradoxalmente,

foi também um momento de grande criação artística na Europa. Matisse, Mondrian, Picasso, Renoir, Modigliani, Monet, Giacometti, Juan Gris, Kandinski, Malevitch, Pierre Bonnard, George GroSl’ Otto Dix e Max Beckmann produziram obras que tratavam da guerra ou, ao contrário, falavam de vida e de erotismo, como os corpos de mulheres nuas, de Modigliani, impedido pela polícia de exibi-los

numa galeria parisiense, ou o pênis esculpido por Brancusi.

 

Foi um ano fecundo. O dadaísmo surgiu na Suíça, a pintura metafísica de De Chirico, Morandi, e posteriormente Carlo Carrà, na Itália, e as vanguardas russas aderiram com entusiasmo à Revolução

de Outubro. Enquanto isso, artistas como Fernand Léger, Dix e Braque estavam ou tinham passado pelo front.

 

O desafio de organizar uma exposição em torno desse ano era enorme e arriscado. O resultado é uma mostra extraordinariamente bem-sucedida que, por seu caráter monumental, merece ser vista em duas etapas, com pausa para um café. O Centre Georges Pompidou de Metz, situado

numa cidade cuja história balançou entre o domínio alemão e francês, celebra assim o quase um século que nos separa daquele ano de horror e de explosão criativa. São 800 obras entre quadros, desenhos, filmes, pôsteres e objetos de arte de recuperação de restos do metal de bombas. Para imaginar a carnificina da guerra, basta dizer que em apenas uma batalha, em 1916,em Verdun, 300 mil soldados

franceses e alemães perderam a vida. Em 1917,a batalha fez 150 mil mortos.

 

A primeira parte da exposição apresenta obras de artistas que estavam no front e depois se afasta para mostrar trabalhos dos que vivem a guerra de longe, onde o prazer ainda é possível. A magnífica

mostra impressiona pela extensão e qualidade. Ela revela também o quanto grandes artistas de diversas nacionalidades viveram os anos da Grande Guerra a produzir uma arte que sacudia a moral

e os bons costumes.

 

De Brancusi pode-se ver o pênis dourado, Princesse X, que não pôde ser exibido em 1917 por seu caráter chocante. Ao lado, na mesma sala, Fontaine, de Marcel Duchamp, atrai guias eruditos

com seu séquito de turistas. Fontaine é o famoso mictório recusado pela Sociedade dos Artistas Independentes de Nova York em 1917,uma das primeiras vezes em que um artista fazia um deslizamento de função de uma obra do cotidiano para torná-la peça de museu. Obviamente,

causou o furor esperado.

 

“A exposição é a carta visual de um momento, a colocar em confrontação coincidências, convergências e divergências”, diz Laurent Le Bon, diretor do Centre Pompidou-Metz e curador da mostra, cujos visitantes são recebidos por um tanque de guerra no grande hall de entrada.

 

Em 1917,Monet pintava a série Nym-phéas, da qual alguns quadros podem

ser admirados numa sala especial. De Picasso, que não fez nenhuma obra sobre a Primeira Guerra, apesar de ter tido dois de seus amigos feridos no front, Braque e Apollinaire, vê-se logo na entrada

Grande Nature Morte, perto de Over the Front, do inglês John Nash, que participou do regimento de voluntários Artists Rifles. Nessa época, Picasso tentava sair do cubismo, que via como um caminho a se esclerosar.

 

Diversas obras cerebrais de Giorgio de Chirico, de 1917, “estranhamente metafísicas” segundo o poeta Guillaume Apollinaire, podem ser admiradas, entre elas Solitudine. Esses quadros foram

depois apreciados com entusiasmo pelos surrealistas franceses, pois são uma forma de surrealismo avant la lettre. Foi em 1917 que a palavra surrealista foi empregada pela primeira vez, por Apollinaire, bem antes da publicação do Manifesto do Surrealismo, de André Breton, de 1924. Fernand Léger, para quem “a guerra é uma abstração pura, mais pura que a pintura cubista”,

transformou seus desenhos de soldados em robôs cubistas.

 

George Grosz, no quadro Explosion, de 1917,faz uma representação cubista do inferno sob as bombas. Otto Dix, um dos diversos artistas que serviram no front, desenhou um autorretratb com

uniforme de soldado, além de Explosion de Grenade e Handgemenge, em que vemos soldados empilhados uns sobre os outros, a expressar a violência e desumanidade dos combates. Pierre Bonnard pintou a desoladora realidade da destruição no quadro UnVillage en Ruines. No mesmo ano, morriam Degas e Auguste Rodin, de quem se pode admirar a mão esculpida em gesso. No percurso dos dois andares da mostra são exibidos filmes da época, como os de Chaplin, e outros que retratam a vida nas cidades.

 

Com a exposição 1917,aberta em junho e que pode ser vista até 24 de setembro, o Centre Pompidou-Metz prova que descentralizar o Centre Pompidou de Paris foi uma grande ideia. Primeira experiência do gênero em um estabelecimento público cultural na França, o Pompidou de Metz, inaugurado em 2010, não é um mero anexo do centro parisiense de mesmo nome. Inspira-se nele e se apóia em seu savoir-faire e sua reputação. Além de contar com acervo de arte moderna e

contemporânea de mais de 65 mil obras, o mais importante da Europa.

 

Pela qualidade das mostras promovidas desde a inauguração e por sua arquitetura, o Pompidou-Metz merece o deslocamento até a cidade do leste da França. Além da maravilhosa catedral, que

guarda afrescos da Idade Média e os modernos de Chagall, Metz tem arquitetura imperial da época em que a cidade esteve sob domínio alemão.

 

Quanto ao museu, ninguém fica indiferente à obra dos arqJtitetos Shigeru Ban e Jean de Gastines. Ou se gosta ou se detesta, como, aliás, acontece com a arquitetura do Centre Pompidou de Paris, do italiano Renzo Piano. A parte interna do Centre Pompidou-Metz é absolutamente deslumbrante

com enormes espaços abertos, efeitos de espelho e vigas de madeira aparentes a formar desenhos geométricos. O pé-direito de alguns espaços permite expor obras que não podem ser exibidas na

maior parte dos museus.

 

É o caso da estupenda cortina de palco (10,5x 16,4m) pintada por Picasso para o balé Parade, a pedido de Serge de Diaghilev, diretor dos Balés Russos, que estreou em 18 de maio de 1917,no Théâtre du Châtelet, em Paris. O tema era de Jean Cocteau, e a música, de Erik Satie. Como o

espetáculo tratava da vida de saltimbancos, Picasso concebeu uma pintura poética com Arlequim, uma fada, um cavalo e seu filhote. O mundo mágico de um circo contrastava com o horror da guerra.

 

O balé, um marco na vanguarda parisiense, foi saudado por Apollinaire no programa como um acontecimento de arte completo, “uma aliança da pintura, da dança, da plástica e da mímica”. Por

suas dimensões extravagantes, a cortina vive guardada e pode ser vista agora depois de 20 anos longe dos olhos do público. Segundo o curador, Parade foi uma espécie de prelúdio ao espírito novo

e libertário dos anos loucos. T A descentralização dos museus na França é um projeto promissor, como comprova o novo Louvre a ser inaugurado em 4 de dezembro deste ano na cidade de Lens, na região do Pas-de-Calais, ao norte. O Louvre-Lens é um trabalho de arquitetos japoneses que fazem uma alusão ao Louvre parisiense.

 

Lembranças ao pôr de sol

 

Com a decisiva colaboração do Barbaresco, vinho do encanto

 

ESTA FOTO foi tirada na vila de Barbaresco, nas Langhes, sul do Piemonte. Em primeiro plano,

as vinhas do vinho que, para alguns, é o melhor do mundo. Aquele Barbaresco de Angelo Gaja, cuja

etimologia remete aos piratas berberes que, durante séculos, chegaram com suas embarcações pelo Mar da Ligúria e aqui vinham depredar. A antiga torre quadrada que domina o vilarejo, e cujo elevador panorâmico nunca funciona, era justamente usada para acender fogueiras e alertar a população quando da aproximação dos sarracenos. Em Barbaresco é imprescindível parar para comer no Antiné (www.antine.it). que no dialeto de Alba significa “colocar as uvas nos tonéis”.

 

O pequeno restaurante fica perto das caves de Gaia e oferece  pratos tradicionais da Langa, como a carne crua à moda albese, picada na faca, enriquecida entre outubro e dezembro por uma nevasca das fantásticas trufas brancas, rainhas do outono na região. Para um brasileiro, acostumado

aos preços salgados dos vinhos de categoria, é uma surpresa agradável poder degustar um ótimo Barbaresco a um custo muito mais acessível. Ao fundo desta foto estão os Alpes que, em um dia claro de inverno formam um semicírculo recoberto de neve visível de todos os povoados

desta parte da Itália. Ao pôr do sol,cores de sonho tingem a paisagem até o horizonte delineado pelas montanhas silenciosas dominadas pelo Pico Monviso e me ocorre lembrar os antigos cantos entoados pela maravilha harmônica dos antigos cantos alpinos italianos. O melhor, desde

sempre, é o da Società Alpini Tridentini (SAT)de Trento, tão empolgante a ponto de chamar a atenção de um número 1da música, um pouco esquivo e excêntrico: o pianista Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995).Existe um CD, de 2006, intitulado Canti PopoZari Italiani Armonizzati

da MicheZangeli: são 19coros arranjados com o gosto refinado do pianista que tanto amava os Alpes e acabou morando na aldeia de Pura, na Suíça, onde está enterrado. Ouçam no YouTube Gran Dio deZCielo - coro SAT e pensem em seu autor anônimo. Deve ter sido um soldado, um “alpino”,

que sonhava de olhos abertos, do fundo de sua trincheira nas montanhas, durante a Primeira Guerra Mundial, observando o voo das andorinhas antes do ataque. O gênio de Michelangeli é imensurável. Mas a ele também devemos a importante indicação de Sergio Fiorentino (1927-1998),como

“o único outro pianista”. Aposto que nunca ouviram falar dele. Eu também o ignorava até que, há alguns meses, foi lançada uma caixa com dez CDs de suas gravações feitas entre 1994e 1997na Siemenvilla de Berlim, com obras de Schumann, Liszt, Chopin, Schubert, Rachmaninoff, Scriabin, Prokofieve Bach (edições Piano Classic).Como é possível que um dos maiores pianistas do

século xx seja tão pouco conhecido?

 

A resposta está na personalidade do artista: Fiorentino não tinha um ego exagerado, estava a serviço da música e não de si mesmo. Era uma pessoa iluminada e um verdadeiro aristocrata, exatamente

como Michelangeli, que nunca agradecia os aplausos, pois dizia que eram para o compositor da música e não para quem a executava. Fiorentino teve sua promissora carreira interrompida

por um acidente de avião que lhe deixou graves sequelas. No entanto, em seus últimos

anos, já septuagenário, voltou a tocar em público, especialmente na Alemanha, e, não fosse pelo infarto que o matou, certamente teria alcançado a fama merecida. No YouTube, recomendo a Tarantella de Liszt: uma homenagem à profunda napoZetanità de Fiorentino.

 

A TRILHA SONORA DO PODER NEGRO

 

Sai no Brasil a mais completa biografia de James Brown, o genial, irascível e único rei do soul

 

 

EM JUNHO de 2006, o escritor Jonathan Lethem escreveu um ensaio sobre James Brown em que alertava para a necessidade de pesquisar com profundidade a trajetória do cantor, compositor e dançarino norte-americano. “Em algum momento, alguém vai escrever uma grande biografia sobre James Brown. Será, por necessidade, mais do que uma biografia. Será a história de meio século de tragédias incorporadas ao destino dos afro-americanos no Novo Mundo; uma parábola, inclusive das

contradições do indivíduo na sociedade capitalista, que pode soar portentosa.” O texto de Lethem, publicado pela revista Rollíng Stone seis meses antes da morte de Brown, em 25 de dezembro daquele ano, revelou a cortina de fumaça criada por uma carreira de numerosos escândalos

e um comportamento agressivo de Brown, em 25 de dezembro daquele ano, revelou a cortina de fumaça criada por uma carreira de numerosos escândalos e um comportamento agressivo.

 

O jornalista R.J. Smith seguiu o conselho de Lethem em James Brown, Sua Vida,Sua Música (LeYa Brasil, 632 págs.,R$ 44,99, tradução de Luis Reyes Gil), considerada a biografia mais completa

do Godfather of Sou!. Smith identifica nas raízes de Brown os africanos trazidos para a América como escravos, cujas danças e manifestações musicais foram censuradas. Em sua biografia, o

cantor norte-americano afirmou que todos os instrumentos e a voz eram percebidos por ele como sons de bateria. Brown criou um novo espaço na indústria do entretenimento com a manipulação

criativa do ritmo musical e a supressão dos floreios melódicos. Foi propulsor da ascensão da sou 1music, do funk e do hip-hop. Com suas inovações, apresentadas de maneira crua e emocional,

fez mais do que chamar a atenção do mainstream para a música negra. Ele transformou os negros em elite musical durante o período mais conflagrado da reivindicação por direitos iguais, entre

os anos 1960 e 1970.

 

“Ao conceber a sua banda como uma unidade rítmica interligada e fechada, ele ofereceu uma das suas maiores contribuições: uma voz para o movimento Black Power”, diz Kevin Fellezs, professor

da Columbia University, a Cartqõapital. “Say It Loud (I’m Black and I’m Proud), composição de 1968, é explicitamente sobre orgulho racial e.reveladora de um engajamento político que incentivou

a aceitação de uma estética negra”, completa Fellezs, autor de Birds ofFire: Jazz, Rock, Funk and the Creation ofFusion (Duke University Press, 2011). No comportamento fora e sobre os palcos, Brown se aproximava mais da defesa da autodeterminação e do nacionalismo negro por Malcolm X, influência intelectual do Black Power, do que da política de não violência de Martin Luther

King Jr. inspirada em Mahatma Gandhi.

 

Essa atitude combativa arrefeceu no dia seguinte ao assassinato de King, ocorrido em 4 de abril de 1968. Em vez de cancelar um show em Boston, Brown exigiu que fosse televisionado. Os incêndios

e depredações país afora expunham a revolta contra a morte de King. O público invadiu o palco em Boston, mas foi contido pelos pedidos de Brown, ao microfone, antes de a polícia intervir. Essa noite registrou de modo irrefutável a liderança do compositor sobre as massas. Preso nos anos 1980 e 2000, por ter dirigido sob influência de drogas e agredido a mulher, Brown declarou ser a fama

o seu maior crime.

 

Quando a Receita Federal norte- -americana apreendeu um avião e outros bens, em punição à dívida de 4,5 milhões de dólares de impostos não declarados, o compositor se disse perseguido.

Tal acusação fazia sentido diante das medidas de J. Edgar Hoover em relação às lideranças afro-americanas, consideradas uma ameaça à segurança nacional. Diretor do FBI, Hoover grampeou Martin Luther King Jr., tachado por ele de “comunista”, e deportou o jamaicano Marcus

Garvey, defensor do nacionalismo negro e do pan-africanismo. Uma voz poderosa, Brown podia facilmente ser considerado um inimigo da nação.

 

Apesar desse embate com o establishment norte-americano, o cantor apoiou, em 1972, a reeleição do conservador Richard Nixon à Presidência. Único presidente dos EUA a renunciar ao cargo, Nixon se opôs às conquistas sociais dos anos 1960, como a aprovação da lei dos direitos civis. Antes da visita de Brown à Casa Branca, o político republicano perguntou em conversa gravada: “O que devo fazer? Sentar e conversar com ele?”

 

Ao converter as batidas do gospel e do blues em “uma máquina de ritmos”, Brown exorcizou traumas históricos e pessoais. “Há dois tipos de dor. A física e a mental. Quando grito no palco, manifesto

ambas. A mais difícil de suportar é a mental. Pois ela me faz lembrar dois bebedouros, um para o branco e outro para o negro”, dizia operformer sobre a segregação racial na América. Segundo Smith, um dos maiores sonhos de Brown, egocêntrico e obcecado pela fama, era a fundação de um museu com o seu nome. Ele guardou memorabilia em sua casa de Beech Island, cidade da Carolina do Sul, na divisa com a Geórgia. Nessa região, Brown nasceu em 1933, teve uma infância solitária, foi preso na adolescência e aprendeu a ser músico. No imóvel encontravam-se desde instrumentos

de tortura de escravos a roupas extravagantes usadas nos mais de 350 shows feitos anualmente. A intenção de criar o museu está, no entanto, descartada em razão de disputas judiciais sobre o acervo

e direitos de licenciamento. No início dos anos 2000, Brown estabeleceu em testamento a criação de dois grupos de administradores.

 

Três pessoas eram responsáveis por repartir a riqueza do compositor entre os seus netos e crianças pobres da vizinhança onde ele cresceu, sendo surrado pelo pai e por uma tia dona de bordel. Dois

desses administradores venderam em leilão parte do patrimônio do cantor para pagar credores. Oimóvel de Beech Island permanece fechado. Smith cita boatos de que túneis, cavados por saqueadores, levam ao interior da casa. Lendas atestam que no fundo falso de uma parede se escondem centenas de milhares de dólares. Ninguém sabe confirmar o tamanho da fortuna do Godfather oj Sou I. O dinheiro, essencial para James Brown exercer sua liberdade em um país racista, pode agora prejudicar a preservação da sua memória, por ele tão desejada.

 

epoca

A política e as falácias

 

O julgamento do mensalão não deve ser confundido por exercícios absurdos de retórica

 

Quando faltam duas semanas para o julgamento dos 38 réus do mensalão, o país assiste a

um falso debate sobre o caráter da decisão que será tomada após sete anos de investigação. Estimulado pelo ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, apontado pelo Ministério Público de Roberto Gurgel como “chefe da quadrilha”, o bloco dos acusados se organiza em torno de uma ideia tão simplória quanto absurda. Dizem que não querem um “julgamento político”.

 

Como o próprio Dirceu aprendeu quando era simples calouro do curso de Direito da PUC de São Paulo, onde iniciou a carreira de líder estudantil de 1968, o Supremo Tribunal Federal (STF) está tecnicamente impossibilitado de fazer um julgamento que não seja político. Seus integrantes são indicados pelo presidente da República e referendados pelo Senado. Sua função é tomar decisões a partir de um único documento, a Constituição. Seja sobre cotas raciais, sobre células-tronco ou sobre denúncias de corrupção, todo julgamento no STF tem caráter político. Por um fato simples: trata-se – por definição – da mais alta instância de um dos Três Poderes da República.

 

Mas é igualmente absurdo dizer que uma deliberação do Supremo limita-se apenas a considerações

de natureza política. Quem tem o direito de agir assim é o Congresso. Tal condição permitiu que, na

semana passada, 59 senadores cassassem o mandato de Demóstenes Torres. Nessa votação, cada parlamentar votou de acordo com sua convicção, seus valores, por interesses partidários e até por vingança. Pode ser discutível, mas é assim que funciona numa democracia.

 

No Supremo, espera-se que os juízes tomem decisões a partir de um delicado equilíbrio, que envolve aquilo que se encontra nos autos e aquilo que cada ministro valoriza na Constituição. Não há lugar para preferências partidárias no STE Os juízes se alinham com caminhos ora diferentes, ora semelhantes, de interpretar a Constituição. Por essa razão, muitas vezes o plenário se divide entre maioria e minoria.

 

O Supremo também pode tomar decisões totalmente diferentes do Congresso. Em 1992, os parlamentares aprovaram a abertura de um processo de impeachment contra Fernando Collor, levando o presidente à renúncia. Quando o caso chegou ao STF, decidiu-se anular as principais prmifts contra o ex-presidente, e ele foi absolvido. Parece estranho, mas é natural. Tanto o Congresso como o STF representam poderes soberanos, que não podem ser submetidos aos

demais. Ébom para a democracia que eles funcionem assim.

 

Ao levantar o falso fantasma do “julgamento político” e pedir um “julgamento técnico': os réus do mensalão apenas usam uma palavra neutra para tentar esconder seu problema real: a dificuldade de convencer os brasileiros de sua inocência. É um debate que eles perderam, ao menos até o momento em que Ayres Britto declarar aberta a sessão. Mesmo os desastrados esforços do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para demonstrar a “farsa do mensalão” não levaram a parte alguma. A decisão agora cabe apenas aos ministros do STF – a partir de 2 de agosto.

 

O problema é a saúde pública

 

Numa medida inédita, na semana passada a Agência Nacional de Saúde Suplementar

(ANS) decidiu punir 268 planos de saúde privada, oferecidos por 37 operadoras diferentes. Eles se

recusaram a cumprir os novos prazos para consultas e exames de clientes, estabelecidos em dezembro de 2011. Pelas regras em vigor, em nenhum caso a espera pode ultrapassar o limite máximo de três semanas. A medida não atinge os 3,5 milhões de brasileiros cadastrados nos planos punidos, que conservam seus direitos contratados. Mas impede que as operadoras continuem a oferecer seus serviços no mercado antes de regularizar a situação.

 

Quem entra no mercado de saúde privada sabe que se trata de um negócio sujeito a leis mais rigorosas, que zelam pela saúde da população. Por isso, as autoridades fazem bem em exigir

que os planos privados cumpram o que a lei manda. Mas não custa lembrar que nenhuma punição,

por mais rigorosa que seja, conseguirá melhorar a qualidade do atendimento médico oferecido à

maioria dos brasileiros.

 

A verdadeira dificuldade é de natureza estrutural. A situação precária do sistema público de

saúde tem empurrado cada vez mais brasileiros a bater às portas de planos privados. São milhões de pessoas, com todo o direito de lutar por um atendimento decente, mas sem renda para pagar – em valores de mercado – pelo que necessitam. O resultado é uma situação que lembra as fracassadas experiências do regime comunista: os clientes fingem que pagam pelos serviços que gostariam de receber, enquanto os planos de saúde fingem que fazem o combinado. O resultado são calotes – e a recusa em oferecer os tratamentos necessários.

 

A experiência universal mostra que a saúde da população deve ser assegurada por um bom serviço público, eficaz e de qualidade. O atendimento privado, mais custoso, sempre será incapaz de suprir as deficiências do setor público, O governo só obterá resultados relevantes, portanto, quando for além de punições e se mostrar capaz de usar de forma racional o dinheiro do contribuinte destinado constitucionalmente a zelar pela saúde da população.

 

Investimento? Sim, ministro. Mas não no grito

 

O sujeito que se encaixa hoje na definição “empresário brasileiro”, seja ele dono de um bar

ou de uma siderúrgica, arriscou muito seu dinheiro. Dependendo de quando resolveu empreender, enfrenta ou já enfrentou hiperinflação, a maior taxa de juros do mundo, a maior carga de impostos entre os países em desenvolvimento, uma legislação tributária que cresce e se complica a cada dia, normas em metamorfose constante, burocracia incompreensível, cobranças inesperadas de governos municipais e estaduais, fiscais corruptos e autoridades que dão informações discordantes. Pois, no início de julho, esse sujeito ouviu que seu mal é falta de “ousadia” no uso de seu dinheiro. O diagnóstico veio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, num evento organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Mantega reclamava que o nível de investimento total na economia – que depende principalmente dos empresários – não cresce. O resmungo lembrou a cobrança feita em março pela presidente Dilma Rousseff, numa reunião com grandes empresários na Capital Federal.

 

A presidente e o ministro bem que poderiam, ao deixar o governo, experimentar abrir uma empresa no Brasil a partir do zero, como cidadãos comuns, sem contar com as facilidades da influência e dos contatos nos lugares certos. Poderiam também acompanhar as dificuldades de quem tenta medir a segurança e prever o retorno de um investimento produtivo no país. São ambos exercícios que desafiam a sanidade dos envolvidos.

 

Dilma e Mantega estão certos ao se preocupar com o assunto. É o investimento que coloca para trabalhar novas máquinas industriais, fábricas, usinas, ferrovias, portos – a estrutura necessária para que o país continue a criar empregos, a aumentar salários e a consumir, sem perder o controle da inflação. Mas não há sinal de que o nível de investimento dará neste ano o salto necessário para

compensar a pasmaceira da economia global- e ninguém em Brasília tem o direito de reclamar. O governo federal investiu, no primeiro semestre, apenas um quinto do que estava programado, segundo a ONG Contas Abertas. O resto ficou preso nos desvãos dos ministérios, entre limitações do ano eleitoral, burocracia, demissões por corrupção, retaliações de incomodados e incompetência

administrativa. O desembolso, de R$ 19 bilhões, é inferior ao realizado no mesmo período em 2010.

 

Embora o governo venha fazendo esforços corretos para facilitar o investimento privado, Dilma e Mantega precisam se lembrar de quanto mais há a fazer. Mesmo num período de euforia econômica, entre 2004 e 2007, o nível de investimento total avançou lentamente, de 16% do PIB para 17,5%. Desde 2008, não consegue superar os 19%. Não será num momento de ansiedade global que o empresário correrá na direção do risco. Cabe ao governo federal melhorar o terreno para que

- como e quando aqueles que arriscam seu dinheiro achar adequado – o investimento privado cresça.

 

Fernando Abrucio

 

Que novidade haverá nestas eleições municipais?

 

A realização da oitava eleição municipal pós ditadura é um sinal importante do avanço democrático

no país. Essa importante conquista não significa, porém, que tenhamos resolvido nossos problemas, expostos na vida caótica das grandes cidades. Uma boa oportunidade de discutir o desafio de governar as metrópoles é a eleição em São Paulo, cujo tema básico,colocado pelo candidato a prefeito pelo PT,é a renovação. De tão importante, esse slogan precisa se transformar em referência para o debate. Masvale a pena entender melhor o significado da palavra antes de tomar a forma pelo conteúdo.

 

Obviamente a renovação não tem a ver com as alianças que os principais candidatos montaram. A famosa foto de Paulo Maluf com Lula não é a inovação de que precisamos. Ela apenas revela que

todos os partidos já se aliaram com Deus e com o Diabo para ganhar eleições – e, justiça seja feita,

Serra também sonhou com aquele abraço. Mudar essa realidade vai além destas eleições municipais e depende tanto da aposentadoria de algumas figuras decrépitas de nosso sistema político, como também da melhoria do arcabouço institucional. A implantação da Ficha Limpa ajudará nesse processo purificador. Mas seria importante mexer em questões como os critérios para distribuir tempo de rádio e TV aos partidos. O mais importante é proibir as coligações para as eleições proporcionais. Com essa alteração, o PT não precisaria namorar com o malufismo, e os tucanos não teriam de sejuntar aos companheiros de Valdemar Costa Neto. Claro que ninguém friamente acredita que Maluf mandaria num governo petista ou que o PR comandaria uma prefeitura sob a batuta de José Serra.

 

O ponto central de um debate baseado na renovação deve estar nas políticas públicas. Para

começar, os candidatos deveriam dizer como reformariam a carcomida máquina pública paulistana.

Há muitos cargos comissionados, distribuídos sem controle nem accountability. Eles permitem

que um desconhecido faça fortuna negociando a liberação de alvarás para prédios e shopping centers. Na verdade, a excessiva burocratização para conseguir qualquer documentação da prefeitura paulistana revela que o sistema foi montado não para responder aos interesses dos cidadãos e de empreendedores competentes, mas, sim, para alimentar uma teia de corrupção que congrega políticos e financiadores de campanha.

 

No fundo, se quiserem concorrer sob o signo da renovação, os candidatos terão de propor uma

revolução administrativa em São Paulo. Kassab perdeu essa oportunidade. Para não me colocar

como “professor de Deus”, conhecedor das “soluções perfeitas”, apresento aqui três temas que

devem merecer a atenção dos candidatos.

 

O primeiro é a qualidade dos serviços públicos na cidade.A morosidade na saúde tornou-se uma triste sina para os mais pobres. A obtenção de alvarás e documentos, um espaço de longa espera ou propina. Entramos num novo milênio, o mundo se tornou mais dinâmico, e a prefeitura de

São Paulo atende seus cidadãos com padrões administrativos do século XIX.O que fazer diante

desse descompasso?

 

O segundo tema é o conhecimento. E São Paulo está numa situação paradoxal. De um lado,

tem uma capacidade instalada de saber inigualável na América Latina. De outro, uma educação pública que deixa a desejar. Os mais ricos e parcela da classe média podem se instruir segundo

padrões comparáveis aos países mais desenvolvidos, e os mais pobres continuam sem acesso ao

que há de melhor na própria cidade. Todos perdem com esse cenário, pois a desigualdade extrai investimentos e gera combustível para anomias sociais.

 

Vale frisar que São Paulo até que tem melhorado suas escolas municipais nas últimas gestões. Mas

não o suficiente para remover o abismo existente entre os grupos sociais. Além de avançar com o

modelo de escola de tempo integral e outros dispositivos específicos dessa política, a cidade precisa

mobilizar seus cidadãos para integrar seus fios de  desenvolvimento. É preciso ter centros tecnológicos e de saber científico nas zonas Leste e Sul, com o apoio decisivo das principais faculdades e universidades em solo paulistano. Devem ser estimulados os diversos tipos de empreendedorismo em todos os cantos, e eles devem ser interligados às grandes empresas e aos principais circuitos do mercado. Mais do que melhorar a educação, o fundamental é transformar São Paulo na cidade do conhecimento, transformando essa questão em seu fio condutor e na forma como o mundo exterior reconhecerá a metrópole. Quem se habilita a construir um projeto nesse sentido?

 

O terceiro tema é o trânsito, cada vez mais caótico. Evidentemente, deve-se continuar prolongando

o metrô, como tem sido feito nos últimos anos. Mas também deve-se implantar, ao mesmo tempo, uma política para o transporte de ônibus, questão erroneamente deixada de lado por Kassab.

Outras soluções vinculadas a novas formas de regulação do uso do espaço urbano também terão de acontecer. A maior solução é reduzir o deslocamento de cidadãos e empresas. Revigorar o centro e levar o desenvolvimento para as regiões mais carentes é fundamental. Um prefeito renovador será aquele que descentralizar os recursos e a gestão da cidade. Para tanto, enfrentará a resistência das oligarquias distritais que tomam conta da Câmara Municipal. Que candidato trará essa questão para a campanha? Eis aí o maior obstáculo à inovação que o próximo prefeito enfrentará, se quiser mesmo governar sob o mote da renovação.

 

Guilherme Fiuza

 

cachoeira pode salvar o Brasil

 

Carlinhos Cachoeira perdeu a vontade de viver. Está extremamente deprimido, muito chateado mesmo. Quem deu essa notícia triste foi a noiva do “empresário da contravenção”, Andressa Cachoeira. A mesma que dois meses atrás dava risadas, dizendo que seu amado conquistara

muita gente por ser “uma pessoa encantadora”. Na época, a musa dos caça-níqueis fazia planos para o casamento assim que Cachoeira saísse da prisão. Hoje o casal não parece

mais tão feliz. O que mudou, afinal?

 

Aparentemente, nada. Carlinhos continua preso, Andressa continua linda, e o patrimônio milionário dos Cachoeiras, construído com o suor dos políticos comprados, continua intacto no laranjal da família. O que estará azedando esse conto de fadas do Cerrado? Ao que tudo indica, a culpa é da CPI.

 

Quando todos os holofotes estavam apontados para a Comissão que investiga as obras completas do bicheiro, estava tudo bem. Com o Brasil inteiro olhando para o escândalo, os clientes

de Cachoeira temiam em seus gabinetes. O risco a seus mandatos e pescoços recomendava um olhar carinhoso para com Carlinhos, garantindo-lhe tratamento republicano com a grife de

Márcio Thomaz Bastos, o padroeiro das causas malcheirosas. Era um tempo de otimismo, com governantes e parlamentares suando frio, e a sensação de que a qualquer momento um habeas corpus mágico do doutor Márcio acabaria com aquele constrangimento todo. Como chegou a ponderar Andressa, “ninguém está livre de ser preso” – ou seja, era um mero incidente a

superar, para o bem de todos (os sócios).

 

Mas algo deu errado. O Brasil, entediado, mudou de novela. Preferiu os pilantras de Avenida Brasil e os charlatões da Rio+20. Abandonada pelo público, a CPI ficou à vontade para embromar sem culpa. Aliviou o ex-dono da Delta,barrou sua convocação tranquilamente, enquanto a platéia assistia ao teatro da salvação do planeta no Rio de Janeiro. Os depoimentos de Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot (ex-diretor do Dnit) ficaram para depois das férias, depois das Olimpíadas, depois do início da campanha eleitoral – enfim, ficaram para depois. É como se o desfile da Mangueira fosse marcado para Quarta-Feira de Cinzas.

 

Carlinhos não merecia isso. Com a queda vertiginosa da CPI no ibope, seus companheiros no Congresso e nos palácios descobriram que a farra pode sair mais barata do que parecia. Se o Brasil não está nem aí, eles também não estão. Cachoeira começou a entender que pode mofar onde está. Daqui a pouco o comando da República popular desloca Thomaz Bastos para refrescar outro aloprado, e a jovem Andressa perceberá que ninguém está livre de continuar preso. A essa altura, talvez nem a Playboy a queira mais.

 

Como rei morto é rei posto, Adriano Aprígio, o ex-cunhado de Carlinhos e um de seus principais testas de ferro, já caiu também. Foram descobertos e-mails enviados de sua casa à procuradora Léa Batista de Oliveira, uma das denunciantes do bicheiro, em tom não muito educado: “Sua vadia, ainda vamos te pegar. Cuidado, você e sua família correm perigo”. A prisão de Aprígio, um dos guardiões do patrimônio dos Cachoeiras, fez Carlinhos passar mal na cadeia, como revelou sua noiva, consternada: “Ele desmaiou. O diretor pegou, levou ele para a sala do diretor. Ele passou muito mal, muito mal mesmo”.

 

É comovente ver um homem que tanto fez por tanta gente sofrendo assim, sozinho, com as notícias terríveis que recebe na cadeia. Neste momento de dor, vai aqui um conselho ao torturado réu:

nobre empresário da contravenção, pare de esperar pela providência dos falsos companheiros. Acabe você mesmo com a solidão. Agora.

 

Faça como Roberto Jefferson: aperte o botão vermelho. Conte quem no governo federal mandava proteger a Delta e aprovar todos os acréscimos de contrato que a construtora espetava no PAC.Explique resumidamente como esse dinheiro saía do governo e voltava para as campanhas dos políticos aliados ao governo, passando por suas empresas de fachada.

 

Acorde, senhor Cachoeira. Seus amigos palacianos vão esquecê-lo nesse cubículo. Seus esquemas serão refeitos com outro despachante mais esperto. Entregue esses parasitas com crachás de revolucionários. O Brasil lhe será eternamente grato.

 

As provas do mensalão

 

Em “Temos provas do mensalão” (737/2012), o deputado Osmar Serraglio,relator da CPF que investigou a compra do apoio de parlamentares ao governo Lula, rebateu a versão dos acusados

o Banco Rural esclarece que, diferentemente do que foi publicado, o empréstimo concedido ao Partido dos Trabalhadores, em 14 de maio de 2003, foi integralmente quitado em 28 de junho de 2011. O valor original do empréstimo era de exatos R$ 3 milhões. Depois de algumas renegociações,

foi acordado o pagamento do montante devido, acrescido de juros e correção, em 34 parcelas mensais. O valor total pago ficou próximo de R$ 11 milhões. No processo do mensalão, levantou-se a suspeita de que esse empréstimo não fosse real, mas sim uma operação fictícia. Porém,

além da quitação da dívida, uma perícia da Polícia Federal, solicitada pelo relator do processo do caso no STF, atestou sua veracidade. Em relação ao senhor Marcos Valério, em junho de 2011 o Tribunal de Justiça de Minas Gerais reconheceu a legitimidade e os termos da cobrança judicial

contra ele referente ao empréstimo que lhe fora concedido em 2004. Vale ressaltar que esse é um dos quatro processos de natureza semelhante, e em todos a Justiça deu ganho de causa ao banco.

 

O Universo, Deus e você

 

ÉPOCA discutiu o significado da descoberta da partícula bóson de Higgs para a ciência, nossa visão

de mundo e para a fé

 

Essa partícula de Deus poderá desvendar o maior mistério que o homem vem pesquisando: a origem do Universo. Talvez demore muito tempo até essa descoberta, mas a ciência deu um salto triunfal

descobrindo essa partícula. Fernanda Cecilia Vargas Carnide, 4r São Paulo. SP

 

Toda descoberta científica nos pode ser muito útil. Quando a gente pensa que já viu de tudo

em termos de descoberta, novos horizontes surgem. Paulo Roberto Mattos Luiz, São Paulo. SP

 

Tudo o que foi criado por Deus precisa ser descoberto para alcançarmos a evolução. É graças ao

papel dos cientistas que desfrutamos muitas coisas que Deus criou. Ciência e religião não são opostos, são elementos que caminham juntos. Deus não diz como usar o que foi criado. Cabe aos homens estudar, questionar e explorar este Universo. É isso que Deus quer de seus criados. Que eles busquem a evolução desvendando os mistérios de seus feitos. Luiz Henrique Dias, Rio de Janeiro. RJ

 

Greve nas universidades

 

A greve dos professores das universidades federais foi o tema de”A greve remunerada dos professores universitários” (737/2012)

 

 Tenho 26 anos e ingressarei no doutorado no segundo semestre deste ano. Receberei uma bolsa de auxílio no valor de R$ 1.800 durante os próximos quatro anos. Nesse período, não poderei exercer nenhuma outra atividade remunerada, exceto ser professora numa instituição pública. Como professora, obter recursos adicionais por meio de contratos com empresas privadas, exceto em projetos de extensão, configura uma atividade ilegal, já que a maioria trabalha em regime de dedicação exclusiva. O que o autor Alberto Carlos Almeida sugere como alternativa? Mariana Paes da Fonseca Mala, Juiz de Fora,MG

 

Muito inquietante o autor dizer que as greves de professores nas universidades públicas não

têm seu real valor. Não vamos esquecer que bancamos em Brasília, há anos, políticos que nada

fazem. Devemos agora denegrir uma classe desmerecidamente? Matheus Ferreira de Oliveira, Durinhos, SP

 

FOMOS MAL

 

Na capa da edição 738, o texto correto para a chamada “Chantagem” é: “A pressão do ex-governador do Amazonas na eleição de Manaus “. A reportagem se refere ao ex-governador Eduardo Braga (PMDB), não ao atual governador, Omar Aziz (PSD). ÉPOCA pede desculpas pelo erro.

 

Quem aparece nafoto da página 47, em “Como o Universo funciona” (738/2012), é a pesquisadora

Sylvia Stevenson, no Laboratório de Laser da cidade de Wilmington, no Estado de Delaware (EUA).

 

A cirurgiã do bem

 

“Robin Hood de bisturi” (738/2012) mostrou a história da cirurgiã plástica que reconstrói a face de crianças com malformação usando o dinheiro que ganha fazendo lipoaspirações e implantes de silicone

 

A doutora Vera Lúcia Cardim merece nossa admiração pelo desprendimento financeiro e pelo amor ao próximo. É raro encontrar pessoas assim. Essa senhora, sem dúvida, fez medicina por amor, e não por status. Lécla Marinho, São Paulo,SP

 

Fiquei arrepiada quando terminei de ler a reportagem. São pessoas assim que me fazem acreditar num mundo melhor. Ajudo pessoas próximas como posso, mas ler a história da doutora Vera Lúcia me fez pensar que faço muito pouco e que, querendo, é sempre possível ajudar ainda mais quem precisa. Maria de Fátima loledo, Fortaleza, CE

 

JUNTOS, NA RUA E HONESTOS

 

Um casal de moradores de rua conhece a fama depois de desenvolver R$ 20 mil que encontrou em São Paulo

 

O morador de rua Rejaniel Jesus dos Santos e sua companheira, Sandra Regina Domingues, ambos de 36 anos, chegaram ao fim da semana cansados. Não tinham ainda absorvido a fama instantânea depois  que devolveram ao dono R$ 20 mil que haviam encontrado num saco de lixo jogado na rua.

 

o dinheiro era fruto de um assalto ao restaurante Hakkai Sushi. Os dois devolveram tudo ao dono

do restaurante, Miguel Kikuchi, de 42 anos. Como recompensa, Kikuchi fez uma oferta de emprego

a ambos no restaurante, onde o piso salarial é de R$ 880. Antes de encontrar o dinheiro, Sandra

e Rejaniel viviam com no máximo , R$ 150 mensais. Por dia, carregavam 35 quilos de metais nas costas num ferro-velho. Às vezes recebiam de doadores anônimos um pacote de arroz ou macarrão.

Rejaniel sempre sonhou com o dia em que um carro-forte quebrasse e ele pudesse fugir com

malotes de dinheiro. Não teve jeito. Diante dos R$ 20 mil, decidiram rapidamente: “Vamos devolver

o que não é nosso”.

 

Como o caso se tornou público, os dois logo se viram diante de uma maratona de compromissos

com a mídia, em que tentavam explicar a honestidade – para eles, uma qualidade natural. “Ontem

era uma entrevista atrás da outra, quase não me agüentava em pé”, dizia Sandra, na quarta feira.

No diawseguinte, Rejaniel partiria de avião para o Maranhão, para visitar a família, viagem

oferecida por um programa de TV. Seria a primeira vez em seis meses que estariam a mais do

que poucos metros de distância um do outro. Para quem não tinha uma casa ou uma família por

perto, ficar longe de seu amor fazia Sandra puxar os cabelos, baixar a cabeça e se calar. “Ela pensa

que eu não vou voltar. Que vou arrumar umas dez (mulheres)”, dizia Rejaniel. “Você vai me deixar

aqui com dois chifres enormes. Você é mulherengo”, afirmava Sandra. “Sei que sou gostoso,

mas nem tanto. Vou voltar inteiro”, respondia Rejaniel.

 

Rejaniel saiu da terra da melancia, Arari, a duas horas da capital maranhense, São Luís, quatro meses antes de completar 20 anos. Seu irmão financiara uma passagem de ônibus até São Paulo. No dia seguinte, Rejaniel já dava entrada na documentação para trabalhar como auxiliar de limpeza numa obra. Só viu seu pai, morto quando Rejaniel tinha 3 meses, numa foto, que teme ter perdido. Aos 6 anos, Rejaniel perdeu também a mãe, vencida por uma doença no pulmão. “Deu para gravar a imagem dela na mente': diz.

 

Ele está há 16 anos em São Paulo. Há 13 não vê ou fala com parentes. Não lembra o último

dia em que esteve com o irmão. Arrumou várias companheiras – uma baiana, uma paulista, uma

mineira. Morou num albergue na Zona Leste e trabalhou como porteiro e ajudante-geral para a prefeitura de São Paulo, em caráter temporário. Ao fim de três meses, ficou sem nada. Catava

latinha para manter seus dois vícios: fumar e beber.

 

A chegada de Sandra mudou tudo. Ela nasceu em Andirá, no Paraná, e fala pouco sobre seu passado. Deixou por lá dois filhos – de 2 e 4 anos. Rejaniel diz apenas que ela é brigada com a mãe. “Com ela, foi uma nova fase”, diz. Sua mulher anterior brigava para que ele não bebesse. “Esta aqui”, diz, apontando para Sandra, “bebe e fuma.” Juntos, tentam se policiar para racionar e controlar os vícios. Conheceram-se enquanto ele vivia na calçada em frente à igreja da Comunidade São Martinho de Lima.

 

Sandra passava com frequência pelo local e um dia pediu que ele acendesse seu cigarro. “Estamos

juntos aos trancos e barrancos, ela sempre do meu lado:’ Sandra nem documentos tem – por isso não pôde acompanhar Rejaniel na viagem ao Maranhão. Rejaniel não cansa de tranquilizá-

Ia e promete não traí-la. “A vida nos ensina o que é bom e o que é ruim”, diz ele. “Aprendi isso

com o melhor professor. Aprendi com o mundo.”

 

O verão mais quente de todos os tempos

 

Os Estados Unidos passam pelo período mais quente dos últimos 117 anos. Pode ser uma prévia das mudanças climáticas

 

o Hemisfério Norte está fervendo. A temperatura média para o mês de junho nos Estados Unidos ficou 1,1 grau célsius acima da média do século XX. Os termômetros bateram o recorde desde que os registros começaram, há 117 anos, em cidades como Washington (40,5 graus), Saint Louis (41 graus) e Indianápolis (40 graus). Tempestades violentas deixaram cerca de 3,4 milhões de pessoas sem energia elétrica na Costa Leste no último dia 30.A seca devastou as plantações. Segundo

o Departamento de Agricultura, a estiagem já atinge mais de 1.000 condados em 26 Estados. Poderá causar uma queda de 12% na safra de milho deste ano. Não é só nos EUA. No sul da Rússia, as enchentes provocadas pelas fortes chuvas de verão atingiram 30 mil moradores e mataram 171. As queimadas engoliram milhares de hectares de florestas na Sibéria. A recente onda de calor é coerente com a expectativa das mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. Segundo

a NOAA, agência americana para oceanos e atmosfera, a última década foi a mais quente na história nos EUA. Para o IPCC, órgão de mudanças climáticas da ONU, esses eventos extremos deverão piorar. “A atmosfera mais quente e úmida é uma receita para catástrofes': afirma Michael Oppenheimer, da Universidade Princeton. A onda de calor no Hemisfério Norte pode ser só mais um anúncio do que a Terra nos reserva.

 

FELIPE PATURY

 

Partido Social Brasileiro

 

OPSB e o PSD negociam a formação de um bloco parlamentar e já escolheram até um líder comum: o deputado Márcio França (PSBSP). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi informado do estágio atual das conversas. Se o futuro bloco vingar, terá a maior bancada da Câmara,

com prerrogativa de indicar candidato a presidente da Casa. Quem seria? O próprio França. A aliança pode ser o embrião de um novo partido. Na cúpula de ambos, há até quem tenha sugerido nome: Partido Social Brasileiro, com DNA do Partido Socialista Brasileiro e do Partido Social Democrata.

 

Põe tensão nisso

Já se sabe que o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, abandonou a carreira (curta) de cantor gospel ao entrar na política. Agora, descobre-se que Guiga Ribeiro (seu nome artístico) também

enveredou pelo rock. Teve duas bandas: a Alta Tensão, de pauleira, e a mais progressiva, Clã de Atenas. Gravou dois CDs antes de trocar o Clã de Atenas pelo clã do Partido Progressista (PP). De vez em quando, ainda tem uma recaída metaleira. Ele foi pura Alta Tensão quando botou Paulo

Maluf para tocar na campanha do petista Fernando Haddad a prefeito de São Paulo.

 

PENa de tucano

 

O PEN (Partido Ecológico Nacional) será criado nesta semana com uma bancada de oito a 11deputados. O presidente da legenda, Adilson Barroso, está garimpando adesões em sete partidos.

Teve mais sucesso com o PSDB. Lá, tem a promessa de quatro filiações. Uma delas é o deputado

paranaense Fernando Francischini. Os tucanos que se metamorfosearem em ecologistas devastarão o ambiente do PSDB em 2014: sem eles, o partido terá menos tempo no horário eleitoral.

 

Só Arruda?

 

Denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, o governador cassado do

Distrito Federal, José Roberto Arruda, foi convidado pelo PTB a concorrer a uma vaga de deputado em 2014. Com o julgamento de seu presidente, Roberto Jefferson, pelo mensalão, o PTB,

além de Arruda, precisará de pimenteira, espada-desão- jorge e, sobretudo, de comigo-ninguém-pode.

 

DPVAT

 

Foram feitos 16 mil pedidos ao governo federal com base na Lei de Acesso a Informações. O

tema que suscita mais interesse é como sacar o DPVAT. Ele motiva 11 % das solicitações.

Na sequência, vêm as aposentadorias e os benefícios do INSS. A lista está detalhada

nesta coluna em epoca.com.br.

 

Come-se fria

 

Em 2010. o deputado Natan Donadon (PMDB-RO) foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 13 anos e quatro meses de cadeia por corrupção. Formação de quadrilha e peculato. Com um pedido de reexame do processo. evitou a cana e manteve o mandato. A petição entrou e saiu da pauta do Supremo uma dezena de vezes. Informalmente. Donadon se aconselha com o advogado Nabor Bulhões. que defendeu o senador Fernando Collor (PTB-AU em seu impeachment. em 1992. Se Donadon perder o mandato. quem assume o cargo em seu lugar é Amir Lando. relator da

CPI do PC e carrasco de Collor.

 

Idade não vale

 

Até hoje. vigorou uma regra segundo a qual os crimes prescrevem mais rápido quando o réu tem 70 anos ou mais. A ministra do Superior Tribunal de Justiça Laurita Vaz desconsiderou esse princípio ao julgar uma ação do Ministério Público contra o exbanqueiro Ângelo Calmon de Sá do Econômico. Condenado a quatro anos de prisão por gestão fraudulenta. ele vencera em instâncias inferiores. É uma mudança na jurisprudência.

 

Pegou mal

 

Num encontro com um grupo de deputados a ministra das Relações Institucionais. a petista Ideli

Salvatti. referiu-se ao líder do DEM. ACM Neto como Grampinho. Ele detesta esse apelido. que alude

a grampos telefônicos atribuídos a seu avô ACM.

 

Vermelho não. Rosa!

 

Foi a presidente Dilma Rousseff quem pôs o marqueteiro João Santana na campanha de Patrus Ananias candidato petista a prefeito de Belo Horizonte. Santana garantiu à presidente que conseguirá se dividir entre a capital mineira. São Paulo onde defende o petista Fernando Haddad. e a eleição da Venezuela onde trabalha para reeleger Hugo Chávez. Santana disse até o que fará para Patrus. Uma de suas ide ias é substituir na TV o vermelho petista por uma cor mais esmaecida. o rosa. Tem mais. Santana leva consigo o Vox Popull, do sociólogo Marcos Coimbra. Foi um golpe no prefeito Márcio Lacerda (PSB). que tenta mais um mandato. O Vox Populi tinha uma relação

longa com Lacerda e seu padrinho. o senador Aécio Neves (PSDB).

 

Melhor de três

 

Está aberta a sucessão do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

José Maria Marin.O diretor de candidatíssimo ao cargo. Tem o apoio do ex-presidente Luiz

Inácio Lula da Silva e se vê fortalecido pela vitória de seu Corinthians na Libertadores.

Chefe da Série B do Brasileiro. Reinaldo Bastos corre por fora. Mas o favorito é outro:

Marco Polo Del Nero. Braço direito de Marin. ele foi eleito por unanimidade vice presidente

da CBF. Del Nero foi promovido de candidato natural a substituto formal. Para evitar tiros do trio.

Marin diz que não tentará a reeleição em 2014.

 

Papai Sabe tudo

 

Com Leonel Rocha e Igor Paulin e reportagem de Alberto Bombig Candidato do DEM

a prefeito do Rio. Rodrigo Maia terá como marqueteiro seu pai. O ex-prefeito César Maia.

Foi ele quem vestiu Rodrigo com gibão de couro em visita à Feira de São Cristóvão um

enclave nordestino.

 

Gente fina

 

A Iguatemi Shopping Centers comprou 800.000 metros quadrados no Lago Sul. bairro mais nobre

de Brasília. Pretende construir lá seu segundo shopping na capital. O primeiro foi inaugurado há dois

anos no Lago Norte.

 

Ligou?

 

Uma pesquisa feita pela FSB com 220 deputados de 19 partidos apontou os desempenhos das

agências reguladoras. A mais bem classificada foi a Aneel, de energia. A pior. a Anatel. Precisa

dizer que é de telefonia?

 

Zona fraca

 

A Zona Franca de Manaus empregava 126 mil em outubro de 2011. Hoje gera 115mil empregos. Para estancar a queda. será suspensa a cobrança do ICMS para 30 fábricas de motos. O recolhimento de outros impostos também será adiado.

 

COMO A DELTA PAGOU PERILO

 

Um relatório da Policia Federal obtido com exclusividade por ÉPOCA comprova os elos entre o esquema de Carlinhos Cachoeira e o governo de Goiás

 

No dia 27 de junho, o Núcleo de Inteligência da Policia Federal remeteu ä Procuradoria-Geral da Republica um relatório sigiloso, contendo todas as evidencias de envolvimento do governo Marcon Perillo com o esquema da construtora Delta e do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Como governador de Estado, Perillo só pode ser investigado pelo procurador-geral da República – e processado no Superior Tribunal de Justiça. O relatório, a que ËPOCA teve acesso com exclusividade, tem 73 páginas, 169 diálogos telefônicos e um tema: corrupção.

 

O documento está sob os cuidados da subprocuradora Lindora de Araújo, uma das investigadoras mais experientes do Ministério Público. Ela analisará que providências tomar e terá trabalho:

são contundentes os indícios de que a Delta deu dinheiro a Perillo.

 

Alguns desses 169 diálogos já vieram a público; a vasta maioria ainda não. Encontram-se nesses trechos inéditos as provas que faltavam para confirmar a simbiose entre os interesses comerciais da Delta em Goiás e os interesses financeiros de Perillo. Explica-se, finalmente, o estranho episódio da venda da casa de Perillo para Cachoeira, que não foi bem entendido. Perillo nega até hoje que tenha vendido o imóvel a Cachoeira; diz apenas que vendeu a um amigo. O exame dos diálogos interceptados fez a Polícia Federal, baseada em fortes evidências, concluir que:

 

1) assim que assumiu o governo de Goiás, no ano passado, Perillo e a Delta fecharam, diz a PF,

um “compromisso”, com a intermediação do bicheiro Carlinhos Cachoeira: para que a Delta recebesse em dia o que o governo de Goiás lhe devia, a construtora teria de pagar Perillo;

 

2) o primeiro acerto envolveu a casa onde Perillo morava. Ele queria vender o imóvel e receber

uma “diferença” de R$ 500 mil. Houve regateio, mas Cachoeira e a Delta toparam. Pagariam com cheques de laranjas, em três parcelas;

 

3) Perillo recebeu os cheques de Cachoeira. O dinheiro para os pagamentos – efetuados entre março e maio do ano passado – saía das contas da Delta, era lavado por empresas fantasmas de Cachoeira

e, em seguida, repassado a Perillo, Ato contínuo, o governo de Goiás pagava as faturas devidas à Delta;

 

4) a Delta entregou a um assessor de Perillo a “diferença” de R$ 500 mil;

 

5) a direção nacional da Delta tinha conhecimento do acerto e autorizou os pagamentos. Para compreender as negociações, é necessário conhecer dois personagens, que chegaram a ser presos pela PE Um é o tucano Wladmir Garcez, amigo de Perillo e ex-presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia. Garcez atua como uma espécie de embaixador de Perillo junto à Delta e à turma de Cachoeira: faz pedidos, cobra valores, entrega recados. O segundo personagem é Cláudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste e parceiro de Cachoeira no ataque aos cofres públicos de Goiás. Na hierarquia da Delta, Abreu detinha a responsabilidade de obter contratos públicos para

a construtora e – o mais difícil, custoso – assegurar que os governantes liberassem os pagamentos em dia. A corrupção neste caso, como em tantos outros, nasce na oportunidade que o Poder Público

oferece: um detém a caneta que pode liberar o dinheiro; outro detém o dinheiro que pode mover a caneta. Na simbiose entre a Delta e o governo de Goiás, Garcez e Abreu eram os sujeitos que se dedicavam a fazer o dinheiro girar, multiplicar-se. Não há caixa de campanha ou questiúncula política nessa história. O objetivo era ganhar dinheiro.

 

A PF começou a monitorar as atividades ilegais das duas turmas, de Perillo e da Delta, em 27

de fevereiro do ano passado. Naquele momento, Perillo cobrava o pagamento do “compromisso”

da Delta. Num diálogo interceptado pela PF às 20h06, Cachoeira pede pressa a Abreu. Disse Cachoeira: “E aquele trem (dinheiro) do Marconi (governador), hein? Marconi já falou com o Wladmir (Garcez), viu”. Abreu chora miséria, como bom negociante. “Vou falar amanhã que não tem jeito”, diz Cachoeira. “Mas não é 2 milhões e meio, não. Ele (Marconi) quer só a diferença.” Cachoeira

refere-se, aqui, à operação de venda da casa, o assunto mais urgente naquele momento. Abreu faz jogo duro: “Pois é, doutor, eu não tenho como. Do mesmo jeito que o Estado tá com o orçamento

fechado, eu também tô”. O jogo é simples: uma parte quer que a outra aja antes. Perillo quer o dinheiro antes de liberar a fatura; Abreu, da Delta, quer a fatura paga antes de liberar o dinheiro

para Perillo.

 

As negociações prosseguem, emperradas em alguns momentos por desconfianças mútuas. Numa ligação na mesma noite, Cachoeira certifica Abreu de que Garcez, o interlocutor de Perillo, não está pressionando a Delta sem motivos. “Não é o Wladmir, não. É ele (Marconi) que tem esse trem na

cabeça, da diferença e não sei o quê, viu?”,diz. No dia seguinte, preocupado com a demora da Delta em liberar o dinheiro, Cachoeira pede a Garcez que dê “um aperto” em Abreu, de modo a

garantir o negócio. Garcez liga para Abreu e reforça que a Delta deve pagar logo o “compromisso” com Perillo. Garcez explicara a Perillo que a Delta não conseguiria quitar o acerto logo. Diz Garcez, no diálogo com Abreu: “Tive lá no Palácio, conversei com o governador lá. Falei… ‘Olha, o compromisso que ele (Abreu) tinha feito com o senhor faltava 1 milhão e meio. (…) Ele (Abreu) vai ver se cumpre aquele compromisso com o senhor”. Diante da pressão, Abreu diz que tem “outros

compromissos” em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul. Pede tempo.

 

Nervoso com a lentidão de Abreu, Cachoeira resolve dar prosseguimento ao negócio com Perillo – e cobrar depois da Delta. A partir daí, o acerto realiza-se com rapidez. Ainda no dia 28, Garcez informa a Cachoeira que Perillo quer cheques nominais. Combinam a entrega de três cheques para

o dia seguinte, às 14 horas: dois de R$ 500 mil e um de R$ 400 mil, deposita depositados no dia 1Q de cada mês. Em seguida, no dia 1Q de março, Cachoeira faz a operação: pede ao sobrinho que assine os cheques, avisa a Delta e manda entregar os cheques no Palácio das Esmeraldas,

sede do governo de Goiás. Às 14h53, Garcez, que estava no Palácio, confirma a Cachoeira que os cheques foram entregues e avisa que levará a escritura do imóvel no dia seguinte. Doze minutos depois, Cachoeira já pede a contrapartida a Garcez: “O trem da Delta, aqueles 9 milhões que o Estado • tem de pagar … Você levou para mostrar para ele (Perillo )?”.Garcez confirma:

“Tá comigo aqui. Oito milhões, quinhentos e noventa e dois, zero quarenta e três”.Às 16h37, Garcez informa a Cachoeira que está no gabinete do governador, entregando os cheques.

Em seguida, Garcez comunica a Abreu que os problemas da Delta acabaram. “(Perillo) falou que vai resolver: ‘Não, pode deixar que isso aqui eu resolvo”‘. E resolveu: ainda no dia 1li de março,

o governo de Goiás liberou R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. No dia seguinte, o cheque de R$ 500 mil foi depositado na conta de Perillo.

 

No dia 3 de março, Cachoeira comemora com Abreu a “porta aberta” com Perillo. “Ele (Perillo) engoliu aqueles 500 mil… Ele (Perillo) responde em tudo, deu as contas para pagar”, afirma

Cachoeira. Cachoeira pediu a seu sobrinho Leonardo Ramos, que costuma assessorá-lo, para que preparasse um contrato de compra e venda no nome de um laranja – e começou a chamar

amigos para conhecer a linda casa que comprara de Perillo. No dia 25 de março, o governo de Goiás liberou mais um pagamento de R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. Enquanto os pagamentos

caíam nas contas da Delta, a Delta cobria, por meio de uma empresa laranja, os cheques dados por Cachoeira.

 

O segundo cheque de R$ 500 mil foi compensado no dia 4 de abril. Cachoeira, sempre zeloso, checava tudo com seu contador. No dia 29 de abril, antes da compensação do último cheque, no

valor de R$ 400 mil, Abreu voltou a reclamar com Cachoeira que as faturas da Delta haviam sido retidas novamente. Abreu foi claríssimo na contrapartida necessária para pagar o último cheque:

“Deixa eu te contar uma amarelada que eu dei aqui. Wladmir (Garcez) tá me rodeando aqui. Eu falei: ‘Wladmir, tá bom: que dia vai me pagar? Tá prometido até sexta que vem, tá? Então vamos fazer o

seguinte: eu pago os 400. Se ele (Perillo) não me pagar até sexta (…) você me devolve os 400′. Aí ele amarelou aqui': Os dois reclamaram da demora de Perillo. Cachoeira disse: “Agora tem de tolerar

porque nós já pusemos o pé na jaca”. Eles reclamam, reclamam, reclamam … mas no fim pagam. No dia 2 de maio, Cachoeira ordenou a seu contador que contatasse o pessoal de Perillo e descontasse

o último cheque. ”Aquele lá (o cheque) não podia falhar de jeito nenhum, né?”, diz o contador. O cheque foi descontado. E o que aconteceu? O governo de Goiás liberou mais uma parcela de R$

3,2 milhões para a conta da Delta.

 

Não demorou para Cachoeira perceber que morar na antiga casa do governador de Goiás lhe traria problemas. Num diálogo com sua mulher, Andressa Mendonça, em 17 de maio (leia na página ao lado), Cachoeira compartilhou seu temor por telefone: “Esse trem não vai dar certo (da casa). Vão acabar sabendo que é minha”. Cachoeira começou, então, a procurar um modo de se desfazer do imóvel, apesar dos protestos de Andressa, que já decorara a casa e adorava o lugar. As conversas

interceptadas pela PF mostram em detalhes como Cachoeira repassou a casa para um terceiro, o empresário Walter Santiago, sem aparecer. Para isso, recorreu à ajuda de Garcez, que coordenou

a transação. Garcez assegurou ao empresário que a casa era de Perillo. No dia 12 de julho, Walter

Santiago, rodando num carro blindado, encontrou-se com Garcez e lhe entregou R$ 2,1 milhões

em dinheiro vivo. Cachoeira orientou Garcez pelo telefone: “Manda trazer o dinheiro aqui no Excalibur (prédio onde mora Cachoeira), entendeu? Manda o professor (Walter Santiago) trazer

no Excalibur, porque ele tá com carro blindado”.

 

Em seguida, Garcez informou a Cachoeira que Lúcio Fiúza, então assessor especial de Perillo, estava com eles no carro. Responde Cachoeira: “Então pega tudo e vem para casa. Dá só os quinhentos na viagem para o doutor Lúcio. (…) Já fala para o doutor Lúcio pegar os cem também (parte do assessor de Perillo). É dois e cem, viu (R$ 2,1 milhões, o dinheiro a ser entregue)? Pega os cem logo e já mata ele, ou então já fala a data que ele tem de entregar”. Não fica claro se os R$ 500 mil para Fiúza referem-se à parte de Perillo nessa segunda operação – ou se era um pagamento pendente por outra razão. Também nessa segunda operação, Cachoeira recebeu – e distribuiu

a gente próxima a Perillo – mais dinheiro do que valia o imóvel.

 

Cachoeira confirma isso num diálogo com Andressa, ainda no dia 12. Andressa pergunta por quanto ele vendeu a casa. “Dois e cem”, diz Cachoeira. “Esse trem é do Marconi e não ia dar certo, não. Tem de passar logo esse trem para o nome dele (possivelmente o empresário Walter). Porque eu vou perder um trem de bilhões por causa de um negócio à toa.” Andressa não quer saber de negócios ou dinheiro. Quer saber da prataria da casa e das coisas bonitas e caras que comprou para decorá-la. “Você explicou para ele (empresário Walter) que roupa de cama, coisa pessoal,

acessório de banheiro, nada disso vai, né?”, diz Andressa. Cachoeira se irrita: “Deixa a roupa de cama do jeito que tá lá. Não faça isso, não. Pega as pratarias que o Wladmir escondeu lá

dentro”. “Eu não vou deixar roupa de cama de 400 fios para ele, não. Cê ta louco?”, diz Andressa. Cachoeira, então, confessa o preço real da casa e revela a existência da “diferença”. “Deixa do jeito

que tá. Aquilo lá custou quanto? Afinal, eu comprei ela (a casa) por mil (R$ 1 milhão), vendi por mil e quinhentos (R$ 1,5 milhão). Tá bom, me ajudou a vender.” A conta é a seguinte, segundo a PF: o empresário Walter Santiago pagou R$ 2,1 milhões pela casa. Destes, R$ 100 mil foram para Fiúza, o assessor de Perillo, R$ 500 mil para Perillo, levados por Fiúza – e o restante, R$ 1,5 milhão, para Cachoeira.

 

O que Cachoeira fez depois de receber o R$ 1,5 milhão? Ligou para a Delta. Confirmou o recebimento do dinheiro e perguntou a Abreu se o contador da Delta já fora avisado. Abreu

disse que estava ao lado de Carlos Pacheco, principal executivo da Delta, a quem Abreu chama de “chefe”. Abreu disse: “Eu falei com o chefe aqui, viu, amigo? Ele falou que era para ‘você guardar esse dinheiro, era para você aplicar lá no entorno (entre Brasília e Goiás), no projeto. Que o projeto lá vai exigir uns 4 milhões e meio, mas eu falo com você pessoalmente”. A PF não descobriu que projeto seria esse. Mas a fala de Abreu deixa claro o que outros diálogos confirmam: a direção da Delta nacional não só sabia das operações de Cachoeira no Centro-Oeste, como coordenava algumas negociações. Até agora, a Delta insiste na versão segundo a qual Abreu agia sozinho.

 

E manteve sua lioha de defesa, após ÉPOCA questionar a empresa sobre as novas evidências. Por meio de uma nota, a Delta afirma não ter conhecimento da apresentação de uma fatura da empresa ao governador Marconi Perillo, nem da visita de Wladmir Garcez ao Palácio de governo para

resolver um assunto da empreiteira. A nota também afirma: “Empresas de construção civil que atuam no setor público, como a Delta, precisam zelar e velar pelo recebimento pontual e em dia dos compromissos assumidos a fim de não ocorrer solução de descontinuidade nas obras”. A empresa

diz ainda que o ex-presidente Carlos Pacheco nunca teve relação comercial com Cachoeira e que a empresa tem prestado esclarecimentos necessários aos órgãos instituídos.

 

Perillo também preferiu não prestar esclarecimentos a ÉPOCA. Não respondeu às perguntas sobre eventuais conversas para discutir pagamentos da Delta e sobre a relação desses pagamentos com a venda da casa. Em nota, limitou-se a dizer que “prestou, por meses a fio, todos os esclarecimentos

solicitados pela imprensa, pela sociedade e pela CPI”. Perillo criticou ainda o deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira. Disse que o deputado quer transformar a CPI numa “comissão de investigação do governador Marconi Perillo”. Diz ainda a nota: “No exaustivo crivo a que foi submetido, nenhum fato se encontrou que possa desabonar sua biografia (de Marconi Perillo) de cidadão ou de homem público. Ao contrário, a Receita Federal, por exemplo, emitiu nota técnica

na qual atesta que o patrimônio do governador é compatível com seus rendimentos. Portanto, o governador Marconi Perillo informa que, considerando já devidamente esclarecidos os assuntos

de fato relevantes, não se pronunciará mais a respeito de questões atinentes a sua vida privada, reservando essa providência, como é natural, unicamente para os assuntos relacionados a suas atividades como governador do Estado”

 

Perillo depôs na CPI do Cachoeira há um mês, quando começavam a se acumular evidências de que ele mantinha relações com a empreiteira Delta e com Cachoeira. Na ocasião, foi claro: “O senhor Carlos Cachoeira não teve a menor participação na venda da casa. (A venda da casa) foi feita de forma transparente ao atual empresário Walter Paulo. (…) Os valores (da venda da casa) foram de acordo com o mercado”. Até agora, desconfiava-se que as três afirmações não eram verdadeiras.

Agora, com o relatório da PE sabe-se que são falsas: Cachoeira participou da compra da casa, a operação aconteceu na sombra e o valor da venda foi superior ao de mercado. Perillo também disse à CPI: “De forma desavisada ou maldosa, vejo, aqui ou acolá, afirmações de que o senhor Carlos Augusto, o Cachoeira, teria influência em meu governo”. Os diálogos interceptados pela PF e a

cronologia do pagamento das faturas à Delta revelam que Cachoeira tinha, sim, influência. Outra frase de Perillo: “Falaram (nos diálogos até então divulgados) sobre seus planos (da turma de

Cachoeira), mas nada se concretizou. Nada! Reafirmo: nada se concretizou”. Aqui, mais uma vez, as cobranças da Delta ao amigo de Perillo, os cheques compensados nas contas de Perillo e o consequente pagamento das faturas da Delta apontam o contrário.Por fim, Perillo bradou na CPI: “Não tem propina no meu Estado”.É uma afirmação ousada. Os delegados da Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ao que parece, discordam.

 

O BRASIL PELAS LENTES DE O CRUZEIRO

 

Uma exposição mostra o esplendor das imagens da revista que inaugurou o fotojornalismo no país

 

Os anos 1950, uma piada era contada para ilustrar as diferenças entre as duas principais

revistas semanais em circulação no Brasil, O Cruzeiro e Manchete. Ambas dedicavam grandes espaços para fotografias,  mas dizia-se que O Cruzeiro, mais antiga, informativa e densa, era uma redação com um parque gráfico. Já a concorrente Manchete, mais nova, colorida e leve, era

um parque gráfico com uma redação. O chiste resumia bem as divergências entre as duas publicações. Em Manchete, o impacto visual da fotografia era o mais importante. Em O Cruzeiro, o aspecto estético era igualmente relevante, mas estava a serviço das ideias.

 

Nos anos 1960, O Cruzeiro foi ultrapassado pela rival como parte de um lento processo de decadência que culminou com o fim da revista em 1975. Durante os anos 1940 e 1950, reinou como a publicação de maior penetração social do país, ao influenciar a política, reproduzir os gostos da elite e refletir as mudanças de uma sociedade que buscava ansiosamente a modernização e a superação de atrasos seculares. Grande parte do prestígio se devia à introdução do fotojornalismo

no Brasil. Antes de O Cruzeiro, a fotografia na imprensa brasileira servia como mero adereço visual. Ela simplesmente registrava em imagem o que estava contado no texto. A revista profissionalizou a

fotorreportagem, formou uma equipe de primeira linha e passou a investir na foto .como um veículo que tinha autonomia e importância igual ou até maior que o texto. Trinta e sete anos depois de seu

fim, ela continua uma referência, como mostra Um olhar sobre O Cruzeiro – As origens do fotojornalismo no Brasil, exposição no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

 

Numa era em que a televisão ainda era incipiente, os fotojornalistas de O Cruzeiro tornaram-se os responsáveis pela narrativa visual do país e construíram arquétipos do Brasil que perduram até

hoje, como as imagens da pobreza rural, dos retirantes nos centros urbanos e dos índios. Os repórteres da revista estiveram na linha de frente da Marcha para o Oeste, as expedições comandadas pelos irmãos Villas- Boas que desbravaram os territórios indígenas da Amazônia, e desempenharam um papel importante na estratégia de assimilação do índio pela sociedade. “O Cruzeiro reavivou o mito fundador da nação, encenou a aceitação da superioridade da cultura ocidental por parte dos povos indígenas e vislumbrou um futuro em que eles seriam alegres

personagens da sociedade moderna urbano-industrial': dizem os curadores Sérgio Burgi, do IMS, e Helouise Costa, da Universidade de São Paulo (USP).

 

Os fotógrafos de O Cruzeiro estavam sintonizados com as linguagens e as técnicas mais modernas do fotojornalismo. Eles se miravam em revistas como a francesa Match e a americana Life e apropriavam-se do que consideravam o melhor. A equipe da revista contava com vários colaboradores estrangeiros, como os franceses Pierre Verger, que fotografou os cultos afro-brasileiros, e Jean Manzon. Estrela da revista, Manzon era um especialista no uso da câmera Rolleiflex e em grandes fotos posadas, como as que fazia do ditador Getúlio Vargas, exemplos de

seu preciosismo técnico. Manzon teve discípulos como o piauiense José Medeiros, outro astro da revista, e alguns antagonistas, como o cearense Luciano Carneiro. Adepto da câmera Leica, mais

leve e de fácil manejo, Carneiro preferia o fotojornalismo de ação.Foi um pioneiro do correspondente de guerra no Brasil ao cobrir o conflito na Coreia. Morreu aos 33 anos num acidente aéreo depois

de uma missão muito menos perigosa: fotografar o primeiro baile de debutantes de Brasília, em 1959.

 

Mesmo com todos esses talentos, o fotojornalismo de O Cruzeiro não teria tal repercussão se seu criador não fosse o empresário Assis Chateaubriand. Ele ergueu o primeiro conglomerado de comunicação do país, com métodos para lá de controversos, que iam da bajulação à chantagem. Usava a revista como instrumento de poder pessoal, mas acreditava que a publicidade deveria ser o principal meio de financiamento da imprensa brasileira – e foi um dos responsáveis por sua modernização. Chatô não economizava. Manteve uma equipe de 17 fotógrafos que cruzavam o país em viagens e tinham aviões à disposição. O prestígio da revista durou enquanto ele bancou essa aventura. O fotojornalismo de O Cruzeiro é também o registro de uma época da imprensa que não voltará.

 

Pobres advogados

 

A Defensoria Pública da União dá assistência jurídica a quem não pode pagar. Mas sofre com a falta de quadros estrutura e autonomia

 

O paraibano Serafim Simeão, de 71 anos, é o oitavo de 20 irmãos. Migrou para o Rio de Janeiro

há 50 anos. Fez bicos, trabalhou numa cooperativa de táxis e, depois de sofrer oito assaltos, passou a atuar como pedreiro. Há cinco anos, sofreu um derrame, que lhe deixou sequelas em todo o

lado esquerdo do corpo. Simeão caminha mancando. Um dos braços não lhe obedece. Viúvo, mora numa casa alugada em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Quando foi atrás de sua  aposentadoria, descobriu várias irregularidades em suas contribuições. Por isso, não teria direito

a um benefício. Impedido de trabalhar, não sabia como pagar suas contas.

 

Num dos postos do INSS, um porteiro sugeriu que ele procurasse um lugar de nome “complicado”: a Defensoria Pública da União, perto do mercado popular da Uruguaiana, um dos formigueiros

humanos do centro do Rio de Janeiro. Simeão pegou dois ônibus para chegar até lá. Decisão acertada. Depois de receber assessoria jurídica da DPU, há quase um ano ele recebe seu benefício. Seu caso foi coberto pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), que permite a pessoas carentes ter direito a um benefício assistencial. Ele agora ganha um salário mínimo – R$ 622. Pouco, se comparado a seus gastos: R$ 200 de aluguel e contas gerais, mais pelo menos R$ 80 de remédios

para pressão e colesterol todo mês. Fora a comida. Uma das cinco filhas o ajuda quando pode.

 

A história de Serafim Simeão é semelhante à de muitos outros brasileiros que, no momento de se aposentar, deparam com problemas de contribuição ou com a própria burocracia. A atuação das Defensorias Públicas da União tem sido sinônimo de sobrevivência na vida de gente como ele. Mas esse órgão, cuja missão é representar o cidadão em ações contra a União, ao oferecer assessoria jurídica a brasileiros carentes, precisa de advogados. Em suas sedes, espalhadas pelas capitais

e por algumas outras poucas cidades, a DPU tem estrutura muito aquém de sua importância. O corpo de defensores é considerado pequeno demais: 474 para todo o território nacional. Do outro lado da mesa, defendendo os interesses – também legítimos – da União, a Advocacia-

Geral da União (AGU) conta com a ação de quase 7.970 advogados.

 

As instalações das DPUs são precárias,com equipamentos e infraestrutura ultrapassados. O quadro administrativo é mínimo. “Os defensores instalam cabos, saem para comprar papel e copo de

plástico, muitas vezes do próprio bolso': diz o advogado Eraldo Silva Junior. Por dois anos, ele liderou a equipe da DPU no Rio de Janeiro. Marcus Vinicius Lima, defensor-chefe da DPU de São Paulo, conhece bem esse enredo. “Aqui estamos sem contrato de manutenção. A bomba

de água enguiçou, tive de ficar quatro meses ligando e desligando todos os dias, eu

mesmo. E não ganho nada pelo cargo de chefia. Coordeno tudo mantendo minhas atribuições regulares de defensor”.

 

São Paulo, o Estado mais populoso do Brasil, tem o maior número de defensores: 60. No Rio de Janeiro, são 46. Em Estados com menos habitantes, mas dimensões territoriais imensas, como o Amazonas, há sete – e somente na capital, como ocorre na maioria dos outros Estados fora do eixo Sul-Sudeste. Para chegar a Manaus, onde fica a sede da DPU amazonense, pessoas das comunidades ribeirinhas viajam até cinco dias de barco para conseguir assessoria jurídica gratuita. A imensa maioria das subseções da Justiça Federal no país não tem uma unidade da DPU. Os raros atendimentos itinerantes realizados mostram que, além da necessidade de melhorar as condições das defensorias nas grandes cidades, é urgente levá-las ao interior. Vice-presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos, lotado no Rio de Janeiro, o advogado Thales Treiger participou de um atendimento itinerante na região do Alto Purus, no Acre. O que seria o atendimento de apenas uma tarde transformou- se num trabalho de três dias. “Fizemos de tudo: de conciliação em briga

de vizinhos a uma audiência com índios por uma questão territorial': afirma.

 

A falta de estrutura das DPUs deixa algumas áreas dos direitos dos cidadãos descobertas. Com as imensas demandas nas áreas cível (que envolve remédios e equipamentos), previdenciária e criminal, perdem as questões trabalhistas ligadas à União. Quem enfrenta entraves com algum órgão

federal e não tem dinheiro para pagar um advogado fica sem defesa. É o caso da funcionária do Ministério da Saúde Rosana Pereira, de 47 anos. Ela procurou a DPU no centro do Rio munida

de documentos e comprovantes de renda, para tentar conseguir gratificações que deixou de receber durante dez anos. Em vão. “Não vou ter dinheiro para pagar um advogado particular. Não sei o que fazer.”

 

A assistência jurídica contra o Estado é um elemento básico da cidadania. “Não existe democracia se os cidadãos não têm acesso à defsa contra a União': diz o jurista e professor de Direito Walter Maierovitch, ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. ”A situação das DPUs comunica ao povo que não existe o princípio da igualdade no Brasil. O Estado não pode ter o monopólio da Justiça.” Vinculada ao Ministério da Justiça, a DPU depende do Executivo e da União, para funcionar – e para combater aqueles que a gerenciam. Por isso, muitos juristas afirmam que, para haver verdadeiro equilíbrio, as defensorias deveriam ser autônomas.

 

Caminho para isso já existe. Desde 2007, está no Congresso um Projeto de Emenda Constitucional que prevê autonomia administrativa, orçamentária e financeira para as DPUs. Hoje, uma DPU depende do Executivo para aprovar orçamento, realizar concurso ou requisitar novos grampeadores.

Segundo o projeto, as DPUs poderão enviar suas propostas e projetos diretamente ao Congresso Nacional, sem passar pelo Executivo. As demandas seriam aprovadas pelo Legislativo, que

não é o alvo das ações da defensoria, Se não garantir um salto de qualidade imediato, pelo menos as resoluções não estariam mais nas mãos da União. Em 2004, com a reforma do Judiciário, as

defensorias estaduais ganharam essa autonomia. As defensorias da União, no entanto, ficaram onde estavam. O projeto da autonomia foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, na

Câmara e no Senado, em 2011. Falta agora ser aprovado em plenário nas duas Casas. Mas parou de novo.

 

As defensorias públicas – da União e dos Estados – foram criadas pela Constituição de 1988 (o acesso à Justiça é um direito de pobres e ricos, diz o texto). Só em 1994, seis anos depois, uma lei

regulamentou essa criação. A garantia de assistência jurídica aos mais necessitados é, portanto, uma realidade nova no Brasil. Antes disso, existia apenas a iniciativa de Ordens de Advogados e

de universidades, que voluntariamente ofereciam seus serviços a quem não podia pagar por eles. Em 2011, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou uma resolução que recomenda

uma Defensoria Pública autônoma e independente. O Brasil referendou o documento. Por enquanto, tudo não passa de papel e tinta. “Não existe Justiça sem defensoria pública forte': diz Pedro Abramovay, jurista e professor de Direito da Fundação Getulio Vargas.

 

Se a defensoria consegue obter algumas vitórias, elas se devem ao esforço de seus advogados, que superam obstáculos

para fazer seu trabalho. Não é fácil atender uma população carente e absorvida por suas questões. A gaúcha Letícia ‘Iorrano,de 37 anos, atua na área criminal da DPU do Rio de Janeiro. “Uma vez na

DPU, não dá mais para sair. Vira uma missão': afirma. De familiares e conhecidos, ela costuma ouvir uma pergunta: como ela consegue “defender bandido”? “Vejo nisso um preconceito enorme. Se

estivesse numa banca particular, trabalhando por criminosos ricos, será que fariam essa pergunta?”

 

 

Quem passa no concurso de defensor público tem cacife para trabalhar em qualquer outra área pública. O salário já foi pior. Hoje é de R$ 12 mil, abaixo de outras carreiras. Ainda assim é uma

boa remuneração. A falta de boas condições de trabalho incentiva a rotatividade, embora uma parcela cada vez maior se ocupe da responsabilidade social. A mato-grossense Cecília Lessa da Rocha, de 32 anos, começou sua carreira na Advocacia-Geral da União, em Brasília, defendendo os interesses do governo federal. Hoje, é a subchefe da DPU do Rio de Janeiro. “Queria um trabalho que fizesse diferença real e direta na vida das pessoas. Quando me transferi, minha família brincava que agora, enfim, eu estava do lado bom da força”.

 

ENTREVISTA ALFREDO PASTOR

 

“A chave está na competitividade”

o economista espanhol diz que a crise em seu país não será resolvida só com pacotes de austeridade. É necessário adotar medidas para diminuir o custo das empresas

 

O apresentado na semana passada pelo primeiro-ministro, Mariano Rajoy. Sob pressão dos credores europeus, Rajoy aumentou impostos e cortou benefícios sociais, para somar uma economia estimada em € 65 bilhões. É o maior ajuste aprovado por um regime democrático na história da Espanha, assolada pela recessão e por uma taxa de desemprego de 25%. Em troca, o governo fez jus a um pacote de ajuda que pode chegar a € 100bilhões. Em entrevista a ÉPOCA, o economista Alfredo Pastor, professor da Universidade de Navarra, afirma que as empresas espanholas têm de

ser mais competitivas para superar a crise e fazer com que as medidas de aperto financeiro do governo tenham resultado.

 

ÉPOCA – O primeiro – ministro da Espanha. Mariano Rajoy.prometeu em sua campanha que não aumentaria impostos nem cortaria benefícios do funcionalismo público. Tudo isso foi desfeito em seu

último pacote de austeridade. Ele foi obrigado pelas circunstancias a mudar de ide la ou sabia que não podia cumprir sua promessa? Alfredo Pastor- Ninguém gostaria de tomar as decisões que

Rajoy tomou. Surpreende-me um pouco que Rajoy não soubesse, há um ano, que precisaria tomá-las. Especialmente o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado, semelhante ao ICMS do Brasil). Quando ele estava na oposição, dizia que não subiria nunca esse imposto. De fora,

via-se isso como algo quase inevitável. Desde o começo, essa era uma das condições estabelecidas pelos credores para a ajuda ao setor bancário.

 

ÉPOCA – Mas Rajoy foi desonesto com seu eleitorado ou lhe faltou mais conhecimento da situação econômica? Pastor- Fico mais com o segundo cenário. O Partido Popular (conservador, a que Rajoy pertence) não estava consciente da gravidade da crise que havia adiante. Acreditava que a situação se acalmasse com sua simples chegada ao poder.

 

ÉPOCA – O senhor afirma que a crise na Espanha não se deve apenas à divida. mas à perda de competitividade. Como esses problemas se relacionam? Pastor- Eles se conectam porque a perda de competitividade está na origem da dívida externa espanhola, do deficit em conta-corrente. Isso começou com a bolha imobiliária criada no início dos anos 2000,que elevou demais os preços dos bens não exportáveis. Esse aumento acabou contaminando os bens exportáveis, na forma de uma elevação dos salários e das margens de lucro empresarial. Os preços na Espanha se tornaram

sistematicamente mais altos que a média européia. O IPC (Índice de Preços ao Consumidor) espanhol subiu 56% entre 2000 e 2010. Na Zona do Euro, subiu 26%. Na Alemanha, só 9%.

 

ÉPOCA – Há várias empresas espanholas entre os principais investidores da economia brasileira. como Telefónica. Santander. OHL.lberdrola e Repsol. Essas empresas não são um exemplo de

como atuar globalmente? Pastor – A economia espanhola perdeu competitividade, mas nosso setor exportador vai muito bem, ainda que seja pequeno. As empresas exportadoras da Espanha estão crescendo Nossa única saída neste momento é a exportação. Não se pode esperar muita coisa do consumo interno nem dos investimentos. Mas esse processo ainda caminha muito lentamente. Ganharemos mais competitividade à medida que o resto das companhias se comporte como os exemplos citados em sua pergunta.

 

ÉPOCA – De que maneira as empresas espanholas podem se tornar mais competitivas?

Pastor- Uma via, que já é um fato na economia espanhola, é certamente a “moderação salarial” (negociação entre patrões e sindicatos em que os trabalhadores aceitam receber aumentos

menores que a inflação por determinado período para manter seu emprego). O outro caminho é o aumento de produtividade. Nesse caso, as empresas espanholas estão se ajustando bem, até melhor do que esperávamos. A competitividade é algo que podemos recuperar, mesmo em tempos de crise. Está nas nossas mãos, ao contrário do problema da dívida, que precisou de socorro externo.

 

ÉPOCA – O governopode ajudar de alguma forma nesse ponto? Pastor – Um governo não fixa salários nem tem nenhum poder de interferência direto sobre a produtividade. Mas a diminuição

das taxas de contribuição social e o aumento do IVA são medidas que favorecem a competitividade das empresas.

 

ÉPOCA – Num primeiro momento, apenas o Bankia, terceiro maior banco da Espanha, necessitou de ajuda para não quebrar. Agora, há um pacote europeu para sanear todo o sistema bancário, que

pode chegar ,a€ 100 bilhões (cerca de R$ 250 bilhões). O estrago era maior do que se achava?

Pastor – É necessário fazer uma distinção da banca espanhola em três grandes grupos: os que não precisam de nenhuma ajuda, os que precisam e os que simplesmente deveriam desaparecer. O Bankia foi quem mais recebeu auxílio (cerca de 20 bilhões). Se você olhar apenas para sua situação financeira, o mais correto deveria ser seu desaparecimento. Mas aí entra o problema da repercussão que o fechamento do Bankia teria sobre as outras instituições. Isso não acontecerá,

pelo menos por ora. Mas não sabemos ainda que outras condições a União Europeia imporá à Espanha em troca da ajuda aos bancos.

 

ÉPOCA – E quanto a bancos como Santander e BBVA, que têm projeção internacional? Estão no grupo dos que precisarão de ajuda? Pastor – Tudo leva a crer que Santander, BBVA,Sabadell

e Caixabank não necessitarão. Uns porque têm grande parte de seus negócios fora da Espanha, outros porque já fizeram muitos ajustes para levantar os fundos necessários, como não distribuir dividendos, diminuir contribuições sociais e realizar ampliações de capital. A fatia do sistema

bancário espanhol que funciona bem não deve nada à dos outros países europeus.

 

ÉPOCA – A Espanha convive com um desemprego em torno de 25%, e o pessimismo da população é muito grande. O que pode ser feito para atacar o problema a curto prazo? Pastor – Não há solução imediata. A reforma trabalhista está introduzindo empregos em tempo parcial. Há também programas de reciclagem profissional. Mas isso não levará a uma redução significativa do desemprego tão

rápido, como algo para este ano.

 

ÉPOCA – Mariano Rajoy se queixa da herança econômica deixada pelo antecessor, o socialista José Luis Zapatero. A crítica procede? Pastor – A bolha imobiliária surgiu antes de 2004 (ano em

que Zapatero sucedeu ao conservador José María Aznar, cujo mandato começou em 1996). O financiamento fácil vem desde o fim dos anos 1990. Seja quando estava no governo ou mesmo na oposição, a partir de 2004, o Partido Popular nunca disse nada sobre a bolha. Claro que parte dos

problemas surgiu com Zapatero, mas o PP se aproveitou disso apenas para tirar os socialistas do poder. Digamos que a responsabilidade é compartilhada.

 

ÉPOCA – Rajoy dizia que não haveria precondições para os empréstimos e a soberania espanhola seria mantida. Não foi um erro político negar o óbvio? Pastor- Sim. É algo muito simples. Os devedores não têm soberania. Se a Espanha tem de pedir dinheiro, não estamos em condições de dizer que somos soberanos. Soberanos são os credores.

 

ÉPOCA – Há uma preocupação crescente de que a Espanha siga o mesmo caminho da Grécia. Em que se aproximam as situações dos dois países? Pastor – São casos muito diferentes. A Grécia tem uma economia bem mais frágil, sem um setor exportador. E há um endividamento público muito grande (165% do PIB, em comparação aos 69% da Espanha). A Espanha tem um problema grave de dívida, mas privado. Há até algo de mal-intencionado quando se quer confundir a situação grega com a espanhola. As dificuldades sociais lá são muito maiores que aqui. É claro que, se não houver pelo menos um pouco de crescimento, a Espanha certamente corre o risco de uma fratura social, mas não estamos no mesmo ponto que os gregos.

 

ÉPOCA – O senhor falou em má intenção. A quem interessaria promover isso? Pastor- É uma combinação de pressões. Os credores de um lado, o mercado financeiro de outro, e isso acaba repercutindo na mídia. Há uma simplificação grande quando tentam explicar o que ocorre na Espanha.

 

ÉPOCA – Quais são os pontos principais que Rajoy deve atacar para haver um cenário mais favorável ao crescimento? Pastor – Ele terá de levar a cabo todas essas medidas de

austeridade que deveriam ter sido tomadas há muito tempo, quando havia crescimento. Gostem ou não, terá de fazer. O que precisa haver de novo são medidas que façam a economia crescer um pouco. A mais importante delas é voltar a haver um fluxo de crédito em todos os setores. Rajoy tem de insistir nesse ponto quanto puder. O crédito não precisa vir necessariamente de dentro da

Espanha. Os bancos estrangeiros, entre os quais aqueles que já passaram por recapitalizações, poderiam voltar a emprestar aos espanhóis.

 

ÉPOCA – Qual é a Importância do Banco Central Europeu (BCE) na recuperação da Espanha?

Pastor- O BCE é o único instrumento de ação a curto prazo, mas não pode ser permanente. A União Européia não pode sustentar injeções constantes de liquidez no BCE.

 

 

DOM EUGÊNIO DE ARAUJO SALES

 

A disciplina do pastoreio

 

A chegada de Dom Eugênio à Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 1971, levaria um cardeal moço

a uma nova dimensão pioneira, na organização das Comunidades Eclesiais de Base ou na Campanha da Fraternidade. Ele ampliou essas iniciativas com a Pastoral do Trabalhador,

as Missões Populares e a Pastoral das Favelas. Ao assumir um comportamento nítido perante

os governos militares, exprimiu a voz das “injustiças sem voz” e, essencialmente,

a da luta contra os desaparecidos ou torturados. Isso no regime que arrancava das procissões

religiosas paulistas, a culminar no 31 de março de 1964.

 

Significativamente, enquanto administrador apostólico de Natal, foi um dos pouquíssimos bispos nas capitais a proibirem missas de apoio ao golpe. A intervenção militar devolvia ao vácuo da ditadura e de toda mediação política o embasamento remanescente da organização social. O Episcopado falaria, frente a frente, à cúpula castrense. Nas riquíssimas lideranças religiosas de então, conviviam, em opções distintas, o profetismo da denúncia de Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns e a interlocução direta e corajosa de Dom Eugênio Sales com os donos do poder. Repetiram-se

as cobranças ·das violências do regime no frente a frente com os presidentes Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

 

O cardeal refugava as condenações fáceis de “comunismo” ao compulsar os dossiês da prisão e da tortura com a convicção do pastor. Deste repto resultaria a Comissão Bipartite, com o concurso de Dom Aloísio e Dom Ivo Lorscheiter, presidentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). E com a presença permanente de Dom Eugênio e Dom Avelar Brandão, junto a meu trabalho, na Comissão Justiça e Paz. A frente da Comissão dos Militares, chefiada pelo general Muricy, ao lado do general Paulo Couto e do coronel Carlos Pasquale, e, como representante leigo, o professor Tarcísio Padilha. Muitos foram às reuniões mensais, entre a Casa da Gávea e os quartéis da Ilha das Cobras, em que se avolumava o inventário das denúncias de tortura e desaparição dos detidos, independentemente da crença religiosa. A voz de Dom Eugênio muitas vezes desarmava os impasses e resolvia as prisões. Mantendo linha telefônica direta com o tenente-coronel da Bipartite, o cardeal do Rio podia antecipar colisões continuadas entre a Igreja e o Estado numa rede nacional,

impedindo múltiplas detenções de ativistas leigos e clérigos.

 

A volta ao estado de direito coincidiria com o advento de João Paulo 11em busca de um novo assento social da Igreja pós-Vaticano 11,após a mensagem de Paulo VI, e o recado de um humanismo prospectivo. Esse profetismo levaria ao desabrochar da Teologia da Libertação, pela

ratificação da Igreja em seu corpus da fé, no anúncio da hierarquia. Esse é o pano de fundo da igreja espetáculo, do pontífice sem fronteiras e da comunhão solidária e imediata. Ecoava-a Dom Eugênio, voltado à espontaneidade religiosa popular, porém dentro de uma visão assistencial, sem opções ditas “preferenciais” ao “povo de Deus”. Definia-se um novo perfil conservador no cuidado de evitar a presença da Igreja numa nova luta de classes. Confidente do papa no país, consagra-se o vulto de Dom Eugênio, na apoteose das duas vindas de João Paulo 11ao Brasil. A entrada do novo século,

definirão Dom Hélder e Dom Eugênio os caminhos da modernidade. O anúncio do cardeal do Rio não foi p de uma estrita confiança no triunfalismo transcendente do pontificado de então, mas o do diário recomeço, tantas vezes heróico e secreto, da disciplina de seu pastoreio.

 

Acrobacias Com H

 

Pela primeira vez, o Brasil leva à Olimpíada mais de um atleta para as disputas da ginástica artística masculina. Eles até sonham em trazer uma medalha

 

A equipe masculina de ginástica artística do Brasil é pequena. Ao desembarcar na semana passada

na cidade de Ghent, na Bélgica, onde faz seus últimos treinos antes da Olimpíada de Londres, seus três integrantes não chamavam a atenção. Pois deveriam. Se um é pouco e dois é bom, três é um marco histórico para os ginastas brasileiros. Será a primeira vez que o Brasil levará mais de um ginasta homem para os Jogos Olímpicos. Não apenas isso: dois deles são candidatos a medalha. Num momento em que a equipe feminina, com cinco atletas (uma a menos que em Pequim 2008), carece de estrelas em ascensão, os homens são a maior esperança para que o Brasil possa finalmente ocupar o pódio da ginástica artística numa Olimpíada.

 

Os dois primeiros nomes do inédito trio foram garantidos em outubro, no Mundial do Japão. Diego Hypolito conquistou o bronze no solo, e Arthur Zanetti obteve a prata nas argolas. Sérgio Sasaki, o terceiro, foi indicado na semana passada pela comissão técnica brasileira, depois de o Brasil conquistar o direito a mais uma vaga no Pré-Olímpico. Serão três participações bem diferentes. Para

Sasaki, de 20 anos, os Jogos servirão como preparação para a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Promessa da gi nástica artística brasileira e considerado por Hypolito “o ginasta mais completo

que o Brasil já teve': Sasaki disputará o individual geral sem obrigação de trazer uma medalha para casa logo em sua primeira Olimpíada. A pressão maior ficará sobre o próprio Hypolito, único ginasta masculino do Brasil presente em Pequim. Nos Jogos chineses, ele caiu na final do solo, prova em que era favorito, e ficou em sexto lugar. Aos 26 anos, idade considerada avançada para um ginasta,

Hypolito poderá disputar em Londres sua última Olimpíada.

 

Entre o novato Sasaki e o experiente Hypolito está Arthur Zanetti. Aos 22 anos e também estreante em Jogos Olímpicos, ele chegará a Londres como um dos favoritos ao ouro nas argolas.

Atual vice-campeão mundial no aparelho, Zanetti, atleta de São Caetano do Sul, São Paulo, soma três ouros e uma prata em etapas da Copa do Mundo de 2012 e venceu o Pré-Olímpico de Londres,

no começo do ano. “Tento evitar ao máximo pensar em pressão e não me vejo obrigado a subir no pódio”, afirma. Ele coloca o chinês Chen Yibing, atual campeão olímpico, e o.grego Eleftherios

Petrounias como seus principais rivais. Petrounias foi derrotado por Zanetti na etapa do Mundial em junho, na mesma Ghent escolhida para a preparação atual. Chen está com uma lesão no ombro

direito, vital para a competição de argolas, e seu desempenho continua uma incógnita. “Não dá para saber como está, porque ele não participou das últimas etapas do Mundial”, diz Zanetti.

 

O Pan-Americano de Guadalajara, no ano passado, serviu como termômetro da boa fase dos ginastas brasileiros diante das mulheres. Das seis medalhas conquistadas, os homens foram

responsáveis por três de ouro (duas de Hypolito e uma da equipe masculina) e uma de prata (Zanetti). As outras duas, de bronze, foram de Daniele Hypolito, irmã de Diego. O ouro da equipe

masculina – Diego Hypolito, Zanetti e Sasaki estavam lá – foi um feito inédito. No dia anterior, a equipe feminina sofrera com quedas em várias provas e ficou longe do pódio. A ausência de Jade

Barbosa, com uma lesão no tornozelo esquerdo, pesou contra o desempenho das meninas.

 

Jade também não estará em Londres, por ter sido cortada pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) no começo do mês, depois de não comparecer à apresentação no Rio. Jade se recusara a

assinar um contrato em que se comprometia a usar os uniformes da entidade, com seus devidos patrocinadores, em função de patrocínios pessoais. Chegou a mudar de ideia dias depois, assinou

o documento, mas era tarde demais. Laís Souza, que fez seis cirurgias desde a Olimpíada de Pequim, disputará duas vagas com Daiane dos Santos, Ethiene Franco e Harumi de Freitas, ao final do atual período de adaptação em Londres. Daniele Hypolito, Bruna Leal e Adrian Gomes estão garantidas na lista olímpica e aparecem como maiores forças da conturbada equipe feminina. A torcida brasileira é para que as meninas consigam superar as dificuldades para obter

boas colocações. Os homens, desta vez, podem sonhar mais alto.

 

A TURMA DO “EU ME ACHO”

 

A  educação moderna exagerou no culto ä autoestima – e produziu adultos que se comportam como crianças. Como enfrentar esse problema

 

Os alunos do 3º ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos, numa tarde ensolarada no mês passado, para o momento mais especial de sua vida escolar, a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na platéia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David Mc Cullough Jr, Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais. Elas foram repetidas nove vezes em 13 minutos. ”Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no

começo. ”Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são.”

 

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua

caixa postal. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele

tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV. Teve de explicar que não

menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades':

disse ele a ÉPOCA. “Mas, para se dar bem daqui para a frente , eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro.”

 

A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores

e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo

de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma auto estima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando- os como se eles fossem da realeza': afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo.”

 

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho': Porque se acham mesmo. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja do frescor de seu talento). Eles se acham merecedores de

constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim em seu trabalho ou em

sua turma de amigos? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, ligada em tecnologia e competente em

seu uso. São bons, é fato. Mas se acham mais do que ótimos.

 

“Esse grupo tem dificuldade em aceitar críticas e tarefas que não consideram a sua altura”, diz Daniela do Lago, especialista em comportamento no trabalho e professora da Fundação Getulio Vargas. Daniela conta que, recentemente, uma das empresas para a qual dá consultoria selecionava candidatos ao cargo de supervisor. A gerente do departamento de marketing fazia as entrevistas, e uma de suas estagiárias a procurou, se candidatando ao cargo.A gerente disse que gostara da iniciativa ousada, mas respondeu que a moça ainda não estava madura nem preparada para assumir a função. Ela fora contratada havia apenas dois meses. Mesmo assim não gostou da resposta.

“Achou que sofria perseguição”,diz Daniela. Dentro das empresas brasileiras, esse tipo de comportamento já foi identificado como a principal causa da volatilidade da mão de obra jovem.A Page Personnel, uma das maiores empresas de recrutamento de jovens em início de

carreira, fez um levantamento entre brasileiros de até 30 anos sobre suas expectativas de promoção. Quase 80% responderam que pretendem mudar de empresa se não forem promovidos.

 

A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicelogia da Universidade Estadual de San Diego.

No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou ‘Os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os obrialunos

dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores.Em 2006, dois terços deles pontuaram acima da média obtida entre 1979 e 1985.Um aumento de 30%. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell.

 

Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível. E eles sabem disso. Uma pesquisa da

revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. SallyKoslow,uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois

que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela.”Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos

cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”,diz ela.”Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho”.

 

Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos

têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar

as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam

bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um

dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.

 

O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular

seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada

no Movimento da Autoestima, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a auto estima é uma

necessidade humana. Não atendida,ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto

profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de auto estima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para

a questão. Até a década de 1970,os pais não se preocupavam em estimular a auto estima das crianças. Temiam mimá- las. O movimento de Branden chegou ao auge nos Estados Unidos em

1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, assinou uma lei criando um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como as escolas e

as famílias poderiam estimulá-la.

 

Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a auto estima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar

adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação e fonte de trapalhadas. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas

mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os

psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário

parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar

a mesa, diga apenas obrigado. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios

mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota-, não adianta dizer: “Você jogou bem, o

que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É mentira.

 

Para piorar, um grupo de psicólogos afirma .agora que a premissa fundamental do movimento da auto estima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade Estadual da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970.Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois’ a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser muitas vezes contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações.”

Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma.

 

NARCISISTAS SEM RUMO

 

Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira.

Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação

constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver pânico e depressão. Também são menos produtivos socialmente.

 

Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim,

para comemorar meu aniversário”, diz Priscila. Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, caratê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu

até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em sete colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em três vestibulares,

mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta de novo começar.

 

Claro, nem todos da turma do “eu me acho” estão sem rumo. Muitos são empreendedores bem-sucedidos, e seu estilo de vida – independente, inquieto, individualista – tem defensores ferozes.

Um deles é a escritora americana Penelope Trunk, uma ex-jogadora de vôlei de praia que se tornou a maior propagandista da geração nascida na década de 1980, chamada nos Estados Unidos

de geração Y.”Qual o problema em se sentir o máximo?”, diz ela. “Se você se sente incrível, tem mais chances de fazer coisas incríveis, sem ligar para pessoas que recomendam o contrário:’ Quando os integrantes da turma do “eu me acho” conseguem superar o fato de não ser perfeitos e se põem a usar com dedicação a excelente bagagem técnica e cultural que receberam, coisas muito

boas podem acontecer.

 

Aos 20 anos, no início de sua carreira, o paulistano Roberto Meirelles, hoje com 26, conseguiu seu primeiro estágio. Seu sonho era se tornar diretor de arte. Morava com a mãe numa casa confortável, tinha seu próprio carro e não sofria nenhuma pressão para sair de casa. Resolveu trabalhar até de

graça. Aos 24 anos, foi promovido e assumiu o cargo que almejava. Chamou os amigos e deu uma festa. Seus pais ficaram orgulhosos. Sete meses depois, assinou sua carta de demissão.

Não era aquilo que ele realmente queria. Seus antigos colegas de trabalho riram ao ouvir que ele estava deixando a agência para “fazer algo em que acreditava”. Seus pais não compreenderam

o que ele queria dizer com “curadoria de conhecimento”, expressão que usou para definir seu empreendimento. Apesar da descrença geral, ele foi em frente e criou com dois amigos uma

empresa que seleciona informação e organiza estudos sobre temas diversos, para vendê-los no mercado corporativo e para pessoas físicas. Com dois anos recém-completados, a Inesplorato conseguiu faturamento de R$ 1,4 milhão. “Minha maior conquista foi conseguir ganhar dinheiro com uma ideia própria. Eu amo isso”,diz Meirelles.

 

Uma das conclusões a que o psicólogo Baumeister chegou na revisão dos estudos sobre autoestima pode servir de esperança para os jovens da geração “eu me acho” que ainda estão perdidos:

a autoestima produz indivíduos capazes de fazer grandes reviravoltas em sua vida. Justamente poráer um ego exaltado, eles têm a ferramenta para ser mais persistentes depois de um fracasso.

Em seu último livro, Força de vontade (Editora Lafonte), Baumeister dá outra dica de como conduzir a vida: ter controle dos próprios impulsos é mais importante que a autoestima como fator de sucesso. “A força de vontade é um dos ingredientes que nos ajudam a ter autocontrole. É a energia que usamos para mudar a nós mesmos, o nosso comportamento, e tomar decisões”,disse ele a ÉPOCA no ano passado.

 

Também há esperança para os pais que se pegam diariamente na dúvida sobre como lidar com suas crianças. Muitos deles conseguem criar seus filhos equilibrando limite e afeto e ensinando

a lidar com frustrações sem ferir a auto estima (leia os quadros nas páginas 62 e 64). Na casa de Maria Soledad Más, de 49 anos, e Helder, de 35, pais de Natália, de 9 anos, e Mariana, de 11,

os direitos estão ligados ao merecimento e a responsabilidades. “As meninas aprenderam a lidar com erros e frustrações desse jeito”, diz Helder. Para Mariana, uma frustração é não ter celular,

já que a maioria das amiguinhas tem seu próprio aparelho. “Explico a ela que ter celular envolve responsabilidade e que ela é muito nova”, diz a mãe. “Claro que esse assunto sempre

volta à tona, mas não incomoda. Ela acata bem nossas decisões.”

 

Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocionei criado na família graças ao conjunto de

ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em três tipos: os autoritários, os permissivos e aqueles que têm autoridade, os competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar -, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das

crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja

feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros. Têm altos índices de competência psicológica e baixos índices de disfunções sociais e comportamentais.

 

Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas -, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não

quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais

hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970. Eles pregavam que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse

manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Bonatto Reichert, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem

por trabalhar fora leva a isso.”

 

Se parece difícil implantar em sua casa o modelo dos pais com autoridade, ainda há outra esperança. Nem todos concordam que os pais sejam totalmente responsáveis pela formação da personalidade dos filhos. A psicóloga britânica Judith Harris, de 74 anos, ficou famosa por discordar do tamanho da influência dos pais na criação dos filhos. Para ela, se os filhos lembram em algo

os pais, não é graças à educação, mas à genética. “Os pais assumem que ensinaram a seus filhos comportamentos desejáveis. Na verdade, foram seus genes”, afirma. O resto, diz Iudith, ficará

a cargo dos amigos, a quem as crianças se comparam. É por isso que ela acha inútil tentar dar aos filhos uma criação diferente da turma do “eu me acho”. “Houve uma mudança enorme na cultura”,

afirma. “As crianças vão vistas como infinitamente preciosas. Recebem elogios demais não só em casa, mas em qualquer lugar aonde vão. O modelo de criação reflete a cultura”.

 

ENTREVISTA MICHAEL SANDEL

 

O professor de filosofia em Harvard diz que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate

público – mesmo que tenham origem na fé

SOCIEDADE BRASILEIRA SE ACOMODOU PERIGOSAMENTE AUMA IDEIA.QUEM NÃO PODE PAGAR um colégio particular não tem como garantir aos filhos educação de qualidade. Convivemos com situações variadas em que o dinheiro manda: com ele, é possível eleger políticos, passar à frente da fila em parques de diversões e até adquirir o direito de emitir poluentes no ar comprando créditos de carbono. O fenômeno não é só brasileiro. Em diversos países, ricos e pobres, experimentam-se os limites do poder do dinheiro para que caçadores possam caçar, criança sejam incentivadas a ler mais e pacientes consigam atendimento médico decente. Um dos filósofos mais populares do mundo, o americano Michael Sandel, acha que estamos indo rápido demais.

 

“Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido, e não tivemos, nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado”, afirma Sandel, professor na Universidade Harvard. Ele acha que usar os mecanismos de mercado em aspectos variados da vida é um exagero dos

economistas. Ele se opõe a pesquisadores como o ganhador do Nobel de Economia Gary Becker, maior estrela de uma corrente de pensamento que inclui, entre outros, os brasileiros Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro Rodrigues, autores de Sob a lupa do economista.

 

Sandel, um filósofo de fala pausada, virou celebridade por causa da repercussão de seu curso “Justiça”, à disposição na internet. Em seu livro mais recente, O que o dinheiro não compra (Editora Civilização Brasileira), Sandel defende um resgate dos princípios e das convicções morais diante da

lógica de mercado, em contraponto aos que pregam soluções técnicas e ênfase apenas nos resultados. Nessa defesa, faz propostas polêmicas, como acolher no debate público as convicções religiosas. Sandel estará no Brasil em agosto, a convite da consultoria Amana Key,para apresentar palestras em Fortaleza, São Paulo e Brasília.

 

ÉPOCA – O cidadão comum precisa fazer escolhas sobre questões cada vez mais complicadas, relacionadas a economia, meio ambiente, saúde pública, tecnologia. A filosofia pode nos aJudar?

MlchaelSandel – Sim, potencialmente. A filosofia pode contribuir com a cidadania da seguinte forma: ser um bom cidadão é mais do que votar no dia da eleição. O cidadão deve se manter informado sobre as questões públicas, debater com outros cidadãos sobre o bem comum, ajudá-los a formar as

decisões deles. E o único jeito de deliberar sobre o bem da coletividade é encontrar, logo abaixo da superfície de nossas discordâncias políticas, os princípios importantes que temos em comum – justiça, equidade, liberdade, democracia. Temos de discutir quão diferentes são nossas concepções de justiça e liberdade, e essas questões são filosóficas. Lento promover a ideia da filosofia pública, excitante, desafiadora e acessível a todos os cidadãos.

 

ÉPOCA – O senhor vem tratando dessas questões complicadas em suas aulas, e com elas consegue empolgar alunos Jovens. O que o senhor aprendeu, como professor, nesses anos em que ministra o

curso de filosofia política? Sandel- Uma das mudanças mais dramáticas ao longo da

história do curso foi que, no início, ele era ministrado na universidade, para pessoas que se reuniam num anfiteatro. Nos últimos anos, as aulas completas foram divulgadas pela internet e pela televisão, e o curso se tornou um fenômeno global. O resultado é atordoante, além de qualquer expectativa

que eu tivesse. O que aprendi, ao interagir com pessoas de culturas e origens muito diferentes, foi tratar o mesmo tópico de muitas perspectivas distintas. Em agosto, vou ao Brasil e quero saber as visões e as opiniões das pessoas aí sobre a justiça, a liberdade e o bem comum. Outra mudança

que fizemos ao longo dos anos: os filósofos que estudamos continuam basicamente os mesmos desde o início do curso, mas os eventos que usamos como exemplos vêm mudando.

Ojeito que achei de envolver os estudantes foi fazer com que as leituras filosóficas, os conceitos e as ideias, muitas delas abstratas e difíceis, conectem-se com dilemas contemporâneos, controversos, desafiadores. Sobre esses dilemas, todo mundo tem opinião, mesmo que nunca tenha estudado

filosofia. O jeito de atrair o estudante é mostrar que as opiniões dele estão conectadas às ideias que os filósofos vêm desenvolvendo há séculos. Isso tem muito a ver com engajar os cidadãos. Espero que a filosofia nos ajude a ter melhores ideias no debate público.

 

ÉPOCA – No Brasil, há grupos crescentes de cidadãos que definem suas atitudes na vida, além de suas escolhas eleitorais, de acordo com a orientação religiosa. Isso traz algum perigo para

a vida pública? Sandel- É uma questão complicada. A relação entre política e religião tem uma história longa e difícil. Os filósofos políticos debatem há muito tempo qual seria a relação adequada

entre as duas, com duas preocupações principais. Uma é que as convicções religiosas sejam intolerantes, dogmáticas, estreitas, e tragam isso para a política. A segunda ‘preocupação

é que, como as sociedades modernas abrigam muitas diferenças religiosas, trazer essas divergências para a política poderia gerar discordâncias irremediáveis dentro do debate

público. Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião pode trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas

trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático. Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais

de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas.Não acho que devamos discriminar as origens das convicções ou excluir uma delas. O que importa é o debate

ser conduzido com respeito mútuo.

 

ÉPOCA – Além do componente religioso, há no debate público atual nos Estados Unidos um tanto de ressentimento contra a lógica de mercado. Hoje, o senhor vê mais força no avanço do livre

mercado ou no clamor popular contra ele? Sandel- Vejo força nos dois. O objetivo de meu livro é encorajar e inspirar o debate público sobre o mercado e a sociedade. Nas últimas décadas, vivemos um período de triunfalismo do mercado. Mas o papel dos mecanismos de mercado cresceu e avançou para além dos campos do bem-estar material – chegou às relações pessoais, saúde,

educação, vida cívica. Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido e não tivemos nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado? Se você pergunta

se o livro é um alerta sobre o papel do dinheiro especificamente nos Estados Unidos, acho que os acontecimentos que descrevo representam uma tendência geral. Certo, são mais evidentes, mais traumáticos nos Estados Unidos do que na maioria dos outros países. Acredito, no entanto,

que a mudança em andamento nos países desenvolvidos cria as mesmas questões e desafios também nos países em desenvolvimento economicamente bem-sucedidos. Uma pergunta vale para todas essas nações: queremos ser uma sociedade que conta com a economia de mercado ou uma

sociedade que é um mercado? A economia de mercado é um instrumento para alcançar o bem público, uma ferramenta para a organização da produção. Uma sociedade mercado é algo diferente, em que tudo está à venda, em que as relações de mercado governam cada aspecto da atividade humana. Em muitas nações, não só nos Estados Unidos, há uma tendência de transformar uma sociedade com economia de mercado em uma sociedade mercado.

 

ÉPOCA – Qual o problema em usar mecanismos como uma empresa pagar pela proteção ambiental em outro lugar e assim ganhar o direito de poluir, ou pagar para uma criança ler, se os resultados

finais forem menos poluição global e as crianças lendo mais? Sandel – Algumas vezes, os mecanismos de mercado podem ser eficazes. Não argumento contra todos os usos desses

mecanismos. Mas sempre que usamos incentivo financeiro para resolver problemas sociais, para obter ganhos para a sociedade, temos de considerar o efeito desses mecanismos nas atitudes e nos valores que estamos tentando cultivar. No caso de pagar a uma criança US$ 2 por livro lido, realmente acontece que a criança lê mais livros – e também que as crianças que liam anteriormente passam a ler livros mais curtos. Como o dinheiro afetou a atitude da criança em relação à leitura e ao aprendizado? É provável que ela passe a considerar a leitura como um trabalho a fazer em troca de

pagamento. Se isso acontecer, o incentivo financeiro comprometeu o amor pela leitura e pelo livro. Meu argumento não é contra o mercado, e sim a favor das atitudes e valores com que todos nos preocupamos.

 

ÉPOCA – O senhor afirma haver uma conexão entre a disseminação dos mecanismos de mercado para áreas diversas e o aumento da corrupção. Há algum aumento perceptível da corrupção nos

últimos anos? Sandel – A corrupção tem muitas fontes. Uma fonte é a concentração de poder político sem a correspondente obrigação de prestar contas, são as instituições políticas isoladas do cidadão. Outra fonte é o poder do dinheiro, e permitir que ele domine aspectos da vida pública que não têm a

ver com o mercado. A vida cívica e a política deveriam ser orientadas para o bem comum. Mas, crescentemente, o dinheiro domina a representatividade nas instituições políticas.

 

UM WALT DISNEY PARA O NOSSO TEMPO

 

John Lasseter revolucionou o cinema de animação, e depois revolucionou de novo, e de novo, e de novo. Steve Jobs o chamava de gênio. Seu novo filme, Valente, é mais uma prova de seu talento

 

A imagem que o americano John Lasseter passa a quem o,encontra pela primeira vez é de um menino bochechudo que cresceu demais e não se conforma em já ter completado 55 anos. Ele costuma vestir calças jeans e camisas havaianas largas e coloridas, mesmo numa cidade fria e nevoenta como Edimburgo – onde esteve em junho passado para o pré-lançamento do longa metragem de animação Valente. Ambientado na Escócia medieval, o filme estreia nesta semana no Brasil em 750 salas nas versões 2D e 3D. Os olhos azuis e astuciosos por trás dos óculos redondos se fixam no interlocutor. Quando Lasseter começa a falar, sua voz forte e incisiva formula raciocínios com tanta objetividade e visão de negócios que fica difícil pensar que se trata de um artista – um dos maiores da atualidade. Seu amigo (e, por 20 anos, chefe) Steve Jobs, fundador da Apple,

afirmou que Lasseter é um dos poucos gênios que conheceu. A criatividade alucinante, e o sucesso de filmes como Toy story e Monstros S.A., comprova que a maior parte dos fãs de cinema concorda com Jobs.

 

Desde cedo, Iohn Alan Lasseter se apaixonou pelo que faria a vida inteira: animação. Ele nasceu em Los Angeles, “a meia hora ~ Disneylândia”, como diz. Frequentava o parque da Disney desde criança. A mãe, Iewell, era professora de arte num ginásio, e o pai, Paul, gerente da Chevrolet. Iewell

o influenciou na paixão pelas histórias de aventura e pelo desenho. Paul lhe despertou o gosto pelos carros e por locomotivas. Quando assistiu ao desenho animado A espada era a lei, em 1963, o menino Iohn decidiu que se tornaria animador. Em 1975, ingressou no curso de animação no California Institute of Arts de Los Angeles. Ali, tomou lições de Eric Larson, Frank Thomas e Ollie Iohnston, três fundadores da Disney,pertencentes ao legendário grupo dos “Nove Anciãos” – os

desenhistas animadores que tomaram parte nos primeiros filmes do estúdio, como Branca de Neve e os sete anões (1937) e Pinóquio (1940). Ao lado de colegas como os futuros diretores Tim

Burton e Brad Bird (com quem trabalharia na animação sobre super-heróis Os Incríveis, de 2004), Lasseter fez seus primeiros desenhos animados. A vida profissional começou em 1980, quando

foi contratado pela Disney. Entre seus trabalhos, destacou-se a colaboração no desenho animado O conto de Natal do Mickey, de 1983. Demitido pela Disney num dos muitos cortes que o estúdio realizaria a partir de então, Lasseter especializou-se em computação gráfica, uma área desconhecida

e quase esotérica na época. Entrou para a Lucas film como designer que criava fundos e papéis de paredes de computadores.

 

Poderia ter passado o resto da vida desenhando peixinhos e rosáceas se outro gênio não tivesse cruzado seu caminho em San Francisco, em 1986: Steve Jobs, Jobs acabava de comprar,

por US$ 10 milhões, a divisão de computação gráfica da Lucas film, criada em 1979 por George Lucas. Jobs rebatizou- a de Pixar (palavra resultante da soma de “pixel”, a unidade elementar

da imagem gráfica, e “art”) com o objetivo único de desenvolver um computador da Apple, o Pixar Image Computer. O fracasso do aparelho e a convivência com Lasseter convenceram-se ram-no a transformar a empresa na Pixar Animation Studios para produzir filmes de animação. Iobs ficou impressionado com a habilidade de Lasseter em desenhar e criar histórias. O fato decisivo para a conversão da Pixar em estúdio se deu com Luxo Ir, animação em que Lasseter trabalhava desde os

tempos de George Lucas, sobre um abajur esperto. Ela ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de 1986. O filme inaugurou a animação digital e foi adotado como logotipo da própria

Pixar. Por decisão de Iobs, Lasseter se tornou o supervisor de todas as produções do estúdio desde então.

 

Gênios não costumam se fazer sozinhos. Jobs e Lasseter aprenderam um com o outro. “Com o tempo, Steve e eu nos tornamos irmãos e nos mantivemos próximos até sua morte”, disse

Lasseter a ÉPOCA. “Entre muitas coisas, aprendi duas com ele. Ele me disse: ‘Faça da Pixar algo tremendamente grande’. E me deu um conselho: ‘Lembre que tudo o que você fizer deve se

transformar em algo que deve sobreviver a você. Eu produzo computadores. Você, obras de arte’. Ele me fez prestar atenção àquilo que eu fazia de melhor: arte de animação.” Nove anos depois,

em 1995, Lasseter lançava Toy story, o primeiro longa-metragem de animação digital da história. De alguma forma, Jobs enxergou em Lasseter uma projeção de si próprio. Só que, em vez do inovador tecnológico, encontrou nele o iniciador de uma espécie inédita de artista. Lasseter estava transferindo a fantasia para um ambiente jamais percorrido pelo homem, a animação digital. Como Iobs, ele promoveu não uma, mas várias revoluções no interior desse mundo novo, desbravado à medida que era inventado.

 

São quatro as suas inovações mais visíveis. A primeira é a já citada fundação do filme de animação digital, com Toy story. A segunda é que, além de elaborar os parâmetros técnicos da nova  linguagem, ele soprou espírito no novo tipo de obra. Diante do esgotamento das fórmulas tradicionais, renovou a dramaturgia da animação e superou os padrões das antigas fábulas de Walt

Disney (1901-1966). Com os roteiros de Vida de inseto (1998), Procurando Nemo (2003), Carros (2006) e Up-Nas alturas (2009), a história infantil deixou de ser uma repetição de modelos inspirados

em figuras clássicas da literatura infantil – como Branca de Neve ou A Bela Adormecida. Surgiram os clássicos modernos da animação, com personagens novos e fascinantes e a ambição de ir além do público infantil. Um dos mantras de Lasseter é o seguinte: ”A Pixar não faz filmes infantis. Faz filmes

para todo mundo: crianças, adolescentes, adultos e famílias”.

 

A terceira revolução se deu na fase mais turbulenta do estúdio. Em 2006, Jobs vendeu a Pixar para a Walt Disney Pictures, por US$ 7,4 bilhões, dando origem à Disney-Pixar. O medo de Lasseter era que a Disney se apossasse da criatividade dos animadores da Pixar e transferisse as operações da velha sede, em Emeryville, nos arredores de San Francisco, para Hollywood. Mas Iobs impôs duas condições para a venda: a autonomia da Pixar e a contratação de Lasseter como supervisor

artístico de toda a operação da Disney e da Pixar. A consequência para a Disney foi um salto evolutivo que parecia improvável: além de modernizar as tramas, Lasseter reabilitou o

venerável departamento de animação analógica. Recontratou desenhistas e artistas que haviam sido dispensados anos antes. “Era algo que devia a mim mesmo, já que tinha iniciado minha vida artística ali”, diz. “Sabia que os artistas não deviam ser penalizados pelas histórias ruins dos desenhos animados que o estúdio lançava. Não era um problema de tecnologia, mas de qualidade do conteúdo.”

 

Foi assim que, em 2009, a Disney lançou A princesa e o sapo. Além de ser o primeiro longa-metragem de animação tradicional desde o malfadado Nem que a vaca tussa (2004), sua heroína não pode ser tecnicamente chamada de princesa. Na realidade, trata-se de uma jovem pobre de New Orleans que sonha em montar um restaurante. Antes de realizar seu projeto, ela própria vira sapo. Dessa forma, Lasseter convidava o público a voltar ao desenho animado tradicional e a aceitar uma princesa feminista e negra. Foi um sucesso, repetido no final de 2010 com a animação digital em 3D Enrolados, estrelada por uma princesa Rapunzel que foge da torre e se apaixona pelo chefe de um bando de ladrões.A maior inovação de Lasseter na Disney foi ter abolido um personagem que gozou de respeitabilidade por mais de sete décadas: o Príncipe Encantado. “Levei à Disney a

imaginação da Pixar, e vice-versa”, diz.

 

Agora, com Valente, ele inicia sua quarta revolução. Avança na simulação de texturas e materiais da natureza como cabelos e florestas, além da trama da lã escocesa. Até então, os personagens da Pixar pertenciam ao mundo dos brinquedos e das figuras fantásticas. Em Valente, os protagonistas

são seres humanos de carne e osso, ou melhor, bits e pixels. É como se o espectador assistisse a um filme realista sem atores. Ou quase. Valente é também o primeiro conto de fadas da Pixar e traz sua primeira heroína feminina, a princesa Merida. Até então, a Pixar era conhecida por fazer animação de e para meninos.

 

A ideia de uma heroína surgiu da mulher de Lasseter,Nancy Robbie Coltrane, com quem ele é casado há 26 anos. “Logo depois da primeira projeção de Toy story, Nancy reclamou: ‘Estou cansada de ver filmes de menino. Você não poderia fazer um filme com uma personagem feminina forte para mim e para suas sobrinhas?”‘, diz Lasseter. “Eu não havia pensado nisso porque, para nós, do núcleo fundador da Pixar, todos ‘meninos’, parecia natural criar nossas histórias do jeito que víamos o mundo. Foi então que comecei a pensar no assunto. E, até Valente, fizemos animações principalmente para meninos. Valente é sobre uma menina e para meninas. Mas tomei medidas para que os meninos se divirtam com as estripulias de Merida. Os três irmãos mais novos dela são bagunceiros e se metem em muitas lutas, encrencas e correrias.” A atenção de Lasseter com os garotos é inevitável, até porque ele tem cinco filhos homens, com idades entre 14 e 33 anos. Sempre consultou-os e levou-os para as projeções de teste para dar seu aval. “Isso não quer dizer que eu mantenha distância delas”,afirma. “De minha mãe a minha mulher, passando por muitas funcionárias da Pixar e da Disney, sou rodeado por mulheres fortes!”.

 

Lasseter é tão fortemente ligado ao trabalho quanto à família. Participava de uma conferência sobre computação gráfica quando conheceu Nancy. Na ocasião, ela era ainda estudante. A mulher o arrastou de volta aos prazeres da vida. Em 1992,o casal comprou uma propriedade em Glen Ellen, no Vale de Sonoma, na Califórnia. Ali, mantém um vinhedo e uma vinícola que produz quatro rótulos varie tais a preços acessíveis.”Adoro cultivar uvas, produzir vinhos e conviver com a família e os amigos”, diz. “Não é fácil harmonizar a qualidade de vida e a supervisão dos dois estúdios, mas faço questão de reservar um tempo para mim:’ Sua agenda é apertada, já que divide seu expediente entre compromissos em Los Angeles e San Francisco. Ainda assim, consegue acompanhar corridas de carro e viajar a bordo de sua velha locomotiva – a Marie E., que um dia pertenceu ao animador da Disney Ollie Johnston – entre sua casa e a Disneylândia. São hábitos de um menino crescido que fez fortuna com o trabalho da imaginação. Até hoje, os 1210ngas-metragens da Pixar em que ele trabalhou renderam US$ 7,4 bilhões. Como a maioria das animações da Pixar anteriores, Valente foi o filme mais visto no fim de semana da estréia, na penúltima semana de junho. Atingiu a bilheteria de US$200 milhões na semana passada, quando ocupava o terceiro lugar entre os sucessos da temporada nos Estados Unidos.

 

Se a recepção do público tem sido calorosa, a crítica emitiu sinais variados. Muitos se decepcionaram e afirmaram que Valente é o filme mais “Disney ficado” da Pixar -leia-se “banalizado”.

Um conto de fadas com uma princesa leva a pensar no modelo Disney. Mas há dois detalhes significativos. Primeiro, Merida é uma princesa independente e avessa a príncipes. Segundo, o argumento não é tirado dos irmãos Grimm ou de Charles Perrault como na Disney, e sim da própria

equipe do estúdio. Valente é uma criação original de Brenda Chapman, animadora que esteve à frente da direção do longa-metragem desde 2006. Teria sido a primeira animação do estúdio

dirigida por uma mulher. Mas Lasseter substituiu-a no início deste ano por MarkAndrews. “Foi um procedimento rotineiro”, diz Lasseter. “A história não andava, foi nossa produção mais demorada e precisávamos agilizar o processo.” Andrews encarou o trabalho como uma convocação. “Observo

a regra fundamental da Pixar: obedecer a Iohn Lasseter. Ele percebeu que a história não andava, estava centrada demais no conflito entre mãe e filha. Iohn e eu gostamos de aventura. Brenda

deu uma contribuição fantástica para mostrar a delicadeza da relação entre Merida e a rainha.

Mas era preciso atrair também os meninos”.

 

Boa parte dos cinéfilos ficou fascinada pelas inovações técnicas, como a simulação dos cabelos vermelhos, as paisagens das Highlands da Escócia e seus animais, como peixes, ovelhas e vaga-lumes. “Criamos softwares de simulação, mas a evolução tecnológica depende de nossas necessidades estéticas, e não o contrário”, afirma Lasseter. “Os programas foram elaborados

para narrar visualmente uma história que deve surpreender por simular um mundo plausível, com animais, plantas e seres humanos irreais, mas que parecem vivos.” As aventuras de uma princesa escocesa de 16 anos que, no século XIII, manobra o arco, se embrenha na selva e se recusa a

casar com um dos três pretendentes que a disputam num torneio de arco chamou a atenção. Alguns resenhistas viram um caráter gay em Merida. Adam Markovitz, da revista Entertainment Weekly, transformou Merida em símbolo para o orgulho homossexual. Para Chris Heller, da prestigiosa revista mensal The Atlantic, o filme não diz se ela é gay: “O que importa é que ele faz o espectador se questionar sobre isso”. Lasseter diz que buscou construir uma princesa nada convencional. “Algo parecido com que eu fiz na Disney com Tiana (de A princesa e o sapo) e Rapunzel”, afirma. “É uma personagem ainda mais radical com que as meninas de hoje podem se identificar. Uma princesa da Pixar, não da Disney.”

 

Um dos pontos de honra na visão de mundo de Lasseter é conservar a pureza da imaginação infantil em tempos de ceticismo e deboche. “Creio no conto de fadas”, afirma. “Continuei a acreditar

mesmo quando os estúdios concorrentes passaram a fazer paródias de histórias infantis, com Shrek, na tentativa de abalar certos hábitos da audiência e, assim, obter boas bilheterias. O que tentei

fazer foi restituir o poder à fábula.”

 

De acordo com ele, a chave para o futuro da animação é não se prender à tecnologia. “Eu me aperfeiçoei em computação gráfica como uma ferramenta de trabalho”, diz. “É preciso acompanhar e dominar a tecnologia. Mas não é ela que produz grandes animações, e sim a história que elas têm a contar.” Para atingir a excelência, o artista deve estudar tanto os fundamentos da animação quanto os da narrativa. “Não existe segredo em narrar uma história ou montar um roteiro. Basta imaginar um personagem que desencadeie as ações e seguir os pressupostos que vêm sendo desenvolvidos há 2 mil anos, desde Aristóteles”, diz. “É preciso conhecer como se faz um roteiro em três ou quatro atos. A regra de ouro do sucesso é romper as fórmulas, sem deixar de compreendê-las em profundidade:’

 

Se há um sonho impossível que esse mestre jovial gostaria de realizar, seria encontrar Walt Disney. O que dida a seu inspirador? Lasseter não sabe responder: “Talvez ficasse mudo': Ou declarasse

quanto gosta desde pequeno do desenho 101 dálmatas, de 1961, para ele o auge dos anos dourados dos estúdios. Um mundo que, com seu trabalho revolucionário, ele ajudou a manter vivo.

 

REVOLUCOES POR MINUTO

 

John Lasseter virou a animação do avesso por quatro vezes. Ao lado, alguns filmes que marcaram suas inovações

 

 Toy story 1995 O primeiro longa metragem de animação

 

A primeira animação produzida totalmente por computação gráfica trata das aventuras do

menino Andy, de 8anos, e seus brinquedos, entre eles o caubói Woody e o astronauta Buzz Lightyear Lasseter escreveu, desenhou, animou, dirigiu e produziu o filme, façanha comparável a Branca de Neve e os sete anões (1937),de Walt Disney, o primeiro longa metragem de animação analógica.

 

A princesa e o sapo 2009 A renovação do desenho feito mão

 

O filme marcou a retomada da divisão de animação analógica, que fora fechada em 2004, depois

de mais de 70 anos de atividade. O primeiro resultado da volta dos artistas que desenhavam e

pintavam à mão foi uma paródia aos contos de fadas. A jovem Tiana beija um sapo pensando ser príncipe e se transforma, ela própria, em sapo. O visual lembra a velha Disney.Só que a princesa é

feminista e negra

 

Up – Nas alturas 2009 A criação de uma nova dramaturgia

 

Lasseter fez filmes sem precisar recorrer às tramas dos irmãos Grimm ou Charles Perrault, em

que os desenhos animados bebiam. Um exemplo é Up – Nas alturas. No filme, o idoso Carl se

revolta com a aposentadoria e, em vez de ficar parado, voa com sua casa até a América do Sul,

No caminho, ele encontra o escoteiro Russel, de quem se torna amigo. Carl é um tipo inesquecível, tanto quanto o Buzz Lightyear de Toy story.

 

Valente 2012 O filme realista sem atores

 

o filme encena a rebeldia da princesa arqueira Merida que se recusa a casar com seus pretendentes e contraria sua mãe e o rei. Para reproduzir digitalmente a textura e os movimentos do cabelo vermelho e despenteado de Merilila. o estúdio criou um software de simulação. A expressividade

dos personagens é impressionante. A mais longa produção da Pixar levou seis anos para ser concluída. A equipe viajou várias vezes para a Escócia à cata de paisagens. tipos

físicos. castelos medievais e tecidos.

 

BRUNO ASTUTO

 

A biografia de Gianecchini

 

O jornalista e escritor Guilherme Fiuza, colunista de ÉPOCA, escreverá a biografia de Reynaldo Gianecchini. A parceria surgiu por acaso. “O editor Hélio Sussekind comentou que queria propor um livro a Giane, mas não conseguia contatá-lo”, diz Fiuza. Ele se ofereceu para ajudar por intermédio da amiga Maria Helena Amaral, diretora dos programas de Marília Gabriela. “Quando meu e-mail chegou a Maria, o Gianecchini estava na frente dela gravando. Ligaram imediatamente, dizendo que acharam legal eu escrever o livro. Agradeci, mas disse que era um mal-entendido, que estava só fazendo um favor. Dois dias depois, o mal-entendido havia virado minuta de contrato.” Fiuza afirma que a luta conta o cãncer no sistema linfático será abordada do ponto de vista da rede de solidariedade que se formou em volta do ator. “Nos encontramos para trocar impressões sobre o projeto e comentei que o palco de nossa história era a cabeça dele, onde se passou a guerra contra o inimigo interno.” Os trabalhos já começaram, e Fiuza tem uma bateria de entrevistas gravadas, inclusive com familiares e amigos de Giane. “Contarei a história incrível de um cara que, quis o destino, só pega onda grande.” A editora quer lançar em novembro.

 

Valentino desfila no Brasil

 

Vendida a um grupo de investidores do Catar num negócio estimado em R$1.7bilhão, a grife italiana Valentino não pretende frear sua expansão brasileira. Ao contrário: em novembro, abrirá três

lojas no país – uma da marca principal no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo,e duas de sua segunda linha, a Red,também por lá e no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. A dupla de estilistas Pier Paolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri, que assumiu a direção da marca fundada pelo grande

mestre italiano, confirmou presença na festa de inauguração. Está previsto um desfile em local ainda não definido com a coleção Cruise, que estará nas araras paulistanas. “Estamos animados

com a viagem ao país.As brasileiras estão entre nossas melhores compradoras na Europa e nos Estados Unidos”, diz Maria Grazia.

 

Dinastia hípica

 

O cavaleiro Luiz Francisco de Azevedo acaba de ser convocado pela Confederação Brasileira de Hipismo para as Olimpíadas. Ao lado de atletas como Alvaro Afonso de Miranda Neto, o

Doda, e Rodrigo Pessoa (porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura), ele buscará a quarta medalha do país no hipismo. “Minha vida se resume à ponte aérea Brasil-Bélgica”, diz Chiquinho. Seu pai, Luiz Felipe de Azevedo, conquistou duas medalhas de bronze em Jogos Olímpicos, em Atlanta (1996) e Sidney (2000). O irmão, Luiz Felipe Azevedo Filho, o Felipinho, também é campeão

e treinador do cavalo Special, com o qual o atleta competirá. O avô, Audifax de Azevedo Filho, dedicou 45 anos da vida ao hipismo. “Nunca pensei em fazer outra coisa na vida”, afirma Chiquinho.

Ele conheceu a noiva, Nathalia Sang, há cinco anos na Hípica carioca. “Costumo dizer que a domei”, diz. Aos 59 anos, seu pai quer participar dos Jogos de 2016 no Rio, na prova de atrelagem, com

charretes, ainda não oficializada. “Tem de ter adrenalina, senão não vivo”.

 

Gente fina é outra coisa

 

Há mais poeira sob os tapetes das mansões dos casais bilionários, glamourosos e solidários do reino de Elizabeth 11 do que supõem os tabloides. As vésperas dos Jogos de Londres, dois casais tidos

como exemplares desmancharam-se em escândalos. Flagrado dirigindo erraticamente pelas ruas da cidade, Hans Kristian Rausing, herdeiro do império sueco de R$ 45 bilhões Tetra Lavai, das caixinhas Tetra Pak, tem agora de explicar à polícia o que o corpo de sua mulher, Eva, fazia numa das suítes da casa havia quase uma semana. Suspeita-se que ela tenha morrido de overdose depois

de uma semana polvilhada de álcool e cocaína. Benemerentes de diversas entidades de reabilitação de usuários de drogas, eles se conheceram em 1980 numa clínica dos Estados Unidos, onde

estavam internados. A Scotland Yard tenta agora rastrear a rede de traficantes que atende clientes de luxo como eles. A notícia ofuscou o divórcio de Ben Goldsmith e Kate Rothschild, outro casal

aristocrático da Inglaterra. Depois de descobrir mensagens de texto trocadas apaixonadamente pela mulher e pelo rapper americano Jay Electronica, casado há cinco anos com a cantora Erykah Badu,

Ben estapeou Kate, que o denunciou à polícia. Ambos resolveram dar suas versões dos fatos no Twitter. Com fortuna estimada em R$ 1bilhão, o marido traído comprou uma mansão nova. E pediu a Kate para dar uns pitacos na decoração.

 

Inhotimlândia

 

O milionário Bernardo Paz procura sócios para expandir os domínios de seu complexo de artes plásticas, em Inhotim, Minas Gerais. Entre os planos, está construir um aeroporto para

Facilitar o acesso direto ao local, sem precisar passar por Belo Horizonte, e fomentar a atividades comerciais e hoteleiras nas cercanias do instituto. Dois grupos internacionais já manifestaram interesse na empreitada.

 

ENTREVISTA CAROLINA MUNHOZ, ESCRITORA

 

“Meus personagens fazem sexo”

 

Precoce, aos 16 anos Carolina Munhóz escreveu seu primeiro livro, A fada. Aos 20, já tinha visitado

11países e, neste mês, aos 23, lança sua nova obra, O inverno das fadas, bem diferente dos contos de fadas que costumam atrair jovens de rosto angelical como ela. A obra fala de sexo e morte. Os nomes dos personagens fazem alusão a astros do rock, como Kurt Cobain e Amy Winehouse. Carolina foi eleita a melhor escritora jovem de 2011 pelo Prêmio Jovem Brasileiro, “Posso falar que não quero chegar à lista dos mais vendidos, mas seria uma grande mentira. Todo escritor sonha com isso, poís significa que é lido.”

 

ÉPOCA – Sexo e morte fazem falta nos livros para a juventude? Carolina Munhoz – Não ‘f0 temas

muito abordados por jovens em livros, mas são assuntos do nosso dia a dia. Que jovem nunca pensou em sexo ou lidou com a morte? Em minha vida já lidei com situações complicadas em

relação a perdas e, principalmente, a tentativas de suicídio. Sei quanto é difícil. Eu mesma já pensei, mas nunca tentei me suicidar. Respeito todas as opiniões dos jovens sobre sua sexualidade, mas não concordo com a forma como o tema é tratado. Muitas garotas de 18 anos já tiveram relações sexuais. Nos livros, 99% são retratadas como virgens. As meninas precisam de alguém para conversar.

 

ÉPOCA – Você teve crises? Carolina – Era a gótica do colégio,filha de pais separados e com

dificuldades nas relações. Cheguei a um ponto em que não queria mais viver. Quando escrevi meu primeiro livro, estava num momento péssimo, depressiva mesmo. Colocar meus

 

EPOCA – Em que artistas como Kurt Cobain e Amy Wlnehouse, que morreram de forma trágica,

podem ajudar os jovens? Carolina – Eles falaram com nossa geração. Não tomaram boas decisões

em vida, mas não posso negar sua importãncia. O mundo precisa de pessoas que falem sobre

a revolta e sobre as dores. Esconder isso dos jovens é besteira.

 

EPOCA – Está preparada para a polêmica que a obra pode gerar? Carolina – Dizem que a gente só

descobre se está realmente preparado na hora. Mesmo jovem, já vivi muito e sempre fui do mundo. Não quis criar polêmica, mas meus personagens fazem e pensam em sexo. São jovens

reais. Nada de literatura puritana em que o mocinho e a mocinha têm desejo, mas não têm coragem. Se um livro como esse ajudar alguém a desistir de cometer algo terrível ou lhe tocar o coração, é o que importa.

 

EM FAMÍLIA

 

Depois do elogiado Quebrando o tabu, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

tratou da descriminalização das drogas, o jovem cineasta Fernando Grosteln Andrade se

prepara para lançar seu novo documentário, Cine Rincão, sobre vítimas da violência.

“A revista italiana Colors, da Fabrica (central de artes e design do grupo senetton),estava fazendo um projeto sobre violência e amor. Fui escolhido no Brasil para contar essas histórias”, diz Fernando.

O desafio era encontrar alguém que tomou um tiro e fez algo positivo para a sociedade. Com a ajuda do irmão, o apresentador Luciano Huck, Fernando conheceu a história de Paulo Eduardo, um

jovem que, aos 15 anos, levou um tiro no peito. Paulo foi da primeira turma de editores

formados pelo Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, presidido por Huck. “Luciano é uma fonte de inspiração, sabedoria e, acima de tudo, luz”, afirma Fernando. Ele promete voltar a tratar

o tema das drogas. “Quero incomodar o moralismo, a burrice e o cinismo daqueles que pretendem perpetuar as injustiças do mundo.”

 

WALCYR CARRASCO

 

A forca do casamento gay

 

H á algum tempo, tive uma cozinheira que, ao ser entrevistada, declarou morar com uma amiga. Morro de curiosidade, mas tento me manter discreto a respeito da vida sexual alheia. Dei um nó na língua para não perguntar o que tinha vontade de saber:

 

- Amiga, é? Que tipo de amiga? Hummmm …

 

Como tantas palavras hoje em dia, amizade adquiriu um significado elástico. Pode ser simplesmente um relacionamento de afeto. Mas também um caso fogoso, com direito a gritos, arranhões e reconciliações dramáticas. No caso da minha cozinheira, a verdade explodiu meses depois, quando

veio a separação. Ela mesma contou, em lágrimas, que eram companheiras havia quase 20 anos. A situação tornara-se crítica porque a outra não trabalhava havia muito tempo. Venderam o pequeno apartamento que tinham no centro de São Paulo. A cozinheira instalou-se em meu endereço. A

ex mudou-se para uma pequena cidade do interior, na casa da mãe. Levou quase todo o dinheiro de

ambas. Comprou uma casinha, em seu nome. Alguns meses depois, voltaram a se ver e a passar fins de semana juntas. Insisti várias vezes com minha funcionária:

 

- Você tem de garantir seu direito a esse imóvel. Pense bem. No futuro, é bom que tenha um lugar para morar. Se sua ex morrer, a herança vai para a mãe dela! Minha cozinheira me olhava com expressão desconsolada, de quem acreditava que, por ser homossexual, não tinha direitos. Uma tristeza.

_ Você é uma cidadã, tem de usar a lei a seu favor.

Abanava a cabeça, desconsolada.

 

Deixou o emprego sem resolver a situação. Muitas vezes pensei na injustiça desse caso e de outros semelhantes. Minha ex-cozinheira poderá passar a velhice sem um teto.

 

Por isso, envio meus aplausos ao lançamento de uma publicação dirigida à união gay, Momento Inesquecível. É um avanço. O Brasil já admite a União Estável, que, de acordo com a decisão judicial, pode ser transformada em casamento.Depende do juiz. Alguns processos foram vitoriosos. Outros não. A revista, anual, abrange todas as etapas da União Gay. Entre os artigos, o advogado Ricardo Brajtman, do Rio de Janeiro, explica didaticamente como realizar a união e depois vê-la reconhecida como matrimônio. Outros indicam locais para celebrar a festa, como escolher bufês, doces e lembrancinhas. E, como não podia deixar de ser, dão dicas para a lua de mel. Há até uma coluna social fotográfica, que mostra vários casamentos realizados. No do estilista Carlos Tufvesson com o arquiteto André Piva, a mãe do primeiro, Glorinha Pires Rebelo, celebrou, ela própria, a união: “Com as bênçãos de Deus e a autoridade de mãe, eu vos declaro casados em nome do amor”.

 

Até os bolos são anunciados com miniaturas de dois rapazes ou duas noivinhas em cima. Também há referências a religiões que, ao contrário da Igreja Católica, abençoam uniões do mesmo sexo. A famosa monja Coen, budista, por exemplo, casou duas mulheres.

 

É um passo para a aceitação. Por mais que a família se dê bem e assuma o companheiro de um de seus membros, na hora da herança, a grana fala mais alto (se até irmãos de sangue brigam por causa das panelas da mamãe, imagine uma situação confusa do ponto de vista da lei). Lembro um caso, há muitos anos, em São Paulo, onde um costureiro com aids foi cuidado por seu companheiro,

um rapaz, até o momento final. No velório, o jovem chorava, e a família do outro tentava consolar. De madrugada, o rapaz voltou ao apartamento para trocar de roupa. As fechaduras haviam sido trocadas pelos irmãos do falecido! Só após um longo processo, onde provou ter contribuído para a formação do patrimônio, o rapaz pode voltar a ter casa e conseguiu reaver parte de seus bens.

 

Sempre acreditei que quando duas pessoas se amam, hétero ou homossexuais, o casamento é um detalhe dispensável. Talvez eu tenha sido rígido demais. As pessoas precisam de símbolos para viver. Quando uma união entre dois homens ou duas mulheres é revestida por todo o aparato de um casamento tradicional, incluindo bolo com noivinhos, a ideia parece ser melhor absorvida. A discussão se é certo ou errado fica ultrapassada quando o fato já é isso, um fato.

 

Momento Inesquecível mostra que, embora do ponto de vista judicial o país ainda patine, a União Estável veio para ficar, e o casamento gay, mais dia menos dia, virá também. Mais que isso: se tornará tão comum quanto qualquer outro. Ainda bem. Mesmo porque não resisto a uma festa e espero ser convidado para muitas.

 

Apenas para 250 privilegiados

 

Quem pagaria R$ 48 milhões num par de brincos? Os poucos endinheirados que fazem o mercado

das jóias de alto luxo crescer 20% ao ano

 

A Louis Vuitton, um dos monogramas mais famosos do mundo da moda, adornará a partir deste mês também orelhas, dedos e pescoço de quem pode gastar fortunas em peças eternas. Para lançar sua primeira coleção de joias de luxo, a marca francesa acaba de abrir uma loja dedicada a pedras e metais na famosa Praça Vendôme, o coração da alta joalheria em Paris. Esse mercado utraexclusivo

é mantido por apenas 250 clientes em todo o mundo e cresce 20% ao ano, em relação aos 10%

de crescimento da indústria do luxo em 2012. A festa de inauguração da nova loja Vuitton

reuniu celebridades como a cineasta Sofia Coppola, a atriz Kristen Dunst e a princesa Charlene de

Mônaco. Nas vitrines, era visto um anel com diamante de 30 quilates, no valor de R$ 22,8 milhões, ao lado de um par de brincos vendido por R$ 1.652. “Há peças para todos os bolsos': diz Yves Carcelle, presidente da marca. Os executivos da Louis Vuitton acreditam que as peças mais baratas servirão de iniciação à alta joalheria, como acontece com as bolsas da marca.

 

A Louis Vuitton segue o caminho desbravado por outras famosas casas de artigos de luxo, como Dior e Chanel. Há dois anos, a Chambre Syndicale,órgão que regula a atividade têxtil na França, decidiu acrescentar um dia à semana de alta-costura parisiense, dedicado exclusivamente à apresentação de alta joalheria. São itens excepcionais, talhados por artesãos em laboratórios

durante meses ou anos. Os preços vão de R$ 152 mil (um anel) a inacreditáveis R$ 48 milhões,

caso dos brincos de raríssimos rubis de 27,16 quilates da Tanzânia, da tradicional grife Van

Cleef & Arpels. Neste ano, o destaque das apresentações foram os 80 anos da atividade da

Chanel no setor. Em 1932, a estilista francesa Gabrielle Chanel atendeu a um pedido dos comerciantes internacionais de diamantes para realizar uma coleção de jóias exclusivamente com essas pedras, que tinham saído de moda depois da crise de 1929. A coleção 2012 da Chanel inclui extravagâncias como o colar Cometa, de titânio, ouro branco e 85 quilates em diamantes, vendido a

R$ 12,4 milhões.

 

A chegada da Louis Vuitton à famosa praça, endereço de tradicionais grifes de joias como Chaumet, Van Cleef & Arpels, Cartier, Boucheron e Mellerio, não animou a vizinhança. “Nossa clientela

não está atrás de moda, mas de tradição”, diz, com ar de desdém, o gerente de uma tradicional joalheria do outro lado do obelisco erguido por Napoleão em 1810. A Louis Vuitton deu indícios de que não se intimidará com a concorrência tradicional. Contratou uma equipe de 15 artesãos

comandada pelo badalado designer Lorenz Bãumer, que mantém um ateliê próprio na praça. Na sala de Bãumer, impera um quadro do artista plástico paulistano Vik Muniz. “Fiz uma coleção alegre, cheia de frescor e imponência. Tem tudo a ver com o Brasil”, afirma.Ele diz que adora fazer turismo no Brasil.

 

Com o crescimento econômico dos últimos anos, o Brasil se tornou o novo destino das joalherias europeias. Até a última década, elas delegavam a venda de suas peças a comerciantes locais.

Agora, Van Cleef &Arpels e a relojoaria Panerai acabam de abrir sua primeira loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo. A italiana Bulgari mandou emissários à cidade duas semanas atrás para

procurar pontos onde possa retomar sua atividade nacional. A Dior terá uma área dedicada às joias na nova loja do shopping Cidade Jardim, em São Paulo, que será inaugurada em dezembro. Até

o fim do ano, a Cartier abrirá duas lojas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Cerca de 70% das vendas para brasileiros ainda são feitas em Paris e Nova York, por causa dos preços mais convidativos,livres da pesada carga tributária de importação que dobra o valor dos produtos. Para

conquistar mercado, os executivos planejam reduzir suas margens de lucro no Brasil. Com a avassaladora crise financeira européia e a perspectiva de freio no crescimento chinês, o Brasil é um

diamante que merece ser lapidado.

 

BEBIDA PARA HOMEM

 

Chega de uísque, cerveja e cachaça. Novos sabores de coquetel conquistaram o paladar masculino

 

O escritor Ernest Hemingway e o personagem Iames Bond entornaram muitos daiquiris e

dry martinis. Símbolos de masculinidade e sofisticação antes da década de 1960, os dois eram fãs

de coquetéis. Hemingway e Bond não viviam no Brasil. Por aqui, a mistura etílica mais aceita pelos

homens contém apenas trigo e cevada. Com alguma abertura para o vinho, a cachaça ou o uísque.

Quem ousa escapar da relação monogâmica com a cerveja precisa engolir, antes do drinque,

uma boa dose de chacota. “Acham que é coisa de mulherzinha': diz o apresentador Fred Lessa, aos

risos. Ele adora pedir sugestões aos bartenders e experimentar novas combinações. Diante dos

amigos, a ousadia de seu paladar tem limite. Fred já pediu para servir coquetel em copo longo

para evitar as piadas que uma taça em Y causaria.

 

Preconceito que o consultor inglês Spike Marchant, barman há 25 anos, afirma não encontrar

em nenhum lugar do mundo. “Lá fora, executivos e homens de negócio degustam drinques

naturalmente”, diz Marchant. Ele esteve no Rio de Janeiro entre os dias 8 e 12 de julho como

anfitrião do World Class, uma espécie de Oscar da coquetelaria mundial. O evento desembarcou

no hotel Copacabana Palace depois de edições em Londres, Atenas e Nova Délhi – um indício

de como o setor vive sua melhor fase no país. Por que os boêmios conservadores, preocupados em

manter a imagem de macho alfa, resistem a treinar o paladar arriscando brindes diferentes?

 

Para o barman Fabrício Marques, representante da vodca Diageo no país, os brasileiros não tiveram como referência a coquetelaria clássica. O que se consumia aqui eram variações de caipirinhas, com frutas e sabores adocicados. Ou algo parecido com um arco-íris em forma de bebida, uma apresentação tropical e exuberante. Esses elementos tendem a cair no gosto feminino. Por isso, essas bebidas ficaram associadas às mulheres.

 

Os homens preferem discrição e misturas de destilados com ingredientes cítricos e amargos.

Hoje, há invenções com manjericão, pepino, suco de limão siciliano, chá de bergamota e até

vinagre (experimente as receitas ao lado). Na disputa para atrair o público masculino, a concorrência

nunca esteve tão acirrada. Um levantamento da Diageo revelou que, em São Paulo, o número de

casas especializadas em coquetéis cresceu 750% nos últimos três anos. “Agora é a chance de

educar o paladar”, afirma Marques. “Ninguém gosta de cerveja no primeiro gole.”

 

Atrás do balcão do bar SubAstor, em São Paulo, Rogério Souza toma para si o desafio de convencer seus clientes. Como o drinque costuma “maquiar” o álcool, muitos homens consideram a bebida

fraca. Argumento de quem nunca provou um negroni (composto de Campari, gim e vermute).

A cada pedido de shot puro de uísque ou vodca, Souza investe: “Posso preparar algo com o mesmo

destilado, mas um sabor melhor?': O empresário Rodrigo Pedreira não só se convenceu, como

virou especialista no assunto. Nas confrarias de que participa no SubAstor, ele observa o preparo

do coquetel, repara se exageraram no açúcar ou se alguma raspa de limão escapou do coador. Pedreira defende o custo-benefício de seu hobby. “Chope e cerveja estufam. Preciso tomar muitos

copos para ficar animado”, diz. “Com três drinques, apreciando devagar, já estou satisfeito.”

 

Em geral, o preço dos drinques varia de R$ 20 a R$ 35 nos bares da capital paulista. Isso explica

o perfil dos consumidores. Segundo a Associação Brasileira de Bartenders (ASSBB),eles têm

entre 20 e 40 anos, além de alto nível econômico. “A coquetelaria está se desenvolvendo porque

o Brasil prosperou”, afirma o coordenador de cursos da ASSBB,Fábio Oliveira. Nos anos

1990, ainda era difícil encontrar ingredientes importados, como destilados de luxo ou especiarias

e xaropes. Hoje, as criações abusam de elementos como pó de ouro, ágar-ágar (substância

extraída de algas marinhas) e néctar de agave (um gênero das plantas suculentas).

 

As tendências apontam para novas versões de clássicos como o dry martini, com um “twist”,

ou pitadas de modernidade. Pode ser o acréscimo de pepino macerado à receita original ou

uma vodca aromatizada. Para Marques, como antigamente era mais difícil encontrar destilados

de boa qualidade no Brasil, ficava complicado encontrar o equilíbrio e suavizar  os sabores. “Estamos revisitando esses coquetéis com técnicas atuais”, afirma Marques. A taça em Y, que caíra em desuso até para as mulheres, voltou no seriado Sex and the city. Nele, as quatro personagens brindavam

suas peripécias sexuais com o drinque cosmopolitan, que leva até suco de mirtilo-vermelho

(cranberry).

 

No Brasil, as cenas reforçaram a ideia de que o recipiente, sinônimo de sofisticação, põe em

dúvida a orientação sexual do homem. Uma bobagem. A haste desse modelo de taça evita

o choque térmico e mantém a baixa temperatura da bebida. Ela é usada em drinques com alto

teor alcoólico que não levam pedras de gelo. Os marmanjos que deixaram a zoeira de lado

experimentam novas conquistas. Não necessariamente do paladar. “Meus amigos aprenderam

receitas pela internet só para pegar a mulherada”, diz Fred Lessa. “Para elas, preparar drinques é tão atraente quanto saber cozinhar.”

 

“FIZ UM VELEIRO NA FAVELA”

 

o suíço Mike Horn ensinou famílias pobres de São Paulo a construir um barco para expedições ecológicas

 

“Quando criança, tudo o que queria era entrar no barco do Iacques Cousteau (cientista

e cineasta francês) e participar de uma exploração. Anos mais tarde, pude ajudar crianças a concretizar o mesmo sonho. Nasci na África do Sul e moro na Suíça. Sempre gostei do

contato com a natureza e me tornei um atleta de aventura e explorador. Ao longo das minhas viagens, via como os seres humanos alteravam a natureza. Vi sinais disso do Polo Norte ao

Polo Sul, do Himalaia à Amazônia. Em 2002, comecei uma jornada pelo Círculo Ártico, que durou dois anos e três meses. Viajei sozinho, sem transporte motorizado. Tinha o dia todo para olhar para o gelo e pensar. Nesse período, tive a ideia da expedição Pangaea.

 

O objetivo do projeto era mostrar para os jovens a biodiversidade que ainda existe no planeta e como

ela está ameaçada. Para isso, pensei em construir um barco grande, onde pudesse reunir crianças de diversos países, para fazer essas viagens de conscientização ambiental. A cada mês, duas crianças de cada continente nos acompanhariam na expedição. Consegui patrocínio facilmente, com

a Mercedes-Benz, uma antiga financiadora das minhas expedições.

 

Em 2007, com o projeto aprovado, chegou a hora de construir o barco. Optei por me instalar no Brasil. Já conhecia o país desde uma viagem pela Amazônia, entre 1997 e 1998. Aprendi até a falar um pouco de português com os caboclos. Apesar da experiência amazônica, preferia São Paulo para

montar a embarcação. Tomei essa decisão porque, na cidade, existe muita gente que trabalha bem com as mãos e não tem emprego. Montamos uma espécie de escola numa favela de Itapevi,

onde essas pessoas aprenderam a construir o barco. Duzentas famílias se envolveram

ao longo de um ano. Fizemos também um trabalho de conscientização ecológica com eles. Quando a gente reciclava o alumínio, eu convidava as famílias e as crianças da favela para ver a reciclagem, preparávamos comida e fazíamos uma festa.

 

É difícil trabalhar no Brasil porque, quando precisamos importar equipamentos específicos, as taxas são altíssimas; e os obstáculos burocráticos, grandes. Ao mesmo tempo, este é um país onde tudo parece impossível, mas na realidade é possível. A tecnologia no Brasil é excelente, e o modo como as pessoas trabalham na indústria é bem profissional.

 

A embarcação ficou incrível, e os únicos problemas que tive nas viagens foram por causas naturais, como tempestades. Até agora, dei cinco voltas ao mundo ao longo de quatro anos do projeto. Quando a jornada acabar, queremos fazer um barco maior, para acomodar mais gente e levar nas viagens também adultos. Uma embarcação maior pode custar até uns € 18 milhões, incluídos os seguros e tõdas as normas de segurança que respeitamos para transportar crianças. (orno o barco que fiz no Brasil ficou perfeito, penso em construir o próximo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. Afinal, elas foram uma parte muito importante do projeto Pangaea.’

 

INTELIGENTE? NEM TANTO

 

A TV da Samsung aceita comandos de voz e gestos. mas frustra

 

Samsung diz que suas TV s são o início de uma nova era. A afirmação se revela exagerada depois de um mês com a ES8000, o topo de linha. Ela é feita para reconhecer gestos, como mover a mão para mexer o cursor na tela. E comandos de voz. Você diz: “Ligar Smart TV” – e ela liga. Levei duas horas e meia para configurála. Depois, a TV não reconhecia nenhum de meus gestos. Quando conseguiu, se confundiu. Balancei a cabeça, e ela achou que eu movia o braço para trocar de canal. Desisti. Os comandos de voz funcionaram, mas são limitados. O controle remoto é mais prático.

Um segundo controle tem um touch pad para navegar na internet pela TV e botões para comandar outros aparelhos da casa. Mas nem a TV se comunicava com ele. Pelo menos a ES8000 brilha com

a tela de 46 polegadas de imagens cristalinas, que parece maior com as bordas finas. O modo 3D

impressiona. Custa R$ 6.499.

Rafael Barifouse

 

QUANDO É PRECISO CONFIAR NA VOZ DA EXPERIÊNCIA

 

Em nossa última expedição, navegamos com nosso veleiro pelos fiordes gelados da Patagônia chilena, próximo à Geleira Pio XI, a segunda maior do mundo. Os fiordes são braços de mar que entram nos vales, ladeados por montanhas escarpadas. Eram condições novas para nós e para o veleiro também. David, meu filho e diretor de filmagem, viu um pequeno iceberg ao largo. Pediu para eu mudar de rumo e seguir em direção ao bloco de gelo. Com a câmera posta no tripé, numa saliência plana no gelo, filmaríamos o veleiro Aysso navegando em direção ao bloco.

Durante a cena, a ideia era escalar o iceberg. Entusiasmado, David insistia nessa oportunidade única, aproveitando um ângulo e uma passagem que só poderíamos encontrar na Antártica.

Luciano, fotógrafo profissional com experiência em mergulho em duas temporadas na Antártica, argumentou que os raios de sol estavam muito fortes. Corríamos o risco de o pequeno iceberg perder o equilíbrio e, com nosso peso, capotar. Um incidente desses na água gelada é potencialmente fatal. David estava à procura de imagens inéditas. A preocupação de Luciano era não

pôr em risco aquela operação e, também, a tripulação. Acompanhei o diálogo, sem interferir. Não era o momento de eu dar a palavra final. Fiquei surpreso com a atitude e a determinação de Luciano. Nunca o tinha visto assumir uma posição tão firme, de cmnando. Minha interferência não foi necessária.

 

Luciano convenceu David de que haveria riscos. Eles chegaram a um acordo, e a operação foi cancelada. Continuamos a avançar, lentamente, por entre os blocos de gelo. Passados dez minutos’ o silêncio daquela paisagem foi quebrado por um estrondo, como um tiro de canhão. Olhamos para trás e vimos o iceberg rachar-se ao meio e virar, lentamente, de cabeça para baixo. Pelo tempo decorrido, calculamos que, naquele momento, estaríamos escalando a geleira. Seria um desastre, e a expedição poderia terminar ali.

 

Quando se tem um objetivo comum, a confiança no companheiro e em sua experiência se sobrepõe à hierarquia. A decisão, em momentos como esse, é da pessoa mais experiente.

 

O NOVO MAIOR HUMORISTA DA AMÉRICA

 

Luis C.K. se torna uma estrela com série polêmica, revoluciona o mercado de comédia stand-up e conquista fãs como Woody Allen e Jerry Seinfeld

 

O humorista Louis C.K., de 44 anos, é um pesadelo para os conservadores. E também para os progressistas. Ele acaba de estrear nos Estados Unidos a terceira temporada da série Louie, baseada em sua própria vida de comediante, homem separado e pai de duas filhas. O sucesso é estrondoso, ainda que não seja unânime. Numa cena da nova temporada, ele está no carro com uma mulher que acabou de conhecer. Ela se oferece para fazer sexo oral. Ele aceita, adora, mas se recusa a devolver a gentileza. Pede desculpas. “Isso é muito íntimo, eu mal conheço você”, diz.

Por causa de tiradas como essa, Greta Van Susteren, âncora do canal de notícias Fox News, já o chamou de “porco”. “Ele rebaixa a imagem de todas as mulheres”, afirmou. A ênfase é a mesma para os elogios. A revista americana Time incluiu c.K. entre as personalidades mais influentes do país em 2011 e descreveu seu show como “uma reflexão sobre o que significa ser humano”. A revista Entertainment Weekly foi mais direta na capt da edição do começo deste mês: “O maior comediante

do mundo”.

 

A série Louie – ainda sem previsão de estreia no Brasil – tem orçamento de US$ 200 mil por episódio e atrai 2 milhões de espectadores toda semana. São números baixos para as grandes produções da TV americana, mas o conteúdo repercute. Entre seus temas preferidos estão paternidade, relacionamentos e morte. Sexo, masturbação e violência. A série ganhou admiradores famosos

como o humorista Ierry Seinfeld, que fará uma ponta na atual temporada, e Woody Allen,

que convidou ex. para atuar em seu próximo filme.

 

O nome verdadeiro de c.K. é Louis Szekely, sobrenome que herdou do avô, um judeu húngaro que emigrou para o México. Na adolescência, ele começou a escrever e apresentar espetáculos de comédia stand-up. Logo em seguida passou a se apresentar em talk shows americanos famosos.

No ano passado, inovou ao vender o DVD de seu último espetáculo, Live at the Beacon Theater, exclusivamente em seu site, por US$ S. Faturou mais de US$ 1milhão. Seu modelo de negócios passou a ser imitado por outros comediantes.

 

O texto de c.K. evoluiu com o tempo. Foi das piadas sobre a realidade do “homem branco comum” para tiradas mais cerebrais sobre as contradições da sociedade e da vida de pai divorciado.

CiK, se separou da mulher em 2008 e compartilha a guarda de suas duas filhas.

 

A acidez de seu humor dificilmente seria repetida por humoristas brasileiros. Por maior que

seja o conservadorismo americano, existe nos Estados Unidos um respeito quase religioso à liberdade de expressão. Há um território livre para artistas contestadores (leia o quadro abaixo). No Brasil, a tradição social e jurídica tende a proteger mais quem se sente ofendido do que o direito abstrato de ofender quem quer que seja.O resultado mais recente dessa postura foi a demissão do humorista Rafinha Bastos, que fez uma piada grosseira no programa CQC. Afastado da Band, Rafinha seguiu os passos de c.K. e lançou uma série de TV baseada em sua vida. Até agora, os resultados de crítica e público não são equivalentes.

 

Com a estreia do terceiro ano de Louie, no mês passado, acumularam- se as propostas para

que C.K. largasse o canal FX em troca de audiências e orçamentos maiores nas grandes redes. Além de cachês. Ele recusou. Seu descaso pelo dinheiro é lendárie. Não é só isso que está em jogo. Sua preocupação central é a liberdade de criação. À revista ‘Entertainment Weekly, ele afirmou: “Sou

apenas um cidadão bem sujo. Digo coisas horríveis. Quero ter a liberdade de fazer isso”.

 

PELA GLÓRIA OU POR DINHEIRO?

 

A nova geração revive o velho embate entre escritores cabeça e comerciais

 

A 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty terminou com uma dúvida no ar: o que é mais importante para a literatura brasileira, divertir ou produzir livros com pretensões artísticas? A questão surgiu a partir do lançamento de duas coletâneas com textos de jovens escritores brasileiros. Do lado mais culto estava a Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros (Objetiva, 288 páginas, R$ 34,90). Conhecida por revelar nomes como lan McEwan e Salman Rushdie, a publicação britânica anunciou, com muita badalação, a lista dos que seriam os 20 grandes autores brasileiros com menos de 40 anos. Do outro lado, ali mesmo em Paraty, estava a oposição: Geração subzero (Record,

370 páginas, R$ 39,90), uma festa literária alternativa para autores menos incensados, apresentada como uma compilação de “jovens escritores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores':

 

 

Na apresentação oficial da Granta, o diretor-geral da Objetiva, Robert Feith, deixou clara a ambição de suas escolhas. Afirmou que os nomes da coletânea “definirão os rumos da literatura brasileira nos próximos anos': A partir de novembro, todos eles passarão a ser exportados. Primeiro, serão traduzidos para o inglês e vendidos nos Estados Unidos e na Europa. Depois, é provável que cheguem a outros países onde a Granta atua, como Bulgária, China, Espanha e Itália. Autores como o carioca João Paulo Cuenca, de 33 anos, e o paulistano Antonio Prata, de 34, são tratados como expoentes da literatura nacional. O criador do projeto Geração subzero, Felipe Pena, professor da Universidade Federal Fluminense, também tem uma motivação clara: alfinetar. “Oponho-me à ideia pretensiosa de que é possível relacionar os melhores autores nacionais:’ Em meio às farpas, cabe a pergunta: existe mesmo oposição entre autores “eruditos” e “populares”?

 

Segundo Pena, sim. Em sua coletânea, ele buscou autores que “formassem leitores': preocupados com o prazer da leitura. Ele rechaça a literatura rebuscada, que julga ser o alvo da Granta. “Esse grupo determina que só têm valor os escritores cuja prosa se aproxima daquela receita de que literatura é para poucos': diz. “É uma visão elitista, que afasta leitores.” Pena descobriu os escritores que, segundo ele, os brasileiros realmente leem. No grupo se encontra a escritora carioca Thalita Rebouças, de 37 anos, uma recordista em vendas no país. Com 13 livros no currículo, ela vendeu mais de 1,3 milhão de cópias. Há também  André Vianco. Em 13 anos escrevendo sobre mundo fantástico, ele soma 900 mil livros vendidos Na outra ponta da discussão, os editores da Granta não aceitam a acusação de elitismo. Marcelo Ferroni, que ajudou na coletânea e trabalha na editora Alfaguara, diz que na Granta brasileira há todo o tipo de texto. “Não acho que seja hermética ou intelectualizada”, afirma. Ele também contesta a ideia de que o material da revista afaste a grande massa de leitores. “Ela acabou de ser lançada. Ainda não dá para afirmar o que os leitores acham”, diz. Ferroni admite que o material da Granta é mais literário, porque os textos são escolhidos por gente da academia. Mas não enxerga nenhum preconceito contra a literatura de entretenimento:

“Na Subzero há autores que admiro, como o Raphael Draccon”.

 

Fora do Brasil, essa discussão é tão velha quanto a prensa de Gutenberg. Ela se repete no Brasil agora porque, finalmente, surgiu no país uma literatura de entretenimento, que não existia 15 anos atrás. Ela torna o Brasil mais parecido com mercados como os EUA e a Europa, onde as pessoas andam de metrô lendo best –sellers digeríveis, não obras de Tolstoi ou Philip Roth. Parte dessa nova onda de expressão e comércio acompanha a ascensão da internet. Eduardo Spohr, de 36 anos, autor de A batalha do apocalipse – que vendeu mais de 300 mil cópias -, virou best-seller depois que suas histórias se tornaram populares na rede. Assim como ocorreu com autores de grande sucesso no exterior, ele nunca recebeu críticas positivas em jornais ou revistas. Nem foi preciso. “São dezenas de lançamentos por mês de cada editora, não dá para ler tudo”, diz o crítico José Castelo, colunista do jornal O Globo. “Quem trabalha com livros se sente aflito. Pode ter passado um gênio ali, naqueles milhões de provas que você não conseguiu ler:’ Não é o caso de se preocupar. Se

esse gênio existir, é provável que ele seja localizado pelos leitores em algum lugar da internet.

 

MUY AMIGOS

 

O melhor amigo do homem não é um senador. Muito menos um bicheiro. Demóstenes Torres descobriu isso tarde demais. Aliás, quem descobriu foi a imprensa. Demóstenes foi cassado, segundo ele, por pressão nossa, da mídia e da sociedade. E por não ter amigos no reino da mentira e da promiscuidade. Era um solitário no Senado, visto como falso, arrogante e prepotente. O re’i das grandes frases para os jornalistas.

 

Ficou mais sozinho nos últimos tempos, um “cão sarnento” em suas palavras. Não dormia nem com remédio. Sua mulher evitava sair com ele para beber vinho. Pelo menos, ainda está casado e só se sente traído por seus pares. Para a Justiça de Goiás, Demóstenes continua com força na peruca: ele voltou a ser procurador criminal do Ministério Público. Com salário de R$ 24 mil e dois assessores. O decoro perde assim para a decoração. A sala tem o nome de Demóstenes na porta. Estão vetados rádios Nextel e geladeiras importadas. Menos sorte no amor tem o suplente do senador cassado,

Wilder Pedro de Morais, um homem bem-sucedido nos negócios. Foi o segundo maior doador

da campanha de Demóstenes segundo a Justiça Eleitoral. Deu R$ 700 mil.

 

Filho de peão, criado na roça e hoje mega empresário em Goiás, Wilder perdeu a mulher bonitona e mãe de seus dois filhos, Andressa, para o “padrinho” Cachoeira, a quem chama na intimidade apenas de Carlinhos. Andressa foi morar na casa do bicheiro em 2010, logo após a separação. Um enredo de novela das 8 com nome de Brasil. Wilder perdeu a mulher, mas não o humor. Tachado de “o marido traído da CPI” ou coisa mais chula, ele brinca ao confirmar a “sociedade” com o bicheiro. “É lógico que somos sócios. Sou sócio involuntário do Cachoeira na mulher!” O fingidor Cachoeira teria sondado Wilder: “Quero saber se essa separação é para valer mesmo, sou amigo do casal e.estou preocupado': Wilder teria respondido: “O, Cachoeira, larga de ser cínico que eu sei que a Andressa está morando em sua casa': Cachoeira ainda tentou convencê-lo de sua boa intenção: “Mas ela está lá só como amiga': “Olha aqui, Carlinhos': afirmou Wilder. “Casamento tem dois momentos: o ruim e o bom. O ruim é quando a mulher dá problema. E o bom é quando a gente passa o problema e a mulher para a frente.” Cachoeira nunca perdeu a chance de lembrar a Wilder que foi ele quem o colocou como suplente e secretário de Infraestrutura no governo de Perillo, do PSDB de Goiás. Está gravado e revelado. Cachoeira também tentou derrubar sua criação. Chamou o afilhado de “bosta” e disse a Demóstenes: “Temos de preparar um nome para substituir o Wílder

 

Pelo conjunto da obra, Cachoeira poderia ter sido inspiração para Iô Soares, que criou a expressão “muy amigo” na boca do argentino Gardelón. O personagem sempre se dava mal com traidores que se passavam por bonzinhos. Na semana passada, Wilder estava de férias no Nordeste. Voltou ao Senado na sexta-feira 13, mais bronzeado.Terá muito a explicar. Como substituir um senador cassado por suas relações íntimas com Cachoeira?

 

A ironia perversa é que a cassação de Demóstenes até o ano de 2027 talvez tenha sido ajudada pelo voto secreto no Senado. No escurinho do teatro, quantos beneficiados por “Carlinhos” votaram, na verdade, só para tirar do palanque um arquivo vivo? Tenho curiosidade particular pelos cinco que se abstiveram, envergonhados de si mesmos. A sessão foi transmitida pela TV Senado, e o resultado foi bom para a moralização política. O contrário teria sido um escândalo – como tantos no passado recente. Mas as expressões de orgulho dos senadores soam hipócritas. “Cabeça erguida.”

 

“Cumprimento da justiça e de nosso papel,” “A imagem da instituição está salva.” Tudo isso, numa casa onde reinam figuras como Renan Calheiros, que assistiu à votação de pé. Líder do PMDB, antigo alvo da fúria ética de Demóstenes, Renan deu no cachorro morto um leve abraço muy amigo com três tapinhas nas costas.

 

No discurso de defesa e despedida, Demóstenes ameaçou ao citar o refrão de “Cartomante': de Ivan Lins com Vitor Martins. Cai o rei de espadas/Cai o rei de ouros/Cai o rei de paus/Cai, não fica nada … Eu me pergunto quem será o rei de ouros. O Senado abusou muito tempo de sua arrogância corporativista. Em 2007, fechou ao público a votação do processo contra Renan Calheiros, absolvido por 40 a 35 votos. Foram seis as representações do Conselho de Ética pela cassação. Contas pagas à amante por um lobista de empreiteira. Notas fiscais frias. Empresas fantasmas. Desvios de dinheiro. Laranjas,’vacas. Eram outros tempos. E Renan é do PMDB, amigo do rei. “O Senado esteve à altura. É difícil, mas aqui não é uma confrariade amigos': disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOLAP), autor da representação contra Demóstenes. Pode ser. É uma confraria de muy amigos.